Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
BORTOLINI, Gilberto 5
SANTOS, José Zigomar Vieira dos6
RESUMO
O presente trabalho busca analisar a presença de capital social e identificar a
motivação principal que move as pessoas a se associarem numa cooperativa. Foi
realizado um estudo de caso na Cooperativa Agropecuária e Industrial São Valério
do Sul – Coopervalério, situada na região noroeste do Rio Grande do Sul, para se
verificar empiricamente a tomada de decisão dos pequenos produtores de leite em
ingressar na Cooperativa. Verificou-se que a cooperativa foi formada para resolver
um problema, suprimindo as fases de formação cooperativa onde a capacitação e a
educação cooperativa são muito importantes. Os resultados evidenciam que os
pequenos produtores são explorados pelo capitalismo e necessitam se fortalecer
coletivamente formando laços de confiança e ajuda mútua, e o cooperativismo é a
forma encontrada para promover a equidade social.
Palavras-chave: Cooperativismo. Capital social. Formação cooperativa.
ABSTRACT
This paper seeks to analyze the presence of social capital and identify the main
motivation that moves people to join a cooperative. We conducted a case study in
the Agricultural and Industrial Cooperative São Valério do Sul - Coopervalério,
located in the northwestern region of Rio Grande do Sul, to verify empirically the
decision-making of small-scale milk producers to join the cooperative. It could be
verified that the cooperative was formed to solve a problem, suppressing formation
stages of cooperative training where training and cooperative education are very
important. The results show that small producers are exploited by capitalism and
need to strengthen themselves collectively forming bonds of trust and mutual aid,
and the cooperativism is the best way to promote social equity.
Keywords: Cooperativism. Social capital. Cooperative formation.
1 INTRODUÇÃO
A concorrência, inerente ao capitalismo, produziu enormes desigualdades e
beneficiou parte dos produtores rurais, excluindo os mais fragilizados. A
competitividade descaracterizou a importância da cooperação e evidenciou a
5
6
Engenheiro Agrônomo, Extensionista Rural da Emater/RS-Ascar, e-mail: [email protected]
Mestre, Professor orientador, ESCOOP, e-mail: [email protected]
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competição. (SANTOS, 2006). O sistema de produção capitalista, cuja dinâmica de
acumulação e reprodução, tende a destruir o tecido das relações sociais.
Na opinião de Schneider (2004), as cooperativas representam uma resposta
aos problemas impostos pela globalização; um contraponto à concentração de
riquezas, buscando a concentração de forças.
A ideia de associar interesses comuns a partir de iniciativas de cooperação é
bastante antiga, embora apenas a partir de 1990 ganhasse relevância através da
concepção de sustentabilidade. As discussões ganharam consistência através da
perspectiva do desenvolvimento local e social sob novas ideias de descentralização
econômica, uma vez constatadas as consequências da globalização que contribuiu
para
as
desigualdades
no
mundo.
Ou
seja,
o
conceito
tradicional
de
desenvolvimento deu lugar ao conceito de desenvolvimento local, associado aos
adjetivos de integrado e sustentável, e a cooperação é uma forma local de gerar
riquezas e distribuí-las equitativamente. Os trabalhos de Coleman, na área da
Sociologia, e Putnam, na área das Ciências Sociais, apontaram para as
consequências positivas da sociabilidade e das relações monetárias presentes na
sociedade e replicadas nas cooperativas.
Assim sendo,
o
associativismo
instrumentaliza
os
mecanismos
que
concretizam as demandas sociais e que tornam os homens mais próximos da busca
de autonomia na promoção do desenvolvimento local. E, a cooperação, por sua vez,
passa a ser a força indutora que modifica comportamentos e abre caminhos para
incorporar novos conhecimentos. Desta forma, cria um tecido flexível mediante o
qual se enlaçam distintos atores, produzindo um todo harmônico que culmina no
estabelecimento de uma comunidade de interesses, em uma estrutura que deve ser
ajustada para refletir os padrões de comunicação, inter-relações e cooperação,
reforçando a identidade do associativismo e a dimensão humana. (CANTERLE,
2004, p. 5-6).
A vida associativa está presente em muitas áreas das atividades humanas,
mormente traduzida em condições que visam contribuir para o equilíbrio e a
estabilidade social, e, a esse respeito, Frantz (2002, p. 1) destaca: “associativismo,
com o sentido de cooperação, é um fenômeno que pode ser detectado nos mais
diferentes lugares sociais: no trabalho, na família, na escola etc. No entanto,
predominantemente, a cooperação é entendida com sentido econômico e envolve a
produção e a distribuição dos bens necessários à vida”.
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Presente nesse contexto encontra-se o cooperativismo, constituindo-se em
exigência histórica para melhorar a qualidade da existência humana, ou seja, para
melhorar as condições de vida dos indivíduos de um determinado local, pois faz com
que a troca de experiência e a convivência entre as pessoas se constitua em
oportunidades de crescimento e desenvolvimento coletivo.
A criação de cooperativas é uma das estratégias na busca de melhoria da
vida do agricultor e, numa visão mais ampla, é um meio alternativo de
desenvolvimento. Um dos aspectos fundamentais da inclusão social e produtiva é o
fortalecimento e a utilização do capital social existente nas cooperativas rurais,
buscando organização e iniciativas de produção local, reduzindo a vulnerabilidade
do homem do campo às secas periódicas e à falta de recursos tecnológicos,
potencializando a capacidade de ação coletiva produtiva e de autogestão econômica
e social.
Um dos maiores avanços da organização cooperativa no Rio Grande do Sul
se concretizou na criação da Cooperativa Central Gaúcha de Leite Ltda (CCGL), em
1981. A CCGL, como resultado da união das grandes cooperativas do Estado, tinha
como objetivo agregar maior valor à produção de leite dos agricultores: “O objetivo
fundamental da CCGL é propiciar uma melhor remuneração ao agricultor produtor
de leite”. (TAMBARA apud FRANTZ, 2002).
No entanto, a experiência foi frustrada em 1996, com a venda do complexo
industrial de leite ao Grupo Avipal, por incapacidade financeira, gerada em função
dos seguidos empréstimos cedidos a cooperativas filiadas, restringindo seu capital
de giro. (FRANTZ, 2002).
Com o fracasso do grande projeto agroindustrial cooperativo, as empresas
industriais passaram a negociar a produção de leite diretamente com os produtores,
estabelecendo uma política perversa de exploração das pequenas unidades
familiares.
Os produtores, incentivados pelos movimentos sociais, pela extensão rural e
pelas políticas públicas, passaram a defender a ideia de constituir pequenas
cooperativas para a intermediação da comercialização do leite, fortalecendo os laços
de amizades e vislumbrando grandes chances de alcançar os objetivos comuns.
Com fortes críticas ao cooperativismo vigente alimentava-se a esperança de um
“novo cooperativismo”, mais solidário e participativo e que fizesse a interlocução
entre os produtores e a indústrias.
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O crescimento, portanto, do número de cooperativas e, também, do número
de cooperados nas cooperativas existentes, especialmente pelos pequenos
produtores de leite, tem sido creditado a uma expectativa de participação no
mercado que pode estar vinculado à defesa de interesses econômicos.
Particularmente, com relação às cooperativas de leite da agricultura familiar,
em pouco tempo os pequenos produtores aderiram ao cooperativismo porque
conseguiram elevar em 10 e até em 20 centavos o preço recebido por litro de leite.
Pequenos produtores, que recebiam R$ 0,30 ou R$ 0,40 por litro de leite, passaram
a receber R$ 0,60 ou mais por cada litro. As cooperativas aumentaram o poder de
barganha dos pequenos produtores, e isto foi muito bom. A formação das pequenas
cooperativas para comercialização de leite iniciou, na região noroeste do Rio Grande
do Sul, a partir de 2000.
A cooperativa seria, por excelência, o tipo ideal de empreendimento solidário,
voltado à inclusão dos tradicionalmente excluídos pela economia dominante.
O empreendimento cooperativo, de acordo com Schmidt e Perius (2003), tem
como principal valor a contribuição social no sentido de colocar o trabalho acima do
capital, o homem acima da máquina e, por fim, a realização pessoal acima da
individualidade e da reprodução desenfreada do capital.
O capital social é tido como um dos mecanismos pelos quais se pode superar
o atraso e a pobreza, através do estabelecimento de laços de confiança
interpessoais e de cooperação, com vistas à produção de bens coletivos.
Putnam (2000) apresenta o capital social como um conjunto de aspectos das
organizações sociais, tais como: redes de relacionamento, normas e confiança que
permitem a ação e a cooperação para o benefício mútuo. Sendo que a confiança
mútua entre os indivíduos é um pré-requisito para a existência e a formação de
capital social.
De acordo com Putnam (2000)
[...] capital social refere-se a práticas sociais, normas e relações de
confiança que existem entre cidadãos de uma dada sociedade” e “a cultura
cívica podia atuar mais sobre as instituições e que sua ausência seria um
obstáculo ao desenvolvimento institucional.
Katz e Kahn (1974) afirmam que as organizações que se baseiam
exclusivamente no papel prescrito possuem uma estrutura extremamente frágil. Fazse necessária a participação consciente do associado, e ele deve contribuir, da
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melhor maneira possível, em favor daqueles que recebem a incumbência da
administração da cooperativa.
A organização cooperativa é uma das manifestações formais do capital social.
Para sua formação, os indivíduos concluem que em conjunto podem obter
resultados econômicos melhores do que se estivessem isolados. Uma cooperativa
agropecuária, por exemplo, é criada quando um grupo de produtores rurais percebe
que pode ter ganhos de escala na aquisição de insumos, acesso a novas
tecnologias e elevação do preço de seus produtos.
A proposta deste trabalho não é quantificar o capital social, o que constitui
uma tarefa complexa, mas verificar como esse capital se manifesta no momento da
construção de uma nova organização, neste caso, uma cooperativa, tentando
identificar as necessidades dos membros, as quais fizeram com que eles aceitassem
o processo coletivo e fazem com que eles tenham maior ou menor envolvimento nas
questões de sua cooperativa. Trata-se de uma reflexão acerca das motivações que
levaram os pequenos produtores a se organizarem de forma associativa, numa
cooperativa agropecuária.
2 CONSTRUÇÃO ASSOCIATIVA
O fenômeno do cooperativismo vem se destacando como uma das formas
mais usuais de associativismo.
O princípio da adesão livre e voluntária estabelece que o cidadão tenha
liberdade para associar-se a uma cooperativa, desde que esteja apto e ciente de
seus deveres, responsabilidades e direitos dentro da organização.
O envolvimento e a participação em grupos podem ter consequências
positivas para o indivíduo e para a sociedade. Dessa forma, o engajamento dos
cidadãos, o apoio mútuo, a solidariedade e a confiança recíproca têm se
apresentado para fomentar a construção de uma identidade coletiva.
2.1 CAPITAL SOCIAL
Para Putnam (2000), o capital social é definido como: “características da
organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuem para
aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas”. O autor
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Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
contextualiza a definição do capital social pela sua função, estando este presente
sempre que houver características de organização social e que, intencionalmente ou
não, potencializa o trabalho humano, coordenando as atividades dos agentes com
resultados positivos.
Também para Putnam (2000), este se reflete no grau de confiança existente
entre os diversos atores sociais, seu grau de associativismo e o acatamento às
normas de comportamento cívico, tais como o pagamento de impostos e os
cuidados com que são tratados os espaços públicos e os “bens comuns”. Enquanto
o capital humano é produto de ações individuais em busca de aprendizado e
aperfeiçoamento, o capital social se fundamenta nas relações entre os atores sociais
que estabelecem obrigações e expectativas mútuas, estimulam a confiabilidade nas
relações sociais e agilizam o fluxo de informações, internas e externas. Em vez de
controles e relações de dominação patrimonialistas, o capital social favorece o
funcionamento de normas e sanções consentidas, ressaltando os interesses
públicos coletivos. Enquanto as vias convencionais de formar capital humano
estimulam o individualismo, a construção de capital social repercute favoravelmente
na coesão da família, da comunidade e da sociedade.
O capital social é a cola que une a sociedade, através de valores
compartilhados e regras para a conduta social expressa nas relações pessoais, na
confiança, e num bom senso de responsabilidade cívica, que tornam a sociedade
mais do que uma coleção de indivíduos.
Sob esta ótica o conceito de capital social tem se mostrado muito relevante
para diversos tipos de aplicações, principalmente por permitir um melhor
entendimento das relações entre indivíduos ou cooperativas e seus efeitos em
termos de desempenho econômico e social.
Para o autor, capital social é erroneamente confundido com socialização,
confiança mútua ou relações pessoais de longo prazo e, na realidade, envolve um
complexo balanço entre “laços fortes” e “laços fracos”.
Segundo Putnam, foi Granovetter (1973) que contribuiu para qualificar a
natureza dos laços sociais.
[...] um laço forte entre dois indivíduos envolve uma elevada dose de tempo
e esforço dedicados à relação, feição emocional, confiança e reciprocidade.
Logo é um relacionamento que se molda e auto-reforça ao longo do tempo.
Um laço fraco é exatamente o oposto desta situação, envolvendo
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transações pontuais entre agentes, onde a identidade dos indivíduos é de
menor importância e questões de confiança e reprocidade são mínimas.
Para o autor o “laço forte ou bonding social capital” tende a fortalecer, acima
de tudo, o próprio grupo e reforçar as identidades excludentes e os grupos
homogêneos, e o “laço fraco ou bridging social capital” visa fortalecer as relações
com o mundo fora do grupo e abarca pessoas de diferentes setores sociais (p. 22).
O autor aponta algumas características positivas do capital social:
a) promover trocas mutuamente benéficas com o desenvolvimento das
normas do comportamento, da confiança e da reputação cívica;
b) estabelecer um processo de tomada de decisão consultiva e coletiva que
reduza externalidades negativas e promova a produção de bens públicos, e;
c) reduzir os custos de transação que facilitam o fluxo da informação e da
inovação.
Putnam
(2000)
também
percebeu
a
existência
de
novas
formas
contemporâneas de associações, particularmente os movimentos sociais e as
organizações do terceiro setor. Segundo Putnam, “tais organizações não
providenciam nem conectividade entre membros, nem engajamento direto em uma
forma cívica do dar e receber, e certamente elas não representam democracia
participativa”.
Sua principal objeção se baseia na suposição de que os laços e obrigações
que unem os membros destes movimentos sejam mais fracos do que em
organizações tradicionais, falhando na promoção de confiança social.
As organizações e associações que Putnam considera mais preparadas para
promover o espírito comunitário são exatamente aquelas que tendem a ser mais
excludentes, a defender e preservar a ordem e os privilégios existentes e que,
muitas vezes, trabalham em prol da privatização de espaços e questões públicas.
O estudo de Putnam revela que há uma forte correlação entre modernidade
econômica e desempenho institucional, e que o desempenho institucional está
fortemente correlacionado à natureza da vida cívica.
No ambiente interno, as associações civis incutem em seus membros hábitos
de
cooperação,
solidariedade,
senso
de
responsabilidade
comum
com
empreendimentos coletivos, bem como espírito público, provocando um intenso
engajamento cívico.
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Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
O capital social é relevante para as cooperativas, a fim de que estas possam
liderar e conduzir o seu próprio desenvolvimento, condicionando-o à mobilização dos
fatores produtivos num processo de autogestão.
De acordo com Putnam (2000), o capital social capacita as pessoas a
realizarem determinados projetos que sozinhas não conseguiriam. Agir em conjunto
torna os objetivos mais palpáveis e aumenta a probabilidade de sucesso nas
atividades econômicas.
2.2 COOPERATIVISMO, MOTIVAÇÕES E FIDELIDADE
Segundo Schneider (2010),
[...] a cooperativa é uma associação autônoma de pessoas que se unem,
voluntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas,
sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade
coletiva e democraticamente gerida.
A organização cooperativa é uma das manifestações formais do capital social.
Para sua formação, os indivíduos concluem que em conjunto podem obter
resultados econômicos melhores do que se estivessem isolados. Uma cooperativa
agropecuária, por exemplo, é criada quando um grupo de produtores rurais percebe
que pode ter ganhos de escala na aquisição de insumos, acesso a novas
tecnologias e elevação do preço de seus produtos.
O Cooperativismo é uma filosofia composta por sete princípios básicos:
adesão voluntária e livre; gestão democrática pelos membros; participação
econômica dos membros; autonomia e independência; educação, formação e
informação; intercooperação; interesse pela comunidade. O primeiro deles trata da
liberdade que temos em nos unir a uma cooperativa, se quisermos, e a ação que
voluntariamente devemos tomar para isto. Ou seja, nenhum cooperado é obrigado a
fazer parte da cooperativa e manter-se nela. O cooperativismo une as forças de
cada um pelo bem de todos, mas se alguém não mais se sentir compromissado com
isto, poderá deixar a sociedade cooperativa.
Do mesmo modo é importante entender que, ao ingressar numa cooperativa,
você assume compromisso com os demais cooperados e com o empreendimento
em si. Sua participação será muito importante para a continuidade da cooperativa e
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Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
o fortalecimento de sua atuação. Quanto mais ativo e sólido é o empreendimento
cooperativo, mais benefícios seus associados obtêm.
O ingresso de cada associado faz a cooperativa crescer e ampliar a oferta de
benefícios a todos os cooperados. O Capital Social, obrigatório para adesão a uma
cooperativa, é a contribuição do cooperado e símbolo de seu compromisso com ela.
Mas, quando ingressamos em uma sociedade cooperativa, raramente a deixamos,
uma vez que são muitos os benefícios que obtemos pela força de todos.
Para o perfeito funcionamento da cooperativa é extremamente importante a
sensibilização dos candidatos a cooperantes, a fim de que os mesmos estejam
psicologicamente preparados para enfrentar os problemas internos e externos e,
principalmente, para não serem convencidos a ceder às tentações do capitalismo
que preza pelo individualismo e pela dominação. É essencial que o treinamento seja
focado nas características e princípios do cooperativismo.
Para constituir uma cooperativa é fundamental que todos aqueles que
desejam integrar esta sociedade tenham os mesmos objetivos, tenham clareza dos
passos a serem dados e se identifiquem com os valores e princípios do
cooperativismo.
É importante que todos participem de todas as etapas da constituição da
cooperativa. Mais do que a legalização de uma empresa ou a organização de um
trabalho, a constituição de uma cooperativa é a construção de uma sociedade de
pessoas com objetivos comuns. Apenas a participação de todos faz com que ela
exista. É necessário que a cooperativa, por meio de seu estatuto, reflita o grupo e
cada pessoa individualmente. Por isso, antes de formar uma cooperativa, discuta
bem com o grupo e faça do processo de formação desta um exercício democrático
de construção do coletivo. Este aprendizado vai ser útil para toda a vida da
cooperativa.
Portanto, a questão central para o sucesso cooperativo é a união entre a ação
e o propósito de seus membros, associados à qualidade de seus produtos e
serviços.
A energia que propulsiona o movimento cooperativista provém da participação
dos cooperados na sociedade. No momento em que ocorrer o distanciamento do
seu maior interessado, a cooperativa perde a sua identidade, vindo, no futuro, a ter
seus objetivos questionados e sua existência ameaçada.
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Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
Um ponto importante a ressaltar é que as pessoas só participam daquilo que
lhes interessa e daquilo que elas se sentem motivadas a participar. O intercâmbio
entre cooperado e cooperativa estimula o associado a sentir mais confiança e
acreditar que é através da união e da participação dos associados que a cooperativa
avança e atinge seus objetivos, Ricciardi (1986).
O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre os interesses da cada
membro da sociedade e os objetivos coletivos simbolizados nas necessidades da
cooperativa em permanecer ativa e dinâmica. Portanto, o desafio para as estruturas
cooperativas modernas é manter seu papel de sistema produtivo centrado no
homem e, ao mesmo tempo, desenvolver uma organização capaz de competir com
empresas de outras naturezas com orientação para o mercado, isso na visão de
Zylberstjn (1994).
Segundo Meireles (1981), a prática social do cooperativismo revela diferença
na participação efetiva dos associados nas atividades das cooperativas. A
participação nas atividades de uma cooperativa, muitas vezes, limita-se à inscrição
no quadro social e à entrega de produtos para comercialização em grupo. Porém,
observa-se que a busca de satisfação de necessidades individuais, às vezes
divergentes entre os associados, revela que a cooperação não se apresenta como
um processo consciente, resultado de ações espontâneas. Outrossim, as
satisfações buscadas são, em sua maioria, de caráter econômico, procurando obter
as vantagens da prestação de serviços, especialmente daqueles mais ligados à
produção. Muitos associados não se sentem estimulados a aumentar a sua
produção e limitam-se a participar com uma quota mínima de produtos a serem
comercializados
via
cooperativa,
alegando
desestímulo
de
preços,
não
compensadores em relação ao custo da produção. Além disso, não concebem a
cooperativa como um meio para superar as condições adversas do mercado e para
levá-los a melhores condições sociais e econômicas.
As cooperativas são empresas de propriedade coletiva, pertencente aos seus
associados, e democraticamente gerida por eles. Essa associação numa
cooperativa dá-se não por união de capitais, mas do trabalho e/ou do compromisso
de realizar as transações de forma conjunta e de participar na organização. A
principal relação a ser gerida nestas organizações é a relação da cooperativa com
os seus membros. Essa relação privilegiada com seus cooperados deveria
transformar-se na sua vantagem competitiva. Para isso, o envolvimento efetivo e o
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compromisso dos seus membros passam a ser cruciais. Mas, para isso, essa
relação deve ser construída e, nesse sentido, a educação e a comunicação têm um
papel absolutamente relevante a cumprir.
A cooperativa tem, assim, uma relação quase simbiótica com os seus
associados, já que, diferentemente de outras empresas, se os agricultores a
abandonam, ela não consegue continuar sendo uma organização dinâmica,
independentemente de qual seja o seu nível de eficiência operativa.
A participação dos associados na cooperativa não deve ser imposta, mas sim
uma adesão espontânea dos indivíduos que se origina na materialização de certos
valores que o ser adota como seus.
3 METODOLOGIA
O objetivo de realização da pesquisa junto aos associados da Cooperativa
Agropecuária e Industrial São Valério do Sul (COOPERVALÉRIO) foi conhecer as
motivações que levam o pequeno produtor a se associar na cooperativa, suas
expectativas e comportamentos enquanto associado.
Para abordar a questão proposta neste trabalho, optou-se por realizar um
estudo exploratório e descritivo, dado que a pesquisa exploratória tem por finalidade
principal desenvolver, esclarecer e modificar ideias e conceitos, de forma a tornar
mais explícito o tema ou mesmo a construir hipóteses a seu respeito. (GIL, 1999). A
pesquisa descritiva, por sua vez, tem o objetivo de traçar as características de
determinada população ou fenômeno, ou o estabelecimento de relações entre elas,
mediante a utilização de técnica de coleta de dados padronizada.
Para este estudo, em face às características da Cooperativa Agropecuária e
Industrial São Valério do Sul (COOPERVALÉRIO), que é formada por pequenos
produtores de leite, optou-se pelo estudo de caso.
O método de estudo de caso consiste numa investigação detalhada de um ou
poucos objetivos, de maneira a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado.
Para a verificação das hipóteses que buscam entender a motivação que leva
um pequeno produtor de leite a associar-se numa organização cooperativa como
forma de potencializar o poder de barganha na comercialização de leite, realizou-se
uma pesquisa de campo com a utilização de um questionário semiestruturado,
aplicado pelo próprio pesquisador. O questionário é caracterizado como um
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Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
instrumento de coleta de dados primários, constituído por uma série ordenada de
perguntas respondidas com a presença do entrevistador. (MARCONI; LAKATOS,
2007).
Para efeito de estudo, utilizou-se a quantidade de associados que estavam
realizando a entrega coletiva da produção de leite organizada pela cooperativa.
O questionário, com um total de 17 perguntas abertas e fechadas, foi utilizado
como forma de medir e clarear os aspectos relativos à organização associativa,
tentando identificar os fatores preponderantes que determinam a ação de cada
produtor ao integrar a cooperativa.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A Coopervalério foi constituída em 12 de junho de 2007, contando com 77
associados fundadores. A história do associativismo entre os produtores de leite do
município de São Valério do Sul, situado na região noroeste do Estado do Rio
Grande do Sul, iniciou em 2004, com a formação de uma associação. Inicialmente,
contando com 30 produtores de leite, a associação organizou a comercialização do
leite de forma coletiva, em que a coleta era realizada individualmente e a venda do
produto centralizada no nome do presidente, com emissão de nota fiscal de pessoa
física.
A formação da associação e, por conseguinte, a concretização da cooperativa
não partiram somente da vontade dos produtores de leite. Havia apoio da Emater7,
para a organização de formas associativas de trabalho, e do Poder Público
Municipal, para resolver o problema fiscal de que as empresas compradoras de leite
não emitiam nota fiscal de compra do leite, resultando em evasão de divisas do
município.
O preço do leite pago aos pequenos produtores era substancialmente inferior
aos preços médios praticados na região, corroborando com Schneider (2004), em
que afirma que as cooperativas representam uma resposta aos problemas impostos
pela globalização. No caso, as indústrias compradoras do leite impunham restrições
para a coleta e comercialização para manter os preços os mais baixos possíveis e
acumular lucros em suas plantas industriais.
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Emater - Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural
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Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
A pesquisa de campo confirmou esta ideia quando apontou que 90% dos
entrevistados informaram que o principal motivo para a formação da cooperativa foi
melhorar o preço do leite, e também que 80% dos entrevistados apontaram a
melhora do preço do leite como a maior contribuição proporcionada pela
cooperativa.
O associativismo, no caso, contribuiu para a cooperação com sentido
econômico, concordando com os estudos de Frantz (2002), que apontam o
cooperativismo como oportunidade de crescimento e desenvolvimento coletivo.
Outro aspecto apontado por 55% dos entrevistados é que um dos motivos
que os levaram a integrar a cooperativa é a segurança que ela proporciona aos seus
associados. Putnam (2000) refere-se ao grau de confiança construído pelo capital
social e a confiabilidade estimulada por expectativas mútuas e coesão do grupo
participante como fator decisivo ao êxito das instituições coletivas. Os associados
buscaram, na cooperativa, a certeza de receber o valor referente à entrega da
produção de leite do mês anterior, pois houve situações em que sofreram calote e
outras em que o preço recebido era injusto.
Segundo Putnam (2000), o capital social não se desgasta com o uso e não se
esgota, mas pode ser destruído ou reduzido, aumentando a vulnerabilidade dos
mais pobres. Isto foi identificado na Coopervalério, quando a cooperativa teve uma
redução no número de associados que continuam mantendo relações com a
cooperativa. De um total de 77 associados, apenas 26 comercializam leite com a
cooperativa, sendo estes com menores volumes de produção.
O autor também afirma que, quando a confiança é baixa, as pessoas se
apoiam em suas famílias, quando é alta, permite a expansão de contatos. A
combinação da pobreza e a desconfiança mútua minam a solidariedade horizontal,
contribuindo para a redução de associados fortemente engajados nas atividades da
cooperativa.
A criação da cooperativa não foi em função da ideologia, e sim em função de
uma necessidade. Conforme descreve Schneider (2010), “o aglutinador não é o
conjunto de valores, mas a segurança das necessidades de sobrevivência”. O
cooperativismo aparece como uma alternativa e estratégia de tentar sobreviver no
mercado.
Tanto dirigentes quanto associados centraram sua ação na questão do preço,
e os produtores passaram a ver a cooperativa apenas como um meio de melhorar o
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Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola
preço do leite. É uma estratégia que tem seu limite e precisa ser superada com
educação e capacitação cooperativa. A questão econômica não pode ser o único
elemento a garantir a permanência do associado na cooperativa, ele precisa
compreender que a cooperativa é um meio de melhorar a sua qualidade de vida e a
da sua comunidade, com base em um projeto de desenvolvimento que lhe permitirá
superar sua precária situação.
O estudo corroborou com Schneider, pois apontou que, para fazer parte da
cooperativa, não foi necessário realizar curso de formação. Todos os entrevistados
afirmaram não ter participado de formação, e, embora 20 % dos entrevistados
afirmassem conhecer os princípios cooperativos, nenhum associado foi capaz de
citar qualquer princípio.
Segundo Schneider (2004), os resultados favoráveis buscados por meio da
cooperação, aos que a praticam, vão se atenuando à medida que os objetivos vão
sendo alcançados. No questionário identificamos que 50% dos entrevistados
declaram-se pouco satisfeitos com a cooperativa e apontam para a necessidade da
cooperativa oferecer outros serviços e, principalmente, melhorar ainda mais o preço
do leite.
No que se refere a novos serviços, a pesquisa apontou o anseio dos
associados na ampliação da ação cooperativa com insumos necessários ao
desenvolvimento das principais atividades produtivas dos cooperados.
Quanto ao preço do leite, quando questionados sobre o valor, os
entrevistados não informaram com exatidão o preço praticado pela concorrência,
gerando incertezas, embora todos apontassem que o preço pago pela cooperativa
poderia ser melhor, ou seja, segundo eles, a cooperativa deveria procurar negociar
melhor a produção.
5 CONCLUSÃO
A Coopervalério provou, pelo seu histórico, que é capaz de se tornar uma
cooperativa forte, através da união e da valorização de todos os seus cooperados. A
cooperativa conta com uma grande experiência no setor comercial da produção de
leite e no cotidiano de uma organização cooperativa.
O cooperativismo tem mais um desafio: resgatar a cultura cooperativista que
vem sendo esquecida pelos seus membros, uma vez que a união está dando lugar
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aos interesses particulares. Os cooperados estão perdendo a motivação, a
participação e o comprometimento com a cooperativa. Surge a necessidade de
capacitação cooperativa.
O cooperativismo não pretende negar o capitalismo, mas enxergar o
fenômeno associativo da cooperação como forma de sobrevivência nesse sistema e
como mecanismo de valorização da produção e possibilidade de manutenção da
identidade.
O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre os interesses da cada
membro da sociedade e os objetivos coletivos simbolizados nas necessidades da
cooperativa em permanecer ativa e dinâmica.
A disposição dos sócios para o desenvolvimento e crescimento da
cooperativa será fundamental, desta forma, é necessária a adesão de pessoas
realmente interessadas na organização.
A formação de cooperativas não deve iniciar com um problema que pode ser
resolvido de forma coletiva.
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Capital Social na Formação de uma Cooperativa