UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS - GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO NICÉA DE SOUZA MARTINS VIVENDO PROCESSOS DE DIFERENCIAÇÃO NO COTIDIANO DE UMA EMEF NO ENSINO NOTURNO: PISTAS PARA AMPLIAR AS DISCUSSÕES SOBRE O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” Vitória 2008 NICÉA DE SOUZA MARTINS VIVENDO PROCESSOS DE DIFERENCIAÇÃO NO COTIDIANO DE UMA EMEF NO ENSINO NOTURNO: PISTAS PARA AMPLIAR AS DISCUSSÕES SOBRE O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Programa de Pós – Graduação do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Educação, na linha de Pesquisa Cultura, Currículo e Formação de Educadores. Professor Orientador: Dr. Carlos Eduardo Ferraço. Vitória 2008 NICÉA DE SOUZA MARTINS VIVENDO PROCESSOS DE DIFERENCIAÇÃO NO COTIDIANO DE UMA EMEF NO ENSINO NOTURNO: PISTAS PARA AMPLIAR AS DISCUSSÕES SOBRE O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Programa de Pós - Graduação do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Educação, na linha de Pesquisa Cultura, Currículo e Formação de Educadores. Aprovada em_____de________ de 2008. COMISSÃO EXAMINADORA Professor Doutor Carlos Eduardo Ferraço Universidade Federal do Espírito Santo Orientador Professora Doutora Janete Magalhães Carvalho Universidade Federal do Espírito Santo Professora Doutora Regina Helena Silva Simões Universidade Federal do Espírito Santo Professora Carmen Lúcia Vidal Perez Universidade Federal Fluminense A VERDADE A porta da verdade estava aberta, Mas só deixava passar Meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, Porque a meia pessoa que entrava Só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade Voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso Onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades Diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme Seu capricho, sua ilusão, sua miopia. Carlos Drummond de Andrade AGRADECIMENTOS Ao meu Deus. À minha família. Ao meu orientador professor Dr. Carlos Eduardo Ferraço. Aos professores do noturno da EMEF onde realizei a pesquisa. Às amigas Kelen e Kátia companheiras de todas as horas durante o mestrado. RESUMO O trabalho problematiza os movimentos dos professores em suas buscas e tentativas de realizarem o “currículo em movimento” – uma proposta da Secretaria Municipal de Educação de Vitória na implantação da modalidade de Educação de Jovens e Adultos nas escolas do turno noturno. Discute o caráter político dos processos de diferenciação que se deflagram nos cotidianos da EJA em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental, a partir da idéia de redes de saberesfazeresepoderes, no que se refere aos currículos tecidos nos cotidianos da escola como arena de luta por identificações e diferenciações que engendram subjetividades. Utiliza as narrativas dos professores, incluindo as da pesquisadora, como referencial para, partindo desses relatos, contribuir para o debate sobre as políticas e as práticas curriculares que se volta para o ensino de jovens e adultos dentro das instituições escolares. Descritores: Currículo em Movimento. Processos de Diferenciação. Redes de saberesfazeresepoderes. ABSTRACT This work problematizes the movements made by the teachers in their searches and tries in producing the “moving (opened to movement) course program” – a proposition of the Secretaria Municipal de Educação de Vitória that aims to implement on night school the Educação de Jovens e Adultos (EJA) (ref. Grownup elementary education). It discusses the political aspects of the differential process that happens in the routine of an Elementary School’s EJA, as from the idea of knowing-doing-power, in what it refers to the programs tailored under the idea of the school as an arena in the fighting for identity and segregation that conceives subjectivities. It utilizes teachers narratives, including the researcher’s as a referential for, going from there, contribute to the debate about the program policies and practices, which it turns to the grownups elementary education inside the school institutions. Keywords: moving course program, differential processes, knowing-doing-power network FOTOGRAFIAS As fotografias produzidas e trazidas por mim para o texto da dissertação tentam, de alguma forma, ampliar os sentidos do que estou chamando de currículo em movimento. São cenas dos cotidianos da escola que retratam os espaços e os tempos praticados pelos sujeitos. A idéia é torná-las outra possibilidade de texto para o leitor, e para isso me propus a não identificá-las ou nomeá-las dentro de qualquer classificação. SUMÁRIO 1 PRIMEIRO MOVIMENTO: UM PASSEIO POR UMA PAISAGEM DA VIDA DE PROFESSORA ......................................................................................................... 11 1.1 A MINHA CHEGADA À EMEF.......................................................................... 26 1.2 AS DEMANDAS DA SEME EM FUNÇÃO DA PROPOSTA DE REFORMULAÇÃO DO ENSINO REGULAR FUNDAMENTAL NOTURNO (2005)28 1.3 “OLHARES” SOBRE OS SUJEITOS QUE PRATICAM O COTIDIANO DA EMEF ..................................................................................................................... 36 1.4 PERSONAGENS/ATORES DO COTIDIANO................................................... 42 1.5 FRAGMENTOS DE DOCUMENTOS/PROJETOS E AÇÕES DESTINADAS AO ENSINO NOTURNO DE 2006 ATÉ 2007............................................................... 45 1.5.1 Sobre o Projeto Político Pedagógico da Escola ............................................ 45 1.5.2 Sobre o Projeto de Reformulação do Ensino Noturno Regular para a Implantação da Modalidade EJA ........................................................................... 47 1.5.3 A Dinâmica das ACCs e da OCT nos Cotidianos da Escola ......................... 50 1.5.4 Sobre a Política de Formação Continuada para os Profissionais da Educação do Sistema Municipal de Ensino de Vitória – Versão Preliminar/2007 ................... 52 1.5.5 Sobre a Avaliação de Leitura e Escrita no Noturno/2007 .............................. 55 1.5.6 Sobre os Horários de Planejamentos (PL’s) ................................................. 56 1.6 SOBRE A NOVA PROPOSTA DA SEME AO FINAL DE 2007 ......................... 57 1.7 ALGUNS CAMINHOS METODOLÓGICOS PERCORRIDOS.......................... 59 1.8 IDENTIFICAÇÃO E DESCRIÇÃO DE ALGUMAS MUDANÇAS NA ATUAL PROPOSTA POLÍTICA DA SEME PARA O ENSINO NOTURNO COM A IMPLANTAÇÃO EFETIVA DA MODALIDADE EJA NO SISTEMA DE ENSINO DE VITÓRIA A PARTIR DE 2008 ................................................................................. 66 1.9 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS PÚBLICAS ................................................................................. 77 2 SEGUNDO MOVIMENTO: ALGUMAS APROXIMAÇÕES/REFLEXÕES SOBRE O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” ............................................................................ 90 2.1 ENTRANDO UM POUCO MAIS NO DIÁLOGO ENTRE CURRÍCULO E COTIDIANO ........................................................................................................... 90 2.2 ALGUMAS REFLEXÕES DURANTE A INCURSÃO PELOS ESTUDOS DO COTIDIANO NA RELAÇÃO COM O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” PROPOSTO PARA A EJA PELA PMV/SEME ........................................................ 93 2.3 ALGUMAS (OBSERV) AÇÕES SOBRE OS MOVIMENTOS DA ESCOLA NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2008 ......................................................................... 96 3 TERCEIRO MOVIMENTO: NARRATIVAS DOS PROFESSORES, OU SOBRE EXPERIÊNCIAS E PROCESSOS DE DIFERENCIAÇÃO TECIDOS NAS REDES COTIDIANAS DO ENSINO NOTURNO .................................................................. 103 4 (IN) CONCLUSÕES DESENHADAS A PROVISÓRIAS: PARTIR DOS PAISAGENS MOVIMENTOS DOS CURRICULOS REALIZADOS PELOS PROFESSORES ..................................................................................................... 129 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 136 ANEXO 1................................................................................................................. 141 ANEXO 2................................................................................................................. 156 ANEXO 3................................................................................................................. 213 ANEXO 4................................................................................................................. 225 11 1 PRIMEIRO MOVIMENTO: UM PASSEIO POR UMA PAISAGEM DA VIDA DE PROFESSORA Somente ele (o estrangeiro em sua própria terra) poderia questionar o poder da hospitalidade, ao ser ele próprio hostilizado, agora, a falar a língua daquele que detém a possibilidade da concessão da hospitalidade. Dessa hospitalidade condicional que pergunta por aquele que chega (por identidade, por seu nome). Porém, aquele que foi expulso volta para questionar o poder da hospitalidade. O estrangeiro clama pelo caráter incondicional da hospitalidade (GUIMARÃES, 2005. p. 47). Lembro-me do incômodo que senti quando aquele estranho chegou. Estava “se achando”, era o “dono da verdade”. Instalou-se na minha sala. Observava-me e anotava coisas. Ele me perturbava e me deixava insegura ao ficar vidrado em mim, nos meus movimentos. De repente me invadiu um sentimento de não saber, de não saber como me mover, falar, agir, ser. O ser eu mesma era fugidio. Aquele estranho com seu “olhar ameaçador” me fazia encolher, me reduzia a não mais saber ser o que era. Naquela hora, o que eu queria era que ele fosse embora. ... Estou preocupada. Não sei como me aproximar para que ele fale comigo. Quero ouvir suas perguntas, mas temo que ele pense que eu já as possua e que meu desejo seja confirmá-las nas respostas que também não sejam as suas. Nós convivemos há tempos, mas ergueu-se uma distância entre nós. Não me surpreendo, esse “lugar” estranho me é familiar. ... O texto não poderia começar de outra forma, senão por essas reflexões/memórias/narrativas minhas que, de algum modo, tentam expressar o sentido que me moveu ao mestrado e à realização deste trabalho. A primeira fala são palavras que dizem do desconforto que eu sentia na sala de aula 12 com a chegada do pesquisador. Eu acreditava que o que ele queria olhar e ver na escola era o que sempre olhava e via: as lacunas teóricas e práticas do professor para, depois, confirmar em suas teorias alguns ou algumas das causas dos problemas da educação. Por isso, tantas vezes me esquivei em responder a seus questionários (pareciam avaliações!) ou em ser entrevistada por ele. Eu via/ouvia/lia sobre as práticas e discursos recorrentes na e sobre a escola e eram falas que pareciam vir sempre de fora, de quem desconhecia os cotidianos da escola e, por isso, ignorava os processos corporais e pessoais, individuais e/ou coletivos que nos lançam, professores e alunos, na aventura pelo conhecimento e pela vida. Eu compartilhava esse sentimento com outros professores no trabalho, nos momentos de formação continuada que envolvia professores de outras escolas e nos cursos que buscava realizar. Inconformada, eu procurava os caminhos que me levassem aos espaços onde eu pudesse ser ouvida nas minhas próprias perguntas e possíveis respostas. Eu queria dizer a palavra de professora que vive o movimento cotidiano da escola, que é vivo, complexo1, e dos movimentos que acontecem lá, onde eu aprendo coisas novas todos os dias sobre o outro, sobre a vida e sobre mim mesma. Eu queria falar e ouvir falar dos “[...] jardins que florescem subterraneamente debaixo do chão da escola, à medida que procuramos encontrá-los e realizá-los” (LINHARES; GARCIA, 2001, p. 49). A segunda fala são palavras que dizem do estranhamento da pesquisadora. Do medo que me tomou quando cheguei ou retornei à escola para pesquisar. Ou sobre como me sinto agora no lugar do pesquisador. Como um estranho que chega ou retorna, clamo por ser acolhida sem reservas, sem ter que ser nomeada, fixada nesse lugar de ser um outro. Sou a estranha, 1 O cotidiano escolar na sua complexidade deve ser entendido, não no sentido de complicação, mas na dimensão de complexo por ser tecido junto (MORIN,1990). 13 que, por ter ido ao encontro de outros espaçostempos2, volta e quer hospitalidade nesses espaçostempos da escola, vivendo e convivendo neles sem querer ser afastada ou engolida por esse outro que está lá. É a estrangeira, professora/pesquisadora, que clama pela hospitalidade3 incondicional e que é aclamada na responsabilidade por se dignar a falar com o outro e a ouvir a sua palavra. É sobre o sentimento do estranho que trata a inscrição no início do texto. E são tantos os questionamentos e preocupações! Até que ponto nós, que pesquisamos e fazemos educação, nos relacionamos com os outros – os que chegam, os que já estão, os temporários – como um “legítimo outro” na educação? Até que ponto estamos dispostos a acolher o outro como o verdadeiro outro em nossas pesquisas ou em nossos projetos de reformas educativas? Até que ponto vai a nossa responsabilidade e preocupação (ética) com os outros “outros” que também estão lá? Até que ponto o outro nos assusta e por isso queremos, nessa relação, identificá-lo, fixá-lo num lugar específico para controlá-lo, para fazer dele outro que na verdade quero que seja eu mesma? Que relação é essa? Gallo e Souza (2005, p.11) explicam: A captura do outro pelo estrangeiro é uma relação de amor e ódio. Ou “amódio”, para falarmos ao gosto dos poetas concretos. O outro, o diferente, o não-mesmo: são distintos nomes para a mesma realidade que nos habita, nos desloca, nos incomoda, mas, ao mesmo tempo, apreendemos com paixões distintas e contraditórias [...]. O outro é e não é ao mesmo tempo; o outro é o estranho, que desperta medo, mas também desperta curiosidade. Em sua diferença, o outro é aquele/aquilo que amamos e odiamos a um só tempo. 2 Essa escrita de maneira a juntar as palavras, que aprendi com Nilda Alves e outros autores, é uma tentativa de superar a idéia de hierarquia e oposição entre as mesmas. 3“Para além de querer definir o que é um estrangeiro, ou de responder à pergunta falsa e falar de quem é o outro [...], Derrida sugere que é a hospitalidade – e, então, a acolhida, a atenção, o rosto, a responsabilidade, etc. – o que designa a relação com o outro-estrangeiro, com qualquer outroestrangeiro, com todo/s o/s/outro/s-estrangeiros” (GUIMARÃES, 2005. p. 33). 14 Na escola ou fora dela venho lidando com essas e outras relações que se referem ao modo de entender a alteridade como “regimes de verdade” produzidos sobre os outros. Essas questões remetem-me a uma infinidade de acontecimentos4 que, de algum modo, empurram os limites sobre o que tenho entendido por conhecimento, formação e, por conseguinte, currículo. Nos cotidianos das escolas, nas relações e interações que lá estabeleço, eu percebo a fragilidade de nossas preleções e ações “educativas”, especialmente quando as confronto com as múltiplas emergências sociais, culturais, econômicas, afetivas e emocionais nossas e de nossos alunos, numa constante situação de conflitos e tensões nem sempre bem resolvida na e pela escola. Carvalho (2005, p. 95), citando Vasconcellos, afirma: Assim como, na fábula, Nasruddin tenta transformar seu falcão-pássaro num pombo, como professores e professoras atuando no currículo escolar, concebido ou vivido, podemos estar fazendo da educação um processo de diminuição do outro. Importa, portanto, questionar os aparatos educacionais e educativos, dentre eles o currículo escolar, como lugares de exercício de políticas de diminuição do outro. A autora prossegue discutindo, a partir de Bhabha (1998), a necessidade de questionarmos o modo de representação da alteridade como “regimes de verdades” produzidos sobre o outro, remetendo-nos ao chão da escola, especialmente ao currículo escolar, e faz um alerta: [...] o currículo escolar e, nele, o livro didático, as preleções dos professores e professoras etc. podem funcionar produzindo um espaço do outro, sempre 4 Refiro-me a acontecimento como “algo” que me arrebata de minhas verdades, algo como um “aqui e agora”, que vai tornando o que parecia impossível em possível. Pensamento potencializado a partir da idéia de Deleuze sobre o acontecimento citado por Dias (1995.) 15 ocupado pela idéia fixa estereotipada (violento, sujo, desordenado, maleducado etc.), desconhecendo e desconsiderando a ambivalência das posições e dos entrelugares nos quais todos nós estamos situados (CARVALHO, 2005, p. 95). Nesse sentido, sou instigada a pensar o currículo que vivenciamos na escola a partir dos processos e produtos que circulam nas práticas discursivas engendradas no trato da questão da diferença no contexto da prática curricular. Ao tentar entrar na escola via, entre outras, a pesquisa no contexto das propostas de reformas e suas promessas para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) no ensino noturno, vejo que somos todos, professores e alunos, estrangeiros. Estrangeiros submetidos a uma única língua, a língua que fala, hoje, de uma educação para a “diversidade”. Que diversidade é essa que temos incorporado em nossos discursos dentro e fora das escolas? Encontro em Skliar (2003, p. 22-23) indagações provocativas sobre a atenção à diversidade, no âmbito educacional: [...] existe, por acaso, uma temporalidade comum entre o eu e o você, entre nós e os outros, que nos autorize a falar de um tempo zero, inicial, originário, fundador, de partida? Existe, então, uma espacialidade comum entre o eu e o você, entre nós e os outros, que nos permita territorializar, mais uma vez, o dentro e o fora, a interioridade e a exterioridade, a inclusão e a exclusão? Há disponível somente um único olhar para percorrer o mundo, que possa ir além das quantidades que nos manipulam obscenamente, do paraíso virtual que nos leva a nenhuma parte, do politicamente correto que nos faz dizer coisas sem sentido, das exclusões dos outros, das promessas integradoras em direção aos outros? Existe, portanto, uma mudança educativa que nos possibilite afirmar que se trata, desta vez, de outra coisa ou que não se trata somente de uma metáfora desgastada de nossa própria e egocêntrica mesmidade? E onde fica o outro irredutível, misterioso, inominável, nem incluído, nem excluído, que não é regido pela nossa autorização, nem pelo nosso respeito, nem por nossa tolerância, nem pelo nosso reconhecimento para ser aquilo que já é e/ou aquilo que está sendo e/ou aquilo que poderá ser? E onde fica, além de tudo, a relação deles com os outros – não só conosco, não só entre eles? E por último: qual é a herança, qual é o testamento que está em nossos corpos e em nossa língua que nos obriga a entender a pergunta educativa, a pergunta sobre a educação, numa única direção possível, através de uma flecha que sempre (e que só) indica a direção de nós mesmos? Não deveríamos fazer- nos essas perguntas antes de tomar a palavra diversidade como se fosse a nossa própria palavra, antes, em sendo, de proclamá-la no meio social e educacional e, em especial, nas escolas? 16 Temos incorporado o termo diversidade em nossos discursos para falar de uma educação para a diversidade, usando-o, eu diria, banalizando-o, nos meios sociais e educacionais. Basta prestarmos atenção na mídia para reconhecê-lo nos apelos pelas vendas de produtos que se destinam para todos os “diversos” e “diferentes” tipos, estilos, gostos e necessidades, em atendimento a uma sociedade cada vez mais plural e desigual. Nas políticas educacionais, recentemente influenciadas pelos estudos multiculturais, o termo vem fixando- se nos apelos de uma proposta única e coerente para todo o sistema no que diz respeito às articulações das diferenças culturais. Vejo propagarem- se nas escolas discursos sobre a diversidade como proposta curricular consensual em torno do que se vem chamando de políticas de “inclusão” de gêneros, raças, etnias, idade, entre outras. E isso me preocupa. Carvalho (2005) provoca- me a fazer uma reflexão sobre os enunciados acerca do respeito à alteridade antes de uma apressada conversão a certas retóricas da moda, tais como multiculturalismo e inclusão, que se apresentam como politicamente corretas, porém pouco problematizadas: Evidentemente, o currículo formal e o efetivamente praticado são dimensões ou diferentes faces do mesmo fenômeno; o currículo escolar em sua relação com a realidade sociopolítica, econômica e cultural mais ampla. Esse fenômeno, em qualquer dimensão, envolve a problemática da contribuição que a educação escolar e os educadores são chamados a dar na superação das dificuldades derivadas da presença de pessoas e grupos com diferenças de classe social, raça, gênero etc., marginalizados ou não, em sociedades complexas. Esse debate acerca da relação entre atendimento à diferença cultural e escola assume a perspectiva da educação multicultural ou intercultural (CARVALHO, 2005, p. 97). Constato, diariamente, nas minhas vivências dentro e fora da escola, a importância de compreender os processos de subjetivação a partir dos processos de diferenciação5 (BHABHA, 1998) nos currículos que praticamos, tentando pensar de outro modo as relações que estabelecemos com o outro e com o conhecimento nas redes de saberesfazerespoderes criadas e partilhadas por todos que convivem nos espaçostempos escolares. E, assim, encaminhei as minhas investigações. 5 Processos de diferenciação como processos que nos deslocam dos discursos nos quais os significados são instituídos por seu caráter de universalidade e similaridade, pelo seu uso histórico ou social, para confrontá-los com outros discursos. Momento de tradução, temporalidade discursiva, de transferência de sentidos em que os sujeitos, motivados por suas experiências, sua memória e sua imaginação, inscrevem novos significados aos discursos, idéia potencializada a partir de Bhabha (1998). 17 Acredito que diferenciação esses sejam processos um dos de maiores desafios da nossa sociedade e, sobretudo, da escola, no que se refere à formação dos sujeitos. A noção de diversidade cultural que temos incorporado na nossa sociedade, especialmente nas nossas políticas educacionais a partir do multiculturalismo, precisa ser mais aprofundada e problematizada para tentarmos entender o movimento de transformação pelo qual estamos passando na sociedade e, especialmente, na educação. Segundo Bhabha, em entrevista concedida a Jonathan Rutherford (1990): O multiculturalismo representou uma tentativa de responder e ao mesmo tempo controlar o processo dinâmico da articulação da diferença cultural, administrando um consenso baseado numa norma que propaga a diversidade cultural (RUTHERFORD, 1990, p. 35). O incentivo e a propagação da idéia de diversidade cultural como algo “positivo” – as diferentes culturas ou todas as culturas são boas e devem coexistir harmonicamente (tolerância) – na verdade revelam a estratégia de conter as diferenças culturais e mascarar as normas, valores e interesses etnocêntricos supostos ou impostos pela política da mesmidade que marcam a nossa sociedade e as nossas escolas cada vez mais plurais e desiguais. Bhabha (1998) critica e analisa o contexto pós-colonial contemporâneo, fazendo uma clara distinção entre a diversidade cultural – definida como uma categoria – e a diferença cultural – definida como um processo. A diversidade cultural é um objeto epistemológico – a cultura como objeto de conhecimento empírico – enquanto a diferença cultural é o processo da enunciação da cultura como “conhecível”, legítimo, adequado à construção de sistemas de identificação cultural. Se a diversidade cultural é uma 18 categoria da ética, da estética ou da etnologia comparativas, a diferença cultural é um processo de significação através do qual enunciado sobre ou em uma cultura diferenciam, discriminam e autorizam [sic] a produção de campos de força, referência, aplicabilidade e capacidade. A diversidade cultural é o reconhecimento de conteúdos e costumes pré-dados; mantida em um enquadramento temporal relativista, e dá origem a noções liberais de multiculturalismo, de intercâmbio ou da cultura da humanidade (BHABHA, 1998, p. 63). O autor, ao discutir a representação da autoridade cultural no próprio momento de sua enunciação, aponta que ela não é unitária em si mesma, nem dualista na relação Eu com o Outro. Assim, no espaço simbólico e ambivalente da enunciação, os mesmos signos podem ser apropriados, traduzidos, re-historicizados e lidos de outro modo, para simbolizar e significar outras coisas. O seu posicionamento político reside na idéia de se ir além das narrativas de subjetividades originárias e iniciais para focar os processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. O convívio com a “diversidade” em múltiplos ambientes, inclusive no do cotidiano escolar, faz-me tentar perceber, entender e discutir os processos que aprendemos para falar do outro; outro ora diverso, ora diferente, mas sempre outro localizado em um tempo e em um espaço distante de nós. Essas formas de falar do outro que foram aprendidas na modernidade, como tentativas de nos aprisionarem em idéias fixas e preconceituosas, fazem com que consideremos o outro (os alunos, os pais, os professores, os funcionários) do nosso convívio escolar como o violento, o marginal, o depravado, o incapaz, o despreparado, o feio... No jogo das relações e interações do cotidiano, essas nomeações vão aparecendo ou sendo ocultadas por processos de identificação e/ou processos de diferenciação que engendram subjetividades e, portanto, precisam ser consideradas e incorporadas às discussões da educação e, sobretudo, dos currículos. 19 Compreendi com Ferraço (2005, p. 17) que, para pensarmos em mudanças ou transformações na educação, precisamos assumir o currículo como um espaçotempo de possibilidades de conhecimentos e de formação humana, por isso tenho voltado minha atenção para os currículos que inventamos na/para a escola. Nesse caminho, aproximei- me de Alves (1998, 2001, 2002), de Oliveira (2002, 2003) e de Ferraço (2001, 2002, 2006) na idéia de currículo como rede de saberesfazerespoderes tecidas e compartilhadas no cotidiano escolar, para tentar entender os currículos da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF), onde há, aproximadamente, dois anos venho participando do Projeto de Implantação da Modalidade EJA no Sistema Municipal de Educação de Vitória. O meu interesse é problematizar os movimentos cotidianos dos professores em termos das suas tentativas e buscas por realizar o “currículo em movimento” 6. Como os professores estão traduzindo essa proposta curricular em suas práticas diante das demandas dos alunos, dos próprios professores e das que chegam da Secretaria Municipal de Educação (SEME)? No envolvimento com a escola e com essa questão de investigação, tentei fazer uma incursão pelo documento que trata do referido projeto e pelas narrativas dos professores que estão envolvidos com ele no sentido de implementá-lo. “Olhar” para os documentos prescritivos fez- se necessário e importante, sobretudo porque diziam respeito à caracterização das políticas da EJA que a SEME está propondo. Contudo, eu não poderia negligenciar ou minimizar a dinâmica do cotidiano escolar como espaçotempo de negociações dessas políticas e de proposição e realização de outras políticas de educação. É no cotidiano que a vida se manifesta em sua complexidade e as possibilidades de conhecimentos dos sujeitos praticantes7 se expressam. Assim, o “currículo em movimento”, que me moveu à pesquisa, não é o proposto pela SEME, mas o “protagonizado”, narrado pelo coletivo de educadores da escola pesquisada que, sem sombra de dúvida, inclui as orientações da SEME. 6 “Define-se, então, um currículo como um desafio pedagógico e sua correspondente organização institucional à qual articula dinamicamente experiências, trabalho, valores, ensino, prática, teoria comunidade, concepções e saberes, observando as características históricas, econômicas e socioculturais do meio em que o processo se desenvolve.” (PMV, 2008, p. 18 ). 7 Tomamos de Certeau (1994) a idéia de sujeitos praticantes que usam e praticam a realidade transformando os lugares em espaços praticados. 20 Neste trabalho, não se tratou, também, de um aprofundamento histórico educacional sobre os acúmulos e percursos da EJA no contexto da educação brasileira. O contexto da implantação da modalidade EJA no município de Vitória foi o “pano de fundo” sobre o qual discutimos e analisamos os processos de diferenciação (BHABHA, 1998) vividos pelos professores em suas tentativas de realização do “currículo em movimento”. Minha hipótese é de que nas redes de saberesfazerespoderes, os professores criam conhecimentos significativos para suas vidas e, portanto, realizam vários currículos. Esses currículos configuramse em espaçostempos de negociação e tradução em que identidades e diferenças são produzidas. Oliveira (2003) vem evidenciando, em seus estudos, que a prática docente não é mera repetição de fazeres previstos e/ou planejados fora das salas de aula ou da escola. O currículo que tentaremos problematizar aponta para o “chão” da escola como “espaçotempo” de criação de conhecimentos, em redes de saberesfazerespoderes, que se ampliam e/ou se modificam o tempo todo, em permanente processo de negociação e tensão. Nesse sentido, Alves (2001) observa o diferencial nos estudos sobre o currículo, que também eu busco realizar com este trabalho: Queremos nos diferenciar de todos e tantos estudos preocupados com a política de currículos porque nossa preocupação está na necessidade que percebemos de que os estudos do currículo, para além da análise das políticas oficiais, se dediquem a compreender como cotidianamente são enredados os conhecimentos e realizados os currículos (ALVES, 2001, p. 9). Direcionei-me para os processos de diferenciação que acontecem nos meandros das relações e interações diversas e complexas dos cotidianos, tentando identificar experiências e acontecimentos significativos para a formação dos sujeitos, buscando ampliar as atuais discussões no campo dos currículos. 21 Entendi com Bhabha (1998, p. 20) que os momentos ou processos de diferenciação são os entrelugares que fornecem “... o terreno para elaboração de estratégias de subjetivação que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria idéia de sociedade”. Tentei, portanto, problematizar o caráter político desses processos de diferenciação no que se refere aos currículos tecidos nos cotidianos de nossas escolas, a partir da idéia de rede de saberesfazerpoderes como arena de luta por identificações e diferenciações que engendram subjetividades. Como bem diz Ferraço, [...] o que tem interessado a nós e aos sujeitos das escolas é problematizar a educação e, em particular, o currículo, a partir do que, de fato, acontece na escola, do jeito que acontece, no contexto em que acontece e com as pessoas que estão envolvidas nos acontecimentos (FERRAÇO, 2006, p. 13). Assumi como referência de currículo tudo o que acontece na escola em meio às múltiplas interações e negociações que constituem as redes de saberesfazerespoderes realizadas e viabilizadas nos cotidianos da escola e também para além dele. O currículo que penso está relacionado ao “miudinho” da escola: as relações entre as pessoas, as experiências e vivências expressas por gestos, palavras, sentimentos, ações particulares ou coletivas que os registros e os documentos não dão conta de controlar ou sistematizar em um único discurso. É o currículo pensado no plural, currículos, sempre em processo e em permanente criação, porque “...não existe um único currículo na escola, mas inúmeros currículos redes, reais, metamorfoseados, plurais, complexos e heterárquicos.” (FERRAÇO, 2004, p. 100). É o currículo deflagrado a partir das situações que se vão colocando para os professores em suas práticas cotidianas. Tenho compreendido que a escola e as práticas que lá acontecem não podem mais ser vistas como abstrações. Cada escola e as práticas que nela são realizadas constituem uma dada realidade que, apesar dos aspectos comuns a outras realidades, apresentam particularidades que não podem ser desconsideradas ou 22 apagadas em nome de uma proposta de homogeneização curricular (im)posta pelo Sistema. Nesse sentido, entendo cada escola a partir de suas “[...] potencialidades e condições subjetivas e objetivas sempre diversas que podem ou não trabalhar na direção de interesses comuns” (ALVES, 2002, p. 12). Ao tentar deslocar o foco do currículo como apenas o que é ou pode ser documentado para problematizá-lo também nas práticas dos sujeitos que habitam e praticam o espaçotempo escolar, assumi os sujeitos ordinários8 como protagonistas dos currículos redes, usuários de toda a tecnologia que lhes é disponível (documentos, projetos, programas, livros e materiais didáticos), não apenas como consumidores passivos de regras e/ou imposições legais, mas como sujeitos praticantes e criativos que negociam, traduzem9, cotidianamente, os conhecimentos que lhes são necessários nas diferentes, variadas e diversas redes de saberesfazerespoderes em que estão imersos. No chão da escola, os documentos prescritivos, embora os considere válidos e necessários, não nos dizem como usar os nossos saberesfazeres em situações efêmeras do dia-a-dia. São as alternativas que os sujeitos encarnados (NAJMANOVICH, 2001) criam, inventam e partilham, ao praticarem a realidade escolar que me interessam. É vivendo esse movimento cotidiano que tenho tentado ampliar os limites do meu entendimento sobre as aulas, o conhecimento e o currículo. Penso o currículo como espaçotempo de conhecimento e formação em redes de saberesfazerespoderes, a partir da idéia de que os conhecimentos podem ser criados em múltiplos espaçostempos, para além daqueles que já foram legitimados pelas ciências na modernidade. Assim, para além das salas de aulas, das reuniões 8 Termo cunhado por Freud e tomado por Certeau (2002, p. 63) para falar dos sujeitos que se tornam narradores, quando redefinem o lugar (comum) do discurso e o espaço (anônimo) de seu desenvolvimento. 9 A tradução defendida por Bhabha (1998) não é fonte de consenso, mas de heterogeneidade, descanonizando o original. Para o autor, negociação (ou tradução) refere-se à interação que embasa os movimentos sociais. 23 e/ou planejamentos, dos cursos dentro ou fora da escola, existem também os corredores, os horários de recreio, a entrada, a saída, os banheiros, o pátio, os trajetos até a escola, a família, a Igreja, o movimento comunitário, o trabalho, as conversas entreouvidos, as narrativas, os gestos, os silêncios e outras situações, que precisam ser assumidos como espaçostempos de conhecimento. Acredito que nas escolas vivemos entrelugares culturais (BHABHA, 1998), onde criamos currículos e processos de formação que desafiam o instituído como único lugar de saber, fazer e poder. No movimento da pesquisa, essas reflexões foram aparecendo e, entre outras, retornei àquela situação vivida na escola há algum tempo, na relação como professora/objeto de uma pesquisa, e pude inferir que aqueles pesquisadores que tanto me incomodaram um dia estavam tão inebriados por suas certezas sobre a escola, sobre a neutralidade e objetividade de suas pesquisas que, embora se voltassem para as práticas escolares como seus campos de investigação, só conseguiam ver e dizer o que acreditavam que precisava ser visto e dito para e sobre a escola. Ou seja, não conseguiam focalizar as “redes de subjetividades” (SANTOS, apud OLIVEIRA, 2006, p. 14) presentes no cotidiano escolar, estas subjetividades tecidas em redes de saberesfazerespoderes que também emanam dos desejos, crenças, valores e hábitos dos alunos, seus familiares, e dos profissionais que atuam na escola. Se os “saberesfazerespoderes” da docência são influenciados pelas políticas públicas e pelos discursos que as sustentam, do mesmo modo, na escola, existem movimentos que podem influenciar novos discursos sobre a educação, sobre as práticas educativas e sobre o currículo. São esses movimentos que me movem no meu saberfazerpoder da docência e da pesquisa. 24 Assim, pude ver a escola como um espaçotempo repleto de experiências intersubjetivas e coletivas que negociam os discursos e engendram subjetividades, espaçotempo esse, em certa medida, ignorado pelo sistema público de educação, haja vista as urgências direcionadas às escolas para a implantação de seus projetos e programas homogeneizantes e uniformadores, desconsiderando a pluralidade de lugares e posições que todos nós, sujeitos praticantes, ocupamos dentro e fora das escolas. Isso significa que não busquei observar apenas as impassividades ou os imobilismos também presentes na escola. Significa que percebi, apesar dos discursos generalistas sobre a educação, a escola e seus sujeitos – discursos carregados de processos de subjetivação, coroados pela lógica do modelo de sociedade instituído, que tentam posicionar- nos em um lugar anônimo, idealizando- nos, negando nossas características próprias e individualidades, que na escola existem também movimentos pela vida, pela solidariedade, em processos permanentes de tensões e negociações, que burlam o tempo todo as tentativas de controle de nossas preleções e ações. Viver na e com a escola processos de diferenciação nos currículos, como processos de criação ou negação do espaço do outro, em meio ao caos10 e à complexidade da escola, reforçou meu desejo de pesquisar/estudar/problematizar o cotidiano da escola, a fim de buscar pistas que me ajudem a discutir o currículo para além dos modos de falar e/ou pensar que produzimos sobre o outro, o conhecimento e a formação. Acredito que existem possibilidades de viver a diversidade escolar sem tentar subjugá-la ou anulá-la. Dentro do processo educativo, o modo de nos vermos/sentirmos a nós e aos outros não pode mais continuar a tentar “normalizar” nossas sexualidades, gêneros, raças, idades, religiões, classes sociais em nome de padrões préconcebidos ou preestabelecidos, principalmente quando 10 “Caos é muito mais sutil do que a idéia corrente de que se trata da desordem do mero acaso.” (BRIGGS; PEAT, 2000, p.13). Caos é aqui entendido como situações ou acontecimentos que geram dúvidas, inseguranças, e que nos movem às mudanças e transformações na busca por respostas, ainda que provisórias, para resolvermos os problemas que emergem no cotidiano da prática educativa. 25 [...] existe uma concepção liberal que nos obriga a olhar a norma como algo que sempre esteve ali. Sempre no sentido de que a mesmidade parecesse ser dona de um desejo tão natural quanto milenário de ser comparado, de ser cortejado, de ser medido, estudado. Sempre, porque a mesmidade não deseja outros espelhos a não ser os próprios. Sempre, porque a mesmidade quebra os espelhos que não lhe são próprios (SKLIAR, 2003, p. 170). Um dos nossos maiores desafios diante dos processos de diferenciação, que ocorrem no cotidiano escolar, foi o de tentar perceber nos discursos pedagógicos que incorporamos os eufemismos que não fazem nada mais ou nada menos que confirmar nossa obsessão pela mesmidade, criando “ali”, no espaço do outro, a estilização do eu, que produz os monstros e inventa a necessidade de contê-los, executá-los, excluí-los, incluí-los, estimulá-los, abandoná-los, medicá-los, embelezálos, virtualizá-los, profaná-los, ironizá-los” (SKLIAR, 2003, p. 170). Quando observei atentamente as pessoas, no cotidiano escolar, com suas histórias diferentes, contradições, desejos, culturas e etnias diversas, buscando em algum momento os mesmos objetivos, verifiquei que nós estamos numa rede onde precisamos rever nossos (pré) conceitos e os “nós” dessa malha, para tentarmos fortalecer e ampliar as discussões sobre os currículos como espaçostempos de formação. As afirmações mais comuns em torno do que seja o currículo têm sido internalizadas, naturalizadas e repetidas pela maioria de nós, educadores, como prescrição, receita, listagem de conteúdos ou manual a ser seguido em um curso. Desse modo, pressupor etapas, seqüências, estágios, níveis ou séries, padrões de comportamentos, lugares e papéis definidos visa garantir a formação dos sujeitos de forma causal e objetiva. O currículo, assim entendido, como um objeto identificável, atribui aos “documentos” prescritivos e/ou normativos uma força e um poder que parecem pretender despotencializar a capacidade dos sujeitos encarnados em mobilizar, questionar, reelaborar e criar conhecimentos por meio das suas relações e interações com e para além do que se vive no contexto das escolas. 26 Sendo assim, penso que não há como discutir o “currículo em movimento” e sua organização na escola ou nos sistemas educacionais declinando das práticas pedagógicas vividas em redes pelos sujeitos praticantes da escola. Há de se reconhecer e considerar que os currículos, sobretudo quando tratam das práticas pedagógicas, vêm sendo atravessados pelas intensas e intricadas relações intersubjetivas, pelas condições objetivas e pelo envolvimento daqueles que são responsáveis pela sua realização. 1.1 A MINHA CHEGADA À EMEF Quando iniciei o mestrado, em 2006, tive necessidade de redimensionar minha vida e meus horários no sentido de conciliar estudo e trabalho. Fui trabalhar no turno noturno numa EMEF em São Pedro1, próximo à Ilha das Caieiras. É uma escola que nasceu no contexto de uma história de luta pelo desenvolvimento e urbanização do bairro e que permanece viva por aqueles que hoje também a praticam. Atualmente, a escola funciona com oito turmas no segmento ensino – noturno: primeira fase O do primeiro ensino fundamental – possui uma turma inicial (alfabetização), uma turma de intermediário (2ª e 3ª séries) e uma turma de conclusivo (4ª série). O segundo segmento – segunda fase do ensino fundamental – compreende uma turma de inicial (5ª série), uma turma de intermediário (6ª e 7ª séries) e duas turmas de conclusivos (8ª série). A clientela que freqüenta a escola, em sua maioria, é constituída de pessoas que residem no bairro ou em bairros adjacentes. A situação socioeconômica dos alunos e das suas famílias é de renda baixa. Os adultos, em sua maioria, têm histórico de participação e envolvimento com o movimento comunitário do bairro e com as questões da escola, pois têm seus filhos, netos ou parentes próximos estudando ou trabalhando nela. 27 Essa escola tornou- se o lócus da minha pesquisa, entre outros motivos, pelo fato de estar iniciando um processo de mudanças no ensino noturno em função do interesse da SEME em implantar a EJA no Sistema Municipal de Ensino de Vitória. A minha chegada à EMEF, em 2006, parecia uma surpresa para os professores. Eles desconheciam o fato da SEME ter redimensionado o quadro de funcionários a partir da tipologia da escola (Nº. de turmas, Nº. de alunos, por exemplo), abrindo, naquele ano, mais uma vaga de pedagogo. Aparentemente, para a diretora e para a pedagoga que já atuavam no noturno, eu seria mais um funcionário a ser “administrado”. Se não havia uma grande expectativa sobre minha chegada, também não havia grande expectativa sobre minha atuação como mais uma pedagoga no referido turno, o que, em princípio, me pareceu até bom (eu estava bastante insegura no momento). Eu cheguei à escola justamente quando se falava em mudanças no ensino fundamental regular noturno. O projeto de implantação da modalidade EJA iniciava- se com uma proposta educativa específica para jovens e adultos aos moldes da EJA. Isso me instigou desde o início a uma postura investigativa. Eu não sabia quase nada sobre EJA e nada sobre o documento que trazia a proposta. E os professores sabiam? Que mudanças nós, professores, precisaríamos implementar em nossas práticas educativas, voltadas para o ensino fundamental regular, que iriam diferir das práticas que realizávamos até então? Os alunos não eram os mesmos jovens e adultos que freqüentavam a escola no noturno com ensino fundamental regular em suas características e expectativas sobre a escola? O que essas mudanças poderiam significar para eles? Eu percebia que minhas preocupações, antes focadas somente na formação do professor, se ampliavam para a questão do currículo, especialmente porque ouvia falar de um “currículo em movimento” como uma novidade do Projeto. Ao ir inteirando- me sobre a escola, 28 constatei que o “currículo em movimento” do qual tratava a proposta trazia a idéia de currículo como desafio pedagógico. Então, como os professores estariam negociando11 essa idéia? Eram tantas perguntas!... Sobre o Projeto de Reformulação do Ensino Noturno Regular (PMV, 2005), os professores não pareciam estar muito certos sobre como seria essa implantação na prática, mas certamente demonstravam saber que algumas novas demandas se colocavam sobre eles. Todos sabiam sobre as mudanças em seus horários de aulas, inclusive sobre as “novas” atividades, como as Atividades Curriculares Complementares (ACC’s) e a Organização Coletiva do Trabalho (OCT), que seriam cumpridas na escola com os alunos, e devidamente registradas junto com os pedagogos para serem apresentadas aos assessores ou à SEME. Sabiam também sobre a nova proposta curricular denominada “currículo em movimento”, contida no projeto. Lembro-me da fala emblemática de uma professora quando, na sala dos professores, perguntava ansiosamente “... que movimento é esse, gente?” Para além do possível não- aprofundamento na questão dentro da proposta colocada pelo projeto, a nós soou como um algo mais... Talvez a professora estivesse tentando dizer que era mais uma moda que se inventava para os professores e que deles seriam feitas mais e maiores exigências. Fui percebendo que o projeto era algo, em certa medida, novo para todos, não apenas para mim. 1.2 AS DEMANDAS DA SEME EM FUNÇÃO DA PROPOSTA DE REFORMULAÇÃO DO ENSINO REGULAR FUNDAMENTAL NOTURNO (2005) Algumas mudanças deveriam ser iniciadas no ano em curso (2006), com vistas à “implantação” das atividades como ACC’s e OCT e ao “currículo em movimento”. Na prática, porém, somente houve mudança na nomenclatura das turmas e no retorno às aulas de 40 minutos (no caso específico 11 Negociação como atribuição de sentidos e significados para nossas ações. Idéia potencializada a partir de BHABHA, 1998. 29 daquela escola, um professor permanecia numa mesma sala de aula/turma da primeira até a última aula). As turmas de 1ª a 4ª séries passaram a ser chamadas de primeiro segmento: a 1ª série designada de inicial, as 2ª e 3ª séries de intermediário, a 4ª série de conclusivo . As turmas de 5ª a 8ª séries passaram a ser chamadas de segundo segmento, sendo a 5ª série o inicial, a 6ª e a 7ª séries, o intermediário, e a 8ª série, o conclusivo (assim foi como a pedagoga mais antiga interpretou). As ACCs continuaram com as características das aulas (tradicionais) de reforço e as reuniões de OCT como momento de avisos por parte da diretora e da pedagoga mais antiga. Até então, eu me mantinha no lugar de quem estava chegando, buscando entender o que se estava passando e, por isso, observava tudo sem ter muito que dizer. Essa situação de quem está de fora esperando convite para entrar, aos poucos, foi incomodando- me. Em conversa com a diretora e com a outra pedagoga, questionei sobre minhas atribuições. Ambas sugeriram que eu fizesse os planejamentos com os professores, especialmente com os do primeiro segmento. A diretora dizia que achava o noturno muito “parado” e que os professores do noturno precisavam de uma “mexida” para saírem da acomodação. A pedagoga dizia que não adiantava nada planejar com os professores, mas eu poderia tentar “... aquelas ‘porras’ só fazem o que querem nas salas de aulas...”. Além disso, ela dizia... “eu não sei nada de alfabetização e não vou planejar com ninguém, eles que se virem. Você, ‘Ceinha’, (apelido que recebi como um carinho) pode até tentar, porque você é alfabetizadora, né?”. Fiquei assustada com o modo como a diretora “via” o noturno e, de repente, colocava sobre mim suas expectativas de mudanças. Quanto à pedagoga – apesar do jeitão espontâneo de falar – com o tempo a conheceria melhor e me encantaria pela paixão com que liderava o noturno, mesmo sem o “tal” planejamento. Ela conseguia envolver os professores com a escola e parecia ter propriedade sobre o que dizia ao e sobre o noturno, por isso passei a prestar atenção no que ela dizia e 30 fazia, para tentar integrar -me ainda mais ao grupo e à escola. Minha tentativa de “planejar” foi, inicialmente, frustrada. Primeiro, porque os professores do primeiro segmento não tinham horários para planejamento.12 A equipe de Coordenação Técnico Administrativo (CTA) alegava que os professores não tinham direito, porque Educação Física e Artes eram oferecidas aos alunos em forma de projeto, ou seja, de 15 em 15 dias os professores dessas disciplinas ofereciam alguma atividade no horário das 16h às 17h. Não havia a disciplina de Inglês. Eles ficavam em sala durante todo o tempo das aulas. Os professores do segundo segmento não estavam acostumados a planejar, não abriam suas “pastas”, e eu, naquele momento, não sabia como discutir suas disciplinas/práticas, tampouco ajudar a pensar sobre dificuldades naquele novo contexto de ensino. Somente consegui aproximar- me dos professores em conversas informais fora dos horários de planejamentos. Nessas conversas, falávamos sobre tudo, inclusive sobre os alunos, as atividades trabalhadas ou sobre algo que se referisse à escola. Parece que o fato de, vez ou outra, eu substituir um professor na sala de aula também ajudou a “quebrar o gelo”. Fui procurando e criando as brechas, coisas que eu pudesse fazer para me sentir na escola e pertencer à ela. Passei a freqüentar os encontros por área – Formação Mensal oferecida pela SEME – junto com as professoras do primeiro segmento. Aos poucos, fui encontrando espaço para partilhar saberes, opiniões, dificuldades e propostas para as questões de desempenho, freqüência/evasão e avaliação dos alunos. Também consegui, junto com os professores, propor mudanças no formato de algumas práticas, como conselhos de classe, passeios/eventos com os alunos, exposição e divulgação dos trabalhos dos alunos do noturno na escola. Mas o planejamento formal e individual continuava difícil. Durante esse processo, em meados do ano em curso, faleceu a pedagoga – uma 12 Nesse contexto, os projetos enviados para a escola, referendados pelas políticas implementadas pela Secretaria, quase nunca garantem condições para que essas políticas possam ser realizadas com o mínimo de responsabilidade pelos professores. 31 referência para o noturno da escola, pois, na verdade, era ela quem tomava todas as decisões e iniciativas nesse turno. Perdemos, também, alguns professores antigos da escola, em função da redução das turmas. O fato de o número de alunos ter diminuído pela desistência/evasão abalou muito os professores e as relações com a diretora, por ela não ter se imposto junto a SEME para a manutenção do mesmo número de turmas, assim como fazia a pedagoga mais antiga. Esse foi o critério que a diretora adotou para abrir turmas para o ano seguinte. Por ter enfrentado junto com os professores, essas situações, a minha relação com o grupo estreitou- se e, de certo modo, favoreceu discussões para se pensar a escola e propor mudanças para 2007. O ano de 2007 começou com algumas mudanças em função tanto das demandas colocadas pelos professores no ano anterior quanto do projeto. A matriz curricular enviada pela SEME incluiu as disciplinas de Educação Física, Artes e Inglês. As aulas passaram a ser de 40 minutos. Fizemos a enturmação dos alunos sem separar os mais jovens dos mais velhos; passamos a registrar os conselhos de classe (não havia nada registrado sobre os alunos no pedagógico) e as ocorrências de indisciplina ou outras cujos registro entendíamos como necessário; fizemos um levantamento dos alunos faltosos para tentar rever a freqüência e a recuperação nas disciplinas (inclusive mobilizando, quando possível, as famílias dos mais jovens nesse compromisso). Na função de pedagoga da escola, de alguma forma aceitei e ajudei a fazer valer as propostas que chegaram da SEME. Essas propostas foram acolhidas pelo grupo com algumas polêmicas. No caso das aulas de 40 minutos, a discussão foi em torno das vantagens e desvantagens que teriam os alunos trabalhadores, os que chegavam mais tarde, pois perderiam as primeiras aulas. Alguns professores diziam que eles seriam prejudicados. Nosso argumento foi, em princípio, em relação ao “projeto da EJA” que previa o horário das 18h às 18h40min com ACCs (atividades individuais e/ou coletivas que levassem em conta os conhecimentos necessários aos 32 alunos para além dos muros da escola). Além disso, pudemos observar que os alunos que freqüentavam todas as aulas pareciam não ter atividade durante as primeiras, porque os que já estavam presentes aguardavam o horário limite de entrada dos que chegavam mais tarde. O caso de enturmar os alunos sem separar os mais jovens dos mais velhos foi bastante questionado. Alguns professores diziam que os mais jovens atrapalhavam porque tinham comportamentos, ritmos e desempenho diferentes aos mais velhos. Usamos alguns argumentos sobre o valor e a importância das interações como fatores que favorecem o desenvolvimento e a aprendizagem para todos, além de afirmar que, na vida e no mundo, não estamos separados desse modo. Vivemos e convivemos em vários contextos, o tempo todo articulando nossas diferenças de idade, gênero e outras. Nos momentos de discussão com os professores, eu percebia neles um desejo muito grande de se sentirem valorizados. De certo modo, a diretora vinha expressando preconceito sobre o ensino noturno: o noturno é “bico” para os professores. Ela vinha marcando em cima dos horários, dos planejamentos, circulava pelas salas observando os professores, e isso não passou despercebido a ninguém. Sua postura em relação à redução das turmas e sua fala infeliz no início de 2007 – para ela se não houvesse noturno na escola seria menos trabalho – gerou mais revolta ainda nos professores. Eu não me sentia menos revoltada, mas tentei mobilizar o grupo no sentido de desconsiderar os argumentos da diretora. Foram muitas discussões e desabafos, mas conseguimos estabelecer, minimamente, um clima de confiança e união no grupo. Discutimos sobre o fluxo dos alunos do noturno.13 Se muitos alunos procuravam a escola no início do ano - 290 matriculados no 1º bimestre; 281 no 2º bimestre; 218 no 3º bimestre e 117 no 4º bimestre - por que não permaneciam? Ou, melhor, por 13 Dados obtidos por meio do Movimento Bimestral de Matrícula – 2006, documento disponível na Secretaria da EMEF pesquisada. 33 que são tão poucos os que permanecem? Tivemos turmas com índices altíssimos de desistência: O que isso poderia estar sinalizando para nós? Obviamente que a questão não poderia ser colocada exclusivamente sobre os professores; era também um problema da escola. As questões sobre os conteúdos, o processo de ensino e aprendizagem e a organização da escola estavam colocadas também no projeto EJA e precisavam ser discutidas e assumidas por todos, porque somente juntos poderíamos pensar as alternativas possíveis para solucionar as dificuldades. Desse momento em diante, começamos a potencializar os horários de OCT para discutir os problemas do turno. Assim, muitas propostas foram colocadas em discussão: elaboração de normas para o noturno, com envolvimento dos alunos e das suas famílias, a serem socializadas na primeira semana de aula e no decorrer do bimestre; realização de reunião bimestral para os pais dos alunos menores de idade; acompanhamento da freqüência dos alunos a fim de ajudá-los a permanecerem na escola; dinamização das aulas e do turno com eventos culturais e exposição de trabalhos dos alunos na escola; participação dos alunos na OCT e na organização dos eventos por meio de representantes de turmas; potencialização no uso dos espaços, como a biblioteca, a sala de vídeo e o laboratório de informática; organização de critérios para a avaliação e para a semana de provas bimestrais (provão) entre outras propostas. Enfim, todos pareciam empenhar-se para que o noturno deixasse de ser o “porão” da escola. O lugar aonde não chegam informações, onde não se discutem com os profissionais assuntos de interesse de toda a escola, ou seja, o lugar praticado, o espaço de decisões e ações (CERTEAU, 2002). Não sem conflitos, não sem tensões, aos poucos fomos sendo marcados de um ou de outro modo pela e nessa rede de saberesfazerepoderes, mas é difícil estabelecer, isoladamente, se foi alguém, se foram alguns ou todos, com esta ou aquela postura, se foi uma ou outra norma ou todas, ou, ainda, se foram as burlas, as artimanhas dos alunos ou dos professores ,ou de todos que vieram influenciando para que, no decorrer do ano de 34 2007, as coisas fossem ajeitando- se. A escola continuou acontecendo, por quê? - Porque uma professora, por iniciativa própria, fez o mural da sala dos professores... - Porque outra se prontificou a ajudar na oficina de alfabetização, mesmo sendo professora de Geografia... - Porque todos os professores se cotizaram para que as professoras do primeiro segmento organizassem os aniversários de seus alunos, os chás de bebês para suas alunas, o jantar de Natal e de final de ano... - Porque a professora de Inglês, com experiência em alfabetização, ajudou na avaliação de leitura e escrita dos alunos... - Porque aquele professor “caladão” vez ou outra socializou uma atividade que estava dando certo com seus alunos... - Porque certa turma fez o mural da entrada da escola por conta de uma data importante que mereceu estudos e discussões... - Porque aquele professor homossexual questionou nas reuniões onde ficava o currículo humano da escola e, na hora do recreio, entre conversas sérias e brincadeiras, expôs sua orientação sexual, seu modo de ser e viver no mundo, desafiando os padrões e os padronizados ao nos dizer “tirem as suas máscaras”... - Porque aquela professora que tem um jeito especial de unir o grupo sabia da vida de todo mundo e estava sempre junto seja em festas, seja em velórios. Era espontânea, companheira e inspirava certa confiança, que levava todos a procurá-la como apoio para tudo... 35 - Porque aquele professor saiu em defesa de um colega em reunião ou num “batepapo”... - Porque os professores e os alunos inventaram táticas para enfrentar a pressão sobre seus horários de entrada e saída... Eram os eventos coletivos organizados no último horário, eram os dias de jogos do campeonato brasileiro, as festas do bairro ou eventos religiosos aos quais os alunos só poderiam comparecer se pudessem sair mais cedo... - Porque certo professor sugeriu ao grupo “fazer cera na hora da saída” para “sacanear” a coordenadora que só tocava o sinal às “nove e sessenta” e depois nos apressava para poder fechar as salas dos professores... - Porque aquela professora novata que, sentindo- se meio perdida no noturno, desejou sair da escola, mas foi ficando e se tornou uma das mais envolvidas em promover eventos culturais para os alunos... - Porque aquela professora deu um toque naquele colega que, absorvido com seu curso fora da escola, não vinha dando muita atenção ao sumiço de seus alunos... - Porque aquele outro professor era sempre chamado para resolver as brigas entre os alunos e saía da escola para conversar com pessoas estranhas que ficavam ameaçando os alunos do lado de fora... - Porque o professor do segundo segmento da disciplina de Matemática trouxe atividades de Matemática para a professora do primeiro segmento... - Porque o professor de Matemática quis olhar mais atentamente a xerox da atividade que a professora do inicial do primeiro segmento usou com seus alunos para também usar com alguns de seus alunos do inicial do segundo segmento que precisavam de reforço... - Porque uma professora priorizou, em sua prática pedagógica, a auto-estima de seus alunos e não mediu esforços para criar condições para que eles aprendessem, 36 por exemplo, a digitar no computador... - Porque aquela professora, prestes a se aposentar, vencendo todas as suas dificuldades, não abriu mão de aprender informática para ajudar e interagir com seus alunos no Laboratório de Informática da escola... - Porque alguns professores se sensibilizavam com os problemas dos alunos e, de alguma forma, tentavam ajudá-los (ajudavam os alunos com dificuldades orientando e explicando conteúdos de outras disciplinas durante seus horários de aulas ou fora deles, buscando a pedagoga para conversar com os alunos que estavam com problemas de relacionamento com outros alunos ou com outros professores, problemas no horário de trabalho, problemas familiares entre outros)... - Porque, apesar das dificuldades, os alunos e suas famílias criaram inúmeros vínculos com a escola, por acreditarem que ela poderia oferecer segurança e melhores condições para suas sobrevivências... - Entre tantos outros porquês... Não se tratou acontecendo, de entender apenas, pelas a escola iniciativas pessoais e individuais, nem de se pensar o voluntariado como a solução para os problemas ou dificuldades presentes nos cotidianos das escolas. Outrossim, foi uma tentativa de visibilizar algumas ações, muitas vezes, banalizadas ou ignoradas, que mantém a escola viva e vibrante. 1.3 “OLHARES” SOBRE OS SUJEITOS QUE PRATICAM O COTIDIANO DA EMEF Os alunos do noturno da escola são, em sua maioria, oriundos do diurno e têm um histórico social, escolar e familiar bastante problemático. O controle sobre a disciplina, especialmente no caso dos mais jovens, apareceu como uma questão 37 muito forte. Muitos estão envolvidos com drogas, com a Justiça ou com algum tipo de comportamento com o qual não se sabe bem como lidar. Com a morte da antiga pedagoga, começou a surgir um clima de preocupação muito grande entre os professores e os funcionários sobre a disciplina desses alunos. A diretora passou a ficar no noturno como uma referência de ordem e autoridade na escola e me pediu para circular no pátio durante o recreio. Esse passeio pelo pátio foi interessante, porque interagi mais com os alunos e conheci um pouco mais sobre suas vidas nesse espaçotempo. O controle sobre os espaçostempos praticados pelos professores, pelos alunos e funcionários não é menos rigoroso no ensino noturno. É grande a vigilância sobre os horários de entrada e saída, sobre os espaços da escola, como, por exemplo, a biblioteca (os alunos do noturno não podiam pegar livros emprestados), o auditório (um professor foi chamado à atenção por usar o local, com ar condicionado ligado, para estudar) e a sala de informática (os professores não podiam usá-la em seus horários livres, quando o mediador não estivesse lá). Depois de alguns questionamentos e usos desautorizados, no fim de 2006, a direção foi forçada a acatar mudanças. A bibliotecária organizou um acervo de livros para empréstimo aos alunos, e os professores passaram a usar a sala de informática em seus horários de planejamento, mesmo sem a presença do mediador. No ano de 2006, tivemos o caso de a diretora flagrar um aluno (14 anos) fumando maconha no canto dos fumantes. Ela chamou a família, entregou o bec e deu transferência ao aluno. A atitude foi em função de moralizar a escola. Foi uma situação chocante para nós diante da família. Houve um clima de tristeza e desânimo entre os professores e o CTA. 38 A diretora, geralmente tão fria e distante das pessoas e do noturno, chorou ao nos relatar sua atitude e sua angústia porque aquele era um problema que poderíamos enfrentar também com nossos filhos. Eu sabia que, com essa atitude, a diretora não estava ajudando nem o aluno nem a família e, ainda pior, estava transferindo o problema. Mas não havia outro jeito. Como agir diante de uma situação tão grave? Como ficaria sua autoridade e sua responsabilidade com a nossa segurança e a reputação da escola? Essa questão sobre drogas na escola é muito complicada, especialmente no noturno, porque recebemos muitos alunos com liberdade assistida pela Justiça em função desse e de outros problemas. Acredito que a diretora fez o que foi possível fazer e teve muito “jeito” para que o aluno não saísse zangado com ela. Enfrentamos a questão da violência, às vezes, sentindo-nos ameaçados. Tive um enfrentamento com um aluno (14 anos) transferido para o noturno porque agrediu fisicamente a coordenadora do vespertino. Por muitas vezes, ele insinuou que faria o mesmo comigo na frente de outros alunos, desafiando -me. Nesse dia, resolvi enfrentálo e perguntei-lhe se tinha medo e por que tentava me intimidar? Disse-lhe que no lugar de onde vim (Baixada Fluminense – Rio de Janeiro) aprendi com “bandidos”, “E olha que lá tem bandido, bicho!”, que “Quem tem cu tem medo”. “Eu tenho cu você não tem?” Foi uma atitude sem pensar, mas funcionou. Ele ficou desconcertado diante dos colegas que caíram na gargalhada e na gozação. O menino não soube o que dizer, ficou sem graça. Depois disso, chamei a família e, junto com a diretora e a coordenadora, fiz uma ocorrência registrando que qualquer atitude dele no sentido de nos agredir (CTA, professores ou alunos) seria denunciada à polícia e lhe daríamos transferência. Seu comportamento mudou. Passou a nos olhar de modo intrigante. Procurei aproximar- me dele com desculpas de querer saber por que ele faltava, para entregar-lhe o boletim com as notas e/ou questionar suas dificuldades em algumas disciplinas. Hoje esse aluno não nos assusta mais. 39 O número de adolescentes com menos de 15 anos no noturno chamou minha atenção. No início, achava uma situação ilegal, enfim, uma prática errada na escola. Como podiam aceitar crianças no noturno? Com o tempo, fui percebendo a necessidade de rever meus conceitos. Será que foi por causa daquela aluna (13 anos), pequenininha, parecida com uma índia? A que foi transferida do vespertino para o noturno por indisciplina, que muitas vezes era levada à nossa sala para conversarmos sobre o motivo pelo qual “barbarizava” os professores e os colegas com seus palavrões, aquela que, certo dia, gritando para o vigia abrir o portão, xingava muito. Ela teve que ouvir de mim, quando cheguei para resolver a situação, os mesmos palavrões repetidos em frente ao portão. Sem entender nada questionou- me se eu estava doida. Eu lhe respondi que também queria sair, mas que daquele jeito não estava funcionando, porque, talvez, dentro da escola, devêssemos usar outras palavras para que o vigia entendesse e pudesse atendernos. Sugeri que me ajudasse a lembrar as palavras certas e ela, entre gargalhadas, dizia “Tá bem, sua doida, por favor, pronto! Posso sair?”. A mesma menina que faltou muitas vezes às aulas, quando apareceu fiquei sabendo que estava presa na Unidade de Internação Provisória (UNIP), em Maruípe, local aonde esses jovens e adolescentes infratores são recolhidos para serem encaminhados ao Juizado de Menores ou ao Conselho Tutelar - depois de uma batida policial na “boca”. Quando retornou, me disse ter sido pega pelo artigo 175 (porte de arma), mas que, na verdade, a arma era do “cara” com quem estava morando. Ela não voltou para a escola no ano seguinte... Tivemos a notícia de que morreu assassinada com cinco tiros na cabeça. Ou será que Fo por causa daquela outra menina grávida, também de 13 anos, que veio para o ensino noturno porque a pedagoga do vespertino achou que a estava ajudando? Segundo a pedagoga do vespertino, a menina não se sentiria bem (nem seria uma boa “referência” no diurno), portanto, deveria passar para a noite. Ou terá sido a atitude da pedagoga do noturno, que eu tanto critiquei por aceitar a menina à noite e ilegalmente, mas que, já demonstrava sua sabedoria e sensibilidade sobre as 40 pessoas e suas vidas? Ou foi a mãe da menina que “disse” ter conseguido no Conselho Tutelar uma autorização para manter a menina no noturno, aquela tal autorização que nunca me entregou, mas me convenceu a esperar (estou esperando até hoje!) e, de certo modo, me forçou a dar um tempo para que sua filha me surpreendesse pela maturidade e responsabilidade com que cuidava do filhinho e dos estudos. Ou foram todas elas, que, de um jeito ou de outro, me fizeram pensar sobre a falta de políticas públicas, com relação à infância, que causam tanta desproteção aos infantes? No último dia de aula de 2006, encontrei um desses alunos que conseguimos trazer de volta para a escola. Era um desses lindos “moleques”. Negro, cheio de ginga e simpatia. Ele nos abraçou e, com um largo sorriso, declarou que tinha sido aprovado. Saí da escola com uma satisfação enorme. Nem o fato de saber que estava entrando em férias me deixou tão feliz! De volta à escola, no fim de janeiro, para reunião de pedagogos com o objetivo de organizarmos o início do ano letivo, eu soube que esse aluno tinha sido assassinado. Chorei muito por ele e por nós. Certo dia, fui procurada por um aluno que acabara de sair da aula de Educação Física e não havia encontrado a sua carteira deixada na arquibancada. Ele estava desesperado porque na carteira estava o cartão do banco que precisava utilizar para receber o pagamento. Pedi que me aguardasse na sala de aula. Movida pelo que ouvia dos colegas de certo aluno, embora sempre tivesse sido em tom de gozação, fui até a sala de aula dele e o chamei. Sem rodeios, mas sem tom de acusação, perguntei se ele havia “encontrado” a referida carteira e, caso o tivesse feito, se tinha observado que só havia documentos. Percebi, naquele momento, que apostava todas as cartas no bom relacionamento que tinha com ele. Eu sentia que ele gostava de mim. Simplesmente ele olhou para mim e, com a cabeça, fez um gesto afirmativo. Então, pedi-lhe para que a devolvesse e assim o assunto morreria ali. Ele devolveu. Eu disse para o aluno que tinha perdido a carteira que o vigia a havia encontrado na lixeira. O aluno que praticou o furto já havia sido preso por 41 assalto e pequenos furtos. Eu soube que, depois da prisão, ele vinha todos os anos para a escola, mas nunca concluía o período. Nesse ano, porém, ele vinha recebendo o apoio de sua namorada, uma aluna do conclusivo que chegara no ano anterior no noturno, grávida aos 13 anos. Todos comentavam com admiração o fato de ele “adotar” o filho da menina e de estar esforçando- se no estudo. Naquela mesma semana, esse aluno foi assassinado. Foi outra pancada que levamos! Convivemos com situações diversas, que influenciam a freqüência dos alunos. Uma aluna, uma senhora, disse- me que vai para a escola para fugir dos maus- tratos da filha. Outra está indo para a escola com intenção de tomar conta do filho adolescente (também aluno na escola) que está envolvendo- se com drogas. Outra não pode freqüentar a escola na sexta-feira porque é o dia em que o marido chega bêbado em casa e ela teme deixar sua filha de 10 anos sozinha com ele: ela teme abuso sexual. Outros alegam ter conseguido um trabalho temporário (época de eleição, época de pesca, construção civil,outros). É muito recorrente ouvir dos alunos que estão em campanha na Igreja e por isso faltam às aulas. Essas situações são difíceis para a escola dar conta. Há casos em que a iniciativa de liberarmos os alunos é minha, porque percebo que eles estão “doidões”, ou de liberar determinado professor, várias vezes, porque chegou bêbado na escola. E daí? Não é fácil agir achando que é possível resolver tudo friamente. Há muito mais coisas envolvidas nessas situações que não somos capazes de resolver. Essas experiências vividas cotidianamente foram direcionando meu “olhar” para os sujeitos praticantes da escola como protagonistas dos currículos, e, por conseqüência, protagonistas da sua formação: educadores e alunos que realizam a escola vivenciando as dificuldades que nela se encontram e as conquistas que ela favorece e deve favorecer. Voltei-me para esses atores do cotidiano, que fazem da escola um lugar vivo, cheio de surpresas, encantos e desencantos, o qual, embora 42 pareça sempre igual, é sempre um lugar novo. São aqueles que, por meio de táticas e burlas, se lançam, se arriscam e escapam do instituído. São nas palavras de Certeau (2002, p.100): Chamo de tática a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio [...]. A tática não tem lugar senão o do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. Não tem meios para se manter a si mesma, a distância, numa posição recuada, de previsão e de convocação própria: a tática é movimento “dentro do campo do inimigo”, [...] e no espaço por ele controlado. Ela não tem, portanto, a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto, visível e objetivável. Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as “ocasiões” e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. São os “fracos” nas relações de poder em que estão imersos, engenhosamente lançando mão das oportunidades, do tempo para sobreviverem. Desse modo, vão politizando as práticas cotidianas. 1.4 PERSONAGENS/ATORES DO COTIDIANO Alguns dos personagens/atores do cotidiano vão-se destacando por um modo ou outro inesperado de praticar a escola, causando- nos estranhamento e desafiando nossas lógicas sobre a escola, em especial, sobre a escola pública. Tínhamos um aluno que se dizia “emo”. Ele vestia-se com roupas, geralmente novas, pretas, roxas ou pintadas e rasgadas por ele, e seu andar era cadenciado e ritmado. Chegava depois das 19h e não ficava na escola depois do recreio (20h30min) de jeito nenhum. Em uma de nossas conversas, ele disse que ser “emo” é deixar fluir a emoção, é ser sensível. Ele se relacionava muito bem com todos na escola. Os professores expressavam preocupação e carinho por ele. Ao ser questionado sobre a escola e sua freqüência/ausência em algumas aulas, ele respondeu abraçando-me: “Tudo bem, 43 tia... eu tenho mesmo que terminar a 8ª... Ó, eu não fico porque tenho que desarmar as barracas na Praça dos Namorados de madrugada. Preciso desse ‘trampo’. Mas eu falei pra mulher lá que vou sair, só tô esperando chegar outro cara para ficar no meu lugar”. Até hoje esse aluno não retornou à escola. Temos um senhor/aluno em situação “ilegal”. Ele já terminou a 8ª série e insiste em continuar freqüentando a escola. Ele não admite que tenha concluído os estudos. Diz que não sabe ler e que precisa estudar mais. Não quer avançar para o Ensino Médio. A escola o mantém em condição especial, sem matrícula, com autorização do Conselho de Escola. Temos, entre os alunos considerados portadores de necessidades educativas especiais, um aluno que nunca falta às aulas e é muito popular na escola. Fala com todo mundo e circula pelo prédio com sua bolsa cheia de livros e cadernos. Certo dia de péssima freqüência dos alunos, perguntei a um determinado professor quantos alunos ele tinha naquele dia e ele respondeu: “Nenhum”. Outro professor, que ouvia nossa conversa, disse: “Tem o fulano”. Então, o professor respondeu rindo: “Mas o fulano é o fulano”. Eu perguntei: “Ms ele não é aluno?” O professor respondeu: “É, ‘pô’...” Se os professores do inicial, segundo segmento, não fossem para a sala de aula no horário, certa aluna da referida turma ficava esperando por eles na porta da sala dos professores em sinal de seus atrasos. Eles ficavam “pra morrer”! Uma aluna incomodava a turma, especialmente as meninas, porque na sala de aula se fazia de “santinha”, de “durona” com os rapazes, mas não media esforços para chamar a atenção deles e até dos professores, exibindo seus dotes femininos. Algumas alunas contaram-me que a submeteram ao “teste do barbante” (Pega-se um pedaço de barbante, mede-se o antebraço, corta-se de acordo com a medida 44 obtida, amarram-se as pontas e tenta-se passar pela cabeça até o pescoço. Se passar pela cabeça, a menina não é virgem). Elas queriam conferir a virgindade da menina e provar que ela não era virgem e, então, parasse de “se achar” melhor que as outras: “E olha que ela diz que é crente!”. Certo dia, essa aluna perguntou a um professor se ele estava olhando para suas pernas. O professor comentou na sala dos professores e, junto com outros que, de uma forma ou de outra, percebiam suas insinuações, pediram-nos para conversar e registrar uma ocorrência porque estavam temendo que ela, ao se sentir frustrada, pudesse acusá-los de assédio. Há um professor que está sempre faminto. Ele não pode ver alimentos na mesa que come tudo, não se importa se o alimento está velho, se falta alguém para comer. Até sobra ele carrega para sua casa. Todo muito faz gozação com ele, mas ele nem liga. Certa vez, ao me apresentar para um grupo de professores, disse: “Essa é nossa pedagoga, uma pessoa ‘inoxidável’ e ‘strogonófica’”. Foram muitas risadas. Quase tudo que ele diz se relaciona com comida. Certa cozinheira da escola circula entre os professores com a maior intimidade. Vive sorrindo e fazendo piadas com todo mundo. Demonstra estar sempre pensando “naquilo”. Sua descontração e alegria contagiam- nos. Quando ela chega à sala dos professores com o cafezinho, é uma festa. É a coordenadora que não estabelece nenhuma aproximação com os alunos a não ser no momento de barrar as alunas na entrada por conta de seus trajes curtos, ou os alunos porque estão usando o boné. Do mesmo modo, certo vigilante insiste em barrar na saída as senhoras ou senhores que saem mais cedo da escola. Isso revolta os alunos. Ele exige que os alunos adultos peçam autorização da coordenadora por escrito, por mais que já se lhetenha explicado para ele que os alunos adultos não precisam de autorização de ninguém. São esses alguns dos diferentes sujeitos que habitam o noturno da escola, em 45 processos de diferenciação – buscando o tempo todo suas identidades e especificações –, sujeitos híbridos (BHABHA, 1998), entre as propostas e os projetos que lhes são impostos e a realidade confusa em que estão imersos, tentando concretizar seus desejos e necessidades sociais. Com Bhabha (1998), entendi que o hibridismo é tanto uma condição (do discurso da autoridade) quanto um processo de negociação cultural (modo de apropriação e resistência). A partir dessa idéia de Bhabha é que começamos a pensar que os sujeitos que praticam a escola negociam seus conhecimentos e a sua formação/autoformação a fim de darem conta das dificuldades decorrentes dessas e da realidade confusa em que estão imersos, expressas pelas correlações de forças desiguais, no jogo do poder da autoridade instituída. Com Ferraço e suas pesquisas, venho entendendo as políticas governamentais e as propostas de inovações curriculares como tentativas em vão de buscar controlar e estabelecer um único caminho para o conhecimento. Essa investida é... “sumariamente e o tempo todo violada pelos movimentos das redes cotidianas de saberesfazerespoderes, produzindo danças e deslizamentos de significados impossíveis de serem previstos e controlados” (FERRAÇO, 2002, p. 17). 1.5 FRAGMENTOS DE DOCUMENTOS/PROJETOS E AÇÕES DESTINADAS AO ENSINO NOTURNO DE 2006 ATÉ 2007 1.5.1 Sobre o Projeto Político Pedagógico da Escola Busquei saber sobre o Projeto Político- Pedagógico (PPP) da escola (documento) na tentativa de encontrar pistas sobre a sua história, seus participantes e um pouco daquilo que foi traduzido como expectativas e concepções sobre a função social da escola, sua organização administrativa e pedagógica, sua proposta pedagógica, 46 projetos, currículo, espaço e tempo de estudo/formação, relação da escola com a comunidade e utopias. Também tentei encontrar no PPP as marcas deixadas pelo noturno porque, em várias situações, por exemplo na instituição da participação em eventos na escola fora do horário de trabalho, os professores o citaram, expressando desejo de reformulação. Realmente, o PPP foi escrito em 1999, reelaborado em 2001 e, devido aos novos contextos (nova diretora, novos professores e funcionários, novos projetos e programas da SEME, novos desejos e expectativas, velhos problemas...), carecia ser revisitado. Há nele, prescrições em e minha poucos opinião, muitas relatos de experiências. A participação do noturno no documento é genérica. Somente é mencionadaquanto aos horários, número de turmas, grade curricular e número de professores por carga horária. O PPP, como está, não contempla o ensino noturno em suas especificidades e diferenças. Por essas e outras, uma das propostas do noturno para 2007 era de ampliar a discussão e promover revisão do PPP. É bom lembrar que os assessores/SEME, no corrente ano de 2006, demonstraram expectativas, sobre as escolas especialmente, ao garantir a participação das escolas no Seminário de Avaliação do Ensino Noturno, realizado em novembro, no Hotel Canto do Sol, mas não interferiram efetivamente no processo dentro da escola. Também é verdade que sugeriam revisão do PPP com vistas ao projeto. O fato de não haver um PPP atualizado, a meu ver, não significa que a escola não tenha um projeto político-pedagógico. Existem movimentos de ensinoaprendizagem acontecendo o tempo todo. A questão que nos remete ao PPP é pensar junto com a escola como incluir no documento escrito as problematizações, as marcas, as alternativas inventadas cotidianamente que confirmam e potencializam processos educativos do ensino noturno, especialmente após a implantação, de fato e de direito, da EJA com a proposta de um “currículo em movimento”. 47 1.5.2 Sobre o Projeto de Reformulação do Ensino Noturno Regular para a Implantação da Modalidade EJA O projeto “A Educação de Jovens e Adultos no Ensino Noturno Regular”, foi apresentado para os profissionais do noturno pela SEME, em 2006, em reunião que antecedeu ao início do ano letivo nas escolas. Esse projeto, além de apresentar-se fundado no conceito de EJA, (re)articulado na V Conferência Internacional de Educação de Adulto (Confintea)14, e no princípio de uma educação que se “efetive ao longo da vida” ,tônica da Conferência Mundial de Educação para Todos (JONTIEN, 1990), apresenta-se também justificado no histórico de sua implantação legal15 e na complexidade de seu processo educativo, tendo em vista “[...] o grande quantitativo de jovens-adolescentes, às vezes com menos de 14 anos, que foram excluídos das unidades em que estudavam nos turnos matutino e vespertino e ‘depositados’ no noturno.” Uma pesquisa realizada pela SEME, no primeiro semestre de 2005, mostrou dados estatísticos de matrícula, evasão, reprovação e aprovação nas escolas, que possibilitaram reflexões acerca de como esse órgão e as escolas poderiam enfrentar essas problemáticas. O objetivo geral do projeto é assegurar com qualidade a oferta e a organização do ensino noturno regular aos jovens e adultos a partir dos 15 anos de idade. Aponta a reformulação do ensino noturno, tendo como referência os seguintes princípios: 1 Trabalho Coletivo Docente – inerente à formação do educador de jovens e adultos como possibilidade de ampliar os espaços de debate e realização docente. 14 A Declaração de Hamburgo é um documento produzido na V Conferência Internacional de Educação de Adultos, realizada na Alemanha em 1997 e promovida pela UNESCO. O Brasil é signatário dessa Declaração. 15 Para a implantação do Projeto, a SEME considera: A Constituição Federal no Art. 28; a Lei nº9394/96 nos Art. 3º, 4º, 34; no Parecer CNE/CEB nº05/97 que admite carga horária menor, desde que cumpridas as 800 horas anuais; na Lei 4747/98, que instituiu o Sistema Municipal de Ensino no Município de Vitória, especialmente seu Art.5º, incisos I e IV. 48 2 A Formação do Educador – relativa a cada especificidade e suas diferenças em relação à docência, em outros segmentos escolares, em processos de formação inicial e contínua.; 3 O Currículo em Movimento – concepções, trajetórias, heterogeneidades, tempos e saberes significativos que levam em consideração as práticas concretas e cotidianas; as diferenças geracionais, culturais, de gênero e étnicas; o tempo, reconhecendo e incorporando as experiências e saberes socialmente construídos em uma estrutura educacional pensada especificamente para eles; a construção curricular orientada a partir dos campos de conhecimentos: a) Linguagem: Português, Artes, Educação Física, Língua Estrangeira e Matemática; b) Ciências naturais: área de Biologia, Física, Química; c) Ciências Sociais: História, Geografia, Filosofia e Sociologia, e baseada nos três eixos estruturados nos critérios e em conformidade com os objetivos específicos: ciência (competência primeira da escola), cultura (local e universal) e engajamento social (permeando as discussões do trabalho e da saúde coletiva, que deverão compor o conjunto de saberes constituintes da proposta construída em cada Unidade Escolar). 4 Educação Inclusiva – postura inclusiva na flexibilização dos programas, critérios multidiretivos na abordagem dos conteúdos e diálogo com a Divisão da Educação Especial da SEME. 5 Avaliação Emancipatória – processo contínuo, sistemático e coletivo que possibilite aos alunos e educadores análise do processo ensino-aprendizagem. A avaliação do processo ensino-aprendizagem é proposta com orientações sobre a valorização dos saberes adquiridos nos diversos espaços educativos, a utilização de instrumentos e estratégias variadas e a criação de modos inventivos de avaliação que contemplem a produção acadêmica dos educandos e ressaltem a possibilidade de a escola estabelecer no PPP o direito, a progressão parcial e o avanço em conformidade com a Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996, tendo em vista a proposta de ampliação do tempo de duração do curso (fundamental); critérios para promoção; critérios para classificação, avanço e progressão parcial. 49 O projeto (PMV, 2005) trata da Organização e Funcionamento do Ensino Regular Noturno com vistas à EJA: • Oferecido em curso regular presencial com exigência mínima de 75% do total das 800 horas anuais. • Duração de seis anos assim distribuídos: 3 anos para o 1º segmento (1ª a 4ª série) e 3 anos para o 2º segmento (5ª a 8ª série). • Organização do currículo em função de equidade entre as áreas, das especificidades geracionais, sociais, culturais e das trajetórias escolares dos educandos, distribuídas em três etapas, ciclos ou módulos: inicial, intermediária e conclusiva no primeiro e segundo segmentos do ensino fundamenta. • Conteúdos curriculares tendo como referências o acúmulo teórico do campo da educação para pessoas jovens e adultas, as propostas curriculares para o primeiro e segundo segmentos do Ministério da Educação e Cultura (MEC), as Diretrizes Curriculares Nacionais para EJA e as Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental do Município (grifos nossos). • Certificação do ensino fundamental após conclusão da terceira etapa do segundo segmento. • Permanência do aluno em qualquer das etapas de acordo com seu ritmo de aprendizagem, possibilitando-lhe a conclusão do ensino fundamental independente da duração do curso. • Carga horária do educador correspondente a 30 horas semanais, sendo 75% dessas horas distribuídas em 4 h 30 min diários, 2 h 20 min reservadas para organização coletiva do trabalho da escola (OCT); 3h 40 min reservados para planejamento/atendimento e orientação das ACC’s; 16 h 40 min distribuídos em dezesseis aulas, 20 minutos para socialização e merenda ressalvados os casos de outras atividades (OA) desenvolvidas na escola, de acordo com o Plano de Ação de cada Unidade de Ensino, e 4 planejamentos (PL’s). O projeto, também, sugere como organização para os tempos nas Unidades Escolares : segundas e sextas- feiras, nos horários das 17h30min às 18h40min OCT; 50 terças e quintas-feiras ACC’s e aulas/socialização e merenda todos os dias, das 18h40min às 22h00. Na escola (2006/2007), ninguém falava muito sobre o projeto. Com ou sem consulta desse documento, as aulas iam acontecendo. A mudança efetiva foi sobre o administrativo (horários e nomenclaturas para as turmas). Percebi que o documento (projeto) enviado pela SEME podia oferecer algumas pistas para pensarmos o currículo: Por que será que esse material, que aparentemente está atualizado em suas proposições teóricas e sintonizado com algumas antigas expectativas dos professores, como, por exemplo, uma carga horária reduzida em sala de aula e maior tempo “livre” para planejamento e desenvolvimento de projetos, por si só, não mobiliza os professores? Igualmente percebi que os documentos prescritivos somente, embora válidos e necessários, não pareciam ser suficientes para nos dizer, e também aos professores, como usar nossos saberesfazerespoderes nas situações efêmeras do dia-a-dia que se iam apresentando. O movimento da escola era intenso e difícil de ser capturado, apenas a partir daquele documento. Havia muito mais coisas acontecendo dentro da escola que nos afetavam, nos impulsionavam. 1.5.3 A Dinâmica das ACCs e da OCT nos Cotidianos da Escola Tivemos que nos organizar diante da demanda das ACC’s, nos horários das 18h às 18h40min às terças, quartas e quintasfeiras e da OCT, nos horários das 17h30min às 18h, todas as segundas e sextas- feiras. 51 Os espaços e os tempos precisavam ser redimensionados. Anteriormente, às 18h começavam as aulas e na turma em que entrava, o professor ficava até a última aula. Se, por um lado, isso atendia aos alunos trabalhadores, que chegavam mais tarde, porque o professor passava um exercício e aguardava até aproximadamente às 18h30min para continuar a desenvolver as atividades; por outro lado, como apontado na fala de alguns educadores da escola, era um tédio para os alunos mais jovens não trabalhadores, que eram obrigados a chegar cedo e ficar na sala de aula sem poder avançar nas atividades. É bom lembrar que, com a implantação do Projeto (2005), foi necessário o retorno às aulas de 40 minutos a fim de realizarmos os horários de ACC’s e OCT, o que dividiu a opinião de alguns professores e alunos. Nesse sentido, em conformidade com a proposta de ACC’s (atividades em forma de projetos de estudo, oficinas e outros) para atender os alunos que chegavam mais cedo e de OCT como momento para pensarmos a escola juntos, foram exigidas de nós algumas medidas como elaboração de projetos e oficinas para os alunos nas ACC’s e definição do horário para reunião com os professores. Apesar das propostas de projetos e oficinas, o horário de ACC’s continuava a ser momento de espera pelos alunos. Os poucos que chegavam eram “assistidos” pelos professores geralmente com alguma atividade pontual. Tentamos incluir os alunos nos momentos de OCT, por meio da participação dos líderes de turmas, mas não obtivemos sucesso. Acreditamos que o horário das reuniões (das 17h às 18h40min toda quinta-feira) e o fato de os líderes de turmas serem alunos adultos e trabalhadores e não poderem chegar a tempo foram fatores determinantes do fracasso ou inoperância no processo 52 As ACCs vêm acontecendo como aulas pontuais ou de reforço. Não houve iniciativa de realização das sugestões e/ou das propostas de trabalho com projetos e/ou oficinas, talvez porque, conforme a primeira orientação dos assessores da EJA, não houvessenecessidade de registrar em pauta essas atividades. Porém, no início do terceiro bimestre, tivemos que refazer os registros porque os assessores perceberam que o não-registro implicava o comprometimento da carga horária do aluno (não fomos orientados corretamente). Quem havia feito alguma coisa, para além da revisão dos temas/conteúdos, tinha o que registrar, e, quem não tinha feito, também registrou “alguma coisa” para constar. 1.5.4 Sobre a Política de Formação Continuada para os Profissionais da Educação do Sistema Municipal de Ensino de Vitória – Versão Preliminar/2007 No início de 2007, o calendário escolar oficial trazia em seu bojo datas previstas para Formação Continuada na Escola (FCE) com algumas exigências: a escola deveria encaminhar à SEME suas propostas/temas sobre o que se estudaria/discutiria nesses momentos e, a menos que se justificasse oficialmente, não poderia mudar as datas do calendário. Caso houvesse mudanças, essas deveriam ser dentro do mês referido da data anterior. Na escola, questionamos as anteriores formações por áreas. Elas não aconteceriam mais? As formações por áreas estavam sendo formações substituídas feitas pela/na por essas escola? Entendemos que os momentos de formação por áreas intraescolares também se constituem como espaçostempos significativos de formação. Tendo em vistas essas e outras questões colocadas pelas escolas, os CTAs foram chamados para uma reunião de esclarecimento. Na oportunidade, conheceram o documento supracitado, para que o socializassem na escola com os professores, 53 ainda em fevereiro de 2007. Na reunião, ficamos sabendo que as formações por áreas se incluíam no projeto, porém estava sendo pensada sua efetivação pela Gerência de Formação e Desenvolvimento em Educação (GFDE). De fato, segundo o documento, em seu objetivo maior da política de formação, a saber, o empoderamento16 dos sujeitos em seus contextos de atuação, os processos de formação encaminhados pela SEME deveriam: a) respeitar a organização interna das escolas por meio de articulação entre os eventos, evitando superposições; b) ser acompanhados e avaliados, numa perspectiva propositiva, por um Fórum permanente de formação, composto por representantes dos diferentes segmentos dos profissionais da educação; c) ocorrer em diferentes espaçostempos, a saber: • nas unidades de ensino; • nos espaços coletivos interescolares garantidos pela SEME; • no Núcleo de Estudos e Pesquisa em Educação (NEP). Pois bem, constatamos que as formações por áreas como espaços coletivos e 16 O documento, em seu conteúdo, trazia definição de Scavino (2000, p. 46-47) para empoderamento: a perspectiva do empoderamento propõe potencializar grupos ou pessoas que tiveram sua ação político-social limitada por processos sociais, políticos, econômicos e culturais hegemônicos em cada momento histórico. Nesse sentido, o empoderamento tem duas dimensões: a pessoal e a social. A dimensão pessoal está diretamente ligada à potencialização do próprio ser, integrando os aspectos cognitivos, criatividade, autoconceito, auto-estima e confiança nas suas potencialidades. A segunda dimensão está articulada com os mecanismos de participação e organização. Segundo essa autora, o empoderamento, tanto pessoal quanto social, é promovido por processos formativos que fortalecem as capacidades dos sujeitos - individuais e coletivos em todas as instâncias para as tomadas de decisões. 54 interescolares estavam indicadas, mas ainda não previstas. Sobre a formação continuada nas unidades de ensino, sem entrar na questão de mérito, percebemos como mais uma demanda imediata colocada sobre a escola, sendo pressionada mediante a avaliação. No documento havia itens prescritivos sobre a responsabilidade da escola em garantir no calendário a FCE, buscar parcerias e articular seu coletivo para elaborá-la, certificar, registrar e arquivar freqüências. Em outro item, determinava que a escola encaminhasse à SEME/GFDE, no prazo estipulado, o relatório das formações ocorridas. Sobre as outras propostas de formação, por serem atribuições da SEME/GFDE, deveríamos aguardar. Estavam em processo. Na escola, no nosso primeiro encontro de FCE (previsto no calendário), não foi possível focar nossas “problematizações, necessidades e desejos”. Talvez tenhamos até contemplado as necessidades do CTA, visto que era preciso socializar o referido documento de políticas de formação da SEME e, também, por discutir sobre uma nova ação que o noturno precisava desenvolver por indicação da SEME, ainda no início do ano em curso: AVALIAÇÃO DE LEITURA E ESCRITA de todos os alunos de 1ª a 8ª séries, digo, do primeiro ao segundo segmento do ensino noturno. Os encontros para formações na escola têm acontecido, mas as reuniões por áreas só começaram no terceiro bimestre. Na escola, temos priorizado a revisão do PPP e algumas questões específicas do turno, como a avaliação, por exemplo. Nas reuniões de área, o tema foi primeiramente direcionado para a “sustentabilidade”, com vistas à Mostra Cultural e Científica e à Tribuna das Comunidades, eventos dos quais as escolas deveriam participar. A nossa escola, entre outras, questionou a formação prioritária nas as áreas de Ciências e Artes. 55 Pareceu-nos muito apropriada a reunião dessas áreas, uma vez que o interesse da SEME se voltava para os eventos que ocorreriam em setembro. Os professores de Ciências sentiram-se pressionados a desenvolver, no coletivo escolar, projetos sobre o tema predeterminado, e os de Artes sentiram-se pressionados a desenhar a estética dos trabalhos a serem apresentados. O noturno não quis participar desses eventos. Alguns professores disseram que não iriam contribuir para o “Ibope” da PMV. 1.5.5 Sobre a Avaliação de Leitura e Escrita no Noturno/2007 Recebemos, na escola, um outro documento que, versando sobre a “Política Educacional do Município de Vitória” e seus programas de Governo para a “Universalização do Acesso ao Ensino Fundamental com Qualidade”, sugeria a necessidade de enfocar a alfabetização nesse processo. Assim, a SEME encaminhou para as escolas a solicitação de uma avaliação diagnóstica dos alunos, com o intuito de conhecer o que eles sabiam a respeito do sistema de escrita, para, a partir de então, planejar adequadamente o trabalho pedagógico e buscar parcerias necessárias diante das singularidades dos sujeitos e da realidade escolar. Também encaminhou um esquema com um “quadro síntese da turma” para ser preenchido e devolvido. Há algum tempo trabalho com os processos de alfabetização e, em minha parca experiência, naquele quadro síntese, li toda uma concepção construtivista (nos moldes do Programa PROFA) sobre a alfabetização. Não é o caso de entrar nessa discussão. É apenas uma observação, tendo em vista também que o instrumento direcionava a avaliação. 56 Outra questão colocava-se a partir da demanda da SEME: Quem faria essa avaliação no segundo segmento? Como nós faríamos isso na prática? Foi um momento de negociações com o grupo. Nesses dois dias de FCE, tivemos que dar conta de discutir com os professores sobre alfabetização e encaminhar o processo de avaliação diagnóstica. Após muitos embates, combinamos que os professores iriam elaborar e aplicar instrumentos de acordo com as expectativas de leitura e escrita para cada turma. Seríamos parceiros no processo de avaliar e tabular os dados. Os professores, por serem obviamente em maior número que as turmas, agruparamse para concluir a empreitada, e estão até hoje aguardando as ações da SEME sobre a questão da alfabetização e sobre as respectivas análises. 1.5.6 Sobre os Horários de Planejamentos (PL’s) As propostas proporcionaram do projeto flexibilização da (2005) matriz curricular e a inclusão de Artes, Inglês e Educação Física na carga horária dos alunos do primeiro segmento (1ª a 4ª série). Com isso, ficou planejamento garantido o dos/com os horário de professores dessas séries, o que não era feito em 2006. Mais uma vez a questão da inclusão dessas disciplinas no primeiro segmento aparece como uma solução técnica administrativa e não como uma alternativa pedagógica em busca das contribuições que elas poderiam acrescentar ao processo de ensinoaprendizagem dos alunos das turmas iniciais do ensino fundamental, uma vez que os trabalhos de Artes, Educação Física e Inglês se tornavam pontuais e descontextualizados do trabalho do professor regente. 57 Contudo, só era possível socializarmos com as professoras do primeiro segmento alguns saberes, dúvidas e alternativas para tentarmos ampliar as possibilidades do ensino e das aprendizagens dos alunos nesses momentos. 1.6 SOBRE A NOVA PROPOSTA DA SEME AO FINAL DE 2007 Ao final de 2007, a Secretaria resolveu propor às escolas “operacionalizar”, no ano de 2008, a modalidade EJA em sua especificidade, tornando-a obrigatória para o primeiro segmento (1ª a 4ª série) e “opcional” para o segundo segmento (5ª a 8ª série). Isso porque a modalidade propriamente dita (seguindo todos os princípios pedagógicos e de organização curricular que lhes são próprios) estava sendo realizada, em caráter experimental, em apenas uma escola e também no Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (NEJA) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Acontece que, em 2007, foi feita uma “parceria” entre o NEJA e a Coordenação da Educação de Jovens e Adultos (CEJA) da SEME. Até onde consegui me informar, a idéia caminhou em dois sentidos: primeiro, para que fosse possível certificar os alunos do NEJA, inclusive na segunda fase do ensino fundamental, seria necessário que esses alunos, embora freqüentassem o espaço do matriculados NEJA numa na UFES, escola da fossem Rede Municipal de Ensino de Vitória. Nesse sentido, fez-se necessária uma seleção17 entre os professores do noturno para atuarem no NEJA com extensão de carga horária (o NEJA funciona à tarde); segundo, porque esses professores, a partir dessa experiência, “funcionariam” como 17 Esse processo de seleção foi ao final de 2006 e teve um caráter interno e informal. Ou seja, não passou pela administração. A equipe da CEJA divulgou o processo por meio dos assessores que “acompanham” as escolas no noturno. O critério de inscrição foi o professor procurar a equipe da CEJA levando um memorial, justificando seu desejo de participar dessa experiência. Os professores selecionados pela equipe da CEJA, inclusive um da escola em que realizei a pesquisa, passaram a atuar em 2007 no NEJA. 58 multiplicadores nas outras escolas. A justificativa inicial dada pelos assessores da SEME sobre a escola “poder escolher” se, a partir de 2008, implantaria ou não a modalidade no segundo segmento, foi encarada pela escola na certeza de que a equipe da CEJA esbarraria na resistência dos professores (especialistas em suas disciplinas) em se adaptarem a uma nova forma de atuação que rompesse com a disciplinarização. Os professores do segundo segmento que fossem atuar na EJA deveriam transitar pelos campos de conhecimento em todas as turmas do ensino fundamental (1ª a 8ª série), e isso talvez demandasse maior tempo de convencimento, de formação. Na escola, entendemos que, se havia um interesse do Sistema em implantar a modalidade EJA, especialmente no noturno, não era uma questão de escolha; era uma imposição e mais um desafio para os professores! Nesse mesmo tempo, a SEME determinou um enxugamento no número de professores do noturno. As escolas só poderiam manter a quantidade de professores de acordo com a oferta/abertura de turmas previstas para 2008. Essa relação, quantidade de professores e número de turmas, seguiu uma tabela que foi encaminhada para as escolas. Não houve explicação sobre os critérios que foram usados pela Secretaria, mas entendeu-se que a quantidade de professores por escola estava sendo reduzido pelo fato de eles terem de atuar também em disciplinas que não eram necessariamente as suas. A definição de qual professor iria ficar e qual iria sair da escola para quebrar carga horária ou mudar de turno ficou a cargo das escolas, sugerindo-se que se observasse o “perfil” do professor para atuar com a EJA. Que perfil seria esse? Quem definiria? Como nós poderíamos dizer quem ficaria e quem sairia? Qual seria a legalidade disso? Ocorreu que a SEME, baseada no número de alunos do noturno – que é menor que o número de alunos do diurno – argumentou ser necessário este remanejamento de professores dentro do próprio turno (quebrando as cargas horárias em duas ou mais escolas ou transferindo-os para o diurno) por uma questão de “responsabilidade com os investimentos públicos” no enfrentamento da falta de professores na Rede Municipal de Ensino de Vitória. Isso gerou uma grande confusão entre os professores. Até o Sindicado dos Professores do Espírito Santo (Sindiupes) 59 envolveu- se para verificar as questões legais desse processo, inclusive, a questão de professores de 5ª a 8ª série terem de atuar de 1ª a 4ª série nos moldes do já referido projeto (PMV, 2007). Começou-se a dizer que a implantação da modalidade e esse enxugamento dos postos de trabalho do noturno implicavam uma mesma política (neoliberal) perversa e discriminatória da PMV com relação aos professores do noturno. Enfim, entre os discursos calorosos sobre a modalidade e os discursos desconfiados com as ações da SEME, a nossa escola “optou” pela EJA, não tendo ficado muito claro se optávamos porque acreditávamos na EJA e aceitávamos aquele desafio, ou se estávamos querendo garantir nossos postos de trabalho. Assim, encerramos o ano de 2007 cheios de ansiedades e receios em relação ao ano de 2008. Quanto mais eu vivia esse movimento cotidiano na/da escola, tanto mais me preocupava em como visibilizá-lo na pesquisa. E mais articulações iam surgindo... 1.7 ALGUNS CAMINHOS METODOLÓGICOS PERCORRIDOS Inicialmente, embora não percebesse de imediato, ao chegar à EMEF, eu já realizava os primeiros movimentos de pesquisa nos/dos/com os cotidianos. Ao me envolver e me deixar envolver por tudo que acontecia nela, tentar dialogar, entender junto com os meus pares todo o processo da implantação da modalidade, eu já seguia as orientações de Garcia (2003) na pesquisa nos/dos/com os cotidianos, quanto à “importância de nos colocarmos como sujeitos que pesquisam em diálogo com os sujeitos pesquisados porque esses dois sujeitos pesquisam suas próprias práticas, no sentido de tecerem novos conhecimentos sobre os processos ensinoaprendizagens e sobre o processo de pesquisa propriamente” (GARCIA, 2003, p. 13, grifos da autora). O meu desejo de pesquisar os cotidianos da escola foi-se delineando desde a minha 60 chegada à EMEF e foi-se tornando mais evidente para mim quando percebi a necessidade de entender os movimentos que os professores faziam no sentido de traduzir/negociar as propostas em que estavam imersos no cotidiano escolar. Quando me decidi, encaminhei à SEME meu pedido de autorização para a referida pesquisa na escola, deixando explícito o meu propósito. Eu tentava ficar atenta a tudo o que acontecia em todos os espaçostempos dentro da escola. Observava, lia e estudava os documentos da escola, e (a melhor parte!) participava de muitas conversas na sala dos professores. Até quando estavam em aulas ou em planejamentos, vez ou outra, eu inventava uma desculpa qualquer e me juntava a eles. Também quando atendia os pais e os alunos, ou quando estava nos corredores, no refeitório, no pátio ou na secretaria (integrada à sala da direção). Eu não conseguia ficar dentro da sala do pedagogo sozinha, a não ser quando se tratava de resolver ou realizar um trabalho que era só meu, da função. Era o “sentimento de mundo” sobre o qual Alves e Garcia nos ensinam: [...] as atividades do cotidiano escolar ou do cotidiano de modo geral exige que estejamos dispostos/as a ver além daquilo que os outros já viram e muito mais: que sejamos capazes de mergulhar inteiramente em uma determinada realidade, captando sutilezas sonoras, sentindo a variedade de saberes, tocando coisas e pessoas e nos deixando tocar por elas, cheirando os cheiros que estão em cada ponto do nosso caminho diário e aprendendo a ler o corpo, este desconhecido, que tantos sinais incompreensíveis nos dá (ALVES; GARCIA, 1997). A pesquisa nos/dos/com o cotidiano é um movimento metodológico teórico, que epistemológico remexe e nossas concepções. Se antes eu pensava que a teoria iluminava a prática, agora eu via que a prática pensa a prática e a confronta com a teoria para legitimá-la ou negá-la se for preciso. Foi um movimento de virar de ponta-cabeça minhas idéias sobre a pesquisa e a prática. Esse movimento fez-me compreender que as teorias fundadas a partir do paradigma científico moderno não podem tudo. Nem tudo se consegue explicar com a aplicação 61 de uma teoria. Tratou-se de passar a considerar a prática também como critério de verdade, pois é ela que legitima a teoria e não o contrário. Não se tratou de desvalorizar as teorias. Foi um deslocamento, um ressignificar a teoria a partir da prática e não o contrário. Esse movimento mexe com as nossas concepções sobre o conhecimento, as possibilidades de sua criação e a relação entre teoria e prática na pesquisa e na vida cotidiana. Nesse movimento, nesse “mergulho” nos cotidianos da escola, tentando apreender um outro “sentir”, o “espaçotempo” da escola, meu maior desafio foi perceber os processos de diferenciação que se deflagravam nas múltiplas situações de ensinoaprendizagens dos sujeitos envolvidos no processo de implantação do projeto. Eu tentava captar a lógica dos cotidianos, nas maneiras e nos modos como os sujeitos iam ressignificando aquele projeto. E não era tarefa fácil. Como diz Certeau (1994, p. 41): Essas “maneiras de fazer” constituem as mil práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sóciocultural. [...], porque se trata de distinguir as operações quase microbianas que proliferam no seio das estruturas tecnocráticas e alteram o seu funcionamento por uma multiplicidade de “táticas” articuladas sobre os “detalhes” do cotidiano; contrárias por não se tratar mais de precisar como a violência da ordem se transforma em tecnologia disciplinar, mas de exumar as formas sub-reptícias que são assumidas pela criatividade dispersa, tática e bricoladora dos grupos ou dos indivíduos presos nas redes da “vigilância”. Nos cotidianos, transitamos por todas as “racionalidades”. As hipóteses que elaboramos sobre nossos problemas diários são entremeadas por tantos saberes quantos nos foi possível conectar e com eles interagir. Contudo, na maioria das vezes, negamos o movimento dessas lógicas que juntam os saberes, os fatos, as experiências, os modos e meios de fazer, e insistimos em um caminhar pelos caminhos que nos ensinaram: o de separar, dividir, classificar os saberes e os modos de fazer para entender. 62 Também Alves (2001) em muito nos ajudou a pensar essa aproximação do pesquisador com o espaçotempo da pesquisa. É importante que o pesquisador desenvolva uma postura humilde e comprometida e se proponha a sentir o mundo e a se envolver nele; não se coloque apenas a observá-lo do alto e de longe. Para tentar entender as lógicas do cotidiano, é preciso estar mergulhado nelas e correr todos os riscos. Não se trata de uma empreitada fácil porque é difícil romper com as formas/esquemas com os quais aprendemos a pensar. Para olhar e ver na escola as práticas curriculares que iam deflagrando processos de diferenciação a partir das redes de saberesfazeresepoderes, estando totalmente envolvida, segui, também, as recomendações de Ferraço: Parece-nos interessante a idéia de que nos estudos e pesquisas “com” os cotidianos se mostra fundamental a dimensão “do lugar”, “do habitado”, “do praticado” “do vivido”, “do usado” como defendem Certeau (1994, 1996) e Lefebvre (1983, 1991). Os estudos “com” os cotidianos acontecem em meio ao que está sendo feito. Expressam o “entremeado” das relações das redes cotidianas, nos diferentes espaçostempos vividos pelos sujeitos cotidianos. Acontecem nos processos de tessitura e contaminação dessas redes (FERRAÇO, 2003, p. 163). A opção pela pesquisa no/do/com o cotidiano já era uma coisa que eu buscava, mesmo nos meus equívocos de pensar binariamente o “lugar” da professora, que pratica a escola, e o “lugar” do pesquisador, que pratica o discurso científico. O movimento seguinte foi o de ir ao encontro da necessidade de romper com o pensamento ocidental dominante, que, na sua forma de entender a quantitativos realidade, e a a fatos reduz a passíveis dados de generalização. “Beber em todas as fontes” 63 significou ampliar e complexificar o que eu vinha entendendo como fonte para tentar aproximar-me da realidade. Foi preciso buscar várias fontes para transitar nessas relações e interações cotidianas. Alves (2001) declara: [...] para além daquilo que pode ser grupado e contado (no sentido numerado), como antes aprendemos, vai interessar aquilo que é “contado” (pela voz que diz) pela memória [...]; pelo documento [...]; a fotografia [...] (ALVES, 2001, p. 27) A pesquisa nos/dos/com o cotidiano requer estar atento a ações, atitudes, gestos, palavras, conversas, materiais, documentos citados e/ou usados astuciosamente pelos professores e alunos; significa refinar os sentidos para olhar e ver, tocar e sentir o que é sempre novo e diferente, sendo, aparentemente, apenas repetição. Nos cotidianos, o que é aparentemente homogêneo e repetitivo na verdade está repleto daquilo que é também diferente, múltiplo, diverso. Buscamos o rigor da pesquisa tentando justamente não ignorar nada. Tudo o que encontramos nos cotidianos de forma visível e invisível foi tomado como fonte de dados para a pesquisa. Documentos, bilhetes, murais, livros, fotografias, filmagens, as vozes, os silêncios, as conversas, os espaços, os lugares, as surpresas, os sustos, as risadas, os choros, os corpos, os objetos, as histórias, as narrativas, os relatos e tudo o mais que estava nas redes de saberesfazerespoderes em constante movimento no cotidiano. Eu tentava não deixar escapar nada. Eu procurava os indícios, pistas, que me aproximassem da realidade que eu experimentava (GINZBURG, 1989, p. 152) e, nesse sentido, Esteban (2003) teve algo a dizer: O rigor flexível trabalha com a decifração das marcas e com a adivinhação de seus sentidos. Processos que se articulam na análise detalhada que o/a pesquisador/a realiza para examinar as pistas e produzir significados no âmbito da pesquisa. Processos que ajudam o/a pesquisador/a a encontrar o desconhecido a partir do conhecido e para isso requer minucioso exame do real, ainda que corriqueiro, para desvendar os traços dos eventos os quais o observador não pode experienciar diretamente (ESTEBAN, 2003, p. 211). 64 Claro que nem tudo que vivi e/ou produzi como dados usado/analisado foi possível nos limites de ser desta dissertação. Mas, mesmo assim, esse movimento de querer “mergulhar de cabeça” no cotidiano foi de fundamental importância para o exercício da pesquisa no/do/com o cotidiano. Quando se pesquisa o movimento cotidiano e as experiências que nele vão acontecendo, percebe-se que alguns procedimentos metodológicos legitimados pelas ciências naturais não são suficientes para descrevê-los ou explicá-los. O movimento cotidiano é efêmero, escapa de enquadramentos e generalizações. Contudo, é uma realidade passível de algumas aproximações, basta conseguirmos enxergar seus sinais. Nessa empreitada, tentei também seguir meu instinto, meus sentidos... Outro desafio nesse percurso foi dar uma forma a este texto. As palavras que apareceram insistiram em chegar trazendo algumas das minhas reflexões/ memórias/narrativas. Talvez quisessem dizer das narrativas dos professores, entre os quais também me incluo o tempo todo. Talvez quisessem dizer palavras que querem ser ouvidas, palavras dos que fazem no dia-a-dia a escola acontecer. Talvez quisessem ser metade minha e metade de outros... Ou apenas quisessem fazer- me aceitar o convite de Alves, que, apoiada em idéias de Certeau, nos convida a narrar as histórias que vivemos em nossas pesquisas, não no sentido que marcou a historicidade clássica – sentido de criar um espaço de ficção, mas no sentido de nos aproximarmos da realidade e esta, de toda uma conjuntura mais ampla (ALVES, 2001, p. 30-31). A narrativa tornou-se meu campo de análise porque as experiências cotidianas estão inscritas na tradição oral, como algo próprio do espaçotempo escolar e dos sujeitos que buscam a sua história nas diversas redes às 65 quais pertencem. Nesse processo da pesquisa, ora eu me via como o narrador, que conta as histórias de vida dos sujeitos, ora eu ouvia e compartilhava experiências vividas com tantos outros narradores “[...] que na arte de contar as maneiras de fazer, estas se exercem por si mesmas” (CERTEAU, 1994, p. 166). Imersos no cotidiano de nossas escolas, estamos inscritos na narrativa quando mostramos e contamos nossas histórias, fazeres cotidianos, expressando saberes de ações pautadas principalmente nas experiências do vivido. Entendemos que somos “narradores praticantes” das múltiplas histórias contadas e vividas no cotidiano, porque percebemos a escola como espaçotempo de contar e criar histórias, viver experiências, ressignificar o que já foi dado e falado sobre a educação. Como observam Alves e Garcia (2002, p. 274 -277): É preciso que incorporemos a idéia que, ao dizer uma história, somos “narradores praticantes”, traçando/trançando as redes dos múltiplos relatos que chegaram/chegam até nós, neles inserindo, sempre, o fio do nosso modo próprio de contar. Exercemos, assim, a “arte de contar histórias”, tão importante para quem vive o cotidiano do “aprenderensinar”. Buscamos acrescentar ao grande prazer de contar histórias, o também prazeroso ato da pertinência do que é científico. É possível? Bem, se outros e outras fizeram antes de nós e continuam fazendo, por que não?... Nesses “espaçostempos” cotidianos, a cultura narrativa tem grande importância por garantir formas, de certa maneira, duradouras aos conhecimentos, por poderem ser repetidas e recriadas, isto porque, embora, naturalmente, tenham um conteúdo que não garante a sua fixação, permitem uma ressignificação, uma história diferente das que conhecemos em relação aos conhecimentos científicos ou políticos oficiais, que são sobretudo escritos. As narrativas dos professores em contato com as memórias cotidianas possibilitaram-me contar uma das histórias (no sentido benjaminiano) da escola e das nossas práticas curriculares. Essa história tenta expressar a minha responsabilidade com a pesquisa e com as pessoas que participaram dela e, também, meu desejo de que a arte de contar história/pesquisa não seja uma arte em esquecimento. Nesse sentido, venho reafirmando minha opção metodológica pelas pesquisas no/do/com o cotidiano porque “[...] o que de fato interessa nas pesquisas nos/do/com 66 os cotidianos são as pessoas, os praticantes, como chama Certeau (1994) porque as vê em atos, o tempo todo [...]” (ALVES, 2002, p. 6). E a vida, as pessoas seguiam o rumo da espera, das expectativas sobre o ano que se aproximava... 1.8 IDENTIFICAÇÃO E DESCRIÇÃO DE ALGUMAS MUDANÇAS NA ATUAL PROPOSTA POLÍTICA DA SEME PARA O ENSINO NOTURNO COM A IMPLANTAÇÃO EFETIVA DA MODALIDADE EJA NO SISTEMA DE ENSINO DE VITÓRIA A PARTIR DE 2008 O documento mencionado passou, então, a fazer parte da minha pesquisa. Por isso aproximei-me de alguns fragmentos, recortes que dizem respeito à sua organização curricular e que, a meu ver, esboçam o “currículo em movimento” em seu princípio filosófico, epistemológico, como proposta da PMV/SEME para o ensino noturno na implantação, agora efetiva, da modalidade EJA, em 2008. Prescrições que desencadearam alguns “movimentos” dos quais venho participando no cotidiano da EMEF, também por entendê-lo como “lugar” de enunciação sobre o ser professor de EJA, movendo-os a traduções/negociações e engendrando subjetividades sobre como se é ou se deve ser professor da EJA. FRAGMENTOS DO DOCUMENTO QUE CHEGOU ÀS ESCOLAS AO INÍCIO DE 2008: A MODALIDADE EJA: Quais sujeitos ela atende? São homens e mulheres, trabalhadores/as empregados/as e desempregados/as ou em busca do primeiro emprego; filhos, pais e mães; moradores urbanos de periferias, favelas e vilas. São sujeitos sociais e culturais, marginalizados nas esferas socioeconômicas e educacionais, privados do aceso à cultura letrada e aos bens culturais e sociais, comprometendo uma participação mais efetiva no mundo do trabalho, da política e da cultura. Invariavelmente, migram das zonas rurais, vivem no 67 mundo urbano, industrializado, burocratizado e escolarizado, e em geral trabalham em ocupações não-qualificadas. Trazem a marca da exclusão social, mas são sujeitos do tempo presente e do tempo futuro, formados pelas memórias que os constituem enquanto seres temporais. (PMV, 2008, p. 6). A OFERTA EDUCACIONAL PARA JOVENS E ADULTOS EM VITÓRIA: O projeto está em fase de implantação desde 2006, como projeto experimental. No final de 2007 (05/12/2007), o Conselho Municipal de Educação (COMEV) aponta o referido projeto em caráter definitivo. O acúmulo neste período de implantação faz com que a Coordenação da Educação de Jovens e Adultos da Secretaria Municipal de Vitória considere o referido projeto como uma transição natural para a implementação da modalidade EJA em nossa capital. Essa leitura assenta-se em alguns elementos: 1º) toda a fundamentação teórica e a da prática pedagógica do projeto assenta-se nos princípios estruturantes da modalidade EJA; 2º) com a aprovação do FUNDEB no primeiro semestre de 2007, temos a necessidade de ofertar a modalidade EJA em função do imperativo da EJA no referido fundo, como forma de começar a instituir bases para o sistema EJA no país; 3º) uma das unidades de ensino do Sistema Municipal de Educação que ofertam a escolarização no período noturno declarou seus alunos como pertencenteS à modalidade EJA. O que se pretende é ampliar essa ação, visto que várias escolas mostraram-se interessadas em aderir à modalidade ao longo do ano de 2007 ( PMV, 2008, p. 7-8, grifos nossos). PRESSUPOSTOS POLÍTICOS, TEÓRICOS E METODOLÓGICOS: O movimento que o Ensino Noturno Regular passa a realizar, a partir de 2005, caracteriza um novo momento que caracteriza a necessidade de reafirmar, na prática, concepções já assumidas, de redimensionar ações e dialogar com profissionais que, no interior das Universidades e dos sistemas públicos de ensino, vem abrindo espaço, através da disposição para a produção de outras práticas, que não as da suplência, para construir a educação de jovens e adultos na respectiva modalidade. Partimos da reafirmação de que a educação de jovens e adultos é uma educação que não se restringe aos espaços e tempos escolares e se caracteriza por constituir-se especialmente por uma relação íntima com o mundo do trabalho que marca a vida dos sujeitos que a demandam [...] (PMV, 2008, p. 9). O direito à educação: A educação de jovens e adultos “representa uma dívida social não reparada para com os que não tiveram acesso à educação, nem domínio da escrita e da leitura como bens sociais, na escola ou fora dela, e tenham sido a força de trabalho empregada na constituição de riquezas e na elevação de obras públicas” (CURY, 2000). (PMV, 2008, p.10) 68 O legado da educação popular: Os princípios da educação popular, baseados no respeito aos saberes e à realidade socioeconômica e cultural dos sujeitos, têm como referência a concepção de educação problematizadora e libertadora de Paulo Freire [...] (PMV, 2008, p. 12). As dimensões da formação humana como eixos da matriz curricular: Dentre os princípios teórico-metodológicos de que lançamos mão nesta proposta, as dimensões de formação humana (ARROYO, 1998) envolvem a consideração das especificidades dos sujeitos da EJA. As chamadas dimensões de formação na educação de jovens e adultos envolvem o trabalho e a cultura, como expressões da realização da existência humana. Essas dimensões se atualizam ao envolver outras dimensões não menos importantes no contexto contemporâneo, relações de gênero, étnico-raciais, meio ambientes, sustentabilidade, espaço-tempo e memória, que vêm orientando a formulação de propostas pedagógicas para a educação de jovens e adultos [...] (PMV, 2008, p. 12-13). PRINCÍPIOS METODOLÓGICO-PEDAGÓGICOS [...] a formação de educadores de jovens e adultos se faz na prática, a partir das experiências em curso desenvolvidas pelos educadores no cotidiano das unidades escolares. A valorização do trabalho realizado pelas educadoras e educadores constitui-se um dos princípios metodológicos de nossa proposta. Essa valorização será buscada através do incentivo à visibilidade das práticas produzidas pelos educadores e educandos, pela sistematização e socialização de materiais didáticos como forma de construir uma proposta educativa que considere a diversidade cultural e as especificidades das trajetórias dos sujeitos educandos. A modalidade trabalha com a concepção de não seriação. A produção de material realizada no processo é uma tarefa assumida sistematicamente pelos próprios professores, o que implica um processo permanente de pesquisa, leitura, análise, reflexão, discussão e sistematização das informações coletadas (grifos nossos). O acompanhamento pedagógico, como parte fundamental da metodologia, será realizado semanalmente em sala de aula e em reuniões de estudo, planejamento e avaliação da prática [...]. [...], aponta-se a autonomia para a apropriação do projeto político pedagógico. (PMV, 2008, p. 13-14) A organização dos tempos: [...] a organização do tempo escolar na EJA terá como referência a sua definição em horas. Isso significa que não há nenhuma vinculação desse 69 tempo a dias letivos ou ao tempo definido na legislação para o ensino “regular” comum, fundamental e médio. As temporalidades escolares é que devem estar adaptadas às temporalidades dos sujeitos e não o contrário (PMV, 2008, p. 14-15). A ESTRUTURA DE OFERTA DA MODALIDADE EJA EM VITÓRIA: A organização curricular: Na organização curricular os conteúdos não se dão a priori. Essa é uma construção contínua, processual e coletiva que envolve todos os educadores que participam do Projeto. A respeito da organização curricular, considera-se que a EJA abre possibilidades de superação de modelos tradicionais, disciplinares e rígidos. A desconstrução e construção de modelos e metodológicos, observando as necessidades de contextualização frente à realidade do educando, promovem a ressignificação de seu cotidiano. Essa concepção permite a abordagem de conteúdos e práticas inter e transdisciplinares, a utilização de metodologias dinâmicas, promovendo a valorização dos saberes adquiridos em espaços de educação não-formal, além do respeito à diversidade. Define-se, então, um currículo como um desafio pedagógico e sua correspondente organização institucional à qual articula dinamicamente experiências, trabalho, valores, ensino, prática, teoria, comunidade, concepções e saberes observando-se as características históricas, econômicas e socioculturais do meio em que o processo se desenvolve. Estrutura do currículo : [...] o currículo, enquanto um processo de seleção e de produção de saberes, de visões de mundo, de habilidades, de valores, de símbolos e significados, enfim, de culturas, deve considerar: a) a perspectiva integrada ou de totalidade a fim de superar a segmentação e desarticulação dos conteúdos; b) a incorporação de saberes sociais e dos fenômenos educativos extraescolares; “os conhecimentos e habilidades adquiridos pelo educando por meios informais serão aferidos e reconhecidos mediante exames” (parágrafo 2º, Art. 38, LDBEN); c) A experiência do aluno na construção do conhecimento; trabalhar os conteúdos estabelecendo conexões com a realidade do educando, tornando-o mais participativo; d) o resgate da formação, participação, autonomia, criatividade e práticas pedagógicas emergente dos docentes; e) A implicação subjetiva dos sujeitos da aprendizagem; f) A interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade e a interculturalidade; g) A construção dinâmica e com participação. A organização curricular para o curso tem a estruturação por disciplinas, 70 distribuídas em três etapas: inicial, intermediária e conclusiva no primeiro e segundo segmentos do Ensino Fundamental. Entendendo o primeiro segmento como as séries iniciais e o segundo segmento como as séries finais do ensino fundamental. Os componentes curriculares se constituem de acordo com os PCNs e Diretrizes Curriculares para o ensino fundamental da Prefeitura Municipal de Vitória, respeitando a Base Comum Nacional e a Parte Diversificada: Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, Geografia, História, Língua Estrangeira Moderna, Arte, Educação Física. As disciplinas de Filosofia e Sociologia deverão ser trabalhadas nas disciplinas de História e Geografia. As relações étnico-raciais e identidade serão discutidas a partir dos documentos oficiais: PCNs e Lei 10.639/2003, que fala da obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no ensino básico. O Projeto A Educação de Jovens e Adultos no Ensino Noturno Regular elaborado em 2005 apresenta sua proposta curricular estruturada em três eixos: Ciência (competência primeira da escola), cultura (local e universal) e engajamento social (permeando as discussões do trabalho e da saúde coletiva). Esses eixos compõem o conjunto de saberes constituintes da proposta construída em cada unidade escolar, considerando os seguintes campos do conhecimento: Linguagem: áreas de Português, Artes, Estrangeira Moderna e Matemática; Educação Física, Língua Ciências Naturais: áreas de Biologia, Física, Química; Ciências Sociais: áreas de História, Geografia, Filosofia, Sociologia. O indicativo do Projeto de 2005 é de que esses campos sirvam como referência de organização do trabalho docente, não engessando nem impossibilitando a integração entre os campos de conhecimento. Para isso, elabora-se a idéia do Currículo em Movimento como formulação que estimule a integração desses campos e dialogue com os saberes próprios dos sujeitos da EJA (PMV, 2008, p. 18-20). Unidades conceituais na concepção do currículo: A proposta curricular que apresentamos para a Modalidade EJA caminha na mesma perspectiva do projeto de 2005. Porém, promove-se um reordenamento dos eixos, que passam a ser denominados como Unidades Conceituais, que assim se constituem: Ciência, Cultura, Trabalho e Engajamento Social, Democracia e Poder, Gênero e Etnia. Os conceitos escolhidos remetem ao sentido final do projeto educativo, ou seja, a formação para a cidadania, com domínio dos instrumentos básicos para inferir e agir, criticamente, sobre o mundo – a leitura, a escrita e o pensamento lógico matemático. Para dar-lhes sentido, lança-se mão dos conhecimentos relativos aos diferentes campos do conhecimento, que com ele dialogam, exigindo uma reorganização dos chamados conhecimentos científicos de cada área, de modo a se conectarem, trançando-se com os demais. Para Vygotsky (1987), a formação de conceitos dá-se sempre em processos complexos, enlaçando os sentidos inicialmente atribuídos a novos fios que 71 lhes vão permitindo conexões que lhes ampliam esses sentidos originais. Pode-se entender este modo de pensar a formação de conceitos como um processo em rede, o que significa dizer que eleger esses conceitos não redunda, em absoluto, em restringir o trabalho pedagógico, pois a organização de cada unidade, ano a ano, será diversa, mais ampla, com novas conexões, novos conteúdos, permitindo o tensionamento cada vez maior do que se sabia até então, com o desafio de questionar esse saber e ampliá-lo/revê-lo, modificando-o/reforçando-o, a partir dos novos fios que vão sendo entrelaçados. Dessa forma, aponta-se a materialização daquilo que o projeto de 2005 denomina de Currículo em Movimento. (PMV, 2008, p. 20-21). Unidade conceitual Ciência [...] concebe o campo científico como aquele que explora a inter-relação entre os diversos tipos de fenômenos: naturais, sociais, econômicos, políticos, éticos, etc. [...] Ementa proposta: Relações homem/mulher-sociedade-natureza ao longo da história. A organização produtiva da sociedade: principais momentos históricos. A nova geopolítica do mundo. Requerimento das sociedades contemporâneas: qualidade de vida e ambiente. A constituição do espaço geográfico no tempo. As relações sociais e a existência de diferentes relações entre distintos grupos sociais dentro de uma mesma realidade. O regresso da alta vulnerabilidade a doenças antigas que precisam ser erradicadas, pelo menos nos países mais desenvolvidos, como a tuberculose, e as doenças novas de proporções pandêmicas, como o HIV/AIDS. (PMV, 2008, p. 22-23). Unidade Conceitual Cultura, Trabalho e Engajamento Social Há de se considerar ainda que os diversos modos de organizar a vida social [...] apontam que são complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam, e a cultura as expressa. Ementa proposta: A mediação do trabalho como parte da produção da existência. Trabalho como intervenção de homens e mulheres no ambiente, produzindo cultura. Ações culturais como trabalho. Expressões da cultura. Cultura erudita e cultura popular. O capitalismo na expressão cotidiana contemporânea da sociedade. Capital e trabalho: contradições. Técnica e tecnologia na produção da vida cotidiana: saber e poder. Produção de saberes e conhecimentos pelo trabalho. Conseqüências do modo de produção capitalista: emprego, desemprego, formalidade e informalidade. Capitalismo e globalização. Indicadores sociais do trabalho, da cultura, da educação, da qualidade de vida. Cidadania, participação e democracia. Participação na sociedade e na escola. Escola como espaço do exercício democrático e da cidadania: direitos e deveres, lutas e conquistas. Linguagem como caminho da invenção da cidadania. As Constituições como texto máximo regulador dos direitos e as Leis Orgânicas Municipais. Declaração dos Direitos do Homem. (PMV, 2008, p. 24). Unidade conceitual Democracia e Poder [...] A democracia favorece a relação rica e complexa indivíduo/sociedade, 72 em que os indivíduos e a sociedade podem ajudar-se, desenvolver-se, regular-se e controlar-se mutuamente. Ementa proposta: O poder nas relações humanas a partir de situações do cotidiano (vivências). Relações de poder existentes nas instituições sociais (família, escola, Iigreja, trabalho, Estado). Regimento político: origem e princípios. Histórico da participação política do povo nas decisões políticas do País. Lideranças e suas expressões políticas. Movimentos sociais. Constituição dos direitos das minorias na sociedade brasileira. Trabalho x renda (relações capital-trabalho). (PMV, 2008, p. 25-26) Unidade conceitual Gênero e Etnia As discriminações de classe, de sexo e de cor, a que se junte qualquer tipo de diminuição e de desrespeito ao ser humano, negando aquela vocação, negam também a democracia (FREIRE, 1992). Ementa proposta: Homens e mulheres como sujeitos de direitos: os sentidos históricos assumidos pelas questões de gênero, as conquistas e as lutas recentes. Afro-descedentes, povos indígenas, migrantes e outras interferências culturais na constituição das identidades no Brasil. Ações afirmativas: questionamentos, polêmicas, acordos. Igualdade e diferença, diversidade e multiculturalidade, discriminação, inclusão e exclusão. (PMV, 2008, p. 26). Apontamentos para proposta curricular: Para todas as unidades conceituais, os conteúdos da leitura e da escrita (Língua Portuguesa), do pensamento lógico-matemático (Matemática), do estar no mundo como sujeito (História), do situar-se no tempo e espaço como sujeito que transforma a natureza e, ao fazê-lo, se transforma (Geografia) estarão presentes, adicionando-se a eles o conhecimento da natureza (as Ciências Naturais), permeados/impregnados todos pelo desenvolvimento do sentido estético (as Artes, ou pelo conhecimento de outra forma de expressão cultural, traduzida por outra língua estrangeira e pela questão da corporeidade e do movimento (Educação Física), o que contribuirá para a formação do conceito eleito como centro da unidade. Observa-se que não serão todas as áreas tratadas ao mesmo tempo, admitindo-se combinações, realizadas segundo as possibilidades dos grupos e atendendo à carga horária fixada para cada um dos componentes curriculares. Independente da forma de organização e estratégias adotadas para a construção do currículo em movimento ou integradas, torna-se imperativo o diálogo entre as experiências que estão em andamento, o diagnóstico das realidades e demandas locais e a existência de um planejamento construído e executado de maneira coletiva e democrática. Isso implica a necessidade de encontros pedagógicos nos momentos de OCT (Organização Coletiva do Trabalho), com a participação de todos os sujeitos envolvidos no projeto. Essa construção curricular implica uma nova cultura escolar e uma política de formação docente que atenda essa demanda; também a produção de um material educativo que seja referência, mas de forma alguma prescritivo. Os diferentes campos de conhecimento e seus respectivos conteúdos serão explorados a partir das dimensões da formação humana tomadas como 73 eixos articulados do currículo numa perspectiva interdisciplinar, tanto no primeiro segmento, quanto no segundo segmento. A proposta é que os conteúdos sejam trabalhados em sala de aula observando-se o de parcerias de professores, bem como o princípio da isonomia entre as disciplinas, principalmente no segundo segmento. A parceria de professores pode se dar, inicialmente, entre os professores de áreas afins. No decorrer do período letivo, essas parcerias podem se organizar de acordo com as necessidades formativas da comunidade escolar, a partir de duplas, trios ou agrupamentos em salas de aula. Em seguida, apresenta-se um indicativo de referência curricular. Não tem o objetivo de ordenar conteúdos por graus de simplicidade rumo à complexidade, nem tampouco apontar em que agrupamento esse ou aquele tema será abordado. Esse indicativo também não se fecha naquilo que ele aponta; as unidades de ensino podem e devem ampliar a lista de temas a serem desenvolvidos com os alunos, de acordo com seus interesses e necessidades formativas. A língua estrangeira moderna é, a partir do segundo segmento do ensino fundamental, de oferta obrigatória, ficando a escolha do idioma a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição, considerando que o Sistema Municipal de Ensino só oferece profissionais da área de Inglês. Na organização curricular, serão observadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a etapa da Educação Básica, regulamentadas pelo Conselho Nacional de Educação, bem como a Lei nº 10.639/03, que incorpora a história afro-brasileira ao currículo escolar (PMV, 2008, p. 2728). 74 DISTRIBUIÇÃO DOS COMPONENTES CURRICULARES Língua Portuguesa 60h Arte Linguagem Base Comum Nacional Ciências Naturais Base Comum Nacional Ciências Sociais Base Comum Nacional 60h Matemática 60h Educação Física 60h Inglês 60h Ciências (Biologia, Física, Química) 60h História 60h Geografia 60h CARGA HORÁRIA SEMANAL 12h 12h CARGA HORÁRIA TOTAL ANUAL 480h CARGA HORÁRIA TOTAL DO CURSO 2.880h ESTRUTURA DOS SEGMENTOS 1º Segmento ETAPA REFERÊNCIA INICIAL Refere-se às séries iniciais do Ensino Fundamental, ou seja, de 1ª a 4ª série. INTERMEDIÁRIO CONCLUSIVO INICIAL 2º Segmento INTERMEDIÁRIO CONCLUSIVO Fonte: PMV, 2008, p. 29. Atividades Curriculares Complementares: Refere-se às séries finais do Ensino Fundamental, ou seja, de 5ª a 8ª série. 75 Elas deverão ter como princípio orientador de sua elaboração, de seu desenvolvimento e de sua avaliação a articulação da experiência extraescolar com os saberes das diversas áreas do conhecimento, resgatando a dimensão pedagógica da vida cotidiana, as dimensões formadoras da vida adulta e as aprendizagens que se desenrolam nas relações sociais e nas vivências dos educandos. Elas devem se direcionar aos alunos que chegam às 18 horas, como também contemplar os discentes que chegam por volta das 19 horas. Para os que estão presentes, o desafio é pensar atividades diversificadas dentro da Unidade de Ensino; para os que não estão presentes no primeiro horário, o desafio é potencializar outros espaços de aprendizagem, incorporando o princípio da Cidade que Educa e do trabalho. O tempo destinado às atividades como também a carga horária, os conteúdos desenvolvidos, a freqüência e avaliação devem ser planejados e registrados no diário de classe e na ficha de avaliação do aluno, juntamente com todas as outras atividades desenvolvidas no processo de aprendizagem (PMV, 2008, p. 30-32). PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO O movimento que as escolas para jovens e adultos fazem na construção de um projeto político-pedagógico, mostrando a realidade dessa escola, com suas estratégias instituintes, podem vir a torná-las instituídas, consolidando o compromisso com as classes populares, para quem as escolas públicas, majoritariamente, se destinam No movimento da prática, as escolas aprendem, nesse processo de construção do projeto, a viver uma autonomia relativa, que se contrapõe à uniformização e se apresenta como o princípio básico da busca que andam realizando. É relativa, no entanto, porque, mesmo promovendo rupturas no pedagógico e no didático, as escolas dispõem de autonomia parcial, no sentido de que se vinculam como sistema aos poderes aos quais estão ligadas, o que lhes confere direções filosóficas e políticas, principalmente. No entanto, quanto mais conseguem participar de espaços de formação continuada, em que as definições filosóficas, políticas e epistemológicas estão sendo rediscutidas, mais conseguem avançar na construção do espaço da autonomia [...]. (PMV, 2008, p. 32- 34). AVALIAÇÃO A perspectiva inclusiva da Educação de Jovens e Adultos requer a substituição dos mecanismos de avaliação classificatória, competitiva, recriminatória e excludente, por práticas formativas e reflexivas de avaliação escolar que favoreçam a aprendizagem. A avaliação que propomos é: − Contínua – permanente no processo de aprendizagem do aluno, levantando seu desenvolvimento através de avanços, dificuldades e possibilidades. − Dinâmica – utiliza diferentes instrumentos e na reflexão dos seus resultados inclui a participação dos alunos e de outros profissionais que atuam com os mesmos. − Investigativa – visa levantar e mapear dados de compreensão do processo de aprendizagem do aluno e oferecer subsídios para os profissionais refletirem 76 sobre a prática pedagógica que realizam. (PMV, 2008, p. 35-36). Avaliação das práticas pedagógicas: É importante também que o coletivo da escola crie, sistematicamente e com a mesma freqüência, instrumentos de avaliação de suas práticas pedagógicas. [...] Os professores, a equipe técnica, a organização do trabalho, os projetos pedagógicos, as ACCs e as OCTs de cada escola devem ser analisados com o mesmo rigor que o processo de aprendizagem dos alunos. (PMV, 2008, p. 37). ... ... ... Esse foi o “novo” documento enviado pela SEME para estudos dos professores que “optaram” pela EJA, no início do ano letivo de 2008. O encaminhamento para que se fizesse o referido estudo foi primeiramente feito pela SEME, mas percebi que o que moveu os professores no sentido de estudálo estava, antes, nas suas necessidades de buscar nele o que de fato os guiaria em seus trabalhos ou práticas em sala de aula. Os professores queriam aproveitar bem os dias concedidos para estudo e planejamento antes de iniciarem seus trabalhos com os alunos (as aulas do noturno começaram uma semana após o início do ano letivo do ensino fundamental regular e tinha calendário próprio). Esse movimento inicial foi marcado por muita ansiedade, tanto é que a professora de Inglês (recém–chegada à escola), tomando o direcionamento da reunião, propôs aos professores que entrassem no documento diretamente nas unidades conceituais, porque era isso que lhes interessava. Essa proposta foi prontamente aceita, e as minhas idéias de aprofundarmos o estudo pelos princípios filosóficos e políticos já contidos no documento foram deixadas de lado (Era coisa de pedagogo!). Embora a iniciativa da professora me tenha parecido bem justificada naquilo que é, na verdade, a preocupação maior de nós, professores, ao estarmos frente a frente 77 com o aluno, ou seja, quando nos movemos no sentido de criar condições concretas para as aprendizagens, naquele momento, o que interessava era a operacionalização do documento. Isso me preocupou. A partir de então, centrei meu olhar nos movimentos dos professores, ao mesmo tempo em que tentei registrar tudo, fotografando, anotando no meu diário de campo ou colando todo papel que, em algum momento, pudesse revelar-se em pistas para minhas buscas e indagações. Muitas coisas me escaparam, mas é próprio do movimento cotidiano não se deixar capturar em sua totalidade. Seria uma pretensão da minha parte e uma ousadia propor-me realizar uma tarefa impossível, por isso fui deixando-me levar por esses movimentos cotidianos de trabalho e estudo/pesquisa, a fim de me aproximar, ao máximo, daquela realidade na qual eu estava totalmente inserida. Faz-se necessário registrar que, no decorrer do texto da dissertação, busquei trazer outras possibilidades de me aproximar do “currículo em movimento”, usando, para tanto, algumas imagens que foram por mim produzidas durante a pesquisa. A disposição das imagens no texto não pretende, necessariamente, tomá-las como exemplos do que está sendo discutido no momento. A idéia é torná-las outra possibilidade de texto para que o leitor possa ampliar os sentidos do que estamos chamando de “currículo em movimento”, por isso me propus a não classificá-las. 1.9 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS PÚBLICAS No momento de escrituração da pesquisa, numa tentativa de compreender melhor os dados já obtidos, fui percebendo que precisava saber como a proposta da EJA chegou ao município de Vitória e qual o seu diferencial político em relação à EJA no contexto nacional e municipal. Para tanto, busquei ouvir em uma entrevista a Coordenação da EJA (CEJA), na pessoa do seu atual coordenador. As perguntas de 78 entrada para nossa conversa foram: - O que se quer com a proposta de EJA no município de Vitória? - Quais são as concepções históricas, filosóficas e políticas dessa proposta? Como essas idéias chegaram às escolas? - Qual é o diferencial político dessa proposta para a Rede Municipal de Ensino de Vitória no que se refere à EJA dentro do contexto nacional? O entrevistado, inicialmente, resgatou o processo de implantação da modalidade EJA no contexto da PMV, a partir do ano de 2004, quando houve a elaboração do documento contendo as diretrizes curriculares para o Município. Nesse documento, constam as diretrizes curriculares para o ensino noturno que, segundo ele, já esboçava algum tipo de mobilização, dando alguma visibilidade à EJA no ensino noturno, uma vez que até então não havia no Município de Vitória um acúmulo acerca do que seria essa modalidade EJA em sua especificidade. Embora se falasse muito em ensino noturno nos moldes do ensino regular, na referida proposta já havia toda uma preocupação com a caracterização e a nominação dos sujeitos da EJA, apesar de ainda haver um entrave muito grande em função de a estrutura ainda ser de ensino noturno regular, portanto, de práticas voltadas para o ensino regular diurno. E prosseguiu falando sobre o ano de 2005, que considerou um ano de mobilização e de escrita do projeto, quando a equipe chegou à CEJA e elaborou o projeto “A Educação de Jovens e Adultos no Ensino Fundamental Regular Noturno”, título que expressava no próprio enunciado algumas contradições quanto à implantação da modalidade EJA no ensino regular. no ano de 2006, começou a implantação do projeto nas escolas. Estas demandavam, para a CEJA, questões sobre algumas contradições, como, por exemplo, freqüência obrigatória dentro da EJA. No Seminário no Canto do Sol, no final do referido ano, os professores apontaram a necessidade de mais um ano de experimentação, visto que a greve de professores, no decorrer daquele período, tinha sido um fator desarticulador do processo de 79 implantação do projeto em algumas escolas. Assim, os professores apontaram o ano de 2007 como mais um ano de experimentação do projeto, a fim de se poder fazer uma avaliação mais consistente. O fato é que, nesse mesmo ano, foi aprovado o Fundo de Manutenção e desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB ). Sobre esse acontecimento, o atual coordenador da CEJA respondeu às perguntas que coloquei no início da entrevista e esclareceu meu entendimento sobre o que na escola chegou como “opção” para a implantação da modalidade EJA: [...] politicamente isso, em termos, em nível nacional, implica ou passou a implicar uma política de indução direta por parte do MEC. O MEC, hoje, reúne com certa freqüência – esse ano ainda não teve, mas o indicativo é que tenha em novembro –os representantes dos Fóruns Estaduais. A última reunião que teve foi em novembro do ano passado e a gente tem interlocução direta com o secretário da SECAD (Secretaria de Alfabetização e Diversidade), que é o secretário lá da pasta, que é o André Lázaro. E ele disse de forma contundente e, várias vezes, ele citou a necessidade de fazer assim: “os sujeitos da EJA na EJA”. Por muito tempo, os Sistemas Públicos sabiam que os sujeitos eram jovens e adultos, mas não havia uma política de financiamento que os contemplasse, portanto todos eram declarados no censo escolar como alunos do fundamental regular, por não haver especificação de verba. Então, quando houve a aprovação do FUNDEB, a gente percebia que havia condição política de começar a fazer a discussão acerca de um processo de implantação da modalidade real. Porque a gente começava a perceber, e isso a gente percebe muito no Fórum, a gente recebe municípios do interior que afirmam que implantaram a modalidade há dois, três anos, e, quando a gente vai ver o que é que eles chamam de EJA, nada mais é do que o ensino regular diurno, na própria aquisição do material didático, sem tirar nem pôr. Então, a gente não queria fazer um processo de implementação “pro forma”, somente botar os alunos no censo. A gente queria que, de fato, o processo fosse acompanhado, subsidiado por algum tipo de indução que provocasse um grupo a se sentir desafiado a trabalhar com a EJA no seu sentido de prática pedagógica mesmo. Ficou claro que, a partir da aprovação do FUNDEB, a “política de indução” do MEC chegou ao município condição de Vitória político-econômica como para a implantação da EJA. Nesse sentido, a equipe da CEJA entendeu que poderia avançar para uma implantação “real” da modalidade EJA, indo além de apenas uma conveniência para o Sistema Municipal de Ensino de Vitória, a exemplo de como 80 vem sendo realizada em outros municípios. A equipe da CEJA chegou à escola, no final de 2007, buscando sensibilizar os professores pelo compromisso com uma prática pedagógica voltada para a especificidade de jovens e adultos, com a proposta de a escola fazer a opção ou não pela EJA. Essa ação foi, sem dúvida, extremamente relevante no processo, do ponto de vista da gestão executiva. Mas acontece que, nas escolas, na verdade, as opções foram feitas especialmente a partir de outra ação, que chegou concomitante a essa: houve, ao final de 2007, uma reordenação no número e na carga horária dos professores localizados por escola, de acordo com o número de turmas que seriam abertas para o ano de 2008. Na escola, nesse período, as preocupações em torno dos postos de trabalho ocuparam todos os espaços de discussões. Não houve tempo nem sensibilização para uma ampla discussão a respeito dessa política de indução em seus fundamentos, que vinha sendo orientada pelo MEC e adotada pela PMV. A própria equipe da CEJA reconheceu essas contradições postas dentro da SEME no que se refere às negociações feitas na escola, ao tentar mexer com o seu quadro docente: O fato é que, quando houve, então, a finalização do texto, a gente foi pro processo de negociação na escola. Alguns fazem a leitura de que isso foi uma política de enxugamento de quadro, alguns falam que isso foi uma rasteira no magistério porque tiraram postos de trabalho. Isso pra gente foi muito tranqüilo na época, porque a gente sabia que a gente tinha, a gente tem, uma condição política interna, porque a gente está no poder executivo. Poder executivo tem que executar. Por mais que as contradições estejam postas, a gente está aqui pra executar. E a gente começou a perceber um número de escolas com um quantitativo de professores que não justificava a permanência de um professor com carga horária inteira. A gente nunca falou em retirar cadeira, a gente falou em dividir carga horária, mas a gente nunca falou em retirar professor. O fato é que esse processo foi muito conturbado. O sindicato mesmo (dos professores) chamou a gente pra duas reuniões, produziu um informativo denunciando que nós estávamos promovendo uma política neoliberal. O fato é que quando fomos pra essa pauta, a gente apresentava a modalidade EJA como uma possibilidade de um trabalho que exigia uma outra lógica de RH (Recursos Humanos), porque a gente já tinha meio que mentalizado, até porque a proposta já estava escrita. A gente já tinha meio que mentalizado, consensuado, que, ao propor um trabalho desse, a gente precisava de uma outra política de RH. Não essa que se resume na localização de professores por disciplina. A gente sabia que tinha que avançar em termos de RH. Algumas escolas perceberam, a maioria não percebeu. O fato é que a gente fica extremamente estupefato quando escuta do sindicato que isso é política neoliberal, porque ,pra dentro, a gente sabe o que isso representava em termos de imprimir uma outra lógica de RH na composição do quadro docente nas escolas. O fato é que esse 81 processo se deu em 2007. A gente teve um grupo de escolas que acabou aderindo, algumas escolas não tinham clareza do por que estavam aderindo; algumas, inclusive, de forma clara acabaram aderindo porque percebiam que teriam um grupo maior de professores com carga horária inteira na escola, talvez nesse sentido a adesão tenha sido um tanto coorporativa mesmo, e a gente não estava muito, na época, muito preocupado se a escola tinha clareza ou não; a gente só queria criar um fato para, a partir dali, topar! Politicamente isso vai implicar o quê? Politicamente, no primeiro momento, vocês vão declarar os alunos na modalidade EJA e isso vai permitir que a gente, em 2009, receba a verba do FUNDEB prevista lá no regime, no fator de ponderação, que é menor na EJA, mas a Prefeitura assume compromisso de arcar com a diferença. O aluno no Ensino Fundamental é 1.2, na EJA é 0.7, então, politicamente, isso estava dado. Se a Prefeitura cobrisse a diferença, nós tínhamos um número de escolas que toparam aderir à modalidade. Em 2008, então, ficou o desafio, já que temos então quatorze que aderiram à modalidade EJA integral, as dezenove, que compõem todas as escolas do noturno, têm EJA no primeiro segmento, todas elas. E aí então a gente foi efetivamente pra discutir o pedagógico. A gente tem isso claro, que a gente tinha que garantir algumas coisas no âmbito político pra, em 2008, não que seja somente isso, para a gente se concentrar na discussão pedagógica. E aí a gente tem feito algumas ações: as formações na sextas-feiras, nosso informativo, que também tem uma função de disparar a discussão, e a assessoria que a gente tenta dar conta também. Incomoda-me pensar que, concepções filosóficas, embora políticas as e epistemológicas da EJA estejam claras para a equipe da CEJA e estejam explícitas minimamente no projeto encaminhado às escolas no início de 2008, no momento em que a escola faz sua “opção” pela modalidade, pelo menos na escola em que pesquisei e de cujo processo participei, a maioria dos professores desconhece ou não tem um aprofundamento suficiente sobre essas concepções para fazer essa adesão de outro modo que não seja a partir de seus interesses e necessidades imediatas em garantir seus direitos, diante da pressão em relação às possíveis mudanças quanto à sua localização na escola, no noturno, e à sua carga horária de trabalho. Entendo que o Poder Executivo tenha que executar, sim, os projetos que demandam das e para as bases, mas não se pode pô-los acima da lei e dos direitos dos funcionários. Como pedagoga de uma das escolas que optaram pela EJA, participei de reuniões em que pude perceber o esforço, o trabalho e a dedicação da equipe no sentido de 82 enfrentar as contradições dentro do Sistema para que a EJA vingasse como um projeto “revolucionário”. Contudo, a minha trajetória de vida de professora vem confirmando que é na escola e nos saberesfazerespoderes dos professores que os projetos ganham vida e se materializam. Incomoda-me pensar essa “política de indução” chegando às escolas com essa equipe, que eu respeito, e muito, acreditando mais nas discussões em torno da lógica metodológica didática – como se viu nas formações de sexta-feira e conforme o entendimento dos professores – do que no investimento numa efetiva discussão sobre as idéias e concepções que embasam a proposta, como, por exemplo, o trabalho de professores em parceria. Por isso, questionei: De onde surgiu essa idéia de trabalho de professores em parceria e qual foi a finalidade de levar essa prática para a escola? A explicação foi a seguinte: Algumas pessoas que compõem essa equipe têm trajetórias anteriores a esse espaço aqui. E as trajetórias, invariavelmente, elas estão diretamente vinculadas às experiências de trabalhos com movimentos sociais. Que é o caso de programas como o PRONERA (Programa de Reforma Agrária), o Programa Semear (Programa da CUT em que a formação se dava na Escola Sindical “Sete de Setembro” em Belo Horizonte) [...]. Como são ações capitaneadas por movimentos sociais, quase sempre os professores não têm uma formação específica, eles não tinham uma graduação. Então a gente começava a perceber que, diante da falta de formação específica, eles não entravam na sala para dar aula “de”: E aí era muito comum você ver o trabalho em dupla. É uma prática pedagógica dos movimentos sociais muito presente, essa atuação em dupla. É uma experiência que o NEJA também adota aqui na UFES. Eu passei por lá como monitor [...]. Foi a partir desse espaço que a gente começou a ter contato com essas outras experiências que eu estava fazendo menção [...]. Se a gente for resgatar princípios políticos, filosóficos que estão constando na proposta da modalidade são... Tem momento que é crucial, sabe por quê? A gente começou a se perguntar: A escola pública atende a quem? Se a escola pública atende ao sujeito ou ao sujeito de classes populares, a gente começou a se perguntar se os nossos professores eram educadores populares. E a gente começou a ver que a associação não era tão direta assim. O fato de você dar aulas para alunos das classes populares não significa que você seja um educador popular. [...] Começou-se a fazer uma série de perguntas. O fato é que aquilo que é chamado de educação popular nos movimentos sociais tem um sentido que a gente não percebe nos sistemas públicos. E aí eu começo a perceber que quase sempre a educação popular, no entendimento dos movimentos sociais, está invariavelmente ligada a um projeto de nação [...]. Assim é com o movimento do campo, com o movimento quilombola, com as minorias. Geralmente, eles têm um projeto de nação que sustenta a ação pedagógica nas experiências de escolas que eles têm. E quase sempre são ações dessa forma: os professores atuam em duplas, não há formação específica... Onde eles entram pra dar conta de conhecimentos que eles têm que ter pra que aquele projeto de nação vingue. De fato, as propostas de educação do MST são sempre casadas com assistência técnica rural, 83 eles casam isso, eles procuram articular com um projeto de nação. Como a gente não percebe isso no magistério, o magistério não tem um projeto de nação. Aí a gente começou a perceber que havia muita similaridade entre o que é dito na academia, o que é chamado de pensamento sistêmico, com essas práticas de educação popular. Então a gente começou a fazer, por exemplo, a costura da proposta curricular, pegando como inspiração as contribuições de pensadores que se filiam a essa tradição do pensamento sistêmico. Então perguntei se seria com o argumento de questionar a disciplinarização do conhecimento que eles se aproximavam dos professores com essa proposta de um trabalho mais interdisciplinar, de parceria. Isso. O que não tem nada de novo. Assim, as escolas que hoje estão fazendo um trabalho legal, trabalham por projeto, o que não tem nada de novo. O que eu acho que talvez tenha de novo é a fundamentação política. Porque, o tempo todo, a gente tenta aguçar as contradições, não resolvêlas, a gente tem clareza disso. Quando a gente está falando de trabalho em dupla, à noite, a gente sabe o desafio que isso significa, porque nós temos professores e professores. A gente tem lá professores que começaram a ter um outro comprometimento porque não podem mais ficar empurrando com a barriga, até porque tem outro professor com ele na sala. Então ou ele trabalha ou ele fica mal no coletivo. Então, assim, os processos são muito positivos do ponto de vista da construção de coletivos docentes. Hoje a gente percebe três ou quatro escolas que tinham no ano passado um tipo de convívio diário, que hoje elas são muito mais, digamos, felizes coletivamente. Quando a gente recebe essas escolas nos espaços de formação, você vê, pelo comportamento mesmo das pessoas, como elas se tratam, que alguma coisa está acontecendo ali. O saber como era no passado e como está agora. Ou seja, ter aula de segunda a quinta e ter a sexta feira como planejamento coletivo é um aprendizado. Tem escolas que não ocuparam esses espaços devidamente. São essas escolas que a gente mais tem tentado acompanhar e, nesse processo, é bom que a gente deixe claro que a gente se sente co-responsável caso a escola sofra com o processo de implementação; a gente tem tentado se colocar como coresponsável e tentado acompanhar bastante. Mas o fato é esse paralelo com a educação popular. Então, a gente começou a perceber isso claramente: A educação popular já promovia práticas interdisciplinares desde a década de sessenta. Muito da explicação pode advir da própria não formação desse educador atrelada a um projeto de nação. Agora com os professores, os relatos têm sido muito bacanas. Alguns, eles começam a perceber que o trabalho em dupla... Ele é um momento autoformativo também. Porque é muito legal ouvir o professor dizendo que não sabia conteúdo de Matemática, que ele julgava ter esquecido, e que lá na constituição das duplas ele tem que, de alguma forma, retomar estudos que não são da sua formação. Agora, uma coisa que pra gente aqui não é, estou falando aqui internamente na equipe, não é muito claro é como que essa idéia... Porque assim falta fundamentação teórica pra boa parte de nós, assim, no magistério... Então falar de pensamento sistêmico, de paradigma rizomático é complicado do ponto de vista da clareza. Algumas escolas avançam e avançam muito mais apoiadas na prática. Eu acho isso extremamente enigmático. Assim, elas não têm muita clareza de base teórica, mas conseguem promover movimentos extremamente interessantes. 84 Interrompi e perguntei sobre como a equipe lida com o fato de essas idéias não estarem assim tão claras para os professores, uma vez que elas são fundamentais para que o professor, de fato, assuma a proposta curricular da EJA. O entrevistado respondeu falando da dificuldade de em educação se fazer essa transposição do pensamento sistêmico (imprevisibilidade) uma vez que ele surge no mundo físico e tanto a sociedade como as políticas socioeducacionais ainda estão assentadas nas bases cartesianas de pensamento. Afirmou, inclusive, que dentro da própria equipe surgem questões e discussões muito provocativas a esse respeito, fazendo-o crer que, de fato, o mundo social vive uma crise de percepção, enquanto eles estão falando de pensamento sistêmico dentro das escolas, sem terem o menor controle sobre isso. Em suas próprias palavras: De fato, a gente não tem controle sobre isso. A gente concorda com os pensadores aí, a gente não tem controle nenhum sobre isso. A gente vai tentando, minimamente, aguçar as contradições nas escolas. A gente se satisfaz com isso. Se há um problema de gestão, nossa pauta é constranger ao máximo aquele problema para aumentar a contradição ao ponto de os professores, em algum momento, dizerem: “ó, chega, a gente tem que assumir esse coletivo aqui”. O que eu vivenciei na escola pesquisada, no que se refere à postura da equipe da CEJA, mediante as contradições que apareceram nos cotidianos da escola, não foi bem assim. As dificuldades que surgiram entre os professores e a direção, por exemplo, ausência da diretora nos eventos do noturno, corte de ponto, fechamento da direção ao diálogo e às sugestões do grupo, entre outras, levadas ao conhecimento dos assessores, nunca foram discutidas ou problematizadas por eles com o coletivo para seu fortalecimento. Portanto, fica a questão: Como os professores assumem esse coletivo? Retomei a sua afirmação inicial sobre o propósito de a Rede Municipal de Ensino de Vitória implantar a modalidade EJA na sua especificidade, não apenas pro forma, e questionei sobre as dificuldades dessa institucionalização da modalidade, dado seu 85 acúmulo histórico, filosófico, político e epistemológico, na estreita relação com a educação popular, como ele próprio já vinha afirmando. Nesse sentido, o coordenador da CEJA retomou o momento da aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais e o debate que ocorreu entre o relator da proposta da EJA, professor Jamil Cury, e o professor Miguel Arroyo (aproximadamente no ano de 2002). Na ocasião, Arroyo criticava o ordenamento jurídico que Cury havia dado à modalidade. Segundo ele, Arroyo dizia que institucionalizar a EJA significava destituí-la de toda sua característica de modalidade gestada na tradição da educação popular. Mas, do ponto de vista da ação nas políticas públicas, o que passou a interessar aos envolvidos com a questão da educação de jovens e adultos foi o reconhecimento de que o Estado deveria assumir e tirar da marginalidade esse contingente de pessoas que nunca teve acesso à educação. Nesse ponto de nossa conversa, pude perceber a EJA no contexto dos discursos da educação como direito, educação inclusiva, que passaram a circular e ser incorporados pelas políticas educacionais, que impõem medidas nas escolas, sem contarem com o que o atual responsável pela CEJA chama de “Projeto de Nação do Magistério”. É lógico que o magistério não carrega um tratado de intenções embaixo do braço. Não me parece justo que as discussões sobre as dificuldades na implantação da modalidade EJA na PMV recaiam simplesmente sobre os professores. Será que o magistério poderia ou deveria ter um projeto específico, uma síntese? Nas palavras do entrevistado, implementar a EJA dentro da escola pública, hoje, significa [...] um esforço grande, assim, do ponto de vista de você tentar, minimamente, fazer com que as pessoas percebam: “olha a gente está falando disso”. É possível fazer isso sem descaracterizar totalmente a Educação de Jovens e Adultos? A gente começou a perceber, então, que trabalhar por projetos... Que as escolas já faziam, e a constituição de duplas... Algumas práticas da Educação Popular poderiam ser experimentada, embora o entendimento aqui na escola não seja o mesmo entendimento que se tem lá (nos movimentos sociais), quando se está no movimento social, com projetos e ações bem práticas pra serem tomadas enquanto movimento. O que menos parece importar é saber que soluções, sínteses, os professores têm, ou por que eles têm ou não têm. Importa “importar” um modelo dos movimentos 86 sociais. Ou seja, essas discussões não chegaram nem se esgotaram entre os professores para sustentarem suas práticas pedagógicas. Apesar disso, algumas discussões emergiram dentro da escola. Há entre os professores vários questionamentos sobre o conhecimento, o modo como ele acontece e passa a atribuir sentidos para a vida ou para a sobrevivência das pessoas. Essas concepções e percepções que circulam dentro da escola ainda não são passíveis de uma única caracterização para as práticas educativas. Mas não é por isso que devem ser ignoradas. Os fatores objetivos e subjetivos estão presentes e influenciam todo o processo de implantação da EJA no contexto das ações práticas. Ao me remeter a essas dificuldades dentro da escola, especialmente no que se refere ao processo educativo, percebo, e parece-me que o coordenador da CEJA também reconhece, o quanto isso tem a ver com questões culturais que envolvem o Sistema Público e a escola. As negociações e traduções desse processo já estão sendo realizadas sob múltiplos fatores objetivos e subjetivos, impossíveis de serem controlados. No decorrer da conversa, falei sobre a questão das ACC’s e das dificuldades de entendimento e prática por parte dos professores e, também, dos alunos, no que tange ao seu propósito dentro da proposta, como algo a ser incorporado culturalmente pela escola a partir de um processo que possa ocorrer somente por meio de uma “política de indução”. Com relação a isso, o entrevistado falou sobre a importância de a escola posicionar-se diante das suas necessidades e singularidades, ao definir no seu PPP a sua organização institucional e a sua proposta curricular. E afirmou: Agora a gente está indo para uma ação de sensibilizar as escolas acerca da necessidade de construírem sua proposta pedagógica. Porque, em algumas assessorias, a gente tem escutado muito a fala de que a modalidade EJA prescinde dos conteúdos. Porque a visão é que ao trabalhar em dupla, você quebra, você não garante o currículo com todas as suas informações e, por outro lado, você não teria a garantia das disciplinas, propriamente. A gente começou a se perguntar... Bom, primeiro, que na proposta da modalidade a gente apresenta somente um referencial curricular. É necessário que a escola, então, diga... Porque fazer uma política de indução é... Não é uma política de... É lógico que tem um momento de convencimento, mas o convencimento por si só não basta porque... É aquela história; quando você 87 sonha é como se o corpo tivesse me chamando pra trabalhar. E é um pouco isso aqui, assim, em termos curriculares. A escola tem que ter claro o que ela quer em Ciências, em História. A gente não se sente, não se sentiu à vontade nem no direito, respeitando o processo de autonomia das escolas, em dizer o que a EMEF tal tem de proposta curricular para uma determinada área. Eu acho que isso é competência da escola e a gente tem muita clareza disso. Então, quando a gente é indagado: ‘Cadê o conteúdo? Vocês estão desmerecendo os conteúdos das disciplinas?’ Ninguém não está desmerecendo nada! A gente só vê o conteúdo de forma distinta e, outra, quando falam de conteúdo, eu acho que as escolas não têm muita clareza do que chamam de conteúdo porque invariavelmente o conteúdo é simplesmente entendido como informação. Com essa “política de indução”, supõem-se que todas as respostas e soluções para as dificuldades que dela emergem devam surgir da e/ou na escola. Contudo, não percebi da CEJA grande interesse em, minimamente, valorizar os processos que estão acontecendo pó lá. Ir às escolas, apenas, para dizer que o momento é para que se faça isso ou aquilo não significa um acompanhamento dos fatos e acontecimentos que estão mobilizando os professores em seus saberesfazeresepoderes. A meu ver, não se quer, de fato, conhecer as carências e necessidades que fragilizam essa política a fim de problamatizar, também, as ações que devam partir da equipe da CEJA. Em termos de encaminhamento dessa “política de indução” para a EJA, o coordenador da CEJA trouxe dados relevantes, do ponto de vista dele, sobre as carências que fragilizam esse processo: falta de materiais pedagógicos específicos para a modalidade, uma vez que os que existem e podem ser considerados bons, por se aproximarem de uma concepção de EJA vinculada à tradição da Educação Popular, ainda são os movimentos sociais. Há, portanto, uma extrema carência de materiais pedagógicos e produções acadêmicas que, se comparada à de outras modalidades de educação, pode explicar essa menor visibilidade ou vontade política no trato dos sistemas públicos com a EJA; carência na questão tanto da gestão interna à escola quanto da gestão dos procedimentos administrativos por parte da SEME, há uma cultura que enxerga o noturno como “bico”. 88 Enfim, ele colocou os desafios, que são muitos para o ano seguinte. No contexto municipal, com a proximidade das eleições e possíveis mudanças no Governo, o atual responsável pela implementação da EJA deixa claro que a equipe da CEJA pretende garantir a regulamentação da EJA pelo Conselho Municipal de Vitória – COMEV.18 No contexto nacional, ainda se está na expectativa da definição da idade mínima (18 anos) para os alunos de EJA. E, se assim for definido, o Sistema enfrentará a questão de, mesmo mantendo a garantia do ensino regular no noturno, ter um contingente de jovens entre 15 a 17 anos (hoje, freqüentando o noturno) sem escolas e, entre outros motivos, ter que estender a questão da oferta de EJA para o diurno a fim de tentar modificar o quadro desse atendimento, que se apresenta hoje, segundo ele, com um enorme déficit diante da demanda de aproximadamente 15.000 analfabetos. O coordenador da equipe da CEJA afirmou que o Sistema Municipal de Educação de Vitória atende apenas a 3.500 jovens e adultos. Ele colocou, ainda, a proposta de expansão da EJA para o diurno e as dificuldades que estão postas nesse sentido. São dificuldades que se apresentam desde a falta de espaço físico, salas de aulas disponíveis dentro das escolas, até a concorrência com as igrejas: “se tiver uma igreja do lado da escola, a escola fica vazia”. Contudo, eles deram o primeiro passo com o processo seletivo (ANEXO 1) para os professores que irão atuar na EJA durante o dia, em 2008.19 18 Todo esse processo de implementação e regulamentação da modalidade EJA no município de Vitória tem sido acompanhado pelo Conselho Municipal de Educação (COMEV). 19 O edital n°53 de 9 de maio de 2008, sobre o proces so seletivo simplificado para professores que queiram atuar com EJA, apresenta alguns detalhes interessantes, como, por exemplo, a exigência de experiência mínima de 12 meses com a modalidade. Se na fala do coordenador da CEJA, aqui no Estado não existe uma educação para jovens e adultos que seja de fato EJA em sua especificidade, os professores que hoje atendem a esses sujeitos são, basicamente, professores do ensino regular noturno. Será que aqueles professores, que estão, desde 2007, experienciando a modalidade na PMV e no NEJA seriam professores de EJA? 89 O desafio em relação ao noturno segue, conforme o atual coordenador da equipe da CEJA afirmou, com a apresentação da proposta e com os recursos existentes na escola, contando com os professores que já estão lá “com seus 20, 23 anos de casa... São eles que estão nesse processo, lá na ponta.” São essas ações, ainda não totalmente definidas ou resolvidas para o ano de 2009, que incomodam a equipe da CEJA no momento. Porém, penso que essas discussões poderiam ser feitas ou compartilhadas de forma mais efetiva dentro das escolas. Será que nós, das escolas, continuaremos sendo convocados a dar apenas uma contribuição “prática” na superação dessas dificuldades? Será que não estão minimizando demais o investimento no “convencimento” dos professores, especialmente no que se refere aos pressupostos filosóficos, políticos e epistemológicos da proposta? São questões que me remetem ao currículo praticado na escola e que me instigam a um “olhar” mais atento aos estudos que se vêm desenvolvendo no campo do currículo. 90 2 SEGUNDO MOVIMENTO: ALGUMAS APROXIMAÇÕES/REFLEXÕES SOBRE O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” O Projeto para implantação da EJA (documento) que chegou à escola, na minha leitura, expõe uma concepção acerca do conhecimento ao explicitar que “é em rede que se tecem os variados saberes, sem hierarquias antecipadas, mas determinadas pelas exigências das aprendizagens cotidianas [...]” (PMV, 2008, p.16), e, também, acerca do currículo, ao defini-lo como “[...] um desafio pedagógico e sua correspondente organização institucional [...]” (PMV, 2008, p.17) Pensar o “currículo em movimento” nos cotidianos da escola pesquisada vez ou outra remetia-me àquela fala emblemática da professora: “Que movimento é esse, gente?”, e levava-me a questionar quando foi que o currículo esteve parado nos movimentos cotidianos? 2.1 ENTRANDO UM POUCO MAIS NO DIÁLOGO ENTRE CURRÍCULO E COTIDIANO Meu interesse pelos estudos dos/nos/com os cotidianos na relação com o currículo levou-me a buscar um artigo de Alves e Oliveira (2005, p. 78-100), em que contam uma história da contribuição dos estudos do cotidiano escolar para o campo de currículo. Nesse texto, inicialmente, as autoras apresentam uma história dos primórdios dos estudos do cotidiano escolar e do modo oficial de se “ver” a escola e o que nela se passa a partir da metáfora da “caixa preta”, metáfora essa utilizada em estudos norte-americanos sobre o cotidiano, que ganharam força no Brasil com a chegada da “teoria dos sistemas”, que tinha por base as origens da administração das instituições, entre outras, das instituições educacionais: O uso dessa metáfora, e a sua operacionalidade como forma de entendimento do cotidiano, tentava nos indicar a impossibilidade de se saber o que, de fato, se passa dentro da escola, sustentando, paralelamente a idéia de que certas aproximações possíveis não poderiam contar, senão, com a inventividade dos que ao seu estudo se dedicassem. Para além da 91 impossibilidade de ser entendido, o cotidiano, como “caixa preta”, foi considerado como negligenciável. Ou seja, não importando o que se passa no interior da “caixa preta”, a intervenção no sistema deve se dar sobre os planos da entrada (inputs), a partir de uma realimentação com dados obtidos na finalização do processo anterior (feedback), possível por meio da avaliação dos indicativos fornecidos pelos resultados da saída (outputs) (ALVES; OLIVEIRA, 2005, p. 79-80). Essa idéia é ainda a que prevalece, de modo geral, nas políticas públicas de educação quando se trata de reformas ou projetos. A proposta/projeto da PMV/SEME para a educação de jovens e adultos é um exemplo desse fato. A escola é idealizada e pensada de cima e de fora para dentro, e o cotidiano é reduzido às variáveis de controle e separado da realidade em sua complexidade. Dessa forma, acreditava-se/acredita-se no seu controle e ignoravam-se/ignoram-se as relações e interações dos sujeitos do cotidiano escolar com outros múltiplos contextos dos quais participam para além da escola. No Brasil, com base nas pesquisas do norte-americano Stack (1983ª, 1983b), uma concepção diferente sobre a apreensão do cotidiano começou a desenhar-se na pesquisa. Passou-se a perceber a multiplicidade e complexidade dos processos de constituição do/no cotidiano a partir do cruzamento das fontes obtidas pelas observações do que se passa na escola diariamente e da impossibilidade de generalizações das conclusões nesses estudos. Com os estudos de Stenhouse (1991) e Elliot (1990) e a idéia de professor pesquisador, compreendeu-se, um pouco mais adiante, que o conhecimento das diversas escolas dentro de um mesmo sistema educativo só é possível quando se incorporam a esse processo de conhecimento os múltiplos sujeitos do cotidiano escolar com suas diferenças culturais. Foi com a tradução brasileira dos estudos realizados no México por Rockwell e Ezpeleta (1986) que se incorpora aos estudos do cotidiano o entendimento de que, mais do que a tendência de descrever a escola, o importante é perceber que 92 devemos estudar as escolas em sua realidade, como elas são, sem julgamento a priori de valor. Hoje, no Brasil e em outros lugares, compreende-se que participamos de cotidianos vários, inclusive da escola, nos quais vivemos e nos formamos como rede de subjetividades. Essa idéia fundamenta-se na crítica ao modelo da ciência moderna que considerou os conhecimentos cotidianos como conhecimentos do senso comum e, ainda, os desqualificou perante o conhecimento científico. A partir dessa compreensão, os estudos do cotidiano buscaram recuperar a importância da prática social naquilo que não integra as estatísticas, os dados quantificáveis: a forma de se praticarem as atividades em suas expressões qualitativas para redefinir o próprio cotidiano. Avançou-se nesse debate quando se entendeu que tanto o conteúdo das nossas ações cotidianas como as múltiplas formas mediante as quais as desenvolvemos são provisórios e plurais. E a isso se acrescenta a idéia de que estamos sempre em processos de mudança, imersos em redes de saberes, fazeres e poderes que não podem ser explicadas por relações lineares e causais. Para compreender as lógicas dos cotidianos precisamos neles “mergulhar”, aceitando a impossibilidade de capturá-los em sua totalidade e complexidade. “As certezas são, desse ponto de vista, inimigas da aprendizagem” (OLIVEIRA ; ALVES, 2001, p. 8). No que se refere aos estudos curriculares voltados para o cotidiano, Alves e Oliveira (2005), a partir dos estudos de Candeias (2001), evidenciam como questão central, hoje, a necessidade de: [...] se compreender como os professores e professoras agem cotidianamente na busca de levar os seus alunos à aprendizagem, que elementos criam a partir de suas redes de saberes, de práticas e de subjetividades, como criam os seus fazeres e desenvolvem suas práticas em função do que são (ALVES; OLIVEIRA, 2005, p. 94). Para tanto, é preciso tentar compreender nos cotidianos escolares como e o que se aprende efetivamente nas escolas. As autoras sugerem que busquemos ouvir as vozes dos que fazem os cotidianos escolares, sem nos descuidarmos de perguntar: 93 a) Como se dão os processos de criação e de desenvolvimento da ação pedagógica (curricular) inscritos nas especificidades do ser dos professores, dos alunos e das circunstâncias? b) O que os alunos estão realmente aprendendo a partir dessa prática escolar, que não pode ser visto pelos dados estatísticos sobre o que sabem, sobre o lhes é imposto saber? Nos estudos do cotidiano, busca-se compreender as práticas curriculares reais, entendendo-as como complexas e relacionadas a fazeres, saberes e poderes que não são, necessariamente, um todo coerente. Do mesmo modo, entende-se que as propostas curriculares formais que chegam às escolas são formuladas em meio às mesmas contradições, assumindo um caráter mais ou menos regulatório ou emancipatório em suas diferentes proposições, como podemos perceber na proposta para a EJA da SEME/PMV. Nesse sentido, Alves e Oliveira (2005) entendem as práticas curriculares cotidianas como “multicoloridas”, pois suas “nuances” serão de acordo com as condições objetivas e subjetivas de cada escola. Isso significa dizer que é impossível avaliar as práticas curriculares por meio de mecanismos que essencializam os fazeres sem levar em conta as “misturas” que fazemos entre normas, circunstâncias, características dos grupos e outras. As autoras afirmam: O trabalho no/do cotidiano, nesses termos, torna-se importante elemento para pensar e compreender a questão curricular, tanto em instância de prática como na de formulação de propostas já que, considerado em sua complexidade, pode contribuir para o estudo das realidades escolares se entender essas últimas como componentes de uma rede de saberes e de práticas que, situadas para além dos muros da escola, se fazem presentes nos cotidianos escolares, por meio dos sujeitos neles presentes (ALVES; OLIVEIRA, 2005, p. 100). 2.2 ALGUMAS REFLEXÕES DURANTE A INCURSÃO PELOS ESTUDOS DO COTIDIANO NA RELAÇÃO COM O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” PROPOSTO 94 PARA A EJA PELA PMV/SEME A concepção exposta na proposta do Projeto de Implantação da Modalidade EJA no Sistema Municipal de Educação de Vitória subentende que o “currículo em movimento”, proposto pela SEME, é pensado a partir da idéia de currículo como um processo de produção sociocultural no/do cotidiano escolar, e parece ampliar a visão tradicional de currículo que se reduz a um guia curricular ao incluir a possibilidade de agregar os conhecimentos que vão sendo criados ou ressignificados pelas experiências e práticas dos sujeitos como alternativas curriculares construídas cotidianamente. Não foi o caso aqui de analisar o documento a fim de afirmar ou negar a sua posição dentro dessa ou daquela teoria curricular na educação brasileira. O que se colocou para mim no decorrer da pesquisa sobre o projeto/DOCUMENTO ORIENTADOR DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO MUNICÍPIO DE VITÓRIA (versão preliminar), 2008 e a política da SEME para o ensino noturno foi a necessidade de tentar ampliar as discussões acerca dos currículos a partir dos processos de diferenciação que são inventados pelos sujeitos praticantes dos cotidianos, no caso, dos sujeitos da escola onde realizei a pesquisa e que está incluída entre aquelas que “optaram” pela modalidade EJA. Até que ponto esses processos podem ou não ser visibilizados numa política instituída? Até que ponto esses processos de diferenciação, ao serem visibilizados, podem ou não ser, quem sabe?, mais fios a serem incorporados à trama de discussões sobre o que temos entendido por uma educação – dentro da modalidade EJA ou em outras – que se pretende para os processos de diferenciação presentes nas escolas? O que temos visto é que as formas culturais que organizam as escolas em termos de concepções sobre a sociedade, o conhecimento e, por efeito, o currículo têm- se transformado em decisões técnicas, ainda que se digam abertas a essas experiências que vão sendo incorporadas ao repertório dos sujeitos como fios para novas tessituras pedagógicas e sempre em movimento. Ainda que esses documentos tragam o discurso do novo, em termos de proposta curricular, em processo de ser elaborado, a partir das/nas práticas dos sujeitos e de não se intitular guia curricular, não conseguem escapar de se constituírem em tecnologias do 95 trabalho pedagógico, pois seguem a mesma estruturação presente nos currículos tradicionais, que são identificados como guias ou listagem de conteúdos a serem seguidos significando conhecimentos ou habilidades que precisam ser adquiridos/assimilados pelos sujeitos. O tempo escolar continua periodizado, com a organização das disciplinas, ou dos projetos, ou das temáticas em um plano geral de currículo, em cuja constituição se busca a integração dos “conteúdos” de um mesmo período subseqüentes para cada “unidade”, onde ficam também determinados os objetivos e os procedimentos pedagógicos e de ação que serão o tempo todo controlados através de avaliações, aplicadas aos alunos (provas) ou aos professores (registros nos quais se pode verificar se os procedimentos estão ou não sendo cumpridos). Nesse sentido, acabam constituindo-se no próprio currículo. Compreendo que não seja fácil fugir do aparato legal que incorporou o sentido que temos dado para a educação escolar. Os documentos legais ao se tornarem os determinantes das finalidades e objetivos da escolarização, de onde se subtraiu o entendimento desses espaçostempos de formação apenas como parte de uma rede maior que são os diversos espaçostempos de formação dos quais participamos. A escola é apenas parte dessa rede maior. Isso significa pensar que determinar um tempo de escolarização dentro da organização escolar não diz sobre todas as possibilidades dos sujeitos de serem, ao mesmo tempo e do mesmo modo, enredados pela escolarização. Contudo, ainda que esse espaçotempo seja limitado, é a partir dele que as alternativas curriculares emergem nos cotidianos das escolas. Não ignoro nem desprezo as tentativas de organização curricular que tentam levar em conta tudo isso, ao possibilitarem, por exemplo, que esse tempo de escolarização seja flexível (avanços, reclassificação, agrupamento de alunos por interesse...), embora perceba, às vezes, que é mais uma cilada do nosso modo de ver e pensar esse tempo como linear e seqüenciado que queremos impor ao conhecimento e à nossa formação nos cotidianos, ou, ainda, que essas propostas de organização curricular pensadas a partir das disciplinas ou de sua integração nas temáticas ou unidades de estudos não conseguem escapar do seu construto histórico, nem se aprofundem na arena onde estão em jogo os saberes ou conhecimentos considerados válidos para a escola, no sentido de questionar e ampliar as possibilidades de se pensarem os conhecimentos científicos para além da 96 arbitrariedade com que foram selecionados e organizados pelas disciplinas, na tentativa de reconectá-los conforme eles estão/são tecidos na própria ciência, ou seja, ligados e tecidos juntos. O importante na relação que estabeleci com o documento foi percebê-lo como um lugar de fronteira cultural, um algo novo que estranhou ou causou estranhamento no que se refere ao que se vinha entendendo sobre o currículo para EJA no cotidiano da escola pesquisada. O documento tornou-se uma ponte que levou os professores a transitarem por territórios culturais diferentes, distanciando-os de um currículo, antes, familiar, exigindo-lhes novas significações e sentidos. Vivenciaram “entrelugares” que puderam possibilitar o diálogo com a experiência escolar, com as possibilidades de um currículo formal contaminar-se nas e pelas redes cotidianas, mesmo que as condições para isso não estivessem dadas pelas vias sugeridas no documento. Para os professores participarem dos espaçostempo em que as decisões são tomadas, eles, os sujeitos das experiências concretas, precisam optar (quando podem) entre as emergências do seu fazer cotidiano, como, por exemplo, planejar ou participar das reuniões de formação que acontecem sempre às sextas-feiras, na escola ou fora dela, com discussões que tratam, muitas vezes, apenas da instrumentalização e do uso de recursos didáticos ou estratégias de ação. Entretanto, acredito que essas redes tendem a se ampliar por vias diversas, como, por exemplo, pelo contato entre os professores do noturno em outros espaçostempos informais, onde se encontram e tecem comentários sobre suas experiências nas escolas e, também, nos espaçostempos das pesquisas que se voltam para o movimento cotidiano, em que, o tempo todo, se questionam, ressignificam e apontam alternativas para os currículos da escola. 2.3 ALGUMAS (OBSERV) AÇÕES SOBRE OS MOVIMENTOS DA ESCOLA NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2008 A nossa primeira semana na escola foi destinada aos estudos e ao planejamento da recepção aos alunos. Sentimos a necessidade de organizar, logo no primeiro dia de 97 aula, uma assembléia, para expor aos alunos nossa proposta de trabalho com a modalidade EJA e, em função dela, as mudanças que haveria na organização dos tempos escolares e do trabalho pedagógico. Falamos sobre o trabalho de professores em parceria20, sobre as atividades pedagógicas a partir das unidades conceituais, sobre a freqüência e horários de aulas e sobre as normas da escola. Decidido isso, combinamos ler o documento que chegou com a proposta de implantação da EJA no Sistema Municipal de Educação de Vitória, a fim de buscar pistas para esse começo tão desafiador. Após a leitura do documento, voltamos nossa atenção para os itens 4.2.1 – Estrutura do currículo e 4.2.2 – Unidades conceituais na concepção do “currículo em movimento”. A unidade conceitual escolhida foi Cultura, Trabalho e Engajamento Social, focalizando seu duplo fenômeno, Unidade e Diversidade, no que diz respeito aos modos de organização da vida social como expressão do trabalho e da possibilidade de intervenção humana na realidade social. Partimos então para a ementa da referida unidade conceitual, e as parcerias optaram por alguns eixos temáticos por ela sugeridos a fim de nortearem planejamentos e ações iniciais. A essa altura, já havíamos combinado algumas estratégias, como, por exemplo, seguir as sugestões de agrupar os professores por disciplinas afins, conforme encaminhamento da SEME; aplicar um questionário aos alunos para traçar o perfil identitário e sociocultural desses sujeitos que habitam o noturno da escola a fim de direcionar os objetivos de ensinoaprendizagem; trabalhar com a unidade conceitual escolhida por todo o primeiro trimestre e, ao final, promover uma Mostra ou Exposição das produções dos alunos e professores. Percebi que o grupo, ao proceder às suas escolhas, manifestou uma forte necessidade em “amarrar” o conteúdo de suas disciplinas aos eixos temáticos das 20 Na escola, as parcerias entre as disciplinas ficaram assim estabelecidas: Português com Inglês, Matemática com Artes, História com Geografia e Educação Física com Ciências, conforme sugestão da equipe da CEJA. 98 unidades conceituais. A parceria de professores das disciplinas de História e Geografia ficou com A mediação do trabalho como parte da produção da existência; Trabalho como intervenção de homens e mulheres no ambiente; Produzindo cultura e ações culturais no trabalho. A parceria de Matemática e Artes ficou com Cultura erudita e popular; O capitalismo na expressão cotidiana e contemporânea da sociedade; Capital e trabalho: contradições; Técnica e tecnologia na produção da vida cotidiana: saber e poder e Produção de saberes e conhecimento pelo trabalho. A parceria de Educação Física e Ciências ficou com Indicadores sociais do trabalho, da cultura, da educação, da qualidade de vida; Cidadania, Participação e democracia e Participação na sociedade e na escola. A parceria de Português e Inglês ficou com Expressões da cultura; A escola como espaço de exercício democrático e da cidadania; A construção da cidadania: direitos e deveres, lutas e conquistas; Linguagem como caminho da intervenção da cidadania; As constituições como texto máximo regulador dos direitos e as Leis Orgânicas Municipais e Declaração dos Direitos do Homem. O primeiro segmento ficou com Conseqüências do modo de produção capitalista: emprego, desemprego, formalidade e informalidade. Foi uma semana movimentada por muitas dúvidas, incertezas, buscas e reflexões. Percebíamos que adentrávamos um terreno movediço e, portanto, tínhamos que nos preparar. Os professores pesquisaram materiais pedagógicos , textos, imagens, livros, enfim, tudo que pudesse servir de apoio nas aulas. Ao contrário do que eu ouvi de alguém do turno vespertino sobre ser aquela primeira semana em que os professores do noturno não trabalhariam com alunos, seria muito tempo para “cricrilação”, a meu ver, essa semana ainda foi de pouco tempo. A nossa impressão era de que ainda faltava alguma coisa para saberfazer o que somente fazendo saberíamos. Por isso, a despeito das opiniões de quem estava fora do processo pelo qual atravessava o noturno, tendo em vista a dimensão do efetivo trabalho com os alunos, resolvemos não oferecer as ACCs na primeira semana de aula. Esse tempo seria usado pelos professores para preparação das aulas. Os alunos foram avisados, através de um cartaz na porta da escola, de que as aulas iniciariam a partir das 18h40min. 99 No decorrer observamos das que semanas poderíamos seguintes, agrupar os alunos por turmas numa mesma sala de aula, dada a baixa freqüência dos mesmos nesse horário, o que proporcionaria um revezamento das parcerias nos horários de ACCs e lhes garantiria mais um tempo para “sentar” e planejar ou preparar materiais. Assim, reservamos um horário especial para as ACCs no decorrer do primeiro trimestre. Cabe lembrar que essas decisões do grupo foram passadas e justificadas para os nossos assessores da SEME, que, em nenhum momento, se opuseram a elas. Logo nos primeiros planejamentos das sextas-feiras, observamos alguns equívocos na matriz curricular que veio da SEME. Em reunião com a assessoria, fizemos os ajustes possíveis, mas tais ajustes significaram, por exemplo, que o primeiro segmento não seria contemplado com aulas de Educação Física, de Artes, nem de Inglês. As professoras do primeiro segmento demonstraram muita insatisfação. Também a carga horária de Artes, no segundo segmento, implicaria que, em alguns dias e com algumas turmas, o professor de Matemática trabalharia sozinho. Iniciamos o ano e encerramos o primeiro trimestre sem o espaço da biblioteca disponível, porque ficamos sem estagiária no noturno, apesar da promessa de a bibliotecária do vespertino estender sua carga horária alguns dias no noturno, o que não aconteceu. O acesso ao Laboratório de Informática também ficou comprometido no início do ano, porque fizeram uma troca do programa Word para o Linux, e o mediador estava adaptando-se à troca. Além disso, e o acesso à internet estava com problemas. Somente em meados de abril o Llaboratório voltou a funcionar. 100 Um fato que nos marcou no primeiro dia de volta à escola quando a diretora nos recepcionou foi a sua fala ao exigir o cumprimento dos nossos horários na escola. Afirmou que os atrasos seriam registrados no livro de ponto e encaminhados, junto com a freqüência, para o setor de pagamento. Ao ser questionada sobre essa posição, tendo em vista que isso não é recorrente no noturno, ela justificou-se dizendo que era recorrente em outros turnos e não poderia adotar dois pesos e duas medidas dentro da escola. Entendemos, mas esse fato gerou um “clima” de desconforto e tensão entre nós e pontuou nossas relações com a direção a partir de então. O máximo que o grupo conseguiu, em uma reunião com ela, foi uma tolerância de 15 minutos na chegada, caso o professor avisasse por telefone. Haviauma marcação rigorosa no horário da saída; houve registro de atrasos e cortes de ponto no decorrer do trimestre. Esses fatos vêm influenciando uma relação truncada com a direção que, talvez por isso, se tem mantido bastante afastada do turno noturno. Algumas cenas passadas nesse período ilustram essa constatação. Uma situação, entendida pelo grupo como uma tentativa de aproximação da direção, foi a entrega de uma comenda a um professor do noturno durante a festa de comemoração dos 25 anos da escola. Essa ação foi comentada por alguns professores com falas como essa: “A gente nunca é consultado sobre essas escolhas: são sempre elas (a diretora e uma pedagoga do vespertino) que decidem quem vai ou não receber essas comendas“. ”Ela está querendo dizer com isso que valoriza o noturno”. “Ela escolheu 'fulano' porque 'fulano' estudou com ela e é o único que dá papo pra ela”. Outra situação foi quando uma professora do primeiro segmento, considerada pelo grupo como “puxa-saco” da diretora, faltou, e a diretora foi avisar na sala dos professores. Uma professora, brincando, disse: “Ué, livro de ponto nela!”. Mais tarde soubemos que a professora tirou um dia de licença médica, coisa que, antes dessa direção, era negociada pelos professores para não perderem o prêmio incentivo.21 O feedback dos questionários aplicados aos alunos no início do ano foi feito por mim, após análise dos dados, e socializado com os professores. A meu ver, foi superrelevante para nós. Confirmamos nossas hipóteses iniciais sobre haver uma 21 A PMV oferece aos funcionários que não faltam nem tiram licença por um período de um ano um prêmio incentivo de cinco dias de folga no ano seguinte. 101 grande semelhança entre os alunos das diferentes turmas quanto às suas condições materiais concretas e às suas expectativas sobre a escola. Obtivemos algumas sugestões sobre o espaço físico da escola (encaminhados à direção) e a demonstração de satisfação com os profissionais que ali trabalhavam. Percebemos que se sentem bem na escola e isso vem refletindo- se na disciplina dos alunos e no cumprimento das normas. Não sem algumas burlas, é claro! É interessante como os alunos transgridem as normas de modo sutil. Certo dia, observei que algumas alunas, depois de “passarem” pela coordenadora na entrada, iam ao banheiro e trocavam de roupa ou tiravam a jaqueta que esconde o top. Outros traziam balas e/ou lanches, cuja venda é proibida na cantina da escola, e comiam durante o recreio. Outros, na frente da coordenação, circulavam pela escola com seus bonés na mão, mas, longe dela, usavam-nos na cabeça. Outros ficavam com os fones de ouvido e celulares escondidos, mas os usavam furtivamente pelos corredores ou nas salas de aula e, quando eram abordados, levavam na brincadeira, davam uma desculpa qualquer e continuavam... Houve uma grande procura de vagas na escola. Acreditamos que tenha sido por causa da implantação da modalidade EJA. Por isso foi preciso desmembrar a turma inicial do primeiro segmento, criando-se uma nova turma e mais uma vaga para um professor. O restante das turmas está até a presente data com o número total de alunos matriculados no início do ano, apesar de não manter esse total todos os dias. Há uma freqüência muito flutuante entre os alunos. Num dia aparece um grupo, no outro dia, o grupo que não veio no dia anterior vem e os alunos do primeiro faltam. Mas, no geral, a escola tem ficado cheia. As aulas têm sido muito dinâmicas com uso de materiais e recursos diversos pelos professores. As tentativas de envolver a participação dos alunos nas atividades podem ser observadas pelas produções que, aos poucos, vão aparecendo nos espaços da escola. Percebo que os professores esforçam-se para que os alunos tenham contato com diferentes situações de aprendizagem, tentando “ligar” os saberes da vida com os saberes tecidos dentro da escola. São essas tentativas que vão produzindo diferenças, possibilidades e movimentos no sentido de potencializarem as práticas educativas. São diferentes maneiras e modos de praticar 102 o espaçotempo das salas de aula na busca pelos conhecimentos significativos para as vida de alunos, a vida de professores. São diferentes modos e maneiras de ser e estar na escola e no mundo. São diferentes modos e maneiras de dar colorido ao cotidiano escolar, produzindo e atualizando as teorias que estruturam e organizam as disciplinas do “currículo em movimento”. 103 3 TERCEIRO MOVIMENTO: NARRATIVAS DOS PROFESSORES, OU SOBRE EXPERIÊNCIAS E PROCESSOS DE DIFERENCIAÇÃO TECIDOS NAS REDES COTIDIANAS DO ENSINO NOTURNO Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são conservadas. Walter Benjamin O documento de implantação da modalidade EJA na escola e, em especial, no que se refere à proposta de organização curricular, o “currículo em movimento”, fala por si mesmo e evidencia várias possibilidades de análise. Porém, para aprofundar e detalhar a investigação da qual se tratou neste trabalho, ou seja, no sentido de visibilizar os “movimentos” dos professores em suas tentativas e buscas por realizarem essa proposta de currículo, fez-se necessário ouvir os professores. Desse modo, tentei contemplar algumas falas, a partir do que julguei importante destacar para ilustrar esse movimento. Isso foi interessante na medida em que eu busquei o rigor para a maior aproximação possível com os processos de diferenciação que se deflagraram. Por falar em processos de diferenciação, conscientemente ou inconscientemente fui adiando esse momento de entrevistas. Todas as vezes que pensava em fazê-las desencorajava-me. Minha relação com os professores vinha sendo bem tranqüila. Eles demonstravam reconhecimento pelo meu envolvimento como pedagoga, pelo meu esforço em estar junto deles nos desafios que se iam apresentando e também sabiam que, como pesquisadora, eu tinha interesse em investigar suas tentativas de realizar o “currículo em movimento”. Mas “algo” impedia-me de tomar a iniciativa de convidá-los para as entrevistas e, sem entender muito bem, deixava o tempo rolar. Hoje, um pouco mais evidente para mim, penso que talvez fosse aquele “tal” sentimento, o medo. Medo que me deslocava para a fronteira na relação com os professores. Medo desse contato por saber que seria o espaçotempo durante o qual afloraria uma diferença, um “entre” ser a pedagoga e a pesquisadora. Adiava esse momento por medo de ser pensada apenas como uma ou apenas como a outra. 104 Entretanto, eu tinha prazos e precisava das entrevistas para (des) atar alguns nós dessa trama que vinha compondo as cores do tecido cotidiano... ou, quem sabe?, encontrar novos fios para tramar uma nova cor para aquele tecido. O jeito foi enfrentar a situação e criar os contextos para que as entrevistas fossem acontecendo. Conversei com os professores, falei dos meus prazos e da minha necessidade de ouvi-los em entrevistas para efetivamente realizar o trabalho e a sua escrituração. Eles se disponibilizaram, mas foi necessário, às vezes, negociar, interrompê-los em suas atividades. Alguns até pareciam gostar quando era para sair da sala de aula; outros nem tanto. As entrevistas foram realizadas no decorrer do mês de junho de 2008, com os oito professores do segundo segmento, porém somente sete das oito gravações ficaram audíveis, totalizando seis professores do segundo segmento entrevistados individualmente e três professoras do primeiro segmento entrevistadas coletivamente. Foram feitas três perguntas para os professores. As respostas foram trazidas como um mosaico numa tentativa de evidenciar as situações que, de alguma forma, problematizam o “currículo em movimento” como proposta para a modalidade EJA no município de Vitória. Meu propósito foi dar a devida dimensão às narrativas dos professores, como experiências vividas por eles mesmos ou que lhes foram contadas pelos outros. Acredito, tal qual Benjamin, que “...o narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência de seus ouvintes” (BENJAMIN, 1987, p. 201). Nesse sentido, tentei dialogar com as impressões dos professores sobre essa proposta. Concentrei minha atenção em tentar perceber como os professores estavam traduzindo, realizando novas inscrições sobre o “currículo em movimento”, ao enunciá-lo em seu discurso a partir do que foi vivido no primeiro trimestre do ano em curso. Primeira Pergunta: Que considerações você gostaria de fazer sobre a proposta do 105 “currículo em movimento” para o ensino noturno? (suas impressões e avaliações) Segunda Pergunta: Você poderia ilustrar, narrar alguma experiência que você considera representativa desse currículo proposto? Terceira Pergunta: Como você tem percebido e avalia a aceitação dos alunos em relação às mudanças propostas pelo projeto de implantação da EJA, em especial às atividades realizadas em consonância com a proposta do “currículo em movimento”? Inicialmente, pensei em disponibilizar as entrevistas na íntegra, dentro do texto. Entretanto, optei por anexá-las ao trabalho (ANEXO 2) e destacar somente os trechos que falavam, de algum modo, do que chamei de “brecadas” no movimento de buscas e tentativas dos professores por realizar o “currículo em movimento”. OS MOVIMENTOS DOS PROFESSORES OU SOBRE ALGUMAS “BRECADAS” QUE SE COLOCARAM DURANTE O PERCURSO DE BUSCAS E TENTATIVAS POR REALIZAREM O “CURRÍCULO EM MOVIMENTO” Enquanto transcrevia as entrevistas, tentei trançar algumas falas dos professores e, em certa medida, constatei que essas narrativas falavam de situações que problematizam a proposta do “currículo em movimento”. Quase todas as narrativas dos professores entrevistados remeteram-me ao trabalho pedagógico, sugerido pela SEME, no formato das parcerias ou sobre os “casamentos perfeitos” e seus desdobramentos no cotidiano da escola. O termo “casamento perfeito” surgiu na fala dos professores ao se referirem às suas escolhas quando estabeleceram as parcerias, entre as disciplinas, para suas práticas dentro das salas de aulas. Os critérios, inicialmente sugeridos pela equipe da CEJA sobre quais disciplinas poderiam unir-se para se formarem as parcerias, foram: Português com Inglês, Matemática com Artes, Educação Física com Ciências e História com Geografia. Esse critério foi seguido pelos professores da EMEF pesquisada porque, de certo modo, lhes pareceu mais fácil encontrar algumas afinidades entre os conteúdos de cada uma das disciplinas. 106 No momento em que fiz as entrevistas, os professores puderam dizer mais substancialmente o que sentiram nesse formato de trabalho, nas situações vivenciadas por eles nas redes de fazeresesaberespoderes do cotidiano escolar. Tentei apresentar as diferentes impressões dos professores sobre os “casamentos perfeitos” e seus desdobramentos no cotidiano da EMEF pesquisada na esteira do que diz Bhabha: [...] cada posição é sempre um processo de tradução e transferência de sentido. Cada objetivo é construído sobre o traço daquela perspectiva que ele rasura; cada objetivo político é determinado em relação ao outro e deslocado no mesmo ato crítico[...] (BHABHA, 1998, p. 53). As relações de poder nas parcerias/e ou nos “casamentos perfeitos” Os casamentos entre as disciplinas foram considerados “perfeitos” talvez porque os professores entenderam a proposta das parcerias apenas focada nas “afinidades” metodológicas e didáticas que poderiam ser feitas observadas a partir de uma aproximação entre as disciplinas. A questão que se colocou, primeiramente, foi como seriam as aulas com essa aproximação física entre os professores e as suas respectivas disciplinas. Mas, no processo, embora as tensões nas relações de poder tivessem surgido e incomodado alguns professores, não houve uma discussão geral, ou, pelo menos, diálogo entre os parceiros no sentido de tentarem resolvê-las. As tensões nas relações estavam presentes e, a meu ver, não discuti-las foi um consenso no objetivo de realização do “currículo em movimento”. A forma como ficou estabelecido quem direcionaria ou se sentaria à mesa do professor nas parcerias, quem se incomodaria ou nem se daria conta dessa questão foi pelo menos sintomática. Sobre isso, alguns professores disseram: Moacir22, professor de Português: Tem uma coisa que me veio agora na cabeça, né? No caso, eu e Fábia, nossa parceria é perfeita. Como você falou outro dia que talvez a gente tivesse que revezar os parceiros... Nós começamos a conversar sobre isso. Ah, não! Vamos observar mais, vamos conversar com a Nicéa [...] Outra coisa, a dificuldade de divergir. Eu tenho essa dificuldade. Tem hora 22 Os nomes dos entrevistados são fictícios. 107 que a gente fica assim, meu Deus do céu! Foi como agora, nós trabalhamos lá no inicial junto com o intermediário porque tinham poucos alunos, então, Fábia (disse): “Vamos fazer uma atividade que depois de tempo de estar passando para os outros’. Aí eu direcionei e falamos de substantivo, adjetivo e ainda fomos puxar um pouco de classe gramatical. Importante essa atividade porque substantivo é o nome, a essência, tá? Adjetivo, eles usam porque caracteriza. Então, veja bem, depois eu fiquei pensando, ah, meu Deus do céu, eu joguei só o meu conteúdo. Será que eu estou jogando só conteúdo de português? Como Fábia se vê? Nós nunca paramos para pensar como ela está se sentindo, como ela encara isso. Porque língua portuguesa é a língua latina, então, todo mundo trabalha a língua portuguesa, independente de ser formado ou não na sua área específica. A língua é vida, é manifestação.[...] _ Você já pensou em conversar sobre isso com a Fábia? Não, esse é um impedimento porque ela... Não sei... Acho que é essa ansiedade de dar o material pronto. Ou... Nossa dupla é perfeita. Nós estamos sempre adiante do grupo, não querendo ser mais do que ninguém, mas a gente se projeta para frente! Então, quando a gente senta na sextafeira é para estar produzindo, tá? _ Não seria o momento de vocês darem uma parada nessa produção de material para refletir sobre essa preocupação? Sim, para nós dois fazermos uma avaliação. A “fala” que ela colocou no início marcou: “Estou abrindo mão”. E ela tem mestrado! Ela pode estaroferecendo muita coisa. Sim, exatamente. Ou será pelo fato de eu já ter tanta experiência em termos da EJA na UFES e ela também estar no período probatório na Prefeitura? Porque isso também dá certa insegurança. Ela está chegando agora... Exatamente. Está faltando isso... Só que tem hora que eu sinto, eu não sei se sou eu que estou tomando espaço (?). Só que eu acho que ela tinha que... Eu tinha que... Eu tinha que buscar esse contato, fazer essa avaliação com ela, porque ela tem uma riqueza, igual a esse trabalho da Rosa Parks. Que coisa interessante! Nós até passamos um filme que mostra a segregação racial. Ah! Olha o currículo em movimento! Fomos lá à escravidão, os meninos foram lá, buscaram as informações e olha a dimensão do espaço-memória, do tempo... [...] _ Fábia, professora de Inglês, disse: Nicéa, acho que tem, é diferente, tem diferença na proposta da EJA. Algumas diferenças... A parceria no processo de ensino-aprendizagem. Nós estamos nos desprendendo dos conteúdos formais e tentando abraçar outros dentro dessa nova proposta de currículo. Eu não sei se a gente está conseguindo fazer isso. Eu acho que eu e Moacir estamos conseguindo mais do que as outras parcerias por causa da experiência dele. Então, às vezes, Moacir me arrasta, me leva e eu estou indo na onda dele. Eu não estou fazendo pior do que estou fazendo agora por causa dele. A contribuição dele é muito valiosa. Pela experiência que ele já teve, ele sabe mais do que a gente [...], o trabalho entre as parcerias é sobre as coisas que não vão emergindo por causa das parcerias. Eu estou percebendo que não só na minha parceria, mas eu conversei com outras pessoas, a Rúbia, por exemplo, é por causa das relações interpessoais... um acaba cedendo. E 108 não sou só eu... Pela pessoa que Moacir é... Do jeito que ele age... A Rúbia também, ela, ela deixa a outra pessoa ocupar o maior espaço. Então, não existe uma equiparação, uma igualdade nessa parceria. _ Não está faltando o diálogo? Eu não sei... Eu acho que falta o diálogo entre a parceria, mas eu não me sinto confortável em dialogar. E, isso, com o Moacir. Porque o Moacir, ele é muito positivo, ele tem um modo de ver de forma muito positiva e eu acho que vou ser uma grande decepção para ele se eu apontar alguma coisa muito negativa no trabalho em dupla, né? Então, eu prefiro ceder, pelo tipo de pessoa que eu sou, meio que deixar a coisa andar, mas aí eu vi que isso está acontecendo em outras parcerias, e, lá na SEME, sexta-feira, foi perguntado isso: Como é que está a relação de poder na parceria? E é realmente dominante. A matéria que é considerada mais importante, ela predomina. E as professoras de Artes, Inglês e Educação Física... a gente está recuando para ceder o espaço. Eu, pessoalmente, acho Português mais importante que Inglês. E eu não vejo espaço para eu desenvolver o meu conteúdo, mas aí não é mais o conteúdo. _ Por que não é mais conteúdo? Mas, ah! quando a gente, né, pensa... Moacir está sempre querendo inserir... “Aqui você pode fazer isso.”, só que, se eu fizer isso, é isso e pronto. Eles não têm uma seqüência. Então, eu vejo que meu conteúdo é... ele é assim... Curiosidade, é pontual. Eles vão ver uma coisinha que coube ali, naquele momento. Não existe uma seqüência, não tem tempo para isso. Então eles não têm tempo. A gente está falando de coisas mais abrangentes, temas mais... Menos específicos. _ Quem encaminha, direciona os conteúdos mais abrangentes (eixos temáticos das unidades conceituais) durante as aulas? Encaminhando a aula nos conteúdos da unidade conceitual? Quando isso acontece, eu posso, eu ou Moacir, a gente já divide bem, mas, às vezes, ele vai dar uma... A aula vai mais para o lado do Português, para o exercício de língua portuguesa. Aí eu deixo pra ele. Acho que ele é mais capacitado do que eu. Não só mais capacitado como ele tem a dinâmica, como ele vai, como aquilo acontece. Então eu não me sinto confortável. Então, quando ele fala “A gente vai pegar esse texto aqui, a gente faz assim, faz assim” meio de improviso... Eu não sei trabalhar de improviso com uma coisa que eu não estou preparada, eu nunca dei aulas de Português. Então, improvisar pra mim é difícil. Então, eu deixo. “Se você quer assim, se é assim que vai ser, então você faz.” _ Você não sugere outra coisa, não dá uma idéia, outro encaminhamento? Não, porque na maioria das vezes eu acho que a idéia dele é mais legal realmente. Ele... geralmente, o que ele sugere para as aulas... Geralmente é material que ele já usou. Então, ele já fez e ele já testou o resultado, ele já viu o resultado. “Ah, vamos fazer...” Então, tá. Quando eu tento dar minha 109 opinião, ela não é aceita. Eu tive um exemplo assim numa ACC. A gente fez um jogo da velha com palavras que apresentavam alguma dificuldade ortográfica com os alunos. Eu fiz, eu comecei a fazer e eu joguei com a sala toda. A gente só tinha cinco ou seis alunos na sala. Então, eu queria que cada um falasse uma letra, e à medida que a palavra fosse aparecendo, qualquer um podia falar o que era e a pessoa ia para o quadro. Ele interrompeu e disse: “Não, não é assim”. Eu disse: “Ah! Moacir, como nós só temos cinco alunos e a gente envolve...”. “Não, não é assim! Tem que jogar com um aluno”. Eu já tinha iniciado o procedimento. Não, eu acho que isso deveria ter sido respeitado... Deixa ela fazer do jeito dela, na próxima... Depois a gente conversa... Não, e, aí, eu tentei argumentar umas duas vezes, mas a gente estava na frente do aluno... Aí eu cedi. E era assim :“Vai Renato, mais uma letra, Nãaao. Óh! não deu Renato, mais uma...” E todo mundo esperando Renato. E todo mundo tinha que esperar até ele acertar. Então assim minhas opiniões não são bem-vindas, mas então é isso[...]. _ E sobre a possibilidade de trocar de parceiro? Você receia não encontrar essa “segurança” em outro parceiro? Não. Eu sou resistente por causa do conteúdo. Além de gostar de Moacir, achá-lo engajado, positivo, eu estou preocupada com o conteúdo. Foi como eu disse. A parceria vislumbra um conteúdo. A gente sabe o tema e a gente sabe o que abordar a partir dali e “puxar a sardinha pro nosso lado” à medida que as coisas vão aparecendo... E se eu for trabalhar com Lucas, entendeu? Eu ainda acho que Português e Inglês combinam mais do que Inglês e Matemática, Inglês e Geografia, Inglês e ... Eu vejo com bons olhos Inglês e Ciências, por exemplo, mas não vejo com bons olhos Inglês e Matemática. Eu acho que Inglês e Matemática funcionariam como “política de empréstimo”. Quando ele precisar, achar alguma coisa em comum, a gente trabalharia junto; mas não desenvolver um trabalho por dois meses, três meses. Mas eu acho que é essa minha visão conteudista. É porque não consigo ver ainda de outra forma. Eu não consigo. É pessoal. Eu vejo Lucas e Andressa sentarem pra planejar e de repente eles vão trabalhar retas. Eu acho que tem tudo a ver, Matemática, Artes, retas... entendeu? Mas onde eu entraria com o Lucas? Essa resistência eu ainda tenho. _ Rúbia, professora de Educação Física, afirmou: Mas ainda percebo dificuldade lá dentro (sala de aula), que eu ainda... falando da interferência/parceria com Ciências, eu vejo que os alunos, eles não enxergam como uma parceria estabelecida. Aí eu tenho que ficar me fazendo presente ali, que seja pra olhar um exercício de Ciências pra que, pelo menos, eles percebam que eu sei corrigir aquilo. Porque parece que eu só estou ali pra uma assessoria. [...] Eu percebo essa dificuldade... nos professores. Porque existe mesmo, né? Não é por tempo de serviço nem nada. Poderia existir isso da minha parte (já que ela é novata, contratada). Mas ainda existe essa dificuldade de estar buscando relacionamento entre as disciplinas, que não são mais disciplinas específicas. Mas existe sim. Eu percebi até na fala dos professores que existe uma dificuldade... O “casamento perfeito”. Eu consegui me enxergar “casada” com todas as outras disciplinas e eu entendo que pra mim é mais fácil. Não que a disciplina ou meu trabalho seja menos importante que o dos outros. Mas eu entendo que, pra mim, pelo leque de proposta que a Educação Física me permite... mas ainda existe uma visão de disciplinas, tanto dos professores quanto dos alunos. 110 _ Como ficam as relações? Como fica essa coisa de quem direciona a aula? Neste primeiro trimestre, não existiu um planejamento junto. Eram essas atividades de Ciências e dar uma coisa, dar outra. E eu ficava com um certo receio de romper logo com essas coisas que eu observava e que eu não acredito, que já está estabelecido, e ser rejeitada. Tinha isso também. Mas eu não percebia um planejamento dentro da proposta, de acordo com a proposta. A gente... Algumas atividades que foram feitas e que até foram super-interessantes... mas eu não conseguia ver a ligação. E principalmente, por parte do aluno. É uma proposta interessante, mas se eu não via isso sendo entrelaçado ali (na sala de aula), nem pra gente, nem pro aluno, então, ia ficar mais difícil ainda. Agora, até que no inicial e no intermediário a gente conseguiu buscar o que estava sendo estudado dentro do tema, produziu uma Mostra Cultural envolvendo a questão rítmica e os movimentos. Ainda ficou... foi feito, mas ainda ficou separado. Ainda a gente não discutiu (as duas professoras). Teve a vinda do seu Binho (velho pescador da comunidade). Acho que foi interessante, mas não sei até que ponto eles aproveitaram esse momento. É, a questão da releitura, que foi um diferencial, mas eles reclamaram porque era Arte. _ Você percebe que em algum momento há possibilidade de isso fluir? Essa sintonia maior entre vocês duas, digo, da parceria, ou você sente ainda que essa dificuldade é por conta dessa coisa de disciplina? Essa disciplina é mais dominante, “Eu tenho que dar esse conteúdo porque é muito importante”, e ficam Artes, Educação Física e Inglês como se fossem uma segunda classe? Isso, sim, porque a relação pessoal é ótima. Então, a dificuldade está mesmo nessa questão da diferença do meu entendimento do que é uma coisa (o trabalho, o currículo) e do entendimento do outro. _ O que chamou a sua atenção entre os professores, entre os professores e os alunos, na relação com a parceria, entre as outras parcerias? Que impressões você teve? A princípio, quando fui entendendo, ouvindo falar da proposta, eu percebi bastante resistência de alguns professores. Na forma de dar aula, né? No estilo tradicional e essa... Existe também essa coisa de puxar a sardinha pra sua disciplina, existe isso e na fala dos professores. _ Você poderia ilustrar? São as ações, olha só. É como se entra na sala. Às vezes, é coisa que eu observo. Se for a primeira aula, então é a mesa. Só tem uma mesa. Então é a aula é de (referindo-se às disciplinas consideradas dominantes)... Então isso não acontece só comigo não. Então são coisas que nem as pessoas percebem. 111 _ Vamos ser claros. São sempre os mesmos professores que se sentam à mesa do professor, que incorporam o papel e tomam o lugar? É, eu já nem faço questão também. Mas é como acontece. Ah! quando falam... “Nós estamos trabalhando com isso”. A pessoa se pronuncia e é como se um conteúdo muito específico, da área específica, estivesse sendo dado pelo outro professor também, dizendo que a parceria está envolvida. Então, na verdade não está; existe, sim, nós estamos lá dentro, mas ainda não... Mas eu me coloco: “Ah! hoje eu trouxe isso aqui...”. Eu acho que ainda está muito específico, mas eu não sei, cheguei agora, eu sou contratada, eu não sei colocar. Tem professor específico que eu percebo que eu conseguiria manter um diálogo. Com outro professor já nem tanto [...]. _ Mas fale sobre os casamentos perfeitos... É, eu sempre escuto isso ali dentro (na sala dos professores). Eu acho totalmente equivocado. É o que colocam lá, é o “casamento perfeito”. Então fica ali... A minha necessidade não é a saúde só. Há toda uma questão cultural, sócio-histórica envolvida que eu posso estar trabalhando normalmente. Eu acho que até prefiro, prefiro trabalhar nessa perspectiva. Não é abolir a saúde. A saúde é muito mais ampla até que a atividade física específica, mas eu fico na retranca. _ Andressa, professora de Artes, falou: Eu já tinha trabalhado aqui no ano passado. Este ano, quando comece,i fiquei meio insegura, até quando falaram que eu ia trabalhar com Lucas, com Matemática. Eu tenho uma afinidade de amizade com Lucas e sei das afinidades entre as disciplinas, mas fiquei insegura por essa construção do imaginário, da cultura da Matemática na sociedade brasileira, e pelos alunos também, da importância que eles dão à Matemática e das dificuldades que eles têm. Entendi a proposta, inicialmente, como uma proposta (currículo) que ia partir de alguma coisa, que eram as unidades conceituais, e que essa unidade seria desenvolvida a critério dos professores ou parcerias. [...] E como eu estava com o professor de Matemática, eu senti que foi fácil, porque eles conseguiram expor: “Professor, eu tenho dificuldade nisso, tenho dificuldade nesse, nesse conteúdo”. Eles explicam do jeito deles e o professor entende, porque é um professor experiente, e aí nós começamos a trabalhar as questões das dificuldades deles em matemática, mas aí tentamos contextualizar na proposta inicial das unidades conceituais, eu acho que foi o pontapé inicial desta pesquisa, dessa possibilidade de trabalhar Arte e Matemática. E não só Geometria, porque até então, quando eu conversava com o Lucas no ano anterior sobre trabalhar junto, em dupla só, surgia alguma coisa relacionada com Geometria, Geometria. E aí a gente viu que não só Geometria havia para trabalhar, mas outras questões também. E saindo um pouco dos conteúdos da Arte e da Matemática, nós conseguimos trabalhar algumas questões do cotidiano que foram questões relacionadas à urbanização, à tecnologia, na questão de medidas de espaço, espaço mínimo, por exemplo, o espaço da folha de caderno, o espaço da sala, de um terreno, de uma fazenda, uma estrada. [...] Tivemos outras atividades também relacionadas com Arte e Matemática, mas tivemos um momento assim, que eu deixei que Lucas trabalhasse as questões que os alunos tinham dificuldades, as questões de Matemática. 112 _ Lúcio, professor de História, foi otimista e sucinto: Uma coisa que muito me chamou atenção, quando foi implantada essa proposta de ensino de jovens e adultos, foi a proposta de trabalhar junto com a parceria, com outro professor, e também como um desafio da gente não ter um currículo preestabelecido. Porque, até então, a gente só estava acostumado a trabalhar com um currículo fixo. E com essa proposta, a gente ficou um pouco inseguro, ansioso, mas, ao mesmo tempo, à medida em que a gente foi trabalhando em sala de aula, a gente foi vendo o quanto é rica essa proposta. [...] Eu achei supercurioso trabalhar de modo interdisciplinar dentro duma escola, porque eu já tive essa experiência de trabalho interdisciplinar fora da escola, com uma equipe de educadores ambientais, e também a gente percebe que outros setores como a saúde, que trabalha com uma equipe multidisciplinar... e a escola, não. Na escola tem um trabalho engessado, um trabalho, até então, não é? Um trabalho seriado, de modo que fica difícil trabalhar interdisciplinarmente. Com essa proposta da EJA, a gente percebeu que isso não é impossível, basta querer fazer. _ Lucas, professor matemática, começa sua fala frisando a sua disciplina: Professor de Matemática. O que eu falo sobre a EJA... a seguinte situação: Nós vimos trabalhando no Ensino Fundamental Regular há muito tempo e a EJA vem sendo implantada, se eu não me engano, desde 2006, ou 2005, mas não vinha sendo efetivada dentro das escolas. Nós vínhamos estudando, tendo palestras, seminários e ficamos absorvendo aquele negócio, isso de trabalhar EJA. Vínhamos nos perguntando “Será que isso acontece mesmo? Será que não acontece?”. E esse ano foi colocado pra gente trabalhar. Mas é que foi colocado de uma certa maneira, que nós, professores, no momento como foi colocado por eles, pela SEME, nós tivemos um susto total. Eu principalmente falei: “Como é que eu vou dar aula agora?” Foi no final do ano passado, foi ter que fazer a opção, inclusive com a sua participação aqui, passando pra gente algumas pistas de como trabalhar, pra acabar com os conteúdos, aqueles conteúdos tradicionais que vêm assim: Matemática, tem que dar isso na 5ª série; Matemática tem que dar isso na 6ª série... Pra acabar com isso, trabalhar com a interdisciplinaridade entre os professores, no caso, com as duplas, e falaram até trios. E no final das contas, foi em duplas. Nós ficamos preocupados porque não sabíamos com qual dupla nós íamos trabalhar. O exemplo que eu poderia dar é o que seria, no caso de trabalhar Inglês com Matemática? Todos nós ficamos preocupados. No final das contas acabou casando e houve um “casamento perfeito”, porque colocaram Matemática com Artes. [...] É que nós estamos trabalhando assim: duas horas eu trabalho junto com minha parceira os temas das unidades conceituais e uma aula eu trabalho sozinho Matemática específica, até por conta dos horários da professora de Artes, que só vem duas vezes por semana – embora não devesse ser assim. Mas eu estou 113 feliz, porque estou tendo essa oportunidade. Eu estou casando as unidades conceituais junto com a Andressa e, quando estou sozinho, eu trabalho o conteúdo específico da Matemática. Na fala dos professores também encontramos fragmentos da fala dos alunos no sentido de parecerem prejudicados com as parcerias. Lembrei-me de ter ouvido de um aluno (registrado no diário de campo do dia 26/6/2008): “Essa mudança, parceria de professores, está fazendo a gente ficar sem algumas matérias que vão fazer falta”. Sem contar que ele se referia às matérias de Inglês e Geografia, reforçando a idéia de que realmente disciplinas como Português e Matemática, de um jeito ou de outro, estavam sendo oferecidas objetivamente. Enfim, essas falas fizeram-me pensar muito sobre como é se estar na fronteira, a fronteira entendida por Bhabha (1998,p. 24) como “algo começa a se fazer presente”. Na escola, nesse processo de implantação da modalidade, vivemos um lugar de fronteira, um “... ‘entrelugar’ onde emergem diversas necessidades espirituais e intelectuais antes não reconhecidas, emergem da imposição de idéias ‘estrangeiras’, representações culturais e estruturas de poder”. (BHABHA, 1998, p. 33). A aceitação da modalidade EJA pelos alunos Nossa! É assim, eles estão amando! Vou dar o exemplo da D. Maria José que ia largar. Ia para o Neuza Nunes. Aí participou da Mostra, veio, trouxe a filha! Ela é um exemplo! Marco é outro que questionou muito, mas depois viu objetivo. Ele viu que o conteúdo emerge, que aquilo que eles questionam, a gente vai para o quadro, a gente se esforça para ensinar. Porque partiu deles. Nós estamos trabalhando cidadania e vamos trabalhar gênero e etnia. E no momento da aula, se o menino quer aprender preposição, a gente vai parar a aula porque a gente não pode negar esse direito dele de ver o conteúdo que ele quer. Eu insisto na questão da participação dos alunos e lembro-lhe a dificuldade, muitas vezes, de o aluno se colocar sobre os conteúdos. Sim, mas aí a gente está fazendo um trabalho no sentido deles participarem mais. Como quando a gente trabalhou com a questão da cidadania no primeiro trimestre, engajamento social, e a gente trabalhou muito verbo nos conclusivos, porque verbo é ação, verbo é a palavra. Então, a primeira coisa que você tem que trabalhar na cidadania é a questão da atitude. Qual é a atitude que você tem? Qual é seu ponto de vista? Quais são os seus 114 princípios? E isso parte de quê? De verbo. E verbo nos leva a quê, minha lindinha? Aos objetivos. Então dos objetivos você parte para verbo: Aprender? Conhecer? É fazer um paralelo. Contrastar, confrontar, entendeu? Outro trabalho riquíssimo foi o da Fábia com a intertextualidade. (professor Moacir) Eu acho muito pouco, Nicéa. Na realidade, é... É muito pouca a participação deles, a contribuição é muito pouca. Acho que por falta de experiência nossa. Talvez o ano que vem seja bem melhor... E isso é falta de tempo também. Então, às vezes, a gente pede um exercício e a gente avalia aquele exercício, mas não tem tempo de olhar o que o aluno está pedindo com aquela resposta que ele nos dá... _ Você falou que não sabe se é bom ou ruim para o aluno esse modo como se está tentando trabalhar as áreas do conhecimento. De alguma forma algum aluno expressou satisfação ou insatisfação? A gente tenta fazer, no final de um período de 15 dias, ao final de um tema ou de um trabalho, uma avaliação com os alunos. Geralmente eles falam que a minha aula e de Moacir é a melhor aula. Vários alunos do conclusivo 2 falaram que vêm pra escola por causa dessas aulas. “Ah! eu só vim hoje porque são vocês que dão as duas últimas aulas”. Então o trabalho tem sido bem recebido pelos alunos. Não tivemos nenhum comentário negativo tipo “Ah! a gente não gosta disso, disso... A gente não gosta desse tipo de trabalho”. Nada sobre a organização dos tempos nem sobre as parcerias. A única pessoa que é negativa é dona Maria, do intermediário. Ela fala assim, o discurso dela é assim: “Não sei se vou continuar vindo. Não estou me adaptando. Eu não gostei dessas mudanças”. Mas ela não sabe pontuar do que ela não está gostando. Ela fala no geral, mas não parou de vir. Ela está aí até hoje. Ela freqüenta muito bem. Então, é isso que eu tenho deles (professora Fábia). Tem alunos que não sabem nem meu nome e isso acontece muito, não só aqui. No Ensino Fundamental (diurno) isso é muito mais presente, está muito marcante. A visão do profissional de EF como o professor que vai dar o futebol. E isso eu percebi aqui. Tem muitos jovens. Eu imaginava que fosse ter um público um pouco mais adulto. São muitos jovens e eles exigem muito isso de mim. [...] É que eles não me enxergam ali como uma parceira, eles acham que eu estou ali só pra depois descer. [...] Ah! aí depois eu ouvi alguns (alunos) questionarem sobre a parceria. Dizer que não está dando certo. Alguns não enxergam. “Algumas parcerias não estão dando certo”. Por que eu entendi dessa forma? “Não está dando certo porque a professora de EF tá achando que pode dar aula de História, porque Ciências acha que pode dar aula de Arte...” Porque na cabeça deles isso não está muito claro. Eu já ouvi outros comentários tipo “Ah! quando a professora de Arte está aí, quase não tem aula de matemática, tem que dá mais” ou “A aula de História é uma coisa, esse negócio de livro (o professor tem usado muito o livro)... A gente quer mais aula de Geografia”. Eles reivindicaram mais aula de Geografia... Mas não é por aí. Se eles estivessem compreendendo e se nós estivéssemos dando conta de manifestar de outra forma, talvez eles compreendessem. Por isso é que eu acho que a mudança tem que... Não só no diálogo, mas deve ser em nós primeiro. Fica muito difícil... (professora Rúbia). Eu estou percebendo aqui que os alunos estão interferindo à vontade. Eles 115 estão se sentido à vontade até porque não é só um professor ou só uma dupla que está trabalhando. São todas as duplas trabalhando o mesmo propósito. Eu estou vendo de maneira positiva, acho que ainda estamos em processo de adaptação. Estamos há cinco meses com esse trabalho novo, porque é muito novo pra todo mundo, e eu acho que, dentro das expectativas, foi além, além das minhas expectativas. Eu percebi não só no meu trabalho, mas no trabalho dos meus colegas também. [...] Está positivo. É claro que, às vezes, do mesmo modo que a gente faz uma intervenção com o aluno que não é ideal, eles também usam alguma interferência que também não é ideal, fazendo crítica a outro professor na nossa aula. Aí, a gente no PL dá um toque, “Ó, os alunos estão falando disso”. Aí a gente percebe que depois eles não falam mais sobre aquilo e as coisas melhoram nessa relação dos alunos com os professores (professora Andressa). [...] na verdade, o que a gente viu, na medida em que a gente propôs o tema, é que os próprios alunos foram dando pistas do que eles estavam a fim de estudar. Então, em consonância com o professor parceiro, a gente foi elaborando, fazendo esses planejamentos, planejamento nas sextas-feiras com o objetivo de chegar no início da semana e colocar em prática esse planejamento. E foi muito gratificante essa experiência no 1º trimestre, até esse momento também, porque os alunos... a gente percebe que eles estão bastante motivados com essa nova proposta. Inclusive a proposta do modo como a gente está avaliando o desenvolvimento dos trabalhos que eles (os alunos) fazem. Nós fizemos, elaboramos uma prova conjunta com outras áreas. Professor de Hhistória e Geografia com professores de outras áreas. [...] É eles mesmos ficam bastante curiosos. “Ué professor nós estamos estudando essa matéria também? Mas aqui não é história e Geografia, tem Português também?”. Já pegamos esse comentário em sala de aula também. Eu creio que eles vêem com uma certa... é, como um aspecto positivo, porque eles não se sentem sós e desamparados. Nesse aspecto, “Ah! vou esperar pra procurar outra pessoa pra perguntar”. Eles já vão direto. [...] É, a gente percebeu, no início, que alguns professores... Alguns alunos, mais notadamente os mais idosos, a gente percebeu um certo desestímulo “Ah! isso não vai dar certo”. E nós dissemos: “Não, pessoal, que história é essa? Nós vamos ficar pra ver”. A gente estimulou também esses alunos a também permanecerem e apostarem na modalidade. Eu vejo que os alunos nossos aqui aceitam, estão aceitando essa nova modalidade. Participam da aula... não estou querendo dizer com isso que eles tratam com desdém, que estão aqui só pra cumprir o horário, não, eles participam das atividades normalmente (professor Lúcio). No começo, não. No começo foi um “baque” pra eles. Mas agora, eles estão gostando e participando, eles chegam e falam: “Professor, naquela aula passada o senhor deu equações, o senhor não corrigiu...” [...] Agora, se está dando certo, eu, sinceramente, não vou afirmar que está dando certo, porque tem certos alunos que você não... Principalmente no noturno, nós temos alunos aqui que têm 56 anos, alunos que têm 60 anos, são aqueles alunos com ponto de vista que querem aprender aquela coisa tradicional... é Matemática. (professor Lucas). Uma das questões que se apresentam para os professores e me chamou atenção foi a crise que envolveu o atendimento dos alunos jovens, menores de 18 anos, presentes, hoje, no ensino noturno, dentro da modalidade. Ainda se aguarda a decisão do Fórum Estadual sobre a determinação da idade mínima de 18 anos para 116 os alunos de EJA. Sobre isso há um problema pouco discutido pelo Sistema e pela escola. Dentro das escolas, se, por um lado, os professores vêem a presença desses alunos com idade entre 15 e 17 anos como uma dificuldade no que se refere à metodologia de ensino voltada para a especificidade da modalidade, por outro, entendem que esses jovens adolescentes são a maioria dentro das salas de aulas e por isso tentam contemplá-los. Sem os jovens e sem os adultos, que por motivos vários não estão na escola, como ficará a modalidade EJA no ensino noturno? E, na seqüência, seus postos de trabalho? Do mesmo modo, o Sistema reconhece essa questão, conforme afirmou o coordenador da CEJA. Mas pareceu- me que o Sistema ainda não fez uma discussão suficientemente ampla a ponto de encaminhar soluções para o problema, especialmente em se tratando de políticas educacionais voltadas para esses jovens de 15 a 17 anos, que poderão ficar fora da escola, uma vez que não se enquadram no ensino regular diurno, não irão para o regular noturno – se isso implicar um deslocamento para fora dos seus bairros, nem serão acolhidos pela EJA, se for definida, como determinação legal, a idade mínima de 18 anos. Essa é uma questão que se enfrenta sobre a oferta da EJA e, de alguma forma, vem afetando ou brecando o movimento dos professores na implantação da modalidade. A aceitação dos alunos parece estar acontecendo em função das negociações feitas entre eles e os professores, no que se refere aos conteúdos tradicionais e aos temas sugeridos nas unidades conceituais, e, também, em função de a modalidade oferecer horários mais flexíveis – aulas de segunda a quinta-feira e freqüência não obrigatória nas ACCs. Eu também pude ouvir e registrar em meu diário de campo, no período de fevereiro até julho, o que disseram alguns alunos de diferentes idades: “O que eu busco aqui na escola, eu acho que é o específico espaço de cidadania, educação”. “O que eu vim buscar aqui foi que o professor me direcione pra eu dar seqüência aos estudos”. 117 “Na verdade, eu voltei a estudar por causa da modalidade EJA, agora implantada aqui na escola. Eu tive uma filha há pouco tempo e só consegui conciliar com estudo por causa das condições que tenho aqui na EJA”. “A EJA dá mais condições pras pessoas como eu (trabalhador) voltarem a estudar”. “Tinha quatro anos que eu não estudava e voltei por causa da EJA. Eu vi que dava pra eu me encaixar. Que não puxava tanto por causa das aulas serem de segunda à quinta-feira e eu estou achando ótimo”. “A gente quer conhecimento geral, mas quer também coisas específicas pra tentar entender as coisas.” Assim, os jovens demonstram projetaremse mais para o mercado de trabalho, em busca por emprego, e a maioria dos adultos deseja ser alfabetizadas ou potencializar suas habilidades de escrita e leitura para satisfação pessoal ou para se manterem nos seus atuais empregos. São falas que trazem diferentes expectativas e concepções sobre a modalidade dentro da escola. A preocupação e a ênfase dada pelos professores sobre os conteúdos e/ou o currículo em suas disciplinas Na escola, os professores continuam alegando falta de tempo para criarem seus materiais e prepararem as atividades para seus alunos nos moldes do “currículo em movimento” da EJA. [...] outra coisa é sobre autonomia para trabalhar, produzir nosso material. A autonomia está sendo maravilhosa. A cobrança, não sei. A gente pode até usar outro termo. A gente cobra da gente mesmo, é o grupo que se cobra. “Ó, gente! a coisa não está dando. A gente está...” É nisso que eu vejo o trabalho aqui acontecer muito mais de forma legal do que na UFES. E, como lá foi onde começou, ficaram com uma exigência maior. Por mais que a nossa colega, amiga de Artes (da UFES)... eu sei que o pai dela está doente. Ela está cansada, mas também tem outras coisas... “Ó, cadê o currículo de Artes? A Arte não está aparecendo!” Então, quando ela chega com essa proposta, a gente desanima também. E quem está fazendo essa proposta aqui é nosso amigo da CEJA, sobre os eixos temáticos... Mário Vítor acrescentou muito na minha vida, como você também. A gente tem o pensamento que é como você fala, “Gente, eu sou pedagoga, o lugar de autoria é a sala de aula”. (professor Moacir). Então, eu acho que a gente vem trabalhando nas áreas dos eixos temáticos, e o trabalho tem sido interessante, mas eu não sei se os alunos estão ganhando tudo o que eles teriam que ganhar no Ensino Fundamental. Então, eu estou muito presa, ainda, na questão dos conteúdos, mas não sei até que ponto os conteúdos ajudariam alguém a crescer profissionalmente. [...] Os conteúdos formais, os conteúdos antigos. É, eu não tenho tanta certeza que eles não precisam saber Matemática, como a gente sabia, como a gente aprendeu há dez anos atrás, quando a gente foi pra escola e aprendeu Física, Química e Matemática. Também eu paro pra pensar em 118 que que eu usei a Matemática que eu aprendi. Na verdade, eu não acho nenhuma função real na minha vida para a Matemática que eu aprendi. Mas eu não sei se tirar essa Matemática ou deixar essa Matemática emergir, na medida em que o conteúdo vá surgindo... (a professora que está falando é de Inglês!). Eu não sei se isso é benefício para o aluno. Então, eu tenho essa visão, visão ainda mais tradicional do ensino. Então, eu tenho muito medo deles estarem sendo prejudicados por conta desses conteúdos que vão emergir. Eu também acho que o ensino fica muito dependente do professor. Então, eu acho que alguns alunos vão ser mais bem preparados e outros não, por conta dos professores que eles têm. Então, dependendo do engajamento que o professor tem com o Projeto, dependendo da... Como eu coloco? Do que o professor sabe ou deixa de saber, da esperteza do professor, do conhecimento do professor... Esse aluno vai aproveitar mais ou menos das aulas que ele vai ter. [...] As condições não são favoráveis. Você pensa assim: Uma de minhas alunas de lá, Rosemar... será que essa mulher, quando fez o Ensino Fundamental, o Ensino Médio, ela teve aula? Ela teve bons professores? Que professor foi disponibilizado pra ela lá na Serra onde ela estudou? Eu não sei o que ela teve pra eu falar agora que o conhecimento dela de Inglês é pífio. Eu não sei se faria diferença pra ela ter tido conteúdos tradicionais ou ter estudado nas condições da modalidade, se seu conhecimento seria diferente. Eu não acho que o sucesso ou o fracasso do que ela sabe hoje é por causa de como os conteúdos foram passados pra ela. Em que condições ela estudou? Como ela saiu de sua casa? Quanto tempo ficou fora da escola? Todo um conjunto vai formar uma pessoa. Então eu não acho que a modalidade EJA vai ser a salvação desses meninos agora. Eu não consigo ver por esse lado. É um caminho, uma possibilidade, perigosa no meu modo de ver, porque a gente está trabalhando uma coisa que a gente não está seguro ainda. Que a gente está tateando, vendo se funciona. E a gente está testando com os meninos. (professora Fábia). Mas eu aí faço só uma ressalva, que eu fiquei muito preocupada, mesmo tendo essa visão de que isso pode dar certo. Acredito, acredito, acredito. Mas quando eu vejo a forma que eles (os alunos) escrevem, eu fico com o pé atrás. Os alunos, a forma das suas escritas. [...] Porque a gente tem uma visão de que é interessante nesse sentido (proposta), que busca uma formação diferenciada, né? Mas eu fico preocupada também quando eu pego um texto e está escrito na forma... (errada, segundo a língua padrão). E o que eu faço então? Os erros que a gente... São erros. É considerado assim porque a gente está numa sociedade que pensa assim, e a gente vive nela, já está estabelecido que são erros gramaticais e eu sei que isso vai prejudicá-los mais à frente. Eu estou vendo no Ensino Superior, acadêmicos com erros grotescos. E os alunos que estão buscando algo mais? E os alunos que vão parar por aqui? (professora Rúbia). É, eu ainda tenho meio que o pé atrás com as questões dos conteúdos essenciais, é... Formais. Essenciais, na cultura conteudista, e que são cobrados em concurso. De vez em quando, eu tenho. Não quer dizer que eu estou “relax” com isso, não. [...] Tem hora que eu estou segura sobre os conhecimentos, tem hora que não, que dá aquela insegurança, fica a impressão que vamos ficar devendo. Tipo assim: “Meu Deus, o que que eu estou fazendo aqui? Que diferença eu estou fazendo na vida dele? Para construção de espaço da realidade da vida dele?” A gente se pega pensando assim: “Que diferença eu vou fazer explicando, por exemplo, assim?” Como quando eu estava explicando vitral pro aluno, trabalhando Geometria em Matemática e vitral em Artes: “Até que ponto isso vai fazer diferença na vida dele? (professora Andressa). A modalidade, pra mim, ela nos deixa mais livres, ela é uma proposta 119 menos engessada, menos presa em ter que cumprir ou oferecer aqueles conteúdos tradicionais. (Que conteúdos estão emergindo que você acha que estão favorecendo essa compreensão de mundo?) É o conteúdo de uma formação interdisciplinar, uma formação global. Essa modalidade EJA possibilita essas questões do próprio aluno trazer essas informações do cotidiano da vida dele, de conhecimentos que ele já tenha adquirido ao longo do tempo, e isso é transformado em conteúdo, o professor tem que ter essa sensibilidade, tem que captar e transformar em conhecimento. (professor Lúcio) Agora, eu tenho uma preocupação em parte com respeito a isso. Inclusive, no dia da reunião da SEME, eu coloquei, falei com você, eu falei assim: “Gente, eu acho que ninguém está se preocupando com o conteúdo”. Eu concordo com vocês da mudança, eu concordo com a mudança, a gente está aqui pra mudar, é legal, nos dá, inclusive, uma vontade a mais em trabalhar. Mudança é um negócio muito legal, a gente passa a sair daquele conteúdo, aquele negócio chato do conteúdo, todo ano a mesma coisa. Está sendo legal. Mas o que está me preocupando é que a Matemática, aí eu estou sendo específico, porque a Matemática, ela tem algumas coisas que são interligadas, quer ver, não tem jeito, não tem como eu não ensinar equação do 2º grau na 8ª série (nos conclusivos). [...] Nosso objetivo é formar o cidadão para a vida externa (sociedade), mas eu vou colocar pra você... Em qualquer concurso que se fizer, é quase só conteúdo mesmo! Há uns dois anos atrás, na época que já se falava em interdisciplinaridade, eu peguei uma prova da Aeronáutica, prova que nossos alunos aqui almejavam demais. Era conteúdo purinho, purinho de Matemática. Agora, vem cá, vamos tirar a Escola Técnica embora, hoje, seja o que mais se aproxima dos interesses deles. Nós estamos preparando os alunos para a vida aí fora, não é para fazerem um concurso do BANESTES, da CAIXA ECONÔMICA? O que você acha que colocaram nisso. Eu não estou sendo contra a EJA, não. Eu apenas estou dizendo que há certos conteúdos que não têm jeito de não serem trabalhados. [...] Eu quero ser sincero pra você, porque estou fazendo isso. Eu estou trabalhando Matemática com eles assim: eu chego pra professora de Artes e digo: “Você me dá esse horário de aula”, Eu consegui fazer isso com eles, até porque eu sei que se você pegar qualquer prova de concurso do BANESTES ou da CAIXA ECONÔMICA tem lá uma equaçãozinha. Eles querem, e eu ensino. Eu tive agora, recentemente, um aluno do conclusivo que foi fazer uma prova para trocador de ônibus. A primeira coisa que eles o mandaram fazer foi uma redação e logo depois um monte de contas. Eu perguntei “Como é que foram as contas?” “Professor, era conta com vírgula, você tem dez reais pra pagar a passagem do ônibus, você salta e você compra um chiclete, depois você compra umas balas e quanto te restou? Quantas pessoas entraram no ônibus...” Quer dizer, tudo isso gera uma equação do 1º grau. Você tem que montar uma equaçãozinha, dá o valor pra x, pra vê quanto sobrou de x... Isso você pode fazer, tem aluno que faz isso como cálculo mental. Então tem esses casos. (professor Lucas). Por exemplo, a gente vê no Ensino Fundamental regular que o ensino é muito fragmentado. A gente entra, dá aquela aula de Ciências e só fala de Ciências, Matemática só Matemática, tudo isolado. Não tem um encontro, uma ligação entre uma situação e outra. (professora Rosa do primeiro segmento). Eu acho que vai sendo, por exemplo, como a gente trabalha à noite com alfabetização, com o primeiro segmento. Pra gente é mais fácil porque a gente sempre trabalhou com o núcleo comum: é que a gente trabalha com Português, Matemática... A gente fazia toda aquela interdisciplinaridade, juntava tudo e dali ia tirando vários conteúdos. Já os outros professores, 120 que estão trabalhando Ciências, eles só pensavam na matéria, viam só o conteúdo dentro de Ciências... Geografia... História, entendeu? Então, pra eles a dificuldade é maior. [...] Eu, por exemplo, quando chega um aluno adulto meu e ele fala assim, “Olha, professora, eu quero estar aqui hoje estudando no primeiro segmento, pra mim, eu chegando no final do segundo segmento (8ª série), está ótimo, porque eu já adquiri conhecimento, eu já enriqueci alguma coisa, eu já aprendi a ler... E no meu trabalho é aquilo ali, eu não vou mudar o meu trabalho...” Então você tem um caminho de trabalho, você faz uma forma dessa. Quando o aluno chega pra você e fala assim, e aí a minha preocupação:“Professora, eu quero sair do 2º segmento, eu quero ir pra universidade, eu vou fazer uma prova que envolve Química, que envolve Física, que envolve não sei o quê...” Todos aqueles conteúdos que você já sabe, que é um pouco mais complicado de você trabalhar na forma que você vem trabalhando nesse dia-a-dia, e tudo deles, eles lendo, eles interpretando, eles criando cenas, projetando imagens e, quando chega lá... E até ontem mesmo, quando a gente foi fazer uma visita no PROEJA, e a moça veio passar pros meus alunos que estão no 1º segmento, que, pra eles entrarem no PROEJA do CEFETES, eles vão fazer prova de física, de química, eles murcharam. Sabe? “Como é que nós vamos fazer prova de Física, Química, de Biologia, se nós estamos dentro desse caminho aqui dentro do 1º segmento, pra chegar ao 2º segmento? Como é que é essa questão desses conteúdos?” Então, eu acho que é mesmo você ter a preocupação de estar trabalhando o que cada grupo seu, naquele momento, está querendo e está desejando, e de como você está encaminhando as coisas. Aí você percebe, por exemplo, hoje, as provas da UFES? Você vê que é tudo contextualizado, não tem uma divisão de prova do que é Português, do que é Matemática, do que é História, do que é Geografia. Você vai pegando as questões... é um texto da vida como foi na nossa prova. E nos outros lugares? Então a minha preocupação ainda é saber sobre os conteúdos, como é que a gente vai trabalhar isso aí. (professora Silvia, do primeiro segmento). Eu penso que foi por isso que o prof. Carlos viu que não se enquadrava na modalidade e porque, dentro da cabecinha dele, ele não conseguia retroceder, jogar tudo fora, aquilo que ele aprendeu, pra reaprender uma nova modalidade. Então o que ele preferiu? Preferiu voltar a fazer aquilo que ele aprendeu, que ele praticamente... Ele não queria estudar mais, ele não queria mudança! Ele queria continuar fazendo aquelas mesmices, porque ele aprendeu na EF jogos, jogar, treinar e ele sabe qual... Então, tem muitos professores que, se isso acontecer no EF regular, ou seja, de 1ª a 8ª no diurno, muitos professores vão preferir rodar, vão querer desistir, entregar seus cargos porque não vão querer mudar. (professora Eva, do primeiro segmento). A preparação de materiais e o planejamento das atividades, da forma como estão acontecendo na EMEF, com ênfase nos conteúdos das disciplinas/parcerias, revelaram-se como mais 121 uma brecada na ação dos professores que buscaram realizar o “currículo em movimento”. Parece-me que, ao final das contas, essas tentativas se traduziram no fortalecimento da idéia de que todo o processo depende ou parece depender dos professores, individualmente, e/ou dos conteúdos tradicionais de suas disciplinas. Significa dizer que, ao esbarrarem nas contradições e talvez na falta de aprofundamento em suas concepções sobre a modalidade, e mediante a falta de condições reais para elaborarem junto com os alunos o “currículo em movimento”, os professores enfrentaram o pouco tempo dos PLs, por exemplo, simplesmente fazendo ou trabalhando os conteúdos com os quais já estavam habituados. Ou seja, no que se refere à seleção de conteúdos ou informações que dariam sentido aos conhecimentos que os alunos buscavam, recorreram aos materiais e aos conteúdos trabalhados nos moldes do ensino regular diurno. Entre a experiência com o ensino regular e a inexperiência com a modalidade, os professores, especialmente os do segundo segmento, chegaram a uma fronteira, ainda que não se dessem conta disso. Assumiram esse lugar, como bem diz Certeau (1994, p. 24), como lugar de passagem, lugar de operações enunciadoras dos diferentes movimentos e relações que as redes cotidianas implicam. E foram revelando currículos hibridizados nas suas tentativas de trabalhar as unidades conceituais e os conteúdos específicos de cada disciplina numa tensão entre o que se entende e se pretende da EJA e o que se entende e se pretende do ensino regular no processo de ensino. Para Certeau (1994, p. 213-214) “os pontos de diferenciação entre dois corpos são também pontos comuns. A junção e disjunção são aí indissociáveis, é um entre-dois, um lugar terceiro, jogo de interações e entrevistas, símbolo de intercâmbios e encontros”. [...] “São narrativas, relatos que ocupam um lugar terceiro, um entrelugar que “muda” a fronteira em ponto de passagem”[...], em um vaivém que nos leva a transitar por territórios culturais diferentes, realizando uma estranha forma de olhar para o que sempre foi familiar, obrigando-nos a fazer novas significações. É o que Bhabha (1998) denominou de lugar fluido, de produção de hibridismos, na medida em que reúne, cruza, mistura. Assim, na fronteira, os professores criaram novas performances com práticas 122 curriculares tradicionais na busca por saberfazerepoder sobre o “currículo em movimento” no processo de ensino. As ACCs A maneira como estão colocadas, organizadas e fixadas as ACC’s dentro das escolas vai de encontro à maneira como estão dentro do projeto EJA. Os argumentos colocados pelos professores são de que os poucos alunos que as freqüentam, geralmente os mais jovens, embora encontrem os professores/parcerias disponíveis nas salas de aulas, não se interessam por nada de novo ou de diferente na proposta de atividades para fixação ou reforço de conteúdos específicos. Assim, as ACCs tornam-se, portanto, projetos individuais, mais uma das “brecadas” que se apresentaram para a realização do “currículo em movimento”, no que se refere à idéia de atender aos alunos jovens e adultos trabalhadores, que não conseguem chegar à escola no horário de início das aulas, ou seja, às 18h. É outra coisa que a gente tem que ver, outro impeditivo que a gente estava colocando sobre os planejamentos. É a questão dos planejamentos na sexta-feira. Lá (SEME), na visão que eles têm. Eu não sei. Nessa forma de trabalhar... Como é que o projeto vai andar? No convênio que eles estabeleceram com a UFES, nós temos uma turma pequena, são quinze alunos no 1º segmento e uns vinte no 2º segmento. Acontece o quê? Duas horas de aula, das 15h às 17h. Então, a gente chega à UFES cedo, e as parcerias têm das 13h até as 15h pra resolverem os problemas, para acrescentar. Coisa que aqui a gente não tem. Porque os quarenta minutos, das 18h às 18h40min, é em ACC. Horário que a gente tem que entrar na sala de aula e atender o aluno na sua diversidade, suas dificuldades... Como aconteceu no outro dia em que eu ia sentar com a Fábia, mas chegou o Oziel... Então, eu disse: “Não, Fábia, eu vou”. Eu tinha estabelecido um acordo com ele, que toda vez que ele chegasse mais cedo, ele me procurasse, porque ele sente dificuldade de leitura, de escrita. Você está entendendo? Então, é essa a diferença. Então, é uma coisa que eu tenho começado a pensar. Eu acho que é a questão dos projetos do ACC. Por que ACC tem que ser só no início? Por que a gente não pode fazer depois, em um horário que seja para a escola toda? Por que a gente não pode desenvolver várias oficinas, várias atividades e dividir esses meninos após o recreio? Por que ACC tem que ser nesse horário em que eles (SEME) sabem que, muitas vezes, quase não chega ninguém. Então fica uma coisa assim... Para ilustrar! Porque não acontece de acordo com a realidade e isso choca e desanima... Se, pelo menos, a gente tivesse esse tempo, de 6 às 7, seria um bom horário que as parcerias teriam. Por que não? (professor Moacir). Eu tenho a possibilidade de atender a esses interesses nos horários de ACCs, mas acontece que o aluno não vem. Ele alega que não tem tempo, é 123 um aluno trabalhador. Há os que poderiam vir, que não trabalham, mas também não vêm. Gente, o que eu estou colocando é que estamos experimentando essa proposta de EJA pela primeira vez, vivendo essa experiência, e estamos percebendo algumas coisas que talvez precisem ser estudadas para melhorar. [...] Talvez eles (CEJA) vão estudar mais isso e vão nos dar mais condições de trabalho e... tempo, não é? Porque nosso tempo é muito curto. De vez em quando a gente tem que jogar com os horários das ACCs, sei lá, trocar dias... Isso é sério, porque, hoje, infelizmente, se não planejar... já era! (professor Lucas). Nas entrevistas, eu pude perceber, nas poucas vezes em que as ACCs foram, citadas que não aparecem como algo significativo ou positivo para o processo de implantação da modalidade. Eu acredito que a idéia que fundamenta as ACCs na proposta não foi abraçada pelos professores e alunos porque esbarra na lógica de uma organização dos espaçostempos que ainda entende o atendimento aos alunos e o trabalho pedagógico no formato das “aulas” tradicionais, portanto, as “aulas” só acontecem após as 19horas. Observo que isso é reforçado na organização dos horários/tempos fixados nos moldes do ensino regular diurno e numa visão de que o professor só trabalha se estiver em sala de aula com alunos. Esses horários, portanto, são “usados” com táticas que lhes permitem escapar das salas de aulas com propostas várias e oportunas, como, por exemplo, reunir o coletivo para discutir uma questão emergente, compensar atrasos, entre outras. De algum modo, os professores que se referiram às ACCs estão preocupados porque elas não acontecem ou acontecem fora da proposta. Isso significa dizer que, ao contrário do que se possa imaginar, os alunos jovens e adultos trabalhadores são, de um modo ou de outro, atendidos em suas demandas com ou sem ACCs, porque é impossível ignorá-las dentro das “aulas”. Algumas falas dos professores sobre a importância dos conteúdos revelam isso. A formação dos professores de EJA Agora, uma coisa que está faltando, que é outro impeditivo, são as dimensões. Nós temos que estudar. Nós estamos estudando muito pouco... É outra coisa que a gente tem que romper. O pessoal não gosta de socialização. Eles querem ir direto para as atividades que devemos dar aos alunos, entendeu? O trabalho, as parcerias... Isso é uma falha. Isso é uma falha porque naquele momento inicial (sexta-feira para PL e estudo), no meu entendimento, têm que entrar as dimensões... _ Mas essa socialização, esse estudo sobre as dimensões (trabalho, cultura e 124 memória), não está sendo feito nos PLs coletivos e individuais? Não, acontece, mas o pessoal não faz aquele momento de parar mesmo. Pode até estabelecer um tempo, mas as pessoas têm medo de... Eu não sei. Não sei se você percebeu... Na hora de falar, simplesmente não falam, ou ninguém fala de uma parceria, ou sempre só um da parceria fala... Tem parceria que nem se manifesta... Sim, trazer, trocar. Gente, falta estar colocando na pauta a nossa experiência. A gente tem medo... A gente tem medo aqui e lá na SEME. E como a gente vai passar (experiências) numa reunião quando precisar? Gente, a gente vai ter que trocar experiências! A gente tem que se soltar, porque nosso trabalho está um trabalho responsável. A gente está partindo mesmo dos interesses dos alunos, ouvindo. (professor Moacir). Eu acho, Nicéa, eu acho que nós, por termos uma formação específica, a gente não vê alguma coisa que poderia emergir. Essa é minha preocupação. Então, quanto a Português e Inglês, eu sei tudo o que a gente pode puxar, e a gente puxa. Mas eu acho que eu deixo a desejar no meu trabalho... sabe? Às vezes, tem um fato histórico que eu poderia mostrar naquele momento, mas eu deixo de fazer porque simplesmente eu não sei. _ Você tem conhecimento sobre o acúmulo histórico e pedagógico da modalidade EJA no contexto da educação no Brasil? Aí eu vou te falar. Eu, professora da EJA, hoje, em 2008, não tenho o menor conhecimento. Então, pra mim aí está a primeira falha gravíssima do projeto. Se existe um fundamento teórico que embasa todo esse projeto, que indique como os professores têm que trabalhar adequadamente com os alunos para que eles se desenvolvam, nós deveríamos ter sido trei... treinados. _ Eu me remeti ao documento e lembrei-lhe a proposta da SEME de uma formação na prática... É exatamente isso. Estamos testando nos alunos. (professora Fábia). _ Há aspectos impeditivos para a realização da proposta? Acho que sim, mais tempo pra planejar e organizar as ações, mais tempo pra trocar idéias, mais formação. Uma formação específica, uma formação que, além dessa troca de experiências e propostas de recursos – é, porque até agora as formações da SEME foram só no sentido de propor recursos para serem usados em sala de aula, devia ser uma formação mais direcionada para a proposta de EJA, pra modalidade, para esses desafios que a EJA tem, “tipo” lidar com esse aluno que é um aluno trabalhador, que é um aluno que vem de uma realidade diferente do diurno; uma formação que realmente desse condições ao professor de pensar, refletir sobre a modalidade. Mas eu acho também que a SEME está amadurecendo isso, entendeu como? Não é porque eles não... Eles têm até a intenção, mas eles não estão conseguindo ainda. Eu acho que eles não encontraram ainda o 125 que fazer nessas formações. _ Você considera as experiências que estávivendo com a modalidade como formação? Acho que sim, porque eu costumo dizer assim, eu até coloquei essa frase no meu trabalho do curso que estou fazendo na UFES: “Eu aprendo enquanto eu ensino”. Eu aprendo muito e, às vezes, eu tenho uma proposta, e a interferência do aluno faz com que minha proposta mude totalmente. É assim, às vezes, eu me pego assim: “Nossa! como sou ingênua”. Igual a uma atividade que eu passei pros alunos e, meio que defini, defini o que eles iam trabalhar. Foi a questão dos espaços nos vitrais. Ai os alunos queriam desenhar coisas bonitas: borboletas, coisas da natureza, árvores... e aí um aluno falou: “Eu quero desenhar um pimentão”. Eu acho que já te contei isso. Todo mundo riu, a turma inteira riu, um pimentão não tem nada a ver, de onde você tirou isso? Depois, fui saber, conversando com o aluno, que ele já trabalhou numa plantação de pimentão e ele não queria pintar o pimentão colorido. Ele queria trabalhar o pimentão na cor verde. Aí eu falei: “Mas a gente está trabalhando o vitral e isso aí não é um pimentão, é uma representação do pimentão. Você vai trabalhar dividindo as formas e pintando da cor que você quiser.” Mas ele falou: “Eu quero trabalhar isso”, e contou a história de que o trabalho dele, por muito tempo, foi numa plantação de pimentão, e isso fazia sentido pra ele. Então, os alunos ficam o tempo inteiro buscando sentido pras atividades que nós propomos. Pra gente é muito claro o nosso objetivo. Pra mim é muito claro e, assim, muito pretencioso mesmo. Eu passo uma atividade, eu tenho o meu objetivo, e o aluno, assim... não faz sentido aquilo pra eles. Isso a gente percebe muito com as crianças, mas com os adultos... Eles fazem a interferência na hora, entendeu? (professora Andressa). _ E sobre a formação? Ah! Sim, no aspecto da formação fora da escola. É que ainda há muita resistência por parte dos professores de se deslocarem pra SEME, dada a grande demanda que essa modalidade exige com relação ao tempo pra se planejar. Então, os profissionais ainda vêem com certa resistência deixar o trabalho dentro da escola pra ir pra SEME participar, por exemplo, de uma capacitação que, de repente, não vai acrescentar muito ao cotidiano. (professor Lúcio) Os professores percebem a necessidade de maior aprofundamento nos fundamentos da modalidade, mas fogem o tempo todo disso. Alguns alegam que na escola esse estudo não é realizado,devido à demanda de tempo para os PLs e a preparação de materiais para as aulas. Outros não se 126 vêem contemplados na formação oferecida pela equipe da CEJA nem nos fundamentos sociofilosóficos nem nos metodológicos. A questão que eu elaboro a partir das colocações dos professores é se, de fato, eles estão interessados ou envolvidos pela proposta o suficiente para discutirem o perfil do professor de EJA. A meu ver, os professores tentam escapar o tempo todo dessa discussão e isso me parece uma pista que revela mais uma das “brecadas” nesse processo. Com exceção do professor Moacir, nenhum outro professor cita, questiona, afirma ou nega a importância das dimensões do trabalho, da cultura e da memória na educação de jovens e adultos. A impressão que eu tenho é de que essas dimensões foram pouco problematizadas e incorporadas à prática pedagógica. Penso que na EMEF os sujeitos encarnados, inteiros, de corpo, afeto e cognição, estão vivendo diferentes experiências com a EJA. Nessas narrativas que ouvi, os processos de diferenciação fizeram-se presentes na ambivalência de percepções, traços de memória e imaginação. As idéias sobre o que tem, o que faz e o que é o currículo para EJA aparecem o tempo todo hibridizadas e em processo de constituirse nas redes de saberesfazerespoderes cotidianas. Esse processo implica escolhas, negociações, hibridizações, e, como nos assegura Ferraço (2002), acontece em todos os espaçostempos escolares e fora dele, ficando difícil saber onde, quando e por quem está sendo gerado e engendrado exatamente. É isso que me fascina. O conhecimento passa a ser algo mais que um determinado conteúdo, centrado em alguém ou em uma situação específica (planejamentos, aulas, avaliações, entre outras.), mas nos processos naturais e sociais onde se geram, e, a partir daí, são levados em conta processos de ensinoseaprendizagens. Nesse sentido, a educação como processo permanente e contínuo, além de considerar a instrução, deve residir na vivência personalizada de aprendizagens em que coincidam processos vitais e processos cognitivos (ASSMAM, 1998). A aprendizagem e o ensino são, desse modo, processos corporais, prazerosos, 127 reinventados e personalizados e conhecimentos inscritos na vida de cada um. A nossa formação de professores foi baseada no conhecimento como reflexo externo e objetivo da realidade e nos fez crer em “verdades” acabadas e absolutas. Essa concepção que produziu a idéia de “saber” e “poder” sobre as representações da realidade educativa produziu, também, uma formação ética no que se refere ao modo de ver o conhecimento e o currículo e refere-se também à maneira de nos relacionarmos com o mundo e com as pessoas. Na escola, incorpora-se o discurso do “atendimento à diversidade”, sem discutir nem problematizar as diferenças, conforme afirma a professora Rúbia: A diversidade? Não sei se eu entendi exatamente o que você queria falar, mas o que vem na minha cabeça pra eu te falar é que se propõe a diversidade para discutir, mas ao mesmo tempo nos enquadramos enquanto iguais. Cada um na sua, equivalente ao seu saber. Então a diversidade parece que só está proposta para os alunos, para os conhecimentos. Então, não quer dizer que um monte de informação é uma forma de contemplar a diversidade. Se isso não vai fazer ligação com os alunos. No meu entendimento, não vai dar contribuição nesse sentido. É, até fica difícil, às vezes, trabalhar nas turmas pela “diversidade” existente. Eu não posso te falar pelos outros, mas eu acho que na nossa (parceria)... no nosso entrosamento, eu acho que não existe ainda esse respeito a essa diversidade. Por vezes, parece que a gente está numa escola onde é o Ensino Fundamental (regular) e tem a turma de 1ª série... E vai se fazer isso, aí depois vai se fazer isso e vai fazer isso...(professora Rúbia). Ser e estar no mundo, especialmente para os sujeitos situados no processo educativo escolar, exige uma postura ética quanto à condição de se estar em processo autopoiético, em autofazimento, enredando o tempo todo diversos e variados tipos de conhecimentos/saberes e sendo enredado por eles. Assmam (1998, p. 136) explica-nos: Autopoiése é um neologismo (cf. Maturana,et al., 1995)... Um sistema autopoiético é uma teia de processos que 1) vão produzindo ingredientes, componentes e padrões (caóticos e ordenadores) que regeneram continuamente, através de suas transformações e interações, a própria teia que os produz e 2) constituem o sistema enquanto unidade concreta no espaço em que existe, ao especificar o domínio topológico no qual se realiza enquanto teia. Os processos autopoiéticos devem ser imaginados como multiplicidade de níveis de interligados e emaranhados... “Um sistema é autopoiético quando é constituído por um conjunto de componentes cujas 128 transformações e interações não cessam de reproduzir a organização à qual pertencem” (Maturana; Varela,1995). Entender o processo educativo dos sujeitos como um processo autopoiético é entendê-lo como devir. É entender o sujeito em processo de vir a ser outro de si num movimento constante. Isso implica uma reviravolta no modo de se pensar a diferença nos processos de formação dos sujeitos. O ser o que está sendo não depende apenas de fatores exógenos para se constituir. Depende também de fatores subjetivos, desestruturantes e caóticos (dúvidas, medos, surpresas, insatisfação, entre outros.) em quê o que se está sendo pode modificar-se. O sentido da nossa história como sujeitos em prática é, pois, um estado e um processo localizado no extremo da nossa subjetividade, portanto, prenhe de deveres. É o movimento de ser, e ao mesmo tempo, em potência de vir a ser outro de si. Minha compreensão é de que, no cotidiano da escola, os currículos vêm consubstanciando-se nos sentimentos e na busca pela invenção e ampliação da própria perspectiva de autoformação. No cotidiano de nossas práticas em redes de saberesfazerespoderes, nas diversas situações e contextos, vamos negociando nossas escolhas e nossas ações, afetando-as e sendo afetados por elas no movimento que nos enreda e nos envolve pela tessitura dos currículos que nos formam. 129 4 (IN) CONCLUSÕES DESENHADAS A PROVISÓRIAS: PARTIR DOS PAISAGENS MOVIMENTOS DOS CURRICULOS REALIZADOS PELOS PROFESSORES A escola é o espaço onde circulam diferentes discursos e múltiplas identidades. Podemos considerá-la uma arena de conflito e resistência onde os currículos, sempre em transformação, se configuram. As questões culturais contemporâneas têm trazido para a centralidade das discussões, no campo do currículo, o tratamento dado à diferença. Nesse sentido, têm suscitado as possibilidades de elaboração de políticas curriculares que reconheçam diferenças significativas que não enxergávamos antes. Pensar o outro não mais como um estranho implica pensar a diferença no âmbito das políticas educacionais e, especialmente, no que se refere aos currículos, sem perder de vista a sua relação com outras instâncias sociais, as narrativas e práticas que respeitem os sujeitos com suas marcas e especificidades socioculturais e pedagógicas. Ao tentar entender o movimento dos professores em suas buscas por realizarem “o currículo em movimento”, conforme traz a proposta de implantação da modalidade EJA, distanciei-me da idéia de currículo como “[...] objeto de contemplação epistemológica ou moral: as diferenças culturais não estão lá para serem vistas ou apropriadas” (BHABHA, 1998, p. 165-166). Ao contrário da idéia de currículo apenas como espaço que forja modelos que negam o outro em sua diferença, tentei vê-lo como um processo, como espaço político, espaço de relações de fazersaberepoder e, sobretudo, como um espaço de negociação. Entendendo o currículo dessa forma, percebi que os discursos dominantes são também possibilidades para as “[...] fronteiras enunciativas de uma gama de outras vozes e histórias dissonantes, até dissidentes – mulheres, colonizados, grupos minoritários, portadores de sexualidades policiadas” (BHABHA, 1998, p. 24). 130 Trabalhar as diferenças no campo curricular requer (re) pensar toda essa idéia de inclusão e exclusão. Para quê, e comparado com o quê, as diferenças fazem a diferença? Os professores, no cotidiano do ensino noturno na EMEF que eu pesquisei, estão vivendo processos de diferenciação – em busca de suas identidades e especificações – entre as propostas e projetos que lhes são impostos pelo Sistema e a realidade confusa em que estão imersos, tentando concretizar seus desejos, necessidades e subjetividades. O ensino noturno no município de Vitória, a meu ver, vive uma crise: implantar a EJA como modalidade no Sistema de Ensino, tendo que lidar com jovens não trabalhadores que, por reprovações ou outros motivos, chegam aos 15 anos (às vezes a menos que isso) ao noturno. Com isso, cada vez mais encontramos no noturno adolescentes que, em sua maioria, são considerados problemáticos – com histórico escolar e social de indisciplina e reprovações, desinteresse pelos estudos, violência sofrida ou praticada por eles e/ou seus familiares, envolvimento com drogas ou outros problemas –, desestabilizando as práticas pedagógicas e administrativas da escola, que está sendo pensada e organizada para jovens e adultos trabalhadores, que retornam a essa escola porque no “tempo” ou na “idade ideal” foram privados da educação escolar. Esses alunos mais jovens, o tempo todo, estão colocados em um contexto de organização e práticas pedagógicas voltadas para outra geração, em outro tempo/fase da vida. Confusos, ora sentem-se beneficiados, ora discriminados pelas condições colocadas pela escola e pelo turno. Então vão agindo e expressando-se conforme o lugar em que ocupam nesse trânsito entre um lugar próprio, um lugar do outro e um não-lugar. Esses alunos estão o tempo todo fazendo-se notar, ou pela bagunça, indisciplina, desinteresse, enfrentamentos ,ou pelo bom desempenho, pelas expressões de afetividade, pelas burlas. Esses alunos causam-nos 131 estranhamento, intrigam-nos e levam- nos a pensar sobre o que querem na e da escola, e de que modo, ou até que ponto nós, a escola e o Sistema Municipal de Educação, estamos dando visibilidade às suas urgências. A clientela pensada pela EJA compreende os jovens e os adultos trabalhadores defasados nos seus estudos, que retornam à escola em busca de recuperação do tempo escolar, para uma certificação que lhes garanta vaga ou permanência no emprego. Geralmente chegam à escola sentindo-se cansados, faltam em função dos trabalhos temporários, tentam conciliar a escola e suas escalas de trabalho e, por isso, têm ritmo e desempenho singulares no processo de ensinoaprendizagem. Reagem ao ritmo, comportamento e desempenho dos mais jovens, muitas vezes justificando suas dificuldades em função da “bagunça” desses alunos nas aulas. Por outro lado, os professores que atuam no noturno vivem o conflito entre o que o Sistema pensa e espera deles, como profissionais (algumas vezes ouvimos a expressão: os professores fazem “bico” no noturno), em correspondência ao atendimento que devem oferecer aos alunos da EJA (explicitado no projeto de implantação da EJA), ao mesmo tempo em que lhes cobra dar conta do ensino dos outros alunos que não se enquadram na modalidade, porém estão presentes no noturno e não se deixam ignorar. A situação da escola no noturno é caótica e complexa com o projeto de implantação da modalidade EJA no Sistema Municipal de Educação. O projeto de implantação dessa modalidade de educação EJA, supõe como tentativa de atender à demanda do Município, fazê-la funcionar também no diurno. Mas, como ficarão os alunos jovens adolescentes (com idade inferior a 18 anos) que não se enquadram na referida modalidade? Muitas dúvidas pairam sobre os que atuam no noturno: Se a modalidade EJA for definitivamente implantada com a exigência legal da idade mínima de 18 anos para o ingresso/matrícula, corremos o risco de ficar sem alunos, uma vez que é menor o número de alunos adultos que freqüentam o turno noturno. A implantação da modalidade, em suas concepções filosóficas, políticas e pedagógicas, quanto do Ensino Fundamental regular noturno para todos os que o procuram – e aqui 132 incluímos esses jovens adolescentes que não se “enquadram” no diurno – esbarram na lógica de organização dos espaçostempos escolares: horários, matriz curricular, avaliação, formação de professores entre outros aspectos. Isso vem determinando, de certa forma, os conflitos entre as concepções e as práticas. Observei que, no contexto do currículo, esses processos de diferenciação emergem a partir de uma negociação complexa das diferenças em que o que se obtém como provisoriamente hegemônico resulta da própria produção da diferenciação. O encontro e a convivência desses sujeitos diferentes que freqüentam/vivem o noturno da escola, hoje, com diferentes tipos de interesses e diversas condições de vida em permanentes processos de diferenciação, possibilitam acontecer na escola entre-lugares culturais que lhes favorecem diferentes espaçostempos de negociações, traduções e hibridizações. Encontrei na idéia de sujeito híbrido um caminho para tentar entender o “outro”, o diferente que nos desestabiliza e nos causa estranheza diante de todas as representações que aprendemos a fazer sobre ele. Esse “outro” que nos ameaça, por não conseguirmos nominar ou fixar em algum lugar, apesar dos discursos que naturalizamos e repetimos sobre ele, tem me remetido aos limites do que se tem discutido sobre a educação escolar, o conhecimento e, por efeito, o currículo. Sobre a idéia de hibridismo, com referência a Homi Bhabha, busquei ajuda em Soares (2004, p. 1): O híbrido para Bhabha não é uma síntese (um mix) que soluciona um conflito entre opostos originais e essenciais misturando-os. O híbrido cultural é superposição (e não simplesmente sincretismo), como uma cópia mal feita, uma dissimulação, uma semelhança (parcial) que não é similitude, uma dupla inscrição, menos que um e o dobro (uma metonímia e uma metáfora). A Prova e a Mostra de Trabalhos que os professores apresentaram coletivamente, ao final do segundo trimestre, ilustram as negociações, que trazem como principal marca o diálogo entre os professores e a proposta, numa performance cultural entre o que está posto imposto para a escola e as práticas que lá se desenvolvem. Os 133 múltiplos discursos e identidades presentes em cada prática, em cada narrativa revelaram situações de fronteira em que as diferenças não foram apagadas, pelo contrário, exigiram dos professores entre-lugares, espaços híbridos que favorecessem traduções. A Prova e a Mostra (ANEXOS 3 e 4) tornaram-se o lócus dos confrontos entre os conhecimentos hegemônicos e os de periferia, os tradicionais e os “modernos”. Esse movimento do processo de implantação da modalidade EJA na EMEF pesquisada permitiu-me ver que é impossível imaginar uma experiência cultural livre de elementos diferenciados quanto à sua origem histórica e social. Bhabha (1998, p. 20) salienta isso quando diz que os termos do embate cultural, seja através de antagonismos seja através de afiliação, são produzidos performaticamente. Os processos de diferenciação vividos pelos professores nas suas tentativas e buscas por realizarem o “currículo em movimento” confirmam a tese de Bhabha (1998) de que a diferença aloca, reconhece e relativiza os conhecimentos prédados, enquanto problematiza a divisão binária (discursos e identidades entre isso ou aquilo). A diferença é ambivalente, quebra o reconhecimento e realiza novas inscrições nos discursos e nas identidades. Nas entrevistas, os professores falaram de quase tudo: parcerias, conteúdos, condições de trabalho produção de (gestão, materiais PLs, entre formação, outros.), organização dos tempos (ACC’s, OCT), perfil dos alunos que freqüentam a EJA atualmente e falta de subsídios e apoio da SEME. Quase não se falou foi sobre a idéia de “substituir” os professores das disciplinas por professores de EJA. Acredito que, com ou sem a proposta, a escola acontece do modo como sempre veio acontecendo: com e pelo envolvimento dos sujeitos que, de um modo ou de outro, a praticam. Ao contrário dos que pensam que “não dá para fazer tudo de uma vez”, no cotidiano, de maneira complexa e sem controle, tudo está sendo feito para 134 que a escola continue viva. Essa é a potência do cotidiano. PALAVRAS FINAIS O que este estudo apontou para mim foi que as buscas e tentativas de os professores realizarem o “currículo em movimento”, com vistas ao atendimento das diferenças, no caso, a proposta de implantação da modalidade EJA no Sistema Municipal de Educação de Vitória, no que se refere às mudanças na cultura escolar esperadas ou imaginadas para essa modalidade de ensino pelos seus gestores, acabam por se tornar tentativas que não garantem nem controlam essas mudanças, até porque entendo cultura, a partir de Bhabha (1998), como momento de enunciação. O fato de o Sistema não apostar na lógica do convencimento dentro das escolas que optaram pela EJA, a partir das idéias e concepções que sustentam a política e a gestão da implantação da modalidade EJA, levou os professores da escola pesquisada a focarem muito mais uma lógica metodológica didática do que uma suposta substituição de seu perfil profissional de professores de diferentes disciplinas para professores de EJA. A escola, hoje, aparentemente, continua com conflitos e com tensões ainda não bem resolvidas nesse sentido. Os movimentos cotidianos indicam que as idéias e as ações apontam e se movem para todos os lados e sentidos, sendo impossível prever para onde esses movimentos nos levarão. Nos cotidianos da escola, as “brecadas” nos movimentos motivaram novas negociações e traduções, e foram, o tempo todo, realizadas dentro de manifestações culturais híbridas no que diz respeito aos currículos praticados. Essas manifestações híbridas apareceram ou se expressaram na atitude dos professores, ao realizarem coletivamente uma única prova trimestral e também uma mostra de trabalhos e produções de seus alunos, traduzindo os saberesfazeresepoderes de professores, entre ser professor de disciplinas e professor de EJA. 135 Podemos inferir que as redes de saberesfazerespoderes estão atravessadas por vários padrões culturais que coexistem sem uma hierarquia suposta ou imposta (BHABHA, 1998, p. 19-42). Para Bhabha, estamos envolvidos num contínuo trânsito em que se cruzam várias culturas, gerando ambivalências, espaços fronteiriços, num contínuo ir e vir. O algo novo que estranha ou realiza estranhamento distancia-nos do familiar, desnorteia-nos e exige de nós novas significações . Quando os professores entraram em contato com a modalidade e suas significações, o dissenso não foi negado e se estabeleceu sem hierarquias supostas ou impostas sobre as concepções culturais de ser professor das disciplinas e ser professor de EJA – apesar do estranhamento que a proposta com a modalidade causou – fazendo emergir outras significações para além das concepções sobre o perfil desses profissionais. Assim, percebi, na elaboração da Prova e na realização da Mostra de trabalhos, o conhecimento na sua complexidade sendo tramado pelos professores. Fica, ainda, uma questão pouco discutida ou levada a cabo no que diz respeito à gestão dessa política: se para o MEC a modalidade se tornou um projeto a ser financiado e viabilizado pelo Município, por que não se investiu nas condições materiais e humanas para subsidiar e acompanhar as escolas de modo mais efetivo? Em se tratando de um projeto de tal envergadura, será que esse investimento, apenas, resolveria? 136 REFERÊNCIAS ALVES, Nilda; GARCIA, Regina Leite. Uma infinidade de mundos possíveis. Texto encomendado pelo GT Currículo para discussão sobre os novos paradigmas e o campo do currículo, durante a XX Reunião Anual da ANPED. Caxambu, set. 1997. ALVES, Nilda. Trajetórias e redes na formação de professores. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. ALVES, Nilda. O Espaço escolar e suas marcas: o espaço como dimensão matéria do currículo. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho – o cotidiano nas lógicas das redes cotidianas. In: ALVES, Nilda; OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Pesquisa no/do cotidiano das escolas sobre redes de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. ALVES, Nilda; GARCIA, Regina Leite (Org.). O sentido da escola. 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. ALVES, Nilda. Sobre movimentos das pesquisas nos/dos/com os cotidianos. Teias: Rio de Janeiro, ano 4, nº. 7-8, jan/dez 2003. 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Texto mimeografado. 141 ANEXO 1 PREFEITURA MUNICIPAL DE VITÓRIA PREFEITURA MUNICIPAL DE VITÓRIA ESTADO DO ESPÍRITO SANTO SECRETARIA DE ADMINISTRAÇÃO PROCESSO SELETIVO SIMPLIFICADO EDITAL N.º 53/2008 O Município de Vitória, por intermédio da Secretaria de Administração, faz saber que fará realizar, nos termos da Lei n.º 6.598/2006, alterada pela Lei Nº 7.215/2007, o Processo Seletivo Simplificado em caráter urgente, com vistas à contratação temporária de profissionais do magistério para atuarem na modalidade EJA, em atendimento às necessidades de excepcional interesse público do Município de Vitória, conforme constante abaixo: 1. DAS FUNÇÕES: 1.1 - PEB II - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA II ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Pedagogia ou Normal Superior; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.2 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – PORTUGUÊS ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar 142 conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Letras – Habilitação: Português; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.3 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – MATEMÁTICA ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Matemática ou Complementação Pedagógica que dê habilitação para a função em questão; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.4 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – CIÊNCIAS ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Ciências Biológicas; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.5 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – GEOGRAFIA ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. 143 PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Geografia; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.6 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – HISTÓRIA ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em História; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.7 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – INGLÊS ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Letras – Habilitação: Inglês; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.8 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – EDUCAÇÃO ARTÍSTICA ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Educação Artística ou Artes Visuais; E Experiência profissional mínima de 12 (doze) 144 meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 1.9 - PEB III - PROFESSOR DE EDUCAÇÃO BÁSICA III – EDUCAÇÃO FÍSICA ÁREA DE ATUAÇÃO: Educação de Jovens e Adultos – EJA. ATRIBUIÇÕES: Planejar, ministrar, registrar, discutir, refletir, sistematizar, produzir e divulgar conhecimentos de experiências pedagógicas vivenciadas nas aulas. PRÉREQUISITOS: Formação profissional obtida em Curso Superior Completo de Licenciatura Plena em Educação Física;E Experiência profissional mínima de 12 (doze) meses na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, a ser comprovada conforme item 9 deste Edital. CARGA HORÁRIA 25 (vinte e cinco) horas semanais. 2. DA LOCALIZAÇÃO E HORÁRIO DO DESEMPENHO DAS FUNÇÕES: 2.1 – Os profissionais que vierem a ser contratados neste Edital, poderão atuar em diversas escolas do município, ou em outros locais para os quais forem designados, de acordo com a necessidade do Programa de Escolarização do Servidor e outros programas similares que possam ser criados pelo Município, e atuarão principalmente no PERÍODO DIURNO, podendo eventualmente atuar no período noturno. 3. QUANTO À CARGA HORÁRIA E O VENCIMENTO: 3.1 – A carga horária dos contratados na forma deste Edital atenderá às necessidades temporárias do Município de Vitória, limitando-se à carga horária máxima estabelecida para o servidor do Quadro Permanente do Magistério 3.2 – O vencimento do contratado nos termos deste Edital será fixado com base na MAIOR TITULAÇÃO DO CANDIDATO NO ATO DO ENQUADRAMENTO SALARIAL, (após convocação dos candidatos para celebrar contrato por tempo determinado com este Município), não havendo o direito à progressão ou promoção funcional durante a vigência do contrato, conforme tabela abaixo: Nível TITULAÇÃO Vencimento (*) 145 IV Específica de grau superior, obtida em curso de graduação de licenciatura plena, com data de Colação de Grau. R$ 1.290,04 V Específica de grau superior, com graduação de licenciatura plena e pós-graduação na área de educação, obtida em curso de especialização com duração mínima de 360 (trezentos e sessenta) horas, com aprovação de monografia, atendendo às exigências das resoluções do Conselho Nacional de Educação (CNE), que versam sobre a matéria. R$ 1.413,47 VI Específica de grau superior, com graduação de licenciatura plena e curso completo de mestrado em educação, com defesa e aprovação de dissertação. R$ 1.559,71 VII Específica de grau superior, com graduação de licenciatura plena e curso completo de doutorado em educação com defesa e aprovação de tese. R$ 1.698,57 (*) Para jornada de 25 horas semanais. 4. DO RECURSO AO EDITAL DE ABERTURA: 4.1 – O candidato que discordar de qualquer item/subitem deste Edital, poderá, nos dias 12, 13 e 14 de maio de 2008, de 09 às 17 horas, se dirigir à Coordenação de Recrutamento e Seleção, situada no Palácio Municipal, para requerer, em formulário próprio, revisão/recurso do Edital. 4.2 – O prazo para resposta à revisão/recurso será de três dias úteis após a data do requerimento. O candidato poderá optar por tomar ciência da resposta retornando ao local citado no item 4.1, ou através do seu endereço eletrônico (e-mail), que deverá, se for o caso, ser informado no formulário de requerimento. 4.3 – Após análise da discordância alegada pelo candidato, o Município poderá, se for o caso, publicar retificação das informações contidas neste Edital. 4.4 – O requerimento de recurso não obriga este Município a promover qualquer alteração no respectivo Edital. 5. DO PROCESSO DE INSCRIÇÃO: 5.1 – LOCAL As inscrições serão realizadas no Auditório da Secretaria de Educação, situada à Rua Arlindo Sodré, 485, Bairro Itararé – Vitória – ES. 5.2 – PERÍODO De 26, 27, 28 e 29 de maio de 2008. 5.3 – HORÁRIO De 09 às 17 horas 146 5.4 – REQUISITOS Ser brasileiro nato ou naturalizado; Possuir a escolaridade e requisitos básicos exigidos pelo cargo; Ter, na data de encerramento das inscrições, a idade mínima de 18 anos completos; Não enquadrar-se nas vedações contidas no inciso XVI, XVII e §10 do art. 37 da Constituição Federal de 1988, alteradas pela Emenda Constitucional N.º 19/98; Não ter contrato temporário rescindido por este Município, por falta disciplinar; 5.5 – A inscrição deverá ser feita pelo próprio candidato ou por procuração específica, devidamente registrada em cartório com firma reconhecida e cópia do documento de identidade do procurador. 5.6 – A inscrição do candidato implicará o conhecimento da presente instrução e seu compromisso de aceitar plena e integralmente as condições determinadas por este edital e legislação pertinente. 5.7 - Compete ao candidato ou seu representante legal, a responsabilidade pela escolha dos documentos de comprovação do(s) pré-requisito(s). 5.8 - Compete ao candidato ou seu representante legal, a responsabilidade pela escolha dos títulos a serem apresentados para pontuação, discriminando-os obrigatoriamente no requerimento de inscrição no campo Categoria II – Formação Acadêmica. O não preenchimento implicará em pontuação 0 (zero). 5.9 -Compete aos servidores responsáveis para atuar nas inscrições, tão somente o recebimento dos documentos, autenticação dos documentos que se enquadrarem no subitem 6.4 e a entrega do respectivo comprovante de inscrição. 5.10 - As dúvidas com relação ao presente edital deverão ser dirimidas na Gerência de Recursos Humanos da Secretaria de Educação. 5.11 -Nenhum documento poderá ser apresentado após a inscrição do candidato. 6. DOS DOCUMENTOS EXIGIDOS PARA INSCRIÇÃO E COMPROVAÇÃO DOS PRÉREQUISITOS: 6.1 – Requerimento de inscrição (FORNECIDO PELA PMV) devidamente preenchido. 6.2 – Cópia simples de documento de identidade com foto. Serão considerados documentos de identidade: carteiras expedidas pelos Comandos Militares, pelas Secretarias de Segurança Pública, pelos Institutos de Identificação e pelos Corpos de Bombeiros Militares; carteiras expedidas pelos 147 órgãos fiscalizadores de exercício profissional (ordens, conselhos etc.); passaporte brasileiro; certificado de reservista; carteiras funcionais do Ministério Público; carteiras funcionais expedidas por órgão público que, por lei federal, valham como identidade; carteira de trabalho; carteira nacional de habilitação. 6.3 – Cópia simples de documento que comprove a inscrição no CPF. 6.4 – DIPLOMA ou HISTÓRICO ESCOLAR contendo obrigatoriamente data de colação de grau e reconhecimento do curso no MEC que comprove a escolaridade mínima exigida ou Registro Profissional emitido pelo MEC. Qualquer outro documento de comprovação de escolaridade somente será aceita para quem se formou a partir de 1º julho de 2005, contendo impreterivelmente a data de colação de grau e o reconhecimento do curso no MEC. 6.4.1 – As cópias dos documentos relacionados a este subitem deverão ser autenticadas, caso contrário o candidato deverá apresentar o documento original para conferência da cópia. 6.4.2 – A documentação de escolaridade expedida por órgãos estrangeiros só terá validade quando for revalidada pelo Ministério de Educação e Cultura – MEC. 6.5 – Cópia simples de comprovante de exercício profissional, exceto estágio, indicando o(s) cargo(s) ou função(ões) exercido(s), devidamente especificado(s) conforme item 9 deste edital, independente do ano em que tenha prestado serviço para fins de comprovação de pré-requisito. 7. DOS DOCUMENTOS NECESSÁRIOS PARA AVALIAÇÃO DE TÍTULOS: 7.1 – Cópia simples de comprovante de exercício profissional, exceto estágio, indicando cargo(s) ou função(ões), devidamente especificado conforme item 9 e em observância ao subitem 9.4 e Anexo Único – Área I deste edital, PRESTADOS A PARTIR DE 1998, PARA FINS DE PONTUAÇÃO. 7.2 – Cópia simples de até três comprovantes de qualificação profissional, conforme especificado no subitem 5.8 e item 10 e Anexo Único – Área II. 8. DAS ETAPAS DO PROCESSO SELETIVO: 8.1 – O processo seletivo será realizado em ETAPA ÚNICA – Prova de Títulos, de caráter eliminatório e classificatório. 8.2 – A Prova de Títulos tem como objetivo: -Verificar se o candidato apresentou 148 todos os documentos exigidos como pré-requisito – item 4 – caráter eliminatório; - Pontuar os títulos apresentados nas duas áreas indicadas no Anexo Único deste Edital – classificatório. 8.3 – A prova de Avaliação de Títulos terá valor máximo de 100 (cem) pontos, conforme indicado no quadro abaixo: ÁREAS PONTOS I – EXERCÍCIO PROFISSIONAL 30 II – QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL 70 8.4 – Na contagem geral de pontos dos títulos não serão computados os que ultrapassarem o limite estabelecido para cada área. 8.5 – A avaliação em cada uma das áreas indicadas no subitem 8.3 está especificada nos itens 9 e 10. 9. DA COMPROVAÇÃO DA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL: ATIVIDADE PRESTADA COMPROVAÇÃO 9.1 – Em Órgão Público Documento expedido pelo Poder Federal, Estadual ou Municipal, conforme o âmbito da prestação da atividade, em papel timbrado, com carimbo do órgão expedidor, datado e assinado pelo Departamento de Pessoal/Recursos Humanos da Secretaria de Administração ou Departamento de Pessoal/Recursos Humanos da Secretaria de Educação; E Declaração expedida pelo Diretor da escola onde atuou, contendo carimbo da unidade de ensino e número da autorização do Diretor da mesma, especificando período compreendido e os cargos ou funções exercidos, comprovando a atuação na modalidade de Educação de Jovens e Adultos. 9.2 – Em empresa privada Cópia da carteira de trabalho (página de identificação com foto e dados pessoais e registro do(s) contrato(s) de trabalho). E Declaração expedida pelo Diretor da escola onde atuou, contendo carimbo da unidade de ensino e número da autorização do Diretor da mesma, especificando período compreendido e os cargos ou funções exercidos, comprovando a atuação na modalidade de Educação de Jovens e Adultos. 9.3 – Sob hipótese alguma será aceita comprovação de exercício profissional fora dos padrões especificados nos subitens 9.1 e 9.2, bem como experiência profissional na qualidade de proprietário/sócio da empresa. 149 9.4 – Considera-se experiência profissional toda atividade desenvolvida no cargo/função pleiteada, na modalidade da Educação de Jovens e Adultos, ocorrida após colação de grau no curso exigido para o exercício do cargo. 9.5 – Não serão computados pontos para tempo de serviço exigido como prérequisito. 9.6 – Não haverá limite para apresentação de certidões e demais documentos comprobatórios de tempo de serviço, sendo vedada a contagem cumulativa de tempo de serviço prestado concomitantemente em mais de um cargo, emprego ou função nos três níveis de poder, autarquias, fundações públicas, sociedades de economia mista e empresas públicas e privadas. 10. DA COMPROVAÇÃO DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL: 10.1 – Na Avaliação de Títulos – Área II – Qualificação profissional o candidato poderá apresentar até três documentos dentre os especificados no Anexo ÚnicoÁrea II deste Edital. 10.2 – Os documentos apresentados pelo candidato devem ser obrigatoriamente relacionados no requerimento de inscrição. O não atendimento do limite estabelecido no subitem 10.1 implicará atribuição de 0 (zero) ponto na Categoria, não cabendo recurso desta decisão. 10.3 – Considera-se qualificação profissional: títulos de Doutor e Mestre, cursos de Pós-graduação, cursos avulsos (em observância ao subitem 10.4) e participação em palestras, fóruns, seminários e demais eventos, TODOS relacionados ao cargo ou área de atuação pleiteados, feitos pelo candidato durante ou após a realização do curso exigido como requisito ao exercício do cargo. 10.4 – Considera-se cursos avulsos: jornadas, formações continuadas, oficinas, projetos, programas e ciclos. 10.4.1 – Os cursos/eventos realizados no exterior só terão validade quando acompanhados por documento expedido por tradutor juramentado. 10.5 – Os cursos de Pós-Graduação Latu Sensu (Especialização) deverão ser apresentados por meio de Certificados acompanhados do correspondente histórico. 10.5.1 – Para declarações de conclusão dos cursos descriminados neste subitem, deverá constar no referido documento: data de conclusão e aprovação de monografia e histórico do curso. 10.5.2 – A documentação descrita neste subitem deverá cumprir as exigências do 150 Conselho Nacional de Educação (CNE), de acordo com a resolução em que se enquadrar: - Res. N.º 12/83; ou - Res. N.º 03/99; ou - Res. N.º 01/01; ou - Res. N.º 01/07. 10.6 – Para os cursos de Mestrado e Doutorado, exigir-se-á o Certificado no qual conste a comprovação da defesa e aprovação da dissertação / tese. 10.6.1 – Para declarações/atestados de conclusão dos cursos descriminados neste subitem, deverá constar no referido documento: data de defesa e aprovação da dissertação / tese. 10.7 – Os cursos de Mestrado, no qual foram concluídos todos os créditos necessários, faltando somente defesa e aprovação da dissertação da tese, os mesmos receberão pontuação equivalente aos cursos de Pós-Graduação Latu Sensu (Especialização). Quanto aos cursos de Doutorado que se enquadrarem na mesma situação, estes receberão pontuação equivalente aos cursos de Mestrado. 10.7.1 – Para pontuação dos cursos que se enquadrarem neste subitem, o candidato deverá entregar declaração/atestado/certidão expedida por setor responsável, constando obrigatoriamente no documento a informação de que o candidato concluiu todos os créditos necessários, faltando apenas a defesa e aprovação da dissertação/tese, em papel timbrado, com carimbo de CNPJ, data de expedição e assinatura do expedidor. 10.8 – Diplomas de graduação ou pós-graduação expedidos por universidades estrangeiras, só terão validade quando revalidados por universidades públicas. 10.9 – Não serão computados pontos para cursos exigidos como pré-requisito, bem como não serão pontuados os cursos de formação de grau inferior ao apresentado como pré-requisito ao exercício do cargo ou curso não concluído, salvo os cursos de Mestrado e Doutorado conforme previsto no item 10.7. 10.10 – Não será considerado qualquer tipo de curso onde seja entregue declaração de conclusão, se neste não constar o timbrado ou carimbo de CNPJ da entidade que forneceu o curso, data de conclusão do mesmo, carimbo e assinatura do responsável pela emissão do documento e data de expedição do mesmo. 10.11 – Os cursos na área da Educação de Jovens e Adultos terão pontuaçãodiferenciada, conforme tabela do Anexo Único. 151 11. DA HOMOLOGAÇÃO DAS INSCRIÇÕES, DIVULGAÇÃO DOS RESULTADOS, REVISÃO, RECURSOS, CLASSIFICAÇÃO E PRAZO DE VALIDADE: 11.1 – Encerrado o período de inscrições, será instituído pelo Secretário de Administração, com base no Decreto N.º 11.296/02, alterado pelo Decreto N.º 12.860/06, banca examinadora destinada a avaliação das inscrições. 11.2 – Após o período de avaliação da banca examinadora, será divulgado comunicado informando o resultado parcial onde serão estabelecidos: local, dia e horário onde serão afixadas as listagens dos candidatos deferidos e indeferidos, bem como período para que o candidato possa ter vista do resultado obtido. 11.3 – Somente o candidato ou seu procurador poderá ter vista com a Banca Examinadora. Para solicitar vista do resultado, o mesmo deverá portar cédula de identidade com foto. 11.3.1 – No prazo de vistas, verificada incorreções da banca examinadora, estas serão retificadas no mesmo momento. 11.4 – Após concedido o prazo de vistas, será publicada a Homologação do Resultado Final dos candidatos deferidos, em ordem classificatória. 11.5 – A listagem de classificação dos candidatos aprovados será elaborada por ordem decrescente do total de pontos obtidos. Havendo empate na classificação final dos candidatos aprovados, o critério de desempate, pela ordem, será o seguinte: a) que tiver obtido maior número de pontos na Prova de Avaliação de Títulos – Área II; b) que tiver apresentado o maior número de pontos na Prova de Avaliação de Títulos – Área I; c) o candidato com mais idade. 11.6 – Todas as publicações oficiais referentes ao presente processo seletivo simplificado regulamentado pelo presente Edital serão feitas em jornal local – coluna do Poder executivo e divulgados no site do Município – www.vitoria.es.gov.br (Atos Oficiais / Processos Seletivos), não se responsabilizando este Município por outras publicações. 12. DAS DISPOSIÇÕES COMPLEMENTARES: 12.1 – SERÁ AUTOMATICAMENTE INDEFERIDA A INSCRIÇÃO DO CANDIDATO 152 QUE: -NÃO APRESENTAR OS DOCUMENTOS EXIGIDOS COMO PRÉ-REQUISTO (ITEM 6 E SEUS SUB-ITENS); - NÃO APRESENTAR OS DOCUMENTOS EXIGIDOS NO ITEM 5.5, caso a inscrição seja feita através de procuração. 12.2 – Não serão aceitos pela banca examinadora, documentos que contenham rasuras. 12.3 – Este processo seletivo, em caráter urgente, considerando ausência de reserva técnica para atendimento às necessidades emergenciais de excepcional interesse público, do Município de Vitória, terá validade de um ano, a partir da data de divulgação da homologação do resultado final, podendo ser prorrogado por igual período. 12.4 – Findo o prazo a que se refere o item 12.3, os documentos utilizados neste processo seletivo e que não resultaram em contratação serão eliminados. 12.4.1 – Nenhum documento entregue no momento da inscrição poderá ser devolvido ao candidato. 12.4.2 – Os documentos dos candidatos indeferidos neste processo seletivo permanecerão em poder da Coordenação de Recrutamento e Seleção por um período de 03 (três) meses, contados a partir da data de homologação do resultado final. Após este prazo, os mesmos serão eliminados. 12.5 -Caberá ao candidato, quando convocado, apresentar todos os documentos originais exigidos, para conferência e autenticação das cópias. 12.6 – Caberá ao candidato, quando convocado, apresentar laudo médico a ser expedido pela Divisão de Medicina do Trabalho. 12.7 – O candidato deverá apresentar o laudo médico a que se refere o item 12.6 no prazo não superior a 15 (quinze) dias úteis, a partir da convocação para sua designação de local de trabalho. 12.8 – O não cumprimento do exposto nos itens 12.5 a 12.7 implicará na eliminação do candidato do processo seletivo. 12.9 – Correrá por conta do candidato a realização de TODOS os exames necessários, solicitados no ato de sua convocação. 12.10 – Os candidatos estarão sujeitos ao cumprimento do horário de trabalho determinado pela Secretaria requisitante, no ato de sua convocação. Na impossibilidade de cumprir este horário, o mesmo será automaticamente eliminado. 153 12.11 – Nenhum candidato poderá alegar desconhecimento das instruções contidas neste edital. 12.12 – O profissional contratado, na forma deste edital, terá avaliado o seu desempenho pela sua chefia imediata, logo após 60 (sessenta) dias do início de suas atividades. 12.13 – A avaliação do desempenho do profissional contratado na forma deste edital, quando for evidenciada a insuficiência de desempenho profissional, acarretará; I. rescisão imediata do contrato celebrado com o Município, respeitada a legislação vigente; II. impedimento de concorrer a outros processos seletivos simplificados promovidos pelo Município. 12.14 – O critério de assiduidade será fundamental na avaliação de desempenho do profissional. 12.15 – A identificação do local de trabalho será definida de acordo com as necessidades da Secretaria que convocar o candidato para contrato temporário. 12.16 – A aprovação neste processo seletivo simplificado não assegura ao candidato a sua contratação, mas apenas a expectativa de ser convocado seguindo rigorosa ordem de classificação. 12.17 – De acordo com a legislação processual civil em vigor, é a Comarca de Vitória o foro competente para julgar as demandas judiciais decorrentes do presente processo seletivo simplificado. 12.18 – Os casos omissos no presente Edital serão resolvidos pela Secretaria Municipal de Administração, observados os princípios e normas que regem a administração pública. 12.19 – O Município de Vitória poderá rescindir o contrato Administrativo de Prestação de Serviços, antecipadamente, em observância ao que dispõe o Art. 14, inciso I da Lei N.º 6.598/06, alterada pela Lei N.º 7.215/07. Vitória–ES, 09 de maio de 2008. ADRIANA CREMASCO SUBSECRETÁRIA DE GESTÃO DE PESSOAS 154 ANEXO ÚNICO ÁREA I – EXERCÍCIO PROFISSIONAL DISCRIMINAÇÃO PONTOS Tempo de serviço prestado no cargo 0,5 pontos por mês completo até o limite de 05 (cinco) anos, prestados a partir de 1998. ÁREA II – QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL DISCRIMINAÇÃO PONTOS Título de Doutor em Educação 70 Título de Mestre em Educação 65 Curso de Pós-graduação na área da Educação de Jovens e Adultos 60 Curso de Mestrado conforme disposto no item 10.7 do Edital 30 Curso de Pós-graduação nas demais áreas da Educação 30 Habilitação obtida em curso de nível superior na área da Educação de Jovens e Adultos 30 Cursos de graduação ou habilitações, que não seja a exigida como pré-requisito ao exercício do cargo 25 Participação em projetos de extensão ou pesquisa em ensino superior no campo da Educação de Jovens e Adultos no período mínimo de 06 (seis) meses 25 Curso avulso (*) na área da Educação de Jovens e Adultos com duração igual ou superior a 200 horas 25 Curso avulso (*) nas demais áreas da Educação com duração igual ou superior a 200 horas 20 Curso avulso (*) na área da Educação de Jovens e Adultos com duração de 60 a 199 horas 20 Curso avulso (*) nas demais áreas da Educação com duração de 60 a 199 horas 15 Curso avulso (*) na área da Educação de Jovens e Adultos com duração inferior a 60 h 15 Participação em fóruns, congressos, simpósios e demais eventos (que não sejam os cursos avulsos) na área da Educação de Jovens e Adultos nos anos de 2004, 2005, 2006, 2007 ou 2008. 10 Curso avulso (*) nas demais áreas da Educação com duração inferior a 60 h 10 Participação em fóruns, congressos, simpósios e demais eventos (que não sejam os cursos avulsos) nas demais áreas da Educação nos anos de 2004, 2005, 2006, 155 2007 ou 2008. 5 * Considera-se como curso avulso: jornadas, formações continuadas, oficinas, projetos, programas e ciclos. 156 ANEXO 2 Transcrição das entrevistas feitas com os professores Primeira Pergunta: Que considerações você gostaria de fazer sobre a proposta do “currículo em movimento” para o ensino noturno? (suas impressões e avaliações); Segunda Pergunta: Você poderia ilustrar, narrar alguma experiência que você considera representativa desse currículo proposto? Terceira Pergunta: Como você tem percebido e avalia a aceitação dos alunos em relação às mudanças propostas pelo projeto de implantação da EJA, em especial, em relação às atividades realizadas em consonância com a proposta do currículo em movimento? Optei por ouvir primeiro o professor mais apaixonado pela Modalidade EJA. Professor Moacir23. Ele tem sido referência para os outros professores no que diz respeito a ser o único, dentre todos os professores, com experiência na modalidade propriamente dita. _ A primeira coisa que é muito interessante na modalidade EJA, é que a gente começa a desconstruir e, ao mesmo tempo, buscar a construção do que seja o currículo. Para nós, currículo era só o conteúdo linearizado e seqüenciado. Agora, antes de ir pra sala de aula, não! O por quê ? O currículo, muitas vezes, não pode ser pensado antes de você conversar, estabelecer um diálogo com o sujeito que vai participar desse currículo. É fazer o currículo com ele. É aonde se vai buscar pela origem, identidade, a questão da formação de valores. É a formação do aluno em si. Porque a nossa preocupação antigamente era só com o ensino de... Era matéria. O aluno sabe ler? Sabe escrever? Entende sobre verbo? Sabe separar sílaba? Hoje, a nossa preocupação é com a projeção do aluno na vida lá fora, a continuidade de sua vida, que projetos ele tem? Agora, o currículo é o aluno, são os professores, são as 23 Os nomes dos entrevistados são fictícios. 157 vivências que eles têm. Então, a gente deve lançar mão de tudo isso para montar o currículo, para saber qual são os objetivos desses alunos, as suas expectativas. Antes, a gente não se preocupava com isso. A gente se perguntava sobre as expectativas dos alunos? A gente pedia ao aluno para fazer a avaliação do nosso trabalho? Nunca! A gente ficava num pedestal inatingível e o aluno lá embaixo, naquela distância. Ah! Com essa desconstrução e com a construção do currículo em movimento isso mudou. Estamos todos juntos. Essa é a idéia. Todos participando, questionando, intervindo. Todos! Os alunos, os professores, a comunidade escolar do noturno, que está vivenciando essa implementação do currículo em movimento. Essa implantação ajuda a gente a sair da nossa área específica e encarar, tá? A abranger o nosso trabalho como um todo e tirar esse lado de ser só professor de Português. Não! Eu sou professor e daquilo que eu construir com meu aluno, com nosso aluno em sala de aula (enquanto necessidade de estudo) eu vou buscar e trabalhar. É o conhecimento. Então, como esse processo acontece? É como nós fizemos a prova. Foi super interessante. Nós, eu e Fábia, bolamos uma questão de Matemática. Quando, antes de entrar na modalidade, nós faríamos isso? “Não! Eu sou professor de Português”, era como eu sempre achava no meu mundinho, no meu mundinho acadêmico. Agora, não! A gente se abriu. Com essa proposta, eu posso dizer que não sei, que não tenho condições, (dizer que preciso estudar, pesquisar, aprender). Porque essa era nossa fala: “Vamos fazer um projeto? Ah! Mas o projeto tem que envolver formas geométricas. Ah não! Não sei Matemática!” É exatamente. Era só com o professor de Matemática! O Projeto tem que envolver a questão de leitura, de alfabetização. “Não! Não fiz magistério, não sei alfabetizar.” Agora acabou. Desconstruiu-se isso. Agora, nós somos professores da modalidade EJA. Então, a gente chega à sala, leva uma proposta que é socializada com os alunos. A todo o momento há o diálogo, ou seja, a gente deixou de expor para dialogar, porque, antes, as aulas eram só expositivas. Então, só nós tínhamos conhecimentos. Agora não! A riqueza que eles têm de leitura de mundo, de visão, de história de vida também se trouxe e tornou-se o conteúdo de sala de aula. Nós fizemos um trabalho sobre cidadania nos conclusivos. Foi excelente. Primeiro os meninos fizeram um debate, a gente trabalhou a questão da AIDS e a questão do índio. Então eles fizeram textos que a gente debateu na sala de aula. Depois, nós trabalhamos cenas do cotidiano, coisas que vêm acontecendo. Aonde, depois, eles recriaram as cenas a partir da visão deles de cidadania. Então, esse trabalho foi 158 fantástico. Criaram texto coletivo, em equipe, pensaram, debateram, discutiram e criaram juntos. Quando se pensava em um trabalho assim? A gente trabalhava, no caso de quando eu era só professor de Português, a importância era a redação. A redação importa também, mas só que a gente valoriza as idéias, não só a questão da escrita, ortografia, concordância, isto é importante sim e isso vai emergir quando a gente levar aquele trabalho que ele fizer ou que ele fez e socializar, reescrever coletivamente, ou devolver para que ele reescreva. Devolver para o aluno com alguma observação. Observar junto com ele “Olha, aqui não está legal. O quê que você acha?” Mas, com a permissão dele! Porque antigamente a redação era só obrigatoriedade. Você dava só pra constar. Tinha professor que nem corrigia. Dava um ponto, dois pontos. O importante era o aluno escrever. Agora não! Agora o aluno escreve com propriedade. Ele passa para o papel o que ele pensa e sabe. E outra coisa, que a gente estava analisando sobre o currículo em movimento, é a oralidade do aluno que antes também não era levada em consideração. O aluno, a todo o momento, está fazendo texto oral. Portanto, a todo o momento, ele está fazendo ligação com suas informações nesse currículo. Ele liga o que sabe com a vida dele pessoal, com a questão do trabalho, ele liga com a vivência em sala de aula. Relação! Que é uma coisa muito importante e que a gente não discutia antes. São poucos os professores que criam laços afetivos. Você, como professora, como pedagoga, você sabe disso. Tem gente que vai até ser professor, mas a gente não vê, não vê naquela pessoa aquele perfil de profissional (para a educação). Porque ele é fechado. Nunca dá um sorriso, entendeu? Não cria um laço afetivo com o aluno. Na hora que você tem que falar, agir, falar com a firmeza sim, mas na hora que você tem que parabenizar: “valeu, eu gosto de você.” As pessoas têm medo de falar isso. Igual eu falei com as meninas agora, a Gabriela e a Leane: “Eu amo vocês duas.” E vou falar com os meninos também, eu vou chamá-los para conversar sobre gêneros Por conta de piadinhas que eles fizeram outro dia. São os meninos que participam. Então, a proposta do currículo em movimento ampliou nossa visão de educação, de aprendizagem, de formação. Quando a gente ia pensar nas dimensões da formação humana, Nicéa? Sem o currículo em movimento? Quando? Nunca! _ Eu gostaria que você falasse um pouco sobre os aspectos que você considera positivos ou impeditivos para a realização desse currículo proposto: 159 _ Tem uma coisa que me veio agora na cabeça, né? No caso, eu e Fábia, nossa parceria é perfeita. Como você falou outro dia que talvez a gente tivesse que revezar os parceiros... Nós começamos a conversar sobre isso. Ah, não! Vamos observar mais, vamos conversar com a Nicéa. Acho que uma coisa impeditiva é a questão desse planejamento. Por mais que a gente produza material, mas eu não vejo ainda que a gente esteja fazendo material. Infelizmente nós ainda estamos xerografando. Estamos xerografando material. O material que nós produzimos foi aquele da prova. Aquilo ali sim, nós fizemos com amor, fomos lá, botamos nossa produção em cartaz. Nesse momento, questionei ao professor se ele não considera o material elaborado para outras atividades como sendo também uma produção: _É produção, mas não no nosso planejamento. Nós estamos falhando nos relatórios. Eu falhei. A Fábia apresentou o dela, mas eu falhei, não socializei nada! Por outro lado também, os outros professores não tomaram a iniciativa de fazerem o deles. Ficaram esperando eu apresentar o meu. E uma coisa que eu não queria é que criassem essa dependência. Mas, só que infelizmente eu sou assim. Eu estou no grupo, conto com você, mas quando você não vem, preciso conduzir... “Vamos embora... vamos tentar, vamos logo, vamos fazer...” Uma coisa que a gente precisa fazer é produzir, botar no papel, escrever mesmo, de verdade. A gente tem que pegar os textos de sala de aula, os textos de nossos alunos, trocarem, pedir a permissão deles, trocar com as outras turmas, ver o tema, fazer o gancho. Pegar o tema seguinte e continuar. Outra coisa é a dificuldade de divergir. Eu tenho essa dificuldade. Tem hora que a gente fica assim, meu Deus do céu! Foi como agora, nós trabalhamos lá no inicial junto com o intermediário porque tinha poucos alunos, então, Fábia disse “Vamos fazer uma atividade que depois de tempo de estar passando para os outros.” Aí eu direcionei e falamos de substantivo, adjetivo e ainda fomos puxar um pouco de classe gramatical. Importante essa atividade porque substantivo é o nome, a essência, tá? Adjetivo, eles usam porque caracteriza. Então, veja bem, depois eu fiquei pensando, ah, meu Deus do céu, eu joguei só o meu conteúdo. Será que eu estou jogando só conteúdo de português? Como Fábia se vê? Nós nunca paramos para pensar como ela está se sentindo, como ela encara isso. Porque língua portuguesa é a língua latina, então, todo mundo trabalha a língua portuguesa, independente de ser formado ou não na sua área específica. A 160 língua é vida, é manifestação. _ Você já pensou em conversar sobre isso com a Fábia? _ Não, esse é um impedimento porque ela... Não sei... Acho que é essa ansiedade de dar o material pronto. Ou... Nossa dupla é perfeita. Nós estamos sempre adiante do grupo, não querendo ser mais do que ninguém, mas a gente se projeta para frente! Então, quando a gente senta na sexta feira é para estar produzindo, tá? _ Não seria o momento de vocês darem uma parada nessa produção de material para refletirem sobre essa sua preocupação? _ Sim, para nós dois fazermos uma avaliação. A “fala” que ela colocou no início marcou: “Estou abrindo mão”. E ela tem mestrado! Ela pode está oferecendo muita coisa. Sim, exatamente. Ou será pelo fato de eu já ter tanta experiência em termos da UFES e ela também estar no período probatório na Prefeitura? Porque isso também dá certa insegurança. Ela está chegando agora... Exatamente. Está faltando isso... _ Como você percebe o trabalho, as relações entre as outras parcerias? _ A minha preocupação é Lúcio, porque Lúcio parece que não rompeu. Até Lucas, que eu pensei que ia ficar na mesma de sempre... Por mais que ele possa estar trabalhando matemática pá, pá, pá, ele está trabalhando Matemática em cima do que os alunos estão pedindo e não sobre o que ele quer dar. Então, Lúcio fica preocupado com seus livros, coitados dos meninos! Levou só o material de História e Marinho? Eu o remeto a idéia de que entender uma proposta é uma coisa e colocá-la em prática é outra. Afinal não é fácil romper com os modelos já incorporados por nós e pela escola. Será que ele não está precisando de um pouco mais de tempo para chegar ao que possa estar lhe faltando? _ Eu sei que cada um tem seu tempo, mas eu acho que de todo o grupo ele é o que 161 está demorando. Demorando a fazer esse rompimento. A gente vê o Marinho que vai... Vai... O Lucas... Gente, o Lucas é um avanço! Na prova, você tinha que vê-lo! Infelizmente você não pôde ver. Ele já chegou com os textos... A gente vê resultado. Ah! Se você visse, ficaria emocionada ao vê-lo nos debates da gente, tranqüilo... Quando a gente colocou que devíamos elaborar a prova, eu me prontifiquei a coordenar porque eu fiz a prova ano passado, a prova coletiva da UFES. Então, eu trouxe textos para serem analisados. É que eu faço leitura todo dia em casa, entendeu? Ele (Lucas) participou, estava muito interessante, eu acho que isso demonstra que o grupo assumiu, o grupo quer a modalidade! Isso não partiu de você. Isso não partiu da pressão da gente ficar sem o noturno. Isso partiu do envolvimento que está acontecendo com o grupo, o grupo optou mesmo! Eu observo, cada vez mais, a gente fica até com pena dos colegas no esforço de romperem com as suas disciplinas. Concordo com você. Estamos no processo, mas, assim, na hora da correção da prova. No dia que você não estava, Lúcio falou: “Nós vamos fazer o seguinte, cada um corrige a sua área”. Então eu disse: “Lúcio, não tem área, a prova é coletiva! É de caráter subjetivo. Então, tem é lógico, você pode estabelecer um critério com Marinho, eu estabelecer um critério com a Fábia, Rúbia com Renata, Lucas com Andressa... Então, não tem isso ‘Lu’.” Ele respondeu “É, mas também vocês estão impondo!” Eu disse “Ninguém quer impor. Expor, sabe? Discutindo... Porque você estava na presença da pedagoga, lembra quando a Nicéa colocou o objetivo? Que seria mais uma avaliação para somar com as outras avaliações que nós fazemos no dia-a-dia com os alunos. Entendeu? Para... Sabe? A gente fugir... Para não serem só as atividades do caderno. Fazer uma atividade que o aluno tenha que ler! Pensar mais um pouquinho, criar certa complexidade para a gente observar para onde a gente tá indo... tá?” Isso é superinteressante! É lógico que teve as notas que foram um pouco abaixo da nossa expectativa. Mas isso não vai impedir da gente continuar, isso também não vai ilustrar a potencialidade que esses meninos têm. Até porque, a experiência desses modelos de prova é nova e para tirar da cabeça deles: “Professor, você não revisou; Eu não sei nada.” Alguns até elogiaram: “Oh! Bem que vocês falaram, hein?” Eles estavam muito preocupados e essa novidade tirou aquele peso de prova. E, outra coisa, a prova estava toda ali, em movimento, porque nós trabalhamos uma unidade, mas cada um estava num caminho. A cidadania que foi tratada, a construção da cidadania, das lutas, direitos, o significado dos processos, tá? Foram trabalhados na sala de aula. Não foi aquela 162 cidadania que a gente está acostumada a fazer no papel, que as escolas fazem... Aquele projetinho... Não jogar lixo no chão. Aquelas coisinhas, não! Nós ampliamos isso. Nós levamos a constituição, trabalhamos com os alunos o que é estatuto. Nós não levamos a definição, eles definiram, eles fizeram a definição pela leitura de mundo que eles têm. Então, isso foi uma possibilidade que eu achei riquíssima nos conclusivos. Eu pedi ao professor que falasse sobre a aceitação ou não dos alunos em relação à modalidade: _ Nossa! É assim, eles estão amando! Vou dar o exemplo da D. Maria José que ia largar. Ia para o Neuza Nunes. Aí participou da Mostra, veio, trouxe a filha! Ela é um exemplo! Marco é outro que questionou muito, mas depois viu objetivo. Ele viu que o conteúdo emerge, que aquilo que eles questionam a gente vai para o quadro, a gente se esforça para ensinar. Porque partiu deles. Nós estamos trabalhando cidadania e vamos trabalhar gênero e etnia. É no momento da aula, se o menino quer aprender preposição, a gente vai parar a aula porque a gente não pode negar esse direito dele de ver o conteúdo que ele quer. Eu insisto na questão da participação dos alunos e lembro-lhe da dificuldade, muitas vezes, do aluno se colocar sobre os conteúdos. _ Sim, mas aí a gente está fazendo um trabalho no sentido deles participarem mais. Como quando a gente trabalhou com a questão da cidadania no primeiro trimestre, o Engajamento Social e a gente trabalhou muito verbo nos conclusivos, porque verbo é ação, verbo é a palavra. Então, a primeira coisa que você tem que trabalhar na cidadania é a questão da atitude. Qual é a atitude que você tem? Qual é seu ponto de vista? Quais são os seus princípios? E isso parte de que? De verbo. E verbo nos leva a quê, minha lindinha? Aos objetivos. Então dos objetivos você parte para verbo: aprender? Conhecer? É fazer um paralelo. Contrastar, confrontar, entendeu? Outro trabalho riquíssimo foi o da Fábia com a intertextualidade. Nós levamos a linguagem do filme Central do Brasil, a gente pensou que os alunos não fossem gostar porque é um filme brasileiro. Outra coisa que a gente tem que fazer: essa ruptura com os alunos, porque tem muita coisa maravilhosa aí da nossa cultura que 163 o aluno desconhece. Trazer pra sala de aula... Entendeu? Então, os alunos fizeram um trabalho. Cada texto maravilhoso, reportagens, entrevistas. Fizemos um confronto das linguagens, fizemos a reescrita com eles, selecionamos quatro textos que estavam com problemas, pedimos a permissão dos alunos, os alunos autorizaram, nós fizemos a reescrita deles no quadro. Depois nós levamos todos os textos e eles reescreveram. Basta ver que eles fizeram a 1ª, 2ª e a 3ª versão. E a 3ª versão foi digitada. Porque é hora de mudar algumas coisas no grupo. Foi outro trabalho riquíssimo também a história de vida. Que coisa emocionante ver os alunos escrevendo. Quando a gente fez isso, Nicéa? Tem professor que não sabe nem o nome do aluno. Conhece o menino pelo número. O aluno bagunceiro que perturba ou aquele que não perturba. Agora, não! Você conhece o aluno, o aluno passa a fazer parte da sua vida. Então, eu sou apaixonado pela EJA. Brigo, concordo que até exagero. Como naquele dia da reunião para a elaboração da prova, que você não pôde vir. Nós tínhamos que ir pra sala, aí Silvia já chegou falando: “Ah! Vamos organizar só o material, a produção dos alunos para a mostra.” Eu briguei. “Ah! Não vou fazer mais nada, eu vou abandonar...” Lúcio disse: “Calma Moacir vamos fazer.” “Ah, Lúcio, não dá!” A gente queria discutir as unidades conceituais antes de fazer a prova, entendeu? Porque também a gente não pode fazer “oba, oba”. Se é pra trabalhar a questão da cidadania, então vamos trabalhar! Agora, uma coisa que está faltando, que é outro impeditivo, são as dimensões. Nós temos que estudar. Nós estamos estudando muito pouco... É outra coisa que a gente tem que romper. O pessoal não gosta de socialização. Eles querem ir direto para as atividades que devemos dar aos alunos, entendeu? O trabalho, as parcerias... Isso é uma falha. Isso é uma falha porque naquele momento inicial, no meu entendimento, tem que entrar as dimensões... _ Mas essa socialização, esse estudo sobre as dimensões não está sendo feito nos PLs coletivos e individuais? _ Não, acontece, mas o pessoal não faz aquele momento de parar mesmo. Pode até estabelecer um tempo, mas as pessoas têm medo de... Eu não sei. Não sei se você percebeu... Na hora de falar, simplesmente não falam, ou ninguém fala de uma parceria ou sempre só um da parceria fala... Tem parceria que nem se manifesta... 164 Sim, trazer, trocar. Gente, falta está colocando na pauta a nossa experiência. A gente tem medo... A gente tem medo aqui e lá na SEME e como a gente vai passar (experiências) numa reunião quando precisar? Gente, a gente vai ter que trocar experiências! A gente tem que se soltar, porque nosso trabalho está um trabalho responsável. A gente está partindo mesmo dos interesses dos alunos, ouvindo. Agora, outra coisa em que a gente também está falhando: são os relatórios, a avaliação, a auto – avaliação. Ficar com medo desse menino se dar dez! Não vamos fazer nossa avaliação ele se colocando? Aí, em cima daquilo ali, a gente pode até avaliar o aluno se a gente quiser. Então, compor a avaliação do aluno com a nossa, vamos envolver o menino de forma tranqüila, “Gente, gente, agora é o momento da auto – avaliação. A gente tem que fazer isso agora. Como é que você foi? Seu primeiro trimestre? Qual nota você se confere? Não quero saber o quantitativo de linhas, mas a gente quer uma coisa Legal, responsável porque isso aí vai mostrar nosso trabalho.” Isso não vemos ninguém colocar, mas eu e Flávia fazemos isso direto. “O que foi? O que vocês estão achando e tal... E tal... E tal...” Entendeu? Eu não vejo o pessoal fazendo muito isso, então eu acho que eu, o outro tem que se colocar. Tem que trocar experiência e se morre de medo de fazer essa socialização. O outro impeditivo é o estudo. O pessoal falou que não gosta de ler. Ano passado a gente trouxe algumas coisas de casa e tal... Entende? Mas eu acho que a gente tem que quebrar... O tempo sim. Só que quando a gente faz um debate, pára um tempo pro estudo, a gente está preparando material porque também a gente está tirando a síntese e daquela síntese, dependendo, pode-se levar para a sala de aula pra discutir com os alunos também, entendeu? Então você vê... Outra coisa que eu acho impeditivo é que eles também estão no processo. Você sabe nosso Órgão Central. Então, o que acontece. Só que eu também acho que eles tinham que estar vindo nas escolas, não sei como... É pouco pessoal, eu sei, mas para verem, para terem uma impressão do nosso trabalho. Então, se é Roberto que acompanha a nossa escola, Roberto tinha que vir na 6ª feira. Então, naquele momento inicial, “Gente o que vocês estão achando da formação?” O que eu não gosto é essa coisa assim “de bater de frente” porque eles (o pessoal da SEME) também estão tentando. Não dá, sabe? É por aí. Porque agora a implementação, a 165 modalidade não é desejo nem imposição da SEME, é a nossa vida profissional. Nós estamos dentro deste processo, dentro da modalidade. Então, agora a responsabilidade não é só da SEME, é nossa também. Criar identidade, criar vínculo em todo esse processo... É essa coisa de superar as dificuldades que você colocou, eu achei superinteressante. Veja o caso da Roberta, eu tenho que ilustrar. Porque eu vou embora de carro com ela, então, você sabe as angústias no começo, né? Nem foi a saída do parceiro, do Carlos, foram as angústias dela que a fizeram ir quebrando “aquilo” dentro dela. Eu até falei isso na reunião passada. Gente, a desconstrução é interior, é por dentro que você tem que quebrar, se você quer mudar, se você está aberto à essa mudança, à essa transformação, precisa ler e dizer não sei, quero aprender. Então, é uma desconstrução interior. Não é exterior. Então, a gente vê todo esse processo da Roberta em buscar, então, eu como acompanhei isso com ela, desde as angústias que ela comentava no carro e vejo aquele trabalho dela, lá na Mostra. Ora, era questionário... Gente, o avanço dela foi significativo, um avanço maravilhoso, era questionário de trinta perguntas. Exatamente, era só no livro. Era tudo no livro. Quando isso aqui estava fechado (apontando para o armário). Era doideira, “Ah, hoje eu não vou dar aula, não tem matéria!” Então, que avanço! Nem livro ela tá usando hoje! Hoje ela dá textos, é legal, ela cria, ela junta, ela soma com a Rúbia, que é outra riqueza que chegou à nossa escola para somar. Maravilhosa, que descaracterizou essa idéia que Educação Física é só exercício. Educação Física é vida e expressão. O corpo em movimento é como a fala. Não essa expressão de forma descontextualizada, com jogos e etc. Entende? Então eu acho que o currículo em movimento fez toda essa ligação da gente com o mundo. Agora a gente ouve uma notícia, leva para a sala de aula. Você vê quantos estavam à nossa frente... _ Mas você não sabia disso antes dessa proposta? _ Sim, mas olha a diferença. A gente usava o recurso pedagógico, a mídia, mas muitas vezes só para trabalhar a gramática. Então, muita gente colocava que isso era o quê? Atividade contextualizada. Porque você pegava a notícia, tirava substantivo, verbo, palavras sinônimas, antônimas. Então, eu já tinha lido, não lembro quem, que questionava que a gente usava jornal, revistas, panfleto, bula quando o nosso objetivo era gramatical. Então uma visão que a gente tinha, errada, 166 que até hoje a gente tem dificuldade de perceber. Eu insisto em questionar se ele só percebeu isso a partir dessa nova proposta de currículo trazida pela modalidade: _ Não, eu já tinha percebido isso porque eu trabalhava conteúdo sim, mas eu também ampliava para o geral, entendeu? Eu também colocava no geral, mas eu trabalhava conteúdo sim... O meu trabalho sempre foi bem visto porque eu nunca tive medo de trabalhar determinados temas, tanto que quando a gente vai abordar a diversidade sexual, eu me coloco, eu participo, eu sempre busquei. É outra coisa que a gente tem que ver outro impeditivo que a gente estava colocando sobre os planejamentos. É a questão dos planejamentos na 6ª. Lá (SEME), na visão que eles têm. Eu não sei. Nessa forma de trabalhar... Como é que o projeto vai andar? No convênio que eles estabeleceram com a UFES, nós temos uma turma pequena, são 15 alunos, no primeiro segmento e uns vinte do segundo. Acontece o quê? Duas horas de aula, de três às cinco. Então, a gente chega à UFES cedo e as parcerias têm de uma 13h00minh até as 15h00minh pra resolverem os problemas, para acrescentar. Coisa que aqui a gente não tem. Porque os quarenta minutos, de 18h00min às 18h40min é em ACC. Horário que a gente tem que entrar na sala de aula e atender o aluno na sua diversidade, suas dificuldades... Como aconteceu no outro dia em que eu ia sentar com a Fábia, mas chegou o Oziel... Então, eu disse: “Não Fábia, eu vou.” Eu tinha estabelecido um acordo com ele, que toda vez que ele chegasse mais cedo, ele me procurasse porque ele sente dificuldade de leitura, de escrita. Você está entendendo? Então, é essa a diferença. Então, é uma coisa que eu tenho começado a pensar. Eu acho que é a questão dos projetos do ACC. Por que ACC tem que ser só no início? Por que a gente não pode fazer depois. Em um horário que seja para a escola toda? Por que a gente não pode desenvolver várias oficinas, várias atividades e dividir esses meninos, após o recreio? Por que ACC tem que ser nesse horário em que eles (SEME) sabem, que muitas vezes, quase não chega ninguém. Então fica uma coisa assim... Para ilustrar! Porque não acontece de acordo com a realidade e isso choca e desanima... Se pelo menos a gente tivesse esse tempo de seis as sete, seria um bom horário que as parcerias teriam. Por que não? 167 Eu faço uma provocação colocando que, às vezes, esse horário fica disponível e nem por isso se vê algum movimento no sentido de se planejar ou organizar material, por que será? _ Sim, mas o que eu mais fico preocupado é que não se pode cobrar porque são momentos que acontecem de imprevisto, ninguém vai se mobilizar mesmo.Tem hora que a gente acha que até a 6ª feira ainda é insuficiente. De repente, o professor retoma a reunião do ano passado em que os professores foram informados de que teriam que optar ou não pela modalidade. _ Outra coisa, que pra mim ficou sobre aquela reunião aqui na escola que teria que optar pela modalidade e “Ah, eu vou ou não?” Como discutir a questão da modalidade EJA pelos princípios que norteiam essa modalidade? Há essa flexibilidade no horário do aluno, de entrar e de sair das aulas. A questão de não ter o rigor da freqüência. E aí? Esse é outro impeditivo. E por mais que a gente fica nessa, Né? “Ah, não, não vai fechar... E se a escola esvaziar?” Daqui a pouco pode vir outro prefeito, pode mudar. Mas por outro lado... Eu afirmo que essa preocupação é uma questão de política... _ Política. Exatamente... _ A meu ver, essa é uma política que envolve a questão do Fundeb e que nenhum prefeito vai querer abrir mão desse recurso. O que a gente não sabe é como fica isso em termos de órgão central. Se as pessoas que estão lá, os atuais assessores que defendem com unhas e dentes a modalidade, vão permanecer... _ Porque isso me preocupa um pouco. É isso aqui. Temos que estar fechando com o planejamento, produzindo material, fazendo tudo direitinho... Tem como a gente estar ampliando esse espaço da EJA com um planejamento legal. _ Outra coisa que a gente tem que aprender é registrar. É porque, muitas vezes, o planejamento está coeso sim, mas como fazer isso, todos os... Outra coisa que a 168 gente tem que pensar também, uma coisa assim, que as aulas tivessem umas fichas. Só esse caráter quantitativo para avaliar nos limita. Temos que partir pro qualitativo. Produzir jogos, literatura. Pensar, como é que está sendo isso? Em que o aluno cresceu? Porque tem hora que a gente não avalia isso. É como eu observo lá na UFES. Tem aluno lá, conforme a menina que é estagiária falou que não avançou no pedagógico, estacionou, está lá há dois anos, há um ano e meio e continua com a mesma escrita, não avançou... Então isso tem que está dentro da avaliação e na avaliação qualitativa você consegue ver isso melhor... Porque a quantitativa você fecha. Você não aproveita. Ah, não está legal, você bota interrogação, você risca. Ou então, você quer número. A qualitativa não, você lê, você aproveita e fica muito mais fácil. Na nossa visão fulano cresceu. Olha como é que está lá, o que está escrito aqui, olha a manifestação, olha a estrutura. Ás vezes, eu não percebo isso. Eu estava falando com a Fábia isso agora... Mas devia ter uma ficha para a escola. É a gente vê que até está acontecendo... Só não está sistematizado. Outra coisa, assim que está impeditiva também, que a gente podia estar usando é a biblioteca. A mulher (a bibliotecária) disse que vinha pra noite e nada. Outro dia, os meninos falaram para nós, que não conheciam a constituição, a gente podia estar descendo, mostrando o que é a biblioteca. A coisa da pesquisa com esses meninos entendeu? Pra discernir... De repente, o professor volta a falar sobre o currículo em movimento e faz suas apreciações: _ Agora o currículo em movimento é realmente coisa muito significativa. Mudou a cabeça de todos nós. É como você falou cada um está tendo seu processo. Uma coisa que eu tenho que respeitar é o processo do outro. Eu sou muito ansioso. Porque eu quero ver as coisas caminhando. É por causa da minha paixão, eu tenho que estar me policiando um pouquinho, Entendeu? Deixar... Observar... Estar somando... Igual ao Lucas. No começo, a gente falava, “será que essa proposta funciona? Ai meu Deus! Como é que vai ser isso?” Mas, quando eu vejo... Gente é maravilhoso... Então o que ele precisa... De alguém do lado pra está estimulando, Entendeu? Porque a vida inteira, o cara sabia que ele tinha que dar matemática. Agora nós já vimos, ele está descobrindo, dando atividade de Artes, trabalhando a 169 questão da geometria de outras formas... Nó... Gente! Sabe, o trabalho da Fábia com Inglês, as coisas do dia-a-dia foram, é super interessante pros meninos. No começo, também, lá no inicial, ela fez uma abordagem. O por quê Inglês, né? Aí, ela teve que tocar em toda ocupação do Brasil, ela fez uma retrospectiva histórica maravilhosa para mostrar para os meninos. Aí, foi se fazendo o trabalho. Aí foi se buscando no cotidiano aonde eles viam inglês. “Hot dog”, “Nike”... Então os meninos foram se envolvendo, sabe? Super interessante. O professor retoma sua fala sobre a sua relação na parceira ou sobre a relação entre as disciplinas: _ Só que tem hora que eu sinto, eu não sei se sou eu que estou tomando espaço (?). Só que eu acho que ela tinha quê... Eu tinha quê... Eu tinha que buscar esse contato, fazer essa avaliação com ela porque ela tem uma riqueza, igual esse trabalho da Rosa Parks. Que coisa interessante! Nós até passamos um filme que mostra a segregação racial. Ah! Olha o currículo em movimento! Fomos lá à escravidão, os meninos foram lá, buscaram as informações e olha a dimensão do espaço-memória, do tempo... Uma coisa que eu quero colocar para os professores que é super interessante trabalhar são as dimensões. Eu acho legal a gente retomar o documento. Porque no documento fala das dimensões do trabalho, por exemplo. E outra coisa, é sobre autonomia para trabalhar, produzir nosso material. A autonomia está sendo maravilhosa. Já a cobrança, não sei. A gente pode até usar outro termo. A gente cobra da gente mesmo,é o grupo que se cobra. “Oh! Gente, a coisa não está dando. A gente está...” É nisso que eu vejo o trabalho aqui acontecer muito mais de forma legal do que na UFES. E, como lá foi onde começou, ficaram com uma exigência maior. Por mais que a nossa colega, amiga de artes (da UFES), eu sei que o pai dela está doente. Ela está cansada, mas também tem outras coisas... “Ó! Cadê o currículo de Artes? A Arte não está aparecendo!” Então, quando ela chega com essa proposta, a gente desanima também. E quem está fazendo essa proposta aqui é nosso amigo sobre os eixos temáticos... Mário Vítor acrescentou muito na minha vida, como você também. A gente tem o pensamento que é como você fala, “Gente, eu sou pedagoga, o lugar de autoria é a sala de aula.” Então, isso é muito gostoso. Porque na hora que você tem que se colocar, com seu 170 lado clássico de está falando as coisas. De buscar puxar nossa orelha sem baixaria, chamando à responsabilidade, criando uma relação verdadeira. Quando eu parei de falar com o Lucas, a minha relação conflituosa com a diretora... Você falou: “Não. Você também tem que se abrir, você também está se fechando.” Então, você me fazia refletir e isso é que é importante. E você descaracterizou aquelas pedagogas dos objetivos somente pelos objetivos e pautas. Eu acho que as pedagogas pedem projetos só para constar porque ela, a pedagoga daquele turno, daquela escola lá tem projeto. Mas ela não se envolve. Então esse é um aspecto positivo, a sua leitura, a sua vontade de estar indo, de estar buscando com a gente. “Ó gente, eu também não sei. Vamos pensar junto? Vamos estudar? Vamos fazer isso?” Gente, isso é fantástico! O que a gente observa? Que os técnicos que um dia foi pro espaço da sala de aula, eles têm muito mais a contribuir com a autonomia que eles têm sobre os fracassos que tiveram,das vitórias e vão passando, vão socializando... E isso é muito importante. Porque o pedagogo não foi chamado para se descaracterizar um pouquinho? Porque, antes, quando a gente era Ensino Regular, o compromisso era menor. Tem hora, coitada! Eu acho que você queria sair correndo. A gente jogava tantos questionamentos em cima de você. Aí você disse, “Gente, por favor.” A sua paciência com a Roberta. De sentar com ela, até com o próprio Carlos, depois foi com a Rúbia que chegou. Qualquer uma parceria que te chama... Isso é muito interessante porque nós estamos respirando EJA. Por mais impeditivos que a gente colocou o projeto já está dentro de cada um de nós. Só que cada um está absorvendo à sua maneira, então, é esse espaço que eu tenho que respeitar. Então, naquele dia que deu a confusão toda com Lucas, a Eliana (professora que trabalhou na escola em 2007) foi no meu ouvido e disse: “Querido, você está além, vai com calma, você está além dele, você já está vivenciando isso, já desconstruiu. Ele tá em processo, tá bom, meu querido?” Essa fala dela é interessantíssima. É isso que está acontecendo. Eu desconstruí isso muito mais. Tanto que quando entramos na sala de aula, colocamos no quadro nossos nomes, o pessoal colocou logo a disciplina, Fábia e eu, não! Falamos sobre a nossa formação acadêmica. “Eu sou de Língua Portuguesa, ela é de Inglês. Mas só que agora a gente quer trabalhar com vocês, tá? O mundo... Vamos dizer assim.” É lógico que nós não vamos esquecer a nossa formação, mas nós somos professores de EJA. Então achei isso 171 muito interessante. Essa quebra que nós demos, logo no início. Os professores colocaram no quadro é plano de Ciências... E botavam a sigla para a disciplina e nós, não colocamos nada. Colocamos nossos nomes. Se for assim, é a nossa identidade para trabalhar com os alunos. Vamos lá para o caderno... Eles gostam de dividir, né? Fábia e Moacir! É isso que a gente quer. Então nossas atividades vocês vão deixar nessa parte. “Ah, mas o senhor não dá Português, não? Não, eu sou formado, ela é formada... Então o que emergir o que vocês quiserem, a gente vai trazendo para a sala de aula, discutindo com vocês, a necessidade de vocês tem que vir à tona, está bom?” Sabe? Então isso é interessante. Porque antes a gente só ficava preocupada com o livro didático, muitas vezes, esse aí da EJA que tem aí (dentro do armário), que não atendia... E a gente tem ainda que parar com a idéia de só pedir receita falando o que a gente quer da SEME. A outra coisa que a gente tem que desconstruir. Temos que parar com isso. E outra coisa, assim, é que tudo que a gente propõe Nicéa, os meninos estão assumindo. Sim, os alunos... A gente chega lá, do jeito que a gente já os conhece, vai, estimula. Gente, aqueles acrósticos que eles fizeram no computador. A gente corrigiu. Eles passaram pro papel com a maior tranqüilidade. E quem não tinha feito fez. Então, aquilo ali, eles vendo o trabalho deles lá, reproduzido no texto. Foi muito interessante esse processo, porque a gente não valorizava! Então quando você chegou com essa idéia: “Gente,vamos expor...Vamos mostrar... Os meninos precisam ver a potencialidade deles ali, não é só em sala de aula não. Vamos ampliar.” O que é outra coisa interessante, tá? É descobrir, tá? Que aprender não é só em sala de aula. Outra coisa, a gente não tinha essa idéia de mostrar o que a gente faz, ou seja, é por isso que a gente ouvia falar que a gente não trabalha (É uma fala recorrente, entre os profissionais de educação, sobre os professores do noturno). Porque a gente chegava à sala de aula. Nós tínhamos que ficar com aluno direto. Então a gente chegava, o aluno esperava você enchia o quadro. Então você enchia o quadro. Então, chegava um, chegava dois, chegava três, chegava quatro, chegava cinco. Quando você ia pro quadro, chegava outro. Então, basicamente, você só ia trabalhar após o recreio. Até você explicar, eles fazerem, na hora que tinha que sair a atividade avaliativa, ali (durante a aula), não saía. E quando você arriscava a 172 passar durante a aula. Ficava para a próxima aula, então, quando você chegava na sua próxima aula uma semana depois, havia um enorme intervalo. Só agora a gente percebe como era o tratamento, o tratamento, né? O aluno escolhia a aula que ele queria freqüentar. Então, vinha na minha aula x e não vinha na aula do outro professor que ele não gostava. Aí, se tinha que chamar, conversar, aí, no dia de prova aparecia todo mundo... Foram mudanças positivas porque agora, a relação e aproximação dos professores um com outro mudou. Tem energia, tem contato. Fui tirar aquele dia (de folga) e o pessoal todo ficou ligando... Um chega “Você está legal? Você está bem? Quê houve?” A Fábia, nesse processo (adoentada), todo mundo com aquele carinho, aquela atenção. Então, a gente vê a preocupação com o outro. E não é só entre as parcerias. A gente se preocupa com o colega, com todo mundo. O fulano não chegou. Não é pra dizer que ele vai chegar atrasado. É preocupado se aconteceu alguma coisa. “O quê a gente pode fazer pra ajudar... Ir pra onde? É pra subir? Vai dobrar?” Agora, naquele dia que a gente teve o rompante de não fazer divisão (os professores se recusaram a cobrir a falta de um professor em revanche ao tratamento que a coordenação/direção lhes dispensa com rigor e vigilância sobre seus horários). Porque muitas vezes, não você, tá? Eu acho assim... CTA, a direção, muitas vezes não tem habilidade para conversar, para dialogar. Porque são duas funções, cargos na escola que é são só para mandar. É o poder. Direção e coordenação, tá? Manda, manda e você nunca, você não vê o diretor chegar à sala de aula quando você não chama. Eu vejo lá (na escola do Estado) que eu tenho que chamar o diretor quando eu estou com problema, porque eu não tenho pedagogo, então, “vamos lá porque eu estou com problema.” Você tem que chamar, quando o certo não é isso. É, muitas vezes, você chega “Oi professor, como vocês estão? Gente como vocês estão?” Criar um vínculo. Então, por isso, quando os meninos falam que o diretor não vem na escola, é porque ele não tem relação com o diretor. Ele não tem relação com o coordenador. Eu crio lá (no Estado o professor é coordenador) porque eu vou... Aqui você não vê isso. É outra coisa que precisa chamar nossa atenção. Pra gente colocar na presença da diretora, isso só se fala lá na sala de professores, entendeu? Criar laços. A coordenadora tem que tirar essa função só de merenda, tem que descaracterizar. É mais um elemento para pensar, é mais um elemento para contribuir com o pedagógico. 173 Agora, sobre o currículo, querida, a gente está assim, maravilhada porque a gente está descobrindo nosso potencial, estamos todos envolvidos, os próprios alunos também a descobrirem. Gente, quando a gente vê a produção dos meninos, como a... , pena que a Fábia não conseguiu trazer pra mostra uma filmagem que foi feita durante uma aula. Eu quero que ela grave logo para mostrar no dia do nosso planejamento... Tá filmado, né? Então a gente vai mostrar... Então, o momento é aqui, o momento de você ver o seu trabalho. Eles criando, debatendo... Como as meninas do inicial que criaram um texto, eu achei maravilhoso... De uma menina que falsificou a identidade. Olha gente, que coisa rica. E ela não está vindo mais... Foi a Aparecida. Júnia foi embora, agora Aparecida, sumiu. Júnia voltou para Floripa. Sabe? Então você vê as meninas tentando, fazendo a relação, criando o conhe... Valorizando o conhecimento que ela nunca tinha valorizado, quer dizer, sempre te falava isso. Aproveitar o que o aluno leva para a sala de aula. Que nada! A gente nunca aproveitou isso. Porque antes não era o currículo, a idéia de currículo aqui era só conteúdo, matéria, listagem de, de, de, sabe? Nomenclatura. Então na 5ª série vou dar substantivo, adjetivo só para aproveitar aquela coisa... Agora, não. Na 5ª série (inicial) a gente escolhe um texto e trabalha lá, leva o mesmo texto pro conclusivo e o enfoque é diferente porque cada turma é diferente, cada turma é singular. A gente não vai pensar que vai ser igual. Essa diversidade do noturno e da EJA que é rica. Jovens adultos, tá? Jovens, adultos e adolescentes. Isso é muito rico. Tem que saber lidar tem que saber unir pra socializar na sala de aula. Como você vai trabalhar a projeção da D. Maria José, que é uma pessoa que trabalha no duro, com a do Marco Antonio, ou com a do Renato? Então, esse é outro fator, é o desafio. Lidar com a diferença. Dividir, separar. Teve até um texto que nós trabalhamos lá, super legal, então, eles estão fazendo o trabalho em grupos com gente mais jovem junto com gente de mais idade. Estão respeitando a idéia um do outro. Coisas que eles não faziam. Os meninos criam, debatem, criam textos coletivos, perguntas. Estamos fazendo muito esse exercício de eles fazerem as perguntas e isso é bacana. Em vez de a gente tirar as perguntas do livro, a gente cria as perguntas no momento. Agora, a idéia, o que eu achei mais gostoso é que quebrou essa questão do livro didático ser um amuleto. O livro didático é um recurso pedagógico importante. Antigamente o livro didático era um amuleto. “Sem livro eu não posso trabalhar.” É lógico que a gente vai pro texto sim... Agora eu acho que a gente tem que ampliar mais esse trabalho com o texto. Tem hora que a gente, por 174 causa da rotina, fica naquele ritual... Leitura silenciosa, leitura em voz alta. A gente tem que começar a pensar como tornar esse ambiente saudável, tá? Com a leitura, uma roda de leitura porque a gente dá o texto e lê, lê... Outra coisa que a gente tem que começar a buscar mais a participação deles, pedir sugestão... Deixa eu te falar, outra coisa Nicéa, o currículo em movimento, ele acontece porque antes a gente fazia aquele planejamento lindo e maravilhoso, como tem lá (no papel), mas não acontecia. Outra coisa, lá (UFES) eu estou fazendo estudo com o jornal na segunda feira, eu e o professor de geografia e o professor de matemática, lá na UFES, gente... Descobri a importância que o jornal tem porque ali, naqueles cadernos, está o mundo, entendeu? Então falei: “Gente, estou apaixonado pelo jornal!” Para você trabalhar com os meninos. Vou trazer pra cá também essa idéia pra trabalhar junto com a Fábia. Porque a parte internacional, a Fábia pode ampliar. Você está entendendo, por que temos a Gazeta, a Tribuna? Ver as manchetes com a Fábia, as linguagens... Por que a Gazeta criou a Notícia Agora? Por que a Tribuna tem a notícia lá assim “Vigilante é executado após ser esfaqueado”. A Gazeta “Vigilante é assassinado com requinte de crueldade”. Olha a questão da linguagem. Porque a Gazeta tem a proposta de atingir a classe A e B então criou a Notícia Agora com o objetivo de competir com a Tribuna os leitores do povo. E depois tinha lá uma de um surfista. “Surfista se vinga de fulana” e a Tribuna gosta tanto de trabalhar a violência que aqui... A Gazeta “Surfista fica numa boa”. Já usou uma gíria. A gente trabalhou isso com eles... Gente, então por que as manchetes vêm sempre no presente? Por que em manchete não usam sinal de pontuação? Então, são coisas que você vai descobrindo com seu estudo pessoal, a busca pessoal. Então isso é muito importante, sabe? Então para mim é como estar buscando tipos de textos, sabe como? Os meninos? Sabe como? Preparando material para trabalhar dissertação com os conclusivos. Você sabe que ano que vem, muitos vão tentar concurso. Você sabe, quando entra prefeito novo, abrem-se muitas portas. É gente se aposentando, criam-se novas secretarias e esses meninos do conclusivo, muitos vão ocupar esses espaços através de concurso e sempre cai o quê? A redação. Então pode o quê? A dissertação. A dissertação então eles já fazem tranquilamente. Ao transcrever essa entrevista, muitas dúvidas se colocaram pra mim. O que destacar? Como dizer que essa ou aquela fala aponta para um processo de 175 diferenciação? O que fazer diante dessa narrativa? Correr os riscos imaginei. Comecei a pensar sobre as condições e a posição desse professor no e para o grupo de professores e me dei conta de que, como os outros, está vivendo em condições fronteiriças e seu discurso, carregado de contradições e de conflito, inscrevem e escrevem ambivalências e processos de tradução. É um discurso que hibridiza uma presença sempre parcial de ser professor de Língua Portuguesa e ser um Professor de EJA, não se trata mais nem de um nem de outro, mas de rearticulação de elementos, algo a mais que contesta o lugar de cada um. Será que eu sou capaz (preciso?) ir além do que ele diz? Será que eu consigo compreender o que ele tem a dizer? Essa preocupação me perseguia e me movia a ouvir os outros professores no sentido de compor essa trama de significados e performances que vem compondo o cotidiano da EMEF. A entrevista seguinte foi com a professora Fábia que, ao contrário do professor Moacir, demonstra muitas dúvidas em relação à proposta do currículo em movimento. Ela sempre se coloca ansiosa no grupo para resolver e definir como as coisas serão feitas na prática, na sala de aula com os alunos. Depois das perguntas feitas ele diz: _ Eu acho, Nicéa, que eu sou uma pessoa muito negativa. Eu não sou otimista em relação às coisas. Então, o meu modo de ver tem muito a ver com minha personalidade. Então, eu não vejo o Projeto com bons olhos, agora de início. Eu acho que a gente elaborar o currículo em contato com os alunos, eu acho muito válido, porque amplia mais o conhecimento do que o currículo em função do preparo, da preparação do conteúdo do currículo à medida que ele vai se desenvolvendo. Então, eu acho que a gente vem trabalhando nas áreas dos eixos temáticos e o trabalho tem sido interessante, mas eu não sei se os alunos estão ganhando tudo o que eles teriam que ganhar no Ensino Fundamental. Então, eu estou muito presa, ainda, na questão dos conteúdos, mas não sei até que ponto os conteúdos ajudariam alguém a crescer profissionalmente. 176 Interrogo se os conteúdos dos quais ela está falando são esses que estão sendo trabalhados: _ Os conteúdos formais, os conteúdos antigos. É, eu não tenho tanta certeza que eles não precisam saber matemática, como a gente sabia, como a gente aprendeu há dez anos atraz, quando a gente foi pra escola e aprendeu física, química e matemática. Também eu paro pra pensar em quê que eu usei a matemática que eu aprendi, na verdade, eu não acho nenhuma função real na minha vida para a matemática que eu aprendi. Mas eu não sei se tirar essa matemática ou deixar essa matemática emergir na medida em que o conteúdo vá surgindo... Eu não sei se isso é benefício para o aluno. Então, eu tenho essa visão, visão ainda mais tradicional do ensino. Então, eu tenho muito medo deles estarem sendo prejudicados por conta desses conteúdos que vão emergir. Eu também acho que o ensino fica muito dependente do professor. Então, eu acho que alguns alunos vão ser mais bem preparados e outros não, por conta dos professores que eles têm. Então, dependendo do engajamento que o professor tem com o Projeto, dependendo da... Como eu coloco? Do que o professor sabe ou deixa de saber, da esperteza do professor, do conhecimento do professor... Esse aluno vai aproveitar mais ou menos das aulas que ele vai ter. Quer me fazer uma pergunta? Peço que fale sobre a experiência do trabalho em parceria: _ Eu acho Nicéa, eu acho que nós, por termos uma formação específica, a gente não vê alguma coisa que poderia emergir. Essa é minha preocupação. Então, quanto a português e inglês eu sei tudo que a gente pode puxar e a gente puxa. Mas, eu acho que eu deixo a desejar no meu trabalho... Sabe? Ás vezes, tem um fato histórico que eu poderia mostrar naquele momento, mas eu deixo de fazer porque simplesmente eu não sei. Eu lhe recordo que eles, professores de Português e Inglês, não são os únicos professores daquela turma. Os alunos também têm parcerias com professores de outras disciplinas e que eles também devem estar puxando muito mais em favor dos conhecimentos que eles têm. 177 _ Acho que pode ser. Porque eu fico me sentido responsável por tudo que vai ser ensinado pra aquela turma. Eu me esqueci de pensar que as outras parcerias também vão suprir essas lacunas. Eu pergunto como está sendo a participação e aceitação dos alunos. _ Eu acho muito pouco, Nicéa. Na realidade, é... É muito pouca a participação deles, a contribuição é muito pouca. Acho que por falta de experiência nossa. Talvez o ano que vem seja bem melhor... E isso é falta de tempo também. Então, às vezes, a gente pede um exercício e a gente avalia aquele exercício, mas não tem tempo de olhar o que o aluno está pedindo com aquela resposta que eles nos deram. Então, acho que a falta de tempo é um ponto bem negativo, está prejudicando a gente ou impedindo que o trabalho fosse melhor. A falta de tempo para planejar, sentar os dois pra discutir. É, eu acho que a sexta feira é curta, a gente tem os problemas da escola para serem resolvidos, a gente também tem que ter o OCT... (Eu lhe recordo que o OCT é na 5ª.) É, mas a gente sempre faz uma reuniãozinha, alguma coisa na 6ª. Então, até começar o trabalho todo aí... Nesse momento, Fábio, aluno do inicial, nos interrompe e diz que não está conseguindo fazer as atividades e por isso o professor o mandou chamar pela Fábia. Fica um “clima”, porque esta atitude do seu parceiro é recorrente. Sempre que a Fábia sai da sala, ele a repreende sutilmente. E o pior é que ele sabia que ela estava dando essa entrevista e não havia transcorrido nem um terço do tempo que ele ficou em entrevista comigo. Eu peço para avisar a Moacir que estamos terminando e ele vai embora. E Fábia continua a falar sobre o tempo de 6ª feira: _ Então, passa o tempo de sentar e planejar porque quando a gente planeja nesse tempo que a gente tem para planejar, a gente também tem que corrigir a gente também tem que achar material. É e a gente tem que fazer muita coisa e é sempre muita coisa que a gente tem que fazer. Somos interrompidas novamente e ela pede que eu não grave os comentários que quer fazer naquele momento. Após alguns momentos, ela retoma a fala sobre o trabalho em parceria: 178 _ O trabalho entre as parcerias, é sobre as coisas que não vão emergindo por causa das parcerias. Eu estou percebendo que não só na minha parceria, mas eu conversei com outras pessoas, a Rúbia, por exemplo, é por causa das relações interpessoais, um acaba cedendo. E não sou só eu... Pela pessoa que Moacir é... Do jeito que ele age... A Rúbia também, ela, ela deixa a outra pessoa ocupar o maior espaço. Então, não existe uma equiparação, uma igualdade nessa parceria. _ Não está faltando o diálogo? _ Eu não sei... Eu acho que falta o diálogo entre a parceria, mas eu não me sinto confortável em dialogar. E, isso, com o Moacir. Porque o Moacir, ele é muito positivo e ele tem um modo de ver de forma muito positiva e eu acho que vou ser uma grande decepção para ele se eu apontar alguma coisa muito negativa no trabalho em dupla, né? Então, eu prefiro ceder, pelo tipo de pessoa que eu sou, meio que deixar a coisa andar, mas aí eu vi que isso está acontecendo em outras parcerias e lá na SEME, 6ª feira, foi perguntado isso: “Como é que está a relação de poder na parceria?” E é realmente dominante. A matéria que é considerada mais importante, ela predomina. E as professoras de Artes, Inglês e Educação Física, a gente está recuando para ceder o espaço. Eu pessoalmente acho português mais importante que Inglês. E eu não vejo espaço para eu desenvolver o meu conteúdo, mas aí não é mais o conteúdo. _ Por que não é mais conteúdo? _ Mas, ah, quando a gente, né, pensa... Moacir está sempre querendo inserir... “Aqui você pode fazer isso.” Só que se eu fizer isso, é isso e pronto. Eles não têm uma seqüência. Então, eu vejo que meu conteúdo é, ele é assim... Curiosidade, é pontual. Eles vão ver uma coisinha que coube ali, naquele momento. Não existe uma seqüência, não tem tempo para isso. Então eles não têm tempo. A gente está falando de coisas mais abrangentes, temas mais... Menos específicos. _ Quem encaminha, direciona os conteúdos mais abrangentes (eixos temáticos das unidades conceituais) durante as aulas? 179 _ Encaminhando a aula nos conteúdos da unidade conceitual? Quando isso acontece, eu posso, eu ou Moacir, a gente já divide bem, mas, às vezes, ele vai dar uma... A aula vai mais para o lado do português, para o exercício de língua portuguesa. Aí eu deixo pra ele. Acho que ele é mais capacitado do que eu. Não só mais capacitado como ele tem a dinâmica, como ele vai, como aquilo acontece. Então eu não me sinto confortável. Então quando ele fala “A gente vai pegar esse texto aqui, a gente faz assim, faz assim.” Meio de improviso. Eu não sei trabalhar de improviso com uma coisa que eu não estou preparada, eu nunca dei aulas de português. Então, improvisar pra mim é difícil. Então, eu deixo. “Se você quer assim, se é assim que vai ser, então você faz.” _ Você não sugere outra coisa, não dá uma idéia, outro encaminhamento? _ Não, porque na maioria das vezes eu acho que a idéia dele é mais legal realmente. Ele, geralmente, o que ele sugere para as aulas... Geralmente é material que ele já usou. Então, ele já fez e ele já testou o resultado, ele já viu o resultado. “Ah, vamos fazer...” Então tá. Quando eu tento dá minha opinião, ela não é aceita. Eu tive um exemplo assim numa ACC, a gente fez um jogo da velha com palavras que apresentava alguma dificuldade ortográfica com os alunos. Eu fiz, eu comecei a fazer e eu joguei com a sala toda. A gente só tinha 5 ou 6 alunos na sala. Então, eu queria que cada um falasse uma letra e à medida que a palavra fosse aparecendo, qualquer um podia falar o que era e a pessoa ia para o quadro. Ele interrompeu e disse “Não, não é assim”, eu disse “Ah Moacir, como nós só temos 5 alunos e a gente envolve....” “Não, não é assim! Tem que jogar com um aluno”. Eu já tinha iniciado o procedimento. Não, eu acho que isso deveria ter sido respeitado... Deixa-a fazer do jeito dela, na próxima... Depois a gente conversa... Não, e aí, eu tentei argumentar umas duas vezes, mas a gente estava na frente do aluno... Aí eu cedi. E era assim, “Vai Renato, mais uma letra, Nãaao. Óh, não deu Renato, mais uma...” E todo mundo esperando Renato. E todo mundo tinha que esperar até ele acertar. Então assim minhas opiniões não são bem vindas, mas então é isso... _ Você falou que não sabe se é bom ou ruim pra o aluno esse modo como se está tentando trabalhar as áreas do conhecimento, de alguma forma algum aluno expressou satisfação ou insatisfação? 180 _ A gente tenta fazer, no final de um período de 15 dias, ao final de um tema ou de um trabalho, uma avaliação com os alunos. Geralmente eles falam que a minha aula e de Moacir é a melhor aula. Vários alunos do conclusivo 2 falaram que vêm pra escola por causa dessas aulas. “Ah, eu só vim hoje porque são vocês que dão as duas últimas aulas.” Então o trabalho tem sido bem recebido pelos alunos. Não tivemos nenhum comentário negativo tipo “Ah, a gente não gosta disso, disso...” A gente não gosta desse tipo de trabalho. Nada sobre a organização dos tempos nem sobre as parcerias. A única pessoa que é negativa é dona Maria Brum, do intermediário. Ela fala assim, o discurso dela é assim: “Não sei se vou continuar vindo. Não estou me adaptando. Eu não gostei dessas mudanças.” Mas ela não sabe pontuar do que ela não está gostando. Ela fala no geral, mas não parou de vir. Ela está aí até hoje. Ela freqüenta muito bem. Então, é isso que eu tenho deles. _ Sobre o processo de ensino, você está acha que tem diferença? _ Nicea, acho que tem, é diferente, tem diferença. Algumas diferenças... a parceria no processo de ensino aprendizagem. Nós estamos nos desprendendo dos conteúdos formais e tentando abraçar outros dentro dessa nova proposta de currículo. Eu não sei se a gente está conseguindo fazer isso. Eu acho que eu e Moacir estamos conseguindo mais do que as outras parcerias por causa da experiência dele. Então, às vezes, Moacir me arrasta me leva e eu estou indo na onda dele. Eu não estou fazendo pior do que estou fazendo agora por causa dele. A contribuição dele é muito valiosa. Pela experiência que ele já teve, ele sabe mais do que a gente. _ E sobre a possibilidade de trocar de parceiro. Você receia não encontrar essa “segurança” em outro parceiro? _ Não. Eu sou resistente por causa do conteúdo. Além de gostar de Moacir, achá-lo engajado, positivo, eu estou preocupada com o conteúdo. Foi como eu disse. A parceria vislumbra um conteúdo. A gente sabe o tema e a gente sabe o que abordar a partir dali e “puxar a sardinha pro nosso lado” à medida que as coisas vão aparecendo... E se eu for trabalhar com Lucas, entendeu? Eu ainda acho que Português e inglês combinam mais do que Inglês e Matemática, Inglês e Geografia, 181 Inglês e... Eu vejo com bons olhos Inglês e Ciências, por exemplo, mas não vejo com bons olhos Inglês e Matemática. Eu acho que Inglês e Matemática funcionariam como “política de empréstimo”. Quando ele precisar, achar alguma coisa em comum, a gente trabalharia junto, mas não desenvolver um trabalho por dois meses, três meses. Mas eu acho que é essa minha visão conteudista. É por que não consigo ver ainda de outra forma. Eu não consigo. É pessoal. Eu vejo Lucas e Andressa sentarem pra planejar e de repente, eles vão trabalhar retas. Eu acho que tem tudo a ver, Matemática, Artes, retas... Entendeu? Mas onde eu (Inglês) entraria com o Lucas (Matemática)? Essa resistência eu ainda tenho. Peço que relate alguma aula que tenha sido interessante ou ilustrativa em consonância com a proposta do currículo em movimento: _ Eu achei a aula sobre Rosa Parks perfeita. A gente abordou o tema da segregação racial e envolveu a pesquisa no laboratório de informática e não foi prejudicial, porque eu percebo que, às vezes, os alunos se inibem quando têm que digitar... Às vezes, Moacir fala assim, “Vocês estão digitando com um dedo só, não pode!” Quer dizer, eu digito com dois... Eu acho assim que você faz o que você pode. Então vários alunos têm aquela resistência, têm medo de ir para o laboratório e ter que digitar. Na aula se Rosa Parks, eles só tiveram que ler. Eu já deixei na página, eles viram que a informação estava disponível pra eles na internet. Então, criei umas perguntas e eu acho assim, envolveu história, envolveu português, pesquisa. Eles se interessaram demais pelo tema. Aí, depois houve um debate, debate não! A gente conversou. Isso porque foi uma exigência minha. Eu falei: “Essa aula eu vou fazer desse jeito” e Moacir disse: “Não, vamos recolher a pesquisa” e eu disse “Não, eu não vou recolher. Eu vou conversar com os alunos.” E a gente passou uma aula conversando. Eu falava, eles perguntavam, eles falavam das cenas que apareciam no texto e eu inseria os fatos históricos, as coisas, o que estava acontecendo, a atualidade. E foi super legal. A gente conversou na aula e o trabalho não foi recolhido. Menos um trabalho recolhido! (a professora, em outra ocasião, queixou-se do fato do seu parceiro recolher um monte de atividades e não corrigir nada porque não dá tempo mesmo e como isso a deixa preocupada na hora de avaliar). _ Algum aluno fez alguma intervenção interessante? 182 _ Não. Não teve nenhuma surpresa, mas eu achei assim... As informações que eles receberam foram surpreendentes pra eles. Eles não acreditaram, eles não sabiam quando eu disse que as questões raciais nos EUA são diferentes das nossas aqui. Porque aqui a gente se mistura e lá eles não se misturam. Quando eu falei com eles sobre um restaurante lá, onde eu almoçava e que existe mesa de brancos e mesas de negros e que nenhum branquinho senta-se na mesa de negros... Que lá isso é muito marcado, os comportamentos deles são diferentes... Eles não sabiam disso. Então a gente conversou sobre a resistência dos brancos em aceitarem os negros e a resistência dos negros em aceitarem os brancos. E durante nossa conversa eles foram tentando transpor a realidade de lá pra nossa aqui. Foi uma aula que me satisfez como professora. Eu direcionei. Eu não estava falando de inglês, sabe? _ Não tinha conteúdo de Inglês. (Não?) _ É eu não estava ensinando gramática, não tinha vocabulário, a língua propriamente dita, mas tinha a cultura. A gente falou da segregação racial de lá e daqui. Eu achei essa aula espetacular. Foi muito legal. Eu vi o projeto ali, naquela aula. Acho que foi uma das poucas aulas em que vi a realização do projeto. Eu perguntei se, então, o projeto era possível? _ É, foi uma tentativa bem sucedida... Eu não sei Nicéa... Porque eu não sei se a gente consegue dar um passo na direção certa... Eu não sei se todos... Eu não sei se a gente consegue concentrar tudo que a gente tem para contemplar de uma maneira tão bem sucedida... _ Será que alguém consegue? _ Não. Eu só acho que a gente está deixando algumas coisas... Aí eu fico pensando nos meus alunos da Faculdade Saberes, se eu fosse relatar sobre as histórias impressionantes que eu vi lá sobre a falta de conhecimento geral, conhecimentos específicos, de português, de qualquer coisa... É impressionante, mas eu não sei se a formação deles se deu só pela forma como eles foram ensinados ou se foram as condições em que eles foram ensinados. 183 Pedi que falasse mais sobre isso: _ As condições não são favoráveis. Você pensa assim, uma de minhas alunas de lá, Rosemar, será que essa mulher quando fez o Ensino Fundamental, o Ensino Médio, ela teve aula? Ela teve bons professores? Que professor foi disponibilizado pra ela lá na Serra onde ela estudou? Eu não sei o que ela teve pra eu falar agora que o conhecimento dela de inglês é pífio. Eu não sei se faria diferença pra ela ter tido conteúdos tradicionais ou ter estudado nas condições da modalidade, se seu conhecimento seria diferente. Eu não acho que o sucesso ou o fracasso do que ela sabe hoje é por causa de como os conteúdos foram passados pra ela. Em que condições ela estudou? Como ela saiu de sua casa? Quanto tempo ficou fora da escola? Todo um conjunto vai formar uma pessoa. Então eu não acho que a modalidade EJA vai ser a salvação desses meninos agora. Eu não consigo ver por esse lado. É um caminho, uma possibilidade, perigosa no meu modo de ver porque a gente está trabalhando uma coisa que a gente não está seguro ainda. Que a gente está tateando, vendo se funciona. E a gente está testando com os meninos. _ Você tem conhecimento sobre o acúmulo histórico e pedagógico da modalidade EJA no contexto da Educação no Brasil? _ Aí eu vou te falar. Eu, professora da EJA, hoje, em 2008, não tenho o menor conhecimento. Então pra mim aí está a primeira falha gravíssima do projeto. Se existe um fundamento teórico que embasa todo esse projeto, que indique o como os professores têm que trabalhar adequadamente com os alunos para que eles se desenvolvam, nós deveríamos ter sido trei... Treinados. Eu me remeti ao documento e lembrei - lhe sobre a proposta da SEME de uma formação na prática... _ É exatamente isso. Estamos testando nos alunos! Depois de ter ouvido Fábia, professora de Inglês, fui instigada a ouvir as professoras das disciplinas de Educação Física e Artes. Eu não queria perder de vista a questão das relações de poder e saber vividas por essas professoras nas relações com as 184 outras disciplinas e nas parcerias. Penso que nesse jogo de poder, as diferenças produzem-se por estratégias e/ou táticas de hierarquização e sujeição do outro, por isso, procurei Rúbia para tentar encontrar algumas pistas a partir de sua fala. Essa entrevista foi a que se seguiu: A primeira impressão com EJA que eu tive foi como estágio no fim do curso e era um formato totalmente diferente. Eu gostei muito dessa aqui, porque na Educação Física a gente, pelo menos tenta, busca algo que vá para além daquela prática específica no ambiente da quadra. E quando existe um documento que fundamenta isso para a escola inteira fica mais fácil pra que eu possa justificar o porquê da diferença na minha (prática) mesmo, não estando mais sozinha. Todas essas novidades vieram a calhar porque eu acredito que vale a pena ser feito na escola e, não acho que só no noturno, acho que isso podia se estender por todo ensino fundamental e médio. Mas ainda percebo dificuldade lá dentro (sala de aula), que eu ainda, falando da interferência/parceria com Ciências, eu vejo que os alunos, eles não enxergam como uma parceria estabelecida. Aí eu tenho que ficar me fazendo presente ali, que seja pra olhar um exercício de ciências pra que, pelo menos, eles percebam que eu sei corrigir aquilo. Porque parece que eu só estou ali prá uma assessoria. Ás vezes, eu me sinto incomodada de ficar ali sem fazer nada. Isso me incomoda bastante. Aí eu busco me fazer presente, pelo menos para olhar, e eu olho com o maior carinho mesmo, pra corrigir e tudo. E eles estão - não sei como se deu o processo aqui no início - com uma visão que a aula de Educação Física (EF) é só a última - Então eu estou ali. Bem, porque eu até interfiro, vou falando junto, buscando falar pra não me sentir tão sufocada ali dentro, porque me incomoda. Mas é que quando você tenta... Até aconteceu um fato com uma aluna, que eu fui dar uma aula de EF dentro da sala de aula e foi um alto questionamento, porque ela... Eu fui encurralando ela ali, no meio da discussão, ela ia falando eu ia questionando, então por que isso? Ela até ficou aborrecida, mas porque eu não acho justo comigo deixar me ver como uma bola lá embaixo (na quadra). Tem alunos que não sabem nem meu nome e isso acontece muito, não só aqui. No ensino fundamental (diurno) isso é muito mais presente, está muito marcante. A visão do profissional de EF como o professor que vai dar o futebol. E isso eu percebi aqui. Tem muitos jovens. Eu imaginada que fosse ter um público um pouco mais adulto. São muitos jovens e eles exigem muito isso de mim. Então, romper, superar essa visão que eles já têm 185 também está difícil. Talvez eles tenham assimilado algo diferente pra me agradar. Aí os motivos, acho que são inúmeros, eu percebo. Mas a princípio, eu acho que a gente lá, eu e a Roberta, talvez no inicial e no intermediário, a gente conseguiu fazer algo que fosse pra além do que está sendo feito, hoje, nos conclusivos e que culminou na Mostra. Eu acho que deu pra eles perceberem que a gente estava fazendo a mesma coisa, mas com as outras turmas, não. As outras turmas, eu vejo que as aulas ainda estão totalmente fragmentadas. É que eles não me enxergam ali como uma parceira, eles acham que eu estou ali só pra depois descer. _ E esse formato de currículo em que cada professor é um especialista, tem os seus conteúdos, tanto está impregnado nos professores como nos alunos... _ Eu percebo essa dificuldade... (nos professores) Porque existe mesmo, né? Não é por tempo de serviço nem nada. Poderia existir isso da minha parte (já que ela é novata, contratada). Mas ainda existe essa dificuldade de estar buscando relacionamento entre as disciplinas, que não são mais disciplinas específicas. Mas existe sim. Eu percebi até na fala dos professores que existe uma dificuldade... “O casamento perfeito.” Eu consegui me enxergar “casada” com todas as outras disciplinas e eu entendo que pra mim é mais fácil. Não que a disciplina ou meu trabalho seja menos importante que o dos outros. Mas eu entendo que pra mim, pelo leque de proposta que a EF me permite, mas ainda existe uma visão de disciplinas, tanto dos professores quanto dos alunos. Mas eu aí faço só uma ressalva, que eu fiquei muito preocupada, mesmo tendo essa visão, eu acho que isso pode dar certo. Acredito, acredito, acredito. Mas quando eu vejo a forma que eles (os alunos) escrevem, eu fico com o pé atrás. Os alunos, a forma das suas escritas... Porque a gente tem uma visão de que é interessante nesse sentido (A proposta), que busca uma formação diferenciada, né? Mas eu fico preocupada também quando eu pego um texto e está escrito na forma... (errada segundo a língua padrão). E o que eu faço então? Os erros que a gente... São erros. É considerado assim porque a gente está numa sociedade que pensa assim e a gente vive nela, já está estabelecido que são erros gramaticais e eu sei que isso vai prejudicá-los mais a frente. Eu estou vendo no ensino superior, acadêmicos com erros grotescos. E os alunos que estão buscando algo mais? E os alunos que vão parar por aqui... 186 _ Você não se sente possibilitada a fazer nenhuma intervenção porque é Português? Eu faço. Mas ainda existe um receio da minha parte de ficar o tempo inteiro com o aluno “Ah isso aqui é isso aqui”. Parece que eu estou, na visão dele, eu estou me intrometendo numa coisa que (não é da minha área). Ou que ele se sinta envergonhado. Porque eu acho que com o adulto fica um pouco mais difícil. Você vai com crianças lá no projeto (ONG em que a professora trabalha no diurno), quando eu desenvolvo alguma atividade, eu vejo, vou, converso, tem alguns alunos que mal sabem escrever. Aí você fica naquela, meu Deus o que eu vou fazer? E o aluno que está aí e que eu nem sabia que mal sabia escrever e eu sempre o via ali, conhecia de conversar comigo, de brincar. _ Você se refere ao Fábio? _ É o Fábio. _ Ele não tem apenas dificuldade, ele não é alfabetizado e está na turma do inicial do segundo segmento. _ E eu falava “Vamos Fábio, faz o exercício” e ele ficava tentando conversar, mas como é que eu ia saber? Eu não tinha nem idéia que ele não era alfabetizado. E eu fiquei até sem graça, eu falei “nossa”, então eu ficava ali forçando pra ele escrever, pra ele fazer e eu nem sabia que ele não sabia ler. _ A proposta do currículo em movimento, conforme traz o documento, tem uma fundamentação teórica interessante, tem uma visão sobre como as pessoas aprendem, de como elas criam, inventam os conhecimentos e traz, também, uma proposta de um currículo produzido no diálogo com o aluno, a partir de uma unidade conceitual. Como é que você vê isso nos planejamentos, por exemplo? No geral, quando é coletivo, e quando você e sua parceira sentam para pensar em um tema da ementa? E aí? O que surge? Como ficam as relações? Como fica essa coisa de quem direciona a aula? _ Nesse segundo trimestre não existiu um planejamento junto, eram essas 187 atividades de Ciências e dá uma coisa, dá outra. E eu ficava com certo receio de romper logo com essas coisas que eu observava e que eu não acredito, que já está estabelecido e ser rejeitada. Tinha isso também. Mas eu não percebia um planejamento dentro da proposta, de acordo com a proposta. A gente... Algumas atividades que foram feitas e que até foram super interessantes, mas eu não conseguia ver a ligação. E, principalmente, por parte do aluno. É uma proposta interessante, mas se eu não via isso sendo entrelaçado ali (na sala de aula) nem pra gente, pro aluno, então, ia ficar mais difícil ainda. Agora, até que no inicial e no intermediário a gente conseguiu buscar o que estava sendo estudado dentro do tema, produziu uma Mostra Cultural envolvendo a questão rítmica e os movimentos. Ainda ficou, foi feito, mas ainda ficou separado. Ainda a gente não discutiu (as duas professoras). Teve a vinda do seu Binho (velho pescador da comunidade). Acho que foi interessante, mas não sei até que ponto eles aproveitaram esse momento. É, a questão da releitura, que foi um diferencial, mas eles reclamaram porque era Arte. _ Mas você ainda viu essa atividade estanque dentro da unidade conceitual, faltando essa ligação que deveria ter sido feita por vocês? E você acredita que isso não aconteceu porque não houve o planejamento que deveria ter havido? _ Sim. Agora, porque eu também puxei lá (no dia do planejamento), na decisão dos eixos temáticos (dentro) da unidade conceitual desse segundo trimestre, sim. Mas, eu não quis bater pé, mas eu puxei pra ficar com (o tema) gênero, mais focada nisso, porque eu percebi uma facilidade no nosso trabalho. Pra gente tentar. Agora eu acredito que a gente vai conseguir caminhar. _ Você percebe que em algum momento há possibilidade de isso fluir? Essa sintonia maior entre vocês duas, digo da parceria, ou você sente ainda que essa dificuldade esteja por conta dessa coisa de disciplina? Essa disciplina é mais dominante, eu tenho que dar esse conteúdo porque é muito importante e ficam Artes, Educação Física e Inglês como se fossem uma segunda classe? _Isso sim, porque a relação pessoal é ótima. Então, a dificuldade está mesmo nessa questão da diferença do meu entendimento do que é uma coisa (o trabalho, o currículo) e do entendimento do outro. Agora, segunda feira, eu percebi que é 188 possível, porque eu gosto (do tema), aí eu fui partir pro que eu domino mais, pra ficar mais fácil também de trabalhar com relações de gênero, de etnia. Aí então, foi a proposta que fiz com relação à gênero. Então eu botei lá (no quadro na sala de aula) um tema pros alunos. Porque tinha um texto sobre leite materno, então eu botei lá (no quadro) “mãe, mulher, trabalho e alimentação”. Aí eles escreveram uma redação usando aquelas palavras ali. Aí partindo daquilo ali, fomos montando um organograma. Então, daquilo (da redação), vamos discutir isso e isso. Aí eu percebi que dentro da unidade conceitual, do que é proposto no eixo temático, a gente conseguiu estar ligando tanto a idéia central quanto a questão específica. Aí fomos pra as alimentações, que a gente já estava trabalhando, mas ainda especificamente (dentro da disciplina Ciências), a gente tentou relacionar a questão principal que é olhar essa ligação que estava faltando. Então, ao mesmo tempo em que existe um trabalho ele está fundamentado, porque (antes) ficava fora. Aí de repente, eu chego pra falar de um conteúdo específico qualquer, “ah, porque o negro e isso e aquilo, aí depois, vem a outra aula e fala da alimentação não sei do quê e isso pra eles não vai ter relação.” Então, eu vou continuar sendo a Rúbia (professora) e eu não preciso perder a minha identidade dentro da sala. Se for pra existir uma relação entre os conteúdos e as disciplinas, principalmente focada nessa questão do eixo temático, e isso ficava perdido, isso me incomodava e agora eu percebo uma possibilidade de ligação. _ Você falou que vocês começaram com uma produção de texto com os alunos. Em algum momento essa produção vai retornar, vai ser levado em conta no planejamento? _ Até foi ontem mesmo, o Jandsom escreveu é “uma família de oito filhos e ponto”. Aí eu falei: “Mas o que é essa história de família que tem oito filhos? O que significa pra você?” Porque ele tinha feito (o texto) pequeno, então, amplia um pouco, vai tentando buscar aí... Então ele falou “Ah, eu não sei.” “Mas quem é, que normalmente, você observa que tem oito filhos?” E ele disse “O pobre né?” E eu disse: “Então, por que isso?” Aí ele foi e tentou desenvolver mais. Como a gente está buscando trabalhar essa questão do trabalho, já tem um texto que eles falaram que a mãe tem que trabalhar pra sustentar os filhos e tal, então, eu já trouxe um texto, que eu pedi para xerocar, que aborda questões de preconceitos de gênero e 189 raciais com relação às mulheres no mercado de trabalho e, daí, o que eles forem transmitindo por meio da redação, buscado nas falas deles, vamos aproveitar pra está lançando isso, está propondo isso e tentar uma ligação. E o que estava acontecendo é que a gente ficava lançando um monte de informação e a gente mesmo não estimulava ou não fazia, não levava o aluno a perceber que existe uma ligação em tudo. Então fica difícil. Porque existe uma dificuldade muito grande, que eu percebi, dos alunos, até os mais novos, compreenderem, e estabelecerem relação de uma coisa com outra. A EF com o trabalho (por exemplo). Eu sei que tem um histórico que a EF, depois da revolução industrial, veio pra fortalecer o trabalhador pra ele durar mais, mas pra os alunos isso fica difícil. Então, se eu falo que posso trabalhar na sala outra temática, que eu posso trabalhar com geografia e história, parece que é bobeira. “Não, a gente tem que ir lá embaixo jogar bola, porque a gente quer brincar.” Eu ouvi isso e eu tenho que respeitar, mas eu também não posso me acomodar e não dar elementos pra que ela (a aluna) me veja de outra forma, me veja... Se não vou cair na mesma de sempre. _ Você já colocou que acredita na proposta, assim, pra quem chegou depois, o que você sentiu? Dos alunos, dos professores? Quando você chegou, o que você sentiu do grupo, da proposta? O que você percebeu? O que te chamou a atenção entre os professores, entre os professores e os alunos, na relação com a parceria, entre as outras parcerias? Que impressões você teve? _ A princípio, quando fui entendendo, ouvindo falar da proposta, eu percebi bastante resistência de alguns professores. Na forma de dar aula, né? No estilo tradicional e essa... Existe também essa coisa de puxar a sardinha pra sua disciplina, existe isso e na fala dos professores. _ Você poderia ilustrar? _ São as ações, olha só. É como se entra na sala. Às vezes, é coisa que eu observo. Se for a primeira aula, então é a mesa. Só tem uma mesa. Então é a aula é de (se referindo às disciplinas dominantes). Então isso não acontece só comigo não. Então são coisas que nem as pessoas percebem. 190 _ Vamos ser claros. São sempre os mesmos professores que se sentam à mesa do professor. Que incorporam o papel e tomam o lugar? _ É eu já nem faço questão também. Mas é como acontece. Ah, quando falam... “Nós estamos trabalhando com isso.” A pessoa se pronuncia e é como se um conteúdo muito específico, da área específica, estivesse sendo dado pelo outro professor também, dizendo que a parceria está envolvida. Então, que na verdade não está, existe sim, nós estamos lá dentro, mas ainda não... Mas, eu me coloco, “Ah, hoje eu trouxe isso aqui...” Eu acho que ainda está muito específico, mas eu não sei, cheguei agora, eu sou contratada, eu não sei colocar. Tem professor específico, que eu percebo que eu conseguiria manter um diálogo. Com outro professor já nem tanto... _ Você acha que o grupo não dá essa abertura como coletivo? _ Eu acho. Ah, eu vou falar. Porque na própria parceria de português e Inglês, que ele (Moacir) é uma pessoa que é muito envolvido, ela (Fábia) fica com receio. Se for tão envolvido como não percebe essa relação? Eu acho que, enquanto professora, que estou aqui, eu acho que eu deveria me posicionar. Só que eu não fico à vontade. É, apesar de que a gente, eu e Fábia, temos uma forma diferente de conceber o trabalho, eu quis falar, mas eu fiquei “Não, não vou falar não porque essa história de casamento...” (A inicial arrumação das parcerias por disciplinas afins: Inglês com Português, Matemática com Artes, História com Geografia e Ciências com Educação Física). _ Não é por que é esse o seu jeito? _ Não, porque lá no meu outro trabalho, onde eu estou há três anos, eu falo. Mas, lá, eu me sinto mais pertencente àquele ambiente e tal. Eu já me sinto parte integrante dali. _ Mas fala sobre os casamentos perfeitos... _ É eu sempre escuto isso ali dentro (na sala dos professores). Eu acho totalmente 191 equivocado. É o que colocam lá é o casamento perfeito. Então fica alí... A minha necessidade não é a saúde só. Há toda uma questão cultural, sócio-histórica envolvida que eu posso está trabalhando normalmente, eu acho que até prefiro, prefiro trabalhar nessa perspectiva. Não é abolir a saúde. A saúde é muito mais ampla até que a atividade física específica, mas eu fico, eu fico na retranca. _ Eu já notei que você é uma pessoa muito observadora. Você fala pouco e observa muito, então por isso, eu estou te provocando. A proposta desse trabalho (com a modalidade EJA) de certa forma, ela fala de uma coisa muito recorrente, hoje, entre nós professores, que é a tal da diversidade. Essa palavra te remete a quê nesse contexto? _ A diversidade? Não sei se eu entendi exatamente o que você queria falar, mas o que vem na minha cabeça pra eu te falar é que se propõe a diversidade para discutir, mas ao mesmo tempo nos enquadramos enquanto iguais. Cada um na sua, equivalente ao seu saber. Então a diversidade parece que só está proposta para os alunos, para os conhecimentos. Então, não quer dizer que um monte de informação é uma forma de contemplar a diversidade. Se isso não vai fazer ligação com os alunos. No meu entendimento não vai dar contribuição nesse sentido. É, até fica difícil, às vezes, trabalhar nas turmas pela “diversidade” existente, mas eu não posso te falar pelos outros, mas eu acho que na nossa (parceria)... No nosso entrosamento, eu acho que não existe ainda esse respeito à essa diversidade. Por vezes, parece que a gente está numa escola onde é o ensino fundamental (regular) e tem a turma de 1ª série... E vai se fazer isso, aí depois vai se fazer isso e vai fazer isso. _ O que você acha que está faltando? _ É a coisa que eu acho que vai contribuir bastante é a gente conseguir superar essas paixões aí que vem se falando. Que cada um quer impor sobre o outro. Eu acho que não tenho problema nenhum em me relacionar com Matemática, Geografia. Eu até admito que pra todo mundo vá falar “pra você é mais fácil, organiza um torneio!” Mas eu acho que é romper, superar isso, por parte dos professores, acho que é o principal. Até nos que parecem que já terem superado 192 isso, eu acho que ainda falta algo a ser percebido por nós mesmo. Parece-me uma diversidade só lançada para o outro (aluno), mas na minha relação com o parceiro, então, isso não é discutido. Parte daqui primeiro ( dos professores) pra depois... Partindo do que a gente observa no trato com os alunos, algumas questões que... Tem uma senhora que pode não fazer uma coisa, que parece não está certo, mas eu não acho que (pode-se falar à ela) “Ah, isso não está bom!” (A professora faz um gesto de quem olha e devolve o trabalho do aluno com desdém). São coisas que a gente tem que estar atento. São pessoas, assim, com características diferentes, com necessidades totalmente diferentes. É, então, eu tento, eu falho sim, lógico que eu falho, mas eu tento tomar muito cuidado de como eu estabeleço esse diálogo com esses alunos tão diferentes aqui dentro. _ Eu vejo que isso é meio frágil. _ É então não se pode tratar todo mundo como criança nem tratar todo mundo enquanto adulto. A fala da Ana Cláudia... Ela falou, quando fui falar do texto sobre ginástica laboral, o trabalho e tudo né? Ela foi me questionando e eu à ela mais ainda... “Mas eu estou conversando com vocês enquanto adultos...” e ela: “Ah, então enquanto adulto eu não tenho direito de fazer EF?” Aí eu falei: “Adulto tem direito, tinha desde quando era criança e é mais um motivo para eu está discutindo com você o por quê isso te foi negado, por que isso foi negado pra muita gente. Mas eu aposto que você vai falar que tem direito sim. Todo mundo tem direito. Está na constituição é direito de todos. Mas mais importante do que o seu direito de ir lá (na quadra) fazer, é saber por que você precisa fazer? Porque você tem esse direito? Porque se for pra eu somente te dar a bola pra você dizer ah, meu direito está sendo garantido... Tá, mas e o seu entendimento pra você reivindicar isso? Até pra você vir aqui e reivindicar pra mim. Aí você vai ter embasamento, vai entender por quê? Eu quero que você entenda. Eu quero que você venha aqui e brigue comigo, mas que você entenda por que você precisa disso. Agora, só pra dizer que é lazer, não. Porque lazer não precisa ser orientado, não precisa nem de mim.” Aí, foi mais ou menos esse diálogo que a gente teve. Eu falei um tempão lá. Ah, aí depois eu ouvi alguns (alunos) questionarem sobre a parceria. Dizer que não está dando certo. Alguns não enxergam e dizem que algumas parcerias não estão dando certo. Porque eu entendi dessa forma? “Não está dando certo porque a professora 193 deEducação Física está achando que pode dar aula de História, porque Ciências acha que pode dar aula de Artes...” Porque na cabeça deles isso não está muito claro. Eu já ouvi outros comentários tipo: “Ah, quando a professora de Artes está aí, quase não tem aula de Matemática, tem que dá mais ou A aula de História é uma coisa, esse negócio de livro (o professor tem usado muito o livro)...” “A gente quer mais aula de Geografia” Eles reivindicaram mais aula de geografia... Mas, não é por aí. Se eles estivessem compreendendo e se nós estivéssemos dando conta de manifestar de outra forma, talvez eles compreendessem. Por isso é que eu acho que a mudança tem que... Não só no diálogo, mas deve ser em nós primeiro. Fica muito difícil... _ Mas, você vê alguma expectativa boa? _ Vejo, vejo expectativa boa. Vejo até uma boa vontade no sentido de está buscando. Eles comunicaram, lá embaixo (no pátio), naquele dia da Mostra Cultural. Eu vi algo que eu acho que pode avançar naquele sentido... Existiu sim. Estava todo mundo fazendo “arte” alí, né? Mas, então, a Artes é só da Andressa? Não, é de todo mundo. _ O conhecimento também não tem dono, não é? _ Não tem. Que poder é esse que eu tenho? Só eu tenho o poder da bola? Essa foi uma entrevista que me deixou muito satisfeita. Ao ler e reler as palavras da professora Rúbia aprendi que para entender as diferenças e o contexto em que se produzem, é preciso ir além do reconhecimento e do acolhimento de uma multiplicidade de sujeitos e de práticas. É preciso prestar atenção nos modos como identidades e diferenças vão sendo constituídas e posicionadas na nossa cultura. Sua narrativa me remeteu à necessidade de considerarmos o outro em sua diferença e não na sua diversidade. É preciso buscar, continuar buscando, como faz Rúbia, novas relações, espacialidades, temporalidades e imagens com o outro. E nesse sentido, a Mostra de trabalhos ao final do primeiro trimestre e a Prova trimestral pode ser confirmada como ilustração desses processos. Os professores se referem a esses eventos como um diferencial no percurso que estão realizando, 194 como expressão de suas tentativas de colocarem em prática o “currículo em movimento”. As falas iam me dizendo palavras que apontavam para a tensão entre os elementos culturais tanto da proposta quanto das convicções e possibilidades de ação dos professores em permanente processo de negociações (BHABHA, 1998) na rede de saberesfazerespoderes presente no movimento cotidiano dos professores, ainda que eles não se dessem conta disso. Aguardei pelo dia da semana em que a professora de Artes trabalha na escola e pedi (11/junho/08), que ela me desse uma entrevista. Andressa se mostrou muito disponível em está se colocando frente às questões que lhe apresentei: _ Bom, eu comecei ano passado, em junho, e ainda era Ensino Fundamental Regular e eu tive oportunidade de conhecer o grupo, de conhecer os alunos e de conhecer a proposta da escola. E, esses mesmos profissionais que estou convivendo hoje, eu convivi no ensino regular. Quando iniciei esse ano, eu já tinha essa indicação que seria com a modalidade EJA, então, eu vim consciente que seria a modalidade e que essa proposta tinha sido construída pela Secretaria de Educação e pelos Seminários que os professores participaram no ano anterior. E quando eu cheguei, assim, eu achei desafiador até porque o ensino noturno, pra mim, na PMV, é um desafio, uma coisa nova. Eu já tinha trabalhado ano passado, esse ano começou, fiquei meio insegura, até quando falaram que eu ia trabalhar com Lucas, com matemática. Eu tenho uma afinidade de amizade com Lucas e sei das afinidades entre as disciplinas, mas fiquei insegura por essa construção do imaginário, da cultura da matemática na sociedade brasileira e pelos alunos também e da importância que eles dão à matemática e das dificuldades que eles têm. Entendi a proposta, inicialmente, como uma proposta (currículo) que ia partir de alguma coisa, que eram as unidades conceituais e que essa unidade seria desenvolvida a critério dos professores ou parcerias. Achei legal essa liberdade, achei legal ter uma orientação, mas com liberdade de trabalhar. Fiquei com as interrogações dos conteúdos, dessa questão de deixar alguns conteúdos ou privilegiar os conteúdos que os alunos sugerissem. Fiquei com uma interrogação sobre isso, que foi respondida à medida que eu fui trabalhando com os alunos. Porque realmente eles expõem, expõe e eu menosprezei, na verdade, essa capacidade que o aluno tem de determinar o que ele quer aprender. E como eu 195 estava com o professor de matemática, eu senti que foi fácil porque eles conseguiram expor: “Professor eu tenho dificuldade nisso, tenho dificuldade nesse, nesse conteúdo.” Eles explicam do jeito deles e o professor entende, porque é um professor experiente e aí nós começamos a trabalhar as questões das dificuldades deles em Matemática, mas aí tentamos contextualizar na proposta inicial, que foi a prova sugerida pela SEME de avaliação, dentro daquela questão em que a gente trabalhou a Monalisa. A obra de Arte, a Monalisa é uma das obras mais conhecidas do mundo e aí trabalhamos uma questão de matemática que foi a porcentagem. Daí, eu acho que foi o ponta pé inicial dessa pesquisa, dessa possibilidade de trabalhar Artes e Matemática. E não só geometria, porque até então enquanto eu conversava com o Lucas no ano anterior sobre trabalhar junto, em dupla só surgia alguma coisa relacionada com geometria, geometria e aí a gente viu que não só geometria havia para trabalhar, mas outras questões também. E saindo um pouco dos conteúdos da Artes e da Matemática nós conseguimos trabalhar algumas questões do cotidiano que foram questões relacionadas à urbanização, à tecnologia na questão de medidas de espaço, espaço mínimo, por exemplo, o espaço da folha de caderno, o espaço da sala, de um terreno, de uma fazenda, uma estrada. Então, eles tiveram esse conhecimento a partir também do que eles já sabiam. Eles falavam sobre as experiências deles no trabalho, uns trabalham de pedreiro, como cada um usa a medida na vida deles aí nós trabalhamos uma discussão de urbanização que foi o texto da ocupação urbana, aí falamos que não existe só o MST, os sem terra, mas também os sem teto. Já que nós vivemos numa área urbana, às vezes, nós não damos muita importância, mas existem pessoas que não têm onde morar e se apropriam de terrenos urbanos. Aí um aluno até questionou que aqui em Vitória tem pouco lugar vago, tem pouca vaga para ocupação urbana e puxou outro assunto que é a questão de até onde vai a região metropolitana, até onde vai Vitória, onde começa a Serra e os alunos interferiram nisso. Tivemos outras atividades também relacionadas com Artes e Matemática, mas tivemos um momento assim, que eu deixei com que Lucas trabalhasse as questões que os alunos tinham dificuldades, as questões de Matemática. _ O que há de diferente nessa proposta? _ O que tem de diferente é que é uma nova abordagem dos cont... Dos 196 conhecimentos científicos. É uma nova organização (do conhecimento dentro das disciplinas). Porque até então os professores estavam trabalhando o livro didático, trabalhando essa coisa mais sistematizada, ou organizada com apostilas ou projetos e, agora, é como se o conhecimento fosse construído mesmo. O professor lança uma proposta e os alunos interferem o tempo inteiro. Eu estou percebendo aqui que os alunos estão interferindo à vontade. Eles estão se sentido à vontade até porque não é só um professor ou só uma dupla que está trabalhando. São todas as duplas trabalhando o mesmo propósito. Eu estou vendo de maneira positiva, acho que ainda estamos em processo de adaptação. Estamos há cinco meses com esse trabalho novo, porque é muito novo pra todo mundo e eu acho que dentro das expectativas, foi além, além das minhas expectativas. Eu percebi não só no meu trabalho, mas no trabalho dos meus colegas também. _ Há aspectos impeditivos para a realização da proposta? _ Acho que sim, mais tempo pra planejar e organizar as ações, mais tempo pra trocar idéias, mais formação. Uma formação específica, uma formação, que além dessa troca de experiência e propostas de recursos – é, porque até agora as formações da SEME foram só nesse sentido de propor recursos para ser usado em sala de aula - devia ser uma formação mais direcionada para a proposta de EJA, pra modalidade, desses desafios que a EJA tem “tipo” lidar com esse aluno que é um aluno trabalhador, que é um aluno que vem de uma realidade diferente do diurno, uma formação que realmente desse condições ao professor de pensar, refletir sobre a modalidade. Mas eu acho também que a SEME está amadurecendo isso, entendeu como? Não é porque eles não... Eles têm até a intenção, mas eles não estão conseguindo, ainda. Eu acho que eles não encontraram ainda o que fazer nessas formações. _ Você considera as experiências que estão vivendo como formação? _ Acho que sim, porque eu costumo dizer assim, eu até coloquei essa frase no meu trabalho do curso que estou fazendo na UFES, “Eu aprendo enquanto eu ensino”. Eu aprendo muito e, às vezes, eu tenho uma proposta e a interferência do aluno faz com que minha proposta mude totalmente. É assim, às vezes, eu me pego assim 197 “Nossa como sou ingênua”. Igual uma atividade que eu passei pros alunos e, meio que defini, defini o que eles iam trabalhar. Foi a questão do espaço nos vitrais. Aí os alunos queriam desenhar coisas bonitas: borboletas, coisas da natureza, árvore e aí um aluno falou: “Eu quero desenhar um pimentão.” Eu acho que já te contei isso. Todo mundo riu, a turma inteira riu, um pimentão não tem nada a ver, de onde você tirou isso? Aí, depois, fui saber conversando com o aluno que ele já trabalhou numa plantação de pimentão e ele não queria pintar o pimentão colorido. Ele queria trabalhar o pimentão na cor verde. Aí eu falei “Mas a gente está trabalhando o vitral e isso aí não é um pimentão, é uma representação do pimentão. Aí você vai trabalhar dividindo as formas e pintando da cor que você quiser.” Mas ele falou “Eu quero trabalhar isso” e aí contou a história de que o trabalho dele, por muito tempo, foi numa plantação de pimentão e isso fazia sentido pra ele. Então, os alunos ficam o tempo inteiro buscando sentido pras atividades que nós propomos. Pra gente é muito claro o nosso objetivo. Pra mim é muito claro e, assim, muito pretensioso mesmo. Eu passo uma atividade, eu tenho o meu objetivo e o aluno, assim, não faz sentido aquilo pra eles. Isso a gente percebe muito com as crianças, mas com os adultos... Eles fazem a interferência na hora, entendeu? As crianças, elas, é não se deixando levar por nossa autoridade no conteúdo, mas eu acho que, tinha um termo que foi muito usado ano passado, que é protagonizando, o aluno protagonizando o conhecimento, a aprendizagem e, eu acho que a modalidade tem esse perfil do aluno como protagonista. Porque o professor está muito preocupado com o que o aluno está pensando. Agora, na modalidade, eu percebo isso. Até na postura em sala de aula. Eu percebo isso: os professores estão preocupados com isso. Tanto com o que eles estão falando pros alunos quanto à postura na sala de aula, se os alunos estão entendendo... _ Preocupados como? Com o quê? _ Preocupados se eles (os alunos) estão entendendo, se eles estão gostando, se eles estão se identificando com aquilo. _ E aos alunos dão essa resposta? _ Dão, eles falam. 198 _ Estão gostando? Está sendo positivo? _ Está positivo. É claro que, às vezes, do mesmo modo que a gente faz uma intervenção com o aluno que não é ideal, eles também usam alguma interferência, que também não é ideal, fazendo crítica a outro professor na nossa aula. Aí, a gente no PL dá um toque, “Oh, os alunos estão falando disso.” Aí a gente percebe que depois eles não falam mais sobre aquilo e as coisas melhoram nessa relação dos alunos com os professores. _ Quais conhecimentos você acha que sejam importantes para o aluno? _ É eu ainda tenho meio que o pé atrás com as questões dos conteúdos essenciais, é... Formais. Essenciais na cultura conteúdista e que são cobrados em concurso. Primeira coisa, ele tem que se reconhecer como parte integrante desse mundo dinâmico e os conhecimentos são o seguinte: se expressar de forma mais crítica, ter opiniões mais...descobrir que eles é que decidem certas coisas na sociedade, até por que eles são adultos e já estão atuando na sociedade fazendo as interferências deles, assim, votando, criando os filhos, formando família, então, ele tem que ter esse conhecimento crítico, dos direitos, da cidadania, essa coisa do conseguir buscar quando precisar a informação, de saber buscar uma informação, por exemplo, está precisando conhecer sobre uma lei,saber onde buscar, conseguir se expressar, falar bem, escrever bem, escrever melhor, porque eles já estão escrevendo, interferir mais, interferir de forma mais comprometida com a vida e isso, também, acho que a escola forma. E eu acho que a modalidade está pensando por aí, uma formação global. _ Você tem essa preocupação de ter que preparar o aluno para o futuro? O ensino médio? _ De vez em quando, eu tenho, não quer dizer que eu estou relex com isso, não. A minha formação em Artes é meio subjetiva. Eu trabalho a questão da percepção de mundo, o conhecimento de cultura, concepções de cultura, o acesso à cultura, porque uma parte da sociedade tem acesso outra não, eu digo sempre que eles têm direito à cultura, direito de participar. 199 _ Peço que esclareça seu entendimento sobre cultura. Você acha que existe essa separação entre o erudito e o popular? _ Não, eu estou falando é da cultura, essa cultura elitista mesmo, de cinema, teatro. O que estou falando sobre a cultura popular e erudita é que tem a cultura popular, que é de acesso de todos e tem a cultura erudita mesmo, essa cultura de galeria, museu, biblioteca. Tem hora que eu estou segura sobre os conhecimentos, tem hora que não, que dá aquela insegurança, fica a impressão que vamos ficar devendo. Tipo assim, “Meu Deus o que eu estou fazendo aqui? Que diferença eu estou fazendo na vida dele? Para construção de espaço da realidade da vida dele?” A gente se pega pensando assim, que diferença eu vou fazer explicando, por exemplo, assim, como quando eu estava explicando vitral pro aluno, trabalhando geometria em Matemática e vitral em Artes, até que ponto isso vai fazer diferença na vida dele? Aí surge um aluno que faz uma interferência e fala “Olha, eu vou desenhar um pimentão porque é parte da minha cultura, faz parte da minha experiência de vida.” E aí ele me dá um feedback. E eu entendendo que eu posso trabalhar, então, partindo do que ele sabe e é essa proposta que eu entendo da EJA. Porque eu não perguntei primeiro qual é a forma que faz mais sentido pra vida deles. Podia ser, sei lá, alguém religiosa poderia falar algo da religião, porque o vitral é uma expressão religiosa. Mas poderiam surgir milhões de outras idéias, mas eu, não, eu partir da questão da religião mesmo que é tradição do vitral. E aí a turma reagiu assim, respeitando, porque primeiro eles riram, mas depois, eles entenderam porque o colega explicou. Chocou! Porque todo muito estava dizendo coisas, coisas bonitas, eu até achei que ele estava brincando, mas aí ele contou a história de ter trabalhado na plantação de pimentão. Aí eu falei “Está vendo como eles buscam sentido nas coisas.” A gente percebe isso nas crianças, como eu falei, mas os adultos, eles procuram representar, olhar, copiar, fazer bonito, igual está no livro, a crítica deles é maior. E aí, sobre outra coisa do compromisso com os conteúdos, eu acho que se a sociedade continuar cobrando... Acho que tem que mudar. Não sei se tem que mudar de fora pra dentro ou de dentro pra fora, da escola pra fora ou da sociedade pra escola... Mas eu acho que aqui é lugar de mudança mesmo. Então, se a partir do momento: “Oh agora a gente não está formando pessoas pra esse tipo de prova.” Por que não? Porque a gente tem que preparar igual ao pré- vestibular, pré- técnico. Por que a gente tem que preparar o aluno pro que eles querem cobrar do aluno? Por 200 que eles não podem perguntar: “Olha, o que vocês estão trabalhando aí na escola que nós vamos cobrar isso dessa nova formação de pessoas.” Você não acha que poderia ser assim um dia? Uma Escola Técnica, uma UFES, possa perguntar como a escola pública está trabalhando a questão dos conteúdos ou não, não está trabalhando conteúdos está trabalhando as unidades conceituais por que não pode partir de (?)... Uma base pode ser uma pesquisa assim como a sua, assim, por exemplo, a pessoa pode pesquisar essa inversão, entendeu? Da escola apresentando... Chamou-me atenção a situação relatada pela professora Andressa, no que diz respeito à atitude do aluno em dizer sobre o que para ele era “coisa bonita” em um vitral, porque quis desenhar um pimentão e pintá-lo de verde para compor seu vitral, independente da estratégia metodológica da professora no sentido de sugerir que os desenhos fossem de “coisas bonitas” (borboletas, flores etc.) de acordo com um padrão universal do que seja um desenho bonito para um vitral. Esse acontecimento ilustra, a meu ver, a presença de manifestações culturais híbridas, de “entrelugares”, interstícios no processo de ensinoaprendizagem que possibilitam os saberes escolarizados legitimados por um padrão cultural dominante entrar em contato, em confronto com o padrão cultural particular, localizado nos meandros da vida cotidiana dos sujeitos. Essas manifestações híbridas aparecem ou se expressam na atitude do aluno, à medida que evoca sua história de vida, traduz ou significa seus saberes sobre o vitral por meio da plantação de pimentão. Segundo Andressa, essa atitude do aluno causou nela e na turma um estranhamento. Ao obter do aluno uma atitude inesperada em relação à sua proposta, a professora se desloca do signo “coisas bonitas” que ela e a turma estavam atribuindo aos desenhos. Ela somente passa a compreender o significado dado pelo aluno ao desenho do pimentão no vitral, quando entra em relação com a história de vida desse aluno, que por um tempo de sua vida, trabalhou numa roça de pimentão. Podemos inferir que as redes de saberesfazerespoderes estão atravessadas por vários padrões culturais que coexistem sem uma hierarquia suposta ou imposta (BHABHA, 1998). Para Bhabha, estamos envolvidos num contínuo trânsito em que se cruzam várias culturas gerando ambivalências, espaços fronteiriços, num contínuo ir e vir. O algo novo que estranha ou realiza estranhamento nos distancia do familiar, nos desnorteia e nos exige novas significações (p.19-42). Havia um 201 desacordo, um dissenso nas concepções de desenhos bonitos ou apropriados para um vitral, porém não havia hierarquias supostas ou impostas entre o padrão cultural dominante do saber escolar e o padrão cultural particular do saber cotidiano, na medida que esse dissenso não foi negado pela professora e pelos outros alunos apesar do estranhamento – fazendo emergir outras significações para além de um padrão cultural de um (professora e outros alunos) ou do outro (o aluno em questão). Com essa situação percebo o conhecimento na sua complexidade, sendo tramado pelo aluno, pela professora e pela turma. Essa entrevista de Andressa foi mais um momento de aprendizado para mim! Continuei a criar oportunidades, dentro das nossas atividades, para ouvir os outros professores e desta vez (dia 16/junho/08) ouvi Lúcio e, sobre as questões que lhe apresentei, disse: _ Uma coisa que muito me chamou atenção, quando foi implantada essa proposta de ensino de jovens e adultos, foi a proposta de trabalhar junto com a parceria, com outro professor, e também como um desafio da gente não ter um currículo pré estabelecido. Porque até então, a gente só estava acostumado a trabalhar com um currículo fixo. E com essa proposta, a gente ficou um pouco inseguro, ansioso, mas, ao mesmo tempo, na medida em que a gente foi trabalhando em sala de aula, a gente, foi vendo o quanto é rica essa proposta. Quanto foi rica essa proposta. Primeiro, porque a gente pensa que os alunos não vão sugerir uma ação, um currículo. E na verdade, o que a gente viu, na medida em que a gente propôs o tema, é que os próprios alunos foram dando pistas do que eles estavam a fim de estudar. Então, em consonância com o professor parceiro, a gente foi elaborando, fazendo esses planejamentos, planejamento nas 6ª feiras com o objetivo de chegar ao início da semana e colocar em prática esse planejamento. E foi muito gratificante essa experiência no 1º trimestre, até esse momento também, porque os alunos, a gente percebe que eles estão bastante motivados com essa nova proposta. Inclusive a proposta de, o modo como a gente está avaliando o desenvolvimento dos trabalhos que eles (os alunos) fazem. Nós fizemos, elaboramos uma prova conjunta com outras áreas. Professor de história e geografia com professores de outras áreas. Foi muito bem aceita também pelos alunos. Eu achei supercurioso trabalhar de modo interdisciplinar dentro duma escola, porque eu já tive essa experiência de 202 trabalho interdisciplinar fora da escola, com uma equipe de educadores ambientais e também a gente percebe que outros setores como a saúde, que trabalha com uma equipe multidisciplinar e, a escola, não. Na escola tem um trabalho engessado, um trabalho, até então, não é? Um trabalho seriado, de modo que fica difícil trabalhar interdisciplinarmente. Com essa proposta da EJA, a gente percebeu que isso não é impossível, basta querer fazer. _ Existem aspectos impeditivos pra que lá, na sala de aula, você possa desenvolver um trabalho nessa perspectiva interdisciplinar? O que você acha que atrapalha? _ Pelo que a gente tem visto até agora nessa proposta com a modalidade EJA, é, aspectos impeditivos eu não consigo vislumbrar. Mesmo que a gente esteja trabalhando história e geografia não impede que a gente também desenvolva outros conteúdos de outras áreas. Inclusive nós sofremos desafios. Os próprios alunos nos questionam sobre questões relacionadas a linguagem, a cálculos matemáticos e a gente tem procurado atender a essa nova demanda que aparece. _ Em sua opinião, como está sendo essa recepção dos alunos? _ É eles mesmos ficam bastante curiosos. “Ué professor nós estamos estudando essa matéria também? Mas aqui não é História e Geografia, tem Português também?” Já pegamos esse comentário em sala de aula também. Eu creio que eles vêem com certa é, como um aspecto positivo, porque eles não se sentem só e desamparados. Nesse aspecto “Ah, vou esperar pra procurar outra pessoa pra perguntar.” Eles já vão direto. _ Nenhum aluno se colocou contra essas mudanças na organização dos tempos, por exemplo, esse horário ACC, OCT, aula de 2ª a 5ª? _ É a gente percebeu, no início, que alguns prof... Alguns alunos mais notadamente os mais idosos, a gente percebeu certo desestímulo: “Ah, isso não vai dar certo e nós dissemos: Não pessoal, que história é essa? Nós vamos ficar pra ver.” A gente estimulou também esses alunos a também permanecerem e apostarem na modalidade. 203 _ Aqui na escola como é que você vê a relação dos professores entre si, dos professores com os alunos, nas parcerias, na escola com um todo? O que você acha que foi diferente ou que teve mudança? _ Eu sinto um clima de bastante união, principalmente com os planejamentos nas 6ª feiras onde há uma troca de informação, até de opinião entre os profissionais, todos os envolvidos. _ Todo mundo está satisfeito? Ninguém reclama de nada? _ A princípio, não. Eu não percebo isso não. _ E sobre as formações? _ Ah, sim no aspecto da formação fora da escola, é que ainda há muita resistência por parte dos professores de se deslocarem pra SEME, dada a grande demanda que essa modalidade exige com relação ao tempo pra se planejar. Então, os profissionais ainda vêem com certa resistência deixar o trabalho dentro da escola pra ir pra SEME participar, por exemplo, de uma capacitação que de repente não vai acrescentar muito ao cotidiano. _ Você acha que nesses horários de planejamento porque a proposta tem sido assim: uma parte a gente faz uma pequena reunião, conversa alguma coisa, lê alguma coisa, troca um relatório. Não tem sido assim com muita freqüência devida a ansiedade de vocês estarem sentando em parceria e planejando, você acha que isso se configura uma formação? _ De certa forma sim, agora, tem época que a gente fica realmente ansiosa dada a grande demanda. Mas essas formações iniciais que você se refere, OCT, né? São de grande importância também para o grupo e não pode deixar de ser feito. _ E quanto aos alunos? a gente percebe em alguns professores uma preocupação muito grande com relação a não existir mais aquela listagem de conteúdos formal e tradicional? 204 _ Não, eu vejo que os alunos nossos aqui aceitam, estão aceitando essa nova modalidade. Participam da aula, não estou querendo dizer com isso que eles tratam com desdém, que estão aqui só para cumprir o horário, não, eles participam das atividades normalmente. _ Que conhecimentos, você acha que os alunos aqui, do ensino fundamental precisam estar, criando, inventando para a vida deles. Isso eu não estou falando pra você listar esses conteúdos na sua disciplina. Que conhecimentos você, como pessoa, professor com sua vivência considera que sejam necessários? _ Independente da modalidade, qualquer aluno do ensino fundamental tem que saber ler, tem que saber redigir um texto, tem que saber fazer os cálculos matemáticos básicos. Eu vejo isso, eu vejo que qualquer cidadão que se propõe a estudar, ele tem que ter um pouco de visão geral da sociedade, entendeu? O que se passa no entorno dele em termos de ação de governo ou até no mundo e entender os problemas que o mundo está passando, sobretudo com relação a questão ambiental. Tem que ser uma pessoa antenada. Eu acho que tem que ser. Eu acho que essa modalidade EJA, ela contribui muito pra esse aspecto da formação crítica do aluno, ta? Mais até que aquele ensino tradicional seriado, apesar dos professores do Ensino Fundamental Regular também se empenhem nisso, né? Em estarem propondo o ensino crítico também. _ Mas qual é a diferença que você observa? _ A modalidade pra mim, ela nos deixa mais livre, ela é uma proposta menos engessada, menos presa em ter que cumprir ou oferecer aqueles conteúdos tradicionais. (Que conteúdos estão emergindo que você acha que está favorecendo essa compreensão de mundo?) É o conteúdo de uma formação interdisciplinar, uma formação global. Essa modalidade EJA possibilita essas questões do próprio aluno trazer essas informações do cotidiano da vida dele, de conhecimentos que ele já tenha adquirido ao longo do tempo e isso é transformado em conteúdo, o professor tem que ter essa sensibilidade, tem que captar e transformar em conhecimento. O professor Lúcio foi bastante sucinto. Mas, como outros, fez referência à prova do 205 2º trimestre como um diferencial vivido pelos professores individualmente e coletivamente nesse processo de implantação da proposta. No dia 20/junho/o8, entrevistei o professor Lucas: _ Professor de matemática. O que eu falo sobre a EJA, a seguinte situação: Nós vimos trabalhando no Ensino Fundamental Regular há muito tempo e a EJA vem sendo implantada, se eu não me engano, desde 2006, ou 2005, mas não vinha sendo efetivado dentro das escolas. Nós vínhamos estudando, tendo palestras, seminários e ficamos absorvendo aquele negócio, isso de trabalhar EJA. Vínhamos nos perguntando “Será que isso acontece mesmo? Será que não acontece?” E esse ano foi colocado pra gente trabalhar. Mas é que foi colocado de certa maneira, que nós professores, no momento em que foi colocado por eles, pela SEME, nós tivemos um susto total. Eu principalmente falei: “Como é que eu vou dar aula agora?” Foi no final do ano passado, foi ter que fazer a opção, inclusive com a sua participação aqui, passando pra gente algumas pistas de como trabalhar, pra acabarem com os conteúdos, aqueles conteúdos tradicionais que vem assim matemática tem que dar isso na 5ª série, Matemática tem que dá isso na 6ª série... Pra acabar com isso, trabalhar com a interdisciplinaridade entre os professores, no caso com as duplas e falaram até trios. E no final das contas foi em duplas. Nós ficamos preocupados porque não sabíamos com qual dupla nós íamos trabalhar. O exemplo que eu poderia dar é o que seria, no caso de trabalhar Inglês com Matemática? Todos nós ficamos preocupados. No final das contas acabou “casando” e houve um “casamento perfeito” porque colocaram Matemática com Artes. Foi uma primeira sugestão, aliás, há uma possibilidade de mudarmos, aliás, isso é só uma possibilidade! Agora, se está dando certo, eu sinceramente, e não vou afirmar que está dando certo, porque tem certos alunos que você não... Principalmente no noturno, nós temos alunos aqui que têm 56 anos, alunos que têm 60 anos, são aqueles alunos com ponto de vista que querem aprender aquela coisa tradicional... É matemática, mas nós temos as ACCs que nos ajuda muito nessa parte, nós temos OCTs que nós trabalhamos com as informações pra passar, temos nossos relatórios que a gente faz trocando idéias entre os professores. Pra nós professores, foi uma coisa difícil de encarar? Foi. Foi um desafio foi. Eu vou usar uma palavra muito forte aqui: medo. Medo todos. Mas é um medo assim, não é um medo de não saber, é um 206 medo de como você ia trabalhar. Quer dizer, tiraram você de trabalhar na sala de aula e abrir o livro e eu estou aqui e depois vou aqui... Aqui é minha praia. Não, agora não é assim mais não. A praia é pra dois, é pra três, vamos dividir o espaço da praia, a praia agora dá pra todo mundo, mas eu não posso ser ganancioso de querer a praia sozinha na minha mão, não. Eu tenho que saber que no meu pedaço da praia, eu vou dividir com o colega ou com o aluno, com o aluno também, e aí, o que o aluno traz pra gente e... Modificou muito, nos modificou e modificou as aulas. Antes, a gente passava pro aluno, hoje não, hoje, o aluno muitas vezes pergunta, ele é que determina, ele que nos leva a definir o conteúdo. Eu tive uma grande oportunidade e posso falar, por exemplo, sobre o dia que junto com a professora de Artes, trabalhando no quadro, ela citou um quadro e não tinha nada a ver e eu falei assim: “Pelo amor de Deus, onde eu vou puxar a Matemática?” Mas nós conversando, de repente a gente encontrou uma saída assim: “Por que não podemos entrar com porcentagem?” No quadro tinha mulheres e homens e eu dei uma porcentagem lá e saiu porcentagem e, de repente, era uma fábrica e daquela fábrica nós inventamos que fabricava-se quadros e triângulos e daí pudemos trabalhar com área. E no inicial, eu tinha um texto sobre uma viagem de... Que leva o pessoal de roça, de trabalhadores de cana de açúcar e esse negócio todo... e eu aproveitei a oportunidade e comecei decimais com eles, o valor da cana de açúcar custando tantos centavos o quilo e mexi com fração, mexi com dinheiro, quanto eles ganhavam e se dava pra comprar... Quer dizer, surgiram tantas situações, que se eu fosse colocar todas na prova, eu faria a prova sozinho. Mas tem aluno aí que ainda não entrou no processo. É, o aluno sente uma diferença muito grande, a não ser esse aluno que está começando com a proposta desde o inicial. Um aluno desse é mais fácil que do conclusivo. Agora, eu tenho uma preocupação em parte com respeito à isso, inclusive no dia da reunião da SEME eu coloquei, falei com você, eu falei assim: “Gente eu acho que ninguém está se preocupando com o conteúdo...” Eu concordo com vocês da mudança, eu concordo com a mudança, a gente está aqui pra mudar, é legal, nos dá inclusive uma vontade a mais em trabalhar. Mudança é um negócio muito legal, a gente passa a sair daquele conteúdo, aquele negócio chato do conteúdo todo ano a mesma coisa. Está sendo legal. Mas, o que está me preocupando é que a matemática, aí eu estou sendo específico, porque a matemática, ela tem algumas coisas que são interligadas, quer ver, não tem jeito, não tem como eu não ensinar equação do 2º grau na oitava série (nos conclusivos). 207 _ Vamos pensar qual é o nosso objetivo de formação na escola pública? _ Nosso objetivo é formar o cidadão para a vida externa (sociedade), mas eu vou colocar pra você... Em qualquer concurso que se fizer, é quase só conteúdo mesmo! Há uns dois anos atrás, na época que já se falava em interdisciplinaridade, eu peguei uma prova da aeronáutica, prova que nossos alunos aqui almejavam demais, era conteúdo purinho, purinho de matemática. Agora vem cá, vamos tirar a escola técnica embora, hoje, seja o que mais se aproxima dos interesses deles, nós estamos preparando os alunos para a vida aí fora não é para fazerem um concurso do BANESTES, CAIXA ECONÔMICA? O que você acha que colocaram nisso. Eu não estou sendo contra a EJA, não. Eu, apenas, estou dizendo que há certos conteúdos que não tem jeito de não serem trabalhados. Interfiro e falo sobre a não omissão do professor frente a um conteúdo que o aluno demonstre necessitar... _ Eu tenho a possibilidade de atender à esses interesses nos horários de ACCs, mas acontece que o aluno não vem. Ele alega que não tem tempo, é um aluno trabalhador, há os que poderiam vir que não trabalham, mas também não vem. Gente, o que eu estou colocando é que estamos experimentando essa proposta de EJA pela primeira vez e vivendo essa experiência e estamos percebendo algumas coisas que talvez precisem ser estudadas para melhorar. Eu quero ser sincero pra você, porque estou fazendo isso, eu estou trabalhando matemática com eles assim, eu chego pra professora de Artes e digo “Você me dá esse horário de aula?” Eu consegui fazer isso com eles, até porque eu sei que se você pegar qualquer prova de concurso do BANESTES ou da CAIXA ECONÔMICA tem lá uma equaçãozinha. Eles querem e eu ensino. Eu tive agora, recentemente, um aluno, do conclusivo, que foi fazer uma prova para trocador de ônibus. A primeira coisa que eles o mandaram fazer foi uma redação e logo depois um monte de contas. Eu perguntei: “Como é que foram as contas?” “Professor, era conta com vírgula, você têm dez reais pra pagar a passagem do ônibus, você salta e você compra um chiclete, depois você compra umas balas e quanto te restou? Quantas pessoas entraram no ônibus...” Quer dizer, tudo isso gera uma equação do 1º grau, você tem que montar uma equaçãozinha, dá o valor pra x, pra vê quanto sobrou de x... Isso você pode fazer, tem aluno que 208 faz isso como cálculo mental. Então tem esses casos. _ Sobre a reação dos alunos às mudanças, eles estão gostando? _ No começo não. No começo foi um “baque” pra eles. Mas agora, eles estão gostando e participando, eles chegam e falam: “Professor, naquela aula passada o senhor deu equações, o senhor não corrigiu”. Aí eu chego pra minha parceira e falo assim: “Oh, me dá uma meia horinha nessa aula pra eu corrigir os exercícios da aula passada.” Dali, eles se envolvem e daquele envolvimento já vamos caindo em outra situação... É que nós estamos trabalhando assim: duas horas eu trabalho junto com minha parceira os temas das unidades conceituais e uma aula, eu trabalho sozinho Matemática específica, até por conta dos horários da professora de Artes, que só vem duas vezes por semana - embora não devesse ser assim- , mas eu estou feliz, porque estou tendo essa oportunidade. Eu estou casando... As unidades conceituais junto com a Andressa e, quando estou sozinho, eu trabalho o conteúdo específico da Matemática. Estamos trabalhando agora com a etnia brasileira. O branco, o preto e o índio. Fizemos uma atividade legal de recorte em revistas com eles – você sabe sobre essa atividade porque já tínhamos falado com você. Eles colocam cada um a situação deles! É interessante! E Andressa me chamou e mostrou “Lucas, olha aqui o que eles falam.” Eles escrevem no dia-a-dia situações que eles vivem... Como eles fazem... Eles não escrevem coisas que nunca viram, não, o abstrato, eles escrevem o concreto mesmo. _ E depois? _ Ah, depois dali eu vou trabalhar com gráfico! Eu interrompi e perguntei sobre a continuidade do trabalho não específico e sim dentro da unidade, sobre a continuação das discussões: _ Nós vamos criando gancho até chegar à Matemática concreta, que é o mais gostoso da Matemática mesmo. Você tem 30 alunos e aí você pergunta, por que tantos escolheram pretos, tantos escolheram brancos, por quê? O que houve aqui na sala? Por que você preferiu uma foto de um negro? Ou do branco? Não apareceu 209 nenhum índio! Bem, os alunos já estão participando e já se adaptaram tranquilamente. Eu pedi que falasse sobre os aspectos impeditivos na realização da proposta: _ Eu estou achando que o que está nos faltando, é eu não vou dizer que é apoio, mas eu acho que é material. Apoio nós temos muito, nós temos conversado muito, a gente troca muito. Nós fizemos uma prova que foi até lá pra SEME, não é? Uma prova coletiva com todas as parcerias. Mas materiais mesmo... Eu vou deixar uma interrogação nesse negócio ou vamos inventar uma desculpa, porque é a primeira vez. Talvez eles vão estudar mais isso e vão nos dar mais condição de trabalho e... Tempo, não é? Porque nosso tempo é muito curto. De vez em quando a gente tem até que jogar com você os horários de ACCs,sei lá, trocar dias... Isso é sério porque, hoje, infelizmente, se não planejar... “Já era!” Eu estou me sentindo assim! Pra mim está sendo um desafio porque, depois de tantos anos de magistério, eu abria o livro na página tal e lia, aliais, eu olhava assim “Equações fracionárias!” Fechava o livro e fazia do meu jeito ou abria o livro só pra passar exercícios. Hoje eu não faço mais isso. Não tenho como fazer isso. Eu tenho a professora lá e ela diz “Lucas, eu estou com um texto aqui sobre etnia, nós temos que pesquisar isso aqui. E o que nós vamos fazer? Ah, nós podemos trabalhar gráfico aqui...” Agora mesmo nós estamos com um filme prá passar, por exemplo, de negros e brancos pra fazer uma discussão sobre esse negócio do americano... Segregação racial. Bom eu pensei, então eu tenho que sentar e pesquisar, como vou entrar com a Matemática aí? Nós estamos buscando uma solução: “Ah, nós vamos entrar sim, nós vamos entrar.” A gente está pensando em aprofundar a porcentagem, pegar a moeda estrangeira, o dólar e eles podem aprender o câmbio, a transformação do dinheiro... E vou colocar a Matemática no meio. E está dando certo por isso. Os alunos não gostam só de trabalhar... Se ele vai sair bem formado, melhor que antes, acho que abre as possibilidades pro aluno que tiver interesse. O aluno que não tiver interesse em aprender, ele vai sair muito desinformado em tudo, sem informação. Ah, o aluno que não quer aprender não aprende de qualquer jeito! A proposta indica isso mesmo, que ele é que tem que correr atrás, ele que tem que perguntar, ele que faz isso, faz aquilo e, na verdade, a gente fica até mais sentados enquanto eles estão trabalhando... 210 Saí da entrevista com o professor Lucas e fui para o encontro com as professoras do Primeiro segmento que estavam em planejamento. Eu não pretendia ouvi-las naquele dia, mas, de repente, começaram a falar sobre questões referentes à EJA e o projeto. Percebendo aquele como um momento único e que, talvez, no momento de uma entrevista individual pudesse não acontecer, pedi-lhes permissão e gravei. É bom lembrar que para o primeiro segmento as coisas não se modificaram tanto quanto para os professores do segundo segmento. Para elas, que já vinham trabalhando numa perspectiva generalista, o “currículo em movimento” pode-se dizer que se traduziu no trabalho a partir das unidades conceituais. Nas 6ª feiras, elas planejam juntas e também comigo, mas cada uma trabalha sem parceiro na sala de aula. A professora Rosa do intermediário estava falando e continuou... _ Eu estava falando que essa proposta aqui, que é só pra EJA, também deveria ser para todo o Ensino Fundamental Regular (EFR). Porque, como a gente vinha conversando agora mesmo sobre as concepções de conhecimento, ensino, enfim, parece que... Pra mim não é uma coisa nova. Já existia dentro de mim interiormente só que eu não estava vendo ser aplicado como aqui na EJA. _ Explica mais: _ Por exemplo, a gente vê no EFR que o ensino é muito fragmentado. A gente entra dá aquela aula de Ciência e só fala de Ciências, Matemática só Matemática, tudo isolado, não tem um encontro, uma ligação entre uma situação e outra. Professora Silvia do conclusivo interrompeu dizendo: _ Eu acho que vai sendo, por exemplo, como a gente trabalha à noite com alfabetização com o primeiro segmento, pra gente é mais fácil porque a gente sempre trabalhou com o núcleo comum: é que a gente trabalha com Português, Matemática... A gente fazia toda aquela interdisciplinaridade, juntava tudo e dali ia tirando vários conteúdos. Já os outros professores, que estão trabalhando Ciências eles só pensavam na matéria viam só o conteúdo dentro de Ciências... Geografia... 211 História, entendeu? Então pra eles a dificuldade é maior. Agora, a gente aqui à noite, depois que a gente passou a trabalhar assim, a gente vê como que eles abriram a cabeça e como pensam, de repente assim, era também aquele medo de tentar fazer o negócio e achar que não consegue: “Ah, vamos fazer isso? Entendeu?” Professora Eva da turma do inicial primeiro segmento continuou... _ Eu penso que foi por isso que o prof. Carlos viu que não se enquadrava na modalidade e, porque, dentro da cabecinha dele ele não conseguia retroceder, jogar tudo fora aquilo que ele aprendeu pra reaprender uma nova modalidade. Então o que ele preferiu? Preferiu voltar a fazer aquilo que ele aprendeu, que ele praticamente... Ele não queria estudar mais, ele não queria mudança! Ele queria continuar fazendo aquelas mesmices porque ele aprendeu na EF, jogos, jogar, treinar e ele sabe qual... Então, tem muitos professores, que se isso acontecer no Ensino Fundamental Regular, ou seja, de 1ª a 8ª no diurno, muitos professores vão preferir rodar, vão querer desistir, entregar seus cargos porque não vão querer mudar. Rosa interrompeu e foi se emocionando ao falar: _ Eu não sei se o que eu vou falar agora tem a ver com esse contexto que nós estamos falando, mas o que eu posso sentir, olha só - fico até emocionada - quando eu estava vendo a Nicéa explicando, falando pra nós... E a gente... Eu ficava imaginando, pensando vendo minha prática. Talvez, eu ainda não consiga externar para os meus alunos o que eu sinto. Eu sinto e ainda não consigo fazer do jeito que deveria ser feito, mas eu estou vivenciando ainda, sentindo, aprendendo. Aí, quando eu vejo essa semana no jornal aquele artigo que fala sobre a educação do Brasil e diz que a nossa educação é a pior da América Latina, porque eu trabalho no colégio estadual e eu vejo... Eu não tenho nem palavras pra descrever aqui esse sentimento sobre o que eu vejo diariamente. Eu vejo os alunos sendo tratados como objetos, como depositários de um conhecimento arcaico, velho e as pessoas fecharam-se, não querem mudança, por mais que se estude se fale com eles, que leiam em livros, que coloquem a disposição deles os materiais, eles não querem, preferem continuar na mesma situação de sempre e aí o resultado, o resultado está aí na educação do 212 Brasil e do Espírito Santo... As pesquisas, se isso for verdade, isso me entristece muito. Fiz uma observação sobre salários e pesquisas encomendadas etc., mas evitei polemizar e provoquei mais sobre suas impressões, sobre o currículo em movimento, Silvia falou: _ Olha só, eu vejo positivo sim, o que eu aprendi. Eu aprendi muito a partir desse ano. Eu sempre conversei muito com meus alunos sobre os objetivos do que estamos estudando, o porquê se está estudando, o que querem alcançar com aquilo ali. Eu, por exemplo, quando chega um aluno adulto meu e ele fala assim: “Olha, professora eu quero estar aqui hoje estudando no primeiro segmento, pra mim, eu chegando no final do segundo seguimento (8ª série) está ótimo porque eu já adquiri conhecimento, eu já enriqueci alguma coisa, eu já aprendi a ler... E no meu trabalho é aquilo ali, eu não vou mudar o meu trabalho...” Então você tem um caminho de trabalho, você faz uma forma dessa. Quando o aluno chega pra você e fala assim, e aí a minha preocupação: “Professora eu quero sair do segundo segmento, eu quero ir pra Universidade, eu vou fazer uma prova que envolve Química, que envolve Física, que envolve não sei o quê...” Todos aqueles conteúdos que você já sabe que é um pouco mais complicado de você trabalhar na forma que você vem trabalhando nesse dia- a- dia e tudo deles, eles lendo, eles interpretando, eles criando cenas, projetando imagens e quando chega lá. E até ontem mesmo, quando a gente foi fazer uma visita no PROEJA, e a moça veio passar pros meus alunos que estão no 1º segmento, que pra eles entrarem no PROEJA do CEFETES, eles vão fazer prova de Física, de Química, eles murcharam. Sabe? “Como é que nós vamos fazer prova de Física, Química, de Biologia, se nós estamos dentro desse caminho aqui dentro do 1º segmento, pra chegar no segundo segmento como é que essa questão desses conteúdos?” Então, eu acho que é mesmo você ter a preocupação de estar trabalhando o que cada grupo seu naquele momento está querendo e está desejando, e de como você está encaminhando as coisas. 213 ANEXO 3 214 215 216 217 218 219 220 221 222 223 224 225 ANEXO 4 226 227