FACULDADE DE PARÁ DE MINAS Curso de Letras Ivone Mendes de Lisboa AS IMAGENS DE MORTE EM BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS Pará de Minas 2013 Ivone Mendes de Lisboa AS IMAGENS DE MORTE EM BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS Monografia apresentada à Coordenação de Letras da Faculdade de Pará de Minas como requisito parcial para a conclusão do curso de Letras. Orientadora: Professora Dra. Ana Paula Ferreira, Dra. em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Pará de Minas 2013 Ivone Mendes de Lisboa AS IMAGENS DE MORTE EM BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS Monografia apresentada à Coordenação de Letras da Faculdade de Pará de Minas como requisito parcial para a conclusão do curso de Letras. Aprovada em 09 de novembro de 2013. _____________________________________________________ Ana Paula Ferreira - Dra. em Comunicação e Semiótica (PUC/SP) Professora orientadora _______________________________________________ Irani Gonçalves Cardozo Ribeiro – Mestre em Educação Professora examinadora Dedico este trabalho a todos que se preocupam com a formação das crianças. A todos que escrevem para curar suas dores e aos que por ventura vierem a ler seus escritos. Agradeço a oportunidade Deus de por me conhecer permitir pessoas a tão interessantes e sensíveis através da leitura. Aos meus pais pela proteção e ensinamentos. Ao Eustáquio pela compreensão e apoio, à Ana Luíza, Leonel e André pelo incentivo. Aos professores e colegas da faculdade pelo convívio agradável e amigo. É preciso prezar a coragem das sementes. Apodrecer para inaugurar o fruto. Bartolomeu Campos de Queirós SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ………………………………………………………………………. 1.1 OBJETIVOS ....…………………………………………………………………… 1.1.1 Objetivo Geral …………………………………………………………………………….. 1.1.2 Objetivos Específicos …………………………………………………………………….. 8 12 12 12 2 PERSPECTIVAS TEÓRICAS ……………………………………………………... 13 3 ALGUMAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DA LITERATURA INFANTOJUVENIL ……………………………………………………………………………... 16 4 REFLEXÕES SOBRE O LEITOR: efeitos e respostas da literatura ……………. 21 4.1 Literatura e alteridade ……………………………………………………………. 21 4.2 A literatura infanto-juvenil na formação do leitor ……………………………… 22 5 O ESCRITOR E A CRIAÇÃO ……………………………………………………... 26 5.1. A escritura pode ajudar no processo de construção do sujeito autor/leitor? …. 28 6 A POÉTICA DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS …………………… 31 6.1 Queirós e a subjetividade infanto-juvenil ………………………………………... 33 6.2 As experiências narradas por Bartolomeu Campos de Queirós ………………... 35 7 A LITERATURA COMO FORMA DE VIVENCIAR A MORTE ……………… 7.1 Conceito de morte …………………………………………………………………. 7.2 A morte como inauguradora do novo, dentro de um círculo virtuoso …………. 7.3 A morte como limite incontornável da existência humana ……………………... 7.4 A morte como perda das estruturas ……………………………………………… 37 38 40 42 46 8 METODOLOGIA …………………………………………………………………… 52 9 CONSIDERAÇÕES FINAIS ……………………………………………………….. 54 REFERÊNCIAS ……………………………………………………………………….. 56 RESUMO Este trabalho de monografia surgiu do interesse de estudar as imagens de morte em Bartolomeu Campos de Queirós, como parte de sua obra que, embora seja classificada de Literatura Infanto-juvenil, apresenta reflexões que parecem ser mais interessantes para os adultos do que para os jovens. Para entender melhor, busca-se compreender como surgiu o conceito de Literatura Infantil e Infanto-juvenil e sua evolução ao longo do tempo. O foco da pesquisa visa descobrir se o escritor ou ao leitor adulto é mais atingido do que à criança leitora. Foram estudados o autor e a escrita, a opinião de vários escritores sobre a obra de Queirós, o trabalhar a memória, as significações do fazer literário e o refletir sobre o ato da leitura como forma de alento para o escritor e para o leitor. Buscou-se compreender como as imagens da morte apresentadas podem influir na formação e elaboração da dor da perda e de como essa perda pode trazer à reflexão o modo de viver e de conviver para os leitores mais jovens. A pesquisa contou com análise bibliográfica das obras de Queirós e de estudos já apresentados sobre a literatura. A metodologia empregada foi a pesquisa qualitativa não estruturada, de caráter exploratório que busca uma compreensão mais profunda para atingir os possíveis significados para o tema abordado. Foram estudados, entre outros autores, Antoine Compagnon, Bruno Bettelheim, Afrânio Coutinho, Lélia Parreira Duarte, Anna Claudia Ramos, Júlia Kristeva, Lígia Chiappini Mofals Leite. Palavras-chave: Literatura. Morte. Autor. Leitor. 8 1 INTRODUÇÃO A presente pesquisa surgiu do interesse de estudar o conceito de literatura infantojuvenil, algumas mudanças nela ocorridas ao longo do tempo, suas implicações no sujeito e, sobretudo, as imagens de morte na obra de Bartolomeu Campos de Queiróz. Este trabalho surgiu do questionamento do conceito de literatura infantil. Contar histórias para adultos e crianças é um costume antigo. Na sociedade contemporânea, a literatura infanto-juvenil é produzida para divertir, entreter e ensinar às crianças e adolescentes. Segundo Queirós, as crianças também são capazes de acompanhar o conteúdo, mesmo que profundo, de determinadas obras literárias, conseguem lidar com a emoção que a leitura provoca e, segundo ele, Henriqueta Lisboa também comunga desse pensamento quando defende a ideia de não se rotular a literatura de infantil, infanto-juvenil e sim considerar que literatura é literatura, não importa quem seja o leitor (PEREIRA, R., 2011) Antes, não havia uma preocupação com as crianças em separado porque a infância não era tal como é hoje conhecida. Crianças e adultos participavam juntos da vida social e política, testemunhavam as festas, as guerras, a vida da forma como ela se apresentasse. “Antes não se escrevia para elas, porque não existia infância” (LAJOLO; ZILBERMAN, 1999, p. 13). Considera-se que o livro infantil mais antigo de que se tem notícia seja o Livro dos Cinco Ensinamentos, escrito em sânscrito, no século V a. C., contendo ensinamentos religiosos e políticos por meio de fábulas e narrativas. A literatura infantil, durante muito tempo, configurou-se como um manual de formação da criança para a vida adulta. Pode-se dizer que a literatura infanto-juvenil tenha evoluído muito e que, além de ser importante como arte na formação dos mais jovens, é para seus escritores uma maneira de revisita ao passado que, dessa forma, proporciona também aos leitores adultos a oportunidade de participar de uma “viagem” à infância. São estudadas, na presente pesquisa, obras de Bartolomeu Campos de Queirós que tem mais de sessenta títulos publicados. Pode-se afirmar da sua obra que, para atingir o público infanto-juvenil, não se faz necessário empobrecer a linguagem, conforme ele mesmo afirma perceber nos escritos de Henriqueta Lisboa. Muitos dos livros de Queirós receberam premiação nacional e internacional e, alguns deles, foram traduzidos para os idiomas francês, inglês e alemão. Sua obra aborda convivências familiares, a passagem do tempo, a infância, a memória, a existência humana e outros temas sempre interessantes. Percebe-se em seus textos uma tristeza fina camuflada de ternura, sobretudo, quando a morte é tema. 9 Nesse sentido, percebe-se também, em suas obras, algo que se observa em outras obras infanto-juvenis: várias delas trazem adultos que falam mais aos outros adultos do que às crianças. Em alguns de seus livros, pode-se perceber que há um desejo do autor de lidar com o tema da morte muito mais para aliviar os próprios sentimentos de perda e frustração que para trazer uma reflexão aos adolescentes. Trata-se de um exercício de retorno à infância que pode ser entendido como uma forma de aliviar o sofrimento e buscar, no que era dor, agora, poesia. O autor homem fala do menino que tem na alma. Com base no livro Menino Maluquinho, de Ziraldo, a música composta por Milton Nascimento e Fernando Brant (1979), gravada pelo 14 Bis mostra-nos essa necessidade de reviver o tempo da infância: Bola de Meia, bola de gude Há um Menino! Há um Moleque! Morando sempre no meu coração Toda vez que o adulto balança Ele vem prá me dar a mão... Há um passado No meu presente O sol bem quente Lá no meu quintal Toda vez que a bruxa Me assombra O menino me dá a mão... E me fala de coisas bonitas Que eu acredito Que não deixarão de existir Amizade, palavra, respeito Caráter, bondade Alegria e amor... (...) O adulto, ao revisitar a infância, pode trazer de lá a pureza, a leveza e a esperança para enfrentar os desafios impostos com o passar dos anos. O ter vivido, ter superado, ter conseguido fortalece mostram que existe uma energia positiva atuando em cada um e que, quando acionada, responde prontamente. Os livros de Bartolomeu Campos de Queirós trazem essa visita de maneira geral: “para mim, a palavra é sempre difícil de definir. A palavra que tento revelar é a mesma que me camufla. (...) Meu desafio é de estabelecer um texto capaz de esperançar até as crianças. Carrego a minha infância cotidianamente. Daí o respeito pelas crianças”. (VASSALLO, 2003, p.2). 10 Espera-se que este trabalho contribua para a elucidação da relevância do tema morte nas obras de literatura infanto-juvenil como forma de esclarecimento sobre a necessidade do autor de escrever para si ou escrever para o leitor e ainda, sobre a dúvida se o leitor adulto pode ser também atingido como pode ser o infanto-juvenil. Percebe-se que há um cuidado dos adultos em abordar certos temas com as crianças. Muito do que elas aprendem é o que lhes é contado, visto, ensinado, vivido e ouvido em histórias. Elas vão sendo educadas, preparadas, auxiliadas a enfrentar tabus e medos. A literatura infantil pode lidar com todo o tipo de sentimentos e acredita-se que crianças que ouvem histórias, que abordam temáticas do cotidiano, tenham mais facilidade de compreensão e de aceitação das situações vividas. “Exatamente porque a vida é frequentemente desconcertante para a criança, ela precisa ainda mais ter a possibilidade de se entender neste mundo complexo com o qual deve aprender a lidar” (BETTELHEIM, 1986, p. 13). Estar no mundo pressupõe viver com intensidade o que se tem para viver. É preciso conviver com alegrias, medos, fantasias, tristezas, amor e inseguranças. Tanto o adulto quanto a criança passam por todos esses conflitos. Lendo as experiências de outros, torna-se possível reconhecer-se nas situações de morte da literatura e participar de processos ligados à alteridade, à sensibilidade para com o outro e seus problemas. A presente pesquisa justifica-se por tratar de um estudo que visa propor um entendimento do texto literário para além de possíveis fronteiras disciplinares para perceber essa arte como partícipe do cotidiano. O próprio Bartolomeu Campos de Queiros afirma que o importante da literatura é, dentre outras coisas, acreditar que não só o autor, mas também o cidadão possui a palavra. Para analisar e refletir melhor as teorias estudadas sobre a obra de Queirós, visando uma compreensão de como o autor se coloca diante do leitor e de como a literatura pode ser entendida pelo leitor, este trabalho teve sua estruturação de seções de forma a facilitar o entendimento. Após essa introdução que aqui se faz, segue a segunda seção em que estudamse as obras de teoria da literatura incluindo os seguintes temas: a literatura como forma de significação para o leitor; como entender a ficção e a realidade; buscar no passado formas para reconstruir o presente; escrever como forma de abrir horizontes; como leitor experimenta o sentido do texto; de como a criação do autor depende do seu estado de espírito; infância e memória. Na terceira seção, abordam-se algumas perspectivas teóricas da literatura infantojuvenil. Estudam-se a evolução da literatura ao longo do tempo e o surgimento do conceito de literatura infanto-juvenil. 11 Na quarta seção são trabalhadas as reflexões sobre os efeitos e respostas da literatura no autor e no leitor. Fala-se da literatura e alteridade. De como a literatura pode influenciar o processo de alteridade do leitor e do autor. Aborda-se a literatura infanto-juvenil na formação do leitor. Pode-se dizer que ela ajuda os mais jovens a organizar melhor o discurso na mente e, assim, desenvolver estruturas de compreensão de narrativas. Visa-se entender ficção e realidade. Cada indivíduo tem uma experiência diferente diante do texto. O autor e leitor podem ser favorecidos nessa troca. Na seção seguinte, a quinta, Fala-se da busca do leitor e do escritor para entender as inquietações que trazem na alma. Trabalha-se com a ideia de que os processos de criação podem beneficiar tanto o escritor quanto o leitor. Estuda-se como a literatura pode ajudar no processo de construção do sujeito. A leitura pode desenvolver no leitor uma espécie de memória que poderia ser também considerada sua. Observa-se que ao escrever memórias o autor poderá reescrever a própria história. Vê-se que ler e escrever traz sentimentos adormecidos e que autor e leitor passam a vivenciar sentimentos da memória. A sexta seção – estuda a poética de Bartolomeu Campos de Queirós. Faz um breve relato de sua trajetória de escritor. Suas obras, prêmios, formação, cargos e funções relacionados à educação que exerceu durante sua vida e opiniões de outros escritores sobre seu trabalho estão neste capítulo. Trata-se de sua obra e a subjetividade infanto-juvenil. Queirós manifesta um profundo respeito pelas crianças e pela vida. Acredita que é através da fantasia que a criança consegue explicar o mundo. Na sétima seção – Faz-se um breve estudo de como a morte é vivenciada na literatura. As dificuldades para se tratar do assunto com as criança e os adolescentes e como a morte é entendida na sociedade. Fala-se do conceito de morte, conforme a filosofia e como a morte pode ser entendida de várias maneiras. A morte não significa somente fim, ela também pode ser vista como recomeço, mudança. Ela pode ser vista como inauguradora do novo. Pode-se entender como que morrer e renascer fazem parte da existência. Foram analisadas várias obras de Queirós que tratam a morte dessa forma. Ela também pode ser entendida como limite incontornável da existência. São vários os textos de Queirós que abordam a morte como causadora da dor da perda. A morte apresenta-se como motivo de perda das estruturas para o humano. Alguns livros de Queirós abordam a morte como causadora dessa perda e de como continuar o viver com falta. Na oitava seção – abordase a metodologia empregada na elaboração deste trabalho. Ela é análise bibliográfica que visa responder aos questionados surgidos na elaboração do trabalho. A nona seção traz as considerações finais deste trabalho sobre as imagens de morte em Bartolomeu Campos de Queirós. 12 1.1 OBJETIVOS 1.1.1 Objetivo Geral Sabendo-se que o texto literário é aquele que pretende emocionar e que, para isso, emprega a língua com liberdade e beleza, utilizando-se, muitas vezes, de metáforas, este trabalho tem como objetivo geral analisar as imagens da morte em Bartolomeu Campos de Queirós e refletir sobre a atuação dessas imagens na elaboração da dor da perda em leitores infantojuvenis e nas memórias do autor. 1.1.2. Objetivos Específicos Analisar a literatura infanto-juvenil no aspecto de formação e transformação do leitor: observar as diversas maneiras de a literatura ser usada como forma de desabafo, de cura para o escritor que, tentando entender suas dificuldades, acaba por ajudar os que passam por problemas parecidos ou que sentem medo de passar por eles; Investigar o trabalhar, a memória, as significações do fazer literário e o refletir sobre o ato da leitura como forma de trazer ao coração do leitor um alento para a dor que as palavras oralmente ditas talvez não possam; Identificar na obra de Bartolomeu Campos de Queirós pistas de como ele percebe o sentido da vida e entende a morte; Compreender como essas imagens são importantes na formação e elaboração da dor da perda e de como essa perda pode trazer à reflexão o modo de viver e conviver. Refletir sobre a abrangência do conceito de literatura infanto-juvenil, pois, quando não se restringe a literatura para a criança, o adulto também é favorecido pela leitura; Verificar como a infância “reinventada” pelo autor, conforme Manoel Bandeira pode subverter e transformar a percepção do real com seus “pequeninos nadas” como importantes elementos constitutivos da memória (LEITÃO, 2006, p. 62). 13 2 PERSPECTIVAS TEÓRICAS Para a realização da pesquisa sobre As imagens de morte em Bartolomeu Campos de Queirós, a fim de responder os questionamentos e de alcançar os objetivos propostos, foram feitos estudos de textos relevantes de vários críticos e teóricos, conforme os temas a serem enfocados no presente trabalho. Para uma apresentação didática, organizam-se, a seguir, os autores estudados, conforme o tema explorado. A literatura como forma de significação para o leitor Para Bettelheim (1986), a falta de significado na vida de uma criança pode acarretarlhe problemas emocionais. Percebe-se, assim, a importância da literatura na formação do indivíduo, uma vez que a criança precisa da fantasia para aprender a lidar com o real. Tanto ouvindo histórias quanto lendo, a criança e o jovem vão adquirindo condições para vivenciar suas experiências. O autor aponta os contos de fadas e seus significados como importantes na formação emocional e de valores para a criança. Entender ficção e realidade Segundo Pereira, Mara E. M. (2001), a literatura exerce um importante papel na formação do indivíduo. Nela, as palavras ganham sentidos novos e até inesperados, fazendo o leitor buscar um caminho de significação que ele ainda não percorreu. O leitor passa a conviver com uma linguagem diferente da de costume e se depara também com a ficção, onde há uma realidade semelhante à real, no entanto, fruto da imaginação do escritor. Portanto, a literatura provoca no leitor um efeito que aciona a sua fantasia, colocando-o frente a frente com dois tipos de vivência interior, a real e a ficcional. Percebe-se que o texto literário introduz um mundo que, longe do cotidiano, faz o leitor refletir sobre a sua rotina e o faz aprender com as experiências obtidas pela leitura. Reconhecer-se no texto: Peres (1999), utilizando-se da teoria lacaniana, afirma que o indivíduo, para ser, necessita do olhar do outro. O outro toma corpo de outro que lhe é semelhante e, baseando-se no que o outro espera, o indivíduo constrói a sua personalidade. Não se pode ser sem ter a 14 referência do outro. Como ser incompleto, por natureza, o ser humano necessita do outro para manifestar suas necessidades e desejos. A literatura tem sido, ao longo do tempo, uma forma de manifestar essa incompletude do humano, apresentando-lhe uma maneira de compensar a falta. A autora defende a ideia de que a escolha da leitura para crianças não deve ser vinculada à pedagogia e sim de acordo com o interesse pessoal. Segundo Leitão (2006) são trabalhadas, por vários autores, as ideias de infância e memória e a natureza prismática, múltipla do texto literário como lugar para interrogar, pensar, sonhar a infância apresentadas por vários autores. Escrever como forma de abrir horizontes: Ramos (2005), em sua experiência de escritora, percebe que, para muitos escritores, a escrita é uma forma de criar novos mundos e viver neles os seus desejos e sonhos. Para ela, esta necessidade dos autores não é fuga do real é desejo de obter outras vivências em situações criadas. Segundo sua análise, a alma, o sopro de vida pulsante é que faz o escritor continuar sua tarefa, a de criar realidades diferentes. A autora analisa obras infantis e infanto-juvenis, com o interesse de apontar formas de pensar estas obras e a sua ligação com a teoria literária, estudando Sigmund Freud, Gaston Bachelard, Ítalo Calvino, Umberto Eco e outros. Ramos também faz uma leitura da criança e a recriação do real e sobre os escritores criativos e a importância do trabalho estético na criação. Sua obra traça percursos para alcançar uma literatura infantil e juvenil de qualidade. O leitor experimenta o sentido do texto Segundo Compagnon (2001), o sentido é um efeito que o leitor experimenta e não um objeto que já vem definido no texto, antes de sua leitura. Percebe-se que, a literatura traz a experiência do autor e recebe a do leitor. O autor nunca se retira totalmente de sua obra e o leitor fará um diálogo com ele. A criação do autor depende do seu estado de espírito Para Kristeva (1989), o estado de espírito do autor influencia muito a obra. Ela recebe a carga emocional que o autor carrega no momento da escrita. Para Kristeva, o que faz sofrer também pode ser criativo e, assim, o escritor pode tirar beleza da dor, da angústia e, até como 15 forma de alívio ao dividir com os outros as suas fragilidades. Assim, verifica-se que a ideia de derrota ou fracasso pode ser o gatilho para a pulsão da morte como inscrição da descontinuidade. Para ela, o estado de espírito do autor pode ser revelado em sua obra. 16 3 ALGUMAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DA LITERATURA INFANTOJUVENIL A literatura pode ser entendida como a arte de transpor para a língua os sentimentos da alma. É vida sendo recriada e registrada na palavra. É como se podem transmitir os mais íntimos sentimentos humanos. Não se pode estabelecer uma data para o surgimento da literatura, pois ela nasce na oralidade, porém, têm-se notícias dos primeiros passos da literatura ocidental no século V a. C. na Grécia Antiga. Pode-se afirmar que a literatura grega teve uma grande importância na história da literatura feita no ocidente, além de influenciar o início da dramaturgia europeia. Aristóteles definiu: “arte literária é mimese (imitação); é a arte que imita pela palavra” (ARISTÓTELES, apud CASTRO, s. d.). Para Afrânio Coutinho, (…) a literatura, como toda arte, é uma transformação do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade, passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio (COUTINHO, 1969, apud SANTOS, s. p. e s. d.). Pela literatura, pode-se descobrir novos mundos, onde sonhos e realidade convivem. O leitor pode “viajar”, participando de um mundo mágico onde a realidade pode ser criada, modificada, de modo a satisfazer os interesses do autor e do leitor e onde este pode buscar subsídio para as suas dúvidas. Ela pode ser transformadora para os mais jovens. Porém, em seus primórdios, a literatura não era pensada para as crianças, pois elas ainda eram educadas entre adultos, sem restrições, e participavam juntas da vida social e política, testemunhavam as festas, as guerras, a vida. Não se pensava nelas como alguém em formação. Não havia uma literatura própria para elas, pois não eram consideradas, de fato, crianças. Na Grécia antiga, o cotidiano do povo grego, não escravo, acontecia, principalmente, nos ginásios esportivos, nas termas, no fórum ou outros lugares de reunião. Dava-se mais valor ao ócio do que ao trabalho, principalmente, entre os atenienses. Interessante notar que a palavra ócio, em grego, está relacionada a “skole” (de onde deriva a palavra “escola” em português, que, em latim, é “schola” e em castelhano, “escuela”) que quer dizer, "lugares do ócio". Para os gregos, eram lugares destinados à educação. Assim, eles consideravam o ócio 17 como algo a ser alcançado e desfrutado. Foram eles os primeiros a pensarem em algo parecido com escola. Assim, participando de reunião, iam trabalhando ideias e pensamentos para construírem sua cultura. É dos romanos a ideia aceita pelos modernos de correlação entre a criança em formação e a noção de “vergonha” moralista, o que se tornou importante na evolução do conceito de infância. Do aprimoramento dessa ideia, veio a necessidade de proteger as crianças dos segredos dos adultos, o que provocou a diferenciação entre faixas etárias. Vem disso a ideia de que as crianças, em sua individualidade, necessitavam de proteção e cuidados, e de escolarização, em separado e a salvo dos assuntos dos adultos. Vale lembrar que todas as influências sociais eram passadas quase que somente pela oralidade. Com o surgimento da prensa tipográfica no século XVI, houve maior possibilidade da difusão de escritos e da leitura. Houve, então, uma profunda separação entre os que podiam e os que não podiam ler. Os que sabiam ler eram considerados adultos e crianças quase sempre não sabiam ler. Para deixar de ser criança, precisava-se passar pela alfabetização. Quando ainda não se tinha a prensa tipográfica, a leitura era sempre em público seguida de discussões abertas. O conhecimento era alcançado em grupo. Com o desenvolvimento da prensa tipográfica, passou-se a individualizar essa prática, caracterizando o leitor isolado, que tem perspectiva e interpretação próprias. Surgiu, então, a de ideia de individualidade mais definida e, assim, cada um poderia, com seu esforço, adquirir maior ou menor conhecimento. O surgimento do livro impresso possibilitou um novo modo de organizar o conteúdo e o pensamento. Uma diferença considerada nesta época entre adulto e criança é a de os adultos terem posse de informações que não eram adequadas para as crianças. Na tentativa de adequar textos à criança, as histórias folclóricas foram adaptadas e, pode-se dizer que daí surgiram os contos de fadas, que até aquele momento não eram próprios para a criança. A maioria desses contos vem da tradição oral, das rodas de histórias onde tanto crianças quanto adultos recebiam conhecimentos em forma de parábolas. Bruno Bettelheim lembra que os adultos passavam informações importantes sobre comportamento humano (verdadeiras chaves para o desenvolvimento psíquico) para as crianças, utilizando-se daquelas histórias (BETTELHEIM, 1986, p. 17). Em 1801, em plena Revolução Francesa, quando se fez a reforma da instituição pública, houve o recenseamento de todas as crianças de idade compreendidas entre os sete e os onze anos para levantamento do número de escolas que eram necessárias naquele momento. Nessa época, a reivindicação de escolas e alfabetização para o povo refletia o 18 desejo de liberdade. Combater os excessos da monarquia com instrução. A república só poderia ser sustentável em um país onde as pessoas entendessem o que estavam fazendo. Na mesma época, em Portugal, a maioria das crianças não era alfabetizada, pois se pensava que os que se dedicavam a trabalhos rústicos e fabris não tinham necessidade de instrução. Ribeiro Sanches deixa escrito em suas “Cartas sobre a educação da mocidade” que a instrução generalizada não tinha qualquer vantagem e só contribuía para desviar as pessoas dos seus ofícios manuais (SANCHES, R) 1. Apenas uma minoria privilegiada tinha acesso aos livros e os escritores produziam as suas obras, quase sempre, por um impulso criador, com uma intenção educativa e para determinado assunto, embora cada um pudesse imaginar o universo infantil de acordo com as próprias experiências pessoais. Com o aprimoramento da ideia de infância, do entendimento de que as crianças deveriam crescer sem conhecer os segredos dos adultos, e com ascensão da burguesia, a literatura infantil passou a ser difundida, como comenta Zilberman: (…) antes da constituição deste modelo familiar burguês, inexistia uma consideração especial para com a infância. Essa faixa etária não era percebida como um tempo diferente, nem o mundo da criança como um espaço separado. Pequenos e grandes compartilhavam dos mesmos eventos, porém nenhum laço amoroso especial os aproximava. A nova valorização da infância gerou maior união familiar, mas igualmente aos meios de controle do desenvolvimento intelectual da criança e manipulação de suas emoções. Literatura infantil e escola, inventada a primeira e reformada a segunda, são convocadas para cumprir esta missão (ZILBERMAN, 2003, p. 15). Como forma de entender as dificuldades entre as gerações, a efemeridade da vida, a convivência de crianças e adultos, os sentimentos que são parte de cada um (amor, ódio, inveja e amizade) e o mundo onde se vive, a literatura infanto-juvenil vinha sendo utilizada na formação dos mais jovens. Pode-se considerar como grandes autores fundadores da literatura infantil o francês Charles Perrault (século XVII), que deu vida à Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida, Pequeno Polegar e Gato de Botas, Gabrielle-Suzanne Barbot, a Dama de Villeneuve (século XVIII), com a Bela e a Fera, os Irmãos Grimm (século XIX), Hans Andersen, (século XIX) com a história do Patinho Feio, A pequena Seria; e Charles Dickens, (século XIX), com o Conto de Natal e a história de Oliver Twist, entre outros. Chegaram ao século XX duas ideias de formação da criança vindas dos séculos XVIII e XIX: Locke, afirmava que, ao nascer, a criança tem a mente como uma folha de papel em 1 Disponível em: <http://purl.pt/148/1/P89.html>, acesso em agosto de 2013. 19 branco, tudo está por formar. Não há na criança nenhuma habilidade cognitiva, intelectual e mental, tudo é aprendido socialmente; e Rousseau afirmava que a infância é o estado da vida em que o homem está mais próximo do seu “estado de natureza”. Assim, a criança possui inatas aptidões para a sinceridade, compreensão, curiosidade e espontaneidade que, pela educação, pela alfabetização, pela razão e pelo autocontrole, são amortecidas. Estão aí duas posições diferentes: “para Locke, a educação consistia em um processo de adição, enquanto que para Rousseau, era um processo de subtração” (HISTEDBER, 2009). As duas ideias influenciaram a produção literária para crianças, ora ensinando e incutindo conteúdos e valores necessários para a vida, conforme o pensamento de Locke, ora exaltando a inocência e pureza presentes no ser humano em seu estado mais puro e natural, a infância, ideia defendida por Rousseau. Independente da linha de enfoque, as histórias acompanham o homem. Ouvir ou escrever histórias dá a quem o faz a oportunidade de lidar com uma realidade inventada. Faz do indivíduo um cidadão autor ou modificador da cultura e partícipe dela. No período colonial, o Brasil recebia obras literárias ambientadas em Portugal. Essa literatura, de imaginário europeu e destinada à formação das crianças portuguesas, chegava ao Brasil e era usada na educação das crianças sem ser adaptada à realidade local. Além de não apresentar uma identidade brasileira, essa literatura era muito mais de caráter pedagógico do que de entretenimento. Ainda no início do século XX a literatura infanto-juvenil estava profundamente relacionada à formação. Instrumentalizada para fins de alfabetização e leitura, com a expansão das escolas no Brasil, a literatura infantil era vista como forma de incutir valores e ideias. “A literatura infantil propriamente dita partiu do livro escolar, do livro útil e funcional, de objeto eminentemente didático” (ARROYO, 1968, p. 94). Pode-se afirmar que o primeiro escritor brasileiro a fazer literatura infanto-juvenil com caráter de entretenimento foi Monteiro Lobato, com o livro Narizinho Arrebitado. Com ele, deu-se início a uma nova literatura no Brasil. Lobato, embora, estivesse se iniciado na literatura escolar, já inaugurava, em sua primeira obra, as diretrizes de uma literatura infantojuvenil. Foi ele, no Brasil, o pioneiro a pensar na literatura infantil como forma de estímulo à criança para o hábito e o prazer da leitura, não ficando mais restrita à obrigação pedagógica dos livros didáticos. A obra infanto-juvenil de Lobato evolui de apenas pedagógica para obra de entreteniemento e estímulo à leitura. Observa-se a presença de elementos da cultura nacional não somente em suas obras, mas também em obras de outros autores que, recorrendo ao 20 folclore e às histórias populares, passaram a produzir uma litertura mais livre, não apenas didática. O crescimento quantitativo da produção para crianças e a atração que ela começa a exercer sobre os escritores comprometidos com a renovação da arte nacional demonstram que o mercado estava sendo favorável aos livros. Essa situação relaciona-se aos fatores sociais: a consolidação da classe média, em decorrência do avanço da industrialização e da modernização econômica e administrativa do país, o aumento da escolarização dos grupos urbanos e a nova posição da literatura e da arte após a revolução modernista (LAJOLO e ZILBERMAN 1999, p 47). Havendo, então, maior número de consumidores e maior número de escritores, a produção literária brasileira infanto-juvenil passa por um crescimento que vem se consolidando até os dias de hoje. Nos anos de 1960, a literatura infantil ainda era considerada por muitos uma literatura “menor”, menos importante. Durante o período da ditadura militar, a censura era exercida de forma implacável sobre as criações artísticas e literárias, sobretudo destinadas aos adultos. Sendo consideradas de menor relevância, naquela época, por causa ainda da ideia de ser apenas para a formação moral dos mais jovens, as obras infanto–juvenis não recebiam o mesmo rigor de censura, pelas autoridades, que as outras formas de manifestação artística. Desta forma, podem-se encontrar na literatura infanto-juvenil deste período, várias obras que denunciavam e alertavam a população sobre que estava acontecendo. Como se escrevia para crianças, um segmento social historicamente ignorado pela assimetria de poder entre adulto e infante, este no máximo encarado como futuro material humano da nação, foi nesse setor que a resistência ao regime militar passou desapercebida e plantou sementes de liberdade. Autores [...], através do universo mágico dos livros infantis, puderam desacreditar os valores que sustentavam a política de linha dura dos militares, de certo modo induzindo uma geração a pensar por si e a desconfiar de ideias que matam (BORDINI, 1998, p. 38). Vale a pena lembrar que esse fenômeno ocorreu também fora do Brasil na mesma época e com o mesmo intuito. Foram muitos os autores que, utilizando-se desta situação, puderam tornar públicas suas ideias contra os militares no poder. Muitos compositores e intérpretes musicais também apresentaram seus protestos e foram perseguidos por uma rigorosa censura que impôs muitas punições, que reprimiu as criações artísticas, prendeu e até exilou do país seus artistas mais inconformados. 21 4 REFLEXÕES SOBRE O LEITOR: EFEITOS E RESPOSTAS DA LITERATURA Em O Demônio da Teoria – Literatura e o Senso Comum, Antoine Compagnon afirma que [...] as normas e os valores do leitor são modificados pela experiência da leitura. Quando lemos, nossa expectativa é função do que nós já temos – não somente no texto que lemos, mas em outros textos - e os acontecimentos imprevistos que encontramos no decorrer de nossa leitura, obrigam-nos a reformular nossas expectativas e a reinterpretar o que já lemos, tudo que já lemos até aqui neste texto e em outros. A literatura procede, pois, em duas direções ao mesmo tempo, para frente e para trás, sendo que um critério de coerência existe no princípio da pesquisa do sentido e das revisões contínuas pelas quais a leitura garante uma significação totalizante à nossa experiência (COMPAGNON, 2001, p. 148-149). A leitura como processo causa “efeitos e respostas”. Iser, (1972 e 1976), analisando o processo da leitura, entende que o sentido é efeito experimentado pelo leitor e não é um objeto já definido antes da leitura, (…) a obra literária tem dois polos, [...] o artístico e o estético: o polo artístico é o texto do autor e o polo estético é a realização efetuada pelo leitor. Considerando esta polaridade, é claro que a própria obra não pode ser idêntica ao texto nem a sua concretização, mas deve situar-se em algum lugar entre os dois. Ela deve, inevitavelmente ser de caráter virtual, pois ela não pode reduzir-se nem à realidade do texto nem à subjetividade do leitor, e é dessa virtualidade que ela deriva seu dinamismo. Como o leitor passa por diversos pontos de vista oferecidos pelo texto e relaciona suas diferentes visões e esquemas, ele põe a obra em movimento, e se põe ele próprio igualmente em movimento (ISER, apud Compagnon, 2001, p. 149). Como se pode perceber, o sentido é, portanto, um efeito que o leitor experimenta e não um objeto que já vem definido no texto, antes de sua leitura. O autor nunca se retira totalmente de sua obra, fica nela como autor implícito. Nesse sentido, Queirós afirma que: “Entre o que penso e escrevo existe um leitor que pretendo seduzir. Para tanto sei ser necessário deixá-lo em liberdade para revelar-se em minhas linhas. O texto é um ponto de partida e não lugar de chegadas” (QUEIRÓS, Contra capa do livro O Infantil na Literatura – Uma questão de Estilo de Ana Maria Clark Peres, 1999). 4.1 Literatura e alteridade A alteridade parte do pressuposto de que todo o homem social interage com outros indivíduos. Antropólogos e cientistas sociais dizem que a existência do "eu-individual" é 22 permitida somente mediante um contato com o outro. A interação pode promover no sujeito modificações profundas. Sentir que o outro é também sujeito que, como ele, também é dependente de alguém, pode provocar um sentimento de igualdade, de identidade e até de segurança. Não se está sozinho. É pela alteridade que se pode ver, reconhecer e respeitar o outro. As diferenças podem tornar-se criadoras e acontecer, então, uma reciprocidade perfeita. O autor tem a escrita como forma de colocar-se no mundo e o leitor, através do texto, escolhe a posição a tomar. Pode, então, refletir e entender o outro e/ ou simplesmente ir com o texto a lugares já vistos ou não. Maria Lúcia Araújo Sadala, em seu trabalho "A alteridade: o outro como critério", cita: No diálogo fico liberado de mim mesmo, os pensamentos de outrem são dele mesmo, não sou eu quem os formo, embora eu os aprenda tão logo nasçam e mesmo me antecipo a eles, assim como as abjeções de outrem arrancam de mim pensamentos que eu não sabia possuir, de tal modo que, se lhe empresto pensamentos, em troca ele me faz pensar (MERLEAU PONTY,1945, p.81, apud SADALA, 1999, p. 356). 4.2 A literatura infanto-juvenil na formação do leitor Como arte, a literatura é muito importante na formação do ser humano. Aborda aspectos da vida social e do comportamento humano, levanta questões que são comuns a todos e apresenta contrastes: bem/ mal, trevas/ luz, saúde/ doença, noite/ dia. No processo de transformação, a literatura tem um papel importante na vida da criança e do adolescente. Através dela, pode-se lidar com todo o tipo de sentimentos, narrando a história em seu contexto temporal ou atemporal e ou narrando algo com que a criança ou adolescente se identifique, e do qual possa tirar informações para melhor lidar com os conflitos pelos quais esteja passando. Ela é também pedagógica. “A criança que ouve contos organiza melhor o discurso na mente e, consequentemente, cria e desenvolve estruturas que lhe permitem poder vir a compreender qualquer tipo de narrativas, por exemplo, a sua própria narrativa…” (QUESADO; SARDINHA, 2010, s. p). Percebe-se que a literatura pode contribuir para o crescimento emocional e intelectual da criança e do adolescente. Para Bettelheim (1986), a falta de significado para a vida de uma criança pode torná-la “gravemente perturbada”. A condição de educador e terapeuta desse autor o fez trabalhar na tentativa de restaurar o significado da vida para as crianças que não conseguiam compreender esse significado. Em seu livro A psicanálise dos contos de fadas, o autor declara que, para entender o significado da vida, o importante para a criança é, em 23 primeiro lugar, o impacto dos pais e de seus cuidadores e, em segundo, a herança cultural quando transmitida de maneira correta. “Quando as crianças são novas, é a literatura que canaliza melhor este tipo de informação” (1986, p. 12). Para o autor, é muito importante para as crianças uma literatura que contemple essas informações. Os livros e cartilhas onde se aprende a ler na escola são destinados ao ensino das habilidades necessárias, independentemente do significado. A maioria da chamada “literatura infantil” tenta divertir ou informar, ou as duas coisas. A pior característica destes livros infantis é o que logram a criança no que ela deveria ganhar com a experiência da literatura: acesso ao significado mais profundo e àquilo que é significativo para ela neste estágio de desenvolvimento. Para que uma estória realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, estimular-lhe a imaginação: ajudar a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com sua ansiedade e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam. Resumindo, deve de uma só vez relacionar-se com todos os aspectos de sua personalidade – e isso sem nunca menosprezar a criança, buscando dar inteiro crédito a seus predicamentos e, simultaneamente, promovendo a confiança nela mesma e no seu futuro (BETTELHEIM, 1986, p. 12 e 13). Percebe-se a preocupação de Bettelheim com a formação da criança para uma vida saudável e feliz. A criança não pode ser vista apenas como um futuro adulto, ela tem demandas específicas para formação da personalidade e do caráter. Nessa fase, o ser humano necessita de um cuidado ainda maior por parte dos adultos. Exatamente porque a vida é frequentemente desconcertante para a criança, ela precisa ainda mais ter a possibilidade de se entender neste mundo complexo com o qual deve aprender a lidar. Para ser bem sucedida neste aspecto, a criança deve receber ajuda para que possa dar algum sentido coerente ao seu turbilhão de sentimentos. Necessita de ideias sobre a forma de colocar ordem na casa interior, e com base nisso ser capaz de criar ordem na sua vida. Necessita – e isto mal requer ênfase neste momento de nossa história – de uma educação moral que de modo sutil e implícito conduza-a às vantagens do comportamento moral, não através de conceitos éticos abstratos, mas daquilo que lhe parece tangivelmente correto, e portanto significativo (BETTELHEIM, 1986, p. 13). Em sua formação, o conhecer-se poderá ajudar o adolescente nas respostas para a vida. Boas histórias poderão fazer a criança ou o adolescente entrarem na vida da personagem da história e, usando a imaginação, reelaborar sua realidade pelo imaginário, pela fantasia, o que pode ajudá-la a entender suas dificuldades. Na criança ou no adulto, o inconsciente é um determinante poderoso do comportamento. Quando o inconsciente está reprimido, nega-se a entrada de seu conteúdo na consciência, a mente consciente será parcialmente sobrepujada pelos derivativos destes elementos inconscientes, ou então será forçada a manter um controle de tal forma rígido e compulsivo sobre eles que sua personalidade poderá 24 ficar gravemente mutilada. Mas quando o material inconsciente tem, em certo grau, permissão de vir à tona e ser trabalhado na imaginação, seus danos potenciais – para nós mesmos e para os outros – ficam muito reduzidos. Muitos pais acreditam que só a realidade consciente ou imagens agradáveis e otimistas deveriam ser apresentadas à criança – que a ela só deveria se expor o lado agradável das coisas. Mas esta visão unilateral nutre a mente apenas de modo unilateral, e a vida real não é só agradável (BETTELHEIM, 1986, p. 17). Há que se ter um cuidado para não preservar demais os mais jovens com relação ao texto. Queirós afirma que não é necessário empobrecer a linguagem para o jovem para revelar o assunto. O autor precisa ter o cuidado de não ser autoritário e prescritivo, deixando que o leitor faça o percurso de leitura com liberdade para imaginar e sonhar, mas também não poderá subestimar a capacidade de seu leitor apresentando textos que não levam em conta a capacidade dele. O leitor infanto-juvenil é muito dedutivo, pensa mais em coisas que acha que dariam certo do que no que é exatamente real. Nesta época, já se está apto a construir hipóteses e entender argumentos complexos. Tem-se o desejo de mudar o mundo. Os textos que abordam problemas sociais e psicológicos são para os adolescentes bastante interessantes, uma vez que já possuem uma boa capacidade para a reflexão. “Assim, dar uma forma compreensível aos problemas humanos significa que, através de uma espécie de encenação imaginária, aquilo que antes era confuso ou sem forma pode ser compreendido” (PEREIRA, Mara E. M. 2001, s. p.). Ao ler, o leitor passa a atribuir ao texto significações. É convidado a reconstruir o que lê e, para isso, é necessário que ele use um mecanismo que envolve decodificação e ativação de conhecimentos prévios. O conhecimento de mundo que o leitor traz, ou seja, seu conjunto de experiências, a assimilação do texto e reflexão são, ao mesmo tempo, utilizados para o desencadeamento de um processo psíquico, em que raciocínio, memória e emoção trabalham para dar significação ao texto lido. Assim, o processo de reconstrução de um texto é, pois, uma atitude ativa do leitor que se torna sujeito das significações que constrói. A literatura é uma atividade profundamente pessoal. Cada um tem uma experiência diferente do texto. Ao contrário da escrita que exterioriza um pensamento, a leitura é uma atividade de assimilação, de interiorização e reflexão. As crianças e os adolescentes podem ter na literatura uma aliada para sua formação ao refletir sobre experiências diferentes das suas, ter elementos para entender os processos de medo, ódio e outras inquietudes. Portanto, entende-se que uma boa experiência literária pode dar à criança e ao jovem uma bagagem para lidar com suas dores e as dores do mundo, seus medos e os medos que podem perceber nos outros. 25 Na presente pesquisa, visou-se refletir sobre o fazer literário de Bartolomeu Campos de Queirós como forma de arte e também como forma de trazer alívio para o autor. Trazendo à tona as dificuldades da própria infância, o autor, utiliza-se da escrita para dessa forma reviver estas dores e tentar entendê-las. O adulto, ao trazer à memória esses sentimentos, poderá ter outra percepção da realidade. Assim, também o leitor, ao participar da ficção, poderá entender melhor a sua realidade ao confrontá-la com a do escritor. Tanto o autor quanto o leitor podem sair ganhando nessa troca em que ficção e realidade passam a conviver com o ato da escrita e o da leitura. 26 5 O ESCRITOR E A CRIAÇÃO Para Ana Maria Machado, “inventar é um jeito diferente de perguntar e sair experimentando possíveis respostas” (MACHADO, 2004a, p. 3, Apud RAMOS, 2006). O leitor busca no texto entender suas inquietações, o escritor tem o texto como forma de revelar as suas e, assim, a literatura continua sendo uma forma de diálogo entre leitor e escritor. Rosa Montero, em A Louca da casa afirma: [...] o escritor pega um grumo autêntico da existência, um nome, uma cara, um pequeno episódio, e começa a modificá-lo mil e uma vezes, substituindo os ingredientes ou dando-lhes outra forma, como se estivesse rodando um caleidoscópio sobre sua vida e estivesse rodando indefinidamente os mesmos fragmentos para constituir mil figuras diferentes. E o mais paradoxal é que, quanto mais você se afasta com o caleidoscópio de sua própria realidade, quanto menos puder reconhecer sua vida no que escreve, mais estará se aprofundando dentro de si mesmo.” [...] “Os romancistas não escrevem sobre seus assuntos, mas em torno deles”, diz Julian Barnes. E Stephen Vizinczey arredonda este pensamento com uma frase precisa e luminosa: “O autor jovem sempre fala de si mesmo, até quando está falando dos outros, ao passo que o autor maduro sempre fala dos outros, mesmo quando fala de si mesmo” (MONTERO, apud RAMOS, 2005). Portanto, quando se lê, apropria-se da ideia de alguém, da vida de alguém e essas experiências podem trazer ao leitor uma visita à subjetividade individual ou coletiva que se apropria cognitivamente dos objetos da realidade exterior. Freud, em A interpretação dos Sonhos, segundo Peres (1999), faz uma análise dos processos de criação poética e suas analogias com o trabalho onírico. Segundo ele, encontramos no sonho a criança que sobrevive com seus impulsos. O trabalho literário pode ser entendido também como um encontro autêntico com essa criança viva que está presente nos sonhos. Segundo Ramos, não há como escrever sem alma, sem o sopro de vida pulsante. Para escrever literatura infanto-juvenil, é necessário entrar em contato com o imaginário infantil e infanto-juvenil. É preciso conhecer o mundo imaginário, os sonhos, as fantasias, as alegrias, as tristezas e os devaneios próprios dessa idade. O adulto que escreve para criança precisa lembrar-se da criança que foi, mantendo o imaginário no poder para elevar seu texto ao nível compreensível para crianças e jovens. Há quem pense que é necessário empobrecer, ou facilitar o linguajar para escrever literatura infanto-juvenil e, para Ramos, isso é um erro. Segundo ela é preciso 27 (…) saber captar a alma da criança e do jovem entre as palavras de um texto, nas falas das personagens, no clima da história, na vida. Tarefa difícil, mas necessária para quem quer trabalhar com crianças e jovens. Hoje sei que escrever foi uma forma que encontrei para não parar de brincar. É fato que esses conceitos agora, depois de adulta, são claros para mim. Quando criança eu apenas sentia que inventar um mundo tal qual desejava me dava conforto e alegria. [...] Penso que todo artista ao criar trabalha como elementos da percepção, da memória do passado e imaginação visando possibilidades novas e futuras (RAMOS, 2005, p. 49). Segundo Rosa Montero, afirmando seu desejo de entender seus porquês sobre a estética criadora, suas inquietações a fizeram “mergulhar em diversos livros” a fim de encontrar respostas. Quanto mais eu lia, mais me inquietava. Mais descobria que cada autor tem voz própria, pensa e sente a vida de maneira única. Mas entendia que cada autor possui lembranças e histórias que marcaram sua trajetória de vida e, consequentemente, sua escrita, e que, por isso, cada um tem sua maneira singular de escrever. Ao mesmo tempo reparava que muitos autores associavam a criação a uma necessidade de recriar o mundo, espantar os fantasmas, de transformar o real em um novo real, e fui me identificando com eles (RAMOS, 2005, p. 57-58). Citado por Ramos, Bachelard defende a ideia de que as imagens de criança descritas por um poeta podem ser imagens da continuidade da criança permanente que ele traz consigo: “(…) as imagens da infância, imagens que uma criança pode fazer, imagens que um poeta nos diz que uma criança fez são para nós manifestações da infância permanente. São imagens da solidão. Falam da continuidade dos devaneios da grande infância e dos devaneios dos poetas” (BACHALARD, 2001, p. 94 apud RAMOS, 2005, p.58). Em entrevista ao jornal Notícias do Salão (2003), Queirós revela que acredita que arte é quando se faz o melhor de si e que não se preocupa em fazer o melhor para uma ou outra pessoa e sim para ele mesmo: “vou simplesmente fazer o melhor de mim”. Podemos pensar também que o escritor, ao trabalhar com as imagens da memória, pode trazer novas interpretações que sejam mais agradáveis que as de fato foram vividas. Ao recriar, pode-se criar um mundo que tenha elementos do passado, mas que não tragam toda a carga desagradável que fora vivida. Seria essa uma maneira de aliviar as lembranças ruins e de tentar trazer leveza, amenizando sua carga emocional. “A arte está sempre nos oferecendo inesperadas possibilidades, potenciais saídas surpreendentes e alternativas para os labirintos em que nos encerramos” (MACHADO apud RAMOS, 2005, p.55). É, neste sentido, que se pode acreditar que Bartolomeu Campos de Queirós e tantos outros autores tenham se utilizado do texto como forma de curar as feridas da infância. Em certas passagens, vê-se estampada a tristeza tentando camuflar-se na ternura, na beleza do 28 texto. “O que escrevo é o que me falta. É isso que a literatura faz. A literatura é o lugar da falta” (PEREIRA, Rogério, 2011, s. p.). Sua obra é poesia textual. Ela rompe com a classificação dos gêneros literários e pode ser pensada para qualquer tipo de leitor. Sua escrita traz uma repetição de “falta” que vem explicitada numa flagrante repetição: indefinição, mistério, impossibilidade e assim ficam em segundo lugar as características que sejam supostamente importantes apenas para determinado tipo de leitor. 5.1 A escritura pode ajudar no processo de construção do sujeito autor/ leitor? As incertezas colocadas pelo autor autorizam o leitor a questionar e a mostrar suas insatisfações com o mundo e com as injustiças presenciadas. Assim, as inquietações da personagem podem ser as mesmas do leitor, o que os faz identificarem-se. Na obra de Bartolomeu Campos de Queirós, fica muito claro esse papel da literatura: refletir sobre as relações sociais e afetivas, em suas várias instâncias de relação com o outro. Suas histórias elaboram-se com uma linguagem que reconhece construir com metáforas, verdades que são relativas, reconhecidamente frágeis e fugazes [...] (DUARTE, UFMG, s. d., p. 3). Diante disso, podemos pensar que as experiências de morte na literatura poderiam desenvolver no leitor, especialmente nos mais jovens, a habilidade para lidar com as angústias do tempo atual. A leitura proporcionaria, ao leitor uma espécie de memória que passaria a ser também sua. O que lhe daria instrumentos para lidar com situações reais de perda, dor ou desorientação. Em Ciganos, Queirós narra a chegada de um grupo de ciganos à cidade. De tempos em tempos, eles vêm instalar-se em terrenos baldios da cidade, montam suas barracas, fazem tachos, leem mãos, cantam, dançam e mexem com a imaginação de todos. Parecem sempre muito livres e felizes e a cidade fica à espreita dessa gente. O menino-narrador-protagonista imagina-os como a liberdade, a leveza, a alegria e, em contraste com o que ele vivia, desejou partir com eles quando fossem embora, pois sabia que não ficariam por muito tempo, como sempre acontecia: “sua vontade de partir veio, porém, do desamor. Tudo em casa já andava ocupado: as cadeiras, as camas, os pratos, os copos. Mesmo o carinho distribuído” (1983, s. p). Na opinião de um menino tão solitário, os ciganos eram parecidos com o sol e capazes de alimentar o amor. E, por muitas vezes quis ser um cigano abandonado à porta de uma família desconhecida. 29 Eu o vi certa manhã, engolindo seu café puro e fugindo rápido de seus cinco irmãos. Então, bem próximo dos ciganos, e lentamente, mastigou sua parte de pão. Adivinhei, naquele dia, outro segredo. Ele comungava a vontade de fazer-se atraído pelos ciganos e ser roubado por eles. Ah, ser roubado era o mesmo que ser amado. Ele sentia que só roubamos o que nos faz falta. E ele – como gostaria de ser a ausência, mesmo dos ciganos… Para um menino, assim só, os ciganos eram uma espécie de sol que acordava os afetos (QUEIRÓS, 1983, s. p.). O menino do livro não consegue estabelecer um caminho para os ciganos e assim, a indefinição de origem deles parece justificar o seu desejo de ir com eles, ser roubado por eles, ser um deles, pois, não tendo caracterísitcas delineadas, é possível que se instalem neles afetos os mais diversos. E seu maior desejo é o de ser amado. Tudo já estava ocupado. A casa onde fora tão feliz já não tinha lugar para ele. E, queixando-se de seu pai que percebia também sentir esta falta, reclama: “por seguidas vezes a sua solidão se misturava aos ruídos do chicote do pai, nas costas. E desse surpreendente dueto também ele não sabia a dor maior, se a da carne ou a do coração” (QUEIRÓS, 1983, s/n). Observa-se que o ato de escrever pode ser, para muitos, uma forma de viver diferente determinada realidade. Pode-se observar que, conforme Anna Cláudia Ramos, em seu livro Nos Bastidores do mundo infantil, citando o que diz a escritora Anaïs Nin, no livro Em busca de um homem sensível mostra que escrever é uma forma de recriar a vida: (…) nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda a obra de arte. [...] Escrevemos para aprender a falar com os outros, para testemunhar nossa viagem ao labirinto. Para abrir, expandir nosso mundo quando nos sentimos sufocados, oprimidos ou abandonados. Escrevemos como os pássaros cantam, como os primitivos dançam seus rituais. Se você não respira quando escreve, não grita, não canta, então não escreva porque sua literatura será inútil (1987, p. 18-19). Para Queirós, a literatura é uma conversa sobre as dúvidas, as incertezas e as falhas são coisas que unem os que escrevem e que leem literatura. Segundo Booth (1961) o autor nunca se retira totalmente de sua obra, mas deixa nela um substituto que a controla em sua ausência que seria o autor implícito. Sugerindo, então, que o autor implícito tinha um correspondente, no texto, Booth afirmava que o autor “constrói seu leitor, da mesma forma que ele constrói seu segundo eu e que a leitura mais bem sucedida é aquela para a qual os seus eus construídos, autor e leitor, podem entrar em acordo.” Haveria assim, em todo texto, construído pelo autor implícito, um lugar reservado para o leitor, o qual ele é livre para ocupar ou não” (BOOTH apud Compagnon, 2001, p. 150). 30 Ler e escrever pode trazer sentimentos adormecidos. No livro “Sol Negro – Depressão e Melancolia”, de Júlia Kristeva (1989), a autora aborda a influência do estado de espírito do autor na obra. A obra recebe a carga de depressão e melancolia que o autor carrega no momento da escrita. O que faz o sofrer também pode ser criativo, daí o escritor pode tirar a beleza da dor, da angústia, até como forma de alívio, de dividir com os outros suas fragilidades e dores. Para aqueles a quem a melancolia devasta, escrever sobre ela só teria sentido se o escrito viesse da melancolia. Tento lhes falar de um abismo de tristeza, dor incomunicável que às vezes nos absorve, em geral de forma duradoura, até nos fazer perder o gosto por qualquer palavra, qualquer ato, o próprio gosto pela vida. Esse desespero não é uma aversão, que pressuporia capacidades de desejar e de criar, de forma negativa, claro, mas existentes em mim. Na depressão, o absurdo de minha existência, se ela está prestes a se desequilibrar, não é trágico: ele me aparece evidente, resplandecente e inelutável (KRISTEVA, 1989, p. 11). 31 6 A POÉTICA DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS Na literatura, cada autor apresenta seus valores, ideologias, modo de vida, formas de encarar a infância e a educação. E, acompanhando o tempo, as histórias, surgem novos autores, novas ideias e novas obras. Há os autores que são muito lidos, os muito queridos e os que, a exemplo de Bartolomeu Campos Queirós, cativam tanto crianças como adultos. A literatura recebe de Queirós uma escrita sutil que propõe outros significados às palavras simples, mostrando uma linguagem carregada de sentimentos. Em sua obra, são frequentes a ternura, a esperança, as manifestações de afeto e gratidão. Seus textos trazem tristezas, alegrias e humor misturados aos acontecimentos cotidianos. Queirós nasceu em Pará de Minas em 1944, passou parte de sua infância em Papagaio e em Divinópolis, viajou pelo mundo e faleceu em Belo Horizonte em janeiro de 2012 onde morava. Escreveu vários livros e peças teatrais para crianças e foi contemplado com os mais importantes prêmios literários no Brasil: Selo de Ouro da Fundação Nacional do Livro Infantil, Prefeitura de Belo Horizonte, Prêmio Bienal Internacional do Livro, Grande Prêmio da APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte, Prêmio Orígenes Lessa – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Diploma de Honra do IBBY, Quatríeme Octogonal, da França, Rosa Blanca de Cuba, Bienal de Belo Horizonte. Ocupou vários cargos públicos relacionados à educação e desenvolveu vários projetos direcionados ao aperfeiçoamento e ao crescimento da arte no espaço da educação, pelo MEC. Trabalhou também no Conselho Estadual de Cultura, Conselho Curador da Fundação Guignard e foi Presidente do Palácio das Artes em Belo Horizonte. Levando-se em consideração as declarações sobre suas obras, é que se pode perceber seu lugar de relevância na literatura. São muitos os trabalhos científicos dedicados aos seus livros. O Poeta de Aquário – Vida e Obra de Bartolomeu Campos de Queirós, de Simões 2012, livro que traz a biografia de um homem que transformou as vivências de sua infância em obra de arte, mostra a trajetória do escritor que se tornou um dos mais admirados do Brasil. Detentor de vários prêmios nacionais e estrangeiros, Bartolomeu Campos de Queirós aborda temas familiares, cotidianos, comuns no mundo inteiro. É um dos autores da literatura infantil brasileira contemporânea que mais inspiram estudos artísticos, pedagógicos, literários e adaptações para o palco. É também um dos que possuem mais estudos publicados sobre a sua produção literária. Seus textos, amplamente adotados nas escolas, inspiram e levam alunos e professores a se 32 relacionarem bem, lendo literatura. Suas criações para crianças e jovens fazem parte dos clássicos brasileiros (SIMÕES, 2012, p. 15-16). O livro “Indez”, publicado em 1994, consta da lista de honra do IBBY (The International Board on Books for Young People) como um dos 100 melhores infanto-juvenil do mundo. Yeda Prates Bernis descreve Queirós como "menino sensível e observador, feliz e infeliz na sua infância”. [...] em conceitos sobre a vida, a literatura e o estar no mundo de forma filosófica, com nitidez de sua presença e sabedoria inolvidável. (BERNIS, contra capa de O Poeta de Aquário, 2012). Para o autor, (…) toda palavra é espelho onde o refletido me interroga. [...] (QUEIRÓS, 2012, p. 12). Há dias em que o passado me acorda e não posso desvivê-lo. Esfrego os olhos buscando desvendar a manhã que embaça o dia. Deixo a cama carregado pelos fardos de ontem. Encaminho-me à cozinha sabendo não encontrar brasas cobertas de cinzas (QUEIRÓS, 2012, p. 60). O livro Vermelho Amargo apresenta prosa poética. O menino-narrador a tudo vê e interpreta. Não deixa passar nada sem que perceba uma “real” intenção nos fatos. Esse narrador conta a história de vida dele e dos irmãos na convivência com a madrasta que não se move para conquistar o afeto das crianças. Ela apenas cuida do trabalho da casa sem demonstrar nenhum carinho ou atenção com os que já estavam lá. O menino ora descreve os acontecimentos com todos à sua volta e suas implicações, ora fala de seus sentimentos de maneira recolhida, sentida, sofrida e resignada. Só. A poeta Henriqueta Lisboa fala do autor com carinho e admiração: Não é ele tão somente um educador que sabe distinguir, através de estudos filosóficos, pesquisas estéticas e experiência pessoal no seu campo de atividade, o valor da arte no processo educativo. Ele é também um poeta - aquele que mergulha nas águas profundas da preexistência e da inocência, o que aporta à ilha onde todas as cousas se tornam maravilhosamente possíveis; o que acabou descobrindo o segredo da simplicidade (Notas “sobre o autor” no Livro Vermelho Amargo de Queirós, 2012 p. 68, após sua morte). O que se pode dizer de Bartolomeu Campos de Queirós é que ele é um dos maiores escritores infanto-juvenil da literatura. São muitas as críticas favoráveis aos seus trabalhos de grande beleza e lirismo. Pode-se considerá-lo um grande arquiteto das palavras. Segundo Queirós, “a literatura é feita de fantasia. A fantasia é o que temos de mais real dentro de nós. Todo real é uma fantasia que ganhou corpo” (QUEIROS, 2011, s. p.). Isso 33 se encontra em consonância com as afirmações de Roland Barthes para quem uma das características do texto literário é fazer-nos experienciar algo a partir do ato da leitura, apropriarmo-nos dessa experiência como nossa: “a ideia de um livro em que estaria entrançada, tecida, da maneira mais pessoal, a relação de todas as fruições: as da ‘vida’ e as do texto, no qual uma mesma anamnese captaria a leitura e aventura” (BARTHES, 2002, p. 69). Na literatura, a verdade será sempre múltipla e mutante, por apresentar um discurso subjetivo, cujo olhar do leitor o fará multiplicar-se. Queirós condena o uso pragmático do texto literário na escola, pois, esse uso, na sua perspectiva, será reduzir e descaracterizar a literatura que perde, assim, a leveza e a condição de libertar a imaginação e incentivar a ficcionalização e a inventividade. Nessa perspectiva, a literatura infantil parece ampliar-se para designar toda literatura que liberta pela criatividade; certamente por isso Bartolomeu recusa a nomenclatura “literatura infantil”, pois esta, como a literatura em geral, trata do amor e da morte, usando o material fluido e maleável da linguagem (DUARTE, UFMG, s. d., p. 8). Queirós tem presença marcante na literatura infanto-juvenil brasileira. Em 1974 publicou seu primeiro livro O peixe e o pássaro e, ao longo da vida, teve 42 livros premiados, como já foi dito anteriormente. Sua escrita poética foi logo associada aos mais jovens, mas, conforme estudos feitos pela professora Jaquelânia Aristides Pereira, da Universidade Estadual do Ceará, embora seja considerado um autor de literatura infanto-juvenil, Bartolomeu não escrevia para crianças: “foram as crianças que leram seus textos e se identificaram com os temas tratados e com o modo como a linguagem é tecida repleta de afeto, poesia e sensibilidade, sem abdicar da gramática da fantasia” (PEREIRA apud Chan 2012, s. p.). Na obra de Queirós, os fatos não aparecem como acabados, o leitor passa a participar da afetividade e da verdade do texto. “Suas histórias do cotidiano quase sempre nos conectam com nossas memórias afetivas.” (PEREIRA apud Chan, 2012, s. p.). Assim, pode-se confirmar o que Queirós diz de que não se deve rotular a literatura por faixa etária. 6.1 Queirós e a subjetividade infanto-juvenil O Autor adota uma linguagem simples, porém, cheia de poesia, usa muitas figuras de linguagem e fala do cotidiano como se fosse o de todos, ou seja, seus textos levam o leitor aos 34 lugares descritos, às emoções vividas e às saudades do que não se viveu. Sua narrativa poética traz as inquietações com a efemeridade da vida, a dificuldade de entender a passagem do tempo, presentes na consciência humana criadora. “Quero que minha literatura atinja as crianças, mas que também permita uma leitura de adultos” (LOPES, 2012). Voltei para o antes. Carregava comigo minha antiga infância. E o menino que morava em mim não mais travou sua língua. Continuou a me interrogar sobre as coisas impossíveis de responder. Meu coração, pesado de perguntas, se agitava, festivo, ao supor que o tempo é um saboroso presente (QUEIRÓS, 2009, p. 47). Parte de sua obra é classificada como literatura infanto-juvenil, mas, segundo ele mesmo, “quando a emoção é muito forte, tenho que mudar de página. Faço muito isso, mas quase protegendo o leitor. O conteúdo não. As crianças dão conta.” (PEREIRA, R., 2011). Por várias vezes, Queirós fala de seu carinho e respeito pelas crianças, e seus textos, principalmente os autobiográficos, trazem orientações que podem ser válidas para os professores atuais no sentido de conduzirem seu trabalho a fim de alimentar a esperança das crianças que chegam às escolas. “(…) a literatura é uma conversa sobre as dúvidas. (…) Não é uma conversa crua com as exatas. A literatura é mais delicada. Ela trabalha com a dúvida, com as incertezas, com as inseguranças, com as faltas, que são coisas que nos unem” (PEREIRA, R., 2011). O respeito que Bartolomeu diz ter pelas crianças é resultado do que vem na memória. Todo adulto é a criança que cresceu. Estão depositados aí todas as experiências, ensinamentos e afetos guardados. A palavra contém toda a carga da vivência, a memória guarda as experiências e os sonhos. Na palavra, é que conseguimos transmitir toda a nossa história de vida. Muitas vezes, o leitor, não consegue entender suas inquietações e, lendo, poderá reconhecer-se na dor, na alegria do texto e entender as frustrações e as realizações que norteiam o viver. Bartolomeu diz que o leitor gosta de uma obra não pelo que está escrito, mas pelo lugar em que ela o levou a pensar. “O bom texto permite que o leitor se expresse diante dele. É quando o leitor chega a um lugar onde o autor nunca esteve” (VASSALLO, 2003, p. 3). O autor busca no leitor um parceiro para suas histórias. Em Ler, escrever e fazer conta de cabeça, nota-se, no menino-narrador, certo desejo de “consolo” quando tenta entender a injustiça à hora do almoço do domingo. Ele começa perceber as diferenças sociais e as ordens que também se estabelecem entre os adultos. 35 A única coisa que podíamos acompanhar dos ricos era a hora de almoçar no domingo. Vinha com rodelas de ovos cozidos, azeitonas e queijo ralado derretido, depois da travessa visitar o forno; não havia sofás ou poltronas de veludo. Entrava o frango fervendo, soltando fumaça igual ao turíbulo, afogado em caldo grosso, conservado pelo calor da panela de pedra. Os pedaços com mais carne caíam no prato daqueles que trabalhavam mais. Nunca me importei de comer asas, pescoço, pés. Trabalho de menino não tinha valia, por mais que eu buscasse lenha no mato, água na mina para o filtro Fiel, pequi para o sabão (QUEIRÓS, 2004, p. 19). Queirós “acredita que é através da fantasia que a criança consegue explicar o mundo que a rodeia, porém, muitas vezes, isso se torna complicado para ela, pois sempre existem limites diante das muitas coisas que fazem parte do cotidiano” (DUTRA e SILVA, 2010, p. 3). Identificando-se com as personagens, percebendo nelas as mesmas inquietações suas, ou seja, ao sentir-se também incompleto, o leitor pode soltar-se para dialogar com um outro que, às vezes pode lhe parecer ele mesmo. Nesse exercício de libertação, pode ligar o texto ao vivido e ao imaginário e, assim, participar da criação artística e viver a catarse que a arte pode propiciar. O autor cria em sua narrativa espaço para os sonhos, a fantasia, a imaginação, e assim, entre o real, o fictício e o imaginário, deixa brechas entre as palavras, através das quais o leitor pode ler o silêncio e trazer para o texto suas próprias experiências e esperanças. Seu texto é capaz de seduzir desde o pequeno leitor até o mais fluente. 6.2 As experiências narradas por Bartolomeu Campos de Queirós As imagens da morte são trabalhadas de diversas maneiras na obra de Bartolomeu Campos de Queirós. Seu primeiro livro, O peixe e o pássaro, foi escrito quando de sua viagem a Paris onde estudou no Instituto Pedagógico da França. Observando um lago, passou a prestar atenção a uma cena interessante: um pássaro descia até a superfície da água e o peixe subia até ela. Viam-se, mas não se tocavam. O pássaro pode morrer afogado na água e o peixe "afogado no ar", nas palavras do autor. A superfície da água era o limite para os dois Uma incompletude que, segundo o autor, é presença constante na alma dos homens que foram ali representados. Sua obra é repleta de incertezas. Aborda o desequilíbrio, a busca, a solidão. É sempre povoada com a ideia de que nada é definitivo. Queirós expressa sempre a dúvida que diz ter aprendido com seu avô: “para ele, a função da arte é levar a dor para o campo da beleza, da poesia.” (DUARTE, s. d., p. 8). A convivência com a doença prolongada e a morte de sua 36 mãe, a experiência de morar com os avós, longe dos irmãos e a efemeridade da vida, fazem parte de seus livros. Se nada que o real nos oferece nos pode satisfazer, podemos triunfar, com uma linguagem inovadora, desse inevitável fracasso, elaborando-o artisticamente e dando voz à fantasia: de forma direta, através de um texto que rompe com a linguagem cristalizada do senso comum; ou então de forma indireta, no prazer de uma leitura que observa as estratégias e artimanhas com que testemunha a tragédia da existência para superar esse luto, transformando em arte e positividade o medo e o sofrimento – a negatividade (DUARTE, s. d., p. 8-9). Em “Movimento por um Brasil literário”, carta datada de 16/12/009, Queirós afirma: “e tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isso se faz claro quando, diante de um texto, nos confidenciamos: ‘ele falou antes de mim’ ou ‘ele adivinhou o que eu queria dizer’.” O autor utiliza-se de uma escrita sutil, em que palavras simples trazem uma linguagem carregada de sentimentos, fazem o leitor ter uma sensação de acalento e encantamento. Em seus livros, (…) ele “emerge a empatia, tendência de sentir o que sentiria caso estivéssemos na situação e circunstância experimentadas por outro, isto é, na pele de outra pessoa, ou mesmo de animal, de um objeto, de uma personagem de ficção” (MARTINS, 2003, p. 51). Portanto, os livros de Queirós são um convite à criança que existe em cada um. A que está agora vivendo esta etapa da vida e a que já passou por ela e que vê dentro de seus textos algo que viveu ou que poderia ter vivido. “Há sempre um adulto escondido num livro infantil. Mas há sempre alguma ideia de criança no livro. Livros infantis não podem ser simples – são escritos por adultos!” (HUNT, apud MENDES, 2010). 37 7 A LITERATURA COMO FORMA DE VIVENCIAR A MORTE Quando escreve literatura de memória, o autor conta para si mesmo a própria história e, desta forma, o fazer literário pode ser visto como uma maneira de revisitar a própria infância. Assim, o autor torna-se ator, sujeito da ação, portanto, vê de forma diferente a situação vivenciada naquela época. O sofrimento é inerente ao ser humano e a experiência de dor pode trazer uma compreensão da realidade. Como já foi dito, a literatura pode desempenhar esse papel de experiência. Assim, o leitor poderá incorporar através do ato da leitura, experiências de outros que podem ajudar na formação do conhecimento e entendimento sobre a vida. Falar de morte para crianças e adolescentes é uma tarefa que requer coragem, pois, esta é a fase onde se vive de forma plena a esperança e os sonhos, a força e a vitalidade físicas estão em franco desenvolvimento. Tudo para os jovens é presente e o futuro, certamente, virá. Só se pensa em viver. Conforme se pode observar, no início do século XX, o grande tabu era tudo que se referisse ao sexo e, no final do século, na sociedade ocidental, o grande tabu esteve ligado à morte. Atualmente, é comum as crianças serem informadas sobre sexualidade, mas quando o assunto é a morte, procura-se em mascarar o fato como: “foi para o céu”, “viajou”, “descansou”. A sociedade hoje tem o costume de esconder a morte e todo o seu processo de um modo limpo, discreto, tácito. Não se sabe, hoje, lidar com a morte de forma natural. Foram criadas diversas maneiras para que o morto seja arrumado, velado e enterrado no menor espaço de tempo possível, para que o sofrimento causado aos parentes seja minimizado. Em apenas 24 horas o morto é enterrado, de um modo geral, este é um hábito da cultura brasileira. São muitas as razões para esse hábito, porém, em um mundo exageradamente capitalista, quanto mais rápido se recupera de uma dor, mais rápido se volta a consumir. Seria, então: “recupere-se mais rápido da perda do seu ente querido e volte à vida.” Porém, as marcas deixadas pela morte de alguém querido podem ser uma companhia pela vida toda. Os mais jovens precisam saber que as várias imagens da morte trazem consequências e que é preciso aprender a lidar com elas. Para Queirós, (…) nascer é ser expulso do paraíso, é andar com a própria perna, é falar com a própria boca, é ouvir com o próprio ouvido. Nascer é o abandono e é isso que nos faz ter compaixão do outro. A compaixão surge com a consciência desse abandono, com o medo da morte (PEREIRA, R., 2011, s. p.). 38 Embora seja um assunto do qual muitos fogem, a morte é a única certeza. Sabe-se que tudo tem um ciclo e que nascer-viver-morrer é condição para os que vivem. As crianças passam por situações de morte em suas famílias e nas famílias de seus amigos. Este assunto precisa ser tratado nas conversas com as crianças para que se identifiquem os conceitos que elas têm sobre a morte. Pessoas e animais de estimação envelhecem, se acidentam, adoecem e morrem. Assim, é importante oportunizar para que, na literatura, os mais jovens façam contato com situações que falam de morte, de perda, do fim, pois esses acontecimentos são parte da vida. Queirós vivenciou essas passagens ainda muito cedo. A efemeridade da vida foi-lhe apresentada quando ainda era criança. Pode-se, por isso, pensar, que seus livros sejam tão profundamente comprometidos com a passagem do tempo, o cotidiano. As coisas acontecem sem que sejam consideradas importantes, e muitas delas vão deixando suas marcas. Assim, com sua sensibilidade aguçada, Queirós chama a atenção do leitor para detalhes que não são sempre observados, mas que marcam profundamente a personalidade, e o leitor, dessa forma, identifica-se com sua obra. Em cada partida, em cada despedida, observa-se a morte. 7.1 Conceito de morte A morte pode ser a ruptura, o corte, o fim, o recomeço. Em toda morte, está implícita uma mudança. Algo novo se estabelece. Sua chegada inaugura uma nova etapa na vida. Tudo muda quando se morre. A morte é o limite, a perda. É prova incontestável de que tudo acaba. Pode-se afirmar que a única certeza do ser humano é a morte. O humano vivencia e elabora, no decorrer de sua existência, várias mortes, que Kovács (1996) chama de "morte em vida". Vive-se com a presença da morte em vida, o que nos remete à ideia de finitude. São percebidas as suas representações na dor, na ruptura, na tristeza, na perda, no medo do desconhecido, na interrupção. Na ficção, tem-se o modelo imaginário do qual o humano carece, pois a literatura pode trabalhar com a dúvida. A língua cria sempre imposições e a cultura cria normas para garantir a sua sobrevivência. A salvação do homem pode estar nessa invenção da terceira margem e nesse lugar não lugar, na liberdade de quebrar regras e de inventar novidades que é a literatura. 39 Queirós “parece abrir para o leitor com a chave da dúvida, do estranho e da contradição, do anseio insatisfeito, mas também do lúdico e da criatividade, um espaço de libertação e encantamento, em que a vida do texto pode vencer a morte” (DUARTE, s.d. p. 3). Segundo o Dicionário Básico de Filosofia de Hilton Japiassú: 1 - Em seu sentido filosófico, a morte sempre foi entendida como o desaparecimento ou cessação da existência humana, mas levando a se pensar o sentido da vida. Para Platão “filosofar é aprender a morrer”, e a imortalidade da alma é “um belo risco a ser corrido”. Para Epicuro, a morte é uma certeza, mas não constitui um mal nem deve ser temida, pois é a dissolução do ser total (corpo e alma). Pascal reconhece que estamos “todos condenados à morte”, pois somos seres frágeis: mas somos únicos seres a saber que morremos: nossa dignidade consiste em pensarmos a morte e a salvação. Kant faz da imortalidade da alma um dos postulados indemonstráveis da razão prática (os dois outros são a existência de Deus e a liberdade). 2 – Na filosofia existencial de Heidegger, a morte é o sinal da finitude e da individualidade humana que o homem precisa assumir para escapar da alienação de si e da banalidade do cotidiano: “A morte se desvela como a possibilidade absolutamente própria, incondicional e intransferível”. “A crença na necessidade interna da morte não passa de uma das numerosas ilusões que criamos para nos tornar suportável o fardo da existência... no fundo, ninguém acredita em sua própria morte ou, o que dá no mesmo, em seu inconsciente cada um está persuadido de sua própria imortalidade” (Freud). (JAPIASSÚ, 1996, p. 134, 135). A morte sempre esteve presente como representação nas manifestações culturais. Para Kovács, (…) a despeito dessas diferentes visões, não se pode negar o fato comum de que a morte é uma realidade presente durante toda a vida da espécie humana, fazendo-se acompanhar de ritos e de representações as mais diversas. As religiões e a filosofia sempre procuraram questionar e explicar a origem e o destino do homem. Por tradição cultural, familiar ou mesmo por investigação pessoal, cada um de nós traz dentro de si ‘uma morte’, ou seja, a sua própria representação da morte. São atribuídas a esta, personificações, qualidades, formas. A morte sempre inspirou poetas, músicos, artistas e todos os homens comuns. Desde os tempos dos homens das cavernas há inúmeros registros sobre a morte como perda, ruptura, desintegração, degeneração, mas também, como fascínio, sedução, uma grande viagem, entrega, descanso ou alívio (KOVÁCS, 1992, p. 1-2). Como condição, morrer é algo que acontece a tudo que vive. Não se vive sem que a morte seja a única certeza. Somente os humanos sabem que vão morrer. A Bíblia Sagrada aponta que “debaixo do céu, há tempo para tudo, e tempo certo para cada coisa: Tempo para nascer e tempo para morrer. Tempo para plantar e tempo para arrancar a planta…” (BÍBLIA, Eclesiastes, 3, 1-2). Procurou-se, no presente trabalho, organizar em três categorias as várias imagens de morte encontradas na obra de Queirós, que serão analisadas nas três seções seguintes. 40 7.2 A morte como inauguradora do novo, dentro de um círculo virtuoso Pode-se entender a morte como parte de um ciclo maior, um circulo virtuoso onde a vida gera sempre a vida. Nesta dinâmica, a morte é uma etapa entre um momento de agitação, produção, vitalidade e outro momento de valor similar. Trata-se de um ciclo virtuoso, pois, a cada volta, a cada etapa, produzem-se novos elementos que beneficiam todo o sistema. A morte está inserida em uma dinâmica onde a vida rege a própria morte e a morte não é o fim, mas, simplesmente a inauguração de outra vida. Queirós traz em seu livro Flora uma personagem traduzida poeticamente como menina que “guardava uma paixão secreta pelas sementes. Sabia morar em cada semente uma floresta, árvore, galho, folha, fruto, flor”. (SAMPAIO apud SIMÕES, 2012, p. 149). Está atenta ao ciclo da vida e sabe que a terra trabalha dia e noite, com a tarefa de “apodrecer a semente” para trazer a primavera. A morte como fonte de vida. Bartolomeu primava pelo afeto e respeito à criança, até mesmo antes de concebida. Achava que ela possui, ainda na fase uterina, o sentimento de afetividade. No útero, conhece o paraíso. Quando dele é expulsa, ganha o abandono. Daí, viver é uma tentativa de recuperar o paraíso, o aconchego, o amor fraterno. E isso – a busca do paraíso perdido pelo resto da vida – é que nos aproxima uns dos outros (SIMÕES, 2012, p. 120). Esse carinho e esse respeito do autor com a vida, com os que nascem está em Flora e, em seus textos, resguarda, para sempre, a criança que todos foram um dia. “Poesia que tranquila e sabiamente faz na aceitação do ciclo vital um canto de amor à vida. Flora, florir, florescer, ser” (DORNELLES apud SIMÕES, 2012, p. 151). Em Flora, a vida está presente em todos os momentos, mesmo nos silêncios e mistérios. A morte se insere como parte do processo. Em entrevista, Queirós fala sobre a morte de uma maneira de forma processual: “Acho que a morte é que inaugura a vida. A morte precisa do nascimento, para exercer o corte dela” (OLIVEIRA, 2012, s. p.). A dinâmica da vida-morte-vida ou nascer, crescer, aprender, viver, morrer, expiar, continuar, está presente em várias religiões. Pode-se verificar o que várias delas ensinam. Para maior compreensão e entendimento torna-se necessária a citação, mesmo que extensa. No catolicismo - “morrer e ser ressuscitado significa chegar a uma ampliação plena da cognição, de tal maneira que, só na morte, a pessoa tenha a possibilidade de conhecer, com clareza total e absoluta, o significado e as consequências de sua vida vivida, no nível individual, socioestrutural, histórico e cósmico”. Renold Blank, doutor em teologia e filosofia e professor emérito da Pontifícia Faculdade de Teologia de São Paulo; 41 Islamismo – “A crença no Dia do Juízo significa que a morte não é o fim da vida, mas um portal para a vida eterna. Portanto, os muçulmanos percebem o tempo como sendo contínuo, desse mundo para o próximo; e o tempo passado aqui moldará a natureza do tempo eterno”. Ziauddin Sardar, autor de Em que Acreditam os Muçulmanos (Civilização Brasileira). Candomblé – “se o indivíduo leva uma vida imbuída de verdade, o pós-morte será uma extensão de suas ações, portanto, uma passagem confortável, sem julgamentos”. Babalorixá Kabila Aruanda, de São Paulo. "O judaísmo prega que todos os mortos serão ressuscitados na Era Messiânica” (quando o Messias chegar à Terra). Yonatan Shani, diretor do Kabbalah Centre do Brasil. Induísmo - Para os indianos, a pessoa não é o corpo, mas a alma, que parte para outra dimensão”. Luís Malta Louceiro, filósofo e especialista em cultura indiana. Budismo - Os seres morrem e renascem abandonando a ideia do que foram”. Monja Coen, fundadora da Comunidade Zen Budista, em São Paulo. Espiritismo - "De acordo com a doutrina espírita, o espírito - a essência do ser continua vivo depois da morte, que só atinge o corpo”. Geraldo Campetti, diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB) (MELLO, 2013). Adyr Assumpção afirma que o livro Flora nos provoca o estado de "estar vivo". “O tempo entre ter nascido e morrer” (apud SIMÕES, 2012, p.150). Em A árvore, Queirós fala da gratuidade da natureza, de como se aprende observando o movimento das estações, a beleza, a abundância e generosidade que percebe naquela árvore que “me espia, pela janela…” (QUEIRÓS, contra capa do livro A árvore, 2011). Minha árvore tem mistérios que não consigo decifrar. De repente, ela se enche de mais botões que roupa de rainha. Depois, os botões – sem casa para morar – se abrem em flores. As flores são miúdas, amarelas e falam perfume. Mas só muito de perto seu perfume respira nosso nariz. [...] Pelo muito que minha árvore me faz pensar, tenho por ela um respeito desmedido... Ela não sabe que é minha professora. Aliás, desconfio que minha árvore viva gratuitamente (QUEIRÓS, 2011, p. 18 e 32). A imagem descrita é conhecida de todos: uma árvore que, de tempos em tempos, parece morrer para renascer depois. Linda, coberta de folhas que logo caem e tudo fica feio, apenas galhos espichados no espaço. Algum tempo se passa e ela se enche de folhas novamente e as flores colorem e perfumam a paisagem. A agora são os frutos que vêm para dar continuidade ao ciclo da vida. Esta é a contínua tarefa da árvore que ainda produz a sombra, o alimento, purifica o ar, abriga e que informa aos olhos que tudo pode se renovar. Observa-se que viver nos remete à eternidade, “se aconteceu fica eterno.” “Por oposição ao ‘nunca mais’ do tempo cronológico, esse momento está destinado ao “para todo o 42 sempre” (ALVES, 2002, p. 163). A semente que brota, a criança que nasce, as alegrias e tristezas, as conquistas e fracassos, todos fazem a eternidade. E é na literatura que se pode falar disso com liberdade. No livro Indez, Queirós conta a história de um menino que nasce prematuramente, tem a saúde um tanto frágil e que, por isso, recebe, além do carinho de todos da família, cuidados e atenções especiais. A criança é de uma família de uma cidade do interior de Minas e os pais utilizam-se de várias “simpatias” e cuidados originários da vida em comunidade rural para ajudá-lo na tarefa de viver. Era uma criança feliz e sentia-se amada por todos. O menino Antônio encarna toda infância dos meninos das cidades do interior, principalmente de Minas Gerais. O jeito de Antônio dava “uma vontade muito forte de fazê-lo sumir entre carinhos” (QUEIRÓS, 1995, p. 29). [...] Além de acompanhar a vida de Antônio, do nascimento em uma cidadezinha do interior do país à partida para estudar fora, “Indez” procede a um minucioso inventário da cultura interiorana brasileira ou, mais precisamente, da cultura do interior de Minas Gerais, terra do autor do livro. Assim, Indez é não apenas um relato lírico, emocionante, de uma existência; é também documento que, nascido de uma sensibilidade transbordante do autor, resgata nos mínimos segredos um universo que pode viver submerso no país, mas que nem por isso é menos forte e atuante (PERROTTI, 1995, s. p). Em Indez, Queirós fala dele mesmo. Trata-se do menino que foi visto em Por Parte de Pai, em Ciganos, em Ler escrever e fazer conta de cabeça, em Vermelho amargo e outras de suas obras. O menino de alma pura que busca ser amado e compreendido. Não sei quantos anos se passaram. Sei que continuo recebendo recados de Antônio sempre: - nas tigelas de arroz-doce das estações rodoviárias, na água que cai do sino em dias de chuva, nas caixas de lápis de cor nas vitrines, [...] Antônio não me deixa. Não sei qual de nós tem mais medo ou qual de nós tem mais amor (QUEIRÓS, 1995, p. 95). O autor, assim como o leitor, carrega todas essas bagagens e eles se reconhecem no texto. Por isso, ler Queirós é um exercício de reviver, de buscar lá no fundo o que parecia dormir, mas que esteve sempre presente em nossas atitudes de pensamentos. 7.3 A morte como limite incontornável da existência humana A palavra "morte" é usada também para definir o desaparecimento ou fim de qualquer coisa como, por exemplo, de uma civilização, das ilusões. Para definir dor forte, pesar, 43 sofrimento, por exemplo, a partida de alguém a quem se ama, conforme o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, Novíssimo Aulete (GEIGER, 2011, p. 946). Morte sempre vai trazer uma ideia de fim e de perda. Queirós comenta sua dificuldade de lidar com a morte: Para mim, a morte é a coisa mais exagerada que existe no mundo. Ela é muito indecifrável. [...] eu não convivo bem com ela. A morte é muito cruel. Quando estava escrevendo Até passarinho passa, foi um momento em que olhava o mundo e já sentia uma profunda saudade dele (OLIVEIRA, 2012, s. p.). Para muitos, o tema da morte é de difícil abordagem e leitura, porém, nada mais certo na vida de todos os que nascem. Todos que vivem terão que morrer um dia. É a morte _ essa carnívora assanhada _ Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho, come… Faminta mulher que, a 10 de Janeiro sai para assassinar o mundo inteiro, e o mundo inteiro não lhe mata a fome! Augusto dos Anjos Até passarinho passa é uma obra que narra uma relação delicada entre um menino e um pássaro. O próprio título da obra permite reflexões: um passarinho que passa no céu ou um passarinho que vai embora ou ainda um passarinho que virou passado. O livro conta a história de um passarinho que, todos os dias, vinha livremente pousar no alpendre da casa e o menino sabia que ele viria e ficava esperando. Olhavam-se, entendiam-se e depois o passarinho ia embora. Certo dia, ao chegar ao alpendre, o menino encontra o passarinho caído, olha e percebe que está morto. A história não fecha interpretação, ela abre possibilidades de reflexão. Assim, a história termina de forma simples, com a tristeza do menino que vai sentir falta do amigo. O leitor é levado a vivenciar a dor da perda. A morte apaga sua ideia de liberdade. O amor que o menino tinha pelo passarinho que, em sua total liberdade vinha passear na sua varanda, não foi capaz de livrá-lo da morte. E, assim, nas obras de Queirós, a palavra "morte" é usada com certa frequência e seu significado está presente em muitos momentos. Em Por Parte de Pai, o autor narra a convivência em casa de seu avô Joaquim, onde foi morar quando sua mãe faleceu. Viviam na casa o avô, a avó e o menino. É uma história de vida simples com personagens comuns, o tempo passando e o menino aprendendo com o avô o que levou por toda a vida, inclusive a mania de escrever (o avô escrevia todas as novidades nas paredes, as que crianças não deviam ler eram escritas mais no alto da parede). É uma história encantadora, é um registro de fatos 44 poéticos e curiosos de um tempo que não retorna, a não ser, pela literatura. As imagens em Bartolomeu Campos de Queirós, relacionadas à dor e a impotência humana diante da morte, presentes em muitas obras evidenciam a pobreza e a fragilidade humanas. Na narrativa, a dor é tão grande que ganha corpo, cor, nome. Os objetos, lugares e elementos são testemunhas e comunicam essa dor. Em Por parte de pai, certo dia, o avô chama o neto e lhe diz: (…) o tempo tem uma boca imensa. Com sua boca do tamanho da eternidade ele vai devorando tudo, sem piedade. O tempo não tem pena, mastiga rios, árvores, crepúsculos. Tritura os dias, as noites, o sol, a lua, as estrelas. Ele é dono de tudo. Pacientemente ele engole todas as coisas, degustando nuvens, chuvas, terras, lavouras. Ele consome as histórias e saboreia os amores. Nada fica para depois do tempo. [...] E nós, meu neto, marchamos em direção à boca do tempo (QUEIRÓS, 1995, p. 71). No livro Ler, escrever e fazer conta de cabeça, pode-se dizer que o autor faz um mergulho na lembrança, descreve como foi aprendendo as regras e normas do mundo dos adultos. Narra sua primeira experiência com a escola, o aprendizado e o sofrimento da perda da mãe que já vinha doente há algum tempo. Mostra a difícil tarefa de retomar o cotidiano quando há a perda da estrutura familiar. Tudo passa a ser diferente dessa época em diante. As experiências de término, de perda, da finitude da vida, do irremediável momento da perda vão deixando suas marcas: (…) entrei de manso. Vi suas mãos afogadas sobre os panos da cama, como não mais tivessem comando. Estavam imóveis. Lembrei-me do ferro de brasa acariciando a roupa, da colher de pau rapando o tacho, do regador fazendo chuva por sobre as hortaliças. Da espuma no tanque esfregando nossas manchas, do pão repartido em seis, pela manhã (QUEIRÓS, 2004, p. 75). O menino percebe que tudo mudara com a presença da morte. Ela instaura a falta, a dor. Mais uma vez, os objetos e ações testemunham a dor da perda do amor e da ternura materna. A escola, a professora, os colegas são os mesmos, mas, os olhares são outros. Todos tentam disfarçar a pena que sentem por ele e seu coração reconhece o esforço de todos. Os colegas emprestam o material para que o menino coloque em dia os pontos atrasados. “Vera, [...] enfeitava com lápis de cor e régua as margens de meu caderno, como se colorindo as fronteiras. [...] Todos queriam me ajudar, eu sabia, para me oferecer carinho no meio das lições” (QUEIRÓS 2004, p. 77). “Assim eu passava os dias recuperando o atrasado como se fosse possível, com ele, trazer todo o perdido de volta” (QUEIRÓS, 2004, p. 77). A criança é presença na memória do autor de forma incontestável e, trazê-la à tona, pode ser uma forma de dividir a dor com o 45 leitor. “A casa ficou maior e cheia de silêncio. Tudo parecia se esforçar para não acordar quem deveria dormir por toda a vida. E o vazio não nos deixava tocar em nada” (QUEIRÓS, 2004, p. 77). O menino narra o momento da partida da casa do avô, seu melhor amigo, em Por parte de Pai, com a doença da avó e com a presença de uma tia que vivia reclamando ter que cuidar dos três, do avô, da avó, e do menino, o pai, então, resolve ir buscá-lo: (…) meu pai chegou no meio da tarde, vestido de desânimo. Encostou o caminhão em frente da casa. Enrolei minhas poucas coisas sem deixar os cadernos e as cartilhas já decoradas. Esqueci de mim mesmo, debaixo do travesseiro, a caixa de lápis de cor. Passei os olhos pelas paredes conferindo as páginas e minha memória. Eu sabia cada pedaço, cada margem, cada entrelinha desse livro. Esperei um pouco pelo meu avô, perdido entre as sombras do cafezal e ele não veio. Não liguei importância. Ele havia me desejado boa viagem ontem, me contando sobre o tempo. Vi minha avó pela fresta da porta de seu quarto. Alheia a tudo, há muito ela já havia se despedido de todos. Prendi as lágrimas na porta dos olhos pra meu pai não ler o meu medo. Assentei-me na boleia, do lado do meu pai, em silêncio (QUEIRÓS, 1995, p. 72 e 73). Nesse trecho do livro, são inúmeras as imagens de morte: a do avô, que não sai para despedir-se dele quando ele vai embora com o pai, a da avó doente no quarto, a daquele lugar, daquele tempo, de parte de sua infância, do carinho e compreensão do avô, das histórias nas paredes, do relógio em forma de oito que deixara agora só a marca feita de lápis pelo avô quando foi levado para o conserto (seu avô passara o lápis ao redor de onde o relógio ficava e deixou sua marca para quando voltasse). Todos e tudo morriam naquele instante de partida. O menino esquece a caixa de lápis de cor. O colorido ficava para trás. O que acontecera entre eles, naquele tempo de convivência estava para sempre terminado. O colorido daquele tempo ficaria somente na lembrança. As cores que havia ali não o seguiriam, os tempos seriam outros e, certamente, as cores nunca seriam as mesmas. Ao retratar o cotidiano, Queirós convida o leitor a revirar, a participar de um lugar onde este pode ou não ter estado. De forma delicada, leva o leitor a conhecer a mente e os olhos da criança que aprende regras e normas do mundo adulto e aprende que a perda, a falta, serão sempre componentes da vida. Pode-se dizer que a literatura infanto-juvenil, como memória, pode ajudar mais ao autor e ao adulto leitor do que a criança, pois, revivendo situações antigas de inquietações, dor, sofrimento, autor e leitor podem buscar também as imagens positivas que ficaram daquele tempo. Enquanto vivenciando o fato e todos aqueles sentimentos, muitas vezes, o ser humano é impedido de reconhecer situações de aconchego e solidariedade que, revividas com maturidade, trazem alívio, entendimento e consolo. 46 Portanto, reviver ou reconhecer acontecimentos através da literatura pode ajudar tanto o autor quanto o leitor abrindo-lhes um espaço para buscar sentimentos adormecidos ou camuflados na alma e, conforme Queirós, “existe em nosso corpo um lugar onde repousa o desconhecido. [...] Lugar fecundo, cemitério de aparentes mortos aguardando portas para a ressurreição. Portas que a linguagem formal não destranca” (QUEIRÓS apud PERES, 1999, p. 100). 7.4 A morte como perda das estruturas A morte na obra de Queirós também apresenta, muitas vezes o caráter desestruturador. Ela é o corte, é a demolição de estruturas de proteção da criança. A mãe que morre deixa o vazio e desencadeia outras perdas. A criança que antes se desenvolvia em um ambiente protegido e ameno se vê perdida em um ambiente, muitas vezes, abalado, onde não há apoio, sustentação ou aconchego. O autor, em Ler, escrever e fazer conta de cabeça, descreve seu tempo de infância, quando começou a frequentar a escola. Narra algumas das primeiras impressões que teve dos adultos. Fala dos amigos, do sofrimento da mãe doente, de suas descobertas e de sua experiência ao ler pela primeira vez. A palavra que inaugurou sua leitura foi "morfina". Foi assustador, quase um pecado ter descoberto o nome do remédio que vinha para a sua mãe e, que ele sabia, trazer apenas um alívio passageiro: (…) um dia, muito de repente, abri o embrulho. Olhei e li, lentamente, morfina. Um pavor frio tomou conta da minha barriga inteira. Uma vontade de correr, sumir no mundo, de me confessar com o Padre Viegas, me agarrou. Pedir uma penitência de três terços por ter ido longe demais, ter invadido o mundo, sem a professora. A palavra morfina me levou a muitos lugares e a outros exílios. Morfina me trouxe o altar-mor, com o Cristo crucificado e deitado, morto de dor e chagas, coberto com um cetim roxo e triste, até a cintura. Mas - entre mor e morte faltava um pedacinho que estava escrito na noite. Noite que me engolia para o nada (QUEIRÓS, 2004, p. 28 e 29). No seu caso, ler inaugurou seu sentimento de descoberta do que não se quer saber. Esse registro na memória do autor ficou para sempre. Para ele, a palavra “morfina” parece-se com Morte. Foi um anúncio. O jornalista Carlos Herculano Lopes, do jornal Estado de Minas, afirma, que Queirós, falando sobre sua infância: 47 (…) revela que as lembranças da mãe, que morreu quando ele tinha apenas seis anos e que cantava em meio ao sofrimento com quem buscava alívio. Em homenagem a ela, diz que também escreve para afastar a dor. Por isso a continuada exigência de beleza e a busca permanente da fantasia como forma de melhorar o mundo e as pessoas (LOPES, 2012, p.8). Por várias vezes, vê-se no autor a compreensão e a empatia com os que sofrem. E, assim, ao narrar seus sentimentos de perda e dor, percebe-se que eles nunca atingem a uma única pessoa. A causa da dor da perda atinge a muitos onde há a falta. E, embora o autor não deixe muito claro, ele sofreu com o sentimento de dor que experimentou nos outros. No livro Vermelho Amargo Queirós fala da dor dele e dos outros: (…) sem a mãe, a casa veio a ser um lugar provisório. Uma estação com indecifrável plataforma, onde espreitávamos um cargueiro com ignorado destino. Não se desata com delicadeza o nó que nos amarra à mãe. Impossível, adivinhar, ao certo, a direção do nosso bilhete de partida. Sem poder recuar, os trilhos corriam exatos diante de nossos corações imprecisos. Os cômodos sombrios da casa - antes bemaventurança primavera – abrigavam passageiros sem linha do horizonte (QUEIRÓS, 2012, p. 9) Além da falta, o menino é obrigado a conviver com a madrasta, aquela que chega para ocupar os espaços deixados pela mãe. A convivência com a madrasta impiedosa dos contos de fadas acontece também em Queirós. Mãe é a que deu a vida, o amor, o carinho, a compreensão, o lar, o aconchego e a madrasta é a que veio retirar o pai, a que quer a casa só para ela. É quem quer começar uma vida nova sem considerar os que já viviam antes dela. Assim, todos sofrem. Uma das características da infância é a impotência. Não ter como mudar os rumos da vida. A mãe é aquela que nutre e que protege, aquece, aconchega. A mãe está relacionada, ao calor, ao que doce e ao aconchego. Com a morte da mãe e a chegada da madrasta, a criança além de ficar desprovida de proteção é submetida aos mandos da madrasta, A madrasta é quem pratica o corte entre pai e filhos. Além de não conseguir ocupar o lugar da mãe, esse lugar de carinho, aceitação, aconchego, ela se insere na família como uma faca que corta a relação dos filhos com o pai e com a própria história. Nos contos de fadas, que fazem parte da infância de muitas crianças, a madrasta é sempre geniosa a ponto de fazer com que o marido ceda aos seus caprichos e ordens, ela é sempre algoz dos filhos do primeiro casamento do marido. Ela também aparece como dissimulada, pois, antes de casar-se, aparenta ser uma provável boa mãe para as crianças órfãs. Entretanto, logo após se casar, revela a mulher má que realmente é e busca todos os modos e artimanhas para anular a presença dos filhos do primeiro casamento. 48 Muitas vezes, as mães são mais significativas pela falta do que pela presença. As mães das futuras princesas Cinderela (versão dos Grimm), Branca de Neve e da futura czarina Vassalissa aparecem, apenas, no início da história. A primeira, já no leito de morte, despedindo-se da filha e a orientando como proceder nos momentos de apuro; a segunda, desejando ter uma filha branca como neve, sendo atendida em seguida e morrendo imediatamente. A terceira, doente e prestes a morrer, tal qual a mãe de Cinderela, presenteando a filha com uma espécie de amuleto da sorte na tentativa de fortalecê-la na certeza de sua própria ausência. A mãe morta é apontada como doce, boa, “tinha sido a melhor criatura do mundo”, na versão de Perrault. É hábil nos afazeres domésticos e cheia de predicados, o que reforça características consideradas, propriamente, femininas pela cultura patriarcal, como beleza, religiosidade, delicadeza, fragilidade e discrição. A madrasta (dos contos de fadas) é aquela que nunca vai ocupar o espaço da mãe, de certa forma é uma intrusa que chega por causa do pai, não pela vontade dos filhos. Em Vermelho amargo, livro que foi considerado o melhor livro do ano de 2012, com o Prêmio São Paulo de Literatura, o autor utiliza o tomate para simbolizar todas as mudanças que ocorreram com a chegada da madrasta. “A faca fina, afiada”, reluzente, que é usada para picar o tomate é uma ameaça constante para o menino. A madrasta aqui é caracterizada pela indiferença. Ao contrário do afeto e carinho da mãe, agora só indiferença e descaso. Antes, minha mãe, com muito afago fatiava o tomate em cruz, adivinhando os gomos que os olhos não desvendam, mas a imaginação alcançava. Isso, depois de banhá-los em água pura e enxugá-los em pano de prato alvejado, puxando seu brilho para o lado do sol (QUEIRÓS, 2012, p. 14). Só tem madrasta quem não tem mãe. Para uma se estabelecer, é necessário que a outra saia. Assim, sem perguntar, sem avisar, sem que se queira, ela chega e quer ocupar aquele lugar que é o da mãe: (…) havia na cidade a madrasta, a faca, o tomate e o fantasma. A mãe morta ressuscitava das louças, das flores, das cadeiras, das panelas [...] E ressurgia em cada um de nós, sua prolongada herança. Impossível para a madrasta assassinar o fantasma, que inaugurava seu ciúme, sem passar por nós, engolidores do seu ódio (QUEIRÓS 2012, 15 e 16). O menino supunha que, ao cortar o tomate, a madrasta estivesse exercitando um faz de conta, ou seja, seu real desejo seria o de degolar a cada um dos filhos da outra. Nessa comparação interminável entre mãe e madrasta, o autor conta da mãe que carinhosamente apontava para os filhos os bens que possuíam entre eles: “uma casa com 49 quintal, uma horta sob mangueira, uma pé de jabuticabas – que nos espiava com muitos olhos pretos” (QUEIRÓS 2012, p. 31). “Já a madrasta mantinha especial conversa com o fogo. O tomate comia-se cru, frio pelo aço da faca. [...] Soprava as cinzas que pairavam sobre as brasas, desfazendo a mentira” (QUEIRÓS 2012, p. 32). O autor narra a ausência que preenche todos os vazios e que os filhos foram um a um tomando seu destino. A madrasta, a cada partida, mostrava um ar de vitória. No livro De não em não, Queirós narra a história de uma família, pai, mãe e filhos que vivem a ameaça da fome, principal personagem. Aquela que ronda, que se anuncia, mas tem paciência de esperar seu momento. Fala da miséria e da grandeza que convivem tão próximas, dentro da vida. A mulher sabia da necessidade de bem atender às exigências da Fome. Se não saciamos seu desejo, ela nos mata sem piedade, com golpe lento, pensava. Chega mansa, assaltando o orgulho de ser humano. [...] Embaça o olhar, tornando mais turvo o mundo, para então escurecer o pensamento. Assim, a vida se faz definitivamente noite, sem mais sono ou sonho (QUEIRÓS 2009, p. 17). O título do livro já dá uma ideia do que se trata, tudo foi negado aos menos afortunados da vida. Os filhos saem à procura quando o dia amanhece e a mãe fica pensando neles: “os meninos, naquela hora, estariam vencendo as ruas, de porta em porta, de esquina em esquina, de lixo em lixo, de não em não, buscando armas para matar a Fome” (QUEIRÓS, 2009, p. 26). O que fazer se tudo lhes é negado? O que faz uma mãe diante dos filhos quando tudo é falta? Nesse livro, os olhos do poeta procuram uma resposta para entender pessoas que estejam mergulhadas na dor da falta. A natureza compartilha seus dons, o sol, a lua, as estrelas, as árvores, o vento, a água e o humano, muitas vezes, não se compadece do irmão que sofre, que busca a mão do outro para erguer-se e Queiros denuncia, de forma poética, essa realidade. Observa-se a personificação da fome que, em todo o livro, vem escrita com letra maiúscula. A Fome é um substantivo próprio. Fome que leva tudo e traz a morte. Os outros personagens não têm nome. A família representa todos os que lutam pela sobrevivência sem ferramentas capazes de trazer a vitória. A Fome identifica-se com a morte. A família é obrigada a separar-se. O pai sai à busca de ferramentas para eliminar a morte e a mãe fica para tentar manter a integridade deles. A mãe, só, busca acalentar os filhos quando, em noite de lua, leva-os para o terreiro e “com voz rouca e branda, como se evitando acordar a mentira,” declama: “- Não sei por onde viaja nosso pai. Partiu para dispor das alianças e dilatar a nossa 50 vida. Alimentar a Fome era o seu querer, antes que ela nos golpeasse a todos” (QUEIRÓS, 2009, p. 23). Quando o narrador busca as memórias e cria a possibilidade de o sujeito se ver, tornase possível ativar o passado e apropriar-se das palavras, que funcionam como reflexo da subjetividade, pois: "a vida é um fio, a memória é seu novelo. Enrolo – no novelo da memória – o vivido e o sonhado. Se desenrolo o novelo da memória, não sei se tudo foi real ou não passou de fantasia" (QUEIRÓS, 2012, p. 5). Como se pode perceber até aqui, a literatura, especialmente a de Queiros, "desenrola esse fio da vida", ou seja, entende, vivencia e solidariza-se com o leitor em seus diversos momentos, até mesmo quando se trata da morte. De algum modo, escrever é uma forma de criar um mundo onde se sinta mais à vontade. Muitos não conseguem viver somente no mundo onde nasceram, precisam criar novos mundos, onde as regras sejam a fantasia e os sonhos. Ao longo do estudo da poética de Queirós, percebe-se que o autor faz literatura trabalhando a memória e faz uma revisita à infância trazendo de lá todas as informações registradas. As que foram sofridas recebem um novo significado e as alegres dão a alma do escritor novo fôlego tornando-o mais forte. Essa "viagem" encantadora que Bartolomeu Campos de Queirós faz ao passado dá ao menino que ele traz na alma a oportunidade de, entre os pequenos sinais, elaborar em sua maturidade a infância com suas lembranças que não se perderam. Pode-se entender que o autor ao reviver sua infância consegue levar o leitor a fazer uma busca na própria infância. O tema da morte é uma constante da obra de Queirós, pois faz parte de sua infância e ele tenta analisar e entender o quanto a dor sentida pela perda foi constitutiva da sua personalidade. Ele encontrou na escrita uma vazão para os sentimentos de perda e dor experimentados na infância que estão muito presentes em seu trabalho. Há uma grande dose de esperança, humor, e até certa alegria em sua escrita que contrasta com a dor da perda, o medo de não ser amado e o entendimento de que os outros também sofreram com ele. Ler Queirós é uma forma de viver os afetos e descobertas da infância, trazê-los ao nível do imaginário para tratar as feridas e dores que por ventura o leitor possa ter na alma e assim conhecer a experiência narrada pelo autor como forma de aprender que se pode tirar da dor poesia e do sofrimento esperança. Compreender a sensibilidade e o respeito do autor para com seus leitores crianças ou adultos. Ao questionamento sobre literatura infanto-juvenil como menor e facilitada, viu-se, então, a delimitação do conceito de literatura infanto-juvenil, o uso da literatura infanto- 51 juvenil como pedagógica e como instrumento de formação e propõe uma abordagem da obra de Queirós como obra de arte e como tal não pode ser delimitada e instrumentalizada. Como arte aborda os sentimentos humanos mais profundos, não é exclusiva para um público infantil ou juvenil, como arte é para todos, indistintamente. 52 8 METODOLOGIA O tema discutido no projeto envolveu a relação ficção e realidade em torno do tema da morte nas obras infanto-juvenis de Bartolomeu Campos de Queirós. Sendo assim houve durante o seu desenvolvimento, uma ampla pesquisa em livros do autor tendo como embasamento teórico, escritos que tratam do tema da morte e das perdas inerentes ao ser humano ao longo da vida. Como se trata de pesquisa bibliográfica foi feita por meio da leitura de obras que falam da escrita e o autor e de assuntos que abordam o tema da morte, bem como crítico-teórico em torno do gênero narrativo. Bartolomeu Campos de Queirós trabalha com memória, fatos, lugares e pessoas conhecidas. Deste modo, foi feita uma análise estrutural da narrativa tendo em vista os elementos que a compõem, principalmente, análise do tema da morte. A ideia do projeto foi a de estudar e refletir sobre o assunto proposto, com o objetivo de criação de conhecimentos que possam trazer avanços para a ciência em seus aspectos critico-analíticos e, para tanto foi realizada uma pesquisa básica que, conforme Gil “reúne estudos com o propósito de preencher uma lacuna no conhecimento” (GIL, 2010, p. 26). Neste caso, este trabalho configurou-se como uma Pesquisa Exploratória com o intuito de, conforme (GIL, 1991, p. 45), “proporcionar maior familiaridade com o problema com vistas a torná-lo explícito ou a construir hipóteses”. Foi feito levantamento bibliográfico e análise de exemplos que estimulam a compreensão. A escolha metodológica foi pela pesquisa qualitativa, não estruturada, de caráter exploratório que buscou uma compreensão mais profunda para atingir os possíveis significados para o tema. Como tratou-se de pesquisa bibliográfica, o trabalho buscou refletir sobre alguns livros de literatura do autor escolhido e de teóricos da literatura, de livros, revistas, artigos, análises, reportagens, entrevistas e material de pesquisa da internet relacionados ao tema. Para FLICK, a pesquisa qualitativa consiste na (…) escolha adequada de métodos e teorias convenientes; no reconhecimento e na análise de diferentes perspectivas; na reflexão dos pesquisadores a respeito de suas pesquisas como parte do processo de produção do conhecimento; na variedade das abordagens e métodos (FLICK, p. 23, 2009). A ação de trabalhar com a análise bibliográfica dá condições de verificar as diversas ideias de autores diferentes tanto para confrontá-las quanto para ratificar o entendimento. 53 Como objetivo do trabalho é estudar e refletir sobre o assunto para criação de conhecimentos que possam trazer avanços para a ciência em seus aspectos crítico-analíticos para um possível entendimento sobre quem será mais beneficiado com a literatura infantojuvenil, se o adolescente, o adulto ou o autor que, trabalhando o tema exorciza suas dores e lembranças sofridas, realizou-se uma pesquisa básica. Ao propor esta pesquisa, pensou-se em trabalhar com as imagens de morte na obra de Bartolomeu Campos de Queirós de forma a entender como essas imagens são colocadas para o público infanto-juvenil e de que forma o autor as trouxe da memória. O trabalho configurase como uma Pesquisa Exploratória, envolve levantamento bibliográfico e análise de livros de Queirós. 54 9 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a realização do trabalho, observa-se que a literatura infanto-juvenil pode participar da formação e transformação do leitor. Também, pode servir de veículo para o escritor que, na tentativa de entender suas inquietações, acaba utilizando-se da escrita como forma de desabafo e exercício de recriar a própria infância. Neste exercício, vê-se que o autor e o leitor participam de uma realidade recriada para um e nova para o outro. O escritor acaba deixando para o leitor uma espécie de experiência que poderá lhe ser importante. Quando o autor trabalha o texto de memória, fica implícita a experiência. O leitor pode, então, perceber que alguém já vivenciou aquela situação e que sobreviveu às dificuldades apresentadas. No momento de sofrimento e dor, muitas vezes, as palavras ditas oralmente não conseguem chegar ao coração de quem sofre com a intensidade que as palavras escritas. Estas trazem a experiência, foram recriadas, revistas e têm um peso maior para o leitor. Bartolomeu Campos de Queirós, numa linguagem simples, porém, poética, trabalha muito o tema da morte, em várias situações: como perda, limite, falta, dor existencial, vazio e muitas outras. Assim, haverá sempre uma dessas situações que poderá levar o leitor a perceber que não só ele, mas que outros também passam pelas mesmas inquietações. O autor narra seu amor e respeito pela vida e mostra todo sofrimento que pode vir com a morte. Assim, pode levar à reflexão o modo de viver e de conviver. Embora a literatura tenha sido divida por faixas etárias, percebe-se que essa divisão nem sempre é necessária. A obra de Bartolomeu Campos de Queirós, embora seja considerada infanto-juvenil, para muitos analistas, inclusive é o que se analisa neste trabalho, pode ser lida pelos mais jovens, porém, os adultos é que terão maior benefício ao lê-la. Os temas trabalhados nos livros de Queirós atingem um grau de profundidade e beleza poética que as crianças e adolescentes nem sempre perceberão com a mesma intensidade que os que têm mais idade. A maturidade pode ajudar na compreensão e entendimento do que o autor propõe. Pode-se perceber que a infância revisitada, reinventada pelo autor, traz alento às dores e pesares que, muitas vezes, o adulto carrega cotidianamente. O autor, em seus textos, dá ao leitor a oportunidade de se expressar diante da narrativa da falta, da incompletude, da necessidade e da memória do autor. Ao narrar o cotidiano de sua infância, o autor toca nos “pequeninos nadas” que ficaram na memória ou que, revisitados, passam a ter uma importância muito maior que até então tiveram. 55 Pode-se dizer, então que, a literatura infanto-juvenil de Bartolomeu Campos de Queirós é um presente para os adultos que não tiverem preconceito e que continuarem com o desejo de participar da magia que a literatura pode proporcionar. 56 REFERÊNCIAS ALVES, Rubem. As cores do Crepúsculo. 3 ed.São Paulo: Papirus Editora, 2002. ARROYO, Leonardo. Literatura Infantil Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1968. BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. Trad.J.Guinsburg. São Paulo: 3 ed., Editora Perspectiva S.A., 2002. BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. 6 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. BÍBLIA SAGRADA. Eclesiastes. Versão José Luiz Gonzaga do Prado. São Paulo: Ed. Paulus, 1990. Cap. 3, vers.1 e 2. Biografia de Augusto dos Anjos. Disponível em: <www.e-biografias.net/augusto_anjos/>. 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