OS SABERES DOCENTES NO ENSINO DE ARTES VISUAIS:
UMA EXPERIÊNCIA COM DOCENTES DO ENSINO MÉDIO
Márcia Gerhardt1
Simone Marostega2
Ayrton Dutra Corrêa3
Ana Luiza Ruschel Nunes4
Resumo:
O presente texto aborda os diferentes saberes e a importância desses para a profissão docente.
Estudos feitos por diversos autores, apontam um aumento considerável das pesquisas que
tratam a respeito da formação e dos saberes docentes. Hoje, como educadores, vimos o quanto
é importante o conjunto, o todo, não podemos separar vida/trajetória pessoal da vida/trajetória
profissional. Este artigo propõe refletir sobre os saberes para a docência em Artes Visuais, no
enfoque do Ensino Médio, analisando os caminhos percorridos para ensinar, espaços de
atuação profissional, bem como a percepção da profissão docente e do papel como professor
de arte. Visto que a retomada da identidade profissional apresenta-se como uma situação
reflexiva que compreende um novo olhar sobre a formação do sujeito/professor formador.
Palavras-chave: Saberes docentes. Ensino de Artes Visuais. Ensino Médio.
Notas Introdutórias
Diante da velocidade com que a informação se desloca, diante de um mundo em
constante mudança, o papel do professor vem mudando, na tarefa de educar, de ensinar, de
conduzir a aprendizagem e na sua própria formação que se tornou permanentemente
necessária, considerando nessas a importância dos seus diversos saberes.
1
UFSM-Licenciada e Bacharel em Artes Visuais. Mestre em Educação pela UFSM, RS. Aluna do curso de
Especialização em Gestão Educacional. [email protected]
2
UFSM-Professora do Ensino de Arte. Especialista em Psicopedagogia pela UNIFRA, RS. Mestre em Educação
pela UFSM, RS. [email protected]
3
Professor PhD em Arte-Educação pela ECA na Universidade de SP. Professor de Ensino de Artes Visuais no
CAL da UFSM. Docente do PPGE /UFSM, Linha de Pesquisa: Educação e Arte. [email protected]
4
Professora de Ensino de Artes Visuais – Doutora Orientadora do PPGE, Linha de Pesquisa: Educação e Arte –
CE/UFSM. Coordenador do Grupo GEPEA/PPGE-CE. [email protected]
2
Poderíamos dizer que o professor se tornou um aprendiz permanente, um construtor de
sentidos e saberes, um cooperador, um organizador da aprendizagem, resgatando na sua vida,
pessoal e profissional, alternativas para enriquecimento das suas aulas. Se falarmos do
professor de adultos e do professor de cursos a distância, esses papéis são ainda mais
relevantes. Daí a importância do educador conhecer a si mesmo para desenvolver um trabalho
mais rico com seus alunos, demonstrando segurança na sua prática pedagógica e na
construção do conhecimento.
Atualmente vivemos um período em que é cada vez maior a utilização contemporânea
de abordagens biográficas a respeito de docentes. Isso pode ser interpretado como fruto da
insatisfação das ciências sociais em relação aos tipos de saberes e da necessidade de
renovação dos modos de conhecimento científico.
Portanto há várias maneiras de se estruturar o ciclo de vida de um docente. A carreira
é uma perspectiva clássica para tal abordagem, pois sabemos que ela é um processo e não uma
série de acontecimentos. Nesse processo não se pode deixar de citar os diferentes saberes do
docente, saberes construídos todos os dias e em diversos lugares.
O saber docente é heterogêneo, é um saber formado de diversos saberes que são
provenientes das instituições de formação, da formação profissional, dos currículos, das
práticas pedagógicas e das práticas cotidianas (Tardif, 2002).
Freire (1996) organiza os saberes necessários para a prática docente de educadores
críticos, progressistas, quando conclui que; não há docência sem discência; ensinar não é
transferir conhecimento; e ensinar é uma especificidade humana.
No ensino de Arte o conhecimento adquirido e estabelecido constantemente para
desdobrar e ampliar o conhecimento e o saber criando relações entre ações do dia-a-dia e
pensamento, é de fundamental importância para a transformação da realidade no cotidiano. O
aluno e o professor desenvolvem juntos possibilidades de ver, ouvir, interpretar, e julgar as
qualidades dos objetos e das manifestações culturais e artísticas, compreendendo, então, os
elementos e as relações estabelecidas.
Construímos o conhecimento no nosso cotidiano, isso nos leva a crer que todo ser
humano constrói o conhecimento por meio da utilização dos conteúdos sócio-culturais do seu
meio. Este tipo de aprendizagem segue normas gerais em que tempo e espaço determinam as
formas e qualidades da aprendizagem. A partir disso, aprender é conseguir utilizar um
conhecimento em outros contextos, para a solução de problemas, através de analogias e
aplicações diretas.
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Portanto é de fundamental importância que a mente humana não fique limitada a
produzir fatos ou impressões vividas, mas que crie novas imagens, novas ações, que cumpra
com sua função criadora. Sendo assim o ser humano tornar-se-á um indivíduo criador, capaz
de reelaborar elementos das experiências do passado com as do presente e futuro.
As relações do docente com seus saberes estarão, portanto, em constantes
transformações, onde o mesmo buscará meios de fazer com que os alunos se interessem por
esses saberes, não de maneira restrita em si mesmo, mas como forma de compreender o
mundo e agir sobre ele. Assim, cada um vai construindo sua identidade que passa por um
processo complexo, graças ao qual cada um irá se apropriar do sentido da sua história pessoal
e profissional, pois a identidade não é algo adquirido, é um lugar de lutas e conflitos, um
espaço de construção de maneira de ser e de estar na profissão.
Quanto aos saberes docentes
O ato ou o ofício de ensinar acompanhou a evolução do homem e das sociedades, este
com o intuito de perpetuar o conhecimento e dar continuidade ao mesmo. Portanto, o ensinar
tornou-se sinônimo de indicar, mostrar um caminho, dar possibilidades para o outro conhecer,
apreender, saber.
Nos últimos tempos muitas discussões foram feitas na área educacional, o
ensinar/aprender, bem como seus atores, tem exigido uma profunda reflexão, principalmente a
respeito da formação dos professores e da profissão docente. Apoiados em inúmeras
pesquisas sobre a profissão docente, vários autores afirmam que o ato de ensinar é formado
por um conjunto de conhecimentos, competências e habilidades que servem de alicerce à
prática docente, sendo estes os saberes da ação pedagógica.
O saber, como nos coloca Tardif (2002) possui um sentido amplo que engloba
conhecimentos e atitudes dos docentes como fonte primária de seu saber ensinar e de sua
competência, são também saberes plurais, compósitos e heterogêneos, por manifestarem tais
características no próprio exercício de trabalho.
O trabalho dos professores pode ser considerado como um espaço prático específico
de produção, transformação e de mobilização dos saberes, teorias e o saber fazer específico ao
ofício de professor. Neste caso o professor é um sujeito do conhecimento, que desenvolve e
possui teorias e saberes da própria ação que são originados na relação entre a sua
subjetividade e a realidade social. É neste embate, entre sociedade e sujeito, que o professor
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se insere e constrói suas concepções e saberes, desenvolvendo suas práticas e estratégias de
ação.
O conhecimento desses saberes da ação pedagógica, desses elementos do saber
profissional docente é fundamental e pode permitir que os professores exerçam o seu ofício
com muito mais competência, possibilitando ao professor ensinar melhor.
Como o docente não constrói seu saber sozinho, logo seu desenvolvimento pessoal e
seus caminhos percorridos não são isolados, neste âmbito Isaia (2001, p.21) cita que:
o caminho do desenvolvimento pessoal, contudo, não pode ser visto
apenas em termos individuais, mas sim grupais, pois, no seu percurso,
cada sujeito interage com todos aqueles que com ele compartilham os
mesmos parâmetros geracionais, constituindo uma geração.
O reconhecer-se como professor, como profissional docente, conhece-se a si mesmo
(Gauthier,1998), o perceber possibilidades e limites dentro do “repertório de conhecimentos”
que o formam, faz com que o professor reconheça os seus saberes, as suas habilidades e
atitudes que mobiliza na ação pedagógica de acordo com as exigências de sua situação
concreta de ensino; o gesto, a palavra, a atitude, antes e após o ato pedagógico, a sua
capacidade de deliberar, julgar e decidir frente a situação apresentada.
Questiona-se do que é preciso saber para ensinar e o que deveria saber todo aquele que
planeja exercer esse ofício, pois conforme Gauthier (1998) mesmo que o ensino já venha
sendo realizado há séculos, é muito difícil definir os saberes envolvidos no exercício desse
ofício, tamanha é a sua ignorância em relação a si mesmo. Desse modo o autor retoma certas
“idéias preconcebidas” sobre o ensino, tais como: basta conhecer o conteúdo, ter talento, bom
senso, intuição, experiência, cultura. Tanto as idéias preconcebidas, que se referem a um
ofício sem saberes pedagógicos específicos, como a saberes que formalizam o ensino, que
provocam o esvaziamento do contexto concreto, prejudicam o processo de profissionalização
do ensino, impedindo o desenvolvimento de um saber desse ofício sobre si mesmo. Gauthier
(1998, p.27) nos coloca que “ (...) fugindo de um mal para cair num outro, tivéssemos passado
de um ofício sem saberes a saberes sem um ofício (...)”. Idéias que são frutos de teorias e
concepções construídas pela história da sociedade e da educação.
Hoje, a educação e a escola contemporânea começa a reconhecer que existem outros
saberes além dos disciplinares e os curriculares, e que estes são parte fundamental do processo
ensinar/aprender, fazendo com que tanto o professor como a escola, permaneçam num
constante aprendizado, pois os saberes estão ligados às condições concretas próprias ao
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trabalho numa escola que levam os professores a produzir soluções para os problemas. Para
Gauthier (1998, p.343) “os saberes nos quais os professores se apóiam dependem diretamente
das condições sociais e históricas nas quais eles exercem sua profissão”. Saberes que servem
de suporte um ao outro, enriquecendo a prática do professor ao mesmo tempo qualificando-o
como profissional.
É necessário especificar que ensino não depende somente do conhecimento
especializado do profissional, aqui em questão o docente, e sim está de encontro com a sua
personalidade, seus talentos diversos, o entusiasmo, a vivacidade, o amor aos alunos, ou seja,
aos conhecimentos sociais que são compartilhados com os discentes.
De acordo (Tardif, 2002. p.61):
os saberes que servem de base para o ensino, tais como são vistos
pelos professores, não se limitam a conteúdos bem circunscritos que
dependem de um conhecimento especializado. Eles abrangem uma
grande diversidade de objetos, de questões, de problemas que estão
relacionados com seu trabalho. Além disso, não correspondem, ou
pelo menos muito pouco, aos conhecimentos teóricos obtidos na
universidade e produzidos pela pesquisa na área de Educação: para os
professores de profissão, a experiência de trabalho parece ser a fonte
privilegiada de seu saber-ensinar.
Os saberes profissionais do professor trazem à tona conhecimentos e manifestações do
saber-fazer e do saber-ser. Considerando o fator cognitivo do professor para sua prática e seus
saberes, podemos então, primar à originalidade da afirmação de Jennifer Nias (1991) (In:
Nóvoa, 1992, p.22), quando diz: “O professor é a pessoa; e uma parte importante da pessoa é
o professor”.
O reconhecimento dos seus saberes ocorre quando o profissional docente olha para a
sua prática, para a sua trajetória como professor e reconhece os saberes que o constituíram.
Esse é o profissional reflexivo (SCHÖN, 2000), reflexivo de sua ação, reflexivo na sua ação,
um profissional conhecedor de si mesmo, das suas capacidades e também dos seus limites, um
profissional comprometido com a docência e principalmente com a história que o fez
professor.
O estudo de trajetória de um professor envolve suas diferentes caminhadas e decisões
tomadas durante sua vida como professor, não deixando de entendê-lo e compreendê-lo como
pessoa, como ser humano. Nessa perspectiva a respeito do desenrolar da vida pessoal e
profissional dos professores, Cavaco (1991) nos apresenta “linhas de força” ao longo do
percurso, referindo-se aos docentes do Ensino Médio. Dentre as linhas pode-se colocar as
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expectativas pessoais e familiares relacionadas a oportunidades e a condições institucionais; a
tensão e sentidos que acompanham as primeiras experiências profissionais, contribuindo então
para a elaboração da identidade docente e o progressivo amadurecimento, envolvendo a
relação com os alunos, com os colegas, com o conhecimento da própria profissão;
dificuldades relativas à articulação com a dimensão familiar e profissional.
Saberes e práticas de Artes Visuais
Desde a época em que habitava as cavernas, o homem vem manipulando cores e
formas com a intenção de dar sentido a algo, de comunicar-se com os outros.
Para nos apropriarmos de uma linguagem, entendermos, interpretarmos e darmos
sentido a ela é preciso que aprendamos a utilizar seus códigos. Do mesmo modo que existe na
escola um espaço destinado à alfabetização na linguagem das palavras, a linguagem da arte
também possui seus próprios códigos, e o professor através de um trabalho formativo e
informativo tem a possibilidade de contribuir, através do conhecimento desses, no fazer e
pensar a disciplina. Possibilitando assim, que à arte seja atribuída a devida importância no
contexto escolar, principalmente porque é importante fora dela.
Tratar a arte como conhecimento torna-se condição essencial e indispensável para um
verdadeiro ensino. Mas para ensinar é preciso conhecer, e principalmente que o professor se
reconheça como professor de arte, para então, poder acontecer essa mediação entre o
conhecimento e o aluno.
A retomada da identidade profissional (Coutinho, 2002) tem provocado reflexões
sobre a prática pedagógica em busca de um maior entendimento das ações educativas. Buscase uma autonomia do professor que pressupõe clareza e responsabilidade nas decisões e
escolhas de como e o que ensinar.
Professores frente a milhões de jovens e diante de um enorme contingente de
informações deparam-se com a tarefa de dar sentido a elas através de seus saberes, sendo que
o conhecimento artístico torna-se parte integrante e essencialmente importante ao aluno do
nível médio.
Conforme PCN (1999, p.171):
Ao compor a área Linguagens, Códigos e suas Tecnologias na escola
média, a Arte é considerada particularmente pelos aspectos estéticos e
comunicacionais. Por se um conhecimento humano articulado no
âmbito sensível-cognitivo, por meio da arte manifestamos
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significados, sensibilidades, modos de criação e comunicação sobre o
mundo da natureza e da cultura.
Autonomia
de
pensamento
e
ação,
flexibilidade,
capacidade
de
integrar
conhecimentos, sensibilidade, criação, comunicação, fazem parte dos conhecimentos
articulados no pensar e fazer arte. Responsabilidade que toma uma dimensão maior ao
professor do Ensino de Arte que trabalha com a linguagem visual. Pois além desse conjunto
de conhecimentos supervalorizados na sociedade atual seja em relação ao mundo do trabalho
e à prática social, vivemos num tempo de visualidades, onde cada vez mais faz-se necessária a
presença do professor-mediador, pois diante de imagens tão efêmeras ao mesmo tempo tão
consolidadoras, de idéias, de pensamentos, de comportamentos estão os alunos que as
assimilam, que se formam e que se informam por meio delas. Exigindo, portanto um novo
olhar em relação ao ser profissional docente hoje.
Considerações finais
Verifica-se em pesquisa realizada pelas autoras do presente artigo, que trata dos
saberes para a docência em Artes Visuais, que os saberes não estão sendo percebidos na
íntegra pelos docentes, sendo que esses saberes, por não serem percebidos, não são utilizados
na sua totalidade, de maneira que possam contribuir na ação educativa.
Pensar o ensino de arte é também pensar o seu processo, mais do que a preocupação
com determinadas propostas ou métodos, o professor deve construir uma atitude pedagógica
apoiada em fundamentos teóricos e práticos da educação e da arte. Meios que possibilitem
pensar o aluno e o processo de ensino-aprendizagem de formas diversas.
Traçar algumas diretrizes como fios condutores para o desenvolvimento dentro da
especificidade do aprendizado em arte, ter uma dinâmica própria que poderá ser transformada
e adequada às diferentes realidades de cada situação, são ações metodológicas, atitudes
pedagógicas, que envolvem a investigação do professor que é comprometido com seu grupo e
ao que se propõem ensinar.
Instigar o educando com idéias, nutri-lo com imagens, alimentá-lo com a ampliação de
referenciais e diálogos que problematizam, desafiá-lo a ousadia de buscar novas perspectivas,
novos modos de ver, de conhecer outros materiais, outras épocas, outras culturas, criando
situações de aprendizagem através de seqüências articuladas, continuamente avaliadas e
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replanejadas, são meios que podem possibilitar e transformar as “atividades” das aulas de
artes em ensinar e aprender arte, cabendo ao professor a tarefa de mediar essas ações.
Segundo Tardif (2002, p.39) “o professor ideal é alguém que deve conhecer sua
matéria, sua disciplina e seu programa, além de possuir certos conhecimentos relativos às
ciências da educação e à pedagogia e desenvolver um saber prático baseado em sua
experiência com os alunos”.
São saberes plurais e práticas que são articuladas e também construídas à medida que
o professor se defronta com situações reais de ensino-aprendizagem. Situações analisadas e
percebidas através de seu percurso, compreendidas através de seus conceitos e contexto, e
visualizadas no seu processo de ensinar e também aprender como professor.
Para que esses saberes façam parte de reais situações de ensino aprendizagem, antes de
qualquer coisa precisamos pensar um ensino de arte que ofereça espaço para discussão das
histórias dos seus atores e autores, resituando-os como sujeito escolar para a construção do
conhecimento e sentido da própria escolaridade na atual sociedade.
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