Dery Delson Cardoso Andrade Uma Análise Estratégica sobre a Internacionalização da Enamorata para o Mercado Caboverdeano UMinho|2014 Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Dery Delson Cardoso Andrade Uma Análise Estratégica sobre a Internacionalização da Enamorata para o Mercado Caboverdeano outubro de 2014 Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Dery Delson Cardoso Andrade Uma Análise Estratégica sobre a Internacionalização da Enamorata para o Mercado Caboverdeano Relatório de Estágio Mestrado em Negócios Internacionais Trabalho realizado sob a orientação do Professor Doutor José Carlos Pinho outubro de 2014 DECLARAÇÃO Nome: Dery Delson Cardoso Andrade Endereço eletrónico: [email protected] Título do Relatório de Estágio: Uma Análise Estratégica sobre a Internacionalização da Enamorata para o Mercado Caboverdeano Orientador: Professor Doutor José Carlos Pinho Ano de conclusão: 2014 Designação do Mestrado: Negócios Internacionais DE ACORDO COM A LEGISLAÇÃO EM VIGOR, NÃO É PERMITIDA A REPRODUÇÃO DE QUALQUER PARTE DESTE RELATÓRIO DE ESTÁGIO. Universidade do Minho, _____/____/_____ Assinatura:____________________________________________________________ ii Agradecimentos Para a elaboração deste relatório de estágio de Mestrado foi de extrema importância a contribuição e o apoio de várias pessoas e instituições, a quem gostaria, nesta parte, de manifestar o meu profundo agradecimento. Em primeiro lugar, quero agradecer a Deus por ser a fonte onde vou buscar as energias e por sempre me ter guiado pelos bons caminhos. Aos meus pais e irmãos por serem o meu suporte emocional e a minha fonte de energia para que eu lute todos os dias para superar todos os obstáculos que aparecem na minha vida. A minha namorada, por estes três anos de dedicação e por estar sempre ao meu lado com a energia positiva e estimulante para o meu percurso académico. E principalmente ao meu filho Enzo, que nasceu durante a elaboração deste Relatório e em quem encontrei aquela força e coragem necessárias para a conclusão do mesmo. Quero também agradecer a preciosa e fundamental contribuição do Professor Doutor José Carlos Pinho, orientador científico deste Relatório de Estágio de Mestrado, pela grande colaboração, incentivo e partilha dos seus conhecimentos desde a cadeira de Marketing Internacional lecionada no 1º ano de Mestrado e ao longo da realização deste Relatório. Esta influência intelectual marcou sobremaneira o meu percurso académico e foi crucial para a realização do presente trabalho. Em seguida, quero agradecer a Dra. Susana Ribeiro e a Dra. Fátima Costa por me terem acolhido nas suas empresas e terem confiado a minha pessoa um Projeto de tão elevada importância que passaria pela elaboração de uma estratégia de internacionalização da Enamorata para o mercado caboverdeano. E também pela partilha das suas idéias e pelo fornecimento de toda a informação necessária para a elaboração deste relatório. Um sincero agradecimento também aos Professores Jorge Cerdeira e Elisabete Sampaio de Sá pelos conhecimentos teóricos partilhados nos ramos de Economia Internacional e Empreendedorismo, respetivamente. Uma palavra de agradecimento também ao Professor Dr. Francisco Carballo-Cruz, pelo apoio prestado na fase de procura de Estágio e pelas informações que permitiram um melhor enquadramento dentro do objetivo real do relatório. iii iv Resumo Uma Análise Estratégica sobre a Internacionalização da Enamorata para o Mercado Caboverdeano Este relatório aborda a temática da Internacionalização das empresas e analisa os fatores e as estratégias utilizadas por pequenas e médias empresas no processo de internacionalização. O presente relatório serve também para descrever um estágio de três meses realizado de forma conjunta entre a empresa de Consultoria “Amazing Ideas” e a empresa “Enamorata” com o objetivo de se delinear um projeto estratégico e proativo que se basea numa análise objetiva e rigorosa sobre a empresa e sobre o mercado caboverdeano permitindo a criação de bases sólidas para uma futura internacionalização desta última empresa que é especializada em produtos swimwear para o mercado caboverdeano. Pretende-se, então, aliar a teoria à prática através da busca da investigação acadêmica pertinente aos nossos objetivos, bem como adequar esta teoria a realidade social, econômica e cultural em que a Enamorata está inserida. Este relatório alicerçou-se primeiramente nos conhecimentos teóricos adquiridos no primeiro ano (parte curricular) do Mestrado. Pretendeu-se, no mesmo, fazer um enquadramento teórico através da seleção criteriosa de estudos e teorias pertinentes ao processo de internacionalização das PME´s como os fatores que estimulam as mesmas a exportar; os critérios de escolha do mercado e os modos de entrada e/ou de estabelecimento adotados, dando maior enfâse a Teoria sobre a exportação. Toda esta analise é feita sobre o arcaboiço teórico existente na literatura sobre a Internacionalização, não se descurando uma metodologia qualitativa baseada num estudo de caso e em entrevistas que serviram de base para a elaboração de uma estratégia de internacionalização da Enamorata para o mercado caboverdeano. Palavras-chave: Análise estratégica, internacionalização, mercado caboverdeano, Teoria sobre a exportação. v vi Abstract A Strategic Analysis on the Internationalization of Enamorata® to the Cape Verdean Market This report addresses the theme of the internationalization of companies and analyzes the factors and the strategies used by small and mid-size companies in the process of internationalization. This report also describes a three month internship accomplished in a combined effort between the consulting company “Amazing Ideas” and the company “Enamorata” with the objective of outlining a proactive strategic plan based on rigorous and objective analysis about the company and the Cape Verdean market allowing the creation of solid bases for a future internationalization of this company that specializes in swimwear products to the Cape Verdean market. It is intended to combine theory and practice through academic research relevant to our objectives as well as suiting this theory to the social, cultural and economic reality in which Enamorata is a part of. This report’s foundations are based on the theoretical knowledge obtained during the first year of the master’s program. It was also intended during the first year to make a theoretical framework using a rigorous selection of studies and theories relevant to the process of internationalization of small and mid-size companies such as the factors that stimulate exports; the choice of market criteria and the ways of entering and establishing itself in it, giving more emphasis on the theory of exporting. All this analysis is made under the theoretical structure existent on the literature about internationalization, not neglecting a qualitative methodology based on a case study and on interviews that served as foundations for the elaboration of an internationalization strategy of Enamorata to the Cape Verdean market. Keywords: Strategic analysis, Internationalization, Cape Verdean market, Theory of Exporting vii viii ÍNDICE GERAL Agradecimentos …………………………………………………………………………….. iii Resumo ……………………………………………………………………………………… v Abstract ……………………………………………………………………………………... vii Índice Geral ………………………………………………………………………………… ix Lista de Abreviaturas e Siglas ………………………………………………………........... xiii Índice de Figuras ……………………………………………………………………........... xv Índice de Quadros ………………………………………………………………………….. xvi PARTE I – INTRODUÇÃO ……………………………………………………………… 1 1 – Introdução ………………………………………………………………………………. 3 1.1 Contextualização do Tema ………………………………………………………….. 3 1.2. Objetivos e Procedimentos metodológicos ………………………………………… 5 1.3.Estrutura do Relatório de Estágio …………………………………………………… 7 PARTE II – APRESENTAÇÃO DA EMPRESA DE ACOLHIMENTO …………….. 9 2 – Empresa de acolhimento ………………………………………………………………. 11 2.1. Dados de Identificação da Empresa ………………………………………….......... 11 2.2. Breve Historial da Empresa ………………………………………………….......... 12 2.3. Organograma ………………………………………………………………………. 14 2.4. Gama de Produtos …………………………………………………………………. 15 2.5. Indicadores Financeiros da Empresa ………………………………………………. 18 ix PARTE III – O MERCADO CABOVERDEANO …………………………………... 19 3.1. Enquadramento do País ………………………………………………………….. 21 3.2. As Relações Comerciais entre Portugal e Cabo-Verde …………………………. 25 3.3. Exportar para Cabo Verde ………………………………………………………. 34 3.4. Análise SWOT do mercado caboverdeano …………………………………....... 37 PARTE IV – ENQUADRAMENTO TEÓRICO DO TEMA …………………........ 39 4 – Revisão de Literatura ………………………………………………………………. 41 4.1. O Processo de Internacionalização ……………………………………………... 41 4.2. Os determinantes do Processo de Internacionalização ………………………… 44 4.3. As Teorias da Internacionalização …………………………………………....... 45 4.3.1. Conceito de PME’s ……………………………………………………........ 45 4.3.2. Modelo de Uppsala ……………………………………………………........ 47 4.3.3. Teoria das Redes ………………………………………………………........ 49 4.3.4. Visão Baseada nos Recursos ………………………………………………. 51 4.3.5. Teoria do Empreendedorismo Internacional …………………………........ 54 4.4. Seleção dos Mercados Externos ………………………………………………… 57 4.5. Determinantes da Escolha do Modo de Entrada ……………………………….. 61 4.6. Classificação dos Modos de Entrada ………………………………………....... 70 4.6.1. Modos sem Participação de Capital ……………………………………….. 73 4.6.1.1. Acordos Contratuais ………………………………………………….. 74 4.6.2. Modos com Participação de Capital ………………………………………. 80 4.6.2.1. Equity Joint Ventures ………………………………………………… 80 4.6.2.2. Subsidiária de Controlo Integral ……………………………………... 82 4.7. Análise dos Fatores estimulantes das Exportações nas PME’s ………………….. 84 x 4.8. O Processo de Exportação ………………………………………………….......... 94 4.8.1. Exportação Direta ………………………………………………………… 94 4.8.2. Exportação Indireta ………………………………………………………. 96 4.8.3. Outras Formas de Exportação …………………………………………..... 98 PARTE V – METODOLOGIA APLICADA A PESQUISA ……………………… 101 5. Metodologia aplicada a Pesquisa …………………………………………………… 103 5.1. A Abordagem Qualitativa ……………………………………………………… 103 5.2. A análise das Entrevistas. Verificação dos Objetivos da Investigação ……….. 106 5.2.1. As motivações empresariais e a estratégia inicial de Internacionalização …………………………………………………….. 109 5.2.2. A Seleção do mercado …………………………………………………….. 111 5.2.3. As Especificidades do Processo de Exportação ………………………...... 113 5.2.4. Os Obstáculos à Internacionalização ……………………………………... 114 PARTE VI – CONCLUSÃO ………………………………………………………. 117 6. Conclusão …………………………………………………………………………. 119 6.1. Implicações práticas ………………………………………………………...... 119 APÊNDICES ……………………………………………………………………..... 127 Apêndice I – Pauta Aduaneira de Cabo Verde ……………………………………... 129 Apêndice II – Guião das Entrevistas ……………………………………………….. 131 Apêndice III – Síntese da Entrevista à Enamorata ………………………………..... 133 Apêndice IV – Síntese da Entrevista à Giliana ……………………………………... 137 BIBLIOGRAFIA ………………………………………………………………..... xi 141 xii LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APEC Asia-Pacific Economic Cooperation CAE Classificação de Atividades Econômicas CEDEAO Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental CEO Chief Executive Officer CIF Custo, Seguro e Frete CL Classe da Mercadoria CTT Correios, Telégrafos e Telefones de Portugal CV Cabo Verde DI Direitos de Importação DIMO Direct Investment Marketing Operations DIPO Direct Investment Ptoduction Operations ECOWAS Economic Community of West African States ECV Escudo Caboverdeano EIU The Economic Intelligence Unit EJV Equity Joint Ventures EUA Estados Unidos da América FMI Fundo Monetário Internacional ICE Imposto de Consumo Especial IDE Investimento Direto Estrangeiro INE Instituto Nacional de Estatística ITC International Trade Centre IVA Imposto sobre o Valor Acrescentado I&D Investimento & Desenvolvimento xiii JAN. Janeiro JUL. Julho MN Empresa Multinacional NIMO Non-Investment Marketing Operations NIPO Non-Investment Production Operations OMC Organização Mundial do Comércio PALOP Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa PIB Produto Interno Bruto PME Pequena e Média Empresa SWOT Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats TE Taxa Ecológica TEA Taxa Estatística Aduaneira TC Taxa Comunitária UC Unidades de medida utilizada na quantificação da mercadoria UPS United Parcel Service USD Dólares americanos UV Ultra-violeta VAR. Variação VBR Visão baseada nos Recursos xiv ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1 – Organigrama da Enamorata, em 31 de Dezembro de 2013 ……………….......... 14 Figura 2 – Dados explicativos do ambiente de negócio em Cabo Verde …………………... 22 Figura 3 – O mecanismo básico de internacionalização ……………………………............ 48 Figura 4 – Modelo de fluxo lógico relativo ao processo de decisão de entrada num mercado ……………………………………………………………............ 58 Figura 5 – Fatores a considerar na decisão do modo de entrada segundo Root ……............ 66 Figura 6 – Modelo hierárquico de escolha do modo de entrada ………………………........ 73 Figura 7 – Classificação dos Estímulos à Exportação ……………………………………… 87 xv ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1 – Dados relativos aos diferentes funcionários da Enamorata …………………… 15 Quadro 2 – Caraterização dos vários produtos oferecidos pela Enamorata ……………….. 17 Quadro 3 – Indicadores Financeiros da Enamorata ………………………………………... 18 Quadro 4 – Principais Indicadores Macroeconómicos …………………………………….. 24 Quadro 5 – Principais Clientes de Cabo Verde …………………………………………...... 25 Quadro 6 – Principais Fornecedores de Cabo Verde ……………………………………..... 25 Quadro 7 – Posição e Quota de Cabo Verde em relação a Portugal ……………………...... 26 Quadro 8 – Balança comercial superavitária de Portugal em relação a CV relativo ao comércio de Bens ………………………………………………...... 27 Quadro 9 – Posição e Quota de Portugal em relação a CV ………………………………… 27 Quadro 10 – Exportações portuguesas para CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre 2013 e 2012 ………………………………………. 29 Quadro 11 – Exportações portuguesas para CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre o 1º semestre de 2014 e o mesmo período de 2013 ………… 30 Quadro 12 – Importações portuguesas provenientes de CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre 2013 e 2012 …………………………………...... 32 Quadro 13 – Importações portuguesas prov. de CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre o 1º semestre de 2014 e o mesmo período de 2013 ………... 33 Quadro 14 – Análise SWOT do mercado caboverdeano …………………………………… 38 Quadro 15 – Categorização das empresas ………………………………………………….. 46 Quadro 16 - Relação entre os recursos de uma empresa e a estratégia de entrada ……….... 65 Quadro 17 – Fatores que afetam a decisão do modo de entrada no mercado estrangeiro Segundo Hollensen …………………………………………………………… 69 Quadro 18 – Variação do nível de impacto dos estímulos à exportação ………………….. 93 Quadro 19 – Pauta Aduaneira de Cabo Verde – Parte que incide sobre os produtos exportados pela Enamorata …………………………………………………. 130 xvi I- INTRODUÇÃO 1 2 1. INTRODUÇÃO 1.1. Contextualização do Tema A globalização da economia e os instrumentos a ela associados tem propiciado às empresas um acesso mais vasto, rápido e de forma simples, do que alguma vez tiveram aos mercados de todo o mundo. Esta maior interdependência entre os países permite que as mercadorias sejam vendidas em mais países, em maiores quantidades e em maior variedade. E além disso, há uma maior difusão de informações e dos meios tecnológicos, o que permite às empresas conhecerem melhor os mercados onde pretendem transacionar e, desta forma, reduzirem os riscos de insucesso. Tudo isto acaba por levar à um aumento do processo de internacionalização das empresas que queiram ganhar uma vantagem competitiva em relação aos concorrentes. Dessa forma, os gestores de empresas têm de se adaptar às novas condições de mercado através da alteração das estratégias da sua organização como forma de aumentar o lucro. A Constituição da República Portuguesa estabelece como encargo do Estado português incentivar “...a atividade empresarial, em particular das pequenas e médias empresas..,”. Esta obrigação compreende as Pequenas e Médias Empresas (PME’s) que se encontram presentes em todos os setores da indústria e dos serviços e evidenciam uma grande capacidade de adaptação face à evolução da situação económica e social. Segundo dados recentes do INE, as PME’s representam 99,5% das empresas portuguesas, por isso deve-se fazer análises teóricas que permitam oferecer às empresas um background das teorias que abordam as atividades destas empresas, permitindo assim que as mesmas possam agir de forma eficiente num contexto global cada vez mais exigente. E neste contexto de crise económica, e níveis de crescimento nacionais muito baixos (ou nulos), é essencial para as empresas portuguesas a entrada em novos mercados internacionais, tratando-se da sobrevivência das próprias empresas. Desta forma, o tema da Internacionalização das PME´s ganha importância no debate teórico pois é de extrema importância que as empresas optem pelas melhores estratégias e modos de entrada em outros mercados como forma de aumentar os seus lucros e evitar a sua falência, que é o que acontece 3 com muitas destas empresas que não têm capacidade para identificar eventuais oportunidades que poderão existir nos vários mercados internacionais. É neste contexto que as empresas começam a adotar uma opção estratégica de internacionalização. Uma análise criteriosa dos fatores que estimulam este processo é de suma importância para que os gestores saibam analisar os sinais e tenham a perceção do momento adequado para se internacionalizar e a capacidade de decisão sobre a forma de entrada nos mercados externos. Esta análise sobre o momento e a forma ideal de entrada num mercado externo não é fácil de ocorrer, principalmente nas PME´s devido a sua pequena dimensão. Contudo este fator por si só não deve constituir uma inibição do processo de internacionalização e do aproveitamento das oportunidades que surgem nos mercados externos, mas sim um desafio que as pequenas empresas têm de enfrentar para fazer face à diminuição da procura interna. Um fator muito importante é o facto do gestor ter um espírito empreendedor, pró-ativo e dinâmico; neste caso, as exportações podem ser o “mote” inicial no processo de internacionalização, podendo envolver menos riscos e ter um impacto positivo e direto nos resultados. Os mercados dos PALOP, e em particular o mercado caboverdeano, são mercados onde as empresas portuguesas poderão encontrar oportunidades de crescimento para os seus negócios. Muitos autores defendem a “distância psíquica” como sendo um fator muito importante no processo de internacionalização e sendo Cabo Verde uma ex-colónia portuguesa com uma cultura muito influenciada pelos hábitos portugueses e com uma aceitação generalizada dos produtos portugueses, é de se prever uma maior probabilidade de sucesso quando uma empresa portuguesa decide entrar neste mercado. Este Relatório de Estágio visa, então, desenvolver uma estratégia de internacionalização de uma empresa portuguesa para o mercado caboverdeano – a Enamorata. Devido à necessidade da compreensão das variáveis estruturais e estratégicas subjacentes ao processo de internacionalização das PME´s para a elaboração objetiva e estruturada do processo de internacionalização da Enamorata é que surge este relatório que pretende ser, num ambiente de crise económica e de poucas oportunidades de mercado, uma ferramenta para ajudar não só esta empresa mas também outras PME´s que pretendam desenvolver uma maior capacidade de aproveitar as oportunidades de se expandirem a outros mercados e de encontrarem soluções lucrativas em mercados mais apetecíveis. 4 1.2. Objetivos e Procedimentos metodológicos Este trabalho tem como objetivo geral a descrição das atividades e conhecimentos adquiridos ao longo do estágio realizado em conjunto com as empresas Amazing Ideas e Enamorata e que teve a duração de 3 meses (entre 4 de Novembro de 2013 a 7 de Fevereiro de 2014). Este estágio visa a criação de um projeto para a internacionalização da empresa Enamorata (produtos swimwear de luxo) para o mercado caboverdeano e implica uma análise minuciosa desta empresa (valores, objetivos, canais de distribuição e posicionamento no mercado português), como também, um estudo do mercado caboverdeano para se perceber a viabilidade do sucesso deste empreendimento e as estratégias que acarretassem menos riscos para a empresa. Para que a análise tivesse uma coerência e uma objetividade tão necessárias nestes tipos de projeto, este relatório teve um cuidado de fazer um estudo do arcaboiço teórico relevante e pertinente existente sobre o processo de internacionalização das PME´s. Este estudo foi feito com base na informação documental fruto de uma pesquisa bibliográfica exigente realizada através de livros científicos e artigos publicados em revistas internacionais conceituadas cujo enfoque está centrado na teoria clássica do processo de internacionalização, na teoria existente sobre a exportação e nos fatores que estimulam este modo de entrada em outros países. Em termos metodológicos, este relatório baseia-se num estudo de caso, visto analisar um tema que é investigado num contexto real (Yin, 2003). A metodologia é baseada no paradigma fenomenológico pelo fato da pesquisa se desenvolver no campo (no terreno) e pelo facto da investigação ter um maior nível de profundidade e extensão fruto da amostra ser pequena (1 empresa). Neste caso concreto, o estudo de caso está associado a uma pesquisa exploratória pois o seu enfoque incide sobre a obtenção de conhecimento e familiaridade com a área de estudo através de dados baseados na observação, experiência e através de entrevistas. Através da metodologia qualitativa, mais concretamente de entrevistas, busca-se a análise de perceções e ideias subjetivas de uma amostra de duas empresas como forma de verificar e atingir os objetivos e as questões de investigação. O principal objetivo do estágio era elaborar um projeto sobre as estratégias de internacionalização da empresa Enamorata para o mercado caboverdeano. Para o alcance deste objetivo foi necessário conhecer o funcionamento da empresa bem como os fatores que 5 fundamentaram a escolha da exportação como a estratégia adequada para se entrar no mercado pretendido. Os objetivos específicos deste Relatório compreendem: - Analisar detalhadamente a Empresa Enamorata em relação aos seus recursos internos, a sua visão, a sua missão, aos seus objetivos e aos processos de internacionalização anteriormente efetuados; - Fazer uma análise geral sobre o mercado caboverdeano e as suas relações comerciais com Portugal, como também fazer um estudo deste mercado através de uma análise swot que permita analisar os pontos fortes, fracos e as oportunidades que poderão ser exploradas neste mercado, além de uma análise da concorrência que permita perceber o nível em que se encontra o negócio swimwear e definir a estratégia adequada a este mercado; - Realizar uma pesquisa comparativa entre a Enamorata e uma outra Empresa portuguesa (a Giliana) que já iniciara o Processo de internacionalização para Cabo Verde para se tirar ilações importantes e perceber as potencialidades e obstáculos que a empresa poderá enfrentar e adaptar a sua estratégia de forma a aproveitar as potencialidades e a ultrapassar os obstáculos; - Fazer contatos com empresas caboverdeanas com o objetivo de estabelecer canais privilegiadas de negócio (ou parcerias) que possam tornar-se grandes oportunidades de exportação direta; - Elaborar e definir a(s) estratégia(s) de internacionalização da empresa para o mercado caboverdeano, além de apoiar a Proprietária da empresa no planeamento e controlo de toda a atividade internacional da empresa para este País. 6 1.3. Estrutura do Relatório de Estágio O presente relatório de estágio encontra-se organizado da seguinte forma. Após esta introdução, no Capitulo 2 é efetuada a apresentação e a caraterização da empresa de acolhimento, incluindo uma breve história, a gama de produtos, os indicadores financeiros, dentre outros aspetos. O Capitulo 3 centra-se no mercado caboverdeano, e nomeadamente descreve o seu perfil demográfico, socioeconómico e comercial que irá servir de base para a elaboração da estratégia mais eficiente e eficaz por parte da empresa Enamorata. Esta análise servirá de base para se efetuar uma análise swot sobre o mercado cabo-verdeano, análise esta que permitirá delinear os pontos fortes e fracos, como também as potencialidades e as ameaças existentes no mesmo. É também neste capitulo que se fará uma avaliação das condições existentes no mercado cabo-verdeano, dos canais apropriados para apresentar os produtos da empresa Enamorata à população e assim, se delineará a estratégia adequada para se efetuar a exportação inicial. Esta análise permitirá oferecer à empresa Enamorata as ferramentas necessárias para um maior conhecimento deste mercado, e consequentemente, a possibilidade desta empresa delinear a forma mais propícia e mais rentável de acordo com os seus recursos disponíveis e de acordo com as características deste mercado-alvo. No Capitulo 4 desenvolve-se o enquadramento teórico do tema, onde são abordadas as teorias e modelos de internacionalização, os determinantes do processo de internacionalização, a seleção dos mercados-alvo e os modos de entrada, os fatores que estimulam as PME´s a exportar e as teorias sobre o processo de exportação. O Capitulo 5 serve para apresentar a metodologia aplicada à pesquisa, utilizando num primeiro momento uma análise aprofundada das teorias e dos trabalhos académicos desenvolvidos sobre o tema em questão através de uma revisão bibliográfica. Dessa forma, se fará uma análise de várias bases de dados, como forma de encontrar um quadro teórico e conceptual que serviria de base a este estudo. A parte empírica do trabalho baseia-se numa pesquisa exploratória para a melhor definição do problema e da estratégia através de entrevistas a Empresa Enamorata, e também a Empresa Têxteis Giliana(empresa que já iniciou a internacionalização para o mercado caboverdeano através de uma Filial de Vendas). A metodologia baseia-se numa aproximação qualitativa que é subjetiva por natureza pois 7 envolve o exame e a reflexão das perceções, neste caso de duas pessoas que fazem parte de duas empresas diferentes, de forma a melhor compreender as atividades humanas e sociais, mais especificamente as atividades de internacionalização e as vantagens de estas ocorrerem para o mercado em questão. No Capítulo 6 é feita a conclusão do Relatório através das implicações práticas. É nesta Parte do Relatório que se irá delinear a estratégia definitiva a ser implementada pela Enamorata no mercado caboverdeano. Esta Seção é o culminar da investigação realizada no período de 1 ano e apresentará as implicações pragmáticas de toda esta investigação, permitindo a empresa Enamorata uma ferramenta de grande utilidade e importância para o sucesso do seu empreendimento e de todo o processo de internacionalização para Cabo Verde. 8 II- APRESENTAÇÃO DA EMPRESA DE ACOLHIMENTO 9 10 2. EMPRESA DE ACOLHIMENTO Neste capítulo faz-se a caraterização da empresa onde o estágio foi realizado. Também é feita uma breve descrição da sua história tal como a apresentação da sua gama de produtos como alguns indicadores financeiros do ano de 2012. 2.1. Dados de Identificação da Empresa Designação Social: Enamorata, Lda. Forma Juridica: Sociedade por quotas CAE: 74100 - Atividades de Design 14131 – Confeção de outro vestuário exterior em série Capital Social: 7.500,00€ Número de matricula: 510092233 Data de constituição: 02/01/2012 Volume de negócios (ano 2012): 18.500,00€ Nº de funcionários: 3 funcionários (Uma Gerente, Uma Diretora comercial e Uma Designer). Um estagiário num Projeto de Internacionalização (de 04/11/2013 a 07/02/2014) Endereço da empresa: Av. Marechal Humberto Delgado, nº 103, 3º Sala G, 4480905- Vila do Conde Contatos: - Telefone: (+351) 252631253 - Email: [email protected] - Página Web: www.enamorata.pt 11 Logótipo: Atividades: - Fabrico, comercialização, importação e exportação de artigos de vestuário, de artigos têxteis, acessórios e complementos de moda; - Atividades de design, atividades de consultoria para os negócios e a gestão, exploração de gabinetes de engenharia de produção; - Criação, produção e distribuição de roupa de banho para mulher, homem e criança; e de toalha de banho repelente (nova aposta da empresa). 2.2. Breve Historial da Empresa A Enamorata é uma empresa com marca registada que se dedica a criação, produção e distribuição de coleções próprias de swimwear para senhora, homem e criança. O seu início de atividade foi em Janeiro de 2012. Trata-se de uma empresa jovem que se inspira nas tradições e cultura portuguesas, que incentiva o espirito de iniciativa, a criatividade, fomenta a curiosidade e a irreverência de modo a possibilitar a criação de peças únicas e diferentes. As coleções da Enamorata resultam da reinterpretação das tradições, dando origem a estampados e bordados únicos, conjugando pormenores que resultam de técnicas ancestrais. Assim surgem peças de requinte, com a qualidade da produção “Made in Portugal”. A primeira coleção nasce da reinterpretação de motivos tão conhecidos de todos os portuguesesos Lenços dos namorados. 12 A Enamorata cria as suas coleções a pensar em pessoas independentes, amantes da vida, de estilo urbano e personalizado, que apreciam o design, a qualidade e o conforto dos materiais, assim como a versatilidade das peças. Atualmente a Enamorata não possui loja própria de venda ao público. Os seus produtos encontram-se em diversas lojas situadas nas seguintes localidades: Apúlia, Vila do Conde, Figueira da Foz, Guimarães, Leça da Palmeira, Maia, Povoa de Lanhoso, Viana do Castelo, Nazaré, Alcácer do Sal e Santarém. A missão desta empresa passa por garantir a satisfação do cliente com soluções criativas, ideias inovadoras e serviços de qualidade que superem as suas expetativas, criando uma identidade pela diferenciação assente na contemporização das tradições e cultura portuguesas que apaixona os seus clientes pela sua singularidade, os seus colaboradores pela excelência e os seus parceiros pelo compromisso. O objetivo da Enamorata consiste na busca por um posicionamento no mercado que lhe permita ser uma marca portuguesa de referência, diversificar mercados e aumentar a notoriedade aos olhos dos seus clientes, colaboradores e parceiros. Para atingir este desígnio, a empresa assenta em valores como: a ética, a criatividade, a inovação, o pormenor e as soluções ajustadas, a paixão, a irreverência e a ousadia. A estratégia de comunicação da empresa se assenta em objetivos como: Apresentar, Comunicar e Aproximar a marca junto do seu target; Informar e cativar os consumidores finais através da comunicação no ponto de venda; Comunicar o conceito de marketing; Sensibilizar as equipas de trabalho da Enamorata para a importância de criar valor para a marca; Posicionar a marca no mercado nacional e cabo-verdiano. Para suportar a sua estratégia de marketing e atingir o público-alvo de forma inteligente e cativante, a Enamorata desenvolve planos de ação que passam por: Produtos estratégicos Produções de moda Eventos Participação em feiras 13 Campanhas Datas Especiais Ações de Charme 2.3. Organograma A figura seguinte representa o organograma da empresa em 31 de Dezembro de 2013. A estrutura organizacional da Enamorata baseia-se na Gerência e em dois departamentos: o departamento comercial e o departamento de design. Fig.1 Organigrama da Enamorata A equipa da Enamorata é constituída atualmente por 4 elementos licenciados: sócia gerente, designer, comercial e um estagiário responsável pelo projeto de internacionalização da empresa. Conforme nos evidencia o quadro seguinte, trata-se de uma equipa jovem (gerente:49 anos, designer e comercial: 23 anos, estagiário académico: 28 anos). 14 Nome Data Habilitações Função Nascimento David Manuel Ano de admissão 29/11/1975 Licenciatura Sócio Gerente 2012 13/03/1964 Licenciatura Diretora 2012 Martins Pires (3) Mª de Fatima Ferreira da Costa Executiva (sócia gerente a partir de 23/10/2013) Marta Sofia 24/06/1991 Licenciatura Comercial 2012 06/05/1990 Licenciatura Designer 2013 05/04/1990 Licenciatura Comercial/ 2013 Carvalho (1) Mª João Mano Pinto (2) Madalina Gherman (4) Dery Andrade (5) Marketing 31/07/1985 Licenciatura Projeto de 2013 exportação Quadro 1– Dados relativos aos diferentes funcionários da Enamorata (1) Deixou de pertencer à empresa a 31/08/2013 (2) Situação de estágio profissional de 12 meses- admitida a 01/10/2013 (3) Deixou de pertencer à empresa a 23/10/2013 (4) Situação de estágio profissional de 12 meses- admitida a 27/12/2013 (5) Situação de estágio académico de 3 meses- admitido a 04/11/2013 2.4. Gama de produtos Fatos de banho e biquínis para mulher, homem e criança são os produtos que, atualmente, a Enamorata coloca no mercado. As toalhas de praia repelentes são uma nova aposta da empresa, que foi colocada recentemente no mercado. A empresa pretende oferecer aos seus clientes soluções criativas, ideias inovadoras e serviços de qualidade que superem as suas expetativas, criando uma identidade pela diferenciação assente na contemporização das tradições e cultura portuguesas. 15 “Elegante”, “Prática”, “Ousada”, “Única”, “Confortável”, “Informal”, “Versátil”, “com Qualidade”, “Inovadora”, “Criativa”,… são adjetivos que a empresa pretende ver sempre associados às suas coleções. Além de todas estas características a Enamorata está atenta às questões específicas relacionadas com as diferentes formas do corpo, idade e saúde, implicando para isso uma constante inovação face aos materiais que vão surgindo de forma a proporcionar produtos atuais e diferentes. O quadro seguinte apresenta o tipo de produtos que a Enamorata tem a disposição do público além de uma divisão socioeconómica e comportamental face as diversas opções oferecidas pela empresa. 16 Segmento p/ beneficio Demografia Mulheres dos 31 aos 50, Rendimento médio-alto, Elegância Mulheres dos 18 aos 30, Rendimento médio-alto, Elegância Swimwear casual Swimgerie Swimwear Design Swimwear Desportiva Swimwear Tailor-made Enamorata Geográfica Comportamento Psicografia Citadinas Praia, After sunset, Beach and pool Parties, Cruzeiros, Termas Luxo, Beleza, Executivas lato, Qualidade elevada, Imagem Citadinas Praia, After sunset, Beach parties, Festivais Beleza, Imagem, Sentido de pertença a um grupo/ícones a seguir, Estudantes/ 1ºemprego Homens dos 30 Citadinos Praia, Piscina, Beleza, Qualidade aos 50 Cruzeiros e elevada, Imagem, Termas Confiança, Diferença Crianças Citadinas Praia, Piscina, Prescritores Cruzeiros (conforto, liberdade movimento, imitação/ligação mãe ou pai) Mulheres, Noivas, Citadinas Iates, Resorts, Luxo, Beleza, Rendimento Private Pool Qualidade médio-alto, 30 aos Parties elevada, Imagem, 50, Elegância, Confiança, Sofisticação Diferença Peça exclusiva que é desenvolvida para apresentação da marca, exposição em feiras internacionais, embora perfeitamente integrada na coleção. Especial, com valor acrescentado(matéria prima ou mão de obra) e disponível sob encomenda Mulheres, Citadinas Piscina, SPA, Alta performance Atleta(hobbie) 30 Triatlo, Health e qualidade dos aos 50, Elegância, Clubs materiais, focada Exigência nos resultados. Leveza e conforto Homem, Citadinos Piscina, SPA, Alta performance Atleta(hobbie) 30 Triatlo, Health e qualidade dos aos 50, Elegância, Clubs materiais, focada Exigência nos resultados. Leveza e conforto Mulheres, Citadinas Praia, Resort, SPA Exclusividade, Rendimento alto, e Termas Luxo, Qualidade, 35 aos 65, Perfect Fit, Sofisticação Exigência Quadro 2 – Caraterização dos vários produtos oferecidos pela Enamorata 17 2.5. Indicadores Financeiros da Empresa O quadro seguinte apresenta os dados financeiros relativos ao ano de 2012, ano em que a empresa foi constituída. Não se considerou importante fazer uma análise exaustiva destes indicadores devido ao facto da Enamorata ser uma empresa nova e incipiente no mercado, o que leva a haver menos dados disponíveis. Quadro 3 – Indicadores Financeiros da Enamorata Como se pode verificar a empresa apresenta, em 2012, um resultado liquido positivo. Os gastos com o pessoal e os fornecimentos e serviços externos totalizam 21.635,76€, valor superior ao volume de negócios. No entanto, existem subsídios à exploração de 7.667, 63€ que contribuem para o resultado positivo de 1.623,43€. Quanto à liquidez (capacidade da empresa satisfazer as suas obrigações a curto prazo com ativos circulantes) podemos dizer que a empresa conseguiria fazer face às responsabilidades, visto que os rácios de liquidez são superiores a 100%. Contudo, com as disponibilidades (caixa e depósitos bancários) apenas poderia fazer face a 55% do passivo. No que respeita à autonomia financeira (participação do capital próprio no financiamento da empresa) em 2012 foi de 15% ; tendo em conta que é inferior a 1/3 (33%) significa que existe uma excessiva dependência de capitais alheios (85%). 18 III – O MERCADO CABOVERDEANO 19 20 3. O MERCADO CABOVERDEANO 3.1. Enquadramento do País A globalização veio conferir ao arquipélago de Cabo Verde uma acrescida centralidade no palco da economia regional onde usufrui de condições ímpares de projeção. Cabo Verde localiza-se, geograficamente, no centro das importantes rotas comerciais que ligam a África e a Europa aos mercados da América do Sul e da América do Norte, encontrando-se plenamente integrado regionalmente. Cabo Verde é reconhecido como uma democracia multipartidária estável, com progressos significativos, ao longo dos últimos vinte anos, em termos da abertura dos mercados e da liberdade negocial. Apesar de uma conjuntura macroeconómica menos favorável, Cabo Verde tem continuado a merecer o apreço das principais instituições internacionais. Na edição de 2014, do Índice de Liberdade Económica, do Wall Street Journal e da Heritage Foundation, Cabo Verde é o terceiro país africano melhor classificado na África Subsaariana (apenas atrás da Maurícia e do Botswana). O arquipélago surge bem classificado em todas as 10 categorias que contribuem para a pontuação final do referido Índice, sobretudo nas liberdades monetária, financeira e de investimento. Igualmente, no Índice Ibrahim de Governação Africana, Cabo Verde surge classificado em 3º lugar entre os 52 países africanos analisados, em 2013. Deste modo, resulta reforçada a competitividade da economia do país e legitimada a ambição em se tornar uma referência para projetos empresariais e institucionais de internacionalização para a região da África Ocidental. O indicador de facilidade em fazer negócios do World Bank, Doing Business 2014 (DB 2014), coloca o país na posição 121ª entre as 189 economias analisadas, 2ª melhor classificada na África Central e Ocidental. No Índice de Desenvolvimento Humano, da Organização das Nações Unidas, Cabo Verde surge entre os países posicionados na classe “desenvolvimento humano médio”, sexto país melhor classificado da África Subsaariana. 21 Fig. 2 – Dados explicativos do ambiente de negócio em Cabo Verde ( Fonte: FMI, Banco Mundial, INE Cabo Verde, World Economic Forum) A competitividade da economia, em termos dos requerimentos básicos (infraestruturas, instituições e contexto macroeconómico), dos potenciadores de eficiência (funcionamento dos mercados) e do nível de inovação e sofisticação tem permitido o posicionamento do arquipélago entre as mais competitivas economias do continente africano, sétimo lugar no ranking, apesar das limitações ainda reconhecidas, sobretudo, ao nível do mercado de trabalho e do contexto macroeconómico, paralelamente à incontornável exiguidade do mercado interno. Cabo Verde beneficia do facto de se situar geograficamente no centro das importantes rotas comerciais que ligam a África e a Europa aos mercados da América do Sul e da América do Norte. A posição geoestratégica e a estabilidade económica, política e social, diferenciam Cabo Verde da maioria dos países africanos. Esta diferenciação positiva atraiu ao arquipélago 22 a ajuda pública ao desenvolvimento, as remessas dos emigrantes e, a partir da década de noventa, o investimento privado dirigido essencialmente para o setor do turismo. A economia cabo-verdiana assenta, sobretudo, no setor dos serviços, com o comércio, os transportes, o turismo e os serviços públicos a representar cerca de 72% do PIB. Os recursos naturais são escassos, existindo graves e prolongadas faltas de água- potenciadas por longos e cíclicos períodos de seca - e solos pouco férteis em várias ilhas. Se bem que cerca de 40% da população habite em zonas rurais, a produção alimentar tem um peso muito reduzido no PIB (9,3% em 2014), o que implica que mais de 80% dos bens alimentares necessários ao país tenha de ser adquirida ao exterior. Cabo Verde é uma pequena economia aberta, muito condicionada pela conjuntura externa, o que se explica pela elevada dependência face às importações de energia e de alimentos e face aos fluxos de capitais oriundos do estrangeiro (por exemplo, remessas de emigrantes e donativos). É uma economia terceirizada, onde os serviços, incluindo o turismo, representam cerca de 75% do PIB, sendo a base produtiva da indústria pouco desenvolvida (essencialmente ligada aos setores dos têxteis, do calçado e das pescas). Numa perspetiva setorial a economia cabo-verdiana continuou, em 2013, a afirmar-se, fundamentalmente, como uma economia de serviços, cerca de 75% do PIB, com grande preponderância do turismo. Contudo, embora reconhecendo a centralidade do setor do turismo na economia do arquipélago, tal fato não tem reduzido o empenho das autoridades do país no sentido da projeção futura da economia das ilhas como uma eficaz plataforma alargada de serviços para toda a região da África Ocidental. Neste contexto, a par do turismo, outros setores de atividade têm vindo a ser privilegiados na diversificação da economia de Cabo Verde, garantindo a sustentabilidade do desenvolvimento a médio e longo prazo, como a logística e a segurança marítima, os transportes aéreos, as tecnologias de informação e da comunicação, as energias renováveis e o próprio setor financeiro. A figura seguinte quantifica os principais indicadores macroeconômicos desde 2011 até 2014, apontando também as expetativas para os anos de 2015 e 2016. 23 Unidade 2011 2012 2013 2014 2015* 2016* População Milhares 491 494 509 506 512 519 PIB a preços de 106 USD 1 867 1 795 1 920 2 071 2 221 2 382 PIB per capita USD 3 805 3 630 3 837 4 090 4 335 4 594 Crescimento real do % 4,0 1,2 0,5 2,5 2,7 3,5 Taxa de inflação % 4,5 2,5 1,6 1,6 2,3 2,0 Taxa de desemprego % 16,0 16,8 17,0 12,0 10,0 9,0 Saldo do Setor % do PIB - 7,7 - 10,0 - 8,3 - 7,0 - 6,3 - 7,6 Divida Externa % do PIB 77,8 89,4 95,0 104,1 109,9 113,6 Saldo da Balança % do PIB - 16,3 - 11,9 - 2,7 - 6,8 - 9,2 - 10,4 1Eur=xcv 110,3 110,3 mercado PIB Público Corrente Taxa de câmbio 110,3 110,3 110,3 110,3 Eur/Escudo cv Quadro 4 – Principais Indicadores Macroeconómicos ( Fonte: The Economist Intelligence Unit (EIU); FMI) Nota: *- previsão Os próximos quadros apresentam os países principais clientes e fornecedores de Cabo Verde no período compreendido entre 2011 a 2013. 24 Mercado 2011 Quota (%) 2012 Posição Quota (%) 2013 Posição Quota (%) Posição Espanha 66,6 1ª 72,0 1ª 66,7 1ª Portugal 15,7 2ª 15,1 2ª 16,5 2ª Itália 0,0 81ª 0,1 10ª 5,4 3ª França 3,3 5ª 0,0 11ª 3,4 4ª El Salvador 3,5 4ª 4,6 3ª 3,4 5ª Quadro 5 – Principais Clientes de Cabo Verde (Fonte: International Trade Centre (ITC), INE) Mercado 2011 2012 2013 Quota (%) Posição Quota (%) Posição Quota (%) Posição Portugal 39,1 1ª 39,9 1ª 40,2 1ª Países Baixos 15,6 2ª 12,5 2ª 20,0 2ª Espanha 10,0 3ª 7,7 4ª 7,9 3ª Brasil 3,8 4ª 4,1 5ª 3,5 4ª China 2,6 9ª 3,0 6ª 3,1 5ª Quadro 6 – Principais Fornecedores de Cabo Verde (Fonte: International Trade Centre (ITC), INE) 3.2. As relações comerciais entre Portugal e Cabo Verde Cabo Verde, apesar da pequena dimensão da sua economia, é um importante parceiro comercial de Portugal, designadamente enquanto destino das exportações portuguesas (17º cliente em 2010 e 27º em 2013), já que no que se refere à origem das importações a sua 25 posição é bastante modesta (101º fornecedor em 2010 e 95º em 2013). Tendo como referência o conjunto de países africanos de língua oficial portuguesa, Cabo Verde é atualmente o 2º maior destino de exportações nacionais e superado apenas por Angola, e o 3º em termos de origem das importações, a seguir a Angola e Moçambique. Posição e quota de Unidade 2009 2010 2011 2012 2013 Cabo Verde Cabo Verde como 2014 Jan/Jul Posição 15 18 22 26 27 27 % Saídas 0,70 0,70 0,59 0,48 0,43 0,43 Posição 104 101 91 96 95 96 % Entradas 0,01 0,01 0,02 0,02 0,02 0,02 cliente de Portugal Cabo Verde como fornecedor de Portugal Quadro 7 – Posição e Quota de Cabo Verde em relação a Portugal (Fonte: INE) Em 2013, as exportações portuguesas para Cabo Verde ascenderam a EUR 271 milhões, correspondendo 75% a exportação de bens. O saldo comercial entre os dois países é superavitário para Portugal, no valor de EUR 188 milhões, em 2013. Não obstante as exportações portuguesas de bens e serviços para Cabo Verde terem aumentado apenas 1% em 2013, Portugal viu reforçada a sua posição destacada de principal fornecedor, com um aumento de quota de 30%, em 2012, para 33%, em 2013. É de se referir que, apesar do quadro positivo e favorável a Portugal na relação comercial com Cabo Verde, a evolução recente da taxa média de variação anual entre 2010 e 2013 demonstra um recuo das exportações nacionais com destino a Cabo Verde (-8.2%) e um incremento das importações (15.0%). 26 BALANÇA 2010 2011 2012 2013 COMERCIAL 2013 2014 Jan/Jul Jan/Jul Exportações 262.590 253.786 215.611 202.089 117.509 121.851 Importações 7.476 9.971 9.114 11.384 6.548 6.896 Saldo 255.114 243.815 206.497 190.706 110.961 114.955 Quadro 8 – Balança comercial superavitária de Portugal em relação a CV relativo ao comércio de Bens (Fonte: INE) | Unidade: Milhares de Euros Em termos do comércio externo cabo-verdiano, e de acordo com os dados divulgados pelo International Trade Centre, verifica-se que Portugal mantém o primeiro lugar enquanto fornecedor, representando 40,2% das importações em 2013. Enquanto cliente, Portugal detém a segunda posição, a seguir a Espanha, com uma quota de 16,5%. É de realçar que no período 2009-2013, as exportações portuguesas apresentaram um decréscimo médio anual de 1,6%, enquanto as importações registaram um crescimento de 13,2%. Posição e Quota de Unidade 2009 2010 Posição 2 2 2 2 2 38,17 24,88 15,67 15,05 16,48 1 1 1 1 1 42,27 45,50 39,05 39,85 40,24 2011 2012 2013 Portugal Portugal como cliente de Cabo Verde Portugal como fornecedor de Cabo Verde % Export. CV Posição % Import. CV Quadro 9 – Posição e Quota de Portugal em relação a CV (Fonte: INE) De um padrão de especialização setorial das exportações assente, principalmente, em produtos industriais transformados (mais de 94%), o grupo das máquinas e aparelhos tem sido 27 dominante nas exportações portuguesas para Cabo Verde (16,9% do total em 2013), embora tenha registado, no último ano, uma evolução negativa de 15,3% face a 2012. O grupo dos produtos agrícolas manteve a segunda posição no ranking das exportações (15,5% do total). Seguem-se, por ordem decrescente de valor, os produtos alimentares, os metais comuns, os produtos químicos e os minerais e minérios. O conjunto formado por estes seis principais grupos de produtos, tradicionalmente os mais representativos das exportações portuguesas para Cabo Verde, representou 75,3% do total em 2013 (74,5% em 2012 e 74% em 2011). Dados relativos a 2013 indicam que 40,4% das exportações portuguesas para Cabo Verde de produtos industriais transformados incidiram em produtos classificados como baixa tecnologia. Seguem-se os produtos de média-baixa intensidade tecnológica (26,7%), de média-alta tecnologia (23,3%) e de alta intensidade tecnológica (9,7%). Os quadros seguintes apontam as exportações de Portugal para Cabo Verde. Os quadros estão divididos pelas quantidades dos vários grupos de produtos e suas respetivas quotas. 28 Exportações 2009 % Tot 2012 2009 (Grupos de produtos) % Tot 2013 2012 % Tot Var % 2013 13/12 Máquinas e Aparelhos 40.233 18,1 40.462 18,8 34.288 17,0 -15,3 Agrícolas 21.360 9,6 30.522 14,2 31.493 15,6 3,2 Alimentares 29.215 13,1 29.225 13,6 28.848 14,3 -1,3 Metais comuns 22.133 9,9 22.317 10,4 21.640 10,7 -3,0 Químicos 18.864 8,5 18.867 8,8 18.872 9,3 0,0 Minerais e minérios 24.086 10,8 19.442 9,0 17.311 8,6 -11,0 Plásticos e Borracha 13.047 5,9 11.355 5,3 10.456 5,2 -7,9 Pastas celulósicas e papel 6.879 3,1 7.097 3,3 6.376 3,2 -10,2 Veículos e outro mat. 13.695 6,1 7.039 3,3 5.537 2,7 -21,3 Madeira e cortiça 4.663 2,1 3.995 1,9 4.153 2,1 3,9 Matérias textêis 3.956 1,8 2.967 1,4 3.342 1,7 12,6 3.151 1,4 3.159 1,5 3.162 1,6 0,1 Peles e couros 1.520 0,7 1.916 0,9 2.866 1,4 49,6 Combustíveis minerais 3.592 1,6 4.587 2,1 2.168 1,1 -52,7 Vestuário 2.439 1,1 2.629 1,2 2.006 1,0 -23,7 690 0,3 365 0,2 305 0,2 -16,4 Outros produtos 13.009 5,8 9.666 4,5 9.267 4,6 -4,1 Total 222.532 100,0 215.611 100,0 202.089 100,0 -6,3 transporte Instrumentos de ótica e precisão Calçado Quadro 10 – Exportações portuguesas para CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre 2013 e 2012 ( Fonte: INE) Unidade: Milhares de € 29 Exportações 2013 Jan/Jul % Tot 2014 Jan/Jul 2013 (Grupos de produtos) % Tot Var % 2014 14/13 Máquinas e Aparelhos 20.717 17,6 21.608 17,7 4,3 Agrícolas 18.840 16,0 18.013 14,8 -4,4 Alimentares 16.194 13,8 14.778 12,1 -8,7 Metais comuns 12.920 11,0 13.625 11,2 5,5 Químicos 11.097 9,4 12.392 10,2 11,7 Minerais e minérios 9.838 8,4 11.506 9,4 16,9 Plásticos e Borracha 6.111 5,2 5.961 4,9 -2,5 Pastas celulósicas e papel 3.522 3,0 3.765 3,1 6,9 Veículos e outro mat. 3.050 2,6 4.160 3,4 36,4 Madeira e cortiça 2.341 2,0 2.824 2,3 20,6 Matérias textêis 1.674 1,4 2.372 1,9 41,7 1.445 1,2 1.686 1,4 16,7 Peles e couros 1.712 1,5 1.479 1,2 -13,6 Combustíveis minerais 1.261 1,1 978 0,8 -22,4 Vestuário 1.205 1,0 1.404 1,2 16,5 166 0,1 304 0,2 83,5 5.414 4,6 4.996 4,1 -7,7 117.509 100,0 121.851 100,0 3,7 transporte Instrumentos de ótica e precisão Calçado Outros produtos Total Quadro 11 – Exportações portuguesas para CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre o 1º semestre de 2014 e o mesmo período de 2013 ( Fonte: INE) Unidade: Milhares de € 30 As importações originárias de Cabo Verde são claramente mais concentradas do que as exportações portuguesas para este mercado, com o calçado e o vestuário (produtos essencialmente fabricados pelas empresas portuguesas instaladas em Cabo Verde) a representarem, em conjunto, 62,6% do total importado em 2013 (58,7% no ano anterior). Se considerarmos ainda as máquinas e aparelhos (12,1%) e os produtos agrícolas (12,1%), significa que apenas quatro grupos de produtos são responsáveis por 86,8% das importações totais. Mais de 78% das importações portuguesas de produtos industriais transformados provenientes de Cabo Verde (que representam 90,1% das importações totais de 2013) corresponde a produtos de baixa intensidade tecnológica, seguindo-se os produtos de média-alta tecnologia (17,0%). Portugal tem uma quota bastante significativa em vários produtos importados por Cabo Verde. Destacam-se os produtos alimentares, como por exemplo o leite onde 80% das importações do país deste produto foram fornecidas por Portugal (em 2013), os sumos de fruta (82%), a cerveja (91%) e o vinho (80%). Os quadros seguintes demonstram as importações de Portugal provenientes de Cabo Verde. Os quadros estão divididos pelas quantidades dos vários grupos de produtos e suas respetivas quotas. 31 Importações 2009 % Tot 2012 2009 (Grupo de Produtos) % Tot 2013 2012 % Tot Var % 2013 13/12 Máquinas e Aparelhos 204 2,8 1.742 19,1 1.381 12,1 -20,7 Agrícolas 352 4,9 992 10,9 1.380 12,1 39,1 1.161 16,0 304 3,3 289 2,5 -4,9 Metais comuns 40 0,6 220 2,4 287 2,5 30,6 Químicos 17 0,2 13 0,1 1 0,0 -88,3 Minerais e minérios 3 0,0 25 0,3 65 0,6 161,6 Plásticos e Borracha 4 0,1 32 0,3 97 0,8 205,1 Pastas celulósicas e 21 0,3 17 0,2 24 0,2 39,1 306 4,2 226 2,5 417 3,7 84,8 Madeira e cortiça 1 0,0 10 0,1 0 0,0 -96,7 Matérias textêis 6 0,1 39 0,4 164 1,4 318,0 40 0,6 37 0,4 122 1,1 229,7 Peles e couros 0 0,0 34 0,4 10 0,1 -70,1 Combustíveis minerais 0 0,0 5 0,1 6 0,1 26,8 Vestuário 2.161 29,8 1.739 19,1 3.146 27,6 80,9 Calçado 2.892 39,9 3.605 39,6 3.983 35,0 10,5 21 0,4 75 0,8 12 0,1 -84,1 7.230 100,0 9.114 100,0 11.384 100,0 24,9 Alimentares papel Veículos e outro mat. transporte Instrumentos de ótica e precisão Outros produtos Total Quadro 12 – Importações portuguesas provenientes de CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre 2013 e 2012 ( Fonte: INE) Unidade: Milhares de € 32 Importações 2013 Jan/Jul % Tot 2014 Jan/Jul 2013 (Grupo de Produtos) % Tot Var % 2014 14/13 Máquinas e Aparelhos 552 8,4 378 5,5 -31,6 Agrícolas 819 12,5 475 6,9 -41,9 Alimentares 169 2,6 458 6,6 170,2 Metais comuns 171 2,6 220 3,2 28,4 Químicos 1 0,0 14 0,2 § Minerais e minérios 14 0,2 24 0,3 73,0 Plásticos e Borracha 50 0,8 37 0,5 -25,0 Pastas celulósicas e papel 9 0,1 0 0,0 -97,5 369 5,6 66 1,0 -82,2 0 0,0 1 0,0 139,9 163 2,5 14 0,2 -91,4 55 0,8 13 0,2 -75,8 10 0,2 Veículos e outro mat. Transporte Madeira e cortiça Matérias textêis Instrumentos de ótica e precisão Peles e couros -100,0 Combustíveis minerais 0 0,0 § Vestuário 1.682 25,7 2.496 36,2 48,5 Calçado 2.480 37,9 2.699 39,1 8,8 4 0,1 1 0,0 -81,2 6.548 100,0 6.896 100,0 5,3 Outros produtos Total Quadro 13 – Importações portuguesas prov. de CV por Grupos de produtos e Variação percentual entre o 1º semestre de 2014 e o mesmo período de 2013 ( Fonte: INE) Unidade: Milhares de € 33 Ao longo dos últimos anos e até 2008, registou-se um aumento contínuo do número de empresas portuguesas que exportaram produtos para Cabo Verde (2.633 em 2004 que compara com 3.697 em 2008). No entanto, em 2009, verificou-se uma queda significativa, não indo além das 2.784 empresas exportadoras, situação que se inverteu nos dois anos seguintes, 2.832 e 2.942 empresas, respetivamente. Em 2012, último ano disponível, o total caiu para 2.823 empresas. Os reduzidos níveis de produção e de industrialização de Cabo Verde são os principais fatores que levam ao recurso às importações para satisfação da procura interna. O país importa cerca de 80% dos produtos alimentares que consome, pelo que há oportunidades de exportação de produtos de consumo generalizado e gourmet, tais como produtos lácteos, azeite, óleos alimentares, frutas, leguminosas e vegetais enlatados, sumos, vinhos, cervejas e produtos congelados, como peixe e vegetais. É neste sentido, que as empresas portuguesas encontram bastantes potencialidades nas exportações para este país, beneficiando das boas relações históricas e institucionais existentes para posicionar Portugal como a parceiro comercial mais importante para Cabo Verde. 3.3. Exportar para Cabo Verde A liberalização do comércio externo em Cabo Verde tem vindo a ser executada de forma gradual e progressiva, quer através da simplificação dos procedimentos legais, quer da adoção de medidas de descontingentação das operações de importação. Com o objetivo de efetuar uma aproximação às normas da OMC em matéria de simplificação dos procedimentos e circuitos de registo e licenciamento das operações de comércio externo foi publicado o Decreto nº 68/2005, que revê o regime legal em vigor nesta matéria, revogando o DecretoLei nº 51/2003. Com esta reforma, é definido um quadro liberal em matéria de comércio externo, ou seja, as operações de importação e exportação são livres para os importadores e exportadores devidamente credenciados nos termos da lei. No que respeita ao licenciamento das importações, o sistema administrativo compreende três modalidades: 34 - Importações dispensadas de licenciamento; - Importações sujeitas a licenciamento automático; - Importações sujeitas a licenciamento não automático. Entre as mercadorias dispensadas de licenciamento encontram-se: aquelas sem valor comercial (definidas por lei); as operações de aperfeiçoamento ativo e passivo, de importação temporária, reimportação no Estado, reexportação e de trânsito; e as importações sujeitas a regimes aduaneiros especiais. Como princípio geral, todas as mercadorias estão sujeitas ao licenciamento automático, salvo as que estão submetidas a controlos sanitários, fitossanitários e de segurança e as mercadorias objeto de restrições(obrigatoriamente definidas por lei). O licenciamento automático será efetivado mediante a apresentação da declaração aduaneira na Alfândega, cuja emissão é da competência do Ministério responsável pela área do comércio. Quando se tratar de licenciamento não automático, os operadores económicos necessitam de obter autorização prévia junto das autoridades competentes. A Pauta Aduaneira de Cabo Verde baseia-se no Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias, correspondente à Nomenclatura Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), de que Cabo Verde é membro. Aprovada em 2002, esta pauta contempla direitos aduaneiros ad- valorem, variando as respetivas taxas entre 0% e 50% (ex.: cacau; águas e refrigerantes; cervejas; vinhos e bebidas espirituosas; tabaco; sabões; peles em pêlo em bruto, curtidas ou acabadas; tratores usados com mais de 10 anos; móveis de metal, madeira ou plástico; obras de marfim). A Pauta Aduaneira pode ser consultada no site das Alfândegas de Cabo Verde. Importa referir, a este propósito, que depois da adesão à OMC em 2008, após sete anos de negociações, o país concordou numa consolidação tarifária com taxas a variar de 0% a 55%, envolvendo algumas das condições a redução progressiva dos direitos aduaneiros até 2018, o que determinará uma taxa máxima média de 15%. Quanto aos produtos agrícolas, Cabo Verde concordou numa consolidação tarifária nos 19%. Ainda neste contexto, e para fazer face aos compromissos da OMC, está em curso o projeto “Reforma Aduaneira” que visa apoiar e facilitar a participação ativa do país no sistema multilateral de comércio, aumentando o grau de aplicação do regime aduaneiro. 35 Além dos direitos de importação, existe ainda um conjunto de direitos específicos e outros encargos que incidem sobre os produtos importados: - Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) – Introduzido em janeiro de 2004, estabelece uma taxa geral no valor de 15% e uma de 6% para os serviços de hotelaria e restauração. Alguns bens (considerados essenciais no consumo) estão isentos (taxa 0%). A taxa do IVA é aplicada sobre o valor CIF (custo, seguro e frete) + DI (direitos de importação). - Imposto de Consumos Especiais (ICE) – Aplicável aos bens supérfluos, de luxo ou indesejáveis por razões de política económica, social ou ambiental (ex.: bebidas espirituosas, os vinhos, os espumantes, a cerveja e o tabaco). A taxa base é de 10%, havendo alguns produtos com taxas mais elevadas de 20% (ex.: cigarros e charutos), 40% (ex,: cerveja, vinhos, bebidas espirituosas), 40%, 80% ou 150% (veículos automóveis, para o transporte de pessoas e para transporte de mercadorias, até 5 toneladas, usados, respetivamente, com mais de 4 e até 6 anos de idade, mais de 6 e até 10 anos de idade e mais de 10 anos de idade). - Taxa Ecológica (TE) – Estão sujeitos à Taxa Ecológica os produtos constantes do Anexo I da Lei n.º 17/VIII/2012, de 23 de agosto (ex.: pilhas, artigos de transporte ou de embalagem de plástico-incluindo rolhas- vidro, metal, papel e cartão revestidos, caixotes e caixas de madeira, entre outros). O valor da taxa é fixado em função de cada quilograma de produtos importados e consta da Tabela I da referida Lei. - Taxa Comunitária (TC) – Decorre do Tratado da CEDEAO/ECOWAS, com a finalidade de gerar recursos para financiar as atividades da Comunidade. A base tributária de aplicação desta taxa é constituída pelo valor das mercadorias importadas para consumo no espaço da CEDEAO, provenientes de países terceiros, havendo, no entanto, algumas situações de isenção. A taxa base deste imposto é de 0,5% sobre o valor CIF da mercadoria. - Serviços aduaneiros – Pela prestação de serviços aduaneiros é cobrada uma taxa de 1,04% sobre o valor CIF da mercadoria. - Taxa Estatística Aduaneira (TEA) – Criada através do Orçamento de Estado para 2013 incide sobre as utilidades prestadas aos particulares através do sistema SYDONIA++ e é cobrada por declaração aduaneira (5000 ECV por declaração), por cada adição de mercadorias à declaração aduaneira (1500 ECV por adição), por cada pedido de levantamento (3000 ECV 36 por pedido), por cada processo de isenção aduaneira (6000 ECV por processo), entre outros casos. - Serviços de inspeção zoossanitária e fitossanitária – Pela inspeção de animais, produtos de origem animal, vegetais, produtos de origem vegetal e produtos de pesca são cobradas taxas de acordo com o número de animais ou quilogramas de produtos efetivamente inspecionados. No Apêndice 1 será apresentado as taxas alfandegárias e os impostos que incidem, especificamente, sobre os produtos exportados pela Empresa Enamorata. 3.4. Análise Swot do Mercado caboverdeano Pontos Fortes Pontos Fracos Crescimento demográfico Rendimento per capita crescente Língua comum (português) Fraca produção local Forte ligação histórico-cultural entre CV Rede de abastecimento de água potável Palmeira, Sal) insuficiente e deficiente e Portugal Dificuldades logísticas (p.e., Porto de Habituação do consumidor aos produtos e Sistema de saneamento básico insuficiente e deficiente marcas portuguesas Forte presença das empresas portuguesas Recolha de lixo deficitária no mercado Rede elétrica deficiente Boas relações institucionais e de Rede viária de fraca qualidade cooperação entre os governos Dispersão do mercado (país insular) caboverdeano e português Alta taxa de desemprego Estabilidade politica e econômica Custo de vida elevado Ligação da moeda local ao euro (taxa de câmbio fixa e sobrevalorizada para o Euro) Sistema de transporte e logística mais favorável( ligações aéreas diárias e bons aeroportos internacionais) Curta distância geográfica e “curta distância psíquica” (Johansson & Vahlne,2009) entre CV e PT 37 (Continuação do Quadro anterior) Oportunidades Ameaças Falta de produção interna Aumento da criminalidade Maior poder aquisitivo da população Pequena dimensão do mercado e forte Baixa concorrência a nível de produtos competitividade de grandes empresas requintados e de alta qualidade Portugal Maior procura de produtos de alta qualidade devido ao aumento de turistas e Custos de transporte e logística da população com ensino superior Comércio informal (produtos brasileiros, Crescente taxa de crescimento da chineses, etc.) economia caboverdeana Crescimento do fluxo turístico e das Emergência de novos países investidores comunicação (novos fluxos comerciais como a China, Incentivos fiscais e legislação favorável Brasil e Espanha) ao investidor português oferecidos pelo Falta de informação qualificada sobre os parceiros locais infraestruturas de transporte e Elevada quota de mercado já detida por Recessão econômica dificulta a Estado internacionalização de uma marca não Mercado caboverdeano pode funcionar conhecida e de preços elevados. com um “bom teste” antes da penetração a outros mercados africanos Marcas concorrentes com preços mais reduzidos Quadro 14 – Análise SWOT do mercado caboverdeano ( Elaboração própria) 38 IV- ENQUADRAMENTO TEÓRICO DO TEMA 39 40 4. REVISÃO DE LITERATURA A revisão de literatura efetuada incide numa análise teórica sobre as teorias e modelos de internacionalização, sobre os determinantes do processo de internacionalização, a seleção dos mercados-alvo e os modos de entrada. Esta investigação também debruçará sobre as teorias e abordagens cujo foco é o processo de exportação e os fatores que estimulam as PME´s a exportar. 4.1. O processo de Internacionalização A globalização tem levado as empresas, tanto as Multinacionais (MNs) como as Pequenas e Médias Empresas (PMEs), a internacionalizarem as suas operações através da expansão para novos mercados externos. Desta forma, há uma necessidade crescente para uma maior compreensão de quais os fatores influentes nas estratégias de internacionalização das PMEs, dado que estas representam a generalidade do tecido empresarial em Portugal. A conjuntura económica atual também acaba por influenciar a busca por parte destas empresas por uma maximização da sua eficiência, por uma valorização do conhecimento e inovação e uma busca pela cooperação através do contato com novos mercados. Como refere Philippe Defarges (1993), a tendência crescente da globalização da economia mundial pode ser vista sob cinco prismas: Liberdade de circulação de capitais e forte intensidade dos movimentos de capitais à escala planetária, quer sob a forma de investimentos de “carteira”, quer de Investimento Direto Internacional; Forte crescimento do comércio internacional de bens e serviços, com o surgimento de novo pólos de oferta competitiva de bens e serviços; mas com um peso crescente e dominante do comércio intra-empresas e intra-redes, tornando mais difícil o recuo para soluções protecionistas; 41 Investimento Direto Internacional, subcontratação internacional e alianças empresariais à escala mundial, levando a criação de redes mundiais integradas de produção; Concentração das zonas de prosperidade a nível mundial- resultantes de uma plena inserção na dinâmica global- em torno de “pólos” e “corredores”, nalguns casos de natureza transfronteiriça, onde se localizarão indústrias e serviços que disporão de excelentes acessos “ao mundo”, através de portos, aeroportos telecomunicações. Difusão generalizada de um modelo de consumo e do respetivo capital simbólico, em especial entre as jovens gerações, apoiada na mundialização dos “media”. Este Liberalismo económico, fruto da maior globalização, é muito importante para a análise do processo de internacionalização dado que permite uma maior abertura de países que anteriormente praticavam políticas protecionistas aos produtos estrangeiros, como também permite um aproveitamento de economias de escala decorrentes dos grandes blocos comerciais (como a UE, Mercosul, APEC) para, através de uma estandardização dos produtos e estratégias, atingir um maior número de mercados. Deve-se então a esta progressiva liberalização do comércio internacional, em conjunto com uma maior criação de oportunidades externas e aumento da concorrência, a intensificação do processo de internacionalização por parte das empresas como forma de estas sobreviverem perante alguns condicionantes como o aumento da concorrência, a saturação do mercado doméstico ou a procura de novos e mais recursos levando assim a uma maior capacidade de inovação dos seus produtos finais, um aumento das vendas e dos lucros e a uma minimização dos riscos de investimento (Daniels et. al,2011). Cabe então inicialmente, nesta secção deste Relatório, analisar o conceito da internacionalização. Simões(1997) afirma que a ambiguidade na definição do conceito de internacionalização se deve a existência de duas grandes dicotomias: de um lado, a oposição macro-micro que estabelece a comparação entre a internacionalização na perspetiva da economia nacional e na ótica da empresa e, de outro lado, a polarização inward-outward que contrasta as operações que têm lugar “do exterior para o interior” (importações, contratos de franquia ou tecnologia e investimento estrangeiro no país) e as operações que se verificam 42 “do interior para o exterior” (exportações, contratos de licenciamento ou tecnologia no estrangeiro, investimento direto no estrangeiro) Para Beamish (1990), a internacionalização é um processo pelo qual as empresas aumentam o seu futuro conhecimento, direto e indireto, em transações internacionais estabelecendo e gerindo-as com empresas noutros países. O processo ou a forma de internacionalização vai definir o grau do envolvimento da empresa nas suas atividades internacionais. Esta ideia é desenvolvida por Welch e Luostarinen (1988) segundo os quais a internacionalização é um processo através do qual as empresas vão aumentando o seu envolvimento nas operações internacionais. Wu e Zhao (2007) realizaram uma análise convergente de todas as definições da internacionalização para concluir que existe um consenso entre os autores de que o conceito inclui os seguintes princípios: i) trata-se de um processo que implica várias decisões estratégicas e incrementais, ii) envolve os fluxos de vários produtos, serviços e recursos do interior para o exterior e do exterior para o interior, através das fronteiras nacionais e iii) existem uma série de fatores inerentes às empresas e ao seu ambiente que influenciam a internacionalização. Todo o processo de internacionalização exige a escolha de estratégias mais eficazes para que se consiga, primeiramente, a propagação do conhecimento de uma empresa, marca ou produto além-fronteiras e, posteriormente, o aumento das exportações, ou caso a escolha do modo de entrada seja diferente, o aumento dos investimentos e dos recursos no mercado-alvo sendo que o objetivo último será o aumento dos lucros. Chandler (1962) defende que a estratégia consiste na determinação dos objetivos de longo prazo de uma empresa e na adoção de ações consideradas adequadas e na afetação dos recursos para atingir esses objetivos. Cavusgil et al. (2010) entendem a estratégia como um plano de ação que encaminha os recursos de uma empresa de forma a permitir-lhe diferenciarse dos seus concorrentes e atingir objetivos específicos e realizáveis. 43 4.2. Os determinantes do processo de Internacionalização De acordo com Dunning e Lundan (2008), a internacionalização tem como motivações principais a procura de recursos naturais, mercados, eficiência e ativos estratégicos, sendo que uma empresa pode ter várias motivações que, por seu turno, podem variar nas diferentes fases de internacionalização. Uma empresa pode ser motivada a procurar recursos como as matérias-primas ou a mão-deobra inexistentes no seu país de origem ou que possam ser encontrados num preço mais barato num outro mercado. Por outro lado, a internacionalização provocada pela procura de mercados destina-se ao abastecimento do mercado nacional, podendo inserir-se numa lógica de exploração de novos mercados, ou de fortalecimento ou proteção da aposta em mercados em que já estão presentes, reforçando assim sua posição na rede internacional de negócios. Stremtan, Mihalache e Pioras (2009) são de opinião de que os determinantes da internacionalização são os seguintes: - Um mercado nacional saturado ou de pequena dimensão, uma feroz concorrência no mercado interno, um mercado onde as oportunidades são cada vez mais escassas; todos estes fatores fazem com que as empresas tenham um interesse numa prospeção para novos mercados. - Outro aspeto tem a ver com as empresas que produzem bens únicos, especializados e elitistas pois estas empresas têm uma atividade especifica direcionada a um pequeno número de potenciais compradores, como tal, o mercado não pode ser limitada ao mercado doméstico. Assim sendo, uma internacionalização destas empresas permite evitar a especialização em outros produtos e manter o foco num produto em que se é o líder, ao oferecer perspetivas de desenvolvimento sem sair do ofício original. - A internacionalização permite uma empresa encontrar novos mercados e fazer frente a períodos de desaceleração do crescimento econômico no seu mercado. O crescimento da competição de preços determina que a empresa deslocalize a produção para áreas onde há baixos custos (mão de obra, logística e materiais), e numa fase posterior reimporte estes 44 mesmos produtos. É dessa forma que a empresa cria subsidiárias de produção no exterior, a fim de abastecer os mercados locais. - Os fatores de oportunidade representam a última categoria do processo de internacionalização e eles se referem ao fato de que os eventos de comércio, o pedido de informações de correio, a possibilidade de encontro com delegados de outras empresas representa uma boa oportunidade para a empresa perceber que os seus produtos são necessários no exterior. Esse tipo de solicitação deve estimular a empresa a adotar uma abordagem racional para o estabelecimento de uma relação sustentável com seus fornecedores e clientes estrangeiros. 4.3. As teorias da Internacionalização Nesta secção deste Relatório realizar-se-á uma análise focada nas teorias explicativas do processo de internacionalização e dado que o nosso interesse está focado numa PME, faz-se necessário uma breve abordagem sobre este tipo de empresa para depois efetuar-se aquela análise que se pretende que seja precisa e focalizada nas teorias que toquem os princípios e características inerentes às PME´s, evitando-se assim uma investigação enviesada e generalista sobre teorias cujos princípios não se aplicam e não explicam o caráter especifico e próprio desta tipologia de empresa. 4.3.1. Conceito de PME´s Na definição proposta pela União Européia, as empresas que constituem a categoria das micro, pequenas e médias empresas são todas aquelas cujo volume de negócios anual não excede os 50 milhões de euros ou cujo balanço total anual não excede os 43 milhões de euros e que empregam menos de 250 pessoas. Segundo o Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas, 99,7% do tecido empresarial português é constituído por PME´s que geram 72,5% do emprego e realizam 57,9% do volume de negócios nacional (dados referentes ao ano de 2008). 45 Categoria Nº trabalhadores Volume de negócios Micro Empresa Menos de 10 < ou = 2 Milhões € Pequena Empresa Entre 10 a 50 < ou = 10 Milhões € Média Empresa Entre 50 a 250 < ou = 50 Milhões € Quadro 15 – Categorização das empresas Singh et al. (2008) observaram que as PME´s são consideradas a maior fonte do crescimento económico. No entanto, os autores constatam que a ausência de um desenvolvimento de estratégias de longo prazo (foco apenas nas de curto prazo) confirma a prioridade atribuída à gestão do funcionamento. Por outro lado, identificam os recursos limitados e a ausência de inovação em relação aos seus ativos estratégicos, isto é, este tipo de empresa demonstra uma fraca habilidade para gerar e administrar a implantação de inovações tecnológicas e/ou organizacionais levando a constrangimentos à capacidade exportadora destas empresas. Por outro lado, estas empresas apresentam, como resultado da sua dimensão e flexibilidade na adaptação à mudança, diversas vantagens em relação as grandes empresas. Salavou et al. (2004) afirmam que as PME´s orientadas para o mercado e para a aprendizagem, e que enfrentam forte concorrência, tendem a ter uma maior capacidade inovadora. Outros fatores como as competências de oportunidade, relacionamento e inovação tais como as características humanas e estratégicas do empreendedor são apontados por Man et. al (2008) como sendo importantes para a performance de longo prazo das PME´s. Fatores externos como a globalização dos mercados e das operações, os avanços tecnológicos e o aumento da concorrência (que ameaça a sobrevivência das empresas) influencia na mudança de paradigma das PME´s ao levar que estas desenvolvam estratégias de inovação que lhe conferem maior vantagem competitiva e maior capacidade exportadora. Feita esta análise pertinente sobre as PME´s, passaremos a dedicar os subcapítulos posteriores a análise de algumas teorias sobre a internacionalização. 46 4.3.2. Modelo de Uppsala Este Modelo foi, inicialmente, proposto por Johanson e Vahlne, em 1977, num artigo publicado no Journal of International Business Studies e tem como caraterística fundamental o facto de ser de carácter modular e de ocorrência sequencial e incremental (Whitelock,2002). A base deste modelo foi uma pesquisa desenvolvida através de estudos empíricos em algumas empresas da Suécia e dos EUA que tinha como objetivo a partir destes a apresentação de um Modelo de internacionalização com um valor explicativo do processo de internacionalização. A partir deste Modelo houve uma mudança de paradigma na análise dos negócios internacionais, passando estes a serem encarados não apenas numa perspetiva econômica mas também (e sobretudo) numa perspetiva do comportamento organizacional. É neste sentido que Johanson e Vahlne concluem que a internacionalização das empresas dá-se de uma forma progressiva e sequencial. Portanto, o foco deste modelo é o desenvolvimento da empresa individual e, concretamente, as suas aquisições graduais, integração e uso do conhecimento sobre as operações internacionais e sobre os mercados externos, e consequentemente sobre o seu sucessivo aumento de comprometimento nestes mercados. No Modelo Uppsala, a questão da distância psíquica é também preponderante, no sentido em que a propensão para internacionalizar para um determinado mercado é tanto maior quanto menor for essa distância entre o mercado de destino e o mercado de origem. Johanson e Vahlne (1977) referem-se a este conceito como sendo definido pela soma dos fatores que condicionam a fluidez da informação entre os dois mercados em questão. Esses fatores são, por exemplo, as diferenças na língua, na educação, nas práticas empresariais, na cultura, e no desenvolvimento industrial. A tendência natural será, portanto, a internacionalização para mercados em relação aos quais a distância psíquica seja menor, deixando para uma fase posterior a entrada em mercados onde essa distância é maior, aproveitando, dessa forma, o conhecimento entretanto adquirido. Este conceito de “distância psíquica” e sua natural aplicação no processo de internacionalização é que confere um caráter incremental a este modelo explicativo. O caráter sequencial do Modelo Uppsala baseia-se na ideia de que a internacionalização é feita por etapas (módulos), havendo entre estas uma sequência lógica. Através de uma cadeia de estabelecimento formado por vários estágios sucessivos é que se dá o aumento de 47 comprometimento de uma empresa em relação a um novo mercado exterior. A evolução típica passa, inicialmente, por exportações esporádicas resultantes de encomendas pontuais, seguindo-se as exportações através de representantes ou agentes independentes. O estágio posterior passa pelo estabelecimento de uma subsidiária de vendas, culminando o processo, em alguns casos, com a introdução de alguma atividade de produção no mercado de destino. No estágio final há a introdução de unidades de produção com a função inicial de operações de reparação, passando por embalamento, acabamento, processamento e montagem, até se chegar à manufatura integral. O conhecimento dos mercados e operações externas está no centro do modelo. A empresa tende a aumentar gradualmente o seu empenho nos mercados externos à medida que cresce o seu conhecimento sobre esses mercados, principalmente o obtido através da experiência que é tido como o principal num processo de internacionalização. No mercado, as empresas desenvolvem um conhecimento que lhes permite a identificação e avaliação de oportunidades de negócio, e assim, criar novos compromissos de mercado. Estes compromissos levam, por sua vez, à identificação de novas oportunidades (Johanson e Vahlne, 2009). Aspetos fixos Aspetos de mudança Conhecimento do mercado Decisões de compromisso Compromisso de mercado Atividades correntes Fig. 3 – O mecanismo básico de internacionalização (Fonte: Johanson e Vahlne,1977) Apesar da ampla citação em vários artigos sobre o tema da internacionalização de empresas, este Modelo não está isento de criticas. O carater incremental do modelo é contestado, por exemplo, pelo fenómeno das born globals. Segundo Gabrielsson e Kirpalani (2004) uma empresa born global é aquela que desde a sua criação segue a visão de se tornar global e que frequentemente se globaliza rapidamente sem qualquer período prévio dedicado a atividades domésticas ou à sua internacionalização. Normalmente este tipo de empresa adota uma visão e uma estratégia claramente tendente para se tornar internacional ou mesmo global praticamente desde a data da sua criação, através de produtos com um elevado potencial 48 global de mercado aliado a uma capacidade empreendedora para detetar novas oportunidades fruto do maior conhecimento e da maior experiência dos seus empresários. Por seu turno, os conceitos de aprendizagem e distância psíquica são postos em causa, nomeadamente, pelas novas tendências comerciais, como o comercio eletrónico ou via internet, que permite a disponibilização de um determinado produto virtualmente a todos os mercados. 4.3.3. Teoria das Redes O intuito de compreender o desenvolvimento e a evolução das redes, bem como o impacto destas no processo de internacionalização das empresas, tem sua base em dois estudos desenvolvidos inicialmente por Johanson e Mattsson em 1988 com a Teoria das Redes e, posteriormente, por Johanson e Vahlne em 2009 com o Modelo de Uppsala atualizado. No que concerne a Teoria das Redes, Johanson e Mattsson (1988) abordam a internacionalização através de uma perspetiva de existência de redes de relacionamento entre empresas inerentes aos mercados industriais. Este Modelo considera as interdependências entre os vários atores e como estas influenciam a atuação e a performance das empresas nos mercados estrangeiros. Os autores desta Teoria definiram, então, as redes de negócio como sendo um conjunto de dois ou mais relacionamentos de negócios entre empresas (através de atores como os fornecedores, os clientes, clientes de clientes, os distribuidores, os agentes governamentais, os concorrentes). Portanto, estes intervenientes se encontram interligados nesse processo de relacionamento onde têm possibilidade de criar e desenvolver uma base comum de conhecimentos e de confiança recíprocos. Nesse sentido, a internacionalização de uma empresa ocorre como resultado do desenvolvimento de relações (formais ou informais) em rede com indivíduos e/ou empresas estrangeiras que possuem recursos e experiencia, que permite um mais rápido e menos dispendioso acesso à informação e ao conhecimento. O beneficio destas relações duradouras entre as empresas e outras empresas ( que podem ser fornecedoras ou compradoras) é o facto de se alcançar um conhecimento extensivo e uma confiança mutua em relação a aspetos relevantes das trocas industriais como: características do produto, qualidade, prazo de entrega, serviços de pré e pós-venda, recursos, etc. 49 Muitos autores como por exemplo Osarenkhoe (2008) defendem que, no contexto das PME´s, existe uma elevada dependência deste tipo de empresa em relação à natureza e qualidade das relações que estabelecem com outras empresas e o mundo exterior. É esta teia de relacionamentos que lhes permite posicionarem-se com maior confiança e menos riscos no mercado internacional, aproveitando os recursos, a experiência e o posicionamento de outras empresas que se encontram nessa rede. O mesmo ponto de vista é defendido por Coviello e Munro (1997) ao afirmar que as relações de rede internacionais são muito importante e cruciais para que as PME´s procedam à seleção do mercado-alvo e à escolha do modo de entrada. Assim, há uma transferência de algumas atividades antes desenvolvidas na empresa para outras empresas como forma de se obter vantagens competitivas nas cadeias de valor através do fluxo de bens e serviços permitindo assim um melhor posicionamento daquela empresa dentro da rede. Em forma de conclusão, pode-se aferir que, com base na Teoria das redes, as PME´s ao estarem interligadas em redes internacionais, têm os mecanismos necessários para uma mais rápida aquisição de conhecimento e de acesso a fluxos de informação sendo que esta aprendizagem internacional é fulcral para a partilha dos recursos e conhecimentos e para o acesso a uma vantagem competitiva que lhes assegurem uma posição destacada dentro de uma rede. Se uma pequena empresa não possui recursos e conhecimentos essenciais para operar e expandir-se internacionalmente (como geralmente ocorre com as PME´s), então a solução será o estabelecimento de cooperação estratégica e alianças com outros atores domésticos e/ou estrangeiros (Ilhéu, 2009). Portanto, uma PME poderá ter sucesso num mercado caraterizado pelo Modelo de Uppsala como tendo uma grande distância psíquica em relação a mesma, desde que esta empresa esteja inserida numa rede cujo algum(ns) parceiro(s) já tenha(m) um posicionamento favorável dentro da mesma. Dessa forma, a PME poderá elaborar a sua estratégia de internacionalização em torno das suas redes de relacionamento e de acordo com os conhecimentos, experiencias e de acordo com a confiança adquirida em relação aos outros intervenientes da rede internacional de negócios permitindo-lhe adquirir uma vantagem competitiva e uma redução dos riscos e incertezas, fatores estes fundamentais para um processo bem-sucedido de internacionalização. 50 4.3.4. Visão baseada nos Recursos (VBR) O modelo proposto pela VBR significa um grande contributo para a compreensão da internacionalização das empresas e das PME´s em particular, e é um marco na mudança de paradigma em relação aos fatores determinantes para a criação de vantagens competitivas das empresas. Na década de 1980, o paradigma dominante era o Modelo de planejamento estratégico defendido por Michael Porter e de acordo com o qual os fatores externos à empresa como as oportunidades e as ameaças ambientais influenciam a estratégia a seguir para estabelecer uma posição privilegiada nesse mercado e a partir daí, gerar as vantagens competitivas que a empresa procura, para a melhoria da sua performance. Resumidamente, este Modelo das “cinco forças” de Porter defende que num ambiente complexo e em constante mudança como é o atual mundo globalizado, são cada vez mais necessárias estratégias bem definidas e elaboradas através do conhecimento sobre a estrutura do setor de atividade em que se encontra, bem como do ambiente externo em que se pretende inserir (Porter, 1980). O autor fala das seguintes cinco forças: o número de concorrentes e o nível de rivalidade do setor, em determinado momento; entrada de novos concorrentes; poder negocial dos clientes; poder negocial dos fornecedores e o aparecimento de produtos substitutos. O principal objetivo deste modelo passa por permitir à empresa encontrar uma posição no mercado, onde se possa defender melhor contra essas forças, ou influenciá-las a seu favor gerando, assim vantagens competitivas em relação à concorrência. A mudança de paradigma para a Teoria dos recursos dá-se com os trabalhos de Wernerfelt (1984), Barney (1991), Grant (1991), Peteraf (1993), entre outros. Mas a génese deste pensamento remonta a 1959 com o trabalho da economista Edith Penrose, o qual postula que as empresas não apenas se ajustam às condições ambientais necessárias para o sucesso de suas ações, mas principalmente sabem que podem alterá-las e que o ambiente não é independente de suas próprias atividades (Penrose, 1959).Portanto esta nova visão desloca a origem da vantagem competitiva de fora para dentro das organizações (combinação das perspetivas externa e interna) e sugere que a adoção de novas estratégias deve restringir-se a organização dos seus recursos internos e suas competências para se atingir aquela vantagem. Tal abordagem considera as competências, as capacidades e as habilidades como sendo a base de conhecimento produtivo e organizacional, e por sua vez, a fonte mais importante da vantagem competitiva e da lucratividade das empresas a longo prazo. A contribuição básica deste 51 Modelo é uma análise minuciosa das condições sob as quais os recursos geram benefícios, ou seja, heterogeneidade, imobilidade e dificuldade de imitação dos ativos estratégicos geradores de vantagens para as empresas. O início da real sistematização da visão baseada em recursos é normalmente associado ao trabalho de Wernerfelt (1984). Wernerfelt sistematiza a visão baseada em recursos e define estes como sendo qualquer coisa que possa ser pensado como uma força ou fraqueza de uma dada empresa. Mais formalmente, os recursos de uma empresa podem ser definidos como aqueles ativos (tangíveis e intangíveis) que estão presentes de forma semi-permanente na firma. A relação entre recursos e lucratividade é outro ponto focado por este autor, e é explicada em termos dos retornos gerados pelos recursos determinados pelo poder de negociação dos fornecedores (poder de monopólio dos produtores de um recurso, como detentor de patentes, por exemplo) e compradores (poder de monopólio resultante do uso de um recurso pelo produtor, como máquinas desenvolvidas que são completamente idiossincráticas a um consumidor, por exemplo), bem como das ameaças impostas pelos recursos substitutos disponíveis. Assim sendo, Wernerfelt defende que uma empresa deve adquirir somente recursos adequados (atrativos) ao pacote de recursos disponível, de modo que novas combinações resultem em novas maneiras de usá-los e, por sua vez, em retornos mais elevados, no sentido de protege-la e ajudá-la a defender uma vantagem competitiva sobre outro detentor do recurso. A visão de Barney (1991) enaltece que as vantagens competitivas que as empresas possuem nos mercados internacionais são impulsionadas pelos seus recursos específicos e pelas suas características heterogéneas e residem na forma como estas empresas aplicam o conjunto de recursos de que dispõem. Segundo o mesmo autor, os recursos das empresas devem possuir os seguintes atributos: i) serem valiosos, no sentido em que permitem explorar as oportunidades que surgem bem como neutralizar as ameaças do ambiente de negócios; ii) serem raros, na medida em que a empresa os obtêm devido à sua organização, capital próprio, localização, cultura, e na medida que não se encontrem acessíveis aos concorrentes; iii) serem reproduzidos imperfeitamente ou serem de muito difícil imitação, implicando que a concorrência deverá desconhecer em absoluto quais as ações e métodos que a empresa utiliza para duplicar esse recurso; iv) serem imperfeitamente substituíveis, de forma a que não existam recursos idênticos que permitam a replicação de produtos/resultados idênticos. 52 Em relação aos tipos de recursos, há diferentes classificações por parte dos autores. Wernerfelt (1984) e Grant (1991) defendem uma classificação dicotómica diferenciando os recursos em recursos tangíveis e recursos intangíveis. Os primeiros são facilmente observados e avaliados, como por exemplo, as instalações, os equipamentos, os recursos financeiros, os recursos humanos. Já os segundos não podem ser quantificados diretamente, como por exemplo, a imagem e reputação da empresa, os conhecimentos e capacidades dos recursos humanos, as capacidades tecnológicas não documentadas, a capacidade de gestão e de coordenação, e a imagem dos seus produtos nos mercados. Barney (1991) distingue 3 categorias de recursos: i) recursos de capital físico que incluem os ativos imobiliários de uma empresa (fábricas, escritórios, armazéns, terrenos), os seus equipamentos, a sua localização geográfica, o acesso às matérias-primas e à tecnologia; ii) recursos de capital humano que incluem os gestores, os funcionários, os técnicos de uma empresa, tais como os seus conhecimentos, experiências, relacionamentos, capacidades; iii) os recursos de capital organizacional que englobam toda a estrutura da empresa, o planeamento formal e informal, os sistemas de coordenação e controlo dos recursos físicos e humanos, as relações informais na organização. Fladmoe-Lindquist e Tallman (1997) apresentam uma tipologia baseada em cinco categorias, sendo que três delas são os já referidos pelo Barney (os recursos de capital físico, os recursos de capital humano e os recursos de capital organizacional). Por conseguinte, estes autores acrescentam, então, duas categorias: i) recursos financeiros- inclui o capital financeiro fornecido pelas instituições financeiras internacionais, como o FMI, o Banco Mundial, e principalmente pelas instituições nacionais como os Bancos e o Estado (através de subsídios); ii) recursos políticos-engloba as instituições políticas do país de origem através das suas políticas comerciais e financeiras, do seu sistema fiscal e cambial, e das relações entre os governos do país de origem e do país estrangeiro. A Visão baseada nos Recursos encara o processo de internacionalização como “um alargamento do âmbito de desenvolvimento dos ativos e capacidades existentes, para melhorar os resultados das tecnologias chave, criando oportunidades através da exposição a novos mercados” (Ilhéu, 2009). Nesse sentido, haverá novas oportunidades e novos desafios para as empresas, fazendo com que estas adquiram novos recursos, conhecimentos e competências através do contato com novos clientes e novos parceiros oriundos de mercados estrangeiros. Tudo isto permitirá a criação de uma vantagem competitiva dos seus produtos, a 53 redução do risco na expansão internacional, um posicionamento forte e eficiente nas redes de negócio estrangeiras e o objetivo final que passa pelo aumento do lucro. 4.3.5. Teoria do Empreendedorismo Internacional Os primeiros estudos sobre o tema surgiram no final da década de 1980. Morrow (1988) foi o primeiro acadêmico a utilizar a expressão. Para o autor, o empreendedorismo internacional trata-se de uma consequência de avanços tecnológicos, aprendizados culturais e aberturas de mercados exteriores para novos negócios. J.F. Morrow destaca a relevância de uma análise apurada por parte das empresas sobre as diferenças culturais para que consigam compreender a mentalidade do consumidor nos diferentes mercados e assim, conquistá-los com a sua marca/produto. Outro aspeto salientado por este autor é a importância do fenómeno da globalização no aumento de participação das empresas no mercado internacional devido ao facto deste fenómeno proporcionar uma aproximação entre a empresa e o consumidor. Este fenômeno gerou, ainda, mudanças institucionais entre os agentes reguladores do comércio internacional, em especial no tocante às políticas tarifárias, que permitiram a diminuição das barreiras de entrada para produtos e serviços advindos de outros países. Em suma, esta abordagem inicial do Empreendedorismo Internacional baseia-se em fatores externos e conjunturais para explicar este processo de expansão e aproveitamento das oportunidades que aparecem nos mercados estrangeiros. A abordagem do Empreendedorismo sofre uma sistematização e um maior desenvolvimento com a primeira pesquisa teórico-empírica nesta área realizada por McDougall e Oviatt (1994) relacionando o fenómeno do empreendedorismo com a internacionalização das empresas. Estes autores definem empreendedorismo internacional como sendo “uma organização comercial que, desde o seu estabelecimento, obtém significante vantagem competitiva na utilização de recursos e na venda de produtos finais em vários países”. McDougall e Oviatt (1994) também defendem que este fenômeno passa pela descoberta, determinação, avaliação e exploração de oportunidades – através das fronteiras nacionais – para criar bens e serviços futuros. Ilhéu (2009) vai de acordo com esta premissa, ao afirmar que a internacionalização constitui um ato de empreendedorismo devido ao fato de se tratar de uma estratégia que visa o crescimento da empresa através da procura de oportunidades e expansão internacional. Nesse 54 sentido a internacionalização não é mais tratada simplesmente como um resultado, mas sim como uma condição para criação de valor. É de extrema importância analisar-se o fenômeno das born globals no estudo do Teoria do Empreendedorismo Internacional pois o aparecimento do conceito deste tipo de empresas em 1993 coincide com a abordagem desenvolvida por Oviatt e McDougall um ano depois e na qual estes autores aplicam as premissas já apontadas no parágrafo anterior a estas empresas cuja atividade internacional ocorre desde o seu estabelecimento. Rennie (1993) foi o primeiro autor a sugerir o conceito de born global fruto de um estudo realizado com base em algumas empresas australianas. Este estudo descreve um grupo de empresas que iniciaram as suas exportações nos primeiros dois anos de vida e cujas vendas externas demonstraram uma percentagem significativa do total (76%), comprovando assim ser possível ter sucesso nos mercados mundiais sem ter uma base estabelecida nos mercados domésticos. Surge assim, a alusão a um novo tipo de empresas que vêm o mundo como o seu mercado de atuação, desafiando, desta forma, os modelos tradicionais de internacionalização. Segundo Andersson e Wictor (2003) as born globals são aquelas empresas que possuem no mínimo 25% do seu volume de faturação proveniente de vendas para fora do seu país num prazo de três anos depois da sua criação, e que possuem vantagem competitiva no uso de recursos e na venda de produtos em vários países. Gabrielsson e Kirpalani (2004) salientam que estas empresas seguem , desde a sua criação, a visão de se tornarem globais e que frequentemente se globalizam rapidamente sem qualquer período prévio longo dedicado a atividades domésticas. Oviatt e McDougall (1994) aponta alguns fatores responsáveis pelo surgimento das born globals como: i) influência das inovações tecnológicas recentes nos meios de comunicação e transporte que reduziram os custos das transações internacionais; ii) um grande aumento da procura para os produtos nos mercados estrangeiros que torna estes mais apetecíveis do que o mercado doméstico; iii) a especialização numa categoria especifica de produto para o qual a procura no mercado interno é demasiado pequena; iv) o número crescente de recursos humanos com experiência em negócios internacionais; v) a crescente especialização dos mercados e o surgimento de nichos que podem ser explorados por empresas de pequena dimensão devido aos avanços tecnológicos. Em 2000, McDougall e Oviatt estendem a análise sobre o Empreendedorismo Internacional para as empresas já estabelecidas no mercado domestico e preenchem a lacuna que existia 55 nesta teoria baseada na aplicação da mesma apenas a empresas born globals. Outra idéia inovadora é a de que o comportamento empreendedor internacional não depende das características, da dimensão e da atividade das empresas; e o facto de uma empresa se globalizar logo após a sua criação não confere uma condição sine qua non para um comportamento empreendedor. Ocorre também uma perceção individualista e subjetiva inerente a corrente do Empreendedorismo Internacional que confere uma importância dos indivíduos no processo e na estratégia empreendedora de uma empresa no contexto internacional. McDougall et al. (1994) definem o empreendedor como aquele individuo que está atento a todas as informações relativas a possíveis combinações de recursos que dão origem a lucros, e que não são percebidas por outros ou que poderiam ser percebidas muito mais tarde. Já Andersson (2000) define-o como aquele individuo que, através dos seus conhecimentos internacionais e estratégicos, desenvolve ações empreendedoras e não apenas aquele que toma decisões críticas. Assim, é função do empreendedor desenvolver as ações e capacidades necessárias e processar as informações para o inicio do processo de internacionalização. Segundo Andersson (2000) o que importa mais para uma capacidade empreendedora não é a posição funcional do empreendedor dentro da empresa quer ele seja o fundador da empresa, o proprietário da empresa, o diretor-geral ou um simples colaborador; mas sim, qualidades subjetivas relacionadas com o empreendedorismo como: a capacidade de identificar novas combinações entre tudo aquilo que a empresa consegue e sabe fazer no universo daquilo que a empresa poderia fazer, a capacidade de iniciativa e de desenvolvimento destas combinações estratégicas, a perceção de que agir de acordo com a sua própria filosofia e visão se revela mais importante do que seguir cálculos racionais, a capacidade de convencer os outros a investirem nos seus empreendimentos e, por fim mas não menos importante, a capacidade de escolher o tempo certo para agir. De acordo com as ideias de Simões e Dominguinhos (2005) as características distintivas dos empreendedores compreendem as suas atitudes e motivações, o seu conhecimento e experiencia, além da sua inclusão nas redes sociais domésticas e internacionais são fatores que exercem um papel relevante na identificação de oportunidades e no desenvolvimento de alianças estratégicas e, dessa forma, acabam internacionalização dos novos empreendimentos. 56 por influenciar a tendência de 4.4. Seleção dos Mercados Externos A seleção de mercados no âmbito de um processo de internacionalização é fundamental para o sucesso das empresas em novos mercados e terá de ser realizada numa fase anterior a escolha do(s) modo(s) de entrada. Nesse sentido, têm sido propostos por vários autores, modelos que permitem às empresas levar a cabo processos racionais e sistemáticos para a análise e avaliação dos mercados. No entanto, Papadopoulos et al. (1988) defendem que, em alguns casos, o processo de seleção pode basear-se em fatores como experiências pessoais, crenças, ideologias dos tomadores de decisão. 57 A figura seguinte sintetiza como Root (1994) percebe o desenvolvimento lógico que ocorre na seleção de um mercado externo: A sua empresa possui produtos que provavelmente podem ser vendidos no exterior? Não Sim Devemos pesquisar mercados estrangeiros? Sim Não Não A triagem preliminar indica haver potencial de mercado em países-alvo? Sim Não A análise de dados secundários indica um país com alto potencial de vendas? mercado doméstico Sim A fonte de dados primários (campo) dá validade aos dados secundários? Não Reprogramar o modo de entrada Continua a explorar apenas o Não Sim O nosso modo de entrada é o mais apropriado, dados os fatores externos e nossos objetivos? Não Sim O nosso plano de marketing é o mais apropriado, dados os nossos recursos e objetivos? Reprogramar o plano de marketing Não Sim Devemos entrar agora no mercado estrangeiro? Retardar a entrada Sim Operações Reprogramar a estratégia Não O nosso desempenho é satisfatório? Não Retirar Sim Devemos pesquisar outros mercados? Não Ficar com um mercado único Fig. 4 – Modelo de fluxo lógico relativo ao processo de decisão de entrada num mercado externo (Fonte: Root, 1994) 58 Na seleção do mercado externo, a empresa deverá seguir duas etapas fundamentais: i) a avaliação dos mercados externos potenciais (onde a empresa avaliará uma diversidade de fatores como a atual e potencial dimensão desses mercados, os níveis de concorrência que poderá aí enfrentar, os ambientes legal e politico e as características sociais e culturais) e ii) avaliar os custos, benefícios e riscos inerentes à entrada em cada um dos potenciais mercadosalvo (Griffin e Pustay, 2002). Uma constatação importante no processo de seleção de mercados externos é o fato das grandes empresas e as PME´s abordarem este processo de forma diferente derivado deste ser influenciado por fatores também diferentes em cada uma das tipologias de empresa. Hollensen (2011) aborda este tema e defende que nas PME´s o processo de seleção é simplesmente uma reação a um estimulo que normalmente é uma encomenda esporádica e ocasional fornecido por um “agente de mudança” (que pode ser uma outra empresa, uma câmara de comércio, as agências de governamentais,etc.). Portanto, a seleção do mercado é uma ação pontual fruto de um estimulo externo e uma oportunidade esporádica proveniente de um determinado mercado. Outro fator com uma grande influência no processo de seleção dos mercados das PME´s é a “distância psíquica” explorada na Teoria de Uppsala. Este conceito permite uma diminuição dos níveis de incerteza e de risco devido ao fato de uma empresa, ao escolher um mercado cuja distância cultural é menor, aproveitar a vantagem do conhecimento que ela já tem e da menor dificuldade em obter mais informações sobre este mercado. Portanto, através de uma tríade de fatores como a menor distância psíquica, geográfica e cultural, a empresa faz uso de vantagens fiscais, politicas, sociais, culturais e econômicas para selecionar tal mercado em detrimento de outro poupando, assim, recursos que normalmente são utilizados na recolha de informações e na sistematização do processo de seleção. No entanto, Bell (1995) salienta que a distância psíquica tornou-se um fator menos relevante na seleção de um mercado dado que as comunicações globais e as infraestruturas de transporte melhoraram e os mercados se tornaram cada vez mais homogéneos. Hollensen (2011) salienta também que para as grandes empresas que já possuem operações no exterior o problema não é a entrada num novo mercado, mas sim, como explorar efetivamente as oportunidades no contexto internacional da sua já existente rede de operações pois estas empresas têm uma maior e melhor acesso a informações primárias e secundárias sobre um determinado mercado fruto da sua maior capacidade financeira e recursos a sua disposição. 59 Este mesmo autor classifica os determinantes da escolha do mercado externo em dois grandes grupos: as características internas da empresa e a sua envolvente externa. O primeiro corresponde à dimensão da empresa, a quantidade de recursos, o grau de internacionalização e experiência internacional, a natureza do negócio e as suas redes de negócio(contatos com clientes, distribuidores, etc.). Relativamente a sua envolvente externa, deve-se ter em conta alguns fatores existentes no mercado-alvo como o potencial deste mercado, a concorrência, a distância psíquica/geográfica e a similaridade com o mercado de origem. Segundo Kumar et al. (1994) e Root (1994) o processo de seleção de mercado é composto por três etapas fundamentais: o processo de triagem, identificação e seleção. Na primeira etapa, deveremos analisar de forma cuidada os fatores económicos, políticos, culturais e geográficos; na etapa seguinte, deveremos ter em consideração questões relacionadas com a indústria como, por exemplo, o desenvolvimento tecnológico, a concorrência, o potencial de crescimento do mercado; na terceira e última etapa deveremos ter em consideração a questão lucrativa, bem como a capacidade de adaptação dos seus produtos/serviços a uma nova realidade. Já Johanson (1997) apresenta um modelo com uma sequência alterada e com o aumento de uma etapa em relação a análise anterior. Ele sugere, então, as seguintes quatro etapas: Etapa 1: Identificação do país. Esta identificação baseia-se na população, no PIB, na renda per capita, nas estatísticas de crescimento económico; Etapa 2: Triagem preliminar. Nesta etapa analisa-se a estabilidade politica, o desenvolvimento económico e a distância geográfica para eliminar já alguns países e avaliar os custos de entrada no mercado; Etapa 3: Triagem profunda. Aqui ocorre uma recolha e respetiva análise de dados específicos da indústria e do produto; estima-se o potencial de mercado e é feita uma previsão de taxas de crescimento; analisam-se as forças e as fraquezas da concorrência, as barreiras à entrada num determinado mercado e os recursos limitados da empresa. Etapa 4: Seleção final. Nesta fase são comparados os resultados obtidos com os objetivos da empresa, são elaboradas previsões de vendas e os custos são comparados 60 para que a empresa possa escolher aquele mercado que melhor se enquadra num investimento eficaz dos seus recursos. Em suma, no processo de seleção do(s) mercado(s) externo(s), a empresa deverá ter uma orientação policêntrica e não etnocêntrica como forma de ter uma capacidade de perceção de que cada país tem suas características especificas que exigirão, por isso, comportamentos e ações diferentes e adequados a cada situação por parte da empresa. Portanto, deve haver uma adaptação dos seus procedimentos, mecanismos e orientações a cada mercado-alvo. Aaby e Slater (1989) vai mais longe nesta análise e defende que as empresas que alterem os seus produtos, tendo em consideração as características de cada um dos mercados onde atuam, obtêm melhores resultados, indo de encontro aos objetivos a que se propuseram. O fator cultural é bastante referido pelos autores como sendo uma influência muito importante no processo de seleção dos mercados pois o conjunto de crenças, hábitos e costumes enraizados numa sociedade de um determinado mercado irá refletir-se no comportamento e nos padrões de consumo da mesma. 4.5. Determinantes da escolha do modo de entrada Após a deteção de uma oportunidade num mercado exterior, deve decidir-se qual o modo de entrada mais adequado para tirar proveito da mesma. A seleção do modo de entrada traduz-se como uma escolha entre o fator risco e o fator retorno, onde é influenciado pelo grau de controlo, isto é, o grau de autoridade das atividades sobre as decisões estrangeiras a nível estratégico e operacional. Dessa forma, o modo de entrada deve ser bem ponderado, pois será um ponto crucial que definirá o desempenho da empresa e que favorecerá os seus interesses. Faz-se, então, necessário esmiuçar quais os fatores que influenciam a tomada de decisão em relação a seleção do modo apropriado de entrada num mercado externo. Em relação aos PME´s a grande parte dos estudos revela que estas empresas tendem a preferir expandir-se, numa fase inicial, para países geograficamente próximos e, só depois de já terem alguma experiência internacional, abordarem países mais distantes e com mercados de maior dimensão. Esta opção inicial por países mais próximos (que foi explicada através do conceito de “distância psíquica” pelos autores Johansson e Vahlne) pode ser explicada pelo limitado 61 conhecimento do mercado e pela escassez de recursos financeiros e humanos (Coviello e Munro, 1997), permitindo às empresas desenvolver a sua rede de relações, adquirir conhecimento acerca dos mercados internacionais e aceder a recursos que lhes permitam entrar em mercados geograficamente mais distantes e de maior dimensão. O modo de entrada destas empresas é, geralmente, através das exportações e mesmo com o maior grau de envolvimento fruto do maior conhecimento e experiência, a maioria destas empresas não chega aos modos de entrada com participação de capital. A Visão Baseada em Recursos (VBR) pode servir como uma boa base analítica para a explicação dos fatores que determinam a escolha de um determinado modo de entrada por parte de uma empresa. A VBR encara as empresas como um conjunto muito diferente de recursos tangíveis e intangíveis, por isso, a diferença de desempenho e a consequente obtenção de uma vantagem competitiva por parte destas empresas são explicadas pela heterogeneidade dos recursos que são desenvolvidos e controlados por aquelas. Como a internacionalização se refere a uma estratégia para se obter maior presença no mercado internacional e as empresas precisam fazer uso de recursos estratégicos para sua inserção no mercado internacional, há uma relação concreta entre os pressupostos da VBR e as opções e estratégias perseguidas pelas empresas no processo de internacionalização. Segundo Helfat e Lieberman (2002) os recursos e capacidades da empresa através da sua relação com o mercado influenciam as decisões dessa empresa sobre o tipo de mercado, o modo de entrada, o tempo e o sucesso da entrada no seu processo de expansão internacional. Helfat e Lieberman (2002) também defendem que as empresas bem-estabelecidas em alguns mercados internacionais acabam por optar em expandirem-se para outros mercados onde os recursos, as capacidades e as competências exigidos são, de alguma forma, similares aos requeridos nos processos de expansão anteriores. A falta de conhecimento de um mercado local pode exigir uma maior utilização de recursos e mais riscos, que normalmente as empresas querem evitar. Erramilli e Rao (1990) são dois autores que abordam a relação entre os recursos da empresa e as estratégias de internacionalização. Estes autores salientam que cada estratégia de internacionalização demanda recursos específicos e quanto mais recursos estratégicos a empresa possuir, mais poderá utilizar estratégias de internacionalização mais complexas e que 62 envolvem um maior comprometimento. Portanto, os recursos que uma empresa possui são fatores-chave na estratégia do modo de entrada. O quadro seguinte sintetiza de forma evidente a relação entre os recursos de uma empresa e a estratégia de entrada que oferece uma maior possibilidade de sucesso e retorno. 63 Modo de entrada Montante de Tipo de recursos recursos (determinantes da Grau de comprometidos vantagem envolvimento no exterior competitiva) Recursos relativos à produção, comercialização e Subsidiária integral ativos estratégicos Muito alto tipo Greenfield não passíveis de transferência. Controlo total da nova unidade. Subsidiária integral Alto Joint Venture com participação majoritária Moderado a alto Recursos relativos à produção, comercialização e ativos estratégicos passíveis de transferência. Necessidade de uma complementaridade entre os recursos dos parceiros. Recursos relativos à produção, comercialização e ativos estratégicos Moderado Joint Venture com participação de 50% passíveis de transferência. Necessidade de uma complementaridade entre os recursos dos parceiros. P Produção local no país tipo aquisição Recursos relativos à produção, comercialização e ativos estratégicos não passíveis de transferência. Controlo total da nova unidade. 64 Muito Alta Recursos relativos à produção, comercialização e Joint Venture com ativos estratégicos Moderado participação minoritária passíveis de transferência. Necessidade de uma complementaridade entre os recursos dos parceiros. Recursos relativos à Subsidiária para exportação Moderado atividades de comercialização e boa rede de contatos Exportação Recursos relativos à Exportação direta atividades de Baixo comercialização e boa rede de contatos Baixo nível de recursos tanto a nível Exportação indireta Baixo de produção, comercialização e conhecimento do mercado exterior Recursos relativos à atividades de produção e ativos Licenciamentos ou franquias Muito baixo estratégicos passíveis Muito Baixa de transferência Quadro 16 - Relação entre os recursos de uma empresa e a estratégia de entrada (Fonte: Erramili e Rao, 1990) Na abordagem relativamente à estratégia de negócio, Root (1987) afirmou que os modos de entrada são influenciados por vários aspetos, verificando-se assim os mais adequados, sendo por objetivo lucrativo ou não lucrativo, por fatores internos (produto e compromisso), e 65 também pelos fatores externos (questões politico-legais, mercado e relação país de origem e de destino). A escolha do modo de entrada, é constituída pela ótica do planeamento estratégico que mais maximiza os lucros de longo prazo, nunca esquecendo os riscos políticos e do próprio mercado. Fig. 5 – Fatores a considerar na decisão do modo de entrada segundo Root ( Fonte: Root, 1994) Uma outra abordagem que tenta analisar a seleção do modo de entrada é a proposta por Hollensen (2011). Esta perspetiva faz uma análise abrangente sobre os fatores que influenciam esta seleção agrupando-os em quatro grupos: fatores internos, fatores externos, características do modo pretendido de entrada e os fatores específicos à transação. Relativamente aos fatores internos, deve-se ter em conta a dimensão da empresa que constitui um indicador dos seus recursos disponíveis. Este fator explica o porquê das diferentes escolhas em relação ao modo de entrada por parte das PME´s e das MN´s. As primeiras escolhem as exportações, em geral, devido ao fato de não possuírem os recursos necessários para ter um elevado nível de controlo sobre as operações. Já as grandes empresas têm uma maior capacidade em termos de recursos para selecionar modos de entrada com participação de capital. A experiência internacional é um segundo fator interno e está ligado ao nível de experiência e conhecimento dos mercados externos por parte dos seus gestores. E quanto maior esta 66 experiência, menor é o grau de incerteza e risco na abordagem a estes mercados e, consequentemente, maior o nível de confiança na afetação dos recursos. Outro fator interno são os produtos/serviços. As diferentes caraterísticas que os produtos ou serviços têm influenciam o modo de entrada que a empresa irá selecionar. Produtos com elevada relação valor/peso tendem a levar com que as empresas os exportem, aproveitando, assim, o controlo total da produção e as economias de escala. A empresa também tende a avaliar os custos do envio dos produtos( custos de transporte) para concluir se a exportação é vantajosa; caso não seja, a instalação de uma unidade de produção no mercado externo será a opção. Outro caso prende-se com o facto de não haver intermediários para os produtos e neste caso a instalação de unidade de vendas ao consumidor faria todo o sentido. Em relação aos fatores externos, Hollensen (2011) define seis categorias. Uma delas é a distância sociocultural entre o mercado doméstico e o mercado-alvo. Países com uma cultura semelhante, normas e práticas de negócio comuns, um idioma comum ou similar e países cuja sociedade têm níveis educacionais aproximados permitem um maior nível de confiança na empresa que está a internacionalizar-se e uma maior envolvimento dos recursos atingindo, em muitos casos, modos de entrada como o investimento direto e/ou joint ventures. Outro fator externo é o risco país/incerteza da procura. Os riscos políticos, sociais e econômicos inerentes a um determinado mercado têm uma influência importante na escolha do modo de entrada. Portanto, quando estes riscos são elevados, há um clima de incerteza e imprevisibilidade no ambiente do país estrangeiro contribuindo para o aumento da incerteza da procura; toda esta envolvente influencia a escolha de modos de exportação devido ao baixo comprometimento dos recursos intrínseco a este modo de entrada. Um terceiro fator externo é a dimensão do mercado e o seu potencial crescimento. Existe, então uma relação positiva entre estes indicadores e a maior propensão da empresa em comprometer muitos recursos nesse mercado via investimento direto como forma de garantir uma rentabilidade a longo prazo e a oportunidade de realização de economias de escala. Já nos mercados mais pequenos, as empresas optam pelos modos de exportação e/ou acordos de licenciamento. As barreiras comerciais diretas e indiretas são um outro fator externo que afeta a escolha do modo de entrada. A proteção da economia e da indústria desenvolvida em alguns países favorecendo os fornecedores nacionais influencia a decisão de se escolher modos de entrada 67 que permitam a partilha dos recursos e do controlo como a joint ventures ou modos contratuais com empresas locais. Nestes países em que se praticam restrições aduaneiras como as tarifas e as quotas impostas à importação há um incentivo para que as empresas evitem as exportações e privilegiem o estabelecimento de uma unidade de produção como forma de escapar a estas limitações alfandegárias. O nível da concorrência no mercado externo também influencia o modo de entrada. Quando a intensidade da concorrência é elevada no país estrangeiro, as empresas que queiram se internacionalizar para o mesmo evitarão a internalização em prol de modos de entrada como a exportação dado que a saturação deste mercado não aconselha um alto comprometimento de recursos. Ainda há um outro fator externo que é o pequeno número de intermediários relevantes. Devido a menor oferta de intermediários, eles acabam por ter uma maior margem de negociação e podem aproveitar desta situação para agir de forma oportunista e vantajosa. Neste contexto, não é preferível adotar a exportação indireta ou os acordos contratuais, mas sim modos de entrada com participação de capital (investimento). Quanto as características do modo pretendido de entrada ( 3º grupo de fatores), o autor aponta os seguintes fatores: a aversão ao risco e o controlo. O primeiro fator tem a ver com as empresas que preferem modos de entrada com o menor nível de risco e com um baixo comprometimento dos recursos. As opções passariam pelas exportações onde uma eventual perda limita-se ao valor da mercadoria exportada; ou pelo licenciamento onde pode-se ter um bom controlo sobre a interface com os consumidores e ser o próprio canal de marketing da marca evitando, assim, que intermediários propaguem de forma errada a marca/produto. Já o fator seguinte tem a ver com o grau de controlo pretendido na gestão das operações nos mercados internacionais. O controlo é muitas vezes relacionado com o grau de envolvimento dos recursos, sendo que se uma empresa opta pelas joint ventures o controlo é limitado e partilhado com outra empresa; no entanto, se a mesma opta por uma subsidiária detida a 100%, há um controlo total sobre as operações o que permite um melhor conhecimento sobre o mercado- em dimensões como o comportamento dos consumidores, preços de mercado, quotas de mercado das empresas concorrentes, níveis de satisfação, politicas governamentais, etc. 68 O quarto e último grupo de fatores proposto pelo Hollensen (2011) são os fatores específicos a transação. Nesta matéria, a proteção do know-how da empresa e a prevenção da ameaça de spillover decorrentes da transferência de conhecimento e/ou tecnologia entre entidades orgânicas distintas têm um caráter de grande importância. Este problema decorrente do oportunismo em relação ao conhecimento técnico e codificável e à experiência adquirida pela empresa surge, em geral, nos modos de entrada que envolvem parcerias, como é o caso das joint ventures, pelo que essa potencial ameaça poderá levar as empresas a evitar tais estratégias de internacionalização, preferindo, por outro lado, as subsidiárias detidas a 100% que apesar de exigirem um elevado comprometimento dos recursos, permitem um maior controlo de todo o tipo de conhecimento (individual, organizacional, técnico) garantindo assim, uma maior proteção na transferência de todo o tipo de know-how pertencente a empresa. Grupo de fatores Fatores - Dimensão da empresa Fatores internos Fatores externos - Experiência internacional - Produto/serviço - Distância sociocultural entre o mercado doméstico e o mercado alvo - Risco país/ incerteza da procura - Dimensão do mercado e crescimento - Barreiras comerciais diretas e indiretas - Intensidade da concorrência - Pequeno número de intermediários relevantes dísponiveis - Aversão risco Carateristicas do modo pretendido - Controlo - Flexibilidade Fatores específicos à transação - Natureza tácita de know-how Quadro 17 – Fatores que afetam a decisão do modo de entrada no mercado estrangeiro segundo Hollensen ( Fonte: Hollensen, 2011) 69 4.6. Classificação dos modos de entrada Há uma abundante pesquisa acadêmica sobre os modos de entrada nos mercados externos. Existe uma grande variedade de modos de entrada em mercados externos de entre os quais as empresas podem selecionar aquele, ou aqueles, que considerem o mais adequado aos seus recursos e objetivos. A classificação desses modos de entrada em categorias é apresentada de forma diferente pelos autores, porém há muitos pontos em comum nas várias classificações apresentadas. De acordo com vários autores, o modo de entrada refere-se ao arranjo institucional pelo qual a empresa opta para operar num mercado externo, constituindo-se esta como uma das suas decisões estratégicas mais importantes já que afetará toda a sua atividade futura nesse mercado. A análise feita por Leersnyder (1986) propõe que os diferentes modos de entrada devem basear-se no grau de envolvimento das empresas nos mercados externos e no grau de controlo que as empresas detêm nas suas operações internacionais. O grau de envolvimento pode ser medido através do nível de investimento e da quantidade de recursos comprometidos para o efeito. Já o grau de controlo pode ser avaliado através do grau de liberdade de decisão e de ação da empresa e na maior delegação destes a outra entidade. Este autor relaciona quatro estratégias de modo de entrada às várias categorias do mesmo. As estratégias são: delegar sem investir, controlar sem investir, investir e delegar, e investir e controlar. A estratégia delegar sem investir compreende os modos de entrada exportação indireta, licenciamento, franchising, transferência de tecnologia e contratos de produção. A estratégia controlar sem investir engloba a exportação direta, contrato de serviço e o contrato de gestão. Já a estratégia investir e delegar inclui os modos joint venture e consórcio. Por fim, a estratégia investir e controlar reúne a sucursal, filial comercial, filial industrial e filial integrada. Luostarinen (1994) apresenta uma classificação baseada em quatro grupos e assente sobre os conceitos dicotômicos de internalização e externalização: Operações de marketing sem investimento (non-investment marketing operationsNIMOs), baseadas na externalização e que inclui a exportação indireta, a exportação direta e a exportação própria; Operações de marketing com investimento direto (direct investment marketing operations- DIMOs) que se efetuam através da internalização dos recursos e dos 70 custos e que incluem as subsidiárias de promoção de vendas, de armazenamento, de serviços e de vendas; Operações de produção sem investimento (non-investment production operationsNIPOs) realizadas com base na externalização e que compreendem: licenciamento, projetos parciais, franchising, contratos de produção e projetos chave-na-mão; Operações de produção com investimento direto (direct investment production operations- DIPOs) que se desenvolvem através da internalização e que incluem a subsidiária de montagem e de produção. Uma perspetiva diferente e mais voltada para as estratégias e operações é sugerida por Root (1994) ao propor três distintos modos de entrada: a via da exportação que inclui a efetuada de forma indireta, ou direta via um agente ou distribuidor, ou ainda a direta via uma filial ou subsidiária; a via contratual que não implica a participação de capital e que engloba o licenciamento, o franchising, os acordos técnicos, os contratos de serviços, os contratos de gestão, os contratos de construção chave-na-mão, os contratos de produção e os acordos de co-produção; e, por fim, a via do investimento que abarca novos investimentos em sole venture, aquisições em sole venture, joint ventures em novos empreendimentos ou aquisições. Driscoll (1995) ordena, também, três modos de entrada que são os seguintes: exportação, contratualização e investimento; e os analisa sob o prisma de cinco variáveis: controlo, disseminação do risco, comprometimento dos recursos, flexibilidade e propriedade. A variável controlo tem a ver com a capacidade da empresa em assegurar que os resultados comprovam os objetivos propostos, ao nível, por exemplo, do processo de produção, coordenação de atividades, logística, entre outros. O risco de disseminação é o risco que uma empresa poderá incorrer no caso do seu know-how ser expropriado por um parceiro contratual. O comprometimento de recursos baseia-se no grau de envolvimento dos recursos humanos, físicos e financeiros de uma empresa no mercado externo. Já a flexibilidade tem a ver com a possibilidade da empresa poder alterar os modos de entrada de forma rápida e com baixo custo face às circunstâncias do meio envolvente. E, por fim, a propriedade é a participação de capital utilizada num modo de entrada. O quadro seguinte sintetiza a relação entre os modos de entrada e as variáveis: Após se efetuar uma profunda análise bibliográfica sobre os modos de entrada, chega-se a conclusão que o Modelo hierárquico de Pan e Tse (2000) é o mais consensual e o mais utilizado pelos autores para explicar as formas disponíveis para as empresas se 71 internacionalizarem para os mercados externos. Este modelo defende que os modos de entrada podem ser divididos em: modos de entrada sem participação de capital (Non-equity Modes) e modos de entrada com participação de capital (Equity Modes). Os fatores que Pan e Tse (2000) utilizam para analisar e diferenciar as várias formas de entrada num mercado externo comportam: o grau de comprometimento dos recursos, a exposição ao risco de cada uma dessas formas de entrada, o controlo e gestão sobre o investimento e sobre o retorno financeiro. Para fundamentar a análise deste Relatório de Estágio, tomaremos em conta as premissas do Modelo de Pan e Tse (2000) e analisaremos detalhadamente cada modo de entrada proposto por este Modelo dado que a performance de uma empresa no mercado externo depende muito de uma seleção rigorosa da forma de entrada que permita garantir uma vantagem competitiva, uma maior margem de lucro e uma maior visibilidade e propensão da sua marca/produtos/serviços. A figura seguinte permite a visualização do Modelo hierárquico de Pan e Tse e uma apresentação dos diferentes modos de entrada. 72 Escolha dos modos de entrada Modos de entrada sem Participação de capital (Non-Equity Modes) Exportação Modos de entrada com Participação de capital (Equity Modes) Acordos Contratuais Exportação Direta Licenciamento Exportação Indireta Contratos Outros Alianças Equity Joint Ventures (EJV) de I&D Subsidiária Integral EJV Minoritária Greenfield EJV com Participação de 50% Aquisição Outros EJV Maioritária Outros Fig. 6 – Modelo hierárquico de escolha do modo de entrada (Fonte: Pan e Tse, 2000) 4.6.1. Modos sem participação de capital Os modos de entrada sem participação de capital são aqueles que não requerem o envolvimento, por parte das empresas, em termos de participação no capital social, como também não exigem o estabelecimento de uma organização independente nem uma participação acionária ou em termos de propriedade. Dessa forma, o controlo das operações externas é partilhado ou totalmente realizado por outras empresas, o que viabiliza um baixo comprometimento dos recursos próprios da empresa que se internacionaliza. Assim, o risco, o investimento de recursos e o controlo sobre o negócio são relativamente baixos porém o 73 retorno do investimento e a margem de lucro normalmente são menores em relação aos modos de entrada com participação de capital. Estes modos de entrada podem ser divididos em dois grupos segundo Pan e Tse (2000): a exportação e os acordos contratuais. A primeira pode ser direta, indireta ou ter outras formas. Já os acordos contratuais envolvem o licenciamento, os contratos de investigação & desenvolvimento, as alianças e outras formas de contrato. Neste subcapítulo analisaremos a tipologia dos acordos contratuais de forma detalhada e só se abordará todos os aspetos relativos a exportação num capítulo exclusivo deste Relatório totalmente dedicado a este modo de entrada nos mercados externos. Esta opção de abordar este tema de forma particular e aprofundada advém do facto de esta estratégia de entrada ser a mais adequada a empresa na qual realizei o Estágio, a Enamorata, e a que mais se encaixa nos desígnios e objetivos da mesma como também nas características do mercado caboverdeano. Esta forma de entrada nos mercados apresenta-se, assim, como uma oportunidade para as PME’s, dando a estas rápido acesso aos mercados externos, implicando um baixo investimento e sendo igualmente uma excelente forma destas empresas obterem experiência internacional a longo prazo. 4.6.1.1. Acordos Contratuais Os modos de entrada efetuadas através da contratualização constituem-se como uma associação de longo prazo entre uma empresa que pretende internacionalizar-se e uma entidade num mercado alvo externo, envolvendo a transferência de tecnologia ou know-how da primeira para a segunda. Esta estratégia de entrada difere da exportação por ser um meio de transferência de conhecimento e capacidades enquanto esta se baseia na transferência de mercadorias. Os acordos contratuais, apesar de não envolverem um investimento em propriedade, podem abrir caminhos entre a empresa e o mercado externo que favoreçam futuras exportações ou ainda uma evolução do modo de entrada para uma estratégia com participação de capital. Root (1994) defende que através das licenças, uma empresa transfere para uma entidade externa e por um período de tempo determinado, o direito de utilização da sua propriedade industrial (patentes, know-how, ou marcas), da sua capacidade tecnológica e/ou da sua capacidade humana (recursos humanos que poderão transferir capacidades e qualificações) 74 recebendo em troca, uma compensação que, por norma, se traduz em royalties. Segundo este autor, as razões que levam uma empresa a licenciar no estrangeiro são as seguintes: i) obter rendimentos adicionais com tecnologia já explorada ao limite no mercado interno; ii) ter acesso a resultados de pesquisas e investigações levadas a cabo por empresas estrangeiras em troca da divulgação das suas próprias pesquisas; iii) proteger patentes e marcas num mercado externo, contra as perdas potenciais da sua não utilização ou decorrentes do seu uso abusivo; iv) facilitar o repatriamento e a recuperação de capitais em situações de restrição de pagamento de dividendos ou outras imposições legais desvantajosas através da inclusão de cláusulas nos acordos ou contratos com as entidades externas fazendo com que estas utilizem, mas não sejam detentoras, das patentes e marcas; e, por fim, logicamente v) penetrar em novos mercados externos. A entrada em mercados externos através de acordos contratuais tem diversas vantagens, sendo a mais óbvia das quais a capacidade de contornar barreiras à importação, como tarifas alfandegárias ou quotas impostas por alguns governos de determinados mercados externos. Esta estratégia permite ainda contornar outros problemas associados à exportação como é o caso de custos de transporte elevados ou taxas de câmbio depreciativas da moeda do país alvo o que leva a uma menor margem de lucro. Uma outra vantagem deste modo de entrada reside no baixo risco politico que acarreta quando comparado com o investimento em propriedade dado que uma licença não é passível de expropriação por parte do governo, já que não se trata de um bem tangível. Outro facto também relevante é que certos setores, como o equipamento militar e as comunicações, são considerados críticos para o interesse nacional e, por isso, o único modo de entrada é através de uma licença. Por fim, se tivermos em conta uma análise no âmbito dos fatores internos das empresas, os acordos contratuais e licenças são os modos de entrada mais atrativos quando há necessidades de se adaptar o produto aos requisitos do mercado alvo e se a empresa não estiver disposta a comprometer demasiados recursos técnicos e financeiros com o mercado de destino em causa (Root,1994). Segundo Pan e Tse (2000) os acordos contratuais englobam o licenciamento, os contratos de I&D, as alianças, e franchising. Reiteramos que existem outros tipos de acordos contratuais, no entanto, para este Relatório, a abordagem destas quatro tipologias é suficiente e abrange os aspetos mais importantes. 75 a) Licenciamento Segundo Ball et al. (2010) o licenciamento é um acordo contratual em que uma empresa (licenciador) concede a outra empresa (licenciado) o direito (licença) de utilizar qualquer tipo de conhecimentos, tais como processos de produção (patenteados ou não patenteados), segredos comerciais, marcas registadas de um ou mais produtos do licenciador, mediante o pagamento de royalties. Este modo de entrada está, portanto, restringido a empresas que detenham tecnologia e/ou marcas de utilização atrativa para empresas externas. Martins (2011) reitera que esta forma contratual concede a empresa licenciada o direito sobre patentes, fórmulas, processos, marcas, métodos, programas, sistemas, desenhos ou peças literárias, usufruindo também esta empresa do direito de produzir e comercializar, através das capacidades industrial, tecnológica e/ou humana da empresa (licenciador), um produto ou serviço dentro de uma área previamente determinada, por um período determinado. Ilhéu (2009) observa que este modo de entrada confere uma vantagem tanto para o licenciador que consegue penetrar num mercado estrangeiro com pouco risco e baixo custo, quanto para o licenciado que ganha o know-how da produção de um produto, uma marca ou um conceito de negócio que já tem um sucesso e um posicionamento de mercado sem ter de começar do zero. O licenciamento é, normalmente, utilizado por empresas detentoras de conhecimentos tecnológicos avançados ou com uma forte imagem de marca e que pretendem a rentabilização dessa vantagem competitiva sem investimento e sem risco. Há vantagens e desvantagens inerentes a esta estratégia de entrada nos mercados externos. Entre as primeiras, pode-se referir as seguintes: Capacidade de entrar em mercados mais fechados à importação devido as tarifas e quotas impostas pelos governos para proteger a indústria nacional. E também o licenciamento permite contornar problemas como os custos de transporte elevado ou as flutuações das taxas de câmbio; Rapidez de entrada no mercado externo derivado da imagem e do maior conhecimento do mercado do licenciado. Além disso, uma licença nunca pode ser expropriada por um governo estrangeiro dado que não se trata de um bem tangível; 76 Menor comprometimento dos recursos o que permite uma entrada com pouco risco e, ao mesmo tempo, uma remuneração dos seus fatores em forma de royalties e a possibilidade de lucros adicionais devido à venda de outros produtos ou componentes; O licenciamento pode ser a forma inicial e o caminho que permita a identificação de parceiros estratégicos e um maior conhecimento do mercado e do comportamento dos consumidores no mesmo, facilitando assim outras formas de entrada futuras como exportações, ou até formas com participação de capital. Em relação as desvantagens de se optar pelo licenciamento como modo de entrada, pode-se salientar os seguintes: Perda de controlo sobre o plano de marketing e a operacionalização do negócio no mercado alvo; Custos das transferências do conhecimento e da adaptação da tecnologia às condições locais; Receitas bastante reduzidas quando comparadas as de exportação ou investimento já que estas são limitadas por fatores como praticas correntes das indústrias ou a concorrência no mercado externo; Elevado risco comercial- pode ocorrer o aparecimento de um novo concorrente que pode tirar vantagem do know-how, do conhecimento e das competências do licenciador; Os contratos têm tempo determinado e/ou implicam concessões em exclusividade, o que pode impedir o licenciador de entrar naquele mercado caso o comportamento do licenciado não seja satisfatório ou caso aquele conclua que o mercado é atraente e pode oferecer um retorno lucrativo através de outros modos de entrada. b) Contratos de I&D O contrato de I&D é quando uma empresa cede a outra empresa estrangeira, através de um contrato, o direito de uso de determinada tecnologia ou know-how. Cavusgil et al. (2010) defende que este tipo de contrato é importante para a redução do custo de inovação nas 77 indústrias onde a velocidade dos avanços tecnológicos é rápida e exige uma inovação constante, evitando, assim, uma duplicação de pesquisas. Por outro lado, se analisarmos as empresas licenciadas conclui-se que muitas vezes é mais vantajoso adquirir tecnologia ou know-how de outras empresas através do licenciamento do que investir montantes avultados de capital em investigação e desenvolvimento. Outra vantagem reside no fato de que uma empresa ao adquirir uma tecnologia ou know-how irá fazer com que outras empresas façam o mesmo para se manterem competitivas, o que vai levar a uma maior competitividade neste mercado e, consequentemente, a um aumento de nível dos produtos ou serviços oferecidos. c) Alianças estratégicas Relativamente aos fatores que levam a que uma empresa escolha uma aliança estratégica como modo de entrada, Kotabe e Helsen (2000) apontam quatro razões: i)defesa das posições de liderança; ii) conquista de novos mercados; iii) permanência da empresa num ramo de negócio; e iv) a reestruturação de um negócio. As alianças estratégicas consistem na combinação de recursos e capacidades entre empresas através de uma politica de cooperação permitindo um aproveitamento por parte destas de ativos que antes destas alianças não estavam a sua disposição. É de realçar que alguns autores como Vitor Simões (1997) e Mohammed Uddin et al. (2011) defendem que estas alianças podem implicar ou não a participação de capital. As que envolvem a participação de capital, no entanto, não são relevantes serem abordadas dado que o objetivo deste subcapítulo é analisar as formas de entrada baseadas na transferência de capacidades, conhecimentos, recursos tecnológicos sem o investimento de capital. Teixeira e Diz (2005) definem as alianças estratégicas como acordos entre empresas caraterizados pela reciprocidade ou pela conjugação de esforços e de competências entre as empresas participantes. Por seu lado, Ilhéu (2009) carateriza estas alianças como verticais ou horizontais. As primeiras verificam-se entre fornecedores e compradores, pelo que estão relacionadas com a cadeia de abastecimento da empresa dando origem a uma cooperação complementar. Já as alianças horizontais são aquelas que ocorrem entre empresas concorrentes que pretendam tirar partido de uma complementaridade dos ativos originando, assim, uma cooperação similar. 78 d) Franchising Root (1994) define franchising como uma forma de licenciamento caraterizado pelo facto de uma empresa (franchisador) facultar, a um individuo ou a outra empresa (franchisado), o direito de fazer negócio, de forma prescrita, por um determinado período de tempo, num local especifico e mediante o pagamento de direitos de entrada e de royalties. Tal direito pode incluir a venda dos produtos do franchisador, usar o nome deste, adotar os seus métodos, ou copiar os seus ícones, marcas e arquitetura (Hackett,1976). Hackett (1976) também aponta os principais fatores para as empresas expandirem no mercado internacional através do franchising como o desejo de tirar proveito e de propagar a marca da empresa em mercados com grande potencial de crescimento. Shane (1996) acrescenta a vantagem que o franchisador tem baseada na posse de uma capacidade superior para reduzir o potencial oportunismo do franchisado, através da sua aptidão de incentivar e de monitorizar de perto as ações da empresa franchisada. No entanto, Fladmoe-Lindquist et al. (1995) adverte que o franchisador tem de ter uma capacidade administrativa eficiente e uma capacidade de gestão à distância e de adaptabilidade cultural, pois estas capacidades são essenciais para um controlo eficaz da performance do franchisado. Welch et al. (2007) apontam as diferenças entre o franchising e o licenciamento ao nível do controlo. Neste último modo de entrada o controlo está mais nas mãos dos licenciado e, por isso, este desenvolve o negócio de forma mais independente, enquanto que no franchising, a empresa franchisada está altamente restringida principalmente em termos de estratégia de marketing e promoção dado que nesta estratégia de entrada é acordado entre as empresas que o franchisado pode utilizar os métodos, o nome ou marca do franchisador, mas por outro lado aquele tem de ser controlado e monitorado para que siga os mecanismos e as estratégias de mercado que este adota. 79 4.6.2. Modos com participação de capital Os modos de entrada com participação de capital são aqueles que exigem o comprometimento de recursos próprios da empresa ao nível da propriedade e/ou participação do capital. Estes modos de entrada ocorrem quando a empresa estabelece presença no mercado estrangeiro no seu processo de internacionalização, sendo que esta empresa envolve uma participação parcial ou total do seu capital na criação ou na aquisição de uma nova organização, ou também na junção com uma organização já existente no mercado alvo. A diferença entre esta estratégia de entrada e os modos sem participação de capital é que a primeira permite uma incorporação do fluxo de lucros que não ocorre no segundo caso dado que neste os lucros são auferidos por agentes, licenciados e franchisados. Por outro lado, os modos com participação de capital exigem um elevado investimento em recursos financeiros, uma maior alocação dos seus ativos e um risco mais elevado. Cavusgil et al. (2010) relaciona o grau de controlo que uma empresa possa pretender com as opções de entrada com participação de capital que a mesma pode escolher. Portanto, uma empresa pode optar por uma decisão estratégica de ter o controlo parcial ou total dos assuntos da empresa, como as decisões sobre novos produtos, o marketing e divulgação da marca, a posse total ou a distribuição dos lucros, etc, sendo que esta escolha influencia o investimento financeiro que a empresa irá efetuar na entrada no novo mercado. No caso de pretender um controlo total sobre os assuntos da organização, a empresa pode optar pelo empreendimento de propriedade total (uma subsidiária integral); ou caso queira um controlo parcial e menos investimento, ela pode optar por uma joint venture. Nos próximos subcapítulos desenvolveremos as duas tipologias dos modos de entrada com participação de capital: as Joint Ventures e as Subsidiárias de controlo integral 4.6.2.1. Equity Joint Ventures As Equity Joint Ventures (EJV) – também conhecidas como empresas de capitais mistos - são sociedades em co-propriedade formadas por duas ou mais empresas através do investimento 80 direto de capital de cada um dos parceiros que as constituíram. Ferreira et al. (2011) afirmam que uma EJV se forma quando duas ou mais empresas juntam-se, para constituir uma nova entidade que é juridicamente independente, partilhando, assim, o investimento, a posse, os custos, os riscos e os potenciais lucros da nova entidade. Uma das vantagens da formação de uma joint venture consiste em facilitar à empresa estrangeira uma rápida entrada em novos mercados através do acesso a rede de relacionamentos e a experiência de gestão local que a empresa nativa detém. Esta empresa consegue, também, a utilização dos estabelecimentos físicos e equipamentos da empresa local como o acesso a fatores de produção a um baixo custo. Uma joint venture também permite uma diminuição da distância psíquica da empresa estrangeira em relação ao mercado alvo pois uma empresa local já tem um conhecimento da língua e cultura locais, já tem uma perceção sobre o perfil e os gostos dos consumidores e já tem uma quota de mercado, levando estes fatores a uma aproximação segura e com um nível baixo de incerteza da empresa estrangeira no mercado alvo. Por outro lado, a empresa local também usufrui de vantagens derivado das qualificações e conhecimentos da empresa estrangeira: a capacidade de gestão e controlo do negócio, a tecnologia, know-how do processo produtivo, acesso a recursos e ativos estratégicos, acesso a produtos novos. Para Viana e Hortinha ( 1997) os motivos que levam a formação de joint ventures são: i) razões politicas, relacionadas a restrições governamentais à propriedade total de empresas por estrangeiros e à redução do risco de expropriação que uma entrada através de subsidiária de controlo integral poderia acarretar; ii) a possibilidade de penetração em mercados protetoras que, através de tarifas e quotas, dificultam as exportações de empresas estrangeiras; iii) razões ligadas a economias de escala ao nível da produção, pesquisa e distribuição que permitem uma redução dos custos; e iv) acesso a mão-de-obra barata ou maior proximidade dos fatores produtivos ( por exemplo, as matérias primas). No caso das PME´s as equity joint ventures podem ser uma estratégia de entrada bemsucedida pois estas empresas têm limitações de recursos que inviabilizam uma participação total do seu capital num processo de internacionalização, além do risco que, no caso das joint ventures, são repartidos. Por isso, as PME´s têm tendência por optar por modos de entrada onde o investimento, o risco e os recursos possam ser partilhados, e nesse sentido, o maior conhecimento de mercado e a posse de informações privilegiadas do ambiente de negócio por parte de uma empresa local juntamente com a posse de instalações físicas e equipamentos por parte desta leva a que uma PME estrangeira aborde a internacionalização com mais confiança e com um menor nível de investimento e de riscos. 81 O controlo das joint-ventures depende da participação de capital, maioritárias ou minoritárias - para quem tem mais ou menos de 50% do capital da empresa, ou 50% (igualitárias) para ambos, quando querem ter o mesmo nível de responsabilidade, quer a mesma capacidade de decisão. 4.6.2.2. Subsidiária de controlo integral Uma subsidiária de controlo integral ou Sole Venture é, segundo Welch et al. (2007), uma forma de entrada num mercado externo que assegura a empresa-mãe o controlo total sobre todo o processo de tomada de decisão que ocorre naquela empresa, quer seja sobre as suas políticas e estratégias, quer seja sobre ativos-chave que são transferidos para a subsidiária tais como a tecnologia e o know-how. Esta empresa filial poderá ser de produção ou apenas comercial, ou também poderá ser uma filial integrada que faça parte de toda a cadeia de atividades da empresa-mãe. Comparativamente as Joint Ventures, a adoção das Sole Ventures permitem um alto nível de controlo, uma maior flexibilidade e independência estratégica e operacional, a possibilidade de conseguir o protecionismo do governo como as empresas locais, e um baixo risco de disseminação da capacidade tecnológica, industrial e humana devido ao facto de esta estratégia não envolver uma cooperação entre empresas distintas e tudo o que esta relação de co-propriedade compreende como: a tomada de decisões em conjunto, a partilha do capital e dos lucros, a transferência de know-how, tecnologia e o compartilhamento de recursos e, em muitos casos, de ativos estratégicos. Relativamente à forma, Cavusgil et al. (2010) classificam esta forma de investimento direto externo (IDE) como: i) investimentos greenfield, que são operações de estabelecimento de raíz de uma nova empresa e ii) aquisições, que constituem uma compra de uma empresa já existente. Segue-se, então, a análise destas duas formas que uma subsidiária de controlo integral pode incorporar. 82 a) Investimento Greenfield Ferreira et al. (2011) definem os investimentos de raíz como a forma de expansão internacional de maior compromisso de recursos, em que a empresa cria uma nova subsidiária no estrangeiro. Com isso, a empresa internacional assume um maior risco mas detém um maior poder de decisão e de controlo sobre todas as operações. Cavusgil et al. (2010) consideram que o investimento greenfield ocorre quando uma empresa investe para construir uma nova unidade de produção, ou uma nova instalação administrativa ou de marketing, em vez de realizar este investimento em instalações já existentes. Alguns motivos que influenciam uma empresa internacional a construir uma nova empresa num mercado estrangeiro baseiam-se na possibilidade daquela empresa implantar os seus sistemas, suas tecnologias e equipamentos, e enraizar a sua cultura organizativa e o seu método de gestão e controlo através de um investimento inicial e de base, escapando, assim, aos inconvenientes de ter de alterar um padrão de comportamento organizacional que já se encontra enraizado e evoluído numa empresa pré-existente. Estrategicamente, a preocupação em estabelecer um investimento greenfield ocorre em situações onde a empresa-mãe sente necessidade em transferir uma tecnologia muito complexa (tecnologia de ponta) para a subsidiária estrangeira ou produtos de elevado valor, situações em que é indispensável um maior nível de controlo. b) Aquisições De acordo com Cavusgil et al. (2010) a aquisição ocorre quando uma empresa, sozinha ou com um ou mais parceiros, realiza um investimento para a compra de uma empresa já existente e em funcionamento. Estes mesmos autores defendem que a preferência de muitos autores por esta forma de entrada prende-se não só com o acesso a funcionários experientes da empresa adquirida e o benefício da propriedade de ativos existentes como instalações, equipamentos e recursos humanos, mas também com o acesso a fornecedores, intermediários e clientes antigos. Outra vantagem é que a aquisição fornece um fluxo imediato de caixa e acelera o retorno da empresa sobre o investimento, em comparação com o IDE tipo 83 greenfield. Todas estas vantagens aliadas ao facto de esta estratégia de entrada ser rápida e exigir menos detalhes burocráticos é que permitem a grande frequência da ocorrência das aquisições. Para aquelas empresas que pretendem entrar num determinado setor de um mercado estrangeiro que esteja saturado devido a existência de várias empresas, as aquisições constituem uma opção muito vantajosa para a obtenção de marcas já com forte presença nesse mercado estrangeiro, acesso imediato aos canais de distribuição, quotas de mercado, rede operacional e à tecnologia. Desta forma, a empresa adquirente evita a grande concorrência existente neste mercado e todo o risco inerente a uma entrada no mesmo através de uma aquisição de uma empresa pré-estabelecida, que tem um conhecimento e uma experiência dos parâmetros de negócio neste mercado e que já possui uma quota de mercado e uma carteira de clientes, evitando assim um investimento de raíz e um inicio de negócio “do zero” com todos os custos e riscos inerentes aos mesmos. 4.7. Análise dos fatores estimulantes das exportações das PME´s Nesta parte do Relatório, que antecede a abordagem das tipologias e especificidades do processo de Exportação, iremos analisar as razões que podem estimular uma pequena empresa a exportar sendo que, segundo Leonidou et al. (2007), algumas destas razões levam a uma abordagem oportunista para exportar, enquanto outras influenciam para uma abordagem estratégica e de longo prazo para exportar. Estes autores salientam também que, apesar de existirem muitos fatores estimulantes com um menor impacto sobre a exportação, estas não devem ser subestimados porque sua importância pode aumentar de acordo com as mudanças dos contextos e das circunstâncias. A exportação é a forma mais rápida e fácil para as PME´s se internacionalizarem devido ao facto de ela exigir menos comprometimento dos recursos organizacionais, oferecer uma maior flexibilidade de ações gerenciais e envolver menos riscos de negócio. Ela traz vantagens tanto aos governos nacionais como às organizações privadas. Aos primeiros, a exportação permite o aumento dos níveis de emprego, fornece uma fonte de divisas estrangeiras, permite o desenvolvimento de inovações tecnológicas e leva a uma melhoria da qualidade de vida. Já as empresas privadas melhoram, por seu turno, a sua situação financeira, desenvolvem vantagens 84 competitivas, e as exportações permitem uma melhor utilização das capacidades e habilidades produtivas e, enfim, promovem o crescimento destas empresas (Leonidou et al., 2007). Um estudo muito pertinente e detalhado sobre os fatores que estimulam as PME´s a exportar foi desenvolvido através de um artigo publicado na Revista International Marketing Review em 2007 por quatro autores: Leonidou, Katsikeas, Palihawadana e Spyropoulou. Ele é baseado numa revisão de 32 estudos empíricos realizados no período entre 1974 a 2005 e o seu objetivo é apresentar uma análise classificatória dos estimulantes da exportação (cerca de quarenta estímulos) e o seu impacto na decisão da empresa em exportar baseado numa descrição abrangente das caraterísticas, conteúdo e influência de cada estímulo sobre o comportamento das empresas. Segundo Wiedersheim-Paul et. al (1978) os estimulantes da exportação, também chamados de incentivos ou motivações referem-se a todos os fatores desencadeantes da decisão da empresa de iniciar e desenvolver as atividades de exportação. No entanto, estes fatores podem constituir uma verdadeira força motriz apenas se forem do conhecimento dos tomadores de decisão, e isto é possível através de um processo de aprendizagem organizacional onde as informações-chave são disponibilizadas levando, assim, à expansão a nível internacional. Assim, a simples criação ou existência de um estímulo de exportação é uma condição necessária, mas não uma condição suficiente para a empresa decidir exportar pois há outras variáveis que devem ser tidos em conta como as relacionadas com o ambiente (por exemplo, as condições econômicas, o tamanho do mercado, as infra-estruturas), a organização (por exemplo os objetivos e as estratégias, a disponibilidade dos recursos , a natureza dos produtos), e o perfil do gerente (por exemplo, o estilo de gestão, as competências e qualidades gerenciais). Os estímulos que influenciam as empresas a optarem pela exportação podem ser, segundo o Artigo de Leonidou et al (2007), internos e externos. Os primeiros estão associados às influências endógenas a empresa como por exemplo a acumulação de estoques não vendidos, o desejo de crescimento das empresas e a posse de um produto único. Já os estímulos externos são derivados do ambiente em que a empresa opera ou pretende operar como por exemplo solicitações de empresas estrangeiras, taxas de câmbio favoráveis e incentivos de agências governamentais. Outra classificação divide os estímulos à exportação em pró-ativos e reativos. Os primeiros indicam um interesse da empresa em explorar uma competência organizacional única de forma estratégica ou uma oportunidade de mercado (por exemplo, 85 posse de uma vantagem financeira, e capacidade de produção inutilizada). Os estímulos reativos denunciam o interesse da empresa nas exportações devido a pressões ambientais (por exemplo, a intensa concorrência interna, a saturação do mercado interno, e o escoamento de um produto sazonal que está com pouca venda no mercado interno). As empresas cujas exportações são motivadas pelos fatores internos são descritas como tendo uma orientação mais racional e objetiva em comparação com aquelas estimuladas por fatores externos. E também, as empresas influenciadas por estímulos pró-ativos são mais agressivas e têm uma orientação estratégica no processo de exportação, enquanto que aquelas motivadas por fatores reativos adotam uma abordagem bastante passiva e oportunista aproveitando ocasiões esporádicas para proceder às exportações. Leonidou et al. (2007) alertam também para o fato dos estímulos desempenharem um papel ativo em qualquer fase do processo de exportação, a partir da fase de pré-exportação e dos estágios iniciais, até os estágios mais avançados e que envolvem um maior comprometimento. Nesse sentido, nos estágios iniciais de exportação, a empresa tem mais suscetibilidade de ser influenciada por fatores externos e reativos (por exemplo, a receção de um pedido fortuito do exterior), ao contrário de fases posteriores, onde os estímulos mais prováveis são os internos e pró-ativos (por exemplo, o desejo de alcançar um crescimento organizacional através da exportação). Passaremos, agora, a apresentar (de forma resumida) a análise classificatória delineada por Leonidou et al. (2007) que aborda de forma detalhada cada um dos quarenta estímulos à exportação e os divide em internos e externos, com uma indicação adicional se os estímulos são pró-ativos ou reativos. É necessário realçar que a nossa intenção neste Relatório não é descrever estes estímulos já que esta descrição foi feita de forma soberba, explicativa e através de uma linguagem bastante acessível no artigo de Leonidou et al. (2007). Por isso faremos uma análise superficial destes estímulos, dando mais importância em analisar a natureza pró-ativa ou reativa dos mesmos, e ao grau de impacto de cada estímulo sobre a decisão da empresa em exportar (impacto muito baixo, baixo, moderado, alto ou muito alto). Os estímulos internos foram divididos em aqueles relacionados com as áreas funcionais da organização, ou seja, os recursos humanos, financeiros, de pesquisa e desenvolvimento, produção, e marketing, enquanto os estímulos externos foram categorizados em aqueles referentes ao mercado (interno e externo), o governo (nacional e estrangeiro), os intermediários, a concorrência, os clientes e outros. 86 A figura seguinte apresenta a classificação dos estímulos à exportação (Leonidou et al.,2007): Recursos Humanos: Interesse dos gestores em em relação à exportação Utilização de habilidades e competências gerenciais Viagens dos gestores ao exterior Recursos Financeiros: Estagnação/declínio nas vendas e lucros domésticos Potencial de vendas/lucros extra através da exportação Potencial de crescimento extra da empresa Posse de uma vantagem competitiva financeira Internos Recursos produtivos: Superprodução e acumulo de estoques não vendidos Realização de economias de escala Disponibilidade de capacidade de produção não-utilizada Suavização da produção de um produto sazonal Recursos de pesquisa Posse de um conhecimento técnico-proprietário & desenvolvimento: Posse de um produto único e patenteado Extensão do ciclo de vida dos produtos domésticos Recursos de marketing: Posse de uma vantagem competitiva em marketing Habilidade para adaptar o marketing no exterior Mercado doméstico: Saturação ou retração do mercado doméstico Necessidade de reduzir a dependência do mercado doméstico Possibilidade de redução do poder dos consumidores internos Crise ou retração da economia doméstica Estímulos à Exportação Mercado externo: Posse de informações exclusivas sobre os mercados externos Identificação de melhores oportunidades no mercado externo Proximidade física e geográfica em rel. à um mercado externo Governo nacional: Incentivos e assistência de agências governamentais Incentivo do Minist. do Comércio através de missões comerciais Subsídios e ajudas governamentais Externos Governo estrangeiro: Diminuição de regras e regulamentos nos mercados externos Redução de tarifas e quotas nalguns mercados externos Intermediários: Incentivo por parte de associações industriais e comerciais Incentivo por parte de bancos e instituições financeiras Incentivo por parte de agentes e distribuidores Concorrentes: Elevada concorrência doméstica Inicio de exportações por parte dos concorrentes domésticos Entrada de um concorrente estrangeiro no mercado doméstico Experiência estrangeira para melhorar a competitividade interna Clientes: Receção de encomendas de clientes estrangeiros Receção de pedidos após a participação em feiras internacionais Estímulos diversos: Proximidade em relação a portos e aeroportos Taxas de câmbio favoráveis Fig. 7 – Classificação dos Estímulos à Exportação (Fonte: Leonidou, Katsikeas, Palihawadana e Spyropoulou; 2007) 87 Os estímulos relacionados com os recursos humanos estão relacionados com as capacidades subjetivas dos gestores das empresas como uma gestão entusiasta e uma mentalidade aberta e de cariz pró-internacionalização; com os talentos e habilidades dos mesmos que levam a um maior interesse pela exportação. O conhecimento das culturas estrangeiras, a facilidade de socialização com estrangeiros, e o forte interesse em viajar para o exterior são características que se encontram em gestores inovadores, que gostam de arriscar e que têm mente aberta e que levam a adoção da exportação como modo de entrada. As viagens empresariais ao exterior, através das quais os gestores conseguem estudar melhor os mercados estrangeiros, identificar oportunidades de negócio nestes mercados, e conhecer e ter acesso a novos clientes, também influenciam a adoção da exportação como modo de entrada. Este tipo de estímulo interno tem uma natureza pró-ativa pois a exportação não surge como uma reação a um contexto ou como fruto de uma pressão de alguma circunstância. Surge, antes, devido a ideologia, as habilidades e a vontade dos gestores em expandirem o seu negócio para o mercado externo. Contudo, apesar do alto impacto do interesse gerencial/impulso dado que nas PME´s as decisões são tomadas, geralmente, por um único (ou alguns) gestor(es), os outros dois estímulos relacionados com os recursos humanos, a utilização de habilidades/competências/talentos gerenciais, e as viagens empresariais ao exterior têm um impacto moderado e muito baixo, respetivamente, na decisão de uma empresa em exportar. Em relação aos estímulos financeiros, Leonidou et. al (2007) aponta quatro variáveis: a estagnação dos lucros domésticos e o declínio das vendas; o potencial para vendas e lucros extras; o potencial de crescimento extra; e a posse de uma vantagem financeira competitiva. A primeira variável, a estagnação dos lucros e o declínio das vendas, ocorre devido a: o aumento da concorrência, uma mudança no comportamento do consumidor, incapacidade de lidar com problemas de comercialização no mercado interno, entre outros. Este estímulo é o único, dentre os estímulos financeiros, de natureza reativa, no sentido de que a empresa pensa em exportar apenas sob a pressão de problemas financeiros domésticos. É, também, o que tem um impacto menor (impacto moderado) e menos influência na adoção, por parte da empresa, da exportação. As outras variáveis financeiras baseadas na potencialidade de vendas, lucros e um crescimento extras, e na posse de uma vantagem financeira competitiva têm, em comum, o facto de influenciarem as empresas a utilizarem a sua vantagem competitiva através dos seus recursos organizacionais, humanos, estratégicos e financeiros para obterem uma expansão do negócio pelas exportações. Através deste modo de entrada, as empresas podem aumentar os 88 seus ativos e explorar novas oportunidades por meio da procura das necessidades dos mercados externos e da resposta rápida as solicitações dos clientes estrangeiros. Estes estímulos de caráter financeiro têm uma natureza pró-ativa pois a empresa agora reconhece o valor das operações de exportação e pensa estrategicamente sobre como explorar oportunidades de mercado no exterior, como forma de atingir os seus objetivos. Neste caso, a empresa adota uma abordagem sistemática e de longo prazo e monta uma estratégia definida sobre a qual irá desenvolver o processo de exportação. Leonidou et al. (2007) realçam que o potencial para vendas e lucros extras, e o potencial de crescimento extra são os estímulos com o maior impacto sobre a decisão das empresas em adotar as exportações dentre os quarenta estímulos analisados. A posse de uma vantagem financeira competitiva também tem um alto impacto sobre esta decisão. Isso se explica pelo facto das PME´s não terem muitos recursos, por isso o pensamento no retorno do investimento financeiro e no lucro como o primeiro objetivo. Relativamente aos estímulos relacionados à pesquisa, desenvolvimento e marketing, Leonidou et al. (2007) defende a existência de cinco estímulos: a posse de conhecimento técnico-proprietária, a posse de um produto único e patenteado, a extensão do ciclo de vida dos produtos, a posse de uma vantagem competitiva em marketing, e a capacidade de adaptação do marketing aos mercados estrangeiros. Os cinco estímulos têm uma natureza próativa pois, tais como os últimos estímulos financeiros abordados, as empresas adotam o modo de exportação como consequência da existência de recursos e ativos estratégicos que existem dentro da organização e que mostraram ser um sucesso no mercado nacional pelo que a expansão internacional apenas funciona como uma extensão destes importantes recursos para o mercado externo. Portanto, características como: a posse de uma tecnologia específica bemsucedida no mercado interno; a fabricação de um produto patenteado, com qualidades superiores e características únicas em comparação com os oferecidos pela concorrência; a extensão do ciclo de vida dos produtos nacionais que ocorre nas exportações para os países em desenvolvimento; a franquia de marca forte, um preço de venda competitivo, um bom sistema de apoio de assistência técnica, uma rede de distribuição eficiente, e uma equipa de vendas eficaz; e, a capacidade de adaptar o marketing-mix da empresa as especificidades de um mercado externo… estas características são detidas pelas empresas e acabam permitindo que a empresa tenha uma abordagem estratégica, sistemática, e com bases sólidas permitindo, assim, um processo de exportação de longo prazo. Estes estímulos variam do impacto muito baixo ao impacto muito alto sobre a decisão de exportar, sendo que o menos influente é a 89 extensão do ciclo de vida do produto, e o mais importante e com maior poder de influência é a posse de um produto único e patenteado. Finalizamos a análise dos estímulos internos com a abordagem dos estímulos relacionados à produção. Estes são divididos em: superprodução/acumulação de estoques não vendidos, capacidade de produção inutilizada, escoamento de um produto sazonal e obtenção de economias de escala. Os três primeiros estímulos têm uma natureza reativa no sentido de que a empresa só começa a exportar sob a pressão de problemas produtivos internos. Circunstâncias como adversidades no mercado interno, pressões da concorrência, o desejo de utilizar plenamente a capacidade de produção e controle de estoque ineficiente são alguns dos motivos responsáveis pela superprodução e consequentemente, são problemas que pressionam as empresas a reagirem e a optarem pela exportação como forma de escoar o excesso de produtos. Por outro lado, quando as empresas têm fábricas com uma capacidade ociosa de produção podem aproveitar as exportações para utilizar a capacidade livre das suas instalações sem ter custos fixos adicionais neste processo. Também um produto sazonal que se encontra na época baixa no mercado interno pode estimular as empresas a adotarem a exportação como forma de escoar este produto para mercados onde haja uma maior demanda fazendo com que a empresa consiga uniformizar a sua produção e estabilizar a sua situação financeira. Em relação ao grau de impacto destes estímulos sobre a decisão da empresa em exportar, a superprodução/acumulação de estoques não vendidos têm um impacto baixo ou pouco relevante, o escoamento de um produto sazonal tem um impacto moderado e já a capacidade de produção inutilizada apresenta um impacto alto e relevante na decisão da empresa em iniciar o processo de exportação. Após a análise dos estímulos internos, da sua natureza e do seu impacto sobre as empresas, faz-se necessária uma abordagem aos estímulos externos à organização. Estes são divididos em: mercado doméstico, mercado estrangeiro, governo nacional, governo estrangeiro, intermediários, concorrência, clientes, e estímulos diversos. Os estímulos relacionados com o mercado doméstico podem basear-se na: saturação do mercado doméstico, necessidade de reduzir a dependência e o risco que uma empresa pode ter se operar apenas no mercado doméstico, possibilidade de reduzir o poder dos clientes domésticos, condição desfavorável de uma economia doméstica, taxas de câmbio favoráveis (através da desvalorização). Estes estímulos são, basicamente, alterações que ocorrem no mercado doméstico como a queda das vendas e dos lucros resultantes da saturação do 90 mercado, da deterioração das condições econômicas (uma recessão econômica), da entrada de novos concorrentes, ou de mudanças drásticas nos hábitos de consumo. Estes estímulos têm uma natureza reativa dado que as empresas ao se depararem com estas circunstâncias negativas que afetam diretamente os seus lucros, acabam reagindo perante estas pressões através da adoção das exportações e da diversificação dos mercados que permitirão uma absorção da capacidade ociosa de produção de uma empresa (causada pela saturação e pela diminuição da procura interna), como também ajudarão na restauração da sua posição patrimonial e financeira, e prolongarão o ciclo de vida dos seus produtos, provendo, assim, uma nova fonte de recursos financeiros para a empresa. Relativamente aos estímulos relacionados com o mercado externo, Leonidou et al. (2007) deteta a existência de três variáveis: a posse de informações exclusivas sobre os mercados estrangeiros, a identificação de melhores oportunidades, e a proximidade física em relação aos mercados externos. Os dois primeiros estímulos têm um caráter pró-ativo, enquanto o último tem uma natureza reativa. Este caráter pró-ativo se explica devido ao facto da posse de informações sobre os mercados estrangeiros e a identificação de melhores oportunidades se basear na propriedade, por parte da empresa, de vantagens em relação à concorrência que se traduzem em informações exclusivas e privilegiadas conseguidas através de pesquisas de marketing que levam à redução da incerteza no processo de exportação, além de uma boa equipa de prospeção que consegue um bom estudo de mercado e, consequentemente melhores oportunidades nos mercados externos. Já a proximidade física e geográfica em relação a um mercado externo pode ser um aliciante de caráter reativo para se iniciar a exportação já que a empresa reage a uma circunstância especifica para ganhar vantagem e expandir alémfronteiras. Os estímulos relacionados aos governos nacionais e os relacionados aos governos estrangeiros são, em geral, de natureza reativa e baseiam-se especificamente em: programas governamentais de assistência à exportação, incentivos e fornecimento de dados realizados pelo Ministério do Comércio, a diminuição de normas e regulamentos à importação praticada pelos governos estrangeiros, e a redução de tarifas e barreiras comerciais por parte destes mesmos governos. Todos estes incentivos oferecidos pelos governos nacionais e as facilidades concedidas pelos governos estrangeiros permitem que a empresa encare agora as operações de exportação com menos riscos e incertezas e pense de forma estratégica e sistemática sobre como explorar as oportunidades concedidas pelos governos utilizando as exportações como modo de entrada. 91 Finalmente, Leonidou et al. (2007) também apontam a existência de estímulos relacionados com os intermediários, os concorrentes e os clientes. Exemplos destes estímulos são: incentivos por parte de associações comerciais e industriais, incentivo de bancos e instituições financeiras, incentivos de agentes e distribuidores, a existência de uma concorrência interna intensa, o facto dos concorrentes nacionais terem iniciado as exportações, entrada de concorrentes estrangeiros no mercado doméstico, a receção de encomendas dos clientes estrangeiros, e a receção de pedidos após a participação em feiras internacionais. Estes estímulos têm, no geral, uma natureza reativa já que a empresa decide enveredar pela estratégia das exportações como reação a uma circunstância que pode ser um incentivo, ou uma pressão de uma empresa concorrente, ou ainda uma situação pontual e esporádica como uma encomenda do exterior. Em relação ao impacto destes estímulos na adoção das exportações por parte das empresas, tirando a receção de encomendas dos clientes estrangeiros que tem um impacto muito grande e que, de facto, influencia muito uma empresa a exportar antecipando a concorrência e aproveitando uma oportunidade sem riscos e custos adicionais e com garantia de lucro a curto prazo, os outros estímulos têm um impacto baixo e alguns até muito baixo. Isto é explicado pelo facto das pequenas empresas nem sempre terem recursos suficientes para iniciar a exportação apenas porque alguns concorrentes fizeram o mesmo, ou a concorrência interna é alta, ou apenas como retaliação pelo facto da entrada de concorrentes estrangeiros no seu mercado doméstico. 92 No quadro seguinte, demonstra-se a variação do nível de impacto de cada um dos quarenta estímulos analisados por Leonidou et al. (2007): Impacto muito alto Impacto alto Impacto moderado Impacto baixo Impacto muito baixo Potencial de vendas/lucros extra através da exportação Potencial de crescimento extra da empresa Posse de um produto único e patenteado Necessidade de reduzir a dependência e o risco inerente ao mercado doméstico Receção de encomendas de clientes estrangeiros Interesse ou impulso especial dos gestores em relação à exportação Disponibilidade de capacidade de produção não-utilizada Saturação ou retração do mercado doméstico Posse de uma vantagem competitiva financeira Realização de economias de escala Posse de um conhecimento técnico-proprietário Identificação de melhores oportunidades no mercado externo Utilização de talentos/habilidades e competências gerenciais Estagnação/declínio nas vendas e lucros domésticos Suavização da produção de um produto sazonal Posse de uma vantagem competitiva em termos de marketing Posse de informações exclusivas sobre os mercados externos Receção de pedidos após a participação em feiras internacionais Incentivo por parte de associações industriais e comerciais Incentivo por parte de bancos e instituições financeiras Incentivo por parte de agentes e distribuidores Proximidade em relação a portos e aeroportos Superprodução e acumulo de estoques não vendidos Habilidade para adaptar facilmente o marketing aos mercados externos Taxas de câmbio favoráveis Incentivos e assistência de agências governamentais Incentivo do Ministério do Comércio através de missões comerciais Elevada concorrência doméstica Início de exportações por parte dos concorrentes domésticos Apoio governamental às empresas como dever patriótico Proximidade física e geográfica em relação a um mercado externo Viagens dos gestores ao exterior Extensão do ciclo de vida dos produtos domésticos Possibilidade de redução do poder de barganha dos consumidores internos Crise ou retração da economia doméstica Subsídios e ajudas governamentais Diminuição de regras e regulamentos nalguns mercados externos Redução de tarifas e quotas nalguns mercados externos Entrada de um concorrente estrangeiro no mercado doméstico (retaliação) Obtenção de experiência estrangeira para melhorar a competitividade interna Quadro 18 – Variação do nível de impacto dos estímulos à exportação (Fonte: Leonidou et al., 2007) 93 4.8. O processo de Exportação A exportação corresponde a um modo de entrada sem participação de capital e é utilizada, geralmente, pelas PME´s que iniciam a sua expansão no exterior como uma primeira forma de abordagem dos mercados externos. Pinho e Martins (2010) defendem que a exportação é um dos modos de entrada mais atrativos para as PME´s porque envolve riscos mínimos, requer baixos recursos financeiros e humanos e, ao mesmo tempo, oferece uma flexibilidade elevada de movimentos. Segundo Osland et al. (2001) a exportação difere dos outros modos de entrada na medida em que o produto final ou intermédio é fabricado fora do país-alvo e, subsequentemente, transferido para ele. Dessa forma, a exportação pode ser definida como a venda de produtos (acabados, semi-acabados e/ou matérias-primas) por parte de uma empresa de um determinado país para uma empresa ou particular de um país estrangeiro. Muitos autores como Axinn, Savitt, Sinkula e Thach (1994) e Burpitt e Rondinelli (1998) defendem que os níveis de aprendizagem, de conhecimento e de experiência de uma empresa são fundamentais para a maior inclinação da mesma em relação à exportação. O efeito da experiência baseada na aprendizagem gerada ao nível de novas aptidões, da adoção de novas tecnologias, e do alargamento das capacidades organizacionais é fruto do maior conhecimento das operações internacionais por parte de uma empresa e que a coloca em boa posição para iniciar as exportações. A exportação pode ser direta, indireta ou revestir outras formas. 4.8.1. Exportação Direta A exportação direta permite que a empresa assuma as operações de exportação em vez de as delegar a outras organizações localizadas no país exportador. Esta estratégia de entrada permite que as empresas obtenham um razoável grau de conhecimento e controle sobre o mercado. No entanto ela exige também maiores investimentos em recursos humanos, 94 equipamentos e instalações, aumentando assim seus riscos; sendo que, por outro lado, a possibilidade de retorno é mais elevada do que na forma de exportação indireta. Albaum et al. (1998) afirmam que a exportação direta se verifica quando um produtor ou exportador vende os seus produtos diretamente a um importador, localizados num mercado estrangeiro. Neste tipo de exportação, a empresa assume completamente todas as funções de exportação e as tarefas inerentes a ela através da criação de um departamento de exportação, o qual trata de todo o processo de exportação e da venda dos produtos diretamente a um intermediário localizado num mercado estrangeiro. Contudo, Czinkota et al (2001) enfatizam que essas empresas podem deparar-se com alguns obstáculos. Estes passam pela dificuldade em identificar e definir os clientes estrangeiros e encontrar espaço no mercado estrangeiro. Outro obstáculo reside na responsabilidade pelas tarefas de exportação que “ficam nas mãos” da empresa. As demandas por recursos – humanos e financeiros – são muito mais intensas do que na exportação indireta, e esse é um ônus a ser pago. Para Minervini (1997), a exportação direta acontece quando a venda é realizada diretamente entre um fabricante e um distribuidor no exterior, ou ainda, diretamente para o consumidor final. Assim, o exportador fará todo o esforço necessário para o alcance de seus objetivos, sem a intermediação de terceiros, o que permite um maior controle e as seguintes vantagens: um conhecimento mais direto do mercado, uma influência direta na seleção dos colaboradores, um controle mais regular do fluxo de vendas, e uma influência direta na estratégia do produto, preço, promoção e distribuição (marketing-mix da empresa). De acordo com este mesmo autor, existe muitas alternativas para que uma empresa desenvolva operações de exportação direta como: - Vendedor Direto: pertence ao quadro de funcionários da empresa exportadora e atua diretamente junto a importadores, em diversos mercados no exterior. Este vendedor consegue informação sobre os clientes e sobre a concorrência no mercado-alvo; - Departamento de exportações: permite o controlo e a coordenação das exportações diretas. Este departamento pode estar organizado sob a forma de: i) um departamento dentro da empresa exportadora (que se baseia num responsável de vendas internacionais e que conta com a colaboração dos outros departamentos); ii) um departamento de exportação autónomo (em que a principal caraterística é a auto-suficiência que se traduz no desenvolvimento total 95 das operações de exportação a tempo inteiro); iii) uma filial de exportação (que se traduz numa maior autonomia, autoridade e responsabilidade comparada com as formas anteriores). - Filial de Venda: é a extensão das atividades da empresa no mercado de destino onde há funcionários da própria empresa a trabalhar. Geralmente, estas filiais possuem formas de armazenamento para os seus produtos, o que facilita a entrega e agiliza o processo de distribuição; - “Rock Jobbing”: esta modalidade garante a administração das vendas por parte do exportador e, a seu custo, num espaço dentro da loja do importador, onde, a partir deste ponto, o exportador efetua os contatos com os clientes; - Distribuidor: é uma pessoa jurídica que compra o produto em seu próprio nome, estoca a mercadoria e a vende a um terceiro, aplicando um preço que cobre os gastos e dá o lucro necessário. Portanto, um distribuidor detém a posse dos produtos, assume os riscos associados ao crédito inerentes ao negócio, e trata da logística de distribuição até ao cliente final; - Agentes localizados no Exterior: são pessoas físicas ou jurídicas que, através de um acordo, vende e representa o seu contratante (empresa exportadora) e é paga através de comissão sobre o valor vendido. Normalmente, estes agentes não têm contato com os produtos a não ser através de amostras e material promocional dos quais se servem para efetuarem a apresentação dos produtos aos potenciais compradores com o objetivo da venda. 4.8.2. Exportação Indireta Albaum et. al (1998) defendem que a exportação indireta ocorre quando o produtor exportador utiliza organizações independentes (intermediários) localizados no seu país para vender os seus produtos no mercado internacional. Ilhéu (2009) corrobora desta definição acrescentando que na situação de exportação indireta, a empresa é contatada no seu próprio mercado, por intermediários, escritórios de compra estrangeiros, empresas trading ou distribuidores nacionais que realizam vendas no estrangeiro. 96 As pequenas e médias empresas normalmente iniciam as suas atividades internacionais através da exportação indireta, pois como este processo baseia-se na venda de produtos para os intermediários que estão sediados no país de origem daquelas empresas e que, por sua vez, assumem o risco de revender estes produtos aos mercados externos; e como estas empresas dispõem de poucos recursos e pouca experiência em operar nos mercados internacionais, esta estratégia de entrada exige menos investimento, baixos custos e menos riscos. Por outro lado, as empresas que adotam este tipo de estratégia têm um reduzido grau de controlo sobre o processo e consequentemente têm um retorno reduzido sobre os seus produtos. Além disso, o intermediário que coloca um pedido na empresa hoje, não tem compromisso nenhum de fazer um novo pedido à mesma empresa, dificultando assim um planejamento de crescimento da organização por parte desta empresa. Normalmente este “não compromisso” advém do facto do intermediário buscar sempre a empresa que possui o menor custo para o produto que pretende comprar. Kotabe e Helsen (2000) apontam algumas desvantagens das exportações indiretas como o pouco ou nenhum conhecimento que a empresa, que opta por este modo de entrada, tem de como a sua mercadoria está a ser vendida lá fora. Outra desvantagem tem a ver com a ineficiência na distribuição do produto que pode levar a uma diminuição das vendas. Estes autores afirmam: “As más decisões do composto de marketing tomadas pelo intermediário podem também destruir a imagem da marca ou o nome da empresa exportadora”. Os intermediários mais utilizados para uma empresa efetuar suas vendas ao exterior, de forma indireta, são os seguintes: - Agente de compras: trata-se de um representante de compradores estrangeiros que opera como cliente da empresa exportadora e no país desta, agindo com base nas encomendas que recebe dos tais compradores estrangeiros em contrapartida de uma comissão que recebe destes. Para a empresa exportadora, esta é uma forma fácil de exportar, dado que normalmente os pagamentos são imediatos e as questões relativas ao movimento físico das mercadorias estão por conta do agente de compras. - Broker: é um outro tipo de agente que se encontra no mercado da empresa exportadora e é especializado num determinado produto ou num setor específico. Os brokers operam com maior frequência com produtos primários (as commodities) e a sua função é conseguir o 97 melhor contrato para o vendedor exportador e satisfazer a necessidade de um comprador estrangeiro, ganhando uma comissão por esta intervenção. - Empresas de gestão de exportação: são empresas especializadas e que agem como um “departamento de exportação” ao serviço de algumas empresas suas clientes. Toda a correspondência e os contatos com os clientes são realizados em nome da empresa que representam, bem como todos os pedidos de encomendas e condições de fornecimento estão sujeitos à sua confirmação. - Empresa trading exportadora: é uma empresa que opera exclusivamente no comércio internacional, ou seja, que compra mercadorias a um grupo de produtores num mercado para revendê-las noutro mercado por conta própria ou de terceiros. A empresa produtora obtém alguns benefícios em trabalhar com este tipo de empresa, tais como não ter custos na pesquisa e deteção de mercados, obter mais conhecimento sobre os mercados externos, eliminar despesas na elaboração da documentação de exportação e usufruir de segurança no valor da venda que é realizada em moeda nacional e, por isso, não é afetada pelas flutuações das taxas de câmbio. - Piggyback: ocorre quando uma empresa produtora que pretende exportar mas que tem pouca experiência neste processo recorre a uma empresa maior (nacional ou estrangeira) e a sua rede de contatos e de negócios internacional para vender os seus produtos no mercado estrangeiro. Neste caso, a empresa maior aceita atuar em nome da empresa que pretende exportar, vendendo os seus produtos e permitindo que esta penetre rapidamente nos mercados estrangeiros. Esta empresa maior recebe, também, uma comissão por este serviço. 4.8.3. Outras formas de exportação Além da exportação direta e da exportação indireta, Simões (1997) refere a existência de uma terceira categoria de exportação que seria a exportação própria. Esta tipologia ocorre quando não existem intermediários entre o produtor e o cliente final. Neste caso, o produtor é que assume a promoção e o marketing comercial, a angariação de clientes, a fixação de preços, a documentação de exportação e a distribuição física nos mercados estrangeiros. Esta situação 98 exige à empresa um maior comprometimento de recursos que permita um maior conhecimento do mercado, uma maior capacidade de organização documental e logística do processo de exportação e uma maior capacidade de relacionamento com os clientes finais. Por outro lado, a empresa consegue ter um lucro total sobre as vendas sem contrapartidas em termos de comissões para os intermediários. 99 100 V – METODOLOGIA APLICADA A PESQUISA 101 102 5. METODOLOGIA APLICADA A PESQUISA 5.1. A Abordagem Qualitativa Lakatos e Marconi (2001) definem método como um conjunto de atividades sistemáticas e racionais que favorecem o alcance de determinados objetivos de investigação. Como já tinha sido referido na parte inicial deste Relatório, a metodologia baseia-se numa aproximação qualitativa que é subjetiva por natureza pois envolve o exame e a reflexão das perceções, neste caso de duas pessoas que fazem parte de duas empresas diferentes, de forma a melhor compreender as atividades humanas e sociais, mais especificamente as atividades de internacionalização e as vantagens de estas ocorrerem para o mercado caboverdeano. Segundo Yin (2003) a metodologia qualitativa, partindo da experiência, traduz-se numa forma de aprendizagem eficaz para o desenvolvimento do pensamento e das capacidades requeridas a nível de gestão e de liderança. Permite a investigação de questões contemporâneas, no seu ambiente natural e é especialmente recomendada em estudos que envolvem um grupo de casos com o objetivo de melhor compreender um determinado fenómeno. Sousa e Baptista (2011) acrescem que os métodos qualitativos não dependem e não estão limitados à dimensão das amostras por se basearem na análise descritiva dos comportamentos e particularidades associadas à Investigação. Esta premissa acaba por influenciar a decisão na escolha desta metodologia para analisar uma amostra pequena de duas empresas, mas que permite a descrição e a exploração de dados e informações relevantes para validar os objetivos e as questões da investigação. Bogdan e Biklen (1994) apontam algumas características da metodologia qualitativa que são: A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como instrumento chave. A presença do pesquisador, no ambiente onde se desenvolve a pesquisa, é de extrema importância, à medida que o fenômeno estudado só é compreendido de maneira abrangente, se observado no contexto onde ocorre, visto que o mesmo sofre a ação direta desse ambiente; 103 A pesquisa qualitativa é predominantemente descritiva. Os dados coletados são mais uma forma de palavras ou figuras do que números. Estes dados incluem entrevistas transcritas, notas de campo, fotografias, produções pessoais, depoimentos ou outra forma de documento. O pesquisador qualitativo tenta analisar os dados em toda sua riqueza, respeitando, no possível, a forma de registro ou transcrição. Na abordagem investigativa de âmbito qualitativo nada é trivial, toda manifestação tem potencial para fornecer pistas importantes na construção e compreensão do fenômeno estudado; O enfoque dos dados pesquisados deve sempre demonstrar a perspetiva dos significados atribuídos pelos participantes. A maneira como os informantes vivenciam e informam uma situação vivida é importante e singular a cada indivíduo. O significado ou sentido que elas dão aos fenômenos vivenciados é foco da pesquisa qualitativa; A análise dos dados segue um processo indutivo. Indução é um método mental por intermédio do qual, partindo-se de dados particulares, suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas. Dessa forma, o objetivo dos argumentos indutivos é apresentar conclusões, cujo conteúdo é mais amplo do que as premissas nas quais se basearam. Não há preocupação em comprovar hipóteses. Para Bogdan e Biklen (1994) uma metodologia baseada nas entrevistas qualitativas quando realizada de forma correta permite que os indivíduos estejam “à vontade” e falem livremente dos seus pontos de vista. Por outro lado, deve-se evitar perguntas que não exijam uma exploração de ideias por parte do entrevistado. Nesse sentido, estes autores referem que «as entrevistas, devem evitar perguntas que possam ser respondidas “sim” e “não”, uma vez que os pormenores e detalhes são revelados a partir de perguntas que exigem exploração. Na investigação qualitativa, a entrevista, nomeadamente a entrevista semi-estruturada, tem sido considerada como uma técnica importante, mesmo aconselhada nos estudos exploratórios como ocorre neste estudo de caso, possibilitando uma aproximação ao contexto em estudo e a descoberta de elementos e categorias de análise que contribuam para a formulação dos objetivos da investigação. Bogdan e Biklen (1994) consideram a entrevista como uma técnica recomendada “para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos 104 interpretam aspetos do mundo”. Estes autores defendem ainda que as entrevistas semiestruturadas a vários sujeitos têm a vantagem de permitir que se fique com a certeza de se obter dados comparáveis entre os mesmos. São reconhecidas diversas vantagens na utilização desta técnica de investigação. Valles (1997) salienta como principais vantagens: i) a possibilidade de acesso a uma grande riqueza informativa, contextualizada e através das palavras dos atores e das suas perspetivas; ii) a possibilidade dos investigadores esclarecerem alguns aspetos no seguimento da entrevista, o que a entrevista mais estruturada ou o questionário não permitem; iii) é geradora, na fase inicial de qualquer estudo, de pontos de vista, orientações e hipóteses para o aprofundamento da investigação, a definição de novas estratégias e a seleção de outros instrumentos. A entrevista semi-estruturada favorece não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e a compreensão de sua totalidade, além de manter a presença consciente e atuante do pesquisador no processo de coleta de informações. A realização deste tipo de entrevista, necessita, para a sua operacionalização, da existência de uma orientação ou “guião” que permite que os sujeitos falem sobre os assuntos, procurando servir a dinâmica de conversação que a entrevista deve constituir. Neste Relatório a entrevista semi-estruturada foi direcionada a uma amostra constituída por duas empresas: a Enamorata e a Giliana. O guião das Entrevistas encontra-se no Apêndice II e o resumo analítico das mesmas encontram-se no Apêndice III e IV. 105 5.2. A análise das Entrevistas. Verificação dos Objetivos da Investigação A amostra selecionada para se aplicar as entrevistas é pequena e constituída por duas empresas. Deste modo optou-se pela metodologia qualitativa por ser a que não é influenciada e limitada em termos da dimensão da amostra e a que melhor pode explicar as nossas dúvidas de pesquisa. Estas dúvidas são as seguintes: - Qual a melhor estratégia de entrada que pode ser adotada pela Enamorata? - Quais as motivações e a disponibilidade empreendedora da Enamorata para entrar no mercado caboverdeano? - Quais os pontos fortes encontrados nos outros processos de internacionalização da Enamorata que podem ser adaptados a este novo processo que ocorrerá no mercado caboverdeano? - Quais os obstáculos que podem ser encontrados no mercado caboverdeano, e como ultrapassá-los? Pretende-se então, através de uma metodologia baseada em entrevistas a uma amostra selecionada, fazer uma reflexão sobre as perceções e ideias subjetivas dos entrevistados sobre a internacionalização em geral, e a internacionalização para o mercado caboverdeano, bem como uma exploração de dados e informações relevantes para que se consiga validar os objetivos e as questões da investigação. Esta metodologia permite uma sistematização da investigação já que estes dados e informações recolhidas através das entrevistas permitem a realização do objetivo final deste Relatório que passa pela implementação de uma estratégia bem definida de internacionalização de uma empresa para o mercado caboverdeano. A pesquisa realizada neste Relatório possui caráter descritivo, pois tem como objetivo expor características de um determinado fenômeno que, neste caso, é o processo de internacionalização de duas empresas que compõe a amostra. Pretende-se a descrição de um 106 fenômeno através da análise de dados primários (entrevistas às duas empresas) e dados secundários (informações internas das empresas, estatísticas sobre o mercado caboverdeano e sobre as relações comerciais entre Portugal e Cabo Verde, dados de fontes governamentais, e informações encontradas em jornais e revistas). O processo indutivo inerente a este tipo de metodologia também beneficia o facto de não haver hipóteses que se queiram comprovar nesta investigação; mas sim, objetivos claros e definidos que se pretende serem verificados através de entrevistas com as empresas com o intuito final de se delinear uma estratégia de internacionalização. A opção por uma análise comparativa explica-se pelo facto de haver uma amostra constituída por duas empresas em que uma já iniciou o processo de internacionalização para Cabo Verde e a outra ainda pretende iniciar este processo. Dessa forma, é importante analisar a empresa que já iniciou o processo para que, através das ilações e conclusões que podem ser tirados de um processo pré-estabelecido, se faça um aproveitamento dos aspetos positivos e se tente ultrapassar os obstáculos no novo processo de internacionalização. Após a investigação empírica desenvolvida através das entrevistas presenciais as duas empresas, optou-se pela Técnica de análise de conteúdo para sistematizar os dados qualitativos provenientes das entrevistas. Segundo Berelson (1952) a análise de conteúdo é “uma técnica de investigação para a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação”. Para que seja objetiva, tal descrição exige uma definição precisa das categorias de análise, de modo a permitir que diferentes pesquisadores possam utilizá-las, obtendo os mesmos resultados; para ser sistemática, é necessário que a totalidade de conteúdo relevante seja analisada com relação a todas as categorias significativas; e para ser quantificável a descrição deve permite a obtenção de informações mais precisas e objetivas sobre a frequência da ocorrência das características do conteúdo. De acordo com os métodos de análise de conteúdo, definiu-se os procedimentos fechados como o método que melhor se adequa a este Relatório dado que permitem a partir de um quadro teórico e de categorias pré-estabelecidas, como as desenvolvidas na Seção do Enquadramento Teórico do mesmo, analisar o discurso e o argumento apresentado pelo locutor, construir-se um conhecimento relativo as categorias de análise e, consequentemente, validar os objetivos propostos no início da investigação. 107 Numa pesquisa qualitativa o pesquisador deve ser capaz de identificar e analisar profundamente dados não-mensuráveis, como sentimentos, sensações, perceções, comportamentos passados e motivações de um determinado grupo de indivíduos em relação a um problema específico. Nesse sentido, contrariamente à pesquisa quantitativa, não é necessário uma amostragem de grande dimensão, mas sim conhecer bem a amostra que se tem. No caso particular deste Relatório foram definidos critérios através dos quais se faria a definição da amostra. Esta é constituída por duas empresas: a empresa sobre a qual incide este Relatório e a estratégia de internacionalização desenvolvida- a Enamorata; e uma outra Empresa que já iniciou o processo de internacionalização para Cabo Verde, e que por isso já tem um conhecimento deste mercado que pode ser útil a primeira empresa. Os critérios definidos para a definição da amostra foram intencionais e basearam-se nas seguintes características: - Uma empresa do mesmo ramo de atividade (têxtil) da Enamorata; - Uma empresa já estabelecida no mercado caboverdeano (independentemente do modo inicial de entrada) a 2 anos ou mais tempo; - Uma empresa que já tenha experimentado pelo menos 2 estratégias de entrada diferentes no mercado em questão. Para facilitar a análise da metodologia de pesquisa, dividiremos a mesma em quatro grandes temas: As motivações empresariais e a estratégia inicial de Internacionalização; a Seleção do mercado; as especificidades do Processo de Exportação; e os Obstáculos à Internacionalização. A metodologia será desenvolvida com base na análise de conteúdo das entrevistas (utilização de trechos das respostas dos entrevistados) sem descurar a análise teórica que serve de suporte à prática, e terá o objetivo final de responder as questões de investigação. 108 5.2.1. As motivações empresariais e a estratégia inicial de Internacionalização As motivações e o interesse pela internacionalização das empresas entrevistadas são diferentes mas enquadram-se na investigação efetuada. Estas empresas, apesar das suas pequenas dimensões, têm como objetivo inicial uma consolidação no mercado doméstico e após esta etapa é que optam pela internacionalização e pela exploração de novos mercados. Isto pode ser comprovado através da afirmação da Gerente da Enamorata: “ (…) A nossa empresa é 100% portuguesa, por isso o design dos nossos produtos acaba por encarnar os traços culturais dos Lenços dos namorados. O nosso interesse inicial sempre foi ser uma marca de referência em Portugal no ramo de swimwear e oferecer um produto de alta qualidade”. Fatores como a crise econômica que tem assolado a Europa, a pequena dimensão do mercado doméstico português e a grande concorrência existente neste mercado são alguns dos determinantes da intenção das empresas para se internacionalizar. Estes fatores vão de encontro aos defendidos por Mihalache et al. (2009) que apontam a saturação e a pequena dimensão do mercado nacional aliada a escassez de oportunidades fruto de uma intensa concorrência como aspetos que influenciam as empresas a terem um interesse maior numa prospeção e expansão para novos mercados. Dados divulgados pelo Governo português corroboram o aumento das exportações e a diversificação dos mercados por parte das empresas portuguesas: “ Portugal é hoje um país mais exportador. 2013 foi o quarto ano consecutivo de aumento das exportações. Em termos de saldo global, a balança comercial melhorou quase 3000 milhões de euros”. São estas notícias otimistas que influenciam as empresas Enamorata e Giliana a se interessarem pela internacionalização. A busca de novas oportunidades em mercados onde há uma maior necessidade em relação aos seus produtos e o escoamento de produtos sazonais, bem como o potencial aumento de vendas e lucros e a resposta a encomendas provenientes de mercados exteriores são outros 109 determinantes apontados pelas empresas para o início do processo de internacionalização. Estes fatores foram apontados como estimulantes da exportação por Leonidou et al. (2007) que por sua vez classifica as duas empresas em questão (Enamorata e Giliana) como sendo influenciadas por fatores reativos pois a expansão internacional dessas empresas ocorreu devido a pressões ambientais (por exemplo, a intensa concorrência interna, a saturação do mercado interno, e o escoamento de um produto sazonal que está com pouca venda no mercado interno). Uma outra teoria que explica bem a opção da Enamorata pela internacionalização é a Teoria do ciclo de vida de Vernon (1979). Segundo esta Teoria, um produto pode estar num dos quatro seguintes estágios: introdução, crescimento, maturidade ou declínio. Neste caso específico, onde a internacionalização ocorre com o objetivo de escoamento de um produto sazonal (produtos swimwear) pode-se afirmar que o produto se encontra na fase de declínio no mercado português, e na fase de introdução num novo mercado. Assim sendo, através da expansão internacional, a empresa combate o declínio das vendas no mercado doméstico através da introdução deste produto num novo mercado que tem o potencial de aumentar as suas vendas e os seus lucros. Em relação a forma como se iniciou o processo de internacionalização, ambas as empresas optaram pela exportação direta, através da qual elas vendem os seus produtos diretamente a um importador localizado num mercado estrangeiro. É importante referir que o primeiro contato da Empresa Enamorata com o mercado exterior foi realizado através de Feiras de Moda que ocorreram em Paris e que permitiram a empresa encetar contatos com distribuidores de vários países e iniciar o processo de internacionalização através da exportação como já fora dito. Segundo esta empresa: “(…) O nosso primeiro contato com os mercados externos ocorreu em Feiras de moda realizadas em Paris. E foi a partir destas que começamos a ser contatados por alguns importadores. A nossa primeira estratégia de entrada foi através da exportação e para um distribuidor de França”. A empresa Giliana, apesar de ter iniciado o seu processo de internacionalização através da exportação direta, tem evoluído em relação à sua estratégia de entrada no mercado caboverdeano tendo optado num período posterior a um modo de entrada com participação de capital (investimento Greenfield). Tal como apontado por Cavusgil et al. (2010), a empresa 110 salienta as vantagens de instalar uma filial no mercado-alvo como os benefícios fiscais concedidos pelo governo estrangeiro (ver Apêndice IV), e também a possibilidade de ter o controlo total dos assuntos da empresa como as decisões sobre novos produtos, o marketing e a divulgação da marca, além da posse total dos lucros. Conforme afirma o Proprietário desta empresa: “ (…) 3 anos atrás efetuamos a nossa primeira exportação para Cabo Verde. Ocorreu de forma bem-sucedida porém decidimos apostar mais neste mercado e em 2012 abrimos uma Filial de vendas para ter um maior controlo e um maior retorno financeiro. A falta de concorrência existente neste mercado no ramo de têxteis permite-nos ter vantagens neste mercado”. Esta evolução em termos de estratégia de entrada da empresa Giliana vai de acordo com as premissas da Teoria de Uppsala segundo a qual a internacionalização das empresas dá-se de uma forma progressiva e sequencial. Segundo este Modelo de análise do processo de internacionalização, o aumento de comprometimento de uma empresa em relação a um novo mercado exterior dá-se através de uma cadeia de estabelecimento formado por vários estágios sucessivos que são ultrapassados pela empresa à medida que cresce o seu conhecimento sobre esses mercados. 5.2.2. A seleção do mercado Como defendem Papadopoulos et al. (1988) o processo de seleção de mercado pode, em muitos casos, basear-se em fatores como experiências pessoais, crenças, ideologias dos tomadores de decisão. E de facto, estes fatores tiveram influência no impulso inicial das empresas constituintes da amostra em relação a seleção dos mercados para se realizar a expansão internacional. A influência deste fator fica claro com a declaração do Gerente da Giliana: “Apesar de ter saído de Cabo Verde a 30 anos atrás, ainda me sinto ligado a esta terra, e por isso, além do aspeto financeiro, sinto uma grande gratidão e vontade 111 de investir neste país pois dessa forma sei que estou a contribuir para o desenvolvimento da terra que me viu nascer(…)”. As capacidades empreendedoras, os interesses e o conhecimento dos gestores acabam influenciando a sua triagem sobre os vários mercados e a sua escolha do(s) mercado(s) que mais podem satisfazer os seus objetivos. No entanto, tal como refere Leonidou et al. (2007) oportunidades esporádicas e encomendas pontuais também podem influenciar uma atitude reativa, principalmente, dos PME´s que têm poucos recursos e que esperam por estas oportunidades para selecionar o mercado que ofereça as mesmas. A Empresária da Enamorata refere exatamente isto: “ Para uma empresa pequena como a nossa, fica complicado aventurar-nos e gastarmos muitos recursos financeiros na procura e seleção de mercados. Por isso, acabamos por efetuar as exportações quando aparecem encomendas de distribuidores estrangeiros.” A distância psíquica e geográfica explicada na Teoria de Uppsala também revela como estas empresas realizam a análise de mercado e os fatores mais importantes na seleção dos mercados. Johanson e Vahlne (1977) referem-se a este conceito como sendo definido pela soma dos fatores como as diferenças na língua, na educação, nas práticas empresariais, na cultura, e no desenvolvimento industrial que acabam influenciando as relações e uma maior proximidade entre dois mercados. Neste caso específico sendo Cabo Verde uma ex-colónia portuguesa com uma cultura muito influenciada pelos hábitos portugueses e com uma aceitação generalizada dos produtos portugueses por parte da população caboverdeana, é de se prever uma maior probabilidade de sucesso quando uma empresa portuguesa decidir entrar neste mercado. Este fator relativo a aproximação cultural entre mercados explica o grande interesse das empresas Enamorata e Giliana no processo de internacionalização para o mercado caboverdeano. De acordo com esta última empresa: “Há uma relação inegável entre os Países Africanos de Língua Portuguesa e Portugal. É neste sentido, que queremos aproveitar estas semelhanças culturais, na língua e no perfil de consumidores para entrar com força nos mercados angolano e caboverdeano. Esperamos ter sucesso!” 112 5.2.3. As especificidades do Processo de Exportação A análise de todo o processo de exportação realizada pelas empresas em casos anteriores é de extrema importância para a validação dos objetivos deste Relatório e para a implementação da estratégia a ser seguida pela Enamorata no mercado de Cabo Verde pois permite a adaptação de situações positivas e com desfecho favorável. Além disto, pode-se fazer uma análise comparativa entre as duas empresas dado que a Giliana já está estabelecida neste mercado e já tem um conhecimento de toda a logística de exportação que este mercado exige, bem como a forma ideal de transporte das mercadorias. Conforme afirma o Empresário desta última Empresa: “ Uma das vantagens da relação entre o mercado caboverdeano e o português é a frequência das ligações marítimas e aéreas entre estes países, o que permite o cumprimento dos prazos estabelecidos para a entrega das encomendas. Outra vantagem reside no facto dos sistemas legal, politico e burocrático serem parecidos com os de Portugal, levando assim a resolução dos problemas com mais agilidade”. Este mesmo Empresário afirma, em relação ao meio de transporte utilizado nas exportações para Cabo Verde, o seguinte: “A Giliana utiliza a via marítima através de grandes contentores para exportar os seus produtos finais a Cabo Verde. Esta forma justifica-se devido ao facto da nossa Empresa enviar grandes quantidades de produtos trimensalmente, ou quando o estoque neste país acaba. É, sem sombra de dúvidas, a forma que envolve menos custos para se enviar os produtos”. Já a Empresária da Enamorata salienta que: “ O nosso Processo de Exportação ainda está numa fase incipiente, por isso, nas três exportações realizadas até agora enviamos em média 100 produtos em cada um destes negócios. Utilizamos algumas formas de expedição dos nossos produtos, nomeadamente através da CTT e da empresa de transporte de mercadorias pela via aérea UPS, e todas estas despesas de transporte foram 113 incluídas na fatura comercial e o importador teve a responsabilidade de as pagar. Em relação ao mercado caboverdeano, há muitas possibilidades de ocorrerem viagens da nossa parte para apresentar a marca e fazer contatos com possíveis clientes diretamente neste mercado”. Relativamente aos métodos de pagamento, foram utilizadas pelas empresas as mais variadas formas como o pagamento antecipado, o pagamento pessoal (através da deslocação do importador até ao país da empresa exportadora, neste caso a Portugal) e a Conta aberta através da qual o importador paga a mercadoria numa data posterior ao recebimento da mercadoria. A Gerente da Enamorata afirma: “ O método de pagamento a ser implementado neste mercado dependerá das negociações desenvolvidas com o(s) importador(es) e da confiança adquirida ao longo dos contatos comerciais realizados entre as partes. No entanto, é de extrema valia, saber que as ligações entre Portugal e este país africano são diárias facilitando, e muito, a logística dos contatos e dos negócios”. 5.2.4. Os obstáculos à Internacionalização Devido ao facto da metodologia de pesquisa desenvolvida neste Relatório se basear em duas empresas de pequena dimensão, as dificuldades que estas empresas sentiram no processo de exportação acabam por coincidir com as mencionadas pelas pesquisas acadêmicas no ramo da internacionalização. A análise do conteúdo das entrevistas permite detetar os principais obstáculos sentidos pelas empresas Enamorata e Giliana para iniciarem o Processo de Internacionalização como: a dificuldade na alocação de recursos, no financiamento para a aquisição de matérias-primas e os custos inerentes a uma atividade além-fronteiras que englobam as despesas com a deslocação aos países de destino, a contratação de recursos humanos especializados na área de internacionalização, e os custos associados às pesquisas de mercado e a divulgação da marca nos mercados exteriores. 114 Este raciocínio da Empresária ligada a Enamorata comprova a existência destes obstáculos: “De facto, o momento econômico desfavorável que se vive hoje em dia aliado aos custos associados ao processo de internacionalização acaba funcionando como obstáculos que poderiam ser amenizados com um maior apoio por parte do Estado às PME’s. No entanto, isto não acontece e, por isso, tem de se fazer um esforço pois a diminuição da procura interna acaba por fazer com que procuremos outras soluções noutros mercados” Uma outra dificuldade encontrada através da pesquisa de dados secundários como estatísticas e dados econômicos fornecidos pela INE- Cabo Verde incide na grande concorrência existente no mercado caboverdeano em termos de produtos de baixa qualidade porém com um preço muito competitivo levando a que os produtos de luxo tenham de investir fortemente no marketing e numa comunicação incisiva da marca para que possa atingir o seu target que seria a classe média alta. A facilidade com que os produtos brasileiros e chineses entram neste mercado acaba por funcionar como um entrave a entrada de produtos distintos e de luxo como os produtos da Enamorata. Para a Gerente desta empresa: “ A solução para este obstáculo está na adaptação do marketing-mix da nossa Empresa a realidade caboverdeana. Estaremos dispostos a baixar o preço como forma inicial de expansão da nossa marca neste país. Dessa forma, nos tornaremos mais competitivos e poderemos aumentar as nossas vendas”. Também são referidos pelas empresas, obstáculos ligados as barreiras tarifárias impostas pelos governos dos mercados externos. Estas tarifas alfandegárias e impostos aduaneiros aplicados pelos Estados levam a que o preço dos produtos exportados seja mais alto levando, assim, a uma perda de competitividade face aos produtos nacionais destes mercados. Segundo o Proprietário da Giliana: “ São estes tipos de obstáculos que levaram a nossa Empresa a alterar a sua estratégia de entrada: apesar de iniciar o processo de internacionalização através das exportações, a empresa optou pela criação de uma filial de vendas para usufruir de mais vantagens fiscais e ter uma maior margem de controlo sobre o negócio e uma maior margem de lucro”. 115 As dificuldades em termos das condições existentes no mercado caboverdeano também são abordadas e corroboram também as premissas e objetivos deste Relatório segundo os quais a melhor estratégia para a Empresa Enamorata passa pelo processo de exportações. O alto custo de produtos essenciais como a água, a energia, e as telecomunicações devido a existência de monopólios nas empresas que oferecem estes produtos, aliado ao facto da existência de pouquíssimas indústrias levando a que “quase” tudo seja importado faz com que haja um custo elevado na instalação da empresa neste mercado. Dessa forma, a estratégia que acarretaria menos riscos e custos seria a exportação direta permitindo, assim, que a empresa ultrapassasse estes obstáculos. 116 VI- CONCLUSÃO 117 118 6. CONCLUSÃO 6.1. Implicações práticas do Relatório Como já fora dito na parte inicial deste Relatório, a empresa Enamorata atua no segmento da criação de moda de praia, há cerca de dois anos e meio, e está sediada em Vila do Conde. É uma empresa vocacionada para a criação de moda de praia para Adulto e Criança. Foi fundada em inícios de 2012, e, em 2013, lançou a sua primeira coleção de moda de praia para adulto. A empresa é um gabinete de trabalho onde é concebido e elaborado o design gráfico associado as diversas criações de estampados (design têxtil) para cada coleção (Homem e Senhora) e onde é elaborado também design de vestuário de cada coleção (fichas técnicas, especificações, Ilustrações. O processo de venda das coleções é feito através da vendedora que contata diretamente as lojas, para a venda dos produtos desenvolvidos. As peças são colocadas nas lojas sob a forma de venda a comissão, isto é, a empresa dedica-se a produção de bikinis e calções de banho e, posteriormente, fornece estes produtos finais a algumas lojas estratégicas que, por sua vez, recebem uma comissão pelos produtos vendidos. O target da empresa Enamorata é um público de nível médio alto, pretendendo no futuro concorrer com marcas consideradas de luxo. No atual mercado globalizado para um produto ser considerado de luxo, e vendido como tal, é necessário que seja produzido com materiais de elevada qualidade, que as peças sejam confecionadas de um modo irrepreensível e que a sua própria imagem transmita uma ideia de requinte e exclusividade. Nesta perspetiva a marca Enamorata tem como objetivo a produção de produtos de qualidade superior e fazer parte do grupo das marcas de prestigio 100% portuguesas. No contexto da crise econômica que tem assolado Portugal e a Europa, as empresas começam a procurar novos mercados para compensar o abrandamento da procura interna. É neste sentido que surge o interesse da Enamorata em expandir-se para o mercado caboverdeano, e para isso seria necessário uma análise deste mercado como forma de se perceber a viabilidade 119 e a estratégia a se adotar para que se consiga uma internacionalização sólida e bem-sucedida para este mercado específico. Esta análise terá de levar em conta as características da população caboverdeana e da sua procura; o nível de emprego, alfabetização e do poder de compra; o comportamento do consumidor. Sendo Cabo Verde um país insular, é necessário também analisar bem quais as ilhas que oferecem maiores benefícios para os produtos swimwear. Cabo Verde é um país com cerca de 500.000 habitantes distribuídos de forma desigual por 10 ilhas. A estratégia de venda dos Produtos da Enamorata deverá incidir-se sobre as ilhas de Santiago, São Vicente, Sal e Boavista pelo fato destas ilhas constituírem 78,3% da população total do país o que se explica pelo aumento do êxodo rural e pelo fato de nestes centros urbanos se concentrarem as melhores oportunidades de emprego e serviços tanto públicos como privados. Outro fato que beneficia estas ilhas é a existência de portos alfandegários desenvolvidos, além da existência de uma população com um maior poder de compra e mais vulnerável aos produtos de luxo e de alta qualidade como são os produtos swimwear da Enamorata. Um outro detalhe muito importante e que deve ser tido em conta é a alta taxa de alfabetização da população caboverdeana, o que pode indiciar uma maior sensibilidade a produtos distintos e diferenciados. De acordo com uma pesquisa realizada pela INE em 2013 a taxa média de alfabetização da população com 15 anos ou mais em Cabo Verde é de 82,8%. Outro fato que reforça a hipótese dos mercados-alvo elaborada no parágrafo anterior relaciona-se com as taxas de alfabetização existentes nas ilhas de Santiago, São Vicente, Sal e Boavista que são 89%, 86%, 92% e 90% respetivamente. Portanto, estas quatro ilhas têm as mais altas taxas de alfabetização do país, o que as leva a ter uma sociedade mais instruída, com uma maior capacidade de seleção e mais sensível a marcas/produtos novos. Um segmento do mercado que pode ser explorado pela Enamorata são os turistas pois a oferta turística em Cabo Verde tem-se baseado no monoproduto sol e praia e toda a estratégia de marketing e comunicação utilizada pelos canais turísticos focam-se no turismo balnear já que o país só tem uma estação: o verão, e a média da temperatura nos meses mais frios (Dezembro e Janeiro) ronda os 16 graus, e nos outros meses ronda os 27 graus. Estas condições naturais específicas, a par de uma cultura marcante e diversificada e de uma história rica, constituem um dos mais importantes atrativos do país no que diz respeito à sua competitividade como destino turístico. Ao longo dos últimos anos tem havido um aumento do número de turistas 120 em Cabo Verde fruto de uma oferta mais qualitativa de hotéis e resorts e de infra-estruturas realizadas pelo governo caboverdeano na área das telecomunicações e dos transportes. Além disto, a crise económica mundial veio reforçar os destinos mais baratos como o caboverdeano que devido a taxa de câmbio fixa da sua moeda em relação ao euro permite que a moeda europeia se mantenha valorizada. Tudo isto vai totalmente de acordo com o propósito dos produtos da Enamorata que se destinam exclusivamente a moda banho e colocam os hotéis e resorts (através dos Gift shops e Boutiques) como importantes canais de distribuição destes produtos, que poderão ser exploradas por esta empresa. O crescimento da classe média e a progressiva alteração de hábitos de consumo fruto do aumento de pessoas com ensino superior concluído (cerca de 7,5% da população total de CV) e do aumento do salário das pessoas com ensino superior, conjugado com o desenvolvimento do setor do turismo gera oportunidades de investimento para novas empresas/marcas e uma maior sensibilidade a produtos de luxo que são elásticas a renda. A este ambiente mais favorável a empresa Enamorata também não é alheio o facto de haver uma grande parte de pessoas que concluíram o estudo superior em Portugal e que, por isso, estão muito familiarizados e têm uma grande aceitação em relação aos produtos portugueses. Dessa forma, estarão reunidas as condições para que a Enamorata desenvolva uma comunicação virada para a classe média/classe média alta, devendo, no entanto, estabelecer um preço mais baixo do que o praticado no mercado português como forma de se adaptar à intensa concorrência dos produtos swimwear provenientes do mercado brasileiro. Feita a análise sobre o mercado caboverdeano e as caraterísticas e potencialidades do mesmo que podem ser exploradas pela empresa Enamorata, passaremos a fase da delineação da estratégia adequada aos recursos que dispõem a Empresa, aos desígnios da CEO Fátima Costa e às oportunidades do mercado-alvo que, ao serem abordadas, possam levar a um processo bem-sucedido de internacionalização. Como relatado pela CEO Fátima Costa na entrevista, a empresa agiu no mercado angolano através de um Agente que atuava neste mercado com o objetivo de dar a conhecer a população local a marca Enamorata. Este agente trabalhava em parcerias com revistas fashion e da socialite angolana, além de patrocinar os vários concursos Miss que são culturalmente enraizados tanto nos hábitos angolanos como caboverdeanos. Portanto, a empresa Enamorata aproveitou o bom posicionamento e as relações privilegiadas que o Agente tinha junto dos media “cor-de-rosa” e junto dos organizadores de concursos de beleza, para começar a ser 121 conhecida e valorizada no mercado angolano. Este processo de implantação da marca neste mercado durou 1 ano e após este tempo a empresa Enamorata começou a receber pedidos de encomendas de algumas Boutiques e Lojas de roupa. No caso do mercado caboverdeano e dado as semelhanças do perfil de consumidor deste mercado em relação ao angolano, e dado a existência bem-sucedida de vários concursos de Miss também neste país, optou-se por se delinear uma estratégia em alguma parte semelhante a realizada em Angola, mas levando em conta as especificidades de um mercado de dimensão menor, com uma população com rendimento menor, mas por outro lado, com um número de turistas maior do que o existente em Angola. Dada a pequena dimensão e os recursos atuais da Enamorata, os modos de entrada com elevado controlo e risco financeiro não foram considerados, estando colocados de parte qualquer modo de entrada com participação de capital. Dessa forma, o modo de entrada escolhido pela Enamorata baseou-se no estabelecimento de operações internacionais em que a empresa não estabelece uma presença no estrangeiro através da criação ou aquisição de uma unidade independente. Assim, o modo de entrada escolhido foi a exportação direta que permite um baixo comprometimento de recursos e um risco baixo. Como já tinha sido referido neste Relatório, a exportação direta ocorre quando um produtor ou exportador vende diretamente os seus produtos a um importador ou comprador localizados num mercado estrangeiro. Através da análise do mercado caboverdeano, conseguiu-se estabelecer uma rede de contatos entre a Enamorata e algumas empresas, dentre as quais o Hotel Luar através do seu Gerente, o Sr. Danielson Andrade que será o representante exclusivo da marca Enamorata no mercado caboverdeano. Portanto, o Empresário Danielson Andrade será o distribuidor local independente que importará os produtos da Enamorata e fará a sua distribuição para os retalhistas e consumidores finais. Este importador conhece bem o mercado caboverdeano e movimenta-se com facilidade no mesmo, tem um grande conhecimento e detém uma rede de contatos em relação aos maiores Hotéis de Cabo Verde e às Boutiques razão pela qual conseguiria a colocação com facilidade em vários pontos do país. Este cliente negociará os preços com a Enamorata, comprará os produtos, assumirá os riscos associados ao crédito e tratará da logística de distribuição dos produtos até ao cliente final. A estratégia da Enamorata passaria, então, pela simples exportação dado que esta apresenta um risco baixo em que uma eventual perda se limitaria ao valor da mercadoria transportada. A 122 opção por este distribuidor no mercado caboverdeano reduz o grau de risco e incerteza da Enamorata, pois a abertura de uma filial de vendas, apesar de permitir um maior controlo e um maior retorno, exigiria um maior investimento e um maior comprometimento de recursos e, consequentemente, um risco maior. Outra desvantagem da exportação direta é que ela não permite a empresa Enamorata controlar como a marca é apresentada aos consumidores caboverdeanos. Apesar de haver um baixo risco financeiro, há um maior risco de mercado devido ao facto de que todas as decisões sobre como os produtos serão apresentados no mercado-alvo, sobre os níveis de preço, os canais de distribuição e as campanhas de publicidade são da exclusiva competência do importador. Um dos fatores a levar em conta neste processo de exportação é a vantagem dos produtos da Enamorata terem um peso relativamente baixo (bikinis, fatos de banho, calções de banho) o que permite uma logística de transporte com custos baixos. A condição de pagamento acordada entre as empresas é o pagamento antecipado dado a que o valor não seria muito alto. Além disto, a relação entre as empresas é ainda incipiente e ainda não existe um histórico longo de negociações entre as mesmas o que leva a que a Enamorata opte por uma forma de pagamento que envolva menos riscos para a empresa. A Enamorata será a responsável de todo o processo de transporte desde Portugal até ao porto marítimo da Praia e o custo de transporte e de seguro é sempre introduzido na fatura. Esta empresa após a análise do pedido a ser feito pelo importador, verificará o stock existente e as quantidades necessárias. Neste caso, o importador negociou com a empresa a compra das peças restantes da Coleção de 2013 para conseguir obter um preço mais baixo dado que existia o risco da marca ainda não ser conhecida em Cabo Verde. Dessa forma, haveria vantagens reciprocas: a Enamorata vendia peças de swimwear do ano de 2013, que tiveram pouca saída e que foram ultrapassadas em termos de moda e design pelas peças atuais da Coleção 2014; e por outro lado, o importador conseguia um preço competitivo por um produto que, mesmo pertencendo à Coleção 2013, seria uma novidade e poderia ter um impacto grande no mercado caboverdeano. Esta vantagem recíproca poderia ser explicada pela Teoria do Ciclo de vida do Produto sem, no entanto, envolver a vertente da deslocalização da produção. Segundo esta Teoria, um produto pode estar num dos quatro estágios propostos por Vernon: introdução, crescimento, maturidade ou declínio. Neste caso específico, os produtos da Enamorata da Coleção 2013 encontram-se na fase de declínio no mercado português, isto é, nessa fase estes produtos ficam obsoletos e são 123 gradativamente substituídos pelas peças da Coleção 2014. Eles também são retirados do mercado ou a sua distribuição e fabricação são reduzidas. Por outro lado, estes produtos pertenceriam a fase de introdução no mercado caboverdeano, razão pela qual haveria boas hipóteses de constituírem boas vendas e lucros para o importador. A Enamorata após acordar o contrato de venda com o importador, teria de calcular o peso e a dimensão da encomenda, para depois solicitar um orçamento aos vários transitários para o transporte desde a origem (Porto) até o destino final (Praia) e o valor do seguro. Após a análise da melhor oferta em relação ao transporte da mercadoria, é feita a fatura pró-forma e é acordada a forma de pagamento, que como já fora dito será o pagamento antecipado. É de realçar que na negociação com o importador, este exigiu uma amostra dos produtos que consistia no envio por parte da Enamorata de 12 peças de bikinis que seriam utilizados pelo importador no processo de divulgação e expansão da marca em Cabo Verde. Estas peças seriam utilizadas no patrocínio de Concursos Miss que iriam se realizar na cidade da Praia. Estes Concursos são os seguintes: - Miss Interliceu 2015: um concurso realizado com 12 concorrentes de idade compreendida entre 15 a 18 anos. Estas concorrentes seriam as vencedoras e vice-vencedoras dos Concursos de Miss realizados nas 6 principais Escolas Secundárias da Cidade da Praia. A data prevista para este concurso seria no mês de Maio/2015; - Miss Ilha de Santiago 2015: um concurso realizado com 12 concorrentes representantes de vários concelhos e cidades da principal Ilha de Cabo Verde, a Ilha de Santiago, para se apurar a Miss Santiago e a representante desta Ilha no maior Concurso Miss do país, o Miss Cabo Verde. A data prevista para este concurso seria no mês de Agosto/2015; - Miss Cabo Verde 2015: é o maior Concurso Miss do país. Conta com a presença de muitas marcas e patrocínios, bem como a apresentação na Televisão de Cabo Verde. Neste concurso participam 9 concorrentes representantes das 9 ilhas habitadas do país, já que apesar de existirem 10 ilhas em Cabo Verde, uma ilha é inabitada ( a ilha de Santa Luzia). Este concurso permitiria um conhecimento da marca Enamorata em todas as ilhas, e por uma grande parte da população. A empresa acordou o envio desta quantidade de bikinis, sendo o transporte e o seguro por conta do importador. Neste caso, como em Novembro de 2014 o importador conseguiria um portador para esta mercadoria pela via aérea, ficou-se acordado que o portador viria a Braga 124 para tomar a mercadoria na Empresa Enamorata e levá-la até a cidade da Praia. Este foi o primeiro passo no processo de exportação entre a Enamorata e o importador e distribuidor em Cabo Verde. Outro aspeto relevante tem a ver com o contato privilegiado que o importador tem com a revista de celebridades “Uhau!” e a revista de moda “So what?”. Esta relação permite uma forma de divulgação da marca Enamorata bastante incisiva e adequada, já que através da revista de moda pode-se divulgar um produto com design sofisticado, de luxo e que é uma novidade no mercado caboverdeano. Através da revista de celebridades, pode-se atingir a classe média e a classe média alta que normalmente são as classes atingidas por este tipo de revistas e é extremamente adequado para se divulgar um produto luxuoso e de classe como é o produto da Enamorata. Outro canal importante que pode ser utilizado na divulgação da marca Enamorata e que foi sugerido pelo importador seria uma parceria com a Dirce Lima, que é uma das mais conceituadas Consultoras de imagem em Cabo Verde e que tem um Programa de moda na Televisão de Cabo Verde. Através da sua capacidade de influência no ramo da moda, a Dirce Lima poderia ser uma mais-valia num momento crucial e importante que é o momento da introdução da marca neste novo mercado. Ícones da moda têm sempre um grande peso na divulgação de produtos novos num mercado pois transmitem confiança aos clientes em relação a qualidade destes produtos. A estratégia formulada para a internacionalização da Enamorata para o mercado caboverdeano permitirá uma acumulação de conhecimento e experiência que levarão a uma melhoria desta empresa em termos dos seus recursos humanos, produtivos e financeiros, além deste mercado funcionar como uma “porta de entrada” para outros mercados africanos dado que as facilidades e as boas relações institucionais entre Cabo Verde e Portugal permitem a Eamorata uma expansão com menor possibilidade de riscos e a possibilidade do aproveitamento das boas relações comerciais de Cabo Verde com Guiné-Bissau, São Tomé e Senegal, para abrir novas perspetivas e quiçá beneficiar de novos mercados e oportunidades de expansão. 125 126 APÊNDICES 127 128 APÊNDICE I- Pauta Aduaneira de Cabo Verde ( Pág. 123) Código Nac. Designação das mercadorias UC CL DI ICE IVA Camisolas e pulôveres, “cardigans”, coletes e artigos semelhantes, de malha. 61.10 6110.11.00 6110.12.00 6110.19.00 00 00 00 - De lã ou de pêlos finos -- De lã -- De cabra de Caxemira -- Outros u u u C C C 30 30 30 15 15 15 6110.20.00 6110.30.00 6110.90.00 00 00 00 - De algodão - De fibras sintéticas ou artificiais - De outras matérias têxteis u u u C C C 30 30 30 15 15 15 kg kg kg C C C 30 30 30 15 15 15 61.11 6111.20.00 6111.30.00 6111.90.00 Vestuário e seus acessórios,de malha, para bebés. 00 00 00 61.12 - De algodão - De fibras sintéticas - De outras matérias têxteis Fatos de treino para desporto,fatos-macacos e conjuntos de esqui, malhôs,biquinis, calções (“shorts”) e “slips”, de banho, de malha. 6112.11.00 6112.12.00 6112.19.00 00 00 00 - Fatos de treino para desporto: -- De algodão -- De fibras sintéticas -- De outras matérias têxteis u u u C C C 20 20 20 15 15 15 6112.20.00 00 - Fatos-macacos e conjuntos de esqui u C 20 15 6112.31.00 6112.39.00 00 00 - Malhôs, calções (“shorts”) e “slips”, de banho, de uso masculino: -- De fibras sintéticas -- De outras matérias têxteis u u C C 20 20 15 15 6112.41.00 6112.49.00 00 00 - Malhôs e biquínis de banho, de uso feminino: -- De fibras sintéticas -- De outras matérias têxteis u u C C 20 20 15 15 6113.00.00 00 kg C 20 15 kg kg kg C C C 20 20 20 15 15 15 61.14 6114.20.00 6114.30.00 6114.90.00 61.15 Vestuário confeccionado com tecidos de malha posições 5903, 5906 ou 5907. das Outro vestuário de malha. 00 00 00 - De algodão - De fibras sintéticas ou artificiais - De outras matérias têxteis Meias-calças, meias de qualquer espécie e artefactos semelhantes, incluindo as meias-calças e meias de qualquer espécie de compressão degressiva(por exemplo, as meias para varizes), de malha. 129 6115.10.00 00 6115.21.00 00 6115.22.00 00 6115.29.00 00 6115.30.00 00 6115.94.00 6115.95.00 6115.96.00 6115.99.00 00 00 00 00 - Meias-calças e meias de qualquer espécie de compressão degressiva(p.ex. as meias para varizes) - Outras meias-calças: -- De fibras sintéticas, com menos de 67 decitex, por fio simples -- De fibras sintéticas, com 67 decitex ou mais, por fio simples -- De outras matérias têxteis - Outras meias até ao joelho e meias acima do joelho, de senhora com menos de 67 decitex por fio simples - Outros -- De lã ou de pelos finos -- De algodão -- De fibras sintéticas -- De outras matérias têxteis kg C 20 15 kg C 20 15 kg C 20 15 kg C 20 15 kg C 20 15 kg kg kg kg C C C C 20 20 20 20 15 15 15 15 Nac. - Desdobramentos nacionais UC - Unidades de medida utilizada na quantificação da mercadoria u - unidade | kg - kilograma CL - Classe da mercadoria C - Bens de consumo DI - Direitos de Importação ICE - Imposto de Consumo Especial IVA - Imposto sobre o valor acrescentado Quadro 19 – Pauta Aduaneira de Cabo Verde – Parte que incide sobre os produtos exportados pela Enamorata ( Fonte: Alfândegas de Cabo Verde, página 123 da Pauta Aduaneira) 130 APÊNDICE I I– GUIÃO DAS ENTREVISTAS 2. ENTREVISTA 2.1. Identificação do entrevistado e sua respetiva função na Empresa 2.2. Descrição da Empresa - Nome - Morada - Breve História e Inicio de atividade - Características dos produtos da Empresa - Nº de Trabalhadores - Valores, Missão, Visão e Objetivos da Empresa 2.3. Processo de Internacionalização - Motivações e Determinantes da Internacionalização - Forma ou Estratégia inicial de Internacionalização - Quando ocorre o 1º Processo de Exportação da Empresa? - Fatores determinantes para o impulso da Exportação? 2.4. Análise dos mercados - Quais os mercados para o qual a Empresa já exportou os seus produtos? - Ocorreu um estudo de mercado que levou a seleção destes mercados específicos ou 131 a exportação surgiu como reação a encomendas esporádicas provenientes deste mercado? 2.5. O Processo de Exportação - Análise detalhada da forma como ocorreu a Exportação ( direta ou indireta, através de agentes, filiais, distribuidores, broker, ou através de outras formas) - Documentação envolvida no Processo de Exportação, a logística de exportação e o transporte, os métodos de pagamento utilizados 2.6. Obstáculos à Internacionalização - Os principais obstáculos sentidos no processo de internacionalização - Há uma relação entre os possíveis obstáculos que poderão ser encontrados num determinado mercado e a estratégia de entrada a ser adotada? 132 APÊNDICE III – SÍNTESE DA ENTREVISTA À ENAMORATA A empresa Enamorata foi fundada em Vila do Conde no inicio de 2012 e tem a sua primeira aparição pública na participação na gala “Namorar Portugal” em Vila Verde (Braga), durante o mês de Fevereiro (mês do romance), com uma coleção baseada no tema dos lenços dos namorados. O nome “Enamorata” significa enamorado em inglês mas com a troca do "i" pelo "e", seguindo a tradição de erro ortográfico traduzida nos referidos lenços. A entrevista a esta empresária ocorreu em 17 de Setembro de 2014 entre as 15:00 e as 18:00, pois seria de extrema importância após o estágio realizado em conjunto na empresa Amazing Ideas e na Enamorata, confirmar as informações recebidas durante este estágio, analisar as perceções e ideias da CEO desta Empresa, e o seu interesse e disponibilidade para que se desenvolvesse a estratégia de entrada no mercado caboverdeano, estratégia esta elaborada através deste Relatório nos últimos 6 meses (desde o fim do estágio em Março/2014 até Setembro/2014) após a análise do mercado caboverdeano, dos possíveis canais de distribuição e do contato privilegiado com um empresário que tem todo o interesse em iniciar o processo de importação dos produtos da Enamorata. Na entrevista, a empresária reiterou que a Enamorata é uma empresa que se dedica à criação, produção e distribuição de coleções próprias de swimwear para homem e senhora. É uma instituição jovem que se inspira nas tradições e cultura portuguesas, que incentiva o espirito de iniciativa, a criatividade e fomenta a curiosidade e irreverência de modo a possibilitar a criação de peças únicas e diferentes. As coleções da Enamorata são concebidas a pensar em pessoas independentes, amantes da vida e do estilo urbano, além de ter em conta a qualidade e o conforto dos materiais, possibilitando a combinação das peças de diferentes formas assumindo papéis versáteis, tudo com criação e produção 100% “Made in Portugal”. Segundo a entrevistada: “ Queremos apaixonar os nossos clientes pela singularidade, os nossos colaboradores pela excelência e os nossos parceiros pelo compromisso”. A Enamorata tem como objetivo ser uma marca portuguesa de referência, diversificar mercados e aumentar a notoriedade aos olhos dos seus clientes, colaboradores e parceiros. Em relação ao públicoalvo, a marca está direcionada para a classe média-alta, que exige sofisticação e singularidade, com particular atenção ao fitting, design e qualidade dos materiais. Todas as peças são 133 concebidas de maneira a realçar as formas femininas, incorporando materiais de ponta e elementos romanticamente sensuais. A gerente da Enamorata também refere que os seus produtos são elaborados de tecidos inovadores de alta qualidade, amigos do ambiente e com um excelente poder de compressão, resistência e proteção UV. Em relação ao preço, há a linha casual swimwear que é uma linha para as mulheres sofisticadas e cosmopolitas, que cuidam da imagem e procuram produtos distintos e cujo preço varia de 70€ a 110€. Uma outra linha, a swimgerie que é uma linha exclusiva de swimwear com foco nos detalhes para os amantes do estilo urbano que queiram destacar-se da multidão e cujo preço varia entre 200€ a 270€. O interesse da empresa para a internacionalização começou a aparecer em Julho de 2013 com a Feira Internacional “Mode City” que ocorreu em Paris e que reuniu artesãos internacionais e especialistas em tecidos, com fabricantes de roupa internacionais na indústria de trajes de banho e lingerie. Esta Feira tem um grande alcance pois os seus convidados chegam do mundo todo e de vários setores diferentes como: lingerie, confeção, alta costura, bodywear, roupa desportiva. Através da organização de eventos de moda como desfiles de moda de lingerie e swimwear, fórum e conferências, esta Feira permite que as empresas exponham os seus produtos e atraiam compradores internacionais. A Enamorata, devido ao sucesso da sua participação em 2013, foi convidada a participar também neste ano tendo sido selecionadas peças para o fórum de tendências nos dois anos e neste último ano a empresa teve destacados um conjunto de mulher e outro de homem para o desfile “The selection”. Em relação ao processo de internacionalização que é a parte que mais interessa para o objetivo deste Relatório, a Proprietária da empresa reiterou que este processo se encontra ainda numa fase incipiente dado que só neste ano é que começaram a se interessar mais por esta estratégia de expansão. No mês de Julho é que ocorreu o primeiro processo de exportação para França, após a participação bem-sucedida na Feira “Mode City”. Ainda no território francês, a empresa foi contatada pessoalmente por um distribuidor de produtos swimwear que mostrou interesse na compra de 100 peças. Através do Catálogo da empresa, o importador francês escolheu as peças, e a Enamorata contatou o seu armazém para confirmar se teria esta quantidade disponível. Após esta confirmação, a empresa concordou em enviar a mercadoria via CTT Expresso dentro de 1 semana sendo que o custo do envio seria colocado na fatura comercial juntamente com o custo da mercadoria. A fatura comercial, no comércio internacional, é um documento que deve ser emitido pelo exportador no idioma do 134 importador, e deve conter, para além das informações habituais de qualquer fatura comercial, informações específicas, conforme exigido pela legislação do país importador. O método de pagamento acordado entre a Enamorata e o importador francês foi uma Conta aberta, em que este paga a mercadoria numa data posterior ao recebimento da mesma. Esta primeira experiência ocorreu de forma exemplar, com a mercadoria a chegar ao destino na data prevista e o pagamento a ser feito via transferência bancária no dia posterior a data de recebimento. No caso especifico de Angola, houve um maior interesse na entrevista para que a empresária abordasse detalhadamente este processo de exportação pois poderia ser um modelo a ser seguido no caso da internacionalização para Cabo Verde devido às semelhanças em termos do perfil do consumidor e dos hábitos culturais entre este país e Angola. O contato com o mercado angolano ocorreu no ano de 2013 através de uma parceria com uma agente que atuava neste mercado em representação da marca Enamorata. Esta agente, através da sua rede privilegiada de contatos, consegue ter alguma influência no mundo da moda além de ter um contato direto com vários distribuidores, o que veio a ser uma grande mais-valia para o processo de internacionalização. Esta parceira comercial da Enamorata tem boas relações com duas das maiores revistas de celebridades de Angola, a “Chocolate” e a “People” e, por isso, conseguiu divulgar a marca através de artigos de opinião e de publicidades nestas revistas. Além disso, este agente é a interlocutora dos Concursos de Miss e conseguiu junto da empresa Enamorata o patrocínio de biquinis (cerca de 15 peças) que foram usadas pelas concorrentes em 2 grandes concursos que tiveram grande projeção em Angola fazendo com que a marca fosse conhecida e admirada neste mercado. Passado 1 ano do inicio da divulgação da marca, a agente representante da Enamorata em Angola começou a despertar a atenção de alguns distribuidores de bikinis e fatos de banho, sendo que em Setembro de 2014, ocorreu a primeira encomenda de 120 peças de produtos swimwear. O importador como viajava frequentemente para Portugal, numa das suas viagens se deslocou a Vila do Conde para comprar pessoalmente a mercadoria e a levar para Angola. Por isso, a exigência foi mínima (apenas a fatura comercial) e o método de pagamento foi o pagamento de forma pessoal, após o qual o importador recebeu a mercadoria. Os contatos do agente neste mercado continuam a ocorrer, e a empresa Enamorata perspetiva novas encomendas num futuro próximo. O outro caso de internacionalização ocorreu para o Chile em Outubro de 2014. O distribuidor chileno conheceu a marca Enamorata na Feira “Mode City” e ficou com o contato da empresa 135 para uma futura negociação que acabou por ocorrer no início de Outubro/2014. O importador fez a escolha das peças que pretendia e informou a Enamorata uma encomenda de 100 peças. Esta, por sua vez, confirmou a capacidade de enviar a encomenda no tempo estabelecido pelo importador chileno e acordou com este o método de pagamento antecipado pela falta de um historial de negócios sólido que permitisse uma maior confiança e um método de pagamento diferente. Dessa forma, a Enamorata recebeu o pagamento antecipado em USD e via transferência bancária e no qual se incluía o valor do transporte aéreo via empresa UPS (forma de transporte exigida pelo distribuidor chileno). Depois de recebido o pagamento, a Enamorata então embalou a mercadoria e enviou para o endereço da empresa chilena através da empresa UPS que é atualmente a maior empresa de distribuição de pacotes do mundo e é líder na prestação mundial de serviços especializados de transporte e logística. A finalizar a entrevista, a gerente da Enamorata sublinhou o seu grande interesse em repetir os processos de internacionalização que já ocorreram e com grande sucesso, no mercado caboverdeano apesar de reconhecer que este mercado tem menor dimensão e tem características especificas que devem ser levadas em conta no processo de expansão para este mercado. 136 APÊNDICE IV – SÍNTESE DA ENTREVISTA À GILIANA A entrevista a empresa Giliana aconteceu numa das suas fábricas situadas em Mesão Frio, Guimarães, no dia 18 de Junho de 2014 entre as 14 horas e as 16:30 horas. A sua empresa, para além desta fábrica que tem 150 trabalhadores, tem mais uma fábrica em Vila Verde (Braga) com cerca de 50 trabalhadores que se destina somente à produção. Esta Empresa têxtil foi fundada em 1982 e na altura era uma empresa familiar dedicada ao fabrico de camisas que produzia apenas para o mercado nacional. Em 1986, o compromisso com a qualidade e a inovação conduz a Giliana à um processo novo de confeção de camisas, destacando-se dos seus concorrentes nacionais e expandindo-se para o mercado internacional. A esta altura cerca de 90% da produção desta empresa se destinava à exportação para a Europa, EUA e para a África. Nesta entrevista, o proprietário desta Empresa destacou que é a política da Giliana fornecer aos seus clientes, produtos e serviços da mais alta qualidade, que sob todos os aspetos estejam em conformidade com as especificações, padrões de qualidade e requisitos regulamentares aplicáveis. O proprietário desta empresa também defendeu que a sua empresa procura continuamente a melhoria da qualidade dos serviços através dos seguintes compromissos: i) preocupação na produção de produtos que satisfaçam as necessidades dos nossos clientes superando as suas expetativas no que diz respeito à qualidade; ii) formar e sensibilizar os colaboradores para uma participação ativa na dinamização do processo de gestão da qualidade, assegurando que todos promovem a melhoria contínua e eficaz da empresa; iii) estabelecer relações de parceria rigorosas e justas com os fornecedores; iv) ter uma atuação responsável perante o ambiente e a sociedade em geral. O empresário após a apresentação da sua empresa, passou a abordar o processo de internacionalização que realizou em 2011 para o mercado caboverdeano. Ele afirma que o modo de entrada escolhido para o mercado caboverdeano foi a criação de uma loja, ou seja, uma filial comercial de vendas. Segundo Welch et al. (2007), esta estratégia de entrada assegura a empresa-mãe o controlo total sobre todo o processo de tomada de decisão que ocorre naquela empresa, quer seja sobre as suas politicas e estratégias, quer seja sobre ativoschave que são transferidos para a subsidiária tais como a tecnologia e o know-how. Segundo o gerente, a loja foi estabelecida no Centro da cidade da Praia em 2011 e o seu objetivo era 137 fornecer peças de roupa de qualidade para que as pessoas tivessem uma oportunidade de vestir de forma clássica. Na entrevista, o gerente enfatizou que este empreendimento deparou-se com alguns problemas como o facto de haver muitos gastos com produtos essenciais como a água, a energia, e as telecomunicações pois devido a existência de monopólios nas empresas que oferecem estes produtos, o preço dos mesmos mantém-se alto. Além disso, há o problema de quase tudo ser importado no mercado caboverdeano e a existência de pouquíssimas indústrias, o que faz com que o nível de preços seja alto. Dessa forma, é preferível uma filial de vendas do que uma filial de produção, dado que a aquisição de matérias-primas para a produção teria um custo elevado e não permitiria ter um preço final competitivo que é o que acontece no caso da nossa empresa que importa os produtos da empresa-mãe em Portugal e os revende ao cliente final em Cabo Verde. O empresário aponta ainda as taxas alfandegárias que são impostas aos seus produtos pois alerta pelo facto de ele ser um exportador e um importador ao mesmo tempo, isto é, a sua empresa que tem a base em Guimarães produz as peças de vestuário que envia pela via marítima para Cabo Verde onde ele tem de retirar a mercadoria e pagar as respetivas taxas aduaneiras. Nesse sentido, ele tem de pagar cerca de 40% sobre o valor aduaneiro do produto (que é o valor da mercadoria+ Frete+ Seguro) e ainda 15% que é o valor do IVA. Por outro lado, o entrevistado aponta para vantagens que a sua empresa tem e que decorre da legislação caboverdiana conceder isenção de tributação para os dividendos e lucros distribuídos ao investidor e que sejam provenientes de investimento externo, nas seguintes condições: - Durante um período de 5 anos contado a partir da data do registo do investimento; - Sempre que os referidos lucros tenham sido reinvestidos, nos termos da lei, na mesma ou noutra atividade económica em Cabo verde. Após o período de isenção, caso os lucros não forem reinvestidos, ser-lhe-á aplicada uma taxa de imposto único de 10%. Estes incentivos não se aplicam aos investimentos cuja produção se destina ao mercado interno. O gerente da Giliana ainda defende que o governo caboverdeano deveria dar mais incentivos para que houvesse mais investimento externo principalmente nas indústrias que é a área onde o país é mais carente. Ele também aposta muito no marketing da sua marca através do Apresentador Giordano Custódio que veste normalmente os fatos da marca Giliana no seu 138 programa televisivo “Nha terra, Nha cretchéu” que é transmitido uma vez por semana na RTP África. O entrevistado da Empresa Giliana aponta também para uma queda das vendas neste ano de 2014 fruto da crise mundial que afeta o mercado caboverdeano que é dependente do turismo e da remessa de emigrantes. Contudo, aponta o seu amor por Cabo Verde e a vontade de ver o seu país a desenvolver como alguns dos motivos que levam a que ele continue a investir no país e a acreditar que existe muita potencialidade neste mercado. Tem expetativa na melhoria e no aumento dos lucros para que possa expandir o seu negócio em Cabo Verde e contribuir para o desenvolvimento econômico e o aumento do investimento externo no país, criando mais postos de trabalho e oferecendo um produto de alta qualidade aos seus clientes. 139 140 BIBLIOGRAFIA 141 142 AABY, N. ; SLATER, S. (1989) “Management influences on export performance: a review of the empirical literature 1978-88”. International Marketing Review, Vol. 6, Nº 4, pp. 7-26. ALBAUM, G. ; STRANDSKOV, J. ; DUERR, E. (1998). Internationall Marketing and Export Management. 3. ed. Essex, England: Addison Wesley Longman. ANDERSSON, S. (2000) “The internationalization of the firm from an entrepreneurial perspective”. International Studies of Management and Organization, Vol. 30, pp. 63-94. ANDERSSON, S. ; WICTOR, I. (2003), “Innovative Internationalisation in New firms: Born Globals – the Swedish Case”. Journal of International Entrepreneurship, Vol. 1 Nº3, pp. 249276. 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