SAÚDE MENTAL INFANTO-JUVENIL: USUÁRIOS
E SUAS TRAJETÓRIAS DE ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE
CHILDREN’S AND ADOLESCENTS’ MENTAL HEALTH: THE USERS AND THEIR
ACCESS TO HEALTH SERVICES
1
2
Olivia Pala Falavina , Monique Borba Cerqueira
1
Bacharel em Psicologia e Psicóloga (PUC/SP), Aprimoramento Clínico Infantil (Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic –
PUC/SP). Aprimoramento Profissional em Pesquisa em Saúde Coletiva (Instituto de Saúde – SES/SP).
2
Mestre em Sociologia (UNICAMP), Doutora em Políticas Sociais e Movimentos Sociais (Programa de Estudos PósGraduados em Serviço Social da PUC/SP), Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde (SES/SP).
Correspondência: Olivia Pala Falavina ([email protected])
RESUMO
_________________________________________________________________________________
Este trabalho analisa o perfil de usuários infanto-juvenis e sua trajetória no acesso aos serviços de
saúde no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Casinha — um serviço especializado no
atendimento em saúde mental de crianças e adolescentes, localizado na cidade de São Paulo. A
natureza qualitativa deste estudo permitiu privilegiar o ponto de vista dos usuários, sua capacidade de
expressão, seus medos, críticas e anseios por saúde. Foram sujeitos desta pesquisa pais ou
responsáveis por crianças e adolescentes de seis a quatorze anos que freqüentaram o serviço por,
pelo menos, seis meses. Quanto ao perfil dos participantes, este estudo foi realizado com famílias de
vida simples, constituídas por trabalhadores urbanos, alguns numa situação de maior precariedade,
como por exemplo, sérias dificuldades para adquirir os medicamentos para o tratamento do filho, falta
de dinheiro para utilizar o transporte coletivo e dependência da doação de roupas usadas pelos
vizinhos. Temas como escolarização, isolamento social, discriminação, relações familiares e barreiras
na obtenção dos serviços de saúde foram foco desta pesquisa. A identificação de tais problemas
aponta para a necessidade de inclusão social, melhoria e ampliação dos serviços de saúde mental
para a clientela infanto-juvenil e a necessidade de desmistificação da doença mental na família e no
ambiente escolar. Além disso, a pesquisa revela que a estruturação adequada dos serviços públicos
de saúde mental, evidenciada no atendimento oferecido pelo CAPS Casinha, constitui um modelo de
referência fundamental para a população-alvo.
Descritores: Saúde Mental; Acesso aos Serviços de Saúde; Serviços de Saúde Mental.
ABSTRACT
_________________________________________________________________________________
This is an analysis of the profile of children and adolescents as users of the health services delivered
by the Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Casinha — a specialized mental health center for
children and adolescents in the city of São Paulo. This qualitative study focused on the point of view of
the users in terms of their capacity of expression, their fears, criticisms and anxiety in relation to heath.
The subjects were the parents or guardians of the children and adolescents –aged six to fourteen,
who had used the center for at least six months. The subjects come from families who lead a simple
life, are urban workers, and some have experienced hardships such as difficult access to medication
for their children’s treatment, no money for local transportation, and dependence on donations of
second-hand clothing given by neighbors. Topics concerning education, social isolation,
discrimination, family relations and barriers to health services were addressed in this research. The
identification of such issues highlights the need for social inclusion, improvement and expansion of
mental health services to children and adolescents and also the need of a demystification of the
mental health within the family and school environments. Besides, this research reveals an adequacy
in the structure of public services in mental health that was evidenced in and by CAPS Casinha, as a
fundamental reference model for the target population.
Keywords: Mental Health; Health Services Accessibility; Mental Health Services.
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Saúde mental infanto-juvenil
INTRODUÇÃO
Este artigo originou-se do estudo
qualitativo desenvolvido no CAPS Infantil
“Casinha” que teve como objetivo analisar o
perfil da clientela e o histórico de acesso aos
serviços de saúde, com ênfase nas formas de
assistência recebidas nessa trajetória.
A reflexão sobre o acesso aos
serviços de saúde aqui proposta está
associada ao campo de atuação das políticas
públicas, apontando para o âmbito dos direitos
sociais. A “saúde, definida como direito, deve
inevitavelmente conter aspectos sociais e
1
individuais” . O acesso aos serviços de saúde
no Brasil é universal, igualitário, integral e
garantido pelo Sistema Único de Saúde
(SUS), a quem compete atender toda a
população por meio de serviços públicos, tanto
por meio de órgãos estatais, quanto de
instituições particulares conveniadas. O
acesso igualitário significa que todos os
cidadãos,
independentemente
de
nível
socioeconômico, gênero ou etnia, devem ser
atendidos igualmente pelos serviços públicos
de saúde. Finalmente, o acesso integral
implica que toda a população deve ter acesso
gratuito e irrestrito a todos os níveis de
assistência. Mas, embora o SUS venha
buscando o seu aprimoramento, a insatisfação
dos usuários com os serviços é grande, sendo
também evidente a baixa qualidade e
2-4
resolutividade apresentada pelo sistema .
Estima-se que, no Brasil, dentre a
população infanto-juvenil, 10% a 20% sofram
de transtornos mentais e que desse total 3% a
4% precisem de tratamento intensivo.
Considerando esse quadro, dentre os
diagnósticos mais freqüentes estão o autismo
5
e a psicose . Ainda que esses dados sobre a
situação da saúde mental de crianças e
adolescentes não possam ser ignorados, tem
sido histórico o descaso e a ausência de
políticas públicas nesse setor no Brasil. Há
pouco tempo, sequer havia parâmetros e
diretrizes claras para a atuação institucional
5
junto a essa clientela . Por esse motivo, as
entidades filantrópicas e as instituições
privadas passaram a se responsabilizar por
essa população específica, mas com critérios,
modos de compreensão e atuação próprios.
Tal
rede
assistencial
assumiu
a
responsabilidade sobre essa clientela, mas
acabou criando mecanismos tutelares, com
um ideário de proteção e forte tendência à
institucionalização, como é o caso dos
abrigos, escolas especiais e clínicas
especializadas. Nota-se que essas instituições
tiveram um papel relevante na assistência a
crianças e adolescentes, porém não sem
crises e distorções, durante quase um século
6
de história .
No início do século XX, instituições
voltadas para a assistência à infância e à
adolescência passaram a basear suas ações
em medidas normativas, jurídicas e numa
concepção segmentada e não integradora
dessa população. O resultado foi a expansão
5
de instituições totais e fechadas . O caminho
percorrido pelas crianças parecia ser muito
7
semelhante ao dos adultos
naquelas
instituições que consideravam sua clientela
sempre sob a lógica da falta, como doentes
incapazes e socialmente, economicamente e
8
afetivamente deficitários . Este era o quadro
perfeito para que adolescentes e crianças se
tornassem vulneráveis e desamparados. O
panorama oferecido pelo Estado era de
desassistência, impactando negativamente a
população-alvo, que ficou à mercê dos
5
serviços oferecidos .
Na década atual, com a criação pelo
Ministério da Saúde de um importante
instrumento de gestão ― o Fórum Nacional de
Saúde Mental ― o campo da saúde mental
infanto-juvenil ganhou novo fôlego. O Fórum é
um espaço permanente para discussão,
articulação, integração e interlocução dos
diferentes
atores
sociais
(jurídicos,
governamentais, civis, filantrópicos) envolvidos
com o tema da saúde mental infantil, visando
proporcionar o fortalecimento de uma política
que priorize o público alvo em questão e
recupere anos de descaso. Outro aspecto
importante do Fórum são os princípios
preconizados para os serviços de saúde. Entre
eles, estão as noções de acolhimento
universal, de encaminhamento implicado, de
rede de atenção, de intersetorialidade e
5
territorialidade .
Há ainda outro dispositivo importante,
o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS),
utilizado como universo contextual na presente
pesquisa. Sua função é concretizar e
centralizar as idéias da Reforma Psiquiátrica,
sendo a unidade de base para o processo de
desinstitucionalização. Nessa lógica de
tratamento, o modelo de atenção comunitária
e diária deve ser realizado pelos serviços para
9
que a atenção integral à saúde seja atingida .
Entretanto, o CAPS não tem apenas a função
de atender e encaminhar as demandas
psicossociais de um território, mas também de
criar ações direcionadas a diferentes
dispositivos, para que a saúde mental das
10
pessoas seja um objetivo a ser alcançado .
Observa-se, portanto, que o CAPS tem um
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Falavina OP, Cerqueira MB
papel central na formação de redes de saúde
que incluam seus usuários, que passam a ser
8
considerados sujeitos de direitos e cidadãos ,
em ambientes outros que não se limitam ao
tratamento. É o local mesmo onde se
perpetuam, mas não se encerram, as
dimensões conceituais, técnicas, políticas e
culturais da atenção à saúde mental no
11
Brasil .
MÉTODOS
Utilizou-se a abordagem qualitativa em
pesquisa, por se tratar de uma investigação
cuja problemática pertence ao campo das
Ciências Sociais em Saúde, focalizando a
realidade em sua dimensão processual, não12,13
linear e complexa
. O local de realização da
pesquisa foi o Centro de Atenção Psicossocial
(CAPS) Infantil Casinha, inaugurado em 2002
e, localizado no bairro Cidade Vargas, cidade
de São Paulo, próximo à estação de metrô
Jabaquara, o que facilita bastante o acesso da
população.
O CAPS Casinha possui uma equipe
multiprofissional constituída por psiquiatras,
psicólogos,
terapeutas
ocupacionais
e
assistentes sociais. Ele atende crianças e
adolescentes de até 18 anos de idade em
atividades de grupo e individuais. O CAPS
funciona numa casa, aproximando-se de um
ambiente residencial, o que lhe confere um
aspecto bastante acolhedor e aconchegante.
Existe um jardim bem cuidado do lado de fora
e assim que se entra na casa encontra-se uma
brinquedoteca, que é conjugada com a sala de
espera. Na parte de dentro estão localizadas
as salas de atendimento individual que são
utilizadas pelos profissionais. Nos fundos da
casa existe uma edícula, que por ser
espaçosa e arejada, é mais utilizada para
reuniões de equipe e trabalhos grupais.
Os sujeitos que participaram deste
estudo foram pais ou responsáveis pelos
usuários do CAPS Casinha. As crianças,
portanto, participaram apenas indiretamente
como
sujeitos
da
pesquisa.
Foram
selecionados responsáveis por crianças de
seis (6) a quatorze (14) anos de idade que
freqüentavam o serviço, no mínimo, há seis
meses. A seleção dos entrevistados foi feita
pela coordenadora do CAPS, pelo fato dela
conhecer melhor o público, podendo indicar
quem poderia ser entrevistado, sem que isso
interferisse no tratamento e no vínculo com a
instituição. Além disso, foi possível escolher os
entrevistados de maneira que se chegasse a
ter dois grupos de usuários, o das crianças
mais velhas, com as idades de 11, 12, 13 e 14
anos, e o das crianças mais novas, com as
idades de 6 e 8 anos.
O perfil dos entrevistados mostra a
realidade
cotidiana
enfrentada
por
trabalhadores urbanos cujo poder aquisitivo
limitado remete a dificuldades quanto à
manutenção da vida familiar, incluindo
alimentação, transporte, vestuário, despesas
com saúde, entre outras. Não por acaso, tal
clientela é basicamente constituída por
usuários do sistema público de saúde e
educação. Ressalta-se que a maior parte do
grupo estudado encontra-se inserido no
mercado informal de trabalho, sem qualquer
direito social que aponte para a garantia de
melhores condições de vida.
Utilizou-se como técnica de coleta de
dados entrevistas semi-estruturadas, com
perguntas abertas, gravadas e posteriormente
transcritas. Foram realizadas sete entrevistas
em profundidade com os responsáveis pelas
crianças. As entrevistas versaram sobre a vida
da criança, sua rotina e comportamentos em
casa, na escola e em outros ambientes
sociais. Além disso, outros aspectos foram
investigados, como o histórico de busca e
utilização dos serviços de saúde, o momento
de chegada ao CAPS Casinha, as formas de
assistência recebida e os entraves no acesso
aos equipamentos de saúde.
Esta pesquisa foi encaminhada e
aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa
da Prefeitura da cidade de São Paulo, tendo
seguido as normas da resolução 196/96.
Assim, foi garantido aos participantes o direito
de conhecer os objetivos e procedimentos da
pesquisa, assegurado o direito de não
participar do estudo ou de desistir em qualquer
momento, sem que isso trouxesse qualquer
dano ou conseqüência ao participante. Além
disso, foi esclarecido a todos que o estudo não
oferecia nenhum risco, benefício ou custo aos
participantes. Foi garantido o direito a
confidencialidade quanto à identidade do
participante e ao conteúdo das informações.
Nesse sentido, os nomes reais dos
participantes foram substituídos por nomes
fictícios neste artigo.
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Saúde mental infanto-juvenil
limpeza, todos rejeitavam ele, olhavam pra ele
e falavam: “-‘Vixe’, chegou!” Aí eu não levei
ele mais (...).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Escolarização:
potencialidades
problemas
e
A escolarização das crianças é um
ponto muito importante a ser considerado em
suas vidas, além de ser um bom indicador de
saúde mental, do seu desenvolvimento e
principalmente
da
socialização
dessas
crianças.
Algumas
crianças
demonstraram
grande comprometimento nesse aspecto, seja
porque com o passar do tempo a patologia se
agravou,
afetando
diretamente
a
escolarização, seja porque os problemas
mentais surgiram antes da idade escolar,
influenciando diretamente o aproveitamento na
escola. Observou-se que nas crianças cuja
evolução da doença foi acompanhada pela
exclusão na escola (intelectualmente e
socialmente) e pela falta de atendimentos e
soluções eficazes, houve um sucessivo
agravamento dos problemas de inserção no
âmbito escolar. Assim, tornaram-se evidentes
as diferenças comportamentais em relação às
outras crianças, originando preconceito e
discriminação.
Leandro, 12 anos, filho de Joana, por
exemplo, está no prezinho. Daniel, 14 anos,
filho de Antônia, e Graça, 11 anos, filha de
Marcela, tiveram um histórico de repetências e
atraso por dificuldades com as matérias.
Graça também participa das aulas de reforço e
da sala especial, assim como Daniel, que
ainda tem dificuldades para ler e escrever.
Uma das crianças, Breno, 13 anos,
filho de Telma, parece ser o caso mais grave.
Ele está fora da escola há muito tempo. Teve
repetidas histórias de rejeição em escolas, o
que foi causando, entre outras coisas, um
atraso em seu desenvolvimento, fato que
dificultou ainda mais sua inserção no ambiente
escolar. Sua mãe sofreu uma experiência
muito negativa com marcas profundas
deixadas pelas primeiras Escolas Municipais
de Educação Infantil (EMEI) freqüentadas pelo
filho.
Eles (a escola) aceitaram na matrícula,
quando chegou no dia que ele foi pra
freqüentar as aulas, todos torciam o nariz,
porque ele tinha 4 anos, mas ele usava fralda
[...]. (...) aí foi tendo aquela resistência, eles
começaram a pegar muito no pé, eu via que
eles não gostavam dele [...]. (...) comecei a
notar que desde a diretoria, até as pessoas da
Neste caso, a situação de rejeição e
discriminação do filho causou um impacto
muito grande na mãe, fazendo com que ela
desistisse completamente de levá-lo à escola,
o que demonstra um quadro de extremo
desamparo e fragilidade da família. Segundo
essa mãe, a rejeição vinha de todos os
lugares.
Eu via a rejeição na porta da escola (...) a
professora não judiava, ela deixava aqueles
alunos mais agitados, que são mais levados,
judiar. Ele (o filho) vivia cheio de areia por
dentro da roupa e na cabeça. [...]. Ela não
deixava ele sair, aí ele fazia xixi e cocô dentro
da sala de aula e ela achava ruim comigo. Um
dia, ela levou eles (os alunos) pro parque e ele
fez cocô no parque. Na hora que eu cheguei
pra buscar ele, ela gritou bem alto: “Seu filho
contaminou o parque!”.
Atualmente, Telma, a mãe da criança,
recebe orientações
e sugestões dos
profissionais do CAPS para que Breno volte a
freqüentar a escola, pois isso lhe faria conviver
com outras crianças e lhe traria muitos
benefícios. Telma, no entanto, parece
irredutível em sua decisão de não levá-lo mais
à escola. Ela se questiona sobre o momento
certo de tentar incluí-lo novamente num
ambiente com outras crianças, acha que ele
ainda não está pronto e confessa que não
suportaria outras desilusões como aquelas
pelas quais passou. Para essa mãe, seu filho
teria que estar pronto antes de entrar na
escola, como se pudesse adquirir todas as
habilidades
comunicativas
e
sociais
anteriormente ao processo de escolarização.
Nesse caso fica evidenciado que o trauma da
mãe é determinante e precisa ser tratado.
Quanto à criança, o próprio processo de
inclusão deve ser capaz de torná-la apta a
conviver com outras crianças no ambiente
14
escolar .
Entre as crianças mais jovens, as
entrevistas também revelaram problemas com
a escola. Algumas mães preferiram que os
filhos cumprissem de novo um ano letivo na
EMEI para que estivessem mais maduros e
preparados para a entrada no ensino
fundamental.
Tal
escolha
parece
ter
funcionado apenas em parte, pois não fez os
problemas desaparecerem completamente. As
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crianças passaram a se sentir apenas um
pouco mais íntimas do ambiente que as
cercava, começando a se relacionar com os
colegas.
A escolarização é um tema que
preocupa bastante os pais. Muitos deles
consideram esse um aspecto importante da
vida da criança e uma maneira de inseri-la na
sociedade. Luciana vê na escola uma chance
valiosa de seu filho Carlos, 6 anos, investir na
socialização, aspecto, segundo ela, muito
comprometido em sua vida. Já Antônia, a
única mãe com formação universitária, crê que
o maior problema de seu filho Daniel, com 14
anos, na 5ª série, seja o atraso escolar. Ela é
a mãe que mais se preocupa com esse
aspecto e acha que o desenvolvimento
cognitivo e pedagógico são tão importantes
quanto o relacional.
Porém, se os problemas na escola
merecem destaque, as novas oportunidades
que podem surgir nesse ambiente, como a
chance de conhecer e se relacionar com
outras pessoas é algo que possui igual
14
importância . As crianças fazem amizades,
aprendem brincadeiras novas, descobrem
regras e jeitos diferentes de agir, além da
possibilidade de adquirir uma rotina em suas
vidas. Atividades estabelecidas, como tarefas
e aulas, com horários demarcados para entrar
e sair da escola, desencadeiam um processo
de organização na vida da criança. Por esse
motivo, muitas ficam mais calmas e centradas,
o que acaba aliviando as mães. A escola,
além do CAPS, é um dos poucos lugares
freqüentados pelas crianças, por isso, é um
espaço tão importante, podendo produzir
muitas mudanças positivas na vida de toda a
família. A escola é um espaço privilegiado
para a socialização das crianças e para sua
reinserção na sociedade. Ela é um ambiente
vivo que pode reproduzir preconceitos e
dramas que são vivenciados em outros
lugares, ao mesmo tempo em que preserva
sua
potencialidade
transformadora
e
reintegrativa. Nesse sentido, observa-se o
quanto é preciso ter um olhar cuidadoso sobre
a escola, discutindo sua proposta e
aproveitando todo seu potencial.
Margarida, ao falar da entrada de seu
filho Nilton, 8 anos, numa escola nova, relata
como foi sua adaptação:
Ele tá bem, acho que tá gostando, tá se
adaptando. Ele entra num lugar, mas fica com
medo das pessoas, de como ele vai ser
recebido. Lá não, a primeira coisa que chamou
a atenção dele é que todo mundo trata ele
normal. Falou que chamam ele de amigo ou
de Nilton, ninguém fala dos ‘probleminha’ dele.
[...] ele foi bem recebido.
Para Margarida e para muitas outras
mães entrar na escola ajudou a criança tanto
na socialização, quanto do ponto de vista
comportamental. Outro fato muito importante
ligado à escola é que em muitos casos ela foi
a pioneira ao reconhecer problemas nas
crianças, confirmando pela primeira vez, em
alguns casos, a desconfiança das mães sobre
uma possível patologia dos filhos.
Marcela já percebia que sua filha
Graça de 11 anos apresentava problemas de
comportamento em casa. A mãe a achava
muito agitada, mas quando a escola confirmou
isso, dizendo que a menina atrapalhava em
sala de aula e não fazia as lições, ela resolveu
procurar ajuda. Foi como se a escola
funcionasse validando as intuições e
percepções da família. Depois de ter recebido
as primeiras reclamações, Marcela mudou
Graça de escola, mas tornou a ser chamada
para conversar sobre o comportamento da
filha. Foi aí que veio a decisão de procurar um
Posto de Saúde, o que culminou com o
diagnóstico
de
hiperatividade.
O
posicionamento da escola foi decisivo para
deflagrar o tratamento da criança.
Percebe-se
também
o
papel
imprescindível
da
escola
nos
encaminhamentos das crianças aos serviços
de saúde. Na maioria das entrevistas
realizadas,
a
escola
aparece
como
protagonista na vida de seus alunos com
dificuldades emocionais e comportamentais,
seja porque foi ela quem encaminhou pela
primeira vez, seja por ter confirmado as
suspeitas dos pais. Tudo isso evidencia a
importância da rede de relações e
comunicação entre as instituições de saúde e
educação que devem ser sempre mediadas
pela família.
Do isolamento social à discriminação
Não há processo mais significativo do
que a socialização para avaliar a inserção das
crianças na sociedade. A socialização permite
perceber o quanto o sujeito está realmente
participando de redes sociais e inclusivas, de
espaços de convivência e de grupos variados
que possibilitem a diversificação de suas
experiências identificatórias, ampliando assim
15
suas vivências integrativas . Estar e conviver
com outras pessoas e grupos é o que nos faz
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Saúde mental infanto-juvenil
sentir vivos, humanos e pertencentes a um ou
mais lugares que podemos chamar de nosso.
perdendo o sentido como experiência de
16
diversão, objetivo natural da brincadeira .
A partir disso, podemos dizer que
todas as crianças que participaram desta
pesquisa, sem exceção, têm ou tiveram sua
interação social comprometida ou dificultada
pela doença mental. Observa-se que elas
brincam em grande parte do tempo sozinhas,
têm poucos amigos, quando os têm. Elas
acabam desenvolvendo atividades muito
solitárias e têm uma enorme dificuldade de se
misturar com crianças em geral. Muitas
chegam a se relacionar exclusivamente com
crianças mais novas.
A grande maioria das crianças não
pratica nenhuma atividade extracurricular.
Espaços formais de socialização se restringem
apenas ao CAPS e à escola. Esse fato está
intimamente ligado ao nível sócio-econômico
da população pesquisada, mas mesmo os
espaços informais da comunidade, como a rua
ou uma quadra esportiva próxima, são
utilizados com pouca freqüência, e não sem
muita ansiedade, vergonha e medo. As
crianças têm muito tempo livre, mas pouco
desse
tempo
é
realmente
ocupado,
programado e preenchido. Algumas delas não
têm rotina, horários, nem uma programação
diária - dormem e acordam quando querem,
ficam soltas pela casa sem ter o que fazer,
não sabem direito com o que brincar. Tal
quadro se agrava quando a criança não vai à
escola.
Muitas crianças que participaram
deste estudo demonstraram ter medo de se
aproximar de crianças “normais” porque já
sofreram muita discriminação e maus tratos.
Outras são temidas, pois muitas vezes,
tiveram reações desastradas ou desajeitadas
no convívio social. Existem relatos de casos
de agressividade, outras vezes tais crianças
chegaram
a
machucar
sem
querer
coleguinhas, o que tornou as tentativas de
aproximação mais difíceis. Em relação a essa
questão Margarida, mãe de Nilton, 8 anos,
relata:
Ele arrumou muita encrenca lá (na rua). Se
alguém faz alguma coisa com ele, pisa no pé
dele, bate a bola nele, ele quer bater, e pode
ser qualquer pessoa, mulher ou adulto. [...]
ninguém quer ele por perto. E se a gente
deixar sozinho é perigoso até machucar as
crianças. [...] Já aconteceu dentro da minha
casa. A gente descuidou um pouquinho, ele
pegou o cabo de vassoura e bateu no filho da
professora (...) depois disso eu não deixei
mais.
Joana, mãe de Leandro, 12 anos, fala
sobre o problema de isolamento do filho. Ele
joga bola dentro de casa e diz que ele não
gosta de se enturmar com outras pessoas.
Para suprir a necessidade dos filhos de brincar
e extravasar a energia, as mães passam a
ocupar o lugar de um amigo ou um colega.
Freqüentemente, elas são a única opção de
companhia e de uma relação de alteridade
com os filhos.
As crianças fazem muitas atividades
solitárias e ensimesmadas, como assistir
televisão, ver dvds, desenhar e pintar,
colecionar coisas, brincar de bambolê, de
massinha, de quebra-cabeça, de boneca.
Essas atividades, em geral, se tornam
repetitivas à exaustão e estereotipadas,
A exceção também merece destaque.
André, 8 anos, cuja cuidadora é Beatriz, é a
única criança que faz várias atividades, como
ir ao parque e fazer aulas de artes, algo pouco
comum para os usuários do CAPS que
participaram deste estudo. Essa diversificação
de ocupações parece extremamente positiva
para ele. Experiências assim podem ensinar
que a regressão dos sintomas pode estar
associada não somente ao tratamento formal
no CAPS, mas também à interação social que
8
as relações e a própria vida pode oferecer .
Além do isolamento, a discriminação
também é muito presente na vida dessas
crianças. O preconceito com pessoas
portadoras de sofrimento psíquico existe, é um
17
fenômeno muito comum e produz sérias
conseqüências para suas vítimas. As
narrativas sobre esse tema são fortes,
evidenciando a dificuldade de lidar com o
preconceito. Joana, mãe de Leandro, 12 anos,
é afetada diretamente por essa situação, que
a fragiliza e a deixa sem reação.
As pessoas no ônibus, eu acho chato, porque
todo mundo fica olhando. Tem gente que até
fica rindo, e, às vezes, chama (o filho) até de
maluco, muita gente fala: ‘-‘Oxi’, esse menino
parece que é doido!’ [...] Falam na minha
frente. [...]. Pior que na hora só fico com
vontade de chorar. Às vezes, xingam ele, aí eu
fico só calada. [...] Sei lá, é como se a coisa
tapasse, (...) aí chego em casa, sento lá e
começo a pensar naquilo que as pessoas
falaram, (...) na hora eu não choro, mas é que
eu fico com vergonha. [...] é horrível você ter
um filho com problema e ver como as pessoas
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Falavina OP, Cerqueira MB
‘é preconceituosa’. Você sente na pele o
preconceito [...].
Um misto de raiva e vergonha tomam
conta dela, deixando-a paralisada e estagnada
diante dos comentários dos outros, o que
mostra o quanto o desconhecimento, a
exclusão e o preconceito dirigidos a
portadores
de
doenças
mentais
são
experiências de difícil superação para as
crianças e seus familiares.
A família
Os
relacionamentos
familiares
mostram-se diretamente afetados pela doença
mental. A relação dos cuidadores com a
criança é ambígua, ora tendendo para a
superproteção e o cuidado extremo, ora
apontando para o cansaço, a raiva, a culpa e a
impaciência. Os pais freqüentemente alternam
reações entre tratar os filhos como crianças
“normais”, ao negarem suas dificuldades, ou
considerando-os
como
totalmente
incapacitados e fazendo tudo por eles.
Margarida, quando questionada sobre
a relação com seu filho, Nilton, 8 anos,
desabafa.
Descreveria assim: estressante. Vontade de
sumir que eu tenho de vez em quando, mas
depois eu tenho que ‘conscientizar’ que
ninguém cuida, que tem que ser eu ‘mesmo’.
(...) ninguém ajuda. Não posso sair para lugar
nenhum (...) ele me dá muito trabalho. [...]
Ninguém quer ele nos ‘lugar’, ele tem que ficar
comigo.
Para ela e outras mães o cuidado
passa a ser um fardo pesado para ser
carregado e vivido solitariamente. Apenas
duas mães podem contar com a ajuda do
companheiro, mas mesmo assim elas são as
principais
responsáveis
pelos
filhos,
evidenciando o papel da mulher na família
atual e a soberania da mãe em relação ao
18
cuidado com o portador de doença mental .
Esse laço facilita e reforça uma simbiose entre
a mãe e o filho, o que foi bastante citado nas
entrevistas. A exigência de cuidados
constantes, específicos e rotineiros com os
filhos contribui para a dificuldade das mães em
se separar deles, e vice e versa, fazendo com
que todos sofram com a co-dependência,
impossibilitando-os e restringindo-os no
estabelecimento de outras relações. Observa-
se que esse círculo vicioso cederá um pouco
com o início do tratamento no CAPS, onde
aparecem outras variáveis que irão interferir
nessa dinâmica.
A ajuda de outros familiares também
é, em geral, escassa ou mesmo inexistente. A
própria Margarida pediu ajuda para seus filhos
e marido, mas ninguém agüentou ficar no
lugar dela, na verdade, eles se recusaram.
Apesar disso, a família não passa imune por
essa convivência. Seu filho mais velho está
com depressão e, segundo Margarida, isso se
deve à doença do irmão mais novo. Sua filha
também está abalada, parou de ir à escola e
diz não suportar tomar conta dele, uma tarefa,
segundo ela, muito pesada. A mãe conta que
ele também não se relaciona com nenhum
outro familiar, todos se afastaram. As relações
de Nilton se restringem, basicamente, à família
nuclear, o que se mostrou comum entre as
crianças participantes da pesquisa.
A relação com os irmãos também é
complexa, mas tem um papel na socialização
dos usuários do CAPS. Os irmãos são, em
muitos casos, a única alternativa de
convivência para essas crianças, a única
possibilidade de relação entre pares. Eles se
divertem juntos, compartilham brincadeiras,
ajudam na lição. Entretanto, essa também
pode ser uma tarefa difícil para eles, que
podem passar por momentos de muita
responsabilidade, angústia e raiva no
cumprimento do seu papel.
Margarida, quando não pode sair de
casa porque Nilton tem medo, conta que a
filha o chama de praga. E completa suas
percepções:
Os irmãos têm dificuldade com ele. [...] Eles
não conseguem conviver, eles não aceitam.
Porque ele dá muito trabalho, ele chora (...).
Nem ficam com ele no mesmo cômodo. (...) se
o Nilton entra no quarto eles mandam ele
embora. Tem dia que ele não tem lugar para
ficar em casa, porque eles mandam ele
embora. Ele tem que ficar no meu quarto, só
onde que eu tô.
Ela conta ainda que não tem escolha,
que se sente sobrecarregada e que ficou até
deprimida. Por esse motivo faz terapia no
CAPS com uma psicóloga, para tentar ajudar
seu filho e sua família de uma maneira mais
saudável e menos sofrida. Tal situação remete
à questão do lugar da criança na família, do
que ela representa para o grupo familiar.
Nesse caso é o lugar de “praga”, de
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Saúde mental infanto-juvenil
destruição, de incômodo, de perturbação da
normalidade que é dado à criança, o que
causa impactos negativos sobre ela e sua
recuperação.
Telma, mãe de Breno, 13 anos,
completa o quadro de dificuldades entre os
irmãos e confessa um medo.
Hoje ele tá com 13 anos e a minha filha tem 3.
Os 2 brincam juntos como se fossem da
mesma idade. Eu vejo pelas palavras, pelo
modo que ele brinca (...) ele só tem tamanho.
[...] a mente dele é como se fosse da minha
filha. E eu ainda tenho medo dela evoluir e ele
ficar pra trás. É difícil, é muito difícil.
Vê-se, portanto, que as relações
fraternais contêm igualmente elementos
importantes para uma reflexão sobre o
impacto da doença mental infantil na família.
Trata-se, na verdade, de um conjunto de
relações que são diferentes entre si, que
podem ser influenciadas umas pelas outras,
trazendo potencialidades distintas. O germe
de mudanças positivas pode estar no
acolhimento à família como um todo, como
vem ocorrendo no atendimento aos familiares
oferecido pelos CAPSs.
As barreiras no acesso e utilização dos
serviços de saúde
A complexidade do conceito de
acesso aos serviços de saúde relaciona-se
com o fato de que o acesso explica o grau de
ajuste entre as necessidades dos usuários e a
oferta de determinado serviço. Logo, as
barreiras no acesso resultam de uma
combinação de fatores. Nesse estudo foram
analisados
os
seguintes
obstáculos:
geográficos – relativos à distância até o
serviço e tempo utilizado pelo usuário no
deslocamento até a unidade de saúde;
organizacionais – relacionados ao modo como
uma unidade oferece seus serviços, com
ênfase nas barreiras encontradas no contato
inicial, como o tempo de espera para
marcação de consulta e horários de
atendimento. Há ainda outros obstáculos
organizacionais como o tempo de espera pelo
atendimento médico e a facilidade ou não na
realização de exames laboratoriais e clínicos.
Os entraves econômicos – referentes aos
custos de transporte, o consumo de tempo do
indivíduo, ou seja, gastos diretos ou indiretos
ligados à assistência à saúde – e
socioculturais
–
ligados
às
diversas
percepções de saúde, segundo os diferentes
grupos sociais, seu nível cultural e
19
educacional também se fizeram presentes.
As barreiras encontradas no acesso
aos serviços de saúde referem-se aos fatores
que impediram ou dificultaram que as mães
obtivessem assistência para seus filhos na
rede pública de saúde. Tais impedimentos
estiveram muito presentes na vida das mães
entrevistadas durante a pesquisa. Todas elas
relataram, pelo menos, algum tipo de
dificuldade para acessar e utilizar os
equipamentos de saúde. Os obstáculos
estavam sempre interligados. Em certos
momentos, os relatos se confundem, não
sendo possível reconhecer e identificar quais
são as barreiras que mais contribuem ou
determinam a dificuldade no acesso aos
serviços. O fato é que os obstáculos
mencionados pelos usuários são muitos.
Em relação ao aspecto econômico é
clara a falta de poder aquisitivo da maioria dos
entrevistados. Esse fato influencia diretamente
na busca pelos serviços. Não ter dinheiro
sequer para pegar conduções até a unidade
de saúde é algo muito presente nas narrativas.
A visita ao profissional de saúde acaba sendo
adiada, o que significa um tempo de retorno
aproximado de três meses, mas que pode ser
cancelado, provocando a continuidade na
ausência de cuidados, algo extremamente
prejudicial à criança. O fato de não conseguir
chegar ao local de atendimento por falta de
dinheiro traz conseqüências graves, ainda
mais quando se fala do público em questão –
crianças e adolescentes. O adiamento pode
ser muito custoso para sua saúde e para a
vida das famílias.
Outro ponto relevante é a falta do
acesso a medicamentos gratuitos, que faz
com que muitas mães comprem remédios com
recursos próprios. Essa despesa extra acaba
por desfalcar o orçamento doméstico, o que
pode trazer sérios prejuízos à rotina familiar. A
falta de condições financeiras também leva à
interrupção da medicação ou a aplicação de
dosagens irregulares e incorretas que não
surtem o efeito esperado, o que, muitas vezes,
faz com que a medicação seja interrompida
definitivamente com a justificativa de que não
foi eficaz.
Outra questão presente, ligada a
anterior, é a distância da unidade de
atendimento das residências dos usuários. As
mães, na maioria das vezes, têm que se
deslocar pela cidade, atravessando regiões
inteiras e distantes a procura de ajuda. Isso,
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Falavina OP, Cerqueira MB
obviamente, encarece esta etapa de busca do
serviço.
Um fato interessante é que quando as
mães são questionadas sobre as vantagens
de serem atendidas no CAPS Casinha muitas
delas se referem à proximidade de suas
casas. Algumas vão caminhando, outras
recorrem somente ao metrô, situado bem
próximo à unidade, e outras ainda tomam
somente uma condução. A facilidade no
acesso à unidade resulta em economia de
tempo, algo que também é levado em conta
para dar continuidade ao tratamento das
crianças no CAPS. Não desperdiçar muitas
horas do dia para levar o filho ao serviço de
saúde torna-se uma grande vantagem.
Outro tipo de barreira enfrentada pelos
usuários é a sociocultural. Ela está presente
no relacionamento com os profissionais de
saúde, mas principalmente com os médicos.
Alguns familiares têm dificuldades de se
colocar, de dizer o que pensam, de discordar,
de pedir esclarecimentos, além de não
compreender o discurso e as instruções
médicas. Outros não sabem para que servem
as medicações e muito menos o que
significam e acarretam as expressões e
termos
diagnósticos
utilizados
pelos
psiquiatras. A relação hierarquizada impede
que as mães possam colocar suas
impressões,
constatações
sobre
o
comportamento do filho, intuições sobre as
causas do seu desconforto e as relações com
eventos
no
cotidiano.
As
mães,
freqüentemente, já perceberam o que
desencadeia as crises de angústia e
agressividade na criança, mas parecem não
ter poder de vocalização suficiente para
comunicar ao médico, não conseguindo
discordar dele. Por esse motivo, muitos
familiares não se sentem compreendidos,
podendo cessar medicações e interromper
tratamentos por conta própria, o que dá início
a uma nova busca por atendimento.
Além dos entraves referentes à
relação médico-paciente, existem outros
obstáculos, como o desconhecimento e a falta
de informação sobre problemas psíquicos e
atrasos no desenvolvimento infantil que
parecem retardar a busca de atendimento.
Sinais precoces e que não constituem ainda
grandes problemas, como irritabilidade,
agitação
e
agressividade
excessivas,
desenvolvimento intelectual incompatível para
idade, embotamento afetivo, social e relacional
e atrasos motores e de linguagem,
combinados ou que perduram por muito
tempo,
freqüentemente
não
são
compreendidos como sintomas psíquicos que
expressam
necessidade
de
ajuda
e
20
acompanhamento especializado . As mães,
em geral, têm a esperança de que esses
problemas
se
resolvam
sozinhos.
Paradoxalmente, todas as entrevistadas
conseguiram reconhecer que os problemas
dos filhos começaram muito antes do
momento em que a busca por serviços se
iniciou. Alguns anos de angústia e dúvidas
acabam transcorrendo até que os pais
resolvam procurar ajuda, o que fez com que
os problemas se agravassem com o tempo. É
preciso considerar igualmente que os pais,
muitas vezes, relutam em procurar ajuda pela
primeira vez, porque isso implica reconhecer
suas próprias frustrações em relação a um
filho ideal, dificultando a aceitação da situação
real.
Para ilustrar essa discussão, dois
casos específicos merecem destaque, o de
Margarida, mãe de Nilton, 8 anos, e o de
Antônia, mãe de Daniel, 14 anos. Antônia é
uma exceção por ter formação universitária.
Ela
procurou
atendimento
psicológico
particular e conveniado para seu filho e isso
teve um significado muito importante para sua
evolução e melhora. Margarida também
recorreu a vários médicos desde muito cedo,
mas ela esbarrou na burocracia do serviço
público. Embora tivesse percebido que a
criança precisava de ajuda quando era bem
pequena, ela não obteve o auxílio esperado,
não tendo sucesso na busca por atendimento.
Em
relação
aos
obstáculos
relacionados aos fatores organizacionais do
acesso, predominam aqueles relativos à
entrada e utilização dos serviços oferecidos
nos equipamentos de saúde. A dificuldade
para marcar consultas e realizar exames, as
enormes filas de espera, o longo tempo entre
o agendamento das consultas e sua
realização, os retornos muito distantes, o
horário dos atendimentos, os problemas de
funcionamento nas farmácias são alguns dos
empecilhos citados nas entrevistas. Pode-se
constatar que além da dificuldade econômica
das famílias para chegar à unidade, somam-se
os obstáculos socioculturais e geográficos no
acesso aos serviços. Mesmo ultrapassando
algumas dessas barreiras não há a garantia
de que o atendimento se realize. A burocracia
encontrada logo no primeiro contato com a
unidade fez com que muitas mães desistissem
de esperar. As que resolveram persistir na fila
acabaram perdendo muito tempo, gerando
angústia e sofrimento provocados pela longa
demora. Um modo de lidar com essa espera é
expresso numa atitude comum às mães que
tendem a procurar ajuda em outro lugar. Elas
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Saúde mental infanto-juvenil
imediatamente se dirigem a uma outra
unidade de saúde no momento em que
percebem que a fila de espera é incompatível
com as obrigações e responsabilidades que
precisam cumprir junto à família. Por isso, ser
atendida em dois ou mais lugares ao mesmo
tempo, ocultando este fato de ambas as
unidades com medo de perder a vaga tão
esperada, é uma atitude comum entre os
usuários dos serviços de saúde.
O caso de Joana, mãe de Leandro, 12
anos, mostra como a busca por atendimento
pode se tornar uma verdadeira saga. Ela
procurava atendimento para o filho há alguns
anos e lhe falaram sobre a APAE. Ela achou
que seria uma boa oportunidade, mas depois
de ir até lá, pediram para que ela ligasse
depois de três meses, pois naquele momento
não havia vagas. Passado esse tempo, fez a
ligação e lhe deixaram esperando quatro
horas no telefone, apenas para marcar a
triagem com a assistente social, o que
aconteceu somente um mês depois. No dia da
triagem lhe pediram a “papelada” para ela
conseguir o benefício, entregue no dia
seguinte, graças ao dinheiro da condução que
seu marido pediu emprestado a um amigo. Um
mês depois, ela obteve a resposta de que faria
o tratamento de seu filho gratuitamente, tendo
a permissão para marcar a primeira consulta
que aconteceria no dia seguinte. Do primeiro
contato até a marcação da consulta se
passaram cinco meses. Entretanto, surgiu um
novo problema — ela não tinha dinheiro para
levar o filho à instituição. Orientaram-lhe
então, a solicitar a aposentadoria de seu filho,
o que exigia que ela tivesse relatórios médicos
que demorariam mais um mês. Resolvido o
problema da aposentadoria, conseguiu realizar
diversos
exames
e
consultas
com
especialistas e depois de um ano os médicos
chegaram à conclusão de que o melhor
atendimento para a criança, que já estava com
mais de 6 anos, era mesmo num CAPS.
Esse caso exemplar demonstra que o
percurso para obtenção de atendimento
adequado ao caso do Leandro durou em torno
de um ano e meio e a situação ainda perdura
até hoje.
Outras
dificuldades
relativas
à
qualidade do serviço foram destacadas nas
entrevistas, entre elas, a falta de atenção dos
profissionais,
a
insatisfação
com
os
atendimentos,
os
encaminhamentos
equivocados, a falta de acolhimento e escuta.
Esses aspectos são imprescindíveis para o
entendimento do histórico do acesso aos
serviços de saúde, principalmente quando se
trata de pessoas em sofrimento psíquico. A
demanda desses usuários é diferenciada,
exigindo
uma
maior
compreensão
e
acolhimento dos serviços pela complexidade e
sensibilidade inerente ao campo da saúde
mental. Para esses usuários, é imperioso que
a atenção à saúde esteja pautada na
satisfação dos pacientes e familiares,
reforçando o vínculo com o serviço de saúde.
As pessoas não precisam apenas ser
atendidas, elas têm o direito de ser bem
atendidas.
As mudanças introduzidas a partir da
entrada no CAPS
O presente estudo mostra que a
utilização dos serviços de saúde mental no
CAPS Casinha modificou a vida das famílias
que participaram desta pesquisa no âmbito
pessoal, relacional e familiar. O CAPS
Casinha tem grande importância para esses
usuários porque produziu, pelo contato com o
serviço, novas atitudes e comportamentos na
criança e na família. O acolhimento e a escuta
realizados pelos profissionais do CAPS
funcionam como um novo estímulo para as
famílias. O atendimento realizado pelo CAPS
põe fim à espera, à busca por atendimento, à
ansiedade e ao desamparo sentido pelas
famílias. Por isso, o encontro com uma
unidade de saúde pautada na qualidade da
atenção é o elemento mais precioso na
avaliação das famílias. O acolhimento inicial
dos profissionais produz um sentimento de
cuidado nos usuários. Os psiquiatras também
têm um papel importante, dando um
diagnóstico, medicando adequadamente a
criança e acompanhando de perto a evolução
de cada caso. Fica estabelecida, desse modo,
uma relação de confiança e cumplicidade.
Sobre as mudanças ocorridas com
seu filho Nilton, 8 anos, Margarida diz:
Quando eu cheguei aqui, (...) pra mim eu tinha
tido um filho extra-terrestre, eu era a única do
mundo, todo mundo me acusava, eu achava.
Depois, (...) lentamente, quando eu comecei a
participar do grupo de mães, eu comecei a ver
que não é assim, comecei a aceitar o
problema do Nilton, a ajudar, a não esconder.
Antes eu escondia, não queria tratar pra não
assumir o problema dele. Comecei a me
assumir como mãe dele e comecei a ajudar
ele. [...] Eu também comecei a melhorar,
comecei a ver o mundo diferente, não como
eu tava vendo antes. Não como se ele fosse
uma tragédia na minha vida, que ele não é.
Comecei a ver as ‘qualidade’ dele e agora
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Falavina OP, Cerqueira MB
mais ainda que ele tá bem melhor. [...] Quem
já passou tudo o que eu passei, de ir pra lá e
pra cá sem solução... Você fica sem saber o
que fazer da vida. Se você tem dinheiro você
consegue, mas se você não tem, arrasta o
problema para o resto da vida.
A narrativa dessa mãe introduz
elementos fundamentais sobre a relação entre
o perfil dos usuários e o acesso aos serviços
de saúde. O impacto do atendimento
satisfatório, do ponto de vista do usuário,
transforma o perfil das famílias. As mães
encontram espaço para convivência com
pessoas na mesma situação pela participação
nos grupos de encontros. Essa participação
interfere diretamente na maneira de tratar o
filho, constituindo os primeiros passos para a
aceitação da criança, seus limites e
possibilidades. Além disso, existem reuniões
freqüentes com a equipe do CAPS para a
comunicação dos avanços e retrocessos nos
tratamentos dos filhos. A família também
recebe atenção e conseqüentemente, a
criança deixa de ser o foco dos problemas
para ser apenas o motivo dos pais estarem lá.
A interação dos usuários com os familiares, e
destes com os profissionais, pode trazer
sempre novos elementos para renovar as
8
relações institucionais, pessoais e sociais .
Telma, mãe de Breno, 13 anos,
complementa as impressões de Margarida
trazendo informações sobre o esquema de
trabalho desenvolvido no CAPS:
Eles cuidam da gente como se a gente fosse
uma família mesmo. [...] Eles sempre
devolvem pra gente tudo o que acontece aqui
de bom ou de ruim, que tem que arrumar. (...)
coisa que não tá evoluindo, eles sempre
sentam, conversam, explicam: ‘–Olha, tenta
fazer dessa forma. Vamos ver como é que vai
ser a reação’. Eu sempre tenho um bom
retorno.
Observa-se que o CAPS inclui os pais
no tratamento da criança, interagindo com eles
o tempo todo. As famílias são orientadas
sobre a maneira mais adequada de tratar e
lidar com a criança, no sentido de que as
melhoras surjam mais rapidamente. Ademais,
os pais também parecem ser convocados e
aceitam se responsabilizar pelo processo de
transformação. Os profissionais deixam muito
claro que as mudanças também dependem
deles, de sua implicação com o processo.
As crianças, por sua vez demonstram
estar muito satisfeitas com o atendimento
recebido. Margarida, ao contar sobre como
Nilton vê o CAPS Casinha, diz que ele se
sente muito bem lá, que adora os novos
colegas e as brincadeiras, assim como os
profissionais, sendo o único lugar em que ele
não é discriminado. Esse tratamento
diferenciado faz com que a auto-estima do
menino, e de outras crianças, melhore,
estimulando-as a desenvolver atividades
variadas e a trocar experiências. Esse espaço
de convivência comunitária, para muitas
crianças o único viável, se torna uma grande
oportunidade de socialização.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo identificou uma série de
aspectos, problematizados a partir da
pesquisa com a população infanto-juvenil
usuária de serviços de saúde mental. São
inúmeros os fatores relevantes evidenciados,
seja no âmbito do sistema de saúde, do
atendimento ou da rotina dos profissionais de
saúde.
O
desconhecimento
e
a
desinformação sobre a saúde mental mostram
que a necessidade de debate sobre as
dificuldades a serem enfrentadas são tão
grandes quanto a relevância dos episódios
bem sucedidos na busca por acesso e
utilização dos serviços de saúde. Não resta
dúvida de que o produto desta pesquisa
cumpriu seu objetivo, ao apresentar o perfil e a
trajetória das famílias em busca dos serviços,
contribuindo com elementos importantes para
o planejamento e gestão de unidades de
saúde mental voltadas para crianças e
adolescentes.
No tocante aos problemas de
interação social, ficou claro que a escola é
fundamental na inclusão social, sendo um
espaço vivo, em constante movimento, que
oferece possibilidades para transcender as
dificuldades. Foi possível observar que a
criança que está na escola tem maiores
chances de melhorar e ampliar seu repertório
social e pessoal, apesar de, algumas vezes,
essa instituição não estar totalmente
preparada para receber uma criança em
sofrimento psíquico. A inclusão pode começar
na escola, que é um dos representantes e
integrantes do mundo para as crianças, mas
não pode terminar nela. A inclusão é um
processo que deve abrir portas e impulsionar a
criança para outras possibilidades de
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Saúde mental infanto-juvenil
socialização. Além disso, a escola implementa
rotinas, regras, convívio social variado e é
uma parceira valiosa na detecção de casos a
serem encaminhados para tratamento.
É no âmbito social que se evidencia o
quanto as crianças são afetadas pela doença
mental. As relações interpessoais são
restritas, tanto pela falta de contato com outras
pessoas, quanto pela relação simbiótica com
as mães. As crianças demonstraram não
absorver o grande impacto provocado pelo
isolamento, não apresentando uma rotina
estruturada, variação ou criatividade nas
atividades diárias. O universo infanto-juvenil é
marcado pela ausência de estímulos novos e
desafiantes fundamentais a toda pessoa. O
preconceito é muito presente na vida desse
público e suas conseqüências podem ser
psiquicamente devastadoras, seja no contexto
atual ou numa perspectiva futura.
Os
relacionamentos
familiares
também são invariavelmente atingidos pela
doença mental. Os sentimentos ambíguos, a
sobrecarga dos cuidadores e as relações de
superproteção compõem o quadro familiar
mais
comum.
Preconceitos,
tabus
e
desconhecimento sobre o tema informam o
grau
de
fragilidade
e
dificuldade
experimentado no universo familiar. O
momento que dá início à procura por ajuda e a
forma de direcionar a busca por serviços de
saúde são alguns indicativos de como a
família concebe e lida com a doença mental. O
lugar social que a criança ocupa na visão da
família, representa a maneira como ela é
tratada
e
recebida
pelos
familiares,
influenciando também na relação estabelecida
com grupos e pessoas.
Em relação à trajetória do acesso aos
serviços de saúde, o presente estudo mostra
que o Sistema Único de Saúde foi
praticamente a única opção dos usuários. As
barreiras encontradas nos serviços de saúde
são numerosas e muito freqüentes. A falta de
resolutividade dos serviços de saúde é muito
nociva aos pacientes que necessitam iniciar
tratamentos e prevenir o agravamento dos
sintomas. Em relação às dificuldades no
acesso, uma das conseqüências mais
perversas é que dificuldades na busca e
utilização dos serviços podem provocar
desistências ou abandonos de tratamentos.
Tal quadro gera ainda o atendimento tardio
pelo serviço especializado e correto, causando
sérios transtornos e comprometimentos à vida
dos usuários.
Este estudo mostra que a estruturação
adequada dos serviços públicos de saúde
mental constitui uma referência fundamental
no atendimento da população infanto-juvenil.
O CAPS Casinha, unidade utilizada pelos
participantes dessa pesquisa, expressa a
concretização do vínculo entre os usuários e o
serviço de saúde, tendo um grande significado
na vida dos pacientes e de seus familiares. A
abordagem da doença mental sob a
perspectiva familiar realizada pelo CAPS
valoriza a complexidade presente na rede de
relações implícita na saúde mental infantojuvenil. Nesta perspectiva, além de lidar
diretamente com estigmas sociais, assegurase aos usuários e aos atores que o cercam a
participação ativa nos tratamentos e no
conhecimento
sobre
o
processo
de
adoecimento.
Crianças e adolescentes são sujeitos
com necessidades particulares. Trata-se de
um momento muito importante, uma fase da
vida que abrange a constituição da identidade,
da individualidade e da subjetividade do
indivíduo. É nesse período que as
potencialidades para uma vida psíquica rica e
com recursos para enfrentar dificuldades
começam a ser construídas. A compreensão
das especificidades dessa população usuária
dos serviços de saúde mental infanto-juvenil
deve constituir a base do planejamento de
políticas públicas capazes de facilitar o acesso
e utilização dos serviços especializados para
as famílias que precisam de orientação e
direcionamento no tratamento de seus filhos.
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