64 65 Campanha de Sensibilização Andar a pé faz bem. Faz bem à saúde, ao ambiente e sobretudo faz bem à cidade. As crianças envolvidas no projecto A Pé para a Escola contribuem para que haja menos carros a circular e, em movimento, aprendem a conhecer o espaço onde habitam. Desenvolvem assim uma relação responsável e independente com o seu bairro e tornam a cidade onde vivem sua. Texto de Francisco Lima da Costa, Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa A PÉ PARA A ESCOLA erca de três quartos da população dos países da OCDE reside em áreas urbanas, o que origina crescentes problemas ambientais e de saúde. Tendo em consideração esta situação, será necessário definir novas estratégias de desenvolvimento sustentável eficazes. É neste contexto que surge o projecto de mobilidade sustentável A Pé para a Escola – Gestão da Mobilidade em Comunidades Escolares. Este projecto pretende proporcionar aos alunos do 1.º ciclo do ensino básico maior autonomia relativamente às suas famílias para se deslocarem no percurso casa-escola, dotando-os e sensibilizando-os com as seguintes noções: orientação em espaço público; segurança rodoviária; cidadania; utilização e respeito do espaço público; sustentabilidade e saúde. Financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e inserido no Programa Gulbenkian Ambiente, este projecto desenvolve-se em parceria com os municípios do Barreiro e de Loures e alerta para a quebra dramática do modo pedonal no acesso à escola por parte dos alunos. O projecto A Pé para a Escola tem assim dois objectivos estratégicos: por um lado, criar um modelo de intervenção social para promover a sensibilização e mudança comportamental de uma comunidade escolar relativamente às deslocações automóveis de casa para a escola e vice-versa e, por outro lado, replicar o modelo de intervenção para outras instituições e territórios. C CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS DO USO DO CARRO Apesar de levar os filhos à escola de carro ser ainda percepcionado como a forma mais segura e confortável de facilitar a mobilidade das crianças, diversos estudos identificam consequências negativas para as crianças que derivam desta atitude, entre as quais se destacam as referentes à saúde física, geralmente associadas a questões de obesidade, a redução das capa- cidades cognitivas e a perda de independência e autonomia geográfica, para além dos custos ambientais associados. A vida das crianças nas cidades tem vindo assim a sofrer alterações substanciais em termos das suas “possibilidades de acção”. O espaço público, mais especificamente a rua, está a deixar de ser o lugar do contacto e interacção com a comunidade. Em concreto, vários estudos têm observado o comportamento de crianças em espaço público e concluem que a independência, em termos de mobilidade, é um factor crucial no seu desenvolvimento físico e, sobretudo, psíquico e social. PARA “CAMINHAR” MAIS Blogue do projecto A Pé para a Escola http://apeparaaescola.blogspot.com/ Sítio internacional da organização Walk to School http://www.iwalktoschool.org/ Sítio do inventor do conceito Pedibus, David Engwicht http://www.lesstraffic.com/Programs/WB/WB.htm VIVER A CIDADE Estruturar e identificar o meio ambiente é uma actividade essencial para que o ser humano desenvolva um adequado equilíbrio e bem-estar, que correspondem a sentimentos de segurança e calma interior. A imagem mental do espaço público permite desenvolver a memória topográfica e, consequentemente, a mobilidade intencional. A imagem é por isso valiosa, quer para que a pessoa se possa movimentar, quer para ligar os conhecimentos. Ela “é um organizador de factos e possibilidades”. Actuar sobre os cidadãos, neste caso, e em particular, sobre alunos e professores, e também sobre as instituições (onde as pessoas se enquadram), é uma forma de garantir a institucionalização de novos comportamentos e, simultaneamente, promover maior responsabilidade cívica e interiorização de práticas de cidadania mais sustentáveis. Sítios das câmaras de duas cidades, Lyon e Genebra, onde funcionam circuitos Pedibus, com sugestões das etapas a seguir para implementar o projecto e materiais http://www.grandlyon.com/Pedibus-en-marche-vers-lecole.1274.0.html http://www.pedibus-geneve.ch/ Actualmente a escola pode e deve ter um papel fundamental no desenvolvimento desta imagem mental da cidade na criança, ou seja, deve desenvolver actividades que levem as crianças a orientar-se no seu meio urbano através de visitas, passeios, elaboração de mapas, etc. Para que a criança percepcione a cidade, para que crie imagens de espaços urbanos e se movimente de forma confortável, é preciso que ela habite e viva a cidade. :: O Pedibus é um “autocarro humano” gratuito, em que as crianças, acompanhadas de um ou mais adultos (familiares dos alunos em sistema de rotatividade), seguem a pé para a escola, segundo um trajecto com paragens pré-definidas. O promotor poderá ser qualquer interveniente da comunidade escolar que se mostre interessado. Passos a seguir para implementar o Pedibus 1. Divulgação à comunidade escolar do conceito Pedibus e do seu funcionamento. 2. Realização de um inquérito, que permitirá fazer uma previsão do número de alunos aderentes, traçar os circuitos e definir horários. 3. Preenchimento de um formulário de adesão pelos encarregados de educação, entrega de documentos sobre as regras do Pedibus. 4. Preparação dos alunos antes de o Pedibus ser posto em prática, a qual, se possível, deverá ser realizada em conjunto com os professores. 5. Entrega aos alunos de um Dossier de Participação, com o mapa do circuito, horário e calendarização, folha de contactos e equipamento de segurança, antes de se iniciar a realização dos circuitos. (Adaptado do Manual do Pedibus, publicado pela Câmara de Lisboa. Texto integral em http://www.cm-lisboa.pt/archive/doc/339_Manual.pdf)