A CONSTRUÇÃO DE UM BANCO DE DADOS GEOGRÁFICO E SUAS
APLICAÇÕES PARA O ENSINO DA GEOGRAFIA
Rafael Correia Neves/UERJ/FFP
[email protected]
Nilo da Silva Teixeira/ENCE/IBGE
[email protected]
As recentes inovações tecnológicas atingem todos os aspectos da vida do homem
contemporâneo. As novas possibilidades de comunicação tornam-se cada vez mais
presentes e demandam uma dinâmica de tempo e espaço, por conseguinte mais rápidas.
Neste contexto, a presença e o uso de novas tecnologias (televisão, internet, programas de
software, etc) na escola têm sido apontadas por especialistas no assunto como uma
exigência cada vez mais necessária no processo de ensino e aprendizagem, nesse início de
século, como se refere: “Além de criarem desafios educacionais, científicos e culturais, as
novas tecnologias estão possibilitando o desenvolvimento de um indivíduo diferente
quanto a seus hábitos, percepção, atitudes, gestos e processos mentais, ou seja, uma nova
cultura apoiada nos recursos audiovisuais” (PAZINI, 2004: 4).
O ensino de geografia, frente às mudanças recentes, que em muito tem a ver com a
introdução de novas técnicas, vêm dinamizando os processos de aprender e ensinar
geografia, como também os tornando mais atraentes. No entanto as novas tecnologias
ainda permanecem pouco disseminadas, em uma realidade distante para grande parte da
população, até dos próprios profissionais de ensino.
Este cenário torna-se ainda mais agravante quando observamos que a realidade
vigente na maioria das escolas brasileiras em geral – exceto raras exceções – é
extremamente precária. Além de problemas de baixos salários dos professores, elevado
número de aulas por semana que eles são obrigados a cumprir, também há excesso de
alunos por sala, etc. Vale acrescentar ainda a generalizada falta de equipamentos: ausência
quase total de vídeos, computadores, projetores em geral, mapas, maquetes, laboratórios,
etc. (VESENTINI, 2004).
Reconhece-se a existência de uma grande dificuldade para se associar novas
tecnologias e práticas didáticas no ensino, seja nos níveis básico e médio, englobando-se aí
o ensino da Geografia.
Nesse aspecto, vemos ampliar a defasagem entre o que está ao alcance dos jovens,
em termos tecnológicos, incorporados no seu dia-a-dia, e as práticas presentes na escola,
fato que tem gerado “desmotivação” pelas aulas.
Estas constatações vêm reforçar a necessidade de se empreender esforços no
sentido de disseminar o conhecimento sobre as novas tecnologias para que se possa
ampliar seu uso, o que requer novas estratégias, principalmente quando lidamos com a
introdução destes recursos na educação, nos níveis básico e médio, de forma a levar a um
universo muito amplo o conhecimento destas novas tecnologias, tornando-a de uso mais
corrente, ampliando seu potencial de aplicação.
Acredita-se que escola e o ensino de geografia no contexto atual devem lançar
mãos de instrumentais tecnológicos disponíveis nessa época, a fim de que a escola e o
conteúdo geográfico deixem de ser desinteressantes e tornem o aprender e ensinar mais
prazerosos.
Diante da problemática apresentada, o trabalho tem como objetivo principal
elaborar um banco de dados geográfico do município do Rio de Janeiro/RJ, a partir da
utilização programa ArcView GIS, e da apreensão de dados provenientes da Internet,
gratuitamente. Com o referido banco de dados geográfico foram criados 8 (oito) mapas
temáticos do município do Rio de Janeiro, utilizando a divisão em bairros, com os quais
serão apresentadas as possibilidades que os mapas oferecem na discussão e construção de
conceitos e conteúdos geográficos tanto no ensino básico quanto no médio, tal como a
utilização de mapas como instrumentos de enriquecimento do processo ensinoaprendizagem.
Ao escolher os mapas na divisão em bairros entende-se que estes ofereçam a
condição de abranger não somente o espaço cotidiano (bairro) dos alunos mais a cidade do
Rio de Janeiro, facilitando o entendimento dos conceitos abordados em sala e, por outro
lado, ao elaborar um banco de dados este represente material de apoio que sirva para
aplicação em sala de aula aos futuros professores.
Nesse sentido esse recurso pode ajudar a formação dos educandos na sua
capacidade de utilizar os conhecimentos geográficos para interpretar sua realidade, em
diferentes escalas.
METODOLOGIA
O caminho buscado na elaboração desse estudo foi à criação de um banco de dados
Geográficos que visa armazenar uma série de dados, informações e imagens que possam
contribuir no ensino da geografia nos níveis básico e médio.
Entendemos banco de dados como coloca CRUZ (2000): “(...) uma coleção de
dados inter-relacionados e de procedimentos que permitem o acesso a estes dados, (...)
para viabilizar o armazenamento e a recuperação eficiente do mesmo” (p.94). Tais
informações voltadas para prática educacional dão suporte ao ensino-aprendizagem, na
medida que se adiciona um termo geográfico, ou seja, tal informação ao ser espacializada
torna-se “(...) um qualificativo de dado, fazendo referência a um certo tipo especial de
caracterização geográfica” (CRUZ, op cit, 94).
Para a montagem do banco de dados foi utilizado as matrizes do software ArcView
GIS., onde há mapas do município do Rio de Janeiro configurados territorialmente em uma
divisão por bairros. Tal programa permite inserir e armazenar dados para que assim sejam
construídos mapas temáticos.
Para uma melhor visualização do programa segue abaixo um quadro com as
matrizes e seus respectivos metadados, ou seja, dados sobre os dados:
Quadro 1 – Matrizes do Arc View Giz e seus metadados
Dado
Metadado
Fonte: Grupo de pesquisa “Laboratório de Geografia
Bairros. Shp
Marinha Grupo de Sensoriamento Remoto – Espaço”
UFRJ.
macicos.shp
rio345rg.tif
Elaborado
a
partir
de
uma
imagem
de
satélite
rio345rg.tif.1998
Fonte: Grupo de pesquisa “Laboratório de Geografia
Marinha Grupo de Sensoriamento Remoto – Espaço”
UFRJ. 1998
Inserido no shape fornecido pelo Grupo de pesquisa:
Nome dos bairros
“Laboratório
de
Geografia
Marinha
Grupo
de
Sensoriamento Remoto – Espaço” UFRJ.
Outro
procedimento
metodológico
diz
respeito
à
obtenção
dos
dados
socioeconômicos cuja fonte foi o Instituto Pereira Passos (IPP), a partir dos quais foram
construídos 8 mapas temáticos.
Como resultado final tivemos a elaboração dos seguintes mapas: um mapa de
maciços da Cidade do Rio de Janeiro sobreposto a uma imagem de satélite; um mapa
sintetizando a espacialização de três fixos: cinema, shopping centers e teatros; um mapa
espacializando o número de domicílios com computador em condições de uso; um mapa
referente às taxas de fecundidade; um mapa que diz respeito à espacialização da
mortalidade infantil; um mapa de população absoluta; um mapa de população relativa; e
por fim um mapa de IDH. As possibilidades de uso destes mapas serão discutidas mais
adiante no desenvolvimento.
A escolha dos dados do IPP teve como motivação o fato de ser um dado
disponibilizado via internet e gratuitamente, além de ser um dado que compreende o
recorte por bairros e regiões administrativas. Tal recorte permitirá trabalhar, em sala de
aula, conteúdos e conceitos que estão presentes no bairro, e propriamente no espaço da
cidade.
No presente trabalho associado ao aspecto instrumental de elaboração do banco de
dados foi feita uma pesquisa bibliográfica – livros, revistas, Internet, teses - elencando um
referencial teórico de diferentes áreas que fosse capaz de dar conta da análise em pauta.
Ademais, foi feito também um levantamento de dados e informações em diferentes
fontes, como por exemplo: Instituto Pereira Passos (IPP), Instituto Nacional de Geografia e
Estatística (IBGE), etc que envolvessem o objeto de estudo e dos demais assuntos, além de
serem elaborados quadros e mapas para auxílio do trabalho.
Desenvolvimento
É sabido que durante muito tempo, o ensino de Geografia nos níveis básico e
médio, caracterizou-se por ser um ensino tradicional – fundamentado numa Educação
Tradicional – de uma Geografia Tradicional – ambos embasados no método positivista
analítico dedutivo-indutivo. (STRAFORINI, 2004).
Tal abordagem se caracteriza pela valorização da transmissão de conhecimento, ou
seja, uma preocupação conteudista considerando o aluno como um agente passivo,
cabendo a ele memorizar e decorar um conhecimento selecionado e transmitido pelo
professor em aulas expositivas. Desta forma, essa abordagem entende o conhecimento
como neutro e acabado, despreza por completo o espaço cotidiano do aluno e seus saberes
já adquiridos, pois concebe o educando como uma mera “tabula rasa” a ser preenchida com
dados e informações.
Esta postura educacional tinha uma função ideológica bem definida, ou seja, criar
uma ideologia patriótica e nacionalista, conforme já apontou LACOSTE (1988).
Aproveitando o ensejo, VLACH (1988) ao explicitar a importância da História e Geografia
no contexto da formação do Estado Nacional aponta: “(...) mais importante que o ensino da
língua e das noções aritméticas, era fundamental a imposição de determinados valores. E
aqui entrariam a história (do vencedor, isto é, a apologia cronológica dos heróis nacionais)
e a geografia (do lugar, isto é, o discurso sobre o objeto)” (p.42).
O quadro apresentado começa a mudar quando do aparecimento da geografia crítica
escolar, a partir dos anos 80, que se caracterizava pela influência da teoria marxista. Cabe
ressaltar que tal movimento de mudança aparece, primeiramente, no âmbito da ciência
geográfica para depois ganhar respaldo no ensino de geografia.
Um dos conceitos utilizados por essa corrente e segundo PONTUSCHKA (1999)
proporcionou um grande avanço na disciplina geográfica, foi o conceito de espaço que
segundo CORRÊA (2002) citando Lefebvre é considerado como algo “essencialmente
vinculado com a reprodução das relações sociais de produção” (p.26).
No ensino de Geografia, tal concepção engendrava uma proposta curricular apoiada
no materialismo histórico utilizando largamente os conceitos de modo de produção, meio
de produção, luta de classes, etc.
Sob a luz destes conceitos, se desenvolveria um ensino que favoreceria o
entendimento do real, procurando entender o movimento da sociedade sobre espaço, além
de proporcionar o entendimento, na existência de uma sociedade de classes, das
desigualdades de classes. Nas palavras de VESENTINI (1988) temos uma melhor
elucidação: “(...) o conhecimento a ser alcançado no ensino, na perspectiva de uma
geografia crítica, não se localiza no professor ou na ciência a ser ‘ensinada’ ou vulgarizada,
e sim no real, no meio onde aluno e professor estão situados e é fruto da práxis coletiva dos
grupos sociais. Integrar o educando no meio significa deixá-lo descobrir que pode tornar-se
sujeito da história” (p.37).
Esta nova proposta se caracterizou por uma grande difusão nos estabelecimentos de
ensino do Brasil, sobretudo, a partir dos anos 80. Como a geografia escolar tradicional, a
prática escolar ancorada na abordagem da Geografia Crítica sofreu uma saraivada de
críticas, pois se postulava que esta não contribuiria para uma profunda modificação no
processo ensino-aprendizagem, ou seja, apenas substituiria conteúdos velhos por novos.
Assim, não conseguiria desencadear uma maior aproximação da geografia ensinada com a
geografia vivida pelos educandos, visto que continuava desprezando o espaço cotidiano
destes.
Sendo assim, averigua-se que nenhuma dessas abordagens valorizou o espaço
cotidiano dos alunos. Logo, no presente trabalho defende-se o uso do conceito de lugar a
fim de valorizar o espaço cotidiano dos alunos e que estes visualizem na disciplina
geográfica uma identificação de cidadãos “no e do” mundo.
Nos últimos anos, sob a influência do humanismo na geografia, o conceito de lugar
ganha enorme relevância, uma vez que a Geografia ao retomar algumas características do
humanismo: visão antropocêntrica do saber, posição epistemológica holística, o homem
como produtor de cultura, método voltado para aproximação entre sujeito e objeto, etc
encontrará na categoria do “espaço vivido” uma proposta de humanização da geografia.
Assim, buscou-se no trabalho em tela o conceito de lugar tendo como base a idéia
colocada por TUAN (1983) e que será um dos conceitos norteadores no presente trabalho:
“O que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar à medida que o
conhecemos melhor e o dotamos de valor (...) As idéias de espaço e lugar não podem ser
definidas uma sem a outra. A partir da segurança e estabilidade do lugar estamos cientes da
amplidão e da ameaça do espaço, e vice-versa” (p. 6).
Com tal concepção se pretende valorizar o estudo dos lugares sob o ângulo do
espaço vivido substituindo a noção de um espaço alienador, por um espaço dotado de
valores, de significações materiais e afetivas dando a este espaço sentido por meio do
sentimento de pertencimento, da dinâmica identitária, da experiência estética, etc.
Este espaço dotado de valores e resultado da ação humana, não pode jamais estar
separado de seu contexto, seja ele social ou físico. Logo, é através do curso histórico de
formação da identidade social, dos hábitos, dos costumes e da cultura – o resgate do gênero
de vida - que se pode explicar a configuração espacial.
No presente trabalho, parte-se da premissa que a relação entre o sujeito e o mundo é
de vital importância para a construção de conhecimento, o que acaba por valorizar na
geografia ensinada, o espaço cotidiano do aluno. Um conceito que tem a condição de
contribuir nesta lógica é uma concepção de lugar que pode ser entendido de acordo com
Santos citado em STRAFORINI (2002) como um “objeto de uma razão global e ação
local, convivendo dialeticamente”, sendo assim, “um ponto de encontro de interesses
longínquos e próximos, locais e globais” (p.104).
Com tal atitude, portanto seria desenvolvida uma real valorização do conhecimento
prévio do aluno, não o entendendo, portanto como uma “página em branco” a ser
preenchida. Esta postulação vai ao encontro das colocações de PERRENOUD (2000)
quando diz que apenas listar ou utilizar elementos advindos da realidade do aluno para em
seguida negá-los, o substituindo pelo conhecimento “verdadeiro” da matéria ensinada não
marca uma prática pedagógica nova, já que a educação tradicional faz isto também. O
grande diferencial então, seria entender esta sabedoria dos educandos como algo
fundamental para o processo de ensino-aprendizagem, e não como algo a ser combatido.
Assim sendo, o estudo do lugar nas aulas de geografia é de primordial importância.
O uso dos mapas permitirá aos alunos observar o espaço no qual ele está inserido,
fornecendo-lhe então a oportunidade de associar sua experiência pessoal na observação do
espaço. Ao se valorizar a experiência tem-se um grande diferencial em relação a uma
postura tradicional de fornecer informação ao aluno, ou seja, como coloca BONDÍA
(2002) sobre a experiência sendo “(...) aquilo que ‘nos passa’, ou que nos toca, ou que nos
acontece, e ao nos passar nos forma e transforma. Somente o sujeito da experiência está
portanto, aberto a sua própria transformação” (p.20).
Ao ser dada ao aluno a possibilidade de experimentar, observar e questionar os
dados da realidade, a partir da mediação do professor, aquele terá a possibilidade de
melhor compreender os processos atuantes dentro da sociedade em que vive e servirá de
parâmetro para observação de outros espaços.
Estas representações ajudam a espacializar os fenômenos e nos levou a elaborar um
Banco de Dados que possibilite a construção de mapas que demonstrem uma série de
informações por bairros no município do Rio de Janeiro/RJ. Tal material poderá ser
utilizado nas aulas como apoio aos professores e aos alunos na identificação, localização e
valorização de seus respectivos espaços cotidianos.
No presente trabalho o mapa servirá como um importante instrumento no sentido
que leva a analisar, observar e compreender o espaço vivido, nas suas variadas escalas.
Quando os mapas trabalham com uma escala espacial próxima a do aluno, (ou seja, seu
espaço vivido – bairro e cidade) tal ferramenta reforça a importância do conhecimento
geográfico, mostrando aos alunos o quanto estão inseridos e como podem atuar na referida
realidade apresentada no mapa. Ademais, a escolha do mapa se fez por ser um instrumento
convencional e muito utilizado pelos professores.
A escolha dos temas trabalhados nos mapas teve, principalmente, duas motivações:
facilidade na busca de dados e temas que abarcassem conteúdos presentes no espaço vivido
do aluno e pouco trabalhados na sala de aula, como por exemplo: a espacialização de
alguns fixos - cinemas, teatros, shopping centers; um indicador síntese que trabalhasse
aspectos como saúde, educação e renda, sendo assim foi construído o mapa de IDH; além
de trabalhar com temas tradicionais como população absoluta e relativa, etc.
Deseja-se deixar claro, que estas considerações são apenas a título de sugestões e
não são consideradas as únicas possíveis de serem extraídas do material gerado, pois os
professores e alunos que analisarem as representações cartográficas a seguir poderão
enxergar e assim problematizar outras facetas dos mapas que não foram explicitadas no
presente trabalho.
O mapa 1 – Carta Imagem da Cidade do Rio de Janeiro - se caracteriza por
apresentar uma imagem de satélite, onde se encontra demarcada uma malha com os bairros
e os principais maciços do município. Pensa-se que este mapa auxilie na construção do
conceito de sítio, que é entendido de acordo com CORRÊA (2004) como “o chão sobre o
qual a cidade se estende, podendo ser natural, via de regra alterada pela ação humana, ou
artificialmente produzido” (p.317). Sendo assim, pode contribuir nas aulas acerca do
relevo, pois trabalha com maciços que estão no espaço cotidiano dos alunos e professores,
além de poder ajudar a entender os nexos entre estes aspectos da natureza e a configuração
da área urbana, pois como observa CHRISTOFOLETTI (2001) é de grande importância à
observação do sítio para o entendimento de alguns aspectos das zonas urbanizadas.
Mapa 1: Carta Imagem da Cidade do Rio de Janeiro
Fonte: Grupo de Pesquisa - “Laboratório de Geografia Marinha Grupo de Sensoriamento Remoto –
Espaço” UFRJ.
O mapa 2 – Distribuição Espacial dos Shoppings Centers, Salas de Cinema e Teatro
na Cidade do Rio de Janeiro - trata da construção da idéia junto aos alunos de que os fixos,
que são entendidos como “objetos técnicos” (SANTOS, 1988), encontram-se mal
distribuídos pelo espaço urbano.
Mapa 2: Distribuição Espacial dos Shoppings Centers, Salas de Cinema e Teatro na Cidade
do Rio de Janeiro – 2006
Fonte: Instituto Pereira Passos.
Neste mapa pode-se construir uma análise desvendando a lógica espacial de
distribuição dos shoppings centers, dos cinemas e dos teatros. Neste contexto pode-se
discutir com os educandos o advento da grande difusão dos shoppings, que diz respeito a
uma nova descentralização das atividades terciárias intensificada principalmente a partir da
década de 80, além de construir como o consumo propiciado por estes fixos se adequou à
concepção de entender cada vez mais a cidade como sinônimo de medo, e não como
espaço de encontro, pois estes são considerados espaços de segurança ou mesmo locais que
contribuem para a exclusão.
Como chama atenção SOUZA (2003): “Diferentemente dos subcentros tradicionais,
o shopping center não é aberto, mas é, isso sim, um espaço (...) nitidamente separado do
ambiente externo e onde a preocupação com a segurança é uma constante” (p.65).
Sendo assim, constituíram-se em elementos da auto-segregação nos bairros
abastados, a exemplo da Barra da Tijuca (SOUZA, 2000), bairro que possui o maior
número de shopings da cidade, uma vez que a população que aí reside apresenta maior
nível de renda.
Já na análise dos cinemas percebe-se que estes encontram em sua maioria ligados
aos shoppings centers, situação que reflete um abandono das suas antigas localizações que
eram nas ruas da cidade. Se antes os cinemas distribuíam-se de acordo com a lógica dos
subcentros regionais tradicionais, como por exemplo: o bairro de Madureira que possuía
um expressivo número de salas de cinema no espaço das ruas, hoje se observa que a
localização vai ao encontro com a lógica dos shoppings centers.
No que concerne à distribuição espacial dos teatros no município do Rio de Janeiro
percebe-se uma concentração na zona sul da cidade (área abastada) e no centro. Não se
constata uma relação tão marcante destes com os shopings centers, como no caso dos
cinemas por exemplo. Para desvendar este fato pode-se discutir com os educandos a
diferenciação entre os fixos públicos e privados. O primeiro tem o objetivo de atender um
provimento social e instala-se segundo estes mesmos princípios, enquanto que os fixos
privados se localizam de acordo com a lei da oferta e da procura.
Tais conceitos seriam interessantes para esta explicação, pois se observa que os
cinemas são de propriedade privada – fixo privado, ou seja, estes estariam mais dispostos a
buscar uma localização que seria mais interessante para a atração de clientes, estando
assim mais propicio a realizar a mobilidade.
Quanto aos teatros sua localização não apresenta a mesma lógica, pois existe uma
grande quantidade destes fixos que são públicos, portanto estariam menos propensos a se
deslocar pelo espaço urbano, pois a localização em uma área central é importante quando
se deseja atender uma maior quantidade de pessoas, já que esta se configura como uma
concentradora de nós das redes de transporte, setor financeiro, comércio, ou seja, a área
central na esteira do seu processo de formação configurou-se como “foco de transportes
intra-urbanos. É o ponto de convergência do tráfego urbano e, em muitos casos, o ponto de
baldeação para bairros situados ao longo de diferentes direções” (CORRÊA, 2003:42). O
Centro do Rio de Janeiro conta com 33 salas de Teatro, sendo na sua maioria públicos.
Uma outra leitura acerca da localização do Teatro pode ser inferida, trabalhando-se
com exemplo da cidade do Rio de Janeiro, sabendo que historicamente foi direcionado a
um consumo de elite, logo, não raro, um grande número deste fixo pode ser encontrado em
bairros abastados da Zona Sul, como por exemplo: o bairro de Copacabana com 14 salas,
Gávea e Barra da Tijuca com 8 salas cada um.
Ao analisarmos o mapa 3 – Percentual de Pessoas que habitam domicílios com
computadores na Cidade do Rio de Janeiro - temos um rico material de trabalho: o
computador, um bem material que tanto pode funcionar como um importante indicador de
renda, como um meio de inserção nas mais diferentes redes imateriais, sejam elas
informacionais, financeiras, etc.
Mapa 3: Percentual de Pessoas que Habitam Domicílios com Computadores na Cidade do
Rio de Janeiro – 2000
Fonte: Instituto Pereira Passos.
Tal mapa pode ser muito útil para deflagrar a discussão do papel dual das redes,
pois a rede “faz e desfaz as prisões do território: tanto libera como aprisiona. É porque ela
é instrumento, por excelência do poder” (RAFFESTIN, 1993:185), e sendo assim estas
integram e excluem simultaneamente, pois as pessoas estão inseridas em mais de uma rede,
e ao mesmo tempo, excluídos em um número ainda maior de redes (CORRÊA, 2001).
Assim permite flagrar a desigualdade social e espacial, pois “(...) as redes geográficas são,
como qualquer materialidade social, produtos e condições sociais” (CORRÊA, 2001:119).
Outro aspecto que chama atenção diz respeito ao papel da informação no período
técnico-científico-informacional, como bem salienta SANTOS (2000): “As técnicas da
informação são principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus
objetivos (...) aprofundando assim os processos de criação de desigualdades” (p.31).
No mapa 4 – Variação Espacial da Taxa de Fecundidade na Cidade do Rio de
Janeiro - observa-se a distribuição do índice de fecundidade que tem como atribuição aferir
o tamanho médio das famílias brasileiras, e assim obter a taxa de crescimento
populacional. Segundo o IBGE (2001), a família brasileira, em geral, vem no decorrer das
últimas décadas diminuindo seu número de membros. Este fato deve-se em parte pela
mudança do papel da mulher na família, já que paulatinamente nos últimos anos, o
ingresso da força de trabalho feminina no mercado, assumiu fatia importante dos postos de
trabalho formais e ainda a mudança dos valores culturais do brasileiro também exerceram
influência para a diminuição deste índice.
Mapa 4: Variação Espacial da Taxa de Fecundidade na Cidade do Rio de Janeiro - 2000
Fonte: Instituto Pereira Passos.
No mapa 5 – Variação Espacial da Taxa de Mortalidade Infantil – pode-se discutir
com os alunos como esta é fundamental na avaliação da qualidade de vida da população,
visto que a variável saúde é um dos parâmetros utilizados nessa avaliação, pois as
condições de infra-estrutura oferecidas pela rede de saúde influem diretamente na
mortalidade infantil. Segundo KOZU (2005), a mortalidade infantil é considerada um dos
fatores mais sensíveis desse indicador.
Mapa 5: Variação Espacial da Taxa de Mortalidade Infantil na Cidade do Rio de Janeiro –
2000
Fonte: Instituto Pereira Passos.
Ao analisarmos os mapas 6 e 7 percebemos que estes se encontram mapeando a
população absoluta e a população relativa, respectivamente. Ao trabalhar os dois mapas
torna-se mais fácil para o aluno perceber a diferença entre os dois conceitos, pois enquanto
que o mapa de população absoluta mostra os bairros mais populosos de uma determinada
área o mapa de população relativa traduz a população por área, ou seja, se num primeiro
caso bairros com uma extensão de área maior possuíam altos índices de população
absoluta, no mapa de população relativa os índices geralmente são baixos, um exemplo é a
maioria dos bairros da zona oeste da cidade, que possuem uma população absoluta elevada,
mas uma população relativa baixa. Tal constatação no mapa por bairros pode ser de grande
utilidade para auxiliar na construção dos conceitos, uma vez que os alunos conhecendo os
bairros mapeados podem tentar levantar hipóteses que expliquem este quadro,
possibilitando o trabalho de observação da paisagem urbana, pois estes podem constatar
que áreas com maior presença de prédios e ocupação mais adensada possuem uma
população relativa maior, já os outros bairros, como maior presença de moradias
unifamiliares e de ocupação menos adensada.
Mapa 6: População Absoluta da Cidade do Rio de Janeiro - 2000
Fonte: Instituto Pereira Passos.
Mapa 7: População Relativa da Cidade do Rio de Janeiro – 2000
Fonte: Instituto Pereira Passos.
O mapa 8 espacializa os dados de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que
por ser uma mensuração síntese de vários índices (já que abarca variáveis de longevidade,
educação e renda) pode ser utilizado para pelo menos demarcar um quadro da desigualdade
sócio-espacial da cidade. Com tal configuração podemos tentar construir a idéia de que o
espaço urbano é desigual devido a sua configuração ser moldada dentro de um modo de
produção capitalista que gera desigualdades, neste sentido MARIA SPOSITO (2001)
coloca: “Estamos falando do espaço como concretização-materialização do modo de
produção determinante, no caso o capitalista, e a cidade como uma manifestação desta
concretização” (p.64).
Mapa 8: Variação Espacial do Índice de Desenvolvimento Humano na Cidade do Rio de
Janeiro - 2000
Fonte: Instituto Pereira Passos.
Conclusão
Desde o início de sua elaboração, a idéia principal era a montagem de um banco de
dados utilizando o software Arc View Gis, e que este, possibilitasse o uso de mapas na
educação. Neste sentido, o uso de novas tecnologias se fez necessário a fim de ampliar as
opções de se pensar e trabalhar o espaço geográfico voltado para ensino.
Para trabalhar os mapas construídos optou-se pelo uso do conceito de lugar, pois se
acredita que tal conceito leva o aluno, quando estimulado pelo professor, à apreensão e à
compreensão dos principais aspectos da vida social e à construção de conceitos da
Geografia. Neste sentido foram construídos 8 mapas que abrangessem os bairros da cidade
do Rio de Janeiro ressaltando a importância do espaço cotidiano dos educandos.
No que diz respeito ao uso de novas tecnologias acredita-se que estas contribuam
para ampliar o potencial educativo de alunos e professores, mas suas possibilidades e
limitações precisam ser evidenciadas para que não se refutasse aqui uma posição de que
apenas a presença deste material possua força suficiente para implementar esta forma de
ensinar. A tecnologia sem conteúdos e conceitos geográficos não tem sentido algum.
Dessa forma, ao longo do trabalho pretendeu-se articular as novas tecnologias, o
conceito de lugar e os mapas no contexto da sala de aula, como instrumentos do dia-a-dia
do ensino de Geografia, a fim de que estes possibilitassem meios de resgatar o grande valor
desta disciplina para a formação do cidadão reflexivo, consciente de seu papel e por isto
muito mais atuante dentro da nossa sociedade atual.
Baseado nesta convicção se acredita que o presente trabalho possa contribuir à
iniciação de outros bancos de dados, com outros indicadores, outras linguagens a serem
utilizados em sala de aula de Geografia. E que esta e outras ferramentas possibilitem o
aluno a construir seu conhecimento, a ser sujeito ativo no processo ensino-aprendizagem e
possa compreender seu espaço de vivência, o lugar e, a partir dele, organizar suas ações no
espaço geográfico da cidade do Rio de Janeiro.
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A CONSTRUÇÃO DE UM BANCO DE DADOS GEOGRÁFICO E