DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE: NARRATIVAS E PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO DA REDE MUNICIPAL DE CAMPO GRANDE/MS GT 5 Andre Afonso Vilela1 Pabliane Lemes Macena Novais2 Tânia Maria Terra Serra dos Passos3 RESUMO: O presente artigo realiza o diálogo entre as pesquisas de três mestrandos, focando o desenvolvimento profissional docente, por acreditarem que a formação dura toda a carreira e que o ser humano é inconcluso. A parceria entre UNICAMP e UEMS teve por objetivo discutir e alargar os horizontes sobre a importância de dar ouvido e promover a voz dos professores nas pesquisas desenvolvidas por mestrandos e doutorandos, das respectivas faculdades, no campo da educação. Defendemos como método investigativo as narrativas formativas (pedagógicas) para o pleno desenvolvimento profissional docente. Concebemos a vida e os espaços escolares (da prática educativa) como o bojo de conhecimentos que passam a ser investigados e valorizados como ciência que rompe com os dogmatismos cartesianos, defendendo a razão aberta, a razão e a experiência, a razão que procura desaprender e o exercício da dialética. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento Profissional Docente. Narrativas. Educação. INTRODUÇÃO A Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, campus de Campo Grande e Paranaíba, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas, promoveram o intercâmbio acadêmico do Programa de Mestrado Profissional em Educação e o Programa Acadêmico de Educação, nas modalidades de Mestrado e Doutorado da Unicamp no mês de setembro do ano de dois mil e catorze. Esse intercâmbio ocorreu na perspectiva de alargar os horizontes da pesquisa narrativa sobre o boço do desenvolvimento profissional. A disciplina oferecida na Faculdade de Educação da Unicamp colaborou com o alargamento da visão profissional sobre o prisma da temática “Narrativas e Diálogos: sentidos e subjetividades nas pesquisas sobre formação de professores (iniciantes)”. A disciplina ofertada pela parceria UEMS-UNICAMP possibilitou-nos um novo olhar sobre as pesquisas que nós mestrandos estamos desenvolvendo. Situamos essas pesquisas a seguir: - Diálogos hermenêuticos e narrativas autopoiéticas no/do início da vida profissional. Essa pesquisa tem como sujeitos os professores pedagogos iniciantes na docência que participam do projeto interinstituicional (UEMS-UCDB-UFMS) “Eu tô voltando para casa: narrativas sobre a 1 Mestrando em Educação – UEMS. Mestra em Educação – UEMS. 3 Mestranda em Educação – UEMS. 2 formação e desenvolvimento profissional de alunos egressos do curso de Pedagogia, iniciantes na docência”, compõe uma das ações do Grupo de Pesquisa em Narrativas Formativas (GEPENAF), com o objetivo de construir diálogos que articulem teoria e prática na formação inicial e no exercício inicial da profissão docente, por meio do acompanhamento pedagógico e pretende investigar a docência na educação básica, ou seja, o professor que atua na Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental. - A formação continuada dos professores de uma escola em tempo integral e sua contribuição para o bem-estar docente. Esta pesquisa ocupa-se da investigação da formação continuada dos professores de uma escola de tempo integral da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande/MS e se a mesma contribui para o bem-estar dos docentes. O objetivo é analisar a proposta das escolas de tempo integral, bem como as diretrizes de implantação e implementação acerca da formação continuada e as contribuições para a prática pedagógica das professoras participantes desses programas. - Desenvolvimento Profissional Docente: o programa de formação continuada dos professores dos anos iniciais do ensino fundamental na Rede Municipal de Campo Grande/MS. O intuito da pesquisa é investigar o programa de formação continuada de professores, visando compreender qual o impacto desse programa na melhoria e na qualidade do ensino nas escolas da REME no período de 2005-2012. As três pesquisas mencionadas passam a ser repensadas centrando-se na perspectiva do Desenvolvimento Profissional Docente, uma vez que, os textos e as discussões possibilitadas pela disciplina em forma de seminário concentrado nos colocou como protagonistas do “engajamento pessoal que cada um tem como pessoa e como profissional no processo educativo” (TEIXEIRA, 2012, p. 118). Partindo da proposição citada por Teixeira (2012) julgamos de extrema relevância as narrativas formativas no desenvolvimento profissional docente e também sua importância como método investigativo em nossas pesquisas que é “própria das experiências educativas” (p. 119) e por ser um trabalho de “reflexão sobre o percurso da vida” (NÓVOA, 2010, p. 167). A razão que justifica a investigação/pesquisa que estamos realizando sob o olhar do “Desenvolvimento Profissional Docente: narrativas e perspectivas da educação da REME” voizifica a metodologia da narrativa pelo seguinte viés: [...] a razão principal para o uso da narrativa na investigação educativa é que nós seres humanos somos organismos contadores de histórias, organismos que, individual e socialmente vivemos vidas relatadas. O estudo das narrativas, portanto, é o estudo da forma pela qual os seres humanos experimentamos o mundo. Desta ideia geral se deriva a tese de que a educação é a construção e a reconstrução de histórias pessoais e sociais” (CONNELY e CLANDINI, 1995, p.11). Assim, inauguramos a presente pesquisa. 1. DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE Day (2001) em seus estudos direciona o desenvolvimento profissional docente partindo do princípio de que [...] os professores constituem o maior triunfo da escola. Estão na interface entre a transmissão do conhecimento, das destrezas e dos valores. Todavia, os professores só poderão realizar os objetivos educativos se tiverem uma formação adequada, e ao mesmo tempo, se forem capazes de garantir e melhorar o seu contributo profissional através do empenhamento numa aprendizagem ao longo de toda a carreira (DAY, 2001, p.16). Dessa maneira, o desenvolvimento profissional docente: - [...] significa permitir que os professores desenvolvam em palavras e em actos os seus próprios objectivos (...) O desenvolvimento profissional tem que dar ouvidos e promover a voz dos professores; estabelecer oportunidades para que os professores confrontem as suas concepções e crenças subjacentes às práticas; evitar o modismo na implementação de novas estratégias de ensino; e criar uma comunidade de professores que discutam e desenvolvam os seus objectivos em conjunto, durante todo o tempo (FULLAN e HARGREAVES, 1992, p. 5); - [...] é assim uma perspectiva em que se reconhece a necessidade de crescimento e de aquisições diversas, processo em que se atribui ao próprio professor o papel de sujeito fundamental (PONTE, 1994, p. 10); - [...] define-o como a evolução e aperfeiçoamento da prática dos professores que engloba não só o próprio professor, como também toda a comunidade escolar. Segundo este autor, pode-se encarar “o desenvolvimento profissional dos professores como uma encruzilhada, como a cola que permite unir práticas educativas, pedagógicas, escolares e de ensino” (GARCIA, 1999, p. 139); - [...] inclui, por isso, a aprendizagem iminentemente pessoal, sem qualquer tipo de orientação, a partir da experiência (através da qual a maioria dos professores aprendem a sobreviver, a desenvolver competências e a crescer profissionalmente nas salas de aula e nas escolas), as oportunidades informais de desenvolvimento profissional vividas na escola e as mais formais oportunidades de aprendizagem ‘acelerada’, disponíveis através de actividades de treino e de formação contínua, interna e externamente organizadas (DAY, 2001, p. 18); - [...] tem de ser construído com base na 'vocação apaixonada' do professor, estimulando e mantendo a sua motivação e entusiasmo, não só para ser um profissional, mas para agir como profissional ao longo de toda a carreira (FRIED apud DAY, 2001, p. 43); - O desenvolvimento profissional dos professores diz respeito aos diversos domínios onde se exerce a sua acção. Assim, há a considerar a prática lectiva e as restantes actividades profissionais, dentro e fora da escola, incluindo a colaboração com os colegas, projectos de escola, actividades e projectos de âmbito disciplinar e interdisciplinar e participação em movimentos profissionais. Mas há igualmente que ter presente o carácter fundamental do auto-conhecimento do professor e do desenvolvimento dos seus recursos e capacidades próprias — ou seja, a dimensão do desenvolvimento do professor como pessoa (PONTE, 1994, p.14). Tais concepções ou conceituações colaboram na construção e na elaboração da pesquisa biográfica que “estabelece uma reflexão sobre o agir e o pensar humanos mediantes figuras orientadas e articuladas no tempo que organizam e constroem a experiência segundo a lógica de uma narrativa” (DELORY-MOMBERGER, 2012, 524-25). Essa narrativa inaugura a lógica de que o “indivíduo humano vive cada instante de sua vida como momento de uma história: história de um instante, história de uma hora, de um dia, de uma vida” (DELORY-MOMBERGER, 2012, 525). 1.1. NARRATIVAS E PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO DA REME Anunciar a formação profissional (que abrange a inicial e a continuada) e sua conceituação requer retomar, a princípio, o termo grego paidéia (educação). Não estamos nos referindo a tal termo buscando uma definição centrada unicamente na formação de ‘homem’ ou ‘cidadão’, mas na formação que alarga os horizontes e perpassa ao longo de toda a carreira docente. O olhar do professor, no contexto formativo, volta-se para si visando tanto o desenvolvimento pessoal, assim como, o profissional. A paidéia nos leva a reflexão da ‘questão da inconclusão do ser humano’ (FREIRE, 1996, p.14) enquanto aquilo que somos em vista do que queremos ser. O desejo de saber quem realmente somos traz em si a dicotomia entre assombros e alegrias. Assombros, porque temos medo do encontro com o eu. Saber quem sou não é apenas uma curiosidade, é uma necessidade vital. E, encontrar com o meu eu é interagir com o indivíduo que agora eu conheço. Para explicar a função da educação como instrumento de formação, servimo-nos da alegoria do oleiro que deixa fluir formas e ajuda o barro a formar-se em diferentes aspectos sem perder sua essência primeira. O objeto formado do barro será sempre barro, mas o que vemos são as diferentes formas que este barro nos é apresentado. Nesse sentido, formar é ‘muito mais do que treinar’ (FREIRE, 1996, p.14), é possibilitar uma prática formadora que ative ‘a vocação ontológica para o ser mais’ (FREIRE, 1996, p.18) do professor (em especial o iniciante na carreira) em sua prática docente e em sua busca constante por felicidade. Enfatizamos também que, o desenvolvimento profissional docente está contido na política de educação, nos artigos 61 a 67 da LDB9394/96, cabendo-nos, ressaltar, sobretudo, o inciso II do Artigo 67, em sua primeira parte, sustentando a valorização dos profissionais da educação, o aperfeiçoamento profissional continuado. Portanto, a formação continuada se faz por meio dos ‘saberes demandados pela prática educativa em si mesma’ (FREIRE, 1996, p.21), o que significa que a formação toma forma na medida em que a mesma ‘se transforma na possibilidade de criar espaços de participação, reflexão e formação para que as pessoas aprendam e se adaptem para poder conviver com a mudança e a incerteza’ (IMBERNÓN, 2010, p. 15). A incerteza remete-nos, novamente, a concepção de inconclusão do ser humano. Não somos seres prontos e acabados. Para Imbernón (2010, p. 41) a formação de professores “se fundamentará em estabelecer estratégias de pensamento, de percepção, de estímulos...”, capazes de elaborar e construir o sentido de suas buscas como fonte de conhecimento. O professor processa as informações e as interioriza. Ao interiorizá-las adentra-se na reflexão sobre sua prática docente. Quando Freire (1996, p.18) menciona ‘a vocação ontológica para o ser mais’ do professor, ele não está mencionando vocação no aspecto religioso, como vontade de Deus ou de um ente Superior, mas na aplicação das indagações humanas que a partir de uma pergunta levantam-se várias outras em busca de conhecimento. Mas, o que se deseja conhecer? – Conhecer a essência daquilo que somos, o porquê somos e para que somos. A busca pela essência do ser ontologicamente nos faz olhar a frente e a contar com a ajuda de outrem para poder enxergar. Galeano relata o seguinte fato: [...] Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava à frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar! (2010, p. 15). “Me ajuda a olhar!” – remete-nos aos anseios e aos medos que nos cercam quando estamos em busca de nós mesmos. Ao mesmo tempo, pedir ajuda é sinal de abertura, de prontidão, de aprendizado. Aprende-se primeiro para ensinar depois. Portanto, o professor deve ser um eterno aprendiz de si, do mundo, da ciência e da vida que o cerca (o professor deve estar convicto dessa proposição). Olhar não é simplesmente ver, mas deixar-se penetrar naquilo que se vê. Aqui, o olhar torna-se chave-mestra para a autopoiésis (autoformação). A autopoiésis (autoformação) defendida por Pineau “corresponde a uma dupla apropriação do poder de formação: é tomar em mãos este poder – tornar-se sujeito-, mas é também aplicá-la a si mesmo” (1988, p. 67). Nessa linha de pensamento, afirma-se que tornar-se sujeito da formação e aplicar esse conceito a si mesmo é vivenciar a autopoiésis, é ser objeto de formação em si e para si. Nesse contexto, as narrativas efetivam a formação em si e para si, potencializando, segundo Prado (2013) que as narrativas pedagógicas são: [...] os dizeres e escritos dos professores e profissionais da escola (tais como memoriais, cartas, depoimentos, relatos, diários, relatórios, crônicas pedagógicas, dentre outros) produzidos com o propósito de compartilhar saberes e conhecimentos a partir da reflexão sobre a própria experiência, da observação da prática dos pares, da discussão coletiva, da leitura, do estudo e também da pesquisa (PRADO, 2013, p.150). Isso significa que a formação dos profissionais da educação da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande passa pela experiência-vida desses profissionais, uma vez que esses são formadores de novas mentalidades e mediadores do conhecimento, para que a escola seja palco de ensino de qualidade. A história de vida dos professores passa a ser valorizada na interlocução das narrativas por acreditar que [...] é possível considerar a narrativa pedagógica como um meio para compreender os conhecimentos e saberes profissionais de que é portadora, ainda que em marcas indiciárias e não em palavras explícitas. O estudo das narrativas pedagógicas pode então contribuir para o aprofundamento das teorias sobre a epistemologia da prática, acrescentando outro olhar à problematização dos conhecimentos e saberes produzidos pelos professores e demais profissionais da escola no contexto do trabalho pedagógico. Poderá, ainda, revelar – ou referendar – a necessidade de revisão dos programas curriculares de formação inicial de professores no que se refere, pelo menos, à urgência em reconhecer como válidos, úteis e relevantes os conhecimentos e saberes da experiência (PRADO, 2013, p.152). Considerando os conhecimentos e saberes da experiência no exercício da docência, os autores desse artigo articulam suas pesquisas: - Diálogos hermenêuticos e narrativas autopoiéticas sobre o desenvolvimento profissional docente no/do início da docência; - A formação continuada dos professores de uma escola em tempo integral e sua contribuição para o bem-estar docente e; - Desenvolvimento Profissional Docente: o programa de formação continuada dos professores dos anos iniciais do ensino fundamental na Rede Municipal de Campo Grande/MS. 1.2. Desenvolvimento Profissional Docente e Articulação das Pesquisas Partindo, de nossas pesquisas, buscamos articular os conceitos de “desenvolvimento profissional docente”, discutidos na disciplina “Narrativas e diálogos: sentidos e subjetividades na pesquisa sobre formação de professores (iniciantes)” e trazidos no decorrer dessa investigação. Nas palavras de Nogueira et al (2014, p.80-81) “cada um trava consigo próprio, um diálogo sobre sua própria ação, que carrega em si uma reflexão sobre o narrado e sobre si na condição de protagonista dos fatos descritos”, ou seja, o desenvolvimento profissional ocorre quando a reflexão começa em si e se desdobra como um coletivo, perfazendo as várias etapas de formação por toda a vida. O desenvolvimento profissional é concebido numa perspectiva onde se “[...] reconhece a necessidade de crescimento e de aquisições diversas, processo em que se atribui ao próprio professor o papel de sujeito fundamental” (PONTES, 1994, p. 10). A proposição citada, anteriormente, por Pontes (1994) reafirma o professor como sujeito e não como objeto de toda e qualquer investigação. Para Garcia (1999, p. 139) o desenvolvimento profissional dos professores é definido como “uma encruzilhada, como a cola que permite unir práticas educativas, pedagógicas, escolares e de ensino”. Buscamos, destacar, a inter-relação existente entre a temática proposta e as pesquisas individuais decorrentes do Programa de Mestrado Profissional em Educação da UEMS. As pesquisas dialogam entre si e para maior entendimento, esquematizamos essa relação dialógica. Eis, o esquema: Desenvolvimento Profissional Docente Formação Inicial Formação Continuada Continuada “A atividade profissional Continuada é um processo que envolve múltiplas etapas e que, em última análise, está sempre incompleta” (PONTE, 1998, p. 28). - [...] tem que dar ouvidos e promover a voz dos professores; estabelecer oportunidades para que os professores confrontem as suas concepções e crenças subjacentes às práticas... (FULLAN e HARGREAVES, 1992, p. 5). - [...] o processo em que atribui ao próprio professor o papel de sujeito fundamental (PONTE, 1994, p.10). - [...] define-o como a evolução e aperfeiçoamento da prática dos professores (GARCIA, 1999, p. 139). - [...] desenvolver competências e a crescer profissionalmente na sala de aula e nas escolas (DAY, 2001, p. 18). - [...] agir como profissional ao longo de toda a carreira (FRIED apud DAY, 2001, p. 43). - [...] dimensão do desenvolvimento do professor como pessoa (PONTE, 1994, p. 14). Diálogos hermenêuticos e narrativas Formação Continuada e Bem-estar docente Desenvolvimento Profissional Docente e políticas de formação Pedagogia da cognição e do afeto. As atividades formativas de HTPA e HTPC proporcionam o bem estar profissional. Política de formação profissional por meio da perspectiva dialógica. Professores Iniciantes Professores da Escola de Tempo Integral Professores do grupo de formação da REME O esquema apresentado contempla as pesquisas e a formação docente num todo, visando que a Rede Municipal de Ensino de Campo Grande/MS tem priorizado desenvolver atividades formativas que, por sua vez, levam ao desenvolvimento profissional (valorização pelo salário, incentivo ao estudo e condições de trabalho...), pois: - [...] o desenvolvimento do docente é contínuo, realizando-se ao longo de toda a vida; deve ser auto-gerido, sendo contudo da responsabilidade conjunta do professor e da escola; deve ser apoiado e dispor dos recursos materiais e humanos necessários à sua concretização; deve responder aos interesses do professor e da escola, embora nem sempre em simultâneo; deve configurar-se como um processo credível; e deve ser diferenciado, de acordo com as necessidades dos professores, designadamente as específicas da sua etapa de desenvolvimento profissional (DAY apud GONÇALVES, 2009, p. 24); - [...] no momento atual, nossa sociedade tende a estabelecer o status social com base no nível de renda salarial [...]. Certamente o salário dos professores constitui um forte elemento da crise de identidade que os afeta. [...] Os profissionais do ensino, em todos os graus, têm níveis de retribuição sensivelmente inferiores aos de outros profissionais com a mesma titulação. Esse fator, que em si mesmo não teria grande importância, contribui como um elemento a mais a constituir-se em prol do mal-estar docente, sobretudo quando o professor o associa com o aumento das exigências e responsabilidades que se lhe pedem em seu trabalho (ESTEVE, 1999, p. 34-35); - [...] a formação profissional, nomeadamente de professores, não pode ser entendida como circunscrevendo-se a uma primeira e curta etapa, prévia ao exercício do trabalho, mas, pelo contrário, como um processo que é inerente à globalidade do percurso profissional (CANÁRIO, 2001, p. 4); - [...] a revalorização da experiência na formação profissional dos professores não pode ser confundida com a defesa da aprendizagem como um mero processo de continuidade, em relação à experiência anterior. Valorizar a experiência significa, sobretudo, aprender a aprender com a experiência o que, frequentemente só é possível a partir da crítica e da ruptura com essa experiência. A prender com a experiência não pode então ser sinónimo de imitação, mas sim de uma acção em que o prático se torna um investigador no contexto da prática (CANÁRIO, 2001, p. 14) e; - [...] a formação deve estimular uma perspectiva crítico-reflexivo, que forneça aos professores os meios de um pensamento autônomo e que facilite as dinâmicas de autoformação participada. Estar em formação implica um investimento pessoal, um trabalho livre e criativo sobre os percursos e os projetos próprios, com vista à construção de uma identidade, que é também uma identidade profissional (NÓVOA, 1995, p. 25). Dessa forma, a dialogicidade entre as pesquisas e o desenvolvimento profissional alargam nossos horizontes e favorecem uma formação para além de si, não cabendo a uma forma ou a uma ideia que reduza a construção dessa identidade. CONCLUSÃO: Acreditamos que a nossa identidade docente é resultado de todo um processo de “desenvolvimento profissional”. Embarcamos em nossos sonhos, navegamos em mares nunca antes navegados, descobrimos tesouros escondidos em nós mesmos... Protagonizamos nossas histórias... E, olha que, nossas histórias não podem ser resumidas em poucas páginas, seriam narradas em muitos volumes. Somos seres inconclusos, mas com uma grande vontade de aprender, compartilhar o aprendido, transformadores não das mentes, mas das condições humanas que nos fazem olhar para frente. Tornamo-nos desbravadores do mundo chamado “eu-tu-nós”, pois, [...] tornamo-nos conscientes de que o ‘pertencimento’ e a ‘identidade’ não tem a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o ‘pertencimento’ quanto para a ‘identidade’. Em outras palavras, a ideia de ‘ter uma identidade’ não vai ocorrer às pessoas enquanto o ‘pertencimento’ continuar sendo o seu destino, uma condição sem alternativa (BAUMAN, 2005, p. 17-18). E, concluímos assim: Adentrar o Programa de Mestrado Profissional fora para os três a realização de um sonho – hoje, possível, depois de muito esforço (suor) e desejo de fazer a diferença no espaço de trabalho – e a concretização de pesquisas que estreitaram os laços entre a escola e a universidade. Somos transeuntes das buscas do “pensar e do pensado”, derrubando as barreiras do “não posso, não consigo, não sei”. Estamos escrevendo nossas vidas sobre uma nova ótica, a dos novos paradigmas que nos elevam a eternos aprendizes. Concluímos, inconclusamente, com as seguintes palavras, que futuramente serão uma pipoca – uma história da vida – dos aprendentes desse mundo em pleno desenvolvimento profissional: “Somos o todo de uma parte. Somos partes que se somam. Somos as somas de muitas histórias. Histórias que não se esvaziam. Histórias que se somam. Somando-se, formam o todo. O todo que se esvazia na busca daquilo que realmente somos. Somos o processo da investigação, do começo da parceria entre UEMS e UNICAMP, resultados do “eu-tu-nós”, todos narradores e protagonistas das narrativas formativas no processo de uma educação de qualidade”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. CANÁRIO, Rui. A prática profissional na formação de professores. INAFOP, Aveiro, 2000. CONNELY, M. F.; CLANDININ, D. J. Relatos de experiencia e investigación narrativa. In: LARROSA, J. et. al.(org.). Déjame que te cuente. Barcelona: Editorial Laertes, 1995. DAY, Christopher. Desenvolvimento Profissional de Professores. Os desafios da aprendizagem permanente. 1ª edição. Coleção: Currículo, Políticas e Práticas. Tradução: Maria Assunção Flores. Porto Editora. 2001, Portugal. DELORY-MOMBERGER, C. Abordagens metodológicas na pesquisa biográfica. Revista Brasileira de Educação, v.17. n.51 – set-dez, 2012. ESTEVE. J. M. O mal-estar docente: a sala-de-aula e a saúde dos professores. Trad: Durley de Carvalho Cavicchia. Bauru, SP: EDUSC, 1999. FULLAN, M. e HARGREAVES, A. (org.). O desenvolvimento dos professores e mudança educacional. Londres, Falmer Press, 1992. GARCIA, C. M. Formação de professores: para uma mudança educativa. Trad. Isabel Narciso. Porto: Porto Editora. 1999. GONÇALVES, J. A. Desenvolvimento profissional e carreira docente — Fases da carreira, currículo e supervisão. Sísifo / revista de ciências da educação, n.º 8, jan/abr, 2009. NOGUEIRA, E. G. D; BRITO, V. M. de; VILELA, A. A. Narrativas de alfabetização: dos fragmentos silábicos à totalidade da alfabetização. In.: PINTO, M. L. Ensino de linguagens: diferentes perspectivas. 1 ed. Curitiba; Appris, 2014. NÓVOA, A. A formação tem que passar por aqui: as histórias de vida no Projeto Prosalus”. In: NÓVOA, A.; FINGER, M. (Org.). O Método entre (auto)biográfico e a formação. Natal, RN: EDUFRN/São Paulo: Paulus, 2010. PRADO, Guilherme V. T. Narrativas Pedagógicas: indícios de conhecimentos docentes e desenvolvimento pessoal e profissional. Interfaces da Educação. Paranaíba, v.4, n.10, 2013. PONTE, J. P. da. Desenvolvimento Profissional do Professor de Matemática. Revista Educação e Matemática, Nº 31, pp. 9-12 e 20 (1994). TEIXEIRA, L.R.M. A formação docente: as narrativas autobiográficas como recurso para um enfoque clínico. In: REBOLO, F; TEIXEIRA, L.R.M; PERRELLI, M.A. de S. (Org.). Docência em questão: discutindo trabalho e formação. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2012.