Articulação entre Educação Ambiental e o currículo do curso para formação de
Técnicos Agrícolas: algumas considerações
Articulation between Environmental Education and course curriculum for
training Agricultural Technicians: some considerations
Leila Cristina Aoyama Barbosa
Bióloga, mestre em Ensino de Ciências, UFMS
Escola Técnica Estadual de Rondonópolis/MT
[email protected]
RESUMO: Os cursos de nível técnico visam formar profissionais para atender a demanda de
mercado específica. Entretanto, questiona-se até que ponto a visão do mercado deve prevalecer
sobre a visão da coletividade. A investigação contempla a análise de um currículo de curso para
formação de técnicos agrícolas em uma região fortemente influenciada pelo Agronegócio. Tratasede pesquisa qualitativa baseada na análise documental do currículo e análise de conteúdo para
identificação de temas ambientais articulados aos conhecimentos técnicos. Pelos recortes textuais
dos currículos, agruparam-se as competências em duas categorias: 1) articulada à educação
ambiental crítica; 2) temas ambientais retratados somente em seus aspectos técnicos. Os resultados
obtidos demonstram que o currículo apresenta pouca articulação com a educação ambiental, e
fragilizado quanto ao incentivo de práticas pedagógicas que contemplem a discussão da relação
entre valores sociais e conhecimento técnico. Para melhorar esta situação é necessário investir na
formação continuada de professores.
Palavras-chave: Educação Ambiental Crítica, Educação profissional, Agronegócio, Relação
sociedade-ambiente.
ABSTRACT: The technical level courses aimed at training professionals to meet specific market
demands. However, questioned to what extent the vision of the market must prevail over the vision
of the collectivity. The research includes examining a curriculum for agricultural technical training
in a region strongly influenced by agribusiness. It’s a qualitative research based on documentary
analysis of curriculum and content analysis to identify environmental issues articulated technical
expertise. By textual excerpts of the curriculum, the skills were grouped into two categories: 1)
articulate the critical environmental education, 2) environmental issues portrayed only in its
technical aspects. The results demonstrate that the curriculum has little connection with
environmental education, it’s fragile and don’t encourage teaching practices that include the
discussion of the relationship between social values and technical knowledge. To improve this
situation it is necessary to invest in continuous training of teachers.
Keywords: Educação Ambiental Crítica, Ensino técnico, Agronegócio.
1. Introdução
Os últimos cinqüenta anos representam um período de grande avanço e transformações para a
sociedade humana e seus setores produtivos. A revolução tecnológica, que chegou e adentrou
mecanizando cada dia mais nossas vidas, é responsável por mudanças no comportamento e nos
valores da sociedade. São computadores com processamento de informações cada vez mais velozes,
a globalização que permite o contato entre pessoas do mundo inteiro, trabalhos antes manuais que
agora se tornam freqüentemente realizados por máquinas. Não precisamos mais ir ao banco para
pagar contas. Aliás, você pode até ir ao banco, mas não precisa se dirigir a um atendente; basta
1 fazer todo o serviço sozinho por intermédio de um caixa eletrônico. Mas se você quiser ficar em
casa, basta utilizar seu computador pessoal para pagar as contas por meio de serviços on-line; ou se
você quiser pagar suas contas de qualquer lugar que esteja, basta acessar os serviços via celular.
A eficiência das máquinas e dos contatos à distância facilitou e muito a vida humana, mas
também distanciou pessoas; perdemos o contato físico. Hoje nos comunicamos por celulares ou via
internet. Por muitas vezes, tornamo-nos mais frios e distantes das interações entre indivíduos.
A preocupação sobre os valores de uma sociedade high-tech já surgiam ao fim da década de
1950, quando o cientista e escritor britânico Charles Percy Snow escreveu um ensaio denominado
Duas Culturas. Para Snow (1995, p.20), “[...] a vida intelectual de toda a sociedade ocidental está
cada vez mais dividida em dois grupos polares”. No texto, o inglês ressalta a dualidade existente
entre os cientistas e os humanistas, criticando o comportamento dos dois grupos que ignoram a
existência e a importância de um para o outro.
Pensando no mundo do trabalho, a educação profissional e tecnológica surge como uma
modalidade de educação voltada para a qualificação profissional de indivíduos. As políticas
públicas deste nível de educação apontam que não se quer somente a formação de uma profissão às
pessoas que optam por um curso deste tipo; mas que é preciso garantir a formação de um cidadão,
ser pensante e crítico capaz de perceber a realidade em que vive.
Observando o ponto de vista de Snow sobre a fragmentação entre visão científica e visão
humanística e, também, a intenção dos cursos da educação profissional e tecnológica, este trabalho
visa fazer alguns apontamentos sobre a presença de temas sócio-ambientais em um currículo de
curso técnico em Agricultura, pois este profissional não necessita somente de formação técnicocientífica. Ele precisa ter uma visão ampla da relação sociedade x meio ambiente e buscar a
sustentabilidade de suas ações.
Para tanto, nos fundamentaremos nos princípios da Educação Ambiental (EA) Crítica, que
considera diversas esferas (social, política, social, econômica e cultural) na construção de uma visão
de mundo pessoal mais crítica, para analisar o currículo do curso em questão.
2. Contexto da investigação
Dentre os anos de 1980-1990, Mato Grosso começou a se destacar entre os estados brasileiros
produtores de grãos, principalmente devido à entrada da cultura da soja em suas lavouras
(AZEVEDO & PASQUIS, 2007). Os autores ainda destacam que, até o ano de 2003, o Produto
Interno Bruto (PIB) do estado mostrou um crescimento bem acima da média nacional: “entre 1994 e
2002, ele cresceu 5,6% vis a vis ao PIB nacional, que foi de 2,7%” (Ibid, p. 188).
Devido a esses números, não foi à toa que, durante o período de 2002 a 2006, a cidade de
Rondonópolis, localizada na região sudeste mato-grossense, há 210 km da capital Cuiabá, sediou
2 consecutivamente a feira de difusão tecnológica Agrishow Cerrado. Além disso, conforme
informações do Sindicato Rural do município (2010), a Feira de Exposição Agropecuária realizada
no ano de 2010 movimentou R$ 63,7 milhões em que grande parte das negociações referiram-se a
máquinas agrícolas.
O forte potencial agrícola do município reflete também sobre a educação oferecida, pois há
instituições públicas e particulares que preparam profissionais para o trabalho com a agricultura em
nível de ensino técnico e também de graduação e pós-graduação.
Desse modo, a Escola Técnica Estadual de Rondonópolis oferece, desde 2004, cursos
profissionalizantes do ensino técnico na área de agropecuária, dentre eles o de técnico em
Agricultura e em Agropecuária. A existência destes cursos e minha ligação com a instituição me
levaram a investigar mais sobre as duas temáticas (técnico agrícola e EA) em minha pesquisa do
mestrado.
A partir da análise do currículo do curso de Técnico em Agricultura vigente na escola e das
inquietações e preocupações que me surgem sobre o assunto, neste artigo teço algumas
considerações sobre a formação do técnico agrícola em Educação Ambiental (EA). Mais do que
apontar falhas ou acertos, o intuito é refletir sobre as possíveis concepções que estes sujeitos têm
apreendido e se eles podem se tornar educadores ambientais em um ambiente de tão forte influência
do agronegócio.
3. Fundamentos da EA Crítica
As últimas décadas do século XX testemunharam a emergência da EA como um novo
campo de atividade e de saber para reconstruir a relação entre a educação, a sociedade e o meio
ambiente. Este modelo de educação visa formular respostas teóricas e práticas aos desafios
colocados pela crise socioambiental global que se instala no mundo.
Guimarães (2004a) ressalta que o sentido de educar ambientalmente deve ser maior do que o
sentido de simplesmente sensibilizar a população sobre o problema e de saber o que é certo ou
errado em relação ao meio ambiente. Somente a compreensão da importância da natureza para o
equilíbrio global não tem levado à sua preservação.
Um trabalho de EA, segundo Loureiro (2004), Carvalho (2004) e Guimarães (2004b), deve:
identificar e contextualizar os problemas socioambientais locais com a realidade dos indivíduos, e
ser transformadora a ponto de alterar o ambiente em que se vive, a consciência e os valores dos
atores envolvidos.
A EA Crítica precisa apontar “para propostas pedagógicas centradas na conscientização,
mudança de comportamento, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e
3 participação dos educandos” (JACOBI, 2004, p. 28), “contribuindo para a formação de um sujeito
ecológico” (CARVALHO, 2004, p. 18).
Ela deve enfatizar
a educação enquanto processo permanente, cotidiano e coletivo pelo qual agimos e
refletimos, transformando a realidade de vida. Está focada nas pedagogias
problematizadoras do concreto vivido, no reconhecimento das diferentes necessidades,
interesses e modos de relações na natureza que definem os grupos sociais e o “lugar”
ocupado por estes em sociedade, como meio para se buscar novas sínteses que indiquem
caminhos democráticos, sustentáveis e justos para todos (LOUREIRO, 2004, p. 81).
Além disso, a EA Crítica não se restringe ao contexto escolar e tampouco somente às questões
ecológicas. Ela associa problemas ambientais com os sociais na tentativa de construção de um
mundo mais justo e igualitário. Para isso faz-se também necessário a reflexão sobre valores de ética
e cidadania praticados atualmente.
A Educação Ambiental Crítica objetiva promover ambientes educativos de mobilização
desses processos de intervenção sobre a realidade e seus problemas socioambientais, para
que possamos nestes ambientes superar as armadilhas paradigmáticas e propiciar um
processo educativo, em que nesse exercício, estejamos, educandos e educadores, nos
formando e contribuindo, pelo exercício de uma cidadania ativa, na transformação da grave
crise socioambiental que vivenciamos todos. (GUIMARÃES, 2004b, p. 30)
Para se obter resultados positivos na prática da EA, é necessário ter pressupostos que orientem
esses trabalhos de forma a aliar a reflexão teórica e a prática consciente e transformadora. É
fundamental conhecer conceitos-chave, reconhecer os diferentes ambientes, estar sensibilizado
quanto à importância das práticas sociais, conhecer o papel de cada sujeito, das ações que destroem
e das que restabelecem o equilíbrio ambiental (GUIMARÃES, 2004a).
É necessário conciliar conhecimentos científicos x realidade x problemas locais de maneira a
dialogar sobre a situação vivenciada pelos educandos e, desta forma, procurar por soluções
sustentáveis que resgatem o equilíbrio.
Desse modo, nota-se o potencial de trabalhos de EA como fonte de reflexão a fim de
desenvolver valores mais humanísticos nos indivíduos e promover a discussão sobre o papel da
ciência e tecnologia no mundo atual.
4. A formação curricular do técnico agrícola e sua relação com a Educação Ambiental
O técnico agrícola é um profissional habilitado para o trabalho no campo e seu contato direto
com o meio ambiente se faz pelas diversas atividades que vão desde o preparo do solo até a
industrialização.
Conforme descrito nos Referenciais Curriculares Nacionais (2000a) da área de Agropecuária,
este profissional tem como base de formação conhecimentos das áreas agronômica, biológica e
química. Além disso, há um preparo para o trabalho administrativo deste indivíduo.
4 E, como em qualquer nível de educação, o currículo do ensino técnico visa integrar esses
diversos conhecimentos para a formação de competências e habilidades profissionais do indivíduo.
Entretanto, a transdisciplinaridade não é algo simples de se obter. “A divisão do saber em
compartimentos estanques tornou-se prática e ‘necessária’ para atingir os objetivos educacionais de
um sistema de ensino que nada mais é do que uma faceta de uma determinada visão de mundo,
também fragmentada (BRUGGER, 1999, p. 36).
O técnico agrícola de nível médio vivencia um mundo agrícola promissor de um lado e
altamente problemático por outro. Se de um lado o avanço do agronegócio reforça a importância do
setor primário na economia nacional, desencadeando um processo que vai desde a produção de
alimentos, mecanização e implementos agrícolas, consumo de insumos, transporte, armazenamento,
processamento e distribuição; por outro lado o técnico defronta cada vez mais com danos
ambientais decorrentes da chamada agricultura moderna (SOARES, 2001).
Estudos recentes (CAVALCANTE, 2007; MOREIRA, 2009) realizados em Institutos
Federais de Educação Profissional de diversas regiões do país analisaram a presença da EA em
cursos técnicos agrícolas. Todos demonstram que a EA ocorre de modo fragilizado e não se torna
capaz de criar uma consciência ecológica e a ética ambiental nos alunos. Há pouca articulação entre
os conhecimentos científicos e a temática investigada de modo que ela se restringe a um trabalho de
sensibilização ou nem mesmo a isso.
É fato que os próprios Referenciais Curriculares Nacionais (2000b) propõem que o currículo
dos cursos técnicos se adequem à demanda de trabalho regional. No entanto, observando a
supremacia do agronegócio mato-grossense fica a indagação se esta visão de agricultura voltada aos
grandes produtores não ofusca a visão verdadeira de sustentabilidade não só nos técnicos agrícolas,
mas na sociedade em geral.
5. Aspectos metodológicos
Esta é uma pesquisa de cunho qualitativo pautado na análise do desenho curricular de um
curso Técnico em Agricultura de uma instituição pública de educação profissional do estado de
Mato Grosso. Como método para a coleta de dados, utilizou-se a análise documental. Para Lüdke e
André (1986), a análise documental busca identificar informações factuais nos documentos a partir
de questões ou hipóteses de interesse.
Para a identificação da dimensão ambiental do currículo realizou-se a análise de conteúdo da
matriz curricular. Esta técnica metodológica caracteriza-se pela “manipulação de mensagens
(conteúdos e expressões deste conteúdo) visando evidenciar os indicadores que permitem inferir
sobre uma realidade outra que aquela da mensagem” (BARDIN, 2004, p. 51).
A análise de conteúdo foi utilizada em dois momentos:
5 I.
Inicialmente foi feito um levantamento na matriz curricular para identificar competências,
habilidades e bases tecnológicas relacionadas à temática ambiental, ou seja, que
continham palavras que identificassem de alguma forma a abordagem de temas
ambientais como, por exemplo: meio ambiente, impactos ambientais, sustentabilidade,
erosão, defensivos agrícolas, entre outros.
II.
Após a retirada destes fragmentos textuais do currículo, classificou-se estas competências
de acordo com a natureza da abordagem ambiental. A elaboração das categorias de
classificação basearam-se em Pereira et al (2009) e Reigota (2007b) e foram elas:
Categoria 1 – apresentação explícita na competência/habilidade, da abordagem ambiental
articulada entre aspectos naturais e sociais; Categoria 2 – abordagem de aspectos
científico-tecnológicos relacionados ao meio ambiente sem considerar a influência das
atividades humanas sobre o sistema natural e vice-versa.
6. Resultados e discussões
Na primeira etapa da análise documental do currículo investigado, procurou-se por palavras
que de alguma forma indicassem vínculo com a temática ambiental como, por exemplo: meio
ambiente, impacto ambiental, preservação, práticas conservacionistas, sustentabilidade, relações
entre ecossistemas, entre outras. A partir deste levantamento inicial buscou-se identificar, no
currículo prescrito, características que indicassem um trabalho com visão mais humanística e não
somente que privilegie a visão técnico-científica do conteúdo a ser estudado.
É perceptível que há um mínimo de competências nesta matriz curricular que busca articular
as diversas esferas do saber (social, política, econômica, ambiental e cultural) com o conhecimento
técnico-científico. O curso totaliza 30 (trinta) competências que tratam sobre assuntos agrícolas e de
formação geral (ética e cidadania, comunicação e redação, matemática e química básica, entre
outras). Dessas competências, 07 (sete) apresentam abordagem ambiental que poderiam
desenvolver um trabalho em que se discuta com os estudantes sobre o seu papel profissional e sua
relação com a busca de um ambiente mais sustentável.
O quadro 01 apresenta as competências encontradas que relacionam conteúdos da agronomia
com o desenvolvimento sustentável, sugerindo a promoção de práticas conservacionistas e o
desenvolvimento de atividades agrícolas que observem a interação homem/ambiente.
Não há como garantir que o trabalho do professor em sala de aula com estas três
competências seja feito de modo a discutir problemas ambientais articulados com questões sociais,
econômicas ou políticas.
No entanto, se a temática “solo” já é um assunto estudado de modo a contemplar práticas
conservacionistas, e a temática “agroecossistemas” prima pelos princípios de sustentabilidade,
6 pode-se acreditar que há uma discussão sobre o papel do técnico agrícola frente às ações da
sociedade e do agronegócio. E este profissional deixa de ser somente mais uma mão-de-obra
executora de atividades sem pensar nas conseqüências resultantes de seus atos.
Quadro 01 – Recortes das competências classificadas na Categoria 1
Recorte da matriz curricular investigada
Competência: Caracterizar e selecionar métodos de conservação do solo e da água [...]
Habilidade: Executar práticas de conservação do solo e da água, [...]
Base tecnológica: [...] Conservação do solo; Erosão; [...] Princípios conservacionistas.
Competência: Utilizar métodos de controle através de produtos fitossanitários.
Habilidade: Reconhecer a importância dos produtos fitossanitários, [...] o armazenamento desses produtos, seu
descarte correto de embalagens e tríplice lavagem [...]
Base tecnológica: [...] Toxicologia e segurança alimentar (riscos para o homem e para o ambiente).
Competência: Caracterizar ecossistemas agrícolas, [...] os impactos ambientais gerados pela implantação de um
agroecossistema.
Habilidade: Correlacionar entre si os elementos componentes dos sistemas e ecossistemas, [...] e os processos
físico-químicos envolvidos no processo e que geram impactos ao meio ambiente.
Base tecnológica: [...] Dinâmica das comunidades; [...] impactos ambientais ocasionados por sistemas agrícolas;
Fundamentos de agroecologia; Princípios de sustentabilidade.
O terceiro tema que aparece com abordagem ambiental é “agrotóxicos”. Este é um tema que
deve ser trabalhado de maneira integrada à EA devido às proporções que o uso descuidado destes
produtos pode provocar ao ambiente e à saúde humana, como o acidente rural ampliado1, relatado
por Pignati, Machado & Cabral (2007), ocorrido em Lucas do Rio Verde/MT.
Também foram encontradas outras quatro competências que possuem características que
propiciam uma abordagem fortemente ambiental, mas não a manifestam no currículo prescrito.
Estas competências encontram-se descritas no quadro 02.
Nota-se, por exemplo, que para o tema “transgênicos” é recomendado o estudo dos malefícios
e benefícios da tecnologia comparada às técnicas tradicionais. No entanto, não cita explicitamente a
relação do tema com riscos ao ambiente e à saúde humana ou a discussão sobre o que pensa a
sociedade sobre o assunto.
Outro tema de forte cunho tecnológico diz respeito à mecanização do processo de produção
vegetal. Os alunos estudam sobre as máquinas e implementos agrícolas, conhecem o funcionamento
de cada uma delas, mas não discutem sobre os problemas sociais, como o desemprego, e as
consequências desta mecanização para os trabalhadores da lavoura.
Outro fato que chama a atenção é que o currículo, por atender às demandas do agronegócio
apresenta uma visão estritamente utilitarista de meio ambiente, principalmente pelas nomenclaturas
utilizadas. Não se vê explicitamente na matriz curricular o uso da palavra agrotóxico, mas utiliza-se
1
No ano de 2006, foi identificado no município de Lucas do Rio Verde, localizado na região central de Mato Grosso,
um acidente ambiental causado por derivas de pulverizações aéreas de agrotóxicos que atingiram o espaço urbano da
cidade. Neste ano, 2011,a continuação da pesquisa identificou a presença de agrotóxicos no leite materno de mulheres
deste município.
7 produtos fitossanitários ou defensivos agrícolas. Fala-se também em plantas daninhas e insetospraga, demonstrando que os estudantes só têm acesso a essa visão mercantil da agricultura.
Quadro 02 – Recortes das competências classificadas na Categoria 2
Recorte das matriz curricular investigada
Competência: Analisar os fatores ambientais e climáticos que interagem na relação planta-praga-doença e [...]
Habilidade: Identificar e controlar plantas daninhas, pragas [...] e doenças assim como avaliar níveis de danos
econômicos à cultura.
Base tecnológica: [...] uso da biotecnologia (variedades resistentes, OGM) como forma de controle das pragas.
Competência: Correlacionar as características do solo com os diversos fatores de formação e suas diferentes
propriedades físico-químicas.
Habilidade: Identificar o perfil e as propriedades físicas e químicas de solos.
Base tecnológica: Fatores de intemperismo; formação dos solos; [...] análise de solos.
Competência: Conhecer princípios de insetos-praga (entomologia agrícola), e doenças (fitopatologia).
Habilidade: Compreender os princípios e processos que tornam organismo e microorganismos pragas de plantas
cultivadas [...].
Base tecnológica: [...] fatores que interagem para a formação do processo de doenças em plantas (ambientepatógeno-hospedeiro).
Competência: Identificar máquinas, implementos e ferramentas agrícolas, e seus sistemas de funcionamento e
aplicações, bem como planejar e monitorar o seu uso obedecendo às normas de segurança e de manutenção.
Habilidade: Identificar funções de implementos, ferramentas e máquinas agrícolas.
Base tecnológica: Máquinas e equipamentos agrícolas utilizados na produção (técnicas de preparo de solo,
semeadura, manejo até a colheita); Caracterização e regulagem de pulverizadores e sua interferência na qualidade e
eficiência da aplicação; [...].
Desse modo, aparentemente, não há discussão sobre técnicas agroecológicas; além de não ser
identificado competências/habilidades que formem os técnicos agrícolas para atuarem em prol de
uma agricultura orgânica ou mais sustentável. Prevalece fortemente a visão do agronegócio neste
desenho curricular do curso de Técnico em Agricultura.
7. Considerações finais
A investigação demonstrou que a EA se encontra pouco integrada ao currículo de um curso do
ensino técnico da agropecuária ofertado por uma instituição pública de Mato Grosso. A falta desta
abordagem ambiental sinaliza para a fragilidade de um trabalho mais complexo que promova a
discussão de temas científicos e tecnológicos com os problemas sociais.
Sendo um estudo de caso, que investiga um curso da educação profissional para a formação
de técnicos agrícolas, foi verificada a influência do setor econômico preponderante da região (o
agronegócio) sobre o desenho curricular. Pois, observou-se o uso de palavras rotineiras do setor,
como: transgênicos, defensivos agrícolas, insetos pragas e plantas daninhas.
Tanto os estudantes como seus professores já estão habituados a este vocabulário sem muito
questionar o outro lado, que apresenta uma visão mais humanística e agroecológica da situação.
Desse modo, por diversas vezes é possível notar a grande influência do setor produtivo nos
currículos. Prima-se fortemente pelos conteúdos voltados para as grandes culturas, como a soja, o
8 milho e o algodão; e pouca ênfase é dada a assuntos como a agricultura familiar, sustentabilidade e
extensão rural.
Pensando em uma educação ambiental voltada para a formação do técnico agrícola, torna-se
necessário acrescentar conceitos como o de sustentabilidade e agroecologia nessas discussões.
A agroecologia surge como um conjunto de conhecimentos, técnicas e saberes que
incorporam princípios ecológicos e valores culturais às práticas agrícolas que, com o
tempo, foram desecologizadas e desculturalizadas pela capitalização e tecnificação da
agricultura (LEFF, 2002, p.42).
Assim é preciso promover a discussão dessas temáticas em ambientes de forte influência do
agronegócio e em que a sociedade já se encontra emersa nos ideais do desenvolvimento econômico
a qualquer custo e às práticas consumistas. E isso não se restringe somente ao curso técnico em
Agricultura, mas estende-se a todas as áreas profissionais.
No entanto, convém ressaltar que não queremos uma sustentabilidade calcada somente no
preservacionismo. Buscamos por uma sustentabilidade também preocupada em sanar problemas
sociais.
Dependendo das leituras de desenvolvimento sustentável que se possam fazer a “educação
ambiental” torna-se realmente uma necessidade de mercado e, com isso, adestramento. O
currículo oculto da chamada educação ambiental, tal como concebida em muitos casos,
promete ser implacável em seu caráter instrumental. Promete ser muito mais adestramento
do que educação e poderá resultar em um acirramento ainda maior das desigualdades
sociais. (...) O ensino técnico destinado tradicionalmente às classes trabalhadoras tem na
verdade contribuído para a permanência das desigualdades sociais, pois reproduz a divisão
da sociedade em classes. (...) Os diferentes interesses “ambientais” que separam as elites
das classes trabalhadoras saparam também os países do primeiro mundo dos países em
“desenvolvimento”. (...) Isso reforça a idéia de que essa “educação” possa esconder um
motivo escuso (BRUGGER, 1999, p. 90).
Não queremos somente um adestramento ambiental. Buscamos pela formação de um corpo
docente consciente de seu papel de mediadores do conhecimento e de “iluminadores” dos caminhos
a serem trilhados pelos profissionais que serão formados. Para tanto, é preciso desenvolver com os
estudantes discussões sobre sua função profissional para a sociedade e valores de mercado vigentes.
A atividade de EA com futuros trabalhadores deve buscar a tomada de consciência desses
sujeitos. Deve demonstrar que sua participação e atitude em seu espaço de vivência são
fundamentais para a transformação de realidades e pela busca de um mundo mais igualitário e justo
socialmente.
9 8. Referências
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