PROJETO ALFA NERUDA TRABALHO DE DIVULGAÇÃO SEMINÁRIO ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS DA PECUÁRIA LEITEIRA NO BRASIL. QUARTA, 26 DE ABRIL DE 2006 Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Decanato de Pesquisa e Pós-Gradução Instituto de Zootecnia Programa de Pós-Graduação em Zootecnia CPDA-Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade RIO DE JANEIRO - BRASIL Carlos Augusto de Oliveira – João Carlos de Almeida Carvalho - Tania De França Padilha SUMÁRIO RESUMO.................................................................................................... 3 INTRODUÇÃO........................................................................................... 4 APRESENTAÇÃO DO SEMINÁRIO.............................................................. 5 APRESENTAÇÃO DO PROJETO ALFA-NERUDA Dr. JUAN LERDON FERRADA.................................................................................................. Introdução...................................................................................................... Objetivos........................................................................................................ Os Países e as Instituições Participantes........................................................... Apresentação de Resultados ........................................................................... Apresentação de Resultados............................................................................ Conclusão....................................................................................................... 6 6 6 7 8 9 10 ANÁLISE TÉCNICA ECONÔMICO DO SISTEMA DE PRODUÇÃO DE LEITE E CARNE. Dr. JUAN LERDON FERRADA..................................................... 11 A Produção de leite nas Regiões Chilenas......................................................... 11 A Metodologia de Gestão do Programa Todoagro.............................................. 12 A CADEIA LÁCTEA NO SUL DO BRASIL Dr. EUGENIO AVILA PEDROZO.... Introdução...................................................................................................... Considerações Sobre o Setor Lácteo Brasileiro................................................... Uma Visão Geral do Rio Grande do Sul............................................................. 15 15 15 16 ASPECTOS ECONÔMICOS DA UTILIZAÇÃO DE PASTAGENS NA PECUÁRIA . Dr. LEOVEGILDO LOPES DE MATOS.......................................................... Introdução...................................................................................................... Sistema de Produção de Leite Para o Brasil....................................................... Produção de Leite a Pasto............................................................................... Animal Eficiente Para a Produção de Leite........................................................ 19 19 21 23 25 DINÂMICA ATUAL DA CADEIA DE LÁCTEOS NO BRASIL. Dr JOHN WILKINSON........................................................................................…... 33 Introdução...................................................................................................... 33 A Cadeia de Lácteos........................................................................................ 34 CONCLUSÕES............................................................................................ 35 ANEXO 1 PROGRAMA DO SEMINÁRIO...................................................... 36 ANEXO 2. REGISTROS FOTOGRÁFICOS.................................................... 37 2 RESUMO O Seminário apresentado nesta publicação faz parte da jornada de divulgação que as Universidades participantes do Projeto ALFA NERUDA tem se comprometido a realizar. Para divulgar as atividades do projeto e debates acadêmicos a respeito do desenvolvimento leiteiro de nossos países. Para este trabalho foi escolhido como tema de discussão Aspectos Sócios Econômicos da Pecuária Leiteira no Brasil. A pesquisa sobre o tema em questão é de extrema necessidade para traçar o perfil socioeconômico da pecuarista leiteiro. A investigação pelas universidades viabiliza a criação e delimitação de estratégias que possibilitem o incremento da competitividade dos produtores de leite. O crescimento e desenvolvimento do setor leiteiro brasileiro é evidente. Entretanto, encontra dificuldades a serem superadas no que diz respeito a um ter um produto com condições de competitividade no mercado. Baseando se em suas experiências, o Dr Juan expõe um trabalho de Gestão de Empresas Rurais. O qual ressalta a importância da administração da propriedade rural de forma empresarial. As decisões para a elaboração do planejamento e execução deste são baseado em acessórias técnicas (agronômica, nutricional, veterinária etc). Buscando enriquecer o trabalho o Dr. Eugenio Pedrozo em sua preleção além de mostrar a situação do setor lácteo nacional relatou a situação do setor Lácteo no Rio Grande do Sul. Demonstrando a importância do papel do pequeno produtor de leite no contexto da produção de leite deste estado e a importância de empresas como a Elegê e a Parmalat no setor de lácteos. Seguindo o objetivo do desenvolvimento da pecuária leiteira o Dr. Leovegildo Matos faz colocações importantes com relação ao sistema produtivo. Enfatiza a importância da utilização do sistema produtivo de leite a pasto com a utilização de animais de potencial produtivo médio para compatibilizar suas necessidades nutricionais com a condição de produção da pastagem. O Dr.Matos ratifica o potencial produtivo das gramíneas tropicais para a produção de leite com menor custo de produção. Por fim o Dr. John Wilkinson discursou sobre a dinâmica da cadeia de lácteos realçando o incremento na produção nacional de leite. A mudança no perfil de importador de leite para exportador de leite. A importância das cooperativas e laticínios na captação de leite no mercado nacional de lácteos. Finalizando com uma análise sócio econômica do setor lácteo. 3 INTRODUÇÃO A atividade leiteira levanta grandes temas sobre o seu desenvolvimento de forma sustentável e produtiva. A análise socioeconômica do setor de lácteos nos revela a importância das propriedades de origem familiar e da atual realidade do desenvolvimento destas propriedades. Dentro desta temática, evidenciamos o papel das universidades no debate por uma análise do sistema de produção de leite, objetivando o delineamento de metas que busquem uma maior produtividade com menores custos de produção. Na ultima década a produção nacional tem mantido uma taxa de crescimento de 4% ao ano. Apesar do incremento da produção nacional de leite, o produtor de leite brasileiro demonstra ineficiência no desempenho do sistema produtivo e administrativo das propriedades leiteiras que refletem em baixos níveis produtivos/hectare. A manutenção de uma atividade leiteira sustentável é o principal desafio a ser superado.Os baixos preços recebidos pelo leite desestimulam a manutenção dos produtores na atividade. A propriedade leiteira de natureza familiar tem um relevante papel social na geração de empregos. O ultimo senso agropecuários revelou que a cada 10 empregos gerados no campo, 7 são gerados pela agricultura familiar. Como também que cerca de 50% do leite produzido tem origem em propriedades de cunho familiar. Outro aspecto de grande importância a ser analisado é a baixa adoção de técnicas de gestão e utilização de tecnologias de produção. Essas ferramentas são importantes para o desenvolvimento de uma atividade sustentável. Logo esses temas nos trazem a importância do papel das universidades como investigadoras das vulnerabilidades do sistema e o seu papel para gerar estratégias que permitam incrementar a sustentabilidade da atividade leiteira. Este seminário tem como objetivo contribuir e reforçar este papel. 4 APRESENTAÇÃO DO SEMINÁRIO. A reunião de hoje tem como objetivo apresentar algum aspecto sócio econômico da pecuária leiteira brasileira. Além de integrar os temas que envolvem o seu desenvolvimento da atividade leiteira como a importância Ada atividade familiar e a importância do sistema de produção para uma atividade mais sustentável. O trabalho será composto por 4 preleções, sendo iniciado pelo Dr. Juan Ricardo Lerdon Ferrada. O qual é professor titular da Univerdidad Austral de Chile, Diretor do projeto ALFA-NERUDA. Doutor em Economia Agrária, com especialização em Gestão de Empresas Agrícolas. Terá continuidade com o Dr. Eugenio Ávila Pedrozo que é professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do sul, Doutor em Gestão pelo Institut National Polytechnique, França. A terceira exposição será apresentada pelo Dr. Leovegildo Lopes de Matos. O qual é Gerente do Núcleo Sul de Apoio a Pesquisa e Transferência de Tecnologia para o Setor Leiteiro, da Embrapa Gado de Leite; PhD, Nutrição de Ruminantes, Cornell University. A última preleção será ministrada pelo Dr. John Wilkinson. O qual é professor do CPDA da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pós-doutorado em Sociologia Econômica na Universidade de Paris XIII. 5 PROJETO ALFA NERUDA: NOVAS EMPRESAS RURAIS E DESENVOLVIMENTO AGRÍCOLA. UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE DE GESTÃO. 1Dr. Juan Lerdon Ferrada Introdução O Projeto Alfa é um programa de cooperação entre a União Européia e a América Latina no ambiento do ensino superior e de formação. As atividades são executadas por instituições de cada região. Proyecto Alfa Neruda : Nuevas Empresas Rurales y Desarrollo Agrícola. Una contribución al desarrollo de las capacidades de gestión. Ing. Agr. Dr. Juan Lerdon Universidad Austral de Chile Figura 1. Apresentação inicial do Projeto ALFA-NERUDA. Objetivos do Projeto O objetivo geral do projeto é desenvolver metodologias para o estudo de sistemas produtivos rurais, criando e aplicando ferramentas que permitam caracterizar, assim como a análise de sua capacidade de gestão, tomando como referencia os produtores de leite da América Latina e Europa. O projeto apresenta objetivos específicos, como: • Criar uma instancia de coordenação, investigação e intercambio de experiências entre os acadêmicos e pesquisadores, na área de gestão. Realizar uma caracterização do sistema leiteiro dos países que compõe a rede. • Entrar em consenso nas metodologias específicas de investigação. Gerar a capacidade de gestão dos participantes. • Criar e ou implementar os instrumentos de apoio para a gestão.Promover as discussões e reflexões acadêmicas sobre ferramentas de gestão empresarial através de trabalhos com os estudantes. . Juan Ricardo Lerdon Ferrada é professor titular da Univerdidad Austral de Chile, Diretor do projeto ALFA-NERUDA. Cursou Engenharia Agronomica Universidad Austral de Chile. 1976. .Magister em Economia Agrária, com especialização em Gestão de Empresas Agrícolas. Universidad de Toulouse, Francia. 1985. Doutor em Economia Agrária, com especialização em Gestão de Empresas Agrícolas. Universidad de Toulouse, Francia. 1987. 1 6 Proyecto Alfa Neruda. Objetivos. Objetivo General: Desarrollar metodologías para el estudio de sistemas productivos rurales, diseñando y aplicando herramientas que permitan su caracterización, así como el análisis de las capacidades de gestión, tomando como marco de análisis, los productores de leche de América Latina y Europa. Figura 2. Objetivo geral do projeto. Proyecto Alfa Neruda. Proyecto Alfa Neruda. Objetivos. Objetivos. Objetivos específicos: 1. Crear una instancia de coordinación, investigación e intercambio de experiencias entre académicos e investigadores, en el área de gestión. 2. Realizar una caracterización de los sistemas lecheros de los países de la Red. 3. Consensuar metodologías específicas de investigación. Objetivos específicos: 4. Generar capacidades de gestión en los participantes. 5. Diseñar y/o implementar instrumentos de apoyo a la gestión. 6. Promover la discusión y reflexión académica sobre herramientas de gestión empresarial vía el trabajo con estudiantes y académicos. Figura 3. Objetivos específicos do projeto. Os Países e as Instituições Participantes. O projeto Alfa tem a como participantes os países a seguir: Chile, Brasil, Uruguai, Costa Rica, Cuba , Espanha, França, Itália e Suécia. Proyecto Alfa Neruda. Red: Nueva ruralidad SUECIA BRASIL URUGUAY FRANCIA CHILE CUBA ESPAÑA ITALIA COSTA RICA Figura 4. Países participantes do projeto. 7 Figura 5. Países participantes do projeto com suas respectivas instituições. Os resultados obtidos pelo projeto. O Projeto já realizou 4 seminários, 4 documentos de trabalho editados, 18 reuniões de difusão realizada, a página da web em funcionamento, fez estudo comparativo da capacidade de gestão de sistemas leiteiros, realizou 9 teses (monografias e dissertações) e 9 publicações aceitas em revistas especializadas.As realizações seguem o plano de trabalho estabelecido no projeto. Figura 6. Resultados e verificadores. 8 Figura 7. Calendário de trabalho. Responsabilidades dos participantes. As instituições anfitriãs e coordenadoras de Seminários Internacionais que serão responsáveis pelas reuniões: a primeira reunião no Chile – Universidad Austral de Chile, a segunda reunião na Itália – Universidad Politectnica delle Marche. A terceira na Espanha – Universidad Oviedo ea quarta reunião em Cuba - Universidad de Granma. Todas as instituições participantes farão atividades de investigação e difusão. Logo, participam das reuniões de inclusão e análise. Tem de realizar pelo menos 2 atividades de divulgação ao ano em cada país, fazendo conhecer os avanços e os resultados do projeto e fazer a caracterização dos produtores e sistemas produtivos leiteiros de seus países de origem. Servir como um instrumento de apoio de gestão para pelo menos 10 produtores por país. Redigir um trabalho por país (monografia ou dissertação). Realizar pelo menos uma publicação científica por país. A REDCAPA é responsável pela construção, administração e manutenção da página da Web. Como também é responsável pelo suporte e manutenção de fóruns e debates entre acadêmicos e estudantes. Como também foi apresentado em quadro especificando as atividades financiadas (Figura 8). 9 Figura 8. Financiamento das atividades. Conclusão Os projetos ALFA fontes de financiamento que permitem formar redes de investigação, desenvolvimento de professores e estudantes, fortalecendo os processos de desenvolvimento rural da América Latina e da Europa. O Projeto ALFA-NERUDA, coordenado pela Universidad Austral de Chile e formado por 10 instituições da Europa e América Latina, tem permitido iniciar o desenvolvimento de uma investigação, visando a caracterização dos sistemas produtivos leiteiros tendo com eixo central os espaços rurais onde se encontram e a capacidade de gestão dos atores sociais. 10 ANÁLISE TÉCNICA ECONÔMICA DO SISTEMA DE PRODUÇÃO DE CARNE E LEITE. Dr Juan Ricardo Lerdon Ferrada. A Produção de leite nas Regiões Chilenas. A quantidade de leite recepcionado no Chile foi de 1.676.000 milhões de litros no ano de 2004. A distribuição percentual de acordo com a participação da região esta descrita na Figura 1 abaixo. Figura 1. As Regiões do Chile com sua respectiva porcentagem na recepção do leite. O Chile é distribuído em quatro Regiões: Região Metropolitana, a VIII Região, IX Região e a X Região. A Região Metropolitana tem uma participação de 11% do volume total de leite recepcionado. Esta região caracteriza-se por apresentar empresas tecnificadas, utilização de animais da raça Holstein, com produção intensiva em confinamento. O objetivo desta região é a alta produção por vaca (9.000–14.000 litros de leite/lactação) com a utilização de alta carga de animal por hectare (> 3 UA/ha). Os rebanhos são grandes e apresentam de 400 a 2.000 cabeças em ordenha. A base alimentar é a silagem de milho, alfafa em várias formas e o concentrado. A quantidade utilizada de concentrado por lactação é superior a 3.000 kg/lactação. A VIII Região tem uma participação de 9,5% do volume total de leite recepcionado. Caracteriza-se por empresas tecnificadas, utilizam a raça Holstein e apresenta dois tipos de rebanho: de alta produção e produção intermediaria. Cerca de 10% do rebanho é de alta produção (9.000–14.000 litros/lactação) e 90% do rebanho têm produção média (6.000–9.000 litros/lactação). A carga animal utilizada é mediana, aproximadamente 2 UA/ha . Os rebanhos são pequenos, 90% como menos de 200 vacas em ordenha e 10% com 400–800 vacas em ordenha. 11 A alimentação tem como base a silagem de milho, a alfafa em várias formas, uma leve incorporação de pastos de gramíneas e o concentrado. A utilização de concentrado por lactação é de cerca de 1.500 – 3.000 kg/lactação. A IX Região tem uma participação de 14% do volume total de leite recepcionado. Caracteriza-se por apresenta empresas tecnificadas, com produções médias, vacas semiconfinadas e raça 50-100% Holstein. Os animais apresentam produções moderadas de 6.000–7.000 litros/lactação. A carga animal utilizada é média, 1 a 2 UA/ha. Apresentam rebanhos de tamanho intermediários com 200–300 vacas. A alimentação tem como base o sistema pastoril, pastos e leve incorporação de silagem (milho e alfafa) e o concentrado. A utilização de concentrado por lactação é de 1.000–2.000 kg/lactação. A X Região tem uma participação de 65,5% do volume total de leite recepcionado.Caracteriza-se por apresenta empresas tecnificadas com produção extensiva e sem confinamento. A raça utilizada tem menos de 75% de Holstein. Apresenta uma baixa produção de leite (4.000–6.000 litros/lactação) e uma baixa utilização de UA/hectare (< 1,5 UA/ha). Os rebanhos são pequenos (< 200 vacas). A base alimentar é o sistema pastoril, o qual depende do crescimento da forrageira e da alta estacionalidade. A utilização de concentrado por lactação é considerada baixa (< 1.500 kg/lactação). Metodologia do Programa de Gestão Todoagro. A metodologia do Programa de Gestão Todoagro (Figura 2) expõe a necessidade de um diagnóstico, planejamento e coordenação da empresa rural. Figura 2. Metodologia do Programa Todoagro. 12 Figura 3. Esquema de funcionamento da acessória. Todas s decisões são baseadas nas acessórias agronômicas, veterinária, nutricional e administrativa. O objetivo é atingir um resultado real com base no préestabelecido no projeto. Os resultados são avaliados a partir: das entradas brutas - os custos de produção = a margem bruta obtida no negócio. Sendo que é considerado como entrada bruta todas as entradas incluindo os consumos internos e as variações dos inventários. Os custos diretos são os custos facilmente atribuíveis ao negócio, por exemplo: o concentrado e fertilizantes para trigo. Os custos gerais incluem a administração, vendas e custos indiretos (os quais normalmente não são facilmente atribuíveis ao negocio produtivo). Figura 4. Avaliação da rentabilidade econômica, residual e a margem bruta por hectare. 13 Figura 5. Representação dos negócios. Figura 6. Exemplo do calculo de custo. 14 A CADEIA LÁCTEA NO SUL DO BRASIL. 1 Dr.Eugênio Ávila Pedrozo Introdução A indústria agroalimentar muitas vezes é caracterizada como um setor tradicional, onde a inovação é preponderantemente de caráter incremental (BYÉ; GALIZZI; VENTURINI, 1998) e o baixo valor agregado de muitos produtos agrícolas não manufaturados coloca a escala de produção como fator determinante de rendimento. Apesar disso, existem setores que têm buscado inovações mais radicais em seus produtos para alcançar novos mercados e diferenciar-se de produtos concorrentes. E é através de mudanças de processo e adição de novos ingredientes que o setor lácteo brasileiro tem conseguido ganhar competitividade e agregar valor em seus produtos. Para que o produto inovador tenha aceitação comercial, é fundamental saber quais aspectos são mais apreciados hoje pelo consumidor - como qualidade, segurança, propriedades diferenciadas ou apresentação prática e atrativa dos alimentos. Neste contexto, a partir de descobertas científicas - que identificaram relações entre certas substâncias naturalmente presentes ou adicionadas em determinados alimentos e diversos benefícios à saúde e bem-estar ao consumi-los o desenvolvimento dos alimentos funcionais trouxe excelentes oportunidades de inovação para a indústria de alimentos. Isso é demonstrado, uma vez que a maior informação do consumidor sobre as conseqüências dos maus hábitos alimentares vão de encontro com as alegações de saúde ao se consumir estes novos produtos. A necessidade de inovação da indústria Láctea brasileira parece ser uma necessidade urgente. A verdade é que, embora o país figure entre os maiores produtores de leite do mundo, o consumo no mercado interno permanece restrito a produtos de baixa diferenciação, embora mundialmente seja o setor lácteo o responsável pelo maior número de lançamentos entre os alimentos funcionais. A partir destas constatações, buscou-se apresentar e discutir neste artigo o grau de desenvolvimento da indústria Láctea brasileira no que se refere à nova tendência mundial de inovação via alimentos funcionais, através de estudo de caso de uma nacionalmente representativa empresa de produtos lácteos - Elegê Alimentos S.A. O texto foi estruturado da seguinte forma: a primeira seção apresenta uma contextualização do setor lácteo brasileiro e a segunda parte trata das tendências para este setor lácteo, com destaque para os alimentos funcionais. Em seguida se apresentou o estudo de caso na Elegê Alimentos S.A., juntamente com as considerações finais e as referências que embasaram o estudo. 1 O Dr. Eugenio Ávila Pedrozo é professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do sul, Doutor Em Gestion, Mestrado em Administração, graduado em Ciências Contábeis, Administração de Empresas e Engenharia Agronômica respectivamente pelo Institut National Polytechnique, Brasil; Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Brasil, Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Brasil; Universidade Federal de Santa Maria, Brasil. 15 2. Considerações Sobre o Setor Lácteo Brasileiro A liberalização da economia brasileira nos anos 1990 gerou impactos em todo o setor produtivo, decorrentes da abertura da economia e entrada de diversas multinacionais no mercado de produtos agropecuários. Se inicialmente isso foi prejudicial, principalmente para as empresas nacionais, que possuíam reduzida inovação e baixa competitividade, a reação dessas empresas, para garantir sua sobrevivência, foi melhorar a qualidade e a diversidade de seus produtos e a eficiência de processo, agregando conjuntamente novas tecnologias de produção e novos ingredientes. Aliados a outros fatores, esses esforços repercutiram no crescimento da economia brasileira, com todos os indicadores econômicos apontando para bons resultados, inclusive queda nas taxas de desemprego (FIPE, 2002). Assim, no setor de leite, por exemplo, houve aumento tanto na demanda interna quanto na externa. A produção de leite no Brasil atingiu 23.320 mil toneladas em 2005, posicionando-o como o sexto maior produtor mundial (ANUÁRIO BRASILEIRO DA PECUÁRIA, 2005). Deste total, os maiores Estados produtores são Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul, sendo que este último apresenta a maior produtividade e potencial de crescimento para tornar-se líder de produção (KRUG, 2005). PRODUÇÃO DE LEITE POR REGIÃO BRASILEIRA (2003) Nordeste 11% Norte 7% Centro-Oeste 16% Sudeste 40% Sul 26% Fonte: IBGE Figura 1. Produção de Leite por Região Brasileira (2003). Fonte: IBGE 2003. Quanto às exportações, a partir de 2004 a balança comercial brasileira de produtos lácteos tornou-se positiva, com perspectivas de crescimento de produção superiores aos maiores produtores mundiais como EUA e Austrália (ALVIM, 2004). Em relação à melhoria dos históricos problemas na qualidade do leite, ações como granelização, aperfeiçoamento genético, melhoramento e modernização das técnicas de produção de leite e pagamento por qualidade do leite já podem ser percebidas no quadro atual (COSTA, 2006), com importante papel do governo, através de regulação, por meio da Instrução Normativa 51 do Ministério da Agricultura (BRASIL, 2002b). 16 Embora exista este quadro de aumento na demanda de leite e derivados, a capacidade de diferenciação e o valor agregado do produto mais representativo em volume – o leite Longa Vida (UHT1) - são bastante baixos (AGROLEITE, 2004). Este produto detém 73% de participação no mercado total de leite no Brasil (NASCIMENTO, 2002). Para o leite UHT, o consumidor geralmente faz sua escolha baseada somente no menor preço, possuindo uma das mais baixas taxas de fidelização por marca para produtos alimentícios: 0,5% (WILDER, 2003). Um mercado assim, gradualmente, acaba se tornando problemático para a cadeia leiteira, cuja profissionalização e exigências de legislação, que buscam qualidade, segurança, dentre outros, entram em conflito com baixo valor que o leite fluido tradicional tem. É num contexto de baixo valor agregado do leite e concorrência com outros produtos que a inovação em direção a produtos de maior valor agregado emerge como uma conduta estratégica para a sobrevivência e melhoria no desempenho das firmas (MILKPOINT, 2005). Neste sentido, quando se observa os últimos lançamentos mundiais das grandes empresas de laticínios, percebe-se uma tendência no desenvolvimento e promoção de novas possibilidades em lácteos funcionais, isto é, produtos que além de suas características básicas tragam benefícios para a saúde ou a qualidade de vida do consumidor, aliando inovação às necessidades do mercado (ROBERFROID, 1998; LÄHTEENMÄKI, 2003). 3.Uma visão geral do Rio Grande do Sul O Rio Grande do Sul apresenta três sistemas produtivos que são classificados de acordo com a produção diária de leite. O sistema tradicional apresenta produções inferiores a 50 litros de leite/dia, o intermediário apresenta produções de 51-200 litros de leite/dia e o tecnificado apresenta produções maiores de 200 litros de leite/dia. O percentual de produtores de acordo com a estratificação que fornecem leite para empresas com SIF no RS foi de 67% (até 50 litros/dia), 21% (50 até 100 litros/dia), 10% (de 100 até 200 litros/dia) e 3% (200 a 500 litros /dia). Tradicional Intermediário Capacidade produção (litros/dia) < 50 51 - 200 Produtividade média (litros/vaca/dia) 10 9 Tamanho do rebanho 5 11 Tecnificado >200 16 25 Tabela 1. SistemaS Produtivos no Rio Grande do Sul. Fonte: PADULA & CASTRO (1998). A produção formal de leite no RS tem crescido em detrimento a produção informal. Como também houve crescimento na produção de lácteos formais.Com 1 UHT – Ultra High Temperature: Sigla utilizada para identificar o processo de estelização comercial do leite, onde este é aquecido a temperaturas entre 408 e 423 Kelvin durante 4-15 segundos e imediatamente envasado em embalagem asséptica especial (TETRA PAK, 1995). 17 relação à produção de leite fluído há um aumento na produção de leite UHT e diminuição do pasteurizado. O volume de lácteos importados pelo RS é representado em 57% de UHT, 36% leite em pó, 4% de queijos e 3% de outros lácteos. Na participação dos Laticínios com SIF na Recepção de Leite no RS em 1999 a presença da Elegê foi marcante representando 53% e da Parmalat representando 20%. Entretanto a Elegê permanece crescendo, a Parmalat teve sua participação diminuída e ocorreu um aumento na participação por outros laticínios. 18 ASPECTOS ECONÔMICOS DA UTILIZAÇÃO DE PASTAGENS NA PECUÁRIA . 1 Dr. Leovegildo Lopes de Matos Introdução Esse trabalho se propõe a esclarecer os efeitos de alguns fatores mais relevantes na determinação dos custos de produção de leite e na sustentabilidade dos sistemas de produção de leite no Brasil. Desses, uma ênfase especial será dedicada as características produtivas e reprodutivas do rebanho leiteiro adequado para os sistemas de produção a pasto. A discussão sobre sistemas de produção de leite e a viabilidade econômica do agronegócio do leite no Brasil não chega a se aprofundar suficientemente para que conclusões sem “paixões” ou a “defesa de interesses” possam servir de marco orientador na tomada de decisões, nos vários níveis, tanto público quanto privado, em benefício da sociedade. Reconhecidamente, a utilização adequada de pastagens por rebanhos leiteiros pode reduzir os custos de produção de leite, principalmente pela redução nos dispêndios com alimentos concentrados, com combustíveis e com mão-de-obra. O conceito-chave é a substituição de combustível, máquinas e equipamentos pela vaca, no processo de colheita da forragem. O benefício imediato é de caráter econômico, com drástica redução nos custos de produção de leite. Além disso, os investimentos com instalações, especialmente aquelas destinadas ao abrigo de animais e maquinário, são menores quando se comparam sistemas a pasto com aqueles em confinamento. Apesar da receita proveniente do leite produzido a pasto ser menor do que a do sistema em confinamento, a margem bruta tem se mostrado superior. VILELA e RESENDE (2001) reavaliaram os dados experimentais de VILELA et al. (1996), com produção de leite a pasto, quando comparado com a produção leiteira, com animais confinados, com preços corrigidos para setembro de 2001, referendaram suas próprias conclusões anteriores mostrando que o sistema de produção intensiva a pasto supera em 34% a margem bruta obtida com vacas confinadas, recebendo dieta completa, apesar dos 20% de redução na produção das vacas mantidas a pasto. Estes autores reportam ainda uma vasta referência sobre as possibilidades de produção a pasto em relação aos sistemas intensivos em confinamento, com uma avaliação econômica detalhada. Dentro do ambiente econômico de busca da eficiência para competir no mercado, o produtor de leite deverá então substituir a velha equação “produção máxima = lucro máximo” por outra expressa da forma: “nível de produção ótimo = lucro máximo”. Uma avaliação da utilização de pastagens por produtores de leite do Estado de New York mostrou que, em média, esses produtores conseguiram reduções nos custos de produção de US$ 153.00 por vaca por ano. Esse montante equivale a uma poupança de três centavos de dólar americano por litro de leite produzido (EMMICK, 1991). Pesquisadores da Pensilvânia (MULLER et al., 1995) mostraram que, com a utilização de pastagens, os produtores americanos tem conseguido elevar os retornos por vaca de US$ 85,00 a US$ 168,00 por ano. O 1 Dr. Leovegildo Lopes de Matos é Gerente - Núcleo Sul de Apoio a Pesquisa e Transferência de Tecnologia para o Setor Leiteiro, da Embrapa Gado de Leite; PhD, Nutrição de Ruminantes, Cornell University, U.S.A., 1988; M.Sc., Nutrição Animal, U.F.V., 1976 e Engº Agrônomo, U.F.V., 1973; 19 A redução nos custos de produção com a utilização de pastagens foi, principalmente, devido à menor dependência do uso de máquinas e implementos, com menor dependência de energia e combustíveis e menos tempo gasto com manuseio dos dejetos animais. O preço do leite recebido pelos produtores não é função dos seus custos de produção, a relação inversa, entretanto, é verdadeira: o custo de produção deve ser função do preço praticado pelo mercado. A partir do entendimento dessa premissa básica, as ações e tomadas de decisão irão privilegiar tecnologias que possibilitem sustentabilidade da atividade leiteira. Com os preços historicamente praticados no Brasil, tanto para os insumos, máquinas, equipamentos, energia e combustíveis, quanto para o leite produzido, as margens de lucro possíveis tem-se tornado cada vez menores, com evidente queda no poder de compra do leite. Some-se a isso os custos financeiros elevadíssimos, o que praticamente impossibilita planejar investimentos muito elevados em pecuária. Devem ser consideradas a evolução, nos últimos 30 anos e as perspectivas futuras de preços dos fatores de produção acima mencionados, em ascensão, com tendência inversa do produto leite, em declínio marcante. Dessa forma, a saída para o produtor é manter seus custos de produção suficientemente baixos, para permitir continuidade de sua atividade produtiva de forma econômica. TABELA 2. Margem sobre o custo da alimentação de vacas mantidas em pastagens tropicais, com dois preços para leite e concentrado. Preço Concentrado (US ¢) Preço Leite (US ¢) Produção Leite (kg/Vaca/dia) 11,2 15,0 22,5 28,1 22,5 28,1 ---------------------------- Margem --------------------------(US ¢/Vaca/dia) 10 15 20 30 Assumindo resposta de 1,3 L de DAVISON (1990). 1,5 5,0 2,2 7,5 3,0 10,1 3,7 12,7 leite/ kg concentrado -2,6 -4,0 -5,3 -6,7 1,3 2,0 2,6 3,2 A grande mudança ocorreu, como esperado, para atender a demanda crescente da indústria laticinista, com interesses no mercado internacional, e como conseqüência, veio a introdução de um preço único, mais baixo, da ordem de A$ 34 centavos/L, e com a possibilidade de flexibilização, que permite variação nos níveis de produção de leite ao longo do ano. O próprio Tom Cowan admite agora (http://www.animalscientist.org/community/node/231) que essa mudança radical do mercado, com um preço único adotado para remunerar o produtor de leite, passou a demandar deste, uma atitude comportamental de mudança cultural. Esses 20 produtores australianos estavam acostumados com preços cotas elevados e, de certa forma, pouco incentivados a elevar suas produções, pois incrementos acima da cota, traziam menor remuneração marginal. A mudança de atitude em relação aos sistemas de produção sazonais também é difícil para quem conviveu por tantos anos com sistemas que “comprovadamente” pareciam corretos. O que está sendo proposto agora pelo QDPI e pelo Centro de Pesquisa em Pecuária Leiteira Tropical, da Universidade de Queensland, da Austrália (http://www.animalscientist.org/community/node/231) como alternativa para as grandes unidades de produção intensiva de leite, seriam os sistemas com rebanhos de tamanho modesto para os padrões australianos (100 a 200 vacas), com produção a baixo custo em unidades simples, baseadas em pastagens tropicais perenes, com alta capacidade de suporte, uso de subprodutos, com rebanho melhor “adaptado”, sugerindo em lugar da raça Holandesa-Frísia, animais da raça Jersey ou AFS (mestiças Sahival:Frísia Australiana), com alguma sazonalidade na produção, baixos investimentos em infra-estrutura e maquinário, com emprego de mão-de-obra familiar. O tipo de rebanho adaptado, assim recomendado, teria menor peso adulto, produção em torno de 4.100 kg/lactação, com níveis de proteína e gordura do leite mais elevados. Estes animais mostram melhor tolerância à radiação solar e calor, alguma tolerância à infestação por carrapatos, facilidade para caminhar e melhor desempenho reprodutivo. Isso mostra claramente que o modelo de produção de leite é definido pelo mercado de lácteos, pelos preços de energia elétrica e combustíveis, custos financeiros, remuneração de mão-de-obra, custos de insumos, e principalmente, preços de grãos, uma vez que estes irão compor as formulações de rações concentradas para as vacas leiteiras. Assim, é inadmissível ouvir argumentos de “autoridades” do setor leiteiro, de que no nosso país, de dimensões continentais, com vários e diversos ecossistemas e condições edafoclimáticas, existe espaço para todos os sistemas de produção. Trata-se de uma falácia perigosa, partindo de pessoas respeitadas, que respondem a essa indagação, afirmando conhecer várias propriedades trabalhando com o sistema a pasto dando prejuízo ao mesmo tempo em que diz conhecer vários confinamentos operando com lucro. Essa forma de omissão não poderia nunca ser esperada de alguém que tem capacidade de formar opinião, pois o que deveria ser considerado é que nesse país, com dimensões continentais e com diversas condições edafoclimáticas, trabalha com um mercado comum de lácteos, sendo que o preço do leite e, principalmente, suas oscilações é que deveriam indicar um sistema de produção que fosse mais flexível e suportasse as condições impostas por esse mercado. Não é pelo fato do meu avó ter vivido 90 anos, fumando cigarro de palha, charuto, cachimbo e “ciagarro-de-papel”, que me credencia a afirmar que o fumo não afeta a saúde. Sistemas de Produção de Leite Para o Brasil Com as margens financeiras conseguidas pelo setor produtivo primário do agronegócio leiteiro brasileiro, nossos produtores devem considerar como sua atividade principal a produção de forragem de boa qualidade, à qual deverá agregar valor, quando eficientemente transformada em leite, pelas suas vacas. Considerando 21 que a missão desse produtor de leite é fazer de sua profissão uma atividade econômica, seu objetivo principal deve ser o aumento do lucro, pela otimização do desempenho do seu rebanho e não o aumento da produção individual de suas vacas. Isso é possível com a devida otimização da produção de leite da propriedade como um todo, com a eficiente utilização dos seus próprios recursos, com ênfase no manejo e fertilidade dos solos dedicados à produção de forragem, com a menor dependência possível de alimentação comprada e forragens conservadas. Três questões muito importantes, quando se pensa na produção primária do setor leiteiro brasileiro, principalmente após a estabilidade da nossa economia e com a adoção em massa da tecnologia UHT no processamento do leite para produção do “longa-vida”, balizador de preços do mercado interno. A primeira delas é: qual o sistema de produção mais compatível com o agronegócio do leite no Brasil? Em seguida definir quais os alimentos que podem compor o cardápio de nossas vacas e então definir qual o tipo de animal se adequa melhor às condições de manejo e alimentação, com eficiência produtiva, reprodutiva e econômica. De forma alguma se pode aceitar respostas a primeira pergunta como sendo o melhor sistema aquele que dá lucro, ou que determinada tecnologia pode ser adotada em função da relação benefício : custo, pois são muito vagas e evasivas. Afirmar que o custo de produção não é importante, mas sim a margem financeira, é uma forma de tentar “tapar o sol com a peneira”. Se o produtor de leite norteamericano tem custo elevado se comparado ao produtor neozelandês, embora ambos consigam margem financeira semelhante, digamos de cinco centavos por litro comercializado, temos que entender que isso só é possível em função dos preços praticados por esses dois “mercados”, que remuneram seus produtores de maneira muito distinta. Um localizado no hemisfério norte, com um grande mercado doméstico subsidiado e o outro em latitude sul quase extrema, produzindo leite para o mercado internacional, com consumo doméstico insignificante. No nosso caso, os dois sistemas de produção, norte-americano ou neozelandês, praticados no Brasil, teriam obrigatoriamente de depender do mercado único, com preço bastante padronizado, para remuneração do leite. A conseqüência óbvia é que isso proporcionaria margens distintas para esses dois sistemas, e no longo-prazo, um teria que sucumbir, logicamente, aquele com custos mais elevados e conseqüentes margens inferiores. A história recente da nossa pecuária leiteira está mostrando o quanto o mercado tem sido cruel com aqueles que trabalham com custos de produção incompatíveis com nosso mercado. A fuga em dizer que não adianta reduzir os custos de produção, porque a industria laticinista irá praticar preços ainda menores é uma visão distorcida dos fatos: os preços recebidos pelos produtores apresentam tendência histórica de queda, com perspectivas futuras de continuidade. Aqueles que, na gestão dos seus meios e recursos, adotarem tecnologias adequadas, que permitam baixar seus custos de produção, poderão alcançar a sustentabilidade necessária para permanência na atividade. Essas tendências de preços, principalmente se considerarmos que os insumos mantêm tendência de alta, significa que o processo de gestão deve ser orientado no sentido de baixar os custos futuros, pois se o produtor mantiver seus 22 custos “considerados baixos” hoje, podem levá-lo ao fracasso nos anos posteriores, pois as margens, certamente, serão cada vez menores ou mesmo negativas. Com relação ao sistema de alimentação do rebanho leiteiro, fica muito difícil ser competitivo sem tirar proveito das nossas condições tropicais e sub-tropicais e as vantagens comparativas que são possíveis, com o grande potencial produtivo das nossas gramíneas tropicais. Essas, muito mais eficientes no processo fotossintético e acúmulo de biomassa, devem ser manejadas de forma a permitir aos animais a seleção de dieta com valor nutritivo adequado, com pastejos freqüentes, em função da rápida queda de qualidade que ocorre com o avanço da idade da rebrota. Essa é nossa mais evidente vantagem competitiva na produção de leite com custos baixos e altas produtividades por área. Animais “especializados”, com elevada produção leiteira não podem depender de forrageiras tropicais, sendo que para manter produções mais elevadas, digamos 35 kg/vaca/dia, essas forragens não podem compor o cardápio dessas vacas em função do seu conteúdo energético inferior, que iria diluir demasiadamente a dieta total desses animais – Tabela 3 (COWAN, 1996). Tabela 3. Participação (%) de gramíneas tropicais na dieta de vacas em lactação, em função da produtividade. Leite (kg/vaca/dia) 15 25 35 Energia Metabolizavel (Mcal/kg MS) 2,43 2,64 2,86 % Gramíneas Tropicais na Dieta 80 20 0 COWAN (1996). Produção de Leite a Pasto A utilização adequada de pastagens por rebanhos leiteiros pode reduzir os custos de produção de leite, principalmente pela redução nos dispêndios com alimentos concentrados, com combustíveis e com mão-de-obra (HOFFMAN et al., 1993; VILELA et al., 1996; FONTANELI, 1999). O conceito-chave é a substituição de combustível, máquinas e equipamentos pela vaca, no processo de colheita da forragem. O benefício imediato é de caráter econômico, com drástica redução nos custos de produção de leite. Além disso, os investimentos com instalações, especialmente aquelas destinadas ao abrigo de animais e maquinário, são menores quando se comparam sistemas a pasto com aqueles em confinamento. Apesar da receita proveniente do leite produzido a pasto ser menor do que a do sistema em confinamento, a margem bruta tem sido superior (HOFFMAN et al., 1993; VILELA et al., 1996; FONTANELI, 1999). A tendência de intensificação da produção por animal e por área não é provável que continue, principalmente em países da Comunidade Econômica Européia, onde tal intensificação tem sido suportada por pesados subsídios (LEAVER e WEISSBACH, 1993). Os altos custos dos sistemas de produção subsidiados e da exportação de excedentes não são sustentáveis a médio e longo prazos. Além disso, as implicações do impacto desses sistemas intensificados sobre o meio ambiente têm 23 levado a reformas das políticas ambientais nos países desenvolvidos na América do Norte e na Europa que visam um retrocesso no processo de intensificação dos sistemas de produção de ruminantes (EMMICK, 1991; LEAVER e WEISSBACH, 1993). Essa dita “intensificação” tem sido questionada também pela intensiva utilização de “insumos externos”, principalmente grãos. A produção animal européia necessita da utilização do equivalente a sete vezes a área da Europa Ocidental para produção de grãos, em países do terceiro mundo (SHIVA, 1998). De acordo com WILSON (1998) para a contabilidade da pecuária intensiva e moderna praticada na Europa, deveriam ser levados em consideração os milhões de “hectares fantasmas” cultivados, nos países em desenvolvimento, para suprir alimentos para os animais. Cita por exemplo, que o Reino Unido tem dois “hectares fantasmas” para cada hectare cultivado pelos seus fazendeiros e a Holanda cultiva 2 milhões de hectares, mas importa produtos de 15 a 16 milhões de hectares para alimentar seu povo e seus animais. Por três a quatro décadas após a II Grande Guerra Mundial os produtores de leite no Hemisfério Norte tiraram proveito dos baixos preços da energia elétrica, combustíveis, fertilizantes, pesticidas, máquinas e equipamentos e, com mecanização e utilização de animais de elevada produção individual, conseguiram aumentar os lucros das fazendas. Com as quedas contínuas nos preços do leite e com a elevação dos custos financeiros e dos combustíveis, as margens foram se estreitando e em muitos casos se tornaram negativas. As pastagens exercem duas importantes funções . por um lado devem manter a cobertura vegetal do solo, de forma a manter a integridade de um ecossistema frágil e por outro servir de alimento para os animais que dependam do pasto como fonte de nutrientes. Apesar do possível antagonismo entre estas, o papel primordial do pastor (produtor, técnico) é reconciliá-las, de forma a tirar proveito, otimizando a rentabilidade da área em pastejo (objetivo de curto-prazo) e ao mesmo tempo mantê-la persistente e produtiva (objetivos de longo-prazo). Pesquisas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América buscaram comparar os solos de duas áreas diferentes, uma com pastejo leve e outra com pressão de pastejo mais elevada, ambas pastejadas por 11 anos consecutivos. Esses solos foram comparados com o de uma terceira área, cercada, sem acesso a gado bovino ou grandes herbívoros silvestres, por 40 anos (SENFT, 1996). Os solos das duas áreas pastejadas melhoraram com o tempo, pois os níveis de carbono orgânico e nitrogênio aumentaram em relação ao solo da área sem animais. Nenhuma dessas áreas foi fertilizada. As pastagens exercem um importante papel como ecossistema eficiente no seqüestro de carbono e conseqüente efeito benéfico ao meio ambiente, amenizando o efeito estufa (FOLLETT et al., 2001). No Brasil, a opção pela integração lavourapecuária, além de viabilizar economicamente a produção de grãos e a atividade pecuária, os sistemas de produção animal em pastagens sob plantio direto, podem, potencialmente, contribuir em grau de magnitude maior ainda no seqüestro de carbono (KOCHHANN et al., 2000). 24 Infelizmente, os solos dedicados à produção de forragem, seja para corte ou pastejo, na maioria das nossas bacia leiteiras, estão degradados e erodidos. Nesses solos os nutrientes que não foram perdidos pela erosão foram “carreados” para o meio urbano através do café, arroz, feijão, milho, carne e outros produtos agrícolas, ao longo das diversas lavouras conduzidas no passado. Esses solos hoje, sem a devida correção e reposição dos nutrientes só conseguem manter gramíneas pouco exigentes em fertilidade, como as braquiárias, que, por sua vez, mostram-se pouco produtivas nessas condições. Para manter alguma produção de leite, o produtor muitas vezes é obrigado a utilizar alimentos concentrados, uma vez que as vacas em lactação não conseguem dessas pastagens contribuição adequada para a sua dieta. Muitas dessas pastagens estão em áreas montanhosas e pode-se suspeitar que, principalmente nas épocas mais quentes do ano, esses animais gastem mais energia na busca de alimento no pasto do que a energia contida na forragem consumida. No inverno, com as baixas taxas de crescimento dessas forrageiras, a situação se repete, pela baixa disponibilidade de pasto. Dos custos imputados ao leite, o item produção de alimentos e alimentação do rebanho é responsável pela maior proporção (de 40 a 60%) dos custos variáveis. O custo de produção de leite é inversamente proporcional à participação do pasto na dieta dos animais. Nos países com baixos preços do leite, os produtores conseguem reduzir o custo de produção pelo aumento da participação do pasto na dieta das vacas leiteiras (CLARK e JANS, 1995). O produtor que tiver que mudar na busca de eficiência, deve fazê-lo com a formação e manejo de pastagens produtivas, em que os animais tenham condições de selecionar uma dieta de boa qualidade e as pastagens tenham disponibilidade de forragem suficiente para suprir fração expressiva da dieta daqueles. As tentativas feitas no passado de se trabalhar em sistemas de produção a pasto com baixos níveis de insumo e utilizando forrageiras menos exigentes em fertilidade e adaptadas às condições de solos ácidos ou tolerantes a toxidez por alumínio, conseguiram níveis de produtividade muito baixos. Com tais níveis de produtividade, o custo de produção por quilograma de leite produzido ficava sempre muito elevado, em função dos custos fixos, principalmente aqueles relativos a terra, rebanho e benfeitorias. O mesmo pode ser dito das tentativas de se manter pastagens tropicais consorciadas com leguminosas, muito em moda 15 a 20 anos atrás, principalmente na Austrália. Estas pastagens, em associação com forrageiras de inverno, não se mostraram confiáveis e suportavam cargas relativamente baixas de animais (ASHWOOD et al., 1993). A maioria das pastagens tropicais na Austrália agora constituída de gramíneas fertilizadas com nitrogênio, em razão da elevada capacidade de suporte conseguida, com manejo bem mais simplificado dessas pastagens. Com carga de 2 vacas/ha, consegue-se aumento da produção anual de leite de 4.000 kg/ha ao se aumentar a aplicação de N de 0 para 300 kg/ha (COWAN et al., 1987). O custo total do nitrogênio, fósforo e potássio necessários para 25 manutenção dessas pastagens fica em torno de A$ 340,00/ha (dólares australianos/há) comparado com um aumento de receita de A$ 1.000,00/ha. Estudos de avaliação bio-econômica mostraram que, para o caso de gado de corte, a situação é semelhante (TEITZEL et al., 1991). Os benefícios econômicos são otimizados se todas as áreas bem drenadas fossem cultivadas com gramíneas fertilizadas com nitrogênio. Uma análise de sensibilidade indicou que o preço da carne deveria estar abaixo de A$ 0,80 por kg de peso vivo, para que as pastagens consorciadas suplantassem economicamente as pastagens de gramíneas com nitrogênio (TEITZEL et al., 1991). Animal Eficiente Para Produção de Leite A ênfase exagerada, que normalmente é dedicada à genética e à elevação da produção por vaca, pois produtividade individual é o chavão de forte promoção comercial, não tem levado em consideração dois fatores muito importantes. O primeiro se refere ao balanço estequiométrico e a termodinâmica (transformações metabólicas e fisiológicas que logicamente obedecem à Lei de Conservação das Massas, de Lavoisier), isto é, o leite é o produto da transformação dos nutrientes consumidos pelo animal. O segundo tem a ver com a Lei dos Retornos Decrescentes, isto é, biologicamente, as respostas marginais vão sendo reduzidas para cada incremento unitário de insumo utilizado, na faixa da curva além da inflexão posterior à fase linear de resposta (Figura 1). Nota-se pela figura 1, que na faixa de retornos crescentes, o incremento de uma unidade de insumo (뱸ı, por exemplo: energia, leva a uma resposta animal de grande magnitude (A), enquanto o mesmo incremento unitário (뱸'ı na faixa de retornos decrescentes proporciona uma resposta marginal (B) significativamente menor. Os custos marginais médios de produção (Figura 2), na faixa de retornos crescentes, são reduzidos gradativamente com o aumento da produção, até que seja alcançado o ponto mínimo da curva de custo médio (Pontos A e A’ - escala de produção ótima – Figura 2). Além desse ponto os custos médios aumentam com o aumento da produção (faixa de retornos decrescentes). Isso se aplica para uma vaca leiteira? Porque essa fugiria desse padrão? Isso significa que além do ponto de escala otimizado, vale a pena aumentar o número de vacas em vez de tentar aumentar a produção individual. O mesmo vale para um retiro, fábrica, etc. Por outro lado, aumentar o numero de vacas implica em incremento do percentual de nutrientes consumidos pelo rebanho que serão gastos para mantença dos animais. A literatura, em geral, tem tentado provar que é mais eficiente produzir 40 litros de leite com uma vaca especializada, de alto potencial genético, do que produzir os mesmos 40 litros com quatro vacas de 10 L de média, pois nesse último caso haveria quatro mantenças a serem gastas, contra apenas uma, no primeiro. Entretanto aceitamos passivamente essa “verdade imposta” sem raciocinarmos que para o primeiro caso, a mantença desse animal refinado, de 650 a 750 kg de peso vivo, provem de uma dieta constituída de silagem de milho, concentrados, tampões, aditivos etc, enquanto aquelas quatro vacas menos especializadas aceitam a dieta que um hectare de uma pastagem tropical bem manejada pode oferecer para elas e para outras quatro companheiras de rebanho. Essas oito “vaquinhas” que podem pesar 400 kg de peso adulto ou até menos, ainda usam a energia desse pasto consumido para deslocamento na busca e colheita de suas próprias dietas, enquanto 26 aquela “enorme agigantada” precisa de máquinas e equipamentos consumindo combustível fóssil e energia elétrica para cultivo, colheita, processamento, armazenagem, processamento, mistura e transporte de sua dieta, pois caminhar não é uma atividade natural para ela. Veja um exemplo comparando essas duas situações na Tabela 4. Nesses cálculos foram consideradas exigências de mantença para animais de origem européia, sendo que o animal com produção de 10 kg/dia, poderia ser um zebuíno, com exigência de mantença inferior em cerca de 20%, ou animais cruzados europeu zebu, com exigência intermediara, cerca de 15% inferior. Os resultados de levantamentos de propriedades leiteiras de Minas Gerais mostram que o custo do litro de leite decresce com a elevação da média dos rebanhos leiteiros, estratificados por nível de produtividade. Isso ocorre em função da diluição dos custos de longo prazo com o aumento da produção por animal. Levantamentos de propriedades leiteiras da Comunidade Econômica Européia (ØSTERGAARD et al, 1990) mostram tendência oposta, com elevação dos custos dos sistemas de produção com maiores produtividades, uma vez que esses já se encontram na faixa de retornos decrescentes. Tabela 4. Gastos com mantença de vacas leiteiras de 450 e 650 kg de peso vivo (P.V.), com produções diárias (PL) de 10 e 25 kg de leite com 4% de gordura, respectivamente. P.V. (kg) PL (kg/d) NDT Mant. (kg/d) Como % NDT Total Custo (R$/kg MS) 450 650 10 25 3,42 4,51 51,5 35,9 0,025 0,230 Custo Mant. (R$/d) 0,13 1,52 A atividade leiteira, como qualquer outra atividade agrícola ou pecuária, deve visar lucro, então o ponto-ótimo econômico estará sempre antes do ponto de máxima resposta física ou biológica, principalmente no caso de vacas leiteiras, onde o incremento nutricional necessário para se manter maiores produções de leite, ocorre às custas de maiores participações de forragens conservadas e de alimentos concentrados, onerando muito os custos da dieta destas vacas de elevado potencial. Alem disso, o maior problema com a proposta de se manter níveis elevados de produção individual está relacionado com a mobilização de reservas corporais, que ocorre no início da lactação, período de balanço energético negativo. Nessa fase, as vacas de produção mais elevada tornam-se muito susceptíveis a problemas metabólicos, que normalmente ocorrem em cascata, isto é, a ocorrência de um distúrbio pode desencadear os demais, em função da queda maior ainda no consumo de matéria seca e maior susceptibilidade desses animais aos problemas metabólicos e infecções, principalmente da glândula mamária. Dessa forma, se os sistemas de produção agropecuários precisam operar na faixa de retornos econômicos, não faz sentido recomendações para “maximização” de produtividade, seja por animal ou por área. Da mesma forma, para o caso da pecuária, as recomendações impensadas, sem sentido econômico, mas que se 27 tornaram rotina no meio técnico, de se proporcionar “condições” e meios para que os animais possam expressar seu potencial genético, potencial produtivo, máxima eficiência produtiva ou recomendações para formulação de dietas que possam atender exigências nutricionais desses animais. Deveríamos sim, priorizar o atendimento das “exigências” das famílias dos produtores, donos desses rebanhos. As recomendações técnicas abomináveis para busca de “records” de desempenho de animais domésticos deveriam ser execradas, à luz do reconhecimento desses erros absurdos praticados, ao longo dos anos, contra a viabilização econômica e a sustentabilidade dos nossos produtores. Esses precisam de ASSISTÊNCIA TÉCNICA em lugar dessas “imposições tecnológicas” recomendadas repetida e impensadamente, simplesmente por serem as recomendações de praxe ou a mais moderna. Se são aquelas adotadas nos paises de primeiro mundo, logicamente são as mais adequadas. Felizmente essa miopia não prevaleceu na nossa pecuária de corte, senão teríamos copiado os “feedlots” norteamericanos, com dietas dos novilhos constituídas de quase 95% de grãos ou optado pela indústria açucareira baseada na produção de beterrabas, pois assim trabalhavam os europeus, por muitas décadas os maiores produtores e exportadores de açúcar. Cultivar cana-deaçúcar, moê-la e processá-la, transformando-a em açúcar, e hoje em álcool, definitivamente, não poderia ser considerada uma tecnologia moderna. Figura 1. Curva de Retornos Decrescentes. Resposta produtiva ao uso crescente de insumos. Ao estudar as relações entre índices técnicos e econômicos em rebanhos leiteiros na Holanda, ROUGOOR et al. (1997) concluem que, como esperado, a relação causal direta entre produção/vaca e margem bruta por 100 kg de leite foi positiva (associação bivariada estimada, abe = 0,17), entretanto devido a efeitos espúrios, o efeito total é negativo (abe= -0,19). A associação entre quantidade de concentrado por vaca e a margem bruta/100 kg leite é –0,40. Os autores concluem que o custos extras e o uso de quantidades elevadas de concentrado provavelmente suplantou as vantagens do efeito de diluição do custo com mantença das vacas de maior produção. Além disso, o foco das atenções devem estar voltados para a vida produtiva da vaca e não para um eventual recorde em uma lactação, pois a eficiência 28 reprodutiva é importante e está muito na dependência do nível nutricional oferecido ao rebanho. A avaliação dos dados de rebanhos leiteiros dos Estados da Carolina do Norte e Virgínia (McGILLIARD et al., 1990) mostraram que a margem líquida trazida por cada quilograma adicional de leite foi de US$ 0,22 com produções de 5.000 kg/vaca/ano, decrescendo a zero ao atingir 8.162 kg/vaca/ano. Receitas menos despesas por vaca caiu US$ 7,70 por cada 0,1 serviço adicional por concepção e $ 3,20 por cada 1% de aumento nas taxas de reposição de novilhas. Incidência elevada de doenças e problemas sanitários em geral, altas taxas de mortalidade associadas aos baixos índices reprodutivos, impedindo a manutenção da população, que pareciam ser problemas dos animais de raças de origem européia importados para as regiões tropicais e sub-tropicais (VACCARO, 1990) são comuns aos problemas enfrentados por rebanhos de alta produtividade nos países de clima temperado (HANSEN et al., 2002; KNAP e BISHOP, 2000; KELLOGG et al., 2001; LUCY, 2001; WASHBURN et al., 2002a; WASHBURN et al., 2002b). Se o interesse é a produção de leite, logicamente nem todos podem investir somas elevadas na manutenção de rebanhos elites, com registros genealógicos e mostrando recordes de produção em lactação única. Talvez sirva de alerta os relatos de HANSEN et al. (2002), que mostraram que as vacas holandesas de rebanhos da Dinamarca com maior pontuação por tipo ou caráter leiteiro foram as que apresentaram maiores problemas sanitários. Como sugestão, os autores insinuam que estas características (tipo, conformação), em vez de receber pontuação positiva, como é comum, deveriam, na realidade, receber penalizações. Resultados e conclusões semelhantes foram relatados por outros pesquisadores europeus, na Dinamarca e Suécia (ROGERS et al., 1999). A estratégia de se utilizar cruzamentos é o método mais simples de melhorar eficiência e amenizar problemas sanitários em muitas plantas e animais, introduzindo genes favoráveis de outras raças, removendo a depressão da consangüinidade e mantendo interações gênicas responsáveis pela heterose (VAN RADEN e SANDERS, 2001). No mundo inteiro, os sistemas produtivos agropecuários tiram vantagens da heterose com plantas e animais híbridos ou cruzados. Isso acontece de pepino a suíno, exceto na bovinocultura, onde os produtores se apaixonam por raças e abrem mão dessa vantagem, acreditando que todos podem trabalhar com material genético, inviabilizando a produção de carne e leite. Cruzamentos entre raças de origem européia podem trazer essas vantagens econômicas, como tem sido mostrado por trabalhos publicados na literatura mais recente (LOPEZ-VILLALOBOS et al., 2000a; LOPEZ-VILLALOBOS et al., 2000b ; VAN RADEN e SANDERS, 2000) ou mesmo de publicações anteriores, como revisado por McALLISTER (2000). As possibilidades oferecidas com a utilização de cruzamentos entre raças leiteiras de origem européia e zebuínos estão pormenorizadas em publicação recente de MADALENA et al. (2001). 29 Figura 2. Curva de custo médio em função do nível de produção. Os programas de melhoramento genético e seleção de raças bovinas leiteiras conseguiram ganhos genéticos que não foram acompanhados por aumentos na capacidade ingestiva desses animais mais produtivos, apesar dos crescentes aumentos do peso vivo das matrizes selecionadas para produção de leite. Com isso, animais de alto potencial genético precisam receber uma dieta com maior concentração de nutrientes, normalmente conseguido com a inclusão de grãos e subprodutos industriais, ricos em energia e proteína, principalmente. Como conseqüência, a relação concentrado : volumoso tem que ser maior para animais de maior potencial, para que esses possam mostrar desempenho compatível com seu potencial. Os ganhos genéticos conseguidos nos rebanhos leiteiros norte-americanos, da ordem de 1,8% ao ano (http://www.usda.gov/nass/aggraphs/cowrates.htm) foram conseguidos em resposta ao incremento constante na suplementação com alimentos concentrados, sendo que nos últimos 25 anos, a relação entre leite produzido e concentrado consumido pelas vacas em lactação, tem se mantido constante, isto é, 1 kg de concentrado para cada 2,3 litros de leite produzidos (http://www.ers.usda.gov/Briefing/Dairy/Data/mprdfac.xls). Além disso, a conseqüência da seleção de animais de maior peso adulto é o aumento dos custos de manutenção de rebanhos com matrizes cada vez mais pesadas (VISSCHER et al., 1994; VEERKAMP, 1998). O valor econômico negativo para peso vivo adulto é mais evidente para vacas leiteiras mantidas a pasto (VISSCHER et al., 1994). No Brasil, VERCESI FILHO et al. (2000) mostraram que, para vacas mestiças Holandês-Gir, mantidas a pasto, os pesos econômicos para seleção favoreciam muito mais a redução do peso metabólico das vacas do que a seleção para aumento da produção de leite. Mesmo para o caso de sistemas confinados, em que os animais gastam menos energia para sua própria movimentação, a seleção contínua de vacas da raça Holandesa maiores a cada geração, na América do Norte, não seria economicamente justificável (HANSEN et al., 1999). A melhor eficiência alimentar permite manejar pastagens com um número maior de vacas de menor porte e, conseqüentemente, obter maiores produções por área pastejada. Além disso, vacas de menor peso adulto tendem a ter maior vida produtiva, melhor eficiência reprodutiva, menor incidência de problemas no período periparturiente e, consequentemente, maior margem de lucro (HANSEN et al., 1999; 30 HOLMES et al., 1993; VEERKAMP, 1998 VISSCHER et al., 1994; YEREX et al., 1988). Se forem mantidas a pasto, o gasto energético excessivo com deslocamento de vacas de peso vivo elevado, nas condições tropicais ou subtropicais no verão, é um fator limitante, de elevado peso econômico, que deve ser considerado. De acordo com o recomendado e calculado por COWAN (1996), o grande potencial produtivo das forrageiras tropicais devem sinalizar para a utilização de sistemas de pastejo que utilizem animais de médio potencial produtivo, para compatibilizar suas demandas nutricionais com o potencial da pastagem (Tabela 3), priorizando a otimização da produção de leite por área trabalhada em detrimento de desempenho individual das vacas. Além disso, a ênfase excessiva que vem sendo dada à utilização de animais de elevado potencial genético, não leva em consideração a eficiência em função da vida produtiva do animal e seus custos de manutenção, principalmente aqueles relativos aos problemas sanitários, reprodutivos (DUNCLE et al., 1994; JONES et al., 1994; PRYCE et al., 1997; LUCY, 2001; WASHBURN et al., 2002a; WASHBURN et al., 2002b) e o conseqüente descarte excessivo de vacas, que demandam taxas de reposição muito elevadas, característicos dos rebanhos de elite dos Estados Unidos da América, como mostrado por levantamento recente, reportado por KELLOGG et al., (2001). Esses autores mostraram que nos rebanhos mais produtivos acompanhados pelo DHI, a taxa média de descarte anual é de 39,7%, com intervalo de partos de 14,5 meses e idade média das vacas do rebanho de 42,9 meses, pode-se calcular que, em média, a vida produtiva dessas vacas é de 1,7 lactação. A eficiência reprodutiva dos rebanhos vem caindo ao longo dos últimos anos (LUCY, 2001). WASHBURN et al. (2002b) detectaram elevações no número de dias abertos, que em 1976/78 eram 122 para as vacas Jersey e 124 para holandesas, aumentaram de forma não linear para 152 para Jersey e 168 para holandesas, em 1997/99. Ao mesmo tempo, o número de serviços/concepção, que era de 1,91 em 1976/78 subiu para 2,94, em 1994/96, para as duas raças. Acompanhamentos econômicos conduzidos em propriedades leiteiras argentinas mostram que as vacas de maior produção não garantem os maiores ingressos financeiros, medidos pela venda de leite e novilhas excedentes, pois essas vacas de maior produção são as de maior peso vivo, requerem maior consumo de alimentos, têm menor resistência a enfermidades ao se relacionar produtos e insumos ao longo de suas vidas produtivas, a eficiência tanto biológica quanto econômica será menor do que a proporcionada pelas vacas de produtividade média (MARINI e OYARZABAL, 2001). Uma análise da vida produtiva, reprodutiva e características de sobrevivência de vacas, de rebanhos neozelandeses, inseminadas de touros da raça holandesa de origem norteamerica ou de touros locais holandês:frísio, revelaram uma vantagem média em favor do H:F neozelandês de NZ$ 4.950,00 por fazenda, o que representa 12% de diferença no lucro por fazenda (HARRIS e KOLVER, 2001). Em sistemas de manejo a pasto ou em confinamento, levantamento feito recentemente nos Estados Unidos da América (WHITE et al, 2002) mostra que a maior fertilidade das vacas da raça Jersey aliada à menor incidência de mastites, 31 parcialmente compensa os menores retornos sobre os custos com alimentação, quando comparadas com vacas da raça holandesa. Outro levantamento (WASHBURN et al., 2002b) mostra que as vacas da raça holandesa eram mais difíceis de enxertar, apresentaram mais problemas com mastites, maiores taxas de descarte e menores escores de condição corporal do que as Jersey. Vale ressaltar que o cruzamento é uma estratégia eficiente em corrigir problemas trazidos com a excessiva homozigose ou consagüinidade, pelo uso exagerado de sêmen de poucos touros famosos que caem na “preferência” dos criadores. No caso do ambiente tropical, os animais de origem indiana, antídoto natural contra os elevados e perigosos níveis de consagüinidade dos rebanhos norteamericanos e europeus, com suas características de maior tolerância ao calor e umidade excessiva, aos parasitos externos e internos, trazem contribuições adicionais ao facilitar manejo e reduzir custos. A heterose das características produtivas só pode ser manifestada com suprimento alimentar adequado, sem no entanto buscar a maximização de desempenho individual. Outras características de eficiência, tais como duração da lactação e persistência, alem da contribuição genética, também somente se manifestam com suprimento adequado de alimentos. Da mesma forma, são dependentes de nutrientes as respostas à indução hormonal, via somatotropina bovina, oxitocina, presença do bezerro no momento da ordenha, amamentação e maior freqüência de ordenha. Não se pode aceitar afirmativas grotescas freqüentes tais como: “o que come uma vaca de 10 litros come uma de 25”. De onde viriam os 15 litros adicionais? Não apenas o que, mas também o quanto come uma vaca de 25 litros diferem muito do que e quanto come uma vaca que produz 10 litros de leite por dia. Em suma, a grande eficiência fotossintética das gramíneas tropicais, do grupo C4, associada à grande disponibilidade de energia solar nas regiões tropicais e subtropicais, permitem a expressão do grande potencial produtivo das nossas forrageiras, tanto para pastejo quanto para corte, como é o caso da cana-de-açúcar. Por outro lado, as limitações nutricionais dessas gramíneas, principalmente seus níveis elevados de parede celular (fibra), plenamente compensadas pelo grande potencial produtivo destas, devem sinalizar para a utilização de sistemas de pastejo com animais de médio potencial produtivo. Dessa forma, torna-se possível compatibilizar as demandas nutricionais desses animais com a qualidade da forragem em oferta. Essa estratégia, em função do elevadíssimo potencial produtivo das gramíneas tropicais, permitem a obtenção de elevadas produções de leite por área trabalhada, em detrimento do desempenho individual das vacas, com uma carga animal muito superior ao que se poderia esperar das forrageiras de clima temperado. 32 DINÂMICA ATUAL DA CADEIA DE LÁCTEOS NO BRASIL. 1Dr John Wilkinson Introdução Nos anos 90 o mercado de lácteos passou por grandes transformações. Neste período a integração no MERCOSUL com importações maciças de produtos finais, sobretudo manteiga e queijo, a liberação de preço do leite, tanto o produtor quanto ao consumidor, a profunda retração de demanda promovida pelo Plano Collor e a saída do governo dos programas sociais de distribuição de leite foram fatores que agravaram a situação do setor de laticínio brasileiro. DINÂMICA ATUAL DA CADEIA DE LACTEOS NO BRASIL JOHN WILKINSON CPDA/DDAS/UFRRJ Figura 1. Apresentação inicial do Dr. John Wilkinson. As transformações da cadeia de lácteos. As grandes questões incluíam a desregulamentação – novo ambiente competitivo, impactos das exportações, qualidade, o setor informal, o enfraquecimento das cooperativas (futuro de Itambé), expansão da Parmalat, regionalização da cadeia no âmbito do Mercosul, sofisticação do consumo, inflação, estabilização e câmbio. A situação em 1999 – 2006 caracteriza-se por um período de crescimento sustentado da produção, passando de 14,5 bilhões para 24,5 bilhões de litros de leite. O consumo estável, cerca de 131 litros/habitante/ano. Houve redução nas importações, com mudança no papel de importador para exportador. As exportações do setor de lácteos teve como principal produto o leite condensado e em segundo lugar no ranking das exportações de lácteos vieram os queijos. O 1 Dr. John Wilkinson é professor do CPDA da Universidade Federal do Rio de Janeiro.; Pós-doutorado em Sociologia Econômica na Universidade de Paris XIII (1996); Doutor em Sociologia pela Universidade de Liverpool (1982); Mestre pela University of Liverpool, LIVERPOOL, Inglaterra (1977). Graduou-se na University of Bristol, BRISTOL, Inglaterra (1965). 33 O setor informal de lácteos permanece o eixo de tensões. A produção total de leite vem aumentando, entretanto a produção de leite sob inspeção continua sendo inferior, cerca de 50%, ao total de leite produzido. A produtividade leiteira cresceu numa taxa 2,6% ao ano, o que representa um incremento anual, na produção de leite, de 339 milhões de litros. A gestão de qualidade, neste mesmo período, nos trás um forte avanço na granelização (80%), aumentos significativos litros/dia/produtor, tendências iguais no setor privado e nas cooperativas, expulsão do pequeno do setor formal com o deslocamento para queijos. As cooperativas e os laticínios têm grande importância na captação do leite. MAIORES EMPRESAS DE LATICÍNIOS Figura 2. Maiores empresas de laticínios. Outra situação é a nova dinâmica do mercado nacional com participação do cerrado, ainda minoritária, a substituição do leite por cana em São Paulo. O estado de São Paulo se torna fortemente um importador regional. E Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Rondônia tornam-se exportadores. Há condições para a auto-suficiência, mas nunca deixamos de importar este produto. Temos potencial, vocação e vantagens competitivas para a exportação São desafios que somente serão vencidos depois de implantada uma boa política de apoio governamental para o setor, voltada para toda a cadeia, mas com uma preocupação especial com estabilidade de preços para os produtores que, pelo menor poder de articulação, nos períodos de crises, acabam sempre assumindo os maiores prejuízos. A exportação depende uma grande produção e elevada produtividade com qualidade. A IN 51 estabelece critérios para a produção de leite com qualidade. O incremento na qualidade que a Instrução Normativa pretende trazer tornará o nosso produto um dos mais competitivos no mercado internacional. 34 CONCLUSÕES A partir das apresentações realizadas concluiu-se que o setor lácteo brasileiro apresenta excelentes perspectivas de crescimento e expansão de suas fronteiras internas e externas. Ficou constatado que os aspectos socioeconômicos da pecuária leiteira brasileira, ratificam a importância da propriedade familiar no cenário nacional e apesar de sua fragilidade econômica, o que também é resultado de determinadas deficiências administrativa e produtivas do primeiro setor econômico. As pesquisas realizadas para o desenvolvimento da atividade leiteira devem ter como objetivo principal à obtenção de produto, o leite, com as qualidades exigidas pelos mercados consumidores e com menor custos de produção. Contudo, o consumo de lácteos teve significativo aumento seguido de estabilização, este consumo tem uma relação direta com o poder econômico das famílias. Evidencia-se a necessidade de uma reforma política no setor de lácteos para coordenar e integrar os elos desta cadeia. Focalizando entre outros pontos a questão socioeconômica dos produtores de leite, a importância da assistência técnica rural e administrativa na atividade leiteira. 35 ANEXO 1: Programa do Seminário. 9:00 hs: Abertura pelo Magnífico Reitor da UFRRJ, Prof. Ricardo Miranda, Decana P.PósPraduação, Profa. Áurea Echevarria, Diretor do Instituto de Zootecnia.Prof. Nelson Jorge Moraes Matos, 10:30 hs: Prof. Juan Lerdon, Universidad Austral de Chile, Coordenador do Projeto Alfa NERUDA. 12:00 hs: Almoço 14:00 hs: Prof. Eugênio Avila Pedrozo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, A Cadeia Láctea no Sul do Brasil. 15:30 hs: Coffe break . 16:00 hs: Dr. Leovegildo Lopes Matos, EMBRAPA-Gado de Leite, Aspectos Econômicos da Utilização de Pastagens na Pecuária Leiteira. 17:30 hs: Prof. John Wilkinsons, CPDA-UFRRJ, Aspectos Sócio-econômicos da Pecuária Leiteira Brasileira. 19:00 hs: Encerramento. 36 ANEXO 2. Registros Fotográficos. Fotografia 1. Abertura do seminário com a presença do Prof. Juan Lerdon, Coordenador Projeto ALFA-NERUDA; Prof. Ana Maria Dantas, Vice Reitora da UFRRJ; e o Professor Nelson Jorge Matos, Diretos do Instituto de Zootecnia da UFRRJ. Fotografia 2. Prof. Juan Lerdo e Prof. João Carlos (coordenador da Pós Graduação em Zootecnia da UFRRJ) 37 Fotografia 3. Apresentação do Projeto ALFA-NERUDA pelo Prof Juan Lerdon Fotografia 4. Apresentação da Cadeia Láctea no Sul do Brasil - Prof. Eugênio Pedrozo - UFRGS 38 Fotografia 5. Aspectos Econômicos da Utilização de Pastagens na Pecuária - Drr. Leovegildo Matos – EMBRAPA-GADO de LEITE. Fotografia 6. Dinâmica Atual da Cadeia de Lácteos no Brasil - Prof. John Wilkinson - CPDA – UFRRJ. 39 Fotografia 7. Participantes do seminário. Fotografia 8. Reunião do Prof. Juan Lerdon com a Vice Reitora Prof Ana Dantas. 40 Fotografia 9. Participação do Prof Juan Lerdon e do Prof John Wilkinson na banca examinadora da Defesa de Dissertação do PPGIZ-UFRRJ. 41