UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE, UNESC
CURSO DE PSICOLOGIA
LUANA COSTA COLLE
A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
DOS ADOLESCENTES DO PROJETO BALAKUBATUKI NA CIDADE
DE FLORIANÓPOLIS
CRICIÚMA, DEZEMBRO DE 2004
LUANA COSTA COLLE
A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
DOS ADOLESCENTES DO PROJETO BALAKUBATUKI NA CIDADE
DE FLORIANÓPOLIS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como
requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel
em Psicologia e Psicólogo da Universidade do
Extremo Sul Catarinense, UNESC.
Orientadora: Profª: Edelu Kawahala
CRICIÚMA, DEZEMBRO DE 2004
LUANA COSTA COLLE
A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
DOS ADOLESCENTES DO PROJETO BALAKUBATUKI NA CIDADE
DE FLORIANÓPOLIS
Trabalho de Conclusão de Curso aprovado pela
Banca Examinadora para obtenção do Grau de
bacharel em Psicologia e Psicólogo da Universidade
do Extremo Sul Catarinense, UNESC.
Criciúma, 08 de dezembro de 2004.
BANCA EXAMINADORA:
Edelu Kawahala – Mestra (UNESC) - Orientadora
Adilton José de Paula – Especialista (NEN)
Klondy Maria Allis Borges - Especialista (UNESC)
AGRADECIMENTOS
A meus pais por me prepararem para a vida com muito
amor e garra;
A minha orientadora Edelu Kawahala, pela compreensão,
orientação e apoio dados, neste período de convivência;
Aos meus colegas de faculdade em especial, as amigas
Liliane, Aline, Graziela e Juliana, pelas sugestões valiosas
no trabalho;
A minha amiga Anna Paula que me deu apoio durante
meu crescimento profissional;
Aos adolescentes do Projeto Balakubatuki pelo respeito,
carinho e confiança depositada no trabalho realizado;
Ao coordenador e idealizador do Balakubatuki, Daniel da
Luz, pela total dedicação dispensada na elaboração deste
trabalho.
O meu espírito é a minha fortaleza
E eu não vou dar moleza
A casa traz a criançada do morro
Caixa, Queimada, Mocotó
Eu vou bater lata, eu vou voltar pra casa
E ainda vou aprender a tocar percussão
A luta pra vida, a vida na baixada
Tem que ficar de olho e não cair na roubada
Aparecida, Vinte Cinco, Chico Mendes
Retrato fiel do Brasil evidente
Forte como os ventos de Iansã
E clara como as águas de Iemanjá
Me movem, me trazem pra perto do som
Da lata, da quebrada num RA TATATÁ
Mas...
Não é o som da violência
Sim é o som universal
Que vem da terra do lugar aonde eu moro
Que trás na mente a mudança que eu quero
Fortaleza é o meu conhecimento
A energia Iriê me mantendo em movimento
Daniel da Luz
RESUMO
A presente pesquisa teve como objetivo verificar a influência da música na construção da
identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki na cidade de Florianópolis. Para a
realização da mesma entrevistou-se alunos e professores do projeto, e aplicou-se questionários
com os adolescentes. A parti de um roteiro foram realizadas entrevistas abertas e semidirigidas, aplicação de questionários com questões abertas e fechadas. A forma de análise
realizada foi através da análise de conteúdo, onde se buscou-se compreender o significado da
música para os adolescentes, e a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois
do projeto Balakubatuki. Após análises das entrevistas, conclui-se que a música influencia na
construção da identidade dos adolescentes, na medida em que estes passam a se sentir
valorizados, respeitados e aceitos. Passando assim a desenvolver uma consciência critica do
seu papel de cidadão no mundo.
Palavras chave: Música, Identidade, Adolescente, Balakubatuki.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 07
2 A HISTÓRIA DA MÚSICA ........................................................................... 09
2.1 Os elementos da música ..................................................................................11
3 INSTRUMENTOS DE PERCUSSÃO ........................................................... 15
4 ADOLESCÊNCIA ........................................................................................... 21
4.1 A história da criança no Brasil ................................................................... 24
5 IDENTIDADE ................................................................................................. 28
5.1 A adolescência e a construção da identidade ................................................. 32
6 PROJETO BALAKUBATUKI ...................................................................... 36
7 METODOLOGIA............................................................................................ 42
8 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ............................................46
8.1 Apresentação e análise dos questionários ...................................................... 44
8.2.1 Análise das entrevistas com os adolescentes ...............................................64
8.2.2 Análise das entrevistas com os adolescentes............................................... 80
8.2.3 Análise das entrevistas com os professores ................................................. 91
CONCLUSÃO ................................................................................................... 101
REFERÊNCIAS ............................................................................................... 104
REFERÊNCIA COMPLEMENTAR .............................................................. 108
APÊNDICE......................................................................................................... 109
ANEXO .............................................................................................................. 118
8
1 INTRODUÇÃO
A adolescência é um período de mudança e transição, que afeta os aspectos físicos,
sexuais, cognitivos e emocionais. É a fase da reorganização emocional, de turbulência e
instabilidade, caracterizada pelo processo biopsíquico a que os adolescentes estão destinados.
Movida pelo interesse em estudar e aprofundar meus conhecimentos sobre esta
fase de transição de criança para adulto, surgiu através de uma visita ao projeto Balakubatuki
a idéia de pesquisar a influência da música na construção da identidade dos adolescentes deste
projeto.
A música é parte integrante da vida do homem e veículo universal de suas
emoções. É a capacidade que consiste em saber expressar sentimentos através de sons
artisticamente combinados, ou a ciência que pertence aos domínios da acústica, modificandose esteticamente de cultura para cultura. Estudada por filósofos, médicos e musicistas, é o
veículo de comunicação entre o concertista e a platéia. Seja qual for o propósito da música,
ela está sempre relacionada à experiência do próprio homem, falando de suas emoções e
agindo dentro de seus limites sensoriais.
A pesquisa tem como principal objetivo identificar a influência da música na
construção da identidade dos adolescentes. Os seus objetivos específicos compreendem,
conhecer o significado da música para os adolescentes, investigar qual o discurso dos mesmos
sobre o projeto Balakubatuki e verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes
e depois do projeto Balakubatuki.
Para tal, procurou-se compreender a história da música, a origem dos instrumentos
de percussão, e as mudanças e transformações ocorridas na adolescência. Em seguida, fez-se
um entendimento sobre identidade e como esta se constrói na adolescência.
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No referencial teórico abordou-se ainda a história do projeto Balakubatuki e sua
principal trajetória até os dias atuais.
Foram utilizados alguns autores para o referencial teórico, destacando-se Wisnik,
Barraud e Matriz, utilizados para compreensão da história da música. Segundo estes autores a
música é parte da vida humana, estando presente em todas as classes e grupos sociais. Para
compreensão dos instrumentos de percussão utilizou-se Gonçalves e Frungillo. Tais autores
nos falam que os instrumentos de percussão são os instrumentos mais antigos da humanidade
e acompanham toda a trajetória do homem.
Para falar de adolescência utilizou-se basicamente a obra de Osório, relacionando
as mudanças decorrentes deste processo de transição criança-adulto. O entendimento de
identidade buscou-se compreender através de Ciampa, autor para o qual a identidade acontece
no social através das relações que estabelecemos com o meio onde estamos inseridos.
A seguir, faz-se a análise e interpretação dos dados coletados no universo da
pesquisa junto aos adolescentes e professores. Por fim, a conclusão de todo o trabalho.
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2 A HISTÓRIA DA MÚSICA
A palavra música é de origem grega e significa "a força das musas". De acordo
com Buckinx (1998), as musas eram as ninfas, que ensinavam aos seres humanos as verdades
dos deuses, semideuses e heróis, através da poesia, da dança, do canto lírico, do canto coral e
do teatro. Todas estas manifestações eram acompanhadas por sons. Então música, numa
definição mais precisa, seria a arte de ensinar.
Como as primeiras manifestações musicais não deixaram vestígios, é praticamente
impossível responder como surgiu a música. Alguns estudiosos nem tentam explicar seu
surgimento, outros enfrentam o problema com base naquilo que se sabe sobre a vida humana
na Pré-história e preenchem as lacunas com certa dose de imaginação. Mas nenhuma hipótese
diz com exatidão o momento em que os primitivos começaram a fazer um sentido religioso.
Considerava-a um presente dos deuses e atribuía-lhe função mágica, associada à
dança, ela assumia um caráter de ritual, pelo qual as tribos reverenciavam o desconhecido,
agradecendo-lhe a abundância da caça, a fertilidade da terra e dos homens. Com o ritmo
criado batendo as mãos e os pés, eles buscavam também celebrar fatos da sua realidade,
vitórias na guerra, descobertas surpreendentes. Mais tarde, em vez de usar só as mãos e os
pés, passaram a ritmar suas danças com pancadas na madeira, primeiro simples e depois
trabalhadas para soarem de arte com os sons.
Ao que parece, os homens e as mulheres das cavernas davam à sua música formas
diferentes. Surgia, assim, o instrumento de percussão.
Até o século XV ou XVI, segundo Wisnik (1989), a atividade musical era
utilizada em rituais religiosos, e como forma de comunicação através dos trovadores, que
levavam notícias à população. A noção de arte da música, voltada exclusivamente para a
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criação abstrata de obras que explorassem os parâmetros musicais, só surgiu no Renascimento
europeu e em países como a França, Itália, Inglaterra e Alemanha.
Já no século XX, conforme descreve Wisnik (1989), a música passa a ter mais
força, com a inclusão da música medieval, do canto gregoriano, das danças e do repertório
dos menestréis, uma espécie de cantor e poeta da época, dos coralistas renascentistas e da
ópera, a música começa a ganhar mais destaque. Sabe-se que a história da música que
estudamos é a História da Música da Europa Ocidental. Segundo Barraud (1991)
Esta música não é a única, não é a mais importante e não é melhor do que a
de outros povos e civilizações. É aquela na qual estamos inseridos
culturalmente e que aprendemos e trabalhamos todo o seu arcabouço teórico,
tocamos os instrumentos inventados ou desenvolvidos por ela e elegemos os
compositores daquele continente como nossos modelos. Além disto nós
delimitamos seu estudo a partir da Idade Média, mais precisamente aquelas
músicas registradas depois do século VII (BARRAUD, 1991: 25).
Conforme o autor citado as músicas dos períodos Primitivos (civilizações
egípcias, mesopotâmicas, gregas, romanas e de outros povos) e do início da Idade Média estão
perdidas, apesar do trabalho arqueomusicológico. O que resta são pinturas ou esculturas de
músicos, referências literárias ou religiosas, instrumentos, algumas teorias musicais e supostas
"partituras", tudo muito fragmentado, disperso e precário. Mas de acordo com o autor, o que
influenciou a música européia foram às teorias gregas modificadas pelos interesses dos
teóricos medievais, e a contínua utilização de diversos instrumentos daquelas civilizações
antigas. “A prática musical dos judeus influenciou os cânticos dos cristãos. As atividades
musicais dos povos germânicos e dos árabes influenciaram toda a música profana medieval
com seus instrumentos, formas, ritmos e estruturações harmônicas”. (BARRAUD, 1991, p.
29).
As músicas chinesas, indianas e de outros povos asiáticos, possuem segundo
Barraud (1991), uma estrutura diferente e uma história independente, que pouco se relacionou
com a da Europa, a não ser em épocas mais próximas. As músicas dos africanos, dos
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ameríndios e dos oceânicos só agora estão merecendo pesquisas científicas etnomusicológicas
mais profundas. Conforme o autor descreve as divisões históricas em períodos estilísticos são
recentes e estão sujeitas ainda a revisões. No caso da música, muitos períodos não têm
sincronismo com os das outras artes e nem se referem a algum detalhe específico musical.
Para Matriz (1981), a “música é a arte da inteligência humana, trabalha com sons
e tem por objetivo a universalidade, a abstração e a exploração técnica”. (MATRIZ, 1981, p.
26). Conforme o autor a música faz parte de nossa vida de uma maneira mais ou menos
intensa, consciente ou não, mas existe para todos.
No decorrer da vida humana, segundo Matriz (1981), compreendida pela história,
a música existiu e existe em toda parte. É uma atividade essencialmente humana, através da
qual a humanidade constrói significações na sua relação com o mundo, ela está presente em
todos os tempos e em todos os grupos sociais, assim podemos dizer que a música é um
fenômeno universal.
2.1 Os elementos da música
Desde que apareceu na face da terra, o ser humano, graças às suas aptidões
auditivas e vocais, revelou-se dotado de capacidade musical instintiva. Segundo Becker
(1989), os seres humanos pouco a pouco, foram aprendendo a distinguir os sons mais
agradáveis e a imprimir à própria voz uma cadência regular, o ritmo, organizando uma
seqüência de sons precisos e suaves, que acabaram formando uma melodia. Depois,
percebendo que a voz não era o bastante, começou a acompanhar seu canto com a dança e
com os primeiros instrumentos musicais. Assim conforme o autor o canto, a dança e a música
passaram a fazer parte de sua vida.
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A palavra música é de origem grega, "musiké", e designava não só a melodia
executada através de instrumentos, mas também o canto e a dança. As três artes
apresentavam-se indissoluvelmente ligadas, nos tempos antigos, tendo sido apreciadas por
ricos e pobres, indistintamente, em todas as civilizações.
Conforme Matriz (1981), pode afirmar que música é a arte da inteligência humana
trabalha com sons e tem por objetivo a universalidade, a abstração e a exploração técnica.
A matéria-prima da música é o som, que é uma forma de energia que se propaga
pelo ar, pela água e por outros meios, perturbando-os de alguma maneira, e é captada pelos
ouvidos. A ciência que estuda o som é a Acústica. O som, em Música, é definido por seis
parâmetros que se relacionam entre si:
Altura:
É a nota ou o tom. Com ela definimos se o som é grave ou agudo. Segundo Brito
(2003), da relação entre os sons formamos a Melodia, Harmonia e Textura. A Altura
conforme o autor só foi fixada teoricamente a partir do século IX d.C.
Duração:
É a duração de emissão do som. Definimos com a duração se o som é curto ou
longo. A relação entre as durações forma os ritmos. De acordo com Brito (2003), muitos
destes ritmos foram extraídos da natureza ou do corpo humano ou são criações abstratas. A
duração só foi fixada a partir do século XIII d.C.
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Dinâmica/Intensidade:
De acordo com Brito (2003), entende-se por dinâmica ou intensidade a força ou a
suavidade imprimida ao tocar um som. A dinâmica só começou a ser trabalhada segundo o
autor citado a partir do século XVIII.
Timbre:
São as vozes, os instrumentos ou aqueles aparelhos que os compositores elegem
para intermediar suas idéias musicais. Segundo Becker (1989), mesmo existindo por milhares
de anos, os instrumentos musicais passaram a ser explorados em todos os seus recursos
sistematicamente a partir do século XIX.
Articulação:
São os modos de produzir o som. Para Becker (1989), entende-se por articulação
os tipos de toques, golpes e efeitos aplicados pelo executante na voz ou instrumento,
modificando a sua qualidade. Apesar de sempre existir por milhares de anos, só no século
XVII é que foi tratada teoricamente.
Andamento:
É a velocidade de execução de um som. Conforme Becker (1989), até o século
XVII era intuitivo, mas depois passou a ser estudado com objetividade.
Segundo Trein (1986), dependendo do contexto histórico (cultura, política,
ciência, religião, artes) do compositor, a relação dele com estes elementos musicais é que
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produzem as formas, os gêneros e os estilos. Becker (1989) afirma que o ritmo tem
fundamental importância no desenvolvimento da criança, pois está presente em tudo, está no
corpo como a respiração, está na natureza como as estações, está no movimento como a Terra.
Assim, o ritmo é percebido pela criança ou o adolescente fazendo com que estes
imitem o ritmo da música mantendo a atenção e a concentração.
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3 INSTRUMENTOS DE PERCUSSÃO
Os instrumentos de percussão são os mais antigos da humanidade e sua evolução
acompanha a trajetória dos diversos povos, culturas e manifestações musicais do planeta. De
acordo com Frungillo (2002), os instrumentos de percussão, são os instrumentos musicais
cujos sons, ou mesmo ruídos, são produzidos pela batida, sacudimento ou fricção de objetos,
os instrumentos musicais de Percussão soam, ao ser agitados ou percutidos.
A história e a origem dos instrumentos de percussão confundem-se com a própria
história da humanidade.
Ao nos reportarmos à história do homem na Terra fica claro que a percussão,
como um som específico, praticamente nasceu com a raça humana. São de
origens muito antigas, remanescentes de remotos instrumentos utilizados em
rituais religiosos, ou usados em rudimentares meios de comunicação, e até
como estimulantes para as tropas nos campos de batalha. (GONÇALVES,
1999; 51).
As necessidades de comunicação conforme Gonçalves (1999), impulsionaram o
homem a produzir sons, seja para a imitar os sons da natureza (trovão, chuva), as batidas do
coração, seja para reverenciar o desconhecido, através de rituais, dando à música um sentido
religioso e ritualístico, associado também à dança. Batendo as mãos e os pés, eles buscavam
também celebrar fatos de sua realidade, vitórias na guerra, descobertas surpreendentes. Mais
tarde, conforme o autor, em vez de usar só as mãos e os pés, passaram a ritmar suas danças
com pancadas na madeira, primeiro de maneira simples e depois trabalhadas, para soarem de
formas diferentes.
Surgia assim, o instrumento de percussão. Segundo Gonçalves (1999) estudos
arqueológicos comprovam a utilização de pedras, bastões e ossos de animais como prováveis
objetos utilizados pelo homem para produzir sons. Esses instrumentos são chamados de
idiofones e podem ser divididos de acordo com a sua forma de utilização: chocalhar, socar,
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raspar, bater. Frutos e sementes secas podiam ser chocalhados. Troncos e tubos ocos podiam
ser golpeados com as mãos, bastões ou ossos. Os objetos com superfícies não lisas podiam ser
raspados, ou ainda podiam ser golpeados (madeira, pedra, osso).
De acordo com Frungillo (2002), a percussão sempre esteve presente em todas as
culturas e manifestações musicais do mundo inteiro. Nas diferentes tribos e povos indígenas,
africanos, árabes, indianos, chineses, pode-se encontrar uma incrível variedade de ritmos e
instrumentos musicais que foram também se transformando à medida que o mundo moderno
foi se desenvolvendo.
Mesmo na música erudita, de tradição ocidental européia, a percussão foi
ganhando seu espaço, principalmente no século XX, à medida que os compositores buscaram
inovações, seja através de novas possibilidades timbrísticas, ou pelo resgate folclórico cultural
de suas origens.
De forma geral, o século XX foi o século da redescoberta da percussão pelos
principais compositores internacionais. As principais inovações musicais
acabaram passando pela percussão, com sua riqueza timbrística ilimitada e
suas possibilidades rítmicas marcantes. Durante diferentes períodos deste
século, o renascimento do nacionalismo levou os compositores a procurarem
uma reaproximação com as raízes folclóricas de seus países. Novamente a
percussão foi fundamental nesta redescoberta, pois ela sempre esteve
presente na música étnica e folclórica de grande parte das culturas do
planeta. (GIANESELLA, 1999, p.19).
Em geral, o percussionista tem a sua formação musical ligada tradicionalmente ao
fazer musical em grupo, seja pela sua participação em grupos de tradição folclórica, étnica e
religiosa, seja pela sua participação em bandas, orquestras e grupos de percussão. Tanto na
formação erudita quanto na formação popular, conforme Gianessella (1999), o percussionista
torna-se um músico privilegiado no que diz respeito à prática em conjunto. Por isso, trabalhar
em grupo com instrumentos de percussão é uma atividade pedagógica que deve fazer parte da
formação musical de todo percussionista.
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Segundo Frungillo. A percussão é formada por um conjunto de instrumentos
vejamos os principais:
Agogô
Instrumento musical de percussão, de origem africana composta de um pequeno
arco, uma alça de metal com um cone metálico em cada uma das pontas, estes cones são de
tamanhos diferentes, portanto produzindo sons diferentes que também são produzidos com o
auxílio de um ferro que é batido nos cones. De acordo com o autor citado o termo agogô
pertence a língua nagô e vem do vocábulo agogô, que quer dizer sino.
Atabaque
De acordo com Frungillo (2002) este é um instrumento de origem árabe, que foi
introduzido na África por mercadores que entravam no continente através dos países do norte,
como o Egito e foi introduzido no Brasil, também pelos portugueses, apesar de o mesmo já
ser conhecido pelos africanos. É geralmente feito de madeira e presa umas às outras com
arcos de ferro de diferentes diâmetros que, de baixo para cima dão ao instrumento uma forma
cônico-cilíndrica é preso ao instrumento um pedaço de couro de boi bem curtido e muito bem
esticado.
Berimbau
O berimbau é um instrumento de percussão trazido da África. Muito usado nas
rodas de capoeira. Segundo Frungillo (2002), ele só entrou na história da capoeira no século
19
XX, antes o instrumento era usado pelos vendedores ambulantes para atrair os clientes. O
berimbau que se conhece e se toca em todo o mundo é um arco feito de madeira específica
tendo as pontas ligadas por meio de um fio de aço, numa das extremidades, amarra-se uma
cabaça e esta, quanto mais seca estiver, melhor. Como o tocador faz movimentos
aproximando-o e afastando-o da barriga, vem a designação de berimbau de barriga. Aqui no
Brasil ele é conhecido por: berimbau, urucungo, orucungo, uricungo, rucungo, e berimbau de
barriga.
Caxixi
O caxixi é um pequeno chocalho feito de palha trançada com base de cabaça,
cortada em forma circular e a parte superior reta, terminando com uma alça da mesma palha,
para se apoiar os dedos durante o toque. No interior do caxixi há sementes secas ou pequenos
seixos, que ao se sacudir dá o som característico.
Ganzá
Feito de gomo de bambu com sulcos transversais sobre o qual passeia uma haste
de metal. Também existe um outro tipo feito de uma pequena mola de arame enroscado,
colocado numa caixa de madeira ou metal e sobre a qual se passa sucessivamente de uma
ponta à outra uma haste metálica.
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Pandeiro
No Brasil, o pandeiro entrou por via portuguesa. Segundo o autor citado o
pandeiro era usado para acompanhar as procissões religiosas. Feito de couro de cabra e
madeira, de forma arredondada. É o som cadenciado do pandeiro que acompanha o som do
caxixi do berimbau, numa roda de capoeira. Ao tocador de pandeiro é permitido executar
floreios e viradas para enfeitar a música.
Reco-Reco
Instrumento de percussão composto de uma espécie de cano de metal, coberto por
duas ou três molas de aço, levemente esticadas e, que para produzirem o som são friccionadas
por um "palito" comprido de metal.
Tambor:
Conforme nos fala Frungillo (2002), os tambores estão entre os mais antigos
instrumentos, sendo conhecidos em praticamente todas as eras e culturas. Em sua maioria
produzem som, sendo percutidos com a mão ou com baquetas, podendo ter formatos variados.
Para Frungillo (2002), os instrumentos de Percussão dividem-se em duas
categorias:
Altura definida ou som determinado. São aqueles que produzem notas de altura
determinada, aceitam "afinação", e em determinados tipos reproduzem melodias.
Altura indefinida ou som indeterminado. São aqueles que produzem sons de altura
indefinida, prestando-se para a marcação rítmica ou para a geração de efeitos sonoros
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especiais. Há numerosos tipos destes instrumentos musicais, sendo muitos deles criados de
acordo com a concepção musical do artista ou através do apelo que o arranjo necessita.
Segundo Ginasselli (1999), a percussão tem o poder mágico de despertar na
criança ou no adolescente a disciplina, a responsabilidade e a consciência que eles precisam
para mudar de vida. Seja como músico ou como qualquer outro profissional.
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4 ADOLESCÊNCIA
Adolescência constitui-se como um fenômeno novo relativamente novo, portando
há pouco material produzido sobre adolescência, principalmente quando se tratado de Brasil.
A primeira idéia que nos surge quando pensamos em adolescência é
“transformação”. Alguns autores sublinham as transformações corporais, a chamada
puberdade, marcada pelo estirão (crescimento rápido), surgimento de pêlos pubianos,
mudança na voz dos meninos, aumento dos seios nas meninas, ebulições hormonais levando à
explosão da sexualidade, etc. Outros autores frisam as transformações comportamentais, tais
como uma suposta rebeldia, um certo isolamento, um apego exagerado ao grupo, adoção de
novas formas de se vestir, falar e se relacionar, além de episódios de depressão, tristeza ou
euforia.
Conforme Osorio (1992) não podemos compreender a adolescência estudando
separadamente os aspectos biológicos, psicológicos, sociais ou culturais. “Eles são
indissociáveis e é justamente o conjunto de suas características que conferem unidade ao
fenômeno da adolescência. (OSORIO, 1992: 10)”.
A organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a adolescência como o período
da vida compreendido entre os 12 anos e os 20 anos de idade. Porém determinar seu fim é
uma tarefa complexa de acordo com Osório (1992), há uma série de fatores de natureza sóciocultural envolvendo seu fim, segundo o autor o final da adolescência está relacionado com a
capacidade de se assumir compromissos profissionais, a possibilidade de estabelecer relações
afetivas estáveis, a aquisição de um sistema de valores pessoais e a relação de reciprocidade
com a geração precedente. Isto ocorreria conforme Osório (1992), por volta dos 25 anos na
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classe media brasileira, com variações para mais ou para menos devido as condições sócioeconômicas da família de origem do adolescente.
Na adolescência começa a se criar expectativas e curiosidades em relação a si
mesmo e ao outro. O adolescente começa a adquirir conhecimentos a respeito da vida e do ser
humano e começa a se interessar um pouco mais pelo mundo adulto. “Sabe que seu mundo
(infantil) está sujeito a sofrer transformações. Embora tenha a percepção dessa transição
criança-adulto, tal processo é ainda um tanto nebuloso e desconhecido para eles”. (COSTA,
1986, p. 49).
De acordo com o autor citado acima, o adolescente percebe que seu estado de
dependência está preste a terminar, para assim, assumir determinadas funções e
responsabilidades características do mundo adulto. O adolescente passa a observar mais a si
mesmo e aos companheiros.
A modificação corporal, essência da puberdade, é vivida pelo adolescente com
muita ansiedade, em muitas vezes, ele faz uma fuga do mundo externo, criando um mundo
interno só dele. O medo desta modificação, ou angústia da não aceitação pelo mundo externo,
pode muitas vezes, fazer o adolescente se achar incapaz, o que pode prejudicar seu
desenvolvimento físico e intelectual.
A adolescência se caracteriza segundo Outeiral (1994), pela passagem de uma
crise de identidade na qual o adolescente se questiona a respeito de assuntos ligados ao seu
corpo, aos valores existentes, as escolhas que deve fazer. O adolescente se afasta da
identidade infantil e vai construindo pouco a pouco uma nova definição de si mesmo. É um
período de reorganização pessoal e social que se inicia, na maioria das vezes, com
contestações, rebeldias, rupturas e inquietações. Trata-se da passagem do mundo infantil para
o mundo adulto.
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O adolescente vive, conforme Outeiral (1994), neste momento evolutivo, a perda
de seu corpo infantil, com uma mente ainda infantil e com um corpo que vai se fazendo
inexoravelmente adulto, que ele teme, desconhece e deseja e, provavelmente, que ele percebe
aos poucos diferente do que idealizava ter quando adulto. Assim, querendo ou não, o
adolescente é levado a habitar um novo corpo e experimentar uma nova mente.
Paralelamente as modificações físicas há avanços intelectuais, permitindo ao
individuo um aperfeiçoamento da capacidade de pensar de forma abstrata. Desenvolve-se o
raciocínio hipotético dedutivo e simbólico. Conforme Costa (1986), o adolescente se torna
capaz de incorporar ao raciocínio a consideração do possível, indo além da capacidade
objetiva. Faz hipóteses e deduz as conseqüências dessas hipóteses.
Do ponto de vista emocional, o desenvolvimento também adquiri grande
intensidade durante a adolescência. Bee (1997), fala que uma das mudanças que ocorrem, é na
auto-estima, uma redução leve é observada, vindo a elevar-se posteriormente. Refere-se ao
final da adolescência, em torno de 19 ou 20 anos, o indivíduo possui uma idéia bastante
positiva de sua autovalia global, bem maior do que quando tinha 08 ou 11 anos. A breve
queda na auto-estima, no início da adolescência, parece estar relacionada tanto à idade quanto
à mudança de nível escolar (com mais seriedade e nível de exigência maior), ao mesmo tempo
em que se dão as variações da puberdade.
A dor de abandonar seu mundo, entender tais modificações que são incontroláveis
dentro de si, leva o adolescente reformular o seu mundo exterior. Os adolescentes muitas
vezes criticam valores de seus pais e da sociedade. O pensamento e o comportamento muitas
vezes parecem egocêntricos onde conclui que os outros estão preocupados quanto eles
próprios com seu comportamento e aparência. O desenvolvimento cognitivo na adolescência
também tem um papel importante no desenvolvimento da personalidade e na formação de um
senso claro de identidade.
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4.1 A história da criança no Brasil
Como mencionado anteriormente, atualmente há poucos materiais produzidos
sobre adolescência. Muitos materiais existentes falam do adolescente de modo geral, como se
todos os adolescentes passassem pelas mesmas transformações, e vivessem nas mesmas
classes sociais, porém não podemos ver o jovem de classe média alta sendo igual ao jovem de
classe baixa. Pois este está inserido em outro meio cultural e social, o acesso à cultura e a
informação são outros. E com isso o seu desenvolvimento é outro.
Desta forma remeteremos a historia da infância no Brasil, para chegarmos mais
próximo a história do adolescente das classes mais baixas.
As crianças brasileiras estão em toda parte. Nas ruas, nas saídas das escolas, nas
praças, nas praias. Sabemos que seu destino é variado. Há aquelas que estudam, as que
trabalham, as que cheiram cola, as que brincam, as que roubam. Há aquelas que são amadas e
outras, simplesmente usadas.
A história sobre a criança, feita no Brasil, assim como no resto do mundo, vem
mostrando que existe uma enorme distância entre o mundo infantil descrito pelas
organizações internacionais, por ONGs ou autoridades e aquele no qual a criança encontra-se
cotidianamente imersa. O mundo do que a “criança deveria ser” ou “ter” é diferente daquele
onde ela vive ou, no mais das vezes, sobrevive.
Desde o início da colonização brasileira, as escolas jesuíticas eram poucas e,
sobretudo, para poucos. Se as crianças indígenas tiveram acesso a elas, o mesmo não podemos
dizer das crianças negras, embora saibamos que alguns escravos aprendiam a ler e escrever
com os padres.
26
No século XIX, a saída para os filhos dos pobres não seria a educação, mas a sua
transformação em cidadãos úteis e produtivos na lavoura, enquanto os filhos de uma pequena
elite eram ensinados por professores particulares.
No Brasil Colônia era comum o nascimento de crianças fora do seio familiar, fruto
das relações espúrias que os portugueses mantinham com mulheres indígenas e africanas,
como descreve Derexel (1989). A falta de reconhecimento dessas crianças pelos seus pais, no
entanto, não as levavam à marginalidade já que a organização rural vigente acabava por
absorver e até proteger essas crianças nas fazendas de engenho. No período colonial, a palavra
“menor” estava sempre associada à questão da idade, assinalando os limites etários que
impediam a emancipação paterna, assim como assumir responsabilidades civis ou religiosas.
Com a proclamação da independência, os juristas passaram a usar o termo menor
como um dos critérios que definiam a responsabilidade penal do indivíduo pelos seus atos.
Em fins do século XIX passou-se a olhar o menor com mais atenção. Eram
crianças e adolescentes pobres, que não estavam sob a proteção nem da família, nem de
tutores e por isso chamadas de abandonadas. Esses menores abandonados eram encontrados
nos mais variados locais, inclusive em cadeias, onde eram chamados de menores criminosos.
Segundo Drexel (1989), começou-se a perceber que o que caracterizava esses menores eram a
pobreza, a desproteção moral e material pelos pais, tutores, Estado e sociedade. A rua passou
a ser considerada o local da desagregação, onde nasciam e se multiplicavam os vícios e as
ações criminosas. Já não havia dúvida que o abandono de crianças e adolescentes estava
relacionado com o processo de modernização que o país estava vivendo.
No entanto, segundo Londono (1996), a responsabilidade desta situação passa a
ser vista aos pais de família que não exerciam sua autoridade, pois, muitas vezes, estavam
entregues ao vício e, também, às mulheres que acabavam tendo filhos sem pais. O menor
27
abandonado que, até então, era visto, apenas como um perigo ao futuro da sociedade, passa a
ser visto como vítima.
O menor abandonado que, até então, era visto apenas como um perigo ao
futuro da sociedade, passa a ser visto como vítima.São vítimas da falta de
educação intelectual e afetiva; da miséria dos pais, da ausência de carinhos
maternais. (LONDONNO, 1996: 28).
A existência de crianças e adolescentes em situação de rua demonstra a segundo o
autor citado acima a enorme incompetência da sociedade brasileira em promover o
desenvolvimento econômico, distribuição de renda, igualdade de oportunidades, políticas
públicas básicas e direitos humanos. A partir da promulgação do Estatuto da Criança e do
Adolescente, em 1990, surgiu, principalmente, entre as organizações não governamentais, a
preocupação em diagnosticar o número de crianças e adolescentes em situação de rua.
Verificou-se que os números eram bem menores do que se imaginavam. No entanto, mesmo
os números sendo menores, não minimizam os problemas enfrentados, pelo contrário,
aumentam a responsabilidade dos governantes, e de toda sociedade, em garantir a vida e a
cidadania dos brasileiros mais jovens. É de fundamental importância a participação do Estado
na vida do povo, para que esse tenha cidadania.
É preciso que a família, juntamente com a comunidade, tenha acesso à formulação
das políticas básicas. A pobreza e a miséria não tiram da família seus direitos e deveres. Ao
contrário, a família tem direito à proteção quando dela necessitar, tem direito a ajuda para
realizar sua função social. Cabe ao Estado criar e manter programas de auxílio e promoção,
como a superação do desemprego, da renda insuficiente, entre outros.
A realidade da situação das crianças e adolescentes brasileiros é dividida em dois
grupos de acordo com Priori (2000), há aquelas que tem acesso à educação, a cultura, mais
existem crianças que vivem na mais precária situação de sobrevivência. Muitas crianças e
adolescentes trabalham desde pequenos, quebram pedras, fazem carvão, capinam a roça,
embalam compras em supermercados, limpam pára-brisas de automóveis, etc. Outras são
28
responsáveis por seus irmãos menores, preparam a comida e arrumam a casa. Uma parcela
possui uma agenda cheia de atividades culturais e esportivas como aulas de balé, inglês,
piano, natação. Existem também as que perambulam sozinhas ou em turmas pelas ruas das
grandes cidades, sem moradia e sem proteção. Há aquelas que têm oportunidades de diversão
no cinema, no teatro e no circo. Mas a maioria convive apenas com o rádio e a televisão.
De acordo como descreve Londono (1996), se o Estado não cumpre com sua
obrigação está colaborando para o aumento do número de crianças e jovens que vivem nas
ruas. É dever da sociedade ao lado do Estado e da família em assegurar à criança e ao
adolescente com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao
lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência
familiar e comunitária, além de colocá-los livre de qualquer negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão.
Permitir que crianças e jovens façam da rua seu habitat, traz conseqüências
danosas para toda a sociedade. Para as crianças e jovens significa, praticamente, a perda de
uma vida que poderiam ter, caso estivessem na companhia familiar.
Dificilmente, uma criança que viva nessa situação, poderá ter um futuro que
não seja da criminalidade, da prostituição, das drogas etc. Estarão
respondendo à violência que sofreram, com mais violência ainda. E, por
terem cometido ato infracional nova violência virá, por meio da tortura, do
extermínio, ameaças de morte, segregação em instituições fechadas etc.
(LONDONO, 1996: 37).
Há quem considere que a maior culpada seja a família, por ela ser a célula da
sociedade e a responsável pela formação e socialização da criança. Mas conforme descreve o
autor é preciso que a família tenha condições materiais para manter-se. É preciso que os pais
tenham emprego, salário, moradia e que as crianças tenham saúde, escola, lazer etc.
Infelizmente, isso não é realidade para todos os brasileiros. A má distribuição de renda, a
corrupção, as políticas assistencialistas e o favorecimento pessoal, são práticas freqüentes no
Brasil e que tira da maioria da população necessitada o direito a assistência de que faz jus.
29
5 IDENTIDADE
Entende-se por identidade as representações e sentimentos que o individuo
desenvolve a respeito de si próprio a partir do conjunto de suas vivencias. “A identidade é a
síntese pessoal sobre si mesmo, incluindo dados pessoais como cor, sexo, e idade, e dados
biográficos como a trajetória, atributos que os outros lhe conferem, permitindo uma
representação a respeito de si”. (BOCK, 1998:36).
Segundo Bock, (1998), este conceito supera a compreensão do homem enquanto
conjunto de papeis, de valores, de habilidades e atitudes. A autora nos fala que a mudança nas
situações sociais, a mudança na historia de vida e nas relações determinam um processo
continuo na definição de si mesmo.
A identidade deixa de ser algo estático e acabado para ser um processo continuo
de representações como nos fala BOCK (1998), um processo continuo de representações de
seu “estar sendo” no mundo.
Sabemos que muitos papéis são definidos em função de uma relação com outras
pessoas tais como: filho/pai; professor/aluno Nossa identidade não é um dado pronto e
acabado. E, diante de mudanças, perguntamo-nos se tornamo-nos algo que já éramos ou
transformamo-nos em algo novo: “Podemos imaginar as mais diversas combinações para
configurar uma identidade como uma totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e
mutável” (CIAMPA, 1992: 61).
Assim na relação mãe/filho já se manifestam expectativas sobre ser mãe e ser
filho, as quais se concretizam e se modificam no estabelecimento das interações. A
individualidade, apresentada ao sabermos quem somos, é um fenômeno social que resulta da
constituição de um indivíduo representado anteriormente.
30
A ampliação da consciência sobre o que determina nossas escolhas, nossas
atitudes pode ser feita a partir do feedback, ou seja, buscar se ver com os olhos dos outros,
conhecer como nosso comportamento afeta e é afetado pelos outros. Este processo, em que
me reconheço e conheço os outros, faz do grupo um lugar propício ao desenvolvimento da
responsabilidade sobre a construção de nossa identidade.
As possibilidades que os indivíduos têm de fazer escolhas em suas vidas
cotidianas não são, contudo, totalmente livres. De acordo com Giddens (2002), elas dependem
dos vínculos que estabelecemos nas múltiplas redes existenciais que constituem o social.
A construção de autonomia num contexto societário de maior capacidade de
escolhas frente às determinações do passado se faz no interior de fluxos
sociais e comunicativos altamente carregados de estímulos, mensagens e
informações orientadoras dos modos de ser, agir, sentir e pensar.
(GIDDENS, 2002: 32).
É neste sentido conforme o autor que a elaboração da identidade pessoal se
identifica também com processos de autoconsciência que reconhecem os limites e as
possibilidades de construção autônoma do ser social. Assim, a identidade se configuraria
como um sistema dinâmico definido entre possibilidades e limites que gera um campo
simbólico no qual o sujeito pode conquistar a capacidade de intervir sobre si e reestruturar-se.
Uma vez que a identidade seja reconhecida numa relação ela é assumida como
produto e não como produção, e para se manter assim, se faz necessária a re-atualização
através de rituais sociais, reposição como algo já dado, retirando em conseqüência, o caráter
de historicidade, aproximando-a da noção de mito que prescreve condutas corretas,
reproduzindo o social. “A reposição da identidade deixa de ser vista como sucessão temporal
passando a ser vista como simples manifestação de um ser idêntico a si mesmo em
permanência e estabilidade” (CIAMPA, 1985:66).
O sujeito na construção de sua identidade faz sua auto avaliação em parte pelo
grupo no qual convive, procura consideração não apenas por si, mas quer que seu grupo seja
31
valorizado também. Segundo Myers (2000), quando o sujeito não possui uma identidade
positiva ele procura uma identidade social procurando aumentar sua auto-estima dentro de um
grupo.
A identidade é uma construção que se faz com atributos culturais, isto é, ela se
caracteriza pelo conjunto de elementos culturais adquiridos pelo indivíduo através da herança
cultural. A identidade confere diferenças aos grupos humanos. Ela se evidencia em termos da
consciência da diferença e do contraste do outro.
Ao longo de nossa história, na qual a colonização se fez presente, a escravidão e o
autoritarismo contribuíram para o sentimento de inferioridade do negro brasileiro. A ideologia
da degenerescência do mestiço, o ideal de branqueamento e o mito da democracia racial
foram os mecanismos de dominação ideológica mais poderosos já produzidos no mundo, que
permanecem ainda no imaginário social, o que dificulta a ascensão social do negro, pois este é
visto como indolente e incapaz intelectualmente.
Segundo Castells (2000), pode-se dizer que para a população negra a superação
dos estereótipos vinculados à cor, (admitindo-se que os negros se encontram muito
freqüentemente realizando atividades desprestigiadas socialmente), constitui-se um problema
que podemos associar a uma redefinição da própria identidade negra.
Podemos, portanto, considerar segundo o autor citado como uma tentativa de
legitimação da desigualdade racial a imposição da racionalização do racismo, exemplificada
pela ideologia do branqueamento e demais formas de preconceito e discriminação racial
contra o negro, existentes no Brasil, de acordo com as quais se reserva para o negro um
espaço social, político, econômico e cultural subalterno.
Considerando que o processo de identificação jamais pode ser tomado como uma
via de mão única, conforme Ferreira (2000), a difusão da ideologia e das práticas racistas
geram a conformação de uma identidade de resistência, que pode ser exemplificada pelas
32
estratégias de distinção desenvolvidas pelos afro-descendentes para fugir das posições
predeterminadas para o negro pelas formas de identidade legitimadora difundidas pelas
instituições e classes dominantes.
Podemos, assim, constatar como as relações entre os agentes expressam
simultaneamente um conteúdo simbólico no espaço social: ser é estar em relação e possuir
uma posição com um significado para o outro. É neste sentido que muitos afro-descendentes
atualmente se empenham em conquistar posições sócio-ocupacionais e políticas no espaço
social, que levem a uma redefinição de sua relação com os demais segmentos étnicos
presentes na população brasileira.
5.1 A adolescência e a construção da identidade
A construção da identidade é social e acontece durante toda, ou grande parte, da
vida dos indivíduos. Desde o seu nascimento o homem inicia uma longa e perene interação
com o meio em que está inserido, a partir da qual constituirá não só a sua identidade, como a
sua inteligência, suas emoções, seus medos, sua personalidade, etc. Apesar de alguns traços
desenvolvimentais serem comuns a todas as pessoas, independentes do meio e da cultura em
que estejam inseridas, há diferenças culturais. A construção da identidade é um desses fatores
relacionados ao desenvolvimento que tem íntima, senão total, dependência da cultura e da
sociedade onde o individuo está inserido.
Em alguns momentos podemos observar certas crises de identidade durante o
desenvolvimento da mesma. É o que acontece, por exemplo, com a maioria dos adolescentes
das sociedades atuais, que precisam resolver essas crises para solidificarem aspectos de sua
identidade pessoal e social.
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Segundo Becker (1997), o período da adolescência é marcado por diversos
fatores, sendo o mais importante à tomada de consciência de um novo espaço no mundo, a
entrada em uma nova realidade que produz confusão de conceitos e perda de certas
referências.
Esse autor enfatiza, ainda que a identidade não deve ser vista como algo estático e
imutável, como se fosse uma armadura para a personalidade, mas como algo em constante
desenvolvimento.
Uma importante tarefa com a qual os adolescentes confrontam-se, diz respeito ao
desenvolvimento da identidade individual, a encontrar respostas às questões: “Quem sou eu?”
E “Para onde estou indo?”. O senso de identidade de um adolescente desenvolve-se
gradualmente, a partir das várias identificações da infância. Os valores e os parâmetros morais
de crianças pequenas são amplamente aqueles de seus pais, seus sentimentos de auto-estima
derivam-se primeiramente da visão mantida pelos pais em relação a eles.
Para Outeiral (1994), a identidade, como a própria palavra define, se organiza por
identificações: inicialmente com a mãe, logo em seguida com o pai e depois com outros
elementos da família e, finalmente, com professores, amigos, ídolos (esporte, cinema, música,
televisão, etc.) e pessoas da sociedade em geral. A organização da identidade é um processo
que, como os demais acontecimentos da adolescência, se dá com “turbulências”, com “idas e
vindas”, provocando perplexidade e confusão nos adultos.
A necessidade de diferenciação, entendida como a necessidade de auto-expressão
de cada indivíduo, funde-se com a necessidade de coesão e manutenção da unidade no grupo
com o passar do tempo. Teoricamente, o indivíduo é membro garantido em um grupo familiar
que seja suficientemente integrado e do qual ele possa se diferenciar progressiva e
individualmente, tornando-se cada vez menos dependente, em seu funcionamento, do sistema
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familiar original, até poder separar-se e instituir, por si próprio, com funções diferentes, um
novo sistema.
Pode-se admitir que, para atingir a diferenciação - para encontrar o espaço
pessoal, a própria identidade – cada pessoa crescerá e se definirá através de trocas com outras
pessoas. Essa identidade pode ser enriquecida até o grau em que o indivíduo tenta e aprende
novas formas de relação que lhe permitam variar as funções que ele exerce dentro dos
subsistemas sem perder sua própria continuidade.
Para Andolfi (1989), a capacidade de mudar, de deslocar-se de um lugar para o
outro, de participar, de separar-se, de pertencer a diversos meios, permite a possibilidade de
exercer funções únicas, de trocar e adquirir outras, e de expressar, deste modo, outros
aspectos mais diferenciados de si mesmo. Esse processo de individuação requer que a família
se desorganize na medida em que se constitui num processo de preparação para uma nova
fase: o equilíbrio de um estágio é quebrado para que se mude para um estágio mais adequado.
Essas fases de instabilidade, caracterizadas por confusão e incerteza, marcam a passagem para
um novo equilíbrio funcional.
Para Bee (1997), o conceito de identidade forma-se a partir da auto-avaliação, da
apreciação que o adolescente faz de si mesmo e das avaliações que recebe das pessoas
significativas das suas relações, ligadas aos comportamentos esperados pela sociedade de seus
membros.
Trata-se de uma fase onde o indivíduo está em plena busca de si mesmo e de sua
identidade. O conceito de si mesmo é fruto de uma longa e penosa revisão das vivências
infantis e das identificações estabelecidas anteriormente e diz respeito a seu próprio corpo,
seu comportamento e às suas relações sociais. Nesta fase, tudo é muito idealizado pelo
adolescente, principalmente suas relações de amizade, afetivas e sexuais. Além disso, ele
35
demonstra claramente a onipotência própria de sua fase, quando acredita que nada de ruim
poderá lhe acontecer.
Neste período, a influência dos amigos sobre o comportamento do adolescente é
reconhecidamente importante. Conforme Aberastury (1990), o adolescente, principalmente no
início da fase, é muito influenciado pelo grupo de amigos, ao passo que o controle dos pais e
dos demais adultos enfraquece. Grande parte da dependência que mantinha anteriormente em
relação aos pais é transferida, neste período, para a turma. Assim, é a turma quem determina
as regras em relação ao vestir-se, aos costumes, à linguagem, às preferências de todos os
tipos.
Conforme o autor citado, ao agrupar-se o adolescente responde a sentimentos
contrários: “separar-se de” e “encontrar-se com”. O primeiro estaria relacionado à
necessidade de distanciar-se dos pais ou das figuras que os representam. O segundo teria
relação com a necessidade de encontrar entre os amigos a segurança perdida pela ruptura com
os pais, gerando, assim, mecanismos de identificação mútua.
É no período da adolescência que o individuo vai colocar em questão as
construções dos períodos anteriores, próprios da infância. Desta forma, o jovem assediado por
transformações fisiológicas próprias da puberdade precisa rever suas posições infantis frente à
incerteza dos papéis adultos que se apresentam a ele. A crise de identidade é marcada,
também, por uma confusão de identidade, que desencadeará um processo de identificações
com pessoas, grupos e ideologias que se tornarão uma espécie de identidade provisória ou
coletiva, no caso dos grupos, até que a crise em questão seja resolvida e uma identidade seja
construída. Assim segundo Volpi (1998), a crise e conseqüentemente confusão, de identidade
que fará com que o adolescente parta em busca de identificações, encontrando “iguais” e
formando seus grupos. A necessidade de dividir suas angústias e padronizar suas atitudes e
36
idéias faz do grupo um lugar privilegiado, pois nele há uma uniformidade de comportamentos,
pensamentos e hábitos.
37
6 PROJETO BALAKUBATUKI
Para uma maior compreensão da história do projeto, foi realizada uma entrevista
com o fundador e atual coordenador do projeto Balakubatuki, Daniel da Luz, para que o leitor
possa conhecer um pouco mais sobre a trajetória do projeto até os dias atuais.
O projeto Balakubatuki é um projeto musical que visa a educação de crianças e
adolescentes em risco social, foi fundado em 1998, pelo percussionista e arte -educador,
Daniel Cirimbelli da Luz. O Projeto atende Comunidades, do Morro da Queimada, Morro do
25, Morro da Caixa, Mocotó, Chico Mendes, Mont Serrat, Vila Cachoeira e Morro da
Penitenciária.
Segundo o Coordenador e fundador do projeto Balakubatuki (2004), a idéia era
montar uma oficina de percussão para adolescentes, para formar assim um grupo de
percussão.
A idéia de fazer o projeto partiu da necessidade de desenvolver o que eu
estava estudando na universidade na área de música. E de uma paixão pelo
instrumento que eu toco que é a percussão. Paixão no sentido de passar esse
conhecimento, e ver que Florianópolis adorava percussão, eu via que todo
show de percussão que eu ia tava lotado, estava uma galera e eu tinha essa
vontade de desenvolver algum trabalho que eu pudesse botar em prática o
que eu tava aprendendo na faculdade em algum projeto de percussão. (LUZ,
2004).
Trabalhar com este público alvo não era o objetivo, foi através de uma busca por
um local e uma instituição para viabilizar recursos que o projeto chega para estas
comunidades.
Eu tive esse contato com esse publico alvo, vamos dizer assim, com essa
rapaziada da periferia através que desta busca por um lugar, para colocar o
meu projeto para alguém que me ajudasse a viabilizar ele, eu acabei tendo
um contato com um órgão aqui da prefeitura, que é o órgão de cultura que é
a fundação Franklin Cascaes, daí através dela assim houve lá um
julgamento entre os projetos que ali estavam. Entre eles tinham um projeto
de flautas que eles acharam que não era o ideal para se trabalhar na periferia
porque eles não iriam conseguir tocar, e que periferia é lugar de tambor, daí
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de uma certa forma tu vê, por causa talvez de um preconceito eu acabei
entrando e hoje a gente tem violão, teclado todos os instrumentos que para
eles o preconceito não deixou entrar num primeiro momento a gente acabou
trazendo. (LUZ, 2004).
Após o projeto ser aprovado era preciso escolher um local para desenvolver as
aulas, a Casa da Liberdade foi o local escolhido, pois havia uma certa simpatia com o local,
“eu acho que há uma energia muito legal lá”.( LUZ, 2004).
Tendo seu projeto aprovado, pela Fundação Franklin Cascaes, toda ajuda de custo
dado pela fundação foi usada para as compras de baquetas, e instrumentos.
As dificuldades no sentindo financeiro são sempre os que rolam são o
seguinte, os instrumentos para começar, então eu tive que usar da
criatividade e como o meu projeto acabou saindo por um órgão que dava um
troco na época, uma ajuda de custo, eu acabei pegando essa ajuda de custo
para construir os instrumentos, por exemplo, a gente trabalhava com latas,
mais eu precisava comprar baquetas porque a baqueta eu não tinha como
fazer mais a lata eu até pintava eu lavava elas porque elas vinham tudo suja
de manteiga porque a gente usa mais a lata de manteiga ou azeite. Eu as
lavava tal e tal... As primeiras dificuldades foram essas financeiras, eu tive
que pegar essa grana e investir toda nos instrumentos tem os tambores que a
gente usa até hoje. (LUZ, 2004).
Os quatro primeiros anos do projeto são visto pelo Coordenador como os anos
mais difíceis. Vários foram os motivos que faziam pensar em desistir, a falta de recursos, a
dificuldade encontrada por ele em trabalhar com as crianças, a banda que estava se
consolidando.
Eu pensei em desistir varias vezes por “N” motivos. A banda alguém tinha
que cuidar da banda, porque eles já estavam até reclamando. Pô eu tinha uma
filha recém nascida, tava lá. Como eu tava te dizendo. Essas crianças de 07 a
10 anos assim, é uma dificuldade muito grande de aceitar alguma coisa às
vezes até dicas de educação para a pessoa, porque num primeiro momento
era ensinar música técnica de percussão, montar um grupo, estudar música,
música, música, música.... Depois eu vi que já não era ensinar a música, era
ensinar através da música. (LUZ, 2004).
Mais foi o envolvimento pelo projeto, a dedicação que fizeram continuar. A banda
Iriê nesta época começa a ajudar nos recursos financeiros.
Eu não consegui sair de lá, eu não consegui mais sair depois que eu entrei,
eu não consegui mais sair, eu tive um ano de apoio para construir os
instrumentos e não consegui mais sair, eu pedi ajuda, galera vocês me
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ajudem no projeto porque eu não tenho mais como abrir mão disso aqui
entendesse, então eu comecei a correr atrás do projeto para não deixar
aquelas crianças. (...) O Iriê começou assim a meio que ser o meu
patrocinador, mais o Iriê também... Nos também tava investindo. (LUZ,
2004).
Conforme relata o mesmo, houve um período que passou a dar aulas para apenas
02 turmas, pois precisava se dedicar a outros projetos paralelos. “Teve época que eu estava
apenas com duas turmas entendeu, foi o mais difícil do projeto, foi à gravação do translatação
uma correria, eu estava com duas turminhas só, porque estava difícil”.
Nesta época o projeto já estava com quatro anos, e foi no Cd “Translatação” que
ele resolveu chamar os meninos do Balakubatuki para uma participação no Cd de sua banda.
Foi nesta época que o projeto começou a se tornar conhecido, para as pessoas de fora.
A primeira participação deles com o Iriê que foi no CD translatação, pô o
projeto já tinha quatro anos, tava fazendo quatro anos, que foi quando as
pessoas vieram conhecer. Que tu montaste esse grupo só para gravar esse
CD, não esse projeto já existe há quatro anos. (LUZ, 2004).
Foi a partir da gravação do Cd do Iriê, e do conhecimento do público que o
Balakubatuki começa a ter apoios, a partir do quinto ano de projeto, percebeu-se que
precisava abrir o projeto para contar com outros profissionais, até aqui o projeto só contava
somente com o coordenador. Desde o começo sempre fez de tudo dentro do projeto, tanto na
construção, manutenção dos instrumentos, ministrando aula, criando e redigindo o projeto
para ser aprovado na Lei de Incentivo a Cultura, correndo atrás de apoiadores e
patrocinadores, viabilizando apresentações e eventos, compondo e criando musicas e
exercícios para o Balakubatuki.
Foi fundada em 2003 a Associação Balakubatuki Arte e Cidadania, com apoio de
profissionais de diversas áreas de conhecimento e estudantes universitários. Tendo como
objetivo garantir a continuidade deste processo educacional.
Logo após a gravação do CD eu comecei a ver que eu tinha que abrir o
projeto.No final do quarto ano que foi quando eles gravaram eu vi que eu
tinha que abrir. Porque eu tinha muito medo, Se começa a vir outras
pessoas, tu não sabe se a pessoa está ali pela grana ou se a pessoa esta ali
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pelo projeto, entendeu... Se num momento difícil será que ela vai estar ali
também. Pô eu faço isso de coração, claro que eu queria estar mais lá e para
isso eu teria que estar recebendo, então por isso eu corri atrás disso, mais
quem entrar lá recebendo será que vai ter todo aquele amor pela história.
Então era um medo que eu tinha, eu resolvi enfrentar esse medo e abrir.
Então a gente criou uma associação, uma associação com o mesmo nome
Balakubatuki. Formamos uma comissão primeiro que iria trabalhar nos dois
primeiros anos no sentido de organizar toda a parte burocrática da
associação e de lançar projetos vê se a gente conseguia a lei do incentivo.
(LUZ, 2004).
O Projeto foi contemplado com a Lei de Incentivo à Cultura, através da Fundação
Catarinense de Cultura, podendo contar com um apoiador cultural beneficiado por incentivos
fiscais, o que viabilizou melhoras e proporcionaram o atendimento a mais comunidades
durante 10 meses. Através da aprovação do projeto os professores passaram a ser
remunerados, foram contratados dois professores para dar aulas no projeto, foram feitas
manutenções nos instrumentos e aquisição de novos, ampliou-se o local das oficinas,
atualmente o projeto da aula na Casa da liberdade, Ilha da Criança e Casa da Criança.
Na primeira ajuda foi a primeira vez que os professores tiveram uma ajuda
de custo então eu já tive a capacidade de chamar dois professores para dar
aula, a gente ampliou os lugares onde a gente estava atendendo, a gente...
Naquela época a gente tinha um ponto fixo que era a Casa da Liberdade mais
à gente estava atendendo mais quatro comunidades com a Kombi, a gente fez
uma manutenção na Kombi, a gente arrumou todos os instrumentos, porque
até então como eu tava te dizendo no primeiro ano eu fiz com aquela ajuda
da fundação que eu construí os instrumentos. (LUZ, 2004).
Através desta ajuda o Projeto tornar-se mais independente, sendo responsável pela
captação e administração de seus recursos.
No segundo ano a projeto não foi aprovado pela lei do incentivo, mais o
Balakubatuki já estava mais consolidado e algumas empresas decidem ajudar o projeto.
Atualmente o projeto Balakubatuki vive de ajuda de empresas que dispõem em ajudar
financeiramente.
Na segunda fez o projeto não foi aprovada, mais graças a Deus, a gente teve
assim, a gente já tinha conseguido dar uma amplitude maior para o projeto
através do Cd lá que eles participaram com essa aprovação na lei, daí teve
uma empresa que nos chamou assim, e nos patrocinou fora à lei do
incentivo, fora nada, que quis ajudar. (LUZ, 2004).
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O projeto Balakubatuki nestes seus quase 07 anos já atendeu 600 crianças e
adolescentes, há alguns hoje adolescentes que continuam no projeto estão desde o começo,
eles fazem parte da turma de experiência musical, a turma que presta acessória para os
professores. Pois uma outra idéia do projeto é preparar este alunos para serem futuros
professores do Balakubatuki.
Essa turma eu to preparando para ser monitor e depois futuramente
professor do projeto. Que eu vou achar isso um máximo, deu a volta,
chegou naquele ponto de partida que eu pensava no começo... Pô vou juntar
uma galera... E essa galera já vai fazer um grupo muito “profi” e ao mesmo
tempo vai dar continuidade no projeto. (LUZ, 2004).
O Balakubatuki fornece atualmente aulas de percussão, violão, teclado e capoeira,
os alunos podem escolher as oficinas que querem participar. O projeto conta com seis
professores. Hoje Daniel da Luz divide a tarefa de coordenador e professor, diz não se
arrepender de abrir o projeto para outros profissionais. E fala que uma de suas prioridades
agora é o professor.
A gente ta sempre o que priorizando a aula, o aluno, claro, agora a minha
prioridade é o professor também, cada vez eu coordenando eu vejo que eu
tendo um professor feliz bem humorado... Eu tenho um melhor projeto
entendesse, o Balakubatuki não da mais para ser mais só de pessoas
voluntárias, não dá... Por mais que eles façam diversos outros trabalhos eles
têm que ter uma ajuda de custo. (LUZ, 2004).
O Balakubatuki trás as crianças e adolescentes menos favorecidos, uma linguagem
musical própria capaz de impulsionar o desenvolvimento da cidadania. O Balakubatuki vê na
música e em seus instrumentos exclusivos, ingredientes sócio-culturais transformadores que
vão ao encontro das necessidades básicas de grande parte destas crianças. É através da música
que eles se divertem, se reconhecem, se respeitam e passam a desenvolver uma auto-estima
capaz de superar o seu presente e transformar o seu futuro. A idéia é reciclar, reaproveitar,
transformar a partir de materiais aparentemente sem utilidade, descobrir novas fontes sonoras,
buscando melhores timbres e formas de execução.
42
Segundo o Coordenador, o projeto consiste na construção de instrumentos com
materiais reciclados, percussão e canto. E nessa tarefa de reaproveitar, as crianças e
adolescentes vão reciclando a própria vida. Com aulas semanais, os estudantes desenvolvem
um repertório próprio, com ritmos de capoeira, samba, funk e baião e chegam a desenvolver
atividades mais complexas, como a leitura de partituras.
Atualmente, são 150 crianças e adolescentes beneficiados pelo projeto, que visa a
valorização da identidade, auto-estima, politização e consciência dos problemas sociais. "O
projeto Balakubatuki é a pedagogia do amor. É um projeto de inclusão social para que os
participantes tenham consciência do papel de cidadão" (LUZ, 2004).
43
7 METODOLOGIA
A idéia da realização de uma pesquisa voltada para questão da influência da
música na construção da identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki surgiu após
uma visitada ao local, bem nesta época estava desenvolvendo meu projeto de pesquisa, e
precisava de um tema, algo que me despertasse interesse em estar pesquisando. Foi quando
surgiu a idéia de estar-se pesquisando dentro do projeto Balakubatuki, optei em fazer uma
pesquisa voltada para os adolescentes devido uma certa simpatia com esta faixa etária, meus
trabalhos realizados na faculdade sempre foram voltados para este público.
Após uma conversa com a minha atual orientadora chegou-se a um tema
especifico, pois eram várias as hipóteses de temas para a pesquisa. Optou-se por estar
pesquisando sobre a influência da música na construção da identidade dos adolescentes, sabese que a identidade ela se ocorre através das interações do sujeito com o meio social onde está
inserido.
A pesquisa foi realizada no Casa da Liberdade em Florianópolis, onde o projeto
Balakubatuki dispõe suas oficinas, o projeto funciona em três locais: Casa da Liberdade
(centro), Ilha da Criança (Agronômica) e Casa da Criança (Morro da Penitenciaria). É
realizado diariamente nos período matutino e vespertino.
Optou-se pelas turmas da Casa da Liberdade por se encontrar as turmas mais
antigas do projeto, já que meu foco de estudo era os adolescentes, e estes deveriam ter um
tempo significativo no projeto. O projeto Balakubatuki é um projeto totalmente independente,
não possui nenhum tipo de ligação com os locais onde suas oficinas estão implantadas.
44
O tipo de pesquisa adotado foi à pesquisa descritiva ou de campo, que pode ser
caracterizada pelo fato de ser realizada onde os fenômenos acontecem, procurando observar
estes fenômenos, descrevendo-os, classificando-os e analisando-os.
As técnicas utilizadas para a coleta de dados foram, questionários com questões
abertas e fechadas, entrevistas abertas e semidirigidas, ou seja, nestas entrevistas há um
roteiro de tópicos relativos ao problema que se vai estudar e o entrevistador tem liberdade de
fazer as perguntas que quiser: sonda razões e motivos, dá esclarecimentos, não obedecendo, a
rigor, a uma estrutura formal, as entrevistas foram feitas com os adolescentes e com os
professores do projeto foi realizada também uma história de vida, a historia de vida consiste
segundo Chaloub (1989) numa totalização sintética de experiências vividas e de uma
interação social. Mais que uma vida conta à interação presente mediante o curso de uma vida.
A seleção da amostra foi feita através de indicações dos professores e por
voluntários que se dispuseram a contribuir com a pesquisa. Os adolescentes participantes
tinham idades entre 12 a 21 anos e eram de ambos os sexos. Foi elaborado um único roteiro
de entrevistas e aplicado um questionário padrão para todos os adolescentes, segundo a
Organização Mundial de Saúde compreende-se a adolescência o período que vai dos 12 aos
21 anos, e o fator considerado para a participação da pesquisa era o tempo de projeto dos
mesmos que deveria ser superior a sete meses.
Foram entregues na primeira etapa da pesquisa 30 questionários para os
adolescentes, nesta etapa os adolescentes passaram a conhecer a pesquisadora, no segundo
momento da pesquisa foi feito 10 entrevistas, as entrevistas acontecia de forma espontânea
muitos adolescentes me procuraram para estar participando da pesquisa, estas aconteceram no
refeitório da Casa da Liberdade, indicação dos próprios adolescentes.
Com os dados da entrevistas e dos questionários sentiu-se a necessidade de estar
escolhendo um dos adolescentes entrevistados para estar fazendo um relato da história de vida
45
do mesmo. A escolha do adolescente aconteceu pelo fato de estar a um período considerável
dentro do projeto e pelo vinculo que se estabeleceu durante as visitas feitas para a pesquisa.
Assim foi entrado em contado com o mesmo que aceitou prontamente a estar contribuindo,
para a realização da técnica foi utilizado dois dias.
Paralelo esta etapa da pesquisa, a parte referente aos adolescentes, foi sugerida que
se entrevistasse os professores e o coordenador do projeto, para se ter dados da historia do
projeto. Nesta etapa do trabalho alguns vínculos afetivos foram feitos com alguns
adolescentes, a pesquisadora procurou estar sempre em contato com os adolescentes,
procurou-se sempre acompanhar as apresentações às aulas, estar contribuindo de alguma
forma. Durante o tempo de pesquisa foram realizados dois encontros reunindo todos os alunos
do Balakubatuki uma espécie de “aulão”, onde a pesquisadora esteve presente, ajudando na
preparação do lanche servido e coletando dados que seria útil para a pesquisa. As entrevistas
com os professores aconteceram de forma natural, todos aceitaram estar contribuindo para a
pesquisa, o projeto conta com 05 professores, foram feitas 03 entrevistas, devido a
disponibilidade de tempo da pesquisadora e dos professores. As entrevistas aconteceram na
Casa da Liberdade antes e depois das aulas, sendo que a entrevista com o coordenador e
professor do projeto aconteceu na sua casa a seu pedido.
A análise dos dados se deu através da análise de conteúdo, segundo Bardin (1977),
a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações. Assim a
utilização da análise de conteúdo possibilitou avançar para além dos significados imediatos,
realizando uma outra leitura do texto, mais atenta, categorizando e interpretando através de
uma técnica de inferência. Desse modo é possível aprender o que o conteúdo pode nos ensinar
quando tratado.
46
Esta pesquisa foi realizada dentro das normas éticas, portanto foi recolhida
autorização dos entrevistados, e também do coordenador do projeto para a aplicação dos
questionários, das entrevistas e de estar-se utilizando materiais como fotos e vídeos.
47
8 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
A pesquisadora procurou a instituição para demonstrar seu interesse em fazer a
pesquisa no local. O coordenador aceitou a idéia e não mediu esforços para a realização do
trabalho.
A primeira etapa do trabalho foi a coleta de dados através de questionários
aplicados para adolescentes de 13 a 21 anos que se dispuseram a estar respondendo. Não
houve nenhuma negação por parte dos adolescentes em responder aos questionários. Estes
foram aplicados em dois dias, ao final de cada oficina, no local onde é realizado o projeto.
8.1 Exposição e Análise dos questionários:
Idade:
Nº de respostas
05
04
04
04
04
04
02
02
01
Idade
17
14
13
15
16
18
20
19
12
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004.
O projeto Balakubatuki atende crianças e adolescentes de 07 a 18 anos, de onde
surgiu a necessidade de ser criada uma nova oficina para os alunos mais antigos do projeto. É
a chamada turma de experiência, onde estes alunos recebem treinamento para futuramente
serem professores do Balakubatuki.
48
Sexo:
Feminino
09
Masculino
21
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Como se pode perceber a maioria dos participantes do projeto são meninos.
Segundo o coordenador, o instrumento “percussão” tem identificação masculina, mas as
meninas aprendem muito bem. Mesmo assim, são poucas as que continuam depois na
adolescência. O grupo de experiência atual possui apenas uma menina de 16 anos que está
desde os 6 anos no projeto.
Escolaridade:
5º série
8º série
1º ano do 2º grau
6º série
7º série
2º ano do 2º grau
Não respondeu
4º série
Nº de respostas
07
06
05
03
03
03
02
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004.
De acordo com o gráfico pode-se perceber que todos os alunos matriculados no
projeto Balakubatuki estão estudando, já que esta é uma das exigências do projeto: estarem
freqüentando a escola. Pode-se perceber ainda que a grande maioria não está com atraso
escolar, ou seja, com uma idade muito além da série freqüentada.
49
Tempo de Projeto:
05 anos
06 anos
03 anos
04 anos
01 ano
02 anos
Menos de 01 ano
Nº de respostas
09
06
05
04
04
02
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Como se pode observar a maioria dos entrevistados está desde o surgimento do
Balakubatuki, onde começaram crianças e estão até hoje, passando toda a adolescência no
projeto. Segundo o coordenador, “o Projeto Balakubatuki desde sua criação, em 1998, já
atendeu mais de 600 crianças e adolescentes, hoje temos mais de 100 alunos que têm chance
de fazer mais de uma oficina dentre as oferecidas, ocupando sua tarde ou manhã com
atividades que só lhes têm a acrescentar”. (LUZ,2004).
Bairro que mora:
Morro Mocotó
Prainha
Vila Aparecida
Capoeiras
Estreito
Morro 25
Morro da Queimada
Carvoeira
Nº de respostas
12
05
03
03
02
02
02
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
A maioria dos adolescentes entrevistados atendidos na Casa da Liberdade, onde foi
realizada a pesquisa, são moradores do Morro Mocotó e mediações. O Morro Mocotó fica
próximo do local da Casa da Liberdade, onde as aulas são realizadas.
A comunidade do Mocotó ocupa uma área consideravelmente grande nas
proximidades do centro de Florianópolis. O nome surgiu devido em grande
parte aos marinheiros que, com seus navios de carga, atracavam na Baia
50
Sul. Por este fato era servida, por um morador local, uma sopa de mocotó
para a alimentação dos tripulantes. A diversão também existia, era uma casa
ou “café” que oferecia um pouco de alegria aos marinheiros. Ela se
encontrava logo ao pé do Morro e ainda pode se ver o esqueleto do que
deveria ser a casa”. (RIBEIRO, 1995:07).
De acordo com Ribeiro (1995), a situação financeira dos moradores da
comunidade em geral é bastante precária. Ocupando o nível mais baixo da pirâmide social,
algumas famílias do Mocotó vivem hoje em situação de “subsistência”.
De acordo com a última pesquisa feita pelo Instituto de Planejamento de
Florianópolis – IPUF, a comunidade do Mocotó conta com um total de 362 famílias, sendo
que 257 são famílias carentes estimando um total de 1.105 pessoas que vivem em completa
carência. A maioria dos moradores trabalha no comércio, na construção civil como serventes,
como faxineiras ou domésticas e recebem em média dois salários mínimos.
Segundo Ribeiro (1995), a droga é um fator de grande influência na vida do
Morro. A venda e o consumo assíduo por parte de comerciantes e usuários (alguns desses
usuários não fazem parte da comunidade), resultam em freqüentes visitas da policia na região,
onde muitas pessoas são presas. A droga é um dos fatores primordiais da discriminação que
ocorre com o Morro Mocotó.
A Prainha é outra comunidade que aparece como tendo bastantes adolescentes no
projeto. A Prainha fica muito próxima ao Morro Mocotó, na verdade o Mocotó se localiza no
bairro da Prainha, na encosta do morro, ao lado do Hospital do Exército e do Hospital de
Caridade. Os serviços de Posto de Saúde e Creches são prestados na Prainha para as duas
comunidades.
O Balakubatuki preocupa-se em transformar o presente das crianças de
comunidades de baixa renda de Florianópolis, oportunizando e estimulando a vivência
musical. Além de aprender a tocar instrumentos musicais, as crianças, através de oficinas,
51
também são capacitadas a construir os instrumentos, possibilitando dessa forma, um futuro
onde se sintam inseridas na sociedade.
A pergunta “estado civil”, todos responderam ser solteiros e não possuir filhos. Foi
relatado que neste ano um dos alunos mais velhos do projeto, que havia se casado e iria ser
pai, teve que deixá-lo para trabalhar.
Você gosta de música?
Sim
30
Não
Mais ou menos
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Aqui se percebe que todos os adolescentes entrevistados responderam gostar de
música, tendo apenas um assinalado as duas opções, mostrando-se talvez um pouco confuso.
“Música é um estágio sentimental bastante evoluído tanto para quem executa, como para
quem se delicia em ouvir” (WISNIK, 1989: 13). De acordo com o autor ela está presente em
todas as classes sociais e em todo local, não importando língua, condição social, raça ou
qualquer coisa que queira impor-se de maneira intransigente.
Você gostava de música antes do projeto?
Sim
28
Não
Um pouco
02
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Aqui se percebe que apenas dois dos entrevistados responderam que não gostavam
de música antes de entrar no Balakubatuki. Os demais já entraram para o projeto gostando de
música. Conforme Ruud (1991) descreve, a música está presente no nosso cotidiano desde o
início da vida, pois nos primeiros dias de vida, a criança já é embalada nos braços da mãe com
52
canções de ninar. O canto é algo que tranqüiliza o bebê e faz com que ele relaxe e adormeça e
isso pode ocorrer tanto na vida intra-uterina quando na fase adulta.
Que tipo de música você gosta?
Estilo de música
Reggae
Hip hop
Rap
Rock
Forró
Clássica
Nº de respostas
26
25
12
04
03
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Aqui os adolescentes puderam escolher mais de uma opção; as mais votadas e
eleitas pelos mesmos foram o reggae e o hip hop.
De acordo com Albuquerque (1997):
O reggae é visto como uma forma musical que surgiu juntamente com a
Jamaica independente local de origem do reggae é uma hoje famosa ilha
caribenha, a terceira maior da região, com o tamanho equivalente à metade
do território do estado de Sergipe. Desde o século XVI até meados do século
XX ela foi submetida às políticas exploratórias do sistema colonial. A
população nativa, composta pelos índios Arawak, chamava a ilha de
Xaymaca – Terra das Primaveras –, e tal denominação foi à única herança
que deles restou, transformada em Jamaica.( ALBUQUERQUE, 1997: 18).
De acordo com o autor, o reggae originou-se do Ska, um ritmo acelerado com
instrumentos de metal, oriundos da música negra americana dos anos 50 e 60. Os metais
deixaram de ser os instrumentos que marcavam a música, e em seus lugares foi inserido a
percussão africana com a batida da guitarra num estilo Rock. Esse ritmo a partir do início da
década de 70 passou a ser mais lento, sendo batizado como Reggae. O Reggae é tido pelos
próprios Rastas como sendo a música de Jah (Deus), primeiro por ter a mesma batida do
coração e depois pelas mensagens, com letras principalmente de caráter religioso e de protesto
racial e político.
53
Os Rastas eram uma espécie de artesões dos anos 60 que procuravam se manter
financeiramente através da arte, em especial o artesanato. Possuíam habilidade em esculpir
peças de motivos africanos, como máscaras, estátuas e símbolos bíblicos.
O Hip Hop, que também aparece entre os preferidos pelos adolescentes, surgiu do
rap, que tem sua origem na Jamaica, nos “guettos jamaicanos”, mais ou menos na década de
60, Segundo Rocha (2001):
O rap movimento musical que desde o final dos anos 80 invadiu os espaços jovens
na periferia de cidades como São Paulo tem ganhado terreno nos centros urbanos, nos coloca
exatamente esta questão. Esse estilo de reivindicação de direitos e de denuncia contra
violência social, racial e policial que é infligida a população negra, faz parte de um
movimento mais amplo chamado hip hop, que significa literalmente “sacudir o quadril”.
(ROCHA, 2001:26).
Todavia a autora coloca que “sacudir o quadril” deve ser entendido aqui como um
sentido muito mais amplo do que um simples movimento corporal. Significa, na realidade, ter
“jogo de cintura”, saber agir e reagir diante de uma sociedade excludente e discriminatória.
O Rap nascido na Jamaica assume para os negros norte-americanos um caráter de
protesto. Surge, então, o movimento Hip Hop que ganha espaço nos Estados Unidos,
chegando até o Brasil, sendo reinterpretado e ressignificado pelos jovens negros brasileiros.
Este movimento cultural se completa em três elementos artísticos: o Rap (a música), o Break
(a dança) e o grafite (expressado através de desenhos). Assim, da união dos três elementos
surge o hip hop.
54
Com uma só palavra diga o que a música significa para você?
Paz e amor
Vibração
Vida
Bom
Paz
Legal
Ritmo
Ótimo
União
Da um bom ritmo
“Medecha” legal
espontaneidade
Amor
Felicidade
Harmonia
Tudo
04
03
03
02
02
02
02
02
02
01
01
01
01
01
01
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Esta pergunta foi feita para que os jovens pudessem expressar o que a música
significa para eles, onde percebe-se elementos positivos em relação à música.
São infinitas as citações em que a música aparece ligada a sentimentos, emoções,
pensamentos, e essa relação é mais intensa e está mais enraizada nas culturas do que se
imagina.
Ainda na Índia, por exemplo, o velho hábito de se pendurar sinos nas vacas
animais sagrados para os indianos tem por objetivo afugentar os maus
espíritos, causadores de doenças, já os japoneses mantêm o hábito milenar de
pendurar, nas portas e janelas, instrumentos que produzem sons à passagem
do vento. Desse modo "purificam-se" as vibrações dos ambientes, criando-se
uma atmosfera de calma, de paz, propícia à concentração, à interiorização e
mesmo ao convívio harmonioso. (RUUD, 1991: 27).
A música está ligada a sentimentos e emoções, e aqui os adolescentes puderam
colocar todo o seu sentimento em relação à música, e o significado dela para eles.
55
Complete música é:
União dos povos
Alegria
Muito massa
Tudo de bom
Legal
Não respondeu
Dedicação
A coisa legal que todos tem que aprender
Vamos passear
Reggae todo dia
Conhecimento
Estilo de viver
Futuro
Vibração
O que eu adoro
Ocupação
Expressão
Um jeito de se divertir
Diversão
A arte de manifestar sentimentos através
de sons
A prática leva a perfeição
02
02
02
02
02
02
02
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Pode-se perceber que para os adolescentes a música é repleta de elementos
positivos. Apenas duas pessoas não responderam esta questão, talvez por ser muito parecida
com a pergunta anterior. Aqui se nota que as respostas dadas por eles também vêm ao
encontro do estilo do ritmo escolhido por eles, como “união dos povos”, e “paz e amor”, que
são termos usados na filosofia do reggae.
Para Olivet (2004), a música é um fenômeno universal. “É a linguagem que todos
entendem. É o traço de união entre os povos” (OLIVET, 2004: 11).
Assim fica claro mais uma vez o interesse dos adolescentes pela música, já que o
conteúdo trazido por eles confirma isso.
56
Como conheceu o projeto?
Entrando na casa da liberdade
Prima
Minha mãe me botou
Eu estava na casa da liberdade
Pelas pessoas dizendo que era bom
Amigo
Vendo crianças e adolescentes
aprendendo
Pela amiga de minha mãe
10
05
05
03
01
01
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
O projeto Balakubatuki funciona em três locais, na Casa da Liberdade, no Casa da
Criança e Ilha da Criança. As turmas mais antigas do projeto estão na Casa da Liberdade,
local escolhido para a pesquisa.
A Casa da Liberdade atende por volta de cento e cinqüenta crianças que
freqüentam um período na escola e outro na casa. Ela se encontra no centro da cidade na
passarela do samba Nego Quirido e é mantida pela prefeitura de Florianópolis. A Casa da
Liberdade tem o intuito de auxiliar na educação e retirar as crianças da rua quando não há
atividade escolar. A Casa da Liberdade tenta diminuir a situação de abandono que as crianças
vivem, seu objetivo é de auxiliar na educação das crianças, preparando-as para exercerem sua
cidadania. Lá funcionam várias oficinas, como a oficina de artes, por exemplo, além de
atividades físicas e área pedagógica, onde os alunos trazem as atividades da escola para
fazerem ali. Todos os funcionários são pagos pela prefeitura.
As aulas do Balakubatuki são ministradas em salas cedidas para as oficinas,
aproveitando-se a estrutura oferecida. Hoje o Balakubatuki possui uma sala na Casa da
Liberdade que foi cedida pela Prefeitura Municipal de Florianópolis. Lá, os envolvidos no
projeto se reúnem, guardam os instrumentos e também ministram algumas aulas. O
coordenador comenta a importância da Casa da Liberdade, a qual foi a primeira a ceder seus
espaços para a realização das oficinas e o vínculo que já se estabeleceu entre ele, os
funcionários da Casa da Liberdade, alunos e familiares destes alunos:
57
“O grande parceiro nosso e que continua sendo o meu xodó e tudo, é
a Casa da Liberdade onde eu sempre trago uma oficina nova, onde eu
sempre experimento ali, por que eu conheço toda o pessoal que
trabalha ali há muitos anos, as crianças, as famílias, muitos ficam ali
por que os pais gostam muito do projeto, gostam muito de mim,
então ali, vamos dizer, assim entre aspas, eu faço alguns testes antes
de colocar ou não uma oficina, vejo a aceitação do público. Na Casa
da Liberdade nós temos uma sala, não muito ampla, foi ampliada
agora, mas pelo menos podemos guardar os instrumentos, dar aulas
para turmas pequenas, e dali a gente sai com a Kombi e vai para os
outros lugares. Todos os lugares são salas cedidas, a gente não tem
muito... estamos também conversando com a Ilha da Criança que está
agilizando uma sala também muito bacana, vamos ver” (LUZ, 2004).
A sala cedida pela Prefeitura Municipal de Florianópolis que se encontra na
Passarela do Samba, precisa ser desmontada durante o período de carnaval.
Muitos adolescentes conheceram o projeto entrando na Casa da Liberdade.
Você acha esse projeto importante?
Sim
30
Não
Um pouco
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Nesta pergunta todos foram unânimes em responder que achavam o projeto
importante, reforçando ainda mais a questão de estar a tanto tempo no projeto.
Você fez amigos no projeto?
Sim
30
Não
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Aqui se percebe que todos os adolescentes entrevistados afirmaram ter feito novas
amizades. Sabe-se que as amizades têm um lugar especial entre as relações dos adolescentes.
É na adolescência que se começa a andar em grupos e a amizade fica mais intensa.
O adolescente pode aprender a mudar seu comportamento, gostos ou idéias, sem a
experiência dolorosa da rejeição. Na sua melhor forma, as amizades ajudam os jovens a
aprenderem a lidar com seus próprios sentimentos complexos, bem como os sentimentos
58
complexos dos outros. As amizades podem servir como um tipo de terapia, ao permitir a
expressão livre de sentimentos reprimidos de raiva ou ansiedade e ao oferecer evidencias de
outras pessoas compartilham as mesmas dúvidas, esperanças, medos e sentimentos
aparentemente perigosos. (NEWCOMBE, 1999:439).
Segundo Newcombe (1999), as relações de amizades com a turma se tornam cada
vez mais importantes para os adolescentes, é na adolescência que os jovens organizam-se em
grupos, buscando uma subcultura e uma identidade própria.
Partindo da visão de Visgotsky, a relação do homem com o mundo não é uma
relação direta, e sim uma relação de mediação. É através da relação do homem com o mundo
que se proporcionará uma melhor compreensão deste último. O grupo social onde o indivíduo
está inserido fornece formas de perceber e organizar o real, permitindo assim construir
instrumentos psicológicos que permitam uma mediação entre individuo e mundo.
Quantas vezes você vem ao projeto?
01 vez
02 vezes
02
03 vezes
28
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Aqui se percebe que a maioria dos adolescentes freqüenta todas as oficinas
oferecidas pelo projeto, o que os faz vir mais de uma vez por semana. O Balakubatuki
funciona de segunda a sexta com aulas específicas por dia, tendo as aulas duração de uma
hora. Alguns dos adolescentes entrevistados são monitores do projeto, o que os faz se
dedicarem mais tempo ao projeto.
59
Você gosta do projeto?
Sim
30
Não
Um pouco
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Todos os entrevistados responderam que gostam do projeto. Reforçando a idéia de
que quando gostamos de algo nos dedicamos mais por aquilo que gostamos. Isso nos mostra
que os adolescentes estão no Balakubatuki por realmente gostarem e estarem interessados em
cada vez mais aprender a tocar os instrumentos.
Para mim Balakubatuki é:
Legal
Tudo de bom
Diversão
O melhor
Dedicação
Muito legal
Bom e melhor
A coisa mais legal que inventaram
Oportunidade
A porta para o futuro e a janela para o presente
Muito importante para mim
Saber tocar
Amizades e oportunidade nova
Radical
Ritmo Cidadania e Paz
Educação e harmonia
Esperança
04
03
03
02
02
02
02
02
01
01
01
01
01
01
01
01
01
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Nesta pergunta os adolescentes colocaram o que significava o projeto
Balakubatuki. Através das respostas percebe-se o quanto o projeto é querido e importante para
eles. Alguns relacionam o projeto com oportunidades novas em suas vidas, como um
aprendizado novo, outros falam das amizades novas feitas, mas todos tem uma visão positiva
do projeto. Conforme Costa (2002), em qualquer ambiente, seja ele a escola, o trabalho ou a
60
comunidade onde vive, o adolescente geralmente age em grupo e está, inevitavelmente
marcado por ele.
Estes grupos, entretanto, estabelecem regras e normas que vão além das utilizadas
e aceitas nos grupos, podendo haver conflitos entre elas. Ora, não se trata de estabelecer tão
somente os limites sociais das mudanças que os adolescentes geralmente promovem onde
vivem e atuam, é preciso convida-los a viver tais ambientes, que são, ao mesmo tempo,
formadores e restritos da formação. (COSTA, 2002: 46).
De acordo com o autor citado, estes ambientes constituem mais um espaço onde
eles podem desenvolver suas habilidades criativas e inovadoras, pelo incentivo e apoio às
atitudes que indique e pratiquem a solidariedade entre seus membros. Percebe-se através das
observações feitas pela pesquisadora que realmente os adolescentes gostam e se sentem bem
em estar e fazer parte do Balakubatuki.
Como você era antes de conhecer o projeto?
Eu era muito sozinha não tinha muitos amigos
Era muito trancado
Eu era tímido
Chato e triste
Eu não tinha muita esperança no futuro e isso me deixava triste
Eu era uma pessoa que não tinha nenhum conhecimento com a música
Eu não tinha muitos amigos e era um pouco solitária me sentia sozinha
Briguento
Fechado e calado
Eu era triste e boba e também era chata
Eu era um menino mal educado e respondia aos mais velhos
Não era muito feliz vivia sozinha
Achava a vida triste
Era muito boba, e não tinha muito que fazer
Não tocava nada
Era muito bagunceiro e fazia coisa errada
Tinha vergonha de me soltar
Era muito triste não conversava com ninguém era estranha
Me sentia muito presa
Na minha, não tinha muitos amigos
Capetinha
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
03
02
02
02
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
01
61
Aqui os adolescentes falaram de como eles eram antes de conhecer o projeto,
relatando serem pessoas tristes, sozinhas e sem amigos. Aqui aparece mais uma vez a
importância das amizades para eles. “As amizades normalmente envolvem sentimentos mais
intensos, são mais abertas e mais honestas e menos preocupadas com tentativas autoconscientes de representar papéis para ganhar popularidade e aceitação social”.
(NEWCOMBI, 1999: 438).
Segundo o autor, nas amizades entre adolescentes o outro compartilha
brincadeiras, sonhos, amizades e desavenças, que é diferente do “outro” que é um adulto que
orienta, ensina limites, pune e protege.
Outro dado interessante que surge nas respostas é o fato de buscarem elementos
que os outros acham deles como ser “chato”, “estranho”, “capeta” e “bobo”, pois a identidade
não é puramente individual e interna. Um componente importante de uma identidade
verdadeira segundo Osório (1992), é a consciência entre como o adolescente acredita ser, e
como ele percebe que os outros o vêem. Uma identidade é tanto pessoal quanto social.
Você mudou?
Sim
30
Não
Um pouco
Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Mais uma vez todos os adolescentes responderam sim, todos afirmaram que
mudaram. O item seguinte diz respeito a essas mudanças.
62
Como foram essas mudanças?
Muito massa
Para melhor
Foram legais
Boas, sou mais feliz
Eu cheguei aqui e mudei
Foram legais, agora eu não tenho medo de me soltar
Fiquei mais alegre
Essas mudanças foram para melhor
Boas para mim
Cheguei no projeto e fiquei muito feliz
Gostei mais de mim
Com ajuda da minha mãe e dos professores da casa da liberdade
Muito importante para mim agora sou feliz
Legal sou uma pessoa com amigos
Aprendi a tocar percussão
Agora já consigo ver o que eu devo fazer, sei o que é melhor para mim
Muito boa
Importantes para mim
Legais agora toco muito
Estou mais alegre
Com o apoio dos professores fiquei melhor
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Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Aqui os adolescentes colocam como foram essas mudanças vivenciadas por eles,
sempre de uma forma prazerosa, a exemplo de um termo usado e bem característico dessa
fase, o “muito massa”, que vem para confirmar isso. Todos relacionaram as mudanças como
algo bom em suas vidas.
De acordo com Levisky (1997), é durante a adolescência que se tem uma segunda
ou grande oportunidade para o oferecimento de condições construtivas ou destrutivas ao
desenvolvimento da estrutura da personalidade dos jovens, a partir da interação com a
sociedade da qual fazem parte e na qual vão buscar seus novos modelos identificatórios.
63
Você acha que a música tem algo a ver com a mudança?
Sim
Muito
Tem muita mudança
Sim aqui é legal
Sim os professores são legais
Sim, pois você anda numa estrada deserta e não ouve nada, você é a estrada você
senta e fecha os olhos e canta pelo menos você ouve a sua voz
Sim, pois a música faz com que você se expresse melhor
Acho que sim a música faz você ver a vida diferente
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Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
Esta pergunta foi feita para os adolescentes relacionarem suas mudanças com a
música, e todos afirmaram que a música e o projeto têm grande parcela para esta mudança.
Segundo Brito (2003), a música não é só uma técnica de compor sons, mas um
meio de refletir e de abrir a cabeça do ouvinte para o mundo. Muitos autores afirmam que a
música é o veículo universal de emoções, ela mexe com sentimentos, tanto para quem executa
e faz como para quem se delicia em ouvir.
Como você é agora?
Feliz
Legal e alegre
Mais alegre
Eu sou amigo
Melhor que antes
Sou legal e ajudo as pessoas
Eu sou o mesmo só que menos triste
Agora sou mais alegre
Eu sou mais alegre e também toco muito
Um menino barulhento
Eu sou uma pessoa educada e não respondo aos outros
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Fonte: Pesquisa realizada no 2º semestre de 2004
As mudanças citadas por eles estão relacionadas com sentimentos positivos, onde
um número significante de adolescentes respondeu serem felizes agora, alguns ainda
responderam serem legais e alegres. De acordo com Levisky (1997), os jovens são
vulneráveis e suscetíveis às influências oriundas do meio social. Buscam fora do núcleo
64
familiar, aspectos que desejam incorporar a sua realidade pessoal ou outros, com os quais
necessitam aprender a lidar e que constituem uma parte do seu eu.
Conforme descreve Becker (1989), a música auxilia na socialização de crianças e
adolescentes e facilita a expressão de sentimentos, ajudando assim, na comunicação entre
pessoas.
8.2 Exposição e Análise Qualitativa
Para uma melhor compreensão do tema pesquisado foram feitas entrevistas semidirigidas na Casa da Liberdade. Foram entrevistados dez adolescentes de ambos os sexos.
A escolha pelos entrevistados se deu do próprio interesse deles em estarem
participando. As entrevistas foram realizadas no refeitório e aconteceram nos intervalos de
cada oficina. Por se tratar de entrevistas semi-dirigidas, foi elaborado um roteiro.
8.2.1 Análise das Entrevistas dos Adolescentes
A primeira etapa da entrevista foi de identificação, como idade, estado civil, se tem
filhos ou não, a escolaridade, e o tempo de projeto. Todos os entrevistados possuem mais de
um ano de projeto Balakubatuki, são solteiros e não possuem filhos.
A grande maioria dos entrevistados mora com a mãe e irmãos, totalizando uma
família pequena. Dos dez entrevistados cinco moram no Morro do Mocotó, dois são da
Prainha, dois moram no Morro da Queimada e um mora no Morro do Bode.
A comunidade do Mocotó é bastante antiga e lá se encontram os primeiros
moradores do Morro, alguns com idade bastante avançada e outros mais jovens. Como já dito,
o Morro Mocotó enfrenta vários problemas, como a falta de condições básicas de alguns dos
65
seus moradores, mas uma outra característica dos moradores desta comunidade que cabe aqui
ressaltar é o envolvimento com a arte.
O Mocotó com certeza surpreende carnavalescos, artesões, bordadeiras e
músicos, são muitos os casos comprovados de artistas que ou artesões
vivendo ou que já viveram no Morro do Mocotó, assim como são raros o
que sobrevivem da arte. Confeccionar, com linhas, canetas personalizadas,
pulseiras ou mesmo arcos de cabelo são alguns dos muitos trabalhos
artesanais feitos no Mocotó. Pintar pano de prato, bordar toalhas em ponto
cruz ou até costurar, faz parte dos afazeres de um morador do Mocotó.
(RIBEIRO, 1995:08).
A autora nos fala que o ritmo normal do Morro muda em fevereiro, a adrenalina
das pessoas se exalta, fazendo com que estas mostrem um brilho diferente nos olhos, por
estarem vivendo a preparação para o carnaval.
Quando perguntados se gostam de morar no local em que moram todos os
adolescentes responderam que sim, exceto um que disse não ter amigos no local onde mora.
“É legal tenho amigos lá, saio com os meus amigos, jogo futebol...”.
“É bom tenho amigos, é massa lá...”.
“Gosto de lá, lá é legal tem um monte de coisa para fazer tem um espaço para
jogar bola dá para soltar pipa. Para nos da sociedade Mocotó não é perigoso né, mais se tu
for lá não sei”.
Nesta fala percebe um certo grau de divisão, a “sociedade” Mocotó e o restante da
sociedade. Embora Guareschi (2003), o viver em uma favela/Morro pode ser compreendido
pelos próprios moradores como viver excluído na sociedade e não considerar a si mesmo um
cidadão, os entrevistados afirmaram gostar do local que vivem, as respostas dadas por eles
foram relacionadas com as amizades que tinham no local onde moravam.
66
Infância
Esta pergunta surgiu para perceber através das falas dos entrevistados como foi a
infância, das brincadeiras e dos amigos, pois de acordo com Osório (1992), a identidade está
relacionada com o desenvolvimento e possui íntima relação com o local onde o indivíduo está
inserido.
Muitos dos adolescentes relataram que não tiveram uma infância agradável, eles
relataram que se sentiam presos, não brincavam muito e não tinham muitos amigos.
“Normal... (risos) Na verdade eu não brincava muito”.
“Minha infância? (...) Foi horrível. Porque antes eu posso dizer que vivia a vida do
crime. Daí, conheci o Balaku e eu parei. Aprontava bastante e fumava maconha dentro da
sala noIinstituto”.
“Não foi muito legal não saia muito de casa para brincar, era um pouco preso”.
De acordo com Papalia (2000) para a criança ser aceita no grupo de amigos, ela
precisa aceitar seus valores e normas de comportamento. Muito embora esses possam ser
desejáveis, as crianças podem não ter força para resistir. É geralmente na companhia de
amigos que as crianças praticam roubo pelas lojas, começam a usar drogas e agem de outras
maneiras anti-sociais. E segundo a autora tais pressões podem transformar uma criança
problema em um adolescente delinqüente, sabe-se que atualmente este é um dos problemas
enfrentado pela sociedade.
Outros adolescentes lembram com carinho da fase de criança:
“Eu brincava um monte, brincava de pipa”.
“Acho que minha infância toda passei na casa da liberdade. Brincava de carrinho de
bola e pipa”.
67
Embora os pais tenham um papel importante na personalidade, assim como em
todos os outros aspectos do desenvolvimento, o grupo de amigos na infância começa a ser
importante. “As crianças se desenvolvem física, cognitivamente e emocionalmente, bem
como socialmente, por meio de contato com outras crianças”. (PAPALIA, 2000:247).
Assim dessa forma o brincar, o contato com outras crianças é algo importante para
o seu desenvolvimento.
Segundo Vigotsky (1994), as características individuais de cada pessoa depende da
interação com seu meio físico e social. O grupo social onde o individuo está inserido fornece
formas de perceber e organizar o real, a interação entre indivíduos particulares desempenha
segundo o autor um papel fundamental na construção do ser humano.
Amigos na infância
Aqui os adolescentes relatam que não tiveram muitos amigos quando crianças, o
lugar onde moravam e o medo dos pais de estarem se envolvendo em algo errado ou com
pessoas erradas reforça isso.
“Só os meus primos, minha mãe não gostava que eu brincasse”.
“Não muito, mais da família”.
“Hoje eu acho que nesta época eu não tinha amigos”.
É na infância que a criança se beneficia de diversas maneiras com as brincadeiras
com seus amigos. De acordo com Papalia (2000), elas desenvolvem habilidades necessárias
para a sociabilidade e a intimidade, fortalecem a intimidade e adquirem um senso de
pertencer. Elas são motivadas a realizar e adquirir lideranças, um senso de identidade.
Adquirindo segundo a autora liderança, habilidade de comunicação, cooperação, papéis e
regras.
68
A maioria dos entrevistados não teve uma infância com muitas brincadeiras, com
muitos amigos, tinham apenas o contato com as pessoas mais próximas, com as pessoas da
família.
A escola
Esta pergunta surgiu para estar entendo um pouco mais a trajetória de vida dos
adolescentes até hoje, pois sabe-se que a identidade é dada no social com as relações nos
meios em que o adolescente está inserido.
A escola é a experiência organizadora central na vida da maioria dos
adolescentes. Ela oferece oportunidades para adquirir informações, dominar
novas habilidades, aperfeiçoar-se habilidades já adquiridas: participar nos
esportes, nas artes e em outras atividades: explorar opções vocacionais, e
estar com amigos. Ela amplia os horizontes intelectuais e sociais.
Entretanto, alguns adolescentes vêem a escola não como uma oportunidade,
mas como mais um obstáculo no caminho para idade adulta. (PAPALIA,
2000: 332).
Através das entrevistas percebe-se que os adolescentes não gostam da escola, mais
sabem que ela tem um papel importante, por isso continuam estudando ainda.
“Gosto, antes não gostava muito mais agora eu gosto, já to quase saindo
também”.
“Digamos que sim”.
“É... Mais ou menos, depende da aula”.
“Das aulas eu gosto só não gosto dos professores”.
Os conteúdos no colégio são passados de uma forma muito maçante para os
jovens, a escola é cheia de regras e normas, as quais muitas vezes afastam o adolescente da
própria escola.
69
Como é a escola que você estuda? Você tem amigos?
Todos os entrevistados disseram que tem amigos na escola, falaram que gostam da
escola, mas existem algumas coisas das quais não gostam no local onde estudam, seja as
aulas, as brigas que acontecem no colégio ou a forma dos professores dar as aulas.
“É legal, é grande, às vezes fica chato por causa dos professores”.
“À noite, eu estudo a noite lá, daí a noite é chato não tem muita coisa para
chamar os alunos. Os professores só vão lá dão a aula e sai. É uma coisa robótica”.
“É legal mais às vezes tem brigas, essas coisas são chatas. Não sempre mais às
vezes tem bate-boca”.
É na escola que os adolescentes encontram a sua turma, pois se sabe que nessa fase
os grupos e as turmas construídas por afinidades fica muito evidente. Conforme Newconbe
(1999), é importante reconhecer que a escolha que um adolescente faz em favor de um grupo
depende em grande parte das características do adolescente.
“... Eu comecei a estudar este ano lá, porque eu treino nesta escola, no começo
não queria estudar no Instituto porque achava que só tinha ‘paty’”.
Nesta fala percebe-se a não identificação com as “patys”, embora as turmas de
companheiros de fato exerçam pressão sobre os indivíduos para que estes se engajem em
certos tipos de comportamento, conforme nos fala Newcombe (1999), existe uma forte
tendência para que o adolescente inicialmente procure certos grupos, porque tem
características com aquele grupo, e desta forma, a identidade vai se construindo.
Outros projetos?
“Faço aula de contra-baixo, é contra-baixo clássico na orquestra sinfônica”.
70
“Freqüento um que eu toco violino numa orquestra”.
Aqui os entrevistados responderam se freqüentavam algum outro projeto ou
faziam algum tipo de aula. A metade dos entrevistados estão em um outro projeto
denominado “orquestra no morro”, que ensina crianças e adolescentes a tocarem algum tipo
de instrumento de orquestra. Os outros adolescentes entrevistados só fazem as aulas do
Balakubatuki. Dos entrevistados que responderam estarem fazendo outras aulas além do
Balakubatuki, todos disseram que gostam das aulas e também gostam de estarem em outro
projeto e que possuem amigos lá, já que muitos são do Balakubatuki.
Você gosta de música?
Esta pergunta foi feita para comparar com a pergunta do questionário, já que no
questionário os adolescentes preencheriam sim ou não, aqui eles poderiam estar falando.
Todos os dez entrevistados responderam que gostam de música, um deles respondeu:
“Gosto eu vou fazer faculdade de música, até”.
Desta forma fica claro que eles estão no projeto porque realmente gostam.
Gostava de música antes de entrar no projeto?
Esta pergunta também estava no questionário, mas como os entrevistados não
necessariamente responderam o questionário foi optado por estar refazendo a pergunta.
Dos dez entrevistados quatro responderam que gostavam de música, um disse que
mais ou menos e cinco responderam que não gostavam e nem sabiam o que era música antes
de conhecer o projeto.
“Não nem sabia o que era. Ai, depois fui aprendendo aos poucos”.
71
“Eu achava que gostava mais nem sabia o que era”
Percebe-se que os que responderam não gostar de música antes de conhecer o
projeto, relacionam música com sentido de fazer e tocar e de conhecer realmente as técnicas
de música. De acordo com Matriz (1981) a música está presente em todas as culturas
humanas conhecidas. Assim de uma certa forma todos nós conhecemos e sabemos o que é
música, mas no seu sentindo mais básico.
Que tipo de música você gosta?
Quando perguntado que estilo de música gostavam, os ritmos escolhidos foram o
reggae e o hip hop, vindo ao encontro das respostas dadas por eles no questionário.
O hip hop assim como o reggae teve origem na Jamaica, segundo Rocha (2001),
sobre as tradições africanas, estes jovens, socialmente marginalizados, começaram a encontrar
uma maneira de construir e expressar um novo estilo individual, adquirir um lugar de poder,
desafiar a ordem social vigente e comunicar uma energética e exuberante identidade grupal.
Já que tanto o reggae e o hip hop, têm a característica de falar através da música sobre os
problemas enfrentados pela sociedade.
O que significa música para você hoje?
Nesta pergunta os adolescentes responderam o que significava a música hoje para
eles, já que muitos afirmaram não saber o que era música antes de entrar para o projeto.
Percebe-se através das falas que a música aparece para os adolescentes como um
elemento positivo, um elemento de mudança.
72
“Há parece que eu nasci de novo”.
“Significa muita coisa, porque eu vou ser musico um dia talvez, acho que significa
o que eu sou... Se não fosse a música acho que não seria assim”.
“Poder olhar para o futuro com outro pensamento”.
“Bastante coisa, pode mudar as pessoas”.
Neste processo de construção da identidade que fará com que o adolescente parta
em busca de identificações, encontrando outros “iguais” e formando seus grupos. A
necessidade de dividir suas angústias, segundo Osório (1992), e padronizar suas atitudes e
idéias faz do grupo um lugar privilegiado, pois nele há uma uniformidade de comportamentos,
pensamentos e hábitos.
Com o tempo, algumas atitudes são internalizadas, outras não, algumas são
construídas e o adolescente, pouco a pouco, percebe-se portador de uma identidade que, sem
dúvida, foi social e pessoalmente construída. Desta forma os adolescentes do projeto
Balakubatuki como se pode ver, vão construindo seus objetivos, reformulando valores junto
com outros adolescentes pertencentes ao seu grupo.
Como conheceu o projeto?
Esta pergunta também esteve nos questionários aplicados, sendo que as respostas
também foram as mesmas. A grande maioria dos adolescentes já estava na Casa da Liberdade
quando o projeto foi iniciado naquele local, motivo pelo qual passaram a fazer as aulas.
Apenas dois dos entrevistados entraram por indicação de amigos.
73
Como foi a primeira aula? Você gostou?
Nesta pergunta os adolescentes se mostraram um pouco indecisos, metade dos
entrevistados gostaram da primeira aula, outros, porém, não gostaram.
“Foi mais ou menos já queria logo de cara tocar, parece fácil mais tem que ter
dedicação”.
“Sempre a primeira aula é confuso, não sabia nada não conhecia o professor. Ele
chegou dizendo que a gente ia tocar percussão e chegou com uma latas... Ta percussão é
isso”.
“Não gostei muito porque ele trazia as baquetas e a gente tocava no chão. Eu
queria já tocar no instrumento mais depois entendi que a gente tinha que aprender no chão
primeiro para depois tocar nos instrumentos. Agora eu gosto”.
“Não gostei muito, não gostava da cara do professor, tipo quando entrava um
professor a gente não gostava dele para a gente mandar ele embora para não ter aula”.
O “não gostar da aula” estava ligado à própria ansiedade dos jovens em estar
tocando o instrumento. O fato de não conhecer o professor, de ser obrigado de uma certa
forma a estar fazendo a oficina faz com que o jovem se rebele para a aula.
Obedecer à autoridade do adulto não corresponde ao desenvolvimento do próprio
EU. Neste movimento contrário cresce a necessidade de liberdade e de coerência consigo
mesmo, norteando o caminho de adaptação e autonomia. Este exercício entre conflito e
adaptação “favorece a capacidade de adaptação do indivíduo a uma sociedade em contínua
mudança e conflito” (OUTEIRAL,1994: 37).
74
O que você mais gosta aqui?
Segundo os adolescentes entrevistados o que eles mais gostam do projeto são as
aulas de percussão. Sete entrevistados responderam gostar das aulas de percussão, os outros
três responderam que não sabiam dizer o que mais gostavam. “Aqui do projeto? Não tem o
que eu mais gosto, tudo é bom”. Mais uma vez fica clara a grande aceitação do projeto pelos
adolescentes.
A aula de percussão foi escolhida pelos entrevistados como sendo a aula preferida
por eles. A percussão de acordo com Gonçalves (1999), trabalha a questão do tocar em
conjunto “um grupo de percussionistas trabalha junto”. (GONÇALVES: 1999:60). O autor
nos fala que esse aspecto quando transferido para uma situação de ensino-aprendizagem
torna-se de fundamental relevância, já que a prática em conjunto é uma atividade
imprescindível para a construção do conhecimento musical do estudante.
Fez amigos novos no projeto? Já conhecia estas amizades antes?
As amizades na adolescência são maior do que em qualquer outra época da vida.
Outeiral (1994) nos fala que os adolescentes constituem uma imagem ideal de si mesmos
baseados nos critérios do grupo, seus modos, seus valores e costumes. Seguir um grupo é uma
maneira de afirmar-se, alinhar-se, integrar-se. Como não se sentem seguros, buscam a
segurança perdida no grupo de amigos.
75
Os adolescentes entrevistados do projeto Balakubatuki afirmaram que dentro do
projeto fizeram amizades novas. Destas amizades, alguns já eram conhecidos do colégio onde
estudavam, mais afirmaram que foi dentro do projeto que ficaram amigos.
O que você acha que as pessoas de fora pensam do projeto?
A maioria dos adolescentes ao responder à pergunta afirmou que as pessoas de
fora não conheciam o projeto realmente, e desta forma não possuíam uma opinião favorável
ao projeto. Mas, segundo eles, as apresentações feitas fizeram com que as pessoas
conhecessem o projeto realmente e passassem a apreciá-lo.
“Não sei cada pessoal pensa de um jeito diferente. Mais eu acho que bem, não é à
toa que chamam a gente para fazer apresentações”.
“Acho que antes eles pensavam que era um monte de menino do Morro que não
queria nada com nada, não davam muita bola para gente não, mais agora a gente se
apresenta, e sempre tem um monte de gente vendo”.
“(...) tem gente que pensa que isso aqui é coisa ruim que só tem guri do Morro
mais eu acho legal”.
“Eu acho que eles falam um monte do projeto, que aqui é uma bomba que vai
explodir de bagunça. (...) mais quando a gente se apresenta tocando percussão, violão eles
vejam que é legal, que a gente é disciplinado”.
Fica claro através das falas que há uma certa discriminação sentida pelos
adolescentes em relação às pessoas de fora, e a própria sociedade. Segundo Ferreira (1980)
76
A relação entre morar no Morro, na periferia, nos bairros pobres e ser
delinqüente, vadio, acomodado e não participante, tornou-se uma premissa
necessária e natural que fundamenta não só a visão popular e institucional,
como também algumas abordagens científica das populações
marginalizadas. (FERREIRA, 1980: 58).
Assim como nos fala o autor, embora a maioria dos moradores dos Morros, das
favelas e periferia não sejam delinqüentes, todos são tratados como tal, gerando a necessidade
de tentarem se defender dessa classificação.
O que é o Balakubatuki para você?
Esta pergunta foi feita para que os adolescentes pudessem comentar sobre o
projeto Balakubatuki. Assim como nos questionários feitos, todos os entrevistados possuem
uma grande aceitação pelo projeto. Todos descreveram o projeto como algo bom que surgiu
em suas vidas.
“Um mundo novo”.
“(...) É o ritmo Balaku é o ritmo e paz também, porque junta o ritmo com a paz.
Porque os toques que eles passam para nós transmitem alguma coisa. Além do próprio toque,
transmite na minha questão a paz”.
“Algo de bom que surgiu na minha vida... esperança que surgiu”.
Percebe-se desta forma o grande carinho e aceitação deles pelo projeto.
77
Como você era antes de conhecer o projeto?
Nesta pergunta os adolescentes relataram como eles eram antes de entrar para o
projeto Balakubatuki. Muitos responderam que antes eram mal educados, que brigavam e que
não obedeciam a seus pais.
“Eu era bagunceiro, aprontava direto. Eu brigava na rua”.
Outros se sentiam sozinhos, diziam não ter muitos amigos para conversar e
brincar.
“Eu era um pouco trancado minha mãe não gostava que eu andasse com má
companhia, no Morro tem bastante isso. E isso me deixava triste”.
Todos os adolescentes entrevistados falaram algo de si. Através de suas falas
percebe-se que eles não se sentiam compreendidos e aceitos. A questão de não ter amigos e se
sentir sozinho também aparece nesta questão.
Você mudou?
Quando perguntado se eles haviam mudado todos os entrevistados afirmaram que
mudaram. A mesma resposta dada no questionário, oportunidade em que todos também
responderam que haviam mudado.
78
Você acha que a música tem a ver com esta mudança?
Todos afirmaram que a música tem a ver com suas mudanças.
“Muitas vezes a harmonia tu não encontra em qualquer coisa né? E na música tu
sempre encontra”.
“Tem sim aprendi a me soltar mais”.
Assim compreendemos que houve mudanças na vida dos adolescentes depois de
entrarem para o projeto Balakubatuki, já que o projeto tem como instrumento de trabalho a
música, ensinando a tocar instrumentos musicais como a percussão e o violão.
Como você é agora?
Primeiro os adolescentes relataram como eram antes do entrar para o projeto,
depois falaram de suas mudanças e em seguida pediu-se para descrever como eles se
percebiam agora. Muitos afirmaram que eram pessoas educadas, legais e amigos. Outros
responderam que não se sentem mais sozinhos e são mais felizes e alegres.
“Eu sou educado, conheço um monte de gente e estudo música”.
“Sou legal e me divirto mais”.
“Agora não faço mais bagunça.. quer dizer me solto mais. E eu sou mais dedicado
a música”.
79
A crise de identidade na adolescência é marcada segundo Osório (1992), também,
por uma confusão de identidade, que desencadeará um processo de identificações com
pessoas, grupos e ideologias que se tornarão uma espécie de identidade provisória ou coletiva.
No caso dos grupos, até que a crise em questão seja resolvida e uma identidade autônoma seja
construída.
Fica claro que os adolescentes entrevistados têm um envolvimento muito forte
com música, e que suas mudanças são percebidas por eles como positivas.
Como você se vê no futuro?
Através desta pergunta os adolescentes entrevistados relataram seus planos para o
futuro ou expressaram como gostariam que fosse o seu futuro.
Na infância, e principalmente na adolescência, os projetos de vida são ricos em
detalhes, pois o indivíduo percebe toda a vida a sua frente, dispondo dela conforme suas
fantasias e desejos determinem. Conforme Ferreira (1980), é nesta fase que os projetos
expressam também os principais valores subjacentes às escolhas feitas, porque o
descomprometimento com uma posição social assumida dá ao jovem condições para criticar e
escolher os padrões sociais que está assimilando.
“Gostaria de me formar em música”.
“Futuro? Futuro acho que não tem o que fazer na verdade, a gente só inventa
paisagem do futuro, não posso falar no futuro vou ser tal coisa, pode acontecer um
80
imprevisto e mudar.(...) Gostaria de fazer faculdade de música, vejo meu futuro ligado a
música com certeza”.
“Penso em montar uma banda”.
“(...) Me vejo ligado na música. Fazendo concerto e tocando percussão, eu adoro
isso”.
“Me vejo fazendo um monte de coisas boas... quem sabe eu dou aula de música, de
percussão que é o que eu toco melhor”.
A maioria dos jovens entrevistados falou do seu futuro, como eles se viam daqui a
alguns anos, sempre relacionado com música, como se pode ver. Muitos pensam em continuar
estudando música e até fazer faculdade, montar uma banda e continuar tocando. Alguns
também pensam em estar ajudando as pessoas o que demonstra um senso de solidariedade, ser
ajudado e estar ajudando o próximo.
8.2.2 Análise das Entrevistas com os Professores
Durante o decorrer da pesquisa, sentiu-se a necessidade de realizar uma entrevista
com os professores do projeto Balakubatuki. As entrevistas aconteceram na Casa da
Liberdade antes e depois das aulas.
O projeto é composto por cinco professores. Foram entrevistados três professores.
Destes, dois possuem terceiro grau incompleto e um possui terceiro grau completo. Um dos
professores é também coordenador do projeto. Todos são professores de percussão, sendo que
um deles também ministra aulas de violão. Todos participam há mais de um ano do projeto.
81
As oficinas do Balakubatuki são divididas em turma I, turma II e turma III. A turma I
é compreendida pela faixa etária de 07 a 10 anos, a turma II compreende a faixa etária de 10 a
14 anos e a turma III corresponde à turma de experiência de 14 a 21 anos. Em cada turma há
um trabalho diferenciado. É o que comenta um dos entrevistados:
Cada turma tem uma atividade diferente pelo fato da faixa etária diferente.
De 07 a 10 anos a gente faz mais um trabalho de musicalização assim, a
gente não trabalha tanto o ritmo e muito o tocar é mais o lado de percepção
musical de ouvir um pouco os instrumentos de saber um pouco a sonoridade
dos instrumentos um pouco da história dos instrumentos e ensina a cantar as
músicas que o Balakubatuki trabalha também. A de 10 a 14 a gente já faz
um trabalho mais de tocar mesmo percussão, trabalhar em grupo tocando
todo mundo junto. Ai desse trabalho à gente desenvolve a cidadania que a
gente quer trabalhar no projeto também, através da música, da arte ta
passando essa consciência para a criançada a importância de se respeitar de
ouvir o amigo de respeitar o amigo que ta ali no grupo. A gente divide em
grupo às vezes, faz um bloco de percussão, e às vezes um grupo tem que
ficar um pouco quieto para tocar, às vezes o próprio arranjo assim, às vezes
um arranjo fica um grupo só tocando e o outro esperando a hora de tocar,
daí entra, então a gente associa toda essa parte musical com o dia-a-dia
mesmo, de ta se respeitando ouvindo o outro. E o adolescente é um trabalho
mais aprofundado na música mesmo, de tocar bastante a gente ensina a
construir os instrumentos, afinação e sonoridade de todos os instrumentos,
pesquisa às vezes sobre um ritmo novo e mesmo eles auxiliam a gente nas
aulas dos pequenos. Ta investindo neles para eles serem os futuros
professores. (entrevista 01)
O projeto Balakubatuki se preocupa muito em trabalhar a cidadania com seus
alunos, entendendo-se por Cidadania “o direito de viver decentemente” (DIMENSTEIN,
2000:29).
A idéia do projeto não é de formar grandes músicos, mas sim, através da música,
passar ensinamentos para os alunos, já que a música se torna um elemento de grande
aceitação para as crianças e adolescentes.
(...) a idéia nossa não é nem que os alunos sejam músicos profissionais ou
um super percussionista não é nada disso é mais para estar usando a música
para atrair eles porque as crianças gostam de música gostam de som, gostam
de tambor, gostam de bater e a gente usa isso para estar passando lições de
cidadania para eles. (entrevista 02)
82
Mais uma vez fica clara a importância de fazer com que estas crianças e
adolescentes se respeitem e sejam respeitados. De acordo com Dimenstein (2000), cidadania é
o direito de ter uma idéia e poder expressá-la. É o direito de ser negro sem ser discriminado,
de praticar uma religião sem ser perseguido, é o direito de ter direitos. E é através das aulas,
da música ensinada que elas passam a se perceber como cidadãos.
São as pequenas regras, que tu vai colocando que vão passando para a vida
da pessoa, daí tu vê que eles ensinam cidadania ensinam não sei o que
através da música, epâ mais a onde que ta a cidadania, esta aqui muitas
vezes essas pequenas regrinhas elas passam para a vida da pessoa e
começam a ver que existem determinadas regras para atingir determinados
é... Que existem pequenos deveres para ele ter o beneficio das coisas.
(entrevista 03)
Um outro ponto importante da aula é a questão da capoeira, que, segundo um dos
professores entrevistados, “a capoeira é um método de ensinar música altamente brasileiro
100% nacional, bom, perfeito e eficaz”.(entrevista 03). Segundo Capoeira (1999), através da
mistura de movimentos de luta e música, a capoeira tornou-se uma marca nacional. O ritmo
envolvente, a utilização de instrumentos como berimbau, chocalhos e pandeiros, faz com que
essa arte, marginalizada no passado, atraia hoje a atenção de admiradores no mundo inteiro.
A dança ajuda a ter ritmo, tu estuda vários educadores mundiais, caras feras
mesmo com diversos métodos, pô eles usam o corpo para ensinar a música,
capoeira usa o corpo, eles usam a confecção de instrumento para ti ter um
interesse pela música, a capoeira usa... Tem isso, usa a prática de conjunto
com ritmo simples a capoeira usa isso, canto a capoeira usa isso, bater
palma, roda a capoeira usa, sem contar que é o seguinte um pode estar
tocando o outro bater palma e o outro jogando mesmo, eu tava considerando
que todo aquele universo até o cara que tava batendo palmas tava
aprendendo música. (entrevista 03)
Segundo Capoeira (1999), a capoeira, foi fortemente influenciada pela cultura
negra. Seus movimentos ou atitudes observados na roda de capoeira possuem um caráter
objetivo, como desenvolver força, reflexo e raciocínio.
83
A idéia era aproveitar os elementos da capoeira e trazer para a percussão. “Claro
com aula de percussão, vou ensinar o que é percussão, vou mostrar o que é percussão vou
mostrar quem são os grandes percussionistas brasileiros”. (entrevista 03).
À medida que as aulas foram sendo ministradas percebeu-se a necessidade de estar
modificando, deixando um pouco o método de capoeira de lado e ensinando através da
música.
Eu parti de um ensinar a música para ensinar através da música entendeu...
Então dali para eu ensinar através da música eu tive que ter um pouco mais
de paciência nesse método de capoeira e tudo mais, porque lá o objetivo era
um outro além de ensinar música. (...) Então a gente da essa volta primeiro
pra depois iniciar, mais já ensinando música nessa volta, então ensinando os
ritmos da capoeira sem caracterizar que era a capoeira usava no tambor
passava alguns ritmos para o tambor. (entrevista 03)
Outro ponto relevante apontado por um dos professores de percussão foi a não
aceitação das latas por parte dos alunos. As latas, uma das marcas do projeto, inicialmente não
foram bem recebidas. Muitos alunos ao entrar para as oficinas não gostavam de tocar nas
latas, pois achavam que latas não podia ser uma fonte sonora.
Este foi um problema que eu tive, eu não esperava isso, eu conheci o batelata de São Paulo eu conheci o Stomp1 e eu fui na inocência que eles
conheciam e eles não conheciam então lata para eles era simplesmente uma
lata não podia ser nunca um instrumento sonoro entendeu, daí eu tive que
convencer e a partir daí foi desenvolvendo as aulas. (entrevista 03)
Foi preciso criar uma didática específica que fizesse com que os adolescentes se
interessassem pela aula, e se abrissem para o novo. De acordo com Kullok (2002), ensinar é
desvendar um mundo novo, oculto. Para aqueles que buscam aprender, a aprendizagem é o
processo através do qual o sujeito se apropria ativamente do conteúdo existente.
1
Stomp companhia que percorre o mundo com espetáculos que misturam dança e música. Para este
garante-se muito ritmo, animação, objeto em movimento, criatividade usa-se instrumentos pouco
convencionais como caixotes de lixo, latas e bidões.
84
A entrevista mostrou que dos professores entrevistados todos estão no projeto por
amor a este, pela história do Balakubatuki, onde dar aulas no projeto não é visto como um
simples trabalho. De alguma forma todos os professores entraram no projeto conhecendo a
historia do Balakubatuki. Todos se mostraram muito satisfeitos em estar fazendo parte deste
projeto, e todos possuem outros trabalhos com música. “O meu envolvimento com a música é
total quando eu vi, já estava fazendo parte do grupo”. (entrevista 02)
Um dos professores entrevistados fez aulas no Balakubatuki no seu início. Ele
conta que depois teve que sair do projeto, mas nunca mais parou a sua ligação com a música.
Começou a estudar música por fora, tocou em algumas bandas, entrou para a universidade,
sempre mantendo contado com o projeto, visitando, assistindo às aulas e prestando monitoria
até receber o convite oficial para se tornar professor.
O meu envolvimento começou assim sendo aluno do Daniel e vindo aqui no
projeto vendo como tava andando ele me contanto e dando uma ajuda, às
vezes ele não podia dar aula ia viajar, ele me chamava para vir aqui quebrar
um galho. Para mim era tudo muito novo, ai pintou o convite oficial de vir
aqui e dar aula com ele. Ele tava com muitas turmas e não tava dando conta.
(...) É uma responsabilidade bem grande assim mais foi tudo uma
conseqüência de me convidar e eu estar assumindo esse compromisso e agora
eu faço faculdade de música também, que tem me ajudado. (entrevista 01)
Outro fator importante que reforça o fato dos professores se dedicarem ao projeto
por carinho, diz respeito à ausência de remuneração.
A remuneração acontece quando o projeto é aprovado. Mais é sempre uma
instabilidade a gente nunca sabe se no começo ao fim vai estar recebendo.
Então antes de tudo é um trabalho voluntário, a remuneração é
conseqüência de um trabalho que a gente vai por fora, pó a gente precisa
pagar nossa gasolina, pagar o nosso transporte, comprar uns instrumentos
melhores, então antes de tudo é um trabalho voluntário.(entrevista 01)
Segundo um dos entrevistados:
O projeto é inteiro voluntário. A gente é uma associação já faz um ano. A
gente é uma associação sem fins lucrativos e às vezes o nosso projeto é
aprovado e sai um recurso. Mais de seis anos de projeto sei lá dois só
tiveram remuneração. Esse ano a gente teve patrocínio só ate a metade do
ano, da metade do ano acabou e estamos esperando se conseguimos um
patrocínio. (entrevista 02)
85
Segundo entrevista realizada com o Coordenador do projeto este afirma:
Os próprios professores se motivaram a tipo aquele mês tal que tem um pouco
menos de trabalho, vamos ganhar só a metade, porque tipo julho e um mês
que tem férias ali no meio entendeu, mais todo mundo recebe, todos os
professores recebem porque vai preparar aula, porque vai fazer manutenção
sempre tem alguma coisa para fazer, mais a gente não recebeu a gente se
propôs a ganhar um pouco menos. (entrevista 03)
Isso prova a dedicação pelo que faz, pois voluntário é o cidadão que, motivado
pelos valores de participação e solidariedade, doa seu tempo, trabalho e talento, de maneira
espontânea e não remunerada, para causas de interesse social e comunitário.
O carinho pelas crianças e pelos adolescentes do projeto é muito visível nos
professores. “Elas possuem um potencial enorme, muito mais do que qualquer filhinho de
papai” (entrevista 02).
É legal porque gira muita criança aqui tem umas 10 crianças que estão aqui
desde os 07 anos e estão com 14, inclusive os que fazem aulas com a gente
no grupo de experiência estão desde a turma I, estão é bom, tu vê o trabalho
evoluindo, tu vê o crescimento de alguns alunos, que no começo tinham
uma dificuldade tremenda assim de ritmo por exemplo e hoje já tem
facilidade então tu vê que o resultado acontece. Sempre tem criança nova
aprendendo, inclusive tem crianças que a turma vai puxando ela para
acompanhar a turma. (entrevista 01)
As dificuldades apontadas pelos professores são referente à musicalidade das
crianças, pois muitas delas entram para o projeto sem ter contato com a música.
Eu sinto que tem muita criança que tem muita dificuldade, porque aqui tem
muita gente que chega do Oeste de SC e outros cantos e sei lá, o meio
cultural deles lá não tem muita música mais não sei o que acontece mais, eu
sinto falta de musicalidade nas crianças pelo fato deles serem de fora e não
conviverem desde pequeno com a música sei lá com o pagode que deve
acontecer lá no morro, então eu sinto falta da musicalidade, o nosso
trabalho é bem difícil por isso não é criança que vem tocando samba,
tocando pagode né, como acontece lá no Rio de Janeiro lá no Nordeste, tu
vai trabalhar com a criançada e a criançada já ouve samba maracatu, frevo
desde pequeno, na hora de tu ensinar alguma coisa elas tem muita
facilidade. Então aqui a dificuldade que eu tenho é trabalhar com essa parte
musical tem crianças que começam do zero então tu tem que fazer um
trabalho de ritmo. (entrevista 01)
Aqui é levantada a questão cultural onde o indivíduo está inserido. De acordo com
Freire (1987), a invasão cultural tem uma dupla face, de um lado a dominação e de outro o
86
invadido. Porém nem sempre esta dominação é vista como algo prejudicial ao indivíduo,
como o caso dos alunos do Balakubatuki, onde a maioria deles entra para o projeto sem ter
conhecimento musical, pois em seu meio cultural a música não é trabalhada, diferente dos
alunos que nasceram no Morro e conviveram desde pequenos com a música produzida neste
meio. “O eu social dos invadidos, que como todo eu social, se constitui nas relações sócioculturais que se dão na estrutura, é tão dual quanto o ser da cultura invadida”. (FREIRE, 1987:
151).
A adolescência é caracterizada por mudanças físicas e psicológicas, a compreensão
sobre adolescência para os professores, vai desde as mudanças físicas como é o caso de um
dos professores entrevistados que relatou:
O adolescente é aquele aluno que já está se desenvolvendo, aquele aluno que
tu vê crescendo. Aquela menina que era bem magrinha e ela já começa a
tomar aquele corpo de mulher, essa fase de transição assim né, de uma coisa
bem física mesmo. E isso é bem a fase que a gente trabalha aqui, a criançada
vem aqui pequenininha daí quando tu vê, ta na turma II já está maiorzinho já
ta um menininho forte, depois ele já está adolescente já ta maior que tu, e tu
ta ali dando aula para ele ainda, ta ali ainda aprendendo contigo. (entrevista
01).
Sabe-se que na adolescência ocorre uma série de mudanças relacionadas com o
corpo, que de infantil passa a dar formas para um corpo adulto. Porém, outra mudança é
percebida neta fase; a adolescência é a fase dos conflitos, representa um momento de crises,
porque apesar da influência da sociedade, o jovem tem idéias próprias. Está ansioso por
construir um mundo melhor e contesta tudo o que está à sua volta. É o período onde as
responsabilidades aumentam, onde se começa a ter deveres.
É a descoberta de si mesmo. É quando começamos a pensar um pouco mais
maduro, pois as responsabilidades vão aumentando. Muitas coisas
acontecem, relações sexuais, voto, trabalho...(entrevista 02)
Para mim é uma faixa etária, para mim e só isso primeiro. Mais eu começo a
ver que dentro dessas faixas etária, por exemplo, eu comecei a ver que
sempre no final da turma II, ali de 13 e 14, sempre eles se rebelam, sempre
tem um que se rebela... Há tu é otário mesmo, ou eles participam da aula
mais é sempre pegando no pé tirando onda... Daí eu comecei a observar isso
87
nas outras turmas e percebi que sempre no final das turmas que a gente
separa, que a gente separa de 07 a 10 e de 10 a 14 e acima de 14, sempre no
final dos de 07 a 10 e os de 10 a 14 eles começam realmente a se rebelar um
pouco nas aulas, mais eu comecei a ver que eles estão começando a ficar
prontos para ir para outra turma. (entrevista 03)
A realidade dos alunos do projeto é um dado apontado pelos professores. Segundo
eles, existem muitas crianças com problemas, e estes problemas vão desde falta de assistência
básica até a prostituição e envolvimentos com drogas.
A realidade social mesmo das crianças varia muito mais tem crianças que
perderam o pai. Perderam a mãe por ser sei lá, às vezes foram assassinado no
morro de alguma forma ou o pai que usavas drogas e morreu de AIDS, ou a
menina que apanha do pai, ou o pai que é alcoólatra e agride. São varias
situações que a gente tem que estar por dentro né.(entrevista 01)
Os problemas vão desde drogas que assim o que todo mundo já pensa... A
vai proteger das drogas, mais vai até muito mais, como eu to te dizendo de
abandono, estupro dentro de casa mesmo, a mãe que apanha sabe, de
prostituição, nessa idade abaixo de 14 porque durante muito tempo o
projeto só atendeu abaixo de 14. (entrevista 03)
Há uma certa preocupação quanto ao tratamento dado pelos professores para seus
alunos. Eles procuram estar atentos à realidade de cada um, tomando cuidado nas suas falas e
atitudes. Uma nova oficina foi criada para não deixar que os alunos ao completar 14 anos
saíssem do projeto. Uma preocupação apontada por um dos entrevistados.
Não adianta tu só ficar aqui na sala de aula a gente tem que estar ali por
dentro saber o que acontece com cada criança porque o tratamento de certa
forma a gente deve tomar cuidado às vezes com algumas crianças que tem
grandes problemas. Tem crianças que tem depressão, tem crianças que tem
tendência a suicídio. Que são crianças que já tentearam se suicidar então a
realidade das crianças aqui realmente não é que nem num colégio particular
por isso a gente que tomar cuidado com que a gente fala.(entrevista 01)
Quando eu comecei a ver que eu estava perdendo meus alunos de 14 eu
comecei a pensar meu Deus eles estão fazendo 15 e estão indo para onde.
Eu criei não existe na Casa da Liberdade, eu tive que dar um teor
profissionalizante para poder ter essa turma inclusive, porque eu acho que
não existe profissionalizante de música sabe nem na universidade tu sai de
lá sabendo como eu tava dizendo sabendo música, tu pode sair de lá
professor ou tendo uma noção, mais profissionalizante tu tem que ta
tocando é no dia-a dia cara. (entrevista 03)
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Muitas crianças dentro do projeto Balakubatuki mudaram, e essas mudanças são
percebidas pelos professores, sejam estas referentes à aceitação pela aula, ou mudanças de
valores, ou ensinamentos que levam para a vida.
Então pode acontecer de varias formas, tem criança que chega aqui e não
quer nada com nada, o desinteresse dele pela percussão são totais às vezes
eles chegam aqui e não querem fazer percussão porque eles têm o direito no
projeto de escolher as atividades deles, então ta, mais depois vêem as
crianças se apresentando vê os amiguinhos se apresentando vendo o
Balakubatuki tocar com o Iriê né... Daí eles começam não, pô o negócio não
é só aquela aulinha não, é muito mais. (entrevista 01)
O projeto procura além da música, apresentar um pouco de cidadania e
disciplina e elas percebem isso quanto você as reproduzem. Eles são muito
“ligados”. (entrevista 02)
Apareceu aqui em Florianópolis que é o Orquestrar na comunidade, que é
orquestra mesmo, todos os meus alunos que foram encaminhados também
para esse projeto, tinham um aprender assim muito rápido porque ele já vem
assim, com uma noção de música, com um respeito pelo instrumento, com
um respeito pela aula de música, com um olhar, um próprio linguajar musical
que ajuda o professor assim... Sem contar aqueles que já chegaram lendo
parte rítmica, já foi meio caminho andado para o professor. (entrevista 03)
A mudança acontece, os adolescentes passam a almejar o seu futuro, fazem planos,
criam metas. Existem também aquelas mudanças do dia-a-dia, pois em cada aula os alunos
podem apresentar-se de um jeito, pequenos acontecimentos vividos por eles em casa podem
fazer com que eles acabem descontando sua raiva nas aulas. Mas a grande preocupação dos
professores é contribuir de alguma forma para o futuro de seus alunos.
Este tempo atrás veio um dos nossos alunos conversar com um dos nossos
professores o Sergio que tu conhece, professor de teclado, para montar uma
turma ano que vem preparatória para o vestibular de música, então que dizer
já existe um caminho, eu to traçando o meu caminho.(entrevista 03)
Não tem como elas serem as mesmas do começo ao fim, nem sempre a
gente percebe por isso que a responsabilidade é muito grande, tu tem que
estar atento porque quanto mais atento a gente estiver mais a gente vai
poder resolver os problemas das crianças, então a idéia nossa é contribuir de
alguma forma. (entrevista 01)
89
Contribuindo com o futuro destas crianças e adolescentes, estes começam a mudar,
passando a elevar a sua auto-estima. Sabe-se que no mundo atual existem preconceitos em
relação a quem mora em Morros, ou a quem é negro, o que faz com estas pessoas tenham
pensamentos, atitudes e sentimentos de inferioridade. “Pobreza material não significa
pobreza cultural, cognitiva e intelectual”. (ROMÃO, 1999:16). E é isso que o projeto busca
valorizar em cada um de seus alunos, fazendo com que eles tenham uma consciência de seu
papel na sociedade, se sentindo aceitos e com uma auto-estima elevada.
Eu vejo que eles se sentem valorizados que é importante estarem
participando de um projeto desses, quando eles tocaram no sete de setembro
veio um guri para mim falar, que foi a primeira vez que ele tocou, pô
professor eu vi até um pessoal aplaudindo, cara para eles aquilo ali é o Ô...
É auto-estima é um se gostar.(entrevista 03)
Auto-estima é o sentimento de importância de valor de alguém ou de alguma
coisa, de consideração e respeito. E a cada nova aula, a cada nova apresentação os alunos vão
internalizando valores, vão cada vez mais se dedicando às aulas e não pensando em desistir.
Eu acho que o maior resultado também é eles estarem ali, ter interesse, é
pedir a oficina, porque, porque eles estando ali eu sei que eles não estão
num lugar pior, sei lá. Porque eu sei de ex-alunos que foram alunos da Casa
da Liberdade que hoje andam armado no Morro que andam metidos até o
pescoço em varias coisa, de roubo de trafico, vejo outro que estão
trabalhando tal e tal nesses empregos é... Nesses empregos que tem... Se
virando vamos dizer assim mais que eles sentem uma vontade muito
grande, que eles tem vontade de voltar. E nas pequenas relações que a gente
tem, nas poucas famílias que eu particularmente tenho assim, ou quando eu
conheço os pais nas reuniões de pais que a gente faz as reuniões tal mais
que são esporádicas, eu vejo que é assim eles tem um interesse muito
grande para que o projeto não pare, que o projeto continue porque as
crianças gostam muito.(entrevista 03)
Segundo os professores entrevistados, todos acreditam que o futuro destas crianças
e adolescentes será melhor, embora os primeiros tenham a consciência de que o caminho da
escolha só depende de cada um destes adolescentes.
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Acho que um pouco da sensibilidade humana elas vão ter, pois isso a gente
tenta passar sempre. O futuro são elas que constroem, nós só apresentamos
um caminho que elas tem o direito de escolher ou não, mais acredito que o
futuro delas estará relacionado com coisas boas. (entrevista 02)
É difícil a gente prever o futuro delas, porque cada uma vai traçar o seu, mais
com certeza as crianças que passaram pelo projeto que ficaram um tempo
significativo aqui eu acho que vão levar boas lembranças. (entrevista 01)
É obvio que trabalhando e ralando desse jeito cara tu imagina que vai ser o
melhor possível. Eu tento porque tu se apega a elas, tu não que nem pensar
no pior. Mais buscando profissionalizando o projeto eu busco o que, eu
busco profissionalizar eles também, como eu to te dizendo para não tirar o
adolescente do projeto eu to tentando buscar essa forma de munitoria
remunerada a onde eles recebessem para estar monitorado o projeto sobre a
supervisão dos professores mais para que, para que eles possam não largar o
projeto e que possam estar se profissionalizando em alguma área que seja,
seja ela musical ou confecção de instrumento, ou área de capoeira ou área de
teclado ou área de violão, mais que eles não precisem para isso parar de
estudar ou parar o projeto para ir trabalhar de ofice boy de algumas coisas
que eles fazem, trabalhos paralelos para continuar estudando, porque já
começa uma cobrança em casa para começar a trabalhar, e eu acho isso super
normal. (entrevista 03)
Há uma preocupação muito forte dos professores em fazer com que os
adolescentes permaneçam o máximo de anos possível no projeto, pois com a chegada da
adolescência chegam também às responsabilidades, inclusive a de contribuir na remuneração
de casa. A idéia agora é fazer com que estes adolescentes possam continuar nas oficinas,
fazendo o que gostam e com uma ajuda financeira, para que assim não precisem abandonar o
projeto.
As aulas são o momento de alegria, de liberar energia, de diversão, são vários os
momentos engraçados, situações vividas pelos professores que refletem isso. “A gente se
diverte bastante com as atividades musicais. Rola muita” palhaçada “entre amigos”.
(entrevista 02). Há muitos momentos felizes lembrados pelos professores, a relação de
carinho, respeito e amizade são elementos que ficam evidentes diante dos relatos das
entrevistas.
Esse ano a gente foi viajar, foi o primeiro ano a viajar como o projeto fazer
uma apresentação são apresentações na praça lá em criciúma, em Laguna
apresentamos na Beira-Mar. Pô para, mim foi super legal eu viajar com
91
eles, eu passar uma noite com eles no hotel, conversar com eles na noite,
sabe nem que seja aquela coisa de silencio agora tá muita bagunça, não sei o
que. Eu tava dando uma de paizão ali, sabe mais é este sentimento de
exatamente isso e um pouco mais, não ser o pai não quero nem ser o tio
entendeu mais ser um pouco mais próximo assim entender um pouco mais
assim, todos esses momentos me fazem felizes pra caramba encontros como
gente teve ontem, ensaio onde a gente reuniu as três turmas os três grupos
para se encontrar esses momentos me fazem felizes assim né. E o engraçado
é no dia-a dia, o jeitinho de cada um às vezes a gente dá risadas...(entrevista
03).
A satisfação de poder contribuir com o futuro destas crianças e com algo que os
deixam felizes é o que motiva a continuar. Preocupar-se não só com as crianças, mas com
suas famílias, como o que aconteceu no evento Balakubatuki em Ação, evento este que
contou com a participação de diversas ONG’s, entidades não-governamentais e
governamentais, com o objetivo de apresentar o projeto para a comunidade e também
proporcionar informações e serviços, como por exemplo a retirada de documentos.
Teve momentos muito bons, muito felizes isso sim quando a gente fez o
evento que eu quero voltar a fazer que a gente reuniu varias áreas teve
atendimento. Na área de documentação, todo mundo que precisava fazer a
certidão do filho, teve apresentação de todas as turmas do projeto como o
Balakubatuki, tava se projetando através do Iriê eu pude chamar outros
projetos para se projetar também através daquele dia, porque tem tantos
projetos bons não é só Balakubatuki não, mais que talvez não teve a chance
que a gente teve. (entrevista 03)
Todos os professores têm contribuído para um melhor projeto, e isto se reflete nos
alunos. As mudanças acontecem, devido à relação de carinho com as crianças. Estas crianças
são respeitadas e valorizadas e isso faz com que elas cada vez mais gostem e se sintam bem
no projeto.
Nestes quase sete anos de projeto várias foram as histórias marcantes. O seu
crescimento prova que cada vez mais os resultados acontecem, deste que haja trabalho,
dedicação e, principalmente, desde que se acredite que é possível mudar.
92
8.3 História de Vida
Através dos questionários e entrevistas realizados com os adolescentes e no intuito
de enriquecer ainda mais o trabalho, sentiu-se a necessidade de se fazer uma história de vida
com algum dos entrevistados.
A História de Vida “é a totalização sintética de experiências vividas e de uma
interação social”. (CHALOUB, 1989: 10). Por se tratar de narrações de experiências, a
História de Vida traz uma carga significativa capaz de interessar à pesquisa social.
Dentre os entrevistados escolheu-se o que estava há mais tempo no projeto,
entrando-se em contato com o mesmo e agendando o encontro. O relato foi colhido na Casa
da Liberdade em dois dias distintos.
O adolescente escolhido está a seis anos no projeto, tem dezoito anos, é natural de
Florianópolis e mora no Morro do Bode. “Moro com minha mãe, meu irmão, minha cunhada
minha sobrinha e com meu cachorro”. Dentre os lugares que já morou destaca-se a
Mariquinha, local onde nasceu, Monte Cristo, Monte Serrat e Lages, local do nascimento de
sua mãe.
Segundo o adolescente, o Morro do Bode é o lugar que ele mais gostou de morar,
onde reside há quatro anos. “Não sei porque eu acho lá. Deve ser porque eu conheço todo
mundo lá”.
Não gostar de mudar-se tantas vezes de residência é algo que fica bem evidente na
entrevista. “Nunca gostei de me mudar tanto, fazer amizades tudo de novo, minha mãe nem
dizia quando eu via já tava me mudando”.
Dentre os lugares em que já morou, “C” , como chamar-se-á, descreve um pouco
suas casas.
93
As casas que eu morei era tudo aluguel, já morei em casa grande, pequena,
material e madeira, até uma com o teto de lona. Uma vez morei numa casa
que não tinha parede era tudo junto, só tinha uma porta. Já morei em casa,
em uma casa que era em cima de um palito quase se quebrando tudo, hoje
eu moro em casa de madeira e material que é da família. A gente vai
aumentar a casa desta vez a gente não se muda mais.
Uma grande revolta que possui diz respeito a morar em Morro. “C” relata que as
pessoas falam sem nem conhecer realmente o lugar em que mora. “Não é bem assim como
eles falam, nunca foi, sei lá tem violência mais onde não tem, qual o lugar que não tem
violência, tudo quanto é lugar tem violência, só que lá tem mais sempre tem uns mala ruim
isso é normal”.
E continua dizendo:
Eu acho que quem mora em Morro tem condições de vida melhor do que
quem mora num apartamento na Beira-mar, porque tem mais qualidade de
vida, porque ta sempre batalhando, sempre correndo atrás porque estes
playboyzinhos vivem sempre reclamando sempre recebendo tudo na mão,
sei lá eu aqui e eles lá.
O entrevistado tem uma consciência bem crítica em relação à sociedade, e isso
aparece o tempo todo no decorrer da entrevista.
Ao relembrar sobre sua infância, o mesmo diz não se lembrar de muita coisa, pois
sua mãe não fala muito sobre isso com ele. Perguntado sobre suas brincadeiras, o que gostava
de brincar: “Eu brincava bastante, brincava de bonequinho de fazer casinha e tacar fogo
para depois fazer que vinha a ambulância jogava água salvava as pessoas. Isso era o que eu
mais gostava de brincar coisa bem de criança”. Depois quando se mudou para o Morro do
Bode com 13 anos, gostava de brincar de se esconder, e polícia e ladrão, dizendo ter bastantes
amigos naquela época.
O entrevistado não gostava muito de falar sobre sua família, ao ser perguntado
sobre seu pai, se ele o conhecia, “conheço, até falo com ele, estes dias até fui ver ele”. O pai
de “C”, mora em São José e a família não tem muito contato com o mesmo.“É ele lá e eu
94
aqui, eu só fui ver ele porque ele sofreu um acidente”. “C”, relata que morou com o pai até os
quatro anos, mas não tem boas lembranças desta fase. A família residia na Mariquinha nesta
época, sendo que relata que seu pai lhe batia e também em sua mãe. “Antes ele incomodava
era cachaceiro, bebia, bebi ainda, só não bebe agora por causa dos remédios. (...) Minha
mãe diz que ele batia nela um monte e em mim também”.
O entrevistado lembra da fase em que foi obrigado a morar com seu pai, e relata
que esta fase foi a pior de sua vida. “Foi ruim eu não gostava de lá. Fui forçado a ir”.
Disse que sua mãe estava se mudando para Lages e que ele havia ficado em Lages
na casa de parentes para que sua mãe pudesse voltar para trazer as mudanças. Neste tempo seu
pai apareceu lá e lhe pegou à força para ir morar com ele. “(...) Meu pai chegou um dia lá em
casa e me pegou. Minha mãe e eu viajamos para ir para Lages e me deixou lá e voltou para
pegar as coisas à gente ia se mudar para lá. Daí ele foi lá e me pegou. Coisas de adultos”.
Foi nesta fase que entrou no colégio e diz que não aprendeu nada, depois fugiu da
casa do pai e voltou para casa de sua mãe. “É que teve um tempo que eu morei com ele com
06 para 07 anos. Ai morou só eu e ele. Mais eu não aprendi nada ai depois de ano voltei para
minha mãe de novo e comecei tudo de novo e é por isso que eu entrei tarde no colégio”.
Esta foi uma fase complicada de sua vida, ter sido levado à força para morar com
seu pai, depois decidir voltar para casa da mãe e fugir do lugar onde morava com o pai, tendo
apenas sete anos.
Ela ficou um tempo sem saber, daí quando ela chegou lá e eu não estava
mais ela voltou para cá, daí descobriu que eu estava com ele e foi lá me
pegar ai ela viu que eu estava estudando e me deixou lá. Só que um dia eu
voltei para cá escondido dele, eu fugi. Ai depois eu não falei mais com ele,
só agora eu vi ele, foi eu minha mãe meu irmão, minha cunhada também foi
junto. Ele sofreu um acidente que queimou a casa dele e ele se queimou
tudo.
A figura do pai nunca foi muito presente em sua vida, sendo que depois dos sete
anos, só agora com dezoito anos tornou a reencontrar o pai. Este também nunca lhe ajudou
95
financeiramente. Segundo diz: “nunca me deu nada, nunca me deu um pão, nunca me deu
uma bala mais para mim tanto faz não me incomodando aqui está ótimo”.
De volta para a casa da mãe, ele retornou ao colégio, dizendo que agora já consegue
aprender melhor. “Eu era mais espertinho como eu sou agora, nunca rodei”.
“C”, diz nunca ter ido para creche, ele passava o tempo quando era pequeno com a
sua tia, com quem residia. Percebe-se que este sente um carinho muito grande pela tia, e a
considera como uma mãe.
Não, nunca fui para creche. Eu passei quase toda a minha vida com a minha
tia ela é a minha segunda mãe, a gente morava com a minha tia na
Mariquinha na casa dela e enquanto minha mãe trabalhava, ela ficava
comigo. Eu considero ela como uma mãe.
Até hoje sempre quando tenho algum problema falo com ela. Chamo ela de
mãe negona, mãe preta.
Há uma forte ligação entre ele e sua tia, talvez ela seja para ele uma espécie de
referência, que mesmo passado algum tempo e não morando mais com ela, a tia é a pessoa
que está sempre ali, sempre pronta para lhe ajudar. A sua ligação com a mãe é um pouco
distante. Embora morando com ela o mesmo relata que quase não fala com sua mãe, que
segundo “C”, “ela só trabalha só quer saber de trabalhar”. E continua, “de manhã ela ta
dormindo a tarde eu saiu e a noite eu estudo e ela trabalha”.
Quando saiu da casa da tia e passou a morar no Monte Cristo, “C” se sentiu mais
sozinho. Com apenas dez anos ele e seu irmão moraram praticamente sozinhos, pois sua mãe
passou a dormir no local de trabalho só vendo os filhos nos finais de semana. “Tinha uma vez
que eu nem via ela porque ela trabalhava numa casa e só vinha para casa no domingo, ela
dormia no serviço, almoçava no serviço ficava todo tempo lá”.
Ele diz que sempre foi independente, e que sempre foi em busca do que quis, às
vezes sente falta da mãe, principalmente quando era criança, mas de uma certa forma
compreende que esta falta de tempo da mãe era porque ela precisava trabalhar. “Eu sempre
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fui meio independente eu sempre fui mais por mim, aqui na Casa da Liberdade eu vim por
mim na escola também foi por mim ela nunca foi numa reunião do colégio sempre
trabalhando”.
Mesmo referindo entender o motivo do afastamento da mãe, percebe-se que sente
isso, e diz: “Sabe eu considero que quem me criou foi minha tia, quando vim para cá já sabia
distinguir as coisas, nessa fase entrei na casa da Liberdade”.
A Casa da Liberdade segundo ele apareceu na sua vida por iniciativa dele em
entrar. Seus amigos do Morro estavam todos na Casa, então ele pediu para sua tia ir até a Casa
da Liberdade e fazer sua matrícula. “Meu primo vinha para cá e o pessoal onde eu morava
vinha tudo para cá, ai eu quis também. Vim aqui tinha que estar estudando minha tia veio
aqui fez minha matricula e to aqui”.
Mais uma vez a figura da tia aparece em sua vida, o pedido dele para a tia efetuar a matrícula
para entrar na Casa da Liberdade.
Dentro da Casa da Liberdade ele lembra de seus oito anos de Casa, dos passeios que
faziam, dos amigos que fez, das amizades que continuam até hoje. “Tem uma que tenho até
hoje, foi aqui que a gente descobriu que éramos primos”. Do primeiro dia que foi para Casa
da Liberdade, “a primeira vez que eu entrei todo mundo ficou olhando, ainda falaram esse
aqui é o novo aluno, nossa fiquei num canto eu não falava nada”.
Embora tantos anos tenham se passado, ele lembra com carinho dessa fase de sua
vida. Agora continua freqüentando a Casa da Liberdade para fazer as aulas do Balakubatuki,
mas não participa mais das outras oficinas promovidas pela Casa. “Pra dizer a verdade antes
eu gostava mais, agora tá meio chato, chato no sentindo da Casa em si, e não do projeto.
Porque antigamente tinha passeio, Beto Carreiro agora a atual diretora cortou tudo”.
97
A vida de “C” é marcada muito pela presença de sua tia, seus valores, sua
educação. Com dez anos passou a morar só com a mãe e o irmão, e foi neste período que
entrou para Casa da Liberdade, o que, segundo ele, foi um pedido seu. Toda sua trajetória
mostra um menino forte e muito decidido nas suas escolhas.
Foi tudo por mim. Se que quisesse virar um traficante eu já teria virado.
Porque eu vejo isso direto imagina morei no Monte Cristo não vou ver isso,
na Mariquinha, se bem que na Mariquinha antigamente era mais tranqüilo
hoje está meio pesado só vou lá para ir na casa da minha tia. A gente
sempre vê os traficantes fumando os deles lá, eu passo digo oi tudo bem e
só. Eu acho que o que eu sou hoje é mérito meu porque eu vejo isso, tenho
convite direto mais eu não quero isso para mim.
Os modelos identificatórios de C, fizeram com que ele hoje tenha esta postura.
Dentro do Balakubatuki ele aprendeu e foi respeitado, conheceu pessoas novas, fez novas
amizades e aprendeu algo novo: a música. Segundo ele, nunca pensou em sair e abandonar o
projeto.
Não, faz quase 07 anos que eu faço aula no Balaku antes eu não gostava da
cara do Daniel. A gente era uns pestes queria tirar os professores para ficar
vadiando ai. Ai ele entrou e a gente pensou vamos botar ele para rua, mais
não conseguimos, ele ficou. Porque a gente gostou do que ele faz e da
pessoa dele. Eu nunca imaginei fazer aula de música, eu nem sabia o que
era musica não tinha idéia. Só sabia o que era música aquilo que tocava no
radio. Hoje eu sei o que é música no conjunto de tudo, saber tocar, saber
fazer, saber interagir. Hoje ainda não sei tudo porque a gente ta sempre
aprendendo coisas novas. Porque quem quer mesmo conhecer a música tem
que ir a fundo, tem que estudar tem que fazer não pode desistir. No projeto
também acabaram saindo pessoas que não podiam ter saído, não que não
podiam mais não tinham porque sair.
Foi através da música que o adolescente encontrou uma meta para o futuro, se
descobrir para algo que até então estava distante, que não fazia parte de sua vida. Ele diz que
ano que vem pretende fazer faculdade de música.“Eu pretendo seguir a carreira de musico”.
Verbaliza que muito do que ele é hoje ele aprendeu dentro do projeto, por isso
pretende futuramente dar aula para os novos alunos do Balakubatuki. Atualmente é um dos
monitores do projeto, e está se preparando para futuramente vir a dar aulas.
98
Com certeza o que sou hoje tem haver com a música, saber conversar, saber
como se comportar como lhe dar com as pessoas. É como o Daniel diz, ele
diz que a gente já ta preparado para dar aula, para dar aula saber tocar e
tudo mais não para chegar na hora, saber falar com as outras pessoas, como
ele diz vai que tem uma sala esperando a gente e a gente não vai, eles vão se
decepcionar tudo. Ele diz que a gente ainda não tem muita responsabilidade.
Ele acredita que dar aula não é algo fácil, pois exige completa dedicação. Saber
tocar é muito diferente que ensinar por isso aguarda o momento certo. “É que a gente não vai
estar lhe dando com pessoas daqui são outras vidas outras pessoas que vão estar dependendo
da gente. Ele disse que a gente ta quase lá, mais sempre falta alguma coisa. Mais a gente ta
indo já fez apresentações, ajuda ele sempre que ele pede”.
As apresentações são algo que ele lembra com carinho, principalmente da primeira
apresentação que aconteceu na Casa da Liberdade mesmo, em uma reunião para os pais. O
nervosismo em estar se apresentando pela primeira vez dificultou um pouco. “Tava todo
mundo nervoso não queria errar mais acabamos errando”.
São vários os momentos felizes vividos por ele nesses quase sete anos de projeto.
“C” garante que aprendeu muito dentro do Balakubatuki.
Aqui aprendi a interagir com as pessoas. Eu nunca analisava os dois lados
de uma coisa de um problema por exemplo, tinha uma questão lá essa
pessoa é isso é aquilo há espera aí põe do lado dela também, agora eu to
pensando dos dois lados. Eu trato todo mundo igual quem tem menos do
que eu quem tem mais esses playboizinho.
Esta mudança pode ser vista através de sua fala, é nítido o carinho e o respeito que
ele tem pelo projeto. Ao que parece é um jovem muito consciente, que respeita as pessoas.
Não é porque a pessoa anda com tal roupa que eu não vou andar com ela ou
fala de um jeito que eu vou ficar falando dela. Nada a ver isso, isso é
preconceito, eu não tenho preconceito não sou racista. A minha segunda mãe
é negra. O que vale é a pessoa e não a cor.
“C” sempre demonstrou ser uma pessoa que sabia muito bem o que queria para si.
Ele possui sonhos e metas que pretende alcançar, mas não pretende fazer mal a outras pessoas
para conseguir o que quer. Foi o que falou em seu relato.
99
Esses dias estava falando com a minha mãe que eu não iria passar por cima
de ninguém para conseguir as coisas. Ela disse que não era bem assim que o
local que a gente vive tem que passar por cima para conseguir alguma coisa,
ou ser alguém na vida. Então acho que não vou ser ninguém porque isso não
vai acontecer comigo, não vou prejudicar outra pessoa só para ser alguém.
Eu acho que no projeto tive uma revolução eu queria ter essa mentalidade
que eu tenho agora antes.
Diz que existem coisas das quais fez que se arrepende, mas não voltaria atrás,
“não voltaria atrás porque se a gente se arrependeu valeu para futuramente não fazer mais
aprende com os erros”.
Além do projeto Balakubatuki, “C” também participa de outro projeto de música
que é a Orquestra Sinfônica de Florianópolis, “eu também fui atrás não lembro quem me falou
daí fui no Celso Ramos falei com o coordenador e fiz a minha matricula”.
Mais uma vez fica clara a dedicação que ele possui pela música, e a determinação
de ir em busca daquilo que quer.
Sobre os professores do projeto ele fala que gosta muito de todos, tem um bom
relacionamento com todos, inclusive diz que convidou um dos professores para ser seu
padrinho.
Por não ser batizado, “C” relata que estava se sentindo mal com isso, e aqui vê-se
mais uma história de determinação, onde ele foi até a igreja e decidiu que se batizaria.
É que eu não era batizado daí diziam que eu era filho do capeta, diziam isso
aquilo daí fiquei assim porque eu não tinha uma religião eu já fui no
candomblé, já fui na evangélica na católica. Só que daí diziam que eu tinha
que escolher uma porque eu era pagão. Daí eu fui lá na católica. Eu mesmo
se dependesse da minha mãe eu não era batizado ate hoje. Porque eu acho
que eu não tive culpa de não se batizado.
Após decidir que iria se batizar pôs-se a escolher os padrinhos. A tia, que era mãe
e referência feminina para ele foi a escolhida para ser sua madrinha. Para padrinho, pensou
em alguém que fosse marcante para ele, e convidou um de seus professores do Balakubatuki.
100
Daí eu só tinha madrinha e fiquei pensando em que poderia ser, tinha que
ser alguém que eu conhecia a tempo e uma pessoal marcante para mim, daí
acabou chegando nele. Convidei o Daniel ele topou na boa. Ele foi lá me
batizou, no dia foi ele a mãe dele a minha mãe e a minha madrinha eu me
batizei mais não sei se eu me considero católico agora sim né. O Daniel
para mim é um amigo um pai um irmão um professor um tio. Eu não tive
convívio com pai uso o Daniel para suprir isso.
Aqui, se percebe o grau de amizade, compreensão, carinho e respeito dos alunos
com os professores. Em toda sua trajetória de vida até aqui, não existe uma figura masculina
tão marcante como o professor e coordenador do projeto.
A entrevista foi dividida em dois dias para não se tornar cansativa. No segundo dia
o entrevistado voltou ao local marcado com várias fotos suas de apresentações feitas no
projeto. Mostradas as fotos, procedeu-se uma conversa sobre as mesmas, tudo num clima bem
tranqüilo. Neste dia ele remete novamente a questão de morar no Morro, dizendo que sofre
muito preconceito por morar lá.
Ele descreve que várias vezes já sofreu descriminação por morar em Moro. “O que tem
ser do Morro eu sou do Morro e ai. Não é bem assim morar no Morro tem gente que mora no
Morro mais é bem de vida não é só porque mora no Morro que é pobre. É mais fazer o que
não posso mudar a cabeça dos outros”.
E continua:
Muitas vezes eles já falaram em entrevistas de jornal até o Daniel, as
crianças de ruas estão aprendendo cidadania na Casa da Liberdade, pô isso é
foda para gente outra coisa é também, projeto ajuda crianças carentes de tal
e tal lugar, ta certo que aqui ninguém é rico milionário, mais tem onde
morar tem casa tem comida tem dinheiro também. A gente já falou para o
Daniel ele ate ficou meio assim agora ele nem fala tanto assim.
Ele mostra uma certa revolta pela discriminação que sente por morar no Morro,
completa que na escola não há discriminação, pois, a maioria dos alunos mora perto de sua
casa. Mas é nas apresentações onde ele mais percebe preconceito.
Nas apresentações com a banda tem gente que pensa há as criancinhas do
Morro olham lá onde eles estão agora tocando com a banda Iriê, olha o que a
banda fez com eles. Não é bem isso tem nada haver. Às vezes a gente fica
assim com o Daniel ele quer que a gente vá de branco com a camiseta do
101
projeto porque ele acha que fica legal, eu também acho que fica legal mais
sei lá eles ficam achando que a gente é os coitadinhos. Tem gente que fica
falando, o eles lá tocando na banda Iriê, grande coisa tocar na banda Iriê eu
nem toco só faço participação.
Ele demonstra toda sua indignação contra a sociedade que critica e fala sem saber,
e diz:
A sociedade sempre quer prejudicar as pessoas é a mesma coisa do circo a
gente sempre torce para que alguém caia, mais ou menos é assim quando a
gente ta lá no circo e eles estão fazendo as coisas, à gente fica ele vai cair ele
vai cair, não adianta tem sempre gente desejando o mal das pessoas, não só
desejando mas vendo o lado mal das pessoas.
Para ele a sociedade sempre será assim, sempre existirão pessoas criticando e
falando mal dos outros. Morar no Morro é algo visto pela sociedade como uma espécie de
identidade, uma marca que eles possuem. Ele acrescenta que infelizmente não vai mudar o
jeito que as pessoas pensam, mas sem duvida é algo que o incomoda muito.
Mas também tem uma coisa tem gente que pensa que a gente ta se fazendo
que a gente falando isso o que a sociedade pensa a gente vai estar mudando o
mundo. O que eu to querendo dizer é que não adianta ficar falando isso, não
vai mudar o pessoal pensa assim mesmo. Porque que as pessoas se preocupam
com os outros eles devem se preocupar com eles mesmos.
Por toda sua revolta, “C” comenta que no projeto aprendeu coisas novas que
mudaram seus valores, mudando também sua forma de pensar. Descobriu na música uma
forma de ver a vida diferente, um aprendizado novo.
Eu mudei no todo, na forma de ver a vida, de pensar, ter perspectiva de vida,
eu vou em busca do que eu quero e antigamente não era assim. Eu também
não tinha essa mentalidade, eu acho que a gente aprende mais com os erros do
que escutando. Eu vi muita gente mudando que era de um jeito e ficou outro.
102
9 CONCLUSÃO
Após as entrevistas, questionários realizados, e análise do conteúdo dos mesmos,
verificou-se que a música exerce influência sobre a construção da identidade dos adolescentes
participantes do projeto Balakubatuki.
A música é uma forma de expressão encontrada em todos os grupos humanos.
Portanto, é natural do ser humano e está presente em todos os aspectos de sua vida. Cantando,
ouvindo ou batucando, é possível sentir no próprio corpo a diferença que a música faz num
ambiente de trabalho, num passeio com os amigos ou mesmo sozinho em casa.
A música é diversão, entretenimento, comunicação e produto natural do homem.
Através da pesquisa pode-se perceber a grande aceitação da música pelos adolescentes. É
neste ambiente que eles se conhecem, se respeitam e passam a construir seus projetos de vida.
Sabe-se que os grupos sociais constituem modelos de referências para os
indivíduos que agem no seu interior. É a participação no grupo que vai definindo o convívio
com determinadas normas, que vai estruturando e conferindo significado às experiências
pessoais mediante sua aprovação, seu controle, sua crítica. Desta forma, as hipóteses
utilizadas na pesquisa, quais sejam: a música influencia de forma positiva na construção da
identidade dos adolescentes que freqüentam o projeto Balakubatuki e, a música aparece como
um elemento de transformação para os adolescentes, foram corroboradas. Através da música,
do aprender a tocar um instrumento, os adolescentes se transformam. É no grupo dos iguais
que eles aprendem e elevam a auto-estima, por meio de algo prazeroso e novo.
Assim a música é um elemento de mudança, e esta mudança é percebida não só
pelos professores, mas, também pelos próprios adolescentes. Estes diversas vezes relataram
suas mudanças nestes seis anos de projeto, a aceitação pelo projeto, o fazer parte do
Balakubatuki que se torna uma referência para eles, sendo neste espaço que os mesmos
103
conhecem um novo mundo e se sentem valorizados. Prova disso foi o fato de querer participar
da pesquisa, dar sua contribuição para o trabalho e falar bem do projeto.
Os professores possuem grande parcela de contribuição, o que faz do Balakubatuki
um projeto apaixonante e com grande aceitação por parte de seus alunos. Estes professores
são amigos, carinhosos com seus alunos e mostram que ensinar também é uma relação de
trocas. É uma relação positiva que se estabelece entre professores e alunos, pois ministrar
aulas no projeto é visto não simplesmente como um trabalho e sim como algo gratificante,
como o fato de poder contribuir com o futuro de grande parte das crianças e adolescentes, e
despertar nestes um senso de pertencer ao mundo.
O adolescente não é ainda um cidadão pleno, mas também não é apenas um
habitante. Ele olha as pessoas ao seu redor e se compromete com elas, particularmente com
aquelas com as quais estabeleceu uma relação afetiva. Este compromisso é uma escolha, uma
decisão de acompanhar e estar atento às mudanças, compartilhando o que sentem, apoiando
em suas realizações, associando-se a elas em metas e objetivos comuns, respeitando e
tolerando as diferenças.
Os adolescentes relatam que houve mudanças em suas vidas depois do projeto
Balakubatuki. Esta hipótese levantada pela pesquisa foi corroborada à medida que os
adolescentes falaram em entrevistas realizadas ou escreveram nos questionários aplicados
suas mudanças. Tal mudança é percebida como satisfatória, trazendo aceitação pelo grupo.
Apresentar-se é algo fascinante para estes adolescentes.
Sabe-se que a discriminação é algo que infelizmente ainda existe em nossa
sociedade. Muitos dos adolescentes do projeto sentem a discriminação de serem moradores de
Morros, relatando que morar no Morro vira uma marca. O impacto que a intolerância, os
preconceitos e discriminações negativas a determinados grupos ou situações produzem sobre
o individuo é algo lamentável ainda presente nos dias atuais.
104
Não podemos encarar como simples coincidência a maioria das crianças e
adolescentes do projeto Balakubatuki serem negras, viverem em situações de carência,
carência esta não só financeira mas afetiva. Tal fato revela, na verdade, que há outras questões
a serem discutidas, refletidas e mudadas.
No decorrer do desenvolvimento da pesquisa as questões raciais estiveram
presentes, não sendo este, porém, não era o foco da mesma. Fica aqui a sugestão de
continuidade desde trabalho aprofundando-se este assunto.
A realização desta pesquisa resultou num aprendizado novo. O convívio com essas
pessoas proporcionou uma experiência diferente e marcante, onde se pode perceber a
importância da troca de valores na vida dessas pessoas, e da importância da busca pela
cidadania e respeito.
105
REFERÊNCIAS
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das escolas de samba. Petrópolis: Vozes, 2001.
Disponível na Word wide web: Http://www.balakubatuki.org.br acessado no dia 14/10/2004.
Disponível na Word wide web: Http://www.djembe.com.br acessado no dia 01/11/2004.
109
APÊNDICE
110
QUESTIONÁRIO
Idade: __________________
Estado Civil: _______________________
Sexo: __________________
Escolaridade: ______________________
Tempo de Projeto: ______________________
Bairro que mora: __________________________________________
Você freqüenta alguma escola: _______________________________
Você tem filhos: ( ) Sim ( ) Não
Quantos: ___________________
- Você gosta de música?
( ) Sim
( ) Não
( ) Mais ou Menos
- Você gostava de música antes do projeto?
( ) Sim
( ) Não
( ) Mais ou Menos
- Que tipo de música você gosta?
( ) Reggae
( ) Hip Hop
( ) Forró
( ) Rock ( ) Rap
( ) Outros / Quais? _______________________________
- Com uma só palavra diga o que a música significa para você?
___________________________________________________________
Complete: Música é ___________________________________________
- Como conheceu o projeto?
___________________________________________________________
- Você acha este projeto importante?
( ) Sim
( ) Não
( ) Um pouco
- Você fez amigos no projeto?
( ) Sim
(
) Não
111
- Quantas vezes você vem ao projeto?
( ) 1 vez
( ) 2 vezes
( ) 3 vezes
- Você gosta do projeto?
( ) Sim
( ) Não
( ) Um pouco
Complete: Para mim o projeto Balakubatuki é: ________________________________
- Como você era antes de conhecer o projeto?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
- Você mudou?
( ) Sim
( ) Não
( ) Um pouco
- Como foram estas mudanças?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
- Você acha que a música tem algo a ver com a mudança?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
- Como você é agora?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
112
Roteiro da Entrevista - Adolescentes
Idade:
Estado Civil:
Escolaridade:
Tempo de Projeto:
Freqüenta alguma escola:
Tem filhos:
Nasceu onde?
Mora com quem?
Como é morar lá? Você gosta?
Tem amigos lá?
Como era a infância? Do que brincava?
Tinha muitos amigos nesta época?
Você gosta de ir para escola?
Como é a escola que você estuda?
Tem amigos lá?
Você freqüenta outro projeto além deste?
Se freqüenta como é lá?
Você gosta de música?
Gostava de música antes de entrar para o projeto?
Que tipo de música você gosta?
113
O que significa a música hoje para você?
Como conheceu o projeto?
Como foi a primeira aula? Você gostou?
Você fez amigos novos?
Como são essas amizades? Já conhecia antes?
O que pensa que as pessoas de fora acham do projeto?
O que é Balakubatuki para você?
Como você era antes de entrar para o Balakubatuki?
Você acha que mudou?
Como Você é agora?
Você acha que a música tem haver com esta mudança?
Como você se vê no futuro?
114
Roteiro de Entrevista - Professores
Como são as suas aulas?
Porque escolheu trabalhar no Balakubatuki?
É remunerado?
Quando tempo dá aula no projeto?
O que você acha das crianças e dos adolescentes do projeto?
O que é adolescente para você?
Tinha ou tem muitas crianças com problemas?
Quais as mudanças que você percebe nas crianças?
Algum caso em especial?
Como você acha que vai ser o futuro dessas crianças?
Alguma história engraçada das aulas?
115
UNESC – UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
O projeto Balakubatuki está sendo convidado para participar de uma pesquisa que tem
como tema, a influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto
Balakubatuki na cidade de Florianópolis.
A instituição foi selecionada por realizar trabalhos referentes à música com
adolescentes. A qualquer momento a instituição poderá desistir de participar e retirar seu
consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com o pesquisador.
Os objetivos deste estudo são:
• Compreender o significado da música para os adolescentes.
• Investigar qual o discurso dos adolescentes sobre o projeto Balakubatuki.
● Verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto.
Sua participação nesta pesquisa consistirá em conceder autorização para que a
pesquisadora possa aplicar questionários e fazer algumas entrevistas com os adolescentes com
a faixa etária de 12 a 20 anos.
Os benefícios relacionados com a sua participação são o de contribuir para uma
melhor compreensão da influência da música para os adolescentes.
As informações obtidas através dessa pesquisa serão confidencias e asseguramos o
sigilo sobre sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar sua
identificação.
A instituição receberá uma cópia deste termo onde consta o e-mail da pesquisadora,
podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer momento.
_________________________________________________________________
Luana Costa Colle
Pesquisadora
E-mail: [email protected]
Declaro que entendi os objetivos e benefícios de minha participação na pesquisa e
concordo em participar.
Sujeito da Pesquisa
116
UNESC – UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Você está sendo convidado para participar da pesquisa que tem como tema, a
influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto Balakubatuki na
cidade de Florianópolis.
Você foi selecionado por estar a mais de um ano no projeto, portanto sua participação
não é obrigatória. A qualquer momento você pode desistir de participar e retirar seu
consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com o pesquisador ou
com a instituição.
Os objetivos deste estudo são:
• Compreender o significado da música para os adolescentes.
• Investigar qual o discurso dos adolescentes sobre o projeto Balakubatuki.
● Verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto.
Sua participação nesta pesquisa consistirá em conceder uma entrevista para a
pesquisadora.
Os benefícios relacionados com a sua participação são o de contribuir para uma
melhor compreensão da influência da música para os adolescentes.
As informações obtidas através dessa pesquisa serão confidencias e asseguramos o
sigilo sobre sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar sua
identificação.
Você receberá uma cópia deste termo onde consta o e-mail do pesquisador, podendo
tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer momento.
_________________________________________________________________
Luana Costa Colle
Pesquisadora
E-mail: [email protected]
Declaro que entendi os objetivos e benefícios de minha participação na pesquisa e
concordo em participar.
Sujeito da Pesquisa
117
UNESC – UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
O projeto Balakubatuki está sendo convidado para participar de uma pesquisa que tem
como tema, a influência da música na construção da identidade dos adolescentes do projeto
Balakubatuki na cidade de Florianópolis.
A instituição foi selecionada por realizar trabalhos referentes à música com
adolescentes. A qualquer momento a instituição poderá desistir de participar e retirar seu
consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com o pesquisador.
Os objetivos deste estudo são:
• Compreender o significado da música para os adolescentes.
• Investigar qual o discurso dos adolescentes sobre o projeto Balakubatuki.
● Verificar a influência da música na vida dos adolescentes antes e depois do projeto
Sua participação nesta pesquisa consistirá em conceder autorização para que a
pesquisadora possa aplicar questionários e fazer algumas entrevistas com os adolescentes com
a faixa etária de 12 a 21 anos.
Os benefícios relacionados com a sua participação são o de contribuir para uma
melhor compreensão da influência da música para os adolescentes.
As informações obtidas através dessa pesquisa serão confidencias e asseguramos o
sigilo sobre sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar sua
identificação.
A instituição receberá uma cópia deste termo onde consta o e-mail da pesquisadora,
podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer momento.
_________________________________________________________________
Luana Costa Colle
Pesquisadora
E-mail: [email protected]
Declaro que entendi os objetivos e benefícios de minha participação na pesquisa e
concordo em participar.
Sujeito da Pesquisa
118
ANEXO
119
Oficina de Percussão:
120
Oficina de Teclas:
121
Oficina de Violão:
122
Iriê e Balakubatuki no camarim do planeta:
Apresentação do Balakubatuki:
123
Gravação do Cd Translatação:
Morro Mocotó:
124
125
126
127
128
Download

a influência da música na construção da identidade dos