FICHA PARA IDENTIFICAÇÃO PRODUÇÃO DIDÁTICO – PEDAGÓGICA TURMA - PDE/2012 Título: REFLETINDO E ATUANDO SOBRE INDISCIPLINA NO CONTEXTO ESCOLAR Autor ABIGAIL BARBOSA DE MACEDO SILVA Disciplina/Área (ingresso no Pedagogia PDE) Escola de Implementação do Colégio Estadual Dom Bosco – Ensino Fundamental e Projeto e sua localização Médio Município da escola Mariluz Núcleo Regional de Educação Goioerê Professor Orientador Professora Me. Aline P. Lima. Instituição de Ensino Superior FECILCAM Relação Interdisciplinar Todas as áreas do Conhecimento O referido trabalho tem atrelado a si o objetivo principal de promover espaços de reflexão sobre indisciplina escolar junto aos professores do Colégio Estadual Dom Bosco de Mariluz a fim de identificar e (re) significar suas concepções sobre o tema, dessa forma Resumo passaremos a conhecer o que os professores do referido colégio pensam sobre indisciplina escolar e como a vêem no contexto escolar, isto posto, refletiremos sobre situações tidas como indisciplina e proporcionaremos momentos de discussão sobre a indisciplina escolar, objetivando auxiliá-los nesta questão. Palavras-chave ( 3 a 5 Indisciplina; Prática Pedagógica; Sucesso na palavras) Aprendizagem. Formato do Material Didático CADERNO PEDAGÓGICO Público Alvo Professores dos anos finais do Ensino Fundamental do Colégio Estadual Dom Bosco. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO – SEED SUPERINTENDÊNCIA DA EDUCAÇÃO – SUED DIRETORIA DE POLÍTICAS E PROGRAMAS EDUCACIONAIS – DPPE PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL – PDE CADERNO PEDAGÓGICO REFLETINDO E ATUANDO SOBRE INDISCIPLINA NO CONTEXTO ESCOLAR CAMPO MOURÃO 2012 2 ABIGAIL BARBOSA DE MACEDO SILVA CADERNO PEDAGÓGICO REFLETINDO E ATUANDO SOBRE INDISCIPLINA NO CONTEXTO ESCOLAR Caderno Pedagógico apresentado à Coordenação do Programa de Desenvolvimento Educacional – PDE, da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, em convênio com a Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, como requisito para o desenvolvimento das atividades propostas para o 1º semestre 2013. Sob a orientação da Professora Me. Aline P. Lima. CAMPO MOURÃO 2012 3 REFLETINDO E ATUANDO SOBRE INDISCIPLINA NO CONTEXTO ESCOLAR Professora PDE: Abigail Barbosa de Macedo Silva APRESENTAÇÃO Este trabalho, por nós nominado como Caderno Pedagógico, foi desenvolvido em parceria com a Faculdade de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM, na área de Pedagogia sob a orientação da professora Me. Aline P. Lima, segue as propostas do PDE – Programa de Desenvolvimento Educacional do Paraná, turma 2012, e problematiza o tema indisciplina na escola. O referido trabalho tem atrelado a si o objetivo principal de promover espaços de reflexão sobre indisciplina escolar junto aos professores do Colégio Estadual Dom Bosco de Mariluz a fim de identificar e (re) significar suas concepções sobre o tema, dessa forma passaremos a conhecer o que os professores do referido colégio pensam sobre indisciplina escolar e como a vêem no contexto escolar, isto posto, refletiremos sobre situações tidas como indisciplina e proporcionaremos momentos de discussão sobre a indisciplina escolar, objetivando auxiliá-los nesta questão. Para tanto no presente Caderno Pedagógico, apresentamos uma sequência didática com questionamentos para reflexão, textos para discussão e reflexão sobre indisciplina escolar. Para a efetivação das atividades deste caderno serão necessárias 32 horas, desse modo as atividades foram divididas em três unidades, assim dispostas: UNIDADE I: O QUE É INDISCIPLINA ESCOLAR? UNIDADE II: DISCUTINDO INDISCIPLINA ESCOLAR UNIDADE III: REPENSANDO A INDISCIPLINA ESCOLAR 4 Esperamos com este trabalho alcançar o objetivo proposto, qual seja, promover espaços de reflexão sobre indisciplina escolar junto aos professores do Colégio Estadual Dom Bosco de Mariluz a fim de identificar e (re) significar suas concepções sobre o tema, para a partir daí atuar de forma diferenciada, tendo consciência do nosso papel como educadores e balizadores da organização do trabalho em sala de aula. 5 INTRODUÇÃO As escolas atualmente têm enfrentado um grande desafio que vem provocando discussões entre educadores, gestores e família. A indisciplina está cada vez mais frequente no ambiente escolar e é considerado um dos motivos pelo insucesso escolar dos alunos e apresenta diversos conceitos. Para Garcia (2000, p.102): O conceito de indisciplina apresenta uma complexidade que precisa ser considerada. É preciso, por exemplo, superar a noção arcaica de indisciplina como algo restrito à dimensão comportamental. Ainda, é necessário pensá-la em consonância com o momento desta virada de século. Aquino (1996, p.45) descreve a indisciplina como sendo [...] um quadro difuso de instabilidade gerado pela confrontação deste novo sujeito histórico a velhas formas institucionais cristalizadas. Ou seja, denotaria a tentativa de rupturas, pequenas fendas em um edifício secular como é a escola, potencializando assim uma transição institucional, mais cedo ou mais tarde, de um modelo autoritário de conceber e efetivar a tarefa educacional para um modelo menos elitista e conservador. Ambos os autores colocam em cheque a organização do trabalho educacional, insinuando que este não está preparado para as mudanças que vem ocorrendo na sociedade, e, consequentemente dando abertura para a indisciplina. É evidente que a vida em sociedade necessita da criação e do cumprimento de regras para que se estabeleça um ambiente favorável. Sem disciplina nenhum espaço possui organização nem tão pouco é adequado para o processo de aprendizagem. A escola, por sua vez, não pode ser diferente. A questão da disciplina é bastante complexa, uma vez que um grande número de variáveis influenciam o processo de ensino-aprendizagem. No entanto, apesar dessa complexidade, a verdade é que há um consenso sobre o fato de que sem disciplina não se pode fazer nenhum trabalho pedagógico significativo. Resta saber o que entendemos por disciplina [...]. (VASCONCELLOS, 2004, p. 45). Nesse sentido, temos claro que a efetivação do trabalho escolar não se concretizará sem disciplina, no entanto não podemos esperar que o aluno seja passivo e só dê seu parecer quando questionado. 6 Normalmente para os educadores a concepção de bom aluno é aquele obediente, que realiza a sua tarefa, que faz o que se pede e concorda com tudo. O aluno crítico e reflexivo é o modelo de indisciplina. A esse respeito Vasconcellos (1994, p. 39) orienta que, “o conceito de disciplina associado à obediência está muito presente no cotidiano da escola, mais ou menos conscientemente” dessa forma, não podemos entender a disciplina como um conjunto de regras disciplinares, normas rígidas, mas uma necessidade para o bom desempenho dentro de qualquer trabalho. Analisando o contexto escolar atual, verificamos que há diversos fatores que proporcionam a indisciplina, entre eles citamos: a perda de autoridade do professor, aulas mal planejadas, ausência de conhecimento do conteúdo por parte do professor, nesse sentido a indisciplina é: [...] uma resposta clara ao abandono à habilidade das funções docentes em sala de aula, porque é só a partir do seu papel evidenciado corretamente na ação em sala de aula que os alunos podem ter clareza quanto ao seu próprio papel, complementar ao do professor. (AQUINO, 1998, p. 8). Diante do exposto, devemos considerar os problemas disciplinares aliados a outros fatores, que não sejam apenas o relacionado ao aluno, e ao cumprimento de regras, na maioria das vezes os fatores estão diretamente ligados ao ambiente escolar e a perda de autoridade do professor. É necessário salientar a importância do trabalho docente para manter um ambiente propício para a aprendizagem, sua função de educador consiste, entre outras, [...] conhecer como se dá a aprendizagem e, com base nessa compreensão, planejar suas aulas, além de ter segurança sobre o conteúdo a ser trabalhado. A medida parece muito básica – e é. Ela vale para manter a disciplina e para chegar ao objetivo principal: fazer com que todos aprendam. (VINHA, 2009, p.5) Ressaltando a afirmação da autora pode-se entender que conhecer como se dá a aprendizagem é uma ferramenta valiosa para o educador manter a disciplina em sala de aula. Outro agravante, que pode influenciar na disciplina é a falta de metodologia de alguns educadores, que faz com que os alunos não se sintam motivados em aprender e, sentindo-se “desocupado” o aluno se acha no direito de “brincar” durante a exposição de um conteúdo novo. 7 Geralmente, o aluno indisciplinado é também aquele que carrega ano após ano a reprova, e este é visto como o baderneiro que não aprende nada, nunca sairá “disso”. Entretanto, o jovem hoje convive em meio a muitas novidades, e a escola se mantém na mesma estratégia tradicional, fazendo com que o aluno não se sinta atraído por ela, nesse sentido, necessita-se que o ambiente escolar seja um local privilegiado de inovação, experimentação, um lugar onde o aluno tenha vontade de voltar para ela. Deve-se entender que o trabalho de uma escola não se reduz a uma matriz curricular ou a um “punhado” de disciplinas, além do conhecimento próprio de cada disciplina, o jovem necessita de muito mais para que se possa garantir o sucesso do seu futuro. Assim, se a organização do trabalho pedagógico na escola está direcionada a oferecer um ambiente favorável para a aprendizagem, ou seja, um espaço com metodologias diversificadas, professores comprometidos, aulas planejadas, a indisciplina na escola tende a ser reduzida. Para tanto, a prática pedagógica deve ser centrada no aluno, instigando, desafiando, enfim, motivando-o a querer aprender, assim, como partícipe do processo de construção do seu conhecimento, o aluno poderá atuar de modo responsável e consciente do seu papel e da importância de organização para obtenção de melhores resultados na vida acadêmica. Diante do exposto, há necessidade de organizar, no ambiente escolar, discussões que contribuam para a compreensão do real significado de indisciplina, dando um novo sentido a ela e, dessa forma, promover o desenvolvimento de um ambiente adequado para a prática pedagógica e, consequentemente, o sucesso do processo de ensino e aprendizagem, dessa forma serão aqui apresentadas atividades que levarão os educadores a refletirem sobre a indisciplina na escola e o papel a ser desempenhado para a minimização/superação desse problema. 8 9 O QUE É INDISCIPLINA ESCOLAR? 1 Imagem 1 De modo a iniciar o desenvolvimento do trabalho, nos propomos a pensar sobre o real sentido da indisciplina no contexto escolar. Para tanto, iniciamos problematizando a realidade que nos cerca, com o uso de um questionário individual e uma discussão em grupo com objetivo de verificar o que o coletivo deste colégio compreende sobre indisciplina na escola. QUESTIONÁRIO INDIVIDUAL 1) Em nossa escola, existem casos de indisciplina? Relate um ou dois que exemplifiquem casos de indisciplina. 2) Existem responsáveis pela indisciplina? Quem seria? 3) Você consegue pensar em formas de atuação contra indisciplina? O que poderia ser feito na escola para o enfrentamento da questão? 1 Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=25083. Acesso em: 02 de dez. de 2012. 10 DISCUSSÃO EM GRUPO A indisciplina se constitui um desafio para os educadores e pode ser um dos principais obstáculos para o desenvolvimento da prática pedagógica e, consequentemente do insucesso escolar, dessa forma e observando o cotidiano escolar vivenciado pelo grupo, reflita e discuta as questões abaixo: a) Como o grupo define indisciplina escolar? b) O que caracteriza um aluno indisciplinado? c) Que fatores contribuem para a indisciplina na sala de aula e em outros espaços da escola? d) Quais as dificuldades enfrentadas pelo grupo na prática pedagógica? Concluída a reflexão, cada grupo deverá apresentar aos demais sua opinião para que a professora PDE possa mediar uma discussão abordando elementos apontados pelo grupo, objetivando analisar as respostas e, consequentemente, a concepção que o coletivo tem sobre indisciplina escolar, para melhor organizar os encaminhamentos das atividades. “Todo poder provém de uma disciplina e corrompe-se a partir do momento em que se descuram os 2 constrangimentos”. (CAILLOIS) 2 Roger Caillois: Sociólogo e Antropólogo francês. 11 REFLETINDO SOBRE INDISCIPLINA ESCOLAR 3 Imagem 2 Os problemas disciplinares estão aliados a outros fatores, que não são apenas o relacionado ao aluno e ao cumprimento de regras. Na maioria das vezes os fatores estão diretamente ligados ao ambiente escolar e a perda de autoridade do professor. Agora, assistiremos um vídeo ·com a Educadora Terezinha Rios, que discursa sobre o respeito como sendo relacionado com o reconhecimento do outro e de suas diferenças. A partir do vídeo propomos pensar coletivamente: O outro e as diferenças são levados em consideração por nós professores, que muitas vezes agimos por meio da autoridade e da hierarquia? Vemos a disciplina apenas como aplicação de regras, geralmente não compartilhadas pelos alunos? O que é de fato um bom aluno? O “corpo disciplinado não é um corpo imóvel, pacífico”? 3 Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=41479. Acesso em: 02 de dez. de 2012. 12 FILME MENTES PERIGOSAS4 5 Imagem 3 O Filme “Mentes Perigosas”6 conta a história de uma ex-oficial da marinha que passa a lecionar em uma escola de subúrbio nos Estados Unidos onde alunos americanos e mexicanos convivem juntos. O filme se baseia em uma professora em seu primeiro trabalho, tendo que enfrentar uma sala de alunos “rebeldes”, cheio de problemas sociais envolvendo família, drogas e preconceito. No começo a professora LouAnne Johnson (Michelle Pfeiffer) sente-se desafiada e pensa por alguns instantes que não é capaz de dar aulas para aquela turma e um outro professor lhe diz em uma conversa, que ela precisa de algo para prender-lhes a atenção. A professora coloca a responsabilidade para os alunos dá a todos nota A, afirmando manter essa nota alta e mais difícil que tirá-la uma vez só. Em uma das cenas do filme, em que é ensinada uma série de verbos, uma das alunas diz que o verbo mais importante falado foi o verbo “escolher”, isso demonstra que aqueles alunos queriam escolhas, e estavam ali por não têlas. A professora fala, que fazemos a melhor escolha que temos disponível no momento e Michelle nesse instante convence os alunos que escolheram estar 4 MENTES Perigosas. Direção de John N. Smith. Estados Unidos. Buena Vista Pictures/ Hollywood Pictures/ Don Simpson/ Jerry Bruckheimer Films, 1995, 99 mim. (Vídeo Locado). 5 Disponível em: http://filmes.zura.com.br/mentes-perigosas--john-n-smith.html. Acesso em 02 de dez. de 2012. 6 Sinopse disponível em: www.portalcmc.com.br/filme04.htm. Acesso em 22 de out de 2012. 13 ali ao invés de estar na rua roubando, escolheram se formar para ter um futuro melhor e escolheram pegar o ônibus para ir a escola a consumir drogas. Refletindo coletivamente sobre o filme: 1) O que conseguimos identificar de semelhanças e diferenças entre as cenas do filme e o cotidiano de nossa escola? 2) No filme Mentes Perigosas, a professora LoAnne Johnson desafiou as regras e criou seu próprio currículo, recorrendo a recompensas (chocolates, passeios, jantares) para conseguir um ambiente favorável para desenvolver sua prática pedagógica. Você concorda com a técnica usada pela professora? Por quê? 3) No decorrer da trama percebe-se que a professora incentiva a turma a ver o conhecimento como uma arma intelectual que os preparará para os obstáculos da vida, e mostra que o próprio aprendizado é uma troca, onde todos aprendem: alunos e professor. Você também vê o conhecimento como uma arma para a mudança? Comente. 4) As intervenções direcionadas pela professora da trama foram pontuais, pois a escola do filme, como muitas de hoje, vive num mundo fechado, sem se interessar pela realidade e interesses dos alunos. Os currículos e programas são desvinculados da realidade quotidiana dos alunos, ignoram os fatos econômicos, sociais e culturais da sociedade. Você acha que essa afirmação é uma das causas que conduzem à indisciplina? 5) Se você fosse a professora LouAnne Johnson de que forma conduziria a situação exposta no filme? 14 15 DISCUTINDO INDISCIPLINA ESCOLAR 7 Imagem 4 Percebemos que atualmente as intervenções utilizadas pelos professores, na tentativa de solucionarem a indisciplina não tem dado resultados, comprometendo também o processo de ensino e aprendizagem. Temos que refletir as razões que conduzem a um ambiente em que professor/aluno; aluno/aluno travam uma animosidade que culminam com palavras ofensivas, a não realização das atividades propostas em sala e prejudicando o trabalho dos demais alunos, uma vez que diante dessas situações, o professor não sabe ao certo o que fazer; no entanto compreendemos que atitudes positivas e específicas diante da situação podem levar a solução do problema em sala e vice versa. Dessa forma, há a necessidade do professor compreender o que é indisciplina de fato e de que forma atuar para apaziguar os ânimos em sala de aula. A proposta desta atividade será voltada para essas reflexões. Seguem um conjunto de textos e tirinhas do personagem Calvin que vive situações que deixam evidentes as principais causas da indisciplina, com a intenção de nos levar a refletirem de que forma podemos minimizar a indisciplina escolar. Para isso serão utilizadas duas das sete soluções apresentadas no texto “Como se resolve a indisciplina?” pela revista Nova Escola 8, onde Telma Vinha e outros educadores discutem questões ligadas à indisciplina e encaminhamentos para o problema. 7 Disponível emhttp://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=41479. Acesso em 02 de dez. de 2012. 8 http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-continuada/como-resolve-indisciplinaautoridade-moral-convencao-cooperacao-autonomia-503230.shtml?page=0. Acesso em: 25 de out de 2012. 16 Trecho da reportagem “Como se resolve a indisciplina?” Por Anderson Moço. Colaboração de Thais Gurgel. Ficar irritado, gritar e castigar os que não se comportam como você quer – atitudes autoritárias e retrógradas – não adianta nada. Quando se tenta impor disciplina, a submissão e a revolta aparecem. “Hoje, isso não se sustenta mais. O mundo é outro”, acredita Telma. Seu papel na construção é conhecer como se dá a aprendizagem e, com base nessa compreensão, planejar as aulas, além de ter segurança sobre o conteúdo a ser trabalhado. A medida parece muito básica – e é. Ela vale para manter a disciplina e para chegar ao objetivo principal: fazer com que todos aprendam. Os caminhos também não são nada que esteja fora de seu alcance. “É preciso diversificar a metodologia, pois interagimos com alunos conectados ao mundo por diferentes redes e ferramentas”, acredita Maria Tereza Trevisol, da Universidade do Oeste de Santa Catarina, campus de Joaçaba. Vale promover mais participação de todos em situações desafiadoras que deem protagonismo a cada aluno. Pesquisas feitas por ela mostram que os alunos querem que o professor tenha autoridade também para resolver os conflitos em sala, antes de recorrer à direção (veja na tirinha abaixo como Calvin vive essa situação). (grifo nossso). Um ponto de atenção: o desrespeito do professor em relação aos alunos também alimenta a indisciplina. Quase 25% dos estudantes afirmam ser vítimas disso de vez em quando – e mais de 12%, que o fato ocorre com frequência. Quem nunca ouviu uma criança reclamando: “Nem me ouviu e já me colocou para fora”? Outra situação corriqueira é a da desconfiança: “Você precisa mesmo ir ao banheiro ou está querendo passear?” Que tipo de relação se espera formar com atitudes como essas? A análise do próprio comportamento é fundamental. “Falta sensibilidade moral aos professores que tiram sarro do aluno, uma situação, infelizmente, bem comum. Nesses casos, o respeito adquire um caráter unilateral”, afirma Adriana. Assim, a ofensa à autoridade passa a ser encarada como mais grave do que a que se dá entre os colegas. “Por exemplo, se um aluno xinga o professor, ele corre um grande risco de ser expulso. Mas, quando esse mesmo aluno pratica bullying, ninguém toma nenhuma atitude”, analisa Telma. A mensagem passada em situações desse tipo é: respeite aquele que manda e maltrate quem é igual ou menor que você. 17 NÃO CONFUNDA REGRAS Proibir o chiclete é uma convenção (questionável, por sinal). Ser solidário é uma regra moral. Nesse caso, a professora de Calvin misturou tudo. Após leitura do texto e análise da tirinha, discuta com o grupo, situações do cotidiano parecidas com as relatadas, o encaminhamento dado e o resultado dessa ação. O problema foi solucionado? Que outra intervenção, dentro do discutido nesta proposta poderia ser utilizada para favorecer a resolução do problema? 18 Trecho da reportagem “Como se resolve a indisciplina?” Por Anderson Moço. Colaboração de Thais Gurgel. Ninguém, em sã consciência, pode deixar a turma fazer o que quiser, num regime anárquico. Longe disso. Um dos maiores desafios é, portanto, construir um ambiente cooperativo, no qual os alunos tenham voz, sejam respeitados e aprendam a respeitar. Isso faz com que o comportamento seja adequado naturalmente e não por medo de sanções (no quadrinho abaixo, Calvin e Susi mostram a que ponto pode chegar a situação quando há temor em relação aos possíveis castigos). É claro que essa perspectiva não o exime de exercer a figura da autoridade moral e intelectual – nunca autoritária – como o coordenador do processo educacional. Afinal, além de conhecer os objetivos pedagógicos, é você o adulto da situação. (grifo nosso). A negociação é a palavra. E ela tem de ser justa. Não vale induzir os estudantes a conclusões e normas que somente um dos lados – o seu – queira ver implantado. Isso seria um trabalho de fachada, no mínimo, desonesto. “Essa postura ajuda a romper com a dicotomia tradicional daquele professor mandão versus o bonzinho porque pressupõe uma busca pelo equilíbrio nas relações”, explica Telma. “Mas isso tem de ser construído gradativamente pelo grupo, com base no respeito mútuo, na reciprocidade e nos princípios de justiça”, completa a especialista. EQUILIBRE AS AÇÕES Calvin provavelmente não fez nada grave, mas a expectativa do castigo 19 desproporcional mostra como a escola parece estar acostumada a reagir de maneira inadequada. Após leitura do texto e análise da tirinha, discuta com o grupo, situações do cotidiano parecidas com as relatadas; discuta com o grupo intervenções que estejam sendo utilizadas de maneira inadequada pela escola. Faça uma relação entre as ações indisciplinares; a intervenção utilizada, sem sucesso; e a intervenção que poderia auxiliar na resolução do problema. 20 21 REPENSANDO A INDISCIPLINA ESCOLAR Nesse momento faremos um estudo do texto “A Desordem na relação professor-aluno: indisciplina, moralidade e conhecimento” de Julio Groppa Aquino De modo a compreender as ideias do autor sobre indisciplina. RESENHA9: A Desordem na relação professor-aluno: indisciplina, moralidade e conhecimento. Imagem 2 10 AQUINO, Julio Groppa. A desordem na relação professor-aluno: indisciplina, moralidade e conhecimento. In: _____________________ (org). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996, p. 3955. Neste artigo o Prof. Júlio Aquino aborda a questão da indisciplina escolar a partir de aspectos sócio-históricos e psicológicos, destacando a centralidade da relação professor-aluno no estabelecimento de uma nova ordem pedagógica, em que a negociação seja uma constante na (re) construção do conhecimento. Segundo o autor, para além das diferentes funções imputadas à escola, atualmente a indisciplina atravessa os distintos tipos e regimes escolares 9 Elaborada por Eder dos Santos Camargo - Pesquisador em Gestão de Políticas Públicas. Disponível em: www.educared.org/educa/arquivos/web.../resenha_dimensão_1.pdf. Acesso em: 09 de set de 2012. 10 Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=13391. Acesso em: 02 de dezt de 2012. 22 tornando-se uma questão incontornável, em função de sua concretude, contundência e repercussão. Prescrições disciplinares já foram características extensivas à prática docente; hoje, contudo, isto não é um consenso nem mesmo entre as teorias pedagógicas. Por outro lado, se o mundo mudou e mudaram também os alunos, o que se pode dizer da escola e de nós, professores? Lançando mão destas imagens, Aquino desafia o leitor a compreender a indisciplina como um sintoma da relação educativa, relação esta que não se bastaria na escola, mas atravessaria todas as institucionalidades estabelecidas na sociedade. A partir de um ponto de vista sócio-histórico, o artigo aborda a indisciplina como o resultado da emergência do novo sujeito histórico caudatário da luta pela democratização da sociedade brasileira. Ocorre que a democratização da escola no Brasil veio acompanhada da deterioração das condições de ensino, de modo que as estratégias de exclusão se sofisticaram, não eliminando as características elitistas e militarizadas da escola de outrora. Ainda que a indisciplina seja compreendida como sintoma de práticas socialmente estabelecidas, o novo sujeito que freqüenta a escola encontra-se com velhas formas institucionais cristalizadas. Assim, para o autor, a indisciplina torna-se uma “força legítima de resistência e produção de novos significados e funções, ainda insuspeitos, à instituição escolar.” Por sua vez, observa-se nas escolas a predisposição por um discurso particularista e culpabilizante em que aluno torna-se uma espécie de agente social irremediavelmente degenerado. Não constitui exagero lembrar que a infra-estrutura psicológica que se espera do aluno, de inescapável cunho moral, é anterior a escola. O reconhecimento da autoridade externa, que passa inevitavelmente pela assunção da alteridade pela co-existência com o outro, faz-se em condição prévia ao trabalho escolar. Atualmente, se espera que valores como solidariedade, reciprocidade, cooperação, partilha de responsabilidades e permeabilidade a regras comuns sejam ensinadas na escola, quando a escola é espaço de exercício dessas condutas ensejadas no seio familiar. Júlio Aquino reconhece, enfim, que vivemos o esfacelamento do papel clássico da instituição familiar e a indisciplina não é mais do que um efeito dessa situação. 23 Qual seria a função da escola? Para Aquino, permanece sendo a mesma: repetição e legitimação da cultura produzida pela humanidade. O foco de ação da escola, este sim precisa ser alterado; não são as questões morais ou psíquicas que devem mobilizar as energias, mas a desconstrução e reconstrução dos processos e fatos cotidianos - fornecendo ao aluno repertório para o exercício de seus dilemas e possibilidade de apreensão do mundo - que devem orientar as práticas escolares. Da relação professor-aluno emergem as questões que devem ser abordadas como matéria de conhecimento e investigação. Conhecer provoca desordem, desobediência e inquietação. Transformar isto em ciência exige fidelidade ao contrato pedagógico a partir de um investimento contínuo nos vínculos concretos estabelecidos entre professor e aluno, de modo que se encontre permeabilidade para a mudança e para a invenção de uma nova ordem pedagógica. Após leitura do texto, discuta com o grupo as questões abaixo levando em consideração o cotidiano escolar do Colégio Estadual Dom Bosco. a) Para o autor a centralidade da relação professor-aluno é a chave para uma nova ordem pedagógica, onde a negociação deva ser uma constante para a (re) construção do conhecimento. De que forma esta relação pode ser estabelecida? Para respondê-la reflita e descreva uma situação de indisciplina vivenciada em sala de aula, comente o desfecho, o encaminhamento dado e o que poderia ser feito para contornar a situação. b) Aquino deixa claro que uma das formas de amenizar a indisciplina é mudando o foco de ação da escola. Diante da afirmação, o grupo 24 acredita que o professor deve rever a maneira de conduzir sua prática pedagógica, valorizando a vivência do aluno como ponto de partida, a fim de favorecer o processo de ensino e de aprendizagem? Comente. c) Para Aquino (1996): “Conhecer provoca desordem, desobediência e inquietação”, muitos confundem essa afirmação com indisciplina. Qual o posicionamento do grupo? Explique. d) Estamos finalizando as discussões sobre indisciplina em relação a esse projeto, porém sabemos que esse assunto não se encerra aqui. Diante disso, discuta com seus colegas, o que lhe foi acrescentado a partir das leituras e reflexões realizadas; sua visão sobre indisciplina mudou de perspectiva? Você está colocando em prática o discutido nos encontros? Em que esse trabalho contribuiu para auxiliar em sua prática pedagógica? 25 REFERÊNCIAS AQUINO, Júlio Groppa. A desordem na relação professor aluno: indisciplina, moralidade e conhecimento. In: AQUINO, Júlio Groppa (org.) Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996. CALLOIS, Roger. Disponível em: http://pensador.uol.com.br/frase/MjkyMw/ Acesso em: 19 de nov de 2012. FILME Mentes Perigosas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1n5ykGnffo. Acesso em: 18 de nov de 2012. GARCIA, Joe. Interdisciplinaridade, tempo e currículo. Tese Doutorado em Educação. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2000. VASCONCELOS, Celso dos Santos. (In) disciplina: Construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola, 15ª Ed. São Paulo: Libertad editora, 2004. VINHA, Telma. Como se Resolve a Indisciplina? Revista Nova Escola, Edição n. 226, outubro de 2009. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/formação. Acesso em: 08 de mai de 2012. 26