Moda: e você acha que não tem nada a ver com isso? o M da E VOCÊ ACHA QUE NÃO TEM NADA A VER COM ISSO? 32 The Devil Wears Prada - 20TH FOX - 2006. Imagem divulgação R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 Cecília Mas como se forma a identidade? Essa é uma questão bastante polêmica. Do ponto de vista sociológico, a identidade se forma e se ancora no mundo social. Quando este mundo, que é o caso da pós-modernidade, sofre transformações rápidas e estruturais, o sujeito perde suas principais referências (Hall, 2006). Transformações na sociedade moderna estão fragmentando “a paisagem cultural de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais... estão também mudando nossas identidades pes- soais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados” (Hall, 2006, p.9). Já a formação de identidade psicológica solicita a constituição de valores e princípios norteadores na construção da diferença entre um indivíduo e outro. A identidade psicológica é gerada pela socialização e garantida pela individualização. A estabilidade psicológica do indivíduo deve interagir com o processo de socialização (Jacques, 1998). FORNECER AO SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO DOMINANTE O CONTEÚDO MAIS ADEQUADO PARA VALORIZAR O QUE SE TEM É UMA FORMA DE SE CRIAR UMA IDENTIDADE SOCIAL QUE VALORIZE QUEM DETERMINOU A CLASSIFICAÇÃO. O significado de identidade vem do latim Idem, que é o mesmo. Afinal, a moda cria uma identidade ou a identidade é formada pela moda? Vinicius Vieira de Souza Afinal, a moda cria uma identidade ou a identidade é formada pela moda? Esta questão remete a uma reflexão sobre a formação de identidade. O significado de identidade vem do latim Idem, que é o mesmo, e Entidade, ou seja, a mesma entidade. Neste sentido a moda mostra que aquele grupo de pessoas que a aderiu tem algo em comum. PIERRE BOURDIEU Google images E sta fras frase da per personagem r Miranda iestley stle (Meryl Streep) no filme “O Priestley diabo abo bo veste Prada” mostra como as pessoas que acham que não têm nada moda, também estão ena ver com a mod trama. Você pode não ligar volvidas na trama moda, mas certamente a mínima para m você cê será referência para aqueles que se interam no mundo “fashion”, sim, uma referência negativa! Fornecer ao sistema de classificação dominante o conteúdo mais adequado para valorizar o que se tem (Bourdieu, 2007) é uma forma de se criar uma identidade social que valorize quem determinou a classificação. Mattoso SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M 33 mundo de impermanência, múltiplo e instável? Esse embate parece ter sido solucionado através da fragmentação da identidade, que permite diversos modos de ser (Nascimento, 2006). Titian - Venus with a Mirror A chamada crise de identidade do cenário pós-moderno refere-se justamente a essa falta de referências estáveis. Do ponto de vista do equilíbrio psicológico, o sujeito precisa de valores e princípios estáveis para manter-se indivíduo, mas como buscá-los num O consumo é um fenômeno cultural, que envolve significados partilhados socialmente. A moda possui um significado cultural através do qual reproduzimos nosso sistema de relações sociais. Por ser um dispositivo social, ela orienta o comportamento e está presente na interação do homem com o mundo (BLUMER, 1969). No mundo atual, o consumo se tornou o foco central da vida social. É por meio do consumo que as pessoas comunicam seus valores e se diferenciam socialmente (BARBOSA, 2004). Os produtos se tornaram uma importante forma de reproduzir R E V I S T A HERBERT G. BLUMER A MODA POSSUI UM SIGNIFICADO CULTURAL ATRAVÉS DO QUAL REPRODUZIMOS NOSSO SISTEMA DE RELAÇÕES SOCIAIS. POR SER UM DISPOSITIVO SOCIAL, ELA ORIENTA O COMPORTAMENTO E ESTÁ PRESENTE NA INTERAÇÃO DO HOMEM COM O MUNDO. cultura e de relacionamento social, podendo traduzir maneiras de ser e de estar que dêem um senso de direção pessoal e social ao indivíduo. Dessa forma, a moda pode ter um papel importante de suporte ao indivíduo, na definição de seu ser fragmentado. E você achou que a moda não tem nada a ver com você? SEGUNDO HAWKINS“O ESTILO DE VIDA É, BASICAMENTE, COMO UMA PESSOA VIVE. É COMO O INDIVÍDUO REPRESENTA A AUTO-IMAGEM, E É DETERMINADO PELAS EXPERIÊNCIAS PASSADAS, CARACTERÍSTICAS INATAS E SITUAÇÃO ATUAL. 34 Google images Moda: e você acha que não tem nada a ver com isso? D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 Lipovetsky (1989) refere-se à centralidade da moda nas sociedades contemporâneas, o que a constitui como força efetiva na produção e reprodução social. A moda que surgiu como um fenômeno muito localizado na modernidade, restrito aos estratos sociais dominantes, tornou-se onipresente e com força hegemônica na atualidade; e se até há poucas décadas ainda estava restrita a determinados estratos da população, hoje encontra-se fortemente em faixas Júnior de Oliveira Cecília etárias e classes sociais que antes não alcançava. Lipovetsky (2004) faz uma dura crítica à intelectualidade, pela reduzida exploração do tema, que vincula moda exclusivamente à distinção social, enquanto que, para o autor, a moda na modernidade está associada a valores como o novo e a expressão da individualidade. Se a moda expressa a individualidade, o que define a individualidade? De novo a questão da identidade. Para estudiosos do comportamento do consumidor, como Hawins, et al. (2007), tudo começa com a auto-imagem, que por sua vez se forma dentro de um contexto social. A auto-imagem é definida como a totalidade dos pensamentos e sentimentos de um indivíduo em relação a si mesmo como objeto. Constitui a percepção e os sentimentos de um indivíduo em relação a si mesmo. A auto-imagem é importante em todas as culturas. No entanto, os aspectos da personalidade que são mais valorizados e mais influenciam o consumo e outros comportamentos variam de uma cultura para outra. Se, para uma determinada sociedade, expressar a individualidade é um traço positivo de sua personalidade, isto terá uma maior chance de fazer parte de seu auto-conceito. LÍVIA BARBOSA NO MUNDO ATUAL, O CONSUMO SE TORNOU O FOCO CENTRAL DA VIDA SOCIAL. É POR MEIO DO CONSUMO QUE AS PESSOAS COMUNICAM SEUS VALORES E SE DIFERENCIAM SOCIALMENTE. Alguns produtos adquirem significado substancial para um indivíduo ou são utilizados para sinalizar aspectos particularmente importantes da personalidade daquela pessoa para os outros, que é o caso da moda! Belk (1988) desenvolveu uma teoria denominada o eu estendido para explicar que as pessoas tendem a definir a si mesmas em parte por meio de suas posses. Assim, algumas posses não são apenas uma manifestação da auto-imagem de uma pessoa; são parte integral de sua autoidentidade. Ter ou ser? As pessoas são, até certo ponto, o que elas possuem. Mattoso Algumas pessoas que por causa de desastres como terremotos ou furacões perderam suas posses, mesmo depois de terem suas vidas refeitas com os objetos perdidos repostos por seguros, declararam não se sentirem “em casa”, segundo elas, era como se tivessem perdido parte do seu “eu”. Ou seja, as pessoas, na tentativa de alcançar sua auto-imagem ideal ou manter sua auto-imagem atual, normalmente envolvem a compra e o consumo de produtos e serviços. E o estilo de vida? Bem, ainda segundo Hawkins et al. (2007, p.233), “o estilo de vida é basicamente como uma pessoa vive. É como o indivíduo representa a auto-imagem, e é determinado pelas experiências passadas, características inatas e situação atual. O estilo de vida de uma pessoa influencia todos os aspectos dos hábitos de consumo dessa mesma pessoa e é uma função de características individuais inerentes que foram moldadas e formadas por meio da interação social, à medida que a pessoa evolui ao longo do ciclo de vida”. Estudos recentes mostram uma forte relação entre estilo de vida e autoimagem. Diversas atividades, interesses e comportamentos relacionados SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M 35 Moda: e você acha que não tem nada a ver com isso? ao estilo de vida estavam presentes em pessoas com determinada autoimagem. O estilo de vida desejado determina grande parte das decisões de consumo de uma pessoa, o que, por sua vez, reforça ou altera o estilo de vida dessa pessoa. Se a moda é uma gramática ou a transferência de significados simbólicos para produtos, podemos pensar na moda como um código ou linguagem que nos ajuda a decifrar significados. Entretanto, diferentemente da linguagem, a moda é um código que depende do contexto. Voltando ao estilo de vida, diferentes consumidores podem interpretar o mesmo estilo de maneiras distintas (Solomon, 2008). Como o significado da moda não é preciso, há espaço para muitas interpretações, sendo assim muito útil num mundo de significados fragmentados. Por exemplo, o termo estar na moda é estar com o que um determinado grupo de referência avalia como positivo. Uma pesquisa recente da autora sugere que, para as camadas populares, estar na moda é “usar o que todo mundo usa”, principalmente o que seus grupos de referência como os atores de novela usam. Se para Lipovetsky a moda é a expressão da individualidade, para essas camadas a moda é uma forma de inclusão social e, neste sentido, criar algo único, uma expressão do “self”, pode não atender a esse propósito de se sentir integrado à sociedade, o que o consumo, de certa forma, faz. A famosa teoria “trickle-down” ou descendência de Simmel (1904), propõe que, num primeiro momento, 36 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE a elite cria uma moda ou um símbolo de status que é copiado ou imitado pelas classes subordinadas. Se a elite criou o símbolo para se distinguir e este foi adotado pelas camadas abaixo, é necessário num segundo momento criar um novo símbolo e assim cria-se o movimento da moda. Esta teoria precisa de atualizações, pois pesquisas recentes mostram que os consumidores tendem a ser mais influenciados por líderes de opinião parecidos com eles do que os pertencentes a outras camadas sociais. Além disso, esse movimento descendente, parece ter sido invertido, como no caso de algumas modas que nascem nas camadas populares, é o caso do funk, que nasceu nas favelas cariocas e hoje pode ser ouvido em festas infantis de crianças da classe média ou mesmo alta! Seria o trickleup. Uma inversão? Não, apenas uma brincadeira de quem tem sua posição social muito bem marcada e pode brincar com símbolos da periferia. Voltando à discussão do equilíbrio entre o individual e o social, este pode se dar via pertencimento a grupos específicos de referência, possibilitando, assim, uma certa unidade psicológica para o indivíduo. Ou seja, a moda, valorizada por meu grupo de referência e meus líderes de opinião, pode me dar o visto do passaporte para uma identidade pretendida. Mesmo o indivíduo que não adere a moda alguma está criando uma identidade de “contra moda e marcas”, o que levou um sujeito nos EUA a fazer uma senhora fortuna ao criar a marca No Logo, que por sua vez pegou carona nas idéias de Naomi Klein (2003). Mas este grupo é contra as marcas e a moda porque eles ESPM não têm nada a ver com isso. 2008 BIBLIOGRAFIA BARBOSA, Lívia - Sociedade de consumo - Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2004. BELK, R. W. - Possessions and the extended self - Journal of Consumer Research, setembro de 1988 BLUMER, H.G. - Fashion. In: Encyclopaedia of the Social Sciences - V. 5. New York, USA: The Macmillan Company, 1968. BOURDIEU, Pierre - A Distinção - São Paulo: Editora Zouk, 2007. HAWKINS, Del; MOTHERSBUAGH, David; BEST, Roger - Comportamento do Consumidor - Rio de Janeiro: Editora Campus, 2007. JACQUES, Maria da Graça C. - Identidade. In: Psicologia Social Contemporânea - STREY, Marlene N. at al. 2a ed. Petrópolis: Vozes, 1998 KLEIN, Naomi - Sem logo: a tirania das marcas em um planeta vendido - São Paulo: Editora Record, 2003. LIPOVETSKY, Gilles - Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas - São Paulo: Companhia das Letras, 1989. ______________. Bens de luxo como uma festa para a alma. Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 24 por Andréa Ciaffone - 1o de setembro, 2004. NASCIMENTO, Rubens - A Formação de identidade psicológica e pós-moderna numa perspectiva interacionista. Revista online da Fafibe - 12/5/2006. SIMMEL, George - Fashion. International Quarterly - no 10, 1904. SOLOMON, Michael - O Comportamento do consumidor: comprando, sendo e possuindo - Porto Alegre: Bookman, 2008. CECÍLIA MATTOSO Doutora e mestre em Administração (Coppead-UFRJ), administradora (FGVRJ) e pós-graduada em Marketing no IAG-PUC-RJ e na ESSEC-Paris, França. Consultora, Pesquisadora e Professora da ESPM-RJ e da PUC-Rio.