Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola BORTOLINI, Gilberto 5 SANTOS, José Zigomar Vieira dos6 RESUMO O presente trabalho busca analisar a presença de capital social e identificar a motivação principal que move as pessoas a se associarem numa cooperativa. Foi realizado um estudo de caso na Cooperativa Agropecuária e Industrial São Valério do Sul – Coopervalério, situada na região noroeste do Rio Grande do Sul, para se verificar empiricamente a tomada de decisão dos pequenos produtores de leite em ingressar na Cooperativa. Verificou-se que a cooperativa foi formada para resolver um problema, suprimindo as fases de formação cooperativa onde a capacitação e a educação cooperativa são muito importantes. Os resultados evidenciam que os pequenos produtores são explorados pelo capitalismo e necessitam se fortalecer coletivamente formando laços de confiança e ajuda mútua, e o cooperativismo é a forma encontrada para promover a equidade social. Palavras-chave: Cooperativismo. Capital social. Formação cooperativa. ABSTRACT This paper seeks to analyze the presence of social capital and identify the main motivation that moves people to join a cooperative. We conducted a case study in the Agricultural and Industrial Cooperative São Valério do Sul - Coopervalério, located in the northwestern region of Rio Grande do Sul, to verify empirically the decision-making of small-scale milk producers to join the cooperative. It could be verified that the cooperative was formed to solve a problem, suppressing formation stages of cooperative training where training and cooperative education are very important. The results show that small producers are exploited by capitalism and need to strengthen themselves collectively forming bonds of trust and mutual aid, and the cooperativism is the best way to promote social equity. Keywords: Cooperativism. Social capital. Cooperative formation. 1 INTRODUÇÃO A concorrência, inerente ao capitalismo, produziu enormes desigualdades e beneficiou parte dos produtores rurais, excluindo os mais fragilizados. A competitividade descaracterizou a importância da cooperação e evidenciou a 5 6 Engenheiro Agrônomo, Extensionista Rural da Emater/RS-Ascar, e-mail: [email protected] Mestre, Professor orientador, ESCOOP, e-mail: [email protected] 61 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola competição. (SANTOS, 2006). O sistema de produção capitalista, cuja dinâmica de acumulação e reprodução, tende a destruir o tecido das relações sociais. Na opinião de Schneider (2004), as cooperativas representam uma resposta aos problemas impostos pela globalização; um contraponto à concentração de riquezas, buscando a concentração de forças. A ideia de associar interesses comuns a partir de iniciativas de cooperação é bastante antiga, embora apenas a partir de 1990 ganhasse relevância através da concepção de sustentabilidade. As discussões ganharam consistência através da perspectiva do desenvolvimento local e social sob novas ideias de descentralização econômica, uma vez constatadas as consequências da globalização que contribuiu para as desigualdades no mundo. Ou seja, o conceito tradicional de desenvolvimento deu lugar ao conceito de desenvolvimento local, associado aos adjetivos de integrado e sustentável, e a cooperação é uma forma local de gerar riquezas e distribuí-las equitativamente. Os trabalhos de Coleman, na área da Sociologia, e Putnam, na área das Ciências Sociais, apontaram para as consequências positivas da sociabilidade e das relações monetárias presentes na sociedade e replicadas nas cooperativas. Assim sendo, o associativismo instrumentaliza os mecanismos que concretizam as demandas sociais e que tornam os homens mais próximos da busca de autonomia na promoção do desenvolvimento local. E, a cooperação, por sua vez, passa a ser a força indutora que modifica comportamentos e abre caminhos para incorporar novos conhecimentos. Desta forma, cria um tecido flexível mediante o qual se enlaçam distintos atores, produzindo um todo harmônico que culmina no estabelecimento de uma comunidade de interesses, em uma estrutura que deve ser ajustada para refletir os padrões de comunicação, inter-relações e cooperação, reforçando a identidade do associativismo e a dimensão humana. (CANTERLE, 2004, p. 5-6). A vida associativa está presente em muitas áreas das atividades humanas, mormente traduzida em condições que visam contribuir para o equilíbrio e a estabilidade social, e, a esse respeito, Frantz (2002, p. 1) destaca: “associativismo, com o sentido de cooperação, é um fenômeno que pode ser detectado nos mais diferentes lugares sociais: no trabalho, na família, na escola etc. No entanto, predominantemente, a cooperação é entendida com sentido econômico e envolve a produção e a distribuição dos bens necessários à vida”. 62 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola Presente nesse contexto encontra-se o cooperativismo, constituindo-se em exigência histórica para melhorar a qualidade da existência humana, ou seja, para melhorar as condições de vida dos indivíduos de um determinado local, pois faz com que a troca de experiência e a convivência entre as pessoas se constitua em oportunidades de crescimento e desenvolvimento coletivo. A criação de cooperativas é uma das estratégias na busca de melhoria da vida do agricultor e, numa visão mais ampla, é um meio alternativo de desenvolvimento. Um dos aspectos fundamentais da inclusão social e produtiva é o fortalecimento e a utilização do capital social existente nas cooperativas rurais, buscando organização e iniciativas de produção local, reduzindo a vulnerabilidade do homem do campo às secas periódicas e à falta de recursos tecnológicos, potencializando a capacidade de ação coletiva produtiva e de autogestão econômica e social. Um dos maiores avanços da organização cooperativa no Rio Grande do Sul se concretizou na criação da Cooperativa Central Gaúcha de Leite Ltda (CCGL), em 1981. A CCGL, como resultado da união das grandes cooperativas do Estado, tinha como objetivo agregar maior valor à produção de leite dos agricultores: “O objetivo fundamental da CCGL é propiciar uma melhor remuneração ao agricultor produtor de leite”. (TAMBARA apud FRANTZ, 2002). No entanto, a experiência foi frustrada em 1996, com a venda do complexo industrial de leite ao Grupo Avipal, por incapacidade financeira, gerada em função dos seguidos empréstimos cedidos a cooperativas filiadas, restringindo seu capital de giro. (FRANTZ, 2002). Com o fracasso do grande projeto agroindustrial cooperativo, as empresas industriais passaram a negociar a produção de leite diretamente com os produtores, estabelecendo uma política perversa de exploração das pequenas unidades familiares. Os produtores, incentivados pelos movimentos sociais, pela extensão rural e pelas políticas públicas, passaram a defender a ideia de constituir pequenas cooperativas para a intermediação da comercialização do leite, fortalecendo os laços de amizades e vislumbrando grandes chances de alcançar os objetivos comuns. Com fortes críticas ao cooperativismo vigente alimentava-se a esperança de um “novo cooperativismo”, mais solidário e participativo e que fizesse a interlocução entre os produtores e a indústrias. 63 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola O crescimento, portanto, do número de cooperativas e, também, do número de cooperados nas cooperativas existentes, especialmente pelos pequenos produtores de leite, tem sido creditado a uma expectativa de participação no mercado que pode estar vinculado à defesa de interesses econômicos. Particularmente, com relação às cooperativas de leite da agricultura familiar, em pouco tempo os pequenos produtores aderiram ao cooperativismo porque conseguiram elevar em 10 e até em 20 centavos o preço recebido por litro de leite. Pequenos produtores, que recebiam R$ 0,30 ou R$ 0,40 por litro de leite, passaram a receber R$ 0,60 ou mais por cada litro. As cooperativas aumentaram o poder de barganha dos pequenos produtores, e isto foi muito bom. A formação das pequenas cooperativas para comercialização de leite iniciou, na região noroeste do Rio Grande do Sul, a partir de 2000. A cooperativa seria, por excelência, o tipo ideal de empreendimento solidário, voltado à inclusão dos tradicionalmente excluídos pela economia dominante. O empreendimento cooperativo, de acordo com Schmidt e Perius (2003), tem como principal valor a contribuição social no sentido de colocar o trabalho acima do capital, o homem acima da máquina e, por fim, a realização pessoal acima da individualidade e da reprodução desenfreada do capital. O capital social é tido como um dos mecanismos pelos quais se pode superar o atraso e a pobreza, através do estabelecimento de laços de confiança interpessoais e de cooperação, com vistas à produção de bens coletivos. Putnam (2000) apresenta o capital social como um conjunto de aspectos das organizações sociais, tais como: redes de relacionamento, normas e confiança que permitem a ação e a cooperação para o benefício mútuo. Sendo que a confiança mútua entre os indivíduos é um pré-requisito para a existência e a formação de capital social. De acordo com Putnam (2000) [...] capital social refere-se a práticas sociais, normas e relações de confiança que existem entre cidadãos de uma dada sociedade” e “a cultura cívica podia atuar mais sobre as instituições e que sua ausência seria um obstáculo ao desenvolvimento institucional. Katz e Kahn (1974) afirmam que as organizações que se baseiam exclusivamente no papel prescrito possuem uma estrutura extremamente frágil. Fazse necessária a participação consciente do associado, e ele deve contribuir, da 64 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola melhor maneira possível, em favor daqueles que recebem a incumbência da administração da cooperativa. A organização cooperativa é uma das manifestações formais do capital social. Para sua formação, os indivíduos concluem que em conjunto podem obter resultados econômicos melhores do que se estivessem isolados. Uma cooperativa agropecuária, por exemplo, é criada quando um grupo de produtores rurais percebe que pode ter ganhos de escala na aquisição de insumos, acesso a novas tecnologias e elevação do preço de seus produtos. A proposta deste trabalho não é quantificar o capital social, o que constitui uma tarefa complexa, mas verificar como esse capital se manifesta no momento da construção de uma nova organização, neste caso, uma cooperativa, tentando identificar as necessidades dos membros, as quais fizeram com que eles aceitassem o processo coletivo e fazem com que eles tenham maior ou menor envolvimento nas questões de sua cooperativa. Trata-se de uma reflexão acerca das motivações que levaram os pequenos produtores a se organizarem de forma associativa, numa cooperativa agropecuária. 2 CONSTRUÇÃO ASSOCIATIVA O fenômeno do cooperativismo vem se destacando como uma das formas mais usuais de associativismo. O princípio da adesão livre e voluntária estabelece que o cidadão tenha liberdade para associar-se a uma cooperativa, desde que esteja apto e ciente de seus deveres, responsabilidades e direitos dentro da organização. O envolvimento e a participação em grupos podem ter consequências positivas para o indivíduo e para a sociedade. Dessa forma, o engajamento dos cidadãos, o apoio mútuo, a solidariedade e a confiança recíproca têm se apresentado para fomentar a construção de uma identidade coletiva. 2.1 CAPITAL SOCIAL Para Putnam (2000), o capital social é definido como: “características da organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuem para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas”. O autor 65 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola contextualiza a definição do capital social pela sua função, estando este presente sempre que houver características de organização social e que, intencionalmente ou não, potencializa o trabalho humano, coordenando as atividades dos agentes com resultados positivos. Também para Putnam (2000), este se reflete no grau de confiança existente entre os diversos atores sociais, seu grau de associativismo e o acatamento às normas de comportamento cívico, tais como o pagamento de impostos e os cuidados com que são tratados os espaços públicos e os “bens comuns”. Enquanto o capital humano é produto de ações individuais em busca de aprendizado e aperfeiçoamento, o capital social se fundamenta nas relações entre os atores sociais que estabelecem obrigações e expectativas mútuas, estimulam a confiabilidade nas relações sociais e agilizam o fluxo de informações, internas e externas. Em vez de controles e relações de dominação patrimonialistas, o capital social favorece o funcionamento de normas e sanções consentidas, ressaltando os interesses públicos coletivos. Enquanto as vias convencionais de formar capital humano estimulam o individualismo, a construção de capital social repercute favoravelmente na coesão da família, da comunidade e da sociedade. O capital social é a cola que une a sociedade, através de valores compartilhados e regras para a conduta social expressa nas relações pessoais, na confiança, e num bom senso de responsabilidade cívica, que tornam a sociedade mais do que uma coleção de indivíduos. Sob esta ótica o conceito de capital social tem se mostrado muito relevante para diversos tipos de aplicações, principalmente por permitir um melhor entendimento das relações entre indivíduos ou cooperativas e seus efeitos em termos de desempenho econômico e social. Para o autor, capital social é erroneamente confundido com socialização, confiança mútua ou relações pessoais de longo prazo e, na realidade, envolve um complexo balanço entre “laços fortes” e “laços fracos”. Segundo Putnam, foi Granovetter (1973) que contribuiu para qualificar a natureza dos laços sociais. [...] um laço forte entre dois indivíduos envolve uma elevada dose de tempo e esforço dedicados à relação, feição emocional, confiança e reciprocidade. Logo é um relacionamento que se molda e auto-reforça ao longo do tempo. Um laço fraco é exatamente o oposto desta situação, envolvendo 66 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola transações pontuais entre agentes, onde a identidade dos indivíduos é de menor importância e questões de confiança e reprocidade são mínimas. Para o autor o “laço forte ou bonding social capital” tende a fortalecer, acima de tudo, o próprio grupo e reforçar as identidades excludentes e os grupos homogêneos, e o “laço fraco ou bridging social capital” visa fortalecer as relações com o mundo fora do grupo e abarca pessoas de diferentes setores sociais (p. 22). O autor aponta algumas características positivas do capital social: a) promover trocas mutuamente benéficas com o desenvolvimento das normas do comportamento, da confiança e da reputação cívica; b) estabelecer um processo de tomada de decisão consultiva e coletiva que reduza externalidades negativas e promova a produção de bens públicos, e; c) reduzir os custos de transação que facilitam o fluxo da informação e da inovação. Putnam (2000) também percebeu a existência de novas formas contemporâneas de associações, particularmente os movimentos sociais e as organizações do terceiro setor. Segundo Putnam, “tais organizações não providenciam nem conectividade entre membros, nem engajamento direto em uma forma cívica do dar e receber, e certamente elas não representam democracia participativa”. Sua principal objeção se baseia na suposição de que os laços e obrigações que unem os membros destes movimentos sejam mais fracos do que em organizações tradicionais, falhando na promoção de confiança social. As organizações e associações que Putnam considera mais preparadas para promover o espírito comunitário são exatamente aquelas que tendem a ser mais excludentes, a defender e preservar a ordem e os privilégios existentes e que, muitas vezes, trabalham em prol da privatização de espaços e questões públicas. O estudo de Putnam revela que há uma forte correlação entre modernidade econômica e desempenho institucional, e que o desempenho institucional está fortemente correlacionado à natureza da vida cívica. No ambiente interno, as associações civis incutem em seus membros hábitos de cooperação, solidariedade, senso de responsabilidade comum com empreendimentos coletivos, bem como espírito público, provocando um intenso engajamento cívico. 67 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola O capital social é relevante para as cooperativas, a fim de que estas possam liderar e conduzir o seu próprio desenvolvimento, condicionando-o à mobilização dos fatores produtivos num processo de autogestão. De acordo com Putnam (2000), o capital social capacita as pessoas a realizarem determinados projetos que sozinhas não conseguiriam. Agir em conjunto torna os objetivos mais palpáveis e aumenta a probabilidade de sucesso nas atividades econômicas. 2.2 COOPERATIVISMO, MOTIVAÇÕES E FIDELIDADE Segundo Schneider (2010), [...] a cooperativa é uma associação autônoma de pessoas que se unem, voluntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente gerida. A organização cooperativa é uma das manifestações formais do capital social. Para sua formação, os indivíduos concluem que em conjunto podem obter resultados econômicos melhores do que se estivessem isolados. Uma cooperativa agropecuária, por exemplo, é criada quando um grupo de produtores rurais percebe que pode ter ganhos de escala na aquisição de insumos, acesso a novas tecnologias e elevação do preço de seus produtos. O Cooperativismo é uma filosofia composta por sete princípios básicos: adesão voluntária e livre; gestão democrática pelos membros; participação econômica dos membros; autonomia e independência; educação, formação e informação; intercooperação; interesse pela comunidade. O primeiro deles trata da liberdade que temos em nos unir a uma cooperativa, se quisermos, e a ação que voluntariamente devemos tomar para isto. Ou seja, nenhum cooperado é obrigado a fazer parte da cooperativa e manter-se nela. O cooperativismo une as forças de cada um pelo bem de todos, mas se alguém não mais se sentir compromissado com isto, poderá deixar a sociedade cooperativa. Do mesmo modo é importante entender que, ao ingressar numa cooperativa, você assume compromisso com os demais cooperados e com o empreendimento em si. Sua participação será muito importante para a continuidade da cooperativa e 68 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola o fortalecimento de sua atuação. Quanto mais ativo e sólido é o empreendimento cooperativo, mais benefícios seus associados obtêm. O ingresso de cada associado faz a cooperativa crescer e ampliar a oferta de benefícios a todos os cooperados. O Capital Social, obrigatório para adesão a uma cooperativa, é a contribuição do cooperado e símbolo de seu compromisso com ela. Mas, quando ingressamos em uma sociedade cooperativa, raramente a deixamos, uma vez que são muitos os benefícios que obtemos pela força de todos. Para o perfeito funcionamento da cooperativa é extremamente importante a sensibilização dos candidatos a cooperantes, a fim de que os mesmos estejam psicologicamente preparados para enfrentar os problemas internos e externos e, principalmente, para não serem convencidos a ceder às tentações do capitalismo que preza pelo individualismo e pela dominação. É essencial que o treinamento seja focado nas características e princípios do cooperativismo. Para constituir uma cooperativa é fundamental que todos aqueles que desejam integrar esta sociedade tenham os mesmos objetivos, tenham clareza dos passos a serem dados e se identifiquem com os valores e princípios do cooperativismo. É importante que todos participem de todas as etapas da constituição da cooperativa. Mais do que a legalização de uma empresa ou a organização de um trabalho, a constituição de uma cooperativa é a construção de uma sociedade de pessoas com objetivos comuns. Apenas a participação de todos faz com que ela exista. É necessário que a cooperativa, por meio de seu estatuto, reflita o grupo e cada pessoa individualmente. Por isso, antes de formar uma cooperativa, discuta bem com o grupo e faça do processo de formação desta um exercício democrático de construção do coletivo. Este aprendizado vai ser útil para toda a vida da cooperativa. Portanto, a questão central para o sucesso cooperativo é a união entre a ação e o propósito de seus membros, associados à qualidade de seus produtos e serviços. A energia que propulsiona o movimento cooperativista provém da participação dos cooperados na sociedade. No momento em que ocorrer o distanciamento do seu maior interessado, a cooperativa perde a sua identidade, vindo, no futuro, a ter seus objetivos questionados e sua existência ameaçada. 69 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola Um ponto importante a ressaltar é que as pessoas só participam daquilo que lhes interessa e daquilo que elas se sentem motivadas a participar. O intercâmbio entre cooperado e cooperativa estimula o associado a sentir mais confiança e acreditar que é através da união e da participação dos associados que a cooperativa avança e atinge seus objetivos, Ricciardi (1986). O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre os interesses da cada membro da sociedade e os objetivos coletivos simbolizados nas necessidades da cooperativa em permanecer ativa e dinâmica. Portanto, o desafio para as estruturas cooperativas modernas é manter seu papel de sistema produtivo centrado no homem e, ao mesmo tempo, desenvolver uma organização capaz de competir com empresas de outras naturezas com orientação para o mercado, isso na visão de Zylberstjn (1994). Segundo Meireles (1981), a prática social do cooperativismo revela diferença na participação efetiva dos associados nas atividades das cooperativas. A participação nas atividades de uma cooperativa, muitas vezes, limita-se à inscrição no quadro social e à entrega de produtos para comercialização em grupo. Porém, observa-se que a busca de satisfação de necessidades individuais, às vezes divergentes entre os associados, revela que a cooperação não se apresenta como um processo consciente, resultado de ações espontâneas. Outrossim, as satisfações buscadas são, em sua maioria, de caráter econômico, procurando obter as vantagens da prestação de serviços, especialmente daqueles mais ligados à produção. Muitos associados não se sentem estimulados a aumentar a sua produção e limitam-se a participar com uma quota mínima de produtos a serem comercializados via cooperativa, alegando desestímulo de preços, não compensadores em relação ao custo da produção. Além disso, não concebem a cooperativa como um meio para superar as condições adversas do mercado e para levá-los a melhores condições sociais e econômicas. As cooperativas são empresas de propriedade coletiva, pertencente aos seus associados, e democraticamente gerida por eles. Essa associação numa cooperativa dá-se não por união de capitais, mas do trabalho e/ou do compromisso de realizar as transações de forma conjunta e de participar na organização. A principal relação a ser gerida nestas organizações é a relação da cooperativa com os seus membros. Essa relação privilegiada com seus cooperados deveria transformar-se na sua vantagem competitiva. Para isso, o envolvimento efetivo e o 70 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola compromisso dos seus membros passam a ser cruciais. Mas, para isso, essa relação deve ser construída e, nesse sentido, a educação e a comunicação têm um papel absolutamente relevante a cumprir. A cooperativa tem, assim, uma relação quase simbiótica com os seus associados, já que, diferentemente de outras empresas, se os agricultores a abandonam, ela não consegue continuar sendo uma organização dinâmica, independentemente de qual seja o seu nível de eficiência operativa. A participação dos associados na cooperativa não deve ser imposta, mas sim uma adesão espontânea dos indivíduos que se origina na materialização de certos valores que o ser adota como seus. 3 METODOLOGIA O objetivo de realização da pesquisa junto aos associados da Cooperativa Agropecuária e Industrial São Valério do Sul (COOPERVALÉRIO) foi conhecer as motivações que levam o pequeno produtor a se associar na cooperativa, suas expectativas e comportamentos enquanto associado. Para abordar a questão proposta neste trabalho, optou-se por realizar um estudo exploratório e descritivo, dado que a pesquisa exploratória tem por finalidade principal desenvolver, esclarecer e modificar ideias e conceitos, de forma a tornar mais explícito o tema ou mesmo a construir hipóteses a seu respeito. (GIL, 1999). A pesquisa descritiva, por sua vez, tem o objetivo de traçar as características de determinada população ou fenômeno, ou o estabelecimento de relações entre elas, mediante a utilização de técnica de coleta de dados padronizada. Para este estudo, em face às características da Cooperativa Agropecuária e Industrial São Valério do Sul (COOPERVALÉRIO), que é formada por pequenos produtores de leite, optou-se pelo estudo de caso. O método de estudo de caso consiste numa investigação detalhada de um ou poucos objetivos, de maneira a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado. Para a verificação das hipóteses que buscam entender a motivação que leva um pequeno produtor de leite a associar-se numa organização cooperativa como forma de potencializar o poder de barganha na comercialização de leite, realizou-se uma pesquisa de campo com a utilização de um questionário semiestruturado, aplicado pelo próprio pesquisador. O questionário é caracterizado como um 71 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola instrumento de coleta de dados primários, constituído por uma série ordenada de perguntas respondidas com a presença do entrevistador. (MARCONI; LAKATOS, 2007). Para efeito de estudo, utilizou-se a quantidade de associados que estavam realizando a entrega coletiva da produção de leite organizada pela cooperativa. O questionário, com um total de 17 perguntas abertas e fechadas, foi utilizado como forma de medir e clarear os aspectos relativos à organização associativa, tentando identificar os fatores preponderantes que determinam a ação de cada produtor ao integrar a cooperativa. 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES A Coopervalério foi constituída em 12 de junho de 2007, contando com 77 associados fundadores. A história do associativismo entre os produtores de leite do município de São Valério do Sul, situado na região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, iniciou em 2004, com a formação de uma associação. Inicialmente, contando com 30 produtores de leite, a associação organizou a comercialização do leite de forma coletiva, em que a coleta era realizada individualmente e a venda do produto centralizada no nome do presidente, com emissão de nota fiscal de pessoa física. A formação da associação e, por conseguinte, a concretização da cooperativa não partiram somente da vontade dos produtores de leite. Havia apoio da Emater7, para a organização de formas associativas de trabalho, e do Poder Público Municipal, para resolver o problema fiscal de que as empresas compradoras de leite não emitiam nota fiscal de compra do leite, resultando em evasão de divisas do município. O preço do leite pago aos pequenos produtores era substancialmente inferior aos preços médios praticados na região, corroborando com Schneider (2004), em que afirma que as cooperativas representam uma resposta aos problemas impostos pela globalização. No caso, as indústrias compradoras do leite impunham restrições para a coleta e comercialização para manter os preços os mais baixos possíveis e acumular lucros em suas plantas industriais. 7 Emater - Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural 72 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola A pesquisa de campo confirmou esta ideia quando apontou que 90% dos entrevistados informaram que o principal motivo para a formação da cooperativa foi melhorar o preço do leite, e também que 80% dos entrevistados apontaram a melhora do preço do leite como a maior contribuição proporcionada pela cooperativa. O associativismo, no caso, contribuiu para a cooperação com sentido econômico, concordando com os estudos de Frantz (2002), que apontam o cooperativismo como oportunidade de crescimento e desenvolvimento coletivo. Outro aspecto apontado por 55% dos entrevistados é que um dos motivos que os levaram a integrar a cooperativa é a segurança que ela proporciona aos seus associados. Putnam (2000) refere-se ao grau de confiança construído pelo capital social e a confiabilidade estimulada por expectativas mútuas e coesão do grupo participante como fator decisivo ao êxito das instituições coletivas. Os associados buscaram, na cooperativa, a certeza de receber o valor referente à entrega da produção de leite do mês anterior, pois houve situações em que sofreram calote e outras em que o preço recebido era injusto. Segundo Putnam (2000), o capital social não se desgasta com o uso e não se esgota, mas pode ser destruído ou reduzido, aumentando a vulnerabilidade dos mais pobres. Isto foi identificado na Coopervalério, quando a cooperativa teve uma redução no número de associados que continuam mantendo relações com a cooperativa. De um total de 77 associados, apenas 26 comercializam leite com a cooperativa, sendo estes com menores volumes de produção. O autor também afirma que, quando a confiança é baixa, as pessoas se apoiam em suas famílias, quando é alta, permite a expansão de contatos. A combinação da pobreza e a desconfiança mútua minam a solidariedade horizontal, contribuindo para a redução de associados fortemente engajados nas atividades da cooperativa. A criação da cooperativa não foi em função da ideologia, e sim em função de uma necessidade. Conforme descreve Schneider (2010), “o aglutinador não é o conjunto de valores, mas a segurança das necessidades de sobrevivência”. O cooperativismo aparece como uma alternativa e estratégia de tentar sobreviver no mercado. Tanto dirigentes quanto associados centraram sua ação na questão do preço, e os produtores passaram a ver a cooperativa apenas como um meio de melhorar o 73 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola preço do leite. É uma estratégia que tem seu limite e precisa ser superada com educação e capacitação cooperativa. A questão econômica não pode ser o único elemento a garantir a permanência do associado na cooperativa, ele precisa compreender que a cooperativa é um meio de melhorar a sua qualidade de vida e a da sua comunidade, com base em um projeto de desenvolvimento que lhe permitirá superar sua precária situação. O estudo corroborou com Schneider, pois apontou que, para fazer parte da cooperativa, não foi necessário realizar curso de formação. Todos os entrevistados afirmaram não ter participado de formação, e, embora 20 % dos entrevistados afirmassem conhecer os princípios cooperativos, nenhum associado foi capaz de citar qualquer princípio. Segundo Schneider (2004), os resultados favoráveis buscados por meio da cooperação, aos que a praticam, vão se atenuando à medida que os objetivos vão sendo alcançados. No questionário identificamos que 50% dos entrevistados declaram-se pouco satisfeitos com a cooperativa e apontam para a necessidade da cooperativa oferecer outros serviços e, principalmente, melhorar ainda mais o preço do leite. No que se refere a novos serviços, a pesquisa apontou o anseio dos associados na ampliação da ação cooperativa com insumos necessários ao desenvolvimento das principais atividades produtivas dos cooperados. Quanto ao preço do leite, quando questionados sobre o valor, os entrevistados não informaram com exatidão o preço praticado pela concorrência, gerando incertezas, embora todos apontassem que o preço pago pela cooperativa poderia ser melhor, ou seja, segundo eles, a cooperativa deveria procurar negociar melhor a produção. 5 CONCLUSÃO A Coopervalério provou, pelo seu histórico, que é capaz de se tornar uma cooperativa forte, através da união e da valorização de todos os seus cooperados. A cooperativa conta com uma grande experiência no setor comercial da produção de leite e no cotidiano de uma organização cooperativa. O cooperativismo tem mais um desafio: resgatar a cultura cooperativista que vem sendo esquecida pelos seus membros, uma vez que a união está dando lugar 74 Capítulo III - Capital Social na Formação de uma Cooperativa Agrícola aos interesses particulares. Os cooperados estão perdendo a motivação, a participação e o comprometimento com a cooperativa. Surge a necessidade de capacitação cooperativa. O cooperativismo não pretende negar o capitalismo, mas enxergar o fenômeno associativo da cooperação como forma de sobrevivência nesse sistema e como mecanismo de valorização da produção e possibilidade de manutenção da identidade. O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre os interesses da cada membro da sociedade e os objetivos coletivos simbolizados nas necessidades da cooperativa em permanecer ativa e dinâmica. A disposição dos sócios para o desenvolvimento e crescimento da cooperativa será fundamental, desta forma, é necessária a adesão de pessoas realmente interessadas na organização. A formação de cooperativas não deve iniciar com um problema que pode ser resolvido de forma coletiva. REFERÊNCIAS CANTERLE, N. M. G. O associativismo e suas relações com o desenvolvimento. Francisco Beltrão, PR: Unioeste, 2004. Disponível em: <www.unioeste.br>. Acesso em: 08 jul. 2013. COSTA, B. M. 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