O MUNDO SURDO INFANTIL Janaína Pereira Claudio Celina Nair Xavier Neta Resumo Este artigo tem por finalidade apresentar reflexões sobre a criança surda e o seu espaço nos diversos ambientes em que ela circula. O espaço familiar, onde se constitui como individuo; o espaço escolar, onde encontra (ou não) seus pares e constrói significações sobre o mundo que a cerca e na comunidade surda, local de aceitação de sua identidade e de contato com elementos culturais. As pesquisas bibliográficas e as narrativas autobiográficas realizadas ao longo do texto pretendem registrar as trajetórias e caminhos que compõem este “Mundo Surdo Infantil” e principalmente evidenciar o discurso de como este universo é narrado pela sociedade. Além disso, há vários séculos os movimentos dos surdos lutam pelo respeito às suas diferenças e pela equidade de acesso às oportunidades. Equidade esta, que se efetivará na garantia de acesso à Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS. O Ato comunicativo assume entre os surdos um elemento multifacetado, a língua de sinais informa e é fundamental para a manutenção e continuidade da comunidade surda. A criança surda, que recebe informações pela Língua de Sinais recebe não só a possibilidade de construir conceitos e de relacionar-se com o ambiente de forma saudável, mas recebe também um “passe” que lhe permitirá entrar no “Mundo Surdo Infantil” onde a aquisição do conhecimento se dá de forma dinâmica e onde o mundo é visual. Fazendo uma retrospectiva sobre a observação das escolas especiais para surdos no Rio Grande do Sul: Voltamos no tempo e retomamos a condição de criança surda. Revemos algumas situações, revisitamos os desafios e as dificuldades de transpor para as famílias ouvintes, a experiência de aproximar o mundo do silêncio infantil, relacionando a emoção e a razão de conviver nestas duas culturas diferentes. Palavras-chave: infantil, surdo, família, educação. Grupos de Trabalho - Inclusão: diferença e diversidade na escola. 2 O MUNDO SURDO INFANTIL Janaina Pereira Claudio 1 CPF: 820736940-04 Fundação de Articulação de Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e de Altas Habilidades no Rio Grande do Sul – FADERS E-mail: [email protected] Celina Nair Xavier Neta 2 Fundação de Articulação de Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e de Altas Habilidades no Rio Grande do Sul – FADERS E-mail: [email protected] INTRODUÇÃO A infância por um longo período da história da humanidade ficou fora do foco das preocupações, pois se pensava que as crianças não passavam de adultos em miniatura, esta concepção é retratada em obras de arte do século XIII. Somente no século XVIII as crianças começam a tomar a cena e passam a ser vistas sob uma nova ótica. Os surdos não muito diferentes, também passaram por um período de esquecimento e experimentam até hoje – de forma velada, ou não - situações de exclusão e desvalorização. Quando se fala do surdo, fala-se sempre do individuo adulto, do sujeito capaz de lutar por seus direitos, de reivindicar interpretes e de usar 1 Bacharelado em Arquitetura e Urbanismo; Instrutora de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e Mestrado em Educação pela UFRGS (andamento). 2 Professora de surdos, Intérprete de Libras, Graduanda de Psicologia e de Bacharelado em Tradução Letras Libras. 3 tecnologia, mas e a criança surda? Volta à sua condição de esquecimento duplo, primeiro por ser criança e em segundo por ser surda. São poucos os registros que temos sobre o assunto, principalmente quando se trata de narrativas autobiográficas. Portanto, este artigo aborda aspectos do universo infantil do surdo frente às mudanças que ocorrem a nível familiar, educacional, social e cultural, ao longo do seu desenvolvimento. Alterações que nessas áreas, afetam o desenvolvimento de toda e qualquer criança, mas aqui enfatizaremos as crianças surdas. Que recebem e percebem as alterações no meio e estão de certa forma mais sujeitas a fatores positivos ou negativos dependendo do ambiente lingüístico a que estão expostas. A reflexão a que nos propomos fazer é um convite para educadores, familiares e interessados em questões como as influências culturais e sociais; os preconceitos e convivência e a relação entre a família e escola, frente à diversidade. Examinando estes aspectos pretendemos passear no mundo da criança surda e potencializar seu universo, para que se torne um adulto consciente e ativo na sociedade. AS INFLUENCIAS CULTURAIS E SOCIAIS O acesso ao mundo surdo infantil se dá por meio da comunicação em sua língua materna: LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Particularmente, a família ouvinte é o grupo social dado à criança surda, que não tendo escolha, passa a receber a influência e o conhecimento do mundo dos sons. Pertencer a uma família ouvinte significa um processo de inclusão, cujo resultado dependerá de uma base de conhecimento escolar, educacional, estimulação social, valores e fluência na língua, a escolhida para a comunicação. A família é o núcleo inicial e a base do desenvolvimento da criança (OSÓRIO, 1996). De acordo com Márcia Goldfeld (1997), é a família que dá o significado das coisas e do mundo para a criança quando esta se encontra no início do desenvolvimento lingüístico. É partindo desses primeiros significados que a criança vê e participa do mundo em que vive. 4 As famílias ouvintes que recebem em seu meio crianças surdas, experimentam uma fase de luto onde sentimentos de medo, frustração e culpa imperam. De acordo com Karin Strobel (2008, p. 50), quando o médico apresenta o diagnóstico de surdez, os pais ficam “chocados” diante da diversidade deste novo elemento familiar. As expectativas de cura tomam o tempo e os esforços da família e estão presentes em todos os encontros e reuniões familiares. Todo desgaste ocorre, na esperança da normalização. Harlan Lane (1992, p. 21) explica que apesar da criança ter sido submetida ao implante coclear, é pouco provável que sua comunicação seja considerada fluente tanto no mundo ouvinte quanto no mundo surdo. Ou seja, aumenta a possibilidade dela se desenvolver sem nenhum tipo de comunicação concreta, seja falada ou gestual. A escola e a sociedade exercem, portanto, um papel determinante na medida em que oportunizam que a criança surda seja socializada, dentro da cultura de sua comunidade, com foco primário no seu idioma. Mesmo porque onde há surdos, há Língua de Sinais, este fato foi comprovado durante os anos em que a Língua de Sinais foi marginalizada e que independentemente das proibições ou autoritarismos, os surdos continuavam a praticar sua língua às escondidas. Quando um dos professores se virava para escrever no quadro-negro, tínhamos o hábito de trocar informações em língua de sinais, persuadidos de que ele não nos escutava, já que não nos via. Ora no começo, ele se voltava todas as vezes, era estranho, não compreendíamos imediatamente por quê. Com o passar do tempo, dei-me conta de que ao falar com as mãos, sem saber emitíamos ruídos com a boca. Cuidamos então de não mais emitir nenhum som e, desde aquele dia trocamos nossas lições o mais tranqüilamente possível. (LABORIT,1994, p. 84) A relação que se estabelece entre o educando surdo e o educador surdo, estimula não só o aprendizado, mas a construção de uma identidade mais segura. Como resultado, por outro lado, aumenta a aceitação da criança no grupo familiar ouvinte e, através dele, é feito um movimento de mudanças que influem na realidade social e cultural da sociedade. Karin Strobel (2006, p. 250) questiona “como uma criança surda poderá desenvolver uma língua se não houver uma identificação com o surdo adulto? Como o sujeito surdo poderá fazer uma identificação com relação à sua identidade surda no futuro, se ele não conviver com outros surdos que façam uso da língua de sinais?”. 5 A educação de surdos pode acontecer em diferentes espaços entre eles: a educação realizada na família através de professores particulares e, conforme a lei, sendo validada, posteriormente, através das avaliações do EJA (Programa para Educação de Jovens e Adultos); - a educação realizada em escolas especiais para surdos, através de professores especializados e a construção do conhecimento, sendo feita na língua materna LIBRAS, que foi oficializada em abril de 2002; - a educação realizada em escolas de ouvintes, por professores não especializados, que desconhecem LIBRAS e usam a língua Portuguesa como instrumento de comunicação; - a educação realizada em classes especiais para surdos, dentro de escolas ouvintes; a educação realizada, através da tutoria de modelos clínicos onde o perfil de paciente se mistura com o do educando. A partir desta perspectiva, podemos ter diversas alternativas pedagógicas. Infelizmente, são raros os professores habilitados para o trabalho nas escolas de surdos, sendo as crianças expostas a uma miscelânea de teorias e práticas pedagógicas apoiadas na falta de fluência lingüística do professor ouvinte, este cenário pouco contribui no esclarecimento de suas dúvidas e da avaliação do seu real conhecimento. Considerando estes diferentes espaços educacionais podemos avaliar a diversidade cultural a que o povo surdo é submetido. Segundo Quadros (1997, p. 26): Ainda hoje estão sendo desenvolvidos o oralismo e o bimodalismo nas escolas brasileiras; porém, há algo que está aflorando nas comunidades de surdos e isto tem afetado os educadores de surdos. As comunidades surdas estão despertando e percebendo que foram muito prejudicados com as propostas de ensino desenvolvidas até então e estão percebendo a importância e o valor de sua língua, isto é a LIBRAS. Para entender o termo “povo surdo”, a autora Karin Strobel esclarece (2008, p. 31): Quando pronunciamos “povo surdo”, estamos nos referindo aos sujeitos surdos que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem, por um código ético de formação visual, independente do grau de evolução lingüística, tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços. Para alguns cidadãos do povo surdo, as decisões sobre sua educação são tomadas pelos pais, pela escola especializada, com o apoio da comunidade surda local e valorizando a comunicação por LIBRAS, para outros são os pais, a clínica, com o 6 apoio da comunidade ouvinte, valorizando a fala e a audição, através do uso do implante coclear. PRECONCEITOS E CONVIVÊNCIA A pesquisa sobre as influências sociais e culturais, nas últimas décadas tem gerado conceitos e teorias, a partir de diferentes termos. Dentre os termos, para as quais, houve um estudo aprofundado, por parte dos pesquisadores, está a palavra: ESTEREÓTIPO. Estereótipo é a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação. Assim, dependendo as influências sociais e culturais recebidas pelo surdo em uma sociedade ouvinte, ele pode se ver como estereótipo, desta sociedade, um cidadão inferior ou dado como invisível para comunidade ouvinte. Ao serem considerados inferiores, os indivíduos surdos ganham das pessoas ouvintes uma série de caracterizações como: deficientes, anormais, problemáticos, coitados, seres patológicos, desviantes, etc. Os ouvintes lhes imputam tais caracterizações porque só conseguem pensar o sujeito surdo como um sujeito que, por ser incapaz de ouvir, é incapaz de qualquer realização que não seja simplória. Na descrição, de Gladis Perlin (2005, p. 55): O estereótipo faz com que as pessoas se oponham, ás vezes disfarçadamente, e evitem construção da identidade surda cuja representação é o estereótipo da sua composição distorcida e inadequada. O preconceito e a geração de um perfil estereotipado podem surgir dentro da família. Uma das formas que mais influência este comportamento é o não uso de LIBRAS para a comunicação, dentro do núcleo familiar, transferindo para a escola este nível de comunicação. Nesse ponto, a escola, a educação e a família são interligadas e se configuram como fatores fundamentais para o desenvolvimento de processos essenciais que culminarão na formação cultural e social do individuo. Gladis Perlin (2006, p. 139) apresenta outra definição para o conceito de diferença aliada a surdez: 7 Diferença: Por diferença entendemos o ser surdo com sua alteridade. Por exemplo, se perguntarmos: Porque os surdos querem escolas de Surdos? A resposta identifica a caminhada para a diferença: “para tornarem-se sujeitos de sua história”, saírem da exclusão, construírem sua identidade em presença do outro surdo, para terem direito à presença cultural própria. A falta de uma comunicação adequada estimula o desenvolvimento de idéias pré-concebidas. Assim, o preconceito se estabelece quando a criança surda tem uma imagem social fraca, inferior, já por tradição chamada, erroneamente de: mudinho, surdo-mudo, doente, mental, louco, retardado, deficiente auditivo. Da mesma forma a sociedade continua, apesar de todos os esforços, a utilizar o termo “Linguagem de Sinais”, é preciso esclarecer que a linguagem é mais genérica; serve para se comunicar assim como sinais de trânsito, música, sorriso, olhar, etc. Por outro lado a Língua de Sinais, sendo considerada a língua como o sistema lingüístico dos seres humanos, ela é mais específica (línguas naturais e humanas) e não apenas comunica, mas expressa o pensamento. Por isso, no momento em que a terminologia passa a ser empregada de forma adequada a Língua Brasileira de Sinais, é definida como uma língua natural usada pela maioria dos surdos do Brasil e assume seu status perante a sociedade. A Língua de Sinais é uma língua visual e gestual, diferente de todos os idiomas já conhecidos que são orais e auditivos. É uma língua que é pronunciada pelo corpo e percebida pela visão. A voz do surdo são as mãos e os corpos que pensam, sonham e expressam. Pensar sobre surdez requer penetrar no "mundo dos surdos" e "ouvir" as mãos que, com alguns movimentos, nos dizem o que fazer para tornar possível o contato entre os mundos envolvidos, requer conhecer a "língua de sinais". Permita-se "ouvir" essas mãos, pois somente assim será possível mostrar aos 3 surdos como eles podem ouvir o silêncio da palavra escrita. A comunicação no mundo infantil surdo, sem LIBRAS, induz a uma perspectiva de destruição, onde a sobrevivência como povos, culturas, direitos e costumes ficam ameaçados diante da possibilidade de invasão de um outro povo, pois o surdo sente-se um estrangeiro, quando em contato com a comunidade ouvinte. Ser minoria dentro da 3 www.criancasurdafeliz.hpg.ig.com.br 8 maioria, ser brasileiro, mas, não se comunicar pelo português, estar sempre no limiar entre o mundo e outro é viver em constante dicotomia em dualismo perpétuo. Os costumes surdos para os ouvintes são pouco conhecidos, pois não são publicados e anunciados cotidianamente pelos meios de comunicação. Mesmo quando os ouvintes pensam na forma de ser do “surdo”, esse pensamento, é permeado de diferença o que impossibilita a compreensão de igualdade, influenciando seu comportamento social e sua capacidade de integrar-se a outra cultura. Leland McCleary (2003, p. 2) expressa claramente a incompreensão do ouvinte em relação ao surdo quando afirma: [...] diga para um ouvinte: ‘Eu tenho orgulho de usar a língua de sinais brasileira’. Qual pode ser a reação dele? Ele pode pensar, ‘Sim claro! Os gestos são muito bonitos e expressivos’ Mas não é por isso que você tem orgulho! Você tem orgulho porque quando você usa a língua de sinais, você pode ser surdo e feliz ao mesmo tempo. Karin Strobel (2008, p. 33) alega que tem orgulho de ser surdo e reflete: Os povos surdos não são obrigados a ter a normalidade. A máscara não esconde o ser que é o surdo, o ser surdo que é humano... Quando a sociedade deixa o surdo ser ele mesmo, carece tirar as máscaras e assim chega o momento de o povo surdo enfrentar a prática ouvintista, resgatar-se e transformar-se no que é de direito: partes de nós mesmos, de termos orgulho de ser surdo! A discriminação do surdo no mundo infantil vem através da dificuldade de comunicação com a comunidade ouvinte, representada pela família para criança. A não aceitação da sua condição pode levar o sujeito surdo a incorrer em diversos enganos sobre si mesmo e seu papel na sociedade. Karin Strobel (2008, p. 80) adverte que: Quando o sujeito surdo não se aceita na cultura surda, ele percebe como parte da cultura hegemônica, isto é, da cultura da maioria que é ouvinte. E aí estes sujeitos não se reconhecem como cultura diferente isto é, o jeito de ser surdo, de se perceber diferentes do ouvinte e com isto pode acontecer conflitos ou dificuldades de aceitação de sua identidade surda. A cultura surda está marcada não só pelo jeito de ser diferenciado ou pelo uso de uma língua diferente, mas também pela busca por direitos, pelas lutas e por respeito às diferenças. Há vários séculos, têm sido desta forma, reivindicações por intérpretes nos lugares públicos e privados, nas faculdades, em palestras, nas escolas, em 9 consultórios médicos e outros, fundação de associações, manutenção das escolas para surdos, a criação de classes especiais, a formação e habilitação de professores com conhecimentos em LIBRAS, a ampliação do close caption na programação das emissoras de televisão de canal aberto e fechado, legendas no cinema, principalmente nos filmes nacionais, TDD (telefone para surdo), celular com mensagem de texto, equipamentos domésticos (campainha luminosa, relógio vibratório e outros). 1. 1 Figura: TDD4 1.2 Figura: Relógio vibratório5 1.3 Figura: campainha luminosa6 A língua de sinais não significa apenas uma forma de comunicação utilizada pelos surdos, mas é a construção do próprio mundo surdo. Unir o reconhecimento político da comunidade surda e a prática dessa experiência visual seria uma forma de alteridade. Existe uma diversidade cultural deste grupo de surdos em relação aos familiares ouvintes e crianças surdas, onde LIBRAS pode representar a ponte que liga estes dois mundos. Voltamos então ao inicio deste capítulo onde abordamos o conceito de estereótipo, pois o que limita a inter-relação do ouvinte com o surdo, não é o desconhecimento de uma língua ou das marcas culturais identitárias desta comunidade, mas sim como afirma Karin Strobel (2008, p. 85) as representações estereotipadas e hegemônicas sobre a cultura surda. 4 http://www.feneis.com.br/tecnologias/produtos.shtmll http://www.feneis.com.br/tecnologias/produtos.shtmll 6 http://www.feneis.com.br/tecnologias/produtos.shtmll 5 10 RELAÇÃO ENTRE A FAMÍLIA E A ESCOLA, FRENTE AOS PROBLEMAS De acordo com Helen Bee (2003, p. 2009) a criança em idade escolar apresenta esquemas internos, regras ou estratégias para examinar o mundo e interagir com ele. A criança nesta fase apresenta lógica dedutiva, indutiva e capacidade de reversibilidade. Estes esquemas internos e abstratos são fundamentados em etapas anteriores do desenvolvimento, onde informações lhe foram transmitidas, estimuladas e elaboradas. Como uma criança surda que não foi inserida em contexto lingüístico previamente, chega até a escola? Ela também apresenta os constructos e esquemas internos tais como as crianças ouvintes? Como a família - que na grande maioria das vezes recorre a escola como última possibilidade de normalização - recebe as informações que precisaria ter recebido anos antes? De que sendo seu filho(a) surdo(a) precisará a partir de agora receber todas as informações via língua de sinais, uma língua da qual nunca imaginou fazer uso. Como a escola acolhe estas famílias? Como o educador media as relações entre uma família que desconhece a língua natural do seu próprio filho? A reflexão sobre estas questões apresenta que as relações entre surdos e ouvintes no ambiente escolar vão muito além do simples processo ensinoaprendizagem (processo este, que nada tem de simples, mas que diante das circunstâncias que se apresentam, passam a ser o menor dos problemas a serem superados). A escola em muitas situações administra questões que envolvem desde a aceitação de um membro diferente no núcleo familiar, a construção de uma identidade surda até a transmissão de valores que não remeta a forma particular de colonização a que os surdos foram submetidos ao longo de sua história. Este embate aparece e reaparece nas representações, nas práticas de significação e nos dispositivos pedagógicos, fatores estes, que imprimem o currículo oculto da escola. Nesse processo os olhares estereotipados por parte dos ouvintes influenciam a criança surda em desenvolvimento, que mesmo estando em silencio subjetiva todo o universo visual que a cerca e interioriza os aspectos negativos ou positivos de ser surdo. Nesta perspectiva, os surdos que são vistos como sujeitos inferiores, primitivos e 11 incompletos, assumem esta condição e se formam enquanto sujeitos neste sentido, já os que recebem a informação positiva da surdez e visualizam um horizonte promissor se projetam e alcançam melhores resultados. Enquanto as informações do modelo clínico/médico da surdez, segundo Owen Wrigley (1996), legitima práticas que vêm, ao longo da história reforçando, como também criando uma realidade para as pessoas surdas dentro de uma concepção de patologia: elas serão pessoas defeituosas, e necessitarão de ações normalizadoras e reabilitadoras. Assim, segundo o autor, o respeito à surdez de um corpo observado, onde a diferença e alteridade são negadas. Segue outro autor, na descrição, Karin Strobel (2007, p. 25 – 26): Por exemplo, estimular para que os sujeitos surdos aprendam a falar e a ouvir, fazendo com que aparentem ser “ouvintes”, isto é, usarem identidade mascarada de “ouvintes”, tendo a surdez fingida ou negada. Cito o exemplo do famoso inventor do telefone, Alexander Graham Bell, cuja mãe estudos surdos e sua esposa eram surdas. Segundo SAC KS (1990), elas tinham a identidade 7 da surdez negada. Para a família ouvinte, unir-se à criança surda plenamente é fundamental para que sua inclusão garanta uma comunicação completa e integral, promovendo as bases necessárias ao seu desenvolvimento sadio. Sabendo que a língua de sinais tem esse importante papel no desenvolvimento cognitivo e social e permitindo que a aquisição de conhecimento sobre o mundo circundante ocorra dentro dos aspectos culturais da comunidade surda; a família e a sociedade não só, estarão permitindo à criança um desenvolvimento de sua identificação com mundo surdo (um dos dois mundos aos quais a criança pertence), mas também estarão dando livre acesso para que ela transite entre os dois universos: o do visual (que lhe é próprio) e o dos ouvintes (ao qual a família e a sociedade pertencem). Portanto a criança surda que utiliza a LIBRAS em um ambiente onde é acolhida com afeto, seja na escola ou com os pais ouvintes, assim como qualquer outra criança, com certeza, conseguirá desfrutar de sua infância de forma protetiva e efetiva. A criança surda que tem tais aspectos assegurados é capaz de construir seu mundo surdo infantil de forma sólida e posteriormente afirmar sua identidade pessoal como sujeito protagonista da sua história. 7 http://www.editora-arara-azul.com.br/estudos2.pdf 12 COMENTÁRIOS FINAIS No desenvolvimento desse trabalho fica visível a importância de apresentarmos às crianças surdas a modelos bem sucedidos de usuários de língua de sinais e às possibilidades de crescimento cultural e ganho cognitivo que a convivência na comunidade surda podem proporcionar. A infância é um período crucial da vida, pois é nela que estabelecemos confiança em nós mesmos e nos outros. É na infância que aprendemos sobre limites e aspectos sociais, e aprendemos de que forma podemos e devemos nos relacionar com o mundo. Na falta de modelos positivos, as crianças assumem papeis que não condizem com a sua realidade e acabam convertendo sua possível identidade surda em identidades flutuantes que não reconhecem sua real condição e principalmente não valorizam a sua existência. Na descrição, Rosa Silveira (2002, p. 20): Aqui no Brasil, pelo direito de decidir como querem ser nomeados é a dos “surdos”; tradicionalmente chamados de “surdos-mudos” (terminologia criticada por evocar uma incapacidade identificada do ponto de vista “ouvintista”), passaram depois, a partir do crescente prestígio da visão médica, a ser chamados de “deficientes auditivos”, denominação também recusadas por fazer referência a uma suposta falta, carência...e por entenderem – os surdos – que tal condição física tem produzido, historicamente, o aparecimento de uma cultura marcada em especial por línguas próprias – Línguas de Sinais – numa visão positiva que justificaria a preferência pela denominação de “surdos/as. É possível afirmar que hoje os surdos são aceitos, mas, ao mesmo tempo, em inúmeras circunstancias continuam sendo ignorados e não reconhecidos politicamente por alguns grupos de ouvintes. As idéias políticas ouvintistas geram padrões convencionais paternalistas, tais padrões são ainda muito presentes nas escolas e estão à sombra de um discurso inclusivo de acesso igualitário à educação, que na verdade não dá garantias à criança surda de um pleno contato com sua cultura e com a sua língua, apenas garante que o aluno terá as mesmas informações que os demais. Na descrição interessante, Harlan Lane (1992, p. 48): “O paternalismo dos ouvintes começa com uma percepção deformada porque sobrepõe a sua imagem de um mundo conhecido dos ouvintes ao mundo desconhecido dos surdos: 13 igual modo, o paternalismo dos ouvintes encara a sua tarefa como de <<civilizar>>: devolver os surdos à sociedade. E o paternalismo dos ouvintes não consegue entender a estrutura e os valores da sociedade surda.” Curiosamente no campo de categorizações, apesar da luta constante da comunidade surda pelo respeito e aceitação como grupo cultural, ainda há uma dificuldade muito grande de desenvolvimento, e na inclusão dos surdos com base no respeito a suas diferenças. A maioria das crianças surdas são filhos de pais ouvintes, e o seu desenvolvimento, apresenta muitas dificuldades quando os pais relutam em aceitar a surdez de seus filhos. A escolha do tema deste artigo foi algo comovente, pois onde há comunidade surda e cultura surda, há categorizações (louco, doente, mental, mudinho, surdo-mudo, deficiente auditivo), portanto há diversidade e os questionamentos sobre a normalidade e não-normalidade pairam como uma neblina encobrindo as possibilidades de aproximação e distanciam as pessoas umas das outras. As famílias são os elos entre as crianças e a sociedade, logo é essencial que os membros ouvintes de um grupo familiar no qual há uma criança surda se re-estruture para que esta criança receba não só o afeto necessário ao seu desenvolvimento emocional, mas também a liberdade de ser criança e de ser surda. Feliz, simples e orgulhosa aceitando-se como é. A educação no mundo surdo infantil se desenvolve em forma de rede, onde diferentes graus de influências se estabelecem a partir do maior ou menor grau de conhecimento do mundo ouvinte sobre o mundo do silêncio. Esta aproximação entre o som e o silêncio tem como regulador a família e como instrumento a língua materna da criança surda, a LIBRAS. Conviver com os surdos é um aprendizado, conhecer os surdos é despir-se da discriminação e do preconceito. A aceitação que leva o verdadeiro amor. Se este for o pensamento da família, assim a sociedade pensará. Se a família engajar-se nos movimentos surdos e partilharem com orgulho da experiência de transitar entre dois mundos logo a sociedade guardará seus rótulos em baús empoeirados, pois para nada mais eles terão serventia. 14 A escola e a comunidade surda, portanto devem já iniciar uma reorganização no sentido de procurar estabelecer alianças com as famílias para fortalecer o que garantirá o pleno desenvolvimento das crianças surdas: uma infância vivida e respeitada. Para finalizar citamos Paulo Freire (2002, p. 29) acreditando que a afetividade leva a criança surda ao caminho do orgulho de ser surdo e acreditando principalmente no engajamento dos pais, educadores e cuidadores destas crianças para que uma rede protetiva se crie, não no intuito de limitar ou cercear, mas com a real intenção de potencializar a infância e a alegria de ser criança. Não há educação sem amor. O amor implica luta contra o egoísmo. Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar. Não há educação imposta. Como não há amor imposto. Quem não ama não compreende o próximo, não o respeita. 15 REFERÊNCIAS BEE, Helen. A criança em Desenvolvimento. Porto Alegre, 9ª edição: Artmed, 2003. FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2002. GOLDFELD, Márcia. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio-interacionista. São Paulo, SP: Plexus, 1997. LABORIT, Emmanuelle. O vôo da Gaivota. São Paulo: Ed. Best Seller, 1994. LANE, Harlan. A Máscara da Benevolência: a comunidade surda amordaçada. Lisboa: Instituto Piaget, 2000. McCLEARY, Leland. O orgulho de ser surdo. In: Encontro paulista entre intérpretes e surdos. São Paulo: FENEIS-SP [Local: Faculdade Sant’Anna], 2003. PERLIN, Gladis T. T. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre, Mediação , 2005. _________________A Cultura Surda e os Intérpretes de Língua de Sinais. Educação Temática Digital, Campinas, v.7, n.2, p.135-146, jun. 2006. OSÓRIO, L. C. Família hoje. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1996. SILVEIRA, Rosa M. H. Textos e Diferenças. Leituras em Revista. Ijuí. Associação de Leitura Brasil Sul, n3, jan., 2002. STROBEL, Karin Lílian. História dos Surdos: Representações ‘Mascaradas’ das Identidades Surdas. Estudos Surdos II / Ronice Müller de Quadros e Gladis Perlin (Orgs).– Petrópolis, RJ : Arara Azul, 2007. http://www.editora-arara-azul.com.br/estudos2.pdf ___________________ As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2008. WRIGLEY, Owen. The politics of the deafness. Washington, D.C: Gallaudet University Press, 1996. 16