www.rhmjournal.org.uk © 2007 Reproductive Health Matters. All rights reserved. Reproductive Health Matters 2007;15(30):202-210 0968-8080/06 $ – see front matter PII: S0968-8080(07)30328-5 QUESTÕES DE ´ SAUDE reprodutiva www.abrasco.org.br Políticas e práticas de aborto no Chile: ambigüidades e dilemas Bonnie L Shepard,a Lídia Casas Becerrab a Especialista Sênior em Planejamento e Avaliação, Estratégias de Desenvolvimento de Setores Sociais, Brookline MA, EUA. E-mail: [email protected] b Pesquisadora e Professora de Direito, Universidade Diego Portales, Faculdade de Direito, Santiago, Chile Resumo: O aborto não é legalizado no Chile, nem mesmo para salvar a vida ou a saúde da mulher. Essa situação cria sérios dilemas e vulnerabilidade tanto para as mulheres quanto para os médicos. A incidência de aborto provavelmente diminuiu desde 1990, na última vez em que os dados foram estudados, em razão do aumento do uso de contracepção e da diminuição da fertilidade; além disso, as taxas de mortes e complicações também caíram. O Misoprostol está disponível, mas os hospitais chilenos ainda utilizam dilatação e curetagem (D&C) no caso de abortos incompletos. Apesar de os médicos chilenos deverem por lei notificar os abortos ilegais às autoridades, menos de 1% das mulheres hospitalizadas com complicações causadas por abortos são notificadas. Existem duas brechas, uma legal, outra clínica. A “interrupção da gravidez” depois de 22 semanas é legal por razões médicas, pois pode salvar a vida de algumas mulheres, mas também pode forçar o prolongamento de gravidezes ameaçadoras à saúde. As diretrizes clínicas católicas definem essas intervenções com o objetivo único de salvar a vida da mulher mesmo se o feto morrer, não como aborto, mas sim como “aborto indireto” e permitido. Desde 1989, dois projetos de lei para a liberalização da lei sobre bases terapêuticas não obtiveram sucesso. O clima político não é favorável a uma mudança de lei. Conservadores também não tiveram sucesso em tornar a lei mais punitiva, enquanto a coalizão governante de centro-esquerda está dividida e os riscos políticos associados são consideráveis. Palavras-chave: aborto clandestino e inseguro, leis e políticas de aborto, Igreja católica, Chile. O Chile é um dos quatro países, junto com El Salvador, Malta e mais recentemente Nicarágua, onde não existe nenhuma exceção legal na proibição do aborto para salvar a vida da mulher. Relatórios recentes sobre aborto em El Salvador1 e Nicarágua2-4* destacam * Rosita é um documentário recente que dramatiza a oposição das autoridades nicaragüenses ao acesso ao aborto legal para uma menina de nove anos de idade cuja gravidez foi resultado de um estupro. as tragédias e violações dos direitos humanos produzidas por essas leis. De acordo com estudos, no Chile5 e em todo o mundo as mulheres e adolescentes de baixa renda contabilizam a grande maioria das complicações de aborto, já que recorrem somente a abortos inseguros, uma situação de tremenda injustiça social. Uma vez que todos os serviços de aborto no Chile operam clandestinamente, sabe-se muito pouco sobre as práticas atuais ou o perfil das mulheres que realizam abortos. Na medida do possível, 79 B. Shepard, L. Becerra / Questões de Saúde Reprodutiva 2008;3(3):79-88 este artigo tem como objetivo elucidar tanto práticas oficiais e clandestinas quanto políticas relacionadas ao aborto. A parte sobre práticas de aborto é baseada no estudo de Shepard,6 e a parte sobre políticas de aborto, na recente pesquisa e experiência de Casas como advogada. Historicamente, o Chile tem sido um dos países mais progressistas da América Latina em questões relacionadas à saúde reprodutiva. Em 1964,7 sob o comando de Eduardo Frei, um presidente democrata-cristão com forte ligação com a Igreja católica, o Chile se tornou o primeiro país da América Latina, além de Cuba, a inaugurar publicamente um programa subsidiado de planejamento familiar, motivado pela preocupação relativa à mortalidade excepcionalmente alta por complicações causadas por abortos ilegais. O programa foi muito efetivo. A mortalidade materna por aborto inseguro diminuiu de 107 por 100 mil nascidos vivos para 5 no ano de 2000.8,9 Uma lei de 1931 sobre aborto terapêutico permitia o aborto para proteger a vida e a saúde da mulher, mas foi revogada em 1989 pela ditadura militar, pouco antes de o governo democrático tomar posse. Incidência e práticas de aborto6 Faltam dados confiáveis sobre a incidência de aborto induzido e conseqüências na saúde pública. Mais de 99% dos abortos induzidos não são relatados de modo algum, são disfarçados como um procedimento diferente ou são relatados como aborto espontâneo em hospitais públicos.* Dessa forma, o número de gravidezes, abortos espontâneos, gravidezes de alto risco, anomalias fetais e morbidade pós-aborto sofrem com a subnotificação. Existem apenas evidências incidentais sobre práticas inseguras, * Para proteger de processos tanto as mulheres quanto a equipe do hospital, os dados do hospital sobre os pacientes relatados ao Ministério da Saúde não fazem distinção entre aborto espontâneo e induzido. 80 incluindo a inserção de cateteres e outros métodos tradicionais. Isso provavelmente diminuiu desde 1990, a partir da disponibilidade do Misoprostol, que é amplamente conhecido e utilizado na América Latina na indução do aborto, especialmente até nove semanas depois do último período menstrual. Como na maioria dos países, o Misoprostol está legalmente disponível sob prescrição médica nas farmácias chilenas para tratamento de úlceras do estômago. Também é utilizado legalmente na obstetrícia para induzir o parto e para tratar e prevenir a hemorragia pós-parto. Alguns médicos e obstetras fornecem o Misoprostol para seus pacientes particulares para a realização do aborto. O medicamento e instruções de uso estão disponíveis pela internet em sites chilenos e no mercado negro. O custo varia de 38 mil a 50 mil pesos chilenos (US$73100) para quatro a seis pílulas, muito mais alto do que em países desenvolvidos. Toda a literatura sobre aborto disponível no Chile cita estimativas de estudos do Instituto Alan Guttmacher,10,11 com base em dados de 1990, que colocam o Chile como o país que apresenta uma das maiores taxas de aborto no mundo. Dada a diminuição tanto na fertilidade quanto nas complicações de aborto nos últimos 15 anos, essas estimativas estão desatualizadas. De acordo com uma Pesquisa de Qualidade de Vida e Saúde realizada pelo Ministério da Saúde em 2001,12 no ano de 1990 foram contabilizadas 44.468 hospitalizações por aborto (espontâneo ou induzido), enquanto em 2001 o número foi de 34.479, uma diminuição de 22%. Embora o autor (Shepard) não pudesse reproduzir totalmente a metodologia do estudo original, sua estimativa, utilizando os mesmos fatores de correção e multiplicação, sugeriram que o número total de abortos pode ter diminuído em 22% em 2001, com um decréscimo de 9% na taxa de aborto no Chile.6 Ambos os decréscimos ocorreram durante o período no qual B. Shepard, L. Becerra / Questões de Saúde Reprodutiva 2008;3(3):79-88 a população de mulheres em idade fértil aumentou em 23%. Essa diminuição de 22% nos abortos é maior do que a diminuição de 16% nos nascimentos durante o mesmo período. As estimativas devem ser analisadas com cuidado, já que são baseadas em dados de hospitais, e especialistas atribuem a redução da hospitalização relacionada ao aborto ao aumento do uso de procedimentos assépticos e terapias antibióticas entre os provedores de abortos clandestinos, o aumento da disponibilidade de Misoprostol e o aumento do uso de contraceptivos.* Nos dados de mortalidade materna de 2001, foram relatadas quatro mortes causadas por abortamento, e em 2002, sete, em comparação com as 29 mortes em 1990. A taxa de mortalidade materna no Chile para 2003 foi de aproximadamente 14 por 100 mil nascidos vivos (Comunicação pessoal, Dr. René Castro, Ministério da Saúde, Diretor do Programa de Saúde da Mulher, março de 2006). Tal dado pode ser positivamente comparado com o da maioria dos países latino-americanos (a taxa da Argentina para 2001 foi de 70), mas ainda é três vezes maior do que nos Estados Unidos e no Canadá.13 Adolescentes bem jovens, com idade de 14 anos ou menos, têm acesso limitado a contraceptivos, conforme evidenciado pela alta proporção dos 3.392 abortos relatados para 994 nascidos vivos nesse grupo de idade no ano de 2003.14 Tendo em vista os baixos números * Enquanto muitos assumem que o uso de Misoprostol poderia reduzir a taxa de complicações sérias por abortamento, conforme avaliado por estatísticas de aborto baseadas em hospitais, o efeito não é imediato. Relatos e pesquisas anedóticas de outros países, tais como Brasil, sugerem que algumas mulheres utilizando o Misoprostol sem supervisão médica acabam no hospital, seja por causa de um aborto incompleto ou por não estarem informadas sobre efeitos colaterais normais como o sangramento. Também é mais provável que mais mulheres se sintam capazes de procurar por atendimento pós-aborto do que no passado. de mortes, é provável que a morbidade seja a conseqüência mais significativa do aborto ilegal e inseguro no Chile, mas não existem dados. Atendimento pós-aborto em hospitais chilenos: desatualizados e contraditórios De acordo com vários informantes e com o Manual de Obstetrícia da Escola de Medicina da Universidade Católica,15 no Chile a dilatação e curetagem (D&C) ainda é utilizada no atendimento pós-aborto no primeiro trimestre. Esse método é mais intrusivo e arriscado do que a aspiração a vácuo e o aborto medicamentoso, ambos recomendados pela OMS há muitos anos.16 Não existem informações sistemáticas sobre outros aspectos do atendimento pós-aborto no Chile, apesar de existirem relatos individuais de abuso emocional e em alguns casos de abuso físico, como D&C sem anestesia. Casas5 relata vários casos graves de violação dos direitos humanos quando as mulheres são denunciadas às autoridades. “... conforme as enfermeiras a interrogavam e os médicos a repreendiam, ela via suas mãos ficando transparentes pela perda de sangue... ‘Eu me lembro das enfermeiras me dizendo que se eu não dissesse o nome do médico que fez o aborto em mim elas me deixariam sangrar até morrer’.” (16 anos de idade)17 Diretrizes legislativas sobre confidencialidade médica são contraditórias. De um lado, a equipe médica tem obrigação legal de denunciar possíveis crimes às autoridades;18 de outro, os profissionais são legalmente isentos de declarar na corte informações recebidas confidencialmente dos pacientes.14 Tais diretrizes existem na maioria dos países latino-americanos, mas no Chile não há um consenso sobre como o conflito legal deveria ser solucionado. Entretanto, a Corte Interamericana de Direitos Hu- 81 B. Shepard, L. Becerra / Questões de Saúde Reprodutiva 2008;3(3):79-88 manos declarou recentemente que a proteção da confidencialidade médica deve ser o interesse a prevalecer no relato de crimes.19 Quaisquer que sejam as ambigüidades legais, o número de casos de aborto relatados ao sistema de Justiça penal desde o advento da democracia tem diminuído significativamente e foi menor que 0,5% dos abortos atendidos em hospitais em 2001, ou menos de 0,01% de todas as investigações criminais da Procuradoria e da Defensoria. Segundo a opinião geral, os casos em hospitais tendem a ser denunciados às autoridades apenas quando há probabilidade de morte, ou em casos de perfuração uterina, já que isso implica auditoria no hospital.5 Em 2000, 46 mulheres foram consideradas culpadas por aborto e 31 em 2001.20* De acordo com dados da Procuradoria, das 69.960 investigações criminais em 2003, 29 foram relacionadas a abortos.21† Atualmente, as mulheres que são processadas não são mais presas; a Procuradoria impõe “absolvição condicional”, o que significa que as mulheres devem comparecer à Procuradoria mensalmente por cerca de mais de um ano. A maioria dos profissionais médicos6 cita a ética como a principal razão pela qual mais de 99,5% dos médicos e obstetras chilenos não denunciam as mulheres às autoridades. Muito poucos mencionam a confidencialidade médico-paciente. A outra principal razão mencionada é que, se as mulheres temem ser denunciadas, elas irão demorar mais em procurar um hospital, chegando em piores condições. Outros dizem que mesmo quando os médicos são fortemente contrários ao aborto o processo judicial consome tanto tempo que a maioria não quer se envolver. * Essas estatísticas são incompletas, já que no final de 2000 um novo sistema de justiça criminal foi sendo gradualmente implementado com registros paralelos. † Essa informação corresponde a seis regiões onde o novo sistema de justiça criminal foi implementado. 82 A indução de parto ou a realização de uma cesárea em até 22 semanas de gravidez ou mais é atualmente tratada pelos médicos como “interrupção da gravidez”, e não aborto. Todavia, se o profissional não puder comprovar que o procedimento foi indicado do ponto de vista clínico, correrá o risco de ser processado, já que não existem diretrizes médicas oficiais em tais casos. Em um caso muito conhecido, que teve destaque na mídia em 2003, uma mulher com gravidez molar teve negado o pedido de aborto, apesar do respaldo do Medical College ao seu pedido. Finalmente, com 22 semanas, a “interrupção da gravidez” foi realizada depois de a mulher ter desenvolvido sérias complicações de saúde.22 De acordo com relatos, o Ministério da Saúde precisou ir até o cardeal para dar explicações depois de anunciada a resolução do caso. Os médicos entrevistados6 manifestaram opiniões divergentes sobre o que fazer se a vida da mulher estiver ameaçada. Enquanto na prática possa haver uma margem maior do que as leis atuais permitem, não existe uma política uniforme sobre a indicação médica do aborto. Apesar de a lei listar exceções, médicos e alguns estudiosos de Direito penal dizem que as intervenções realizadas para salvar a vida da mulher não estão infringindo a lei, mesmo quando resultam na perda da vida do feto.23,24 Utilizando os mesmos argumentos, alguns acadêmicos e autoridades católicas chilenas também afirmaram que as leis atuais permitem que os médicos salvem a vida da mulher.24 Esse argumento depende das definições católicas do aborto com base na lei canônica. Nas diretrizes atuais de atendimento dos hospitais católicos no Chile e nos Estados Unidos,15,25 a gravidez pode ser interrompida antes de ser viável para salvar a vida da mulher, mesmo se isso resultar na morte do feto. Isso é visto eticamente pela Igreja como “aborto indireto”, já que a principal intenção é salvar a vida da mulher, sendo a perda do feto uma conseqüência infeliz e secundária. B. Shepard, L. Becerra / Questões de Saúde Reprodutiva 2008;3(3):79-88 O caso de gravidez ectópica ilustra essa interpretação ampliada da lei. A maioria dos informantes6 concorda que os médicos chilenos interrompam uma gravidez ectópica, pois de qualquer forma a mulher inevitavelmente morrerá muito antes da viabilidade. Todavia, os médicos relataram dois casos em um hospital católico em que esperaram os batimentos cardíacos do feto cessarem antes de intervir, colocando assim a vida das mulheres em risco. Em 2002, os registros do seguro público de saúde mostravam 408 procedimentos cirúrgicos para gravidezes ectópicas, sugerindo que o número nacional total de procedimentos foi muito maior.26* O Manual de Obstetrícia da Escola de Medicina da Universidade Católica chilena15 menciona outros exemplos de condições em que o “aborto indireto” é justificado: forte sangramento uterino, esteatose hepática e infecção séptica do ovário. Shepard6 encontrou opiniões em outros casos nos quais as bases terapêuticas podem ser aplicadas: • Câncer cérvico-uterino avançado ou câncer ovariano com necessidade de histerectomia – Os informantes relataram que seria feito em todos os hospitais. • Outros cânceres durante a gravidez – A maioria dos entrevistados acreditava que os médicos chilenos ministrariam radiação e quimioterapia quando clinicamente indicados, mesmo com o risco potencial de danos ao feto, mas vários acreditavam que muitos médicos forçariam uma mulher que estivesse no início da gravidez a retardar o trata* Esses números são dados da FONASA (Fondo Nacional de Salud, Ministério da Saúde, República do Chile), que permite a livre escolha do médico no sistema público de saúde. Assumindo que as mesmas taxas são aplicadas em todos os outros estabelecimentos, devem existir mais de 1.800 casos de gravidez ectópica por ano, uma vez que o sistema de livre escolha do médico totaliza 36% do atendimento. mento; os dois casos foram citados. Um especialista relatou que até 2006 a maioria dos estudantes de medicina no curso de Bioética em uma das universidades públicas, quando apresentado com um caso como esse, votou por retardar o tratamento. O aborto não poderia ser considerado uma opção legal, mas todos disseram ser legal tratar do câncer sem realizar um aborto em qualquer tempo de gestação. • Gravidezes molares – Algumas gravidezes molares são potencialmente fatais, resultando em crescimento cancerígeno, sendo necessário tratamento com quimioterapia. No exemplo citado anteriormente, várias pessoas acreditavam que, se o caso não tivesse ido a público, teria sido mais fácil para a mulher encontrar um médico para fazer o aborto. • Anencefalia – Nesses casos, o aborto seria considerado ilegal e a maior parte dos hospitais não o faria, pois a condição não oferece riscos à mãe. Um caso levado à corte no Brasil abriu um precedente legal em 2004 ao permitir a indução do trabalho de parto para essa condição, já que o feto não teria a possibilidade de ter uma vida independente.27 Na Argentina, as cortes decidiram que a indução do parto de uma gravidez de mais de 22 semanas não poderia ser considerada um aborto sob o Código Penal, e assim os médicos têm permissão de induzir o parto.28 • Estupro ou incesto – Todos disseram que nesses casos os abortos não poderiam ser realizados nos hospitais, mesmo nos casos extremos. Em janeiro de 2005, a gravidez de alto risco de uma menina chilena de nove anos de idade, que foi estuprada pelo seu padrasto, ganhou atenção na mídia com ONG de mulheres defendendo a realização do aborto. A menina foi colocada sob proteção do Estado em um abrigo infantil, pois a mãe tinha conhecimento do abuso sexual.29 83 B. Shepard, L. Becerra / Questões de Saúde Reprodutiva 2008;3(3):79-88 Novos desenvolvimentos políticos e legais O Chile é uma sociedade socialmente conservadora que ao mesmo tempo projeta uma imagem internacional de uma das democracias mais modernas, progressistas e estáveis. O indicativo dessa contradição é o atraso na aprovação da lei do divórcio até 2005.30 Em relação ao aborto, poucas mudanças têm ocorrido nos últimos 17 anos, desde o fim da ditadura militar. Desde 1989, o país viu três esforços malsucedidos para a liberação da lei: em 1991, 2001 e 2006-2007 (Boletin Legislativo n. 449-07, n. 197-11 e n. 4845-11, respectivamente). Em contrapartida, a direita conservadora propôs uma legislação que poderia impor duras penas àqueles considerados culpados pelo aborto. Mesmo sob o regime ditatorial, os legisladores anti-escolha não puderam impor penas severas. Além disso, quatro projetos de lei semelhantes entre 1990 e a eleição de Bachelet em 2006 também foram anulados, apesar de, 1998, um projeto ter perdido por apenas um voto no Senado. Uma deliberação do Ministério da Saúde em 2003 permitiu certidões de óbito médicas nos casos de aborto espontâneo quando os pais reivindicavam os restos mortais para o enterro.* Embora na maioria dos países ocidentais essa prática seja uma demanda dos pais, no caso do Chile, os membros do Congresso, em 2007, levaram à apreciação um projeto de lei sobre o mesmo tema, argumentando que o feto é uma pessoa a partir do momento da fertilização (“concepção”, na linguagem deles), necessitando ser tratado do mesmo modo que uma pessoa (Boletín Legislativo n. 5261-11). * Decreto 216/03 Ministério da Saúde, Diário Oficial, 17 de dezembro de 2003, que modificou o Reglamento General de Cementerios (Regulamento Geral de Cemitérios) 357, Junho 1970. 84 Desde a eleição de Bachelet, em janeiro de 2006, tem havido muito alvoroço de atividades legislativas anti-escolha. Sete projetos de lei foram apresentados em pouco menos de um ano, incluindo um que propõe que a descriminalização do aborto exija uma emenda constitucional, necessitando de 60% de aprovação (Boletín Legislativo n. 4121-07). Esse projeto e outro que propõe a mesma emenda no Código Penal foram apresentados menos de duas semanas antes de Michelle Bachelet tomar posse. Hoje, o aborto está criando parcerias sem precedentes. Por exemplo, a recém-criada tribuna de “Direito à Vida” no Congresso inclui deputados de oposição de direita, assim como de democrata-cristãos e outros da coalizão dirigente de centro-esquerda (Concertación), que recebeu apoio de 61 dos 120 deputados.31 Quatro deputados, dois da Concertación e dois da oposição, chegaram ao ponto de propor uma nova cláusula no Código Penal para qualquer indivíduo que cause danos ou ferimentos ao feto, com exceção da mulher (Boletín Legislativo n. 4307-07). Ao mesmo tempo em que tal projeto de lei pode oferecer um conforto para as mulheres nos casos de danos fatais ao feto devido à negligência,32 nesse contexto isso provavelmente foi pensado como mais uma pedra para o caminho de concessão de uma identidade pessoal ao feto. Desde 2001, grande parte do debate judicial sobre a contracepção de emergência no Chile também envolve o status legal do feto.33,34 Os mesmos deputados apresentaram outro projeto de lei em janeiro de 2007 propondo a construção de três monumentos em honra dos não-nascidos vítimas de aborto (Boletín Legislativo n. 4818-24). Outros projetos de lei ou esclarecem ou adicionam restrições às clausulas existentes nos códigos Penal e da Saúde. Uma proposta bane todos os procedimentos cirúrgicos ou clínicos, B. Shepard, L. Becerra / Questões de Saúde Reprodutiva 2008;3(3):79-88 tratamentos, terapias, prescrições ou administração de medicamentos com o objetivo de obter um aborto (Boletín Legislativo n. 4447-11), apesar de não incluir o tratamento de câncer, que pode causar aborto espontâneo. Outra inclui o aborto, inter alia, na lista de ofensas criminais nas quais se torna mais difícil para a Procuradoria suspender as investigações criminais (Boletín Legislativo n. 4320-07). Outra desautoriza a aplicação das circunstâncias atenuantes do Código Penal, tal como ausência de condenações anteriores, para os casos de aborto (Boletín Legislativo n. 4350-07). O gabinete de Bachelet geralmente permanece em silêncio quando a questão do aborto surge na mídia ou no Congresso. Desde 1990, todos os ministros da Secretaria Nacional da Mulher (Servicio Nacional de la Mujer), incluindo a atual ministra, têm repetido o mesmo mantra: aborto “não está em nossa agenda legislativa”. Isso é um reflexo de tensões internas crônicas sobre qualquer questão envolvendo sexualidade e reprodução,35 que atingiu um ponto alto com a intensificação do debate sobre contracepção de emergência desde 2001.34 Qualquer proposta para permitir o aborto terapêutico está difícil nesse clima. Dois deputados que apresentaram um projeto de lei em novembro de 2006 para a descriminalização do aborto nas primeiras 12 semanas de gravidez se depararam com uma reação histérica da oposição, que disse que tal proposta deveria ser barrada no processo legislativo como sendo inconstitucional. A Câmara, liderada pelos socialdemocratas progressistas, concordou, decretando que a proposta era inadmissível, o que causou muito tumulto.31 Alguns democratacristãos ameaçaram seus partidos de deixar a coalizão governante se a proposta continuasse em processo legislativo. Esses argumentos foram legalmente falhos e politicamente desonestos; mudanças no Código Penal não necessitam emendas constitucionais (Boletín Legislativo n. 4121-07).36,37* Apesar dos esforços do Executivo para conter o tumulto sobre essa questão dentro da coalizão governante, um segundo projeto de lei sobre aborto terapêutico foi apresentado com mais cláusulas do que a lei em vigor até 1989. Além das exceções para salvar a vida e saúde da mulher, a proposta inclui exceções em casos de estupro e quando o feto está seriamente malformado. Isso foi considerado admissível, mas, quando pressionado, o governo declarou que nem mesmo o aborto terapêutico estava na agenda legislativa do Executivo.38 Desde os anos 1990, o governo chileno tem ignorado repetidas recomendações de comitês internacionais de direitos humanos sobre as leis, políticas e práticas chilenas restritivas ao aborto: o Comitê de Direitos Humanos em março de 1999, o Comitê do CEDAW† em junho de 1999, a Convenção Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais em 2004 e o Comitê Contra a Tortura em 2005. Mais recentemente, em 2006, o comitê que trata da Convenção para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher das Nações Unidas recomendou que o Chile revisasse sua legislação sobre aborto.39 * Essas distorções no processo legislativo democrático, juntamente com a manipulação da informação, caracterizaram o processo político em várias questões recentemente. Trinta e cinco livros de educação sexual e diretrizes clínicasforam censurados pela igreja católica ou seus aliados, que pressionaram os ministros a prevenir a circulação de informação considerada contrária aos ensinamentos da igreja. Por exemplo, a publicação voltada para os pais, parte de um programa de educação sexual em 2005, ¿Y ahora, qué digo? (E agora, o que digo?), foi arquivada pois continha conteúdo sobre masturbação. † Committee on the Elimination of Discrimination against Women – Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. 85 B. Shepard, L. Becerra / Questões de Saúde Reprodutiva 2008;3(3):79-88 Em contraste com a elite política conservadora, os chilenos mantêm visões mais progressistas sobre esse assunto. Uma pesquisa com uma amostra representativa de mulheres realizada em outubro de 2006 mostrou que 75%, 71% e 68% das mulheres, respectivamente, aprovavam a legalização do aborto nos casos de risco à vida da mulher, estupro ou malformações fetais sérias.40 Todavia, assim como provou a demora na legislação sobre o divórcio no Chile, somente a opinião pública favorável não é suficiente para incentivar os políticos eleitos a enfrentar as pressões políticas da Igreja e seus aliados. Discussão Enquanto as restrições ao aborto afetam todas as mulheres, a carga é mais pesada para as mulheres de baixa renda que dependem de instituições de atendimento à saúde pública, onde também há maior vigilância do Estado. A maior parte dos danos causados às mulheres é invisível e desconhecida, com nenhum dado de pesquisa: o trauma emocional de procurar um procedimento ilegal ou de carregar uma criança não desejada, as conseqüências para a saúde de uma gravidez contra-indicada ou de procedimentos inseguros, o trauma de enfrentar um processo criminal se for pega e a morte para algumas poucas desafortunadas. Os dilemas encarados por profissionais médicos nos casos em que a saúde das mulheres está ameaçada são consideráveis. A falta de diretrizes médicas sobre quando é permitida a interrupção da gravidez, acompanhada do medo de um processo, colocam ambos, profissionais médicos e mulheres, em uma posição altamente vulnerável. Quando a gravidez ameaça seriamente a saúde da mulher, os médicos devem esperar até 22 semanas para interromper a gravidez. Alguns tratamentos de câncer, quando adiados, e mesmo o atraso em intervir na gravidez ectópica causam ris- 86 cos adicionais para a vida e saúde da mulher. A tomada de decisão sob essas circunstâncias é altamente arbitrária e carregada de perigos éticos e legais. Em casos bem definidos em que a interrupção é necessária para salvar a vida da mulher, as diretrizes clínicas católicas permitem um “aborto indireto” no país onde o aborto não é permitido para salvar a vida da mulher. Ao mesmo tempo em que essa “válvula de segurança” permite que alguns médicos possam cumprir com suas responsabilidades em relação às mulheres, também cria um clima de ambigüidade e negação em razão da falta de diretrizes médicas específicas ou de legislação que poderia inequivocamente proteger a saúde das mulheres e resguardar tanto as mulheres quanto os médicos de um envolvimento judicial. A atual situação política no Chile não parece favorável a uma mudança na lei sobre aborto. O governo de Bachelet agiu corajosamente para defender o acesso universal à contracepção de emergência nos serviços de saúde pública, e como resultado tem enfrentado críticas e divergências dentro de seu próprio partido sobre essa medida de saúde altamente popular. Esforços recentes para a liberação das leis e políticas de aborto no Uruguai, Brasil e México sugerem que a chance do Chile pode depender da vontade política da comunidade médica para seguir nesse desafio político e procurar uma mudança no status quo. Sem a liderança política dessa influente comunidade, é improvável que os líderes políticos assumam os consideráveis riscos políticos associados à liberalização das leis chilenas. Agradecimentos Os autores gostariam de agradecer o apoio da Fundação Ford na realização do estudo de Bonnie Shepard. Desejam também agradecer Claudia Dides, da FLACSO, Chile, pelas preciosas informações fornecidas durante o estudo e neste artigo. B. Shepard, L. 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Abortion incidence has probably decreased since 1990, when data were last studied, due to increased use of contraception and lower fertility, and deaths and complication rates have fallen as well. Misoprostol is available, but Chilean hospitals are still using D&C for incomplete abortions. Although Chilean medical professionals should by law report illegal abortions to the authorities, less than 1% of women in hospital with abortion complications are reported. There are two loopholes, one legal, one clinical. ‘‘Interruption of pregnancy’’ after 22 weeks of pregnancy is legal for medical reasons; this may save some women’s lives but can also force prolongation of health-threatening pregnancies. Catholic clinical guidelines define interventions solely aimed at saving the woman’s life, even if the fetus dies, not as abortion but ‘‘indirect abortion’’ and permissible. Since 1989, three bills to liberalise the law on therapeutic grounds have been unsuccessful. The political climate is not favourable to changing the law. Conservatives have also not succeeded in making the law more punitive, while the governing centre–left coalition is divided and the associated political risks are considerable. A2007 Reproductive Health Matters. All rights reserved. 88