UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE, UNESC CURSO DE PSICOLOGIA LUANA COSTA COLLE A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOS ADOLESCENTES DO PROJETO BALAKUBATUKI NA CIDADE DE FLORIANÓPOLIS CRICIÚMA, DEZEMBRO DE 2004 LUANA COSTA COLLE A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOS ADOLESCENTES DO PROJETO BALAKUBATUKI NA CIDADE DE FLORIANÓPOLIS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Psicologia e Psicólogo da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC. Orientadora: Profª: Edelu Kawahala CRICIÚMA, DEZEMBRO DE 2004 LUANA COSTA COLLE A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOS ADOLESCENTES DO PROJETO BALAKUBATUKI NA CIDADE DE FLORIANÓPOLIS Trabalho de Conclusão de Curso aprovado pela Banca Examinadora para obtenção do Grau de bacharel em Psicologia e Psicólogo da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC. Criciúma, 08 de dezembro de 2004. BANCA EXAMINADORA: Edelu Kawahala – Mestra (UNESC) - Orientadora Adilton José de Paula – Especialista (NEN) Klondy Maria Allis Borges - Especialista (UNESC) AGRADECIMENTOS A meus pais por me prepararem para a vida com muito amor e garra; A minha orientadora Edelu Kawahala, pela compreensão, orientação e apoio dados, neste período de convivência; Aos meus colegas de faculdade em especial, as amigas Liliane, Aline, Graziela e Juliana, pelas sugestões valiosas no trabalho; A minha amiga Anna Paula que me deu apoio durante meu crescimento profissional; Aos adolescentes do Projeto Balakubatuki pelo respeito, carinho e confiança depositada no trabalho realizado; Ao coordenador e idealizador do Balakubatuki, Daniel da Luz, pela total dedicação dispensada na elaboração deste trabalho. O meu espírito é a minha fortaleza E eu não vou dar moleza A casa traz a criançada do morro Caixa, Queimada, Mocotó Eu vou bater lata, eu vou voltar pra casa E ainda vou aprender a tocar percussão A luta pra vida, a vida na baixada Tem que ficar de olho e não cair na roubada Aparecida, Vinte Cinco, Chico Mendes Retrato fiel do Brasil evidente Forte como os ventos de Iansã E clara como as águas de Iemanjá Me movem, me trazem pra perto do som Da lata, da quebrada num RA TATATÁ Mas... Não é o som da violência Sim é o som universal Que vem da terra do lugar aonde eu moro Que trás na mente a mudança que eu quero Fortaleza é o meu conhecimento A energia Iriê me mantendo em movimento Daniel da Luz RESUMO A presente pesquisa teve como objetivo verificar a influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki na cidade de Florianópolis. Para a realização da mesma entrevistou-se alunos e professores do projeto, e aplicou-se questionários com os adolescentes. A parti de um roteiro foram realizadas entrevistas abertas e semidirigidas, aplicação de questionários com questões abertas e fechadas. A forma de análise realizada foi através da análise de conteúdo, onde se buscou-se compreender o significado da música para os adolescentes, e a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto Balakubatuki. Após análises das entrevistas, conclui-se que a música influencia na construção da identidade dos adolescentes, na medida em que estes passam a se sentir valorizados, respeitados e aceitos. Passando assim a desenvolver uma consciência critica do seu papel de cidadão no mundo. Palavras chave: Música, Identidade, Adolescente, Balakubatuki. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 07 2 A HISTÓRIA DA MÚSICA ........................................................................... 09 2.1 Os elementos da música ..................................................................................11 3 INSTRUMENTOS DE PERCUSSÃO ........................................................... 15 4 ADOLESCÊNCIA ........................................................................................... 21 4.1 A história da criança no Brasil ................................................................... 24 5 IDENTIDADE ................................................................................................. 28 5.1 A adolescência e a construção da identidade ................................................. 32 6 PROJETO BALAKUBATUKI ...................................................................... 36 7 METODOLOGIA............................................................................................ 42 8 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ............................................46 8.1 Apresentação e análise dos questionários ...................................................... 44 8.2.1 Análise das entrevistas com os adolescentes ...............................................64 8.2.2 Análise das entrevistas com os adolescentes............................................... 80 8.2.3 Análise das entrevistas com os professores ................................................. 91 CONCLUSÃO ................................................................................................... 101 REFERÊNCIAS ............................................................................................... 104 REFERÊNCIA COMPLEMENTAR .............................................................. 108 APÊNDICE......................................................................................................... 109 ANEXO .............................................................................................................. 118 8 1 INTRODUÇÃO A adolescência é um período de mudança e transição, que afeta os aspectos físicos, sexuais, cognitivos e emocionais. É a fase da reorganização emocional, de turbulência e instabilidade, caracterizada pelo processo biopsíquico a que os adolescentes estão destinados. Movida pelo interesse em estudar e aprofundar meus conhecimentos sobre esta fase de transição de criança para adulto, surgiu através de uma visita ao projeto Balakubatuki a idéia de pesquisar a influência da música na construção da identidade dos adolescentes deste projeto. A música é parte integrante da vida do homem e veículo universal de suas emoções. É a capacidade que consiste em saber expressar sentimentos através de sons artisticamente combinados, ou a ciência que pertence aos domínios da acústica, modificandose esteticamente de cultura para cultura. Estudada por filósofos, médicos e musicistas, é o veículo de comunicação entre o concertista e a platéia. Seja qual for o propósito da música, ela está sempre relacionada à experiência do próprio homem, falando de suas emoções e agindo dentro de seus limites sensoriais. A pesquisa tem como principal objetivo identificar a influência da música na construção da identidade dos adolescentes. Os seus objetivos específicos compreendem, conhecer o significado da música para os adolescentes, investigar qual o discurso dos mesmos sobre o projeto Balakubatuki e verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto Balakubatuki. Para tal, procurou-se compreender a história da música, a origem dos instrumentos de percussão, e as mudanças e transformações ocorridas na adolescência. Em seguida, fez-se um entendimento sobre identidade e como esta se constrói na adolescência. 9 No referencial teórico abordou-se ainda a história do projeto Balakubatuki e sua principal trajetória até os dias atuais. Foram utilizados alguns autores para o referencial teórico, destacando-se Wisnik, Barraud e Matriz, utilizados para compreensão da história da música. Segundo estes autores a música é parte da vida humana, estando presente em todas as classes e grupos sociais. Para compreensão dos instrumentos de percussão utilizou-se Gonçalves e Frungillo. Tais autores nos falam que os instrumentos de percussão são os instrumentos mais antigos da humanidade e acompanham toda a trajetória do homem. Para falar de adolescência utilizou-se basicamente a obra de Osório, relacionando as mudanças decorrentes deste processo de transição criança-adulto. O entendimento de identidade buscou-se compreender através de Ciampa, autor para o qual a identidade acontece no social através das relações que estabelecemos com o meio onde estamos inseridos. A seguir, faz-se a análise e interpretação dos dados coletados no universo da pesquisa junto aos adolescentes e professores. Por fim, a conclusão de todo o trabalho. 10 2 A HISTÓRIA DA MÚSICA A palavra música é de origem grega e significa "a força das musas". De acordo com Buckinx (1998), as musas eram as ninfas, que ensinavam aos seres humanos as verdades dos deuses, semideuses e heróis, através da poesia, da dança, do canto lírico, do canto coral e do teatro. Todas estas manifestações eram acompanhadas por sons. Então música, numa definição mais precisa, seria a arte de ensinar. Como as primeiras manifestações musicais não deixaram vestígios, é praticamente impossível responder como surgiu a música. Alguns estudiosos nem tentam explicar seu surgimento, outros enfrentam o problema com base naquilo que se sabe sobre a vida humana na Pré-história e preenchem as lacunas com certa dose de imaginação. Mas nenhuma hipótese diz com exatidão o momento em que os primitivos começaram a fazer um sentido religioso. Considerava-a um presente dos deuses e atribuía-lhe função mágica, associada à dança, ela assumia um caráter de ritual, pelo qual as tribos reverenciavam o desconhecido, agradecendo-lhe a abundância da caça, a fertilidade da terra e dos homens. Com o ritmo criado batendo as mãos e os pés, eles buscavam também celebrar fatos da sua realidade, vitórias na guerra, descobertas surpreendentes. Mais tarde, em vez de usar só as mãos e os pés, passaram a ritmar suas danças com pancadas na madeira, primeiro simples e depois trabalhadas para soarem de arte com os sons. Ao que parece, os homens e as mulheres das cavernas davam à sua música formas diferentes. Surgia, assim, o instrumento de percussão. Até o século XV ou XVI, segundo Wisnik (1989), a atividade musical era utilizada em rituais religiosos, e como forma de comunicação através dos trovadores, que levavam notícias à população. A noção de arte da música, voltada exclusivamente para a 11 criação abstrata de obras que explorassem os parâmetros musicais, só surgiu no Renascimento europeu e em países como a França, Itália, Inglaterra e Alemanha. Já no século XX, conforme descreve Wisnik (1989), a música passa a ter mais força, com a inclusão da música medieval, do canto gregoriano, das danças e do repertório dos menestréis, uma espécie de cantor e poeta da época, dos coralistas renascentistas e da ópera, a música começa a ganhar mais destaque. Sabe-se que a história da música que estudamos é a História da Música da Europa Ocidental. Segundo Barraud (1991) Esta música não é a única, não é a mais importante e não é melhor do que a de outros povos e civilizações. É aquela na qual estamos inseridos culturalmente e que aprendemos e trabalhamos todo o seu arcabouço teórico, tocamos os instrumentos inventados ou desenvolvidos por ela e elegemos os compositores daquele continente como nossos modelos. Além disto nós delimitamos seu estudo a partir da Idade Média, mais precisamente aquelas músicas registradas depois do século VII (BARRAUD, 1991: 25). Conforme o autor citado as músicas dos períodos Primitivos (civilizações egípcias, mesopotâmicas, gregas, romanas e de outros povos) e do início da Idade Média estão perdidas, apesar do trabalho arqueomusicológico. O que resta são pinturas ou esculturas de músicos, referências literárias ou religiosas, instrumentos, algumas teorias musicais e supostas "partituras", tudo muito fragmentado, disperso e precário. Mas de acordo com o autor, o que influenciou a música européia foram às teorias gregas modificadas pelos interesses dos teóricos medievais, e a contínua utilização de diversos instrumentos daquelas civilizações antigas. “A prática musical dos judeus influenciou os cânticos dos cristãos. As atividades musicais dos povos germânicos e dos árabes influenciaram toda a música profana medieval com seus instrumentos, formas, ritmos e estruturações harmônicas”. (BARRAUD, 1991, p. 29). As músicas chinesas, indianas e de outros povos asiáticos, possuem segundo Barraud (1991), uma estrutura diferente e uma história independente, que pouco se relacionou com a da Europa, a não ser em épocas mais próximas. As músicas dos africanos, dos 12 ameríndios e dos oceânicos só agora estão merecendo pesquisas científicas etnomusicológicas mais profundas. Conforme o autor descreve as divisões históricas em períodos estilísticos são recentes e estão sujeitas ainda a revisões. No caso da música, muitos períodos não têm sincronismo com os das outras artes e nem se referem a algum detalhe específico musical. Para Matriz (1981), a “música é a arte da inteligência humana, trabalha com sons e tem por objetivo a universalidade, a abstração e a exploração técnica”. (MATRIZ, 1981, p. 26). Conforme o autor a música faz parte de nossa vida de uma maneira mais ou menos intensa, consciente ou não, mas existe para todos. No decorrer da vida humana, segundo Matriz (1981), compreendida pela história, a música existiu e existe em toda parte. É uma atividade essencialmente humana, através da qual a humanidade constrói significações na sua relação com o mundo, ela está presente em todos os tempos e em todos os grupos sociais, assim podemos dizer que a música é um fenômeno universal. 2.1 Os elementos da música Desde que apareceu na face da terra, o ser humano, graças às suas aptidões auditivas e vocais, revelou-se dotado de capacidade musical instintiva. Segundo Becker (1989), os seres humanos pouco a pouco, foram aprendendo a distinguir os sons mais agradáveis e a imprimir à própria voz uma cadência regular, o ritmo, organizando uma seqüência de sons precisos e suaves, que acabaram formando uma melodia. Depois, percebendo que a voz não era o bastante, começou a acompanhar seu canto com a dança e com os primeiros instrumentos musicais. Assim conforme o autor o canto, a dança e a música passaram a fazer parte de sua vida. 13 A palavra música é de origem grega, "musiké", e designava não só a melodia executada através de instrumentos, mas também o canto e a dança. As três artes apresentavam-se indissoluvelmente ligadas, nos tempos antigos, tendo sido apreciadas por ricos e pobres, indistintamente, em todas as civilizações. Conforme Matriz (1981), pode afirmar que música é a arte da inteligência humana trabalha com sons e tem por objetivo a universalidade, a abstração e a exploração técnica. A matéria-prima da música é o som, que é uma forma de energia que se propaga pelo ar, pela água e por outros meios, perturbando-os de alguma maneira, e é captada pelos ouvidos. A ciência que estuda o som é a Acústica. O som, em Música, é definido por seis parâmetros que se relacionam entre si: Altura: É a nota ou o tom. Com ela definimos se o som é grave ou agudo. Segundo Brito (2003), da relação entre os sons formamos a Melodia, Harmonia e Textura. A Altura conforme o autor só foi fixada teoricamente a partir do século IX d.C. Duração: É a duração de emissão do som. Definimos com a duração se o som é curto ou longo. A relação entre as durações forma os ritmos. De acordo com Brito (2003), muitos destes ritmos foram extraídos da natureza ou do corpo humano ou são criações abstratas. A duração só foi fixada a partir do século XIII d.C. 14 Dinâmica/Intensidade: De acordo com Brito (2003), entende-se por dinâmica ou intensidade a força ou a suavidade imprimida ao tocar um som. A dinâmica só começou a ser trabalhada segundo o autor citado a partir do século XVIII. Timbre: São as vozes, os instrumentos ou aqueles aparelhos que os compositores elegem para intermediar suas idéias musicais. Segundo Becker (1989), mesmo existindo por milhares de anos, os instrumentos musicais passaram a ser explorados em todos os seus recursos sistematicamente a partir do século XIX. Articulação: São os modos de produzir o som. Para Becker (1989), entende-se por articulação os tipos de toques, golpes e efeitos aplicados pelo executante na voz ou instrumento, modificando a sua qualidade. Apesar de sempre existir por milhares de anos, só no século XVII é que foi tratada teoricamente. Andamento: É a velocidade de execução de um som. Conforme Becker (1989), até o século XVII era intuitivo, mas depois passou a ser estudado com objetividade. Segundo Trein (1986), dependendo do contexto histórico (cultura, política, ciência, religião, artes) do compositor, a relação dele com estes elementos musicais é que 15 produzem as formas, os gêneros e os estilos. Becker (1989) afirma que o ritmo tem fundamental importância no desenvolvimento da criança, pois está presente em tudo, está no corpo como a respiração, está na natureza como as estações, está no movimento como a Terra. Assim, o ritmo é percebido pela criança ou o adolescente fazendo com que estes imitem o ritmo da música mantendo a atenção e a concentração. 16 3 INSTRUMENTOS DE PERCUSSÃO Os instrumentos de percussão são os mais antigos da humanidade e sua evolução acompanha a trajetória dos diversos povos, culturas e manifestações musicais do planeta. De acordo com Frungillo (2002), os instrumentos de percussão, são os instrumentos musicais cujos sons, ou mesmo ruídos, são produzidos pela batida, sacudimento ou fricção de objetos, os instrumentos musicais de Percussão soam, ao ser agitados ou percutidos. A história e a origem dos instrumentos de percussão confundem-se com a própria história da humanidade. Ao nos reportarmos à história do homem na Terra fica claro que a percussão, como um som específico, praticamente nasceu com a raça humana. São de origens muito antigas, remanescentes de remotos instrumentos utilizados em rituais religiosos, ou usados em rudimentares meios de comunicação, e até como estimulantes para as tropas nos campos de batalha. (GONÇALVES, 1999; 51). As necessidades de comunicação conforme Gonçalves (1999), impulsionaram o homem a produzir sons, seja para a imitar os sons da natureza (trovão, chuva), as batidas do coração, seja para reverenciar o desconhecido, através de rituais, dando à música um sentido religioso e ritualístico, associado também à dança. Batendo as mãos e os pés, eles buscavam também celebrar fatos de sua realidade, vitórias na guerra, descobertas surpreendentes. Mais tarde, conforme o autor, em vez de usar só as mãos e os pés, passaram a ritmar suas danças com pancadas na madeira, primeiro de maneira simples e depois trabalhadas, para soarem de formas diferentes. Surgia assim, o instrumento de percussão. Segundo Gonçalves (1999) estudos arqueológicos comprovam a utilização de pedras, bastões e ossos de animais como prováveis objetos utilizados pelo homem para produzir sons. Esses instrumentos são chamados de idiofones e podem ser divididos de acordo com a sua forma de utilização: chocalhar, socar, 17 raspar, bater. Frutos e sementes secas podiam ser chocalhados. Troncos e tubos ocos podiam ser golpeados com as mãos, bastões ou ossos. Os objetos com superfícies não lisas podiam ser raspados, ou ainda podiam ser golpeados (madeira, pedra, osso). De acordo com Frungillo (2002), a percussão sempre esteve presente em todas as culturas e manifestações musicais do mundo inteiro. Nas diferentes tribos e povos indígenas, africanos, árabes, indianos, chineses, pode-se encontrar uma incrível variedade de ritmos e instrumentos musicais que foram também se transformando à medida que o mundo moderno foi se desenvolvendo. Mesmo na música erudita, de tradição ocidental européia, a percussão foi ganhando seu espaço, principalmente no século XX, à medida que os compositores buscaram inovações, seja através de novas possibilidades timbrísticas, ou pelo resgate folclórico cultural de suas origens. De forma geral, o século XX foi o século da redescoberta da percussão pelos principais compositores internacionais. As principais inovações musicais acabaram passando pela percussão, com sua riqueza timbrística ilimitada e suas possibilidades rítmicas marcantes. Durante diferentes períodos deste século, o renascimento do nacionalismo levou os compositores a procurarem uma reaproximação com as raízes folclóricas de seus países. Novamente a percussão foi fundamental nesta redescoberta, pois ela sempre esteve presente na música étnica e folclórica de grande parte das culturas do planeta. (GIANESELLA, 1999, p.19). Em geral, o percussionista tem a sua formação musical ligada tradicionalmente ao fazer musical em grupo, seja pela sua participação em grupos de tradição folclórica, étnica e religiosa, seja pela sua participação em bandas, orquestras e grupos de percussão. Tanto na formação erudita quanto na formação popular, conforme Gianessella (1999), o percussionista torna-se um músico privilegiado no que diz respeito à prática em conjunto. Por isso, trabalhar em grupo com instrumentos de percussão é uma atividade pedagógica que deve fazer parte da formação musical de todo percussionista. 18 Segundo Frungillo. A percussão é formada por um conjunto de instrumentos vejamos os principais: Agogô Instrumento musical de percussão, de origem africana composta de um pequeno arco, uma alça de metal com um cone metálico em cada uma das pontas, estes cones são de tamanhos diferentes, portanto produzindo sons diferentes que também são produzidos com o auxílio de um ferro que é batido nos cones. De acordo com o autor citado o termo agogô pertence a língua nagô e vem do vocábulo agogô, que quer dizer sino. Atabaque De acordo com Frungillo (2002) este é um instrumento de origem árabe, que foi introduzido na África por mercadores que entravam no continente através dos países do norte, como o Egito e foi introduzido no Brasil, também pelos portugueses, apesar de o mesmo já ser conhecido pelos africanos. É geralmente feito de madeira e presa umas às outras com arcos de ferro de diferentes diâmetros que, de baixo para cima dão ao instrumento uma forma cônico-cilíndrica é preso ao instrumento um pedaço de couro de boi bem curtido e muito bem esticado. Berimbau O berimbau é um instrumento de percussão trazido da África. Muito usado nas rodas de capoeira. Segundo Frungillo (2002), ele só entrou na história da capoeira no século 19 XX, antes o instrumento era usado pelos vendedores ambulantes para atrair os clientes. O berimbau que se conhece e se toca em todo o mundo é um arco feito de madeira específica tendo as pontas ligadas por meio de um fio de aço, numa das extremidades, amarra-se uma cabaça e esta, quanto mais seca estiver, melhor. Como o tocador faz movimentos aproximando-o e afastando-o da barriga, vem a designação de berimbau de barriga. Aqui no Brasil ele é conhecido por: berimbau, urucungo, orucungo, uricungo, rucungo, e berimbau de barriga. Caxixi O caxixi é um pequeno chocalho feito de palha trançada com base de cabaça, cortada em forma circular e a parte superior reta, terminando com uma alça da mesma palha, para se apoiar os dedos durante o toque. No interior do caxixi há sementes secas ou pequenos seixos, que ao se sacudir dá o som característico. Ganzá Feito de gomo de bambu com sulcos transversais sobre o qual passeia uma haste de metal. Também existe um outro tipo feito de uma pequena mola de arame enroscado, colocado numa caixa de madeira ou metal e sobre a qual se passa sucessivamente de uma ponta à outra uma haste metálica. 20 Pandeiro No Brasil, o pandeiro entrou por via portuguesa. Segundo o autor citado o pandeiro era usado para acompanhar as procissões religiosas. Feito de couro de cabra e madeira, de forma arredondada. É o som cadenciado do pandeiro que acompanha o som do caxixi do berimbau, numa roda de capoeira. Ao tocador de pandeiro é permitido executar floreios e viradas para enfeitar a música. Reco-Reco Instrumento de percussão composto de uma espécie de cano de metal, coberto por duas ou três molas de aço, levemente esticadas e, que para produzirem o som são friccionadas por um "palito" comprido de metal. Tambor: Conforme nos fala Frungillo (2002), os tambores estão entre os mais antigos instrumentos, sendo conhecidos em praticamente todas as eras e culturas. Em sua maioria produzem som, sendo percutidos com a mão ou com baquetas, podendo ter formatos variados. Para Frungillo (2002), os instrumentos de Percussão dividem-se em duas categorias: Altura definida ou som determinado. São aqueles que produzem notas de altura determinada, aceitam "afinação", e em determinados tipos reproduzem melodias. Altura indefinida ou som indeterminado. São aqueles que produzem sons de altura indefinida, prestando-se para a marcação rítmica ou para a geração de efeitos sonoros 21 especiais. Há numerosos tipos destes instrumentos musicais, sendo muitos deles criados de acordo com a concepção musical do artista ou através do apelo que o arranjo necessita. Segundo Ginasselli (1999), a percussão tem o poder mágico de despertar na criança ou no adolescente a disciplina, a responsabilidade e a consciência que eles precisam para mudar de vida. Seja como músico ou como qualquer outro profissional. 22 4 ADOLESCÊNCIA Adolescência constitui-se como um fenômeno novo relativamente novo, portando há pouco material produzido sobre adolescência, principalmente quando se tratado de Brasil. A primeira idéia que nos surge quando pensamos em adolescência é “transformação”. Alguns autores sublinham as transformações corporais, a chamada puberdade, marcada pelo estirão (crescimento rápido), surgimento de pêlos pubianos, mudança na voz dos meninos, aumento dos seios nas meninas, ebulições hormonais levando à explosão da sexualidade, etc. Outros autores frisam as transformações comportamentais, tais como uma suposta rebeldia, um certo isolamento, um apego exagerado ao grupo, adoção de novas formas de se vestir, falar e se relacionar, além de episódios de depressão, tristeza ou euforia. Conforme Osorio (1992) não podemos compreender a adolescência estudando separadamente os aspectos biológicos, psicológicos, sociais ou culturais. “Eles são indissociáveis e é justamente o conjunto de suas características que conferem unidade ao fenômeno da adolescência. (OSORIO, 1992: 10)”. A organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a adolescência como o período da vida compreendido entre os 12 anos e os 20 anos de idade. Porém determinar seu fim é uma tarefa complexa de acordo com Osório (1992), há uma série de fatores de natureza sóciocultural envolvendo seu fim, segundo o autor o final da adolescência está relacionado com a capacidade de se assumir compromissos profissionais, a possibilidade de estabelecer relações afetivas estáveis, a aquisição de um sistema de valores pessoais e a relação de reciprocidade com a geração precedente. Isto ocorreria conforme Osório (1992), por volta dos 25 anos na 23 classe media brasileira, com variações para mais ou para menos devido as condições sócioeconômicas da família de origem do adolescente. Na adolescência começa a se criar expectativas e curiosidades em relação a si mesmo e ao outro. O adolescente começa a adquirir conhecimentos a respeito da vida e do ser humano e começa a se interessar um pouco mais pelo mundo adulto. “Sabe que seu mundo (infantil) está sujeito a sofrer transformações. Embora tenha a percepção dessa transição criança-adulto, tal processo é ainda um tanto nebuloso e desconhecido para eles”. (COSTA, 1986, p. 49). De acordo com o autor citado acima, o adolescente percebe que seu estado de dependência está preste a terminar, para assim, assumir determinadas funções e responsabilidades características do mundo adulto. O adolescente passa a observar mais a si mesmo e aos companheiros. A modificação corporal, essência da puberdade, é vivida pelo adolescente com muita ansiedade, em muitas vezes, ele faz uma fuga do mundo externo, criando um mundo interno só dele. O medo desta modificação, ou angústia da não aceitação pelo mundo externo, pode muitas vezes, fazer o adolescente se achar incapaz, o que pode prejudicar seu desenvolvimento físico e intelectual. A adolescência se caracteriza segundo Outeiral (1994), pela passagem de uma crise de identidade na qual o adolescente se questiona a respeito de assuntos ligados ao seu corpo, aos valores existentes, as escolhas que deve fazer. O adolescente se afasta da identidade infantil e vai construindo pouco a pouco uma nova definição de si mesmo. É um período de reorganização pessoal e social que se inicia, na maioria das vezes, com contestações, rebeldias, rupturas e inquietações. Trata-se da passagem do mundo infantil para o mundo adulto. 24 O adolescente vive, conforme Outeiral (1994), neste momento evolutivo, a perda de seu corpo infantil, com uma mente ainda infantil e com um corpo que vai se fazendo inexoravelmente adulto, que ele teme, desconhece e deseja e, provavelmente, que ele percebe aos poucos diferente do que idealizava ter quando adulto. Assim, querendo ou não, o adolescente é levado a habitar um novo corpo e experimentar uma nova mente. Paralelamente as modificações físicas há avanços intelectuais, permitindo ao individuo um aperfeiçoamento da capacidade de pensar de forma abstrata. Desenvolve-se o raciocínio hipotético dedutivo e simbólico. Conforme Costa (1986), o adolescente se torna capaz de incorporar ao raciocínio a consideração do possível, indo além da capacidade objetiva. Faz hipóteses e deduz as conseqüências dessas hipóteses. Do ponto de vista emocional, o desenvolvimento também adquiri grande intensidade durante a adolescência. Bee (1997), fala que uma das mudanças que ocorrem, é na auto-estima, uma redução leve é observada, vindo a elevar-se posteriormente. Refere-se ao final da adolescência, em torno de 19 ou 20 anos, o indivíduo possui uma idéia bastante positiva de sua autovalia global, bem maior do que quando tinha 08 ou 11 anos. A breve queda na auto-estima, no início da adolescência, parece estar relacionada tanto à idade quanto à mudança de nível escolar (com mais seriedade e nível de exigência maior), ao mesmo tempo em que se dão as variações da puberdade. A dor de abandonar seu mundo, entender tais modificações que são incontroláveis dentro de si, leva o adolescente reformular o seu mundo exterior. Os adolescentes muitas vezes criticam valores de seus pais e da sociedade. O pensamento e o comportamento muitas vezes parecem egocêntricos onde conclui que os outros estão preocupados quanto eles próprios com seu comportamento e aparência. O desenvolvimento cognitivo na adolescência também tem um papel importante no desenvolvimento da personalidade e na formação de um senso claro de identidade. 25 4.1 A história da criança no Brasil Como mencionado anteriormente, atualmente há poucos materiais produzidos sobre adolescência. Muitos materiais existentes falam do adolescente de modo geral, como se todos os adolescentes passassem pelas mesmas transformações, e vivessem nas mesmas classes sociais, porém não podemos ver o jovem de classe média alta sendo igual ao jovem de classe baixa. Pois este está inserido em outro meio cultural e social, o acesso à cultura e a informação são outros. E com isso o seu desenvolvimento é outro. Desta forma remeteremos a historia da infância no Brasil, para chegarmos mais próximo a história do adolescente das classes mais baixas. As crianças brasileiras estão em toda parte. Nas ruas, nas saídas das escolas, nas praças, nas praias. Sabemos que seu destino é variado. Há aquelas que estudam, as que trabalham, as que cheiram cola, as que brincam, as que roubam. Há aquelas que são amadas e outras, simplesmente usadas. A história sobre a criança, feita no Brasil, assim como no resto do mundo, vem mostrando que existe uma enorme distância entre o mundo infantil descrito pelas organizações internacionais, por ONGs ou autoridades e aquele no qual a criança encontra-se cotidianamente imersa. O mundo do que a “criança deveria ser” ou “ter” é diferente daquele onde ela vive ou, no mais das vezes, sobrevive. Desde o início da colonização brasileira, as escolas jesuíticas eram poucas e, sobretudo, para poucos. Se as crianças indígenas tiveram acesso a elas, o mesmo não podemos dizer das crianças negras, embora saibamos que alguns escravos aprendiam a ler e escrever com os padres. 26 No século XIX, a saída para os filhos dos pobres não seria a educação, mas a sua transformação em cidadãos úteis e produtivos na lavoura, enquanto os filhos de uma pequena elite eram ensinados por professores particulares. No Brasil Colônia era comum o nascimento de crianças fora do seio familiar, fruto das relações espúrias que os portugueses mantinham com mulheres indígenas e africanas, como descreve Derexel (1989). A falta de reconhecimento dessas crianças pelos seus pais, no entanto, não as levavam à marginalidade já que a organização rural vigente acabava por absorver e até proteger essas crianças nas fazendas de engenho. No período colonial, a palavra “menor” estava sempre associada à questão da idade, assinalando os limites etários que impediam a emancipação paterna, assim como assumir responsabilidades civis ou religiosas. Com a proclamação da independência, os juristas passaram a usar o termo menor como um dos critérios que definiam a responsabilidade penal do indivíduo pelos seus atos. Em fins do século XIX passou-se a olhar o menor com mais atenção. Eram crianças e adolescentes pobres, que não estavam sob a proteção nem da família, nem de tutores e por isso chamadas de abandonadas. Esses menores abandonados eram encontrados nos mais variados locais, inclusive em cadeias, onde eram chamados de menores criminosos. Segundo Drexel (1989), começou-se a perceber que o que caracterizava esses menores eram a pobreza, a desproteção moral e material pelos pais, tutores, Estado e sociedade. A rua passou a ser considerada o local da desagregação, onde nasciam e se multiplicavam os vícios e as ações criminosas. Já não havia dúvida que o abandono de crianças e adolescentes estava relacionado com o processo de modernização que o país estava vivendo. No entanto, segundo Londono (1996), a responsabilidade desta situação passa a ser vista aos pais de família que não exerciam sua autoridade, pois, muitas vezes, estavam entregues ao vício e, também, às mulheres que acabavam tendo filhos sem pais. O menor 27 abandonado que, até então, era visto, apenas como um perigo ao futuro da sociedade, passa a ser visto como vítima. O menor abandonado que, até então, era visto apenas como um perigo ao futuro da sociedade, passa a ser visto como vítima.São vítimas da falta de educação intelectual e afetiva; da miséria dos pais, da ausência de carinhos maternais. (LONDONNO, 1996: 28). A existência de crianças e adolescentes em situação de rua demonstra a segundo o autor citado acima a enorme incompetência da sociedade brasileira em promover o desenvolvimento econômico, distribuição de renda, igualdade de oportunidades, políticas públicas básicas e direitos humanos. A partir da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, surgiu, principalmente, entre as organizações não governamentais, a preocupação em diagnosticar o número de crianças e adolescentes em situação de rua. Verificou-se que os números eram bem menores do que se imaginavam. No entanto, mesmo os números sendo menores, não minimizam os problemas enfrentados, pelo contrário, aumentam a responsabilidade dos governantes, e de toda sociedade, em garantir a vida e a cidadania dos brasileiros mais jovens. É de fundamental importância a participação do Estado na vida do povo, para que esse tenha cidadania. É preciso que a família, juntamente com a comunidade, tenha acesso à formulação das políticas básicas. A pobreza e a miséria não tiram da família seus direitos e deveres. Ao contrário, a família tem direito à proteção quando dela necessitar, tem direito a ajuda para realizar sua função social. Cabe ao Estado criar e manter programas de auxílio e promoção, como a superação do desemprego, da renda insuficiente, entre outros. A realidade da situação das crianças e adolescentes brasileiros é dividida em dois grupos de acordo com Priori (2000), há aquelas que tem acesso à educação, a cultura, mais existem crianças que vivem na mais precária situação de sobrevivência. Muitas crianças e adolescentes trabalham desde pequenos, quebram pedras, fazem carvão, capinam a roça, embalam compras em supermercados, limpam pára-brisas de automóveis, etc. Outras são 28 responsáveis por seus irmãos menores, preparam a comida e arrumam a casa. Uma parcela possui uma agenda cheia de atividades culturais e esportivas como aulas de balé, inglês, piano, natação. Existem também as que perambulam sozinhas ou em turmas pelas ruas das grandes cidades, sem moradia e sem proteção. Há aquelas que têm oportunidades de diversão no cinema, no teatro e no circo. Mas a maioria convive apenas com o rádio e a televisão. De acordo como descreve Londono (1996), se o Estado não cumpre com sua obrigação está colaborando para o aumento do número de crianças e jovens que vivem nas ruas. É dever da sociedade ao lado do Estado e da família em assegurar à criança e ao adolescente com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los livre de qualquer negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Permitir que crianças e jovens façam da rua seu habitat, traz conseqüências danosas para toda a sociedade. Para as crianças e jovens significa, praticamente, a perda de uma vida que poderiam ter, caso estivessem na companhia familiar. Dificilmente, uma criança que viva nessa situação, poderá ter um futuro que não seja da criminalidade, da prostituição, das drogas etc. Estarão respondendo à violência que sofreram, com mais violência ainda. E, por terem cometido ato infracional nova violência virá, por meio da tortura, do extermínio, ameaças de morte, segregação em instituições fechadas etc. (LONDONO, 1996: 37). Há quem considere que a maior culpada seja a família, por ela ser a célula da sociedade e a responsável pela formação e socialização da criança. Mas conforme descreve o autor é preciso que a família tenha condições materiais para manter-se. É preciso que os pais tenham emprego, salário, moradia e que as crianças tenham saúde, escola, lazer etc. Infelizmente, isso não é realidade para todos os brasileiros. A má distribuição de renda, a corrupção, as políticas assistencialistas e o favorecimento pessoal, são práticas freqüentes no Brasil e que tira da maioria da população necessitada o direito a assistência de que faz jus. 29 5 IDENTIDADE Entende-se por identidade as representações e sentimentos que o individuo desenvolve a respeito de si próprio a partir do conjunto de suas vivencias. “A identidade é a síntese pessoal sobre si mesmo, incluindo dados pessoais como cor, sexo, e idade, e dados biográficos como a trajetória, atributos que os outros lhe conferem, permitindo uma representação a respeito de si”. (BOCK, 1998:36). Segundo Bock, (1998), este conceito supera a compreensão do homem enquanto conjunto de papeis, de valores, de habilidades e atitudes. A autora nos fala que a mudança nas situações sociais, a mudança na historia de vida e nas relações determinam um processo continuo na definição de si mesmo. A identidade deixa de ser algo estático e acabado para ser um processo continuo de representações como nos fala BOCK (1998), um processo continuo de representações de seu “estar sendo” no mundo. Sabemos que muitos papéis são definidos em função de uma relação com outras pessoas tais como: filho/pai; professor/aluno Nossa identidade não é um dado pronto e acabado. E, diante de mudanças, perguntamo-nos se tornamo-nos algo que já éramos ou transformamo-nos em algo novo: “Podemos imaginar as mais diversas combinações para configurar uma identidade como uma totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável” (CIAMPA, 1992: 61). Assim na relação mãe/filho já se manifestam expectativas sobre ser mãe e ser filho, as quais se concretizam e se modificam no estabelecimento das interações. A individualidade, apresentada ao sabermos quem somos, é um fenômeno social que resulta da constituição de um indivíduo representado anteriormente. 30 A ampliação da consciência sobre o que determina nossas escolhas, nossas atitudes pode ser feita a partir do feedback, ou seja, buscar se ver com os olhos dos outros, conhecer como nosso comportamento afeta e é afetado pelos outros. Este processo, em que me reconheço e conheço os outros, faz do grupo um lugar propício ao desenvolvimento da responsabilidade sobre a construção de nossa identidade. As possibilidades que os indivíduos têm de fazer escolhas em suas vidas cotidianas não são, contudo, totalmente livres. De acordo com Giddens (2002), elas dependem dos vínculos que estabelecemos nas múltiplas redes existenciais que constituem o social. A construção de autonomia num contexto societário de maior capacidade de escolhas frente às determinações do passado se faz no interior de fluxos sociais e comunicativos altamente carregados de estímulos, mensagens e informações orientadoras dos modos de ser, agir, sentir e pensar. (GIDDENS, 2002: 32). É neste sentido conforme o autor que a elaboração da identidade pessoal se identifica também com processos de autoconsciência que reconhecem os limites e as possibilidades de construção autônoma do ser social. Assim, a identidade se configuraria como um sistema dinâmico definido entre possibilidades e limites que gera um campo simbólico no qual o sujeito pode conquistar a capacidade de intervir sobre si e reestruturar-se. Uma vez que a identidade seja reconhecida numa relação ela é assumida como produto e não como produção, e para se manter assim, se faz necessária a re-atualização através de rituais sociais, reposição como algo já dado, retirando em conseqüência, o caráter de historicidade, aproximando-a da noção de mito que prescreve condutas corretas, reproduzindo o social. “A reposição da identidade deixa de ser vista como sucessão temporal passando a ser vista como simples manifestação de um ser idêntico a si mesmo em permanência e estabilidade” (CIAMPA, 1985:66). O sujeito na construção de sua identidade faz sua auto avaliação em parte pelo grupo no qual convive, procura consideração não apenas por si, mas quer que seu grupo seja 31 valorizado também. Segundo Myers (2000), quando o sujeito não possui uma identidade positiva ele procura uma identidade social procurando aumentar sua auto-estima dentro de um grupo. A identidade é uma construção que se faz com atributos culturais, isto é, ela se caracteriza pelo conjunto de elementos culturais adquiridos pelo indivíduo através da herança cultural. A identidade confere diferenças aos grupos humanos. Ela se evidencia em termos da consciência da diferença e do contraste do outro. Ao longo de nossa história, na qual a colonização se fez presente, a escravidão e o autoritarismo contribuíram para o sentimento de inferioridade do negro brasileiro. A ideologia da degenerescência do mestiço, o ideal de branqueamento e o mito da democracia racial foram os mecanismos de dominação ideológica mais poderosos já produzidos no mundo, que permanecem ainda no imaginário social, o que dificulta a ascensão social do negro, pois este é visto como indolente e incapaz intelectualmente. Segundo Castells (2000), pode-se dizer que para a população negra a superação dos estereótipos vinculados à cor, (admitindo-se que os negros se encontram muito freqüentemente realizando atividades desprestigiadas socialmente), constitui-se um problema que podemos associar a uma redefinição da própria identidade negra. Podemos, portanto, considerar segundo o autor citado como uma tentativa de legitimação da desigualdade racial a imposição da racionalização do racismo, exemplificada pela ideologia do branqueamento e demais formas de preconceito e discriminação racial contra o negro, existentes no Brasil, de acordo com as quais se reserva para o negro um espaço social, político, econômico e cultural subalterno. Considerando que o processo de identificação jamais pode ser tomado como uma via de mão única, conforme Ferreira (2000), a difusão da ideologia e das práticas racistas geram a conformação de uma identidade de resistência, que pode ser exemplificada pelas 32 estratégias de distinção desenvolvidas pelos afro-descendentes para fugir das posições predeterminadas para o negro pelas formas de identidade legitimadora difundidas pelas instituições e classes dominantes. Podemos, assim, constatar como as relações entre os agentes expressam simultaneamente um conteúdo simbólico no espaço social: ser é estar em relação e possuir uma posição com um significado para o outro. É neste sentido que muitos afro-descendentes atualmente se empenham em conquistar posições sócio-ocupacionais e políticas no espaço social, que levem a uma redefinição de sua relação com os demais segmentos étnicos presentes na população brasileira. 5.1 A adolescência e a construção da identidade A construção da identidade é social e acontece durante toda, ou grande parte, da vida dos indivíduos. Desde o seu nascimento o homem inicia uma longa e perene interação com o meio em que está inserido, a partir da qual constituirá não só a sua identidade, como a sua inteligência, suas emoções, seus medos, sua personalidade, etc. Apesar de alguns traços desenvolvimentais serem comuns a todas as pessoas, independentes do meio e da cultura em que estejam inseridas, há diferenças culturais. A construção da identidade é um desses fatores relacionados ao desenvolvimento que tem íntima, senão total, dependência da cultura e da sociedade onde o individuo está inserido. Em alguns momentos podemos observar certas crises de identidade durante o desenvolvimento da mesma. É o que acontece, por exemplo, com a maioria dos adolescentes das sociedades atuais, que precisam resolver essas crises para solidificarem aspectos de sua identidade pessoal e social. 33 Segundo Becker (1997), o período da adolescência é marcado por diversos fatores, sendo o mais importante à tomada de consciência de um novo espaço no mundo, a entrada em uma nova realidade que produz confusão de conceitos e perda de certas referências. Esse autor enfatiza, ainda que a identidade não deve ser vista como algo estático e imutável, como se fosse uma armadura para a personalidade, mas como algo em constante desenvolvimento. Uma importante tarefa com a qual os adolescentes confrontam-se, diz respeito ao desenvolvimento da identidade individual, a encontrar respostas às questões: “Quem sou eu?” E “Para onde estou indo?”. O senso de identidade de um adolescente desenvolve-se gradualmente, a partir das várias identificações da infância. Os valores e os parâmetros morais de crianças pequenas são amplamente aqueles de seus pais, seus sentimentos de auto-estima derivam-se primeiramente da visão mantida pelos pais em relação a eles. Para Outeiral (1994), a identidade, como a própria palavra define, se organiza por identificações: inicialmente com a mãe, logo em seguida com o pai e depois com outros elementos da família e, finalmente, com professores, amigos, ídolos (esporte, cinema, música, televisão, etc.) e pessoas da sociedade em geral. A organização da identidade é um processo que, como os demais acontecimentos da adolescência, se dá com “turbulências”, com “idas e vindas”, provocando perplexidade e confusão nos adultos. A necessidade de diferenciação, entendida como a necessidade de auto-expressão de cada indivíduo, funde-se com a necessidade de coesão e manutenção da unidade no grupo com o passar do tempo. Teoricamente, o indivíduo é membro garantido em um grupo familiar que seja suficientemente integrado e do qual ele possa se diferenciar progressiva e individualmente, tornando-se cada vez menos dependente, em seu funcionamento, do sistema 34 familiar original, até poder separar-se e instituir, por si próprio, com funções diferentes, um novo sistema. Pode-se admitir que, para atingir a diferenciação - para encontrar o espaço pessoal, a própria identidade – cada pessoa crescerá e se definirá através de trocas com outras pessoas. Essa identidade pode ser enriquecida até o grau em que o indivíduo tenta e aprende novas formas de relação que lhe permitam variar as funções que ele exerce dentro dos subsistemas sem perder sua própria continuidade. Para Andolfi (1989), a capacidade de mudar, de deslocar-se de um lugar para o outro, de participar, de separar-se, de pertencer a diversos meios, permite a possibilidade de exercer funções únicas, de trocar e adquirir outras, e de expressar, deste modo, outros aspectos mais diferenciados de si mesmo. Esse processo de individuação requer que a família se desorganize na medida em que se constitui num processo de preparação para uma nova fase: o equilíbrio de um estágio é quebrado para que se mude para um estágio mais adequado. Essas fases de instabilidade, caracterizadas por confusão e incerteza, marcam a passagem para um novo equilíbrio funcional. Para Bee (1997), o conceito de identidade forma-se a partir da auto-avaliação, da apreciação que o adolescente faz de si mesmo e das avaliações que recebe das pessoas significativas das suas relações, ligadas aos comportamentos esperados pela sociedade de seus membros. Trata-se de uma fase onde o indivíduo está em plena busca de si mesmo e de sua identidade. O conceito de si mesmo é fruto de uma longa e penosa revisão das vivências infantis e das identificações estabelecidas anteriormente e diz respeito a seu próprio corpo, seu comportamento e às suas relações sociais. Nesta fase, tudo é muito idealizado pelo adolescente, principalmente suas relações de amizade, afetivas e sexuais. Além disso, ele 35 demonstra claramente a onipotência própria de sua fase, quando acredita que nada de ruim poderá lhe acontecer. Neste período, a influência dos amigos sobre o comportamento do adolescente é reconhecidamente importante. Conforme Aberastury (1990), o adolescente, principalmente no início da fase, é muito influenciado pelo grupo de amigos, ao passo que o controle dos pais e dos demais adultos enfraquece. Grande parte da dependência que mantinha anteriormente em relação aos pais é transferida, neste período, para a turma. Assim, é a turma quem determina as regras em relação ao vestir-se, aos costumes, à linguagem, às preferências de todos os tipos. Conforme o autor citado, ao agrupar-se o adolescente responde a sentimentos contrários: “separar-se de” e “encontrar-se com”. O primeiro estaria relacionado à necessidade de distanciar-se dos pais ou das figuras que os representam. O segundo teria relação com a necessidade de encontrar entre os amigos a segurança perdida pela ruptura com os pais, gerando, assim, mecanismos de identificação mútua. É no período da adolescência que o individuo vai colocar em questão as construções dos períodos anteriores, próprios da infância. Desta forma, o jovem assediado por transformações fisiológicas próprias da puberdade precisa rever suas posições infantis frente à incerteza dos papéis adultos que se apresentam a ele. A crise de identidade é marcada, também, por uma confusão de identidade, que desencadeará um processo de identificações com pessoas, grupos e ideologias que se tornarão uma espécie de identidade provisória ou coletiva, no caso dos grupos, até que a crise em questão seja resolvida e uma identidade seja construída. Assim segundo Volpi (1998), a crise e conseqüentemente confusão, de identidade que fará com que o adolescente parta em busca de identificações, encontrando “iguais” e formando seus grupos. A necessidade de dividir suas angústias e padronizar suas atitudes e 36 idéias faz do grupo um lugar privilegiado, pois nele há uma uniformidade de comportamentos, pensamentos e hábitos. 37 6 PROJETO BALAKUBATUKI Para uma maior compreensão da história do projeto, foi realizada uma entrevista com o fundador e atual coordenador do projeto Balakubatuki, Daniel da Luz, para que o leitor possa conhecer um pouco mais sobre a trajetória do projeto até os dias atuais. O projeto Balakubatuki é um projeto musical que visa a educação de crianças e adolescentes em risco social, foi fundado em 1998, pelo percussionista e arte -educador, Daniel Cirimbelli da Luz. O Projeto atende Comunidades, do Morro da Queimada, Morro do 25, Morro da Caixa, Mocotó, Chico Mendes, Mont Serrat, Vila Cachoeira e Morro da Penitenciária. Segundo o Coordenador e fundador do projeto Balakubatuki (2004), a idéia era montar uma oficina de percussão para adolescentes, para formar assim um grupo de percussão. A idéia de fazer o projeto partiu da necessidade de desenvolver o que eu estava estudando na universidade na área de música. E de uma paixão pelo instrumento que eu toco que é a percussão. Paixão no sentido de passar esse conhecimento, e ver que Florianópolis adorava percussão, eu via que todo show de percussão que eu ia tava lotado, estava uma galera e eu tinha essa vontade de desenvolver algum trabalho que eu pudesse botar em prática o que eu tava aprendendo na faculdade em algum projeto de percussão. (LUZ, 2004). Trabalhar com este público alvo não era o objetivo, foi através de uma busca por um local e uma instituição para viabilizar recursos que o projeto chega para estas comunidades. Eu tive esse contato com esse publico alvo, vamos dizer assim, com essa rapaziada da periferia através que desta busca por um lugar, para colocar o meu projeto para alguém que me ajudasse a viabilizar ele, eu acabei tendo um contato com um órgão aqui da prefeitura, que é o órgão de cultura que é a fundação Franklin Cascaes, daí através dela assim houve lá um julgamento entre os projetos que ali estavam. Entre eles tinham um projeto de flautas que eles acharam que não era o ideal para se trabalhar na periferia porque eles não iriam conseguir tocar, e que periferia é lugar de tambor, daí 38 de uma certa forma tu vê, por causa talvez de um preconceito eu acabei entrando e hoje a gente tem violão, teclado todos os instrumentos que para eles o preconceito não deixou entrar num primeiro momento a gente acabou trazendo. (LUZ, 2004). Após o projeto ser aprovado era preciso escolher um local para desenvolver as aulas, a Casa da Liberdade foi o local escolhido, pois havia uma certa simpatia com o local, “eu acho que há uma energia muito legal lá”.( LUZ, 2004). Tendo seu projeto aprovado, pela Fundação Franklin Cascaes, toda ajuda de custo dado pela fundação foi usada para as compras de baquetas, e instrumentos. As dificuldades no sentindo financeiro são sempre os que rolam são o seguinte, os instrumentos para começar, então eu tive que usar da criatividade e como o meu projeto acabou saindo por um órgão que dava um troco na época, uma ajuda de custo, eu acabei pegando essa ajuda de custo para construir os instrumentos, por exemplo, a gente trabalhava com latas, mais eu precisava comprar baquetas porque a baqueta eu não tinha como fazer mais a lata eu até pintava eu lavava elas porque elas vinham tudo suja de manteiga porque a gente usa mais a lata de manteiga ou azeite. Eu as lavava tal e tal... As primeiras dificuldades foram essas financeiras, eu tive que pegar essa grana e investir toda nos instrumentos tem os tambores que a gente usa até hoje. (LUZ, 2004). Os quatro primeiros anos do projeto são visto pelo Coordenador como os anos mais difíceis. Vários foram os motivos que faziam pensar em desistir, a falta de recursos, a dificuldade encontrada por ele em trabalhar com as crianças, a banda que estava se consolidando. Eu pensei em desistir varias vezes por “N” motivos. A banda alguém tinha que cuidar da banda, porque eles já estavam até reclamando. Pô eu tinha uma filha recém nascida, tava lá. Como eu tava te dizendo. Essas crianças de 07 a 10 anos assim, é uma dificuldade muito grande de aceitar alguma coisa às vezes até dicas de educação para a pessoa, porque num primeiro momento era ensinar música técnica de percussão, montar um grupo, estudar música, música, música, música.... Depois eu vi que já não era ensinar a música, era ensinar através da música. (LUZ, 2004). Mais foi o envolvimento pelo projeto, a dedicação que fizeram continuar. A banda Iriê nesta época começa a ajudar nos recursos financeiros. Eu não consegui sair de lá, eu não consegui mais sair depois que eu entrei, eu não consegui mais sair, eu tive um ano de apoio para construir os instrumentos e não consegui mais sair, eu pedi ajuda, galera vocês me 39 ajudem no projeto porque eu não tenho mais como abrir mão disso aqui entendesse, então eu comecei a correr atrás do projeto para não deixar aquelas crianças. (...) O Iriê começou assim a meio que ser o meu patrocinador, mais o Iriê também... Nos também tava investindo. (LUZ, 2004). Conforme relata o mesmo, houve um período que passou a dar aulas para apenas 02 turmas, pois precisava se dedicar a outros projetos paralelos. “Teve época que eu estava apenas com duas turmas entendeu, foi o mais difícil do projeto, foi à gravação do translatação uma correria, eu estava com duas turminhas só, porque estava difícil”. Nesta época o projeto já estava com quatro anos, e foi no Cd “Translatação” que ele resolveu chamar os meninos do Balakubatuki para uma participação no Cd de sua banda. Foi nesta época que o projeto começou a se tornar conhecido, para as pessoas de fora. A primeira participação deles com o Iriê que foi no CD translatação, pô o projeto já tinha quatro anos, tava fazendo quatro anos, que foi quando as pessoas vieram conhecer. Que tu montaste esse grupo só para gravar esse CD, não esse projeto já existe há quatro anos. (LUZ, 2004). Foi a partir da gravação do Cd do Iriê, e do conhecimento do público que o Balakubatuki começa a ter apoios, a partir do quinto ano de projeto, percebeu-se que precisava abrir o projeto para contar com outros profissionais, até aqui o projeto só contava somente com o coordenador. Desde o começo sempre fez de tudo dentro do projeto, tanto na construção, manutenção dos instrumentos, ministrando aula, criando e redigindo o projeto para ser aprovado na Lei de Incentivo a Cultura, correndo atrás de apoiadores e patrocinadores, viabilizando apresentações e eventos, compondo e criando musicas e exercícios para o Balakubatuki. Foi fundada em 2003 a Associação Balakubatuki Arte e Cidadania, com apoio de profissionais de diversas áreas de conhecimento e estudantes universitários. Tendo como objetivo garantir a continuidade deste processo educacional. Logo após a gravação do CD eu comecei a ver que eu tinha que abrir o projeto.No final do quarto ano que foi quando eles gravaram eu vi que eu tinha que abrir. Porque eu tinha muito medo, Se começa a vir outras pessoas, tu não sabe se a pessoa está ali pela grana ou se a pessoa esta ali 40 pelo projeto, entendeu... Se num momento difícil será que ela vai estar ali também. Pô eu faço isso de coração, claro que eu queria estar mais lá e para isso eu teria que estar recebendo, então por isso eu corri atrás disso, mais quem entrar lá recebendo será que vai ter todo aquele amor pela história. Então era um medo que eu tinha, eu resolvi enfrentar esse medo e abrir. Então a gente criou uma associação, uma associação com o mesmo nome Balakubatuki. Formamos uma comissão primeiro que iria trabalhar nos dois primeiros anos no sentido de organizar toda a parte burocrática da associação e de lançar projetos vê se a gente conseguia a lei do incentivo. (LUZ, 2004). O Projeto foi contemplado com a Lei de Incentivo à Cultura, através da Fundação Catarinense de Cultura, podendo contar com um apoiador cultural beneficiado por incentivos fiscais, o que viabilizou melhoras e proporcionaram o atendimento a mais comunidades durante 10 meses. Através da aprovação do projeto os professores passaram a ser remunerados, foram contratados dois professores para dar aulas no projeto, foram feitas manutenções nos instrumentos e aquisição de novos, ampliou-se o local das oficinas, atualmente o projeto da aula na Casa da liberdade, Ilha da Criança e Casa da Criança. Na primeira ajuda foi a primeira vez que os professores tiveram uma ajuda de custo então eu já tive a capacidade de chamar dois professores para dar aula, a gente ampliou os lugares onde a gente estava atendendo, a gente... Naquela época a gente tinha um ponto fixo que era a Casa da Liberdade mais à gente estava atendendo mais quatro comunidades com a Kombi, a gente fez uma manutenção na Kombi, a gente arrumou todos os instrumentos, porque até então como eu tava te dizendo no primeiro ano eu fiz com aquela ajuda da fundação que eu construí os instrumentos. (LUZ, 2004). Através desta ajuda o Projeto tornar-se mais independente, sendo responsável pela captação e administração de seus recursos. No segundo ano a projeto não foi aprovado pela lei do incentivo, mais o Balakubatuki já estava mais consolidado e algumas empresas decidem ajudar o projeto. Atualmente o projeto Balakubatuki vive de ajuda de empresas que dispõem em ajudar financeiramente. Na segunda fez o projeto não foi aprovada, mais graças a Deus, a gente teve assim, a gente já tinha conseguido dar uma amplitude maior para o projeto através do Cd lá que eles participaram com essa aprovação na lei, daí teve uma empresa que nos chamou assim, e nos patrocinou fora à lei do incentivo, fora nada, que quis ajudar. (LUZ, 2004). 41 O projeto Balakubatuki nestes seus quase 07 anos já atendeu 600 crianças e adolescentes, há alguns hoje adolescentes que continuam no projeto estão desde o começo, eles fazem parte da turma de experiência musical, a turma que presta acessória para os professores. Pois uma outra idéia do projeto é preparar este alunos para serem futuros professores do Balakubatuki. Essa turma eu to preparando para ser monitor e depois futuramente professor do projeto. Que eu vou achar isso um máximo, deu a volta, chegou naquele ponto de partida que eu pensava no começo... Pô vou juntar uma galera... E essa galera já vai fazer um grupo muito “profi” e ao mesmo tempo vai dar continuidade no projeto. (LUZ, 2004). O Balakubatuki fornece atualmente aulas de percussão, violão, teclado e capoeira, os alunos podem escolher as oficinas que querem participar. O projeto conta com seis professores. Hoje Daniel da Luz divide a tarefa de coordenador e professor, diz não se arrepender de abrir o projeto para outros profissionais. E fala que uma de suas prioridades agora é o professor. A gente ta sempre o que priorizando a aula, o aluno, claro, agora a minha prioridade é o professor também, cada vez eu coordenando eu vejo que eu tendo um professor feliz bem humorado... Eu tenho um melhor projeto entendesse, o Balakubatuki não da mais para ser mais só de pessoas voluntárias, não dá... Por mais que eles façam diversos outros trabalhos eles têm que ter uma ajuda de custo. (LUZ, 2004). O Balakubatuki trás as crianças e adolescentes menos favorecidos, uma linguagem musical própria capaz de impulsionar o desenvolvimento da cidadania. O Balakubatuki vê na música e em seus instrumentos exclusivos, ingredientes sócio-culturais transformadores que vão ao encontro das necessidades básicas de grande parte destas crianças. É através da música que eles se divertem, se reconhecem, se respeitam e passam a desenvolver uma auto-estima capaz de superar o seu presente e transformar o seu futuro. A idéia é reciclar, reaproveitar, transformar a partir de materiais aparentemente sem utilidade, descobrir novas fontes sonoras, buscando melhores timbres e formas de execução. 42 Segundo o Coordenador, o projeto consiste na construção de instrumentos com materiais reciclados, percussão e canto. E nessa tarefa de reaproveitar, as crianças e adolescentes vão reciclando a própria vida. Com aulas semanais, os estudantes desenvolvem um repertório próprio, com ritmos de capoeira, samba, funk e baião e chegam a desenvolver atividades mais complexas, como a leitura de partituras. Atualmente, são 150 crianças e adolescentes beneficiados pelo projeto, que visa a valorização da identidade, auto-estima, politização e consciência dos problemas sociais. "O projeto Balakubatuki é a pedagogia do amor. É um projeto de inclusão social para que os participantes tenham consciência do papel de cidadão" (LUZ, 2004). 43 7 METODOLOGIA A idéia da realização de uma pesquisa voltada para questão da influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki surgiu após uma visitada ao local, bem nesta época estava desenvolvendo meu projeto de pesquisa, e precisava de um tema, algo que me despertasse interesse em estar pesquisando. Foi quando surgiu a idéia de estar-se pesquisando dentro do projeto Balakubatuki, optei em fazer uma pesquisa voltada para os adolescentes devido uma certa simpatia com esta faixa etária, meus trabalhos realizados na faculdade sempre foram voltados para este público. Após uma conversa com a minha atual orientadora chegou-se a um tema especifico, pois eram várias as hipóteses de temas para a pesquisa. Optou-se por estar pesquisando sobre a influência da música na construção da identidade dos adolescentes, sabese que a identidade ela se ocorre através das interações do sujeito com o meio social onde está inserido. A pesquisa foi realizada no Casa da Liberdade em Florianópolis, onde o projeto Balakubatuki dispõe suas oficinas, o projeto funciona em três locais: Casa da Liberdade (centro), Ilha da Criança (Agronômica) e Casa da Criança (Morro da Penitenciaria). É realizado diariamente nos período matutino e vespertino. Optou-se pelas turmas da Casa da Liberdade por se encontrar as turmas mais antigas do projeto, já que meu foco de estudo era os adolescentes, e estes deveriam ter um tempo significativo no projeto. O projeto Balakubatuki é um projeto totalmente independente, não possui nenhum tipo de ligação com os locais onde suas oficinas estão implantadas. 44 O tipo de pesquisa adotado foi à pesquisa descritiva ou de campo, que pode ser caracterizada pelo fato de ser realizada onde os fenômenos acontecem, procurando observar estes fenômenos, descrevendo-os, classificando-os e analisando-os. As técnicas utilizadas para a coleta de dados foram, questionários com questões abertas e fechadas, entrevistas abertas e semidirigidas, ou seja, nestas entrevistas há um roteiro de tópicos relativos ao problema que se vai estudar e o entrevistador tem liberdade de fazer as perguntas que quiser: sonda razões e motivos, dá esclarecimentos, não obedecendo, a rigor, a uma estrutura formal, as entrevistas foram feitas com os adolescentes e com os professores do projeto foi realizada também uma história de vida, a historia de vida consiste segundo Chaloub (1989) numa totalização sintética de experiências vividas e de uma interação social. Mais que uma vida conta à interação presente mediante o curso de uma vida. A seleção da amostra foi feita através de indicações dos professores e por voluntários que se dispuseram a contribuir com a pesquisa. Os adolescentes participantes tinham idades entre 12 a 21 anos e eram de ambos os sexos. Foi elaborado um único roteiro de entrevistas e aplicado um questionário padrão para todos os adolescentes, segundo a Organização Mundial de Saúde compreende-se a adolescência o período que vai dos 12 aos 21 anos, e o fator considerado para a participação da pesquisa era o tempo de projeto dos mesmos que deveria ser superior a sete meses. Foram entregues na primeira etapa da pesquisa 30 questionários para os adolescentes, nesta etapa os adolescentes passaram a conhecer a pesquisadora, no segundo momento da pesquisa foi feito 10 entrevistas, as entrevistas acontecia de forma espontânea muitos adolescentes me procuraram para estar participando da pesquisa, estas aconteceram no refeitório da Casa da Liberdade, indicação dos próprios adolescentes. Com os dados da entrevistas e dos questionários sentiu-se a necessidade de estar escolhendo um dos adolescentes entrevistados para estar fazendo um relato da história de vida 45 do mesmo. A escolha do adolescente aconteceu pelo fato de estar a um período considerável dentro do projeto e pelo vinculo que se estabeleceu durante as visitas feitas para a pesquisa. Assim foi entrado em contado com o mesmo que aceitou prontamente a estar contribuindo, para a realização da técnica foi utilizado dois dias. Paralelo esta etapa da pesquisa, a parte referente aos adolescentes, foi sugerida que se entrevistasse os professores e o coordenador do projeto, para se ter dados da historia do projeto. Nesta etapa do trabalho alguns vínculos afetivos foram feitos com alguns adolescentes, a pesquisadora procurou estar sempre em contato com os adolescentes, procurou-se sempre acompanhar as apresentações às aulas, estar contribuindo de alguma forma. Durante o tempo de pesquisa foram realizados dois encontros reunindo todos os alunos do Balakubatuki uma espécie de “aulão”, onde a pesquisadora esteve presente, ajudando na preparação do lanche servido e coletando dados que seria útil para a pesquisa. As entrevistas com os professores aconteceram de forma natural, todos aceitaram estar contribuindo para a pesquisa, o projeto conta com 05 professores, foram feitas 03 entrevistas, devido a disponibilidade de tempo da pesquisadora e dos professores. As entrevistas aconteceram na Casa da Liberdade antes e depois das aulas, sendo que a entrevista com o coordenador e professor do projeto aconteceu na sua casa a seu pedido. A análise dos dados se deu através da análise de conteúdo, segundo Bardin (1977), a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações. Assim a utilização da análise de conteúdo possibilitou avançar para além dos significados imediatos, realizando uma outra leitura do texto, mais atenta, categorizando e interpretando através de uma técnica de inferência. Desse modo é possível aprender o que o conteúdo pode nos ensinar quando tratado. 46 Esta pesquisa foi realizada dentro das normas éticas, portanto foi recolhida autorização dos entrevistados, e também do coordenador do projeto para a aplicação dos questionários, das entrevistas e de estar-se utilizando materiais como fotos e vídeos. 47 8 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS A pesquisadora procurou a instituição para demonstrar seu interesse em fazer a pesquisa no local. O coordenador aceitou a idéia e não mediu esforços para a realização do trabalho. A primeira etapa do trabalho foi a coleta de dados através de questionários aplicados para adolescentes de 13 a 21 anos que se dispuseram a estar respondendo. Não houve nenhuma negação por parte dos adolescentes em responder aos questionários. Estes foram aplicados em dois dias, ao final de cada oficina, no local onde é realizado o projeto. 8.1 Exposição e Análise dos questionários: Idade: Nº de respostas 05 04 04 04 04 04 02 02 01 Idade 17 14 13 15 16 18 20 19 12 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004. O projeto Balakubatuki atende crianças e adolescentes de 07 a 18 anos, de onde surgiu a necessidade de ser criada uma nova oficina para os alunos mais antigos do projeto. É a chamada turma de experiência, onde estes alunos recebem treinamento para futuramente serem professores do Balakubatuki. 48 Sexo: Feminino 09 Masculino 21 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Como se pode perceber a maioria dos participantes do projeto são meninos. Segundo o coordenador, o instrumento “percussão” tem identificação masculina, mas as meninas aprendem muito bem. Mesmo assim, são poucas as que continuam depois na adolescência. O grupo de experiência atual possui apenas uma menina de 16 anos que está desde os 6 anos no projeto. Escolaridade: 5º série 8º série 1º ano do 2º grau 6º série 7º série 2º ano do 2º grau Não respondeu 4º série Nº de respostas 07 06 05 03 03 03 02 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004. De acordo com o gráfico pode-se perceber que todos os alunos matriculados no projeto Balakubatuki estão estudando, já que esta é uma das exigências do projeto: estarem freqüentando a escola. Pode-se perceber ainda que a grande maioria não está com atraso escolar, ou seja, com uma idade muito além da série freqüentada. 49 Tempo de Projeto: 05 anos 06 anos 03 anos 04 anos 01 ano 02 anos Menos de 01 ano Nº de respostas 09 06 05 04 04 02 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Como se pode observar a maioria dos entrevistados está desde o surgimento do Balakubatuki, onde começaram crianças e estão até hoje, passando toda a adolescência no projeto. Segundo o coordenador, “o Projeto Balakubatuki desde sua criação, em 1998, já atendeu mais de 600 crianças e adolescentes, hoje temos mais de 100 alunos que têm chance de fazer mais de uma oficina dentre as oferecidas, ocupando sua tarde ou manhã com atividades que só lhes têm a acrescentar”. (LUZ,2004). Bairro que mora: Morro Mocotó Prainha Vila Aparecida Capoeiras Estreito Morro 25 Morro da Queimada Carvoeira Nº de respostas 12 05 03 03 02 02 02 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 A maioria dos adolescentes entrevistados atendidos na Casa da Liberdade, onde foi realizada a pesquisa, são moradores do Morro Mocotó e mediações. O Morro Mocotó fica próximo do local da Casa da Liberdade, onde as aulas são realizadas. A comunidade do Mocotó ocupa uma área consideravelmente grande nas proximidades do centro de Florianópolis. O nome surgiu devido em grande parte aos marinheiros que, com seus navios de carga, atracavam na Baia 50 Sul. Por este fato era servida, por um morador local, uma sopa de mocotó para a alimentação dos tripulantes. A diversão também existia, era uma casa ou “café” que oferecia um pouco de alegria aos marinheiros. Ela se encontrava logo ao pé do Morro e ainda pode se ver o esqueleto do que deveria ser a casa”. (RIBEIRO, 1995:07). De acordo com Ribeiro (1995), a situação financeira dos moradores da comunidade em geral é bastante precária. Ocupando o nível mais baixo da pirâmide social, algumas famílias do Mocotó vivem hoje em situação de “subsistência”. De acordo com a última pesquisa feita pelo Instituto de Planejamento de Florianópolis – IPUF, a comunidade do Mocotó conta com um total de 362 famílias, sendo que 257 são famílias carentes estimando um total de 1.105 pessoas que vivem em completa carência. A maioria dos moradores trabalha no comércio, na construção civil como serventes, como faxineiras ou domésticas e recebem em média dois salários mínimos. Segundo Ribeiro (1995), a droga é um fator de grande influência na vida do Morro. A venda e o consumo assíduo por parte de comerciantes e usuários (alguns desses usuários não fazem parte da comunidade), resultam em freqüentes visitas da policia na região, onde muitas pessoas são presas. A droga é um dos fatores primordiais da discriminação que ocorre com o Morro Mocotó. A Prainha é outra comunidade que aparece como tendo bastantes adolescentes no projeto. A Prainha fica muito próxima ao Morro Mocotó, na verdade o Mocotó se localiza no bairro da Prainha, na encosta do morro, ao lado do Hospital do Exército e do Hospital de Caridade. Os serviços de Posto de Saúde e Creches são prestados na Prainha para as duas comunidades. O Balakubatuki preocupa-se em transformar o presente das crianças de comunidades de baixa renda de Florianópolis, oportunizando e estimulando a vivência musical. Além de aprender a tocar instrumentos musicais, as crianças, através de oficinas, 51 também são capacitadas a construir os instrumentos, possibilitando dessa forma, um futuro onde se sintam inseridas na sociedade. A pergunta “estado civil”, todos responderam ser solteiros e não possuir filhos. Foi relatado que neste ano um dos alunos mais velhos do projeto, que havia se casado e iria ser pai, teve que deixá-lo para trabalhar. Você gosta de música? Sim 30 Não Mais ou menos 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Aqui se percebe que todos os adolescentes entrevistados responderam gostar de música, tendo apenas um assinalado as duas opções, mostrando-se talvez um pouco confuso. “Música é um estágio sentimental bastante evoluído tanto para quem executa, como para quem se delicia em ouvir” (WISNIK, 1989: 13). De acordo com o autor ela está presente em todas as classes sociais e em todo local, não importando língua, condição social, raça ou qualquer coisa que queira impor-se de maneira intransigente. Você gostava de música antes do projeto? Sim 28 Não Um pouco 02 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Aqui se percebe que apenas dois dos entrevistados responderam que não gostavam de música antes de entrar no Balakubatuki. Os demais já entraram para o projeto gostando de música. Conforme Ruud (1991) descreve, a música está presente no nosso cotidiano desde o início da vida, pois nos primeiros dias de vida, a criança já é embalada nos braços da mãe com 52 canções de ninar. O canto é algo que tranqüiliza o bebê e faz com que ele relaxe e adormeça e isso pode ocorrer tanto na vida intra-uterina quando na fase adulta. Que tipo de música você gosta? Estilo de música Reggae Hip hop Rap Rock Forró Clássica Nº de respostas 26 25 12 04 03 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Aqui os adolescentes puderam escolher mais de uma opção; as mais votadas e eleitas pelos mesmos foram o reggae e o hip hop. De acordo com Albuquerque (1997): O reggae é visto como uma forma musical que surgiu juntamente com a Jamaica independente local de origem do reggae é uma hoje famosa ilha caribenha, a terceira maior da região, com o tamanho equivalente à metade do território do estado de Sergipe. Desde o século XVI até meados do século XX ela foi submetida às políticas exploratórias do sistema colonial. A população nativa, composta pelos índios Arawak, chamava a ilha de Xaymaca – Terra das Primaveras –, e tal denominação foi à única herança que deles restou, transformada em Jamaica.( ALBUQUERQUE, 1997: 18). De acordo com o autor, o reggae originou-se do Ska, um ritmo acelerado com instrumentos de metal, oriundos da música negra americana dos anos 50 e 60. Os metais deixaram de ser os instrumentos que marcavam a música, e em seus lugares foi inserido a percussão africana com a batida da guitarra num estilo Rock. Esse ritmo a partir do início da década de 70 passou a ser mais lento, sendo batizado como Reggae. O Reggae é tido pelos próprios Rastas como sendo a música de Jah (Deus), primeiro por ter a mesma batida do coração e depois pelas mensagens, com letras principalmente de caráter religioso e de protesto racial e político. 53 Os Rastas eram uma espécie de artesões dos anos 60 que procuravam se manter financeiramente através da arte, em especial o artesanato. Possuíam habilidade em esculpir peças de motivos africanos, como máscaras, estátuas e símbolos bíblicos. O Hip Hop, que também aparece entre os preferidos pelos adolescentes, surgiu do rap, que tem sua origem na Jamaica, nos “guettos jamaicanos”, mais ou menos na década de 60, Segundo Rocha (2001): O rap movimento musical que desde o final dos anos 80 invadiu os espaços jovens na periferia de cidades como São Paulo tem ganhado terreno nos centros urbanos, nos coloca exatamente esta questão. Esse estilo de reivindicação de direitos e de denuncia contra violência social, racial e policial que é infligida a população negra, faz parte de um movimento mais amplo chamado hip hop, que significa literalmente “sacudir o quadril”. (ROCHA, 2001:26). Todavia a autora coloca que “sacudir o quadril” deve ser entendido aqui como um sentido muito mais amplo do que um simples movimento corporal. Significa, na realidade, ter “jogo de cintura”, saber agir e reagir diante de uma sociedade excludente e discriminatória. O Rap nascido na Jamaica assume para os negros norte-americanos um caráter de protesto. Surge, então, o movimento Hip Hop que ganha espaço nos Estados Unidos, chegando até o Brasil, sendo reinterpretado e ressignificado pelos jovens negros brasileiros. Este movimento cultural se completa em três elementos artísticos: o Rap (a música), o Break (a dança) e o grafite (expressado através de desenhos). Assim, da união dos três elementos surge o hip hop. 54 Com uma só palavra diga o que a música significa para você? Paz e amor Vibração Vida Bom Paz Legal Ritmo Ótimo União Da um bom ritmo “Medecha” legal espontaneidade Amor Felicidade Harmonia Tudo 04 03 03 02 02 02 02 02 02 01 01 01 01 01 01 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Esta pergunta foi feita para que os jovens pudessem expressar o que a música significa para eles, onde percebe-se elementos positivos em relação à música. São infinitas as citações em que a música aparece ligada a sentimentos, emoções, pensamentos, e essa relação é mais intensa e está mais enraizada nas culturas do que se imagina. Ainda na Índia, por exemplo, o velho hábito de se pendurar sinos nas vacas animais sagrados para os indianos tem por objetivo afugentar os maus espíritos, causadores de doenças, já os japoneses mantêm o hábito milenar de pendurar, nas portas e janelas, instrumentos que produzem sons à passagem do vento. Desse modo "purificam-se" as vibrações dos ambientes, criando-se uma atmosfera de calma, de paz, propícia à concentração, à interiorização e mesmo ao convívio harmonioso. (RUUD, 1991: 27). A música está ligada a sentimentos e emoções, e aqui os adolescentes puderam colocar todo o seu sentimento em relação à música, e o significado dela para eles. 55 Complete música é: União dos povos Alegria Muito massa Tudo de bom Legal Não respondeu Dedicação A coisa legal que todos tem que aprender Vamos passear Reggae todo dia Conhecimento Estilo de viver Futuro Vibração O que eu adoro Ocupação Expressão Um jeito de se divertir Diversão A arte de manifestar sentimentos através de sons A prática leva a perfeição 02 02 02 02 02 02 02 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Pode-se perceber que para os adolescentes a música é repleta de elementos positivos. Apenas duas pessoas não responderam esta questão, talvez por ser muito parecida com a pergunta anterior. Aqui se nota que as respostas dadas por eles também vêm ao encontro do estilo do ritmo escolhido por eles, como “união dos povos”, e “paz e amor”, que são termos usados na filosofia do reggae. Para Olivet (2004), a música é um fenômeno universal. “É a linguagem que todos entendem. É o traço de união entre os povos” (OLIVET, 2004: 11). Assim fica claro mais uma vez o interesse dos adolescentes pela música, já que o conteúdo trazido por eles confirma isso. 56 Como conheceu o projeto? Entrando na casa da liberdade Prima Minha mãe me botou Eu estava na casa da liberdade Pelas pessoas dizendo que era bom Amigo Vendo crianças e adolescentes aprendendo Pela amiga de minha mãe 10 05 05 03 01 01 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 O projeto Balakubatuki funciona em três locais, na Casa da Liberdade, no Casa da Criança e Ilha da Criança. As turmas mais antigas do projeto estão na Casa da Liberdade, local escolhido para a pesquisa. A Casa da Liberdade atende por volta de cento e cinqüenta crianças que freqüentam um período na escola e outro na casa. Ela se encontra no centro da cidade na passarela do samba Nego Quirido e é mantida pela prefeitura de Florianópolis. A Casa da Liberdade tem o intuito de auxiliar na educação e retirar as crianças da rua quando não há atividade escolar. A Casa da Liberdade tenta diminuir a situação de abandono que as crianças vivem, seu objetivo é de auxiliar na educação das crianças, preparando-as para exercerem sua cidadania. Lá funcionam várias oficinas, como a oficina de artes, por exemplo, além de atividades físicas e área pedagógica, onde os alunos trazem as atividades da escola para fazerem ali. Todos os funcionários são pagos pela prefeitura. As aulas do Balakubatuki são ministradas em salas cedidas para as oficinas, aproveitando-se a estrutura oferecida. Hoje o Balakubatuki possui uma sala na Casa da Liberdade que foi cedida pela Prefeitura Municipal de Florianópolis. Lá, os envolvidos no projeto se reúnem, guardam os instrumentos e também ministram algumas aulas. O coordenador comenta a importância da Casa da Liberdade, a qual foi a primeira a ceder seus espaços para a realização das oficinas e o vínculo que já se estabeleceu entre ele, os funcionários da Casa da Liberdade, alunos e familiares destes alunos: 57 “O grande parceiro nosso e que continua sendo o meu xodó e tudo, é a Casa da Liberdade onde eu sempre trago uma oficina nova, onde eu sempre experimento ali, por que eu conheço toda o pessoal que trabalha ali há muitos anos, as crianças, as famílias, muitos ficam ali por que os pais gostam muito do projeto, gostam muito de mim, então ali, vamos dizer, assim entre aspas, eu faço alguns testes antes de colocar ou não uma oficina, vejo a aceitação do público. Na Casa da Liberdade nós temos uma sala, não muito ampla, foi ampliada agora, mas pelo menos podemos guardar os instrumentos, dar aulas para turmas pequenas, e dali a gente sai com a Kombi e vai para os outros lugares. Todos os lugares são salas cedidas, a gente não tem muito... estamos também conversando com a Ilha da Criança que está agilizando uma sala também muito bacana, vamos ver” (LUZ, 2004). A sala cedida pela Prefeitura Municipal de Florianópolis que se encontra na Passarela do Samba, precisa ser desmontada durante o período de carnaval. Muitos adolescentes conheceram o projeto entrando na Casa da Liberdade. Você acha esse projeto importante? Sim 30 Não Um pouco Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Nesta pergunta todos foram unânimes em responder que achavam o projeto importante, reforçando ainda mais a questão de estar a tanto tempo no projeto. Você fez amigos no projeto? Sim 30 Não Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Aqui se percebe que todos os adolescentes entrevistados afirmaram ter feito novas amizades. Sabe-se que as amizades têm um lugar especial entre as relações dos adolescentes. É na adolescência que se começa a andar em grupos e a amizade fica mais intensa. O adolescente pode aprender a mudar seu comportamento, gostos ou idéias, sem a experiência dolorosa da rejeição. Na sua melhor forma, as amizades ajudam os jovens a aprenderem a lidar com seus próprios sentimentos complexos, bem como os sentimentos 58 complexos dos outros. As amizades podem servir como um tipo de terapia, ao permitir a expressão livre de sentimentos reprimidos de raiva ou ansiedade e ao oferecer evidencias de outras pessoas compartilham as mesmas dúvidas, esperanças, medos e sentimentos aparentemente perigosos. (NEWCOMBE, 1999:439). Segundo Newcombe (1999), as relações de amizades com a turma se tornam cada vez mais importantes para os adolescentes, é na adolescência que os jovens organizam-se em grupos, buscando uma subcultura e uma identidade própria. Partindo da visão de Visgotsky, a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, e sim uma relação de mediação. É através da relação do homem com o mundo que se proporcionará uma melhor compreensão deste último. O grupo social onde o indivíduo está inserido fornece formas de perceber e organizar o real, permitindo assim construir instrumentos psicológicos que permitam uma mediação entre individuo e mundo. Quantas vezes você vem ao projeto? 01 vez 02 vezes 02 03 vezes 28 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Aqui se percebe que a maioria dos adolescentes freqüenta todas as oficinas oferecidas pelo projeto, o que os faz vir mais de uma vez por semana. O Balakubatuki funciona de segunda a sexta com aulas específicas por dia, tendo as aulas duração de uma hora. Alguns dos adolescentes entrevistados são monitores do projeto, o que os faz se dedicarem mais tempo ao projeto. 59 Você gosta do projeto? Sim 30 Não Um pouco Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Todos os entrevistados responderam que gostam do projeto. Reforçando a idéia de que quando gostamos de algo nos dedicamos mais por aquilo que gostamos. Isso nos mostra que os adolescentes estão no Balakubatuki por realmente gostarem e estarem interessados em cada vez mais aprender a tocar os instrumentos. Para mim Balakubatuki é: Legal Tudo de bom Diversão O melhor Dedicação Muito legal Bom e melhor A coisa mais legal que inventaram Oportunidade A porta para o futuro e a janela para o presente Muito importante para mim Saber tocar Amizades e oportunidade nova Radical Ritmo Cidadania e Paz Educação e harmonia Esperança 04 03 03 02 02 02 02 02 01 01 01 01 01 01 01 01 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Nesta pergunta os adolescentes colocaram o que significava o projeto Balakubatuki. Através das respostas percebe-se o quanto o projeto é querido e importante para eles. Alguns relacionam o projeto com oportunidades novas em suas vidas, como um aprendizado novo, outros falam das amizades novas feitas, mas todos tem uma visão positiva do projeto. Conforme Costa (2002), em qualquer ambiente, seja ele a escola, o trabalho ou a 60 comunidade onde vive, o adolescente geralmente age em grupo e está, inevitavelmente marcado por ele. Estes grupos, entretanto, estabelecem regras e normas que vão além das utilizadas e aceitas nos grupos, podendo haver conflitos entre elas. Ora, não se trata de estabelecer tão somente os limites sociais das mudanças que os adolescentes geralmente promovem onde vivem e atuam, é preciso convida-los a viver tais ambientes, que são, ao mesmo tempo, formadores e restritos da formação. (COSTA, 2002: 46). De acordo com o autor citado, estes ambientes constituem mais um espaço onde eles podem desenvolver suas habilidades criativas e inovadoras, pelo incentivo e apoio às atitudes que indique e pratiquem a solidariedade entre seus membros. Percebe-se através das observações feitas pela pesquisadora que realmente os adolescentes gostam e se sentem bem em estar e fazer parte do Balakubatuki. Como você era antes de conhecer o projeto? Eu era muito sozinha não tinha muitos amigos Era muito trancado Eu era tímido Chato e triste Eu não tinha muita esperança no futuro e isso me deixava triste Eu era uma pessoa que não tinha nenhum conhecimento com a música Eu não tinha muitos amigos e era um pouco solitária me sentia sozinha Briguento Fechado e calado Eu era triste e boba e também era chata Eu era um menino mal educado e respondia aos mais velhos Não era muito feliz vivia sozinha Achava a vida triste Era muito boba, e não tinha muito que fazer Não tocava nada Era muito bagunceiro e fazia coisa errada Tinha vergonha de me soltar Era muito triste não conversava com ninguém era estranha Me sentia muito presa Na minha, não tinha muitos amigos Capetinha Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 03 02 02 02 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 61 Aqui os adolescentes falaram de como eles eram antes de conhecer o projeto, relatando serem pessoas tristes, sozinhas e sem amigos. Aqui aparece mais uma vez a importância das amizades para eles. “As amizades normalmente envolvem sentimentos mais intensos, são mais abertas e mais honestas e menos preocupadas com tentativas autoconscientes de representar papéis para ganhar popularidade e aceitação social”. (NEWCOMBI, 1999: 438). Segundo o autor, nas amizades entre adolescentes o outro compartilha brincadeiras, sonhos, amizades e desavenças, que é diferente do “outro” que é um adulto que orienta, ensina limites, pune e protege. Outro dado interessante que surge nas respostas é o fato de buscarem elementos que os outros acham deles como ser “chato”, “estranho”, “capeta” e “bobo”, pois a identidade não é puramente individual e interna. Um componente importante de uma identidade verdadeira segundo Osório (1992), é a consciência entre como o adolescente acredita ser, e como ele percebe que os outros o vêem. Uma identidade é tanto pessoal quanto social. Você mudou? Sim 30 Não Um pouco Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Mais uma vez todos os adolescentes responderam sim, todos afirmaram que mudaram. O item seguinte diz respeito a essas mudanças. 62 Como foram essas mudanças? Muito massa Para melhor Foram legais Boas, sou mais feliz Eu cheguei aqui e mudei Foram legais, agora eu não tenho medo de me soltar Fiquei mais alegre Essas mudanças foram para melhor Boas para mim Cheguei no projeto e fiquei muito feliz Gostei mais de mim Com ajuda da minha mãe e dos professores da casa da liberdade Muito importante para mim agora sou feliz Legal sou uma pessoa com amigos Aprendi a tocar percussão Agora já consigo ver o que eu devo fazer, sei o que é melhor para mim Muito boa Importantes para mim Legais agora toco muito Estou mais alegre Com o apoio dos professores fiquei melhor 03 02 02 02 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Aqui os adolescentes colocam como foram essas mudanças vivenciadas por eles, sempre de uma forma prazerosa, a exemplo de um termo usado e bem característico dessa fase, o “muito massa”, que vem para confirmar isso. Todos relacionaram as mudanças como algo bom em suas vidas. De acordo com Levisky (1997), é durante a adolescência que se tem uma segunda ou grande oportunidade para o oferecimento de condições construtivas ou destrutivas ao desenvolvimento da estrutura da personalidade dos jovens, a partir da interação com a sociedade da qual fazem parte e na qual vão buscar seus novos modelos identificatórios. 63 Você acha que a música tem algo a ver com a mudança? Sim Muito Tem muita mudança Sim aqui é legal Sim os professores são legais Sim, pois você anda numa estrada deserta e não ouve nada, você é a estrada você senta e fecha os olhos e canta pelo menos você ouve a sua voz Sim, pois a música faz com que você se expresse melhor Acho que sim a música faz você ver a vida diferente 14 10 01 01 01 01 01 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 Esta pergunta foi feita para os adolescentes relacionarem suas mudanças com a música, e todos afirmaram que a música e o projeto têm grande parcela para esta mudança. Segundo Brito (2003), a música não é só uma técnica de compor sons, mas um meio de refletir e de abrir a cabeça do ouvinte para o mundo. Muitos autores afirmam que a música é o veículo universal de emoções, ela mexe com sentimentos, tanto para quem executa e faz como para quem se delicia em ouvir. Como você é agora? Feliz Legal e alegre Mais alegre Eu sou amigo Melhor que antes Sou legal e ajudo as pessoas Eu sou o mesmo só que menos triste Agora sou mais alegre Eu sou mais alegre e também toco muito Um menino barulhento Eu sou uma pessoa educada e não respondo aos outros 19 08 05 01 01 01 01 01 01 01 01 Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004 As mudanças citadas por eles estão relacionadas com sentimentos positivos, onde um número significante de adolescentes respondeu serem felizes agora, alguns ainda responderam serem legais e alegres. De acordo com Levisky (1997), os jovens são vulneráveis e suscetíveis às influências oriundas do meio social. Buscam fora do núcleo 64 familiar, aspectos que desejam incorporar a sua realidade pessoal ou outros, com os quais necessitam aprender a lidar e que constituem uma parte do seu eu. Conforme descreve Becker (1989), a música auxilia na socialização de crianças e adolescentes e facilita a expressão de sentimentos, ajudando assim, na comunicação entre pessoas. 8.2 Exposição e Análise Qualitativa Para uma melhor compreensão do tema pesquisado foram feitas entrevistas semidirigidas na Casa da Liberdade. Foram entrevistados dez adolescentes de ambos os sexos. A escolha pelos entrevistados se deu do próprio interesse deles em estarem participando. As entrevistas foram realizadas no refeitório e aconteceram nos intervalos de cada oficina. Por se tratar de entrevistas semi-dirigidas, foi elaborado um roteiro. 8.2.1 Análise das Entrevistas dos Adolescentes A primeira etapa da entrevista foi de identificação, como idade, estado civil, se tem filhos ou não, a escolaridade, e o tempo de projeto. Todos os entrevistados possuem mais de um ano de projeto Balakubatuki, são solteiros e não possuem filhos. A grande maioria dos entrevistados mora com a mãe e irmãos, totalizando uma família pequena. Dos dez entrevistados cinco moram no Morro do Mocotó, dois são da Prainha, dois moram no Morro da Queimada e um mora no Morro do Bode. A comunidade do Mocotó é bastante antiga e lá se encontram os primeiros moradores do Morro, alguns com idade bastante avançada e outros mais jovens. Como já dito, o Morro Mocotó enfrenta vários problemas, como a falta de condições básicas de alguns dos 65 seus moradores, mas uma outra característica dos moradores desta comunidade que cabe aqui ressaltar é o envolvimento com a arte. O Mocotó com certeza surpreende carnavalescos, artesões, bordadeiras e músicos, são muitos os casos comprovados de artistas que ou artesões vivendo ou que já viveram no Morro do Mocotó, assim como são raros o que sobrevivem da arte. Confeccionar, com linhas, canetas personalizadas, pulseiras ou mesmo arcos de cabelo são alguns dos muitos trabalhos artesanais feitos no Mocotó. Pintar pano de prato, bordar toalhas em ponto cruz ou até costurar, faz parte dos afazeres de um morador do Mocotó. (RIBEIRO, 1995:08). A autora nos fala que o ritmo normal do Morro muda em fevereiro, a adrenalina das pessoas se exalta, fazendo com que estas mostrem um brilho diferente nos olhos, por estarem vivendo a preparação para o carnaval. Quando perguntados se gostam de morar no local em que moram todos os adolescentes responderam que sim, exceto um que disse não ter amigos no local onde mora. “É legal tenho amigos lá, saio com os meus amigos, jogo futebol...”. “É bom tenho amigos, é massa lá...”. “Gosto de lá, lá é legal tem um monte de coisa para fazer tem um espaço para jogar bola dá para soltar pipa. Para nos da sociedade Mocotó não é perigoso né, mais se tu for lá não sei”. Nesta fala percebe um certo grau de divisão, a “sociedade” Mocotó e o restante da sociedade. Embora Guareschi (2003), o viver em uma favela/Morro pode ser compreendido pelos próprios moradores como viver excluído na sociedade e não considerar a si mesmo um cidadão, os entrevistados afirmaram gostar do local que vivem, as respostas dadas por eles foram relacionadas com as amizades que tinham no local onde moravam. 66 Infância Esta pergunta surgiu para perceber através das falas dos entrevistados como foi a infância, das brincadeiras e dos amigos, pois de acordo com Osório (1992), a identidade está relacionada com o desenvolvimento e possui íntima relação com o local onde o indivíduo está inserido. Muitos dos adolescentes relataram que não tiveram uma infância agradável, eles relataram que se sentiam presos, não brincavam muito e não tinham muitos amigos. “Normal... (risos) Na verdade eu não brincava muito”. “Minha infância? (...) Foi horrível. Porque antes eu posso dizer que vivia a vida do crime. Daí, conheci o Balaku e eu parei. Aprontava bastante e fumava maconha dentro da sala noIinstituto”. “Não foi muito legal não saia muito de casa para brincar, era um pouco preso”. De acordo com Papalia (2000) para a criança ser aceita no grupo de amigos, ela precisa aceitar seus valores e normas de comportamento. Muito embora esses possam ser desejáveis, as crianças podem não ter força para resistir. É geralmente na companhia de amigos que as crianças praticam roubo pelas lojas, começam a usar drogas e agem de outras maneiras anti-sociais. E segundo a autora tais pressões podem transformar uma criança problema em um adolescente delinqüente, sabe-se que atualmente este é um dos problemas enfrentado pela sociedade. Outros adolescentes lembram com carinho da fase de criança: “Eu brincava um monte, brincava de pipa”. “Acho que minha infância toda passei na casa da liberdade. Brincava de carrinho de bola e pipa”. 67 Embora os pais tenham um papel importante na personalidade, assim como em todos os outros aspectos do desenvolvimento, o grupo de amigos na infância começa a ser importante. “As crianças se desenvolvem física, cognitivamente e emocionalmente, bem como socialmente, por meio de contato com outras crianças”. (PAPALIA, 2000:247). Assim dessa forma o brincar, o contato com outras crianças é algo importante para o seu desenvolvimento. Segundo Vigotsky (1994), as características individuais de cada pessoa depende da interação com seu meio físico e social. O grupo social onde o individuo está inserido fornece formas de perceber e organizar o real, a interação entre indivíduos particulares desempenha segundo o autor um papel fundamental na construção do ser humano. Amigos na infância Aqui os adolescentes relatam que não tiveram muitos amigos quando crianças, o lugar onde moravam e o medo dos pais de estarem se envolvendo em algo errado ou com pessoas erradas reforça isso. “Só os meus primos, minha mãe não gostava que eu brincasse”. “Não muito, mais da família”. “Hoje eu acho que nesta época eu não tinha amigos”. É na infância que a criança se beneficia de diversas maneiras com as brincadeiras com seus amigos. De acordo com Papalia (2000), elas desenvolvem habilidades necessárias para a sociabilidade e a intimidade, fortalecem a intimidade e adquirem um senso de pertencer. Elas são motivadas a realizar e adquirir lideranças, um senso de identidade. Adquirindo segundo a autora liderança, habilidade de comunicação, cooperação, papéis e regras. 68 A maioria dos entrevistados não teve uma infância com muitas brincadeiras, com muitos amigos, tinham apenas o contato com as pessoas mais próximas, com as pessoas da família. A escola Esta pergunta surgiu para estar entendo um pouco mais a trajetória de vida dos adolescentes até hoje, pois sabe-se que a identidade é dada no social com as relações nos meios em que o adolescente está inserido. A escola é a experiência organizadora central na vida da maioria dos adolescentes. Ela oferece oportunidades para adquirir informações, dominar novas habilidades, aperfeiçoar-se habilidades já adquiridas: participar nos esportes, nas artes e em outras atividades: explorar opções vocacionais, e estar com amigos. Ela amplia os horizontes intelectuais e sociais. Entretanto, alguns adolescentes vêem a escola não como uma oportunidade, mas como mais um obstáculo no caminho para idade adulta. (PAPALIA, 2000: 332). Através das entrevistas percebe-se que os adolescentes não gostam da escola, mais sabem que ela tem um papel importante, por isso continuam estudando ainda. “Gosto, antes não gostava muito mais agora eu gosto, já to quase saindo também”. “Digamos que sim”. “É... Mais ou menos, depende da aula”. “Das aulas eu gosto só não gosto dos professores”. Os conteúdos no colégio são passados de uma forma muito maçante para os jovens, a escola é cheia de regras e normas, as quais muitas vezes afastam o adolescente da própria escola. 69 Como é a escola que você estuda? Você tem amigos? Todos os entrevistados disseram que tem amigos na escola, falaram que gostam da escola, mas existem algumas coisas das quais não gostam no local onde estudam, seja as aulas, as brigas que acontecem no colégio ou a forma dos professores dar as aulas. “É legal, é grande, às vezes fica chato por causa dos professores”. “À noite, eu estudo a noite lá, daí a noite é chato não tem muita coisa para chamar os alunos. Os professores só vão lá dão a aula e sai. É uma coisa robótica”. “É legal mais às vezes tem brigas, essas coisas são chatas. Não sempre mais às vezes tem bate-boca”. É na escola que os adolescentes encontram a sua turma, pois se sabe que nessa fase os grupos e as turmas construídas por afinidades fica muito evidente. Conforme Newconbe (1999), é importante reconhecer que a escolha que um adolescente faz em favor de um grupo depende em grande parte das características do adolescente. “... Eu comecei a estudar este ano lá, porque eu treino nesta escola, no começo não queria estudar no Instituto porque achava que só tinha ‘paty’”. Nesta fala percebe-se a não identificação com as “patys”, embora as turmas de companheiros de fato exerçam pressão sobre os indivíduos para que estes se engajem em certos tipos de comportamento, conforme nos fala Newcombe (1999), existe uma forte tendência para que o adolescente inicialmente procure certos grupos, porque tem características com aquele grupo, e desta forma, a identidade vai se construindo. Outros projetos? “Faço aula de contra-baixo, é contra-baixo clássico na orquestra sinfônica”. 70 “Freqüento um que eu toco violino numa orquestra”. Aqui os entrevistados responderam se freqüentavam algum outro projeto ou faziam algum tipo de aula. A metade dos entrevistados estão em um outro projeto denominado “orquestra no morro”, que ensina crianças e adolescentes a tocarem algum tipo de instrumento de orquestra. Os outros adolescentes entrevistados só fazem as aulas do Balakubatuki. Dos entrevistados que responderam estarem fazendo outras aulas além do Balakubatuki, todos disseram que gostam das aulas e também gostam de estarem em outro projeto e que possuem amigos lá, já que muitos são do Balakubatuki. Você gosta de música? Esta pergunta foi feita para comparar com a pergunta do questionário, já que no questionário os adolescentes preencheriam sim ou não, aqui eles poderiam estar falando. Todos os dez entrevistados responderam que gostam de música, um deles respondeu: “Gosto eu vou fazer faculdade de música, até”. Desta forma fica claro que eles estão no projeto porque realmente gostam. Gostava de música antes de entrar no projeto? Esta pergunta também estava no questionário, mas como os entrevistados não necessariamente responderam o questionário foi optado por estar refazendo a pergunta. Dos dez entrevistados quatro responderam que gostavam de música, um disse que mais ou menos e cinco responderam que não gostavam e nem sabiam o que era música antes de conhecer o projeto. “Não nem sabia o que era. Ai, depois fui aprendendo aos poucos”. 71 “Eu achava que gostava mais nem sabia o que era” Percebe-se que os que responderam não gostar de música antes de conhecer o projeto, relacionam música com sentido de fazer e tocar e de conhecer realmente as técnicas de música. De acordo com Matriz (1981) a música está presente em todas as culturas humanas conhecidas. Assim de uma certa forma todos nós conhecemos e sabemos o que é música, mas no seu sentindo mais básico. Que tipo de música você gosta? Quando perguntado que estilo de música gostavam, os ritmos escolhidos foram o reggae e o hip hop, vindo ao encontro das respostas dadas por eles no questionário. O hip hop assim como o reggae teve origem na Jamaica, segundo Rocha (2001), sobre as tradições africanas, estes jovens, socialmente marginalizados, começaram a encontrar uma maneira de construir e expressar um novo estilo individual, adquirir um lugar de poder, desafiar a ordem social vigente e comunicar uma energética e exuberante identidade grupal. Já que tanto o reggae e o hip hop, têm a característica de falar através da música sobre os problemas enfrentados pela sociedade. O que significa música para você hoje? Nesta pergunta os adolescentes responderam o que significava a música hoje para eles, já que muitos afirmaram não saber o que era música antes de entrar para o projeto. Percebe-se através das falas que a música aparece para os adolescentes como um elemento positivo, um elemento de mudança. 72 “Há parece que eu nasci de novo”. “Significa muita coisa, porque eu vou ser musico um dia talvez, acho que significa o que eu sou... Se não fosse a música acho que não seria assim”. “Poder olhar para o futuro com outro pensamento”. “Bastante coisa, pode mudar as pessoas”. Neste processo de construção da identidade que fará com que o adolescente parta em busca de identificações, encontrando outros “iguais” e formando seus grupos. A necessidade de dividir suas angústias, segundo Osório (1992), e padronizar suas atitudes e idéias faz do grupo um lugar privilegiado, pois nele há uma uniformidade de comportamentos, pensamentos e hábitos. Com o tempo, algumas atitudes são internalizadas, outras não, algumas são construídas e o adolescente, pouco a pouco, percebe-se portador de uma identidade que, sem dúvida, foi social e pessoalmente construída. Desta forma os adolescentes do projeto Balakubatuki como se pode ver, vão construindo seus objetivos, reformulando valores junto com outros adolescentes pertencentes ao seu grupo. Como conheceu o projeto? Esta pergunta também esteve nos questionários aplicados, sendo que as respostas também foram as mesmas. A grande maioria dos adolescentes já estava na Casa da Liberdade quando o projeto foi iniciado naquele local, motivo pelo qual passaram a fazer as aulas. Apenas dois dos entrevistados entraram por indicação de amigos. 73 Como foi a primeira aula? Você gostou? Nesta pergunta os adolescentes se mostraram um pouco indecisos, metade dos entrevistados gostaram da primeira aula, outros, porém, não gostaram. “Foi mais ou menos já queria logo de cara tocar, parece fácil mais tem que ter dedicação”. “Sempre a primeira aula é confuso, não sabia nada não conhecia o professor. Ele chegou dizendo que a gente ia tocar percussão e chegou com uma latas... Ta percussão é isso”. “Não gostei muito porque ele trazia as baquetas e a gente tocava no chão. Eu queria já tocar no instrumento mais depois entendi que a gente tinha que aprender no chão primeiro para depois tocar nos instrumentos. Agora eu gosto”. “Não gostei muito, não gostava da cara do professor, tipo quando entrava um professor a gente não gostava dele para a gente mandar ele embora para não ter aula”. O “não gostar da aula” estava ligado à própria ansiedade dos jovens em estar tocando o instrumento. O fato de não conhecer o professor, de ser obrigado de uma certa forma a estar fazendo a oficina faz com que o jovem se rebele para a aula. Obedecer à autoridade do adulto não corresponde ao desenvolvimento do próprio EU. Neste movimento contrário cresce a necessidade de liberdade e de coerência consigo mesmo, norteando o caminho de adaptação e autonomia. Este exercício entre conflito e adaptação “favorece a capacidade de adaptação do indivíduo a uma sociedade em contínua mudança e conflito” (OUTEIRAL,1994: 37). 74 O que você mais gosta aqui? Segundo os adolescentes entrevistados o que eles mais gostam do projeto são as aulas de percussão. Sete entrevistados responderam gostar das aulas de percussão, os outros três responderam que não sabiam dizer o que mais gostavam. “Aqui do projeto? Não tem o que eu mais gosto, tudo é bom”. Mais uma vez fica clara a grande aceitação do projeto pelos adolescentes. A aula de percussão foi escolhida pelos entrevistados como sendo a aula preferida por eles. A percussão de acordo com Gonçalves (1999), trabalha a questão do tocar em conjunto “um grupo de percussionistas trabalha junto”. (GONÇALVES: 1999:60). O autor nos fala que esse aspecto quando transferido para uma situação de ensino-aprendizagem torna-se de fundamental relevância, já que a prática em conjunto é uma atividade imprescindível para a construção do conhecimento musical do estudante. Fez amigos novos no projeto? Já conhecia estas amizades antes? As amizades na adolescência são maior do que em qualquer outra época da vida. Outeiral (1994) nos fala que os adolescentes constituem uma imagem ideal de si mesmos baseados nos critérios do grupo, seus modos, seus valores e costumes. Seguir um grupo é uma maneira de afirmar-se, alinhar-se, integrar-se. Como não se sentem seguros, buscam a segurança perdida no grupo de amigos. 75 Os adolescentes entrevistados do projeto Balakubatuki afirmaram que dentro do projeto fizeram amizades novas. Destas amizades, alguns já eram conhecidos do colégio onde estudavam, mais afirmaram que foi dentro do projeto que ficaram amigos. O que você acha que as pessoas de fora pensam do projeto? A maioria dos adolescentes ao responder à pergunta afirmou que as pessoas de fora não conheciam o projeto realmente, e desta forma não possuíam uma opinião favorável ao projeto. Mas, segundo eles, as apresentações feitas fizeram com que as pessoas conhecessem o projeto realmente e passassem a apreciá-lo. “Não sei cada pessoal pensa de um jeito diferente. Mais eu acho que bem, não é à toa que chamam a gente para fazer apresentações”. “Acho que antes eles pensavam que era um monte de menino do Morro que não queria nada com nada, não davam muita bola para gente não, mais agora a gente se apresenta, e sempre tem um monte de gente vendo”. “(...) tem gente que pensa que isso aqui é coisa ruim que só tem guri do Morro mais eu acho legal”. “Eu acho que eles falam um monte do projeto, que aqui é uma bomba que vai explodir de bagunça. (...) mais quando a gente se apresenta tocando percussão, violão eles vejam que é legal, que a gente é disciplinado”. Fica claro através das falas que há uma certa discriminação sentida pelos adolescentes em relação às pessoas de fora, e a própria sociedade. Segundo Ferreira (1980) 76 A relação entre morar no Morro, na periferia, nos bairros pobres e ser delinqüente, vadio, acomodado e não participante, tornou-se uma premissa necessária e natural que fundamenta não só a visão popular e institucional, como também algumas abordagens científica das populações marginalizadas. (FERREIRA, 1980: 58). Assim como nos fala o autor, embora a maioria dos moradores dos Morros, das favelas e periferia não sejam delinqüentes, todos são tratados como tal, gerando a necessidade de tentarem se defender dessa classificação. O que é o Balakubatuki para você? Esta pergunta foi feita para que os adolescentes pudessem comentar sobre o projeto Balakubatuki. Assim como nos questionários feitos, todos os entrevistados possuem uma grande aceitação pelo projeto. Todos descreveram o projeto como algo bom que surgiu em suas vidas. “Um mundo novo”. “(...) É o ritmo Balaku é o ritmo e paz também, porque junta o ritmo com a paz. Porque os toques que eles passam para nós transmitem alguma coisa. Além do próprio toque, transmite na minha questão a paz”. “Algo de bom que surgiu na minha vida... esperança que surgiu”. Percebe-se desta forma o grande carinho e aceitação deles pelo projeto. 77 Como você era antes de conhecer o projeto? Nesta pergunta os adolescentes relataram como eles eram antes de entrar para o projeto Balakubatuki. Muitos responderam que antes eram mal educados, que brigavam e que não obedeciam a seus pais. “Eu era bagunceiro, aprontava direto. Eu brigava na rua”. Outros se sentiam sozinhos, diziam não ter muitos amigos para conversar e brincar. “Eu era um pouco trancado minha mãe não gostava que eu andasse com má companhia, no Morro tem bastante isso. E isso me deixava triste”. Todos os adolescentes entrevistados falaram algo de si. Através de suas falas percebe-se que eles não se sentiam compreendidos e aceitos. A questão de não ter amigos e se sentir sozinho também aparece nesta questão. Você mudou? Quando perguntado se eles haviam mudado todos os entrevistados afirmaram que mudaram. A mesma resposta dada no questionário, oportunidade em que todos também responderam que haviam mudado. 78 Você acha que a música tem a ver com esta mudança? Todos afirmaram que a música tem a ver com suas mudanças. “Muitas vezes a harmonia tu não encontra em qualquer coisa né? E na música tu sempre encontra”. “Tem sim aprendi a me soltar mais”. Assim compreendemos que houve mudanças na vida dos adolescentes depois de entrarem para o projeto Balakubatuki, já que o projeto tem como instrumento de trabalho a música, ensinando a tocar instrumentos musicais como a percussão e o violão. Como você é agora? Primeiro os adolescentes relataram como eram antes do entrar para o projeto, depois falaram de suas mudanças e em seguida pediu-se para descrever como eles se percebiam agora. Muitos afirmaram que eram pessoas educadas, legais e amigos. Outros responderam que não se sentem mais sozinhos e são mais felizes e alegres. “Eu sou educado, conheço um monte de gente e estudo música”. “Sou legal e me divirto mais”. “Agora não faço mais bagunça.. quer dizer me solto mais. E eu sou mais dedicado a música”. 79 A crise de identidade na adolescência é marcada segundo Osório (1992), também, por uma confusão de identidade, que desencadeará um processo de identificações com pessoas, grupos e ideologias que se tornarão uma espécie de identidade provisória ou coletiva. No caso dos grupos, até que a crise em questão seja resolvida e uma identidade autônoma seja construída. Fica claro que os adolescentes entrevistados têm um envolvimento muito forte com música, e que suas mudanças são percebidas por eles como positivas. Como você se vê no futuro? Através desta pergunta os adolescentes entrevistados relataram seus planos para o futuro ou expressaram como gostariam que fosse o seu futuro. Na infância, e principalmente na adolescência, os projetos de vida são ricos em detalhes, pois o indivíduo percebe toda a vida a sua frente, dispondo dela conforme suas fantasias e desejos determinem. Conforme Ferreira (1980), é nesta fase que os projetos expressam também os principais valores subjacentes às escolhas feitas, porque o descomprometimento com uma posição social assumida dá ao jovem condições para criticar e escolher os padrões sociais que está assimilando. “Gostaria de me formar em música”. “Futuro? Futuro acho que não tem o que fazer na verdade, a gente só inventa paisagem do futuro, não posso falar no futuro vou ser tal coisa, pode acontecer um 80 imprevisto e mudar.(...) Gostaria de fazer faculdade de música, vejo meu futuro ligado a música com certeza”. “Penso em montar uma banda”. “(...) Me vejo ligado na música. Fazendo concerto e tocando percussão, eu adoro isso”. “Me vejo fazendo um monte de coisas boas... quem sabe eu dou aula de música, de percussão que é o que eu toco melhor”. A maioria dos jovens entrevistados falou do seu futuro, como eles se viam daqui a alguns anos, sempre relacionado com música, como se pode ver. Muitos pensam em continuar estudando música e até fazer faculdade, montar uma banda e continuar tocando. Alguns também pensam em estar ajudando as pessoas o que demonstra um senso de solidariedade, ser ajudado e estar ajudando o próximo. 8.2.2 Análise das Entrevistas com os Professores Durante o decorrer da pesquisa, sentiu-se a necessidade de realizar uma entrevista com os professores do projeto Balakubatuki. As entrevistas aconteceram na Casa da Liberdade antes e depois das aulas. O projeto é composto por cinco professores. Foram entrevistados três professores. Destes, dois possuem terceiro grau incompleto e um possui terceiro grau completo. Um dos professores é também coordenador do projeto. Todos são professores de percussão, sendo que um deles também ministra aulas de violão. Todos participam há mais de um ano do projeto. 81 As oficinas do Balakubatuki são divididas em turma I, turma II e turma III. A turma I é compreendida pela faixa etária de 07 a 10 anos, a turma II compreende a faixa etária de 10 a 14 anos e a turma III corresponde à turma de experiência de 14 a 21 anos. Em cada turma há um trabalho diferenciado. É o que comenta um dos entrevistados: Cada turma tem uma atividade diferente pelo fato da faixa etária diferente. De 07 a 10 anos a gente faz mais um trabalho de musicalização assim, a gente não trabalha tanto o ritmo e muito o tocar é mais o lado de percepção musical de ouvir um pouco os instrumentos de saber um pouco a sonoridade dos instrumentos um pouco da história dos instrumentos e ensina a cantar as músicas que o Balakubatuki trabalha também. A de 10 a 14 a gente já faz um trabalho mais de tocar mesmo percussão, trabalhar em grupo tocando todo mundo junto. Ai desse trabalho à gente desenvolve a cidadania que a gente quer trabalhar no projeto também, através da música, da arte ta passando essa consciência para a criançada a importância de se respeitar de ouvir o amigo de respeitar o amigo que ta ali no grupo. A gente divide em grupo às vezes, faz um bloco de percussão, e às vezes um grupo tem que ficar um pouco quieto para tocar, às vezes o próprio arranjo assim, às vezes um arranjo fica um grupo só tocando e o outro esperando a hora de tocar, daí entra, então a gente associa toda essa parte musical com o dia-a-dia mesmo, de ta se respeitando ouvindo o outro. E o adolescente é um trabalho mais aprofundado na música mesmo, de tocar bastante a gente ensina a construir os instrumentos, afinação e sonoridade de todos os instrumentos, pesquisa às vezes sobre um ritmo novo e mesmo eles auxiliam a gente nas aulas dos pequenos. Ta investindo neles para eles serem os futuros professores. (entrevista 01) O projeto Balakubatuki se preocupa muito em trabalhar a cidadania com seus alunos, entendendo-se por Cidadania “o direito de viver decentemente” (DIMENSTEIN, 2000:29). A idéia do projeto não é de formar grandes músicos, mas sim, através da música, passar ensinamentos para os alunos, já que a música se torna um elemento de grande aceitação para as crianças e adolescentes. (...) a idéia nossa não é nem que os alunos sejam músicos profissionais ou um super percussionista não é nada disso é mais para estar usando a música para atrair eles porque as crianças gostam de música gostam de som, gostam de tambor, gostam de bater e a gente usa isso para estar passando lições de cidadania para eles. (entrevista 02) 82 Mais uma vez fica clara a importância de fazer com que estas crianças e adolescentes se respeitem e sejam respeitados. De acordo com Dimenstein (2000), cidadania é o direito de ter uma idéia e poder expressá-la. É o direito de ser negro sem ser discriminado, de praticar uma religião sem ser perseguido, é o direito de ter direitos. E é através das aulas, da música ensinada que elas passam a se perceber como cidadãos. São as pequenas regras, que tu vai colocando que vão passando para a vida da pessoa, daí tu vê que eles ensinam cidadania ensinam não sei o que através da música, epâ mais a onde que ta a cidadania, esta aqui muitas vezes essas pequenas regrinhas elas passam para a vida da pessoa e começam a ver que existem determinadas regras para atingir determinados é... Que existem pequenos deveres para ele ter o beneficio das coisas. (entrevista 03) Um outro ponto importante da aula é a questão da capoeira, que, segundo um dos professores entrevistados, “a capoeira é um método de ensinar música altamente brasileiro 100% nacional, bom, perfeito e eficaz”.(entrevista 03). Segundo Capoeira (1999), através da mistura de movimentos de luta e música, a capoeira tornou-se uma marca nacional. O ritmo envolvente, a utilização de instrumentos como berimbau, chocalhos e pandeiros, faz com que essa arte, marginalizada no passado, atraia hoje a atenção de admiradores no mundo inteiro. A dança ajuda a ter ritmo, tu estuda vários educadores mundiais, caras feras mesmo com diversos métodos, pô eles usam o corpo para ensinar a música, capoeira usa o corpo, eles usam a confecção de instrumento para ti ter um interesse pela música, a capoeira usa... Tem isso, usa a prática de conjunto com ritmo simples a capoeira usa isso, canto a capoeira usa isso, bater palma, roda a capoeira usa, sem contar que é o seguinte um pode estar tocando o outro bater palma e o outro jogando mesmo, eu tava considerando que todo aquele universo até o cara que tava batendo palmas tava aprendendo música. (entrevista 03) Segundo Capoeira (1999), a capoeira, foi fortemente influenciada pela cultura negra. Seus movimentos ou atitudes observados na roda de capoeira possuem um caráter objetivo, como desenvolver força, reflexo e raciocínio. 83 A idéia era aproveitar os elementos da capoeira e trazer para a percussão. “Claro com aula de percussão, vou ensinar o que é percussão, vou mostrar o que é percussão vou mostrar quem são os grandes percussionistas brasileiros”. (entrevista 03). À medida que as aulas foram sendo ministradas percebeu-se a necessidade de estar modificando, deixando um pouco o método de capoeira de lado e ensinando através da música. Eu parti de um ensinar a música para ensinar através da música entendeu... Então dali para eu ensinar através da música eu tive que ter um pouco mais de paciência nesse método de capoeira e tudo mais, porque lá o objetivo era um outro além de ensinar música. (...) Então a gente da essa volta primeiro pra depois iniciar, mais já ensinando música nessa volta, então ensinando os ritmos da capoeira sem caracterizar que era a capoeira usava no tambor passava alguns ritmos para o tambor. (entrevista 03) Outro ponto relevante apontado por um dos professores de percussão foi a não aceitação das latas por parte dos alunos. As latas, uma das marcas do projeto, inicialmente não foram bem recebidas. Muitos alunos ao entrar para as oficinas não gostavam de tocar nas latas, pois achavam que latas não podia ser uma fonte sonora. Este foi um problema que eu tive, eu não esperava isso, eu conheci o batelata de São Paulo eu conheci o Stomp1 e eu fui na inocência que eles conheciam e eles não conheciam então lata para eles era simplesmente uma lata não podia ser nunca um instrumento sonoro entendeu, daí eu tive que convencer e a partir daí foi desenvolvendo as aulas. (entrevista 03) Foi preciso criar uma didática específica que fizesse com que os adolescentes se interessassem pela aula, e se abrissem para o novo. De acordo com Kullok (2002), ensinar é desvendar um mundo novo, oculto. Para aqueles que buscam aprender, a aprendizagem é o processo através do qual o sujeito se apropria ativamente do conteúdo existente. 1 Stomp companhia que percorre o mundo com espetáculos que misturam dança e música. Para este garante-se muito ritmo, animação, objeto em movimento, criatividade usa-se instrumentos pouco convencionais como caixotes de lixo, latas e bidões. 84 A entrevista mostrou que dos professores entrevistados todos estão no projeto por amor a este, pela história do Balakubatuki, onde dar aulas no projeto não é visto como um simples trabalho. De alguma forma todos os professores entraram no projeto conhecendo a historia do Balakubatuki. Todos se mostraram muito satisfeitos em estar fazendo parte deste projeto, e todos possuem outros trabalhos com música. “O meu envolvimento com a música é total quando eu vi, já estava fazendo parte do grupo”. (entrevista 02) Um dos professores entrevistados fez aulas no Balakubatuki no seu início. Ele conta que depois teve que sair do projeto, mas nunca mais parou a sua ligação com a música. Começou a estudar música por fora, tocou em algumas bandas, entrou para a universidade, sempre mantendo contado com o projeto, visitando, assistindo às aulas e prestando monitoria até receber o convite oficial para se tornar professor. O meu envolvimento começou assim sendo aluno do Daniel e vindo aqui no projeto vendo como tava andando ele me contanto e dando uma ajuda, às vezes ele não podia dar aula ia viajar, ele me chamava para vir aqui quebrar um galho. Para mim era tudo muito novo, ai pintou o convite oficial de vir aqui e dar aula com ele. Ele tava com muitas turmas e não tava dando conta. (...) É uma responsabilidade bem grande assim mais foi tudo uma conseqüência de me convidar e eu estar assumindo esse compromisso e agora eu faço faculdade de música também, que tem me ajudado. (entrevista 01) Outro fator importante que reforça o fato dos professores se dedicarem ao projeto por carinho, diz respeito à ausência de remuneração. A remuneração acontece quando o projeto é aprovado. Mais é sempre uma instabilidade a gente nunca sabe se no começo ao fim vai estar recebendo. Então antes de tudo é um trabalho voluntário, a remuneração é conseqüência de um trabalho que a gente vai por fora, pó a gente precisa pagar nossa gasolina, pagar o nosso transporte, comprar uns instrumentos melhores, então antes de tudo é um trabalho voluntário.(entrevista 01) Segundo um dos entrevistados: O projeto é inteiro voluntário. A gente é uma associação já faz um ano. A gente é uma associação sem fins lucrativos e às vezes o nosso projeto é aprovado e sai um recurso. Mais de seis anos de projeto sei lá dois só tiveram remuneração. Esse ano a gente teve patrocínio só ate a metade do ano, da metade do ano acabou e estamos esperando se conseguimos um patrocínio. (entrevista 02) 85 Segundo entrevista realizada com o Coordenador do projeto este afirma: Os próprios professores se motivaram a tipo aquele mês tal que tem um pouco menos de trabalho, vamos ganhar só a metade, porque tipo julho e um mês que tem férias ali no meio entendeu, mais todo mundo recebe, todos os professores recebem porque vai preparar aula, porque vai fazer manutenção sempre tem alguma coisa para fazer, mais a gente não recebeu a gente se propôs a ganhar um pouco menos. (entrevista 03) Isso prova a dedicação pelo que faz, pois voluntário é o cidadão que, motivado pelos valores de participação e solidariedade, doa seu tempo, trabalho e talento, de maneira espontânea e não remunerada, para causas de interesse social e comunitário. O carinho pelas crianças e pelos adolescentes do projeto é muito visível nos professores. “Elas possuem um potencial enorme, muito mais do que qualquer filhinho de papai” (entrevista 02). É legal porque gira muita criança aqui tem umas 10 crianças que estão aqui desde os 07 anos e estão com 14, inclusive os que fazem aulas com a gente no grupo de experiência estão desde a turma I, estão é bom, tu vê o trabalho evoluindo, tu vê o crescimento de alguns alunos, que no começo tinham uma dificuldade tremenda assim de ritmo por exemplo e hoje já tem facilidade então tu vê que o resultado acontece. Sempre tem criança nova aprendendo, inclusive tem crianças que a turma vai puxando ela para acompanhar a turma. (entrevista 01) As dificuldades apontadas pelos professores são referente à musicalidade das crianças, pois muitas delas entram para o projeto sem ter contato com a música. Eu sinto que tem muita criança que tem muita dificuldade, porque aqui tem muita gente que chega do Oeste de SC e outros cantos e sei lá, o meio cultural deles lá não tem muita música mais não sei o que acontece mais, eu sinto falta de musicalidade nas crianças pelo fato deles serem de fora e não conviverem desde pequeno com a música sei lá com o pagode que deve acontecer lá no morro, então eu sinto falta da musicalidade, o nosso trabalho é bem difícil por isso não é criança que vem tocando samba, tocando pagode né, como acontece lá no Rio de Janeiro lá no Nordeste, tu vai trabalhar com a criançada e a criançada já ouve samba maracatu, frevo desde pequeno, na hora de tu ensinar alguma coisa elas tem muita facilidade. Então aqui a dificuldade que eu tenho é trabalhar com essa parte musical tem crianças que começam do zero então tu tem que fazer um trabalho de ritmo. (entrevista 01) Aqui é levantada a questão cultural onde o indivíduo está inserido. De acordo com Freire (1987), a invasão cultural tem uma dupla face, de um lado a dominação e de outro o 86 invadido. Porém nem sempre esta dominação é vista como algo prejudicial ao indivíduo, como o caso dos alunos do Balakubatuki, onde a maioria deles entra para o projeto sem ter conhecimento musical, pois em seu meio cultural a música não é trabalhada, diferente dos alunos que nasceram no Morro e conviveram desde pequenos com a música produzida neste meio. “O eu social dos invadidos, que como todo eu social, se constitui nas relações sócioculturais que se dão na estrutura, é tão dual quanto o ser da cultura invadida”. (FREIRE, 1987: 151). A adolescência é caracterizada por mudanças físicas e psicológicas, a compreensão sobre adolescência para os professores, vai desde as mudanças físicas como é o caso de um dos professores entrevistados que relatou: O adolescente é aquele aluno que já está se desenvolvendo, aquele aluno que tu vê crescendo. Aquela menina que era bem magrinha e ela já começa a tomar aquele corpo de mulher, essa fase de transição assim né, de uma coisa bem física mesmo. E isso é bem a fase que a gente trabalha aqui, a criançada vem aqui pequenininha daí quando tu vê, ta na turma II já está maiorzinho já ta um menininho forte, depois ele já está adolescente já ta maior que tu, e tu ta ali dando aula para ele ainda, ta ali ainda aprendendo contigo. (entrevista 01). Sabe-se que na adolescência ocorre uma série de mudanças relacionadas com o corpo, que de infantil passa a dar formas para um corpo adulto. Porém, outra mudança é percebida neta fase; a adolescência é a fase dos conflitos, representa um momento de crises, porque apesar da influência da sociedade, o jovem tem idéias próprias. Está ansioso por construir um mundo melhor e contesta tudo o que está à sua volta. É o período onde as responsabilidades aumentam, onde se começa a ter deveres. É a descoberta de si mesmo. É quando começamos a pensar um pouco mais maduro, pois as responsabilidades vão aumentando. Muitas coisas acontecem, relações sexuais, voto, trabalho...(entrevista 02) Para mim é uma faixa etária, para mim e só isso primeiro. Mais eu começo a ver que dentro dessas faixas etária, por exemplo, eu comecei a ver que sempre no final da turma II, ali de 13 e 14, sempre eles se rebelam, sempre tem um que se rebela... Há tu é otário mesmo, ou eles participam da aula mais é sempre pegando no pé tirando onda... Daí eu comecei a observar isso 87 nas outras turmas e percebi que sempre no final das turmas que a gente separa, que a gente separa de 07 a 10 e de 10 a 14 e acima de 14, sempre no final dos de 07 a 10 e os de 10 a 14 eles começam realmente a se rebelar um pouco nas aulas, mais eu comecei a ver que eles estão começando a ficar prontos para ir para outra turma. (entrevista 03) A realidade dos alunos do projeto é um dado apontado pelos professores. Segundo eles, existem muitas crianças com problemas, e estes problemas vão desde falta de assistência básica até a prostituição e envolvimentos com drogas. A realidade social mesmo das crianças varia muito mais tem crianças que perderam o pai. Perderam a mãe por ser sei lá, às vezes foram assassinado no morro de alguma forma ou o pai que usavas drogas e morreu de AIDS, ou a menina que apanha do pai, ou o pai que é alcoólatra e agride. São varias situações que a gente tem que estar por dentro né.(entrevista 01) Os problemas vão desde drogas que assim o que todo mundo já pensa... A vai proteger das drogas, mais vai até muito mais, como eu to te dizendo de abandono, estupro dentro de casa mesmo, a mãe que apanha sabe, de prostituição, nessa idade abaixo de 14 porque durante muito tempo o projeto só atendeu abaixo de 14. (entrevista 03) Há uma certa preocupação quanto ao tratamento dado pelos professores para seus alunos. Eles procuram estar atentos à realidade de cada um, tomando cuidado nas suas falas e atitudes. Uma nova oficina foi criada para não deixar que os alunos ao completar 14 anos saíssem do projeto. Uma preocupação apontada por um dos entrevistados. Não adianta tu só ficar aqui na sala de aula a gente tem que estar ali por dentro saber o que acontece com cada criança porque o tratamento de certa forma a gente deve tomar cuidado às vezes com algumas crianças que tem grandes problemas. Tem crianças que tem depressão, tem crianças que tem tendência a suicídio. Que são crianças que já tentearam se suicidar então a realidade das crianças aqui realmente não é que nem num colégio particular por isso a gente que tomar cuidado com que a gente fala.(entrevista 01) Quando eu comecei a ver que eu estava perdendo meus alunos de 14 eu comecei a pensar meu Deus eles estão fazendo 15 e estão indo para onde. Eu criei não existe na Casa da Liberdade, eu tive que dar um teor profissionalizante para poder ter essa turma inclusive, porque eu acho que não existe profissionalizante de música sabe nem na universidade tu sai de lá sabendo como eu tava dizendo sabendo música, tu pode sair de lá professor ou tendo uma noção, mais profissionalizante tu tem que ta tocando é no dia-a dia cara. (entrevista 03) 88 Muitas crianças dentro do projeto Balakubatuki mudaram, e essas mudanças são percebidas pelos professores, sejam estas referentes à aceitação pela aula, ou mudanças de valores, ou ensinamentos que levam para a vida. Então pode acontecer de varias formas, tem criança que chega aqui e não quer nada com nada, o desinteresse dele pela percussão são totais às vezes eles chegam aqui e não querem fazer percussão porque eles têm o direito no projeto de escolher as atividades deles, então ta, mais depois vêem as crianças se apresentando vê os amiguinhos se apresentando vendo o Balakubatuki tocar com o Iriê né... Daí eles começam não, pô o negócio não é só aquela aulinha não, é muito mais. (entrevista 01) O projeto procura além da música, apresentar um pouco de cidadania e disciplina e elas percebem isso quanto você as reproduzem. Eles são muito “ligados”. (entrevista 02) Apareceu aqui em Florianópolis que é o Orquestrar na comunidade, que é orquestra mesmo, todos os meus alunos que foram encaminhados também para esse projeto, tinham um aprender assim muito rápido porque ele já vem assim, com uma noção de música, com um respeito pelo instrumento, com um respeito pela aula de música, com um olhar, um próprio linguajar musical que ajuda o professor assim... Sem contar aqueles que já chegaram lendo parte rítmica, já foi meio caminho andado para o professor. (entrevista 03) A mudança acontece, os adolescentes passam a almejar o seu futuro, fazem planos, criam metas. Existem também aquelas mudanças do dia-a-dia, pois em cada aula os alunos podem apresentar-se de um jeito, pequenos acontecimentos vividos por eles em casa podem fazer com que eles acabem descontando sua raiva nas aulas. Mas a grande preocupação dos professores é contribuir de alguma forma para o futuro de seus alunos. Este tempo atrás veio um dos nossos alunos conversar com um dos nossos professores o Sergio que tu conhece, professor de teclado, para montar uma turma ano que vem preparatória para o vestibular de música, então que dizer já existe um caminho, eu to traçando o meu caminho.(entrevista 03) Não tem como elas serem as mesmas do começo ao fim, nem sempre a gente percebe por isso que a responsabilidade é muito grande, tu tem que estar atento porque quanto mais atento a gente estiver mais a gente vai poder resolver os problemas das crianças, então a idéia nossa é contribuir de alguma forma. (entrevista 01) 89 Contribuindo com o futuro destas crianças e adolescentes, estes começam a mudar, passando a elevar a sua auto-estima. Sabe-se que no mundo atual existem preconceitos em relação a quem mora em Morros, ou a quem é negro, o que faz com estas pessoas tenham pensamentos, atitudes e sentimentos de inferioridade. “Pobreza material não significa pobreza cultural, cognitiva e intelectual”. (ROMÃO, 1999:16). E é isso que o projeto busca valorizar em cada um de seus alunos, fazendo com que eles tenham uma consciência de seu papel na sociedade, se sentindo aceitos e com uma auto-estima elevada. Eu vejo que eles se sentem valorizados que é importante estarem participando de um projeto desses, quando eles tocaram no sete de setembro veio um guri para mim falar, que foi a primeira vez que ele tocou, pô professor eu vi até um pessoal aplaudindo, cara para eles aquilo ali é o Ô... É auto-estima é um se gostar.(entrevista 03) Auto-estima é o sentimento de importância de valor de alguém ou de alguma coisa, de consideração e respeito. E a cada nova aula, a cada nova apresentação os alunos vão internalizando valores, vão cada vez mais se dedicando às aulas e não pensando em desistir. Eu acho que o maior resultado também é eles estarem ali, ter interesse, é pedir a oficina, porque, porque eles estando ali eu sei que eles não estão num lugar pior, sei lá. Porque eu sei de ex-alunos que foram alunos da Casa da Liberdade que hoje andam armado no Morro que andam metidos até o pescoço em varias coisa, de roubo de trafico, vejo outro que estão trabalhando tal e tal nesses empregos é... Nesses empregos que tem... Se virando vamos dizer assim mais que eles sentem uma vontade muito grande, que eles tem vontade de voltar. E nas pequenas relações que a gente tem, nas poucas famílias que eu particularmente tenho assim, ou quando eu conheço os pais nas reuniões de pais que a gente faz as reuniões tal mais que são esporádicas, eu vejo que é assim eles tem um interesse muito grande para que o projeto não pare, que o projeto continue porque as crianças gostam muito.(entrevista 03) Segundo os professores entrevistados, todos acreditam que o futuro destas crianças e adolescentes será melhor, embora os primeiros tenham a consciência de que o caminho da escolha só depende de cada um destes adolescentes. 90 Acho que um pouco da sensibilidade humana elas vão ter, pois isso a gente tenta passar sempre. O futuro são elas que constroem, nós só apresentamos um caminho que elas tem o direito de escolher ou não, mais acredito que o futuro delas estará relacionado com coisas boas. (entrevista 02) É difícil a gente prever o futuro delas, porque cada uma vai traçar o seu, mais com certeza as crianças que passaram pelo projeto que ficaram um tempo significativo aqui eu acho que vão levar boas lembranças. (entrevista 01) É obvio que trabalhando e ralando desse jeito cara tu imagina que vai ser o melhor possível. Eu tento porque tu se apega a elas, tu não que nem pensar no pior. Mais buscando profissionalizando o projeto eu busco o que, eu busco profissionalizar eles também, como eu to te dizendo para não tirar o adolescente do projeto eu to tentando buscar essa forma de munitoria remunerada a onde eles recebessem para estar monitorado o projeto sobre a supervisão dos professores mais para que, para que eles possam não largar o projeto e que possam estar se profissionalizando em alguma área que seja, seja ela musical ou confecção de instrumento, ou área de capoeira ou área de teclado ou área de violão, mais que eles não precisem para isso parar de estudar ou parar o projeto para ir trabalhar de ofice boy de algumas coisas que eles fazem, trabalhos paralelos para continuar estudando, porque já começa uma cobrança em casa para começar a trabalhar, e eu acho isso super normal. (entrevista 03) Há uma preocupação muito forte dos professores em fazer com que os adolescentes permaneçam o máximo de anos possível no projeto, pois com a chegada da adolescência chegam também às responsabilidades, inclusive a de contribuir na remuneração de casa. A idéia agora é fazer com que estes adolescentes possam continuar nas oficinas, fazendo o que gostam e com uma ajuda financeira, para que assim não precisem abandonar o projeto. As aulas são o momento de alegria, de liberar energia, de diversão, são vários os momentos engraçados, situações vividas pelos professores que refletem isso. “A gente se diverte bastante com as atividades musicais. Rola muita” palhaçada “entre amigos”. (entrevista 02). Há muitos momentos felizes lembrados pelos professores, a relação de carinho, respeito e amizade são elementos que ficam evidentes diante dos relatos das entrevistas. Esse ano a gente foi viajar, foi o primeiro ano a viajar como o projeto fazer uma apresentação são apresentações na praça lá em criciúma, em Laguna apresentamos na Beira-Mar. Pô para, mim foi super legal eu viajar com 91 eles, eu passar uma noite com eles no hotel, conversar com eles na noite, sabe nem que seja aquela coisa de silencio agora tá muita bagunça, não sei o que. Eu tava dando uma de paizão ali, sabe mais é este sentimento de exatamente isso e um pouco mais, não ser o pai não quero nem ser o tio entendeu mais ser um pouco mais próximo assim entender um pouco mais assim, todos esses momentos me fazem felizes pra caramba encontros como gente teve ontem, ensaio onde a gente reuniu as três turmas os três grupos para se encontrar esses momentos me fazem felizes assim né. E o engraçado é no dia-a dia, o jeitinho de cada um às vezes a gente dá risadas...(entrevista 03). A satisfação de poder contribuir com o futuro destas crianças e com algo que os deixam felizes é o que motiva a continuar. Preocupar-se não só com as crianças, mas com suas famílias, como o que aconteceu no evento Balakubatuki em Ação, evento este que contou com a participação de diversas ONG’s, entidades não-governamentais e governamentais, com o objetivo de apresentar o projeto para a comunidade e também proporcionar informações e serviços, como por exemplo a retirada de documentos. Teve momentos muito bons, muito felizes isso sim quando a gente fez o evento que eu quero voltar a fazer que a gente reuniu varias áreas teve atendimento. Na área de documentação, todo mundo que precisava fazer a certidão do filho, teve apresentação de todas as turmas do projeto como o Balakubatuki, tava se projetando através do Iriê eu pude chamar outros projetos para se projetar também através daquele dia, porque tem tantos projetos bons não é só Balakubatuki não, mais que talvez não teve a chance que a gente teve. (entrevista 03) Todos os professores têm contribuído para um melhor projeto, e isto se reflete nos alunos. As mudanças acontecem, devido à relação de carinho com as crianças. Estas crianças são respeitadas e valorizadas e isso faz com que elas cada vez mais gostem e se sintam bem no projeto. Nestes quase sete anos de projeto várias foram as histórias marcantes. O seu crescimento prova que cada vez mais os resultados acontecem, deste que haja trabalho, dedicação e, principalmente, desde que se acredite que é possível mudar. 92 8.3 História de Vida Através dos questionários e entrevistas realizados com os adolescentes e no intuito de enriquecer ainda mais o trabalho, sentiu-se a necessidade de se fazer uma história de vida com algum dos entrevistados. A História de Vida “é a totalização sintética de experiências vividas e de uma interação social”. (CHALOUB, 1989: 10). Por se tratar de narrações de experiências, a História de Vida traz uma carga significativa capaz de interessar à pesquisa social. Dentre os entrevistados escolheu-se o que estava há mais tempo no projeto, entrando-se em contato com o mesmo e agendando o encontro. O relato foi colhido na Casa da Liberdade em dois dias distintos. O adolescente escolhido está a seis anos no projeto, tem dezoito anos, é natural de Florianópolis e mora no Morro do Bode. “Moro com minha mãe, meu irmão, minha cunhada minha sobrinha e com meu cachorro”. Dentre os lugares que já morou destaca-se a Mariquinha, local onde nasceu, Monte Cristo, Monte Serrat e Lages, local do nascimento de sua mãe. Segundo o adolescente, o Morro do Bode é o lugar que ele mais gostou de morar, onde reside há quatro anos. “Não sei porque eu acho lá. Deve ser porque eu conheço todo mundo lá”. Não gostar de mudar-se tantas vezes de residência é algo que fica bem evidente na entrevista. “Nunca gostei de me mudar tanto, fazer amizades tudo de novo, minha mãe nem dizia quando eu via já tava me mudando”. Dentre os lugares em que já morou, “C” , como chamar-se-á, descreve um pouco suas casas. 93 As casas que eu morei era tudo aluguel, já morei em casa grande, pequena, material e madeira, até uma com o teto de lona. Uma vez morei numa casa que não tinha parede era tudo junto, só tinha uma porta. Já morei em casa, em uma casa que era em cima de um palito quase se quebrando tudo, hoje eu moro em casa de madeira e material que é da família. A gente vai aumentar a casa desta vez a gente não se muda mais. Uma grande revolta que possui diz respeito a morar em Morro. “C” relata que as pessoas falam sem nem conhecer realmente o lugar em que mora. “Não é bem assim como eles falam, nunca foi, sei lá tem violência mais onde não tem, qual o lugar que não tem violência, tudo quanto é lugar tem violência, só que lá tem mais sempre tem uns mala ruim isso é normal”. E continua dizendo: Eu acho que quem mora em Morro tem condições de vida melhor do que quem mora num apartamento na Beira-mar, porque tem mais qualidade de vida, porque ta sempre batalhando, sempre correndo atrás porque estes playboyzinhos vivem sempre reclamando sempre recebendo tudo na mão, sei lá eu aqui e eles lá. O entrevistado tem uma consciência bem crítica em relação à sociedade, e isso aparece o tempo todo no decorrer da entrevista. Ao relembrar sobre sua infância, o mesmo diz não se lembrar de muita coisa, pois sua mãe não fala muito sobre isso com ele. Perguntado sobre suas brincadeiras, o que gostava de brincar: “Eu brincava bastante, brincava de bonequinho de fazer casinha e tacar fogo para depois fazer que vinha a ambulância jogava água salvava as pessoas. Isso era o que eu mais gostava de brincar coisa bem de criança”. Depois quando se mudou para o Morro do Bode com 13 anos, gostava de brincar de se esconder, e polícia e ladrão, dizendo ter bastantes amigos naquela época. O entrevistado não gostava muito de falar sobre sua família, ao ser perguntado sobre seu pai, se ele o conhecia, “conheço, até falo com ele, estes dias até fui ver ele”. O pai de “C”, mora em São José e a família não tem muito contato com o mesmo.“É ele lá e eu 94 aqui, eu só fui ver ele porque ele sofreu um acidente”. “C”, relata que morou com o pai até os quatro anos, mas não tem boas lembranças desta fase. A família residia na Mariquinha nesta época, sendo que relata que seu pai lhe batia e também em sua mãe. “Antes ele incomodava era cachaceiro, bebia, bebi ainda, só não bebe agora por causa dos remédios. (...) Minha mãe diz que ele batia nela um monte e em mim também”. O entrevistado lembra da fase em que foi obrigado a morar com seu pai, e relata que esta fase foi a pior de sua vida. “Foi ruim eu não gostava de lá. Fui forçado a ir”. Disse que sua mãe estava se mudando para Lages e que ele havia ficado em Lages na casa de parentes para que sua mãe pudesse voltar para trazer as mudanças. Neste tempo seu pai apareceu lá e lhe pegou à força para ir morar com ele. “(...) Meu pai chegou um dia lá em casa e me pegou. Minha mãe e eu viajamos para ir para Lages e me deixou lá e voltou para pegar as coisas à gente ia se mudar para lá. Daí ele foi lá e me pegou. Coisas de adultos”. Foi nesta fase que entrou no colégio e diz que não aprendeu nada, depois fugiu da casa do pai e voltou para casa de sua mãe. “É que teve um tempo que eu morei com ele com 06 para 07 anos. Ai morou só eu e ele. Mais eu não aprendi nada ai depois de ano voltei para minha mãe de novo e comecei tudo de novo e é por isso que eu entrei tarde no colégio”. Esta foi uma fase complicada de sua vida, ter sido levado à força para morar com seu pai, depois decidir voltar para casa da mãe e fugir do lugar onde morava com o pai, tendo apenas sete anos. Ela ficou um tempo sem saber, daí quando ela chegou lá e eu não estava mais ela voltou para cá, daí descobriu que eu estava com ele e foi lá me pegar ai ela viu que eu estava estudando e me deixou lá. Só que um dia eu voltei para cá escondido dele, eu fugi. Ai depois eu não falei mais com ele, só agora eu vi ele, foi eu minha mãe meu irmão, minha cunhada também foi junto. Ele sofreu um acidente que queimou a casa dele e ele se queimou tudo. A figura do pai nunca foi muito presente em sua vida, sendo que depois dos sete anos, só agora com dezoito anos tornou a reencontrar o pai. Este também nunca lhe ajudou 95 financeiramente. Segundo diz: “nunca me deu nada, nunca me deu um pão, nunca me deu uma bala mais para mim tanto faz não me incomodando aqui está ótimo”. De volta para a casa da mãe, ele retornou ao colégio, dizendo que agora já consegue aprender melhor. “Eu era mais espertinho como eu sou agora, nunca rodei”. “C”, diz nunca ter ido para creche, ele passava o tempo quando era pequeno com a sua tia, com quem residia. Percebe-se que este sente um carinho muito grande pela tia, e a considera como uma mãe. Não, nunca fui para creche. Eu passei quase toda a minha vida com a minha tia ela é a minha segunda mãe, a gente morava com a minha tia na Mariquinha na casa dela e enquanto minha mãe trabalhava, ela ficava comigo. Eu considero ela como uma mãe. Até hoje sempre quando tenho algum problema falo com ela. Chamo ela de mãe negona, mãe preta. Há uma forte ligação entre ele e sua tia, talvez ela seja para ele uma espécie de referência, que mesmo passado algum tempo e não morando mais com ela, a tia é a pessoa que está sempre ali, sempre pronta para lhe ajudar. A sua ligação com a mãe é um pouco distante. Embora morando com ela o mesmo relata que quase não fala com sua mãe, que segundo “C”, “ela só trabalha só quer saber de trabalhar”. E continua, “de manhã ela ta dormindo a tarde eu saiu e a noite eu estudo e ela trabalha”. Quando saiu da casa da tia e passou a morar no Monte Cristo, “C” se sentiu mais sozinho. Com apenas dez anos ele e seu irmão moraram praticamente sozinhos, pois sua mãe passou a dormir no local de trabalho só vendo os filhos nos finais de semana. “Tinha uma vez que eu nem via ela porque ela trabalhava numa casa e só vinha para casa no domingo, ela dormia no serviço, almoçava no serviço ficava todo tempo lá”. Ele diz que sempre foi independente, e que sempre foi em busca do que quis, às vezes sente falta da mãe, principalmente quando era criança, mas de uma certa forma compreende que esta falta de tempo da mãe era porque ela precisava trabalhar. “Eu sempre 96 fui meio independente eu sempre fui mais por mim, aqui na Casa da Liberdade eu vim por mim na escola também foi por mim ela nunca foi numa reunião do colégio sempre trabalhando”. Mesmo referindo entender o motivo do afastamento da mãe, percebe-se que sente isso, e diz: “Sabe eu considero que quem me criou foi minha tia, quando vim para cá já sabia distinguir as coisas, nessa fase entrei na casa da Liberdade”. A Casa da Liberdade segundo ele apareceu na sua vida por iniciativa dele em entrar. Seus amigos do Morro estavam todos na Casa, então ele pediu para sua tia ir até a Casa da Liberdade e fazer sua matrícula. “Meu primo vinha para cá e o pessoal onde eu morava vinha tudo para cá, ai eu quis também. Vim aqui tinha que estar estudando minha tia veio aqui fez minha matricula e to aqui”. Mais uma vez a figura da tia aparece em sua vida, o pedido dele para a tia efetuar a matrícula para entrar na Casa da Liberdade. Dentro da Casa da Liberdade ele lembra de seus oito anos de Casa, dos passeios que faziam, dos amigos que fez, das amizades que continuam até hoje. “Tem uma que tenho até hoje, foi aqui que a gente descobriu que éramos primos”. Do primeiro dia que foi para Casa da Liberdade, “a primeira vez que eu entrei todo mundo ficou olhando, ainda falaram esse aqui é o novo aluno, nossa fiquei num canto eu não falava nada”. Embora tantos anos tenham se passado, ele lembra com carinho dessa fase de sua vida. Agora continua freqüentando a Casa da Liberdade para fazer as aulas do Balakubatuki, mas não participa mais das outras oficinas promovidas pela Casa. “Pra dizer a verdade antes eu gostava mais, agora tá meio chato, chato no sentindo da Casa em si, e não do projeto. Porque antigamente tinha passeio, Beto Carreiro agora a atual diretora cortou tudo”. 97 A vida de “C” é marcada muito pela presença de sua tia, seus valores, sua educação. Com dez anos passou a morar só com a mãe e o irmão, e foi neste período que entrou para Casa da Liberdade, o que, segundo ele, foi um pedido seu. Toda sua trajetória mostra um menino forte e muito decidido nas suas escolhas. Foi tudo por mim. Se que quisesse virar um traficante eu já teria virado. Porque eu vejo isso direto imagina morei no Monte Cristo não vou ver isso, na Mariquinha, se bem que na Mariquinha antigamente era mais tranqüilo hoje está meio pesado só vou lá para ir na casa da minha tia. A gente sempre vê os traficantes fumando os deles lá, eu passo digo oi tudo bem e só. Eu acho que o que eu sou hoje é mérito meu porque eu vejo isso, tenho convite direto mais eu não quero isso para mim. Os modelos identificatórios de C, fizeram com que ele hoje tenha esta postura. Dentro do Balakubatuki ele aprendeu e foi respeitado, conheceu pessoas novas, fez novas amizades e aprendeu algo novo: a música. Segundo ele, nunca pensou em sair e abandonar o projeto. Não, faz quase 07 anos que eu faço aula no Balaku antes eu não gostava da cara do Daniel. A gente era uns pestes queria tirar os professores para ficar vadiando ai. Ai ele entrou e a gente pensou vamos botar ele para rua, mais não conseguimos, ele ficou. Porque a gente gostou do que ele faz e da pessoa dele. Eu nunca imaginei fazer aula de música, eu nem sabia o que era musica não tinha idéia. Só sabia o que era música aquilo que tocava no radio. Hoje eu sei o que é música no conjunto de tudo, saber tocar, saber fazer, saber interagir. Hoje ainda não sei tudo porque a gente ta sempre aprendendo coisas novas. Porque quem quer mesmo conhecer a música tem que ir a fundo, tem que estudar tem que fazer não pode desistir. No projeto também acabaram saindo pessoas que não podiam ter saído, não que não podiam mais não tinham porque sair. Foi através da música que o adolescente encontrou uma meta para o futuro, se descobrir para algo que até então estava distante, que não fazia parte de sua vida. Ele diz que ano que vem pretende fazer faculdade de música.“Eu pretendo seguir a carreira de musico”. Verbaliza que muito do que ele é hoje ele aprendeu dentro do projeto, por isso pretende futuramente dar aula para os novos alunos do Balakubatuki. Atualmente é um dos monitores do projeto, e está se preparando para futuramente vir a dar aulas. 98 Com certeza o que sou hoje tem haver com a música, saber conversar, saber como se comportar como lhe dar com as pessoas. É como o Daniel diz, ele diz que a gente já ta preparado para dar aula, para dar aula saber tocar e tudo mais não para chegar na hora, saber falar com as outras pessoas, como ele diz vai que tem uma sala esperando a gente e a gente não vai, eles vão se decepcionar tudo. Ele diz que a gente ainda não tem muita responsabilidade. Ele acredita que dar aula não é algo fácil, pois exige completa dedicação. Saber tocar é muito diferente que ensinar por isso aguarda o momento certo. “É que a gente não vai estar lhe dando com pessoas daqui são outras vidas outras pessoas que vão estar dependendo da gente. Ele disse que a gente ta quase lá, mais sempre falta alguma coisa. Mais a gente ta indo já fez apresentações, ajuda ele sempre que ele pede”. As apresentações são algo que ele lembra com carinho, principalmente da primeira apresentação que aconteceu na Casa da Liberdade mesmo, em uma reunião para os pais. O nervosismo em estar se apresentando pela primeira vez dificultou um pouco. “Tava todo mundo nervoso não queria errar mais acabamos errando”. São vários os momentos felizes vividos por ele nesses quase sete anos de projeto. “C” garante que aprendeu muito dentro do Balakubatuki. Aqui aprendi a interagir com as pessoas. Eu nunca analisava os dois lados de uma coisa de um problema por exemplo, tinha uma questão lá essa pessoa é isso é aquilo há espera aí põe do lado dela também, agora eu to pensando dos dois lados. Eu trato todo mundo igual quem tem menos do que eu quem tem mais esses playboizinho. Esta mudança pode ser vista através de sua fala, é nítido o carinho e o respeito que ele tem pelo projeto. Ao que parece é um jovem muito consciente, que respeita as pessoas. Não é porque a pessoa anda com tal roupa que eu não vou andar com ela ou fala de um jeito que eu vou ficar falando dela. Nada a ver isso, isso é preconceito, eu não tenho preconceito não sou racista. A minha segunda mãe é negra. O que vale é a pessoa e não a cor. “C” sempre demonstrou ser uma pessoa que sabia muito bem o que queria para si. Ele possui sonhos e metas que pretende alcançar, mas não pretende fazer mal a outras pessoas para conseguir o que quer. Foi o que falou em seu relato. 99 Esses dias estava falando com a minha mãe que eu não iria passar por cima de ninguém para conseguir as coisas. Ela disse que não era bem assim que o local que a gente vive tem que passar por cima para conseguir alguma coisa, ou ser alguém na vida. Então acho que não vou ser ninguém porque isso não vai acontecer comigo, não vou prejudicar outra pessoa só para ser alguém. Eu acho que no projeto tive uma revolução eu queria ter essa mentalidade que eu tenho agora antes. Diz que existem coisas das quais fez que se arrepende, mas não voltaria atrás, “não voltaria atrás porque se a gente se arrependeu valeu para futuramente não fazer mais aprende com os erros”. Além do projeto Balakubatuki, “C” também participa de outro projeto de música que é a Orquestra Sinfônica de Florianópolis, “eu também fui atrás não lembro quem me falou daí fui no Celso Ramos falei com o coordenador e fiz a minha matricula”. Mais uma vez fica clara a dedicação que ele possui pela música, e a determinação de ir em busca daquilo que quer. Sobre os professores do projeto ele fala que gosta muito de todos, tem um bom relacionamento com todos, inclusive diz que convidou um dos professores para ser seu padrinho. Por não ser batizado, “C” relata que estava se sentindo mal com isso, e aqui vê-se mais uma história de determinação, onde ele foi até a igreja e decidiu que se batizaria. É que eu não era batizado daí diziam que eu era filho do capeta, diziam isso aquilo daí fiquei assim porque eu não tinha uma religião eu já fui no candomblé, já fui na evangélica na católica. Só que daí diziam que eu tinha que escolher uma porque eu era pagão. Daí eu fui lá na católica. Eu mesmo se dependesse da minha mãe eu não era batizado ate hoje. Porque eu acho que eu não tive culpa de não se batizado. Após decidir que iria se batizar pôs-se a escolher os padrinhos. A tia, que era mãe e referência feminina para ele foi a escolhida para ser sua madrinha. Para padrinho, pensou em alguém que fosse marcante para ele, e convidou um de seus professores do Balakubatuki. 100 Daí eu só tinha madrinha e fiquei pensando em que poderia ser, tinha que ser alguém que eu conhecia a tempo e uma pessoal marcante para mim, daí acabou chegando nele. Convidei o Daniel ele topou na boa. Ele foi lá me batizou, no dia foi ele a mãe dele a minha mãe e a minha madrinha eu me batizei mais não sei se eu me considero católico agora sim né. O Daniel para mim é um amigo um pai um irmão um professor um tio. Eu não tive convívio com pai uso o Daniel para suprir isso. Aqui, se percebe o grau de amizade, compreensão, carinho e respeito dos alunos com os professores. Em toda sua trajetória de vida até aqui, não existe uma figura masculina tão marcante como o professor e coordenador do projeto. A entrevista foi dividida em dois dias para não se tornar cansativa. No segundo dia o entrevistado voltou ao local marcado com várias fotos suas de apresentações feitas no projeto. Mostradas as fotos, procedeu-se uma conversa sobre as mesmas, tudo num clima bem tranqüilo. Neste dia ele remete novamente a questão de morar no Morro, dizendo que sofre muito preconceito por morar lá. Ele descreve que várias vezes já sofreu descriminação por morar em Moro. “O que tem ser do Morro eu sou do Morro e ai. Não é bem assim morar no Morro tem gente que mora no Morro mais é bem de vida não é só porque mora no Morro que é pobre. É mais fazer o que não posso mudar a cabeça dos outros”. E continua: Muitas vezes eles já falaram em entrevistas de jornal até o Daniel, as crianças de ruas estão aprendendo cidadania na Casa da Liberdade, pô isso é foda para gente outra coisa é também, projeto ajuda crianças carentes de tal e tal lugar, ta certo que aqui ninguém é rico milionário, mais tem onde morar tem casa tem comida tem dinheiro também. A gente já falou para o Daniel ele ate ficou meio assim agora ele nem fala tanto assim. Ele mostra uma certa revolta pela discriminação que sente por morar no Morro, completa que na escola não há discriminação, pois, a maioria dos alunos mora perto de sua casa. Mas é nas apresentações onde ele mais percebe preconceito. Nas apresentações com a banda tem gente que pensa há as criancinhas do Morro olham lá onde eles estão agora tocando com a banda Iriê, olha o que a banda fez com eles. Não é bem isso tem nada haver. Às vezes a gente fica assim com o Daniel ele quer que a gente vá de branco com a camiseta do 101 projeto porque ele acha que fica legal, eu também acho que fica legal mais sei lá eles ficam achando que a gente é os coitadinhos. Tem gente que fica falando, o eles lá tocando na banda Iriê, grande coisa tocar na banda Iriê eu nem toco só faço participação. Ele demonstra toda sua indignação contra a sociedade que critica e fala sem saber, e diz: A sociedade sempre quer prejudicar as pessoas é a mesma coisa do circo a gente sempre torce para que alguém caia, mais ou menos é assim quando a gente ta lá no circo e eles estão fazendo as coisas, à gente fica ele vai cair ele vai cair, não adianta tem sempre gente desejando o mal das pessoas, não só desejando mas vendo o lado mal das pessoas. Para ele a sociedade sempre será assim, sempre existirão pessoas criticando e falando mal dos outros. Morar no Morro é algo visto pela sociedade como uma espécie de identidade, uma marca que eles possuem. Ele acrescenta que infelizmente não vai mudar o jeito que as pessoas pensam, mas sem duvida é algo que o incomoda muito. Mas também tem uma coisa tem gente que pensa que a gente ta se fazendo que a gente falando isso o que a sociedade pensa a gente vai estar mudando o mundo. O que eu to querendo dizer é que não adianta ficar falando isso, não vai mudar o pessoal pensa assim mesmo. Porque que as pessoas se preocupam com os outros eles devem se preocupar com eles mesmos. Por toda sua revolta, “C” comenta que no projeto aprendeu coisas novas que mudaram seus valores, mudando também sua forma de pensar. Descobriu na música uma forma de ver a vida diferente, um aprendizado novo. Eu mudei no todo, na forma de ver a vida, de pensar, ter perspectiva de vida, eu vou em busca do que eu quero e antigamente não era assim. Eu também não tinha essa mentalidade, eu acho que a gente aprende mais com os erros do que escutando. Eu vi muita gente mudando que era de um jeito e ficou outro. 102 9 CONCLUSÃO Após as entrevistas, questionários realizados, e análise do conteúdo dos mesmos, verificou-se que a música exerce influência sobre a construção da identidade dos adolescentes participantes do projeto Balakubatuki. A música é uma forma de expressão encontrada em todos os grupos humanos. Portanto, é natural do ser humano e está presente em todos os aspectos de sua vida. Cantando, ouvindo ou batucando, é possível sentir no próprio corpo a diferença que a música faz num ambiente de trabalho, num passeio com os amigos ou mesmo sozinho em casa. A música é diversão, entretenimento, comunicação e produto natural do homem. Através da pesquisa pode-se perceber a grande aceitação da música pelos adolescentes. É neste ambiente que eles se conhecem, se respeitam e passam a construir seus projetos de vida. Sabe-se que os grupos sociais constituem modelos de referências para os indivíduos que agem no seu interior. É a participação no grupo que vai definindo o convívio com determinadas normas, que vai estruturando e conferindo significado às experiências pessoais mediante sua aprovação, seu controle, sua crítica. Desta forma, as hipóteses utilizadas na pesquisa, quais sejam: a música influencia de forma positiva na construção da identidade dos adolescentes que freqüentam o projeto Balakubatuki e, a música aparece como um elemento de transformação para os adolescentes, foram corroboradas. Através da música, do aprender a tocar um instrumento, os adolescentes se transformam. É no grupo dos iguais que eles aprendem e elevam a auto-estima, por meio de algo prazeroso e novo. Assim a música é um elemento de mudança, e esta mudança é percebida não só pelos professores, mas, também pelos próprios adolescentes. Estes diversas vezes relataram suas mudanças nestes seis anos de projeto, a aceitação pelo projeto, o fazer parte do Balakubatuki que se torna uma referência para eles, sendo neste espaço que os mesmos 103 conhecem um novo mundo e se sentem valorizados. Prova disso foi o fato de querer participar da pesquisa, dar sua contribuição para o trabalho e falar bem do projeto. Os professores possuem grande parcela de contribuição, o que faz do Balakubatuki um projeto apaixonante e com grande aceitação por parte de seus alunos. Estes professores são amigos, carinhosos com seus alunos e mostram que ensinar também é uma relação de trocas. É uma relação positiva que se estabelece entre professores e alunos, pois ministrar aulas no projeto é visto não simplesmente como um trabalho e sim como algo gratificante, como o fato de poder contribuir com o futuro de grande parte das crianças e adolescentes, e despertar nestes um senso de pertencer ao mundo. O adolescente não é ainda um cidadão pleno, mas também não é apenas um habitante. Ele olha as pessoas ao seu redor e se compromete com elas, particularmente com aquelas com as quais estabeleceu uma relação afetiva. Este compromisso é uma escolha, uma decisão de acompanhar e estar atento às mudanças, compartilhando o que sentem, apoiando em suas realizações, associando-se a elas em metas e objetivos comuns, respeitando e tolerando as diferenças. Os adolescentes relatam que houve mudanças em suas vidas depois do projeto Balakubatuki. Esta hipótese levantada pela pesquisa foi corroborada à medida que os adolescentes falaram em entrevistas realizadas ou escreveram nos questionários aplicados suas mudanças. Tal mudança é percebida como satisfatória, trazendo aceitação pelo grupo. Apresentar-se é algo fascinante para estes adolescentes. Sabe-se que a discriminação é algo que infelizmente ainda existe em nossa sociedade. Muitos dos adolescentes do projeto sentem a discriminação de serem moradores de Morros, relatando que morar no Morro vira uma marca. O impacto que a intolerância, os preconceitos e discriminações negativas a determinados grupos ou situações produzem sobre o individuo é algo lamentável ainda presente nos dias atuais. 104 Não podemos encarar como simples coincidência a maioria das crianças e adolescentes do projeto Balakubatuki serem negras, viverem em situações de carência, carência esta não só financeira mas afetiva. Tal fato revela, na verdade, que há outras questões a serem discutidas, refletidas e mudadas. No decorrer do desenvolvimento da pesquisa as questões raciais estiveram presentes, não sendo este, porém, não era o foco da mesma. Fica aqui a sugestão de continuidade desde trabalho aprofundando-se este assunto. A realização desta pesquisa resultou num aprendizado novo. O convívio com essas pessoas proporcionou uma experiência diferente e marcante, onde se pode perceber a importância da troca de valores na vida dessas pessoas, e da importância da busca pela cidadania e respeito. 105 REFERÊNCIAS ABARASTURY, Arminda. Adolescência. Porto Alegre: artes médicas, 1990. ALBUQUERQUE, Carlos. O eterno verão do reggae. São Paulo: Brochura, 1997. ANDOLFI, M. et al. Por Trás da Máscara Familiar. Porto Alegre: artes Médicas, 1989. BARRAUD, Henry. Para compreender as músicas de hoje. São Paulo: Perspectiva, 1991. BECKER, Daniel. O que é adolescência. São Paulo: brasiliense, 1997. BECKER, Rosane Nunes. 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( ) Reggae ( ) Hip Hop ( ) Forró ( ) Rock ( ) Rap ( ) Outros / Quais? _______________________________ - Com uma só palavra diga o que a música significa para você? ___________________________________________________________ Complete: Música é ___________________________________________ - Como conheceu o projeto? ___________________________________________________________ - Você acha este projeto importante? ( ) Sim ( ) Não ( ) Um pouco - Você fez amigos no projeto? ( ) Sim ( ) Não 111 - Quantas vezes você vem ao projeto? ( ) 1 vez ( ) 2 vezes ( ) 3 vezes - Você gosta do projeto? ( ) Sim ( ) Não ( ) Um pouco Complete: Para mim o projeto Balakubatuki é: ________________________________ - Como você era antes de conhecer o projeto? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ - Você mudou? ( ) Sim ( ) Não ( ) Um pouco - Como foram estas mudanças? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ - Você acha que a música tem algo a ver com a mudança? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ - Como você é agora? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 112 Roteiro da Entrevista - Adolescentes Idade: Estado Civil: Escolaridade: Tempo de Projeto: Freqüenta alguma escola: Tem filhos: Nasceu onde? Mora com quem? Como é morar lá? Você gosta? Tem amigos lá? Como era a infância? Do que brincava? Tinha muitos amigos nesta época? Você gosta de ir para escola? Como é a escola que você estuda? Tem amigos lá? Você freqüenta outro projeto além deste? Se freqüenta como é lá? Você gosta de música? Gostava de música antes de entrar para o projeto? Que tipo de música você gosta? 113 O que significa a música hoje para você? Como conheceu o projeto? Como foi a primeira aula? Você gostou? Você fez amigos novos? Como são essas amizades? Já conhecia antes? O que pensa que as pessoas de fora acham do projeto? O que é Balakubatuki para você? Como você era antes de entrar para o Balakubatuki? Você acha que mudou? Como Você é agora? Você acha que a música tem haver com esta mudança? Como você se vê no futuro? 114 Roteiro de Entrevista - Professores Como são as suas aulas? Porque escolheu trabalhar no Balakubatuki? É remunerado? Quando tempo dá aula no projeto? O que você acha das crianças e dos adolescentes do projeto? O que é adolescente para você? Tinha ou tem muitas crianças com problemas? Quais as mudanças que você percebe nas crianças? Algum caso em especial? Como você acha que vai ser o futuro dessas crianças? Alguma história engraçada das aulas? 115 UNESC – UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido O projeto Balakubatuki está sendo convidado para participar de uma pesquisa que tem como tema, a influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki na cidade de Florianópolis. A instituição foi selecionada por realizar trabalhos referentes à música com adolescentes. A qualquer momento a instituição poderá desistir de participar e retirar seu consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com o pesquisador. Os objetivos deste estudo são: • Compreender o significado da música para os adolescentes. • Investigar qual o discurso dos adolescentes sobre o projeto Balakubatuki. ● Verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto. Sua participação nesta pesquisa consistirá em conceder autorização para que a pesquisadora possa aplicar questionários e fazer algumas entrevistas com os adolescentes com a faixa etária de 12 a 20 anos. Os benefícios relacionados com a sua participação são o de contribuir para uma melhor compreensão da influência da música para os adolescentes. As informações obtidas através dessa pesquisa serão confidencias e asseguramos o sigilo sobre sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar sua identificação. A instituição receberá uma cópia deste termo onde consta o e-mail da pesquisadora, podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer momento. _________________________________________________________________ Luana Costa Colle Pesquisadora E-mail: [email protected] Declaro que entendi os objetivos e benefícios de minha participação na pesquisa e concordo em participar. Sujeito da Pesquisa 116 UNESC – UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Você está sendo convidado para participar da pesquisa que tem como tema, a influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki na cidade de Florianópolis. Você foi selecionado por estar a mais de um ano no projeto, portanto sua participação não é obrigatória. A qualquer momento você pode desistir de participar e retirar seu consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com o pesquisador ou com a instituição. Os objetivos deste estudo são: • Compreender o significado da música para os adolescentes. • Investigar qual o discurso dos adolescentes sobre o projeto Balakubatuki. ● Verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto. Sua participação nesta pesquisa consistirá em conceder uma entrevista para a pesquisadora. Os benefícios relacionados com a sua participação são o de contribuir para uma melhor compreensão da influência da música para os adolescentes. As informações obtidas através dessa pesquisa serão confidencias e asseguramos o sigilo sobre sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar sua identificação. Você receberá uma cópia deste termo onde consta o e-mail do pesquisador, podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer momento. _________________________________________________________________ Luana Costa Colle Pesquisadora E-mail: [email protected] Declaro que entendi os objetivos e benefícios de minha participação na pesquisa e concordo em participar. Sujeito da Pesquisa 117 UNESC – UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido O projeto Balakubatuki está sendo convidado para participar de uma pesquisa que tem como tema, a influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki na cidade de Florianópolis. A instituição foi selecionada por realizar trabalhos referentes à música com adolescentes. A qualquer momento a instituição poderá desistir de participar e retirar seu consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com o pesquisador. Os objetivos deste estudo são: • Compreender o significado da música para os adolescentes. • Investigar qual o discurso dos adolescentes sobre o projeto Balakubatuki. ● Verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto Sua participação nesta pesquisa consistirá em conceder autorização para que a pesquisadora possa aplicar questionários e fazer algumas entrevistas com os adolescentes com a faixa etária de 12 a 21 anos. Os benefícios relacionados com a sua participação são o de contribuir para uma melhor compreensão da influência da música para os adolescentes. As informações obtidas através dessa pesquisa serão confidencias e asseguramos o sigilo sobre sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar sua identificação. A instituição receberá uma cópia deste termo onde consta o e-mail da pesquisadora, podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer momento. _________________________________________________________________ Luana Costa Colle Pesquisadora E-mail: [email protected] Declaro que entendi os objetivos e benefícios de minha participação na pesquisa e concordo em participar. Sujeito da Pesquisa 118 ANEXO 119 Oficina de Percussão: 120 Oficina de Teclas: 121 Oficina de Violão: 122 Iriê e Balakubatuki no camarim do planeta: Apresentação do Balakubatuki: 123 Gravação do Cd Translatação: Morro Mocotó: 124 125 126 127 128