FACULDADE MARIA MILZA - FAMAM
REVISTA N.° 04 - JANEIRO DE 2008
DIRETOR DA FAMAM
Weliton Antonio Bastos de Almeida
DIRETORAS DO CEMAM (Instituição mantenedora da FAMAM)
Jucinalva Bastos de Almeida Costa
Janelara Bastos de Almeida Silva
EDITOR
Maria José Lima Lordelo
CAPA
Nelson Magalhães Filho
DESIGN GRÁFICO
Antonio Wellington Melo Soua
CRUZ DAS ALMAS
2008
Gráfica e Editora Nova Civilização Ltda.
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Tel.: (75) 3621-1031 - E-mail: [email protected]
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CRUZ DAS ALMAS
Ago. - Dez. de 2007
Conselho Editorial
Edmar José Borges de Santana - FAMAM/UFBA
Elizabete Rodrigues da Silva - FAMAM
José Fernandes de Melo Filho - FAMAM/UFBA
Maria Angélica Pereira de Carvalho Costa - FAMAM/UFBA
Sérgio Roberto Lemos de Carvalho - FAMAM/EBDA
Robson Rui Cotrim Duete - FAMAM/EBDA
Carmem Lieta - FAMAM/UEFS
Ficha Catalográfica
TEXTUTA. Faculdade Maria Milza. - v. 2, n. 2. (Ago. - Dez. 2007) - Cruz das
Almas, BA.: Faculdade Maria Milza, 2008.
Semestral
ISSN: 1809-7812
1. Educação
2. Ciências Agrárias
3. Saúde
I. Faculdade Maria Milza
A simplicidade é a barbárie do pensamento e complexidade a civilização das idéias.
Morin
SUMÁRIO
Apresentação
Educação
Entre Descartes e a lingüística: bases epistemológicas acerca do problema da
origem e da natureza da linguagem.
Renato Izidoro da Silva .......................................................................................11
A cidade no romance atire em Sofia, de Sônia Coutinho: um olhar geográfico
Janio Roque Barros de Castro ............................................................................29
Análise estatística exploratória e variabilidade espacial do teor de argila em solo
coeso originado nos sedimentos barreiras
Sérgio Roberto Lemos de Carvalho; Adnailton de Jesus das Neves;
Andréa Jaqueira da Silva Borges; Kalianny Silva Marques..............................43
A Era Cenozóica e a origem da formação barreiras
Maria da Glória Figueredo Rodrigues .................................................................59
Ensaio
Gestão escolar e tecnológica: uma analise do processo de incorporação dos
recursos tecnológicos no ambiente escolar
Antonio Wellington Melo Souza; Ana Lucia Santos dos Passos...........................71
Ciências Agrárias
Cydnidae (Insecta: Hemiptera) em um agroecossistema na região Sul do estado
da Bahia, Brasil
Oton Meira Marques; Hélcio R. Gil-Santana........................................................77
Saúde
Fortalecimento da atenção básica e a sua interface com a formação profissional
na área da saúde.
Carmen Lieta Ressurreição dos Santos; Adriana Miranda de Cerqueira .............83
Diagnóstico da qualidade de vida dos idosos do grupo Viver Melhor do município
de Muritiba, Bahia.
Letícia Cardoso Braz; Rita de Cássia Santana Pimentel; Roberta Bruschi
Gonçalves ..........................................................................................................91
APRESENTAÇÃO
Este periódico está completando o seu segundo ano de existência. Isso já
se constituiu um indicativo da FAMAM, Instituição de ensino privado, que investe
na pesquisa continuadamente. Esta persistência demonstra o compromisso dos
seus dirigentes e professores na tentativa de oferecer um ensino de melhor
qualidade.
Neste número, especificamente, não se farão comentários sobre os temas
dos trabalhos. O que não foi por acaso, mas com propósito de aguçar a
curiosidade do leitor de quem se espera críticas e sugestões.
Weliton Antonio Bastos de Almeida
Diretor da FAMAM
Maria José Lima Lordelo
Editor da Textura
ENTRE DESCARTES E A LINGÜÍSTICA: BASES
EPISTEMOLÓGICAS ACERCA DO PROBLEMA DA ORIGEM E
DA NATUREZA DA LINGUAGEM
Renato Izidoro da Silva*
RESUMO: Este estudo tem como intenção mapear as bases epistemológicas
modernas que versam natureza e origem da linguagem. Para tanto, realizamos
uma discussão geral entre as posições de Descartes e a da lingüística em relação
ao tema. Basicamente, esta contenda gira às voltas da realidade tecida pela linguagem para qualquer espécie de ser, contudo, mais estritamente à realidade
humana. Orientamo-nos, portanto, pela pergunta: onde está a linguagem? No
mundo? No humano? Embora para Descartes, a primeira opção é mais válida.
Para a lingüística, a última. Cada uma destas posições oferece um solo epistêmico para pensar a constituição da humanidade dotada de linguagem: se ela é uma
natureza em si, ou se é fruto do mundo. Sobre isso, chegamos às considerações
finais pensando que é necessário acrescentar a pergunta: o que é linguagem?
Doravante, sugerimos conceber a linguagem como uma propriedade do mundo e
do humano. Sendo assim, aludimos um retorno aos primórdios da filosofia cosmológica a fim de identificar como a relação entre humano e mundo era concebida,
acreditando ser possível através disso, identificar o princípio do problema epistemológico da origem e natureza da linguagem. Se esta provém do humano ou do
mundo.
PALAVRAS-CHAVE: Linguagem; epistemologia; Descartes; lingüística; mundo.
ABSTRACT: This study has as intention to list the modern epistemological basis
about the nature and origin of the language. For in such a way, we carry through a
general quarrel between the positions of Descartes and the linguistics in relation to
the subject. Basically, this discussion turns around the reality weaveed by the
language for any sort of being, however, more closely to the reality of the human
beings. We orient ourselves, therefore, by this question: where is the language? In
the world? In the human being? Dercartes thinks that the first option is more valid.
For the linguistics, the last one. Each one of these positions offers an epistemic
ground to think the constitution of the mankind endowed with language: if it is a
nature in itself, or if it is a fruit of the world. On this, we arrive at the final
*Professor da disciplina História da Educação Física na Faculdade Maria Milza – FAMAM. E-mail:
[email protected].
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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considerações thinking that it is necessary to add the question: what is language?
From now on, we suggest to conceive the language as a property of the world and
the human being. In this way, we mention a return to the begining of the
cosmological philosophy in order to identify as the relation between human being
and world was conceived, believing to be possible through this, to identify the
principle of the epistemological problem of the origin and nature of the language: if
it comes from the human being or from the world.
KEY-WORDS: Language; epistemology; Descartes; linguistics; world.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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INTRODUÇÃO
A lingüística é a parte do conhecimento mais fortemente debatida no mundo acadêmico. Ela está encharcada com o sangue
de poetas, teólogos, filósofos, filólogos, psicólogos, biólogos
e neurologistas além de também ter um pouco de sangue proveniente de gramáticos (RYMER, p. 48, citado em
FAUCONNIER & TURNER, p. 353 apud WIKPÉDIA).
Distante de sabermos o porquê irredutível da existência, seu impulso primeiro e seu exercício de perpetuação em suas diversas formas de vida, fundamentalmente, toda formação vivente precisa contornar uma espécie de anterioridade ontológica onde e quando o ser existente percebe, vive, apreende, organiza
e pensa – vice versa – o impensado, o desconhecido ou o imprevisto tanto em si e
para si quanto no mundo e para o mundo. Sendo mais explícito, a existência apresenta-se em constantes arrolamentos educativos que resultam em formações relacionais dinâmicas entre as existências e os existentes, abalizando seus contornos, suas possibilidades e impossibilidades que, longe de serem rígidas, estão
submetidas a processos históricos e particularidades constituídos de tropeços e
estabilizações, assombros e lucidez, acontecimentos incógnitos e apodíticos, isto
é, de não-saberes que vieram a ser sabidos por construções e reconstruções
intencionais ou contingentes que, paulatinamente, foram se consolidando em
forma de usanças, leis, hábitos e culturas; formações que não escapam ao mundo, ou seja, à convivência inevitavelmente promíscua e mundana.
Com essas palavras, tentamos retomar em outros termos a clássica problemática acerca da realidade, que agitou e agita alguns neurônios e algumas partes
da mente de muitos homens no decorrer dos tempos e das civilizações. Sem
embargo, o problema da realidade estende-se ao que hoje podemos conceber
como problemas de linguagem. Por quê? A fim de discutir isso, remetemo-nos à
tradição do pensamento moderno. Arriscamos lançar algumas hipóteses retornando a Descartes por acreditar que este consiste um solo, não gnosiológico¹,
mas epistemológico do pensamento hodierno há séculos estruturado pela Ciência; lugar temporal das questões da linguagem por excelência. Por que hoje em
dia a Ciência é o lugar temporal das questões da linguagem?
Temos aí dois motivos. Primeiro, porque Descartes inaugura a prática da leitura do mundo pela consciência. De modo que, conforme Merleau-Ponty, na tradi¹Digo que Descartes não pode consistir um solo gnosiológico porque este remete à problemática da
origem e construção do pensamento acerca do mundo enquanto relação humano/realidade em seu
tempo mais primitivo. Eu diria ainda, o problema gnosiológico remeter-nos-ia ao impossível estudo do
primeiro ou primeiros humanos, que de “animal coletor, que passava toda a sua vida procurando e
digerindo brotos e frutas, um dia comeu carne, domesticou animais e plantas, construiu cidades,
fabricou artefatos e inventou a liberdade de ficar livre para nada fazer, para simplesmente sonhar,
imaginar outras vidas, outros mundos; para sonhar com a imortalidade”. (FREIRE, 1991, p. 21)
Enquanto que, remeter Descartes à condição de solo epistemológico da modernidade, é ao mesmo
tempo colocá-lo enquanto pensamento fundamental do humano já em seu estado científico e
imaginativo, conforme as palavras de Freire acima citadas.
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ção cartesiana, “se reconhece na consciência um tipo de ser único”, enquanto por
isso, “a linguagem acha-se alijada da consciência e identificada às coisas” (1990,
p.17) que a consciência apreende. Segundo, porque hoje o termo linguagem
ganhou destaque nos estudos realizados no contexto das Ciências Humanas,
muito devido a sua apropriação pela lingüística, que a tomando por objeto central,
ocupou politicamente o lugar de representante mor da Ciência no âmbito das Ciências Humanas referente à problemática da realidade. Este último motivo são aqui
as bases de nosso problema, enquanto o primeiro, apresenta-se como orientação
para a criação de possíveis esclarecimentos e elaborações de novos paradigmas
para a questão da realidade.
O segundo motivo veio no século XX consistir na criação de um problema
para nós, porque a lingüística, agindo sobre a clássica concepção cartesiana, desloca a linguagem de seu lugar no mundo, e a restringe à natureza humana. Em termos brutos, a lingüística retira o poder de linguagem do mundo, para o interior das
capacidades exclusivamente humanas. Longe de inclinarmo-nos a uma crítica
moral sobre a referida ciência, partimos do pressuposto de que ela assim cria um
problema. Onde está a linguagem? Na natureza? No humano? Ora, se na primeira, damos razão a Descartes, na segunda, damos razão aos lingüistas. A propósito, sobre esse diálogo, não podemos pensar na figura da inversão, mas quem
sabe, na da oposição entre o primeiro e os segundos. De modo que, estes não
invertem o raciocínio cartesiano porque não lançam a consciência para fora – no
mundo2 –, eles simplesmente atribuem interioridade humana à linguagem ao lado
da consciência assim como Descartes atribuía a esta última.
Em consideração a esta peleja, sem dúvida, o primeiro passo pode ser atribuído ao movimento de Saussure em seu “Curso de lingüística geral”, publicado
postumamente em 1916. Foi neste fluxo que Saussure destinou sua atenção nos
meios de comunicação humana. Mais estritamente, ele passou a estudar os fundamentos da comunicação humana através da língua. A estrutura desta era formada pela relação entre os significantes e os significados, dentre os quais a referência mundana fora descartada. Diferencia-se, portanto, dos lingüistas precedentes que se dedicavam ao estudo da relação da palavra enquanto nominação
referente aos objetos presentes no mundo. Outro aspecto no qual Saussure se
diferencia dos estudiosos anteriores, é o enfoque no aspecto sincrônico ao invés
de diacrônico. Este último teve como primeiro estudioso Sir William Jones. Essa
questão não nos diz respeito por enquanto aqui neste trabalho. Então, fiquemos
apenas com a primeira diferenciação.
Segundo Garcia-Rosa (1995, p. 13), em “Sobre a essência da verdade”
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Isso quem faz é Husserl, quando no final de sua obra ele diz que a consciência não é formada
exclusivamente na perspectiva do humano, mas que ela constituída pelo próprio mundo, que mais
propriamente é chamado de mundo da vida. É comum pensar que Husserl mundanizou a consciência,
isto é, deslocou o pensamento cartesiano do ego para o mundo da vida. Dessa forma, a consciência
deixa de ser um simples objeto de percepção do mundo, para se transformar na própria ação ou
intencionalidade do objeto em ser consciente para outrem. No vemos então às voltas do tema da
intersubjetividade. Essas colocações podem ser estudadas na obra “A fenomenologia” de Lyotard,
1967.
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“Heidegger pergunta sobre a essência da verdade. Seu ponto de partida é o conceito corrente, aquele que chegou até nós, originário da filosofia medieval: Veritas
est adaequatio rei et intellectus (Verdade é a adequação do intelecto à coisa)”.
Bem longe de solucionar nossa questão, o litígio retomado pelo filósofo carioca
segundo as palavras de Heidegger, trás a nós um pouco da mentalidade medieval
acerca dos problemas da linguagem em relação à realidade. Mais ainda, em se tratando de Descartes, não podemos nunca duvidar da afirmação que da própria
boca saiu em o “Discurso sobre o método”: de que não teria abandonado toda ciência que o constituiu na juventude. Mas que, sobre esta, deveria refletir com razão
como forma de verificar se a ele serviria ou não (DESCARTES, 1978). Queremos
dizer que se a oposição entre Descartes e os lingüistas está justamente no ponto
onde cada qual dá lugar à linguagem, o primeiro pôde ter revisto a tese escolástica
sobre a relação entre linguagem e mundo, mas não a abandonado. O que explicaria a afirmação de Merleau-Ponty no início deste texto.
Na verdade, Saussure se liberta desta questão sobre a qual Heidegger permanece insatisfeito, por meio de seu conceito de arbitrariedade do signo. Ou seja,
Saussure reduz a relação entre palavra e coisa a uma simples relação arbitrária de
nominação por parte do humano em uso da primeira sobre a segunda. Em suma, o
pensador em questão, descola o movimento e a produção da palavra de seu vínculo com o mundo das coisas. A palavra enquanto “significante” passa a se relacionar com o “significado”, isto é, seu conceito na versão humana. Mais do que um
simples descolamento da realidade mundana, Saussure possibilita vislumbrarmos uma realidade estritamente signatária. O que significa dizer que o signo se
restringe à realidade psíquica. Ora, se a crítica de Peirce dirigia à Saussure é justamente sobre a diática que este propõe, é porque o terceiro excluído deste
esquema é justamente a realidade, ou o objeto. Para tanto buscamos apoio na
obra “Introdução às teorias semiótica” de Souza:
A tradição semiológica teve o mérito de nos resguardar da tentação de buscarmos a aderência dos signos com os objetos
do mundo real, para podermos sempre pensarmos (sic) em
termos de representação. Quando a teoria peirceana começou a ser conhecida, a presença do objeto do signo nas divisões triádicas confundiu muita gente que não deixou de perceber uma semiótica que leva necessariamente a um estudo
sobre a realidade das coisas representadas, e de coisas visualmente dadas (SOUZA, 2006, p. 165).
A passagem acima ajuda-nos a constatar que o campo da lingüística, eminentemente saussuriana, voltou-se aos estudos dos problemas da língua (langue), ou da estrutura signa enquanto tecido ou realidade psíquica e social humana. Pensar os problemas da realidade e da linguagem nesta discussão acadêmica
entre Peirce e Saussure faz-nos relembrar as palavras de Merleau-Ponty quando
diz que o “problema da linguagem situa-se entre a filosofia e a psicologia”. Por
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quê? Porque o primeiro citado retoma justamente a discussão tradicionalmente
filosófica referente à relação entre “nome” e “coisa”, que o segundo deixou de
lado. Fato que evidencia a intenção peirceana de dirigir sua semiótica a qualquer
contexto da realidade, inclusive o que se acostumou restringir aos estudos por
parte das Ciências Naturais.
Sem embargo, sobre esse assunto, vale lembrar Foucault (1979, p. 5),
quando afirma que se deve ter como referência não o grande modelo da língua e
dos signos, mas sim da guerra e da batalha. Pois, a historicidade que nos domina
e nos determina é belicosa e não lingüística. Assim, o problema da linguagem não
pode ser reduzido à forma apaziguada e platônica do diálogo entre palavras e idéias. Esta parte violenta a que Foucault se refere é justamente a parte real do objeto
que Saussure preferiu descartar enquanto realidade não signa. Para o pensamento foucaultiano, o corpo não é um simples signo, mas, acima de tudo, uma realidade material que sente dor, cuja palavra não diz nada sem a presença concomitante
e maciça do fio da espada ou do cano do revólver.
Sendo assim, chamamos novamente à baila Descartes, esclarecendo por
que caminho tentamos percorrer. Alertamos sobre isso, por constatar a possível
estranheza com que aqui ele está sendo abordado, de modo que, por muito tempo
Descartes foi tomado como ícone mor do pensamento teórico em detrimento do
pensamento prático. Em outros termos, é comum pensarmos no mencionado
como sendo o filósofo da mente em detrimento de uma filosofia do corpo. Esta
perspectiva o aproximaria mais de Saussure do que de Peirce ou Foucault.
Mesmo porque, o primeiro lança duras críticas ao filósofo. Como solucionar isso?
Repensando Descartes! Ora, queremos dizer, é possível pensar Descartes de
outra perspectiva, a da contradição interna de seus pensamentos, trazendo-o a
outro lugar, quem sabe absurdamente ao lugar do corpo? Mas, com certeza ao
lugar da realidade e existência de Deus como garantia de sua própria. Como?
Atentando-nos particularmente aos pontos que sua certeza claudica.
O SUJEITO CARTESIANO: DO PODER SOBRE O DISCURSO À
CONSCIÊNCIA LIMITADA DO PENSAR
Quanto a isso, temos que tomar cuidado, de maneira que, não podemos
deslocar Descartes do importante lugar que ocupa neste trabalho para o lugar de
objeto do mesmo. Contudo, não vemos saída, a não ser aventurarmo-nos no interior do pensamento cartesiano, com o intuito de encontrarmos indícios que possam dar aderência às nossas desconfianças. Para tanto, iniciemos pela direção
que a crítica de Peirce nos oferece sobre a filosofia cartesiana. Ainda conforme
Souza, “a semiótica de Peirce não é psicologizante e recusa o sujeito do discurso
(crítica a Descartes), ela é fundamentalmente social, diz Deladalle. Peirce sempre
defendeu a natureza social do signo [...] eliminando simplesmente o sujeito do discurso”. (SOUZA, 2006, p. 157) Sumariamente, como opor Saussure a Descartes
nestas condições? Propomos ensaiar uma resposta partindo da pergunta: o que é
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o sujeito cartesiano? Bem como, o que é realidade cartesiana?
Tangenciando a primeira pergunta, se Souza não estiver enganada, é possível afirmar que Peirce em ao menos um ponto foi certeiro em sua crítica sobre
Descartes, pois o problema do discurso foi mesmo um forte problema para a
empreitada cartesiana na medida em que aí foram reformulados os caminhos
para se chegar à verdade. Quem sabe fique mais claro se permitirmo-nos lembrar
que a obra o “Discurso sobre o método” foi escrita em latim. Sendo assim, segundo a tradução que consta no “Dicionário básico de filosofia” de Hilton Japiassú, discursus pode ser traduzido por conversação. Com isso em mãos, basta lembrarmos a forma como Descartes atinge suas conclusões: temos então a imagem da
conversação. Ou ainda, a imagem de Descartes conversando com os próprios
pensamentos. E se ainda, sobre isso acrescentarmos que segundo Japiassú
(1996, p. 74), na “acepção tradicional, o discurso não é uma simples seqüência de
palavras, mas um modo de pensamento que se opõem (sic) à intuição”. Temos,
portanto, a relação entre o sujeito e o pensar, logo, que o sujeito não é o pensar,
mas algo que contém o pensamento, assim como contém a intuição.
Contudo, sobre o pensamento mais comentado da modernidade há um
dado interpretativo a ser acrescido. Essa observação já fora por nós publicada no
trabalho de título “Filosofia, literatura e educação: as imagens constituintes do
espírito moderno”. Dissemos lá que embora a modernidade, contestando a Escolástica, seja marcada pela compreensão racional do mundo, que ganha vigor na
construção de uma nova realidade pela presente literatura filosófica, a existência
de Deus continua em pauta só que agora em sentido inverso, ela não viveria fora
do próprio sujeito e, muito menos, produzida por ele. Deus é o fundamento inato
do ser humano; uma idéia colocada pelo próprio Deus (SILVA, 2006).
Vamos dirigir nossa atenção na discussão em torno de Deus, que ao contrário de ser um assunto morto, permanece eminentemente constituinte do pensamento moderno. Na filosofia de Descartes, por exemplo, Deus ocupa lugar central
na direção que seu pensamento caminha. Como é possível perceber na citação
acima, Deus está no interior do sujeito, mas não é produzido por este. Neste caso,
Deus é fundamento do ser humano, em sendo fundamento, é dele que o existir
humano nasce tendo como comprovação a percepção consciente do próprio pensamento. “Penso, logo existo!” Sumariamente, devemos perceber que Descartes
não funda nem preserva o “sujeito do discurso” pura e simplesmente como quiseram os modernos ao dizer que ele centraliza o “sujeito em si mesmo”. O pensar cartesiano estabelece uma dialética paradoxal com algo externo que é interno. Descartes dialoga não com o “si mesmo”. Não certamente, se trata de um diálogo
entre a consciência (em si) e a linguagem (externo). Mas certamente, é possível
desvendar uma conversa que Descartes estabelece com Deus, que apesar de
estar no interior do sujeito, ele o precede independentemente. O “sujeito cartesiano” não pode ser algo em si, porque sempre está sujeito aos auspícios de Deus.
Sem esquecer que para Descartes, Deus possui seu lado mal que forja a existência de um “Deus maligno” com quem perenemente tem de lidar e cuidar para não
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ser enganado.
Com certeza há um discurso cartesiano, mesmo porque, se discurso significa modo de pensar em oposição à intuição ingênua, Descartes procurou reformular seus percursos e modos de pensar que até então foram formados pelos seus
aprendizados de juventude escolástica. Mas a questão principal não estava guardada aí. O sujeito em questão é o da consciência/certeza acerca do pensar
enquanto realidade, independente do modo. De modo que, no que concerne a
este, a verdade nunca está clara, mesmo porque, é o que menos importa, já que
qualquer um pode produzir um discurso verdadeiro, mas a verdade mesma ficou
resguardada no fato de o humano pensar. Sendo o humano uma coisa, ele é uma
coisa pensante. A presença do pensar enquanto movimento ou agito na coisa, faz
com que esta perceba a si própria.
Descartes pôde até ter desejado o domínio absoluto sobre seus pensamentos, em que aí teríamos o “sujeito do discurso” expresso em sua escrita, já que, em
sua própria pena, é o discurso que se desenha dela, enquanto os pensamentos
são ainda maiores e menos claros, pois assim como um objeto observado pelo pintor, os pensamentos não são evidentes em todas as suas faces. Mais além, é sabido que graças ao “Deus Maligno” que habitava os pensamentos cartesianos,
estes não podem ser levados em consideração quanto à apreensão da verdade,
esta dádiva fica por conta da consciência: a verdade não é nem os pensamentos
nem os discursos. Assim como em Peirce, o sujeito ou o eu, é o lugar onde ocorrem os pensamentos, restando ao sujeito enquanto apreensão da verdade, apenas perceber que ali ele pensa, mas que ele não tem domínio de seus pensamentos, que são seus porque ali estão, mas não porque os controla, e que, portanto,
sendo uma coisa pensante, ele existe. Em seu “Discurso sobre o método” Descartes diz: “Quanto a mim, nunca supus que meu espírito fosse em nada mais perfeito
do que os dos outros; com freqüência desejei ter o pensamento tão rápido, ou a
imaginação tão clara e diferente, ou a memória tão abrangente ou tão pronta, quanto alguns outros” (DESCARTES, 1978).
Com essa citação, é possível perceber no pensamento ou discurso de Descartes a confissão, de sua própria parte, de que sobre seus pensamentos não
tinha ele próprio controle. Pois, ao declarar que por vezes desejou que seus pensamentos tomassem algumas formas em relação a “alguns outros”, ele demonstra
que isso não foi possível de ser realizado. Seguindo com um parágrafo seguinte
da obra em pauta, vemos Descartes mais próximo de Peirce do que de Saussure,
de modo que, há a presença da realidade na determinação de seus pensamentos.
Disse bem, na determinação de seus pensamentos.
Mas não recearei dizer que julgo ter tido muita felicidade de
me haver encontrado, a partir da juventude, em determinados
caminhos, que me levaram a considerações e máximas, das
quais formei um método, pelo qual me parece que eu consiga
aumentar de forma gradativa meu conhecimento, e de eleválo, pouco a pouco, ao mais alto nível, a que a mediocridade de
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meu espírito e a breve duração de minha vida lhe permitam
alcançar (DESCARTES, 1978).
Não deve ter sido à toa que nosso fundamental filósofo deu à sua obra o
nome de “Discurso do método”. Ora, se discurso significa justamente um modo de
pensamento, no título do trabalho ele diz demonstrar no respectivo escrito, o
“modo de pensar” que seu “método” apresenta. Mas, se formos mais fundo, veremos uma construção metodológica determinada não pelas intenções do sujeito,
mas sim das intenções deste, sujeitas a uma realidade, ou a alguns caminhos que
o levaram aonde com muita sorte conseguiu chegar. Ou seja, fica difícil dessa perspectiva olhar Descartes como o fundador do “sujeito do discurso” em detrimento
do que aqui estamos vislumbrando: ele como fundador do sujeito enquanto assujeitado em relação ao mundo. Se Descartes colocou os pensamentos no sujeito é
porque colocou Deus em nosso interior, sendo que os lingüistas colocaram a linguagem como propriedade do mesmo, a ponto de algumas vezes chamá-lo de “sujeito de linguagem”. Em Descartes o sujeito não é nem dono do discurso e muito
menos da linguagem.
Imitava nisso os viajantes que, estando perdidos numa floresta, não devem ficar dando voltas, ora para um lado, ora para
outro, menos ainda permanecer num local, mas caminhar
sempre o mais reto possível para um mesmo lado, e não
mudá-lo por quaisquer motivos, ainda que no início só o acaso
talvez haja definido sua escolha: pois, por este método, se
não vão exatamente aonde desejam, ao menos chegarão a
algum lugar onde provavelmente estarão melhor do que no
meio de uma floresta. E, assim como as ações da vida não
suportam às vezes atraso algum, é uma verdade muito certa
que, quando não está em nosso poder o distinguir das opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis;[...] (DESCARTES, 1978).
Todavia, a obra do filósofo do bom senso oferece-nos passagens enganosas e opositoras em relação a isso que estamos tentando elaborar. Por exemplo,
ele é muito claro ao dizer que a ele só resta o poder sobre os próprios pensamentos:
Minha terceira máxima era a de procurar sempre antes vencer
a mim próprio do que ao destino, e de antes modificar os meus
desejos do que a ordem do mundo; e, em geral, a de habituarme a acreditar que nada existe que esteja completamente em
nosso poder, salvo os nossos pensamentos, de maneira que,
após termos feito o melhor possível no que se refere às coisas
que nos são exteriores, tudo em que deixamos de nos sair
bem é, em relação a nós, absolutamente impossível.
(DESCARTES, 1978).
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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Mas, no fundo Descartes nem mesmo foi pretensioso em relação ao que lhe
parecia mais simples, e mais justo: ter o domínio dos próprios pensamentos. Digamos que ele desejou isso, e que chegou por algum momento acreditar, para depois verificar que nem mesmo sobre os próprios pensamentos o ser humano tem
controle. Para isso, é necessário fisgar no “Discurso do método” elaborado por
Descartes alguns fragmentos onde sua certeza sobre o controle acerca dos pensamentos claudica.
Depois de haver-me assim assegurado destas máximas, e de
tê-las separado, com as verdades da fé, que sempre foram as
primeiras na minha crença, julguei que, quanto a todo o restante de minhas opiniões, podia livremente procurar desfazerme delas. E, como esperava chegar melhor ao fim dessa tarefa conversando com os homens, do que prosseguindo por
mais tempo fechado no quarto aquecido onde me haviam surgido esses pensamentos, recomecei a viajar quando o inverno ainda não terminara (DESCARTES, 1978).
Confiando na tradução que nos foi possibilitada, mesmo sabendo que um
simples erro de tradução pode condenar nosso trabalho às favas, é evidente que
nesta passagem os pensamentos são apresentados sob o caráter da autonomia.
Descartes diz que os pensamentos haviam-lhe surgido. Se ele atribuísse verdadeiramente poder sobre os pensamentos, teria afirmado, quem sabe, que ele os
teria provocado ou criado. Sobre isso, Descartes dá-nos a resposta ao atribuir a
existência de tudo nele e em nós a Deus. Realmente, o tom afirmativo com que
Descartes transmite-nos a imagem do homem que na modernidade forjou o “sujeito do discurso”, mascara sua impotência diante da totalidade dos pensamentos
que lhe ocorriam sem controle. Diante da presença de um “gênio maligno”, manipulador de seus pensamentos, resta-lhe a certeza pela via da consciência. Em
“Meditações sobre filosofia primeira”, Descartes sofrendo o descontrole dos próprios pensamentos que por vezes o enganava, anuncia:
Irei supor, então, não a existência de uma divindade (...) um
gênio maligno, que é ao mesmo tempo sumamente potente e
enganoso, empregue toda seu talento para lograr a mim. Vou
acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e
todas as demais coisas externas são nada mais do que ilusões de sonhos, que esta criatura emprega para me iludir
(DESCARTES, 1999).
Se há um Deus que dá a Descartes pensamentos enganosos, fica claro que
o cartesianismo não declara pretensiosos poderes sobre os pensamentos. E
mesmo que, no decorrer de suas “Meditações”, ele tentasse eliminar de seus pensamentos o “gênio maligno”, dizendo a si mesmo que Deus, sendo perfeito, não
poderia ser maligno, mas um ser de bondade; as falhas em relação à verdade estaTextura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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riam sempre presentes em nossa natureza imperfeita. Mas, de qualquer forma, ao
levar a “duvida pensante” enquanto a única verdade sustentável, a possibilidade
do engano permanece bem viva, tão viva que Descartes só tem certeza na dúvida
que pode lançar sobre qualquer pensamento, mesmo que estes sejam introduzidos em sua mente pelo “Deus enganador”. Mais ainda, mesmo que Descartes
tenha conseguido eliminar a propriedade maligna dos pensamentos, um sujeito
que controla seus próprios pensamentos nunca poderia errar. Contudo, o filósofo
reconhece a inevitabilidade do erro para o ser humano enquanto pensante, reservando sua certeza apenas para a consciência. Basta agora perguntarmos: o que
pode ser o Deus de Descartes?
O HUMANO: FILHO OU PAI DA LINGUAGEM?
Há muito mais problemas de linguagem na obra de Descartes do que nossa
vã filosofia possa pensar. Mas, no que concerne aos nossos apontamentos que
possibilitam apreender a filosofia cartesiana em termos do advento de um sujeito
centrado na consciência, mas descentrado da produção discursiva, vemos aí a
questão da linguagem saltar aos nossos olhos não por que propriamente Descartes se identificou com essa problemática mais moderna que renascentista ou medieval. Como já dissemos aqui, a preocupação no tempo de Descartes mais próxima desse assunto, pode ser demonstrada nas discussões sobre a relação entre
palavra e coisa. Logo, é preciso pensar que a coisa só tem realidade pelo pensamento. Em sendo isso, a palavra é uma representação do pensamento em relação
à coisa. Temos então uma relação linear entre coisa, pensamento e palavra. Neste
caso, temos a “coisa pensante” que possuí a “consciência de si e do mundo
enquanto coisa pensada e falada”. Para tanto ele diz ter abandonado “totalmente
o estudo das letras”. Decidindo por “não mais procurar outra ciência além daquela
que poderia encontrar em mim mesmo, ou então no grande livro do mundo, aproveitei o resto de minha juventude para viajar...” (DESCARTES, 1978).
Com essa citação, contamos com a proposição de Merlau-Ponty acerca da
natureza da linguagem em Descartes: o “mundo” e o “si mesmo” são coisas a
serem lidas. Mas, temos muitas outras interpretações presentes em nosso universo acadêmico. Chomsky é um desses acadêmicos que tenta retomar o início do
pensamento moderno no que tange aos estudos da lingüística. Segundo ele, “Descartes devotou pouca atenção à linguagem e suas poucas observações estão sujeitas a várias interpretações” (CHOMSKY, 1972). Muitos autores colocam a lingüística de Chomsky como cartesiana por excelência. Com efeito, não poderia ser
diferente para quem propôs uma natureza genética ou filogenética da língua no
ser humano. Crítico dos behavioristas, ele descarta a importância do meio ambiente atual para o desenvolvimento da língua natural. Tal posição se assemelha ao
conceito de centramento no sujeito atribuído a Descartes, já que, como discutimos
acima, este é tido como o fundador do “sujeito em si e para si”. Chomsky atribui a
natureza da linguagem a estruturas elementares que antecedem ao próprio
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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desenvolvimento do sujeito falante. Mais ainda, afirmando fazer parte da natureza
humana a fala, é como se essas estruturas elementares conduzissem o ser humano às produções lingüísticas.
Descartes e Chomsky partem de um mesmo princípio lógico só se diferenciando nos paradigmas epistemológicos. Se o primeiro diz que as coisas existentes
em nós foram colocadas por Deus, o segundo restringe a questão ao universo da
linguagem, acaba por passar a imagem de algo – estrutura – que fora colocado no
cérebro humano pelo processo evolutivo da humanidade. A genética de um é metafísica e a do outro é física, respectivamente.
Já com relação ao paradigma saussuriano, Chomsky se desvincularia justamente por causa de sua perspectiva genética “darwinista”, de maneira que, a lingüística de Saussure pensa a linguagem humana em termos de “corpus de enunciados” que beira a metafísica cartesiana, guardando a diferenciação que aqui já
foi feita.
Com efeito, a diferença de Chomsky em relação a Peirce se aproximaria de
sua diferença com respeito a Descartes, com a distinção de que Peirce tem, apesar de negar, como paradigma uma sociolingüística3, enquanto, podemos dizer ironicamente, Descartes propõe uma teolinguística, quando afirma que a diferença
entre os humanos e os animais guarda-se no fato de estes últimos não terem
alma, sendo que a presença desta nos primeiros pode ser demonstrada pela
expressão dos pensamentos em forma de palavras. Com efeito, é necessário aproximar Descartes mais de Peirce do que de Chomsky, porque no final de contas, a
genética cartesiana surge de uma existência não apenas estrutural, mas também
ativa nas reestruturações e enganos dos pensamentos, mais ainda, ela forja o pensamento na “máquina” – corpo – tal como Peirce diz ser o “interpretante”, signos
que atuam presentemente no cérebro. Portanto, para Peirce e Descartes as raízes do pensamento – o discurso – estão em um lugar que não é o próprio corpo,
mas que atuam nele. Nem em um nem em outro, há uma noção de inconsciente no
sentido mais radical que há em Freud, assim como há em Chomsky – os processos das estruturas cerebrais que sustentam estruturalmente as atividades formais
da mente.
Em meio a isso, Saussure pode ser visto logicamente como um estruturalista assim como Chomsky, contudo as estruturas que pensa a lingüística saussureana são de ordem social e não físicas. Mas, isso não permite uma identificação
direta com Peirce, já que na semiótica saussureana, como escrevemos anteriormente, descarta-se o objeto, além de propor uma estrutura de significação que se
limita a relações diáticas e estáticas entre significante e significado – signo –, de
forma que, Saussure pensou que toda e qualquer língua está sustentada por essa
estrutura, variando apenas na questão formal por causa da “arbitrariedade do sig3
É possível pensar em uma sociolingüística em Peirce, desde que não o restrinjamos a isso. Ou seja,
desde que pensemos que esta seja apenas uma parte de seu sistema sócio-semiótico, já que este, tem
a intenção de operar em outras áreas onde o signo lingüístico não atua. Um exemplo: no campo das
Ciências Naturais.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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no” que ele coloca como princípio paradigmático de seus estudos.
Parece-nos que conceber Descartes, conforme a consideração de Merleau-Ponty e também o aproximando do pensamento de Peirce, é tentar atacar o problema que no início anunciamos como sendo uma produção da lingüística saussureana conforme o trajeto de seus estudos acerca da natureza da linguagem e relação do humano com a realidade. Por exemplo, os estudos de Peirce são críticos
aos dos saussureanos, na medida em que sua semiótica não pretende se limitar
aos estudos culturais e também porque não tenta aplicar a estática e a dinâmica
dos códigos verbais aos demais domínios da significação (JULIO, 1995).
Mas, umas coisas têm de ser reconhecidas. O projeto para uma “ciência
geral dos signos” de Saussure assemelha-se às intenções do projeto peirceano,
de forma que pretendia uma extensão aos diversos campos dos estudos científicos. Portanto, a pretensão de uma “ciência geral dos signos” significaria uma nova
base epistemológica para as ciências, de maneira que, romperia com a ciência
clássica que pauta suas investigações não no conhecimento sobre as representações signas, mas inversamente, sobre as realidades materiais, em que a lingüística seria apenas uma parte. Ocorreu que, e aí temos a base prática de nossa problemática, o próprio Saussure deu uma ênfase aos estudos semióticos de viés lingüístico, acabando por historicamente produzir entre ambos uma ligação muito
estreita, até mesmo por vezes indistinta.
Todavia, nossa dificuldade não está diretamente reservada a este assunto;
a da ligação às vezes indistinta entre semiótica geral e lingüística. Nosso sono passou a ser consideravelmente perturbado a partir do momento em que percebemos
uma confusão ainda maior. A semiótica saussureana teria forjado um fundamento
epistêmico em que a linguagem se confundiria às estruturas de uma língua. Além
disso, os estudos da linguagem por parte da lingüística restringiram a primeira ao
contexto humano em detrimento de seu caráter geral. Com efeito, nosso problema
nasce da prática ou do uso que a lingüística tem feito da linguagem, o que inevitavelmente resulta em um problema teórico, porque acaba por determinar as bases
epistemológicas que hoje construímos sobre os estudos culturais.
Quiçá, o estruturalismo saussureano em seu viés fortemente lingüístico
exercido nos estudos culturais, curiosamente não se iniciou da parte de um lingüista, mas, da de um antropólogo ou etnólogo: Claude Lévi-Strauss. Segundo o
próprio, acerca do artefato representante e/ou fundante da cultura, há que se descordar do costume que define o “homem como homo faber, fabricante de utensílios, vendo nesse caráter a própria marca da cultura”, para então abordar o problema “na linha de demarcação entre cultura e natureza não nos utensílios, mas na linguagem articulada” (CHARBONNIER, 1989).
Aqui vemos abertamente o princípio epistemológico do estruturalismo de
Saussure como determinante na diferenciação entre cultura e natureza. Ou seja, o
mundo dos objetos é aí descartado para dar ênfase à linguagem em seu caráter
humano. Sem dúvida, Lévi-Strauss toca em outros aspectos da linguagem de
modo a demonstrar uma retirada de tal posição teórica. Diz que a linguagem se
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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define por sua possibilidade de ser traduzida, do contrário, como tal não poderia
ser definida. Deste ponto de vista, o antropólogo acima toca na afirmação de Descartes que diz serem os animais são seres sem alma, e isso pode ser evidenciado
pelo fato de terem pensamentos, já que não falam. Mas, mesmo aqueles que
falam, como o papagaio, não se trata de uma fala propriamente – expressão da
alma. Muito menos, diz ele, podemos acreditar que os animais falam, “embora não
entendamos sua linguagem” (DESCARTES, 1978). Ora, mas se Decartes, segundo nossa tradução, não atribui linguagem aos animais, de modo que, ele demonstra em seu comentário entender “fala” como sendo o mesmo que “linguagem”, por
que Merleau-Ponty diz ser a linguagem em Descartes algo que está localizada no
mundo e não no humano? Mais ainda, como fica Deus enquanto aquele que introduziu no humano as propriedades do pensar? Segundo a acepção cartesiana,
isso significa dizer que Deus pôs no humano a possibilidade de falar, logo a de ter
uma linguagem, diferente dos animais que agiriam tal como as máquinas.
Acreditamos que o nó górdio esteja bem aí. Ao mesmo tempo em que Descartes afirma que os animais não falam, pois não têm alma assim como os humanos, ele também afirma, tal como apresentamos em citação anterior, que se ele
não aprendesse consigo mesmo, que ele aprendesse com o “livro do mundo”, em
detrimento dos escolásticos que o precediam. Se Descartes confessa a possibilidade de se aprender com o mundo, como ele pode dizer que os animais não falam
ao mesmo tempo em que estes fazem parte do mundo com o qual ele pode aprender? Ora, a questão central para Descartes não é o mundo tal como o concebemos hoje, esse mundo físico. Na verdade, para podermos hoje viver nesse mundo
das ciências físicas, não bastaram às obras de Copérnico e Galileu, Kepler e Newton. Descartes tem seu mérito na medida em que ignora os escolásticos e emprega uma batalha com o próprio Deus. Este enquanto princípio de tudo, inclusive
enquanto princípio de realidade ou do mundo percebido, pois, embora imperfeito,
outros corpos no mundo, ou então algumas inteligências, ou outras naturezas,
que também não fossem totalmente perfeitos, deveriam “depender do poder de
Deus, de tal maneira que não pudessem subsistir sem Ele por um único instante”
(DESCARTES, 1878).
Desembocamos no problema que apontamos no tópico anterior. O que é
Deus para Descartes? Sem dúvida, é um princípio. Resta-nos agora demarcar o
fato de a linguagem não ser a mesma na obra de Descartes em relação à obra dos
lingüistas, ou daqueles que beberam da teoria de Saussure. No plano cartesiano,
a linguagem antecede o humano porque nele ela é colocada por Deus. Enquanto
para os lingüistas, não há outra entidade a recorrer para explicar a origem e a natureza da linguagem à não ser ao próprio humano. Aqui nasce um novo problema.
Nosso sono não pode ser tranqüilizado porque acabamos por ficar entre Descartes e os lingüistas. Em Descartes, não podemos mais apostar porque nossa condição ateísta não permite que operemos em termos teológicos. Entretanto, não
somos humanistas o bastante para acreditar que a linguagem provém da natureza
humana.
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No entanto, por mais absurdo que possa parecer aos nossos tempos
modernos, as teses de Descartes demonstram uma maior aderência à realidade,
comparadas às teses da lingüística que preferem se limitar à realidade psíquica
humana. Ao menos o Deus de Descartes chama nossa atenção no sentido copernicano do deslocamento do olhar religiosos, filosófico e científico. Ou seja, assim
como Copérnico preferiu não nos limitar também à realidade humana tal como
antes dele, se colocava a Terra – humana – no centro do universo. Para tanto, olhamos para o Deus cartesiano como um princípio filosófico que retira nosso olhar do
óbvio e nos leva a olhar o absurdo, tal como Copérnico preferiu fazer: a Terra como
centro era uma conclusão óbvia, o Sol enquanto centro dos movimentos dos planetas era em sua época um absurdo, da mesma forma que falarmos em Deus no
âmbito da academia contemporânea também o é. Com efeito, isso só pode ser válido se tomarmos como um princípio filosófico. Ou, um gancho para pensarmos em
outras possibilidades para concebermos a origem e a natureza da linguagem.
Nos limites deste trabalho ficou claro que nossa maior preocupação foi tentar formular alguns limites acerca do lugar da linguagem: no mundo? No homem?
Em Deus? Articulado a isso, surge a pergunta: o que é linguagem? Ela é: Pensamento? Fala? Comunicação? Relação? Ação? Movimento? Razão? Concernente
a estas, perguntamos: qual a relação da linguagem com o pensamento? Eles se
comunicam? São a mesma coisa? Como nasce o pensamento no homem? Será
que os demais seres pensam? As linguagens humanas são simples expressões
dos pensamentos? Quando o homem pensa, ele pensa o quê? Será que os pensamentos estariam presentes no mundo como uma realidade apodítica já organizada, a todo tempo constituindo nossos pensamentos, constituindo nestes uma linguagem? Seria o humano filho do Logos? Ou seriamos deuses capazes de intervir
na linguagem do mundo?
Diante de tantas dúvidas, chegamos a uma sugestão introdutória para o
seguimento de nossos estudos. Sugerimos então, que o mundo seja uma linguagem e o ser humano outra, só que produzida pelo – e no interior – próprio mundo.
Portanto, ambas recorreriam a um jogo recíproco de tradução e interpretação.
Uma ação humana, por exemplo, pode ser interpretada pelo mundo em geral ou
pelo mundo em particular. Por exemplo, será que as últimas transformações climáticas da Terra não seriam uma espécie de interpretação do mundo – Logos e
Physis – com respeito às produções materiais da linguagem científica: a industria?
Da mesma forma, não seria a ciência humana uma particularidade da linguagem
do mundo, mas que age sobre ele?
Suspeitamos que o mundo já é organizado antes do nascimento do humano, e assim organizou atávica e primitivamente o corpo e a mente humana
enquanto uma espécie de aparelho de linguagem, assim como os outros seres.
Vamos de encontro à tese de Descartes, pensando que as formigas, fazendo
parte do “livro do mundo”, possuem uma linguagem sobre a qual sabemos quase
nada. Todavia, hoje vemos o livro do mundo se fechar porque assim como os escolásticos; restringimos nossa natureza lingüística a uma dialética retórica entre palaTextura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
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vras esotéricas. Esquecemos por arrogância, que paulatinamente tivemos – e
ainda temos – de aprender com o que já havia de simples no mundo antes de nós.
Ou ainda, que o mundo em sua razão criou o próprio humano em símbolo e em carne.
REFERÊNCIAS
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Lévi-Strauss. Tradução de Nícia Adan Bonatti. Campinas, SP: Papirus, 1989.
CHOMSKY, Noam. Lingüística Cartesiana. São Paulo : Vozes, 1972.
DESCARTES, René. Discurso sobre o método. São Paulo: Hemus, 1978.
______. Meditações sobre filosofia primeira. São Paulo : Edições Cemodecon,
IFCH - UNICAMP, 1999.
FELLER, Waldemar. Descartes e as humanidades. Campinas : UNICAMP,
1998. Xiii, 226p. Tese (Doutorado em Filosofia e História da Educação) - Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto
Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
GARCIA-ROSA, Luiz Alfredo. Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
HUSSERL, Edmund. Conferências de Paris. Tradução de António Fidalgo e
Artur Mourão. Lisboa: Edições 70, s/d.
JAPIASSÚ, Hilton. Dicionário básico de filosofia. 3º ed. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 1996.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Merleau-Ponty na Sorbonne: resumo de cursos:
1942-1952: filosofia e linguagem. Tradução de Constança Marcondes César.
Campinas, SP: Papirus, 1990.
PINTO, Julio. 1,2,3 da semiótica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995.
PHYSIS. Contribuidores da Wikipédia. Wikipédia, a enciclopédia livre. Última
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2 0 : 0 8
U T C .
U R L
p e r m a n e n t e :
http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Physis&oldid=4152261. ID da versão da
página: 4152261
SOUZA, Lícia Soares de. Introdução às teorias semióticas. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2006.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 11-27, Ago./Dez., 2007.
A CIDADE NO ROMANCE ATIRE EM SOFIA, DE SÔNIA
COUTINHO: UM OLHAR GEOGRÁFICO
Janio Roque Barros de Castro*
RESUMO - No presente trabalho, faz-se uma análise acerca do espaço urbano no
Romance Atire em Sofia de Sorna Coutinho, sob a ótica geográfica. A obra trata da
história de alguns amigos que retomam à terra natal vinte anos depois de a terem
deixado, encontrando uma cidade completamente diferente, estranha. Dentre
esses personagens, destaca-se Sofia, uma mulher preocupada com a questão
feminina na sociedade brasileira do seu tempo, notadamente nas grandes
cidades. A autora mescla o concreto com o ficcional em cenários urbanos
complexos e exóticos.
PALAVRAS - CHAVES: Cidade; espaço; tempo; mulher.
ABSTRACT - This present work aims to analyze the urban space in the novel
"Atire em Sofia", written by Sonia Coutinho, through a geographical approach. This
novel narrates the story of some friends who go back to their hometown twenty
years later, and [m it completely changed, strange. Among these characters can be
highlighted Sofia, "woman issue" in the Brazilian society, specially in large cities.
The author mixes up reality and fiction in exotic and complex urban sceneries.
KEY-WORDS: City; space; time; woman.
*Professor da Universidade do Estado da Bahia - UNEB Campus V Santo Antônio de Jesus.
[email protected]
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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INTRODUÇÃO
A cidade, como espaço de ações, conflitos, fragmentos, constitui-se em um
rico cenário para os estudos acerca das dinâmicas e da complexidade da
sociedade atual. As obras literárias, que apresentam personagens envolvidos em
situações que mesclam o real e o fictício, são de grande importância para se
compreender o urbano na sua dimensão social, material e cultural.
No presente trabalho, faz-se uma análise acerca da cidade no romance
Atire em Sofia de Sonia Coutinho, na qual a personagem Sofia, que protagoniza a
trama, é uma mulher separada do marido, e que depois de vinte anos retorna à
cidade natal para tentar rever as filhas e reencontra velhos amigos com suas
angústias, desejos em uma cidade transformada pelo tempo, com um cenário
urbano conflitivo e enigmático, mesclando recortes espaço - temporais reais,
míticos, imaginários.
A partir de elementos, conceitos e questões da Geografia, o intuito é
compreender a cidade e o urbano no romance de Sonia Coutinho, analisando-se
aspectos da cotidianidade urbana de Salvador e do Rio de Janeiro, intercalados
com outros centros urbanos reais e fictícios.
BREVE RESUMO DA AUTORA E DA OBRA
Sônia Coutinho é jornalista, tradutora e escritora. Como cronista, foi
premiada pelo livro os venenos de Lucrecia considerado melhor livro de contos em
1979. É autora de cinco livros de contos e Atire em Sofia foi seu primeiro romance.
Em Atire em Sofia, Sonia Coutinho mescla personagens e lugares exóticos,
simbólicos e concretos, para falar da vida de Sofia, uma jornalista que se mudou
da Bahia para o Rio de Janeiro depois de separar-se do marido, deixando com ele
duas filhas. Anos mais tarde, teve que retornar, não por amor à terra natal, mas
pelas filhas, submetendo-se aos preconceitos e ao julgamento de alguns
moradores da cidade. Sofia não conseguiu uma reaproximação com a família. No
entanto, reencontra velhos companheiros como Fernando, Matilde e João Paulo.
Nesta obra, nota-se que, por onde Sofia anda na cidade, o espaço e as
pessoas manifestam-se de forma concreta, realista, e ao mesmo tempo de forma
mítica. Lugares, entidades, conflitos, medos, desejos intercalam-se nesta trama.
É uma obra de grande importância e representa o olhar sobre a cidade a partir de
uma mulher, que enfrenta preconceitos e discriminação por ser mulher separada
transitando entre metrópoles machistas e patriarcais.
A QUESTÃO ESPACIAL NO ROMANCE ATIRE EM SOFIA
A Geografia estuda a sociedade em uma perspectiva espacial, ou seja,
como os homens produzem, reproduzem e transformam o espaço. Em uma obra
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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literária, pode-se ter a visão do espaço geográfico em termos de totalidade ou de
um recorte espacial, a partir da concepção de um (a) autor (a) que cria cenários e
situações nos quais personagens reais ou fictícios vivenciam e produzem o
espaço em um determinado lugar.
No romance Atire em Sofia, destacam-se conceitos importantes
trabalhados na Ciência Geográfica como lugar, paisagem e território nas grandes
cidades, que podem ser analisados a partir do binômio espaço - tempo.
Em uma passagem, a autora fala do Rio de Janeiro, considerada como uma
cidade labirinto, lugar que seduz e atrai um dos personagens seja por desespero
ou por fuga, ou mesmo um espaço enigmático e fragmentado, no qual o velho e o
novo interpenetram-se não só em termos de relações interpessoais, mas também
em termos de formas como aparece no trecho a seguir, remetendo à personagem
Matilde:
Sabe que a cidade critica sua maneira de vestir, considerada
espalhafatosa para uma mulher de 40 anos - saias curtas,
cores muito vivas, babados, botinhas prateadas, barriga de
fora. E assim vai para os lugares mais chiques e
movimentados, sempre sozinha e procura seduzir os
homens... (COUTINHO, 1989, p. 19)
Caberia um questionamento: Quem é a cidade? Nota-se uma tendência ao
longo do romance de personificação da cidade. Para Santos (1994), a cidade
corresponde às formas, à materialidade, enquanto o urbano já é uma expressão
mais abrangente, contemplando aspectos que vão além do material e estendemse pelas relações sociais no cotidiano das cidades. Na perspectiva de Sônia
Coutinho, a cidade é vista em termos da suas formas em conjunto (cidade
labirinto) e em termos das suas relações sociais cotidianas (julgamento das
formas de se vestir em determinada faixa etária, neste ou naquele lugar). É como
se esta cidade determinasse de forma normativa, para cada idade um
determinado tipo de roupa, em uma determinada época ou para uma determinada
faixa etária. Na concepção de Santos: "Cada lugar combina variáveis de tempo
diferentes. Não existe um lugar onde tudo seja novo ou onde tudo seja velho. A
situação é uma combinação de elementos com diferentes idades"(1988, p.98).
Santos, neste caso, refere-se à cidade enquanto materialidade e dinâmica social.
Esta visão do novo e do velho, também pode ser aplicada aos hábitos e tabus que
persistem mesmo nos grandes centros urbanos. A forma como 'as pessoas se
vestem é um indicativo de um contexto sócio-cultural que pode ser fortemente
influenciado por questões de ordem religiosa, por exemplo.
A tendência de personificação da cidade reaparece com o personagem
João Paulo:
(...) A chave para explicar tanta coisa, uma explicação para a
sua trajetória, a partir do que viveu aqui há quase vinte anos,
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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numa cidade branca, de classe média e preconceituosa. Sua
vida, de repente, nesta varanda, ganha até um sabor épico, de
luta contínua para sobreviver aos efeitos de surdos tabus...
(COUTINHO, 1989, p. 24)
Esta cidade, considerada racista, é retomada em outros trechos da obra
quando se nota uma resistência da população branca de Salvador, em aceitar a
projeção da população negra, que agora compartilha com a classe média branca
espaços públicos considerados exclusivos para não negros. Não que existisse
uma barreira física impedindo mobilidade espacial do negro pela cidade, mas
porque existia uma barreira sócio-econômica: a renda. A herança escravocrata fez
com que a maioria dos pobres, no Brasil, fosse negra ou de afro-descendentes,
daí a renda constituir-se em obstáculo à mobilidade espacial do negro. Existe aí
uma questão não só étnica como também social.
Segundo Santos, o espaço é a morada do homem e também pode ser a sua
prisão. A baixa renda, segundo este autor, torna o homem prisioneiro do lugar e
pode fazer com que uma metrópole se constitua uma cidade local para um pobre,
uma vez que este não tem acesso à diversidade dos serviços metropolitanos.
MILTON SANTOS destaca que “a rede urbana, o sistema de cidades, tem
significados diversos segundo a posição financeira do indivíduo.” (1987, p. 112).
Desta forma, depreende-se que as limitações à mobilidade espacial dos
moradores da grande cidade são determinadas pelas gritantes desigualdades
sociais nos grandes centros urbanos, que se expressam espacialmente. Apesar
de esta problemática estar relacionada à renda, a questão étnica deve ser
destacada, uma vez que a maioria dos pobres do Brasil é constituída de afro descendentes como se salientou anteriormente.
Na obra sob análise, aparecem menções da cotidianidade urbana como:
(...) A vista da varanda é para horrendos espigões que
proliferam, desordenados, ao lado de casas baixas, na ladeira
defronte. Lá embaixo, na rua, o barulhento caos do trânsito e,
na calçada, sacos de lixo empilhados.
(COUTINHO,
1989:.24)
O olhar sobre a paisagem urbana estende - se não só para um físico que se
impõe e se prolifera (prédios altos) como também para uma cidade que se
movimenta (trânsito). A partir de uma obra literária instigante, como Atire em Sofia,
podem-se pontuar algumas questões como idéia de desordem urbana. Para
algumas pessoas, a localização dos edifícios, condomínios fechados, favelas não
obedecessem a uma ordem capitalista. O processo pode diferenciar de uma
cidade para outra, por conta das especificidades locais, no entanto, a lógica é
mesma. Este processo de produção / reprodução do capital projeta - se
espacialmente nas cidades como aponta Manuel Castells (1983). A autora do
romance destaca um cotidiano no qual alguns são obrigados a viver guetificados
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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em lugares apáticos e solitários na selva de pedra.
No romance em questão, o ficcional, manifestado a partir de seres míticos
produzidos pelo imaginário das pessoas, aparece nos espaços materiais
transitados cotidianamente pelas pessoas, e, que por isso, servem de
referenciais:
Cruzava o Largo do Pelourinho, naquela direção, por volta
das 8 horas da noite, quando avistou, pousadas no telhado de
um dos casarões, sob o brilho pálido dos relâmpagos, três
enormes aves negras, demônios da morte súbita.
(COUTINHO, 1989, p. 33)
O espaço material e o espaço mítico - ficcional entrecruzam - se. A cidade,
nesta perspectiva, apresenta três dimensões: duas materiais e uma mítica. a) A
cidade resquício de um tempo passado (antigos casarões); b) A cidade atual (às 8
horas da noite); c) A cidade ficcional mesclada com o material (as aves negras
pousadas no telhado dos sobrados).
Não há, portanto, uma separação entre o espaço mítico e o espaço material
cristalizado através das formas, que, juntas constituem a cidade. Segundo Tuan :
A cidade é um lugar, um centro de significados por excelência.
Possui muitos símbolos bem visíveis. Mais ainda, a própria
cidade é um símbolo. A cidade tradicional simbolizava
primeiro a ordem transcendental e é feita pelo homem em
oposição às forças caóticas da natureza terrena e infernal.
(1983, p. 191).
Os símbolos da cidade podem ser a rua, as praças, a casa, a igreja ou
outras obras do homem ou da natureza, como uma gruta, por exemplo, que é
considerada como lugar sagrado, que notabiliza a cidade de Bom Jesus da Lapa
na Região do Médio São Francisco na Bahia. Para Tuan (1983), o espaço se
transforma em lugar quando passa a ter significado para quem nele habita. O
personagem que viu as aves negras sobre os casarões do Pelourinho era um
transeunte, um observador. A visão do personagem, aves negras frutos da
imaginação e expressões como "cidade labirinto", “cidade estranha" podem
significar a solidão dos personagens em meio a um cenário urbano considerado
caótico, competitivo e individualista. "O espaço mítico é também uma resposta do
sentimento e da imaginação às necessidades humanas fundamentais (...)".
(TUAN, 1983: 112)
Em outra passagem, o olhar contemplativo do personagem Fernando
destaca a Baía de Todos os Santos, salientando as edificações que bordejam o
mar na cidade de Salvador:
Dirigi rápido e, quando começa a descer a Avenida Contorno,
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espia de relance, lá embaixo, a vista deslumbrante da baia, a
península do outro lado, com suas pequenas e ingênuas
edificações, como um quadro de pintor primitivo.
(COUTINHO,1989: 34) .
Na concepção de Santos:
A paisagem pode ser domínio do visível, aquilo que a vista
abarca. O olhar sobre as paisagens da cidade, é diferenciado
de pessoa para pessoa. A percepção é sempre um processo
seletivo. Se a realidade é apenas uma, cada pessoa a vê de
forma diferenciada (1988, p. 62).
A paisagem apresenta formas de idades diferenciadas, urna vez que
Santos (1996) destaca o caráter transtemporal da paisagem, ou seja, sobre uma
fração do espaço total, em um determinado momento, detectam-se formas de
várias idades, épocas e contextos sócio-culturais.
A segregação sócio - espaço - racial aparece em algumas passagens,
segundo Coutinho:
(...) Tem saudade, por exemplo, da beira mar de antigamente,
área aristocrática, onde aos domingos, as moças desfilavam
com seus melhores vestidos. Hoje, nos fins de semana, a
população negra já se senta maciçamente nas cadeiras das
sorveterias que, antes, eram consideradas chiques, ou seja,
reduto exclusivo do seu grupo. (...) (1989, p. 35).
Os afro – descendentes, constituem-se a maior parte da população pobre,
por isso tinham lugares “reservados" nas cidades: as periferias pobres, os cortiços
e as favelas. A melhoria no poder aquisitivo, aumenta o seu poder de consumo e
sua mobilidade espacial, que, inequivocamente, constitui -se em um esboço de
ascensão social, mesmo que tímido, o que provoca inquietações não só no
período retratado no romance (década de 1970 e início dos anos 1980) como nos
dias atuais. Esta situação incomoda a parte racista da elite e chega a gerar
violentos conflitos urbanos. No romance, um negro casado com uma branca
residente em um bairro classe média, foi espancado porque saiu do lugar que,
historicamente, foi lhe imposto. Os conflitos ocorrem porque nessa nova cidade os
negros não se restringem a guetos pontuais; mesclam-se com não negros em
vários espaços da cidade.
Sofia, no seu retorno, encontrou uma cidade diferente, uma vez que os
anos que levou distante fez com que ela encontrasse uma outra cidade, diz
Coutinho:
De volta, recebe outra cidade, quase tão exótica para ela,
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
35
quanto uma capital africana ou uma metrópole oriental Dacar, Lagos, Bancoc, Cingapura, Nova Deli. Como que vive
numa realidade que acreditava a mais familiar, uma outra, a
mais estranha. Cidade onde descobre outra família na que era
a sua, outros amigos nos que eram os seus. (1989, p. 33)
As pessoas quando passam muitos anos fora da sua cidade de origem,
guardam na mente aquela cidade que deixaram. Muitas vezes, o imaginário traz a
mesma cidade em um cenário futurista, todavia, tanto a base material como a vida
que anima aquela cidade, farão parte da memória nostálgica do seu morador. Por
isso, ocorre o estranhamento com o reencontro: outra cidade, outra dinâmica
social, outras formas que surgem superpostas contrapondo-se ou justapondo-se
em meio a um cenário transtemporal. As novas formas denunciam a ação do
tempo que é menos perceptível para o indivíduo que mora durante anos
ininterruptos naquela cidade. Nesta perspectiva, a cidade é tempo cristalizado.
Para a personagem Sofia, esta cidade é esquisita. Para se referi a
localização de Salvador, usa expressões como na "franja do Nordeste" ou mesmo
"cidade ilha" cercada de pobres. Um dos personagens, João Paulo, pretende
escrever um livro sobre a cidade a partir da memória dos seus moradores, seus
amores, fugas, viagens, aventuras, dores e outros aspectos do cotidiano. Esta
visão de cidade vai, portanto, muito além das formas, uma vez que destacam as
pessoas, seus sentimentos, suas angústias, sua individualidade.
A abordagem sobre a cidade reveste-se de misticismo novamente quando
aparecem expressões como "cidade aranha", "cidade serpente". A serpente é
considerada um vilão na natureza, por isso, a cidade serpente seria uma visão da
cidade como vilã da história? A aranha é um animal que tece teias para se
deslocar e capturar outros animais para se alimentar. Nesta perspectiva, a cidade
aranha seria uma tessitura constituída ao longo do tempo, para atender a
determinadas finalidades, como a própria sobrevivência de uns, a expensas de
outro, ou seja, para o salve-se quem puder?
Aparecem no romance menções a aspectos do cotidiano da cidade
Salvador como a mendicância nas calçadas. Não só para os mendigos como para
algumas personagens, não existe um lugar fixo de vivência, um bairro, uma rua ou
até mesmo uma cidade. Aliás, não aparece sentimento topofilico, de amor pelo
lugar, pela cidade por parte de quem nela vive, trabalha ou para ela retoma. Sofia,
por exemplo, só retomou à cidade décadas depois, para rever as filhas. A
maternidade determinou o seu retomo e não a cidade como espaço de vivência do
passado, como lugar significativo. Aparecem menções também a lugares
conhecidos do Rio de Janeiro como Copacabana, considerado um espaço de
lazer significativo para João Paulo por conta dos barzinhos e de velhos cinemas.
Para alguns turistas Copacabana também é um espaço desejado. Segundo Tuan
(1983), o espaço transforma-se em lugar quando tem significado para uma
determinada pessoa, ou para uma coletividade. Desta forma, o mesmo lugar pode
ser multiexperienciado de diversas formas por diferentes grupos. O signo pode
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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ser um objeto fixo (prédio) ou algo mítico (uma lenda local).
Observando o cotidiano da cidade a partir da janela, a personagem Sofia vê
um espaço urbano fragmentado e segregado que guetifica os afros descendentes. Daí o grito do negro excluído na selva de pedra: “Esta cidade será
dos africanos!". Esta revolta pode ser fruto de situações como esta descrita por
um dos personagens. De acordo com Coutinho,
A chuva parou de cair, o sol, aparece entre as nuvens.
Sente-se dominado por um viscoso mal-estar, como se
a atmosfera quente e úmida da cidade, colasse nele,
feito poeira adesiva. Debruça - se no peitoril da
varanda, observa os passantes que circulam pela
movimentada ladeira defronte, uma população pobre e
mestiça que vai entupindo maltratados e barulhentos
ônibus. (1989, p. 158)
Como se destacou anteriormente, quem é o pobre urbano? Quem anda de
ônibus? Quem mora em favelas? Quem limpa as ruas? Negros ou descendentes.
Pode-se partir desta importante obra literária para se analisar a questão do negro
em uma perspectiva espacial.
A cidade que aparece na concepção de Sofia é vista tanto do ponto de vista
da dinâmica social coletiva como produto material do trabalho humano quanto em
termos da sua apropriação subjetiva (individualidade).
Assim como a concepção de espaço e cidade, as acepções acerca do
tempo transitam do racional ao mítico no romance atire em Sofia. A idéia de tempo
para Sofia, em um trecho da obra, aparece como sendo um processo linear,
seqüencial e ao mesmo tempo mítico, mágico: "Tempos em que eu não podia
olhar para trás, a fim de não virar estátua de sal", Coutinho (1989, p.28) Esta noção
de tempo está relacionada a determinadas tradições familiares, que se
constituíam verdadeiras imposições, notadamente para as mulheres mesmo nos
grandes centros urbanos. Em outro trecho, Coutinho comenta que, o tempo é um
processo que flui e permite reflexões nostálgicas de alguns personagens:
Entre dormir e acordar, assim lhe vem João Paulo neste
instante, de repente estranho, outra pessoa, Gosta dele?
Detesta - o? Agora não sabe nada, sua lembrança está
também contaminada pela estranheza que vem sentindo em
relação à cidade, já transformada em outra pela passagem do
tempo. (1989, p. 30).
A cidade toma-se estranha para Sofia, por conta dos novos objetos
introduzidos, que fizeram surgir um novo cenário urbano, não só em termos da
materialidade como em termos da sua tessitura social e das controversas
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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relações intersubjetivas.
Os avanços nos meios de comunicação configuraram o espaço geográfico
atual como meio técnico, científico e informacional, Santos (1994, 1996). Para
Harvey (1989), vive-se a compressão tempo-espaço. A tecnologia teria
comprimido as distâncias e o tempo. Na concepção de Virílio não existiria mais o
espaço e sim o tempo. Milton Santos (1987) contesta esta visão e salienta que é o
espaço torna visível a passagem do tempo, uma vez que é a partir do olhar sobre a
paisagem, que se enxerga o velho (um antigo sobrado, uma casa, uma igreja
histórica) ou o novo (um prédio em construção, uma nova via expressa). A
materialidade evidencia através das formas espaciais a passagem do tempo. Na
cidade da memória do personagem João Paulo, não há as marcas do novo, daí o
estranhamento por parte do personagem. As novas edificações constituem-se
materializações que denunciam a passagem do tempo.
A idéia de intemporalidade, para Coutnho, aparece na passagem a seguir:
Densas névoas desabando sobre a cidade do Rio, em sua
memória. Com todas as gradações de cinza se desfazem
pelas encostas do Corcovado, deixando as árvores
repentinamente escuras, acinzentadas. É quando se instala,
de repente, este silencio definitivo, como se o instante
estivesse fora do tempo. Um espaço intemporal, como
imprevista conquista. (1989, p. 55)
Concebe-se o tempo como um processo, um movimento. Uma avenida em
uma grande cidade apresenta o barulho dos veículos, das pessoas correndo,
movimentando-se no espaço, quase sempre sem tempo. Esta seria a "cidade
caótica" para muitos. A pressa, os congestionamentos, é o povo do tempo rápido,
uma vez que para o personagem João Paulo, o silêncio significa um tempo
estagnado ou um espaço atemporal.
No trecho a seguir, segundo Coutinho, a noção de tempo é relacionada a
um processo e ao conceito de lugar:
Tenho um lado meio cigano em mim, sabe, Fernando? Acho
porque não estou tentando chegar a lugar nenhum, para mim
a vida é um percurso. E, sendo assim, tudo fica mais
verdadeiro quando é vivido por uma temporada. Digamos, por
um verão. Curto e ao mesmo tempo, infinito, por assim dizer
eterno. (1989, p.84) (Personagem Sofia)
Deleuze e Guattari destacam que, para os nômades, o percurso, o trajeto é
mais importante que o ponto enquanto os sedentários vêem o caminho apenas
como um meio pelo qual se pode deslocar de um ponto a outro. Para Santos
(1996), lugar é o espaço do acontecer solidário, no entanto, muitas pessoas
sentem-se sós em vários lugares das grandes cidades, porque, como pontua o
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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citado autor, nos grandes centros urbanos há pessoas do tempo lento e pessoas
do tempo rápido, fluídico. A cidade capitalista é acelerada e exige rapidez e fluidez,
e, muitas vezes, condena ao ostracismo muitos atores sociais. A cidade
transformou se ao longo do tempo, entretanto, para alguns idosos, persiste, pelo
menos na memória, aquela cidade do passado. Para personagem João Paulo, a
sua cidade desapareceu, transformou-se em uma cidade mitológica; a sua
Atlântida particular.
O verão aparece no romance como um período, um marco temporeferencial, enquanto na vida cotidiana é considerado uma temporada de lazer,
notadamente, nas cidades litorâneas, e, também época de rápidas e abruptas
chuvas torrenciais que causam deslizamentos de terras, enchentes e outros
transtornos, sobretudo à população mais pobre. A instabilidade do tempo
atmosférico urbano torna instável também a personagem Sofia, que acompanha o
cotidiano da cidade em meio às influências das forças naturais sobre o espaço
produzido pela ação antrópica. Em alguns trechos do romance, não existe uma
linearidade do tempo, talvez por conta dos constantes deslocamentos de
personagens como Sofia, as quais vêem a vida como um percurso. Este itinerário,
no entanto, não é linear, nem centrado, uma vez que se fala em vivências em
diferentes lugares por uma temporada. Trata-se de um nomadismo atomizado.
Entretanto, o personagem Fernando considera o tempo uma progressão
em degraus, daí surgirem expressões como: “A máquina do tempo está
desregulada, provocando bruscos recuos, saltos de ano, repetições". Nessa
perspectiva, o tempo é um constante andar para frente que não permite recuos.
Esta concepção de tempo contrapõe-se, portanto, a visão nostálgica daqueles
que enxergam uma cidade do presente em termos da sua materialidade física e da
sua dinâmica social e que, entretanto, mentalmente, vivem as cidades do
passado. Esta "parada no / do tempo" não se restringe à visão material. A parada
ou recuo no tempo implica a manutenção ou retomo a hábitos e costumes
tradicionais, que se constituem verdadeiros enclaves ou gargalos psico-sociais,
mesmo nos grandes centros urbanos:
Damas que se casaram na igreja e pela lei, vestidas de
branco, damas que fizeram a vida inteira o que suas mães
haviam lhes aconselhado a fazer, damas que agüentaram
para sempre seus maridos, que viajaram pouco, que não
freqüentaram a Universidade porque tinham sido preparadas
para o casamento, damas maquiladas ainda a moda dos anos
50 (...). (COUTINHO, 1989, 114).
Milton Santos (1988) destacou que existem pessoas do tempo rápido e
pessoas do tempo lento. Não significa necessariamente que o tempo rápido esteja
nas metrópoles e o lento no campo. Mesmo nas grandes cidades existem os
bolsões não só de pobreza, como também em termos de postura preconceituosa,
racista, machista diante da realidade. Um exemplo disso são as mulheres
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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tradicionais, prisioneiras do espaço familiar e que por isso apresentam mobilidade
espacial limitada. Seriam pessoas do tempo estagnado, enquanto Sofia seria,
para elas, não uma mulher à frente do seu tempo, mas uma prostituta que ousou ir
de encontro ao destino das mulheres, desregulando não a máquina do tempo e
sim a trama maquínica dos tabus, dos hábitos, dos costumes arraigados
tradicionalmente, mesmo em uma metrópole, que geralmente se constitui em um
espaço das inquietações urbanas por parte de grupos marginalizados. Sofia é
uma personagem do passado quando enxerga a cidade de hoje com os olhos e os
sentimentos de décadas passadas e do futuro quando seus questionamentos a
projetam frente do seu tempo.
A autora faz menção a cidades bíblicas: Sodoma e Gomorra, cidades que
teriam sido destruídas por Jeová. A família de Lot teria sido preservada desde que
deixassem a cidade e andassem sem olhar para trás. A mulher de Lot olhou e
petrificou-se por causa da sua desobediência ao Senhor. Mais uma vez, a visão da
vida e do tempo como caminho, por isso a visão deve focar o que está à frente e o
que está por vir em um plano horizontal e não o que ficou para trás. Nas grandes
cidades de hoje, os passos rápidos e constantes das pessoas, sempre olhando
para frente é um pouco desta visão de mundo. Muitas pessoas, no entanto, não
pensam assim e, muitas vezes, não se adaptam às mudanças que fazem surgir
uma nova cidade, como consta nestas passagens:
Mudou tudo em menos de vinte anos - valores, costumes.
Fomos preparados para um tipo de realidade, veio outra
completamente diferente. Nem todo mundo aqui suportou...
(...) .
Mas, apesar de toda mudança, a modorra da cidade resiste diz Sofia. O que há por baixo do verniz de modernismo é uma
realidade ainda patriarcal, cabeças do século passado. Uma
cidade que vive em torno de famílias patriarcais....
Talvez seja esta modorra que enlouquece as pessoas. Como
se aqui o tempo fosse mais lento primitivo. Enquanto pela
televisão, todo mundo vê outro tempo (....) (COUTINHO,
1989: 120 -121)
No novo cenário material, mantêm-se as velhas relações sociais, tabus
familiares e de gênero na cidade labirinto. A TV trouxe à tona uma realidade além
daquela experienciada corporalmente; a realidade de um mundo complexo,
heterogêneo, que se constitui em uma realidade fluída, acelerada não só no caso
dos complexos de alta tecnologia como também das diferentes culturas e do ritmo
das pessoas de um novo tempo, que se chocam com os moldes e ditames
patriarcais de épocas passadas e que são perceptíveis na escala local, mesmo
nas grandes metrópoles informacionais. Para o personagem João Paulo, nos
países subdesenvolvidos nota-se um recuo no tempo, e, neste contexto, a cidade
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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é um bolsão do passado:
Subdesenvolvimento, como viver em outro tempo anterior.
Como voltar ao passado. O lugar subdesenvolvido percebe
João Paulo, permanece como um bolsão de passado, de
comportamentos e situações arcaicos. De repente, como
voltar a outro século. O tempo aqui é circular (...). Um tempo
mítico, tempo de antigas civilizações, que ainda não tinha
noções de História como marcha para frente... (Coutinho,
1989:85) (Personagem João Paulo)
A concepção de tempo circular e mítico nas cidades dos países periféricos,
nessa perspectiva, opõe-se a uma visão linear, crescente de tempo, o que faz com
que a cidade do mundo subdesenvolvido, vista com olhos ocidentais, pareça
parada no tempo. Nota-se uma generalização quando se fala em países
subdesenvolvidos, uma vez que há uma heterogeneidade considerável neste
grupo de países. Na Índia, na China, em alguns países africanos, o tempo mítico e
a ligação com o passado são bem perceptíveis, por conta, sobretudo, das
diferentes vertentes religiosas (Hinduismo, Budismo, Islamismo...). No entanto,
mesmo que pontualmente, existam áreas de tecnologia de ponta que, em uma
visão ocidental, constituem-se saltos no tempo ou pontos que destoam no
contexto do tempo mítico.
A cada esquina da cidade, percebe-se as dobras do tempo que
representam ações, trabalho intencional em uma determinada época, em um
determinado contexto:
Olhando em torno, ah, é difícil reencontrar a cidade na cidade,
como em si mesma quem ela foi. As camadas do tempo, sua
grossa pátina, recobrem tudo, deixam apenas entrever. É
preciso construir uma nova cidade em cima da antiga...
(COUTINHO, 1989, p. 89).
Será preciso construir uma nova cidade em cima da antiga? Ou deve surgir
uma nova mulher para esta nova cidade? Mais a frente, Sofia diz: "A cidade sou
eu!", o conceito de cidade desloca-se da materialidade física coletiva para o
humano subjetivo.
Tanto o espaço, quanto o tempo mítico aparecem no romance não só com
menções a cultura oriental considerada exótica, como nas referências aos
terreiros de candomblé situados na periferia de Salvador. A concepção de
felicidade em um trecho da obra é de algo que se perdeu no tempo, algo exclusivo
de uma época, ou mesmo um evento pontual, efêmero, e não um ancoradouro
definitivo que foi perseguido durante muito tempo. "Fui Feliz naquele tempo!”.
(Sofia) Para alguns personagens é o movimento que de certa forma toma
perceptível a passagem do tempo:
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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O dia amanhece com sol, João Paulo levanta-se bem cedo e
vai de carro para a avenida beira-mar. Quando chega ao
Farol, percebe que o vento cessa, sequer a mais leve brisa
balança as folhas do coqueiro. Pára o carro, desce, debruçase na amurada que margeia a praia e observa a paisagem,
banhada por uma atmosfera atemporal. (COUTINHO, 1989:40)
O olhar sobre a paisagem parada, quase fotográfica, sem movimento do
homem ou da natureza, contribuirá para que se constitua este cenário atemporal.
Já em outro trecho, a passagem do tempo aparece como algo positivo, que
contribuiu para avanços: "(..) Nada como a passagem do tempo para dar uma
dimensão inteligente e espiritual as mulheres antigamente apenas bonitas...",
Coutinho (1989: 156). Nessa concepção de tempo e existência enquanto
percursos, aparecem expressões como: "Nesta faixa de idade, a gente tem
vontade de fazer balanços”. Será que as pessoas podem estabelecer nas suas
vidas recortes, épocas, períodos de se fazer isto ou aquilo? Será que há uma
determinada fase da vida das pessoas que poderá ter um caráter auto-avaliativo
em meio a fluidez por vezes fria e mecânica das grandes cidades informacionais?
As ações humanas na produção / reprodução do urbano acontecem ao
longo de um tempo que não passa no mesmo ritmo para as pessoas. Uns vivem o
tempo acelerado; outros o tempo lento, outros o tempo estagnado, muitos louvam
aos Deuses no tempo mítico, e há ainda aqueles que estão presos a um tempo
cujo atores e formas espaciais estão no passado.
As grandes cidades se constituem espaços de contradições, conflitos,
fragmentos, inquietações tanto na dimensão espacial quanto temporal. No
romance Atire em Sofia, a trama se desenvolve em cidades que apresentam
cenários múltiplos; espaços fictícios, reais desejados, complexos, nos quais a
dinâmica social flui ao longo do tempo.
A importância da análise de obras literárias que representam o urbano em
uma perspectiva geográfica está assentada no fato de as grandes cidades se
constituírem-se espaços múltiplos que sintetizam uma série de eventos,
situações, ações, processos da vida humana tanto no sentido coletivo (grupos,
galeras, tribos urbanas) quanto subjetivo, uma vez que cada pessoa percebe a
cidade de forma diferenciada. A concepção de cidade de Sônia Coutinho ao longo
da trama no romance Atire em Sofia intercala espaços concretos, sentidos,
imaginários, projetados mentalmente e que por isso extrapolam para um plano
transcendental, tornando mais complexo um cenário urbano que na sua
materialidade e tessitura social real já é heterogêneo e contraditório.
A partir, portanto, da visão de cidade de Sônia Coutinho, desdobram-se
várias questões, impasses, conceitos, temáticas da Geografia urbana como
tempo, lugar, paisagem que foram aqui trabalhados e outros conceitos que podem
ser trabalhados como território e territorialidade e a relação espaço / gênero ou
espaço / etnia.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
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REFERÊNCIAS
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consciência universal. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2000.
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SOUZA, M. A. A. de. Cidade: Lugar e Geografia da Existência in:
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VÍRILIO, Paul. O espaço crítico. Christian Bourgeois, Paris, 1984.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 29-42, Ago./Dez., 2007.
ANÁLISE ESTATÍSTICA EXPLORATÓRIA E VARIABILIDADE
ESPACIAL DO TEOR DE ARGILA EM SOLO COESO
ORIGINADO NOS SEDIMENTOS BARREIRAS
Sérgio Roberto Lemos de Carvalho*
Adnailton de Jesus das Neves**
Andréa Jaqueira da Silva Borges***
Kalianny Silva Marques****
RESUMO: A grande maioria dos ensaios de manejo e fertilidade do solo utiliza o
método de delineamentos experimentais, segundo o qual as observações devem
ser independentes umas das outras e as parcelas experimentais, uniformes
quanto aos atributos estudados. A hipótese de independência entre as amostras
apenas pode ser satisfeita e verificada, na prática, se a amostragem contiver
informações referenciadas, como, por exemplo, as coordenadas com referências
a um eixo arbitrário para possibilitar análises da geoestatística. O objetivo deste
trabalho foi estudar a variabilidade espacial do atributo textural do solo argila
dentro de uma parcela experimental e mostrar o uso da geoestatística para
analisar os dados. O estudo foi realizado na Estação Experimental de Mandioca e
Fruticultura Tropical da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola - EBDA,
Conceição do Almeida (BA), em um Latossolo Amarelo Coeso argissólico em área
de proteção ambiental. Marcou-se uma parcela de 36 m por 36 m a cada 4 m em
duas direções, resultando em um reticulado quadrado de 81 pontos de
amostragem. Em cada ponto, coletaram-se amostras de solo da camada 0,00,20m de profundidade, as quais foram levadas ao laboratório, secas ao ar,
peneiradas em uma malha de 2 mm e submetida à análise granulométrica de
rotina para obter o teor de argila. A média para este atributo foi 10,92% e o
coeficiente de variação encontrado foi 28,25%, considerado como moderado,
provavelmente devido estar localizado em uma região de maior alteração e
mobilização biológica. Desta forma, serão necessárias entre 6 e 9 amostras de
solo para uma estimativa razoável do teor de argila no horizonte superficial da
área pesquisada. Foi encontrada forte dependência espacial (97,7%) para o
atributo analisado na camada estudada, apresentando um alcance de 10,19m.
Considerando que a área de amostragem engloba apenas uma área de 36 m por
36 m, conclui-se que a variabilidade encontrada para o atributo físico do solo foi
significativa e que a amostragem ao acaso falharia em detectá-la.
*Professor de Pedologia e Química da FAMAM; Pesquisador da EBDA; Doutorando em Geologia
**Licenciando em Geografia da FAMAM
***Coordenadora do curso de Geografia da FAMAM; Doutoranda em Geologia
****Licenciado em Geografia da FAMAM
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 43-58, Ago./Dez., 2007.
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PALAVRAS-CHAVE: técnica de amostragem do solo; geoestatística; argila.
ABSTRACT: The great majority of the assays fertility of the soil uses the method of
experimental delineations, according to which the comments must be independent
the one of the others and experimental parcels, uniforms due to the studied
attributes. The independence hypothesis only enters the samples can satisfied
and be verified in the practical one, if the sampling to contain references
information, as, for example, the coordinates with references to an arbitrary axle to
make possible analyses of the geostatistics. The objective of this work was to study
the space variability of the attribute soil texture clay inside of an experimental
parcel and to show the use of the geostatistics to analyze the data. The study it
was carried through in the experimental Station of Casava and Tropical Fruits of
the Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola – EBDA, Conceição do
Almeida (BA), in a Yellow Latossol Cohesive in area of ambient protection. A parcel
of 36m for 36m to each was marked 4m in two directions, resulting in squared
reticulated of 81 points of sampling. In each point, samples had been collected of
the soil of the layer 0,0-0,20m of depth, which had been taken to the laboratory,
droughts to air, sieved in a mesh of 2mm and submitted to analyze grain sized of
routine to get the clay texture. The average for this attribute was 10,92% and the
coefficient of variation was 28.25%, considered as moderate, probably had to be
located in a region of bigger alteration and biological mobilization. Of this form, they
will be necessary between 6 and 9 samples of the soil for a reasonable estimate of
the clay texture in the superficial horizon of the searched area. Strong space
dependence (97,7%) for the attribute analyzed in the studied layer was found,
presenting a range of 10,19m. Considering that the sampling area involve only one
area of the 36m for 36m, concludes that the variability found for the physical
attribute of the soil was significant.
KEY WORDS: Soil sampling technique; geostatistics; clay.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 43-58, Ago./Dez., 2007.
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INTRODUÇÃO
Os aspectos morfológicos das superfícies de acumulação (tabuleiros)
estão relacionados com os processos de nivelamento que ocorreram no final da
era cenozóica, que consistiram, em parte, na redução das rochas cristalinas, pela
ação das intempéries e erosão e, também, pela acumulação de produtos clásticos
de erosão, ambos ao mesmo nível topográfico (QUINTAS, 1970).
Os solos dos tabuleiros costeiros apresentam as seguintes características:
profundos, álicos, baixa capacidade de troca catiônica, baixa saturação por
bases, pouca diferença morfológica entre os horizontes, pouca agregação, alta
percentagem de argila dispersa em água e a presença freqüente de camadas coesas, decorrente do adensamento natural, que tem origem em processos genéticos
de formação do solo (JACOMINE, 1996 & REZENDE, 1997).
As culturas cultivadas nesses solos com ou sem irrigação, geralmente apresentam um vigor vegetativo baixo e produtividade inferior às verificadas em outras
unidades da paisagem, sugerindo uma relação solo-planta fortemente influenciada pela baixa disponibilidade de nutrientes, acidez elevada (inclusive altos teores
de alumínio ao longo do perfil) e pela estrutura peculiar dos horizontes coesos,
que lhes diminuem a permeabilidade para o ar, água e raízes das plantas.
FORMAÇÃO BARREIRAS
Os sedimentos da Formação Barreiras, de idade pliocênica, ocorrem sob a
forma de extensos tabuleiros ligeiramente inclinados em direção à costa repousando discordantemente sobre as rochas das bacias sedimentares mesozóicas e
do embasamento cristalino.
Os traços mineralógicos, mais característicos da fração argila dos sedimentos da Formação Barreiras, podem ser resumidos em: caulinita desordenada e
quartzo: caulinita com maior desordem estrutural nas lentes argilosas; ilita em
pequena quantidade. O ferro se manifesta sob a forma de goethita em alguns níveis e, hematita com maior abundância (PINHEIRO, 1974). Para Melo et al. (1998),
os solos desenvolvidos de sedimentos do Grupo Barreiras estão associados a baixos teores de óxidos de ferro bem cristalizados.
SOLOS
Os solos desenvolvidos sobre os tabuleiros apresentam a transformação
podzólica como uma feição comum, bem distribuída por todo o domínio dos sedimentos do Grupo Barreiras (UCHA et al., 2002). As principais classes de solos que
ocorrem neste geossistema são os Latossolos e os Argissolos Amarelos.
Os solos desenvolvidos tendo como material parental a Formação Barreiras, notadamente solos com horizontes subsuperficiais coesos, apresentam
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como principal característica o seu adensamento natural, decorrente de processos genéticos. Os horizontes do solo podem tornar-se naturalmente adensados,
como conseqüência de sua composição textural, seu regime de umidade ou da
maneira pela qual foram formados.
Analisando um Latossolo Vermelho distrófico, Corá et al. (2001) encontraram baixa variabilidade para os teores de argila no horizonte superficial (0,00 –
0,20m), ou seja, CV < 15%. Quanto à variabilidade espacial, na construção do variograma teórico, ajustaram os dados ao modelo exponencial, com R² acima de
0,90.
GEOESTATÍSTICA
O conhecimento da variabilidade das propriedades do solo no espaço e no
tempo é considerado, atualmente, o princípio básico para o manejo preciso das
áreas agrícolas, qualquer que seja sua escala (GREGO & VIEIRA, 2005).
Para Burgess & Webster (1980), uma propriedade de solo é uma variável
contínua cujo valor em uma dada posição deve ser função da direção e da distância de separação em relação aos vizinhos amostrados. Considerando esta dependência espacial, os métodos tradicionais de interpolação tornam-se inadequados
por não levar em consideração a correlação espacial e a posição relativa das
amostras. De acordo com Gonçalves (2001), o estudo da distribuição dos valores
de uma propriedade do solo em uma área deve considerar a possível correlação
espacial dos seus valores, tornando necessário que não apenas os valores em
uma série de locais sejam conhecidos mas que se conheçam também as coordenadas destes locais.
Variabilidade em solos e plantas tem sido motivo de inúmeros estudos, considerando a dificuldade de sua caracterização e quantificação. A geoestatística,
pela análise de semivariogramas, tem sido a técnica mais utilizada para a caracterização das variabilidades, espacial e temporal. A obtenção de semivariogramas
representativos depende fundamentalmente do número de pares de pontos
encontrados em determinada direção, para diferentes distâncias. O semivariograma fornece uma medida do grau de dependência espacial entre amostras em uma
direção e pode crescer até um valor constante (patamar) dentro de determinado
intervalo, ou, então, crescer continuamente sem apresentar evidências de atingir
um patamar (CARVALHO et al., 2004).
As técnicas geoestatísticas podem ser usadas para descrever e modelizar
padrões espaciais (variografia), para predizer valores em locais não amostrados
(krigagem), para obter a incerteza associada a um valor estimado em locais não
amostrados (variância da krigagem) e para otimizar malhas de amostragem.
Remacre & Uzimaki (1996) ressaltaram a importância de um bom ajuste dos modelos para obtenção de resultados satisfatórios da krigagem, adaptando outros tipos
de modelos ao seu conjunto de dados. Enquanto os variogramas são usados para
caracterizar e modelar a variação espacial dos dados, para estimar valores entre
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amostras a partir desses modelos é usada a krigagem como método de interpolação geoestatística. Por isto, se o modelo de semivariograma ajustado estiver errado, imperfeito ou com algum problema, todos os cálculos seguintes estarão comprometidos.
Nos últimos anos, a geoestatística tem sido aplicada em muitos trabalhos
que avaliaram a variabilidade, dependência, continuidade e representação espacial das propriedades químicas e físicas dos solos. Porém, poucas têm sido as aplicações na área de química do solo, e mais restrita ainda é a sua aplicação na variabilidade de microelementos. Conhecendo as coordenadas geográficas do ponto
amostrado, podem-se analisar os dados, possibilitando representar a área com
maior detalhamento.
A variabilidade das frações granulométricas tem sido estudada em várias
classes de solo, tendo sido constatada a presença de dependência espacial, cujos
alcances têm variado entre 15 e 10.500m (KITAMURA et al., 2007 ). Portanto, o
objetivo deste trabalho foi analisar a variabilidade espacial e caracterizar a dependência espacial do teor de argila do horizonte superficial de um Latossolo Amarelo
Coeso argissólico, originado no sedimento Barreiras.
MATERIAL E MÉTODOS
Local e solo:
O estudo foi realizado na Estação Experimental da EBDA, em Conceição
do Almeida (BA) em solo classificado como Latossolo Amarelo Coeso argissólico
(EMBRAPA, 1999) e localizado em uma reserva natural. A referida Estação está
localizada na região fisiográfica do Recôncavo Baiano. As coordenadas geográficas da área experimental são: 12º42'33,6” de latitude Sul e 39º08'46,6” de longitude Oeste, estando a 215m acima do nível do mar. O clima da região, segundo a
classificação de Thornthwaite, corresponde ao tipo C1, seco e subúmido.
Amostragem:
O padrão de amostragem utilizado foi a sistemática, na qual os pontos de
amostragem são localizados em intervalos regulares em um grid (FIGURA 1). Isso
garante uma cobertura total da área, sendo a forma mais simples de se identificar
os pontos e demarcá-los. Gonçalves et al. (2001) salientam que o conhecimento
da posição das amostras possibilita avaliar a dependência espacial entre os valores medidos.
As amostras foram coletadas nos pontos de interseção em um “grid” de 36 x
36m, com pontos espaçados de intervalos regulares de 4 x 4m, totalizando 81
amostras. O material do solo foi coletado com trado geológico na profundidade de
0,0 – 0,2m.
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Figura 1. Georreferenciamento dos pontos amostrais na área do estudo.
Após a coleta das amostras, o material foi acondicionado em béqueres de
polietileno (previamente lavados com ácido nítrico 1:1), lacrados com filme plástico e transportados para o laboratório. O material foi submetido à secagem à temperatura ambiente (25 a 30°C), quarteados, sendo duas partes separadas para as
análises químicas, uma parte para a avaliação granulométrica e a outra estocada
como contra-prova.
Os procedimentos analíticos foram realizados nos laboratórios da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da EBDA – Pesquisa e Desenvolvimento.
Determinações:
As amostras foram destorroadas, secas ao ar e passadas em peneiras de
2mm de diâmetro de malha (EMBRAPA,1997). Em seguida, as amostras foram
caracterizadas fisicamente. As determinações da análise granulométrica (determinação dos teores de areia, silte e argila) foram realizadas segundo proposto por
EMBRAPA (1997).
Análises estatísticas:
Os dados foram inicialmente avaliados por meio da estatística descritiva
tomando por base os seguintes parâmetros: média, mediana, moda, quartis e
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amplitude, coeficiente de variação, desvio-padrão, variância, coeficiente de assimetria e de curtose. O teste de Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilk foram utilizados para verificar se os dados apresentam distribuição normal. Nas avaliações, utilizou-se o pacote estatístico STATISTICA 7.1 (STATSOFT, 2006).
A dependência espacial foi avaliada com base nas pressuposições de estacionariedade da hipótese intrínseca, pela análise de semivariogramas ajustados
pelo software GS+ “for Windows” (ROBERTSON, 1998). O semivariograma foi estimado pela expressão:
Em que N(h) é o número de pares experimentais de dados separados por
uma distância h; Z(xi) é o valor determinado em cada ponto amostrado; Z(xi + h) é o
valor medido num ponto mais uma distância h.
Com o uso do software, testou-se semivariogramas do tipo esférico, exponencial, linear e gaussiano. A escolha dos modelo matemático foi realizada observando-se a técnica de validação cruzada e o parâmetro RSS (Sum square
reduced).
Os parâmetros efeito pepita (Co), patamar (Co + C1) e alcance (a) são usados nas equações ajustadas aos semivariogramas. Quando se calcula o semivariograma, obtêm-se pares de valores de semivariâncias (h) e distâncias (h), os
quais deverão ser dispostos em um gráfico de dispersão tendo como valores de y,
as semivariâncias, e de x, as distâncias (VIEIRA, 1997).
A função autocorrelação foi determinada a partir do Índice Global de associação espacial (Índice de Moran), que fornece uma medida geral da associação
espacial existente no conjunto dos dados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Estatística Descritiva
Os resultados estatísticos deste atributo do solo analisado são apresentados na Tabela 1, que apresenta de forma sumarizada os valores de média, mediana (Md), Moda (Mo), coeficiente de variação (CV), valor máximo (Mx), valor mínimo (Mn), coeficiente de assimetria (Ass), curtose, quartis e teste de normalidade
dos dados (W) da variável analisada.
Tabela 1: Resumo estatístico para a variável argila.
1º
3º Teste
Média Mediana Moda CV Mínimo Máximo Assimetria Curtose Quartil Quartl W*
19,0
0,87
0,23
8,32 12,64 0,926
Argila 10,92 10,40 8,32 28,,25 6,4
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Seguindo a classificação de CV, proposta por Cambardella et al. (1994),
observou-se que o teor de argila apresentou moderada variabilidade, concordando com outros estudos encontrados na literatura (Souza et al., 1997; Salviano et
al., 1998), embora Corá et al. (2004) e Kitamura et al. (2007) tenha encontrado
uma baixa variabilidade em sua pesquisa.
Quando uma propriedade do solo segue a distribuição normal e as amostras são independentes, pode-se identificar o número de amostras necessário em
futuras amostragens, para se obter uma previsão com um nível de probabilidade
desejado, segundo Warrick & Nielsen (1980), por meio da expressão:
N = t² . s² / d²
Nesta expressão, o valor de t é obtido a partir da distribuição “t” de Student,
com infinitos graus de liberdade e probabilidade dada por (1 – á/2), sendo á o nível
de confiança desejado (GONÇALVES et al., 2001). Desta forma, determinou-se o
número de amostras estimadas, respectivamente, com 95 e 99% de probabilidade
e uma variação de 20% em torno da média. Assim, seriam necessárias 6 e 9 amostras de solo, respectivamente, a serem coletadas para análise para uma estimativa razoável do teor de argila no horizonte superficial da área pesquisada.
Analisando-se o gráfico de “box-plot” (Figura 2) para o teor de argila, verifica-se a ocorrência de uma dispersão maior dos dados brutos para os valores
acima do quartil superior (assimetria positiva).
Box Plot (horA-Almeida 26v*81c)
26
24
22
20
18
16
14
12
10
8
6
4
Arg
Median = 10,88
25%-75%
= (8,32, 12,8)
Non-Outlier Range
= (6,4, 19,04)
Outliers
Figura 2 – Box-plot referente aos atributos argila do horizonte superficial de um
Latossolo Amarelo Coeso argissólico em Conceição do Almeida (BA),
2006.
A partir da análise do Box-Plot, verificou-se a presença de dois valores
discrepantes ou “outliers” (21,4 e 24,8%) que foram considerados como não
representativos para a área avaliada. Tais valores foram eliminados, com a
redistribuição das freqüências (Figura 3) para cálculo dos variogramas.
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Figura 3 – Histograma ajustado para argila do horizonte superficial de um
Latossolo Amarelo Coeso argissólico em Conceição do Almeida
(BA), 2006.
Ao analisar a distribuição dos dados através da reta de probabilidade de
Henry (Figura 4), após a retirada dos outliers, ressalta-se o bom ajuste obtido em
relação ao padrão de distribuição normal, embora ainda se observe um pequeno
afastamento dos dados localizados no quartil inferior.
Figura 4 - Reta de probabilidade de Henry para argila, do horizonte superficial de
um Latossolo Amarelo Coeso argissólico em Conceição do Almeida
(BA), 2006.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 43-58, Ago./Dez., 2007.
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O resultado referente ao teste de Shapiro-Wilk (Figura 3) para os dados corrigidos indica uma distribuição normal dos dados para a variável estudada. Tal
teste foi significativo em nível de 5%.
Geoestatística
As técnicas geoestatísticas foram aplicadas ao atributo físico em estudo,
após a eliminação dos outliers, como forma de ilustrar a sua aplicação prática.
Pode-se observar na Figura 5, que os valores do índice de Moran estão situados na região positiva para os menores Lags, indicando assim existir uma autocorrelação espacial positiva. Tal estruturação indica a presença de flutuações
não-aleatórias (padrão clinal) entre valores positivos e negativos, com tendência
clara do índice de Moran ser mais positivo para distâncias pequenas em oposição
às grandes distâncias, caracterizando assim a estruturação espacial do correlograma analisado.
Isotropic Correlogram
1,00
Moran's I
0,50
0,00
-0,50
-1,00
0,00
9,00
18,00
27,00
36,00
Separation Distance
Figura 5 - Gráfico de autocorrelação para o atributo químico argila, do horizonte
superficial de um Latossolo Amarelo Coeso argissólico em Conceição
do Almeida (BA), 2006.
A variável ajustou-se ao modelo esférico (Figura 6), concordando com os
resultados de várias pesquisas que indicam o modelo esférico como o de maior
ocorrência para os atributos do solo (SOUZA et al., 2004; KITAMURA et al., 2007).
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Isotropic Variogram
0,1
Semivariance
0,1
0,0
0,0
0,0
0,00
9,00
18,00
27,00
36,00
Separation Distance
Spherical model (Co = 0,00080; Co + C = 0,08810; Ao = 9,59; r2 = 0,663;
RSS = 3,646E-04)
Figura 6 – Semivariograma ajustado para o atributo argila de um Latossolo
Amarelo Coeso argissólico em Conceição do Almeida (BA), 2006.
Na análise do grau de dependência (GD) dessa variável, utilizou-se a
classificação de Zimback (2001). A análise da relação C/(Co+C) mostrou que a
variável apresentou grau de dependência espacial forte (Tabela 2). Isso
demonstra que o semivariograma explica a maior parte da variância dos dados
experimentais.
Tabela 2 – Parâmetros estimados do semivariograma experimental para o atributo
físico argila de amostras coletadas no horizonte superficial de um
Latossolo Amarelo Coeso argissólico.
GD
Variáveis
-1
Argila (g.kg )
Modelo
RSS
C0
a
C+C0
C
%
classe
ESFERICO
7,510
0,2200
10 19
9 750
9 53
97 7
forte
RSS= Reduced sum square; Co = efeito pepita; C+C0 = patamar; a = alcance; GD =
dependência espacial.
O valor do alcance obtido foi de 10,19m, concordando com a estimativa
realizada a partir do correlograma (Figura 5). O efeito pepita apresentou um valor
baixo, confirmando uma pequena participação do componente ao acaso na
variabilidade espacial desse atributo.
Após a definição dos modelo de semivariograma teórico, as classes do
atributo estudado foram espacializados com o uso do interpolador krigagem. Os
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parâmetros do modelo ajustado para a variável foram utilizados para obter
estimativas em locais não amostrados por krigagem.
A Figura 7 apresenta o gráfico representativo da validação cruzada. A
variável apresentou satisfatória interpolação por krigagem, uma vez que o seu
coeficiente de regressão apresentou valor acima de 0,9.
24,80
Actual
20,20
15,60
11,00
6,40
6,40
11,00
15,60
20,20
24,80
Estimated
Regression coefficient = 0,931 (SE = 0,129 , r2 =0,396,
y intercept = 0,66, SE Prediction = 2,801)
Figura 7 - Gráfico ajustado de validação cruzada para o atributo químico argila, do
horizonte superficial de um Latossolo Amarelo Coeso argissólico em
Conceição do Almeida (BA), 2006.
Na Figura 8 é apresentada a superfície interpolada a partir do modelo ajustado, considerando o semivariograma determinado. Com base nos parâmetros de
ajuste [efeito pepita (Co), patamar (Co + C1), alcance (a)] foi possível a construção
do mapa de superfície para a variável em estudo, caracterizando, assim, o comportamento espacial da variável em campo. Desta forma, percebe-se como a
estrutura da variabilidade pode contribuir para a precisão de um plano de amostragem. As diferenças entre as concentrações, distantes apenas de 4 m entre si, são
bastante evidentes.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 43-58, Ago./Dez., 2007.
55
18,9
18,1
17,2
16,4
15,6
14,8
13,9
13,1
12,3
11,5
10,7
9,8
9,0
8,2
7,4
6,6
Figura 8 - Mapas 3D da variável argila, construído a partir do semivariograma
ajustado, do horizonte superficial de um Latossolo Amarelo Coeso
argissólico em Conceição do Almeida (BA), 2006.
CONCLUSÕES
Para o atributo analisado, foi possível verificar que o conjunto de ferramentas geoestatísticas aumentou a possibilidade de compreensão da dinâmica espacial dos dados, contribuindo desta forma para uma melhor avaliação da definição
de uma célula unitária de análise amostral.
A distribuição de freqüências dos dados amostrados ajustou-se ao modelo
normal, após a retirada dos valores “outliers”, presentes no quartil superior, com
um coeficiente de variação de 28,25, considerado moderado.
A variável argila apresentou autocorrelação positiva, indicando existir uma
associação espacial, tendendo haver semelhanças entre os valores do atributo
em distâncias próximas a cada local amostrado.
O semivariograma ajustado ao modelo foi o esférico, apresentando a variável um alcance em torno de 10,19 metros.
A técnica da krigagem permitiu a possibilidade de explorar os dados
espaciais, extraindo informações complementares não diretamente perceptíveis,
ao se utilizar as técnicas da Estatística clássica.
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A ERA CENOZÓICA E A ORIGEM DA FORMAÇÃO
BARREIRAS
Maria da Glória Figueredo Rodrigues
RESUMO: Diversos autores consideram que os termos “formação barreiras”,
“formação das barreiras” e “série das barreiras” vêm sendo, utilizadas
indistintamente, no Brasil, para designar todas as rochas não consolidadas que
recobrem o cristalino ou que parecem ter sido depositados discordantemente
sobre rochas de idade Cretácea. Além disso, diversas discordâncias, erosivas e
angulares, têm sido reconhecidas dentro da “formação barreiras” e diversos
ambientes de sedimentação distintos identificados, mesmo dentro de cada bacia
de sedimentação considerada isoladamente. A litologia, como conseqüência, é
também variável podendo previrem-se sucessivas modificações, na terminologia
da “série das barreiras” ou da “formação barreiras” à proporção em que se fizerem
estudos mais detalhados de campo do conjunto de rochas de idade Cenozóica do
Brasil. A Era Cenozóica iniciou-se entre 64,4 e 65 milhões de anos e compreende
os períodos Terciário e Quaternário e a Terra continua em constante evolução e
transformação.
PALAVRAS-CHAVES: Barreiras; terciário; quaternário
ABSTRACT: Diverse authors consider that the terms "formation barriers",
"formation of barriers" and "series of barriers" is being, used indiscriminately, in
Brazil, to designate all the rocks not consolidated that recover the crystalline or that
seem to have been deposited discordantemente on rocks of age Cretácea.
Moreover, diverse disagreements, erosive and angular, has been recognized
inside of the "formation barriers" and various environments of different
sedimentation have been identified, even within each of sedimentation basin
considered alone. The litologia, as consequence, is also variable can to foresee
successive modification, in the terminology of the "series of barriers" or the
"formation barriers" the proportion in which if do more detailed studies of whole of
rocks of age Cenozóica of Brazil. The Era Cenozóica is between 64.4 and 65
million years and understands the periods Tertiary and Quaterary and the Earth
continues in constant evolution and transformation.
KEY-WORDS: Barriers, tertiary, quaternary
*Licenciada em Geografia pela UEFS, Mestre em Ciências Agrárias pela UFBA, professora da
Faculdade Maria Milza e da Rede Estadual de Ensino.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 59-69, Ago./Dez., 2007.
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INTRODUÇÃO
Na Era Cenozóica, o desenvolvimento de animais e plantas foi intenso,
ficando então, conhecida como idade dos mamíferos e dos angiospermas e o surgimento do homem moderno. O Terciário é o período mais antigo e durou cerca de
63 milhões de anos e, geologicamente, representa a formação das grandes cadeias montanhosas hoje existentes e as rochas sedimentares recentes. O Quaternário é um período mais curto com duração aproximada de 1,6 a 2 milhões de anos
(dependendo do autor) e chega até o presente, representa o surgimento do
homem moderno e a ocorrência das grandes glaciações.
Durante o Terciário, houve a grande movimentação dos continentes pela criação de litosfera em vários pontos e a formação de arcos-de-ilhas atuais
(LABOURIAU, 1998). Os arcos-de-ilhas são formações dinâmicas e transitórias
que com o passar do tempo desaparece ou funde-se com os continentes ou outras
ilhas não vulcânicas. Nesse período, ocorre a separação dos continentes, que
resultou no isolamento de uns e na colisão de outros, a exemplo da América do
Norte que colidiu várias vezes com a Ásia e da África com a Eurásia. Este movimento ocasionou aberturas e fechamentos de novos oceanos, ou seja, o isolamento e posterior coalescência dos continentes tendo como conseqüências
mudanças nas correntes marinhas que modificaram o clima e a distribuição de
fauna e flora marinhas em muitos continentes. As mudanças climáticas foram grandes e diferentes em cada um dos continentes que resultaram da fragmentação da
Pangéa. O Supercontinente Pangéa, dividiu-se em oito grandes fragmentos: América do Sul, África, Austrália com Nova Guiné, Antártida, Índia, América do Norte e
Eurásia. Estava delineado de forma definitiva os atuais continentes da Terra.
Simultaneamente à fase de fragmentação, começou a formação de altas
montanhas, que acabaram por provocar mudanças no relevo dos continentes, criando novas áreas de expansão para a biota e barreiras para migração, conseqüência do movimento das placas tectônicas e da deriva dos continentes. Como
essas áreas eram inicialmente baixas, à medida que se elevavam, o clima foi-se
esfriando chegando ao Quaternário a terem seus picos mais altos cobertos por
neves eternas, ou seja, glacis (LABOURIAU, 1998). O reflexo dessas grandes
mudanças ambientais em cada subcontinente verificou-se através da deriva dos
continentes e das diferenças latitudinais e topográficas, nas quais além das barreiras, o clima mudou em muitas partes e houve extinção de vários níveis da biota.
Outros tipos de barreiras foram criados pela formação de grandes áreas
desérticas, nas regiões continentais próximas das latitudes de 30º norte e sul,
como os desertos de Sahara, de Atacama, etc., devido à circulação global dos ventos e às “sombras” de chuvas. Para Labouriau (1998) todas essas barreiras resultaram em fragmentação de áreas dentro dos continentes.
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A FORMAÇÃO BARREIRAS
Na época em que estava havendo o soerguimento do continente, ocorria
simultaneamente uma deposição em lençol, em clima semi-árido, formada por
cones aluviais coalescentes, e este soerguimento contribuía para o caráter torrencial da sedimentação (MARTIN, 1980). Com o clima mais seco e essa instabilidade tectônica, ocorre a diminuição da cobertura vegetal, dando lugar à erosão do
manto de intemperismo. A desagregação da superfície Sul-Americana pelos
novos níveis de dissecação e aplainamento provoca a deposição dos sedimentos
que deram origem ao Grupo Barreiras.
Dessa forma, o Terciário foi marcado por uma sedimentação detrítica muito
importante, do tipo lençol em clima semi-árido que recobriu tanto as formações
Pré-cambrianas como as do Cretáceo, estendendo-se desde o estado do Rio de
Janeiro, até a Amazônia (INDA,1979).
Martin (1980) também considera a sedimentação detrítica muito importante, ocorrida no Plioceno, constituída de sedimentos arenosos e
argilosos de cores variadas, que litoestratigraficamente são enquadrados no Estado da Bahia, sob a categoria de formação, com o nome de “Barreiras”. Para o
autor, estes sedimentos dispõem-se na forma de tabuleiros, bordejando a costa,
notadamente ao sul, onde chegam a apresentar, em alguns trechos, falésias
vivas.
Oliveira e Leonardos (1943) dão um significado mais geográfico que geológico, quando falam em “Série Barreiras”, admitindo um termo mais amplo, querendo caracterizar uma unidade
morfológica marcante, os tabuleiros, atribuindo-lhe também
idade terciária pliocênica (já que seus fósseis são raros) embora seja provável que eles contenham ou encerram depósitos
mais antigos e também mais modernos, abrangendo um intervalo de tempo que poderá começar no Cretáceo Superior e ir
até o Quaternário.
Essa “formação” ou “série” geralmente sem fósseis que lhe
permita atribuir idade certa, acha-se exposta em numerosos
barrancos de rios, lagos, assim como em vários cortes de
estradas no interior amazonense, inclusive no Maranhão, e ao
longo da costa do país, desde o Estado do Rio de Janeiro até o
Pará e penetrando pelo vale Amazônico até a fronteira com a
Colômbia, Peru e Bolívia.
O termo “Barreiras” passa então a denominar a ocorrência de uma seqüência notável e contínua de sedimentos, pouco ou não consolidadas, variegados, litologicamente variando entre argilas e conglomerados, apresentando normalmente
uma estratificação irregular e muito indistinta. Esta seqüência bem típica como unidade e bem delimitada dentro da coluna estratigráfica repousa ora sobre o embasamento cristalino, ora sobre as formações cretáceas, ora sobre as formações terciárias marinhas, destacada das outras por uma discordância de erosão bem proTextura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 59-69, Ago./Dez., 2007.
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nunciada (MABESOONE et al. 1972).
Dessa forma, tem-se o nome ou termo “Barreiras” originado da expressão
comum “formação das barreiras”, querendo designar-se com isso os sedimentos
terrígenos, esculpidos em mesas, ou tabuleiros, que ornam a costa nordestina e
que são cortadas em certos trechos do litoral, em falésias abruptas (INDA e
BARBOSA, 1978).
Esses sedimentos estão distribuídos desde a foz do Amazonas até o Rio de
Janeiro, na região litorânea. No estado da Bahia, as Barreiras aparecem nas proximidades do litoral e em muitos cortes de estradas na região do tabuleiro. Cobrem
extensas áreas do Recôncavo e Tucano, ocorrendo sob a forma de extensos tabuleiros dispostos em patamares ligeiramente inclinados em direção à costa na
região Oriental da Folha de Salvador. Suas espessuras variam muito conforme a
intensidade da erosão no seu topo, mas raramente ultrapassam os 60 m. Esta formação estende-se ainda além dos limites da bacia cretácea, sobrepondo-se às
rochas do embasamento cristalino (VIANA, 1971).
Com Inda (1979), o Grupo Barreiras aflora ao longo de toda a costa, na
Folha de Salvador, estendendo-se para o interior até as cidades de Itapebi e Conceição da Feira, respectivamente, nas partes centro-sul e centro-norte da mesma,
em geral, formando tabuleiros profundamente entalhados sobrepostos discordantemente tanto às rochas do Mesozóico, quanto às do Pré-Cambriano. Litologicamente constitui-se de areias grosseiras, argilas cinza-avermelhadas, roxas e amareladas; além de arenitos grosseiros e conglomeráticos, mal consolidados, mal
classificados, cinza-esbranquiçados, amarelados e avermelhados, com estratificação cruzada, estrutura de canais e abundante matriz cauliníca.
Alguns autores preferiram reunir as camadas variegadas sob um termo neutro como, por exemplo, “Terciário Superior Indiviso” (Andrade, 1955), ou “Formações Continentais Cenozóicas Indiferenciadas”, já que poderão abranger indistintamente as rochas de idade Terciária e Quaternária (MATOSO e ROBERTSON,
1959).
Assim, é consenso destacar o “Barreiras” como seqüência variegada que
foram depositados em épocas Cenozóicas, como conseqüência da formação do
relevo, dos movimentos tectônicos de abaulamento e falhamento, e dos diferentes
paleoclimas da região. A origem desses sedimentos ocorreu em épocas de relativa tranqüilidade tectônica e estabilidade climática, formando-se os solos espessos. Toda a seqüência foi depositada pelos meios de transporte do clima semiárido – corridas de lama e de areia, e que os sedimentos devem necessariamente
possuir o mesmo caráter.
O TERCIÁRIO SUPERIOR
A deposição da Série Barreira é o episódio final do Terciário. O Terciário é o
período mais antigo e durou cerca de 63 milhões de anos, o que representa a
maior parte do Cenozóico. Esse episódio teve uma importância primordial na
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explicação do modelado atual, tendo sido o ponto de partida da evolução Quaternária.
A evolução anterior, que vai do fim do depósito Cretáceo ao Plioceno é difícil
de reconstruir, pois seus traços foram apagados na fase de sedimentação Barreiras, cujo clima semi-árido facilitou o retrabalhamento dos depósitos anteriores e
permitiu uma ação em superfície capaz de reorganizar os elementos do modelado.
Tricart e Silva (1968) relacionam a evolução anterior a Barreiras a um período úmido, com formação de espessos pacotes de alteritas sob densas florestas
(biostasia). Nessa fase, a área atual da umidade dos tabuleiros é afetada pela ocorrência de uma alteração profunda das rochas do embasamento e foi seguida pela
instalação de um desequilíbrio biológico provocado pelo aumento da aridez. A
vegetação foi praticamente degradada, ficando as formações superficiais desprotegidas, favorecendo a atuação dos componentes paralelos de erosão (resistasia). Climaticamente apareceram duas etapas, sendo a primeira menos seca e a
segunda mais árida, com a decorrente intensificação dos processos morfogenéticos.
Na época da deposição Barreiras, a secura do clima, caracterizou-se por
uma distribuição irregular e esparsa de chuvas de grande intensidade, formando
escoamentos temporários de competência muita alta. Santos (1992) considera
que nessa mesma época, uma reativação tectônica facilitou o remanejamento e
carregamento das alterações pré-existentes e a sua deposição em áreas deprimidas. Dresch (1967) refere-se a uma flexura em direção leste, sobre a qual se depositaram os sedimentos Barreiras. Nunes (1975), considera que o levantamento
ocorreu posteriormente à sedimentação Barreiras, no início do Pleistoceno. Baseados na geomorfologia de Tricart e Silva (1968) referem-se a um soerguimento e
basculamento da costa do estado da Bahia, condicionando o caráter da deposição
Barreiras (Inda e Barbosa, 1978). Brito Neves e Feitosa, (1969) consideram que,
se afastando do litoral há áreas onde os sedimentos areno-argilosos da Formação Capim Grosso preenchm depressões e paleocanais que recobrem a superfície subjacente.
O QUATERNÁRIO
É um período mais curto com duração aproximada de 1,6 a 2 milhões de
anos (dependendo do autor) e chega até o presente.
O Quaternário corresponde à evolução paleogeográfica e paleoclimática
após o terciário, ou seja, corresponde ao período que segue à deposição Barreiras
(Pós-Pleistoceno Inferior). Foi marcado por variações climáticas, caracterizadas
por oscilações de períodos secos e úmidos. Essas variações correspondem à
sucessão dos períodos das glaciações e interglaciações nas latitudes médias,
cujas repercussões influíram também nas oscilações do nível geral de base. Foi
um período muito ativo tectonicamente, interferindo nos deslocamentos dos
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níveis de base locais e dos oceanos, vindo em geral, reforçar os aspectos climáticos (SANTOS, 1992).
Antes da deposição da Formação Barreiras, o clima deveria ter sido quente
e úmido durante um longo período, ocasionando um manto de alteração muito
espesso. Posteriormente, o clima tornou-se do tipo semi-árido com chuvas esparsas e violentas, diminuindo a cobertura vegetal e dando lugar à erosão do manto
de alteração. Os produtos dessa erosão se depositaram aos pés das encostas sob
a forma de depósitos em leques, de grande extensão. Nessa época o nível do mar
deveria ser mais baixo que o nível atual, tendo os sedimentos da Formação Barreiras recoberto uma parte da plataforma continental (BITTENCOURT et al. 1979).
O fim da deposição do Barreiras é marcado pelo retorno de um clima quente
e úmido, quando se iniciou um episódio de transgressão denominada de Transgressão mais Antiga por Bittencourt et al. (1979), que corresponde ao Interglacial
de Mindel-Riss e que erodiu a parte externa daquela formação.
Nesse período ocorre o desenvolvimento de uma cobertura vegetal densa
e o aprofundamento da alteração geoquímica e pedogenética desencadeando um
processo de latossolização sobre a superfície pediplanada, com a formação de
argilas cauliníticas e a lixiviação das bases sílicas.
Ainda nesse período, ocorre um soerguimento continental, aumentando o
gradiente hidrográfico responsável pelo conseqüentemente desencadeamento
do processo de incisão vertical dos rios. Esta retomada de erosão atinge áreas
anteriormente embaciadas, preenchidas por sedimentos com níveis de silificação
e/ou ferruginação, provocando uma inversão do relevo que forma a feição dos
tabuleiros, nos interflúvios das atuais bacias hidrográficas. Como conseqüência
desse processo, ocorreu uma desorganização da drenagem no topo, resultando
na formação de lagoas (MOTTI, 1971/2).
Essa fase úmida foi responsável pela dissecação e a superimposição hidrográfica generalizada que se observa nos compartimentos internos do relevo; os
rios entalharam os boqueirões à custa de um volume de água e de poder de erosão muito maiores que os atuais e em regime hidrológico diferente (AB'
SABER,1958). Durante essa remota erosão, o Paraguaçu e seus afluentes aprofundaram os talvegues, escavando os espessos depósitos, fazendo com que o
embasamento cristalino aflorasse no fundo dos vales.
A transgressão mais antiga é seguida por uma regressão marinha e uma
nova fase climática semi-árida, semelhante a existente quando da deposição do
Barreiras. Segundo Tricart e Silva (1968), o nível do mar se situava 80 a 90 m abaixo do nível médio atual. Nesse período, ocorreu o recuo paralelo mais acentuado
das vertentes formadas sob as rochas sedimentares e a exposição das rochas cristalinas, até então só aflorantes nos talvegues. A insuficiência de força erosiva vertical para sobrepor-se a maior resistência litológica, provocou o alargamento dos
vales à custa do recuo das vertentes formadas no material detrítico e a exumação
da superfície do embasamento nos vales. O limite máximo alcançado pelo mar
durante esse episódio é registrado em alguns locais, por uma linha de falésia.
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Após essa transgressão, o clima assume características semi-áridas que
ocasionaram a formação de novos depósitos em lençol, continentais, aos pés das
encostas, em condições bastante semelhantes, às que regeram a deposição da
Formação Barreiras, reiniciando todo o processo de recuo das encostas. Entretanto, como esses depósitos são muito menos desenvolvidos que os do Barreiras,
é possível que o período seco em que foram depositados tenha sido bem mais curto. Durante a sua deposição, o nível do mar estava mais baixo do que o atual. Na
época do máximo da Penúltima Transgressão (120.000 anos B.P.), correlata do
interglacial de Riss-Wurn, o nível do mar situava-se 6 a 8 m acima do atual. O clima
deveria ter sido bastante semelhante ao clima atual. Os vales mais próximos ao
litoral foram afogados.
Na regressão Wurminiana, as diferenças do grau de dissecação entre as
rochas sedimentares e cristalinas, começam a configurar um feição de patamar ou
terraço estrutural, que é retrabalhado e tem sua extensão ampliando o recuo das
encostas, em conseqüência do predomínio de uma dinâmica lateral.
A última transgressão conhecida como Transgressão Flandriana (5.100
anos B.P.) foi originada após uma estabilização em que o nível do mar começou a
sofrer uma elevação progressiva. Esta transgressão holocênica não ocorreu de
maneira contínua, sendo interrompida por pequenas regressões. A drenagem
escavou mais profundamente o embasamento, configurando-lhe feições definitivas do terraço estrutural (FONTES e MENDONÇA FILHO, 1987).
Nessa transgressão, houve uma descida relativa do nível do mar ao máximo transgressivo, sendo o último grande responsável pela configuração do quadro atual. Esta regressão provocou a reativação da atividade erosiva remontante e
o início da dissecação das zonas de fraquezas das rochas cristalinas da região
dos Tabuleiros. A erosão diferencial das duas formações litológicas gerou as cabeceiras de drenagem suspensas nas áreas próximas ao contato litológico. Sua cronologia tem-se do início do patamar, quando a retomada da incisão vertical atingiu
as rochas mais resistentes do embasamento. Simultaneamente, ocorreu o
aumento do débito hídrico, aumentando a vazão nos pontos de ressurgência na
zona de contato litológico, fazendo com que os canais encaixados, situados à
jusante, passassem a se aprofundar mais rapidamente. O reajustamento dos
canais a este novo perfil de equilíbrio determinou o recuo das cabeceiras, numa
ajustagem progressiva do talvegue. Nesse processo, a remoção dos colúvios situados a montante passou a se fazer de modo mais intenso, atingindo pontos cada
vez mais altos na vertente, até alcançar a escarpa. A partir daí, a erosão remontante que atua nos colúvios interceptando o aqüífero, promove também um deslocamento da base da vertente, onde a pressão hidrostática é maior. Conseqüentemente, acelera-se o fluxo subterrâneo, na base do colúvio devido ao alívio de tensão na baixa vertente, o que aumenta a lixiviação nos horizontes inferiores dos
colúvios; e por fim, provoca um colapso da cobertura coluvial, inicialmente por subsidência. Quase simultaneamente, ocorre o escorregamento da massa sobre a
superfície basal dos depósitos colúviais.
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O material assim retirado não se acumula na seção côncava inferior como o
fenômeno que ocorre em vales encaixados, os sedimentos provenientes da
massa rompida são lançados nas correntes dos rios.
Martin (1980) considera que ao longo da costa da Bahia, o Quaternário é traduzido pela formação de depósitos sedimentares, que podem ser englobados em
dois grandes tipos: a) Depósitos marinhos deixados pelos grandes episódios
transgressivos; b) Depósitos continentais, ligados a mudanças climáticas que tiveram lugar durante os períodos regressivos. Há ainda, indicações de uma sismicidade recente, não negligenciável, na Baía de Todos os Santos e áreas circunvizinhas, evidenciando que certas partes da Baía de Todos os Santos foram sede de
movimentos verticais durante o Quaternário.
Bittencourt et al. (1979), acrescentam que os sedimentos Quaternários do
estado da Bahia são de natureza terrígena ou carbonática e situam-se, tanto no
interior do continente como no litoral. Aos terrígenos do interior têm sido aplicados
nomes como Capim Grosso, Cacimbas, Vazantes etc., na categoria de formações, mas de maneira informal.
Seixas (1975), no mapeamento da folha SD.24-V-B (Itaberaba), sugere a
possibilidade da Formação Capim Grosso corresponder a um prolongamento da
Formação Barreiras para o interior. Inda e Barbosa (1978) consideram a hipótese
de se tratar apenas de uma unidade edafoestratigráfica e não de uma entidade litoestratigráfica definida.
Trata-se da superfície geral da região estendendo-se sobre os tabuleiros
sedimentares da costa e o embasamento cristalino no interior, em grandes extensões sem interrupções importantes (Mabesoone e Castro, 1975). Essa designação foi utilizada por Brito Neves e Leal (1968) para caracterizar os sedimentos clásticos inconsolidados, que ocorrem na porção Centro-Oriental do Estado da Bahia,
nas imediações da Vila de Capim Grosso, no município de Jacobina (BRASIL,
1976).
Essa Formação aflora nos arredores de Sapeaçu, Governador Mangabeira
e Santa Quitéria, estendendo-se para o oeste até a altura de Ibiaporã. Trata-se de
sedimentos clásticos inconsolidados, composto de um conglomerado basal descontínuo sobreposto por areias.
Brito Neves e Feitosa (1969) datam-na do Terciário, e King (1956) a associa
ao ciclo de desnudação da “Superfície Velhas”. Santos (1992), cita que Pedreira
et al. (1976) a classificam como Quaternário e a associam ao Ciclo Paraguaçu, e
que BRASIL (1981) posiciona como Plesistoceno, por estar capeando discordantemente as unidades mesozóicas e a formação Barreiras e supor que ela se originou do retrabalhamento das coberturas geradas durante o Ciclo Sul-Americano.
O ciclo erosivo atual vem reduzindo gradativamente a espessura dessa formação do Terciário Superior, areal e linearmente. A espessura da Formação
Capim Grosso repousa, discordantemente, sobre rochas granulítico-magmáticas
do Pré-Cambriano C, onde acompanha as ondulações do substrato (INDA e
BARBOSA, 1978). Geomorfologicamente caracteriza-se por corresponder com
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relevo plano, com suave inclinação para leste, formando em feição regional os
tabuleiros. Sua extensão vem sendo reduzida progressivamente pelo Ciclo erosivo Paraguaçu (ciclo erosivo atual). Este ciclo vem reduzindo-se e equivale às chamadas fases de pedimentação menos extensas chamados de P2 e P1 por
BIGARELLA e AB'SABER (1964).
Quanto à idade precisa dessa formação, ocorre divergência: é o neoterciária a eo-quaternária, posterior ao desenvolvimento dos “glacis” relacionados
à formação de pediplanação Velhas (INDA e BARBOSA, 1978).
Essa unidade possivelmente seja correlativa dos sedimentos Barreiras da
Costa Atlântica, visto que ambas se situam em posição espaço-temporal semelhantes. Esta é uma evidência de que esta formação e o Grupo Barreiras sejam
apenas fácies diferentes de uma mesma seqüência, como pode ser notado na
região entre Governador Mangabeira e Conceição da Feira onde, tanto as cotas
de ocorrência como as relações com o substrato são idênticas para ambas as formações, estando apenas separadas pelo vale do Paraguaçu (BRASIL,1976).
A necessidade de dar um (re) definição ao grupo de Barreiras foi o objetivo
de observações e trabalhos realizados por diversos autores nos quais o termo
passa então a ser adotado para indicar as camadas variegadas que afloram nas
diversas barreiras ao longo da costa. Assim, assume gradativamente o sentido de
um termo estratigráfico, sem se pensar na necessidade de uma definição ou delimitação certa para marcar uma localidade típica. A deposição sedimentar representou o estágio inicial de elevação, tanto do modelado quanto dos solos
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GESTÃO ESCOLAR E TECNOLÓGICA: UMA ANÁLISE DO
PROCESSO DE INCORPORAÇÃO DOS RECURSOS
TECNOLÓGICOS NO AMBIENTE ESCOLAR
Antonio Wellington Melo Souza*
Ana Lucia Santos dos Passos**
Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades, muda-se o ser, muda-se a
confiança. Todo o mundo é composto de
mudança.
Camões
RESUMO: Neste trabalho, tem-se o propósito de discutir a necessidade da
incorporação e apropriação das tecnologias da informação e comunicação na
gestão escolar. Esta discussão veio à luz a partir da percepção de quem
acompanha o processo de incorporação das TICs no Sistema Público de Ensino
por intermédio do Núcleo de Tecnologia Educacional do Estado da Bahia.
PALAVRAS CHAVES: Tecnologias de informação e comunicação - TICs, gestão
escolar, gestão tecnológica e cooperação.
ABSTRACT: This work has the aimed at discussing the necessity of the
incorporation and appropriation of the technologies of the information and
communication in the management of the school. That discussion came to the
perception of who follows the process of incorporation of the TICs in Sistema
Publico de Ensino through the Núcleo de Tecnologia Educacional do Estado da
Bahia.
KEY-WORKS: Comunication and Information Tecnologies - TICs, management of
the school, management of tecnology and collaboration.
* Professor da Faculdade Maria Milza - FAMAM
**Professora do Núcleo de Tecnologia Educacional de Santo Antônio de Jesus
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 71-76, Ago./Dez., 2007.
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As transformações sociais e econômicas associadas aos avanços científicos e tecnológicos desencadearam no Brasil a facilitação e popularização da
informação, a redução das distâncias e aceleração dos processos de mudança.
Nesse sentido, modernizar é necessário para acompanhar as tendências globais
da sociedade em rede, com a utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação - TICs, através de diversos programas, inclusive governamentais. Essas
ações se estendem aos municípios e em última instância à escola.
A escola vem sendo o depositário de um movimento que ocorre em escala
planetária e que busca consolidação no espaço escolar. Como esses objetos (dispositivos tecnológicos) vêm sendo apropriados neste espaço? E como as ações e
relações vêm se efetivando neste espaço? O lugar representa a confluência das
relações sociais, uma vez que é no lugar onde ocorre a sedimentação da cultura,
dos valores, e de todo caráter que o individualiza. Assim estabelecer conexões
entre escola e a tecnologia é o objeto deste artigo, considerando que estes recursos ampliam a percepção do espaço (escola) e se constitui num cenário de relações sociais e de poder.
A incorporação das tecnologias de comunicação e informação no sistema
público de ensino será abordada por meio de uma reflexão com base na percepção de quem acompanha, de certa forma, esse processo, através da mediação do
Núcleo de Tecnologia Educacional de Santo Antônio de Jesus, enquanto centro de
capacitação de professores, como também do corpo administrativo das escolas,
para apropriação das TICs no sistema público de ensino.
Na escola convivem, tecnologias diversas de diferentes tempos e lugar interagindo num mesmo ambiente. Nessa convivência, o novo é apresentado como
potencializador de eficácia, o que não implica diretamente na sua aceitação. Logicamente, dependerá do modo como esses dispositivos são incorporados, da ação
dos fatores de organização local e da percepção que o indivíduo tenha frente ao
novo elemento. De modo geral a recusa está associada a rupturas na estrutura de
poder e controle local historicamente instituída.
As inovações seguem ritmos distintos em cada lugar. Mas quando incorporadas modificam a teia de relações existentes, estabelecendo novas vivências,
novas interações, apresentando variáveis de múltiplas dimensões e vertentes
ainda não analisadas ou consideradas na configuração de contexto. Assim, este
sistema de atividade requer um método, como caminho para alcançar um fim anteriormente proposto, possuindo características que o diferenciam pela sensibilidade da equipe em adaptá-lo à sua realidade, tendo em vista seus interesses e objetivos propostos.
O reflexo disto, particularmente no sistema de ensino, segue duas vertentes: repensar a educação expondo a necessidade de mudanças no aspecto pedagógico e outra na sua estrutura administrativa. Almeida (2002) afirma que a materialização do uso das TICs no sistema de ensino traz a modernização do sistema
pela implantação de toda infra-estrutura tecnológica, podendo também acarretar
mudanças pedagógicas e administrativas, numa renovação do sistema.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 71-76, Ago./Dez., 2007.
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As TICs determina um conjunto de relações, de ações recíprocas, no interior das práticas pedagógico-administrativas. Sua pretensa neutralidade cai por
terra e com a LDB de 1996 expande a sua atuação na esfera escolar para garantir
o preparo do aluno para os desafios impostos pela sociedade e encaminhar o
desenvolvimento da gerência de qualidade nos processos educacionais.
Apesar da LDB nº 9.394/96, trazer como principio básico, para o sistema de
ensino, a gestão democrática, a apreensão das normas, regras e estatutos, esta
não condicionou a sua prática. Na escola, os diversos atores não se apropriam da
legislação sem ajustá-la, moldá-la, mesmo que de forma inconsciente a seu conteúdo mental, comportamental, e valorativo. Em conseqüência ressoa na fala, na
escrita, nos objetivos, nas posturas e comportamentos do grupo, na configuração
materializada na arquitetura, disposição de objetos e equipamentos, mobiliários,
etc.
Segundo Novoa (1995), nas manifestações comportamentais, incluem
além das posturas e atitudes as normas e os regulamentos criados; os procedimentos impostos e ou assumidos pelos membros como padrão de funcionamento
da instituição e que de modo geral definem a imagem da instituição, os rituais e
cerimônias relacionadas ao nível de participação dos atores escolares internos e
externos na vida da escola.
O foco da gestão escolar deve ser como e porque usar a tecnologia de
forma que esta se transforme num poderoso aliado. Os dados que circulam no
espaço escolar, deve ser transformada em informação, mas exige uma equipe preparada para transformar as informações em conhecimentos que modificam substancialmente a dinâmica de funcionamento sobre os processos da escola.
As habilidades gerenciais devem combinar a formação acadêmica com a
visão sistêmica, habilidade técnica, conhecimentos teóricos, capacidade de perceber e assumir os próprios erros, criatividade para inovar e encontrar soluções
para antigos problemas, capacidade de comunicação, e trazer para si a responsabilidade pelo seu crescimento profissional. As habilidades gerenciais (Seixas ,
2005) se referem ä prática para trabalhar com pessoas, promovendo a motivação, o trabalho em equipe, a colaboração e interação com o grupo.
E acima de tudo é essencial ter o espírito de liderança para motivar, tomar
decisões, trabalhar em defesa do bem-estar da equipe, o que se refletirá no atendimento a toda comunidade. De acordo com (Ferreira. 2002), “liderança é um processo que envolve habilidades e talentos num conjunto de práticas observáveis e
passíveis de aprendizado”. Assim, são habilidades que podem ser desenvolvidas
ao longo da atuação, dando ênfase as relações humanas para promover a harmonia no espaço escolar, e o estabelecimento do diálogo com aceitação de diferenças de pensamento e de crítica.
A liderança é considerada crucial na condução de mudanças e na efetivação de uma dinâmica de funcionamento institucional que responda às suas necessidades e estabeleça diversas conexões internas e externas formando uma rede
de relações que se fortalece na valorização de parceiros e equipe de trabalho, e na
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liberdade para expressar habilidades e criatividade e no estímulo ao aprendizado
contínuo.
Contudo, a sucessão de mudança na gestão escolar, deixa entrever uma
série de contradições entre o que se apresenta formalmente e em princípios legais
e determinações que sofrem influências de cunho político, até as ações administrativas da escola. Isto se aplica, sobretudo a questão da gestão democrática que
passa pela indicação de nomes para os cargos e até mesmo na falta de preparo do
gestor para a função, inclusive seguindo as regras de proteção, centralização, abusos de poder, dentre outros.
Desta forma deve ser trabalhada junto a comunidade escolar a substituição
de valores, concepções e práticas institucionais que se configuram até então. A
tendência é a formação de uma cultura escolar pautada na democracia, na participação, na valorização do humano. A gestão democrática só se firma se a democracia se constituir em um dos pilares da organização escolar como atuação,
como ação significativa construtora de identidade e que servem como referencial
pessoal e de grupo.
À medida que incorporam as TICs na escola, acredita-se que haverá: a diminuição da circulação de papel com a formação de arquivos digitais diversos; a facilitação do acesso às informações, formatando um quadro em que o administrativo
e o financeiro estarão a serviço do pedagógico e integrados definirão as ações
necessárias, para o bom funcionamento e desempenho da Unidade Escolar; a
busca pela projeção da escola para a comunidade, de modo que haja um acesso
de mão dupla, em que se efetive a interação e a criação de laços significativos
com a comunidade local; configura-se deste modo, enquanto gestão de qualidade, democrática e participativa. Concordamos com Moran quando diz
Um diretor, um coordenador tem nas tecnologias, hoje, um
apoio indispensável ao gerenciamento das atividades administrativas e pedagógicas. O computador começou a ser utilizado antes na secretaria do que na sala de aula. Neste
momento há um esforço grande para que esteja em todos os
ambientes e de forma cada vez mais integrada. Não se pode
separar o administrativo e o pedagógico: ambos são necessários (...) O administrativo está a serviço do pedagógico e
ambos têm de estar integrados, de forma que as informações
circulem facilmente – com as restrições de acesso necessárias –, para visualizar qualquer informação que precisarmos
checar ou para fazer previsões necessárias. (MORAN, 2007)
Cremos, assim, que a gestão democrática deve superar a pura e simples
substancia da gestão, expandindo para o direcionamento e interação entre os
agentes envolvidos, com realização de espaços de negociação e, de interiorização de novos valores, principalmente nas interações sociais e na busca de qualificação. Há esforços conjunto neste sentido. Entretanto, ainda predomina basicaTextura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 71-76, Ago./Dez., 2007.
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mente a mera informatização das tarefas administrativas e financeiras e o desenvolvimento de atividades isoladas no laboratório de informática, numa visão fragmentada e de funcionamento em paralelo dos diversos setores.
A equipe aprendendo a trabalhar de forma cooperativa, respeitando as diferenças individuais e atentos às oportunidades alcança êxito. A corrida pela qualidade passa também pelo questionamento das rotinas, empenho nas mudanças,
estratégias de ação e procedimentos que passa a caracterizar a instituição como
um todo. As pressões externas com as transformações aceleradas da sociedade,
a exposição permanente a desafios, exige competências e habilidades para o
desempenho da função com maestria, bem como de relacionamento interpessoal
na gestão de conflitos.
Ao líder também cabe a percepção da necessidade da descentralização do
poder para evidenciar e fazer fluir potenciais individuais, levando a instituição a
atingir seus objetivos. O melhor líder não é aquele que aparece para resolver tudo.
Isto é indicativo de fracasso administrativo e de desperdício de recurso intelectual,
como aponta Novoa (199, p.165): “os melhores trabalhos faço quando abro mão
dos meus próprios pontos de vista. Quando menos apareço mais sou”.
À gestão escolar cabe fazer com que os membros de sua equipe, atuem em
sintonia em torno de um projeto de educação na qual prevaleça o trabalho coletivo
como forma de compartilhar problemas e saberes, na busca de soluções plausíveis e eficazes, fomentando mudanças no comportamento dos atores envolvidos, fortalecendo o espírito cooperativo, e participativo no interior da escola, colocando-a
no centro das decisões e das ações.
As TICs podem contribuir para promover a criação de comunidades colaborativas de aprendizagem (Almeida, 2002). A Internet pode auxiliar a escola na articulação da própria escola e com outros espaços produtores de conhecimento.
Tudo é possível, logicamente se houver acesso às tecnologias para todos (corpo
administrativo, alunos, professores e comunidade); e cada um possuir o(s) domínio(s) indispensável(s) na sua função seja técnico (habilidade para interagir com a
máquina), pedagógico e gerencial, a fim de colaborar efetivamente no processo
ensino-aprendizagem, facilitando o acesso às informações e à integração do administrativo e do pedagógico. E assim, fomentar a reflexão sobre a organização cooperativa para mediar processos de ação, construção de projetos educacionais e
de capacitações, reconfigurando a prática educativa, distanciando-se dos discursos de poder e das contradições no exercício de uma prática cooperativa e democrática.
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Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 71-76, Ago./Dez., 2007.
CYDNIDAE (INSECTA: HEMIPTERA) EM UM
AGROECOSSISTEMA
NA REGIÃO SUL DO ESTADO DA BAHIA, BRASIL
Oton Meira Marques*
Hélcio R. Gil-Santana**
RESUMO: Sete espécies de percevejos da família Cydnidae (Insecta: Hemiptera)
foram coletadas com uma armadilha luminosa dotada com lâmpada de mercúrio
no município de Barro Preto, Região Sul do Estado da Bahia - Brasil, em uma área
cuja vegetação predominante é o cacaueiro (Theobroma cacao L.) e árvores de
grande porte remanescentes da Mata Atlântica. As espécies Amnestus pusio
(Stål, 1860), Cyrtomenus emarginatus Stål, 1862, Dallasielus lugubris (Stål, 1860)
e Pangaeus aethiops (Fabricius, 1787) são registradas pela primeira vez no
Estado da Bahia.
PALAVRAS-CHAVE: percevejos, cacau, Mata Atlântica.
ABSTRACT: Seven species of burrower bugs of the family Cydnidae (Insecta:
Hemiptera) were collected with a light trap endowed with mercury lamp in the
municipality of Barro Preto, South Region of the State of Bahia - Brazil, in an area
whose predominant vegetation is the cocoa (Theobroma cacao L.) and trees of
great tall remainders of the Atlantic Rain Forest. The species Amnestus pusio
(Stål), Cyrtomenus emarginatus Stål, Dallasielus lugubris (Stål) and Pangaeus
aethiops (Fabricius) are recorded for the first time in the State of Bahia.
KEY WORDS: burrower bugs, cocoa, Atlantic Rain Forest.
*Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
(UFRB), 44380-000 Cruz das Almas - BA, Brasil. Bolsista de Produtividade de Pesquisa da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB); e-mail: [email protected]
**Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro - RJ; e-mail: [email protected]
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INTRODUÇÃO
Muitas espécies da família Cydnidae (Insecta: Hemiptera: Heteroptera), provavelmente a maioria, são fossoriais e enterram-se no solo utilizando a expansão
da tíbia anterior; alimentam-se principalmente de raízes de vegetais e, mais raramente, de sementes e frutos (SCHAEFER, 1988; SCHUH & SLATER, 1995;
MAYORGA & CERVANTES, 2001; MAYORGA, 2002). Esta família é dividida por
Froeschner (1960) em cinco subfamilias: Garsauriinae, Sehirinae, Amnestinae,
Cydninae e Scaptocorinae, sendo que as duas primeiras não possuem representantes no Brasil. Scaptocorinae é considerada por Lis (1999) como sinônimo de
Cephalocteinae Mulsant & Rey.
Dolling (1981), em um conceito mais amplo da família, inclui Thyreocorinae,
Corimelaeninae e Thaumastellinae como subfamílias de Cydnidae mas, Jacobs
(1989), considera a última como família, uma disposição seguida por Schuh & Slater (1995).
Schaefer et al. (1988) elevaram o gênero Parastrachia à condição de subfamília (Parastrachiinae) de Cydnidae e, posteriormente, Sweet & Schaefer (2002)
concluiram que este gênero deve ser considerado como família (Parastrachiidae).
Armadilhas luminosas têm sido utilizadas em diversos locais e épocas para
a coleta de insetos da ordem Hemiptera, inclusive espécies de Cydnidae
(SOUTHWOOD, 1960; CIVIDANES et al., 1981; HIGHLAND & LUMMUS, 1986;
PAULA & FERREIRA, 1998; MAYORGA MARTÍNEZ & CERVANTES-PEREDO,
2006).
O objetivo deste trabalho é a identificação taxonômica das espécies de insetos da ordem Hemiptera e família Cydnidae com comportamento fototrópico positivo para luz artificial que ocorrem em um agroecossistema da Região Sul do Estado da Bahia, Brasil.
MATERIAL E MÉTODOS
Os espécimes foram capturados entre fevereiro de 2003 a janeiro de 2005,
por meio de uma armadilha luminosa modelo LQ-III, descrita por Nakayama
(1979), provida com lâmpada de mercúrio de luz mista (160 watts, 220 volts), no
município de Barro Preto (14º 43' 10" Oeste de Greenwich, 39º 22' 05" de latitude
Sul), Região Sul do Estado da Bahia - Brasil. A área na qual a armadilha luminosa
foi instalada é um agroecossistema que tem como vegetal predominante cacaueiro, Theobroma cacao L. (Sterculiaceae); as demais espécies vegetais presentes
no local são mantidas objetivando o sombreamento da cultura referida.
Estas "plantas de sombra" podem ser separadas em três grupos: 1) sombra
temporária (bananeira, mandioca), 2) sombra permanente implantada (Erythrina
fustigata, Gliricidia sepium) e 3) sombra permanente nativa (árvores de grande
porte remanescentes da Mata Atlântica, vegetação original da região).
Os insetos foram colocados em recipientes contendo álcool a 70%, transTextura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 77-81, Ago./Dez., 2007.
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portados para o Laboratório de Entomologia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, onde foram triados, montados e etiquetados. Em laboratório, as
características morfológicas externas foram examinadas sob microscópio estereoscópico, com aumento variável de 6,3 a 40 vezes. A identificação dos táxons foi
realizada por consulta as chaves, descrições e figuras existentes em Froeschner
(1960), Dolling (1981), Schuh & Slater (1995) e Mayorga (2002).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram obtidas 7 espécies, pertencentes a 5 gêneros e duas subfamílias. Os gêneros são os mesmos das 10 espécies, também capturadas com armadilha luminosa, por Paula & Ferreira (1998) em Viçosa, município situado na mesorregião da
Zona da Mata do Estado de Minas Gerais, Brasil. Este município, similarmente a
Barro Preto, possuía uma vegetação original do tipo floresta tropical subperenifólia, pertencente ao ecossistema da Mata Atlântica (WIKIPÉDIA, 2007). Em outro
levantamento realizado com o mesmo método de coleta em plantios de cana-deaçúcar do Estado de São Paulo, Brasil, Cividanes et al. (1981) obtiveram 9 espécies de 6 gêneros, 4 deles (Cyrtomenus, Dallasielus, Pangaeus, Prolobodes) também encontrados em Barro Preto.
No presente estudo, Amnestus pusio (Stål) foi a única espécie de Amnestinae coletada, sendo o primeiro registro desta subfamília no Estado da Bahia. Duas espécies deste gênero foram coletadas no Estado de São Paulo em ninhos de formigas
(FROESCHNER, 1975) e uma foi encontrada no México alimentando-se de frutos
de diversas espécies de Ficus (Moraceae) (MAYORGA & CERVANTES, 2001). As
outras 6 espécies, todas da subfamília Cydninae, foram: Cyrtomenus bergi Froeschner, a única dentre as espécies capturadas neste estudo que Lis et al. (2000)
consideram de importância econômica como praga de vários cultivos agrícolas,
Pangaeus sp., Prolobodes reductum (Amyot & Serville), Cyrtomenus emarginatus
Stål, Dallasielus lugubris (Stål), Pangaeus aethiops (Fabricius), sendo as três últimas documentadas pela primeira vez no Estado da Bahia.
APOIO
Professor Johann Becker (Universidade Federal do Rio de Janeiro /
Museu Nacional) e do Centro de Estudos de Cacau Almirante pelos recursos
financeiros para a realização desta pesquisa.
REFERÊNCIAS
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em:
FORTALECIMENTO DA ATENÇÃO BÁSICA E A SUA
INTERFACE COM A FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA
DA SAÚDE
Carmen Lieta Ressurreição dos Santos*
Adriana Miranda de Cerqueira**
RESUMO: Este artigo busca trazer elementos para subsidir à discussão acerca
da implantação da Saúde da Família como a estratégia norteadora da
reorganização da atenção à saúde e a necessidade de formação de profissionais
engajados nas políticas públicas que compreenda o processo no qual estão
inseridos, e, sobretudo, capazes de refazer permanentemente as práticas,
valores e conhecimentos envolvidos no processo de produção social da saúde.
PALAVRAS CHAVE: Saúde da família; formação profissional; atenção básica
ABSTRACT: This article seeks to bring elements for subsidir to the argument
about the implementation of the Health of the Family as the strategy norteadora of
the re-organization of the attention to the health and the committed professionals
formation need in the public politics that understand the trial in which are inserted,
and, especially, capable of redo permanently the practices, values and knowledge
involved in the trial of output.
KEYWORDS: Health of the family; professional formation; basic attention
*Docente da Disciplina Saúde Coletiva I ofertada no curso de Enfermagem da Faculdade Maria
Milza-FAMAM.
**Enfermeira do Programa Saúde da Família no município de Nova Canaã- BA
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 83-90, Ago./Dez., 2007.
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A Secretaria de Assistência à Saúde (BRASIL, 1999, p.9) define a Atenção
Básica como: “um conjunto de ações de caráter individual ou coletivo, situadas no
primeiro nível de atenção dos sistemas de saúde voltadas para a promoção da saúde, a prevenção de agravos, o tratamento e a reabilitação”. Todavia, o Ministério
da Saúde (BRASIL, 2006, p.3) propõe uma definição mais abrangente para a Atenção Básica caracterizando-a como:
um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que abrangem a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnostico, o tratamento, a reabilitação
e a manutenção da saúde. É desenvolvida por meio do exercício de práticas gerenciais e sanitárias democráticas e participativas, sob forma de trabalho em equipe, dirigidas a populações de territórios bem delimitados, pelas quais assumem a
responsabilidade sanitária, considerando a dinamicidade existente no território em que vivem essas populações. Utiliza tecnologias de elevada complexidade e baixa densidade, que
devem resolver os problemas de saúde de maior freqüência e
relevância em seu território. É o contato preferencial dos usuários com os sistemas de saúde.
A Atenção Básica estruturou-se com base nos princípios do Sistema Único
de Saúde (SUS), reafirmando-os, a exemplo da saúde como direito, integralidade
da assistência, universalidade, equidade, resolutividade, intersetorialidade, humanização do atendimento e participação popular. Ainda, deve considerar o sujeito
na sua singularidade atendo-se às questões sócio-culturais que permeiam o seu
cotidiano.
A definição e os princípios em que estão alicerçados a Atenção Básica fornecem os subsídios essenciais para a organização de uma rede básica coesa e
resolutiva; entretanto, faz-se necessário a realização de uma avaliação sobre a
política de financiamento da Atenção Básica.
A política de Atenção Básica desempenha uma função extremamente
importante na organização do sistema de saúde e Wagner apud Machado e Xavier
(2005, p.11) revela que a Atenção Básica deve cumprir o papel de “uma das portas
de entrada mais importantes do SUS” e atender 80% dos problemas de saúde da
população e, para tal, confere a Atenção Básica três importantes funções, tais
como: a promoção da saúde, acolhimento da demanda e a clínica reformulada e
ampliada.
Contudo, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2002a) revela que a Atenção Básica ainda não constitui a porta de entrada principal aos serviços de saúde, porque
está cedendo lugar para os ambulatórios especializados de média complexidade
e para os serviços de urgência.
Assim, a tarefa de transformar a Atenção Básica como estratégia orientadora do novo modelo de atenção à saúde é bastante complexo, haja vista, que trataTextura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 83-90, Ago./Dez., 2007.
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se também de uma mudança ideológica, ou seja, relegar o paradigma flexneriano
e aceitar o paradigma social da saúde.
Dessa forma, observamos que a organização e o desenvolvimento da Atenção Básica deve pautar-se nos princípios do SUS e, além disso, escolher estratégias que reorientem o modelo de atenção à saúde, trazendo um conceito ampliado
sobre o processo de saúde/doença, e sejam condizentes com o cenário local e/ou
municipal de saúde.
Nessa perspectiva, Escorel, Giovanella e Mendonça (2003) revelam que o
SUS brasileiro passa por um momento de reorganização e ensaia mudanças no
modelo de assistência à saúde através da institucionalização do Programa de
Saúde da Família (PSF). Dessa forma, entendemos que o PSF está inserido em
um contexto de decisão política e institucional e fortalecimento da Atenção Básica,
no âmbito do SUS.
Segundo Souza (2001), o PSF nasceu das experiências acumuladas pelo
Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e das necessidades de
saúde advindas da população, nos dias 27 e 28 de dezembro de 1993, como resultante de um encontro de diversos segmentos da sociedade o qual serviu para orientar os princípios e bases conceituais. Vale destacar que, o PACS é um programa
criado em 1991 pelo Ministério da Saúde com o objetivo de diminuir os indicadores
de mortalidade materna e infantil no Nordeste, através da atuação dos Agentes
Comunitários de Saúde(ACS) na própria comunidade.
Segundo Teixeira,
o mais interessante e, sem dúvida, mais relevante politicamente, é que o Saúde da Família, formulado enquanto um programa 'vertical' a ser implantado nas regiões Norte e Nordeste
do país, onde se colocava a necessidade de interromper ou
redefinir o ritmo de expansão da epidemia de cólera no início
dos anos 1990, foi reapropriada e redefinida, por um conjunto
heterogêneo de atores políticos, em nível estadual e posteriormente federal, que viram no PACS e em seu sucedâneo, o
PSF, uma oportunidade histórica de promover a mudança do
modelo de atenção à saúde em larga escala. (2003, p.258)
Nesse sentido, é importante esclarecermos que o PSF não é um programa
e, mas uma estratégia que visa reorganizar o modelo de atenção à saúde no Brasil
e tem o seu foco voltado para a família/comunidade. Nessa perspectiva, reforçamos esta idéia ao compreendermos que o PSF não se apresenta como uma intervenção vertical e paralela às atividades dos serviços de saúde e sim como uma
estratégia que permite a integração USF - Comunidade em busca de um objetivo
comum – qualidade de vida.
Ainda, reafirmando o fato supracitado, a Secretaria de Assistência à Saúde
revela que,
a estratégia de Saúde da Família tem demonstrado seu
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 83-90, Ago./Dez., 2007.
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potencial para contribuir na construção de um modelo de
saúde mais resolutivo e humanizado, o que faz com que sua
disseminação seja considerada prioridade para o Ministério
da Saúde. (BRASIL, 1999, p.24)
Nesse sentido, percebemos que o Ministério da Saúde tem dispendido
esforços desde 1996 com a publicação da NOB 01/96 que, segundo o Ministério
da Saúde (BRASIL, 2003), fortaleceu significativamente a atenção ao definir as
responsabilidades dos gestores municipais nesse nível de complexidade do sistema e o PSF como estratégia prioritária para a mudança do modelo assistencial,
que passou a ter orçamento próprio e foi incluído no Plano Plurianual (PPA), em
1998.
Nessa perspectiva, questionamos reorganizar por quê? O Ministério da
Saúde (BRASIL, 2001) revela que é necessário reorganizá-lo porque o sistema
anterior não deu resultados satisfatórios, pois o modelo de saúde predominante
no Brasil criou grande distância entre as equipes de saúde e a população; assim,
para Schimith e Lima (2004), a implantação do PSF deve ser feita mediante o estabelecimento de vínculos e criação de laços de compromisso e de coresponsabilidade entre profissionais de saúde e a população.
O grande diferencial do PSF é que este elege a família e seu espaço social
como núcleo de trabalho. Nesse sentido, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL,
2001), a família passa a ser entendida e compreendida a partir do seu ambiente
físico e social, possibilitando uma compreensão ampliada do processo saúde –
doença que vai muito mais além das práticas curativas.
A USF deve funcionar em consonância com as leis e normas que regulamentam o sistema de saúde e os municípios devem atuar de forma regionalizada
e hierarquizada, estando inserida no primeiro nível de ações e serviços de saúde,
denominado Atenção Básica. Dessa forma, compreendemos que para ser efetivo
o PSF necessita de um adequado sistema de referência e contra-referência, que
não esteja desarticulado do serviço de saúde local e/ou regional, garantindo atenção integral aos indivíduos e famílias.
Ainda, com a finalidade de aumentar e reforçar os vínculos entre a ESF e a
família/comunidade, a USF propõe a substituição do modelo clássico de atendimento (demanda espontânea) e, para tal, vai ao encontro da família/comunidade
objetivando perceber/compreender as questões político – econômico – sociais
que permeiam o cotidiano da família/comunidade que podem interferir nas condições de saúde/doença. Além disso, estimula a comunidade a participar da tomada
de decisão dos problemas que lhes afetam.
Um dos princípios orientadores da USF, segundo o Ministério da Saúde
(BRASIL, 2001), é que esta deve possuir caráter substitutivo, ou seja, não se faz
necessário a criação de novas estruturas, e sim a substituição das práticas de
assistência por um novo processo de trabalho, centrado na vigilância à saúde e
focado na utilização das tecnologias leves.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 83-90, Ago./Dez., 2007.
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A USF trabalha com território de abrangência definido e responsabiliza-se
pelo cadastramento e acompanhamento da população adscrita e de acordo com o
Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), o número de famílias cadastradas deve ser
entre 600 e 1.000 famílias não ultrapassando 4.500 pessoas e, para tal, leva-se
em consideração o risco que a região representa para a saúde da comunidade;
sendo assim, a Equipe de Saúde da Família (ESF) mantém uma melhor integração com a comunidade e pode dedicar-se adequadamente à população adscrita.
A grande inovação do PSF refere-se à equipe de saúde, uma vez que as práticas de saúde sempre estiveram centradas na figura do médico, reforçando o
paradigma flexneriano e, para Souza (2001, p.44), “no PSF, há uma inversão
desse valor, a equipe passa a ter claras as suas competências, cujas responsabilidades ultrapassam a 'ciência' da medicina”.
Nesse sentido, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2001) determina que a ESF
deve ser composta, no mínimo, por 01 (um) médico generalista, 01 (um) enfermeiro, 01(um) auxiliar de enfermagem e 04 (quatro) a 06 (seis) ACS e outros profissionais (assistente social, odontólogo, educador físico, nutricionista) podem ser integrados à equipe. Dessa forma, o PSF trabalha com uma equipe multiprofissional,
conformando-se em um espaço de múltiplos saberes.
Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), são atribuições da equipe
de saúde da família: conhecer a realidade das famílias pelas quais é responsável,
através do cadastramento e diagnóstico das condições sociais, demográficas e
epidemiológicas; identificar os problemas de saúde e situações de risco que acometem a população; elaborar o Plano Local de Saúde com participação da comunidade para que juntos possam enfrentar os determinantes do processo saúde/doença; prestar assistência integral à comunidade, atendendo a demanda
espontânea e organizada, bem como realizando um adequado sistema de referência e contra-referência; desenvolver ações de cunho educativo e intersetorial
para um melhor enfrentamento dos problemas.
Dessa forma, compreendemos que a estratégia de Saúde da Família é uma
proposta concreta para viabilizar o SUS a partir da Atenção Básica, melhorando a
qualidade de vida dos brasileiros. Para tal, faz-se necessário que repensemos práticas, valores e conhecimento de todas as pessoas envolvidas no processo de produção social da saúde.
A estratégia de Saúde da Família tem exigido um novo perfil para os profissionais que desejem inserir-se na estratégia. Nesse sentido, as instituições formadoras devem adequar-se às exigências do mercado de trabalho e proporcionarem
uma reavaliação dos conteúdos e práticas relacionadas à atividade gerencial, pois
esta se apresenta como a maior dificuldade ao assumir uma USF.
Assim, vale destacar que toda formação profissional deve estar em consonância com o mercado de trabalho com o objetivo de não admitir no campo de trabalho profissionais que tenham uma visão distorcida sobre a lógica do modo pelo
qual devem atuar.
Entretanto, observamos que apesar de todas estas exigências, segundo
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 83-90, Ago./Dez., 2007.
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Sordi e Bagnato “ainda o que marca, indelevelmente, a prática na área da saúde,
continua sendo a lógica tecnicista, a ênfase no saber e no saber-fazer, com detrimento muitas vezes do saber-se” (1998, p.85), pautando-se, ainda, sob a ótica do
modelo Flexneriano, que privilegia a formação de especialidades e possui uma
visão hospitalocêntrica.
Nesse sentido, percebemos que as instituições formadoras estão com dificuldade de formar profissionais com uma visão crítico-reflexiva que possuam habilidades para transformar a realidade social, pois de acordo com Sordi e Bagnato
(1998, p.83), o ensino na área da saúde padece de longa data do tecnicismo, da
forte biologização dos conteúdos selecionados como válidos e significativos à formação.
A grande massa dos egressos da área da saúde inseridos no mercado de
trabalho estão ávidas para exibir suas competências tecnicista; mas, a implantação do Programa Saúde da Família (PSF) como a estratégia norteadora da reorganização da atenção à saúde passou a requerer profissionais da área da saúde
que saibam reconhecer o contexto político-econômico e social, engajado nas políticas públicas e, acima de tudo, que compreendam o processo em que estão incluídos e abracem a filosofia do seu ambiente de trabalho.
Dessa forma, Campos e Aguiar (2005) revelam que a estratégia de Saúde
da Família busca médico e enfermeiro com formação generalista, que deve proporcionar a capacidade de transitar – com desenvoltura – pelas áreas de saúde da
criança, da mulher do adulto e do idoso. A mesma destreza deve ser garantida
para o manejo de instrumentos de abordagem do coletivo e de diagnóstico da
comunidade – competências pouco desenvolvidas em um ambiente hospitalar.
As Instituições de Ensino Superior (IES), de modo geral deparam-se com
um grande desafio, em razão da necessidade de reformular a formação em
saúde face a globalização e as rápidas mudanças ocorridas na sociedade atual.
Assim devem estabelecer o diálogo apoiado no tripé ensino- serviço e comunidade.
A falta quantitativa e qualitativa de profissionais adequadamente preparados para lidar com a estratégia da Saúde da Família apresenta-se como um dos
obstáculos à consolidação do PSF e, para corresponder às expectativas do novo
mercado, os profissionais têm buscado conhecimento para agregar à sua formação através de cursos de capacitação e atualização, buscando assim, novas informações para o exercício competente das suas práticas.
Salientamos que o processo de formação dos profissionais não encerra
com a conclusão do curso de graduação. Acreditamos que os cursos de pósgraduação na área de Saúde da Família são uma importante estratégia para aprimorar os conhecimentos dos profissionais da ESF, porquanto podem fornecer
subsídios para o pleno desenvolvimento das atividades dando mais autonomia e
segurança ao profissional.
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 83-90, Ago./Dez., 2007.
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Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 83-90, Ago./Dez., 2007.
DIAGNÓSTICO DA QUALIDADE DE VIDA DOS IDOSOS DO
GRUPO “VIVER MELHOR” DO MUNICÍPIO DE MURITIBA,
BAHIA
Letícia Cardoso Braz*
Rita de Cássia Santana Pimentel*
Roberta Bruschi Gonçalves**
RESUMO: O envelhecimento encerra a última fase da vida humana e diz muito
mais que apenas o fechamento de um ciclo. A sociedade está envelhecendo mais
e a qualidade de vida deve ser alcançada, dentro dos parâmetros do
envelhecimento saudável. Sendo assim, o presente trabalho teve como objetivo
proceder um diagnóstico da qualidade de vida na percepção de idosos que
freqüentam um centro de convivência para terceira idade. A recolha de dados foi
através de questionários cujos os resultados obtidos revelaram que 90% dos
idosos, aproximadamente, apresentam um aumento em sua qualidade de vida,
após participação no grupo Viver melhor.
Palavras-chave: Idoso; qualidade de vida; grupo de terceira idade;
envelhecimento.
ABSTRACT: The aging concluded the final human life period, but is not only the
end of a cycle. The society is getting old and the quality of life has to be reached
within some healthy aging parameters. In this context, this works aims to diagnose
the quality of life according to old people who are participating of a third age center.
The employed methodology was based on semi-structured interviews.
Approximately 90 % of the questioned people declared than this participation
increased his quality of life.
Keywords: old people; quality of life; third-age group; people aging.
* Graduandas em Enfermagem. FAMAM – Faculdade Maria Milza
** Professora Orientadora. FAMAM - Faculdade Maria Milza
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 91-97, Ago./Dez., 2007.
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INTRODUÇÃO
Muito se propaga hoje a respeito dos idosos; as mudanças que vêm ocorrendo, progressivamente, na pirâmide populacional no Brasil, alertam sobre a
diagnose da terceira idade. São visualizados em grande parte dos estudos, apenas números, dentro de faixas etárias, contudo a preocupação com a valia da
massa idosa não possui papel relevante. Mas, e a qualidade de vida que encerra o
envelhecimento saudável e finda um ciclo de vida digno, onde ser encontrada e
conceituada?. De qualquer forma, as proporções do envelhecimento têm alcançado uma dúvida: A sociedade está preparada ou se preparando para envelhecer? E
com qualidade de vida? O cerne dessa inquietação está na lógica de ser entendido quando se analisa as más condições de vida que se tem gerado no segmento
terceira idade. Ou seja, a sociedade não está preparada para atender a um envelhecimento saudável por não oportunizar preferência a este tipo de envelhecimento que prima pela exímia qualidade de vida.
As mudanças que vêm ocorrendo, progressivamente, na pirâmide populacional, mostram que o número de pessoas com sessenta anos ou mais esta
aumentando significativamente. No Brasil, nas décadas de 50 e 60 as taxas de
crescimento anual da população mantiveram-se altas, no entanto, a partir da década de 70, essa taxa mostrou sensível redução, acentuando-se na década de 80.
Simultaneamente, a distribuição etária da população brasileira se alterou. No início do século, os idosos constituíam apenas 3,3% da população. Este percentual
foi aumentando gradativamente, atingindo “4,1% em 1940, 5,1%em 1970, 6,1%
em 1980 e o Censo de 1991 mostrou que os idosos brasileiros já são 7,4% da
nossa população” (Papaléo Netto, 1996, p. 28).
Em uma sociedade que valoriza a juventude, a beleza, o “produtivo” e na
qual a velhice é uma fase de vida vista com preconceitos de inutilidade, dependência e improdutiva, as pessoas idosas encontram dificuldades de inserir-se. Diante
dessas limitações, o idoso isola-se, mesmo que esteja residindo com sua família,
muitas vezes, não possui poder de decisão, permanece sozinho em casa. Assim,
a velhice pode ser caracterizada pela maneira como a sociedade determina e
encara o envelhecer, sendo mais forte do que a percepção do idoso a respeito do
envelhecimento, o que nem sempre corresponde ao seu estado de velhice. Por
isso, a forma como uma sociedade super-protege, venera ou marginaliza o idoso
determinará como ele vai se adaptar e assumir a velhice (Waldow, 1998). Portanto, envelhecer de forma saudável implica, não apenas na possibilidade dos idosos
disporem de cuidados em relação aos problemas de saúde mais comuns nesta
etapa da vida, mas, também, no reconhecimento das suas possibilidades e necessidades especificas. Significa que, além de bom estado de saúde física, eles
necessitam de respeito, de segurança e, principalmente, precisam sentir-se ativos
em sua comunidade com oportunidade de expressarem livremente seus sentimentos, interesses, opiniões e experiências.
Algumas pesquisas demonstram que a principal tarefa evolutiva da velhice
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 91-97, Ago./Dez., 2007.
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é a integração social e a autonomia pessoal, visto que o idoso convive com limitações da própria idade, as quais podem prejudicar sua independência e autonomia
para desenvolver determinadas atividades (Lima,2000).
Nesse sentido, pode-se considerar que as atividades de lazer e a convivência em grupo contribuem tanto para manutenção do equilíbrio biopssicosocial do
idoso, quanto para atenuar possíveis conflitos ambientais e pessoais. Por isso, é
importante para o ser humano a atividade física, intelectual e de lazer, pois, em
todas as etapas da vida deve-se preocupar com as perspectivas de um envelhecimento saudável. E nesse sentido, para se qualificar a vida é necessário comparar
o passado e o presente, as coisas boas e ruins, a infância, a juventude, a maturidade e a velhice em um contexto social histórico (López e Cianciarullo, 1999).
Assim, a compreensão da qualidade de vida na velhice está atrelada na
maneira como o idoso lida com as mudanças ocorridas nessa fase da vida, envolve também seus hábitos de vida e isso inclui as atividades de lazer. Além disso,
falar de qualidade de vida é considerar também as emoções e repercussões para
a saúde. Para King et al. (1992), a qualidade de vida é um termo multidimensional,
incluindo não só fatores objetivos como também subjetivos e que, tanto o bem
estar físico quanto o psicológico devem ser considerados numa análise dessa
natureza.
Considerando então, que, as questões associadas à velhice despertam atualmente esforços no sentido de manter o idoso inserido socialmente, sobretudo
através da formação de grupos de convivência , nos quais a pessoa idosa encontra espaço para posicionar-se e desenvolver atividades, é que se originou este trabalho, que tem por objetivo apresentar os resultados de um estudo realizado com
um grupo de convivência de idosos existentes no Município de Muritiba- BA.
METODOLOGIA
A pesquisa, segundo Mynayo (1996), trabalha com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores, atitudes e aprofunda-se no mundo
dos significados das ações e relações humanas. Com isso, este estudo, de abordagem qualitativa, foi realizado com o grupo de terceira idade “Viver melhor”, localizado no município de Muritiba, na região do Recôncavo Baiano. O qual é formado
por cento e três (103) integrantes, mas a amostra constou de 30 idosos, cujo
dados foram coletados através de questionários, com perguntas abertas e fechadas. Para a realização deste estudo, procedeu-se ao termo de consentimento,
assinado e devolvido aos pesquisadores. A recolha dos dados fez-se em duas etapas: A primeira consistiu na revisão bibliográfica e a segunda na pesquisa de campo.
QUALIDADE DE VIDA E LONGEVIDADE
A compreensão da qualidade de vida dos idosos, do grupo Viver Melhor,
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 91-97, Ago./Dez., 2007.
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associa-se a fatores biopssicosociais, os quais são essenciais para um envelhecer saudável. Dentre esses componentes estão a manutenção de uma atividade
produtiva, condições sócio econômicas, exercícios físicos, convivência social,
notadamente a família.
De acordo com os achados da pesquisa, 93% dos entrevistados são independentes financeiramente e 75% dependem do marido. A independência financeira é apontada por Gomes e Ferreira (1985) como condição para a autonomia e
inclusão social. Pensamento igual apresenta Hogstel; Gaul (1991), que entende a
autonomia como uma forma de liberdade pessoal, baseado no respeito pelas pessoas, uma vez que os indivíduos têm o direito de determinar o curso de suas vidas.
As autoras acrescentam ainda que as pessoas idosas temem a perda da autonomia quando ficam doentes ou dependentes.
Contudo, a autonomia está predominantemente ligada às condições socioeconômicas. Nesse sentido, concorda-se com Serro Azul et al. (1981) os quais
relacionam as condições sociais e de saúde à longevidade dos idosos. É claro que
a boa qualidade de vida não deixa de prescindir, em parte, dos recursos financeiros. Nesse sentido, 93% dos idosos entrevistados manifestaram satisfação com
as suas condições de habitação, alegando que moravam em casas confortáveis.
Apenas75% declararam possuir uma moradia razoável, mas são alugadas. Contudo, é preciso deixar claro que esse nível de satisfação com a moradia foi expressa na perspectiva dos idosos desta pesquisa. Embora o aspecto renda dos idosos
não seja o objetivo desse estudo, observou-se, de maneira geral, que os mesmos
possuem um padrão de vida razoável que lhes permitem uma habitação digna.
Todavia Campedelli et al. (apud Najman; Levine, 1989, p.92) constataram
que muitas pessoas de baixa renda apesar de expressarem satisfação com sua
moradia, em uma análise mais objetiva, suas casas não apresentaram boas condições.
Existem também outros fatores que se relacionam com o bem-estar e equilíbrio das pessoas idosas. Assim, a religião é um referencial para a manutenção do
seu equilíbrio emocional. Os inquiridos declararam que a religião constituía-se
uma força e sustentação para continuar a vida. Percebeu-se, nessas respostas
que a religião é um suporte para a estabilidade e resignação. Najman; Levine
(1981) afirmam que uma forte crença religiosa relacionam-se com sentimentos
que produzem satisfação geral, bem-estar e equilíbrio. Quando se buscou saber,
74% dos idosos declararam ser católicos praticantes, 20% informaram ser espíritas, 3% informaram ser cristão e 3% disseram ser meceânico. Alguns idosos
expressaram a importância que atribuem à religião, nessa direção entende-se que
a religiosidade é uma variável fundamental por quanto é um sustentáculo para continuarem perseguindo os seus objetivos. Em estudo semelhante ao de Najman et.
al (apud Levine; Hogstel; Kashka, 1989.p.16) constataram que uma forte crença
em Deus e uma vida cristã são determinantes à longevidade.
Levando-se em conta que é grande a necessidade de intensificar-se na
velhice o suporte familiar e social, aos idosos da pesquisa foi indagado se tinham
Textura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 91-97, Ago./Dez., 2007.
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pessoas com quem contavam efetivamente, quando havia algum problema, e
com os quais podiam contar, 47%% deles responderam que efetivamente, encontravam apoio dos amigos, 20% dos irmãos, 5% dos amigos e parentes, 7%, do
esposo (a), e 3% com sobrinho.
O lazer é uma necessidade para o bom funcionamento da saúde do
homem. Para os idosos, as atividades de lazer torna-se uma condição para a estabilidade do seu equilíbrio biopssicosocial. Gomes; Ferreira (1983) afirmam que as
atividades de lazer, assim como a convivência em grupo, entre outras são necessárias para a manutenção do equilíbrio biopsicosocial do idoso, removendo conflitos pessoais e ambientais. Embora estas atividades sejam mais aceitas como ocupação do que como lazer propriamente dito, Donfut et al (apud Queiroz e Trinca
1983, p 95) consideram-nas como atividades de lazer, desde que seja uma participação voluntária, objetivando o entretenimento. Da mesma forma, os referidos
autores, afirmaram que é importante que o homem tenha um lazer mais ativo do
que passivo, contribuindo para o desenvolvimento pessoal, abrangendo também,
atividades física, mental e intelectual. As atividades de lazer declaradas pelos idosos foram viagens, dança e música. Dessas atividades, as viagens representaram
53%, dança 27% e coral 20%.
Essas condições de bem-estar influenciam na saúde dos idosos, uma vez
que muitas doenças estão intimamente ligadas ao sentimento de felicidade. Muito
embora, a felicidade seja um estado de perspectiva de vida, mas nem sempre as
pessoas fazem essa correlação. Najman; Levine (1981), afirmam que as condições de saúde não estão intimamente relacionadas ao sentimento de felicidade
ou satisfação com a vida, embora relatando problemas de saúde, os indivíduos
não os relacionam à insatisfação. Isto pode ter sido evidenciado em decorrência
de uma interpretação subjetiva da própria saúde, uma vez que os problemas que
lhes são relacionados não representam limitações à sua vida tanto ao nível individual quanto social. Conforme Dugas (1984) os indivíduos analisam o seu estado
de saúde através de perspectivas pessoais que são influenciadas por fatores sociais, culturais, costumes, tradições e hábitos.
Ao serem solicitadas informações sobre suas condições de saúde, 54%
dos usuários declararam utilizar o convênio, 43% a previdência social e 3%, recursos próprios. É importante relatar que os idosos revelam ser portadores de alterações de saúde, tais como diabetes, hipertensão, artrose, reumatismo, alergias,
entre outros. No estudo de Hotsgel; Ksahka (1989), os idosos estudados também
informaram ser portadores de patologias, no entanto, a maioria deles afirmou não
sentir maiores necessidades de saúde.
Retomando-se a questão da qualidade de vida, os idosos do grupo Viver
melhor associam-na à possibilidade de manter vínculos afetivos, dialogar e compartilhar os problemas, conhecer outras pessoas, construir amizades, viajar em
grupo, fazer exercícios físicos, divertir-se, entre outras razões, são mudanças
apontadas pelos entrevistados que os estimulam a continuar participando do
grupo bem como incentivar outras pessoas para que o freqüente. Assim, a imaTextura, Cruz das Almas-BA, ano 2, n.º 2, p. 91-97, Ago./Dez., 2007.
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gem de uma velhice monótona, sofrida, estereotipada perde, aos poucos, sua
força a partir do momento em que as pessoas passam a participar de espaços sociais.
O envelhecimento constitui fenômeno singular na vida do ser humano, visto
que cada um pode optar pela melhor forma de envelhecer. Isso por que os indicadores, associados a qualidade de vida dos idosos do grupo Viver melhor, demonstraram condições favoráveis a uma boa qualidade de vida. Associaram a convivência social, bem como o desenvolvimento de atividades físicas, mentais e intelectuais, lazer e percepção de felicidade ao fato de freqüentarem a Instituição.
Sendo assim, a integração e participação sociais influenciam positivamente no
bem-estar psíquico e físicos dos mesmos.
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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO DE TRABALHOS NA TEXTURA
Estas orientações perspectivam guiar os autores na produção dos textos
para a publicação nesta Revista. A avaliação dos referidos trabalhos serão
submetidos à análise do Conselho Editorial. A aceitação dos artigos depende do
parecer deste Conselho e da aprovação final do editor, que tem autonomia para
encaminhar as sugestões feitas pelos pareceristas aos autores, para eventuais
modificações.
Modalidades dos artigos: Embora haja preferência pelas contribuições
inéditas de pesquisa, a Textura aceita ensaios e revisão de literatura.
1. Os originais dos artigos devem conter no máximo 14 laudas, entregues em
duas cópias (sendo uma sem a identificação do autor), digitadas, com
margem superior, inferior e direita de 2 cm e esquerda de 2,5 cm, em espaço
1,5, na letra Times New Roman nº 12, no programa Microsoft Word,
acompanhadas do disquete correspondente.
2. O nome do autor virá seguido de asterisco, após o título e alinhado à direita. A
autoria deve ser repetida no rodapé acompanhada de indicação da instituição
de origem do autor, por extenso.
3. Em seguida, virá o resumo do trabalho, com o limite de 12 linhas
(aproximadamente) acompanhada de palavras-chave, separadas por ponto e
vírgula, sendo maiúscula a 1ª letra (apenas da 1ª palavra; as demais são
minúsculas).
4. Logo após o resumo em português, será posto o outro resumo, em inglês,
acompanhado das palavras-chave, seguindo a orientação dada para o
primeiro.
5. O padrão editorial obedecerá às normas prescritas pela Associação Brasileira
de Normas Técnicas (ABNT).
5.1.Citações bibliográficas curtas (até 3 linhas) são introduzidas no corpo do texto,
entre aspas. As longas formam-se parágrafos independentes, digitadas em
espaço simples e recuados 4 cm da margem esquerda, em fonte do mesmo
tipo (Times New Roman) e de nº 10, sem aspas. O espaço que separa a
citação, do corpo do texto, deve ser duplo, tanto em relação ao texto anterior,
quanto ao seguinte.
5.2.As citações devem ser seguidas do sobrenome do autor, ano de publicação e
número de páginas entre parênteses. (EX: CAGLIARI, 1991, p. 39). O ponto
final deve ser inserido de acordo com a citação. Se esta termina em ponto final,
deverá conter o ponto antes das aspas. Exemplo: “... ainda há o interesse de se
aprender o português.” (CAGLIARI, 1991, p. 29). Se a frase terminar em ponto,
isto é, citou-se somente parte da frase, o ponto aparecerá após a citação da
referência. Ex: “a solução não está na política”. (PETRAGLIA, 2004, p. 14).
5.3.Quando as citações forem várias, da mesma obra e da mesma edição, serão
indicadas apenas pelo número de páginas, após explicação, em notas de
rodapé, de que se trata da mesma obra e da mesma edição.
5.4.As notas de rodapé restringem-se a comentários ou observações pessoais,
com o intuito de prestar esclarecimentos ou falar sobre algo que não caiba no
texto para não quebrar a lógica dos enunciados. Devem ser postas na parte
inferior da página e iniciadas com a chamada numérica recebida no texto, sem
parágrafo. A digitação é feita em fonte Times New Roman, nº 10, espaço
simples entre as linhas, usando-se o espaço duplo para separá-las entre si e
alinhada à esquerda. O número que indica a nota aparece depois da
pontuação que fecha a frase.
5.5.As referências bibliográficas virão no final do texto, em ordem alfabética, a
partir do sobrenome do autor, espaço simples entre as linhas e duplo entre si e
alinhado à esquerda. Títulos de livros e periódicos virão em negrito.
5.6.Os itálicos são usados somente no corpo do texto para as palavras em língua
estrangeira. Para qualquer outro destaque, usam-se aspas.
5.7.As epígrafes serão digitadas em letra normal (Times New Roman), fonte 10,
espaço simples, sem aspas, com a indicação do autor entre parênteses.
5.8.As referências bibliográficas, relacionadas abaixo, deverão ser digitadas
conforme os exemplos:
a) Livros: SOBRENOME DO AUTOR, NOME. Título. Edição. Local. Editora, data.
Páginas.
b) Capítulos de livros: SOBRENOME DO AUTOR, NOME. Título do capítulo. IN:
SOBRENOME DO AUTOR, NOME. Título do livro. Edição (ex: 3ª ed.). Local
de publicação: Editora, data. Número do capítulo (se houver), página inicial e
final do artigo, mês e ano.
c) Artigos de periódicos: SOBRENOME DO AUTOR, NOME. Título do artigo.
Título do periódico, local, volume, (v.) número (n.), página inicial e final do
artigo, mês e ano.
d) Artigos de anais de congressos: SOBRENOME DO AUTOR, NOME. Título do
artigo. IN: NOME DO CONGRESSO (em caixa alta), número do congresso,
ano e local onde foi realizado. Título da publicação. Local (da publicação):
editora, data, página inicial e final do artigo.
e) Referências de formato eletrônico: indicação idêntica ao formato
convencional, acrescentado de: Disponível em < endereço eletrônico>. Para
documentos on line, acrescentar ainda: acesso em dia, mês e ano.
f) Quando houver mais de uma publicação do mesmo autor, repetir o sobrenome
e o nome da referência seguinte.
g) Quando a referência for de parte da obra (capítulo de livros etc.) sendo o livro
todo do mesmo autor, nome e sobrenome do autor entram na referência da
parte da obra e na referência do título (da obra); os títulos de partes de obras
devem vir em letra normal.
Exemplo: SOBRENOME DO AUTOR, NOME. Título. In: SOBRENOME DO
AUTOR, NOME. Título do livro. Edição. Local. Editora, data. Página inicial e final.
h) Nos títulos das obras, as letras maiúsculas só devem ser usadas no início da
primeira palavra e em nomes próprios.
i) Para as obras organizadas, indicar pelo sobrenome e nome do organizador,
seguidos de ORG., entre parênteses.
j)
Nas citações incompletas, indicar a sua interrupção por (...).
6. Os autores terão direito a um exemplar.
Gráfica e Editora Nova Civilização Ltda.
Rua J. B. da Fonseca, 280 - Telefax: (75) 3621-1031
E-mail: [email protected]
CEP: 44.380-000 - Cruz das Almas - Bahia
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Revista Textura 2008 v. 4