CEFET/MG – CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA Programa de Mestrado em Educação Tecnológica Leonard de Araújo Carvalho COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Belo Horizonte 2014 Leonard de Araújo Carvalho COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Educação Tecnológica do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Educação Tecnológica. Orientadora: Profa. Dra. Adriana Maria Tonini Belo Horizonte 2014 FICHA CATALOGRÁFICA Leonard de Araújo Carvalho COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Educação Tecnológica do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação Tecnológica. ________________________________________________ Profa. Dra. Adriana Maria Tonini (Orientadora) – CEFET-MG ________________________________________________ Prof. Dr. Adriano de Paula e Silva – UFMG ________________________________________________ Prof. Dr. Antônio de Pádua Nunes Tomasi – CEFET-MG ________________________________________________ Prof. Dr. João Bosco Laudares – PUC Minas Belo Horizonte, 15 de maio de 2014. À minha família, em especial, à minha mãe, pelo esforço contínuo que possibilitou minha caminhada na vida profissional e acadêmica. À minha esposa, Kelly, pelo amor e apoio incondicionais. AGRADECIMENTOS À minha orientadora, professora Adriana Tonini, pela oportunidade, orientação e conhecimentos valorosos. Ao FORQUAP e seus membros, pela valorosa ajuda, contribuição e possibilidade de análise dos dados de pesquisa. Ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), que possibilitou a realização desta dissertação. A todos os professores e colegas de mestrado que contribuíram direta ou indiretamente para realização desta dissertação. Veni, vidi, vici Julius Caesar, 47 a. C. RESUMO Desde o início do ensino formal de Engenharia, com fins militares, muitas alterações ocorreram na forma e objetivo de atuação do engenheiro. Da Revolução Industrial ao Toytismo e da Qualificação à Competência, o perfil do engenheiro e a engenharia influenciaram e foram influenciados pelas alterações ocorridas nos modelos de produção e na sociedade. Do conhecimento enciclopédico ao ensino focado no desenvolvimento de competências e habilidades, muitas mudanças se deram também nas Instituições de Ensino Superior (IES) e na regulamentação legal para a formação do engenheiro. Nos dias atuais, as IES devem atender às Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia, documento que define o perfil a ser alcançado na formação do engenheiro, incluindo as competências e habilidades que o profissional deve possuir ao se graduar. De tal definição, surge um questionamento: as competências que o profissional efetivamente utiliza na prática são aquelas definidas na legislação vigente? A presente dissertação objetiva explorar tal questionamento, de forma qualitativa, a fim de verificar quais são as competências julgadas necessárias na atuação prática, na visão de 17 (dezessete) engenheiros, de 6 (seis) empresas com sede ou filial em Minas Gerais. Visando tratar desse tema, foram conduzidas entrevistas semiestruturadas com esses profissionais. De forma geral, observa-se que as Diretrizes Curriculares elencam competências que abrangem grande parte da necessidade dos profissionais, porém, existem pontos que podem ser reforçados, de modo a garantir uma formação mais completa dos egressos dos cursos de Engenharia. Palavras-chave: competência, engenharia, diretrizes curriculares. ABSTRACT Since the beginning of formal engineering education, for military purposes, many changes occurred in the shape and purpose of the performance engineer. Industrial Revolution to the Toyotism and from Qualification to the Competence profile of the engineer was influenced, as well as engineering influenced the changes in the patterns of production and society. Encyclopedic knowledge of teaching focused on developing competences and abilities many changes occurred in the Educational Institutions and legal framework for the training of the engineer regulations. In today's Education Institutions must meet the National Curriculum Guidelines for Undergraduate Engineering, a document that defines the profile to be achieved in the training of engineers, including the competences and abilities that professionals must have to graduate. Definition of such a dispute arises, the professional competences that effectively uses in practice are those defined by law. This dissertation aims to explore this question, a qualitative manner, in order to ascertain what competences deemed necessary in the performance practice, in view of 17 (seventeen) engineers from 6 (six) companies with headquarters or branch in Minas Gerais. Order to obtain such answers semi-structured interviews were conducted with these professionals on the topic. Generally it is observed that the Curriculum Guidelines define competences that cover much of the need of the professionals, but there are points that can be strengthened to ensure a more complete training of graduates of engineering courses. Keywords: competence, engineering, curriculum guidelines. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Modelo esquemático da teoria do desempenho ................................................... 41 Figura 2: Interação das dimensões que constituem a competência, segundo Le Boterf (2006) .................................................................................... 45 Figura 3: Linha do tempo e os principais marcos históricos da Engenharia no Brasil ....... 66 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: Faixa etária dos engenheiros entrevistados ......................................................... 72 Gráfico 2: Formação, por especialidade, dos engenheiros entrevistados ............................. 73 LISTA DE QUADROS Quadro 1: Resumo dos principais referenciais teóricos, por capítulo .................................. 19 Quadro 2: Estrutura geral da dissertação .............................................................................. 24 Quadro 3: Comparação entre as Resoluções CFE nº 48/76 e CNE/CES nº 11/2002. .......... 58 Quadro 4: Comparação entre as competências definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Engenharia (2002) e aquelas apontadas por estudos como importantes para a atuação do engenheiro contemporâneo. .................................................... 62 Quadro 5: Comparativo entre as competências definidas pela ABET (2000) e aquelas definidas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Engenharia (2002) ........................................................................ 64 Quadro 6: Relação de entrevistados ..................................................................................... 71 Quadro 7: Atributos identificados como competências pelos entrevistados divididos por categorização ....................................................................................................... 78 Quadro 8: Atributos identificados como competências pelos entrevistados ........................ 79 Quadro 9: Competências definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais e aquelas elencadas pelos engenheiros entrevistados .......................................... 90 LISTA DE SIGLAS ABENGE Associação Brasileira de Ensino de Engenharia ABET Accreditation Board for Engineering and Technology A CAP Accord sur la Conduite de l’Activité Professionelle ASEE American Society for Engineering Education CEFET-MG Centro Federal de Educação de Tecnológica de Minas Gerais CES Câmara de Ensino Superior CFE Conselho Federal de Educação CNE Conselho Nacional de Educação COBENGE Congresso Brasileiro de Engenharia CONFEA Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia CP Conselho Pleno DCN Diretrizes Curriculares Nacionais EHEA European Higher Education Area FORQUAP Grupo de Pesquisa em Formação e Qualificação Profissional IEEE Institute of Electrical and Electronics Engineers IES Instituições de Ensino Superior LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação MEC Ministério da Educação PAC Programa de Aceleração do Crescimento POLI Escola Politécnica da USP OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo USAID United States Agency for International Development UnB Universidade de Brasília USP Universidade de São Paulo URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas SUMÁRIO 1 Introdução ........................................................................................................................................ 15 1.1 Apresentação do problema....................................................................................................... 19 1.2 Justificativa .............................................................................................................................. 21 1.3 Objetivos do trabalho ............................................................................................................... 23 2 A Engenharia e o contexto histórico das formas de produção ......................................................... 25 2.1 Da Revolução Industrial à acumulação flexível ...................................................................... 25 2.2 Modelo de competência – a vertente francesa ......................................................................... 35 2.3 Modelo de competência – a vertente americana ...................................................................... 40 3 Competência .................................................................................................................................... 44 3.1 Qualificação e competência ..................................................................................................... 49 4 O ensino de Engenharia no Brasil.................................................................................................... 52 4.1 Um novo perfil em formação ................................................................................................... 56 5 Metodologia ..................................................................................................................................... 67 5.1 Tipo de pesquisa e abordagem metodológica .......................................................................... 67 5.2 Delimitação do universo da pesquisa (sujeitos da pesquisa) ................................................... 68 5.3 Coleta de dados ........................................................................................................................ 69 5.4 Análise dos dados .................................................................................................................... 69 6 As Competências Requeridas do Engenheiro Contemporâneo........................................................ 71 6.1 A forma de ingresso do engenheiro nas empresas ................................................................... 73 6.2 As características de gestão e organização do trabalho nas empresas ..................................... 75 6.3 As competências identificadas pelos engenheiros como necessárias à sua atuação ................ 77 7 Considerações finais ........................................................................................................................ 94 8 Referências ...................................................................................................................................... 98 Anexo I – Ficha de Dados dos Entrevistados ....................................................................................... 105 Anexo II – Questionário da Entrevista Semiestrturada ....................................................................... 106 Leonard de Araújo Carvalho 15 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 1 Introdução A crise mundial do petróleo, ocorrida na década de 1970, desencadeou uma forte recessão, que afetou profundamente o sistema capitalista, iniciando um processo de significativas mudanças para a engenharia, para todo o sistema de produção e para a sociedade em geral. Um das consequências da referida crise foi o abalo da hegemonia do sistema de produção taylorista/fordista, que tinha como características a produção em massa, a linha de montagem, o trabalho prescrito e a qualificação. Tal situação possibilitou o surgimento e a expansão de outras formas de produção, propiciando, ainda, uma discussão sobre a forma de trabalho adotada até então e suas possíveis alternativas. Exemplo de tal possibilidade foi o crescimento do sistema japonês de produção, o toyotismo, como alternativa ao fordismo/taylorismo, e que possuía características que permitiam produzir de forma mais flexível, em termos de quantidade e variedade de produtos. Dá-se início ao que Harvey (1993) denomina de “sistemas de acumulação flexível”. A referida crise também propiciou ambiente favorável para o desenvolvimento de estudos, principalmente na França sobre o modelo de competência, que seria, incialmente, alternativa a noção de qualificação e posteriormente considerada complementar. No Brasil, a crise desencadeada pela queda na oferta do petróleo também teve consequências negativas, sobretudo na engenharia, que se desdobrou inclusive na década de 1980, conhecida como a “década perdida”, resultando em um período de estagnação para diversas áreas, além da economia recessiva e do baixo índice de investimentos; foram geradas, consequentemente, poucas oportunidades para os engenheiros. Nos anos seguintes, o estudo no campo de competências continuou a crescer, não somente no âmbito empresarial, mas também no setor educacional, sendo que pesquisas realizadas na década de 1990 já indicavam que a formação de profissionais apenas com grande conhecimento técnico já não era suficiente para a nova realidade que se instalava. A nova conjuntura fez com que as discussões também refletissem na forma de ensino das instituições, acarretando questionamentos quanto ao ensino de competências em contraponto ao ensino de caráter tecnicista, vigente até então. O segmento da educação profissional sentiu de maneira mais imediata tal diferenciação, devido à sua relação mais próxima com o mundo do trabalho, estando, inclusive, mais sujeito às pressões do mercado. Leonard de Araújo Carvalho 16 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Segundo Lucena et al. (2008), nos Estados Unidos, estudos sobre alterações no perfil e nas competências necessárias aos engenheiros foram iniciadas no final da década de 1980; na Europa, o processo exigiu mais tempo, em função da tentativa de se estabelecer uma identidade única para a União Europeia. O avanço tecnológico, a globalização, as privatizações ocorridas no Brasil, na década de 1990, afetaram, consequentemente, as características do mercado interno, alteraram a demanda de profissionais, aliadas às transformações na forma de produção e às novas exigências sociais que reforçavam a necessidade de um novo perfil do profissional de engenharia, tornando essa necessidade por mudanças um assunto recorrente no meio acadêmico, no Brasil e no exterior. Observa-se que, no final da década de 90, no Brasil, foram intensas as discussões sobre o perfil desejável para os egressos dos cursos de Engenharia, muito em função de esses cursos serem regidos pela Resolução CFE nº 48/76, que previa uma formação profissional de caráter exclusivamente tecnicista, e que apresentava sinais claros de que precisava ser atualizada para que se pudesse renovar o perfil do engenheiro a ser formado para o século XXI. No Brasil, o MEC publicou, em 1997, o Edital nº 04/97, definindo as orientações gerais e chamando os interessados a participarem da discussão acerca das diretrizes a serem estabelecidas para os cursos de Engenharia, em substituição à Resolução nº 48/76. Contudo, segundo Sousa (2003), o prazo definido pelo MEC foi curto, totalizando apenas cinco meses, para a realização de todo o processo de discussão. Sousa (2003, p.4) destaca que “o processo de discussão só não foi pior porque, por conta própria, as escolas de engenharia, as universidades e instituições como Abenge (...), prolongaram os prazos e encaminharam suas propostas após a data limite estabelecida pelo MEC”. Como resultado dessas discussões, em 2002, são publicadas as novas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia (DCN) – Resolução CNE/CES nº 11, de 11 de março de 2002. Almejava-se, com essa medida, subsidiar a constituição de um novo perfil para o engenheiro formado nas Instituições de Ensino Superior (IES), de modo a atender à demanda atual e futura da sociedade e do mercado de trabalho. Se, por um lado, traçava-se um novo perfil para o engenheiro, por outro, a economia brasileira vinha prosperando, possibilitando o crescimento econômico do país, com reflexos positivos em diversas áreas, resultando em um aumento contínuo das vagas ofertadas na engenharia, em especial, nos últimos cinco anos. O crescimento econômico também se refletiu na retomada dos investimentos governamentais em obras de infraestrutura de grande porte. Nesse sentido, pode-se citar o Leonard de Araújo Carvalho 17 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 28 de janeiro de 2007, pelo governo federal, objetivando aumentar o volume de obras públicas, sendo que, no período de 2007-2010, os valores investidos foram da ordem de 1,4 trilhões de reais.1 Somam-se ao cenário econômico favorável os grandes investimentos em curso para viabilizar a infraestrutura necessária à realização da Copa de 2014, com aplicação de recursos na faixa de 26 bilhões de reais,2 bem como as Olimpíadas de 2016, com investimento previsto superior a 12 bilhões de reais.3 Em consequência do cenário econômico propício, observou-se um grande aumento da demanda por engenheiros no país. Porém, uma expansão tão significativa do setor acaba por chamar a atenção para as oportunidades geradas, sobretudo com a atual recessão europeia, que apresenta índices de desemprego cada vez mais alarmantes, como, por exemplo, os verificados na Grécia e Espanha.4 Diante de um quadro de mobilidade e competitividade muito atraente quanto o atual, é previsível que se questione se os engenheiros brasileiros apresentam as competências requeridas pelo mercado e pela sociedade contemporânea. Esse é um fator relevante para o ingresso, permanência e desenvolvimento no mercado de trabalho, e também se essas competências são aquelas preconizadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia (Resolução CNE/CES nº 11/2002). Destaca-se que os debates e estudos sobre as competências necessárias aos engenheiros sempre estão presentes em artigos e apresentações de congressos e seminários, como o Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia (COBENGE), realizado anualmente pela Associação Brasileira de Ensino de Engenharia (ABENGE). Nos congressos internacionais, como os realizados pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE) e pela American Society for Engineering Education (ASEE), o tema também é 1 Conforme levantamento realizado pelo Tribunal de Contas da União, disponível em: <http://portal2.tcu. gov.br/portal/page/portal/TCU/comunidades/contas/contas_governo/Contas2011/fichas/6_4_PAC.pdf>. Acesso em: 10/01/2013. 2 Segundo balanço divulgado pelo governo federal, disponível em: <http://www.copa2014.gov.br/sites/ default/files/publicas/12272012_balanco_copa_geral.pdf>. O valor não inclui os investimentos privados realizados no país em função da Copa de 2014. Acesso em: 10/01/2013. 3 Conforme planejamento realizado pelo governo federal e estadual, disponível em: <http://www. portaldatransparencia.gov.br/rio2016/matriz/>. Acesso em: 10/01/2013. 4 Conforme dados divulgados pelo EuroStat (Escritório de Estatística Comunitário), em janeiro de 2014, os índices de desemprego na Grécia e Espanha atingiram, respectivamente, 27,8% e 25,8%, os maiores entre os países da Zona do Euro. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/01/taxa-dedesemprego-na-zona-do-euro-fica-em-12-em-dezembro.html>. Acesso em: 18/03/2014. Leonard de Araújo Carvalho 18 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO recorrente, assim como nas organizações ou órgãos responsáveis pelas definições das diretrizes dos cursos de Engenharia nos Estados Unidos e União Europeia. No âmbito do CEFET-MG, o Grupo de Pesquisa em Formação e Qualificação Profissional (FORQUAP) vem realizando estudos frequentes na área da educação técnica e tecnológica sobre a posição e atuação dos técnicos, tecnólogos e engenheiros nas empresas, analisando as competências requeridas e suas atribuições atuais, entre outros fatores. Considerando a gama de dados obtidos pelo FORQUAP nos últimos dois anos, a partir das entrevistas com profissionais em seis grandes empresas que atuam em Minas Gerais, a presente dissertação foi elaborada com a utilização das entrevistas realizadas com os engenheiros da referida base de dados, aproveitando para análise a grande variedade e riqueza das informações disponíveis no FORQUAP. Esta dissertação está dividida em seis capítulos, sendo o primeiro composto por esta introdução, além da apresentação do problema, da justificativa e dos objetivos geral e específicos da pesquisa realizada. O capítulo 2 apresenta um levantamento histórico dos modelos de produção, da Revolução Industrial ao Modelo de Competência, demonstrando a influência recíproca entre esses modelos de produção, a Engenharia e suas formas de ensino, ocorrida ao longo dos séculos. O capítulo 3 faz um aprofundamento no tema das competências, seus conceitos e sua relação com a qualificação. O capítulo 4 apresenta um levantamento histórico do ensino de engenharia no Brasil até a situação atual, com a inclusão do desenvolvimento de competências durante a graduação. O capítulo 5 discorre sobre a metodologia utilizada nesta investigação, destacando os pontos que motivaram as escolhas adotadas para utilização dos sujeitos da pesquisa. O capítulo 6 traz a análise dos dados, enquanto o capítulo 7 apresenta as considerações finais e sugestões de estudos futuros. A seguir, o quadro expõe os principais referenciais teóricos da pesquisa, listados por capítulo. Leonard de Araújo Carvalho 19 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Quadro 1: Resumo dos principais levantamentos bibliográficos, por capítulo Capítulo Levantamento Bibliográfico Introdução Lucena et al. (2008), Nose e Rebelatto (2001), Veraszto et al. (2003), Tonini (2011), Male (2010), Gama e Silveira (2003). Engenharia e o contexto histórico das formas de produção Telles (1994), Zarifian (2012), Chiavenato (2000), Veraszto et al. (2003), Braverman (2011), Rago e Moreira (1985), Moraes Neto (1984), Navarro e Padilha (2007), Ford (1925), Antunes (1995), Manfredi (1998), Harvey (1993), Coriat (1993), Fleury e Fleury (2000, 2001) Bittencourt, Tonini(2009), Tenório e Vieira (2009), Zarifian (2003), Tanguy (1997), Silva, Silva e Souza (2013), Boyatzis (2008), Amatucci (2000), Ennis (2008), Gattai (2013). Competência Isambert-Jamati (1997, 2003), Dadoy (2004), Le Boterf (2006), Zarifian (2012), Ropé e Tanguy (2003), Perrenoud (1999), Fleury e Fleury (2000, 2001), Boyatzis (1982), Fernandes e Fleury (2007), Silva e Santos (2008), Telles (1994), Kawamura (1979), Tonini (2009), Salum (1999), Ferreira (1999), PINTO et al. (2003), Ramos (2006), Laudares e Tomasi (2003), Dubar (1999), Costa (1999), Hirata (1994), Helal e Rocha (2008), Arruda (2000). Metodologia Cervo e Bervian (1983), Mazzotti e Gewandsznajder (1998), Lakatos (2003), Godoy (1995), Minayo (1996), Gil (1999), Triviños (1987), Bardin (1977). Fonte: elaborado pelo autor. 1.1 Apresentação do problema De acordo com Lucena et al. (2008), por mais de dois séculos, “o que” e o “para que” o engenheiro deveria aprender dependia do país ou região em que fosse atuar, contudo, nos dias de hoje, a necessidade de conhecimento e a forma de atuação tendem a ser mais homogêneas, em razão da existência de uma maior mobilidade no exercício profissional, o que de fato não ocorria há algumas décadas. Lucena e seus colaboradores (2008) destacam que as organizações que defendem a educação em Engenharia estão motivadas e se preocupam com a necessidade de as instituições terem um programa de formação condizente com a realidade atual, sobretudo com os níveis de mobilidade e competitividade vigentes no setor. Aliada à mobilidade de atuação, as alterações ocorridas no mercado de trabalho e na sociedade, como um todo, afetam as características necessárias ao engenheiro contemporâneo para a sua adequada atuação profissional e social. Pode-se citar, por exemplo, os esforços Leonard de Araújo Carvalho 20 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO crescentes em se atuar de forma a preservar as condições ambientais, a melhorar e desenvolver processos sustentáveis, com vistas à qualidade de vida da população. Uma das consequências de tais transformações é a tendência de se ter um profissional que conjugue saberes técnicos e saberes não técnicos. Estudos como de Nose e Rebelatto (2001), que realizaram o levantamento do perfil do engenheiro segundo o ponto de vista das empresas, detectaram que competências como ética e iniciativa eram consideradas tão importantes quanto o conhecimento técnico propriamente dito. Segundo Veraszto et al. (2003, p. 5), “novas habilidades e competências (não técnicas) têm sido exigidas tanto pela sociedade como pelo mercado de trabalho, para que um engenheiro possa exercer sua profissão”. Na década de 90, o debate sobre o perfil do engenheiro para o novo milênio se intensificou, o termo “competência” passou a ocupar um papel de destaque nos estudos sobre o perfil do engenheiro contemporâneo e, ainda de acordo com Lucena et al. (2008), na Europa e nos EUA, foram iniciados importantes estudos para definir quais seriam as competências necessárias ao engenheiro, bem como tratar sobre a necessidade de reforma no sistema educacional. No Brasil, seguindo a tendência mundial, também ocorreram discussões acerca do perfil do engenheiro, sendo publicada, em 2002, com o objetivo de possibilitar a formação de um profissional em consonância com as necessidades atuais da sociedade e do mercado de trabalho, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia, que propõem o perfil do engenheiro com ênfase generalista, humanista, crítica e reflexiva, como se pode verificar em seu art. 3º. O Curso de Graduação em Engenharia tem como perfil do formando egresso/profissional o engenheiro, com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacitado a absorver e desenvolver novas tecnologias, estimulando a sua atuação crítica e criativa na identificação e resolução de problemas, considerando seus aspectos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais, com visão ética e humanística, em atendimento às demandas da sociedade. (Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação de Engenharia, Resolução CNE/CES nº 11, de 11 de março de 2002) Tonini (2011, p. 4) explicita os conceitos de formação generalista e crítica, como dado relevante para o ensino da Engenharia, refletindo sobre o papel dos educadores no sentido de: contribuir para a formação crítica e generalista do engenheiro – crítica se ele for capaz de organizar o seu conhecimento de forma estruturada e com prioridades para sua formação; e generalista se, ao buscar o conhecimento, o engenheiro fizer com que sua visão de realidade deixe de estar restrita somente ao acúmulo de teorias, num contexto de produção previamente Leonard de Araújo Carvalho 21 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO estabelecido, passando a constituir uma matriz explicativa para problemas e enigmas que circundam o homem e sua existência. (TONINI, 2011, p. 4) Nesse sentido, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia apontam o novo perfil de formação desejado para corresponder às expectativas do mundo contemporâneo. Segundo Tonini (2011, p. 1), as “Diretrizes Curriculares definem um novo perfil para os egressos dos cursos de Engenharia, com um conjunto de competências e habilidades”. Contudo, atualmente, as mudanças no mercado de trabalho exigem uma gama de competências dos profissionais de Engenharia para sua plena atuação. Nose e Rebelatto (2001, p. 26) afirmam que “as empresas vão moldando o perfil do engenheiro (e de outros profissionais) ao mesmo tempo em que as mudanças vão alterando o seu comportamento e desenvolvimento” diante da velocidade em que as relações sociais, de competitividade e de conhecimentos são modificadas. Com base no cenário atual, nota-se que a atuação do engenheiro, além de estar pautada em sólidos conhecimentos técnicos, deve estar associada a competências ditas não técnicas para que se alcancem os objetivos e anseios da sociedade e do mercado de trabalho. No entanto, a pergunta a ser realizada é se as alterações propostas para o perfil do egresso de Engenharia, a ser alcançado pelas Instituições de Ensino Superior (IES), são compatíveis com aquele necessário à sua prática. Para obter a resposta de tal questionamento foi realizada a pesquisa junto a engenheiros atuantes em diversas empresas com sedes ou filiais em Minas Gerais, de forma a obter a visão desses profissionais em relação às competências mais importantes no seu âmbito de atuação. Com base nessas respostas, buscou-se verificar se as competências definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia no Brasil atendem às necessidades atuais. Destaca-se, ainda, que a compatibilidade entre as definições das Diretrizes Curriculares e aquelas requeridas pelo mundo do trabalho é importante para que o profissional consiga atuar com sucesso em sua área, frente à competição nacional e internacional a que está sujeito. 1.2 Justificativa As alterações nas diretrizes dos cursos superiores, em geral, ocorreram no âmbito mundial. Na Europa, foi assinada, em 1999, a Declaração de Bolonha, tendo como um de seus Leonard de Araújo Carvalho 22 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO objetivos definir a formação a ser alcançada pelos egressos dos cursos superiores, incluindo os de Engenharia. Nos Estados Unidos, a ABET5 (Accreditation Board for Engineering and Technology) definiu, em 2000, novos critérios para a acreditação dos cursos de Engenharia, em função das alterações dos perfis exigidos para a atuação dos engenheiros. Como já mencionado, no Brasil, as Novas Diretrizes para os cursos de Engenharia foram publicadas em 2002. Em comum, nos casos europeu, norte-americano e brasileiro, está a inclusão de competências necessárias à formação do profissional contemporâneo. Destaca-se a importância de tais alterações na busca do atendimento sob dois aspectos: i) propiciar uma formação atual e sólida, que possibilite o ingresso e a atuação no mercado; ii) possibilitar que essa atuação seja realizada de forma ética e responsável, por um profissional emancipado e que tenha condições de entender e agir com responsabilidade social, em conformidade com as necessidades da sociedade. Na visão de Male (2010), a universidade tem o compromisso com a sociedade e com o aluno, no sentido de oferecer um ensino que propicie condições para o profissional ingressar e se manter no mercado de trabalho, e, nesse contexto, é fundamental que sejam desenvolvidas competências, durante a formação universitária, compatíveis com aquelas necessárias para a sua atuação profissional. Destaca-se que isso não significa que o foco da educação profissional seja exclusivamente o atendimento das demandas do mercado de trabalho, reafirmando-se também a necessidade de uma formação generalista, humanística e reflexiva. Shuman et al., em citação de Male (2010), indicam que competências não técnicas e disciplinas relacionadas a áreas das Ciências Humanas, por exemplo, constituem uma lacuna detectada na formação dos engenheiros norte-americanos, há mais de um século. Male (2010, p. 27, tradução nossa) evidencia que a questão já havia sido levantada em pesquisas há muitas décadas, “por exemplo, Grinter (1955) destacou a necessidade de desenvolver melhor a habilidade de comunicação dos graduandos de Engenharia”. Nesse contexto, passa a ser importante identificar e analisar as competências atuais do engenheiro e, a partir dessa análise, verificar se os requisitos legais existentes estão permitindo uma formação que atenda às necessidades postas ao profissional de Engenharia ou se há um indicativo de que devam ser feitas adequações curriculares, a fim de garantir a 5 A ABET é uma entidade não governamental, sem fins lucrativos, e responsável pela acreditação, entre outros, dos cursos de Engenharia norte-americanos. A acreditação nos EUA não é obrigatória, e visa verificar se a Instituição de Ensino atende aos padrões de qualidade definidos para a profissão. Disponível em <http://www.abet.org/accreditation/>. Acesso em 02/01/2014. Leonard de Araújo Carvalho 23 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO qualidade do ensino e o alcance dos objetivos propostos nas Diretrizes Curriculares, na formação desses profissionais. Observa-se, ainda, que as eventuais diferenças encontradas no definido pela legislação e o apontado pela prática profissional podem estar relacionadas com um caráter mais amplo de formação profissional e social almejado pelas Diretrizes Curriculares, e não um indicativo de que se deva realizar alterações nas disposições existentes, uma vez que o objetivo é formar um profissional pleno e não apenas um profissional para o mercado. Observa-se, ainda, que grande parte das pesquisas vem sendo realizada sob o ponto de vista das empresas contratantes e da sua área de recursos humanos ou são realizadas com base nas estruturas curriculares, ficando, diversas vezes, a visão do profissional, que atua na ponta do processo, fora do universo pesquisado. Diante das condições expostas, a presente dissertação buscou averiguar, junto aos profissionais atuantes, quais são as competências necessárias para o exercício pleno de suas atribuições, e, com base nesse levantamento, comparar tais competências com aquelas presentes nas Diretrizes Curriculares Nacionais de 2002. A presente dissertação justifica-se, ainda, pela importância de se verificar a compatibilidade entre as competências definidas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais e aquelas atualmente requeridas aos engenheiros no desempenho de suas funções. Ressalta-se, nesse sentido, segundo Gama e Silveira (2003), que as pesquisas de mercado são úteis para levantar problemas e deficiências, porém, devem ser utilizadas como subsídio, pela academia, para traçar soluções e propostas de perfil ou currículo com uma visão de futuro, e não simplesmente para definir os objetivos e perfis a serem alcançados em curto prazo, evitando-se uma visão imediatista da situação. 1.3 Objetivos do trabalho Objetivo geral: Analisar, junto aos profissionais atuantes em empresas de Minas Gerais, as competências necessárias ao engenheiro contemporâneo para sua atuação. Objetivos específicos: 1. Identificar as competências necessárias à atuação profissional do engenheiro contemporâneo, na visão dos profissionais; Leonard de Araújo Carvalho 24 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 2. Verificar se as competências requeridas na atuação profissional do engenheiro são compatíveis àquelas definidas pela Resolução CNE/CES 11, de 11 de março de 2002; 3. Estabelecer relações entre as competências requeridas para a atuação profissional e as definidas para os cursos de Engenharia. Quadro 2: Estrutura geral da dissertação Objetivos Tema Problema Geral As competências requeridas do engenheiro contemporâneo. As competências que o profissional efetivamente utiliza na prática são aquelas definidas na legislação vigente? Fonte: elaborado pelo autor. Analisar as competências necessárias ao engenheiro contemporâneo para sua atuação profissional. Específicos Identificar as competências necessárias na atuação profissional do engenheiro contemporâneo, na visão dos profissionais em exercício. Verificar se as competências requeridas na atuação profissional do engenheiro são compatíveis àquelas definidas nas DCN. Estabelecer relações entre as competências requeridas para atuação profissional e as definidas para os cursos de Engenharia pela legislação em vigor. Leonard de Araújo Carvalho 25 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 2 A Engenharia e o contexto histórico das formas de produção Engenharia, sociedade e as formas de produção são elementos que trilham um caminho de influência mútua, com consequências que alteram a forma de vida da sociedade e das relações de trabalho. Tendo isso em vista, no presente capítulo, procurou-se destacar os principais marcos históricos dessa influência, iniciando pela Revolução Industrial, passando pelo taylorismo, fordismo e até acumulação flexível, bem como apresentar o modelo de competência, inicialmente tido como um modelo alternativo ao da qualificação e, posteriormente, sendo consideradas noções complementares, sob o ponto de vista dos estudos franceses. 2.1 Da Revolução Industrial à acumulação flexível Segundo Telles (1994), a engenharia, quando considerada como a arte de construir, é tão antiga quanto o homem, mas, quando considerada como um conjunto organizado de conhecimentos, com base científica, aplicado à construção em geral, pode-se situá-la no século XVIII. O surgimento do ensino formal da Engenharia ocorreu com objetivos militares, sendo que a primeira instituição formal criada para atender a esse ensino foi fundada em Paris, no ano de 1747, com o nome de École Nationale des Ponts et Chaussés (Escola Nacional de Pontes e Estradas), com fins voltados para a formação de engenheiros militares. Ressalta-se que o surgimento das instituições formais para o ensino de Engenharia se deu, inicialmente, com fins exclusivamente militares, sendo que o termo “engenheiro civil” surgiu apenas no final do século XVIII. Segundo Telles (1994, p. 1) “o nome engenheiro civil teria sido usado, pela primeira vez, pelo engenheiro inglês John Smeaton [...] que assim se autodenominou em fins Séc. XVIII – para distinguir dos engenheiros militares”. Zarifian (2012, p. 37) destaca que as alterações ocorridas desde meados do século XVIII, impulsionadas por dois meios intelectuais, que foram “os primeiros engenheiros modernos” e “os fundadores da economia política (a começar por Adam Smith)”, fomentaram o meio para as grandes mudanças também nas formas de produção, com a Revolução Industrial, iniciada em 1780. A Revolução Industrial acentuou e acelerou as modificações na concepção do trabalho. Segundo Chiavenato (2000) a invenção da máquina a vapor, pelo matemático e Leonard de Araújo Carvalho 26 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO engenheiro James Watt, e sua consequente utilização na produção acarretaram profundas mudanças sociais e comerciais, com reflexos nas áreas política, social e econômica da época. Observa-se que, nesse período, conforme Veraszto et al. (2003), as Instituições de Ensino de Engenharia estavam mais voltadas para as pesquisas científicas e inovações tecnológicas, porém sem preocupações com os impactos ambientais ou sociais. No que se refere aos desdobramentos na área social, advindos das alterações na forma de produção, pode-se destacar que, conforme Zarifian (2012), marcaram a passagem de uma civilização essencialmente de atividades agrícolas e artesanais para uma civilização industrial urbana. Tais transformações resultaram no trabalho industrial assalariado, que, ainda segundo Zarifian (2012), tem como principais características i) a separação entre trabalho e trabalhador; ii) a predominância do fluxo e da produtividade de operações de trabalho; iii) a necessidade de copresença. A sistematização e a mecanização industrial e agrícola, oriundas da Revolução Industrial, trouxeram como consequência a simplificação, a semiautomatização e a repetição das tarefas atribuídas ao trabalhador. É ainda com a Revolução Industrial que nascem à organização e as empresas modernas, cuja importante característica é a substituição da produção artesanal e familiar pela produção do tipo industrial (CHIAVENATO, 2000). De acordo com Braverman (2011), a mecanização da fazenda e do artesanal, incluindo aqueles produtos que eram produzidos de forma familiar, com vistas à subsistência, impulsiona o trabalhador para a indústria, contribuindo para a nova forma de trabalho, uma vez que a produção em série barateou os produtos, inviabilizando sua antiga forma de produção. Após a Revolução Industrial, a próxima grande alteração na forma de produção seria impulsionada por Frederick Winslow Taylor. Ainda que, no final do século XVIII e até mesmo antes, já houvesse estudos a respeito da forma de trabalho e da organização do processo produtivo, é somente no final do século seguinte que os estudos nessa área atingem papel de destaque (BRAVERMAN, 2011). E foi com o metódico Taylor que os estudos sobre a gerência das organizações são realizados, com a produção de longas pesquisas sobre a gerência científica.6 Salienta-se que Taylor estava centrado em organizar e controlar os 6 Segundo Braverman (2011, p. 82), gerência cientifica “significa um empenho no sentido de aplicar métodos da ciência aos problemas complexos e crescentes do controle do trabalho nas empresas capitalistas em rápida expansão. Falta-lhes as características de uma verdadeira ciência porque suas pressuposições refletem nada mais que a perspectiva do capitalismo com respeito às condições de produção”. De acordo com Drucker apud Braverman (2011, p. 84), a gerência científica focaliza o trabalho. “Seu núcleo é o estudo organizado do trabalho, a análise do trabalho nos seus elementos mais simples e a melhoria sistemática do desempenho de cada um desses elementos pelo trabalhador. A Gerência Científica tem conceitos básicos e ao mesmo tempo Leonard de Araújo Carvalho 27 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO processos de trabalho, de forma a obter o melhor resultado possível com as ferramentas de que dispunha. Para se ter maior clareza quanto ao teor do taylorismo, é oportuna a explanação de Rago e Moreira (1985): Método de racionalizar a produção, logo, se possibilitar o aumento da produtividade do trabalho “economizando tempo”, suprimindo gestos desnecessários e comportamentos supérfluos no interior do processo produtivo, o sistema Taylor aperfeiçoou a divisão social do trabalho introduzida pelo sistema de fábrica, assegurando definitivamente o controle do tempo do trabalhador pela classe dominante. (RAGO e MOREIRA, 1985, p. 10) De modo a garantir a melhor forma de execução, bem como padronizar a produção, o taylorismo ocupou-se em identificar todas as tarefas que compunham cada função específica, a fim de determinar o modelo ótimo de trabalho, ou seja, sistematizar o conhecimento e a técnica de execução de determinada função de forma rígida e, com isso, poder controlar o trabalho em qualquer nível de tecnologia. Nesse aspecto, Braverman (2011) e Moraes Neto (1984) apontam que Taylor elevou o conceito de controle a um plano inteiramente novo quando asseverou como uma necessidade absoluta para a gerência adequada a imposição ao trabalhador da maneira rigorosa pela qual o trabalho deve ser executado. (BRAVERMAN, 2011, p. 86) o taylorismo caracteriza-se como uma forma avançada de controle do capital (com objetivo de elevar a produtividade do trabalho) sobre processos de trabalho nos quais o capital dependia da habilidade do trabalhador, seja em funções simples ou complexas. De que forma? Através do controle de todos os tempos e movimentos do trabalhador, ou seja, do controle (necessariamente despótico) de todos os passos do trabalho vivo. (MORAES NETO, 1984, p. 22-23) Segundo Moraes Neto (1982, p. 32) com a padronização da forma de se executar as tarefas, pela gerência, “retira-se toda e qualquer autonomia do trabalhador que está utilizando a ferramenta. Essa é a ideia do taylorismo; é o controle de todos os passos do trabalho vivo, controle de todos os tempos e movimentos do trabalhador”. Outro ponto-chave do taylorismo é separar o planejamento da execução, ou seja, a gerência estava concentrada no planejamento ou concepção das tarefas, enquanto a grande massa operária estava destinada a executá-la, exatamente da maneira como lhe era estipulado, instrumentos e técnicas facilmente aplicáveis. E não é difícil demonstrar a contribuição que ela faz; seus resultados sob forma de produção superior são visíveis e prontamente mensuráveis. De fato, a Gerência Científica é quase uma filosofia sistemática do trabalhador e do trabalho. Ao mesmo tempo, ela pode ser a mais poderosa e durável contribuição que a América fez para o pensamento ocidental desde os Documentos Federalistas”. Leonard de Araújo Carvalho 28 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO a fim de garantir que as tarefas fossem executadas no menor tempo possível e com a máxima produção. A forma de organização de trabalho proposta por Taylor seria, efetivamente, levada a cabo nos processos de produção da Ford, e, se Taylor concentrava-se no controle do modo de execução dos serviços, Ford iria além, sempre na busca de máquinas que pudessem diminuir ou simplificar o trabalho do homem, com consequente redução dos custos de produção. Nesse sentido Antunes (2002), ao abordar as transformações do mundo do trabalho no contexto do século XX, destaca que o fordismo é a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo deste século, cujos elementos constitutivos básicos eram dados pela produção em massa, através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; através do controle de tempos e movimentos pelo cronômetro fordista e produção em série taylorista; pela existência do trabalho parcelar e pela fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e execução no processo de trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição/consolidação do operário-massa, do trabalhador coletivo fabril. (ANTUNES, p. 17, 2002) Por sua vez, Navarro e Padilha (2007, p. 17) assinalam que: A história registra, no entanto, uma significativa resistência operária ao fordismo, uma vez que os trabalhadores sentiram a perda de seu savoir-faire e sentiram o peso de um trabalho puramente mecanizado, rotinizado, gerando um alto índice de absenteísmo, aumento de paralisações e sabotagens. Em contraposição, houve considerável aumento de salário para amenizar temporariamente os problemas com a força de trabalho. Ford observava que muito tempo era perdido em tarefas ou movimentos que não geravam resultados e, a partir dessas observações, foram envidados esforços para se obter um processo em que o tempo fosse melhor aproveitado. Segundo Ford (1925, p. 134), “geralmente se demonstra que a simplificação do trabalho em benefício do operário encerra também em si, uma economia de gastos na produção”. A simplificação do trabalho consistia em dividir os processos em várias tarefas simples e rápidas, realizadas na esteira de trabalho, ou seja, sem necessidade de o trabalhador sair do seu posto ou de qualificação específica para sua execução. Tal sistema de execução das tarefas reforçava a retirada da autonomia do trabalhador no exercício das suas atividades; características como iniciativa e trabalho em grupo não eram necessários, pelo contrário, todo o modelo estava baseado na mínima necessidade de esforço intelectual por parte dos operários. Gramsci citado por Alves (2005, p. 411), aponta que, sob o fordismo “o cérebro está livre para outras ocupações”, ao mesmo tempo em que o corpo é Leonard de Araújo Carvalho 29 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO tomado pelas prescrições mecanizadas. A parte pensante da empresa, representada pela gerência, é separada do corpo operacional. Uma das consequências de tais características é a estrutura hierárquica verticalizada das empresas, com concentração do poder de decisão. Em contraste com o que ocorria no sistema de produção manual, o trabalhador da linha de montagem tinha apenas uma tarefa. Ele não comandava componentes, não preparava ou reparava equipamentos, nem inspecionava a qualidade. Ele nem mesmo entendia o que seu vizinho do lado fazia. Para pensar em tudo isto, planejar e controlar as tarefas, surgiu a figura do engenheiro industrial. (WOOD JR., 1992, p. 10) O engenheiro, no sistema taylorista/fordista, passa a ocupar uma posição de mando na gerência das empresas ou nas linhas de produção, o conhecimento técnico é valorizado e características como o trabalho em equipe não são relevantes em sua atuação. Outra característica marcante dos princípios de Ford era a padronização da produção em massa, com a menor variação possível entre as peças e modelos produzidos pela empresa, com vistas à economia de escala e barateamento da produção, de forma a manter um produto de qualidade. O conceito-chave da produção em massa não é a idéia de linha contínua, como muitos pensam, mas a completa e consistente intercambiabilidade de partes, e simplicidade de montagem. Antes da introdução da linha contínua, Ford já tinha reduzido o ciclo de tarefa de 514 para 2 minutos; a linha contínua diminuiu este número à metade. (WOOD JR., 1992, p. 9) Sobre esse aspecto, ainda se destacam observações importantes. O objetivo da redução do valor do produto é a possibilidade de alcançar um maior público com capacidade financeira para sua aquisição, o que é fato importante para uma produção em massa, uma vez que a produção em massa requer o consumo em massa. De fato, a redução crescente do custo do automóvel possibilitou a sua massificação, gerando grande crescimento econômico nos Estados Unidos; a redução de custos foi um fator positivo em toda cadeia do processo produtivo, a exemplo da siderurgia e indústria têxtil. Porém, o fordismo era baseado em investimento de capital fixo e em grande escala, resultando em sistema rígido e dependente de larga produção e, consequentemente, de consumo. Segundo Harvey (1993), o mercado americano, em meados da década de 1960, já apresentava diminuição de demanda que, associada à recuperação e reestruturação dos processos no Japão e na Europa Ocidental, bem como à decisão de várias multinacionais de estabelecerem fábricas em países do Terceiro Mundo, o que diminuiu a importação de produto por esses países, agravou os problemas do sistema fordista de produção. Leonard de Araújo Carvalho 30 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Ao passo que a crise americana se aprofundava, a Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), na década de 1970, aumentava o preço do petróleo, complicando ainda mais o cenário mundial, impondo um processo de novas mudanças e reestruturação econômica. Manfredi (1998, p. 4) destaca que a forma de trabalho taylorista “entra em crise com a reorganização do sistema capitalista por intermédio da adoção de sistemas de produção flexíveis e da criação de novas formas de organização do trabalho”. Associada à reestruturação econômica, foi observada a necessidade de reformulação organizacional das empresas, cenário que propiciou a propagação do que Harvey denominou de “acumulação flexível”, assim definida pelo autor: A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. (HARVEY, 1993, p. 140) Dentro da denominação de acumulação flexível, começam a se destacar novas formas de produção, sendo o mais conhecido o toyotismo, ou ohnismo.7 De acordo com Swyngedouw, citado por Harvey (1993), podemos destacar como características da acumulação flexível: i) em relação ao processo de produção, a flexibilidade e a produção em pequenos lotes, possibilitando uma variedade de produtos, a não utilização de estoques, produção voltada para a demanda e o controle de qualidade imediato à etapa em que se encontra o processo; ii) em relação ao trabalho, exigindo do trabalhador a execução de multitarefas, treinamento e horizontalização do trabalho. Com a crise do petróleo de 1973, o toyotismo ganha destaque internacional, pois, com maior capacidade de se adaptar a períodos de recessão e de baixa produtividade, se sai melhor que os modelos fordistas/tayloristas, predominantes nas empresas da época. A Toyota foi criada em janeiro de 1918, sendo seu fundador Sakichi Toyoda,8 e estava voltada para a produção de equipamentos para tecelagem. A divisão automotiva da Toyota somente seria criada em 1933, por Kiichiro Toyoda, filho de Sakichi. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês proíbe a produção de carros de passeio, obrigando a Toyota a produzir somente veículos pesados, destinados à utilização militar. Com o fim da Guerra, tem início o processo que irá culminar no modelo japonês de produção, o toyotismo, 7 Em homenagem ao engenheiro da Toyota, Taiichi Ohno, que foi maior idealizador do sistema. 8 Por questões numerológicas, foi utilizado o nome Toyota para empresa, sendo Toyoda o nome de família. Leonard de Araújo Carvalho 31 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO e, por ocasião da crise de 70, o sistema já estará desenvolvido e em plena operação naquele país. O processo de desenvolvimento do toyotismo pode ser dividido em quatro fases, que, conforme Coriat (1993), são assim caracterizadas: i) primeira fase (1947-50), em que se destaca a introdução da “autonomação”;9 ii) segunda fase (1949-50), com o aumento da produção sem que houvesse aumento do efetivo de funcionários; iii) terceira fase, compreendida na década de 50, surge o Kan-Ban, sendo que, a partir dessa técnica, Toyoda, citado por Coriat (1993, p. 29, tradução nossa),10 realizou a seguinte reflexão: “o ideal seria produzir somente o necessário e fazê-lo justo no tempo”, o que originaria o sistema just-intime; e iv) quarta fase, iniciada em 1962, se estenderia até a década de 70, período em que o sistema japonês é dirigido às subcontratadas da Toyota. Coriat (1993) aponta que o ponto-chave para a formulação do sistema japonês foi o “pensar pelo avesso”, ou seja, pensar ao contrário em relação aos processos dominantes, até então, fordismo e taylorismo. Pensar, não pela continuidade dos mestres estadunidenses, mas sim “ao avesso” como assinala o próprio Ohno. Pensar, não na produção de grande volume, mas de pequeno; não na estandardização e na uniformidade do produto, e sim em sua diferença, sua variedade, este é o “espírito Toyota”. (CORIAT, 1993, p. 20, tradução nossa)11 O fordismo é baseado na produção, em larga escala, de produtos idênticos, sendo afetados fortemente pela crise, pois seu sistema depende do escoamento da produção, que foi severamente afetado. Diversamente, o sistema Toyota foi concebido para a produção de quantidades pequenas e diversificadas, sendo essa característica de flexibilidade da produção fator que lhe deu força na década de 70. Nesse aspecto, Ohno, citado por Coriat (1993, p. 20) diz que O sistema Toyota teve sua origem na necessidade particular em que encontrava o Japão de produzir pequenas quantidades de muitos modelos de produtos; mais tarde, aquela evolução se converteu em um verdadeiro sistema de produção. A causa de sua origem, este sistema é fundamentalmente competitivo na diversificação. Enquanto o sistema clássico de produção em série é relativamente resistente a mudanças, o sistema Toyota, pelo contrário, é muito elástico, se adapta bem às condições 9 A “autonomação” é definida, no sistema Toyota, como a automação com autonomia, sendo o termo originado da combinação das duas palavras. 10 “lo ideal sería producir justo lo necesario y hacerlo justo a tiempo”. 11 “Pensar, non en la continuidad de los maestros estadounidenses, sino ‘al revés’, como señala el propio Ohno. Pensar, no en la producción de gran volumen sino de pequeño; no en la estandarización y la uniformidad de producto, sino en su diferencia, su variedad, este es el ‘espíritu Toyota’”. Leonard de Araújo Carvalho 32 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO de diversificação mais difíceis. E é assim porque foi concebido para sê-lo. (OHNO apud CORIAT, 1993, p. 20, tradução nossa)12 A concepção de um sistema que rompesse com a lógica dominante dos modelos americanos exigiu profundas modificações na forma de trabalho das fábricas japonesas. Tais modificações ocorreram baseadas em dois pilares que, segundo Ohno, citado por Coriat (1993, p. 19, tradução nossa),13 foram: “(1) a produção just-in-time e (2) a autoativação da produção”. A partir desses pilares, foi desenvolvido o sistema Toyota de produção que “constitui um conjunto de inovações na organização cuja importância se compara ao que foram em sua época as inovações na organização aportadas pelo taylorismo e pelo fordismo” (CORIAT, 1993, p. 13-14, tradução nossa),14 A autonomação e a autoativação são originadas da observação de grandes desperdícios de produção, por Toyoda, em função de defeitos ou mau funcionamento dos equipamentos, ainda na época que a Toyota atuava no ramo têxtil. Como solução, foram desenvolvidos mecanismos que interrompiam, automaticamente, o funcionamento dos equipamentos em caso de falha, impedindo a produção de produtos defeituosos e, consequentemente, evitandose o desperdício de insumos. Tal princípio foi importado da área têxtil, por Ohno, com grande aplicação nas linhas de produção da área automotiva, passando a ser um dos pilares do sistema Toyota de produção (CORIAT, 1993). Na linha de produção automotiva da Toyota, tal sistema passou a reger não somente a execução de procedimentos em máquinas, mas também na execução do trabalho humano, nesse caso, com a denominação de autoativação. O just-in-time é o princípio norteador para a produção somente do necessário para atender à demanda de consumo existente, ou seja, não manter estoques de produto, sendo o princípio aplicado em todas as etapas e subprodutos do processo produtivo. O objetivo de tal prática consiste na redução dos estoques com economia de espaço, de dinheiro e de eventuais desperdícios. 12 “El sistema Toyota tuvo su origen en la necesidad particular en que se encontró Japón de producir pequeñas cantidades de muchos modelos de productos; más tarde, aquél evoluciono para convertirse en un verdadero sistema de producción. La causa de su origen, este sistema es fundamentalmente competitivo en la diversificación. Mientras el sistema clásico de producción planificada en serie es relativamente refractario al cambio, el sistema Toyota, por el contrario, resulta ser muy elástico; se adapta bien a las condiciones de diversificación más difíciles. Y así es porque fue concebido para ello”. 13 “(1) la producción ‘en el momento preciso’ y (2) la ‘autoactivación’ de la producción”. 14 “constituye un conjunto de innovaciones en la organización cuya importancia es comparable a lo que en su época fueron las innovaciones en la organización aportadas por el taylorismo y el fordismo”. Leonard de Araújo Carvalho 33 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO A aplicação do just-in-time no processo produtivo somente foi possível pela adoção do Kan-Ban, que também foi decisivo para propiciar a adoção de procedimentos distintos dos princípios do fordismo: a planificação da produção (produção em linha) e o controle de qualidade focado no produto acabado. Segundo Coriat (1993), a inspiração para a criação do Kan-Ban, elemento-chave para a viabilização dos estoques mínimos, e, consequentemente, do just-in-time, foi o sistema de reposição de produtos utilizados em supermercados americanos, que consistia em realizar pedidos de reposição apenas nas quantidades e tipos de produtos vendidos. No que se refere ao controle de qualidade, o toyotismo adota o que se denominou Controle de Qualidade Total (CQT), que é efetuado a cada etapa da produção, ao contrário do sistema fordista, no qual o controle era realizado no final da linha montagem, no produto acabado. Para a realização do controle de qualidade de forma descentralizada, os trabalhadores são dispostos em grupos de trabalho, os círculos de controle de qualidade (CCQ), o que ressalta a característica mais horizontalizada das indústrias no modelo toyotista, em contraponto ao modelo fordista, altamente verticalizado. Ainda se destaca no sistema Toyota a polivalência do trabalhador. No sistema taylorista/fordista, tem-se um serviço altamente parcelar, com trabalhadores especializados na execução de tarefas repetitivas e simplificadas, enquanto no sistema Toyota a ideia é que o mesmo trabalhador possa executar tarefas diversas, incluindo a operação de equipamentos distintos, o que irá afetar até mesmo o leiaute das plantas, que terão os maquinários dispostos de forma que o trabalhador possa atuar em mais de um equipamento durante a execução dos serviços. uma vez que a rede de empresas toyotista se fortalece pela focalização das firmas no núcleo principal dos seus negócios, gerando desverticalização e terceirização. Como parte desses elementos, a intensificação do uso da força de trabalho foi fundamental, mediante o desenho de uma organização dos processos de trabalho que atribui a cada trabalhador uma gama diversificada de tarefas até então apartadas pela introdução do taylorismo-fordismo como, por exemplo, no caso de uma empresa metalúrgica, o controle da qualidade dos produtos ou serviços junto da execução; a manutenção e limpeza das instalações após o seu uso; a operação simultânea de vários equipamentos; entre outros. (PINTO, 2012, p. 538) Tais alterações no sistema de produção exigiram um novo perfil de trabalhador, as tarefas executadas não eram mais simplificadas ao máximo ou realizadas de forma automática. Autonomia, trabalho em equipe e comprometimento passaram a ser Leonard de Araújo Carvalho 34 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO características importantes para a atuação profissional, ainda que resultem em uma sobrecarga de trabalho. A flexibilização trazida pela reestruturação produtiva – que exige trabalhadores ágeis, abertos a mudanças a curto prazo, que assumam riscos continuamente e que dependam cada vez menos de leis e procedimentos formais – não causa apenas sobrecarga de trabalho para os que sobreviveram ao enxugamento dos cargos, mas acarreta grande impacto para a vida pessoal e familiar de todos os trabalhadores; sejam eles empregados ou desempregados. (NAVARRO; PADILHA, 2007, p. 19) Contudo, observa-se que a adoção de tais características revelou-se como uma forma de explorar o trabalhador não apenas pela sua força, pois se adicionou a dimensão intelectual na consecução das tarefas. Nesse aspecto, Antunes e Alves (2004) destacam que: se o fordismo expropriou e transferiu o savoir-faire do operário para a esfera da gerência científica, para os níveis de elaboração, o toyotismo tende a retransferi-lo para a força de trabalho, mas o faz visando a apropriar-se crescentemente da sua dimensão intelectual, das suas capacidades cognitivas, procurando envolver mais forte e intensamente a subjetividade operária. Os trabalhos em equipes, os círculos de controle, as sugestões oriundas do chão da fábrica, são recolhidos e apropriados pelo capital nessa fase de reestruturação produtiva. Suas idéias são absorvidas pelas empresas, após uma análise e comprovação de sua exeqüibilidade e vantagem (lucrativa) para o capital. (ANTUNES; ALVES, 2004, p. 346-347) O trabalhador, para atuar dessa forma, necessitava de uma qualificação maior do que aquela requerida no sistema fordista e, nesse sentido, Zarifian (2003, p. 46-47) ressalta que, estritamente sob essa perspectiva, os benefícios para os trabalhadores menos qualificados é uma realidade: o aumento dos níveis de qualificação e a inversão da relação entre nãoqualificado e qualificados na população operária foram muito nítidos e rápidos. O aspecto positivo desses novos métodos de produção é, desse ponto de vista, incontestável (o debate se desloca, então, para as novas formas de intensificação do trabalho). No debate a que Zafirian se refere, Navarro e Padilha (2007) destacam que a sobrecarga a que o trabalhador estava sujeito era maior do que a realidade de qualificação. Outra característica do modelo japonês bastante difundida no meio empresarial e, em parte do meio acadêmico, diz respeito à qualificação do trabalhador. Contrariamente ao operário do taylorismo/fordismo que desempenhava tarefas altamente simplificadas, repetitivas, monótonas e embrutecedoras, o trabalhador no toyotismo, estaria transformando em um trabalhador “altamente qualificado”, “polivalente”, “multiprofissional”. Na prática, várias pesquisas demonstram que estas mudanças, de forma geral, ao invés de qualificar o trabalhador o sobrecarrega com mais trabalho. (NAVARRO; PADILHA, 2007, p. 18) Leonard de Araújo Carvalho 35 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Observa-se que o toyotismo exige um comprometimento do trabalhador e o sujeita há uma carga pesada de trabalho, além de gerar uma precariedade do emprego agravada pela terceirização, sobretudo com o objetivo de eliminar custos, um dos elementos característicos do sistema japonês. Tal realidade vem contribuindo para a insatisfação dos trabalhadores com o sistema. Sobre esses pontos, Wood Jr (1992) apresenta uma visão crítica: Kuniyasu Sakai, um empresário nipônico, advoga que a organização piramidal, base dos grandes grupos japoneses, guarda estreita semelhança com o mundo feudal. Para ele, a base da pirâmide, constituída por milhares de pequenas empresas e empregando a maior parte da mão-de-obra existente, faz o papel do servo, continuamente submetido a pressões para redução de custos, trabalhando com margens de lucro insuficientes e praticamente impedido de abandonar o seu clã. Sakai considera que começam a aparecer rachaduras ameaçadoras para a sobrevivência desse sistema. As mais importantes estariam ligadas à queda relativa do padrão de devoção dos empregados às empresas. Uma mudança sensível dos padrões comportamentais e culturais, o surgimento de novas atitudes e expectativas em relação à vida e ao trabalho complementariam um quadro potencialmente perigoso. (WOOD JR., 1992, p. 14) 2.2 Modelo de competência – a vertente francesa A crise mundial também abriu a possibilidade para estudos de outras formas de gestão das empresas, propiciando a adoção elementos alternativos ao da qualificação, que tem o taylorismo como base, entre os quais se destaca o modelo de competência, que vem se sobressaindo nas últimas duas décadas. Ao contrário dos elementos de gestão do toyotismo, que ganhou projeção mundial em função da crise de 70, o que viria a ser o “modelo de competência” perdeu prioridade, no âmbito francês, em virtude da necessidade de reorganização das indústrias francesas, face à nova realidade de mercado e aos altos índices de desemprego, sendo o assunto retomado apenas em 1985, quando a situação econômica apresentava sinais de melhora, ano em que Zarifian apresenta um primeiro conceito de “competência”. (ZARIFIAN, 2003) Segundo Fleury e Fleury (2001), a discussão, na França, a respeito da competência, tem início no campo educacional e, posteriormente, migra para o campo das relações de trabalho. Isso ocorre em virtude do questionamento estabelecido à época, em relação ao conceito de qualificação15 vigente no campo educacional, uma vez que era observado um distanciamento entre o ministrado nas instituições de ensino e o requerido no mercado de 15 Observa-se que, desde o seu surgimento, a noção de “competência” tem uma relação complexa com a noção de “qualificação”, com posicionamentos variando em considerá-los conceitos complementares ou, no outro extremo, como conceitos opostos. No próximo capítulo, o assunto será tratado de forma mais abrangente. Leonard de Araújo Carvalho 36 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO trabalho, sendo necessário reverter o cenário existente e aumentar as chances de empregabilidade dos trabalhadores. Embora não tenha havido grande desenvolvimento do assunto ao longo da década de 70, o primeiro sinal para a emergência do que viria a ser o modelo de competência ocorreu em 1974, em função do acordo realizado no âmbito do setor metalúrgico francês, quando autonomia e responsabilidade foram incluídas como critério de classificação dos trabalhadores o que de fato apontava em direção a uma mudança em relação ao sistema taylorista: Os critérios de autonomia e de responsabilidade são decisivos: ainda que seja necessário um desvio da análise do emprego, eles, concretamente, significam o seguinte: alguém é tanto mais qualificado (e, portanto, remunerado) quanto mais é autônomo no seu trabalho. A autonomia é definida pelo contrário das normas. Ganha-se em autonomia pela diminuição das normas (na época, não se sabia definir socialmente a autonomia a não ser de forma negativa). É uma verdadeira inversão de valores em relação à tradição taylorista; a diminuição das normas se torna algo benéfico, o que mostra, indiretamente, que os empregos com muitas normas são, se não um mal, pelo menos uma situação pouco desejável e valorizada. (ZARIFIAN, 2003, p. 52) O início da década de 80 ainda são tempos difíceis, a precarização do trabalho é crescente, sobretudo com as terceirizações incentivadas pela propagação do modelo japonês e diminuição dos custos de produção que, segundo Zarifian (2003, p. 65), cria um ambiente desfavorável ao modelo de competência, pois “dificilmente se vê a condução de uma política de desenvolvimento e valorização das competências apoiada em uma expansão de empregos precários (ao contrário, a precariedade supõe mais prescrições para enquadrar rapidamente o que o assalariado deve cumprir)”. Contudo, o ambiente de incerteza e a precarização do trabalho, de certa forma, contribuíram para reforçar a necessidade de se alterar as condições existentes. Le Boterf, citado por Bittencourt, Tenório e Vieira (2009), destaca que as pressões oriundas do contexto de incerteza econômica, aliadas à necessidade de adaptação e de iniciativa requeridas dos trabalhadores, fazem com que os empregadores busquem alternativas à noção de qualificação, nesse caso, a competência. Além das pressões dos trabalhadores, o mercado havia mudado, as inovações tecnológicas alteraram a base produção, os consumidores exigiam cada vez mais produtos diferenciados e a simples adoção das prescrições tayloristas não era suficiente para garantir o bom resultado de vários setores industriais e de serviços. Leonard de Araújo Carvalho 37 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO A forma de produzir, de atuar no campo profissional e a concorrência entre as empresas têm, atualmente, um nível de complexidade tal que impossibilita a atuação apenas no modelo de “posto de trabalho”, executando apenas as tarefas prescritas na ficha do posto. Ao mesmo tempo, ocorre uma mudança social, com elevação do nível de educação dos trabalhadores e novas expectativas das gerações mais recentes (ZARIFIAN, 2003). O trabalho ficou menos previsível, pois, se antes existia apenas uma linha de montagem, com uma atividade mecanicamente repetida de forma indefinida, tem-se, agora, grandes possibilidades de variações nessa linha, com a diversificação de produtos a serem entregues, bem como de problemas que podem ocorrer durante a produção. O processo produtivo está mais complexo e, consequentemente, sujeito a uma maior diversificação de imprevistos a serem tratados (ZARIFIAN, 2012). Fleury e Fleury (2000, p. 36-37) destacam três alterações que mudaram a forma de atuação e competição entre as empresas, a saber: i) “Do mercado regido pelo vendedor para o comprador”, ou seja, de demanda menor do que a oferta, o que aumentou o poder do cliente perante as empresas; ii) “O processo de globalização dos mercados e da produção”, que acirrou a competição entre as empresas; iii) “O advento da economia baseada em conhecimento”, em que o valor do produto é elevado pelas atividades inteligentes, sendo as atividades rotineiras menos importantes. Na ótica de Zarifian (2012), foram as alterações na forma do trabalho, que podem ser divididas em três grupos, ou noções, que geraram novas características a serem observadas pelas empresas e trabalhadores, a saber: a noção de incidente, aquilo que ocorre de forma imprevista, não programada, vindo a perturbar o desenrolar normal do sistema de produção, ultrapassando a capacidade rotineira de assegurar a sua autoregulação; isto implica que a competência não pode ser estar contida nas predefinições da tarefa, fazendo com que as pessoas precisem estar sempre mobilizando recursos para resolver novas situações; a noção de comunicação, que implica a necessidade de as pessoas compreenderem o outro e a si mesmas para partilharem objetivos normas organizacionais; a noção de serviços: a noção de atender um cliente externo ou interno à organização precisa ser central e presente em todas as atividades. (ZARIFIAN, 2012, p. 9) Em função dessa gama de modificações no mercado, a atuação na forma prescrita, típica do sistema taylorista, já não era capaz de garantir o sucesso das empresas e, a partir desse cenário, é que surge o denominado modelo de competência. “É impossível enfrentarmos Leonard de Araújo Carvalho 38 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO os novos desafios produtivos e concorrenciais se permanecermos bloqueados na questão das definições de posto de trabalho” (ZARIFIAN, 2003, p. 67). Em termos práticos, é no final de 1990, com a implantação do Accord sur la Conduite de l’Activité Professionelle, que ficou conhecido como A CAP 2000, no setor siderúrgico francês, que, segundo Zarifian (2012, p. 25), passa-se à lógica de competência, uma vez que há “formalmente, uma ruptura nítida: passar da lógica de trabalho à lógica de competência”. Tanguy (1997, p. 180) destaca que o A CAP 2000, ao estabelecer “uma abordagem pelas competências pretende liberar a classificação e a progressão dos indivíduos da classificação dos postos de trabalho”, no entanto, não são definidas formas adequadas para avaliação dos processos envolvidos nesse novo programa, então, “os métodos de avaliação estabelecidos devem ser corrigidos para se aplicar a propriedades difíceis de objetivar”. Apesar dos resultados decepcionantes na implantação do modelo de competência pelo A CAP 2000, o momento vivido pelas empresas e as relações trabalho e trabalhador rompem com o modelo taylorista, reforçando a importância da lógica da competência, ainda que essa deva sofrer mutações para sua absorção nas empresas (ZARIFIAN, 2012). Nesse aspecto, Zarifian (2012, p. 42; grifos no original) destaca que “a competência profissional não pode mais ser enclausurada em definições prévias de tarefas a executar em um posto de trabalho. [...] E essa competência é propriedade particular do indivíduo, e não do posto de trabalho”. E acrescenta: “O conceito de trabalho retorna ao trabalhador. Não se pode mais separá-los. O trabalho é a ação competente do indivíduo diante de uma situação de evento16 ”. Outro aspecto a ser salientado, segundo Zarifian (2012, p. 29), é “que não se pode considerar o assalariado individualmente ou coletivamente competente sem que ocorra uma certa transferência efetiva de poder em seu benefício”, e é nesse ponto que reside certa resistência, por vários profissionais, uma vez que representa delegar parte do poder para outro. No modelo de atuação por competências, também se verifica a crescente necessidade de trabalho em equipe, muito em função das situações a serem resolvidas, que são, atualmente, muito complexas, e exigem a atuação de vários indivíduos, cada um tendo sua autonomia e parte na responsabilidade das ações a serem tomadas. Ainda é Zarifian (2012, p. 56) que destaca: 16 Embora a tradução brasileira para événements foi apresentada como evento, verifica-se que o termo mais apropriado é acontecimento, uma vez que o conceito, apresentado por Zarifian, gira em torno do imprevisto, sendo o evento um termo mais associado ao ocorrido de forma planejada do que o efetivamente ocorrido na forma de um imprevisto ou acontecimento. Leonard de Araújo Carvalho 39 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Aí também a ruptura com a visão taylorista é virtualmente radical: onde o taylorismo isolava (em cada posto, em cada função) e dividia (a cada um, um fragmento específico de responsabilidade, um território segmentado), a comunicação em torno dos eventos e do serviço aproxima e leva a compartilhar (os saberes, as ações, as responsabilidades, as avaliações). (ZARIFIAN, 2012, p. 56; grifos no original) Nesse âmbito, também reside outra crítica ao modelo de competência, pois, se, por um lado, o trabalho em equipe é valorizado e necessário, por outro, o trabalhador é avaliado individualmente, nas palavras de Zarifian (2012, p. 149) “só se pode avaliar uma competência profissional por meio de comportamentos concretos, visíveis e socialmente avaliáveis”, o que pode resultar em um comportamento individualista por parte do trabalhador, com consequente enfraquecimento das reivindicações em grupo ou da representação sindical. Entre as características do modelo de competência podem-se destacar, ainda, as alterações na forma de contratação e na forma de promoção; se, anteriormente, havia o predomínio de uma carreira rígida e, em função do tempo de serviço, a promoção por antiguidade do toyotismo, passa a existir uma carreira flexível, em que o indivíduo mais envolvido ou mais flexível, de acordo com as necessidades da empresa, acaba por conseguir a sua promoção. A progressão passa a ocorrer em função das competências adquiridas e não por antiguidade (ZARIFIAN, 2012). Os indivíduos passam a ter mais mobilidade dentro da empresa, em razão de suas competências; diminui-se a rigidez e o automatismo de suas progressões, bem como há possibilidade, por exemplo, de alteração da área de atuação com maior facilidade. Denota-se que a competência, no ambiente corporativo ou no mercado de trabalho, consiste na atitude do indivíduo frente a uma demanda profissional, exigindo-se que ele tenha condições de ser responsável e capaz de fornecer uma resposta satisfatória a um dado acontecimento, e, pela singularidade de cada situação ou acontecimento que o trabalhador irá enfrentar, a prescrição ou definição prévia das tarefas não é a forma mais apropriada de atuação. Segundo Silva, Silva e Souza (2013), outra crítica ao modelo de competência, na vertente de estudos franceses, reside na necessidade do desenvolvimento constante do indivíduo, em que nunca se alcança a plenitude da competência, indicando uma corroboração ao modelo capitalista, em que o trabalhador deve estar em aprendizagem constante, devido às novas realidades de mercado e de competição. Observa-se que o modelo de competência altera, mais uma vez, o perfil dos trabalhadores requeridos pelas empresas; há a valoração de autonomia, responsabilidade, Leonard de Araújo Carvalho 40 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO iniciativa e trabalho em equipe, exigindo que o profissional atue de maneira diferente do modelo de posto de trabalho, ainda que, em alguns cargos ou funções, esse modelo continue em vigor no âmbito das empresas. 2.3 Modelo de competência – a vertente americana Também na década de 1970 é que iniciariam os estudos que originariam a vertente americana do modelo de competência, mais precisamente, nos Estados Unidos, no ano de 1973, com a publicação do artigo de “Testing for competence rather than for ‘intelligence’”, de David C. McClelland, que propunha uma alternativa para os testes de aptidão e inteligência, utilizando, para tanto, um conceito de competência. Segundo Silva, Silva e Souza (2013, p. 3), o artigo de McClelland define a competência como “algo subjacente ao indivíduo e que estava diretamente ligado ao desempenho superior na realização de uma tarefa ou atividade desenvolvida”. A partir do conceito apresentado por McClelland, os estudos posteriores tomaram como base “a concepção de que a competência está diretamente vinculada ao desempenho superior” (SILVA; SILVA; SOUZA, 2013, p. 3). Boyatzis (2008, p. 5, tradução nossa)17 destaca a importância da proposta de McClelland, apontando que, a partir dela, foi possível que nos últimos 35 anos “o conceito de recursos humanos baseados em competência passasse de uma nova técnica para uma prática comum”. Ainda segundo Boyatzis (2008, p. 6, tradução nossa).18 Uma teoria de desempenho é a base para o conceito de competência. A teoria utilizada nesta abordagem é a teoria da contingência básica [...]. Acredita-se que o máximo desempenho ocorre quando a capacidade ou talento da pessoa é compatível com as necessidades das demandas do emprego e do ambiente organizacional. A Figura 1, a seguir, representa o conceito apresentado por Boyatzis: 17 “The concept of competency-based human resources has gone from a new technique to a common practice”. 18 “A theory of performance is the basis for the concept of competency. The theory used in this approach is a basic contingency theory [...]. Maximum performance is believed to occur when the person’s capability or talent is consistent with the needs of the job demands and the organizational environment”. Leonard de Araújo Carvalho 41 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Figura 1: Modelo esquemático da teoria do desempenho Fonte: adaptado de Boyatzis (2008). Como bem definem Fleury e Fleury (2001, p. 185, grifo nosso) na linha de estudos americana, a competência é conceituada “como conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes […] que justificam um alto desempenho, acreditando-se que os melhores desempenhos estão fundamentados na inteligência e personalidade das pessoas”. O conceito baseado no conhecimento, habilidades e atitudes conhecido pela sigla CHA.19 Mirabile citada por Amatucci (2000, p. 68) faz a separação entre “competência” e “modelo de competência”, na vertente americana: Este termo [modelo de competências] descreve o resultado das análises que diferenciam as pessoas de alta performance daquelas de baixa e média performances. Modelos de competências são representados em diferentes formatos, dependendo dos métodos utilizados na coleta de dados, necessidades do usuário, e os vieses particulares das pessoas que criam o modelo. (MIRABILE apud AMTUCCI, 2000, p. 68) 19 No inglês, KSA (knowledge, skill and ability). Leonard de Araújo Carvalho 42 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Fogg, citado por Ennis (2008), define o modelo de competência como uma ferramenta descritiva que identifica as competências necessárias para a execução de uma função da organização ou indústria. “Em termos simples, um modelo de competências é uma descrição do trabalho comportamental, que deve ser definido por cada função ocupacional e cada trabalho” (ENNIS, 2008, p. 5). Ou seja, tanto na literatura acadêmica, como nos textos que fundamentam a prática administrativa, a referência que baliza o conceito de competência é a tarefa e o conjunto de tarefas pertinentes a um cargo. Nesta linha, a gestão por competência é apenas um rótulo mais moderno para administrar uma realidade organizacional ainda fundada nos princípios do taylorismofordismo. (FLEURY; FLEURY, 2001, p. 185) Steffen, citado por Silva, Silva e Souza (2013), conceitua a concepção norte-americana como comportamentalista, uma vez que é baseada no incentivo aos trabalhadores em desenvolver elementos que possibilitem o alto rendimento na execução de suas funções, o que irá provocar mudanças comportamentais nos indivíduos. Nesse aspecto, o autor classifica a vertente francesa como construtivista, uma vez que considera que o indivíduo está em desenvolvimento constantemente. Uma das crítica a ser realizada à concepção americana é que trata a competência para determinada função de forma prescrita, da mesma forma que o sistema taylorista. Embora o início dos estudos sobre competência tenha ocorrido em épocas semelhantes nos Estados Unidos e na França, as correntes de pensamento sobre o tema são distintas; se a corrente francesa procura romper com os pressupostos tayloristas, a americana os reforça, tratando as competências como prescrições do posto de trabalho. Para Gattai (2013), a abordagem americana considera a competência como inputs, dando ênfase ao indivíduo, a seus atributos, conhecimentos, habilidades e atitudes pessoais que, no contexto funcional, afetam seu desempenho profissional. Já a vertente francesa, para a autora, valoriza os resultados obtidos pelo indivíduo, estritamente ligados ao trabalho, e não às características particulares de quem o executou, sendo a competência, nesse caso, caracterizada como outputs; ou seja, para essa linha de interpretação, o fato de um indivíduo ter a qualificação necessária para determinado trabalho não é, em si, garantia de que os resultados serão satisfatórios. Pelo exposto, verificam-se várias vertentes sob a mesma denominação de “modelo de competência”, o que torna difícil identificar o tipo de modelo que uma organização adota quando menciona modelo de competência, sobretudo na conjuntura atual, em que é comum a Leonard de Araújo Carvalho 43 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO presença de filiais das empresas em localidades diversas do globo, sob influências distintas, que afetam a forma de produção e gestão. Boyatzis (2008) assevera que, atualmente, a maioria das empresas com mais de 300 empregados adota algum tipo de gestão baseada em competências. Um dos problemas dessa polissemia é que “quase qualquer coisa pode ser chamada de gestão de competências” (ZARIFIAN, 2003, p. 65), na tentativa de as empresas se dizerem sintonizadas com as tendências mais avançadas de gestão de recursos humanos. De forma geral, face as mutações ocorridas no sistema de produção capitalista, podese verificar que elementos que outrora eram desconsiderados nos trabalhadores, e, por vezes, até indesejados, passam a constituir aspectos importantes em sua atuação profissional. O trabalho parcelar perdeu espaço para a visão geral do processo, a tarefa executada de forma individual e padronizada perdeu espaço para o trabalho em equipe e a criatividade na resolução dos problemas. Liderança e iniciativa passam a ter papel de destaque na atuação profissional do indivíduo, sendo que essa gama de alterações nas características da organização do trabalho nas empresas alterou o perfil requerido do indivíduo. Destaca-se ainda que, atualmente, a atuação das empresas não é realizada com base em apenas um dos modelos apontados, mas sim de um misto deles, com maior enfoque em um ou outro, a depender do setor ou tipo de empresa a ser considerada; por exemplo, as linhas de montagem das empresas automotivas ainda guardam forte relação como o sistema taylorista, enquanto a gestão de recursos humanos dessas mesmas empresas pode ser pautada por um modelo de competência. Leonard de Araújo Carvalho 44 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 3 Competência Embora tenha ganhado papel de destaque, em especial a partir da década de 1990, o termo competência apresenta um significado polissêmico, dificultando a adoção de um conceito comum entre as áreas que o utilizam. Isambert-Jamati (1997, p. 103) informa que “o termo ‘competência’ (no singular) e os de sua família (competir, competente, competentemente) pertenciam, no fim da Idade Média, à linguagem jurídica”. Nessa mesma direção, Dadoy (2004, p. 108) indica que “a noção de competência vem do latim competentia, derivada de competere, ‘chegar ao mesmo ponto’, oriunda de petere, ‘dirigir-se para’. Referese ‘ao que convém’; no francês antigo, significava ‘apropriado’”, sendo utilizado, na atualidade, com conceitos distintos, dependendo da área de abordagem na qual o termo está inserido. Le Boterf (2006) conceitua a competência a partir de três dimensões, a saber: i) a dimensão dos recursos disponíveis, que se refere aos recursos que o indivíduo pode mobilizar para sua ação; ii) a dimensão das ações e dos resultados, que constitui a ação propriamente dita e seus resultados; e iii) a dimensão da reflexividade, que se constitui no distanciamento do indivíduo das dimensões anteriores, permitindo a análise das práticas adotadas e seu aprendizado a partir da reflexão. Em relação aos recursos que podem ser mobilizados, Le Boterf (2006) indica que podem ser oriundos dos recursos pessoais do indivíduo, como conhecimentos, saber-fazer, capacidades cognitivas, entre outros, e recursos oriundos do contexto em que ele se encontra, como redes de operações, competências de colegas, base de dados, por exemplo. As ações e resultados, por sua vez, traduzem o saber agir de forma pertinente em relação à situação, acontecimento ou problema apresentado, com base nos recursos mobilizados; “saber agir não pressupõe o domínio de aspectos isolados, implica, sim, ser capaz de combinar diferentes operações”, de forma a atingir o objetivo desejado (LE BOTERF, 2006, p. 62). A reflexividade, ou distanciamento, refere-se à dimensão em que o indivíduo irá analisar a sua prática em relação a um dado acontecimento e aos resultados obtidos. O indivíduo, no que diz respeito a essa dimensão, para Le Boterf (2006, p. 63): Deve, pois, possuir uma dupla compreensão: a da situação sobre a qual intervém e a forma como o faz. Esta inteligência das situações e este conhecimento dele próprio pressupõem um distanciamento, necessário para poder melhorar as suas práticas profissionais. Leonard de Araújo Carvalho 45 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO [...] Este trabalho de reflexividade não leva à simples reprodução de como se agiu ou dos recursos utilizados, mas sim a uma reconstrução da realidade: consiste na construção de esquemas operatórios, de modelos cognitivos, de esquemas de acção que poderão dar lugar a generalizações e que contribuirão para a construção do profissionalismo da pessoa envolvida. (LE BOTERF, 2006. p. 63) Figura 2: Interação das dimensões que constituem a competência, segundo Le Boterf (2006) Fonte: Le Boterf (2006, p. 61). Em uma concepção semelhante, Zarifian (2012) apresenta três enunciados para o termo competência, com diferentes enfoques. O primeiro enfoque é dado às mudanças na organização do trabalho, em função do recuo da prescrição e do aumento da autonomia, e, sob esse aspecto, a competência é definida como “o ‘tomar iniciativa’ e o ‘assumir responsabilidade’ do indivíduo diante de situações profissionais com as quais se depara” (ZARIFIAN, 2012, p. 68). O autor destaca que os termos “tomar iniciativa” e “assumir responsabilidade” estão relacionadas à autonomia que o indivíduo possui no modelo de competência e suas consequências. Tomar iniciativa “significa que o ser humano não é um robô aplicativo, que possui capacidades de imaginação e de intervenção que lhe permitem abordar o singular e o imprevisto” (ZARIFIAN, 2012, p. 69), apoiado em seu repertório de conhecimentos, experiências, etc. Já o assumir a responsabilidade é a contrapartida da autonomia, ou seja, o indivíduo é responsável pelas decisões que toma e pelas consequências Leonard de Araújo Carvalho 46 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO oriundas de tais decisões (ZARIFIAN, 2012, p. 71). Zarifian (2003, p. 85) esclarece, ainda, que “a autonomia é uma condição inevitável do desenvolvimento da competência; o coração desta última, no entanto, reside na tomada de iniciativa”. A segunda abordagem foca a dinâmica da aprendizagem, definindo a competência como “um entendimento prático de situações que se apoia em conhecimentos adquiridos e os transforma na medida que aumenta a diversidade das situações”. Destaca-se, nesse enfoque, que o indivíduo deva ter um entendimento prático, ou seja, analisar e compreender a situação que lhe é apresentada, auxiliado pelos conhecimentos que ele possui e que serão mobilizados para tal, e, a partir dessa situação singular ou de trabalho, será possível ampliar seus conhecimentos com base na experiência vivenciada (ZARIFIAN, 2012, p. 72). A terceira abordagem enfoca o trabalho em equipe e a corresponsabilidade dos indivíduos, sendo que, nesse caso, o autor apresenta a competência como “a faculdade de mobilizar rede de atores em torno das mesmas situações, é a faculdade de fazer com que esses atores compartilhem as implicações de suas ações, é fazê-los assumir áreas de coresponsabilidade” (ZARIFIAN, 2012, p. 74). A solução de problemas com certo grau de complexidade dificilmente pode ser dada de forma individual. Nesse aspecto, a atuação em conjunto (a mobilização da rede de atores) requer que todos os envolvidos compartilhem o objetivo proposto e que sejam corresponsáveis pelas ações a serem tomadas, o que, por vezes, não ocorre, em função da segmentação da empresa em vários setores, com tarefas interligadas, mas com objetivos distintos (ZARIFIAN, 2012). O conceito de competência apresentado por Isambert-Jamati (2003, p. 104) também destaca a necessidade do conhecimento do indivíduo como um dos elementos balizadores para poder decidir, ou seja, ter autonomia para tal, de forma a obter os resultados desejados. para ser “competente”, deve também, munido de conhecimento, poder decidir de maneira de intervir a fim de obter tal resultado com eficácia e economia de meios. Para intervir deve apelar para técnicas definidas, cuja extensão de aplicação ele conhece. Na maior parte das vezes, não as criou, mas tem a possibilidade de modificar um elemento e combinar vários esquemas preexistentes, ajustando ao caso tratado. (ISAMBERT-JAMATI, 2003, p. 104) Ressalta-se que Isambert-Jamati (2003) também destaca a centralidade no indivíduo, sendo a diferença em relação a vertente americana, que nesse caso o indivíduo age numa dada situação imprevista, mobilizando os seus saberes. Leonard de Araújo Carvalho 47 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Com base nas definições apresentadas, conclui-se que, de forma geral, a noção de competência está centrada no indivíduo, pois depende de suas ações, frente a uma dada situação, e do seu conhecimento ou saber, a ser utilizado como elemento balizador para sua tomada de decisão, de forma a ter o resultado desejado ou esperado. Destaca-se, ainda, que a competência se evidencia em situação prática, necessitando da ação do indivíduo. Segundo Ropé e Tanguy (2003, p. 16), “a competência é inseparável da ação”. De forma análoga, Perrenoud (1999, p. 7) ressalta que a noção de competência inclui a necessidade do indivíduo de ter “uma capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação”. Em sua definição, Fleury e Fleury (2000, p. 21) reforçam a necessidade de “um saber agir responsável e reconhecido”. O conhecimento é também elemento fundamental para a competência, uma vez que irá apoiar as decisões e ações do indivíduo nas situações práticas, de maneira que ele possa obter os resultados almejados com suas ações. Segundo Zarifian (2012, p. 72) “não há exercício da competência sem um lastro de conhecimentos que poderão ser mobilizados em situação de trabalho”. Por sua vez, Perrenoud (1999, p. 7) ressalta que, “para enfrentar uma situação da melhor maneira possível, deve-se, via-de-regra, por em ação e em sinergia vários recursos cognitivos complementares, entre os quais estão os conhecimentos”. Destaca-se que o conhecimento é importante, mas observa-se que ele deve ser mobilizado de forma adequada, ou seja, não basta que o indivíduo seja dotado de grande conhecimento sobre algo, fazendo-se necessária uma conexão entre a teoria e prática, o que lhe permite fazer uso desse conhecimento no momento oportuno e de forma adequada diante de dada situação. Observa-se que a noção de competência está associada a elementos como o trabalho em grupo, a comunicação, responsabilidade e ética, uma vez que o aumento da complexidade das situações vividas pelo indivíduo, na maioria das vezes, impossibilita que ele atue de forma isolada, sendo necessária, para alcançar seus objetivos, a atuação em equipe. Outro ponto a se destacar, na noção de competência, é que o indivíduo deve buscar o aprendizado e o conhecimento oriundos das situações singulares com as quais se depara, aumentando o seu repertório de saber e ações para situações futuras que irá enfrentar. Autores como Le Boterf e Zarifian apresentam definições de competência segundo a concepção francesa, em que o modelo de competência tem por objetivo romper com a lógica taylorista e propor uma nova forma de organização do trabalho, com o foco no indivíduo. Por outro lado, a linha de conceituação americana propõe a competência como um elemento do indivíduo e que irá contribuir para o desempenho ótimo na execução de suas Leonard de Araújo Carvalho 48 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO tarefas. Propõe, ainda, uma prescrição dessas competências em função do tipo de tarefa a ser realizada. Observa-se que o conceito americano reforça o modelo taylorista, residindo, nesse aspecto, uma das suas diferenças em relação à corrente francesa. Autores como Boyatzis, Spencer, McLand e McClelland são exemplos da vertente americana nos estudos sobre competência. Citado por Boyatzis (1982, p. 21, tradução nossa),20 Klemp apresenta o conceito de competência como “características básicas de uma pessoa que resultam numa performance efetiva e/ou superior numa tarefa”. Nesse aspecto, conforme discutido anteriormente, a competência é tratada como uma característica individual, que possibilita um desempenho superior e, para tanto, deve ser combinada com outros dois aspectos, que são o tipo de trabalho e o ambiente organizacional da empresa, relação representada na Figura 1 (Modelo esquemático da teoria do desempenho), apresentada no capítulo anterior. Esse conceito remete à prescrição do posto de trabalho do modelo taylorista, sendo atribuídas competências específicas para determinado posto de trabalho, e o indivíduo, para atingir o desempenho superior, deve possuir os conhecimentos, habilidade e atitudes, ou seja, as competências, prescritas para aquele posto de trabalho, reforçando, assim, as diretrizes tayloristas de organização do trabalho. Fernandes e Fleury (2007) consideram o conceito apresentado por Fleury e Fleury (2001, p. 21), de competência como “um saber agir responsável e reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos, habilidades, que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo”, como uma concepção equilibrada entre as definições francesa e americana, uma vez que aponta a importância da competência em agregar valor à empresa e também ao indivíduo, havendo a necessidade de mobilizar o seu conhecimento em situação de trabalho para a obtenção dos resultados desejados. Contudo, verifica-se a dificuldade em encontrar uma visão equilibrada entre as duas vertentes, uma vez que a linha francesa considera a competência como a ação do individuo em uma situação de incerteza, no imprevisto, no que está fora do manual, ao tempo que a linha americana define a competência como a ação do indivíduo, dentro da normalidade do processo, possibilitando um desempenho superior ou alta performance. Sob o ponto de vista dessa diferença não haveria possibilidade de uma visão equilibrada entre as duas vertentes. Destaca-se, por fim, que o conceito de competência, na forma estudada pelos franceses, continua polissêmico nos dias atuais, pois, como bem apontam Ropé e Tanguy 20 An underlying characteristic of a person which results in effective and/or superior performance in a job. Leonard de Araújo Carvalho 49 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO (2003, p. 16) os usos “da noção de competência não permitem uma definição conclusiva. Ela se apresenta, de fato, como uma dessas noções cruzadas, cuja opacidade semântica favorece seu uso inflacionado em lugares diferentes” ao passo que o conceito apresentada na linha americana é conclusiva. Ressalta-se, ainda, que a utilização do conceito de competência é crescente, sendo cada vez maior a quantidade de empresas e instituições de ensino que o adotam, em algum grau, os modelos a ele relacionados. 3.1 Qualificação e competência Uma discussão recorrente ao se pesquisar sobre a noção de competência é sua relação conflituosa com a noção de qualificação, ora vistas como conceitos opostos, ora como conceitos complementares. Nesse aspecto Ramos (2006, p. 41) esclarece que “a noção de competência não substitui ou supera o conceito de qualificação. Antes, ela o nega e o afirma simultaneamente, por negar algumas de suas dimensões e afirmar outras”. Laudares e Tomasi (2003) indicam que, tradicionalmente, os trabalhadores têm se distribuído, ao longo da estrutura hierárquica e vertical das empresas, em função de sua qualificação. Nesse aspecto, a qualificação do trabalhador está intimamente ligada ao seu grau de formação, ao seu diploma, para situar-se dentro da cadeia hierárquica da organização. Ramos (2006, p. 47) destaca que: A dimensão conceitual da qualificação é o que se refere, justamente à formação e ao diploma, portanto, ao nível de domínio dos conceitos e do conhecimento. Qualquer que seja seu modo de aquisição, esse reverte em um importante capital em todo seu uso profissional da noção de qualificação. O diploma é, então, frequentemente, perseguido como interface entre a formação e o emprego. Ele garantiria uma qualificação, um status, uma remuneração. (RAMOS, 2006, p. 47) Segundo Dubar (1999, p. 3), a noção de qualificação constituiu um indicador das transformações que “modificaram tanto a organização do trabalho industrial quanto a relação do trabalhador com o trabalho”, ao tempo que remete “ao valor social das tarefas realizadas e às modalidades – principalmente a duração – de formação dos trabalhadores”. Ainda, segundo Dubar (1999), a noção de qualificação emerge no debate francês, na década de 1950, impulsionada pela situação da França no pós-guerra, com os estudos de Naville, com uma concepção “relativista” sobre o tema, e de Friedmann, com uma concepção oposta, denominada “substancialista”. Segundo Stroobants citado por Ramos (2006, p. 44), o debate entre Naville e Friedmann gira “em torno do que seria realmente qualificável: o trabalho ou o trabalhador”. Leonard de Araújo Carvalho 50 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Friedmann indica que a qualificação seria de propriedade do posto de trabalho, enquanto Naville “centra a análise da qualificação no homem, porém, não como fenômeno técnico individualizado, mas como valor social e diferencial dos trabalhadores” (RAMOS, 2006, p. 45). Friedmann “via no artesanato a forma perfeita do trabalho qualificado” (COSTAS, 2007, p. 129) e, consequentemente, a divisão do trabalho, imposta pelo taylorismo, era a degradação do trabalho qualificado. Nesse sentido, a concepção de Friedmann de qualificação é definida pelo saber e pelo saber-fazer adquiridos no trabalho e na aprendizagem sistemática. Ela se encontra no trabalhador e se constrói com base no posto de trabalho. Melhor, o tipo de intervenção definido pelo posto de trabalho definirá a qualificação. (TOMASI, 2004, p. 148) Na concepção de Naville, a qualificação também se relaciona ao saber e ao saber-fazer do trabalhador, sendo a qualificação definida como o resultado de um processo de formação autônomo, independente da formação espontânea no trabalho. A qualificação é o saber e o saber fazer do trabalhador. Ela é relativa e suas formas dependem do estado de forças produtivas e das estruturas sócio-econômicas nas quais os trabalhadores se inserem. [...] Ou seja, contrariando George Friedmann, a qualificação não se reduz às qualidades intrínsecas ao indivíduo (suas habilidades ou seu saberfazer). (LAUDARES e TOMASI, 2000, p. 2) De acordo com Costa (2007, p. 129), “a qualificação veio fundar, naquele momento [década de 1950], uma correspondência construída coletivamente entre o saber-fazer, o emprego e o salário, de forma que o contrato de trabalho deveria estar em consonância com as condições gerais estabelecidas”. Ressalta-se que a noção de qualificação surge em um momento em que o taylorismo está em expansão. Laudares e Tomasi (2003, p. 1.245) indicam que, no âmbito francês, a noção de qualificação é influenciada pelo taylorismo, por ser construída no momento de seu desenvolvimento, “o que nos permite dizer que a qualificação tem o taylorismo como referência”. Se a qualificação tem o taylorismo como referência, a crise da década de 70, em que surgem novos modos de organização que tendem a romper com a lógica vigente, abriu espaço para a noção de competência, que emergiria no debate francês na década de 1980, ainda que elementos de sua discussão tenham sido iniciados na década anterior. As novas formas de trabalho, a produção flexível, a autonomia dos trabalhadores e a exigência de elementos subjetivos em seu novo modo de atuação destacavam elementos inéditos nas características necessárias ao exercício profissional: a imprevisibilidade ou Leonard de Araújo Carvalho 51 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO incerteza que passavam a reger o sistema produtivo. O emprego não está mais na razão direta da qualificação, pois outros conhecimentos são exigidos do trabalhador. Nesse aspecto, Ramos (2006, p. 36) aponta que “os novos paradigmas da produção exigiriam uma massa de conhecimentos e atitudes bastante diferentes das qualificações formais requeridas pelas organizações de trabalho de tipo taylorista-fordista”. Para Ferretti (2004), a adoção desse novo paradigma é que possibilitou o surgimento do modelo de competência e, consequentemente, a crise dos postos de trabalho, haja vista a necessidade de se repensar a qualificação. Hirata (1994, p. 133) salienta que “a imprecisão – o avesso da codificação que representa a classificação (dos cargos) – marca assim, a noção de competência”, sendo que Lerolle, citado por Hirata (1994, p. 133), destaca que, “quanto menos os empregos são estáveis e mais caracterizados por objetivos gerais, mais as qualificações são substituídas por ‘saber-ser’”. Com a adoção de novas formas de organização da produção, as características subjetivas do indivíduo assumem papel de destaque, assim, como apontam Helal e Rocha (2008, p. 9) “os saberes formais, cuja posse era normalmente atestada pelos diplomas (qualificação), perdem espaço para essa nova noção”. Arruda (2000) destaca que a qualificação remete ao posto de trabalho e ao salário, ao passo que a competência remete a características como subjetividade e imprecisão. Frente às novas características do trabalho e das formas de organização das empresas, Zarifian (2003, p. 35-36) propõe: O acordo é o seguinte: chamamos de “qualificação” o que sobressai dos recursos (em conhecimento, habilidade, comportamento...) adquiridos por um indivíduo, seja por formação ou por exercício de diversas atividades profissionais. E de “competência”, a utilização desses recursos na prática. Para retomar a expressão utilizada pelas organizações sindicais, a qualificação é a “caixa de ferramentas” que o assalariado tem. A competência diz respeito à maneira de utilizar concretamente essa caixa de ferramentas, de empregá-la. (ZARIFIAN, 2003, p.35-36) Destaca-se, por fim, que, ao passo que a qualificação era atestada por meio de certificados e diplomas, a noção de competência carece de uma forma objetiva de avaliação do indivíduo, pois que se refere a suas características subjetivas. Leonard de Araújo Carvalho 52 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 4 O ensino de Engenharia no Brasil Em que pesem as discussões sobre o início formal da Engenharia ou da utilização do termo “engenheiro”, fato é que, ao longo dos anos, os cursos de Engenharia vêm sofrendo transformações e evoluções constantes e de forma cada vez mais veloz, sendo, na maior parte dos casos, em virtude de diversas modificações, em especial, daquelas na seara política, social, tecnológica, científica e ideológica, ocorridas em âmbito nacional e mundial. Tais transformações refletiram em alterações na formação e atuação dos engenheiros de forma a atender as novas necessidades da sociedade e do mundo de trabalho, bem como foram alterados os seus objetivos e os requisitos necessários para o desempenho de suas atribuições. Assim como a atuação do engenheiro é modificada, a forma de ministrar os cursos de Engenharia nas Instituições de Ensino Superior é realinhada, inclusive nos aspectos legais, com alterações advindas da criação de novas especialidades e diretrizes curriculares a serem seguidas. Identificar e analisar as transformações ocorridas é fundamental para entender a posição atual da Engenharia e de seus profissionais, seus objetivos, formas de atuação, ideologias e competências. A partir dessa compreensão, pode-se verificar e avaliar com maior precisão e eficiência a compatibilidade entre as competências desenvolvidas durante a formação profissional e aquelas efetivamente essenciais na atuação prática. Para demonstrar e entender a gama de modificações nas características do ensino de Engenharia e na atuação profissional do engenheiro, apresenta-se, a seguir, um breve histórico da Engenharia no Brasil. O ensino formal de Engenharia no Brasil remonta ao final do século XVIII e início do século XIX. Segundo Silva e Santos (2008), com base em informações do Instituto Militar de Engenharia (1999), no Brasil, a Engenharia surge formalmente em 1810, com a fundação da Academia Real Militar, tornando-se a primeira escola de Engenharia da América, embora já existissem, em território nacional, cursos regulares de Engenharia, porém, no formato de aulas isoladas. Embora a Academia Real Militar tenha sido fundada em 1810, Telles (1994) esclarece que a data a ser considerada para o início formal do ensino de Engenharia no Brasil deve ser 1792, pois, como explica o autor: Leonard de Araújo Carvalho 53 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Em 1792, é criada no Rio de Janeiro a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, conforme estatutos aprovados em 17 de dezembro daquele ano pelo Vice-Rei D. Luiz de Castro, 2o Conde de Rezende. Essa Academia, que sucedeu a antiga Aula do Rio de Janeiro, não era uma simples aula como os cursos anteriores, tendo o caráter de um verdadeiro instituto de ensino superior, com organização comparável aos congêneres de sua época, como se depreende de seus estatutos. Foi assim o antecedente mais remoto da futura famosa Escola Politécnica e da atual Escola de Engenharia da UFRJ, que dela descendem em linha direta. O professor historiador Paulo J. Pardal, em exaustiva pesquisa no Arquivo Nacional, localizou estatutos dessa Academia, e descobriu o fato importante de que professores e alunos dela foram transferidos para a futura Academia Real Militar, quando essa foi fundada em 1810. Para provar isto, basta dizer que a Academia de 1810 começou a funcionar com alunos matriculados em todos os seus anos, que não podiam deixar de ser os alunos dos anos correspondentes na outra Academia. Dessa forma, é indiscutível que a Academia Real Militar foi de fato uma continuação, sem solução de continuidade, da Academia de 1792, e portanto a data de início formal dos cursos de engenharia no Brasil é 1792, e não 1810, como foi considerado até agora. (TELLES, 1994, p. 87) O primeiro aspecto ressaltado por Kawamura (1979) é que, em sua origem, os cursos de Engenharia, no Brasil, eram voltados para as classes mais favorecidas e formavam um profissional voltado para a ocupação de cargos com poder de mando. Fato reforçado pela maneira como os cursos eram ministrados, que, em geral, consistia em aulas em horário integral e com poucas vagas, reforçando o seu direcionamento para formação de alunos pertencentes à elite social. Outro ponto relevante é que, devido às características brasileiras da época, com grande foco na agroexportação e sem um parque industrial, os cursos de Engenharia, tinham caráter essencialmente enciclopédico, ou seja, sua principal característica era um ensino teórico e genérico. Alterações nas características dos cursos somente ocorreriam após a crise de 1929. A partir daí, as alterações políticas nos anos subsequentes, em especial, a mudança do controle da sociedade civil para a sociedade política, alteraram o cenário econômico do Brasil e, consequentemente, o ensino de Engenharia e a forma de atuação do engenheiro, sendo uma das grandes transformações é que a Engenharia passa a ter um ensino mais pragmático, voltado para aspectos práticos da formação do engenheiro. O caráter pragmático, no Brasil, foi também reforçado pela grande influência dos Estados Unidos, através do investimento de empresários e a atuação de profissionais norte-americanos em território nacional (KAWAMURA, 1979). Segundo Tonini (2009), a década de 1930 também se destaca, em função das alterações de aspectos legais da Engenharia, como o Decreto nº 19.851, de 11 de abril de Leonard de Araújo Carvalho 54 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 1931, que institui o Estatuto das Universidades Brasileiras, que, na prática, cria as universidades, com o objetivo de unificar a administração, facilitar o controle, fiscalização e planejamento, não somente na Engenharia, mas nos diversos cursos existentes no país. Outra consequência da reforma do ensino superior brasileiro é a intensificação das reivindicações para a profissionalização dos engenheiros, que acaba por ocorrer com a publicação do Decreto nº 23.569, de 11 de dezembro de 1933, para regulamentação da atividade de engenheiros arquitetos e agrimensores. Nesse período, também se observa uma preocupação dos professores em preparar os formandos para a ocupação de cargos com poder de mando e, consequentemente, a necessidade de se compreender as relações sociais, econômicas e políticas, contudo, pouco era realizado na formação do engenheiro nesse sentido (KAWAMURA, 1979). Nesse último aspecto, ressalta-nos a preocupação existente em incutir no futuro engenheiro seu papel de dirigente no exercício de suas funções e a importância da formação específica, para ocupar aquela posição [...]. Os conhecimentos referentes a aspectos humanos, que eram colocados como necessários para a sua posição de mando na divisão social do trabalho, restringiam-se a normas e técnicas específicas de administração, sem atingir as áreas que possibilitassem uma compreensão da realidade econômica, social e política na qual ele iria atuar. (KAWAMURA, 1979, p. 79-80). Embora na década de 30 já houvesse uma preocupação na formação do engenheiro em searas não técnicas, as influências politicas da época, em especial, a dos Estados Unidos não permitiram tais desenvolvimentos. A próxima alteração relevante iria ocorrer com o fim da Segunda Guerra Mundial, com profundas alterações no cenário político-econômico da época, sobretudo, pelo aumento da influência norte-americana, acentuando o caráter pragmático dos cursos de Engenharia. Embora houvesse a preocupação em adotar uma formação política e econômica para o engenheiro, as fortes influências norte-americanas acabariam por inviabilizar tais pretensões. Observa-se que a década de 1950, com o grande desenvolvimento econômico e com a modernização e industrialização do país, confere, segundo Tonini (2009, p. 29), um ambiente favorável para o avanço da Engenharia, com iniciativas representativas, como a criação da Petrobrás (03/10/53) e, na década subsequente, da Eletrobrás (13/01/62). O golpe militar de 1964 aumenta a influência norte-americana nos cursos de Engenharia e, como havia ocorrido anteriormente, reforça o caráter pragmático na formação do engenheiro. A influência norte-americana nesse período pode ser verificada pelos acordos realizados entre os governos brasileiro e norte-americano, em especial o MEC/USAID, assinado em 1967. Leonard de Araújo Carvalho 55 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO A United States Agency for Internaticonal Development (USAID) discordava do sistema de ensino brasileiro, defendendo uma forma pragmática para a formação do engenheiro, com a eliminação de disciplinas que não fossem ligadas a conhecimentos técnicos, a exemplo, as relacionadas com as áreas sociais e humanas. A forte exigência do caráter pragmático, focado nos conhecimentos técnicos, era também adotada na política interna de formação dos Estados Unidos, impulsionada pela Guerra Fria, em que o desenvolvimento tecnológico, a qualquer preço, era premissa para se manter a frente do bloco liderado pela então URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). O plano que a USAID tem para o Brasil é remodelar as universidades de acordo com o que os planejadores pensam ser a melhor parte do sistema universitário americano- basicamente incrementar a educação técnica. [...] Os planejadores educacionais, de maneira quase geral, recomendam que os países subdesenvolvidos abandonem sua ênfase nas humanidades, direito e artes e ciências sociais, sem aplicação prática e treinem mais gente nas ciências, engenharia e administração de negócios. (GOERTZEL apud KAWAMURA, 1979, p. 84) Segundo Tonini (2009, p. 31), em 1968, é realizada a Reforma Universitária, resultado da pressão dos estudantes oriundos da classe média, tendo como base o Relatório Atcon e o Relatório Meira Matos, sendo balizada no modelo da UnB, que, por sua vez, fora inspirado no modelo americano de universidade. A reforma favoreceu a Engenharia, com a criação de doze novos cursos e o cenário da época continuaria propício ainda no início da próxima década. O período de 1968-1973, denominado o “milagre econômico” resultou em taxas altas de crescimento, que foram interrompidas pela crise do petróleo, em 1973, contudo, nos anos seguintes, ainda existiu um fortalecimento da área no Brasil, com a realização de grandes obras, como Itaipu e a Ponte Rio-Niterói. Também se destaca, nesse período, a grande presença de mão-de-obra estrangeira, influenciando as características dos profissionais a serem formados, contribuindo para um caráter tecnicista dos cursos de Engenharia, desde 1968 (TONINI, 2009). Em 1976, é publicada a Resolução nº 48/76, primeira legislação a definir os currículos mínimos dos cursos de Engenharia, reafirmando a característica tecnicista dos mesmos. Essa resolução vigorou até a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1996 (LDB 9394/96), que possibilitou a flexibilização dos currículos. Leonard de Araújo Carvalho 56 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 4.1 Um novo perfil em formação No final da década de 90 há um intenso debate sobre o perfil desejado para o engenheiro do século XXI. Era fato que as Diretrizes de 76 necessitavam ser atualizadas e a LDB de 96 não tratava especificamente os cursos de Engenharia. Salum (1999, p114) destacava que: Atualmente, os currículos de engenharia vêm sendo duramente criticados pelos setores empregadores quanto à falta nestes de conteúdos de ciências humanas, sociais e gerenciais, no que eles estão absolutamente corretos. O mundo mudou a era dos atributos apenas técnicos para os engenheiros ficou para trás. Hoje, na era da informação e do conhecimento, outros atributos, enraizados em conhecimentos não técnicos, são essenciais para a empregabilidade do engenheiro. (SALUM, 1999, p. 114) A necessidade de alteração nos currículos dos cursos de Engenharia do Brasil, que formavam um engenheiro de caráter tecnicista, era visível no meio acadêmico e empresarial, observando-se que, no exercício profissional, eram requeridos do engenheiro conhecimentos e competências não técnicas, além, claro, de grande conhecimento especializado. Estudos como os de Ferreira (1999), Salum (1999) e Souza (1999), apontaram a necessidade de uma maior abrangência ou diversificação das características dos futuros engenheiros, em função da nova realidade em que estavam inseridos. Diante das dificuldades de um mercado muito competitivo, certamente qualidade, competência e atitudes são fundamentais. Além disso, é necessário saber trabalhar em equipe, ser criativo e ético, ter espírito empreendedor, capacidade de planejar e aprender, ter garra e vontade de vencer, saber comunicar-se e gerenciar. (SOUZA, 1999, p. 124) Ferreira (1999), em sua pesquisa, elencou como atributos necessários aos engenheiros o conhecimento técnico para a compreensão de novas tecnologias, o trabalho em equipe, a formação continuada, a capacidade de projetar e conduzir experimentos, reconhecer a importância da atuação profissional, capacidade de comunicação oral e escrita, capacidade de antever e entender os impactos das ações de engenharia no âmbito social e ambiental, capacidade de integrar os conhecimentos técnico-científicos, ter iniciativa, ter tido convivência no ambiente científico-tecnológico, capacidade em informática, capacidade de análise crítica dos modelos empregados na engenharia, capacidade de gerenciar e operar sistemas complexos, capacidade criativa e espírito empreendedor. A pesquisa de Salum (1999) destacou a necessidade de conhecimentos científicos e tecnológicos, o de informática e de gerência, e as capacidades de empreendedorismo e liderança, trabalho em equipe, comunicação oral e escrita, incluindo um segundo idioma, a Leonard de Araújo Carvalho 57 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO capacidade de perceber o papel social e ambiental da engenharia, além da necessidade de formação continuada do profissional, de forma autônoma. Observa-se que, de modo geral, as competências requeridas dos engenheiros estão relacionadas ao conhecimento técnico, trabalho em equipe e multidisciplinar, iniciativa, atuação com consciência dos impactos de suas ações na cadeia produtiva e na sociedade e aprendizado constante (educação continuada). Em pesquisa solicitada pela Escola Politécnica da USP, em 1995, com foco no mercado de trabalho, identificou-se um conjunto de características que corroboravam as análises anteriores. De acordo com Moraes (1999, p. 58), no referido relatório: observou-se que, de um conjunto de 72 características, os 10 atributos mais valorizados pelo mercado de trabalho obtiveram o seguinte destaque: 1o – Indivíduo comprometido com a qualidade do que faz. 1o – Com habilidade de trabalhar em equipe. 2o – Com habilidade para conviver com mudanças. 3o – Com visão clara do papel do cliente consumidor. 3o – Com iniciativa para tomada de decisões. 3o – Usuário das ferramentas básicas de informática. 4o – Com domínio do inglês. 5o – Fiel para a organização em que trabalha. 6o – Que valoriza a ética profissional. 6o – Com ambição profissional/vontade de crescer. 7o – Capacitado para o planejamento. 7o – Com visão das necessidades do mercado. 8o – Que valoriza a dignidade/tem honra pessoal. 9o – Com visão do conjunto da profissão. 9o – Com habilidade para economizar recursos. 10o – Preocupado com a segurança no trabalho. 10o – Com habilidade para conduzir homens. Os estudos realizados também demonstravam que as competências não técnicas estavam intensamente apresentadas como necessárias ao engenheiro para sua atuação de forma plena, reforçando a ideia de que não bastava apenas o conhecimento técnico para uma boa formação profissional. Em decorrência da necessidade crescente de atualização dos currículos dos cursos de Engenharia, bem como da pressão exercida pelo meio acadêmico e pelo mercado de trabalho, o MEC publicou o Edital nº 04/97, com o objetivo de realizar a discussão com as Instituições de Ensino Superior e com a sociedade científica sobre as novas diretrizes curriculares a serem elaboradas para os cursos de graduação em Engenharia. Em 2002, como resultado desse edital, foram aprovadas as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia no Brasil, Resolução nº 11/2002 (CNE/CES), com avanços significativos em relação à legislação de 1976. As novas Diretrizes Curriculares passam a definir um novo perfil do egresso, voltado para uma sólida formação técnica e aquisição de habilidades e Leonard de Araújo Carvalho 58 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO competências, com certa flexibilidade para a instituição atingir tal objetivo, a ser explicitado em seu projeto político pedagógico, em substituição ao foco na grade curricular da legislação anterior. O ensino deixa de ser centrado no professor e passa a ser centrado no aluno, e o currículo, antes focado no conteúdo, passa a priorizar o desenvolvimento de habilidades e competências. Segundo Ferreira (1999, p. 130), tal ação desencadeou “uma nova tendência curricular que, ao invés de impor um currículo mínimo, visa definir diretrizes curriculares com o objetivo de servir de referência para as IES na organização dos seus programas de educação”. O Quadro 3 apresenta os principais pontos da legislação de 1976 e 2002, de forma comparativa. Quadro 3: Comparação entre as Resoluções CFE nº 48/76 e CNE/CES nº11/2002 Dado de comparação Perfil do egresso CFE 48/76 Não estabelece. CNE/CES 11/2002 Sólida formação técnica-científica e profissional geral, etc. Adquirir competências e habilidades. Projeto de curso A principal exigência era a grade curricular O projeto político pedagógico é uma exigência e deve deixar claro como as atividades acadêmicas levam à formação do perfil profissional. Organização Curricular Currículo Mínimo – Grade de disciplinas com prérequisitos. Fim do Currículo Mínimo – flexibilização curricular, nova concepção de currículo. Parte comum – formação básica e formação geral; Núcleo de conteúdos básicos (30%); Currículo Parte diversificada – formação geral e específica; Núcleo de conteúdos profissionalizantes (15%); Disciplinas exigidas por legislação específica. Extensões e aprofundamentos dos conteúdos do núcleo profissionalizante (demais 55%). Centrado no conteúdo. Habilidades e competências. Metodologia de ensino/aprendizagem Não menciona. Prevê que o curso deve utilizar metodologias de ensino e aprendizagem, capazes de garantir o desenvolvimento de habilidades e competências. Foco do processo de ensino/aprendizagem Centrado no professor. Centrado no aluno. Papel do aluno Predominantemente passivo. Predominantemente ativo. Foco do currículo Fonte: adaptado de Pinto, Portela e Oliveira, 2003, p. 3. Leonard de Araújo Carvalho 59 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Observa-se que as Novas Diretrizes Curriculares definem um ensino centrado no aluno e com enfoque que permita o desenvolvimento das habilidades e competências elencadas no referido documento. De acordo com Pinto et al. (2003) já havia a preocupação, quando do VIII Encontro de Educação em Engenharia, em 2002, quanto à necessidade de se formar um profissional que tivesse a capacidade técnica aliada à responsabilidade social e política, sendo necessário, para tal, acrescentar aspectos críticos, éticos e filosóficos à boa formação técnica existente. Contudo, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação em Engenharia não trazem em sua redação a definição adotada para competências e habilidades. Pesquisando na base de documentos do MEC, foi possível encontrar a definição de competência no documento básico do ENEM/INEP (2002), e a definição de competência profissional na Resolução CNE/CEB nº 04/1999, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Nível Técnico, e na Resolução CNE/CP nº 03/2002, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a organização e o funcionamento dos cursos superiores de tecnologia. O documento do ENEM/INEP conceitua competência e habilidade, fazendo a distinção entre ambas, apresentando um conceito de habilidade como um saber-fazer das competências desenvolvidas, o que remete ao conceito apresentado por Perrenoud (1999, p. 26): quando o indivíduo realiza “‘o que deve ser feito’ sem se quer pensar, pois já o fez, não se fala mais em competências, mas sim em habilidades ou hábitos”. Segundo o documento do ENEM/INEP: Competências são as modalidades estruturais da inteligência, ou melhor, ações e operações que utilizamos para estabelecer relações com e entre objetos, situações, fenômenos e pessoas que desejamos conhecer. As habilidades decorrem das competências adquiridas e referem-se ao plano imediato do “saber-fazer”. Por meio das ações e operações, as habilidades aperfeiçoam-se e articulam-se, possibilitando nova reorganização das competências. (BRASIL, 2002a, p. 11) As Resoluções CNE/CEB nº 04/1999 e CNE/CP nº 03/2002 apresentam a definição de competência profissional e, embora existam algumas diferenças no texto adotado, ambas remetem à necessidade de mobilizar, articular e colocar em ação os repertórios do indivíduo para o desempenho eficaz em sua prática profissional. Verificam-se, nessas definições, traços da corrente francesa, especialmente no que se refere à mobilização dos recursos ou repertórios do indivíduo para solução das situações de trabalho, porém, apesar do esforço do CNE, bem como do uso do verbo mobilizar, a definição apresentada remete fortemente a vertente Leonard de Araújo Carvalho 60 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO americana de competência, em especial, a necessidade de conhecimento, habilidades e atitudes para o desempenho superior, assim como. Art. 6º – Entende-se por competência profissional a capacidade de mobilizar, articular e colocar em ação valores, conhecimentos e habilidades necessários para o desempenho eficiente e eficaz de atividades requeridas pela natureza do trabalho. (BRASIL, 1999 – Resolução CNE/CEB nº 04/1999) Art. 7º – Entende-se por competência profissional a capacidade pessoal de mobilizar, articular e colocar em ação conhecimentos, habilidades, atitudes e valores necessários para o desempenho eficiente e eficaz de atividades requeridas pela natureza do trabalho e pelo desenvolvimento tecnológico. (BRASIL, 2002c – Resolução CNE/CP nº 03/2002) É importante destacar que o CONFEA (Conselho Federal de Engenharia Arquitetura e Agronomia), em sua Resolução nº 1010, de 22 de agosto de 2005, que dispõe sobre a regulamentação da atribuição de títulos profissionais, atividades, competências e caracterização do âmbito de atuação dos profissionais inseridos no Sistema CONFEA/CREA, para efeito de fiscalização do exercício profissional, conceitua a competência profissional de seus membros de forma semelhante à utilizada pelo MEC nas resoluções acima citadas, com uma definição voltada para o conceito americano de competência. Capítulo I [...] Art. 2o [...] VII – competência profissional: capacidade de utilização de conhecimentos, habilidades e atitudes necessários ao desempenho de atividades em campos profissionais específicos, obedecendo padrões de qualidade e produtividade; (BRASIL, 2005 – Resolução CONFEA nº 1010/2005) Além de as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação de Engenharia focarem o ensino nas competências, também são definidas, no art. 4o, quais são as competências e habilidades gerais que o engenheiro deve possuir, a saber: I - aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia; II - projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados; III - conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos; IV - planejar, supervisionar, elaborar e coordenar projetos e serviços de engenharia; V - identificar, formular e resolver problemas de engenharia; VI - desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas; VI - supervisionar a operação e a manutenção de sistemas; VII - avaliar criticamente a operação e a manutenção de sistemas; VIII - comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; IX - atuar em equipes multidisciplinares; X - compreender e aplicar a ética e responsabilidade profissionais; Leonard de Araújo Carvalho 61 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO XI - avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; XII - avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia; XIII - assumir a postura de permanente busca de atualização profissional. (BRASIL, 2002b – Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação de Engenharia – Resolução CNE/CES nº 11/2002) Observa-se que as competências listadas incluem aquelas de caráter não técnico, como o trabalho em equipe e a formação continuada, por exemplo. Ao se comparar com as pesquisas supracitadas, pode-se observar que diversos pontos indicados como importantes para o engenheiro contemporâneo foram contemplados nas diretrizes de 2002. O Quadro 4, apresentado a seguir, agrupa, por semelhança, as características apontadas pelas pesquisas e aquelas constantes nas Diretrizes Curriculares Nacionais. Analisando os dados do Quadro 4, pode-se verificar que as Diretrizes Curriculares passam a conter os elementos que haviam sido assinalados pelas pesquisas anteriores. No caso das três pesquisas, entre as várias realizadas, utilizadas para fins de comparação, treze das quatorze competências definidas nas diretrizes já haviam sido detectadas como necessárias. Ainda em análise do Quadro 4 pode se verificar que os itens mais frequentemente detectados nas pesquisas e que passaram a compor as Diretrizes Curriculares Nacionais são: I - aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia; VIII - comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; IX - atuar em equipes multidisciplinares; X - compreender e aplicar a ética e responsabilidade profissionais; XI avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; XI - avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental e XIII - assumir a postura de permanente busca de atualização profissional. Leonard de Araújo Carvalho 62 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Quadro 4: Comparação entre as competências definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Engenharia (2002) e aquelas apontadas por estudos como importantes para a atuação do engenheiro contemporâneo DCN (2002) Pesquisa USP (1995) I - aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia; Salum (1999) conhecimento científico e tecnológico para vencer os desafios da constante e rápida evolução do conhecimento; II - projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados; Ferreira (1999) ser portador de conhecimentos sólidos das ciências básicas, para a compreensão de das novas tecnologias; ser capaz de projetar e conduzir experimentos com visão científica analisar e interpretar os resultados; III - conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos; IV - planejar, supervisionar, elaborar e coordenar projetos e serviços de engenharia; V - identificar, formular e resolver problemas de engenharia; capacitado para o planejamento; capacidade para solução de problemas; VI - desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas; ser capaz de integrar conhecimentos técnico-científicos no sentido da inovação e da solução de problemas tecnológicos; VI - supervisionar a operação e a manutenção de sistemas; ser capaz de gerenciar e operar sistemas complexos de engenharia; VII - avaliar criticamente a operação e a manutenção de sistemas; Leonard de Araújo Carvalho 63 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO DCN (2002) Pesquisa USP (1995) VIII - comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; IX - atuar em equipes multidisciplinares; com habilidade de trabalhar em equipe. X - compreender e aplicar a ética e responsabilidade profissionais; que valoriza a ética profissional; Salum (1999) capacidade de comunicação oral e escrita em mais de uma língua, uma delas sendo necessariamente o inglês; ser capaz de comunicar efetivamente nas modalidades oral e escrita; capacidade para o trabalho em equipe multidisciplinar; ser capaz de atuar em equipes multidisciplinares envolvendo especialistas tanto das ciências básicas quanto das ciências aplicadas; estar convencido da importância de atuar profissionalmente com responsabilidade e dentro da ética; que valoriza a dignidade/tem honra pessoal; preocupado com a segurança no trabalho. XI - avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; XII - avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia; XIII - assumir a postura de permanente busca de atualização profissional. Fonte: elaborado pelo autor. Ferreira (1999) capacidade para perceber e exercer o papel social e ambiental da engenharia; ser capaz de antever e entender o impacto das soluções de engenharia no contexto social e ambiental; capacidade para a aquisição autônoma e permanente da informação e do conhecimento; estar convencido da necessidade da educação continuada para acompanhar a dinâmica das novas tecnologias; com habilidade para economizar recursos. Leonard de Araújo Carvalho 64 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Embora as necessidades detectadas pelos estudos, no Brasil, possam ser relacionadas aos itens constantes na definição das Diretrizes Curriculares Nacionais, observa-se, aqui, a influência americana, uma vez que os critérios de acreditação dos cursos norte-americanos, alterados no ano 2000, são muito semelhantes aos adotados nas diretrizes brasileiras, inclusive no que se refere a sua redação, como pode se observar no Quadro 5, a seguir. Quadro 5: Comparativo entre as competências definidas pela ABET (2000) e aquelas definidas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Engenharia (2002) ABET (2000) DCN (2002) (a) an ability to apply knowledge of mathematics, science, and engineering I - aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia (b) an ability to design and conduct experiments, as well as to analyze and interpret data II - projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados; (c) an ability to design a system, component, or process to meet desired needs within realistic constraints such as economic, environmental, social, political, ethical, health and safety, manufacturability, and sustainability III - conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos; XII - avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia; IV - planejar, supervisionar, elaborar e coordenar projetos e serviços de engenharia; VI - supervisionar a operação e a manutenção de sistemas; VII - avaliar criticamente a operação e a manutenção de sistemas; (d) an ability to function on multidisciplinary teams IX - atuar em equipes multidisciplinares; (e) an ability to identify, formulate, and solve engineering problems V - identificar, formular e resolver problemas de engenharia; (f) an understanding of professional and ethical X - compreender e aplicar a ética e responsabilidade profissionais; responsibility (g) an ability to communicate effectively VIII - comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; (h) the broad education necessary to understand XI - avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto the impact of engineering solutions in a global, social e ambiental; economic, environmental, and societal context (i) a recognition of the need for, and an ability to engage in life-long learning (j) a knowledge of contemporary issues XIII - assumir a postura de permanente busca de atualização profissional. Leonard de Araújo Carvalho 65 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO (k) an ability to use the techniques, skills, and modern engineering tools necessary for engineering practice. VI - desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas; Fonte: elaborado pelo autor. Salienta-se que as pesquisas realizadas no Brasil, pelas IES, haviam levantado elementos suficientes para a definição das competências a serem contempladas nas Diretrizes Curriculares, não havendo necessidade de se utilizar elementos tão semelhantes aos da ABET, em que pese à tendência de homogeneização de perfil do engenheiro, em nível mundial, bem como das competências requeridas em sua atuação. A inclusão das competências no foco curricular das Diretrizes Nacionais indica uma sintonia do ensino de Engenharia no Brasil com o de diversos outros países, como, por exemplo, os países europeus, em especial, os aderidos à Declaração de Bolonha; assinada em 1999, conta hoje com mais de quarenta países, e define os princípios que regem a formação a ser alcançada nos cursos de graduação, incluindo a Engenharia, e que deu destaque para a importância da competência nos curso de graduação, conforme relatório da EHEA.21 A integração dos cursos brasileiros com o cenário mundial é importante, uma vez que a sedimentação do processo de globalização tendeu a diminuir os impactos regionais na forma de atuação da engenharia, com isso, o perfil do engenheiro contemporâneo vem se tornando cada vez mais homogêneo; se, anteriormente, existiam grandes diferenças de formação ou perfil em função da situação econômica, tecnológica e fabril de cada país, hoje, essas diferenças tendem a ser minimizadas. Tendo em vista a configuração e os desafios do mundo contemporâneo, as novas Diretrizes Curriculares, de fato, passaram a traçar um novo perfil do egresso dos cursos de Engenharia, constituído de competências técnicas e não técnicas. Nesse aspecto, Tonini (2009) afirma que O rompimento da dependência científica e tecnológica do Brasil previsto na reforma atual do ensino superior buscará privilegiar a formação em Engenharia. Tornou-se necessário formar um novo profissional da área para atender à demanda do mundo do trabalho, com uma formação que lhe confira novo perfil, com visão crítica humana, social, reflexiva, generalista e tecnológica, conforme propõem as novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Engenharia publicadas em 2002. (TONINI, 2009, p. 41) 21 Como desdobramento da Declaração de Bolonha, em 2005, foi publicado o A Framework for Qualifications of the European Higher Education Area (EHEA), resultado do estudo realizado por um grupo de trabalho com membros de diversos países europeus, para definição dos elementos balizadores da reestruturação dos cursos no âmbito dos países signatários da referida declaração. Leonard de Araújo Carvalho 66 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Verifica-se, por fim, que o ensino de Engenharia passou por várias transformações, começando por um caráter essencialmente enciclopédico, passou a ser fortemente pragmático, posteriormente, tecnicista e, nos tempos atuais, com objetivo de formar um profissional de perfil generalista, o que ocasionou alteração nas competências que são esperadas em sua atuação. Contudo, observam-se nesse profissional atual traços de formação de todas as épocas. A Figura 3, a seguir, apresenta a linha do tempo, com os principais marcos históricos da Engenharia, com o objetivo de se obter uma visualização esquemática da evolução e influência do contexto histórico, político e social sobre a Engenharia, no Brasil. Leonard de Araújo Carvalho COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Figura 3: Linha do tempo e os principais marcos históricos da Engenharia no Brasil Fonte: elaborado pelo autor. 5 Metodologia 67 Leonard de Araújo Carvalho 68 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Constitui etapa fundamental da pesquisa a explicitação da metodologia adotada como norteadora dos passos a serem executados, a fim de se atingir os objetivos propostos. Ressalta-se que a escolha da metodologia a ser seguida não é aleatória, como bem indicam Cervo e Bervian (1983, p. 23): “o método não se inventa. Depende do objeto da pesquisa”. Nesse mesmo aspecto, Mazzotti e Gewandsznajder (1998) apontam que não há metodologia boa ou ruim, ela deve ser compatível com o objeto a ser estudado. Segundo Lakatos (2003, p. 83), “o método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros –, traçando o caminho a ser seguido”. Segundo Mazzotti e Gewandsznajder (1998, p. 161), os procedimentos metodológicos devem incluir “as etapas de desenvolvimento da pesquisa, a descrição do contexto, o processo de seleção dos participantes, os procedimentos e o instrumental de coleta e análise de dados”, permitindo planejar como a pesquisa será desenvolvida e antever os possíveis obstáculos em sua execução. 5.1 Tipo de pesquisa e abordagem metodológica A pesquisa realizada foi do tipo qualitativa. Godoy (1995, p. 62) destaca que a pesquisa qualitativa é aquele que tem como foco “fundamental o estudo e a análise do mundo empírico em seu ambiente natural”. Segundo Minayo (1996, p. 24), pesquisa qualitativa é aquela que não se preocupa em quantificar, mas sim em compreender e explicar a dinâmica das relações sociais que, por sua vez, são depositárias de crenças, valores, atitudes e hábitos. Trabalha com a vivência, com a experiência, com a cotidianidade e também com a compreensão das estruturas e instituições como resultados da ação humana objetivada. (MINAYO, 1996, p. 24) Godoy (1995, p. 62) ressalta que, “rejeitando a expressão quantitativa, numérica, os dados coletados aparecem sob a forma de transcrições de entrevistas, anotações de campo, fotografias, videoteipes, desenhos e vários tipos de documentos”. Sendo assim, além do aspecto qualitativo, destaca-se o caráter descritivo da pesquisa. Gil (1999) denota que a pesquisa descritiva tem como objetivo a descrição ou a caracterização do fenômeno objeto de estudo. Pelo exposto, resta esclarecer que a escolha do tipo e modo de abordagem, pelos procedimentos metodológicos adotados, atende ao objetivo de se compreender as questões levantadas. Leonard de Araújo Carvalho 69 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 5.2 Delimitação do universo da pesquisa (sujeitos da pesquisa) A presente dissertação utilizou os dados obtidos pelo grupo de pesquisa FORQUAP, do qual faço parte, no período de 2010 a 2012. Nesse período o FORQUAP pesquisou, com financiamento e apoio do CNPq, as relações produtivas na situação de trabalho dos profissionais técnico, tecnólogo e engenheiro de empresas mineiras. As empresas pesquisadas concentram-se nas áreas automobilística, energia, mineração e metalurgia, em função da sua grande representatividade no Estado de Minas Gerais. A pesquisa contou com a participação de 06 (seis) empresas atuantes no estado de Minas Gerais, de setores como mineração, metalurgia e fornecimento de energia. Foram entrevistados um total de 68 (sessenta e oito) indivíduos, entre eles, 17 (dezessete) engenheiros, que constituem os sujeitos dessa dissertação. A pesquisa teve como objeto as questões relativas à qualificação e atuação destes profissionais frente às novas tecnologias organizacionais e de gestão, bem como as competências requeridas para essa atuação. As questões discutidas com os profissionais do mercado de trabalho não acadêmico procuraram identificar as relações produtivas travadas por esses três profissionais no ambiente de trabalho. Para tal, foram abordados os seguintes itens: formação acadêmica; experiência profissional; demanda de formação e de qualificação/requalificação; o lugar posicional na estrutura da empresa; as funções e as competências profissionais; a gestão de trabalho e as políticas e programas de formação e qualificação profissionais; tipos de recrutamento e de recolocação na escala profissional. Dessa forma, foi elaborado um questionário para a realização das entrevistas semi-estruturadas com questões abertas que abrangeram as temáticas a serem pesquisadas, apresentadas no anexo II da presente dissertação. A utilização dessa base de dados se justifica por três fatores principais, a saber: i) a compatibilidade do material disponível com o tema e objetivos da presente dissertação; ii) a variedade de empresas e sujeitos entrevistados, tendo em vista a dificuldade de acesso às empresas, por motivos diversos, tais como o fato de considerarem as informações estratégicas, priorizarem estudos realizados por empregados que estão desenvolvendo dissertações ou teses, entre outros – respostas recebidas durante contatos realizados com diversas empresas, no intuito de incluí-las no universo da pesquisa, porém, sem sucesso; iii) a possibilidade de explorar ao máximo os dados obtidos junto às empresas participantes da pesquisa. 5.3 Coleta de dados Leonard de Araújo Carvalho 70 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO A coleta de dados, segundo Lakatos (1993, p. 165), é a “etapa da pesquisa em que se inicia a aplicação dos instrumentos elaborados e das técnicas selecionadas, a fim de se efetuar a coleta dos dados previstos”. Nesta dissertação, a coleta de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas, realizadas por mim e pelos demais membros do FORQUAP. De acordo com Triviños (1987, p. 146), “entrevista semi-estruturada, em geral, é aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa”. A realização das entrevistas se deu presencialmente, obedecendo ao seguinte procedimento: i) apresentação ao entrevistado dos objetivos da pesquisa e da entrevista; ii) entrega do roteiro da entrevista, seguido do esclarecimento de alguma dúvida eventualmente manifestada; iii) realização da entrevista propriamente dita; iv) finalização do processo e agradecimento pela participação do candidato. Na presente dissertação, entre os itens constantes no roteiro de entrevistas, foram agrupados três blocos de categorização para análise. Lodi, citado por Lakatos (2003, p. 197), indica que a padronização, pelo roteiro, no presente caso, visa a que o conjunto de respostas seja comparado com o mesmo conjunto de perguntas, “e que as diferenças devem refletir diferenças entre os respondentes e não diferenças nas perguntas”. A primeira categoria refere-se à forma de contratação dos engenheiros; busca-se identificar se, no momento da contratação ou do ingresso do engenheiro na empresa, há alguma avaliação que busque identificar competências consideradas necessárias à sua atuação ou desejáveis para o cargo. A segunda categoria refere-se às características do sistema de gestão e à forma de trabalho na empresa; busca-se, nesse ponto, identificar a existência de características do modelo de competência nas práticas da empresa. A terceira categoria refere-se às competências identificadas como necessárias à atuação do engenheiro no seu dia-a-dia, de acordo com o seu entendimento. As entrevistas foram gravadas e transcritas para posterior análise de conteúdo. Segundo Bardin (1977, p. 38), “a análise de conteúdo aparece como um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens”. 5.4 Análise dos dados Leonard de Araújo Carvalho 71 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Nesta dissertação, foi utilizada a análise de conteúdo para processamento dos dados obtidos nas entrevistas. Segundo Triviños (1987), a análise de conteúdo pode ser dividida em três etapas. A primeira etapa, denominada pré-análise, que consiste na organização do material; nesse caso específico, consistiu na organização do material oriundo das entrevistas, incluindo nessa etapa a transcrição das gravações das entrevistas realizadas. A etapa subsequente é a descrição analítica; nessa etapa, adotam-se os procedimentos necessários para codificar, classificar e categorizar o material. No presente estudo, foi realizada a separação e categorização dos dados obtidos nas entrevistas, agrupando-os pelas categorias adotadas no estudo. A última fase, denominada interpretação referencial, consiste na análise efetiva do material obtido, e, a partir dela, realiza-se a reflexão e o cruzamento das informações obtidas em todo o processo investigativo. No presente estudo, essa etapa consistiu na análise dos dados oriundos das entrevistas, sua interpretação e cruzamento com as informações do referencial teórico. Sobre essa etapa, Triviños ainda destaca que: Na interação dos materiais (documentos oficiais ou não, e, ainda das respostas de outros instrumentos de pesquisa), no tipo de pesquisa que nos interessa, não é possível que o pesquisador detenha sua atenção exclusivamente no conteúdo manifesto dos documentos. Ele deve aprofundar sua análise tratando de desvendar o conteúdo latente que eles possuem. O primeiro pode orientar para conclusões apoiadas em dados quantitativos, numa visão estática e a nível, no melhor dos casos, de simples denúncia de realidades negativas para o indivíduo e a sociedade; o segundo abre perspectivas, sem excluir a informação estatística, muitas vezes, para descobrir ideologias, tendências etc. das características dos fenômenos sociais que se analisam e, ao contrário da análise apenas do conteúdo manifesto, é dinâmico, estrutural e histórico. (TRIVIÑOS, 1987, p. 162) Leonard de Araújo Carvalho 72 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 6 As Competências Requeridas do Engenheiro Contemporâneo No total, foram analisadas as entrevistas de 17 (dezessete) engenheiros, de seis empresas que atuam no estado de Minas Gerais. O Quadro 6 apresenta a relação dos participantes da pesquisa, sendo que foram codificados os nomes dos entrevistados e das empresas, de modo a manter o sigilo das informações. Quadro 6: Relação de entrevistados Empresa Formação Entrevistado Idade Graduação Lato Sensu Emp1 Eng1 33 Eng. Mecânica Eng. de Manutenção e Projetos Emp1 Eng2 32 Eng. Ind. Mecânica Esp. em Gestão com ênfase em Projetos Emp1 Eng3 34 Eng. Elétrica Esp. Aquecimento Emp2 Eng4 41 Eng. Mecânica Emp2 Eng5 42 Eng. Mecânica Emp3 Eng6 55 Eng. Elétrica Emp3 Eng7 27 Eng. de Produção Emp3 Eng8 28 Eng. Metalúrgica Emp3 Eng9 32 Eng. Elétrica Emp3 Eng10 34 Eng. de Produção Emp4 Eng11 33 Eng. Metalúrgica Emp4 Eng12 35 Eng. Mecânica Emp5 Eng13 44 Eng. Elétrica MBA em Gerenc. de Projetos Emp5 Eng14 42 Eng. Elétrica Sistemas de Energia Emp5 Eng15 39 Eng. Elétrica MBA em Gerenc. de Projetos Emp6 Eng16 43 Eng. Civil Emp6 Eng17 34 Eng. de Produção Fonte: elaborado pelo autor. Strictu Senso Mestrado em Eng. Mecânica Eng. de Manutenção Eng. de Seg. do Trabalho Logística Mestrado em Eng. (Sistema de Aterramento) Mestrado em Eng. Elétrica Mestrado em Geotécnica Eng. de Seg. do Trabalho Leonard de Araújo Carvalho 73 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Destaca-se que onze dos entrevistados realizaram um curso de pós-graduação, evidenciando a necessidade de um estudo continuado para atuação na área. Os entrevistados, em sua maioria, ainda relataram que os cursos são devidos à necessidade, detectada pela empresa ou pelo próprio engenheiro, de complementar o conhecimento em determinada área. Verifica-se também o apoio da empresa, ora liberando o empregado para a realização dos cursos – em geral, quando a iniciativa parte dele e não de uma necessidade detectada pela empresa –, ora arcando com os custos de sua execução – em geral, quando o curso é realizado por necessidade apontada pela empresa. Não por incentivo da empresa, mas por uma necessidade que estou levantando que é na área de Gestão de Pessoas. A área de Projetos na qual estou trabalhando não envolve só os Projetos como também envolve pessoas. Demanda habilidades interpessoais. Estou estudando a possibilidade de, no ano que vem, fazer uma especialização na área de pessoas. (Eng2) Nesse primeiro ponto, já é possível observar a necessidade do engenheiro em se manter em constante atualização, competência definida nas Diretrizes Curriculares como “XIII – assumir a postura de permanente busca de atualização profissional”. Em relação à faixa etária dos sujeitos da pesquisa, verifica-se que 50% estão compreendidos entre 30-39 anos. O Gráfico 1 apresenta a distribuição etária dos participantes da pesquisa. Gráfico 1: Faixa etária dos engenheiros entrevistados Fonte: elaborado pelo autor. Leonard de Araújo Carvalho 74 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO A formação dos entrevistados encontra-se dividida nas engenharias elétrica, mecânica, metalurgia, civil e produção. Esclarece-se que foram realizadas entrevistas com áreas distintas da engenharia, uma vez que as Diretrizes Curriculares Nacionais estabelecem as condições gerais para os cursos de Engenharia, não havendo diretrizes particulares para um curso ou outro, dessa forma as competências propostas deve atender a todos os egressos e, portanto, a análise foi realizada em um grupo com formações diversas. Ressalta-se que não foram detectadas necessidades especiais, em termos de competência, em relação aos apontamentos realizados pelos entrevistados das áreas distintas da engenharia presentes no estudo. Gráfico 2: Formação, por especialidade, dos engenheiros entrevistados Fonte: elaborado pelo autor. Apresentado o grupo objeto da pesquisa, segue-se com a discussão com base nas três categorias em que os dados obtidos foram classificados. 6.1 A forma de ingresso do engenheiro nas empresas Neste item, procurou-se verificar a forma de ingresso dos profissionais nas empresas e se seriam avaliadas questões relativas à qualificação, à competência, a ambas ou a nenhuma delas. Leonard de Araújo Carvalho 75 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Durante as entrevistas, foi possível identificar três formas básicas que as empresas utilizam para contratação de seus engenheiros, a saber: i) programa trainee; ii) busca no mercado por profissional com experiência; e iii) seleção interna. No programa trainee, o candidato selecionado atua, por um ou dois anos, dependendo da empresa, sob a supervisão ou acompanhamento dos pares de seu setor, de forma que o engenheiro possa apreender sobre as especificidades da empresa, ao mesmo tempo em que é avaliado pelos seus pares ou gestor. Na seleção do trainee, foram verificados: componentes relativos à qualificação; formação e aplicação de prova para a seleção; aspectos comportamentais, relacionados à competência; dinâmicas para avaliação do trabalho em grupo; avaliação psicológica. Na seleção do trainee, o Eng11 descreve: “primeiro tem uma seleção feita pelos recursos humanos, com dinâmica de grupo em que avaliam-se a capacidade de relacionamento e liderança. Depois aplicamos uma prova técnica e depois uma entrevista individual com psicólogo” (Eng11, Emp4). Na seleção interna, busca-se o preenchimento da vaga de engenheiro por algum membro do corpo funcional da empresa, que detenha título objeto da vaga e apresente um desempenho satisfatório para tal. As empresas têm buscado priorizar esse tipo de promoção como forma de valorizar o seu corpo funcional. Não havendo empregado com o perfil necessário, definido como formação acompanhada de desempenho, o que denota a utilização da concepção do modelo americano em que a competência resulta em um desempenho superior, ou por decisão da empresa, parte-se para a contratação externa, que pode ser o trainee ou o profissional que já possua experiência na área específica que a empresa deseja. Nesse processo, observa-se, como meio para a promoção, a necessidade da qualificação do profissional (pela sua formação), e a competência do indivíduo, apresentada na área de atuação dele. O Eng12 aponta que “tem casos que o recrutamento é somente interno e outros que precisa de gente de fora para suprir as demandas. Claro que a empresa prioriza quem já está aqui dentro, mas quando não temos profissionais qualificados para as funções busca-se fora” (Eng12, Emp4). No que se refere à qualificação, percebe-se a sua importância, uma vez que as empresas relatam que preferem, por exemplo, selecionar um engenheiro para determinada vaga em detrimento de um tecnólogo, uma vez que o primeiro tem um tempo de formação maior e um conhecimento mais abrangente, o que lhe permite maiores possibilidades de atuar com competência para o cargo designado. Esse ponto parece reafirmar a proposta de Zarifian (2012) em que a qualificação é a “caixa de ferramentas” do indivíduo e a competência o ato de utilizá-la de forma apropriada. Leonard de Araújo Carvalho 76 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Outro item a se destacar é a importância da formação do indivíduo (qualificação) para entrada no mercado de trabalho. Os relatos dos entrevistados revelam que a formação em uma instituição tradicional é um fator de facilitação para a entrada nas empresas. Segundo o Eng17, “A escola ajuda muito na seleção, pois existem muitas escolas com pouca qualidade, o que nos leva também a selecionar a escola”. O Eng4 também destaca a necessidade de se buscar uma boa instituição de ensino. Eng4: Eu penso que a pessoa tem de buscar o melhor não só em ofertas de qualificação como em termos de instituição de ensino. O que acontece, hoje, principalmente nessa área, é que a oferta de cursos aumentou, mas o nível de ensino, em muitas escolas, deixa a desejar. Podemos citar que as boas escolas daqui são UFMG, CEFET e PUC. (Eng4, Emp2) Contudo, depois de realizado o ingresso do indivíduo, a sua competência passa a ser essencial, na perspectiva analisada anteriormente, não basta que o profissional tenha uma boa formação (qualificação), é importante que se mostre capaz de mobilizar seus conhecimentos para solução dos problemas que lhe são apresentados e desenvolver demais atributos julgados necessários na área em que se encontre. Conclui-se, assim, que a contratação ou promoção dos engenheiros não se dá somente por sua qualificação; aspectos relacionados à competência também passaram a ser itens de avaliação aos quais o profissional deve estar atento e buscar desenvolver. 6.2 As características de gestão e organização do trabalho nas empresas Como destacado na revisão bibliográfica, para que o profissional possa desenvolver competência no seu âmbito de atuação, no que se refere à linha de pensamento francesa, há a necessidade de mudanças na forma de gestão da empresa, de modo que o empregado tenha autonomia e responsabilidades, por exemplo, deslocando-se do modelo taylorista de prescrição da tarefa em função do posto de trabalho ocupado, ao tempo que o modelo americano se concentra no desempenho, sem necessidade de alterações na forma de gestão ou produção das empresas. Desse modo, procurou-se verificar, pelos relatos dos entrevistados, como é a forma de gestão e trabalho da empresa, se vertical, no estilo do taylorismo, ou horizontalizada, como no modelo de competência. Foi observado que parte das empresas mantém uma forma de gestão verticalizada, com a tomada de decisão concentrada em algumas pessoas, como foi apontado, por exemplo, pelos Eng7, Eng16 e Eng17, em relação às empresas Emp3 e Emp6, conforme as declarações abaixo: Leonard de Araújo Carvalho 77 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Eng7,Emp3: Completamente vertical. A nossa empresa é verticalizada. Após assumir esta posição... Entrevistador: No organograma ou nas atitudes. Eng7,Emp3: Sempre temos que pedir autorização para chefe. Para ver está de acordo. Hoje eu tenho liberdade de conversar com superiores. Meu chefe imediato, dada a posição do controle integrado, mas quando eu era da produção, eu percebia uma hierarquia muito forte. Para passar para outro nível, você teria que ter um cuidado para conduzir. Hoje a empresa, talvez pelo tamanho, ela é bem burocrática. Há uma burocracia bem forte nesse fluxo de informação. Eng16,Emp6: A empresa é verticalizada. Eng17,Emp6: Na minha percepção, os modelos de gestão horizontalizada/ verticalizada são estabelecidos de acordo com cada gestor de área. Cada gestor possui a liberdade de gerenciar a sua equipe de acordo com o seu modelo de gestão. A nova estrutura da empresa permite uma gestão mais aberta, mais horizontalizada, onde todos participam com opiniões, mas ainda existe a hierarquia nas decisões. Contudo, algumas empresas já adotam uma postura mais horizontalizada com maior autonomia e participação dos empregados, acentuando a maior possibilidade de atuação na forma proposta pelo modelo de competência francês. O Eng12 inclusive relata a mudança de postura da empresa Emp4, notadamente nesse aspecto, após a entrada dos franceses no controle da empresa. Eng12: Houve uma mudança do tempo que entrei, que era uma empresa alemã, para os dias de hoje. Com a entrada dos franceses, mudou muito na parte dos indicadores, divisão da empresa nas áreas de trabalho, as relações pessoais, mudou muito e quebrou muitas barreiras. Tanto o operacional quanto o administrativo mudou muito, nosso funcionário é mais crítico. As relações são muito mais transparentes. Você tem mais autonomia para fazer as tarefas, melhorou muito nessa questão. (Eng12, Emp4) Os engenheiros das empresas Emp1, Emp2 e Emp5 declaram que a gestão é horizontalizada, havendo menos enfoque na subordinação entre os empregados e maior enfoque na realização das decisões conjuntas, entre os membros da equipe, com vistas à consecução dos objetivos propostos. Abaixo, o relato dos Eng2, Eng5 e Eng14 sobre a horizontalidade na forma de gestão de suas respectivas empresas. Eng2: Como você fez referência ao taylorismo, onde havia uma hierarquia verticalizada. O gerente mandava no engenheiro que mandava no técnico e esse mandava no operário. Não temos aqui essa subordinação entre nós. Hoje, quando nos é passada uma tarefa, ela é passada para toda a equipe, que tem engenheiros, técnicos. (Eng2, Emp1) Leonard de Araújo Carvalho 78 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Eng5: Sim. Participa. Apesar de existir esses níveis a gestão, é bem horizontalizada. (Eng5, Emp2) Eng14: A gestão é bastante horizontalizada. Fazemos muitas reuniões para discutir os projetos. (Eng14, Emp5) Observa-se que a maior parte das empresas abrangidas pelo estudo adota, segundo os entrevistados, um modelo de gestão horizontalizada, o que requer – ao mesmo tempo em que favorece – a aplicação e o desenvolvimento de competências, na forma proposta pela linha francesa, em que a autonomia é um dos conceitos-chave, conforme se destacou anteriormente: “a autonomia é uma condição inevitável do desenvolvimento da competência; o coração desta última, no entanto, reside na tomada de iniciativa” (ZARIFIAN, 2003, p. 85). As empresas que mantêm uma estrutura vertical, mais ligada ao modelo taylorista, favorecem a aplicação e o desenvolvimento da competência segundo o modelo americano, em que se valoriza o desempenho do empregado em relação às suas tarefas. Nesse ponto, atitudes ligadas ao trabalho em equipe e à autonomia não têm o mesmo enfoque dado pelo modelo francês. Verifica-se, nesse aspecto, a possibilidade de se encontrar os dois modelos de competência em utilização de forma paralela, com mais características de um ou de outro dependendo da empresa em que o profissional irá atuar. Ressalta-se, ainda, a existência de outros modelos de competência, evidenciando que, embora seja um tema atual e em constante debate, a sua forma de aplicação pode variar muito de empresa para empresa, e do referencial adotado para sua implantação. 6.3 As competências identificadas pelos engenheiros como necessárias à sua atuação Nesta seção, procurou-se identificar as competências apontadas como necessárias para a atuação do engenheiro, segundo sua perspectiva. Para tanto, foi solicitado aos entrevistados que expusessem seu ponto de vista, apontando as competências julgadas essenciais na sua atuação diária. Ressalta-se que dois pontos se destacam no conceito de competência e pelos quais apresenta-se a categorização do quadro 7, com base na fala dos entrevistados, a saber: i) tomar a iniciativa, o agir; ii) o repertório que o indivíduo possui e que é utilizado como elemento balizador na sua ação. Nesse aspecto a competência é o tomar iniciativa, o agir, diante de dado acontecimento sob o apoio do repertório que o indivíduo possui. Leonard de Araújo Carvalho 79 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Quadro 7: Atributos identificados como competências pelos entrevistados divididos por categorização Categoria Repertório/ conhecimento a serem mobilizado Tomar iniciativa/Agir Elemento % Conhecimento técnico; Conhecimentos Específicos da Empresa; Inglês; Experiência em Engenharia; Comunicar-se de forma escrita; Gestão de 56,3% projetos Negociar; Ouvir; Solucionar problemas; Tomar Decisão; Liderança; Relacionamento interpessoal; Antever problemas; Gestão de pessoas; 40,4% Fonte: elaborado pelo autor. Ainda, com base nas respostas dos 17 (dezessete) entrevistados, obtivemos, desdobrando a categorização apresentada anteriormente, o quadro de competências apresentados a seguir (Quadro 8). É importante ressaltar a forma de lançamento das informações do quadro, uma vez que as competências foram listadas considerando-se a concepção francesa do termo, em que pese também a identificação de elementos da concepção americana também foram na fala dos entrevistados. Esclarece-se que tal medida foi adotada levando-se em conta a fala dos entrevistados, em que as competências listadas como essenciais à sua atuação correspondiam àqueles atributos que serviam como base para a solução dos problemas ocorridos em situação de trabalho, aspecto muito associado à noção de acontecimento tratada por Zarifian (2012, p. 41), como sendo “o que ocorre de maneira parcialmente imprevista, inesperada, vindo a perturbar o desenrolar do sistema normal de produção”, cabendo ao indivíduo o confronto e a resolução desse problema gerado pelo acontecimento. O Eng7, Emp3 destaca a importância de atuar voltado para situações que não são rotineiras na empresa: Eng7: Precisamos fazer o que o cliente pede. Personalizado. Assim, precisamos dar pareceres mais adequados. Além do que precisamos fazer ajustes de processos, projetos de aço, para sempre evoluir. E as atividades seriam desenvolvimentos de novos produtos, ou resolver problemas de sistemas. O trabalho do técnico bem capacitado suporta e dá muita liberdade para o engenheiro de produto trabalhar num estágio não tanto voltado para a rotina. (Eng7, Emp3, grifo nosso) Dessa forma, ao listarem, por exemplo, o conhecimento técnico como competência, os entrevistados se baseiam na ideia de que a mobilização desse conhecimento é a chave para a resolução de problemas e poder de argumentação com a equipe ou com determinado cliente, possibilitando resolver uma dada situação. Ressalta-se que o importante é a utilização ou mobilização do conhecimento técnico em situação de trabalho, como destaca Perrenoud Leonard de Araújo Carvalho 80 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO (1999, p. 54) “um 'simples erudito', incapaz de mobilizar com discernimento seus conhecimentos diante de uma situação complexa, que exija ação rápida, não será mais útil do que um ignorante”. O Eng5, Emp2 ressalta que “é necessário ter um conhecimento técnico para discutir uma opção ou alternativa ofertada pelo técnico da área” e o Eng6, Emp3 afirma que “é importante que se tenha conhecimento teórico bem fundamentado, para que se possa desenvolver bem a sua prática”. De forma análoga, os demais termos listados também dizem respeito à sua utilização prática, e estão relacionados aos verbos “saber”, “agir”, “mobilizar”, “comunicar”, etc. Quadro 8: Atributos identificados como competências pelos entrevistados Competência Saber, Agir, Mobilizar, Comunicar, % dos entrevistados que a identificaram Conhecimento técnico 81% Gestão de pessoas (englobando motivação da equipe) 75% Conhecimentos Específicos da Empresa (equipamento, processos, situação no mercado e suas limitações, por exemplo) 44% Experiência em Engenharia 25% Inglês 25% Relacionamento interpessoal 25% Gestão de projetos 25% Liderança 18% Antever problemas 6% Comunicar-se de forma escrita 6% Produtividade 6% A importância do seu trabalho na empresa 6% Negociar 6% Ouvir 6% Solucionar problemas 6% Tomar Decisão 6% Leonard de Araújo Carvalho 81 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Fonte: elaborado pelo autor. Observa-se que o “conhecimento técnico” foi o mais citado pelos entrevistados como sendo relevante para a atuação profissional, reforçando a importância de se ter uma formação sólida no que se refere ao conteúdo a ser ministrado nas Instituições de Ensino Superior. O destaque para o conhecimento técnico ratifica sua posição como elemento-chave que possibilita a competência do indivíduo, uma vez que, conforme apontado por Zarifian (2012), é apoiado em conhecimento que o indivíduo se orienta para tomar as atitudes necessárias em uma dada situação. Da mesma forma, Fleury e Fleury (2000, p. 21) destacam que o conhecimento é importante para gerar competência. Contudo, esclarecem que “os conhecimentos e o know-how não adquirem status de competência a não ser que sejam comunicados e trocados. A rede de conhecimento em que se insere o indivíduo é fundamental para que a comunicação seja eficiente e gere competência”. Le Boterf (2006, p. 61), por sua vez, assevera que, “para agir de forma pertinente, um profissional deve, não só deter, mas também saber combinar e pôr em prática um conjunto coerente de recursos”. Desse modo observa-se, nesse item, que o conhecimento técnico é importante, sendo esse aspecto reconhecido pelos entrevistados como a base para a sua atuação profissional, ao mobilizá-lo em situação de trabalho. A concepção americana também ressalta a importância do conhecimento para que o individuo possa ser competente. Boyatzis (1982) destaca que o conhecimento é um dos elementos para possibilitar que o indivíduo tenha um alto desempenho e, consequentemente, seja reconhecido como competente. Ao se verificar as competências previstas nas Diretrizes Curriculares Nacionais, observa-se que o conhecimento técnico é base de vários itens, entre os quais, podemos destacar: “I - aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia” (BRASIL, 2002b – Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação de Engenharia – Resolução CNE/CES nº 11/2002). Os relatos a seguir destacam a importância do conhecimento técnico no contexto da atuação profissional dos engenheiros entrevistados. Entrevistador: Quais são as competências que uma pessoa necessita ter para exercer essa função que você exerce? Eng1, Emp1: Primeiramente é a formação técnica. Leonard de Araújo Carvalho 82 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Entrevistador: Você considera, para o exercício de sua função, que você tem de ser mais generalista e ter conhecimentos de gestão de pessoas acima do conhecimento técnico? Eng4, Emp2: Eu tenho de ter argumentação técnica para conversar com as pessoas. Eng13, Emp5: O conhecimento técnico facilita muito Eng15, Emp5: Acredito que, para assumir meu cargo, hoje é necessário ter os dois conhecimentos: técnico e de gestão. A gestão de pessoas é outro item citado constantemente pelos entrevistados. Nesse quesito, verificam-se alterações na forma taylorista/fordista de trabalho. O profissional contemporâneo tem de saber gerir e motivar a sua equipe em busca dos resultados esperados pela organização. Evidencia-se, assim, a necessidade, por parte do profissional, de saber lidar com a equipe de forma a envolvê-la no processo, de tal maneira que, conforme Zarifian (2012), a rede de atores mobilizada em tal situação, objetivo ou projeto, assuma os campos de corresponsabilidade e compartilhe as implicações de uma dada situação, o que consiste em um desafio para as organizações. De fato, os assalariados só se comunicarão entre si e só disponibilizarão suas competências se experimentarem o sentimento de participar das mesmas implicações de uma situação, e se forem avaliados pela chefia à base dessas implicações. Isto não é algo evidente: as segmentações dos campos de responsabilidades e a fixação de objetivos distintos, que marcam as organizações tradicionais (a cada função e a cada serviço “seu” objetivo), tornam difícil esse compartilhar. (ZARIFIAN, 2012, p. 74) Observa-se, ainda, que a gestão de pessoas não está listada, nas Diretrizes Curriculares Nacionais, como uma das competências a serem desenvolvidas pela Instituições de Ensino Superior, quando da formação do aluno, o que de fato é relatado pelos profissionais como uma carência em sua formação. A seguir, apresenta-se o relato dos entrevistados corroborando a observação acima. Eng7,Emp3: Na maioria das vezes, temos que conduzir trabalhos importantes com gestão de pessoas. Inclusive para conseguir o resultado esperado e orientar a equipe. Eng7,Emp3: Quando eu comecei como supervisor de turno, qual era a minha grande carência? Somente com capacitação técnica, eu tive dificuldades para gerenciar a equipe; ser um líder de equipe novato; entrando somente com o conhecimento técnico, tive dificuldades. Leonard de Araújo Carvalho 83 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Eng9,Emp3: Eu acredito que, quem tem o conhecimento [técnico], eu acredito que tem propriedade, né, para falar, mas a gestão de pessoas é importante, né. A pessoa ter o conhecimento de gestão de pessoas. A pessoa saber, né, qual que é o objetivo daquela equipe, né. Porque muitas vezes a pessoa delega para você um entrega e se você não souber qual que é o objetivo daquilo, gera desmotivação. Então, acho que a equipe tem que estar alinhada muito bem, assim, com o objetivo que foi proposto com a equipe, tem que estar claro; ver as dificuldades de cada um. [...] A faculdade hoje, ela não tem essa disciplina, de desenvolver a pessoa para a gestão de forma geral. Nenhuma, nenhuma. Nem gestão de processos, nem de pessoas, nem de projetos. Eng14,Emp5: O engenheiro, quando ele forma, ele não tem preparação para assumir a carreira de gestão e isso é uma demanda exigida na maioria das empresas. A formação técnica ajuda muito na gestão, pois a gente acaba falando a mesma língua do técnico. Entretanto, com relação à gestão de conflitos, gestão de equipes, liderança falta conteúdo acadêmico na formação. O engenheiro entra no mercado com a bagagem técnica e vai adquirindo o perfil de gestão com o tempo, ao longo da carreira. Eng15,Emp5: Tem que ter alguma coisa nos últimos períodos da graduação para que o engenheiro saia da universidade com uma visão de negócio. Acredito que o engenheiro também precisa entender de gente, pois não temos apenas máquinas, também temos gente trabalhando com as máquinas. Depois que eu passei por um curso de gestão de pessoas eu consegui trabalhar muito melhor. Assim como a gestão de pessoas, a relação interpessoal, também apontada como necessária pelos entrevistados, apresenta-se como elemento-chave para a consecução dos objetivos propostos, em especial, para a atuação junto a outras áreas da empresa, a clientes e fornecedores. Os problemas ou acontecimentos com que o profissional se depara estão cada vez mais complexos, o que, segundo Zarifian (2012), muitas vezes ultrapassa a capacidade de se solucionar o problema/acontecimento individualmente. Nesse contexto, a capacidade de relacionamento interpessoal é indispensável para que se tenha um trabalho em equipe, e, em muitos casos, a solução de problemas multidisciplinares. Se, na gestão de pessoas, é importante saber motivar seus subordinados, também é importante: Eng2,Emp1: Habilidade interpessoal. Estamos lidando com um cliente o tempo todo. Se você tem um projeto, ele é para atender às suas necessidades, então, eu tenho que atendê-lo de maneira satisfatória. Eng3,Emp1: Hoje, na parte de coordenador quanto na de assessor, o relacionamento interpessoal é imprescindível. Destaca-se que a Gestão de Pessoas difere do Relacionamento Interpessoal, uma vez que a primeira estabelece uma relação de subordinação, o que não necessariamente ocorre no Leonard de Araújo Carvalho 84 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO segundo caso. A negociação também guarda relação com o relacionamento interpessoal. Havendo um bom relacionamento, a negociação se torna mais fácil. Fleury e Fleury (2000, p. 26) definem a negociação como: Ter capacidade de discutir, estimular e influenciar positivamente outras pessoas a colaborarem, efetivamente, para atingir os objetivos organizacionais, conduzir processos para obtenção de consenso, objetivando resultados satisfatórios para as partes envolvidas e, principalmente, para a organização, em situações externas e internas, argumentar coerentemente, de forma a persuadir as pessoas na venda de ideias, e aceitar pontos diversos dos seus. (FLEURY e FLEURY, 2000, p. 26) Em ambos os casos, a competência definida como “IX – atuar em equipes multidisciplinares”, presente nas Diretrizes Curriculares Nacionais, contempla a possibilidade de desenvolvimento do relacionamento interpessoal e da capacidade de negociação, que serão elementos importantes para a atuação em equipe. Conhecimentos específicos da empresa, incluindo o conhecimento de equipamento, processos, situação no mercado e suas limitações, por exemplo, são também um elemento com recorrentes citações entre os entrevistados e se referem ao conhecimento adquirido, em geral, em situação de trabalho ou treinamentos internos, e que estão vinculados diretamente à empresa ou à área específica de atuação em que o profissional se encontra. De acordo com Fleury e Fleury (20002), trata-se de uma competência técnica, semelhante ao conhecimento técnico, citado anteriormente, inclusive na sua forma de aplicação, consistindo na mobilização desse conhecimento para possibilitar o saber agir em uma dada situação prática. Fleruy e Fleury (2000) apresentam como definição de “conhecimentos específicos”: Deter informações e conhecimentos técnicos relativos a sua área; utilizá-los e atualizá-los constantemente, visando ao cumprimento de atividades, resolução de problemas ou desenvolvimento de projetos/produtos. Disponibilizar os novos conhecimentos desenvolvidos interna ou externamente, garantido sua circulação. (FLEURY e FLEURY, 2000, p. 25) Por se tratar de conhecimento específico da empresa, talvez se possa justificar que não ocorra grande desenvolvimento no ambiente acadêmico. Nesse aspecto, itens relacionados nas Diretrizes Curriculares Nacionais, como analisar e supervisionar sistemas, são desenvolvidos durante a graduação, com base nos conhecimentos teóricos dos processos mais comumente utilizados e não nas peculiaridades de cada empresa. Os relatos abaixo destacam a necessidade de conhecimentos específicos para a atuação profissional, inclusive em relação à inexistência de treinamento externo para tal. Leonard de Araújo Carvalho 85 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Eng13, Emp4: O profissional precisa ter um bom conhecimento dos processos com os quais vai trabalhar. Não existe treinamento externo para essa demanda. É tudo feito por pessoas da empresa, pois é uma coisa bem específica mesmo. (grifo nosso) Eng7, Emp3: No meu cargo, tem que conhecer de metalurgia em si [...]. De processos. Tem que conhecer processos; conhecer da empresa, das limitações internas, de controle integrado de produto. Dentro dessa perspectiva, também é necessário que o profissional desenvolva o conhecimento a respeito da empresa, não somente sobre os processos da empresa, mas também sobre sua posição no mercado, seu plano estratégico, seus objetivos, bem como a situação econômica na qual está inserida. Fleury e Fleury (2000) destacam que: A perspectiva da estratégia competitiva privilegia o entendimento da relação empresa-indústria. Ou seja, o nível básico de análise é uma indústria, setor ou segmento produtivo, e a estratégia da empresa é estabelecida com base no conhecimento de suas características, sua dinâmica, suas tendências. (FLEURY e FLEURY, 2000, p.45) Tal necessidade é corroborada pelo depoimento do Eng3, Emp1: “Conhecimento do meio que estou trabalhando, é necessário saber o que está acontecendo no meio siderúrgico porque isso auxilia na tomada de decisões, na parte técnica, na gestão, orientando o melhor caminho. Temos de ter essas visões”. Essa observação também diz respeito à percepção do próprio trabalho no contexto da empresa e à noção de “visão estratégica”, que Fleury e Fleury (2000, p. 22) definem como “conhecer e entender o negócio da organização, seu ambiente, identificando oportunidades, alternativas”, ou seja, a importância do seu trabalho e da atuação da empresa de forma geral. Tais necessidades destacam que o profissional não pode ficar preso dentro das prescrições do posto de trabalho nos modelos utilizados atualmente. O hábito taylorista de tratar os assalariados como simples executores de tarefas e as rígidas separações entre funções fazem com que, frequentemente, as implicações estratégicas não cheguem aos assalariados da base da organização. Apenas as prescrições descem até eles. Pede-se ao assalariado que execute tal tarefa ou que respeite tal objetivo, segundo tal prescrição, sem que ele saiba por quê. A implicação disso torna-se um simples resultado, que deve ser acatado. (ZARIFIAN, 2012, p. 90) Outro item relatado, que dificilmente pode ser desenvolvido durante a formação do aluno, no contexto atual, é a “experiência na área de engenharia”. A experiência em engenharia ressalta o caráter da possibilidade de desenvolver competências pelo número/quantidade de experiências singulares em que o profissional pode atuar. Nesse Leonard de Araújo Carvalho 86 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO aspecto, Le Boterf (2006) ressalta a necessidade de reflexão do indivíduo sobre a situação pela qual passou para que seu desenvolvimento efetivamente ocorra. De maneira semelhante, Zarifian (2012) indica que se defrontar com um número de acontecimentos singulares propicia o desenvolvimento da competência do indivíduo, desde que ele saiba aproveitar tais situações. Passar da escola ao trabalho é, então entrar em uma situação social em que se precisa arriscar seu saber e sua responsabilidade, em que se precisa estar bem menos distante. É preciso envolver-se bem mais em seu trabalho profissional assalariado do que em seu trabalho na escola, porque no trabalho profissional corre-se mais riscos, e porque os outros também correm mais riscos. Isso quer dizer que a falta de experiência dos jovens – mas não se pode considerar que isso seja um fenômeno novo – viria menos dos conteúdos profissionais do que de comportamentos sociais, visto que as experiências cruciais da condição salarial e da tomada de responsabilidade diante do outro só poderiam travar-se no ambiente da empresa. (ZARIFIAN, 2012, p. 184) O Eng4, Emp2 relata que o exercício profissional não depende só da formação: “Ela tem de vir acompanhada da experiência profissional”. Contudo, observa-se que a expectativa é que a experiência profissional seja desenvolvida durante a vida profissional do indivíduo e, dessa forma, era de se esperar que não constasse das Diretrizes Curriculares Nacionais, ainda que o aluno deva realizar o estágio obrigatório durante o curso e, em geral, de curta duração o que permite um primeiro contato com o ambiente empresarial, mas não com o intuito de dotálo de grande experiência na área. No aspecto da comunicação, para a atuação dos profissionais da engenharia, foi destacada a importância de também estar apto a fazê-lo em inglês. Com a globalização da economia e das empresas, que, não raramente, tem negócios em vários países, a comunicação torna-se um elemento-chave na atuação profissional, e a língua inglesa, em especial, tem destaque na realização da comunicação internacional. Fleury e Fleury (2001, p. 187, grifo nosso) destacam a necessidade de se comunicar apresentando a competência como “o conjunto de aprendizagens sociais e comunicacionais nutridas a montante pela aprendizagem e formação e a jusante pelo sistema de avaliações”. Verifica-se que o “aprendizado de uma segunda língua” não é apresentado como foco durante a graduação dos alunos, uma vez que não faz parte das Diretrizes Curriculares ou da grade curricular das IES, contudo, o relato dos profissionais ratifica a importância do desenvolvimento do inglês como um segundo idioma. Eng2, Emp1: O domínio de uma segunda língua é fundamental. Aqui na usina o inglês é fundamental. Leonard de Araújo Carvalho 87 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Eng1, Emp1: O conhecimento da língua inglesa é fundamental porque temos muitos fornecedores estrangeiros; vamos dizer assim: a língua do projeto é a inglesa. Eng3, Emp1: É necessário que tenha uma segunda língua, o inglês. Contudo, esclarece-se que o ensino da segunda língua, atualmente, é previsto como obrigação da educação básica, em especial no ensino médio, conforme determinado pelo PCN do ensino médio do MEC. Nesse ponto parece que a deficiência na educação básica reflete uma carência na vida profissional do indivíduo. A capacidade de “ouvir”, também citada pelos entrevistados, é um item relacionado ao saber comunicar-se. Saber comunicar-se requer que você ouça e compreenda o que outro necessita ou a mensagem que está sendo repassada. Ao comunicar-se, o saber ouvir é tão importante quanto o saber se expressar, falar, escrever. Eng7, Emp3: Esse profissional tem que saber ouvir. Tem que persuadir as pessoas; ele não deve se impor. Sob esse aspecto, considera-se que o ouvir, assim como o saber comunicar-se, está contemplado nas Diretrizes Curriculares no item VIII - comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; Atualmente, também é crescente a delimitação de projetos para cumprir determinado objetivo ou estratégia da empresa. Em geral, por se tratar de objetivo importante da empresa, o profissional envolvido na demanda deve realizar o planejamento e gerenciamento do projeto, o que resulta em um processo com a participação de outras áreas e pessoas, assim, esse item remete a outros, como o conhecimento técnico e específico, o relacionamento interpessoal, associado ao controle de prazo e custos em uma organização. O Eng2, Emp1 apresenta, de forma objetiva, como se dá a gestão de um projeto Basicamente, para um projeto ser bem sucedido, ele tem de ser concluído dentro do prazo, dentro do custo estabelecido e com qualidade. Um gestor de projetos é responsável pela comprovação dessas três técnicas, ao mesmo tempo. Ele tem de avaliar o desempenho da empresa. Verificar se tudo foi contratado e está sendo executado dentro do previsto. Verificar se estão seguindo atividades não previstas e se estas implicam em custos extras. Verificar se o projeto está sendo executado a contento, dentro do nível de produtividade esperado pela empresa. O gestor de projetos é responsável pelo controle para que nenhuma dessas três vertentes saia do equilíbrio. (Eng2,Emp1) Pela exposição acima, verifica-se que a “gestão de projetos” engloba também diversas competências propostas nas Diretrizes Curriculares, a saber: III – conceber, projetar e analisar Leonard de Araújo Carvalho 88 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO sistemas, produtos e processos; IV – planejar, supervisionar, elaborar e coordenar projetos e serviços de engenharia; XI – avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; XII – avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia. Contudo, os entrevistados relatam uma carência, em seu aprendizado, da gestão de projetos ou elementos associados, como se verifica nos depoimentos abaixo: Eng13, Emp5: Acho que as universidades poderiam ajudar a formar para a carreira de gestão, pois tudo que aprendi foi na prática. Acredito que, para chegar a engenheiro gestor, a base deve ser o conhecimento em projetos. Eng14, Emp5: A universidade poderia desenvolver disciplinas principalmente na área de gestão de projetos. [...] É exigido do engenheiro gestor uma análise de risco, um estudo de viabilidade, enfim, um planejamento inicial para que a execução aconteça. Nesse aspecto pode se levantar, como hipótese, o fato das Instituições de Ensino Superior não estarem desenvolvendo todas as competências previstas nas Diretrizes Curriculares ou podem realizar de forma descontextualizada, dificultando para o aluno utilizálas de forma concomitante e pratica durante a vida profissional. Quanto à “liderança”, tem um conceito polissêmico e, no presente contexto, pode ser interpretada como uma característica do indivíduo que influencia o grupo em que está inserido de forma a conduzi-lo ao alcance dos resultados almejados, porém, outros conceitos podem ser utilizados. Para Maximiniano, citado por Merighi et al. (2013, p. 167), a liderança é definida como “o processo de conduzir e influenciar as ações para a realização dos objetivos estipulados pelas organizações”. Observa-se que, no que se refere à gestão de pessoas, o indivíduo também influencia o grupo para o alcance de resultados: Eng7, Emp3: A gente precisa das pessoas. A partir do momento que você consegue acreditar no seu trabalho, a equipe consegue ver os resultados acontecendo. É habilidade de liderança. De conseguir ao interagir com outras áreas; de conduzir para a solução minha, mas para a empresa. Assim com a Gestão de Pessoas, não há item específico nas Diretrizes Curriculares que foquem o desenvolvimento de liderança no profissional. Contudo o tema liderança é complexo, composto por várias concepções e vertentes, o que exige um aprofundamento sobre o item, a fim de verificar como se dá sua necessidade no profissional de engenharia. “Solucionar problemas” é um dos pontos-chave da competência. Há situações singulares com as quais o indivíduo se depara e que exigem sua tomada de iniciativa. A mobilização dos conhecimentos para enfrentar acontecimentos singulares, explicitados por Zarifian (2012), pode ser expressa como a capacidade de solucionar problemas. E, à medida Leonard de Araújo Carvalho 89 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO que o profissional se depara com mais acontecimentos singulares, maior se torna sua experiência e a possibilidade de antever problemas, ou seja, solucionar problemas e antever problemas são dois itens relacionados, e, quanto maior o desenvolvimento da competência do indivíduo, maiores são as possibilidades de ele se mostrar capaz de solucionar ou antecipar-se aos problemas com as quais se depara. Eng1, Emp1: É importante que o funcionário saiba lidar com prazo, que saiba negociar, porque todos os dias nós estamos em negociação com os fornecedores, que saiba analisar criticamente a situação do projeto, que anteveja problemas futuros. A solução de problemas é uma competência prevista no item V - identificar, formular e resolver problemas de engenharia, porém pode-se considerá-la também com um objetivo das demais competências e habilidades listadas pelos entrevistados e pelas Diretrizes Curriculares, uma vez que boa parte da atuação dos engenheiros, verificadas nas entrevistas, relaciona-se de alguma forma a solução de problemas ou a sua antecipação, como resolver conflitos, gerir os projetos de forma a evitar se os erros ou falhas (problemas), gerir a equipe (solucionando impasses, conflitos pessoais), etc.. O Eng6, Emp3 ressalta a importância das competências de gestão associadas às competências técnicas, para se evitar ou solucionar conflitos de gestão de pessoas em seu âmbito de atuação, em decorrência das situações geradas no ambiente fabril. Eng6: Conflitos de filosofias, metas e soluções existem, isso é normal. Tá legal, é normal e felizmente nunca precisou do meu gestor fazer intervenção. Eu sempre procurei estar resolvendo isso na minha equipe, só que eu trabalho, eu dou suporte técnico, eu tenho um contato muito grande com a parte operacional, sou uma pessoa bem próxima à operação, muito próximo da operação. Então, essa facilidade eu tenho de tá contornando, vejo que não ficou bem resolvido, aí eu vou lá e explico, mostro a teoria, olha na teoria é assim, olha aqui como é que é que funciona. Ou tem soluções que você tem que tomar ações rápidas porque o processo tá parado, de repente, num sabe qual a direção. O engenheiro chega e diz não, vamos fazer isso aqui tal, e a solução é essa aqui e tal, e vamos fazer isso aqui. Pode ser que alguém ali não gostou muito da ideia, mas você tá com o processo parado perdendo dinheiro, precisando voltar, você tem que partir pra uma solução mais rápida, porque a cobrança é enorme aqui, não é acadêmico, aqui envolve dinheiro. Eu falo que o tempo de um pesquisador é um, o tempo de um cara pra desenvolver um projeto é um, agora o tempo de um cara pra resolver um problema é outro. Ele não tá desenvolvendo um produto, não, ele tá solucionando um problema, ele usa a ferramenta que ele tem ali, no momento, disponível pra ele resolver o problema pra voltar com o processo. Então, pode ser que nesse momento acaba que a gente discute tecnicamente e define entre técnico e supervisor, discute ali e resolve, vamos tomar essa decisão. (Eng6, Emp3) Leonard de Araújo Carvalho 90 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Em relação à “produtividade”, citada pelos entrevistados, pode ser caracterizada como o resultado que se espera do profissional. Do ponto de vista da concepção americana a produtividade (desempenho) superior, pode se considerado como o indicativo de competência do profissional, como destaca Boyatzis (1982), ou como a agregação de valor econômico, segundo a ótica de Fleury e Fleury (2000) para a definição de competência. Nesse contexto a produtividade está relacionada aos objetivos alcançados pela atuação do indivíduo de forma competente e dessa forma era de esperar que não constasse como uma competência especifica a ser listada nas Diretrizes Curriculares, como, de fato, não consta. A capacidade de “tomar decisão”, também indicada nas entrevistas, é outro aspecto essencial da competência: Entrevistador: Além das competências técnicas, quais são as outras habilidades, outros conhecimentos que um engenheiro precisa para desenvolver bem o seu trabalho? Eng3, Emp1: Habilidade de tomar decisão. Le Boterf (2003) assinala que o indivíduo deve saber tomar decisão, escolher a melhor forma de agir dentro do contexto que lhe é apresentado. Entre as várias possibilidades a serem seguidas, o indivíduo toma a decisão julgando adotar aquela que seja mais adequada. Para Zarifian (2012), a tomada de decisão é consequência da autonomia e da responsabilidade delegadas ao indivíduo, no modelo de competência. Embora não apareça de forma explicita o termo “tomar decisão” nas Diretrizes Curriculares a sua necessidade de desenvolvimento está implícita nos demais itens, alias ela é elemento fundamental para que o profissional possa desenvolver as demais competências relacionadas nas Diretrizes Curriculares. Elementos como resolver problemas, projetar, conceber, supervisionar e coordenar, presentes nas Diretrizes Curriculares, exigem a tomada de decisão por parte do indivíduo. A seguir o quadro 9 apresenta a comparação entre o previsto nas Diretrizes Curriculares e as correspondências entre as competências indicadas pelos engenheiros durante as entrevistas. Leonard de Araújo Carvalho 91 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Quadro 9: Competências definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais e aquelas elencadas pelos engenheiros entrevistados DCN (2002) I - aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia Entrevistas Conhecimento técnico II - projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados; III - conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos; Gestão de projetos IV - planejar, supervisionar, elaborar e coordenar projetos e serviços de engenharia; Gestão de projetos V - identificar, formular e resolver problemas de engenharia; Solucionar problemas Antever problemas VI - desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas; VI - supervisionar a operação e a manutenção de sistemas; Conhecimento técnico / Conhecimentos específicos da empresa VII - avaliar criticamente a operação e a manutenção de sistemas; Conhecimento técnico / Conhecimentos específicos da empresa VIII - comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; Comunicar-se na forma escrita / Ouvir IX - atuar em equipes multidisciplinares; Relacionamento interpessoal X - compreender e aplicar a ética e responsabilidade profissionais; XI - avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; Gestão de projetos XII - avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia; Gestão de projetos XIII - assumir a postura de permanente busca de atualização profissional. Os profissionais, embora não tenham indicado expressamente, têm buscado por atualizações constantes por iniciativas pessoais ou por iniciativa das empresas Fonte: elaborado pelo autor. De forma geral observa-se que as Diretrizes Curriculares Nacionais abrangem uma ampla parte da necessidade dos engenheiros contemporâneos, no que se refere as competências a serem desenvolvidas, o que reforça o avanço obtido em relação a legislação de 1976. Necessidades profissionais frequentemente elencadas pelos engenheiros como, por Leonard de Araújo Carvalho 92 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO exemplo, conhecimento técnico, gestão de projetos e relacionamento interpessoal estão contempladas na legislação vigente. Ressalta-se, ainda, que há uma série de competências relacionadas pelos entrevistados de caráter não técnico e julgadas essenciais na atuação do engenheiro contemporâneo o que reforça as pesquisas realizadas anteriormente pela USP (1995), Ferreira (1999), Salum (1999) e Nose e Rebelatto (2001), indicando que o engenheiro atualmente não deve dispor somente de grande conhecimento técnico para sua atuação, mas sim conjugá-lo com competências não técnicas. Dessa forma, observa-se que as competências listadas pelos entrevistados podem ser divididas em três blocos principais, a saber: i) competências a serem desenvolvidas durante a graduação, conforme previsto nas Diretrizes Curriculares; ii) competências identificadas como requeridas, porém que não constam das Diretrizes Curriculares e iii) competências a serem desenvolvidas durante a vida profissional do indivíduo. No primeiro caso, os mais citados são o conhecimento técnico e a gestão de projetos. Já na segunda categoria está a gestão de pessoas e na terceira categoria experiência na engenharia e os conhecimentos específicos da empresa ou área na qual o engenheiro irá atuar. Em relação ao primeiro ponto, destaca-se a gestão de projetos, pois, embora, as Diretrizes Curriculares apresentem os itens III, IV, XI e XII que possibilitam o desenvolvimento dessa competência pelo futuro engenheiro durante a graduação, considerando a definição de gestão de projetos apresentada pelos entrevistados. Contudo, as entrevistas evidenciam a grande carência desse quesito na formação dos engenheiros participantes da pesquisa, o que aponta a necessidade de verificar a razão do ocorrido, como citado anteriormente, pode não ter sido suficientemente desenvolvido durante a graduação, porém maiores estudos devem ser realizados de forma a apontar as causas da deficiência. Para o Eng14, “A universidade poderia desenvolver disciplinas principalmente na área de gestão de projetos”; no mesmo sentido, o Eng16 afirma que “o engenheiro que sai da escola, não está preparado para o enfrentamento dos desafios da carreira. Ele precisa melhorar na gestão de projetos”; e o Eng15 reforça que “um curso que todo engenheiro precisa fazer é gestão de projetos”. Sob esse aspecto No que se refere ao conhecimento técnico, os entrevistados afirmam serem bem desenvolvidos nas Instituições de maior prestigio, contudo alertam para a quantidade de instituições que vem sendo abertas sem o mesmo padrão de qualidade. Em relação ao segundo ponto, destaca-se a gestão de pessoas, indicada pelos entrevistados como essencial para a atuação do engenheiro contemporâneo, porém, não Leonard de Araújo Carvalho 93 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO relacionada nas Diretrizes Curriculares Nacionais como uma competência a ser desenvolvida durante a graduação. A gestão de pessoas está além da capacidade de atuar em equipes multidisciplinares; ela permite ao indivíduo fazer a gestão dessa equipe e, para tal, engloba uma série de outras competências, como a motivação da equipe, saber ouvir, orientar seus integrantes, conscientizá-los da importância dos resultados almejados, etc., ou, como foi visto anteriormente, ser capaz de “mobilizar uma rede de atores em torno das mesmas situações, é a faculdade de fazer com que esses atores compartilhem as implicações de suas ações, é fazêlos assumir áreas de co-responsabilidade” (ZARIFIAN, 2012, p. 74). O relato do Eng7,Emp3 reforça essa importância. Na maioria das vezes, temos que conduzir trabalhos importantes com gestão de pessoas. Inclusive para conseguir o resultado esperado e orientar a equipe. Esse profissional tem que saber ouvir. Tem que persuadir as pessoas; ele não deve se impor. O trabalho é muito dinâmico. A gente precisa das pessoas. A partir do momento que você consegue acreditar no seu trabalho. A equipe consegue ver os resultados acontecendo. É habilidade de liderança. De conseguir interagir com outras áreas; de conduzir para a solução minha, mas para a empresa. Quando eu comecei como supervisor de turno, qual era a minha grande carência? Somente com a capacitação técnica, eu tive dificuldades para gerenciar equipe; ser um líder de equipe novato; entrando somente com o conhecimento técnico, tive dificuldades. (Eng7, Emp3) De forma a corroborar com o relato anterior, destaca-se a fala dos Eng14 e Eng15. O engenheiro, quando ele forma, ele não tem preparação para assumir a carreira de gestão e isso é uma demanda exigida pela maioria das empresas. A formação técnica ajuda muito na gestão, pois a gente acaba falando a mesma língua do técnico. Entretanto, com relação à gestão de conflitos, gestão de equipes, liderança, falta conteúdo acadêmico na formação. O engenheiro entra no mercado com a bagagem técnica e vai adquirindo o perfil de gestão com o tempo, ao longo da carreira. (Eng14, Emp5) Tem que ter alguma coisa nos últimos períodos da graduação para que o engenheiro saia da universidade com uma visão de negócio. Acredito que o engenheiro também precisa entender de gente, pois não temos apenas máquinas, também temos gente trabalhando com as máquinas. Depois que eu passei por um curso de gestão de pessoas eu consegui trabalhar muito melhor. A abordagem que existe na gestão de pessoas é de extrema importância. Acredito que a graduação pode ter um espaço para trabalhar conteúdos de gestão de pessoas. Quando eu fazia engenharia e participava do DA, eu até brinquei que a engenharia podia ter uma disciplina de “readaptação na sociedade”, porque os engenheiros geralmente ficam muito focados nos estudos técnicos e “esquecem do mundo”. (Eng15, Emp5) Leonard de Araújo Carvalho 94 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO No terceiro bloco estão as competências listadas pelos engenheiros como necessárias, porém que serão desenvolvidas ao longo da vida profissional como, por exemplo, a experiência profissional e conhecimentos específicos da empresa, inclusive, há o reconhecimento dos profissionais em relação a impossibilidade de desenvolvimento de certas competência em ambiente externo em função das especificidades a que se está sujeito em determinados itens. Leonard de Araújo Carvalho 95 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 7 Considerações finais Verifica-se que a noção de competência tem ganhado espaço constantemente no mundo do trabalho e no acadêmico, gerando alterações na formação e no modo de atuação dos engenheiros. Considerando as novas formas de organização do trabalho, com o modelo de competência sendo adotados em menor ou maior grau de abrangência, aliadas à mobilidade profissional acelerada e facilitada pela globalização, as Instituições de Ensino Superior vêm sendo pressionadas a adotar e desenvolver competências em seus alunos, de maneira a manter a sintonia com a sociedade e com o mundo do trabalho, a fim de possibilitar o ingresso e o desenvolvimento dos seus egressos no novo cenário mundial. No caso do Brasil, as alterações no sistema educacional decorreram das alterações da legislação que definem diretrizes para os currículos, realizadas pelo Ministério da Educação, precedidas de consulta às IES. Observa-se que as novas diretrizes curriculares apresentam avanços importantes, com a inclusão de competências não técnicas a serem desenvolvidas durante a graduação, além, claro, das competências técnicas. Ressalta-se que as modificações das Diretrizes Curriculares de 2002 em relação às estabelecidas em 1976 trouxeram avanços na formação dos engenheiros brasileiros, de forma a possibilitar que a sua formação seja realizada em sintonia com as mudanças da sociedade. Entretanto, deve ser observado que a necessidade de melhorias e adequações será constante no novo cenário político e econômico delineado atualmente, e que estudos para definirem qual direção tomar serão cada vez mais requisitados. A título de exemplo, pode-se verificar que as pesquisas realizadas no final da década de 90, por Salum (1999), Ferreira (1999) e USP (1995) não indicavam de forma tão explicita a necessidade de desenvolvimento de competências relacionadas a gestão de pessoas/projetos na forma em que foi verificado no presente estudo. Em relação ao ambiente das empresas nas quais os entrevistados estão inseridos, apresentam formas de gestão em transformação, não dispondo apenas dos conceitos utilizados no taylorismo, mas de uma mistura de conceitos e modos de trabalho. Existem, concomitantemente, elementos do taylorismo/fordismo, do toytotismo e do modelo de competência, em diferentes intensidades, a depender da empresa considerada. No que se refere ao modelo de competência, por apresentar diversas vertentes, também é observado com aspectos diversos nas empresas, havendo casos em que se notam maiores ou Leonard de Araújo Carvalho 96 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO menores características do taylorismo, outros com variações no grau de utilização da vertente francesa, americana, entre outras influências. Observa-se também que os profissionais entrevistados não possuem uma definição da noção de competência, em que pese a pluralidade das definições do termo encontradas na literatura. Embora as alterações nos moldes da organização das empresas representem um avanço para os empregados, os novos modelos devem ser observados e avaliados com cautela, no sentido de reconhecer que ainda existe muito a melhorar e que algumas características podem prejudicar conquistas passadas dos trabalhadores. No caso do modelo de competência, a grande questão parece repousar na forma de avaliação do trabalhador, pois, sendo ela realizada de forma individual, apresenta um aspecto negativo, uma vez que favorece o enfraquecimento das categorias e dos sindicatos, pois os objetivos e reivindicações podem assumir um caráter mais particularizado, o que pode reverter-se em prejuízo ao trabalhador. A autonomia, propiciando mais liberdade para o trabalhador, é relatada pelos entrevistados com entusiasmo, mas se realiza de forma limitada. O trabalhador é autônomo dentro dos interesses e limites estipulados pela empresa. No que tange aos objetivos propostos, considera-se que foram atingidos na presente dissertação. Em relação ao objetivo geral, que consistiu em analisar, junto aos profissionais atuantes em empresas de Minas Gerais, as competências necessárias ao engenheiro contemporâneo para sua atuação, foi possível, através das entrevistas efetuadas, realizar a análise proposta, detectando quais competências esses profissionais julgam necessárias, além de indicarem quais foram desenvolvidas durante a graduação e quais foram desenvolvidas posteriormente. Em relação aos objetivos específicos, também se considerou que foram alcançados, uma vez que foi possível identificar as competências necessárias à atuação profissional do engenheiro contemporâneo, na visão dos profissionais; com base nas competências identificadas, foi possível compará-las com as definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais e então verificar se as competências requeridas na atuação profissional do engenheiro são compatíveis com aquelas definidas pela Resolução CNE/CES 11, de 11 de março de 2002. Ainda com base nos relatos dos entrevistados, foi possível identificar quais competências foram desenvolvidas durante a graduação e quais as carências indicadas pelos profissionais, e, associada às competências definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais, Leonard de Araújo Carvalho 97 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO foi possível estabelecer relações entre as competências requeridas para a atuação profissional e as definidas para os cursos de Engenharia. De forma geral, observou-se que onze das quatorze competências definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais foram citadas ou estão diretamente relacionadas com as que foram mencionadas pelos entrevistados como essenciais na atuação do engenheiro contemporâneo. Contudo, o estudo demonstrou uma deficiência no desenvolvimento das competências não técnicas durante a graduação, a exemplo, da carência de competências relacionadas à gestão de pessoas, considerada, atualmente, pelos entrevistados, como um elemento-chave na atuação do engenheiro. Observou-se, também, que as competências técnicas vêm sendo mais bem desenvolvidas, o que pode ser resultado do longo período de orientação tecnicista dos cursos de engenharia no Brasil, aliado ao amplo conhecimento técnico dos docentes da área. Verifica-se, ainda, a necessidade de adequação das instituições de ensino, de forma a possibilitar o desenvolvimento das competências definidas nas Diretrizes Curriculares e também apontadas como essenciais pelos entrevistados, porém, com deficiência no enfoque acadêmico durante a graduação. É importante, no entanto, salientar que foram citadas competências que não são abordadas nas Diretrizes Curriculares, o que pode indicar a necessidade de adequações futuras, em especial, no que se refere à gestão de pessoas, pela recorrência nas citações como necessidade no âmbito profissional e como carência nos currículos de graduação. A gestão de projetos, na forma apresentada pelos entrevistados, reuniu uma série de competências definidas nas Diretrizes Curriculares que são elementos importantes para que o profissional possa exercê-la de forma adequada, contudo, os mesmos ressaltaram a carência desses conteúdos durante a graduação. Estudos futuros sobre esse item podem investigar a causa do problema; como hipótese, pode-se indicar a falta de desenvolvimento, pelas IES, de competências previstas nas Diretrizes Curriculares Nacionais, ou o desenvolvimento de forma segmentada, dificultando ao aluno relacionar o aprendizado da graduação com as situações práticas de trabalho. Ainda no que se refere a estudos futuros, sugere-se: O estudo sobre o conceito de competência adotado pelas IES para elaboração da grade dos cursos de engenharia e a sua aplicação durante o desenvolver do curso; Leonard de Araújo Carvalho 98 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO Análise junto aos docentes sobre o conceito de competência e se o tema é considerado para a elaboração da ementa das disciplinas dos cursos por eles ministrados; Análise da tendência adotada sobre o conceito de competência e sua aplicação na graduação das IES da América Latina. Leonard de Araújo Carvalho 99 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 8 Referências ALVES, Giovanni. Trabalho, corpo e subjetividade: toyotismo e formas de precariedade no capitalismo global. Trab. educ. saúde, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, set. 2005. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-7746200500020000 9&lng=pt&nrm=iso>. 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FORMAÇÃO: TÍTULO:___________________________________________________________________ INSTITUIÇÃO:___________________________________ANO DE CONCLUSÃO:______ TÍTULO:___________________________________________________________________ INSTITUIÇÃO:___________________________________ANO DE CONCLUSÃO:______ TÍTULO:___________________________________________________________________ INSTITUIÇÃO:___________________________________ANO DE CONCLUSÃO:______ 3. EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL: EMPRESA ATUAL: __________________________________________________________ FUNÇÃO: ____________________________ TEMPO DE TRABALHO: _______________ EMPRESA: _________________________________________________________________ FUNÇÃO: ____________________________ TEMPO DE TRABALHO: _______________ EMPRESA: _________________________________________________________________ FUNÇÃO: ____________________________ TEMPO DE TRABALHO: _______________ Leonard de Araújo Carvalho 108 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO ANEXO II QUESTÕES DA ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA 1. DEMANDA DE FORMAÇÃO: Considerando nosso sistema de formação verticalizado (aquele que traz níveis de escolaridade), gostaríamos de saber como se deu sua formação inicial, se você fez SENAI, se trabalhou antes de estudar ou se “completou” os estudos para só depois ingressar no mercado de trabalho? Depois de ingressar na empresa, como você deu continuidade aos seus estudos? Você que procurou se atualizar ou a empresa proporcionou novos cursos? 2. DEMANDA DE QUALIFICAÇÃO/REQUALIFICAÇÃO: Como você ganhou condições para realizar o seu trabalho, ou seja, como você se qualificou ou se requalificou para sua função? Foi através da experiência com o trabalho, realizou visitas técnicas ou participou de feiras, projetos, programa de treinee, estágios ou consultorias, enfim, como você se mantém atualizado frente ao mercado de trabalho? 3. O LUGAR POSICIONAL NA ESTRUTURA DA EMPRESA: Na hierarquia da empresa, a partir de sua formação e qualificação, qual sua posição nessa estrutura? A posição que você ocupa se refere a sua formação inicial e continuada? Como você conquistou essa posição? 4. FUNÇÕES QUE EXERCE/CARGOS: Levando em conta a sua posição na estrutura da empresa, que cargo você exerce? Quais são suas atribuições diárias? E em médio prazo? 5. COMPETÊNCIAS: Toda função a ser desempenhada traz consigo a necessidade de saberes, habilidades, atitudes e comportamentos que são próprios dela. Para você, quais competências um profissional deve possuir para se destacar na função que você exerce na empresa? Leonard de Araújo Carvalho 109 COMPETÊNCIAS REQUERIDAS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CONTEMPORÂNEO 6. GESTÃO DO TRABALHO: Sabemos que as empresas adotavam ou adotam modelos de organização que podem variar de acordo com o tempo ou de acordo com necessidades específicas. Considerando o seu tempo de atuação aqui na empresa você observou alguma mudança em nível de organização do trabalho, ou seja, como era a gestão do trabalho antes e como você a vê hoje? 7. RECRUTAMENTO: Como nossa pesquisa se trata de estudar as relações entre Engenheiro, Tecnólogo e Técnico, gostaríamos de saber se a empresa contrata esses três tipos de profissionais. Se sim, a empresa encontra no mercado? Com que facilidade? A empresa possui funcionários terceirizados nessas funções? Em quais setores? 8. POLÍTICAS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL: A empresa possui uma política formatada para a formação profissional de seus funcionários? Poderia nos descrever? Como esta política se integra aos programas de formação da empresa? 9. PROGRAMAS DE QUALIFICAÇÃO/REQUALIFICAÇÃO: A empresa possui um programa de qualificação/requalificação para seus funcionários? Se sim, quais são? Como funcionam? A que profissionais são destinados? Os funcionários são beneficiados após passarem por estes programas? Existem programas por demandas internas?