Memorial do Rio Grande do Sul Caderno de História, nº 23 Voltaire Schilling O PENSAMENTO DE CONTE Governo do Estado do RS – Germano Rigotto Secretaria de Estado da Cultura – Victor Hugo Alves da Silva Memorial do RS – Voltaire Schilling Auguste Comte e o Positivismo (1798- 1857) Introdução “A idéia do positivismo brotou aqui e ali. Chispas isoladas de luz, perdidas na densa neblina da noite medieval, alçam-se e se unem até formar um foco que é um completo sistema de idéias. O espírito positivo de Comte é um produto genuino do ambiente cientifico que despertou sua inteligência.” Justo Prieto “ La vida indômita de Augusto Comte” O ano de 2007 assinala a passagem dos 150 anos da morte de Auguste Comte, ocorrida em 5 de setembro de 1857. Filósofo, matemático, foi um dos mais famosos reformadores sociais da Europa do século XIX, sua doutrina positivista exerceu enorme influência nos destinos de algumas nações latino-americanas, especialmente o Brasil, cuja bandeira até hoje sustenta um dos seus lemas favoritos: “Ordem e Progresso”. Especialmente no Rio Grande do Sul, o positivismo lançou raízes profundas na vida política, no urbanismo, na arquitetura, na escultura e demais artes, fazendo com que sua herança até hoje se faça presente na vida dos cidadãos e cidadãs sul rio-grandenses. O Positivismo foi uma das primeiras doutrinas filosóficas do século 19 e uma das mais influentes do seu tempo. As suas raízes deitam no empirismo do filósofo inglês David Hume (morto em 1776) que inculcou nos seus seguidores uma poderosa vocação em procurar entender as coisas do mundo com olhos científicos, afastando-se de tudo o que não fosse exato, factual, comprovável. Tornou-se o positivismo a expressão renovada do agnosticismo (indiferença à existência de Deus) e do ateísmo, características assumidas por cientistas, engenheiros e técnicos em geral, cuja importância social e cultural aumentou consideravelmente, na Inglaterra, na França e na Alemanha, com a implantação das indústrias e das descobertas científicas. Por outro lado, é bem provável que o positivismo não tivesse a irradiação que teve se não fosse o diligente e abnegado trabalho de um pensador francês: Auguste Comte. Tanto é assim que seu nome praticamente tornou-se sinônimo de positivismo. A maior parte das idéias de Comte - nascido em 19 de janeiro de 1798, em Montpellier, na França -, vieram à luz durante a Restauração, período histórico politicamente conservador e reacionário, compreendido entre os anos de 1815 a 1848 (do Congresso de Viena até as revoluções de 1848), quando os princípios liberais e democráticos da Revolução Francesa entraram em refluxo, sofrendo perseguições por parte dos conservadores e dos contra-revolucionários. Esses se agrupavam ao redor da Santa Aliança, uma coligação realista-reacionaria que procurou deter o avanço das liberdades. Chamavam-se de legitimistas, porque defendiam o principio que somente seriam legais e legítimos na Europa os governos que estivessem em mãos das dinastias tradicionais, comprometendo-se se socorrerem mutuamente se qualquer uma delas fosse ameaçada por uma revolução. Queriam a volta do Antigo Regime. Comte, no entanto, entendeu que não era mais possível restaurar as estruturas do passado. Inspirado, num primeiro momento por Saint-Simon, seu mestre, um dos mentores do socialismo utópico, para quem trabalhou como secretário de 1819 a 1824, Comte vislumbrou o surgimento de uma nova era, de uma Nova Ordem que superaria tanto o liberalismo-democrático como o reacionarismo: a Era Científica ou Positiva. Desde então empenhou-se (mesmo passando por terríveis dificuldades materiais depois que deixou a Escola Politécnica de Paris, onde exerceu o magistério e, depois, em caráter privado), na difusão e propaganda da sua doutrina apelando para os cursos privados. O projeto inicial abarcou 72 cursos, proferidos primeiro em 1826, e retomados em 1829, tratando da Política Positiva e da Física Social.. A derrubada da velha ordem aristocrática e feudal, o declínio do poder da Igreja Católica, o avanço da indústria e da técnica, o crescimento cientifico em geral, a fé otimista no Progresso, os impasses entre o Liberalismo e o Absolutismo, a Democracia e a Contra-Revolução, e uma busca de segurança e estabilidade num período pós-revolucionário, formaram o pano de fundo do comtisno. Uma visão histórica “..as leis do desenvolvimento do saber humano têm um caráter histórico por excelência . O saber está submetido a regularidades que o sociólogo e o historiador são capazes de estudar, demonstrando ao mesmo tempo em que as fases anteriores do desenvolvimento humano, já ultrapassadas, não eram simplesmente erros, senão que possuíam ...sua razão histórica...” Leszek Kolakowski - La filosofia positivista Para Comte o pensamento, ao longo da História, passava por ciclos onde um período orgânico (a junção do espiritual com o temporal) alternava-se com um período critico. O crítico questionava o orgânico, levando-o ao desgaste e a sua necessária substituição. Desta forma o período orgânico medieval, dominado pelo Cristianismo (subdividido no poder espiritual do Papa e no poder temporal dos reis), chamado de Teológico-feudal, foi corroído no século 18 pelos “demolidores incompletos”, os pensadores iluministas (particularmente por Voltaire e J.J.Rousseau). O problema, segundo ele, é que o pensamento crítico mostrava-se estéril. Era eficiente em destruir e cindir, mas incapaz de construir. O resultado é que o declínio do período orgânico conduz à instabilidade e à revolução. É preciso, pois restaurar um novo princípio orgânico necessário à estabilidade e ao bom funcionamento de qualquer sociedade. A humanidade detesta a desordem. O primeiro ensaio de Comte têm exatamente essa preocupação. Intitulou-o de “Reorganizar a sociedade” (Plan des Travaux Scientifiques nécessaires pour organiser la société, 1822). Enganavam-se, no entanto, os que imaginavam fazer os ponteiros do relógio da História voltar atrás. Só os “retrógrados”, os reacionários que não reconheciam que o seu momento já passou, é que pensam assim. Comte também não confiava no povo, nem nos Democratas. Para ele o “deplorável exercício do sufrágio universal” viciava “a razão popular”. A construção do futuro exigia gente preparada, especializada e qualificada, para inaugurar o novo período orgânico dominado pelo Estado Positivo. Entre o Conservadorismo e o Liberalismo-democrático propôs uma terceira via. A Lei dos três estados Influenciado por Condorcet (Quadro histórico do progresso humano, 1794) que dividira a evolução da História em nove períodos, afirmando que a Humanidade progredia sempre para etapas melhores e superiores em direção ao aperfeiçoamento ilimitado dos homens, Comte elaborou a chamada doutrina ou lei dos três estágios ou estados, segundo a qual passamos, nos tempos antigos, pelo estado teológico, depois, na idade moderna, pelo metafísico e , no presente, rumamos para o estado positivo ou científico, . “o primeiro é provisório, o segundo transitório e o terceiro definitivo.” Cada um desses estágios era modelado por um conjunto de concepções, valores , opiniões e “mentalidades”, próprios, distintos uns dos outros. Síntese Período Antigüidade e Medievo Moderno Contemporânea Estado Características Explica os fenômenos naturais recorrendo a imaginárias divindades, a entidades mágicas, aos deuses e seres extraterrenos. Neste estágio a mente inventa. Subdivide-se em Teológico fetichismo, politeísmo e monoteísmo. É uma época escravista e servil na qual ocorre uma confusão entre o poder espiritual e o temporal, havendo numa etapa teocrática (Egito) e outra mítica (greco-romana). Seu regime político equivalente é a Monarquia. Período bastardo, meramente intermediário, provisório. Recorre e vive de abstrações. Época de revoluções e desordens onde se desenvolve uma “filosofia negativa” que, com sua crítica, acelera Metafísico a decomposição da teologia monoteísta, mas mostra-se incapaz de construir uma outra, orgânica. Impera a doutrina da soberania popular, da livre expressão e da igualdade social que Comte considera “viciosas”. Procura a reorganização da vida social para retirar a humanidade da anarquia e da crise, em direção a uma nova fase de hegemonia científica, completando a unidade entre o temporal e o espiritual, da mesma forma que o Cristianismo fez na I. Média. É o momento em que a fé monoteísta é substituída pela síntese humana. A realidade é captada mediante as verdades positivas da Positivo ciência. É preciso adaptar todas as instituições ao futuro do predomínio científico. Para tal deverá impor-se um sistema de educação universal e aperfeiçoar-se um código ético. O governo será composto por sábios apoiados nas leis precisas extraídas das ciências naturais e que defenderão, com o recurso da república positivista, as classes humildes. Comte afastou-se do materialismo do século 18 por acreditá-lo “vazio de espírito”, alinhando-se entre os de concepção idealista: são as opiniões que governam o mundo, ou, como disse “a totalidade do mecanismo social se baseia, em última instância, nas opiniões.”. Portanto a História nada mais é do que a historia das opiniões (modernamente diríamos da ideologia ou da visão de mundo). Se, por exemplo, aceitamos uma concepção teológica das coisas é em razão acreditarmos ser o mundo uma criação dos deuses ou de um ser extraterreno qualquer, e, ao contrário, se adotamos a cientifica, o veremos exclusivamente sob o prisma positivista. A Evolução do Saber Para Comte a evolução do saber não era harmônica, mas desigual. Na Idade Contemporânea as ciências exatas e naturais, tais como a Biologia, a Física e a Química, tomaram a dianteira, chegando antes de todas as demais ciências ao estado positivo. Quem se atrasara nesta corrida rumo a era cientifica era o conhecimento dos fenômenos sociais, ainda dominado pela teologia ou pela metafísica. Logo, ainda estavam num estagio nãocientífico, pertencendo ainda a esfera do metafísico. Por conseguinte, para superar esse atraso, as leis das ciências naturais deviam ser urgentemente aplicadas ao entendimento da sociedade. Ela, a sociedade, tal um objeto ou um ser qualquer (uma planta ou um mineral), deveria ser submetida ao estudo científico. Se existiam leis da Física, da Química, da Biologia, porque não aceitar a existência de leis sociais? Essa nova ciência da sociedade, ainda em formação, era a Sociologia (palavra mencionada pela 1ª vez no Curso nº 47). Ela, a sociologia, ocuparia no futuro o lugar mais importante na hierarquia do conhecimento porque tratava do que era Humano. Qual seria, entretanto, o campo da Sociologia e qual sua utilidade? Dedicaria-se essa ciência a estudar o comportamento e o relacionamento social, analisando seus fatores estáticos e dinâmicos, conceitos que ele extraiu da Mecânica, afim de que possam ser inteligíveis e antevistos. A sociologia para Comte seria tão precisa como a Astronomia ou a Química, permitindo aos governantes futuros um alto grau de previsão nas decisões a serem tomadas ou consideradas. Ciências Sociologia Leis naturais Leis sociais exatidão, certeza previsão Como ocorre a mudança numa sociedade? Quais os fatores que a determinam? Segundo Comte ela, a transformação, devia-se a três elementos: dois estáticos, de modificação pouco perceptível (a raça e o clima), e o outro dinâmico (a ação política consciente). Um deles - o estático - caracterizava os setores estáveis da sociedade, de lenta alteração, que na política se projetavam no desejo de Ordem. O outro, o dinâmico, entendeu como o impulso natural dos homens em direção ao Progresso. Comte harmonizou-as, a estática e a dinâmica, no lema Ordem e Progresso que, como sabe, foi incorporado à bandeira do Brasil republicano. A Humanidade avançaria para o progresso dentro da ordem, sem revolução ou bruscas rupturas, longe dos tumultos, numa espécie de evolucionismo conservador (bem ao gosto da burguesia francesa pós- revolucionária, otimista e confiante no sucesso do desempenho técnico e industrial da sua época). Uma “reorganização coletiva sem Deus e sem Rei, sob a preponderância exclusiva do sentimento social, assistido pela razão positiva e da ação.”. Se a transformação social deve-se à ação política consciente, o movimento positivista tem como tarefa fundamental esclarecer as mentes ilustradas para com sua obrigação de fazer emergir o mais rápido possível a Era Científica. Dai Comte reservar a cada seu seguidor a função de apóstolo, de divulgador das suas idéias, todos eles “dedicados ao sacerdócio da humanidade”. Formou-se ao seu redor, a partir de então, uma pequena seita de excêntricos discípulos que passaram a cultuá-lo como uma espécie de messias dos tempos científicos: um Cristo da era da ciência! O Governo dos Sábios “Assim é aos sábios que compete empreender a primeira série de trabalhos, e aos industriais mais importantes organizar, nas bases que ficarem assim delineadas, o sistema administrativo... [eles] devem ser um dia colocados na supremacia, ou na soberania; só eles podem construí-lo.” Auguste Comte - Reorganizar a Sociedade A polêmica sobre se o governo deve ser exercido pelo povo ou só por especialistas é antiqüíssima. Platão, o filósofo clássico, defendeu nos “Diálogos”, especialmente no “A República” (Politeia), escrito no século 4 a.C., que o estado é para os que demonstram capacidade de governá-lo, para os dotados de techné. Na sua sociedade perfeita, na utopia platônica, quem governava era um rei-filósofo ou um filósofo-rei, que graças aos seus atributos - racionalidade e sabedoria - , exerceria o poder de forma justa. e equânime. Comte retoma essa idéia, não a concentrando, porém, numa só pessoa, num chefe ilustrado ou num déspota esclarecido. Na sociocracia futura o poder seria amplamente compartilhado pelos sábios, isto é, pelos cientistas, os engenheiros, os naturalistas, os fisiólogos, que, nessa tarefa, associaríam-se aos que dominavam a tecnologia: os industriais. Essa a aliança, entre o cérebro e o empreendimento, entre a teoria e a prática, entre o laboratório e a fábrica, dominará o futuro e garantirá o Progresso. Comte foi, pois, um dos mais recentes precursores da Tecnocracia É pensando nessa elite que ele ministrou, com a presença de Alexander von Humbold e Hipolite Carnot, entre tantos outros, seu célebre Curso de Filosofia Positiva (Cours de Philosophie Positive, publicado entre 1830-1842), mobilizando os sábios para as tarefas de difusão da mensagem positivista. Como, para assistir sua segunda etapa de cursos, aumentou a audiência de trabalhadores, Comte imaginou mais tarde um lugar mais amplo para eles na sociedade do futuro (isso é que explica o porquê dos positivistas defenderem políticas de integração social). Pode-se dizer que a tese de entregar-se a liderança política e ideológica da sociedade a uma minoria de sábios, decorre, em sua inspiração mais próxima, do “Conselho de Newton” defendido uns anos antes por Saint-Simon (in Lettres d’un habitant de Gènève a ses contemporains, 1802/3), para quem, a partir de subscrições feitas na tumba de Newton , o grande gênio da física, formar-se-iam os 21 “eleitos da humanidade” (12 sábios e 9 literatos e artistas) com a função, ao multiplicarem-se em subconselhos regionais hierarquizados, de alardear a superioridade do conhecimento cientifico sobre todo o resto. Parece-me que esta idéia de selecionar alguns dotados como agentes difusores do positivismo é que estava por detrás da organização da Sociedade Positivista de Paris, fundada por Comte em 1848. Comte no plano politico-ideológico criticou não só “os retrógrados”, mas também o Liberalismo por sua ênfase no “abjeto individualismo” que impedia de estabelecer-se uma sociedade autenticamente solidária, conduzindo os homens ao egoísmo e à competição desenfreada (resultado do capitalismo laissez-faire). Condenou em seguida o principio da divisão dos poderes (executivo, legislativo e judiciário) porque se opunha ao restabelecimento da nova doutrina orgânica, defendida por ele. Ao ambicionar recompor o espiritual com o temporal, o científico com o ético, era inevitável que isso conduzia a uma reconcentração dos poderes, o que implicava em submissão dos demais ao Executivo. Incompatibilizou-se também com a Democracia. Mesmo pregando a integração do proletariado na ordem socio-política positiva, nunca simpatizou com a adoção do voto universal, adotado depois da Revolução de 1848. Advogou isto sim a Sociocracia, a ser implantada pela Ditadura Positivista, que, de cima para baixo, aceleraria a chegada do Progresso. Era preciso, para tanto, afastar as antigas classes dirigentes, os nobres e os padres (que Saint-Simon chamara de “parasitas”), e convocar, para dela participar, o proletariado e as mulheres, que atuariam como uma força auxiliar dos sábios e dos industriais. Na Ciência Política a presença de Comte se fez notar, mais tarde, inspirando as teorias autoritárias e antidemocráticas de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca, para quem eleições ou partidos políticos não faziam a menor diferença, pois o governo sempre terminava nas mãos de uma elite. O primeiro, Pareto, no seu Tratado de sociologia geral (Trattato di Sociologia Generale, 1916), defendeu a tese da circulação e do confronto entre as elites. As velhas classes dirigentes, as raposas (il luppi), resistiam às novas, os leões (il leoni) , sedentos de poder. Os fascistas na Itália nele se inspiraram para assaltar o poder na sua célebre Marcha sobre Roma, liderada por B. Mussolini, em 1922. Mosca por sua vez, no seu Elementos de Ciência Política (Elementi di scienza politica, 1896) desenvolveu o conceito da existência de uma “classe política”, independente e pairando sobre o resto da sociedade, que em breve, não seria mais formada pela aristocracia econômica como desejavam os liberais, mas sim recrutada na corporação científica e intelectual. A divisão do positivismo “...a positividade, restrita até então ao terreno profano, [ cumpria que] se apoderasse também do domínio sagrado, que parecia pertencer exclusivamente às teorias decaidas.” Auguste Comte - Apelo aos Conservadores A pregação de Auguste Comte atravessou dois momentos distintos. No primeiro, iniciado em 1822 com a publicação do “Reorganizar” e encerrado com a edição do seu Curso de Filosofia Positivista, em 1842, militou ele como um apologista da ciência, repudiando a metafísica e a teologia. Chegou a considerar o Catolicismo como “uma impressionante ruína histórica”. Desde que sofrera uma crise psico-depressiva, que o levou a um breve internamento na clínica do Dr. Esquirol, ele mudara. Inaugurando uma outra fase de militância intelectual, a derradeira. É quando resolve instituir uma religião: o Apostolado da Humanidade, exposto no seu Sistema de Política Positiva (Système de politique positive, 1851-4). Neste, o culto a Deus foi substituído pela reverência ao Grande-Ser, a deificação da Humanidade. Émile Littré Acredita-se que essa reviravolta acentuou-se a partir do trauma provocado pela perda de sua amada, a escritora Clotilde de Vaux. Falecida precocemente em 1846, a “discípula angelical”, transformou-se em objeto de adoração, numa “santa positivista”. Dedicou-se então a criar novos ídolos, fetiches, sacerdotes e até um catecismo (Catecisme positiviste, 1852), com direito a templo, cuja avenida seria voltada para Paris, e tudo mais concernente ao cerimonial religioso. O Catolicismo, que ele acreditava superado, acabou inspirando-o. Criou até um delirante Calendário - o Quadro Concreto para a Reparação Humana - para se opor ao tradicional. A recaída dele no misticismo, “numa religião sem Deus”, não foi bem aceita entre seus inúmeros seguidores, fazendo com que após a sua morte, ocorrida em 5 de setembro de 1857, acentuasse a divisão entre eles. A Sociedade Positivista, fundada por Comte em Paris, em 1848, cindiu-se entre ortodoxos e heterodoxos. Talvez essa surpreendente conversão de Comte a um culto religioso, que muitos interpretaram como resultado progressivo de loucura, tenha contribuído para o esquecimento e indiferença com que a inteligência francesa, de tradição cartesiana, o tratou-o, tanto nos seus anos finais como depois da sua morte. Ortodoxos Heterodoxos Acompanharam Comte na sua fase religiosa, continuando na pregação: seu representante foi P. Laffite, sacerdote máximo da religião universal Consideraram a fase religiosa de do mestre como um retrocesso preservando-lhe a faceta cientifica; Émile Littré foi seu expoente Na sua tumba no Cemitério de Père Lachaise, onde o sepultaram em 8 de setembro de 1857, fixou-se uma placa de mármore com o seguinte lema: “O Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por fim” (L’Amour pour principe, l’Ordre pour base, le Progrès pour but”). A dinâmica histórica-politica A crise da sociedade teológica-feudal (entre 1400 - 1800) Doutrina Retrógrada (reacionários) Doutrina Crítica (democratas) Reis desejam restaurar a antiga sociedade conflituam-se são reacionários limitam-se e anulam-se Povos tendem a criticar a antiga sociedade são radicais Impasse entre Restauração e Revolução Solução: a Sociocracia Aos reis se garantirá a não dissolução da sociedade Aos povos se fará com que adiram para voto Adoção de uma nova Doutrina Orgânica: Doutrina Positivista (elaborada para sábios e industriais) Tecnocracia (encarregada de revogar a antiga ordem e de estabelecer uma nova, regular e estável) Calendário Positivista (*) (Quadro Concreto da Reparação Humana) Mês 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 Figura Moisés Homero Aristóteles Arquimedes César S.Paulo Carlos Magno Dante Gutemberg Shakespeare Descartes Frederico Bichart Celebração teocracia inicial poesia antiga filosofia antiga ciência antiga civilização militar catolicismo civilização feudal moderna epopéia industria moderna drama moderno filosofia moderna política moderna ciência moderna Fonte: O Catecismo Positivista de Auguste Comte, Paris, 1852. (*) cada mês tem 28 dias; haveria um dia complementar: a festa universal dos mortos dia bissexto: festa geral das Santas Mulheres(homenagem a Clotilde de Vaux) dia adicional dos anos bissextos: “festa dos reprovados”: rejeição solene dos dois retrógrados, Juliano e Napoleão. Bibliografia Arnaud, Pierre - Le “Nouveau Dieu”, prèliminares à la Politique positive. Librarie de Philosophie J. Vrin, Paris, 1973. Bury, John - La idea del progreso Alianza Editorial, Madri, 1971. Comte, Auguste - Reorganizar a Sociedade. Guimarães Editores, Lisboa, 1977. Comte, Auguste - O Catecismo Positivista. Templo da Humanidade, Rio de Janeiro, 1934. Comte, Auguste - Apelo aos Conservadores. Templo da Humanidade, Rio de Janeiro, 1899. Geymonat. Ludovico - Historia de la Filosofia y de la Ciencia Editorial Critica, Barcelona, 1985, vol. 3. Kolakowski, Leszek - La filosofia positivista Ediciones Catedra, Madri, 1988. Lins, Ivan - História do Positivismo no Brasil, Editora Nacional, São Paulo, 1967, 2ª ed. Prieto, Justo - La vida indómita de Augusto Comte, Editorial Ayacucho, Buenos Aires, 1944