Ricardo Freitas Lima da Silva Barros Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Universidade Fernando Pessoa Porto, 2005 I II Ricardo Freitas Lima da Silva Barros Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Universidade Fernando Pessoa Porto, 2005 III Ricardo Freitas Lima da Silva Barros Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos ________________________________________________ Orientador: Mestre João Guerra “Monografia apresentada à Universidade Fernando Pessoa como parte dos requisitos para obtenção do grau de licenciado em Engenharia Civil.” IV Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Sumário O presente trabalho aborda o reforço sísmico de estruturas de alvenaria com recurso a elementos metálicos. Para uma melhor compreensão do funcionamento dos elementos metálicos é necessário entender o panorama nacional e internacional da reabilitação sísmica, assim como os aspectos mais importantes relacionados com estes elementos e com todo o processo de reforço sísmico. Existem variados elementos metálicos e com diversas funcionalidades, que podem ser utilizadas tendo em consideração a relação custo-benefício. Por vezes a aplicação de elementos metálicos tem custos elevados, não só pelo seu custo em si, mas também pela dificuldade de execução em obra, o que pode fazer incrementar os custos. No entanto, a utilização de elementos metálicos permite intervenções pouco intrusivas, o que conduz a que o seu uso seja aconselhado quando existe a necessidade de manter o valor patrimonial dos edifícios. O entendimento dos mecanismos de colapso dos edifícios, quando sujeitos a um fenómeno sísmico, permite determinar a melhor forma de reforço estrutural e compreender as funções dos elementos metálicos na redução da vulnerabilidade sísmica. Cada elemento metálico tem uma função distinta no reforço estrutural. Porém, apesar de ser analisado cada elemento separadamente, em projecto é preferível analisar o funcionamento em conjunto, visto que se pretende que o edifício tenha um comportamento global adequado. A análise da estabilidade das partes não garante o bom funcionamento do conjunto. Resumindo, esta monografia apresenta soluções interventivas para fazer face aos modos básicos do colapso em estruturas de alvenaria de pedra natural, sujeitas à acção sísmica, com base no recurso a elementos metálicos. I Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Agradecimentos Ao meu tio e director da M. M. Trabalhos de engenharia civil, Eng.º Oscar Vasconcelos por toda a ajuda e facilidades que me deu na realização deste trabalho, assim como durante toda a formação académica. Tem sido uma grande inspiração. A toda a equipa da M. M. Trabalhos de engenharia civil Porto e à equipa dos Açores, em especial à Eng.ª Edite Simões e Eng.ª Anabela Vidal, por toda a ajuda que me deram para o conhecimento profundo da área da reabilitação e reforço estrutural e pela amizade. Ao Professor Doutor Humberto Varum, pelo tempo disponibilizado, pela orientação, pelos conhecimentos especializados na área da reabilitação sísmica e pela força que me deu para a realização deste trabalho. À Universidade Fernando Pessoa por me proporcionar a realização deste trabalho e todos os conhecimentos académicos. Por fim, os meus sinceros agradecimentos ao meu orientador Mestre João Guerra por me ter orientado voluntariamente e ter estado sempre presente para todo o tipo de duvidas e esclarecimentos. Ricardo Freitas Lima da Silva Barros Licenciatura em Engenharia Civil Ano 2004/2005 II Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Dedicatória Este trabalho é dedicado à minha família, principalmente aos meus pais, pelo esforço e empenho que tiveram em me ajudar a licenciar-me em Engenharia Civil. Muito obrigado por acreditarem em mim e por me darem sempre o maior apoio. III Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Índice Geral Sumário .................................................................................................................................... I Agradecimentos ......................................................................................................................II Dedicatória ............................................................................................................................ III Simbologia .......................................................................................................................... XIII Introdução ................................................................................................................................1 1. Avaliação da segurança sísmica e inspecção do edifício ..................................................5 1.1. Avaliação estrutural........................................................................................................5 1.2. Nível de segurança das construções ...............................................................................6 1.3. Inspecção da construção .................................................................................................6 2. Modelação da estrutura da construção .............................................................................9 2.1. Generalidades .................................................................................................................9 2.2. Esquema estrutural e danos ............................................................................................9 2.3. Características dos materiais ........................................................................................12 2.4. As acções na estrutura ..................................................................................................13 3. Determinação do tipo de intervenção ..............................................................................15 IV Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 4. Componentes de reabilitação sísmica ..............................................................................18 4.1. Pressupostos do projecto de reforço .............................................................................18 4.2. Projecto de reabilitação ................................................................................................19 4.3. A utilização do aço .......................................................................................................20 4.4. Níveis de intervenção ...................................................................................................23 4.4.1. Salvaguarda ...........................................................................................................24 4.4.2. Reparação ..............................................................................................................24 4.4.3. Reforço ..................................................................................................................24 4.4.4. Restruturação .........................................................................................................26 4.5. Considerações económicas ...........................................................................................26 5. Mecanismos de colapso típicos das estruturas de alvenaria ..........................................29 5.1. Mecanismos de colapso de primeiro modo ..................................................................29 5.2. Mecanismo de colapso de segundo modo ....................................................................35 6. Elementos metálicos de reforço sísmico...........................................................................39 6.1. Tirantes .........................................................................................................................39 6.2. Cinta de coroamento (cordolo) .....................................................................................42 V Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 6.3. Barras de amarração (ancoragem) ................................................................................44 6.4. Viga reticulada (treliça) ................................................................................................46 6.5. Ligações aparafusadas ..................................................................................................48 6.6. Chapas ..........................................................................................................................49 6.7. Vigas metálicas.............................................................................................................50 6.8. Ligações metálicas entre componentes da estrutura da cobertura................................51 7. Caso real (Açores, Ilha do Faial, Horta)..........................................................................53 7.1. Descrição do caso .........................................................................................................53 7.2. Elaboração do projecto .................................................................................................54 7.2.1. Verificação numérica.............................................................................................55 7.2.2. Aplicação em obra .................................................................................................71 Conclusão ...............................................................................................................................76 Bibliografia.............................................................................................................................79 ANEXOS ANEXO I - Carta de Veneza .....................................................Erro! Marcador não definido. VI Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos ANEXO II - Mecanismos típicos de colapso de construções em alvenariaErro! Marcador não definido. ANEXO III - Tirantes ................................................................Erro! Marcador não definido. ANEXO IV – Cinta de coroamento (Cordolo).........................Erro! Marcador não definido. ANEXO V - Barras de amarração (ancoragem) .....................Erro! Marcador não definido. ANEXO VI - Viga Reticulada (treliça) .....................................Erro! Marcador não definido. ANEXO VII - Ligações aparafusadas.......................................Erro! Marcador não definido. ANEXO VIII - Chapas ...............................................................Erro! Marcador não definido. ANEXO IX - Vigas metálicas ....................................................Erro! Marcador não definido. ANEXO X - Ligações metálicas entre componentes da coberturaErro! Marcador não definido. ANEXO XI - Pormenores das componentes metálicas da habitação da rua Conselheiro de Medeiros n.º 42.......................................................................Erro! Marcador não definido. VII Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Índice de figuras Figura 1 - Reforço provisório de uma estrutura após a ocorrência de um sismo (Fonte: http://www.dgpatr.pt, junho 2005). ............................................................................................ 4 Figura 2 – Levantamento da armadura com aparelho de detecção de armadura (Fonte própria) .................................................................................................................................................... 7 Figura 3 – Ensaios efectuados em laboratório à existência de térmitas numa viga de madeira (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil)............................................................................ 7 Figura 4 – Edifício de gaiola pombalina e parede típica gaioleira, neste caso poderá ser adoptado um valor superior, da ordem de 2,0-2,5, dependendo da proporção de paredes de gaiola no conjunto das paredes do edifício (Fonte: Reabilitação de edifícios antigos, Patologias e técnicas de intervenção) ............................................................................................................. 14 Figura 5 - Fluxograma das acções a desenvolver na avaliação estrutural de construções antigas (Fonte: Sísmica 2004, 6º congresso nacional de sismologia e engenharia sísmica) ................ 16 Figura 6 - A "casa anti-sísmica" de Pirro Logorio, para a segurança dos edifícios contra terramotos, 1570 (Fonte: M. M. Trabalhos de Engenharia Civil) ............................................ 18 Figura 7 – Componentes de uma treliça a ser descarregada em obra manualmente (Fonte: M.M. Trabalhos de engenharia civil) ....................................................................................... 22 Figura 8 – Barra de ancoragem dos tirantes, componente leve e pouco intrusiva (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ................................................................................................. 22 Figura 9 - Pormenor de aparelho de apoio para evitar a transmissão de impulsos às paredes (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005) .............................................................................. 25 Figura 10 - Reforço com inclusão de contraventamento visando melhorar a resistência sísmica (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005) .............................................................................. 25 Figura 11 - Distribuição da frequência por tipo de intervenção (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005) .............................................................................................................................. 28 Figura 12 - Distribuição percentual dos custos por tipo de intervenção (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005)........................................................................................... 28 Figura 13 - Mecanismo de primeiro modo: rotura monolítica da fachada por ter sido ultrapassada a capacidade da ligação com as paredes das empenas laterais (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil)................................................................................................ 29 VIII Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 14 - Mecanismo de primeiro modo: mecanismo de Rondelet considerando a ligação efectiva das paredes das empenas laterais (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) ...... 30 Figura 15 - Mecanismo de primeiro modo: mecanismo de “Rondelet” considerando a presença de aberturas na parede da fachada (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) ... 30 Figura 16 - Mecanismo de primeiro modo (de Rondelet) (Fonte: M. M. Trabalhos de Engenharia Civil)...................................................................................................................... 32 Figura 17 - Comportamento em arco na espessura da parede na presença de tirantes de piso.(Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil).................................................................. 34 Figura 18 – Mecanismo de primeiro modo (fachada não conectada) e de segundo modo (fachada com tirantes conectados) (Fonte: M. M. Trabalhos de Engenharia Civil)................. 35 Figura 19 - Influência de tirantes de plano nos mecanismos de segundo modo: mecanismos de colapso sem (à esquerda) e com (à direita) tirantes (Fonte: Sicurezza e conservazione dei centri storici, Il caso Ortigia).................................................................................................... 37 Figura 20 – Interpretação dos resultados experimentais da figura (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil)...................................................................................................................... 37 Figura 21 - Mecanismo de colapso de segundo modo(Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil)......................................................................................................................................... 37 Figura 22 – Tirantes em varões com esticadores, Hospital da Horta, ilha do Faial, Açores (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil).......................................................................... 39 Figura 23 – À esquerda tirantes em varão e à direita tirantes em cabos (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ................................................................................................. 40 Figura 24 – À esquerda Tirante com ligação intermédia a uma viga reticulada, à direita tirante sem ligação intermédia ancorado na parte exterior da parede da fachada (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ................................................................................................. 41 Figura 25 – Esticadores (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil)................................... 41 Figura 26 – Esquema de aplicação de tirantes num edifício em Ortigia, Italia (Fonte: Sicurezza e conservazione dei centri storici, il caso Ortigia) ................................................... 42 Figura 27 – Preparação do topo das paredes para a recepção do “cordolo” (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ................................................................................................. 43 Figura 28 – Aplicação do “cordolo” em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) . 43 Figura 29 – Ligação do “cordolo” á cobertura (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 44 Figura 30 – Barras de amarração (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) .................... 45 Figura 31 – Barras de ancoragem (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil).................... 45 IX Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 32 - A viga reticulada controla o derrube da fachada, transferindo através dos tirantes do piso, as forças sísmicas aplicadas na fachada às paredes de contraventamento (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil)...................................................................................... 46 Figura 33 – Viga reticulada colocada em posição central em relação ás paredes laterais do edifício (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ............................................................ 47 Figura 34 – À esquerda ligação da viga reticulada ás paredes laterais, à direita conecção do tirante à viga reticulada (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ................................... 48 Figura 35 – Diferentes tipos de ligações aparafusadas (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil).......................................................................................................................................... 48 Figura 36 – Chapa quinada (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ............................. 49 Figura 37 – Reforço de vigas de madeira com chapas de aço pregadas (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ................................................................................................. 50 Figura 38 – Viga metálica (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ............................... 51 Figura 39 – Viga metálica com molde a imitar o edifício (Fonte: Manuale per la riabilitazione e la riconstruzione postsismica degli edifici) ........................................................................... 51 Figura 40 – Elementos metálicos usados nas ligações das coberturas (Fonte: Reabilitação de edifícios antigos, patologias e tecnologias de intervenção)...................................................... 52 Figura 41 - Edifício antes e após reforço sísmico (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) .................................................................................................................................................. 53 Figura 42 – Planta do reforço estrutural da habitação da rua Conselheiro de Medeiros, nº 42 (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil).......................................................................... 62 Figura 43 – Modelo estrutural da treliça (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ......... 67 Figura 44 – Aplicação dos tirantes em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil).... 71 Figura 44 (cont.) – Aplicação dos tirantes em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil).......................................................................................................................................... 72 Figura 45 – Aplicação de treliça em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) ....... 72 Figura 45 (cont.) – Aplicação de treliça em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) .................................................................................................................................................. 73 Figura 45 (cont.) – Aplicação de treliça em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) .................................................................................................................................................. 74 Figura 46 – Evolução da recuperação e disfarce da treliça (Fonte M. M. Trabalhos de engenharia civil) ....................................................................................................................... 74 Figura 47 – Execução de ancoragens em obra (Fonte: m. m. trabalhos de engenharia civil) .. 75 Figura 48 – Aplicação do “cordolo” em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) . 75 X Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos XI Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Índice de quadros Quadro 1 – Valores dos diâmetros a utilizar para as cargas de rotura (fonte: própria) ............ 64 XII Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Simbologia a – Aceleração A – Área f – Coeficiente de atrito fyd – Valor característico da tensão de cedência à tracção g – Aceleração da gravidade H – Altura Iy – Momento de inércia L – Comprimento Msd – Valor de calculo do momento flector actuante Nsd – Valor de calculo do esforço normal actuante P – Peso Q – Peso do coroamento qsd – Valor de calculo da carga actuante R – Reacção S – Espessura T – Tracção Tmáx – Tracção máxima Trd – Valor de calculo do momento de torção resistente Tsd – Valor de calculo do momento de torção actuante W – Peso da parede y – Centro de gravidade β⋅W – Força sísmica β0 – Coeficiente sísmico de referencia σ sd – Valor de calculo do esforço de tenção actuante θ – Ângulo φ – Diâmetro α – Coeficiente de sismicidade η – Coeficiente de comportamento LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil ICOMOS – Comité Cientifico Internacional para a Análise e Restauro de Estruturas do Património Arquitectónico XIII Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Introdução O presente trabalho, intitulado “Reforço sísmico de estruturas de alvenaria com elementos metálicos”, aborda as técnicas mais frequentes utilizadas no reforço sísmico com elementos metálicos. O seu intuito, para além de representar o culminar do curso de Engenharia Civil, visa uma futura continuidade num estudo mais aprofundado do índice de vulnerabilidade sísmica dos edifícios e das técnicas de reforço sísmico com recurso a elementos metálicos. Pretende-se dar a conhecer os tipos de elementos metálicos existentes e compreender-se as suas funções, o seu cálculo estrutural e a sua aplicação em obra. Para um melhor conhecimento destas peças pretende-se demonstrar os mecanismos de colapso sísmico nos edifícios de alvenaria, assim como entender os diferentes factores relacionados com os respectivas elementos. Durante todo o trabalho tenta-se sempre realçar a importância do valor patrimonial dos edifícios e, com isso, demonstrar as metodologias menos intrusivas que permitem manter o valor arquitectónico dos edifícios. No panorama nacional estas metodologias já são aplicadas há alguns anos, tendo sido trazidas para Portugal na altura das invasões francesas, no período entre de 1800 a 1950, aproximadamente. No entanto, hoje em dia ainda não existem muitos documentos nacionais que abordam as metodologias de reforço sísmico com elementos metálicos. Comparativamente com Portugal, em Itália estes elementos são bastante usados no reforço sísmico. Em Itália, devido à frequência de ocorrência de sismos, existem bastantes estudos que comprovam as capacidades destes elementos, sendo grande parte deste trabalho baseado nos mesmos, bem como nas obras de reabilitação pós-sismo de 1998 na ilha do Faial nos Açores. 1 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Não obstante do que já foi referido, e sem prejuízo do mesmo, consegue-se obter um bom conhecimento geral do panorama nacional, relativamente à aplicação de elementos metálicos no reforço sísmico de edifícios de alvenaria. Na verdade, o interesse pela reabilitação do património construído está, cada vez mais, na ordem do dia tanto em Portugal como internacionalmente. Sendo assim, a questão da segurança sísmica é um ponto fulcral da reabilitação. É suficiente recordar o sismo de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa, o sismo de Benavente de 1909, que afectou a zona do Vale do Tejo, o sismo dos Açores de 1980, que destruiu parcialmente a cidade de Angra do Heroísmo, e mais recentemente o sismo de 1998 dos Açores, que destruiu grande parte das ilhas do Faial e Pico. A acção dos sismos tem um efeito devastador sobre as construções, como tem sido demonstrado ao longo da história, sendo sempre necessário grandes obras de reabilitação para recuperar o património construído. É importante compreender que os efeitos devastadores não são só derivados à intensidade elevada dos sismos, mas também porque, na sua maioria, as construções não foram preparadas para resistir a esta acção, principalmente as construções existentes de alvenaria. Existem vários problemas relacionados com a avaliação da segurança sísmica das construções existentes, pois, esta é, em geral, uma tarefa bastante delicada, devido à dificuldade em modelar correctamente a estrutura. Por outro lado, os regulamentos estruturais e/ou documentos de referência existentes, como é o caso dos Eurocódigos, estão preparados para projectos de estruturas novas, tornando-se necessário recorrer a adaptações destes textos para possibilitar uma correcta avaliação. No entanto, para além da avaliação da segurança face aos sismos e da sua análise estrutural, é importante efectuar um levantamento do historial do edifício, pois para além de se garantir a segurança é necessário executar intervenções minimamente intrusivas, de modo a reduzir prejuízos ao valor intrínseco da edificação. 2 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos A sociedade atribui às construções antigas um valor cultural, sendo este valor proporcional à antiguidade, quanto mais antiga a construção maior é o seu valor cultural, em regra. Daí que o tipo de intervenção a realizar numa construção antiga deverá, por conseguinte, depender do valor patrimonial/cultural que lhe estiver associado. É necessário existir uma base em princípios orientadores, para que sejam bem sucedidas as intervenções de reabilitação estrutural, tanto do ponto de vista técnico como cultural. A Carta de Veneza de 1964 (Anexo I) é um documento de referência em matéria de reabilitação do património, defendendo a adopção de um conjunto de princípios, dos quais se destacam, pela sua importância, a garantia da segurança estrutural, o respeito pelo valor cultural da construção, a intervenção mínima e o custo mínimo (Santos cit. in Barros et al., 2004). Contudo, nem sempre é possível garantir o cumprimento destes parâmetros em simultâneo, sendo normal o conflito entre estes. Por vezes, é mesmo impossível garantir a segurança estrutural sem a execução de intervenções mais profundas, pondo assim em risco o valor cultural da construção Natural será usufruir de todas as novas tecnologias e técnicas de reforço estrutural, por forma a encontrar as melhores soluções para os diversos problemas que uma intervenção deste tipo coloca, tais como: • A resistência; • O transporte; • A colocação em obra; • A operacionalidade em espaços reduzidos; • A compatibilidade funcional e estética face às estruturas existentes. 3 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Na execução destas intervenções é importante introduzir, da melhor forma, autonomia nos elementos de reforço em relação à estrutura existente, sendo possível através da utilização de elementos pré-fabricados, facilmente reversíveis. A reversibilidade e a autonomia destes elementos vem facilitar a manutenção e a inspecção da estrutura, preservando o valor tanto do edifício em geral como dos seus materiais. Figura 1 - Reforço provisório de uma estrutura após a ocorrência de um sismo (Fonte: http://www.dgpatr.pt, junho 2005). Acredita-se que no final do texto que se apresenta poder-se-á obter uma boa percepção das capacidades do reforço com elementos metálicos e das melhorias que se obtêm no funcionamento dos edifícios, quando sujeitos a um fenómeno sísmico. Julga-se, ainda, ser possível vir a compreender o fundamental do projecto e dimensionamento dos elementos, a viabilidade da sua aplicação e como se efectua uma boa montagem em obra. 4 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 1. Avaliação da segurança sísmica e inspecção do edifício 1.1. Avaliação estrutural Quando se avalia o desempenho estrutural de uma edificação, um dos primeiros pensamentos vai para a aquisição de dados que permitam aferir se o seu nível de segurança é ou não aceitável. Sendo assim, deve-se executar um estudo que tenha em consideração os parâmetros adequados e preconizados para o tipo de construção em abordagem. A análise estrutural de construções antigas é realizada da mesma forma que a efectuada para construções novas, ou seja, estudando o seu comportamento através de certas hipóteses admitidas como próximas do real. Para tal, são determinados e combinados os efeitos das acções nos diferentes pontos da estrutura, os quais são comparados com a sua resistência nesses mesmos pontos, tendo sempre em conta a possibilidade da existência de diferenças substanciais. Na concepção de construções novas são utilizados regulamentos e códigos de forma a reduzir as incertezas, tanto a nível de resistências como em relação a acções. Os coeficientes de segurança utilizados visam aumentar a segurança da estrutura, sem com isso aumentar, desproporcionadamente, as dimensões dos elementos estruturais e seus os custos. Contrariamente, na reabilitação a indeterminação é maior, tanto ao nível da eficiência como, ou sobretudo, das despesas finais. Em termos de modelação do comportamento das estruturas antigas esta também é mais difícil, sendo condicionada por diferentes factores, tais como: • A dificuldade em executar um levantamento correcto da estrutura; • As incertezas relativas as características dos materiais existentes; • O desconhecimento de anteriores alterações ou reparações (nem sempre sendo visível a influência de fenómenos do passado). 5 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 1.2. Nível de segurança das construções Como já foi anteriormente mencionado, existe uma diferenciação entre a avaliação de construções antigas e construções novas. Logo, a avaliação da segurança de construções antigas tem em consideração o seu valor cultural, pelo que é necessário uma avaliação do custo-beneficio associada à intervenção. O benefício é decorrente da redução do risco, enquanto o custo está associado ao valor da intervenção, assim como da variação do valor cultural. Dado o presumível aumento da incerteza associada às acções e às resistências dos materiais, os coeficientes de segurança parciais a ter em conta devem ser superiores em relação aos utilizados numa construção nova, normalmente, trabalhando-se do lado da segurança. É evidente que se um levantamento exaustivo das cargas permanentes e da resistência dos materiais for efectuado, então poderemos mesmo adoptar valores de coeficientes de segurança inferiores aos recomendados para as construções novas, dado o nível de confiança se mostrar manifestamente favorável. 1.3. Inspecção da construção Em todas as obras de reabilitação é sempre necessário executar uma inspecção ao edifício, de forma a obterem-se os dados suficientes para uma correcta análise. Só com esta informação é possível uma boa execução de todo o projecto de reabilitação. As inspecções relativas à reabilitação estrutural de construções antigas poderão realizadas em duas fases: 1. Uma inspecção preliminar, num primeiro momento; 2. Uma inspecção detalhada, num passo posterior. 6 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Sendo que a inspecção preliminar é feita de uma forma qualitativa, recorrendo à observação visual ou á utilização de equipamento simples na determinação das patologias existentes. Por outro lado, a inspecção detalhada é uma inspecção quantitativa, na qual são realizados ensaios e medições, de forma a ser obtida uma avaliação das características dos materiais constituintes da estrutura e das propriedades dinâmicas da própria estrutura. Deverá, ainda, esta última inspecção servir para a tipificação das anomalias estruturais mais significativas. Figura 2 – Levantamento da armadura com aparelho de detecção de armadura (Fonte própria) Na grande maioria dos casos, nestas inspecções é simultaneamente necessário fazer um levantamento da geometria do edifício, pois normalmente não existem projectos dos edifícios antigos. Figura 3 – Ensaios efectuados em laboratório à existência de térmitas numa viga de madeira (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 7 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Quando os níveis de detalhes da inspecção são elevados é necessário recorrer a ensaios em laboratórios, para se obter um profundo conhecimento dos materiais e estrutura. 8 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 2. Modelação da estrutura da construção 2.1. Generalidades A modelação do comportamento das estruturas das construções antigas utiliza as metodologias habituais da análise estrutural, em que, admitindo certas hipóteses (resposta elástica linear, recurso a modelos não lineares, etc.), se procura obter informação sobre os estados de tensão existentes, ou que podem ser produzidos nos diferentes elementos da estrutura (Santos cit. in Barros et al., 2004). Refira-se, no entanto, que, em face das simplificações que é em geral necessário introduzir na representação do funcionamento das estruturas antigas, bem como do eventual desconhecimento quanto às características reais dos materiais, os resultados obtidos serão, em princípio, sempre menos fiáveis que no caso das estruturas novas (Santos cit. in Barros et al., 2004). O comportamento de qualquer estrutura é influenciado por três factores principais: 1. A forma e as ligações da estrutura; 2. Os materiais de construção; 3. As forças, acelerações e deformações impostas (as acções) (ICOMOS, 2004). 2.2. Esquema estrutural e danos O esquema estrutural representa o comportamento das estruturas relativamente ás diversas acções existentes na construção, possibilitando a determinação da forma como a construção garante a sua estabilidade. 9 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Para a determinação precisa deste esquema é necessário um profundo conhecimento do comportamento da estrutura, e para tal é imprescindível um bom conhecimento: • Dos seus materiais; • Da dimensão dos seus elementos; • Das condições do terreno; • Das ligações entre os diferentes elementos; • Das anomalias, etc. No caso especifico de estruturas de alvenaria é necessário ter noção que estas são geralmente feitas de materiais que têm uma resistência à tracção muito baixa e podem facilmente exibir fendilhação interna ou separação entre elementos. Contudo, estes sinais não são necessariamente uma indicação de perigo, porque as estruturas de alvenaria funcionam principalmente à compressão (ICOMOS, 2004). Em geral, as estruturas de alvenaria dependem do efeito dos pisos ou das coberturas para distribuir as cargas laterais e, assim, assegurar a estabilidade global da estrutura. É também necessário compreender a sequência da construção, porque as diferentes características dos diferentes períodos da alvenaria podem afectar o comportamento global da estrutura (ICOMOS, 2004). Deve-se ter em atenção as paredes espessas e, principalmente, as paredes duplas. Isto tem origem no facto do seu núcleo ser, por vezes, de fraca qualidade, surgindo problemas diversos, tais como: • Fendas verticais; • Deformações e destacamentos do pano exterior (que podem originar o colapso da estrutura). 10 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Assim sendo, procurar-se representar adequadamente o comportamento da estrutura e os fenómenos que lhe estão associados, de forma a tornar possível a aplicação das ferramentas de cálculo. Embora em certas situações possam ser usados apenas modelos simplificados, baseados, por exemplo, em simples condições de equilíbrio estático, hoje em dia a análise estrutural de construções antigas, nomeadamente quando sujeitas à acção de sismos, é feita com base em modelos sofisticados. Daí se entenda a dificuldade de um cálculo manual, pelo que quase sempre de recorre a programas de cálculo automático, através de malhas de elementos finitos apropriados à representação do comportamento dos diversos elementos estruturais (Santos cit. in Barros et al., 2004). A elaboração dos esquemas estruturais deverá ser com base no levantamento da construção, bem como da sua envolvente, tal como se referiu atrás. Se estiverem disponíveis, poderão também ser usados elementos de informação já existentes sobre a construção (memórias, desenhos, fotos, etc.), embora deva ser feita a confirmação, pelo menos parcial, destes dados. É também importante, como forma de complemento, o contacto com a população vizinha ao edifício, permitindo um melhor conhecimento da história e acontecimentos relacionados com este. O esquema utilizado deve considerar quaisquer alterações e degradações sofridas ao longo do tempo, cujo efeito pode influenciar o comportamento geral da estrutural, através da alteração das distribuições dos esforços. Estas alterações podem ser provocadas tanto por fenómenos naturais como por intervenções humanas. Na modelação de estruturas complexas não deverá, no entanto, ser usado um esquema estrutural único, mas deverão ser usados esquemas alternativos ou complementares uns dos outros. É preciso ter presente, muito embora, que esquemas estruturais diferentes poderão conduzir a resultados com valores substancialmente diferentes, ainda que do mesmo elemento estrutural (Santos cit. in Barros et al., 2004). Se tiverem sido realizados ensaios in-situ de determinação das características dinâmicas da estrutura (frequências próprias, amortecimentos, etc.), os resultados obtidos poderão ser 11 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos comparados com os valores obtidos através da modelação, o que permitirá ajudar a afinar a modelação da estrutura (Santos cit. in Barros et al., 2004). 2.3. Características dos materiais As propriedades dos materiais (particularmente as resistências), que são os parâmetros básicos para qualquer cálculo, podem ser reduzidos através das degradações devidas á acção química, física ou biológica. A velocidade das degradações depende das propriedades dos materiais (como a porosidade) e da protecção existente (telhado saliente, etc.), bem como da manutenção. Embora as degradações possam manifestar-se à superfície, sendo assim imediatamente visíveis através de uma inspecção superficial (eflorescências, porosidade elevada, etc.), existem também processos de degradação que só podem ser detectados através de ensaios mais sofisticados (ataque de térmitas na madeira, etc.) (ICOMOS, 2004). Como se referiu no ponto anterior, os ensaios realizados nos materiais estruturais permitem a obtenção das características dos mesmos, podendo estas características também ser obtidas através de bases de dados já existentes, ainda que, neste ultimo caso, deve-se precaver a existência de eventuais diferenças em relação a cada construção. Os resultados obtidos dos ensaios realizados deverão permitir quantificar os valores característicos das propriedades dos materiais estruturais. Serão de admitir, em geral, distribuições normais, pelo que o valor característico será, em princípio, obtido a partir do valor médio, tendo em conta o coeficiente de variação e a dimensão da amostra. No entanto, como a amostragem é, em geral, pouco extensa, um critério por vezes adoptado consiste em considerar como valor característico o valor mínimo da amostra. Deverão existir, em qualquer caso, pelo menos dois valores (Santos cit. in Barros et al., 2004). Quanto aos coeficientes de segurança parciais dos materiais, estes deverão estar relacionados com a incerteza associada à determinação dos valores característicos das resistências. Embora dependam da qualidade da informação usada, uma vez que os valores reais são já conhecidos, poderão, em geral, ser adoptados valores inferiores aos preconizados no projecto de estruturas novas, sendo recomendáveis valores da ordem de 1,1 para os aços, de 1,2-1,3 para os betões e para as madeiras, e de 1,3-1,5 para as alvenarias (Santos cit. in Barros et al., 2004). 12 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 2.4. As acções na estrutura As cargas permanentes (pesos próprios, etc.) deverão, em princípio, ser obtidas a partir do levantamento da geometria e da constituição da construção. Elementos de informação já existentes (desenhos, etc.) poderão também ser úteis, mas deverão ser usados com reservas (Santos cit. in Barros et al., 2004). As acções são definidas como qualquer agente (forças, deformações, etc.) que produza tensões e deformações na estrutura e qualquer fenómeno (químico, biológico, etc.) que afecte os materiais, normalmente reduzindo a sua resistência. As acções originais, que ocorrem desde o início da construção até á sua conclusão (por exemplo, o peso próprio), podem ser modificadas durante a sua vida e é frequente que estas mudanças produzam danos e degradações (ICOMOS, 2004). Antes de se tomar uma decisão em relação a qualquer tipo de reparação a efectuar na estrutura, é sempre necessário ter um perfeito conhecimento das solicitações ou modificações das acções originais, sendo que estas podem ser de naturezas diversas e, com isso, provocar diferentes alterações, tanto na estrutura como nos materiais. No caso deste trabalho, abordam-se de uma forma mais especifica as acções mecânicas dinâmicas, já que a acção dinâmica mais significativa é normalmente causada por sismos. As acções mecânicas que actuam na estrutura produzem tensões e deformações no material, possivelmente resultando em fendilhação, esmagamento e movimentos visíveis. Sendo estas acções dinâmicas, então são produzidas quando uma estrutura fica sujeita a acelerações resultantes de sismos, vento, furacões, vibrações de máquinas, etc. (ICOMOS, 2004). Na acção dinâmica resultante de um sismo a intensidade das forças produzidas está relacionada tanto com a magnitude da aceleração, como com as frequências próprias da estrutura e a sua capacidade para dissipar energia. O efeito de um sismo está também relacionado com a história de sismos anteriores, que podem ter debilitado progressivamente a estrutura (ICOMOS, 2004). Sendo assim, a acção dos sismos será, em princípio, quantificada do mesmo modo que no projecto de estruturas novas, podendo, em certos casos, ser admitido como período tempo de referência bastante 13 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos inferior ao adoptado no projecto de estruturas novas, permitindo reduzir o valor da acção, deste modo. Em certas situações poderá, também, ser possível realizar um zonamento localizado da acção sísmica, o que, eventualmente, permitirá reduzir o valor dessa acção (Santos cit. in Barros et al., 2004). Quanto aos coeficientes de comportamento a adoptar no caso de análises sísmicas lineares, deverão ser estabelecidos tomando como padrão os valores preconizados na regulamentação para o projecto de estruturas novas, tendo em conta o "lay-out" especifico da estrutura antiga. No caso de construções de alvenaria, por exemplo, dependendo das características mecânicas dos blocos e da argamassa usados, bem como da eventual presença de elementos de ligação metálicos, são recomendados valores da ordem de 1,5-2,0 (Santos cit. in Barros et al., 2004). Figura 4 – Edifício de gaiola pombalina e parede típica gaioleira, neste caso poderá ser adoptado um valor superior, da ordem de 2,0-2,5, dependendo da proporção de paredes de gaiola no conjunto das paredes do edifício (Fonte: Reabilitação de edifícios antigos, Patologias e técnicas de intervenção) Em relação aos coeficientes de segurança parciais das acções, assim como nos coeficientes de comportamento, deve-se adoptar os valores da regulamentação para projecto de estruturas novas ou de preferência valores conservativos, trabalhando-se pelo lado da segurança. O mesmo acontece com no caso das cargas permanentes, nas quais também é favorável considerar valores ponderados superiores face ao preconizado para estruturas novas. Sem embargo do que atrás ficou dito, e particularmente se os valores em consideração tiverem sido obtidos a partir do levantamento exaustivo da construção, poderão ser admissíveis coeficientes da ordem de 1,2 (Santos cit. in Barros et al., 2004). 14 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 3. Determinação do tipo de intervenção Após uma fase de levantamento e diagnóstico das patologias do edifício é necessário determinar a melhor forma de intervenção, de modo a reabilitar estruturalmente o edifício e capacitá-lo a resistir á acção sísmica. A avaliação da segurança estrutural de uma construção antiga será, em princípio, feita tal como se faz para as estruturas novas, comparando os valores de cálculo das resistências dos materiais com os valores de cálculo dos efeitos das acções em cada ponto da estrutura (Santos cit. in Barros et al., 2004). Conforme foi referido atrás, os resultados da modelação das estruturas das construções antigas não são, contudo e em geral, tão fiáveis como no caso das construções novas, pelo que deverá ser avaliada a consistência desses resultados com o estado em que a construção realmente se encontra, particularmente no que se refere à eventual existência de danos (Santos cit. in Barros et al., 2004). Sendo assim, é de extrema importância considerar todos os métodos de avaliação possíveis para que se possam tomar decisões concretas e isentas de erros, por falta de avaliação. Na fase dos levantamentos, como já foi salientado, é importante recolher toda a informação existente sobre a história do edifício, alterações ao longo do seu percurso de vida, anomalias, o funcionamento deste perante sismos passados, o conhecimento dos edifícios vizinhos, etc.. A informação sobre a sua história permite avaliar os resultados do funcionamento da estrutura às acções sísmicas e, com isso, ajudar a prever o seu comportamento no futuro. De facto, nos edifícios antigos de alvenaria é normalmente difícil de prever o funcionamento das ligações entre os pavimentos, habitualmente em madeira, e as paredes de alvenaria. As alterações e ampliações feitas pelos proprietários são também um problema, devido à dificuldade de prever o seu funcionamento. Daí que o conhecimento dos resultados de fenómenos idênticos aos que se pretende estudar facilite a tomada de decisão. 15 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Por vezes, as empresas do ramo auxiliam o trabalho comparando o edifício em análise com outros a si semelhantes e para os quais já foi efectuado o estudo. Assim, com o conjunto destas análises (históricas, qualitativas e quantitativas) pode ser elaborada uma boa avaliação da vulnerabilidade sísmica do edifício, permitindo determinar o melhor método de intervenção. Figura 5 - Fluxograma das acções a desenvolver na avaliação estrutural de construções antigas (Fonte: Sísmica 2004, 6º congresso nacional de sismologia e engenharia sísmica) Se desta avaliação não for possível tirar conclusões claras quanto à eventual falta de segurança da estrutura, ou de alguns dos seus elementos, será sempre preferível não intervir de modo a manter o mais possível o valor cultural da construção. Além disso, o custo da intervenção será reduzido se a sua reabilitação ou reforço estrutural não for efectuada (Santos cit. in Barros et al., 2004). No fim de toda a análise, e após determinados os métodos de intervenção, deve ser elaborado um relatório que verse todos os aspectos que foram considerados durante a análise. Com este 16 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos sistematizar de parâmetros de avaliação, poderemos ter as opções de intervenção devidamente justificadas. Na figura 5 apresenta-se um fluxograma simplificado das acções a desenvolver na avaliação estrutural de edifícios antigos de alvenaria. 17 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 4. Componentes de reabilitação sísmica 4.1. Pressupostos do projecto de reforço A correcta organização da malha estrutural é o primeiro e mais importante requisito de qualquer edifício em alvenaria, construído segundo as regras de arte adequadas. Uma boa malha estrutural disporá sempre de duas linhas de paredes mutuamente ortogonais, que delimitam ambientes de forma rectangular e de dimensões contidas em relação às espessuras das paredes. Por outro lado, distribuições da estrutura que introduzam vãos grandes, ou não fechados nos quatro lados, situação ainda pior, determinam situações estruturais intrinsecamente mais débeis que inevitavelmente entram em crise na ocorrência de um evento sísmico. Figura 6 - A "casa anti-sísmica" de Pirro Logorio, para a segurança dos edifícios contra terramotos, 1570 (Fonte: M. M. Trabalhos de Engenharia Civil) A consciência do papel fundamental desempenhado pela distribuição da malha estrutural do 18 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos edifício está bem presente no “Tratatti classici de arquitecttura”, de Vitruvio e L.B. Alberti a Palladio, assumindo de forma explícita e consequente como sendo a primeira casa antisísmica, proposta por Pirro Ligorio depois do terramoto de Ferrara de 1570 (Figura 6). A mesma consciência está na origem da famosa imagem da Milízia (1781), a qual fala de "casa" anti-sísmica como sendo uma "caixa" de madeira susceptível só de alterações monolíticas, mas não de desarranjos interiores que possam comprometer a integridade desta. Com espírito substancialmente análogo aos tratados clássicos, as normas sísmicas modernas reassumem a exigência de condicionar os limites do vão máximo livre da parede de fachada, admissível em edifícios em alvenaria. 4.2. Projecto de reabilitação O projecto de reabilitação de uma construção é em tudo semelhante ao projecto de uma obra nova, ou seja, deve conter os documentos necessários para uma correcta execução, sendo eles as Peças Desenhadas e Peças Escritas. No entanto, os projectos de reabilitação estrutural, devido ao seu grau de especialização, devem ser elaborados com grande especificidade em relação à metodologia da execução dos trabalhos e aos cuidados a ter durante a efectivação. Com isto, diminuí-se as probabilidades de ocorrência de erros. Deve-se, também mencionar os equipamentos e materiais a utilizar, bem como as respectivas condições de aplicação. No caso de construções que continuam a ser utilizadas durante a execução dos trabalhos, tal situação deverá também ser tida devidamente em conta. Deverá também ser incluída uma estimativa do custo de cada trabalho, estabelecida de forma realista. As soluções de reparação ou reforço de construções antigas são muito variadas, dependendo do tipo de patologia que se procura corrigir, nomeadamente se da reparação da degradação dos materiais se trata, ou da reparação dos efeitos de acções mecânicas, ou, ainda, de intervenções com vista à melhoria da segurança contra a acção dos sismos (Santos cit. in Barros et al., 2004). 19 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos A escolha das soluções deverá, assim, ser devidamente justificada e ser objecto de análises custo-beneficio. Como será óbvio, deverá ter-se em vista a sua máxima eficácia ao mais baixo custo possível, respeitando o mais possível os outros princípios referidos atrás, particularmente o respeito pelo valor cultural da construção (Santos cit. in Barros et al., 2004). Por vezes os métodos mais intrusivos, como é o caso da aplicação do “cordolo”1, componente metálica que vai ser alvo de uma análise aprofundada mais á frente, não beneficiam a relação custo-beneficio. No caso da reabilitação das habitações afectadas pelo sismo dos Açores de 1998, a aplicação do “cordolo” foi abandonada, pois a sua execução tinha um grau muito elevado de dificuldade e de custos, não favorecendo a relação custo-beneficio. 4.3. A utilização do aço Hoje em dia, apesar de existirem variados materiais a serem utilizados no reforço de estruturas, o aço é o material mais utilizado em reforço estrutural no que à acção sísmica em estruturas de alvenaria concerne. A sua principal característica é a sua grande ductilidade, propriedade de manter a resistência mesmo perante significativas deformações, sendo a sua utilização aconselhada em estruturas localizadas em zonas sísmicas. De facto, os elementos de reforço neste material possibilitam que na eventualidade de um colapso estrutural este não ocorra de um modo brusco, mas sim gradual. O aço é um material com grandes capacidades de flexibilidade construtiva, o que possibilita resolver problemas estruturais com grande sucesso, dado as diversas formas de comercialização, quer geométricas (varões, perfis laminados, enformados a frio, secções tubulares, chapa quinada), quer mecânicas (diversas tipos de aço e classes de resistência) (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). As possibilidades oferecidas por este material são de tal modo vastas que permitem a execução de uma ampla gama de operações, que vão desde o simples reforço de um elemento 1 Viga de confinamento que circunscreve as paredes de alvenaria, como se um cordão periférico se trata-se. 20 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos até à completa restruturação e adaptação anti-sísmica da própria estrutura globalmente (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). A utilização de elementos de aço no reforço estrutural tem várias vantagens, como sejam: • Aspectos estéticos, como a esbelteza e a clareza das formas; • Possibilidade de modelação; • Reversibilidade. Tem ainda várias vantagens em relação á utilização em obra, tais como: • As reduzidas dimensões; • A “leveza”, quando considerando o binómio peso-resistência e auto-porte; • Simplicidade no transporte; • Utilização em espaços reduzidos; • Facilidade de colocação em obra; • Tempos de execução reduzidos; • Pré-fabricação. Neste último aspecto, pré-fabricação, a sua utilização vem diminuir o tempo de montagem dos elementos, já que estás são executadas em oficina, bem como permitir um ritmo maior de produção paralelo ao processar da obra, assim como um melhor controlo da qualidade. Os elementos estruturais chegam à obra em partes, as quais são facilmente montadas através de 21 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos ligações aparafusadas. Nas figuras seguintes é possível ver a colocação em obra das componentes de uma treliça pré-fabricada. A reversibilidade permite a reutilização dos elementos metálicos, o que é uma grande vantagem em diferentes casos de intervenção, tais como a utilização como reforço provisório em edifícios que sofreram um sismo. A leveza dos elementos metálicos vem facilitar a colocação e montagem em obra, sendo na sua maioria possível de montar e transportar as componentes manualmente, como se pode verificar na figura 7. Figura 7 – Componentes de uma treliça a ser descarregada em obra manualmente (Fonte: M.M. Trabalhos de engenharia civil) Figura 8 – Barra de ancoragem dos tirantes, componente leve e pouco intrusiva (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 22 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos As reduzidas dimensões destes elementos, associadas á elevada resistência, permitem executar obras de reabilitação estrutural em edifícios com valor cultural, sem que se utilizem métodos muito intrusivos. Obtém-se, deste modo, um bom funcionamento estrutural dos edifícios, sem afectar o seu valor cultural e patrimonial. A facilidade e rapidez de colocação em obra torna o aço um instrumento ideal para o reforço das estruturas, principalmente quando se actua no reforço de edifícios que sofreram um sismo e que se encontram vulneráveis Uma rápida actuação pode, por vezes, impedir o colapso total do edifício. 4.4. Níveis de intervenção Como já se viu anteriormente, existem vários factores que podem influenciar o tipo de intervenção a ser aplicada. Dessa maneira, subsistem vários níveis de intervenção possíveis, sendo que estes variam com os factores já anteriormente referidos, tais como: o valor histórico, as patologias existentes, o índice de vulnerabilidade sísmica, os fundos disponíveis, etc. Os níveis de intervenção podem ser classificados como: • Salvaguarda; • Reparação; • Reforço; • Restruturação. Os primeiros dois níveis pressupõem a existência de inadequado funcionamento da estrutura, do ponto de vista da segurança, enquanto os últimos dois, não implicando necessariamente a existência de danos estruturais que ponham em causa a sua segurança, estão indicados quando 23 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos se pretende dar uma nova finalidade à estrutura, ou então modificá-la de modo a estar de acordo com as novas disposições regulamentares (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). 4.4.1. Salvaguarda Por salvaguarda entende-se o conjunto de intervenções, de carácter geralmente provisório, destinadas a garantir a segurança da estrutura enquanto não são realizados os trabalhos de intervenção de carácter definitivo. Este tipo de intervenção é geralmente utilizado quando existe a possibilidade de colapso parcial ou total da estrutura (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). Um caso típico para o qual se recorre a intervenções de salvaguarda, refere-se às medidas de emergência a tomar após a ocorrência de um sismo. Aplica-se, pois, quando a urgência da intervenção é prioritária, a carência de materiais e de fundos de financiamento exige medidas de simples e rápida actuação, em simultâneo com grande flexibilidade operativa (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). 4.4.2. Reparação A reparação encontra-se cronologicamente a seguir à salvaguarda e prevê a execução de trabalhos com a finalidade de restituir à estrutura a segurança e a funcionalidade iniciais. Este tipo de intervenção é efectuado na sequência de anomalias funcionais causadas, por exemplo, por agentes atmosféricos, efeitos dos sismos, ou outras causas que provoquem danos estruturais e comprometam a segurança dos edifícios (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). Em oposição à salvaguarda, a reparação tem um carácter definitivo, sendo por vezes de fácil previsão quando os danos estruturais são devidos ao envelhecimento da estrutura ou a efeitos ao logo do tempo. Neste caso, o diagnóstico é geralmente fácil, não exigindo medidas de intervenção urgentes (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). 4.4.3. Reforço O nível seguinte de intervenção pode ser classificado como reforço. Aqui não é necessária a existência de danos estruturais, mas sim a necessidade de dotar a estrutura de resistência 24 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos suficiente para fazer face à sua nova utilização. Como exemplo, refira-se a existência de cargas mais elevadas, ou ainda a necessidade de dotar a estrutura de resistência sísmica, como é o caso dos edifícios construídos em épocas passadas e para os quais não existia regulamentação sobre este tipo de acção (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). Figura 9 - Pormenor de aparelho de apoio para evitar a transmissão de impulsos às paredes (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005) Figura 10 - Reforço com inclusão de contraventamento visando melhorar a resistência sísmica (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005) De um modo geral o reforço não prevê alterações significativas do esquema estrutural resistente. Relativamente à reparação, verifica-se que no reforço estrutural os trabalhos a realizar podem ter diversas intensidades, consoante o nível de resistência exigido à construção. Este aspecto assume particular importância do ponto de vista sísmico, quando se trata de melhorar ou adequar correctamente a estrutura para fazer face a este tipo de acção (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). 25 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 4.4.4. Restruturação O caso mais geral e complexo das intervenções é o da restruturação. Consiste na modificação parcial ou total dos espaços, da volumetria e do esquema resistente. Este tipo de intervenção é efectuado quando se pretende uma nova distribuição de espaços, ou quando, face à nova regulamentação, o esquema estrutural existente é inadequado, mesmo que reforçado, à nova função da estrutura (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). No âmbito da restruturação podem ser consideradas as intervenções (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005): • De esvaziamento estrutural do interior da construção inicial, com posterior inserção de uma nova estrutura no interior; • Ampliações, quer horizontais quer em elevação; • Aligeiramento da estrutura e inserção de novas sub-estruturas no interior das existentes. Em zonas sísmicas, como é o caso de Portugal, todas estas intervenções de restruturação exigem que as novas estruturas possuam adequada resistência face a acções sísmicas (http://www.dgpatr.pt, Junho 2005). 4.5. Considerações económicas Os métodos de reabilitação são cada vez mais aplicados em Portugal, encontrando-se, hoje em dia, cada vez mais ultrapassados os problemas económicos relacionados com estas metodologias, comparativamente com a execução de obras novas. Quando se pensa em reabilitar estruturalmente um edifício é necessário a execução de estudos económicos para se concluir a viabilidade e as metodologias a aplicar. No entanto, a 26 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos orçamentação deste tipo de obras é um problema para os técnicos, sobretudo devido à falta de definição dos custos a serem aplicados às operações. Não existem ainda em Portugal publicações com valores sobre os custos dos trabalhos de reabilitação. O LNEC iniciou a elaboração de largas centenas de fichas de composição de custos deste tipo de trabalhos e que deverá conseguir publicar em breve. Entretanto, para a estimativa e orçamentação das obras, os técnicos têm de recorrer à elaboração directa, caso a caso, dos custos, ou de fichas próprias similares àquelas, ou ainda de recorrer a outros tipos de informação tais como: fichas analíticas de composição de custos de referência ou fichas de custos médios (ICOMOS, 2004). Os reforços com estruturas metálicos são uma das metodologias mais aplicadas em Portugal, começaram a serem utilizados num período entre 1800 e 1950 e hoje em dia já tem uma utilização vasta no território nacional. Segundo a Direcção Geral do Património, no âmbito da recuperação estrutural baseada em elementos metálicos, e tomando por base a vasta experiência italiana neste domínio, podem ser individualizados vários tipos de operações efectuadas em: 1. Paredes; 2. Varandas e lajes em consola; 3. Pavimentos; 4. Coberturas; 5. Escadas; 6. Estruturas inseridas no interior; 7. Outros tipos de intervenção. É interessante observar que as coberturas têm o maior custo percentual e a máxima frequência de operações de intervenção. Tal facto será devido à elevada utilização de elementos metálicos nas ligações entre as várias partes constituintes das coberturas. 27 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Os pavimentos surgem em segundo lugar, devido a que normalmente os edifícios antigos terem pavimentos em madeira, os quais são reforçados por vigas metálicas, chapas quinadas, etc. Figura 11 - Distribuição da frequência por tipo de intervenção (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005) Figura 12 - Distribuição percentual dos custos por tipo de intervenção (Fonte: http://www.dgpatr.pt, Junho 2005) Nas restantes parcelas, a utilização de elementos metálicos tem vindo a aumentar pois, quando se fala de reforço estrutural sísmico, tem que se pensar que a melhor forma de funcionamento do edifício é obter-se um funcionamento em conjunto de todas as partes deste. De notar que esse mecanismo só é possível de se obter quando o reforço é feito a todos os níveis do edifício. É também importante mencionar que o aumento da utilização destes elementos metálicos é devido a estes proporcionarem intervenções pouco intrusivas, e com isso conduzir a custos mais reduzidos. 28 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 5. Mecanismos de colapso típicos das estruturas de alvenaria É muito importante ter noção que a forma de colapso dos edifícios pode variar devido a diferentes circunstâncias e que, deste modo, o reforço a ser utilizado também varia. Assim sendo, seguidamente vão ser definidos os dois modos de colapso basilares existentes para edifícios de alvenaria de pedra. 5.1. Mecanismos de colapso de primeiro modo Estes mecanismos dizem respeito à parede de fachada principal, mas também se podem estender facilmente à parede da fachada posterior (não obstante esta fachada ser de diferentes dimensões). Considera-se, no entanto e do lado da segurança, a sua análise através do estudo detalhado da estabilidade da fachada principal. Figura 13 - Mecanismo de primeiro modo: rotura monolítica da fachada por ter sido ultrapassada a capacidade da ligação com as paredes das empenas laterais (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) Os primeiros dois mecanismos são grosseiramente simplificados: ambos recorrem a uma parede ideal, privada de aberturas, e diferem entre eles no facto de considerar a ligação com as paredes ortogonais das empenas. Se a ligação não existe a parede é derrubada monoliticamente (Figura 13), se a ligação existe a parede da fachada é danificada na ligação, dando origem ao mecanismo clássico de rotura conhecido como mecanismo de Rondelet. Este 29 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos autor descreveu no seu Tratado de princípios do sec. XIX (J. B. Rondelet, Traité théorique et pratique de l’art de bâtir, Paris, 1802) (Figura 14). Figura 14 - Mecanismo de primeiro modo: mecanismo de Rondelet considerando a ligação efectiva das paredes das empenas laterais (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) O terceiro mecanismo é uma adaptação do mecanismo de Rondelet, que entra em linha de conta com a presença na fachada das aberturas de portas e janelas (Figura 15). Figura 15 - Mecanismo de primeiro modo: mecanismo de “Rondelet” considerando a presença de aberturas na parede da fachada (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) Para uma parede de fachada, o primeiro mecanismo forma-se com um valor de aceleração, segundo o R.S.A igual a: 30 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos a = β ⋅ g = (S H ) ⋅ g Sendo: • a – aceleração; • g – aceleração da gravidade; • S – espessura da fachada; • H – altura do edifício. Enquanto o segundo mecanismo requer, na hipótese que envolve a parede inteira, só os últimos três níveis, por exclusão do nível enterrado, sendo as acelerações iguais, respectivamente, a: a = β ⋅ g = 1 .5 ⋅ ( S H ) ⋅ g No mecanismo de Rondelet a viragem de cada metade da parede advém do ponto que corresponde à fissuração inclinada, que forma com a vertical um ângulo θ. Por conseguinte, a força que se opõe ao mecanismo de viragem é a componente (P·senθ), perpendicular à linha de fissuração. Esta corresponde ao peso da porção triangular de parede envolvida no mecanismo, enquanto que a força que favorece o mecanismo é a força sísmica aplicada à mesma porção triangular. O braço do peso é o mesmo do mecanismo da viragem global (S/2) enquanto o braço da força sísmica é igual a (H/3)·senθ (Figura 16). 31 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 16 - Mecanismo de primeiro modo (de Rondelet) (Fonte: M. M. Trabalhos de Engenharia Civil) É evidente que no cálculo proposto para o segundo mecanismo se negligencia o desaparelhamento do ”tecido” da parede do edifício necessário para restabelecer, ao longo das linhas de fractura, a congruência geométrica do mecanismo, obtendo-se de tal forma valores do multiplicador de colapso que poderiam resultar ligeiramente inferiores aos reais. Todavia, é preciso ter presente que mesmo no cálculo do primeiro mecanismo se despreza completamente o efeito estabilizante, devido à ligação com as paredes de meação ou de contraventamento. Isto significa que a resistência associada a tal mecanismo é, na realidade, de qualquer modo superior ao valor obtido pelo cálculo acima indicado, ou seja: a não consideração destes factores favoráveis é uma atitude eventualmente defensiva mas segura. Ainda e por outro lado, nas paredes reais estão sempre presentes na fachada aberturas que modificam o mecanismo de Rondelet. O efeito de tais aberturas envolve uma redução do trabalho estabilizante que decorre do citado desaparelhamento das pedras da fachada e, por conseguinte, numa diminuição adicional da diferença entre os multiplicadores de colapso relativos ao primeiro e ao segundo mecanismo. Em conclusão, medir a resistência sísmica das paredes de fachada considerando o derrube monolítico da mesma, suposta sem aberturas, é uma medida do lado da segurança, mas não 32 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos excessivamente cautelosa (tendo em conta a aceleração sísmica capaz de produzir um dano no edifício e, contingentemente, o colapso). • A intervenção para controlar os mecanismos de primeiro modo A queda provocada pelo derrube da fachada vulnerável constitui o mecanismo que é activado, em primeiro lugar, na ocasião de um evento sísmico. A introdução de amarrações metálicas, à cota dos pavimentos, e de cordões de topo armados garantem a conexão das fachadas às paredes de contraventamento (paredes laterais do edifício), permitindo transferir a estas últimas a acção sísmica. Acresce que, como as paredes de contraventamento se opõem à acção de queda por derrube produzida pelo terramoto, a sua maior dimensão em planta pode fornecer uma resistência de grandeza superior à das paredes da fachada. Em presença duma malha estrutural de muros com um grande desenvolvimento, a intervenção tradicional, de atirantar firmemente as fachadas, origina duas ordens de problemas conhecidos. Em primeiro lugar, é evidente que não é por si só suficiente colocar os tirantes em correspondência com as paredes de contraventamento, às quais os mesmos tirantes possam estar devidamente ancorados. Com esta disposição de tirantes impede-se unicamente a queda por rotura e derrube global da fachada, mas não se evitam os mecanismos parciais de Rondelet atrás descritos. O troço de parede entre dois tirantes é, de facto, solicitado à flexão pela acção sísmica. Ora, por causa da modestíssima resistência à tracção da alvenaria de pedra, a única possibilidade da parede se opor a este estado de solicitação é o funcionamento em arco ao longo deste troço horizontal e na espessura da parede. 33 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Uma distância excessiva entre dois tirantes consecutivos poderá originar o tal funcionamento em arco, porém é este mesmo o responsável pela rotura à flexão da parede (Mecanismo de Rondelet). Figura 17 - Comportamento em arco na espessura da parede na presença de tirantes de piso.(Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) O espaçamento óptimo entre tirantes depende, naturalmente, da espessura e quantidade da parede a atirantar e não só da disposição de aberturas de portas e janelas. A espessura e qualidade da parede definem directamente a forma de funcionamento do arco, enquanto a disposição das aberturas condiciona a possibilidade para ancorar de forma eficaz os tirantes. Nos casos em que são necessários tirantes intermédios adjacentes às paredes de contraventamento, nasce o problema de transferir a acção de contenção da fachada promovida pelos tirantes para essas mesmas paredes de contraventamento. Soluções diferentes são naturalmente possíveis e elas dependem mais uma vez do vão da parede a sustentar. 34 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Para vãos modestos pode, efectivamente, ser suficiente recorrer a tirantes inclinados, enquanto que para vãos mais imponentes a solução tem que ser mais articulada, passando pela inserção de uma viga reticular na qual se ligam os tirantes intermediários. 5.2. Mecanismo de colapso de segundo modo A acção sísmica que pelos tirantes conectados é transmitida da fachada à viga reticulada, deve ser suportada pelas paredes de contraventamento nas quais a mesma viga se apoia. Para tal, como já foi dito, a resistência de tais paredes de contraventamento é sensivelmente superior às das paredes das fachadas, podendo esta ser superada, dando origem à clássica rotura diagonal no plano, mecanismo do segundo modo (Figura 18). Figura 18 – Mecanismo de primeiro modo (fachada não conectada) e de segundo modo (fachada com tirantes conectados) (Fonte: M. M. Trabalhos de Engenharia Civil) A verificação formal dos mecanismos do segundo modo ou o cálculo da resistência sísmica das paredes de contraventamento é um problema para o qual ainda hoje subsistem grandes 35 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos incertezas e, não é por caso, que em todos os modelos disponíveis o papel dos pressupostos subjectivos ainda assumem um carácter relevante. Os procedimentos baseados no cálculo dos requisitos de tangencial nas paredes paralelas para a acção sísmica, sugere a definição de um parâmetro de resistência a considerar, na ausência de determinações baseadas em processos experimentais, assume um carácter fortemente convencional. Igualmente, os procedimentos baseados nos mecanismos de colapso são condicionados pesadamente pela escolha do mecanismo mais provável e, também aqui, só uma experimentação precisa garantiria a confiança da verificação. Não obstante, em comparação às verificações que envolvem a avaliação da resistência, a experimentação baseada nos mecanismos têm o mérito indiscutível de modelar com maior realismo, o real comportamento estrutural das construções de edifício para as quais os problemas de estabilidade são muito mais urgentes em lugar de os problemas de resistência. Com o propósito de definir racionalmente os mecanismos de segundo modo, pode ser útil recorrer a algumas experimentações de laboratório. Na figura 19 são comparados os mecanismos de colapso de uma mesma parede, privada de aberturas, em ausência e em presença de atirantamentos (preparado, neste último caso, em dois níveis). 36 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 19 - Influência de tirantes de plano nos mecanismos de segundo modo: mecanismos de colapso sem (à esquerda) e com (à direita) tirantes (Fonte: Sicurezza e conservazione dei centri storici, Il caso Ortigia) Figura 20 – Interpretação dos resultados experimentais da figura (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) Figura 21 - Mecanismo de colapso de segundo modo(Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) 37 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos O Anexo II aborda este tema de forma mais clara e desenvolvida. 38 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 6. Elementos metálicos de reforço sísmico Ao longo deste capítulo vão ser apresentados os diferentes elementos metálicos usados no reforço sísmico em edifícios de alvenaria. Para uma mais completa compreensão das suas funções e do seu cálculo será apresentada uma aplicação real no capitulo 7, pois julga-se importante analisar o funcionamento conjunto entre a alvenaria e os elementos metálicos. Como complemento informativo de cada tipo de componente em anexo encontram-se esquemas técnicos e fotos de aplicações em obra. 6.1. Tirantes O tirante é uma componente de reforço estrutural de aço, normalmente aço inox, que trabalha à tracção, podendo ter funções passivas ou activas na estrutura. No entanto, a sua função, quando se trata de reforço anti-sismico, é geralmente passiva, só funcionando à tracção aquando a ocorrência de um fenómeno sísmico. Figura 22 – Tirantes em varões com esticadores, Hospital da Horta, ilha do Faial, Açores (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 39 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos A aplicação desta componente metálica já acontece há bastantes anos em Portugal, sendo que antigamente só eram aplicados em edifícios cujos proprietários tinham posses económicas, ou ainda em edifícios que exigiam uma elevada segurança sísmica devido á sua função, como o caso dos hospitais (figura 22). Existem vários tipos de tirantes, podendo ter a forma de varões, cabos, barras ou vergalhões de ferro ou de aço. No caso sísmico, antigamente eram usados tirantes em varões de ferro, hoje em dia são normalmente usados cabos de aço semelhantes a cabos de pré-esforço. Figura 23 – À esquerda tirantes em varão e à direita tirantes em cabos (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Aplicação dos tirantes permite resistir á actuação das forças sísmicas horizontais, perpendiculares ás paredes de fachada, evitando o derrube das mesmas, através do travamento efectuado pelos tirantes. Na aplicação sísmica em edifícios de pequeno vão estes tirantes são aplicados percorrendo todo o vão, sendo ancorados nas fachadas. Já em edifícios com vãos mais elevados existe a necessidade de ter uma ancoragem intermédia, realizada através de uma ligação a uma viga reticulada. Após a ancoragem nas fachadas é regulada a intensidade da tensão do cabo, através de um esticador (figura 25). Tal dispositivo permite aumentar ou diminuir a tensão do cabo, sendo a sua regulação manual, em geral. No entanto, o cabo não deve exercer qualquer tipo de tensão sob as fachadas. 40 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 24 – À esquerda Tirante com ligação intermédia a uma viga reticulada, à direita tirante sem ligação intermédia ancorado na parte exterior da parede da fachada (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Figura 25 – Esticadores (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Como se referiu, os tirantes são passivos, pois como não estão a exercer tensão sob as fachadas, só ficam activos perante um fenómeno sísmico. Sendo assim, quando ocorre um sismo os tirantes vão permitir que todas as paredes de fachada, através desta ligação, funcionem em conjunto, servindo de apoio ao deslocamento das mesmas. É importante frisar a possibilidade de regular a tensão dos tirantes, pois após a ocorrência de um sismo permite fazer uma nova regulação da tensão e capacitar o edifício para resistir a um novo sismo. 41 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 26 – Esquema de aplicação de tirantes num edifício em Ortigia, Italia (Fonte: Sicurezza e conservazione dei centri storici, il caso Ortigia) 6.2. Cinta de coroamento (cordolo) A aplicação do “cordolo”, mais conhecido como cinta de coroamento, não é muito usual em Portugal. Porém, em Itália é uma prática corrente no reforço sísmico dos edifícios de alvenaria. Recentemente este método foi aplicado em algumas habitações pertencentes às obras de reabilitação do sismo de 1998, na ilha do Faial nos Açores. Muito embora, não foi possível realizar esta intervenção em todos os edifícios, pois este método tem um grau de dificuldade elevado. Na verdade, não só é necessário recorrer a mão-de-obra especializada como obriga a algum tempo de laboração, o que leva ao encarecimento da obra. O objectivo desta metodologia é repartir as forças horizontais sísmicas, ligar as paredes das fachadas favorecendo um comportamento de caixa, distribuir as cargas verticais e reduzir os 42 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos deslocamentos da cobertura, ou seja: confinar e segurar a estrutura global de alvenaria e madeira. O “cordolo”, basicamente, é uma barra metálica que é aplicada no topo dos edifícios, permitindo ligar as quatro fachadas e ao mesmo tempo fazer a união com a cobertura. A ideia é, portanto, que todo este conjunto funcione de modo simultâneo e solidário aquando a ocorrência de um sismo. Figura 27 – Preparação do topo das paredes para a recepção do “cordolo” (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Este método de reforço é constituído por uma barra padrão de φ 24mm para paredes de 45cm a 50cm de espessura, variando o diâmetro com a espessura da parede, proporcionlamente. Esta barra deve ser inserida no interior das paredes em pelo menos 50cm, desde o seu topo, devendo percorrer todas as paredes e fazendo a ligação entre elas como um “coroamento”. Figura 28 – Aplicação do “cordolo” em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 43 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos A ligação entre a barra e a cobertura é efectuada através de varões com ligações em gancho ao varão longitudinal e na extremidade contrária através ligações aparafusadas, de forma a fixarem placas metálicas ás pernas da cobertura. Figura 29 – Ligação do “cordolo” á cobertura (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) O mesmo reforço deve ser efectuado nas empenas laterais, caso existam, de forma a impedir o derrube do bico da empena, o qual tem uma fragilidade mais elevada. Como se pode verificar, a execução em obra desta metodologia é complexa e bastante intrusiva, o que desfavorece a relação custo-beneficio. 6.3. Barras de amarração (ancoragem) As barras de amarração são peças normalmente em aço inox, que servem para executar a ancoragem dos tirantes na parte exterior das paredes. Estas barras podem ter formas rectangulares ou redondas (“bolachas”), com cerca de 50cm de comprimento ou diâmetro, respectivamente. Serão sujeitas a uma carga linear, obtida após a distribuição do esforço de tracção transmitido pelos tirantes às paredes. As ancoragens podem ser executadas de duas formas, dependendo da situação e do tipo de edifício. 44 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Se não existe a possibilidade de manter as barras de amarração à vista, por motivos estéticos, então ter-se-ão duas formas de se executar o trabalho, sem ser demasiado intrusivo. Quando é possível, no final do trabalho, rebocar toda a fachada, então far-se-á uma abertura em forma de molde com as dimensões da barra de amarração, no local onde será amarrado o tirante. Este método, apesar de não deixar á vista a barra de amarração, não permite um acesso à mesma ao longo do tempo, o que tornará intrusivo qualquer tipo de intervenção sobre a barra, após a finalização da reabilitação. Figura 30 – Barras de amarração (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Figura 31 – Barras de ancoragem (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 45 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Outra possibilidade ocorre quando as fachadas são em pedra à vista, o que, por vezes, permite disfarçar a barra de amarração entre as pedras da fachada. Este método é mais simples e de mais fácil execução que o anterior. Se existe a possibilidade de manter as barras à vista, então as barras devem amarrar os tirantes na face exterior das paredes, não evitando este método que mais tarde se possa rebocar o edifício. 6.4. Viga reticulada (treliça) Esta componente é constituída por perfis metálicos, de secção rectangular oca, e normalmente é pré-fabricada. Isto permite poupança de tempo na execução da obra, assim como facilita a montagem. Esta viga é descarregada em obra em componentes, o que permite, quando da montagem, regular o seu tamanho, adaptando-se, assim, ao vão do edifício. Figura 32 - A viga reticulada controla o derrube da fachada, transferindo através dos tirantes do piso, as forças sísmicas aplicadas na fachada às paredes de contraventamento (Fonte: M.M. Trabalhos de Engenharia Civil) A viga reticulada recebe, preferivelmente mas não necessariamente, em correspondência directa com os montantes (peças perpendiculares às linhas da viga), as forças transmitidas 46 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos pelos tirantes intermediários e transfere-as aos apoios de extremidade, representados pelas duas paredes de contraventamento nas quais a mesma se apoia (Figura 32). Nos casos em que é possível colocar a viga reticulada numa posição central em relação ao comprimento das paredes de contraventamento (paredes laterais do edifício), a transmissão das cargas para estas acontece da mesma forma para as solicitações originadas pela actuação das forças nos dois sentidos, ou seja, quer pelos tirantes conectados à fachada principal, quer pelos tirantes conectados à fachada posterior. Devem ser tidos em conta os mesmos alinhamentos para ambas as fachadas. Figura 33 – Viga reticulada colocada em posição central em relação ás paredes laterais do edifício (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Porém, nos casos em que se é forçado a colocar a viga reticulada numa posição não central, é preferível que esta seja colocada o mais distante possível da parede da fachada a segurar. Isto permite que seja mobilizada uma maior quantidade de parede de contraventamento, através da mobilização de uma maior quantidade de peso destas paredes. Tal disposição vai aumentar, consideravelmente, a capacidade resistente ao derrube surgido pela acção produzida pelos tirantes intermédios, que são conectados à viga reticulada. No calculo da viga reticulada recorre-se a métodos numéricos, o que é efectuado por programas informáticos, normalmente. 47 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 34 – À esquerda ligação da viga reticulada ás paredes laterais, à direita conecção do tirante à viga reticulada (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 6.5. Ligações aparafusadas As ligações aparafusadas, como o próprio nome indica, são ligações efectuadas por parafusos metálicos que permitem conectar os elementos metálicos com a estrutura existente do edifício. Estas ligações são de extrema importância, pois permitem garantir a segurança e o bom funcionamento dos restantes elementos metálicos utilizados no reforço sísmico do edifício. Para que seja garantido o bom desempenho destas ligações aparafusadas é necessário efectuar-se o correcto cálculo das mesmas, como, por exemplo, o dimensionamento das ligações dos tirantes aos perfis metálicos da treliça e a ligação dos perfis metálicos às vigas de madeira dos pavimentos, entre outras ligações. Figura 35 – Diferentes tipos de ligações aparafusadas (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 48 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Na execução das ligações aparafusadas a quantidade de parafusos a serem utilizados é determinada através do dimensionamento, quando se obtêm as condições ideais de segurança, salvo no caso da existência de regulamentação sobre as mesmas ligações. O calculo efectuado para o dimensionamento das ligações aparafusadas será demonstrado no capitulo 7, conjuntamente com outros elementos, de forma a facilitar a sua compreensão. 6.6. Chapas Existem variados tipos de chapas a serem utilizadas no reforço anti-sismico, que variam com o tipo de função desejada. A chapa quinada é um dos tipos mais utilizados no reforço sísmico, sendo uma chapa em forma de cotovelo que serve de apoio às vigas de madeira dos pavimentos, Ao mesmo tempo permite fazer a ligação entre as paredes inferiores ao pavimento. Figura 36 – Chapa quinada (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Esta chapa é aparafusada ás paredes, enquanto as vigas podem estar simplesmente apoiadas sobre esta ou através de ligações aparafusadas. Outro tipo utilizado são as chapas que permitem o reforço das vigas existentes, normalmente de madeira, através da aplicação de chapas de aço pregadas às vigas, constituindo vigas mistas aço/madeira (Appleton, 2003). 49 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Para um bom funcionamento deste método deve-se atender à relação entre os módulos de elasticidade do aço e da madeira, para se homogeneizar a secção composta, escolhendo-se, em função disso, a altura e a espessura das chapas (o coeficiente de homogeneização a utilizar poderá ser de 20:1) (Appleton, 2003). Para além destes dois métodos mais usuais, existem variadas formas de utilizar chapas metálicas, pois é possível criar chapas apropriadas a cada situação. No anexo VIII são apresentados vários tipos de chapas metálicas, assim como esquemas técnicos das mesmas. Figura 37 – Reforço de vigas de madeira com chapas de aço pregadas (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 6.7. Vigas metálicas As vigas metálicas servem para substituir as peças em mau estado, ou para reforçar zonas debilitadas dos edifícios. As suas funções são em tudo semelhantes as vigas aplicadas em obras novas. Na execução destas vigas é necessário uma ancoragem às paredes, através de chapas metálicas e ligações aparafusadas, ou simplesmente recorrendo a aberturas criadas nas paredes nas quais são colocadas as extremidades da viga, seguindo-se a betonagem. 50 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 38 – Viga metálica (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Para que este método não se torne demasiado intrusivo, no final da aplicação da viga metálica é possível disfarçar com um tecto falso, ou mesmo através de um isolamento da viga com um molde que permita imitar o resto do tecto. Figura 39 – Viga metálica com molde a imitar o edifício (Fonte: Manuale per la riabilitazione e la riconstruzione postsismica degli edifici) 6.8. Ligações metálicas entre componentes da estrutura da cobertura As ligações metálicas entre componentes da cobertura, apesar de não serem normalmente um alvo directo de reforço sísmico dos edifícios, permitem um melhor funcionamento em conjunto de todo o edifício. Estas ligações são efectuadas através de chapas metálicas, conhecidas com o nome de ferragens ou samblagens, com uniões aparafusadas que permitem fazer os nós das asnas. Estas 51 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos ferragens podem ter diferentes formas (figura 40), a saber: pé de galinha simples ou dobrado, tê, cruzeta, braçadeira ou esquadro; formas estas que se vão adaptar as diferentes ligações. Figura 40 – Elementos metálicos usados nas ligações das coberturas (Fonte: Reabilitação de edifícios antigos, patologias e tecnologias de intervenção) É também possível, quando necessário, substituir alguns pendurais por tirantes, o que permite reforçar estruturalmente a cobertura. No anexo X é possível observar esquemas de aplicação destes elementos metálicos, assim como fotos de aplicações em obra. 52 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos 7. Caso real (Açores, Ilha do Faial, Horta) O presente caso é referente a uma habitação unifamiliar afectada pelo sismo ocorrido em 1998, nos Açores. A habitação, cujo seu proprietário é o Sr. Gualtério Melo Quadros, situa-se na Rua Conselheiro Medeiros, n.º42, na cidade da Horta, Ilha do Faial, Açores. Figura 41 - Edifício antes e após reforço sísmico (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) O Projecto de Reforço Sísmico do Edifício, descrito de seguida, foi elaborado pela empresa M.M. Trabalhos de Engenharia Civil, em regime de consultadoria com um grupo de professores italianos. 7.1. Descrição do caso O edifício em questão é formado por um corpo principal de planta rectangular e por um corpo confinante a este, no seu alçado posterior, edificado com como ampliação mais recente, conferindo à construção uma forma em “L”. Embora de menor envergadura, este corpo transmite algum travamento ao corpo principal do edifício. Trata-se de um edifício com um piso térreo e três pisos superiores, possuindo no último uma torrinha voltada para as traseiras. O edifício é constituído por paredes de alvenaria de pedra de basalto, que conferem apoio aos pavimentos de madeira e à estrutura de também madeira da cobertura. Assim, como paredes resistentes do edifício temos todo o perímetro do corpo principal e do corpo contíguo das traseiras. 53 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos No corpo principal o vigamento de suporte dos pavimentos de madeira, dos diversos pisos, está dividido em dois vãos. As vigas do primeiro vão apoiam-se nas paredes de pedra da fachada, e as do segundo no alçado posterior, apoiando-se ambos numa estrutura porticada interior de madeira. Esta terá já sido alvo de revisão ao nível do rés-do-chão, através da execução de uma viga de betão armado, que apoia em três pilares de betão armado e nas paredes das empenas laterais. O edifício está implantado no interior de um quarteirão, confinando lateralmente com outros edifícios de porte inferior. 7.2. Elaboração do projecto Dado que o edifício em análise está confinado lateralmente por outras construções, a acção sísmica na direcção perpendicular à parede da fachada é a mais gravosa. Da análise ao derrube das paredes do edifício pela actuação das forças sísmicas horizontais, que lhe são perpendiculares, e no sentido de evitar que este ocorra, resultou o recurso a tirantes que efectuam o travamento da fachada. Devido às condições meteorológicas locais, que são caracterizadas por valores de humidade permanentemente elevados, dada a situação geográfica que se traduz por uma influência marítima muito acentuada, cuja acção é muito agressiva, e dado que os tirantes terão de manter as suas características por um longo período de tempo, foi adoptada a utilização de cabos de aço inox, devido à sua maior durabilidade. Os tirantes serão fixados na parte exterior da parede da fachada através de amarrações em barras metálicas, que ficam travadas transversalmente na face exterior da parede de alvenaria de pedra. Para isso será preciso efectuar a abertura de furos nas paredes de alvenaria de pedra, de forma a possibilitar a passagem dos cabos. Os cabos deverão ficar devidamente esticados utilizando-se para tal esticadores, bem como outros acessórios de ligação, como sapatilhos para protecção dos cabos e cerra cabos que efectuarão a amarração dos cabos. Todos estes acessórios deverão ser em aço inoxidável. 54 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Ao nível dos pavimentos de madeira, foi estudada uma solução em que é utilizada uma estrutura metálica para fixação dos cabos. Esta estrutura foi projectada de forma a ser possível a sua pré-fabricação por módulos em estaleiro, sendo composta por perfis metálicos de secção rectangular oca. Os módulos serão ligados entre si por ligações aparafusadas. Esta estrutura metálica será executada na parte central do edifício, junto à viga-trolha, sendo fixada às vigas de madeira existentes. Para apoio desta estrutura metálica será necessário executar apoios nas paredes laterais do edifício, sendo para tal efectuada a demolição de uma porção de parede de alvenaria de pedra e executado um apoio em alvenaria de tijolo maciço, incluindo a fixação de um perfil rectangular oco, permitindo a ligação aparafusada do módulo de extremidade. Quanto à solução de reforço junto ao coroamento da parede, esta passa pela colocação de um varão φ20 corrido em todo o contorno do coroamento. Este varão ficará 70 cm abaixo do topo da parede de forma a possibilitar a amarração da estrutura da cobertura. Para tal serão utilizados varões de aço φ12 com ligações em gancho ao varão longitudinal, que terão a outra extremidade roscada de forma a serem fixados com placas metálicas e porcas aos tirantes da cobertura. Este reforço deverá ser efectuado igualmente nas empenas laterais, de forma a impedir o derrube do bico da empena, cuja fragilidade é agravada pela existência de janelas nos alçados laterais. O reforço nesta zona obriga a executar uma viga de madeira composta por tábuas de secção 30x2cm, fixadas sob a estrutura inclinada da cobertura e dispostas a 45º relativamente à parede. É nesta viga que será fixado o reforço do coroamento na empena lateral, através da aplicação de barras metálicas que permitem a ligação com os varões φ12 e que serão aparafusadas à viga de madeira. 7.2.1. Verificação numérica O Regulamento de Segurança e Acções para Estruturas de Edifícios e Pontes indica, como forma de quantificação da acção sísmica numa dada direcção, a seguinte expressão: 55 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos β = β0·(α/η) Em que: β0 – coeficiente sísmico de referência, que depende das características do terreno e da frequência própria fundamental da estrutura na direcção considerada. α – coeficiente de sismicidade, que depende da zona sísmica em que se localiza a construção e que para o Faial é igual a 1, dado pertencer à zona A. η – coeficiente de comportamento, que depende do tipo de estrutura e das suas características de ductilidade, atribuindo o REBAP para as estruturas em parede de ductilidade normal o valor de 1,5. Esta expressão define o coeficiente sísmico β, que é um coeficiente que multiplicado pelo valor das acções gravíticas correspondentes às cargas permanentes e ao valor quase permanente das cargas variáveis. Assim podemos obter o valor característico da resultante global das forças estáticas que permitem determinar os efeitos da acção sísmica. Do que: β = β0·(α/η) = 0,4·(1/1,5) = 0,27 Determinação dos esforços nos tirantes Para determinar os esforços que são necessários mobilizar ao nível dos tirantes, para que não se dê o derrube da parede da fachada, é necessário efectuar o cálculo do equilíbrio à rotação em torno de cada eixo definido pelos diferentes pisos, que funcionam como charneira do movimento de derrubamento. 56 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Assim temos: Derrube em torno do ponto A do último piso da parede de fachada: • peso da parede: W = 0,70×3,60×1800 = 4.536 kgf/m • força sísmica: β⋅W = 0,27×4536 = 1.225,7 kgf/m • peso do coroamento: Q = 0,70×0,70×1800 = 882 kgf/m • comprimento da frente do edifício: L = 11,95 m Equilíbrio à rotação em torno da aresta externa da parede à cota do terceiro piso: W×0,70/2 + T1×2,90 - β⋅W×3,60/2 = 0 57 ⇒ T1 = 213,3 kgf/m Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Derrube em torno do ponto B da parede de fachada ao nível do segundo piso: • peso da parede: W = 0,70×6,80×1800 = 8.568 kgf/m • força sísmica: β⋅W = 0,27×8757 = 2.313,4 kgf/m • tracção no coroamento: T1 = 213,3 kgf/m Equilíbrio à rotação em torno da aresta externa da parede à cota do segundo piso: W×0,70/2 + T1×6,10 + T2×3,20 - β⋅W×6,80/2 = 0 ⇒ T2 = 1.114,3 kgf/m Derrube em torno do ponto C da parede de fachada ao nível do primeiro piso: • peso da parede: W = 0,70×10,0×1800 = 12.600 kgf/m • força sísmica: β⋅W = 0,27×12.600 = 3.402 kgf/m • tracção no coroamento: T1 = 213,3 kgf/m • tracção ao nível do 3º piso: T2 = 1.114,3 kgf/m Equilíbrio à rotação em torno da aresta externa da parede à cota do primeiro piso: W×0,70/2 + T1×9,30 + T2×6,40 + T3×3,20 - β⋅W×10,0/2 = 0 ⇒ T3 = 1.089 kgf/m Derrube em torno do ponto D da parede de fachada ao nível do solo: • peso da parede: W = 0,70×13,0×1800 = 16.380 kgf/m • força sísmica: β⋅W = 0,27×16.380 = 4.423 kgf/m 58 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos • tracção no coroamento: T1 = 213,3 kgf/m • tracção ao nível do 3º piso: T2 = 1.114,3 kgf/m • tracção ao nível do 2º piso: T3 = 1.089 kgf/m Equilíbrio à rotação em torno da aresta externa da parede à cota do piso térreo: W×0,70/2 + T1×12,3 + T2×9,4 + T3×6,2 + T4×3,0 - β⋅W×13,0/2 = 0 ⇒ T4 = 1.056 kgf/m Como é possível observar, os tirantes do terceiro piso são os mais solicitados, embora não haja uma variação muito acentuada para os restantes pisos, com a excepção do esforço obtido junto à cobertura, onde o valor obtido corresponde aproximadamente a um quinto do esforço obtido para os outros níveis. Foi elaborada uma distribuição dos tirantes nas zonas de continuidade vertical da parede, tendo em conta as aberturas dos vãos de janelas e portas da fachada, tendo-se concluído que serão necessárias cinco amarrações à parede da fachada e outras cinco para a parede do alçado posterior, conforme indicado na planta apresentada na figura 42. Tendo em conta as distâncias entre cada amarração à parede da fachada é possível obter os seguintes valores para o esforço de tracção por cada tirante a aplicar: 59 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos T2 - Para os tirantes da parede da fachada principal ao nível do terceiro piso: T21 = T22 = T23 = T24 = T25 = 2,20 × 1114,3 = 1225,73 kgf = 12,02 kN 2 2,20 + 3,30 × 1114,3 = 3064,33 kgf = 30,04 kN 2 3,30 + 2,70 × 1114,3 = 3342,9 kgf = 32,77 kN 2 2,70 + 2,20 × 1114,3 = 2730,04 kgf = 26,77 kN 2 2,20 × 1114,3 = 1225,73 kgf = 12,02 kN 2 T3 - Para os tirantes da parede da fachada principal ao nível do segundo piso: T31 = T32 = T33 = T34 = T35 = 2,20 × 1089 = 1197,9 kgf = 11,74 kN 2 2,20 + 3,30 × 1089 = 2994,75 kgf = 29,36 kN 2 3,30 + 2,70 × 1089 = 3267,0 kgf = 32,03 kN 2 2,70 + 2,20 × 1089 = 2668,05 kgf = 26,16 kN 2 2,20 × 1089 = 1197,9 kgf = 11,74 kN 2 T4 - Para os tirantes da parede da fachada principal ao nível do primeiro piso: 2,20 × 1056 = 1161,6 kgf = 11,39 kN 2 2,20 + 3,30 = × 1056 = 2904,0 kgf = 28,47 kN 2 3,30 + 2,70 = × 1056 = 3168,0 kgf = 31,06 kN 2 2,70 + 2,20 = × 1056 = 2587,2 kgf = 25,36 kN 2 2,20 = × 1056 = 1161,6 kgf = 11,39 kN 2 T41 = T42 T43 T44 T45 Enquanto que para a parede do alçado posterior foram obtidos os seguintes esforços: 60 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos T2 - Para os tirantes ao nível do terceiro piso: T25 = T26 = T27 = T28 = T29 = 2,80 × 1114,3 = 1560,02 kgf = 15,29 kN 2 2,80 + 2,70 × 1114,3 = 3064,33 kgf = 30,04 kN 2 2,70 + 2,00 × 1114,3 = 2618,61 kgf = 25,67 kN 2 2,00 + 2,90 × 1114,3 = 2730,04 kgf = 26,77 kN 2 2,90 × 1129 = 1615,74 kgf = 15,84 kN 2 61 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 42 – Planta do reforço estrutural da habitação da rua Conselheiro de Medeiros, nº 42 (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 62 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos T3 - Para os tirantes ao nível do segundo piso: T35 = T36 = T37 = T38 = T39 = 2,80 × 1089 = 1524,6 kgf = 14,95 kN 2 2,80 + 2,70 × 1089 = 2994,75 kgf = 29,36 kN 2 2,70 + 2,00 × 1089 = 2559,15 kgf = 25,09 kN 2 2,00 + 2,90 × 1089 = 2668,05 kgf = 26,16 kN 2 2,90 × 1089 = 1579,05 kgf = 15,48 kN 2 T4 - Para os tirantes ao nível do primeiro piso: T45 = T46 = T47 = T48 = T49 = 2,80 × 1056 = 1478,40 kgf = 14,49 kN 2 2,80 + 2,70 × 1056 = 2904,0 kgf = 28,47 kN 2 2,70 + 2,00 × 1056 = 2481,6 kgf = 24,33 kN 2 2,00 + 2,90 × 1056 = 2587,2 kgf = 25,36 kN 2 2,90 × 1056 = 1531,20 kgf = 15,01 kN 2 Assim, verifica-se que através das distâncias adoptadas entre os tirantes e o valor da força sísmica horizontal linear, obtido ao nível dos pisos, resulta, como tracção máxima no tirante mais esforçado, o valor de 3342,9 kgf ou 32,77 kN, correspondente ao terceiro piso. Dimensionamento dos cabos de aço dos tirantes Com base nos valores obtidos é possível efectuar o dimensionamento dos cabos de aço inox, que irão funcionar como tirantes. 63 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Como regra de dimensionamento deste tipo de cabos é utilizada uma relação de segurança entre a carga de rotura e a carga de trabalho, cujo valor aconselhável a aplicar varia no intervalo de 4 a 5. Este valor depende da carga aplicada e da frequência com que ocorre a solicitação. No caso em análise, os cabos de aço inox a aplicar poderão ser sujeitos a esforços bruscos, mas a sua utilização será muito rara, dado que os intervalos de tempo entre os sismos de maior amplitude são de cerca de 15 a 20 anos. Para proceder à determinação dos diâmetros a utilizar foram consultados fornecedores deste tipo de cabos, tendo sido possível obter os seguintes valores para as cargas de rotura: Quadro 1 – Valores dos diâmetros a utilizar para as cargas de rotura (fonte: própria) 6 x 19 6 x 36 Diâmetros (mm) Massa (kg/100m) Carga de Rotura (kN) φ8 26,3 46,3 φ10 38,9 68,4 φ12 55,1 97,6 φ14 78,7 139,0 φ16 Massa (kg/100m) Carga de Rotura (kN) 79,4 126,0 107,0 169,0 Como critério para o dimensionamento do diâmetro dos cabos e número de cordões foi considerado que uma relação de segurança de 2, pelo que como valor da carga de rotura do cabo se considerou o valor de 6.685,8 kgf ou 65,55 kN, obtendo-se, assim, um cabo constituído por 6 cordões de 19 fios com um núcleo igualmente composto por fios de aço. Os fios de aço utilizados na composição do cabo têm uma resistência de 1770 N/mm2. Pelo que o diâmetro obtido para os cabos a utilizar nas ancoragens ao nível dos pisos é de 12mm. 64 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Verificação ao escorregamento do coroamento da cobertura Para que o coroamento da parede e os tirantes do piso possam realmente sustentar o esforço acima calculado, é necessário controlar que não se verifica o escorregamento devido à ancoragem. No que respeita ao coroamento da parede, o contacto entre o coroamento e a parede sob o mesmo origina uma reacção devido ao atrito que afecta toda a extensão da fachada e é devida ao peso do coroamento e da cobertura. Tal reacção impede o escorregamento súbito e garante a eficácia do vínculo. Assumindo um coeficiente de atrito: f = tanϕ = 0.5, e apenas considerando somente o peso do coroamento da parede sobre a ancoragem, pode-se escrever: T1 = 213,3 kgf/m < Q×f = 882×0.5 = 441 kgf/m Verificação ao escorregamento das ancoragens No que respeita às ancoragens dos tirantes ao nível dos pisos, realizadas através da amarração dos cabos de aço em barras metálicas travadas contra a face exterior da parede de alvenaria de pedra da fachada, o escorregamento pode ocorrer na cunha de parede sobre a qual a amarração é efectuada. Tal cunha é delimitada, superiormente e inferiormente, por duas superfícies horizontais e lateralmente por um plano diagonal à parede inclinado a 45°, sendo esta porção de parede envolvida no mecanismo de escorregamento. Considerou-se que a reacção de atrito ocorre, neste caso, sobre as duas superfícies horizontais de escorregamento, superior e inferior da cunha de parede, e é devida ao peso do pano de parede que se encontra por cima. Para a situação mais desfavorável, que é a que se verifica na ancoragem central a executar na parede da fachada no terceiro piso, verifica-se que a carga sobre a amarração: 65 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos (0.50 + 0.70)×0.70×3.60×1800 = 5443,2 kgf =53,36 kN Pelo que: T2×3,00 = 1114,3× 3,00 = 3342,9 kgf < 2×5443,2× 0.5 = 5443,2 kgf Dimensionamento das barras de amarração dos tirantes Na ligação dos cabos de aço à parede de alvenaria de pedra serão usadas barras de aço de secção rectangular com 50 cm de comprimento, que estarão sujeitas a uma carga linear obtida após a distribuição do esforço de tracção transmitido pelos tirantes à parede: - Ligação com os tirantes Como tracção máxima transmitida pelo tirante mais esforçado temos 32,77 kN, pelo que resulta uma solicitação sobre a barra de: q sd = Tmáx 32,77 = = 65,55 kN/m l 0,50 l ) ( × 2 2 M sd = q sd 2 = 66,55 × 0,25 2 = 2,048 kN × m 2 Considerando uma secção de 7cmx3cm para a barra, verifica-se uma tensão de: σ sd = M sd 2,048 ×y= × 0,015 = 195.047,62 kN/m 2 ≅ 195,05 MPa 3 Iy 0,07 × 0,03 12 O valor de tensão obtido é inferior à tensão resistente do aço, que é de 275,0 MPa para o aço Fe430 a aplicar. Enquanto que no contacto entre a barra e a parede verifica-se uma tensão localizada de: 66 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos σ barra/parede = T S barra = 32,77 = 936,29 kN/m 2 ≅ 0,94 MPa 0,50 × 0,07 Dimensionamento da treliça composta pelos perfis rectangulares ocos Tal como foi referido, os cabos de aço inox que funcionam como tirantes são ligados a uma treliça constituída por perfis metálicos de secção rectangular oca. Foi estudada uma solução que permite a sua pré-fabricação por módulos, procedendo-se à sua montagem no local da obra, sendo executados apoios para esta estrutura nas paredes laterais do edifício e executadas amarrações pontuais por peças metálicas (pequenas chapas) que serão ligadas por parafusos às vigas de madeira sob o pavimento existente. A localização da estrutura a ser executada é junto à viga-trolha, que atravessa transversalmente o edifício na sua parte central, conforme peças desenhadas. Seguidamente, foi efectuado o cálculo da viga-treliça composta pelos perfis metálicos de secção rectangular oca, solicitada pelas forças horizontais transmitidas pelos tirantes, funcionando à flexão. Assim, foi efectuado o cálculo da referida estrutura através do auxílio de um programa informático de cálculo estrutural, tendo sido utilizado o modelo estrutural aqui apresentado: Figura 43 – Modelo estrutural da treliça (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 67 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Do cálculo efectuado resultaram perfis de secção 120x80x8 para as barras longitudinais, montantes e diagonais. Como resultado do cálculo efectuado temos os seguintes valores das reacções nos apoios, para cada uma das acções consideradas: Acção Sísmica 1 Acção Permanente Rx1 = 78,3925 kN Ry1 = 23,3679 kN Rz1 = 1,7075 kN Rz2 = 1,6976 kN Rz19 = 1,6573 kN Rx2 = −112,2322 kN Ry2 = 36,7534 kN Rx19 = −58,7926 kN Rz20 = 1,6672 kN Ry19 = 23,5945 kN Rx20 = 92,6324 kN Acção Sísmica 2 Rx1 = −78,0081 kN Ry1 = −30,2343 kN Rx2 = 112,4157 kN Ry2 = −29,8584 kN Rx19 = 58,6616 kN Ry19 = −27,9083 kN Rx20 = −93,0692 kN Assim é possível concluir que o peso da estrutura em perfis metálicos é de 6,7296 kN ou 686,42 kgf, obtendo-se assim de forma simplificada que o peso linear da estrutura metálica é de 64,76 kgf/m. Dimensionamento das ligações aparafusadas Será necessário efectuar o dimensionamento das ligações aparafusadas que efectuam a ligação dos tirantes aos perfis metálicos da treliça e a ligação dos perfis metálicos às vigas de madeira do pavimento. 68 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos - Ligação Perfis Metálicos / Vigas de Madeira Tendo em conta uma distância máxima entre as vigas de madeira existentes de 0,70m, o peso próprio da estrutura metálica (64,76 kgf/m) e as forças sísmicas horizontais transmitidas à estrutura pelos tirantes (no caso mais desfavorável, 1114,3 kgf/m), resultam nos seguintes esforços por viga de madeira: Tx = 1114,3× 0,70 = 780,01 kgf/m Ty = 64,76× 0,70 = 45,33 kgf/m Obtendo-se assim: Tresult = 780,012 + 45,33 2 = 781,33 kgf / viga Entre cada viga de madeira existente e a estrutura metálica serão utilizadas três chapas de ligação, onde serão aparafusados quatro parafusos por chapa. Assim, cada chapa será traccionada por um esforço de 260,44 kgf ou 2,55 kN, enquanto que cada parafuso é sujeito a um esforço de corte de 65,11 kgf ou 0,64 kN. Temos que o esforço de cálculo dos parafusos é de: Tsd = 1,50 × 0,64 = 0,96 kN Utilizando parafusos de 6mm de diâmetro de aço Fe360 da classe de resistência 4.6 temos: 2 = 4,65 kN Trd = 0,7 × fyd × A parafuso = 0,7 × 235 × 10 3 × π × 0,006 4 Logo: Trd = 4,65 kN > Tsd = 0,96 kN Teremos, então, que as chapas de ligação serão sujeitas a um esforço de cálculo de: Nsd = 1,50 × 2,55 = 3,825 kN 69 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos σ= 3,825 = 42500 kPa ≅ 42,50 MPa 0,03 × 0,003 Valor que é inferior à tensão resistente à tracção do aço, que é de 275,0 MPa para o aço Fe430 a aplicar nestas peças. - Ligação Tirantes / Perfis Metálicos Tendo em conta os valores obtidos para o esforço de tracção a aplicar, por cada cabo de aço, é possível dimensionar a ligação destes à estrutura composta pelos perfis metálicos ocos. Para ligação dos tirantes aos perfis metálicos foi considerada a utilização de uma chapa metálica em aço Fe430, com uma secção transversal de 50x5mm. Esta chapa é dobrada de forma a obter-se uma argola onde é amarrado o cabo de aço, ao mesmo tempo que permite efectuar ligações aparafusadas aos perfis metálicos da treliça. Dado que o valor máximo do esforço de tracção dos tirantes é de 3342,9 kgf ou 32,77 kN, as chapas serão sujeitas a um esforço de cálculo à tracção de: Nsd = 1,50 × 32,77 = 49,16 kN σ= 49,16 = 196.640 kPa ≅ 196 ,64 MPa 0,05 × 0,005 Valor que é inferior à tensão resistente à tracção do aço, que é de 275,0 MPa para o aço Fe430 a aplicar. Estas chapas serão fixadas à estrutura metálica de perfis ocos, através de três ligações aparafusadas, obtendo-se um esforço máximo de corte na ligação de cada parafuso de 1114,3 kgf ou 10,925 kN. Assim temos que o esforço de cálculo dos parafusos é de: Tsd = 1,50 × 10,925 = 16,39 kN 70 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Utilizando parafusos M12 da classe de resistência 4.6 temos: 2 Trd = 0,7 × fyd × Aparafuso = 0,7 × 235 × 103 × π × 0,012 = 18,61 kN 4 Logo: Trd = 18,61 kN > Tsd = 16,39 kN 7.2.2. Aplicação em obra Para uma melhor compreensão dos cálculos anteriormente demonstrados é, seguidamente, feito um acompanhamento fotográfico da aplicação dos elementos metálicos em obra. - Aplicação dos tirantes Figura 44 – Aplicação dos tirantes em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 71 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 44 (cont.) – Aplicação dos tirantes em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) - Aplicação das treliças Figura 45 – Aplicação de treliça em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 72 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 45 (cont.) – Aplicação de treliça em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 73 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Figura 45 (cont.) – Aplicação de treliça em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) Figura 46 – Evolução da recuperação e disfarce da treliça (Fonte M. M. Trabalhos de engenharia civil) 74 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos - Aplicação de ancoragens Figura 47 – Execução de ancoragens em obra (Fonte: m. m. trabalhos de engenharia civil) - Aplicação do “cordolo” Figura 48 – Aplicação do “cordolo” em obra (Fonte: M. M. Trabalhos de engenharia civil) 75 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Conclusão Em Portugal uma parte significativa do património edificado é construído em alvenaria de pedra natural, possuindo uma parte apreciável valor histórico. Assim sendo, é de extrema importância manter as características dos edifícios utilizando métodos pouco intrusivos, quando se efectua a sua justificada reabilitação. A aplicação de elementos metálicos permite intervenções pouco intrusivas e de elevado sucesso no reforço estrutural à acção sísmica. Contudo, e apesar da comprovação do funcionamento destes elementos ainda não ser possível em Portugal, em Itália estas metodologias, devido à sua elevada utilização, já foram devidamente demonstradas. A aplicação de elementos metálicos tem várias vantagens, entre elas: 1) O transporte; 2) A colocação em obra; 3) A operacionalidade em espaços reduzidos; 4) A compatibilidade funcional e estática face às estruturas existentes; 5) A reversibilidade e a autonomia destes elementos, que facilita a manutenção e a inspecção da estrutura; 6) A pré-fabricação. Os elementos metálicos são normalmente em aço inoxidável. Este material, devido às suas características de flexibilidade e à sua elevada ductilidade é bastante utilizado no reforço sísmico, pois permite que na eventualidade de colapso estrutural este não ocorra de um modo brusco mas sim gradual, ou seja: com aviso. 76 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos A não existência de regulamentos que enquadrem a avaliação estrutural dos edifícios antigos, leva a que na apreciação dessas construções seja utilizada regulamentação concebida edificações novas. Assim sendo, cuidado deve existir na ponderação dos valores a utilizar, para se obter segurança nos resultados, visto existir um elevado grau de incerteza. A precisão da avaliação estrutural vai aumentar com o grau de detalhe da inspecção efectuada, sendo conveniente efectuar exames qualitativos e quantitativos. Para que seja possível a elaboração de um projecto de reforço adequado a cada edifício, devese ter em consideração que o comportamento das estruturas é influenciado: 1) Pela sua forma; 2) Pelas ligações da estrutura; 3) Pelos materiais de construção; 4) Pelas forças, acelerações e deformações impostas. Portanto é importante elaborar um esquema estrutural, determinar os danos, tomar conhecimento das características dos materiais e determinar as acções. A obtenção de uma perfeita avaliação do edifício leva a que seja possível determinar as melhores metodologias de intervenção, podendo esta ser de diferentes níveis: 1) Salvaguarda; 2) Reparação; 3) Reforço; 4) Reestruturação. 77 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos O conhecimento dos mecanismos de colapso, podendo estes ser de primeiro ou segundo modo, leva a que se tenha uma boa percepção dos efeitos dos sismos e os tipos de danos que estes podem causar nos edifícios de alvenaria. Assim sendo é possível determinar o tipo de componente metálica a ser usado para evitar os diferentes danos. Cada componente tem uma função distinta no reforço da malha estrutural. Porém, como já foi referido atrás, o bom funcionamento dessa malha deve ser visto em conjunto. São vários os elementos metálicos utilizados no reforço sísmico, tirantes, barras de amarração ou ancoragem, chapas, “cordolo” ou cinta de coroamento, vigas reticuladas, vigas metálicas, ligações metálicas para componentes das coberturas e ligações aparafusadas. Percebeu-se que todos estes elementos têm funções distintas, como foi explicitado ao longo do trabalho, e de extrema importância no melhoramento da reacção do edifício à acção sísmica. Concluindo, admite-se terem-se atingido os objectivos fundamentais propostos, tendo sido dado conhecimentos acerca dos principais elementos metálicos utilizados no reforço à acção sísmica em edifícios de alvenaria, tanto a nível teórico como prático, como respostas aos modelos de colapso neste tipo de construções. 78 Reforço Sísmico de Estruturas de Alvenaria com Elementos Metálicos Bibliografia Aguiar, J., Appleton, J. e Cabrita, A., (2002). Guião de apoio à reabilitação de edifícios habitacionais. Lisboa, L.N.E.C.. Appleton, J., (2003). Reabilitação de edifícios antigos patologias e técnicas de intervenção. Amadora, Edições Orion. Blasi, C., Borri, A., Di Pasquale, S., Malesani, P., Nigro, G., Parducci, A. e Tampone, G (1999). Manuale per la riabilitazione e la ricostruzione postsismica degli edifici: Regione dell’Umbria. Roma, Dei tipografía del genio civile. Calado, L.. O aço na recuperação de edifícios. Disponível em http://www.dgpatr.pt [consultado em Junho de 2005] Carocci, C., Ceradini, V., De Benedictis, R., Felice, G., Pugliano, A. e Zampilli, M (2000). Sicurezza e conservazione dei centri storici: Il caso Ortigia. Roma, Editori Laterza. I.C.O.M.O.S.. Recomendações para a análise, conservação e restauro estrutural do património arquitectónico. Guimarães, Universidade do Minho. Santos, S. Pompeu (2004). A reabilitação sísmica do património construído. In: Barros, J., Lourenço, P. e Oliveira, D.. Sísmica 2004: 6º Congresso Nacional de Sismologia e Engenharia Sísmica. Guimarães, Universidade do Minho, pp. 956-966. 79