ENSINO DE GEOMETRIA A PARTIR DAS EXPECTATIVAS DOS ESTUDANTES: UMA EXPERIÊNCIA COM MODELAGEM MATEMÁTICA BISCONSINI, Vilma Rinaldi [email protected] LAVAQUI, Vanderlei [email protected] TAMBARUSSI, Gracikel Deliceus [email protected] Resumo Este trabalho relata uma experiência com ensino de geometria a partir do referencial e orientações da modelagem matemática como processo de ensino e de aprendizagem da matemática escolar. Aborda o assunto de geometria espacial segundo as etapas/fases metodológicas indicadas no citado referencial teórico, como também discute os resultados obtidos nessa experiência e indica possibilidades vislumbradas para continuidade dos estudos. Palavras-Chave: Modelagem matemática. Geometria espacial. Educação Matemática. INTRODUÇÃO Este trabalho relata uma experiência com ensino de geometria espacial tendo como orientação metodológica a modelagem matemática, discutindo-a como uma possibilidade para o ensino da matemática escolar na Educação Básica - séries finais do ensino fundamental e ensino médio. Defende o ensino de geometria a partir das etapas/fases metodológicas indicadas nos referenciais teóricos acerca da modelagem matemática. Apresenta e discute os resultados obtidos na realização dessa experiência e indica possibilidades vislumbradas para continuidade dos estudos nessa perspectiva teórico-metodológica. MODELAGEM MATEMÁTICA: ORIENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA As pesquisas em Educação Matemática têm apontado possibilidades quanto à utilização da modelagem matemática no processo de ensino e de aprendizagem. Dispõe-se, atualmente, de fundamentação teórica e de relatos de experiências que auxiliam e, em grande medida, dão suporte em relação à adoção da modelagem como metodologia de ensino. Embora tenhamos produções teóricas e haja ações desencadeadas por pesquisadores e programas de pós-graduação com uma história de aproximadamente vinte anos de pesquisas na área, ainda não se tem uma utilização mais consistente da modelagem matemática, por parte dos professores, em suas práticas junto aos estudantes em sala de aula, na Educação Básica, séries finais e ensino médio. Assim, essa área, no âmbito da Educação Matemática, tem acumulado conhecimentos que subsidiam o desenvolvimento de ações para o ensino da matemática como uma atividade humana em construção. Essa perspectiva comparece em documentos oficiais que orientam o ensino da disciplina na Educação Básica, como exemplo, pode-se indicar as Diretrizes Curriculares de Matemática do Paraná (DCE) quando explicitamente optam pelas orientações da Educação Matemática em suas tendências metodológicas: Os conteúdos propostos nestas diretrizes devem ser abordados por meio de tendências metodológicas da Educação Matemática que fundamentam a prática docente, das quais destacamos: resolução de problemas; modelagem matemática; uso de mídias tecnológicas; etnomatemática; história da Matemática; investigações matemáticas (PARANÁ, 2008, p. 35, grifo nosso). Percebemos que as discussões teóricas e experiências avançam na reflexão sobre o ensino da matemática e apontando a modelagem matemática como opção metodológica. A mesma aparece no escopo de uma diversidade de possibilidades metodológicas de ensino. Ainda, de acordo com as DCE, A modelagem matemática tem como pressuposto a problematização de situações do cotidiano. Ao mesmo tempo em que propõe a valorização do aluno no contexto social, procura levantar problemas que sugerem questionamentos sobre situações de vida. [...] O trabalho pedagógico com a modelagem matemática possibilita a intervenção do estudante nos problemas reais do meio social e cultural em que vive, por isso, contribui para sua formação crítica (PARANÁ, 2008, p. 37-38). A modelagem matemática, nessa perspectiva, representa um avanço, interferindo na formação de sujeitos em condições de pensar e instrumentalizar-se, ao participar ativamente do processo de construção de conhecimentos matemáticos. O indicado nas DCE corrobora a opinião de pesquisadores e pesquisas na área, que apresentam significados para a modelagem matemática enquanto estratégia de ensino. Segundo Bassanezi: 83 [...] Modelagem Matemática utilizada como estratégia de ensino-aprendizagem é um dos caminhos a ser seguido por tornar um curso de matemática, em qualquer nível, mais atraente e agradável. Tal processo, que consiste na arte de transformar problemas da realidade em problemas matemáticos, resolvê-los e, então, interpretar suas soluções na linguagem do mundo real, é um processo dinâmico e atraente. Um modelo eficiente permite fazer previsão, tomar decisões, explicar e entender, enfim, participar do mundo real com capacidade de influenciar em suas mudanças (BASSANEZI, 2006, p. 7). A modelagem matemática como tendência para ensino da matemática é defendida como possibilidade de romper com o paradigma do ensino tradicional, como propõe D’Ambrósio: A modelagem matemática tem sido utilizada como uma forma de quebrar a forte dicotomia existente entre a matemática escolar formal e a sua utilidade na vida real. Os modelos matemáticos são formas de estudar e formalizar os fenômenos do dia a dia. Através da modelagem matemática o aluno se torna mais consciente da utilidade da matemática para resolver e analisar problemas do dia adia. Esse é um momento de utilização de conceitos já aprendidos. É uma fase de fundamental importância para que os conceitos trabalhados tenham um maior significado para os alunos, inclusive com o poder de torná-los mais críticos na análise e compreensão de fenômenos diários (D’AMBRÓSIO, 1989, p. 17). Embora a modelagem matemática represente uma tendência para o ensino da matemática, parece ainda não haver um consenso bem estabelecido quanto sua utilização como metodologia de ensino, como mostra Silveira (2005, p. 3): Uma questão que ainda não se tem consenso e que aparece na literatura é se a Modelagem Matemática é uma metodologia (FIORENTINI, 1996); um método de ensino-aprendizagem (BIEMBENGUT, 2000); um ambiente de aprendizagem (BARBOSA, 2001) ou uma estratégia de ensino e aprendizagem (BASSANEZI, 2002). Por outro lado, existem autores que afirmam que o conceito de Modelagem Matemática não está bem definido nos trabalhos acadêmicos no âmbito da Educação Matemática e assinalam que essa falta de clareza reside, em parte, na complexidade de transferir ou adaptar a atividade do modelador ao campo de ensino de matemática onde atua o professor de matemática. (BEAN, 2002, p. 56). Apesar dos diferentes entendimentos acerca dessa questão, assumimos que a modelagem matemática apresenta-se como uma alternativa metodológica para a condução do processo de ensino e de aprendizagem, já que, para uma concepção progressista de educação, permite considerar a prática social do estudante como um ponto de partida para o trabalho do docente. Adicionalmente, possibilita que, durante o processo, o estudante participe, reflita, generalize e construa conceitos matemáticos e perceba, com uma visão crítica, a presença da matemática em diferentes contextos. 84 Considerando que a modelagem matemática pode ser aplicada como uma metodologia, é importante procurar entender suas especificidades, objetivando compreender algumas terminologias presentes em textos acadêmicos. Na literatura, observa-se a presença de diversos termos e definições, como: modelo, modelagem, modelação e, para que tenhamos alguma clareza sobre o significado dessas terminologias, analisamos discussões e proposições organizadas por Leal (1999). De acordo com a autora, o termo modelo foi introduzido com o advento das geometrias não euclidianas e, atualmente, é muito utilizado no meio acadêmico. Apresenta ainda algumas definições para o termo, tomando como referência pesquisadores na área. Leal (1999), destaca que: Modelo Matemático é um sistema axiomático consistindo de termos indefinidos que são obtidos pela abstração e qualificação de idéias essenciais do mundo real (MAKI e THOMPSOM, 1973, p. 14, GAZZETTA). Modelo Matemático é uma estrutura Matemática que descreve aproximadamente as características de um fenômeno em questão (SWETZ, 1992, p. 65, GERTNER). O Modelo Matemático é uma imagem que se forma na mente, no momento em que o espírito racional busca compreender e expressar de forma intuitiva uma sensação, procurando relacionar com algo já conhecido, efetuando deduções (GRANJER, 1997, p. 78 BIEMBENGUT). Um conjunto de símbolos e relações matemáticas que traduz, de alguma forma, um fenômeno em questão ou um problema de situação real, é denominado de Modelo Matemático (BIEMBENGUT, 1997, p. 89). Modelo Matemático de um fenômeno, é um conjunto de símbolos e relações matemáticas que traduzem de alguma forma, o fenômeno em questão (BASSANEZI, 1997, p. 65). Percebemos que, em grande medida, as definições para modelo matemático apresentam uma semelhança de concepção, voltando-se para o meio físico, fonte que desperta a atenção e é objeto de observações do modelador, que procura identificar variáveis significativas objetivando chegar a um modelo adequado ao fenômeno. MODELAGEM MATEMÁTICA A modelagem está presente no processo de construção do conhecimento humano desde os primórdios. Os seres humanos primitivos, observando o ambiente, buscavam formas de reconhecer regularidades e dar explicações a fenômenos físicos e problemas de ordem prática. No entanto, é na civilização grega que a matemática passou a ser sistematizada de forma mais racional, com a busca de modelos que permitissem explicar os fenômenos sem recorrer tão somente à intuição e observações empíricas, mas utilizando o pensamento dedutivo. Após um caminho carregado de descobertas, com erros e acertos, a 85 humanidade construiu um ferramental matemático em condições de resolver problemas práticos e científicos. A modelagem matemática tem se destacado com maior ênfase nas últimas décadas, em que os problemas demandados pelas organizações empresariais e situaçõesproblema emanadas das ciências humanas e biológicas. Os pesquisadores apresentam diversas definições para modelagem matemática. Apresentaremos algumas dessas definições para compreensão de tal processo e distinção da modelagem como processo científico e como estratégia de ensino. Segundo Burak (1992, p. 62), “[...] a Modelagem Matemática constitui-se em um conjunto de procedimentos cujo objetivo é construir um paralelo para tentar explicar, matematicamente, os fenômenos presentes no cotidiano do ser humano, ajudando-o a fazer predições e a tomar decisões”. De acordo com Chaves (2005, p. 11), a modelagem matemática é: [...] um método que transforma uma situação/questão escrita na linguagem corrente e proposta pela realidade em linguagem simbólica da matemática, fazendo aparecer um modelo matemático, que por ser uma representação significativa do real, se analisado e interpretado segundo as teorias matemáticas, devolve informações interessantes para a realidade que se está questionando. Para Biembengut (1997), Modelagem Matemática é o processo envolvido na obtenção de um modelo. Podendo, sob alguns aspectos, ser considerado um processo artístico, pois para elaborar um modelo, além de conhecimento apurado de Matemática, o modelador deve ter uma dose significativa de intuição e criatividade para interpretar o contexto, discernir que conteúdo matemático melhor se adapta e senso lúdico para jogar com as variáveis envolvidas. As definições apresentadas para a modelagem implicam um significado diferenciado para o processo de ensino e de aprendizagem, na medida em que desloca o eixo de um ensino com características tradicionais para uma abordagem em que o cotidiano, o real, a problemática social passam a oferecer elementos para implementar novos ambientes de aprendizagem. Essa concepção apresenta ao professor a possibilidade de desenvolver de forma significativa os conceitos/conteúdos matemáticos, partindo de situações empíricas e passando por um processo de sistematização e generalização, permitindo aos estudantes vislumbrar outras possibilidades de analisar problemas tendo a matemática como instrumento que permite a resolução dos mesmos modelando-os. 86 Percebe-se ainda a modelagem matemática como um processo que visa traduzir as linguagens do mundo real para a linguagem matemática. Isso implica admitir que a modelagem matemática permita o estabelecimento de um elo entre a matemática e a realidade, que são postos para interagir a partir do processo de elaboração de um modelo matemático. Entretanto, para que se possa colocar em prática o processo de obtenção de um modelo matemático, há a necessidade de uma seqüência de etapas/procedimentos que orientem o trabalho do professor junto aos estudantes, a fim de garantir que toda a ação seja significativa, do ponto de vista da apropriação de conhecimentos matemáticos. Nessa direção, adotaremos o encaminhamento das ações elaboradas por Biembengut (1997), que agrupa e identifica os procedimentos em três etapas: interação com o assunto; matematização e modelo matemático. De acordo com a autora, a etapa denominada interação com o assunto pode ser subdividida em duas subetapas: reconhecimento da situação problema e familiarização com o assunto a ser modelo-pesquisa. Nessa etapa, a situação problema a ser abordada e estudada será delineada e, para que possa ser melhor compreendida pelos estudantes, podem ser encaminhadas pesquisas bibliográficas acerca da temática em livros e revistas especializadas, por exemplo. Pode-se ainda buscar junto a especialistas da área informações e dados relevantes sobre a situação objeto de estudo. A segunda etapa do processo é denominada matematização, que, por sua vez, é constituída de duas subetapas: • Formulação do problema-hipótese. • Resolução do problema em termos do modelo. Para Biembengut (1997), esta é a fase mais complexa e desafiadora, pois é nela que se dará a tradução da situação-problema para a linguagem matemática. Assim, intuição e criatividade são elementos indispensáveis. Para formular e validar as hipóteses considera necessário: a) classificar as informações (relevantes e não relevantes) identificando fatos envolvidos; b) decidir quais os fatores a serem perseguidos - levantando hipóteses; c) identificar constantes envolvidas; d) generalizar e selecionar variáveis relevantes; 87 e) selecionar símbolos apropriados para as variáveis; f) descrever estas relações em termos matemáticos. Ao final dessa etapa, deve-se obter um conjunto de expressões e fórmulas, ou equações algébricas, ou gráficos, ou representações, ou programa computacional que levem a solução ou permitam a dedução de uma solução. Desta forma, o problema passa a ser resolvido com o ferramental matemático que se dispõe. Isto requererá um conhecimento razoável sobre as entidades matemáticas envolvidas na formulação do modelo. Por fim, a terceira etapa do processo, que é chamado pela autora de modelo matemático, correspondente à interpretação da solução e validação do modelo. Em tal etapa do processo, torna-se necessário avaliar – antes de partir para as conclusões e utilização do modelo matemático obtido - em que nível o modelo se aproxima da problemática abordada inicialmente. A interpretação do modelo deve tomar como referência a situação-problema. Por meio de uma análise das implicações da solução, oriunda do modelo que está sendo investigado, tem-se elementos para averiguar a adequabilidade do modelo em face à problemática. Assim, retornando à situação problema investigada, pode-se avaliar o quão significativa é a solução obtida. Por sua vez, caso o modelo não atenda às necessidades que o gerou, o processo deve ser retomado para a segunda etapa, alterando-se, por exemplo, hipóteses e variáveis com vistas a permitir que o modelo encontrado possa representar da melhor forma possível, a realidade que o originou. Porém, para a utilização do processo de modelagem matemática na Educação Básica – séries finais do ensino fundamental e ensino médio -, objeto deste estudo, o método deve sofrer algumas alterações levando em consideração o grau de escolaridade dos estudantes, o tempo disponível que terão para o trabalho de classe, o programa a ser cumprido e a abertura por parte da comunidade escolar para implantar mudanças. Além disso, o professor deve ter conhecimento seguro sobre modelagem e para tanto, deve realizar um estudo sobre a respectiva metodologia, elaborar alguns modelos e já ter experiência da proposta no ensino. 88 EXPERIÊNCIA: MODELAGEM MATEMÁTICA COMO METODOLOGIA DE ENSINO Diante das inúmeras discussões e reflexões a respeito da busca de estratégias metodológicas que possam contribuir com a melhoria do ensino da matemática, essa relação nos impõem desafios, dentre eles o de desenvolver uma experiência com a modelagem matemática em sala de aula, com duas turmas de 8ª séries do ensino fundamental, de uma escola pública do município de Assis Chateaubriand, Paraná. Num determinado momento, ao entrar na sala dessas duas turmas de oitava série, observando o comportamento dos estudantes caracterizado pelo desânimo e por relativa inércia, fomos impulsionados a levar esses dois grupos a perceber o porquê de estudar matemática. A primeira iniciativa foi a de buscar conhecimentos mais consistentes a respeito da modelagem matemática enquanto procedimentos em sala de aula. Este subsídio foi encontrado, entre outros, especialmente nos trabalhos de Biembengut e Hein (2005). No segundo momento, propomos aos estudantes outra forma de trabalho, quando os desafiamos a pensar num problema ou situação que os incomodava e que de certa forma não conseguiam resolver e que provavelmente poderiam ser resolvidos com ferramentas matemáticas. Inicialmente, os estudantes aceitaram a proposta com um pouco de resignação, mas como tinham um tempo para pensar, ou seja, para trazer tal problemática para a próxima aula, apareceram situações interessantes como: a) Quais os custos e a viabilidade para produção de chinelos de borracha, tipo “havaianas” decorados com miçangas? b) A confecção de artesanatos “toalhas” de crochê é viável do ponto de vista econômico? Justifica o trabalho de uma pessoa? c) Será que a quantidade de produto contida em uma embalagem é realmente a que consta no rótulo? Como comprovar isso? Feitas as discussões com certa reserva por parte dos estudantes, decidimos por estudar o problema das embalagens, proposta bem aceita pela maioria deles. Esta decisão comungou com a nossa perspectiva inicial, em que tínhamos em mente trabalhar com embalagens. Porém, decidimos fazer os encaminhamentos conforme propõe a metodologia da modelagem, ou seja, levantar a problemática a partir do interesse dos alunos. Ressaltamos o modo interessante com que um aluno problematizou a situação envolvendo 89 embalagens, pois é quase natural, em se tratando de embalagens, perguntar: quanto de material vai para produzir determinada embalagem? Ou qual é o volume dessa embalagem? Mas sim, ele levantou o questionamento: Será que a quantidade de produto contida em uma embalagem é realmente a que consta no rótulo? Como comprovar isso? No primeiro momento, providenciamos uma caixa com produtos de diversas embalagens como: embalagem de leite; caixa de sabão em pó; lata de achocolatado no formato circular; etc. Na seqüência do trabalho, solicitamos que os estudantes trouxessem para as aulas embalagens no formato de prisma quadrangular e cilindros, pois já tínhamos em mente que não abordaríamos todas as formas convencionais da geometria espacial, isso porque estamos experimentando um trabalho diferenciado e, portanto exige um planejamento cuidadoso, orientação esta que é ressaltado por Biembengut e Hein (2005, p. 28) que: “[...] Há um inconveniente de não sabermos, inicialmente, por onde o modelo passará, ou seja, nem sempre o ferramental matemático requerido está ao alcance do educando e mesmo do professor”. Em sala, fizemos a relação entre as embalagens e os conhecimentos sistematizados sobre sólidos geométricos, levando os estudantes a reconhecer os diferentes formatos das embalagens, classificando-as de acordo com sua nomenclatura e identificando alguns elementos como face, aresta e vértice. A partir desse momento, organizamos a sala em grupos em que, cada grupo ficou com um prisma quadrangular e orientamos que fizessem o esboço dessa embalagem, colocando as medidas reais das três dimensões. O segundo passo foi planificar a embalagem e calcular a quantidade de matéria prima usada para confecção dessa embalagem e revisando as unidades de medida de área. Por último, foi calculado o seu volume com a revisão das unidades de volume, fazendo relação com medidas de capacidade e analisando com a qual estavam trabalhando. Esse momento foi interessante porque nos permitiu observar que os estudantes conseguiram relacionar as discussões sobre embalagens e os conteúdos de geometria do livro didático, pois quando trabalhamos os conteúdos somente a partir do livro didático, a impressão que temos é que estamos fora de situações reais, ou seja, o estudante não consegue fazer essa relação. Outro fato importante foi o estudante compreender que estudar os sólidos geométricos exigia recorrer a conhecimentos adquiridos em séries anteriores. 90 Na seqüência, realizamos a experimentação em que consistiu em medir a quantidade de leite existente na embalagem. Para isso, os estudantes confeccionaram uma caixa no formato de um cubo, com 10 cm de aresta, tendo conhecimento que 1000 cm3 correspondem a 1000 ml, ou seja, um litro. Eles revestiram o interior da caixa com uma embalagem tipo saco plástico, o que permitiu transferir o leite da caixa original para a caixa cúbica que serviu para comprovar a medida contida no rótulo. Esse era o principal questionamento que o estudante fazia no início do trabalho. O mesmo, no momento da atividade, reagiu de forma entusiástica ao constatar a veracidade contida no rótulo, passando a impressão de que tinha alcançado um objetivo: perceber agora que tinha conquistado os instrumentos matemáticos para comprovar as medidas constantes nos rótulos. Outro experimento, realizado na mesma aula, foi o de comprovar se a quantidade de sabão em pó constante no rótulo era realmente a de um quilograma. Com o auxílio de uma balança doméstica, pesaram esse produto e constataram a veracidade do rótulo. No decorrer do trabalho, realizamos a modelação da embalagem do achocolatado, no formato cilíndrico, fazendo encaminhamento como: o esboço dessa embalagem, colocando as medidas reais da altura e do diâmetro. Em seguida, desenharam também sua planificação para calcular a quantidade de metal necessário para confecção dessa embalagem. Após, foi calculado o volume contido na mesma, ressaltando que os estudantes já tinham conhecimento sobre cálculos de circunferência e círculo. O interessante foi observar que os estudantes perceberam que para calcular o volume de um prisma e de um cilindro, a fórmula construída é a mesma, ou seja, o volume é igual a área da base multiplicado pela medida da altura. No entanto, o problema que os estudantes encontram foi no momento de calcular a área da base, porque eles precisaram recorrer ao estudo das áreas de figuras geométricas planas. Outro aspecto que ressaltamos é o fato de, após ter concluído os experimentos e formalizando e validando os conceitos e fórmulas, terem sido trabalhados diversas situações-problema constante no livro didático, envolvendo o mesmo conteúdo, porém, os estudantes mostraram ter mais segurança e compreensão das situações envolvendo os conhecimentos de geometria espacial e plana. 91 CONSIDERAÇÕES FINAIS Apresentamos inicialmente alguns aspectos da modelagem matemática no âmbito da Educação Matemática e sua presença em documentos oficiais que orientam o ensino de matemática na Educação Básica, indicando as Diretrizes Curriculares Estaduais do Paraná como exemplificação. Discutimos a utilização da modelagem matemática como uma estratégia/metodologia de ensino, destacando algumas características deste processo e avaliando que esta, mesmo estando fortemente presente como uma tendência, sua presença efetiva em sala de aula no trabalho do professor junto aos estudantes ainda é tímida. Entendendo que a Modelagem apresenta-se como uma alternativa metodológica, buscou-se na literatura um esclarecimento acerca de algumas terminologias geralmente utilizadas, como modelo matemático e modelagem matemática. Posteriormente, apresentamos as etapas do processo para um trabalho pedagógico com essa metodologia. Ressaltamos que as etapas apresentadas são uma referência para a realização de uma ação pedagógica e que não representa um caminho único ou fechado a ser seguido, mas permite indicar caminhos para o trabalho dos estudantes e dos docentes. Descrevemos uma experiência realizada junto a estudantes da oitava série de uma escola pública de ensino regular tomando como elemento norteador do trabalho as etapas descritas na fundamentação teórica. Destacamos ainda que o importante desse processo foi observar que os estudantes participaram dos trabalhos espontaneamente, mostraram ter maior responsabilidade com as atividades. Isso nos mostrou que o fato de eles participarem da sugestão do trabalho desenvolveu neles um maior comprometimento e, conseqüentemente, houve compreensão e aprendizagem do conteúdo. O experimento com modelagem matemática enquanto metodologia de ensino se mostrou viável, o que nos dá maior segurança em aplicá-la na abordagem de outros conteúdos, seguindo suas orientações, especialmente de partir de problematizações propostas pelos estudantes. 92 REFERÊNCIAS BASSANEZI, Rodney C. Modelagem Matemática: uma disciplina emergente nos programas de formação de professores. UNICAMP – IMECC, Depto de Matemática. Pesquisado em: <http://www.ime.unicamp.br/~biomat/bio9art_1.pdf>. Acesso em: 15 jun 2006. BIEMBENGUT, Maria Salett. Qualidade de ensino de matemática na engenharia: uma proposta metodológica e curricular. Florianópolis: UFESC, 1997. (Tese, Doutorado, Engenharia de Produção e Sistemas). BIEMBENGUT. Maria Salett; HEIN, Nelson. Modelagem matemática no ensino. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2005. BURAK, Dionísio. Modelagem matemática: ações e interações no processo de ensinoaprendizagem. Campinas: UNICAMP-FE, 1992 (Tese, Doutorado). D’AMBRÓSIO, Beatriz. Como ensinar matemática hoje? Temas e Debates. Sociedade Brasileira de Educação Matemática. Ano II, nº 2, 1989, p. 15-19 CHAVES, Maria Isaura de Albuquerque. Modelando matematicamente questões ambientais relacionadas com a água a propósito do ensino-aprendizagem de funções na 1ª série do ensino médio. Belém: UFPA - NPADC, 2005 (Dissertação, Mestrado em Educação em Ciências e Matemáticas). LEAL, Simone. Modelação matemática uma proposta metodológica para o curso de economia. Dissertação (Mestrado em engenharia) - Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina, 1999. Disponível em:<http://www.eps.ufsc.br/disserta99/leal/index.html>. Acesso em: 15 jun. 2006. PARANÁ, Secretaria de Estado da Educação. Diretrizes curriculares de matemática para as séries finais do ensino fundamental e para o ensino médio. Pesquisado em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/livro_e_diretrizes/diretr izes/diretrizesmatematica72008.pdf. Acesso em: 27 ago. 2008. SILVEIRA, Everaldo. Modelagem matemática em educação no Brasil: o que dizem as dissertações e teses? Pesquisado em: <http://paje.fe.usp.br/estrutura/eventos/ebrapem/completos/85.doc>. Acesso em: 14 jun. 2006. Trabalho apresentado no IX EBRAPEM – Encontro Brasileiro de Pós-Graduação em Educação Matemática. 93