Trabalho 499 DANIELE REZENDE SILVA HADDAD SILÊNCIO: ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM À MULHER QUE PERDEU O BEBÊ BELO HORIZONTE 2010 4176 Trabalho 499 1 DANIELE REZENDE SILVA HADDAD SILÊNCIO: ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM À MULHER QUE PERDEU O BEBÊ Trabalho de Conclusão de curso de pós-graduação apresentado como requisito para o Curso de Enfermagem Obstétrica da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Orientadora: Doutora Kleyde Ventura BELO HORIZONTE ESCOLA DE ENFERMAGEM – UFMG 2010 4177 Trabalho 499 2 Ao Bernardo, minha vida! 4178 Trabalho 499 3 Agradeço a Deus, pela sabedoria para realizar este curso. À Kleyde, pela confiança, incentivo e paciência. Ao Bernardo, pela paciência nas minhas ausências, que mesmo não estando próximo fisicamente, não me retirei do seu lado. E pela oportunidade em aprender e colocar em prática gestação, parto e puerpério. Amo Você! 4179 Trabalho 499 4 A Pietà de Michelangelo, a mãe em prantos com o corpo de seu filho, continua compreensível como obra de arte, mas dificilmente imaginável como situação real. Norbert Elias 4180 Trabalho 499 5 RESUMO A morte, vivida com preparo e tranqüilidade na Idade Média, passou a um momento de temor para o homem moderno, tornado-se um tabu. O enfermeiro vivencia com frustração a morte de um paciente e a impotência em manter e salvar a vida. Este sentimento é maior quando ocorre a morte intra-útero ou durante o parto. Assim, este trabalho objetivou conhecer como o enfermeiro assiste à uma mãe que vivenciou a “perda do seu bebê”, seja intra-útero ou intraparto. Para isso utilizou-se, como método de pesquisa, a revisão integrativa da literatura onde foram analisados 5 artigos dos bancos de dados Lilacs, Medline e Sciello. Foi observado que o enfermeiro tem dificuldade em assistir à mãe que sofre com a perda do bebê, somado à isto, identificou-se dificuldade de dialogar com a mãe e também dificuldade, como profissional, de aceitar a morte prematura do bebê. Concluiu-se que o enfermeiro precisa aceitar melhor a finitude da vida para prestar uma assistência mais qualificada no apoio a mulher e família que vivenciam a morte intra-útero ou durante o parto e, também, auxiliá-los na expressão e vivência de seus sentimentos de tristeza e angústia diante de tal fato. DESCRITORES: óbito fetal; assistência de enfermagem; enfermagem obstétrica 4181 Trabalho 499 6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO……….………………………………………………………... 7 2 DESENVOLVIMENTO….…...……………………………………………....... 2.1 Método ….………………………………………………………………....... 2.2Etapas..………………………………………………………………….......... 2.3 Levantamento de dados…....……………………………………………...... 2.4 Critérios de inclusão….…………………………………………………….. 2.5 Análise dos dados...………………………………………………………… 10 10 10 11 11 12 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO……………………...…….............................. 13 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ………………….................................................. 17 REFERÊNCIAS ……….…………………………………………………........................ 19 4182 Trabalho 499 7 1 INTRODUÇÃO A morte é um fenômeno inerente ao ser humano, porém ao longo dos tempos o homem tem tentado afastá-la do seu universo. Em épocas mais antigas, morrer era uma questão muito mais pública do que hoje. E não poderia ser diferente. Primeiro porque era muito menos comum que as pessoas estivessem sozinhas, além disso, as moradias deixavam pouca escolha. As comunidades eram mais pobres, não eram tão organizadas em termos de higiene e espaço, com isto, os mortos não eram tão isolados da vida comunitária. Nascimento e morte eram eventos mais sociáveis, eram menos privatizados (ELIAS, 2001). Na Idade Média, a morte no leito era ao mesmo tempo comum e costumeira. Vivida coletivamente, era passagem de uma vida a outra. A sociedade foi sendo reformulada e deu à morte um outro sentido, como neutralização dos ritos funerários e ocultação de tudo sobre a morte (RODRIGUES, 1983). Desta maneira, a morte passa a ser vista não como um limite natural para o sofrimento humano; morte e sofrimento são construídos paralelamente, causando, quando juntos, perplexidade, até porque são concebidos separadamente pelo próprio homem. A atitude dos homens diante da dor, sofrimento e morte é buscar negá-los como fim do inexorável percurso da vida humana (PITTA, 2003). Esta negação, esta intolerância ao sofrimento transferiu a morte para o hospital e este se transformou em asilo para proteger a família da doença e da morte, para proteger os doentes das pressões emocionais de sua família, para proteger a sociedade da publicidade da morte (RODRIGUES, 1983). Para Pitta (2003) o homem moderno, pelo horror de adoecer e de morrer, necessita do saber e da técnica como refúgio para o seu medo e sua precariedade. Sendo assim, outros homens vendem a sua força de trabalho para administrar os incômodos, criando um processo de trabalho onde o poder e a técnica se encarregam de diluir o impacto e o sentimento de impotência desconcertante. Esta situação pode ainda ser reforçada na fala de Elias (2001): “firmemente está arraigada em nossa sociedade a tendência a ocultar a nossa finitude irrevogável da existência humana”. Assim, os profissionais de saúde que trabalham diariamente com a possibilidade de morte, encaram-na como um resultado acidental diante do objetivo de sua profissão, que é a busca pela saúde e pela cura de doenças. Sentem-se responsáveis pela manutenção da vida de seus pacientes, sendo a morte considerada como um insucesso no tratamento, um fracasso da equipe, o que causa angústia àqueles que a presenciam (VIEIRA, SOUZA e SENA, 2006). Mas para estes mesmos autores, ao negar a morte, as pessoas deixam de discuti-la, de conhecê-la, de melhor trabalhar conceitos e buscar meios de lidar com ela. A não aceitação que o destino de todos seres vivos é morrer dá lugar à crença que a morte é o começo de uma 4183 Trabalho 499 8 nova vida infinita ( ARAÚJO, VIEIRA, 2004). De acordo com Elias (2001), existe um medo de nossa própria transitoriedade que é amenizado com ajuda de uma fantasia coletiva de vida eterna em outro lugar. Corroborando com os autores acima, Oba, Tavares e Oliveira (2002) colocam que os profissionais de saúde, com a formação científica trata os fenômenos da vida e da morte como eventos da esfera biológica e, como tais, podem ser desvendados e controlados. Dessa forma, não apreendem morte e vida como pertencendo também a esfera da natureza e cultura. Esta dificuldade em aceitar a morte é muito mais evidente quando se trabalha em unidades de bloco obstétrico e maternidade. De uma maneira geral, tem-se a impressão que nestes setores não há lugar para a morte, pois são locais destinados a trazer ao mundo vidas. E muitos dos profissionais que aí trabalham tendem relutar ao se deparar com a morte, sendo que esta relutância é muito maior quando acontece de uma gestante perder a criança ainda no útero ou durante o trabalho de parto. A medicina desnuda a morte buscando munir-se, através dela, de conhecimentos e técnicas para ludibriar, ou pelo menos adiar, a finitude humana. Assim, morrer de velhice passa a ser considerada a forma de morte natural. Por conseqüência, todas as outras maneiras de se morrer são consideradas contra a natureza, e por isso, mortes desnecessárias (BELLATO, 2001). Para Martins, Alves e Godoy (1999) uma das causas da angústia vivida pelos profissionais diz respeito ao conflito entre o papel profissional a ser desempenhado e a morte. E muitas vezes a forma como a morte é vivenciada depende da idade, do diagnóstico e do prognóstico do paciente. A morte como possibilidade pode ocorrer a qualquer momento, seja um bebê ou um idoso, é a possibilidade mais própria do ser humano No dia-a-dia de um bloco obstétrico e/ou de uma maternidade, tem-se dificuldade para entender e enfrentar a morte como um acontecimento integrante de nossa existência que, tal como o nascer será vivido por todos: uns mais cedo outros mais tarde (ARAÚJO e VIEIRA, 2004). Maldonado (1980) também coloca que por mais que se pense na possibilidade de ocorrer a morte fetal, quando esta ocorre provoca violenta quebra de expectativa, instalando-se uma situação crítica para a família e equipe que a assiste. Ao assistir mães que perderam seus bebês experenciava um sentimento diferente diante desta situação, sentimentos estes que às vezes dificultava minha aproximação até tais mulheres. Isto começou a me intrigar e despertou o interesse em saber se os outros enfermeiros também têm dificuldade em assistir mulheres que perderam o bebê. Diante deste mal-estar que a morte causa nos profissionais que trabalham em bloco obstétrico e/ou maternidade questiono como o enfermeiro assiste à uma mulher que perdeu o bebê? Utilizei o termo perdeu o bebê por ser a descrição mais próxima do linguajar dos enfermeiros quando ocorre o óbito fetal ou mesmo durante o trabalho de parto. Os enfermeiros de blocos obstétricos e/ou maternidades e a equipe de maneira geral, evitam falar a palavra óbito ou 4184 Trabalho 499 9 morte. Santos (1993) confirma esta situação quando diz que não há lugar para a morte, fala-se dela o menos possível ou, quando é mister fazer alusão a ela, recorre-se a eufemismos no intuito de mantê-la distante do mundo dos vivos. Tendo em vista a questão norteadora, o estudo tem como objetivo conhecer como o enfermeiro assiste à mulher que perdeu o bebê, utilizando como base a revisão integrativa da literatura. Este trabalho foi desenvolvido como uma forma de contribuição e de reflexão para os profissionais enfermeiros que atuam em bloco obstétrico e/ou maternidade e que muitas vezes têm que lidar com a dicotomia vida e morte ao se deparar com uma mãe que perdeu o bebê intra-útero ou durante o trabalho de parto. 4185 Trabalho 499 10 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 Método Para a realização deste trabalho foi feita uma revisão integrativa da literatura nacional e internacional sobre o tema proposto. De acordo com Whittemore; Kanafl (2005), revisão integrativa é a categoria mais ampla de revisões de pesquisas e figura como um instrumento de obtenção, identificação, análise e síntese da literatura, direcionada para um tema específico. Conforme a finalidade da pesquisa, abrange tanto a literatura empírica quanto a teórica. Além da inclusão dessas literaturas, uma das vantagens da revisão integrativa é a habilidade de combinar dados dos diferentes tipos de pesquisas existentes. A revisão integrativa, quando bem desenvolvida, possui o mesmo padrão de uma pesquisa primária em relação a clareza, rigor e reaplicabilidade (BEYEA; NICOLL 1998). Ao se conduzir uma revisão integrativa da literatura faz-se necessário passar por etapas que Whittenore e Knafl (2005) e Beyea e Nicoll (1998) descrevem como sendo: formulação do problema, levantamento de estudos, definições, avaliação crítica dos estudos, análise e síntese dos resultados e apresentação. 2.2 Etapas Para a realização deste estudo, as seguintes etapas foram seguidas, de acordo com os autores Whittenore e Knafl (2005) e Beyea e Nicoll (1998); Formulação do problema: para revisão integrativa, o estabelecimento do problema é de importância vital para o desenvolvimento das demais etapas, uma vez que a correta constituição de um problema de forma coerente e completa, torna menos árdua as demais etapas do processo integrativo ( BEYEA; NICOLL, 1998). Levantamento de estudos: nesta etapa são estabelecidos os critérios de inclusão e exclusão dos artigos a serem utilizados. Esses critérios devem ser claros para assegurar a garantia de representividade da amostra, assegurando, desse modo, a validade do estudo. Definições: definir as informações a serem extraídas dos artigos selecionados, objetivando condensar as informações de forma simples e sucinta. Avaliação crítica dos estudos: esta etapa tem por objetivo realizar a categorização, ordenação e sumarização dos resultados, além de análise pormenorizada e sistêmica dos artigos utilizados. Análise e síntese dos resultados: esta etapa compreende a discussão e apresentação dos resultados obtidos, onde os dados são analisados e discutidos. Para assegurar a validade da 4186 Trabalho 499 11 revisão integrativa, as conclusões e inferências do autor devem ser elencadas, assim como lacunas e possíveis tendências teóricas e/ou empíricas. Apresentação: esta etapa deve ser realizada de forma clara, objetiva e informativa a fim de assegurar que o estudo seja válido em níveis de pesquisa acadêmicos. A revisão deve fornecer um referencial confiável e fidedigno em relação ao tópico em estudo e os resultados devem ser contextualizados para que possam possuir aplicação válida. 2.3 Levantamento de dados A revisão foi composta por toda literatura indexada nos bancos de dados LILACS, MEDLINE, SCIELLO, dissertações e teses relacionadas ao tema do estudo. Foram encontrados, como amostra, produções científicas que atenderam aos critérios de inclusão deste estudo, conforme descrito no quadro: QUADRO População e Amostra da Revisão Fonte População Amostra LILACS 21 4 MEDLINE 06 1 83 1 SCIELLO Busca reversa Total -- 110 1 7 Desta amostra, dois trabalhos não foram disponibilizados pelos autores. 2.4 Critério de inclusão Como critérios de inclusão, foram utilizados os seguintes descritores: óbito fetal; assistência de enfermagem; enfermagem obstétrica e foram pesquisados artigos, dissertações e teses 4187 Trabalho 499 12 publicados em português, inglês e espanhol entre os meses de janeiro de 1989 e dezembro de 2009, que responderam à temática: como o enfermeiro assiste à uma mulher que perdeu o bebê? Estes artigos foram pesquisados conforme a disponibilidade ou seja, deveriam estar na íntegra de livre acesso ou adquiridos. 2.5– Análise de Dados Realizou-se uma análise descritiva, buscando um grau de concordância ou divergência dos dados para maior compreensão do problema. É importante colocar que houve dificuldade em encontrar trabalhos de caráter qualitativo relacionados ao tema morte fetal e assistência de enfermagem obstétrica. Esta dificuldade foi um dos motivos de estender a busca por trabalhos científicos em um período de vinte anos. 4188 Trabalho 499 13 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Após leitura atenta e análise dos textos que compunham uma amostra de cinco artigos foi possível identificar três situações características relativas ao comportamento do enfermeiro que assiste à uma mãe que perdeu o bebê, que são: dificuldade de assistir à mãe que sofre com a perda; dificuldade de diálogo com a mãe e dificuldade como profissional de aceitar a morte do bebê Nesse estudo, foi utilizada a expressão perdeu o bebê no lugar de óbito fetal, que é o termo encontrado na literatura científica. Esta mudança ocorreu no sentido de tornar este trabalho mais suave, tendo em vista tratar de um tema ainda considerado delicado e difícil para grande parte das pessoas, inclusive para as autoras. A análise das situações encontradas foi a seguinte: Dificuldade de assistir à mãe que sofre com a perda Nesse estudo, partiu-se do pressuposto que nos centros obstétricos e maternidades o ambiente é muito mais propício para a alegria que para a tristeza. Os enfermeiros ao se depararem com situações em que há óbito fetal ou intra-parto sentem dificuldade em assistir à mãe que perdeu o bebê. Diante desta situação, muitas vezes o enfermeiro sente-se inseguro em assistir a mulher que perde o bebê, pelo fato de não ser simplesmente a morte em si, mas da frustração de toda uma expectativa vital que a mulher traz consigo ao longo da gestação como coloca Luz et.al. (1989). Desta maneira, muitos enfermeiros tendem a exercitar relações impessoais, fragmentárias, isolamento e indiferença afetiva para esta mulher (OBA, TAVARES e OLIVEIRA 2002). Em outro estudo, Barbieri, Popim e Boemer (1992) observaram que enfermeiros percebem que as mulheres nesta situação de perda, têm necessidade de um apoio, mas sentem muita dificuldade em fornecer este apoio, este tipo de cuidado. Para estes autores, o enfermeiro se justifica da dificuldade em assistir estas mulheres, porque não se sente preparado para lidar com a situação de morte. E Souza e Almeida (2006) complementam que o enfermeiro, ao interagir com a mãe em situação de morte perinatal vivencia situações de sofrimento, difíceis e frustrantes. Muitas vezes prefeririam que isto não estivesse acontecendo, que ele não precisasse ir até o leito em que esta mulher se encontra para realizar o cuidado e se deparar com a situação de morte e impotência. De acordo com Oba, Tavares e Oliveira (2002), sendo o enfermeiro sujeito social banhado por uma cultura ocidental pela qual apreende a morte como fim, ruptura, fracasso, vergonha e 4189 Trabalho 499 14 ocultação, ao assistir a mãe que perdeu o filho, manifesta também sentimentos de culpa, vergonha, angústia, vazio e tristeza. Para Popim e Barbieri (1990), o enfermeiro por estar em contato maior com a mãe deveria ser um agente facilitador das expressões maternas, respeitando os momentos de discurso e de silêncio, permitindo o choro, entendendo-o como forma de extravasar a dor. Mas as autoras também colocam que esta função é difícil para o enfermeiro que tem uma formação tradicionalmente rotineira e normativa. O enfermeiro, ao assistir à uma mãe que perdeu o bebê entra em conflito com a sua profissão e sua cultura e é capaz de sofrer tanto diante desta situação, que não consegue prestar um cuidado adequado, um conforto naquele momento. A maioria das vezes, ele reconhece a necessidade de cuidado, mas é limitado diante do seu sentimento conflitivo e doloroso, comumente se fechando ao dialogo com a mãe que perdeu o bebê. Dificuldade de diálogo com a mãe Esta situação evidenciada, não se restringe apenas ao diálogo com o significado semântico da palavra, mas a toda assistência de enfermagem de estar próximo, de ouvir, de informar e educar. É sabido que o silêncio pode ser necessário e até terapêutico, mas não deve ser soberano. Segundo LUZ et.al. (1989), a falta de comunicação pode chegar até ao ponto de não haver esclarecimentos quanto ao que está ocorrendo com a mãe e com o bebê. Existe uma dificuldade em verbalizar para a mãe a morte do seu filho. Para o autor, esta dificuldade fica mais evidente quando o óbito do bebê ocorre durante o trabalho de parto. Neste momento o enfermeiro e a equipe são surpreendidos pela eventualidade e emerge uma dificuldade de comunicação entre as partes. Para Haddad (2006), este tipo de morte em bebês assusta, pelo fato que uma morte inesperada alerta a todos que estão à volta que existe um fim, que a humanidade é finita e que pode acontecer a qualquer momento. Daí, o silêncio. Luz et.al. (1989) também observaram que as pessoas “fogem” por não saberem o que dizer, até por medo de magoar a mãe. Corroborando com eles, Vieira, Souza e Sena (2006), relatam que diante da morte, o imperativo é o silêncio. A grande cena da morte foi transformada em um ato frio, onde não se tem o direito de emocionar e tão pouco falar sobre o assunto. Muito desta dificuldade em dialogar com a mãe, vem da cultura onipotente do médico, que ao se deparar com a perda do feto, estampa toda sua surpresa, depressão e frustração, como observa Maldonado (1980). Estes sentimentos geram uma dificuldade de comunicação entre todos os envolvidos. Para, Souza e Almeida (2003) a formação profissional do enfermeiro muito valoriza a manutenção da vida e o controle das emoções e este, muitas vezes, adota uma postura 4190 Trabalho 499 15 impessoal, um ser inautêntico, deixando de agir por si mesmo, mas agindo como a profissão determina. O que não pode ser esquecido é que o diálogo é também uma forma de aliviar o sofrimento da mãe, uma maneira de expressar sua dor, entretanto, não se trata de medidas concretas expressas em tarefas ou verbalizações, mas da co-presenca onde, muitas vezes, mais que o diálogo, o silêncio se faz relevante (BARBIERI, POPIM E BOEMER, 1992). Muitas vezes o silêncio é algo que vai além das palavras. No pesar preparatório para aceitação da morte há pouca ou nenhuma necessidade de palavras. É mais um sentimento que se exprime mutuamente por um toque carinhoso de mão, um afago nos cabelos ou apenas por um silêncio “sentar-se ao seu lado” (KLUBER-ROSS, 1998). Às vezes o enfermeiro não consegue compreender a necessidade deste silêncio e confunde esta assistência silenciosa com a falta do diálogo e a dificuldade de comunicação, o que pode ser entendido até como falha no cuidado. Mas, quando ocorre um óbito fetal ou intra-parto, o silêncio é o som predominante. É uma situação tão constrangedora e sofrida que as palavras simplesmente desaparecem. Dialogar, explicar este tipo de acontecimento é algo que causa muita dor e associado a isto ainda existe o conflito profissional de salvar vidas. Mesmo o enfermeiro sabendo que o diálogo, a verbalização do acontecimento é muito importante para a mãe, ele muitas vezes, adota a assistência do silêncio. Esta falta de diálogo, esta postura do fugir, do silêncio está também muito relacionada com a dificuldade que o enfermeiro tem, como profissional, de aceitar a morte do bebê, que é a outra situação encontrada nesta revisão. Dificuldade, como profissional, de aceitar a morte do bebê A morte de um bebê é uma situação praticamente inadmissível para uma sociedade que investe na qualidade de vida com a expectativa de se morrer na velhice. Assim, Barbieri, Popim e Boemer (1992) perceberam que o enfermeiro convive de maneira muito íntima com a situação de onipotência e de impotência ao lidar com a situação de morte, o que muitas vezes, leva este profissional a sentimentos de confusão, angústia e dor, quando diante deste fato. Souza e Almeida (2003) relatam que a tristeza e o sofrimento estão relacionados com o fato do ser terminal ser um bebê, pois esse é sempre encarado como perspectiva de vida, alegria, uma contraposição à morte, que implica em tristeza, sofrimento. Haddad (2006) também relata que o enfermeiro sofre pela morte do bebê ao tomar consciência que aquele corpo tão pequeno retrata justamente que o fim chegou mais cedo diante de uma vida inteira preconizada pela cultura de morrer na velhice. 4191 Trabalho 499 16 Duarte e Turato (2009) relatam que a morte de um bebê antes de seu nascimento costuma representar certa impossibilidade de transcendência de expectativas naturais humanas, além de interromper as esperas existenciais depositadas em um projeto particular pertencente à vida da maternidade. O enfermeiro como ser-com-outros ao atuar junto à parturiente espera junto com a mãe a chegada de um bebê, assim a morte deste bebê reveste-se em frustração, gera sentimento de perda, perda de um sonho, de uma expectativa de vida (SOUZA e ALMEIDA, 2003). Araújo e Vieira (2004) observaram que o enfermeiro muitas vezes, não possui a concepção de que, desde que um ser nasce ele é um ser-para-a-morte, ou seja, suficientemente velho para morrer. Souza e Almeida (2003) reforçam que assim que o homem começa a viver tem idade suficiente para morrer. Vieira, Souza e Sena (2006) também dizem que o enfermeiro tem a visão de que a vida é separada da morte, com isso, há o esquecimento que a partir do momento em que se nasce já se está pronto para morrer, sendo que a vida e morte chegam juntas ao mundo. Foi observado também por Souza e Almeida (2003), que o enfermeiro convive com a morte, mas não a aceita, e que muitas vezes precisa de algo para camuflá-la como por exemplo uma malformação. A morte de um bebê malformado aparece para o enfermeiro como um alívio, eximindo-o de toda culpa e conflito interior. Para Oba, Tavares e Oliveira (2002), o enfermeiro vivencia a morte fetal de diversas formas: algo terrível, conflito sobre a finalidade de sua profissão, procura alguma falha no procedimento realizado que a justifique e nesse momento vivencia sentimentos de insegurança, incapacidade, constrangimento, culpa, angústia, sofrimento e dor. Oba, Tavares e Oliveira (2002) também falam que a morte não afeta os enfermeiros do mesmo modo. A maneira como reagem varia, em geral, de acordo com a idade, a circunstância que ocorreu essa morte e o grau de envolvimento com o paciente. Já para Araujo e Vieira (2004) o enfermeiro às vezes tem a postura de questionar o porque da morte do bebê, provavelmente devido à recusa em aceitar essa realidade. A morte é um acontecimento inerente à vida, mas de pouca aceitação de sua finitude pelos seres humanos. Aceitar a morte já é algo tão doloroso, que quando ocorre com um bebê, esta aceitação se torna mais complicada e angustiante para o enfermeiro que sofre pela perda da mãe e pela vida do bebê ceifada ainda tão cedo. 4192 Trabalho 499 17 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os profissionais que trabalham no hospital, pela sua qualidade de ser humano e também pela formação científica em manter e/ou salvar vidas, tentam a todo o custo evitar que a morte aconteça. Ao realizar este cuidado com aquele que está hospitalizado, quando acontece dele morrer, mesmo tendo consciência que a morte é inerente, os profissionais vivenciam situações de fracasso e angústia. Quando a morte chega para bebês que não tiveram tempo de experenciar a vida extra-uterina, o sentimento de dor, frustração, impotência são desencadeados com muito mais intensidade e domina todo um ambiente de bloco obstétrico e/ou maternidade. Locais estes em que se espera que sempre reine a alegria por mais uma vida ao mundo. Assim, o enfermeiro ao se deparar com uma mulher que perdeu o bebê, sente dificuldade em assistir a mãe que sofre com a perda. Esta dificuldade está relacionada à maioria das vezes, ao caráter conservador de sua formação acadêmica, que não o prepara para a finitude humana, seja ela em qualquer idade. Que não o prepara para entender a morte e com isso poder facilitar esta relação de cuidado que está fragilizada, tanto pela dor da perda materna como pela dor da perda de um paciente. Neste ambiente de sofrimento o enfermeiro tem também dificuldade de dialogar com a mãe. Esta dificuldade se torna evidente quando o enfermeiro, enquanto ser humano, não aceita a sua própria morte e nem a do outro, principalmente quando esta morte é de um bebê. Esta dificuldade encontrada pelo enfermeiro pode também ser relacionada a falhas na sua formação científica, que não discutiu a morte, que não discutiu a finitude humana e que conseqüentemente deixa a desejar a qualidade da sua assistência, deixando de oferecer cuidados essenciais da enfermagem como apoio e conforto. Além de existir lacunas na assistência de enfermagem para a mãe que perdeu o bebê, o enfermeiro tem dificuldade, como profissional, de aceitar a morte do bebê. Esta é ainda mais complicada, porque o enfermeiro esquece que todo o ser é para a morte. Que ao vivenciar a morte de um bebê ele sofre por tudo aquilo que o bebê deixou de viver. Neste momento fica evidente que o enfermeiro não aceita a morte. O enfermeiro sente-se inseguro e angustiado diante da morte do bebê e da mãe que o perdeu porque nega a morte, porque não a discute, não tenta conhecê-la e com isso não encontra meios para lidar com ela. Portanto, o enfermeiro deveria estudar um pouco mais sobre a morte e o processo de morrer, no sentido de buscar autoconhecimento e conseqüentemente melhorar a maneira e a qualidade de assistir à mulher que perdeu o bebê, além de aceitar a morte, seja ela em qualquer idade ou circunstância. Além disto, as escolas de enfermagem, como centros de formação profissional, 4193 Trabalho 499 18 deveriam discutir mais sobre as questões da morte; bem como os hospitais e maternidades oferecerem cursos de reciclagem sobre este assunto. Para realizar esta revisão, houve dificuldade em encontrar publicações de enfermagem sobre este assunto, assim, convido o profissional enfermeiro, que estude e publique sobre a morte, já que a mesma é uma presença constante no nosso viver. 4194 Trabalho 499 19 REFERÊNCIAS ARAÚJO, Paula Vanessa Rodrigues de; VIEIRA, Maria Jésia. A questão da morte e do morrer. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, 57(3):361-3, mai/jun.; 2004. 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