UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE NATALIA FERNANDES GARCIA DE CARVALHO A POLÍTICA DE COTAS SOB O OLHAR DOS COTISTAS São Paulo 2010 2 NATALIA FERNANDES GARCIA DE CARVALHO A POLÍTICA DE COTAS SOB O OLHAR DOS COTISTAS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial à obtenção do grau de Licenciatura em Ciências Biológicas . ORIENTADORA: Profa. Dra. Rosana Jordão dos Santos São Paulo 2010 3 NATALIA FERNANDES GARCIA DE CARVALHO A POLITICA DE COTAS SOB O OLHAR DOS COTISTAS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial à obtenção do grau de Licenciatura em Ciências Biológicas Aprovada em BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Adriano Monteiro Castro Profa. Ms. Célia Regina Batista Serrão 4 RESUMO A Política de Cotas tem como proposta a inclusão de negros nas universidades públicas brasileiras, já que estes foram e são discriminados de diversas maneiras pela sociedade em que vivem. Além disso, a população pobre brasileira é composta em sua maioria por negros, não tendo oportunidades iguais econômicas e educacionais. Este trabalho tem como objetivo analisar a atual Política de Cotas raciais efetuada pelo Estado brasileiro. Para tanto, serão utilizadas como objeto de análise as impressões dos próprios cotistas. Suas opiniões foram retiradas de três trabalhos, duas dissertações e uma tese, que focam as experiências dos cotistas no ensino superior. Estas posteriormente foram agrupadas em categorias, que deram subsídio para uma síntese geral. Foi observado que a política de cotas trouxe tanto aspectos positivos (oportunidade de estar no ensino superior, o reconhecimento das dificuldades em seu passado, desmistificação do preconceito, mudança em suas próprias concepções sobre si mesmo, melhoria na qualidade de vida), como negativos (classificação de raças, não garantia de permanência na universidade e presença de discriminações) para os cotistas. Apesar desta política propor a inclusão, ela não resolve os problemas da população negra, além de excluir a população branca pobre. Os resultados nos levam a crer que a melhor solução para a questão da inclusão é o investimento do ensino público básico, para que todos tenham oportunidades iguais e sejam avaliados pelos seus esforços e méritos. Palavras-Chaves: Políticas de Cotas – impressões dos cotistas. 5 ABSTRAT Quotas Policy proposition is the inclusion of black people in the Brazilian public university, as they were and are discriminated in various ways by their society. Furthermore, the Brazilian poor population is composed mostly of black people, not having the same economic and educational opportunities equal. The objective of this paper is analyzing the current Quotas Policy of the Brazilian State. For this, the quota student’s impressions will be use as analysis object. Their opinions were taking of three papers, two dissertations and one thesis, which focus the quota student’s experience. After this were group in categories, giving subsidy for a general synthesis. Was observed that the Quotas Policy brought positive (opportunity of being in the superior education, their past were recognize, prejudice demystification, changing conception about themselves and life improve) and negative (race classification, not guarantee of being in the university and remain discrimination) aspects for this students. Despite the quotas policy proposition is the inclusion, it doesn’t resolve black people problems, also exclude white poor population. I believe the best solution is the improvement of basic public education so that everybody can have the same opportunity equal and be evaluated by your effort and merits. Key words: Quotas Policy, quota student’s impressions. 6 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO....................................................................................7 2. REFERENCIAL TEORICO.................................................................9 2.1. Histórico das Ações Afirmativas nos Estados Unidos.....................9 2.2. Histórico das Afirmativas no Brasil..................................................11 2.3. A Política de Cotas..........................................................................14 2.4. As opiniões de alguns autores........................................................16 2.5. Os trabalhos analisados..................................................................21 3. METODOLOGIA.................................................................................23 4. RESULTADOS...................................................................................24 5. ANALISE............................................................................................35 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................38 7. REFERÊNCIAS..................................................................................39 8. ANEXO ..............................................................................................41 7 1. Introdução Historicamente, os negros têm sido alvo de muitas discriminações que levaram esse grupo à exclusão social em diversas situações. Em função dessas discriminações, surgiram as chamadas “ações afirmativas”, com intenção de reparação, não somente em relação aos negros, mas também às mulheres e aos índios. As primeiras idéias de ação afirmativa surgiram nos Estados Unidos da América em 1961, durante a permanente luta dos negros contra o racismo que sofreram e ainda sofrem. No Brasil, a partir de 1992, surgiram as primeiras iniciativas de ação afirmativa ligadas à educação, promovidas por ONGs, por meio da oferta de cursinhos pré-vestibulares para alunos carentes e/ou afrodescendentes. Mas somente em 2001, ano da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata realizada em Durban, o debate se generalizou e diversas ações concretas foram iniciadas (CARDOSO, 2008). Atualmente, existe o projeto de lei 3627/2004, que destina 50% das vagas das universidades públicas a alunos que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Além disso, segundo esse projeto, estas vagas serão preenchidas por uma proporção mínima de autodeclarados negros e indígenas igual à proporção de pretos, pardos e indígenas na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo do IBGE (BRASIL, 2004). De acordo com este censo 54,3% da população brasileira é constituída de brancos e a parcela restante (45,7%) é formada por pessoas pertencentes a diferentes grupos étnicos: negros (5,4%), pardos (39,9%) e índios (0,4%). Segundo o MEC, apenas 16,7% dos formados em nível superior no Brasil são negros, pardos ou índios, o que evidencia o pouco acesso dessas pessoas a esse nível de escolaridade. Outra pesquisa do IBGE mostra que negros e pardos representam 63% dos pobres e 68% dos indigentes, demonstrando que grande parte desses grupos étnicos encontra-se excluída da sociedade em que vivem. A Política de Cotas, então, tem a função de incluir negros nas universidades públicas brasileiras, a fim de terem uma oportunidade de mudar 8 seu estilo de vida, como reparação da escravidão (MAGGIE e FRY, 2004). Mas o que pensam os cotistas sobre a implantação dessa política? Frente à questão levantada, este trabalho tem como objetivo estudar resultados decorrentes da Política de Cotas, a fim analisá-la em relação ao olhar dos cotistas. O trabalho está organizado da seguinte maneira: O capítulo 1 traz o referencial teórico. Nele, são encontrados breves históricos sobre as ações afirmativas nos Estados Unidos e no Brasil, que mostram alguns dos acontecimentos que levaram à formação destas ações nestes países. É apresentada, também, a Política de Cotas e o contexto histórico que levou a sua criação e sua proposta. Trazemos, ainda, opiniões de alguns autores, que mostram diversos aspectos desta política e os trabalhos por nós analisados. Em seguida, detalhamos a metodologia utilizada, os resultados encontrados, sua análise e tecemos considerações finais. 9 2. Referencial Teórico 2.1. Histórico das Ações Afirmativas nos Estados Unidos Para compreender a Política de Cotas faz-se necessário a apresentação do histórico das ações afirmativas nos Estados Unidos, já que foi neste país que surgiram as primeiras iniciativas desse tipo. Tais iniciativas posteriormente influenciaram o caminho das ações afirmativas no Brasil. A idéia de ação afirmativa surgiu nos EUA, durante a permanente luta dos negros contra o racismo. No ano de 1941, se criou o primeiro decreto, que proibia a discriminação racial contra negros na seleção e no recrutamento de pessoal para trabalhar no governo. Mas, somente em 1964, esse decreto passou a incluir o setor privado, com a promulgação da Lei de Direitos Civis, pelo presidente Lyndon Johnson. Para ele não seria possível colocar dois homens competindo numa mesma corrida de velocidade, se um deles tivesse ficado acorrentado durante anos e ainda acreditar que ambos teriam as mesmas chances de vencer a prova (BRANDÃO, 2005). Vale mencionar que o termo “ação afirmativa” foi criado pelo presidente John F. Kennedy em 1961, quando instalou a Comissão por Oportunidades Iguais de Emprego. Os conceitos envolvidos em tal comissão só foram adotados alguns anos mais tarde em função da liderança de Martin Luther King. Em 1972, o presidente Richard Nixon incorporou a ação afirmativa como política através da Lei da Oportunidade Igual no Emprego, sancionada como emenda à Lei dos Direitos Civis, de 1964. Essa legislação determinou que todos os órgãos públicos, todas as empresas que prestavam serviço para o governo federal e todas as instituições que recebiam de alguma forma auxílio do governo federal deveriam estabelecer metas e prazos para admitir pessoas de minorias raciais e mulheres (BRANDÃO, 2005). Silva (2002) apud Brandão (2005) apresenta como os programas de ação afirmativa se desenvolveram em quatro principais vertentes, sendo a primeira constituída pelas ações de conscientização da sociedade americana em 1960; a segunda composta pela concessão de apoio financeiro do governo federal americano aos estados, municípios e distritos educacionais e empresas que adotaram programas de promoção social da população negra; a terceira, 10 baseada no estabelecimento de percentuais proporcionais à representatividade das minorias para empregos, escolas e universidades e a última, explicitada pela concessão de financiamento a empresários negros e de outras minorias, a fim de formar uma classe média negra ponderável, econômica e socialmente. No entanto, em 1978, a Suprema Corte dos EUA proibiu a adoção de cotas para minorias no ensino superior, mantendo somente os quesitos de cor e sexo na seleção de alunos que pretendiam ingressar nas universidades americanas. No período de 1980 a 1990, os programas de ação afirmativa permaneceram, mesmo sob a gestão do Partido Republicano, que era contrário a tais programas (BRANDÃO, 2005). Em 1995, o presidente Bill Clinton ordenou a revisão de toda a legislação federal sobre o tema, por acreditar que havia um excesso de programas de ação afirmativa. Dois meses depois, a Suprema Corte norteamericana excluiu os programas do governo federal destinados às minorias raciais. No ano de 1996, houve um debate sobre a legalidade da ação afirmativa que se concentrou em um projeto de lei estadual do estado da Califórnia. Este projeto, denominado Preposição 209, proibia a discriminação ou tratamento preferencial baseados em raça, sexo, cor, etnia ou origem nacional no funcionalismo, educação e contratações públicas. Como se observa, os autores desta preposição desejavam o fim da política de ação afirmativa. O resultado da votação foi sua aprovação em 1997 pela Suprema Corte (BRANDÃO, 2005). Finalmente em 2003 a Suprema Corte decidiu que as políticas de ação afirmativa são constitucionais, inclusive o programa para as minorias raciais, levando a uma contribuição significativa para a diminuição da xenofobia e dos preconceitos raciais nos Estados Unidos da América (BRANDÃO, 2005). 11 2.2. Histórico das Ações Afirmativas no Brasil A primeira proposta oficial com caráter afirmativo no Brasil foi em 1968, Nesta proposta dizia-se que a única solução para impedir a discriminação racial no mercado de trabalho seria a aprovação de uma lei que obrigasse as empresas privadas a manter uma percentagem mínima de empregados de cor (BRANDÃO, 2005). Porém, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), outorgada em 1943, já trazia dois artigos que podem ser considerados medidas de ações afirmativas, sendo eles: o art. 354, que determina cota de dois terços de brasileiros para empregados de empresas individuais ou coletivas, e o art. 373 - que determina a adoção de políticas destinadas a corrigir as distorções responsáveis pela desigualdade de direitos entre homens e mulheres (BRANDÃO, 2005). Além disso, a própria Constituição brasileira de 1988 reconhece e condena qualquer ato de discriminação, punindo-o como um crime inafiançável. Maggie e Fry (2004) utilizam em seu trabalho alguns incisos dos artigos 3, 4 e 5 desta Carta Magna, que apontam as penalidades. O inciso IV do artigo 3, diz que entre os objetivos da Republica Federativa do Brasil, está a promoção do “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. O inciso VIII do artigo 4, afirma que o país rege-se nas suas relações internacionais pelo “repúdio ao terrorismo e ao racismo”. E por último, o inciso XLII do artigo 5, define a prática racista como “crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. Brandão (2005) aponta outros artigos, tais como o art.37, inciso VIII, que estipula cotas de até 20% para portadores de deficiência no serviço público civil da União e o art. 7, inciso XX, que prevê a concessão de incentivos específicos para empresas que contratarem mulheres. O autor também diz que o governo do Distrito Federal tornou obrigatória em 1996, a representação das diversas etnias em toda a propaganda institucional do governo, retratando a proporcionalidade de 54% de brancos, 40% de pardos, 5% de negros e 0,11% de índios. Mas somente em 2001, o governo federal começou a adotar um percentual de contratação de negros para os seus ministérios, através da 12 portaria n.202, que destinou 20% dos cargos da estrutura institucional do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária para negros, atingindo um percentual de 30% até o final de 2003. Em dezembro desse mesmo ano, o Ministério da Justiça baixou uma portaria que estipulava cotas, nos mesmos ministérios, de 20% para negros, 20% para mulheres e 5% para deficientes físicos ou mentais (BRANDÃO, 2005). Em 2002, na data comemorativa da abolição da escravatura no Brasil, o governo federal instituiu o Programa Nacional das Ações Afirmativas, coordenado pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça (BRANDÃO, 2005). Cardoso (2008) diz que as ações afirmativas no Brasil têm como foco os seguintes objetivos: promover ações concretas de combate ao racismo na educação brasileira; introduzir transformações de ordem cultural, pedagógica e psicológica, destinadas a subtrair do imaginário coletivo a idéia de supremacia e de subordinação de uma raça à outra; promover a representação de cada grupo da sociedade no mercado de trabalho; criar personalidades emblemáticas, que seriam pessoas negras em posição de prestigio e poder, como exemplos de mobilidade social ascendente para servirem de mecanismos de incentivo à educação e ao aprimoramento de jovens integrantes de grupos minoritários. Ainda para o autor, no que diz respeito especificamente à população negra, as justificativas estão baseadas principalmente em três argumentos: o da justiça histórica, ou seja, reparação de danos causados aos negros pela escravidão; o da diversidade, pelo qual a integração de diferentes culturas beneficiaria a sociedade como um todo; o do combate às desigualdades sociais entre brancos e negros, fruto da discriminação racial persistente no país. Tanto para Cardoso (2008) quanto para Maggie e Fry (2004) o marco das ações afirmativas é a III Conferencia Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata juntamente com o reconhecimento oficial da legitimidade de reparação da escravidão. Assim, as políticas afirmativas são mecanismos político-sociais que objetivam proporcionar igualdade de oportunidades a grupos socialmente marginalizados 13 (CARDOSO, 2008). Para Arbache (2006) as ações afirmativas buscam prevenir a discriminação e incluir uma ampla série de mecanismos para criar oportunidades iguais, bem como reduzir o racismo em termos gerais. Arbache (2006) e Cardoso (2008) acreditam que as ações afirmativas no Brasil são geralmente em favor da população negra. Ocorrem por meio de reservas denominadas “cotas”. Daí, então, surgiu a Política de Cotas, com o objetivo de aumentar o acesso de negros às universidades públicas brasileiras, por meio da reserva percentual de vagas. 14 2.3. A Política de Cotas Apresentado o histórico das ações afirmativas, será explicado o surgimento da Política de Cotas e qual é a sua função nas universidades públicas brasileiras. O racismo sempre esteve presente entre as relações humanas, tendo seu ápice na escravidão, na qual os negros foram trazidos da África para serem escravos de latifúndios nas colônias dos países mais poderosos da Europa (MAGGIE e FRY, 2004). Devido ao racismo, diversas foram as lutas dos negros para serem reconhecidos como iguais, sendo a mais importante o movimento negro de 1978, que tinha como principal alvo a discriminação racial, também relacionada à pobreza negra que passou a ser referência às desigualdades de tratamento e de oportunidades (GUIMARÃES, 2003). Surgiu, então, a Política de Cotas que é específica para o público negro, pardo e indígena. Para Menin et al. (2008) esta política se coloca como uma ação afirmativa que tem como princípio motivador o alcance da igualdade real entre negros e brancos. Além disso, ela parte da constatação histórica das inúmeras discriminações que os negros sofreram e busca uma forma de reparação e/ou compensação das perdas causadas a esse grupo. Nesse mesmo contexto, Azevedo (2004) diz que tal política é o único modo de combater o racismo que contempla positivamente o grupo negro, ou seja, é uma discriminação positiva, gerando oportunidades para a raça negra. Piosevan (2009) afirma que a Política de Cotas busca remediar um passado discriminatório, objetivando acelerar o processo de inclusão com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos vulneráveis como as minorias étnicas e raciais. Ainda nessa direção, Guimarães (2003) comenta que esta medida do governo não somente levou em conta o contexto histórico, mas também a atual situação do ensino público, que se encontra estagnado em relação ao ensino privado, impossibilitando a camada social mais pobre, com grande percentual negro, a ingressar no ensino público superior. A Política de Cotas é, portanto, uma política pública social, que de acordo com Hofling (2001) é responsabilidade do Estado. Como toda política social, esta também é voltada, em princípio, para a redistribuição dos 15 benefícios sociais visando à diminuição das desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico e pelas condições históricas. O atual projeto de Lei 3627/2004, presente neste trabalho em anexo, determina que as instituições públicas federais de ensino técnico, agrotécnico, tecnológico e científico, em quaisquer de seus níveis, médio, pós-médio e superior, reservarão cinqüenta por cento de suas vagas para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio público. Destes cinqüenta por cento, uma proporção mínima será preenchida por autodeclarados negros e indígenas igual à proporção de pretos, pardos e indígenas na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo do IBGE (BRASIL, 2004). Neste ano de 2010, iniciou-se um novo debate sobre a implantação da Política de Cotas, pois muitos críticos acreditam que esta política contraria o princípio da igualdade dos candidatos no vestibular, ferindo a Constituição. Até o momento, a Conferência Nacional de Educação já decidiu que as cotas sociais são de interesse da população. Com isso, o documento do projeto de lei, em fase de finalização, vai apontar que 50% das vagas das universidades brasileiras devem ser guardadas para os estudantes egressos da rede pública. A grande polêmica, no entanto, será determinar se, dentro deste percentual, haverá ou não um recorte racial. 16 2.4. As opiniões de alguns autores Embora a proposta da Política de Cotas seja a inclusão de um grupo historicamente prejudicado, muito se discute em relação aos aspectos positivos e negativos que esta medida pode propiciar ao público alvo. Um primeiro aspecto levantado está relacionado a quem é negro no Brasil. Menin et al. (2008, p.257) diz que as relações entre os negros e os brancos são um “mito da democracia racial”, por meio do qual se nega haver preconceitos e discriminações de raça no Brasil, já que vivemos em um país em que há igualdade étnico-racial. Para esse autor, as desigualdades que vivenciamos decorrem de fatores econômicos. Nesse mesmo contexto Azevedo (2004) diz que existem controvérsias sobre a introdução da cota racial na sociedade brasileira pelo fato do conceito de raça não existir tão solidamente no nosso imaginário e porque as categorias de raças nunca foram implantadas explicitamente por lei. Dessa forma, a população brasileira nunca foi obrigada, por determinações legais, a identificarse racialmente. Além disso, muitos concluem desta constatação que não seria possível combater o racismo na ausência de tais categorias, partindo do pressuposto que o racismo deriva da existência real das raças e da conseqüente dominação de uma raça por outra, seja em termos biológicos ou sociais. Maggie e Fry (2004) acrescentam dizendo que os criadores das leis estão cientes desse problema, deixando a definição para quem se candidata às vagas nas universidade públicas, o que é chamado de autoclassificação. Esta é, para Azevedo (2004), um desacordo entre o reconhecimento de si mesmo e o reconhecimento através do olhar do outro, ou seja, a forma como uma pessoa se classifica pode não concordar com a forma de classificação do outro. O autor aponta uma pesquisa feita pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), na qual a população brasileira se autoclassificou. O resultado foi que a população se autoclassificou de diversas formas, obtendo como total 135 cores distintas. O que se nota neste resultado é que as pessoas não sabem como se classificar e como resposta o IBGE decidiu que o brasileiro pode ter cinco cores: branca, parda, negra, indígena e amarela. 17 Outro aspecto levantado por Brandão (2005) é que a implantação de um sistema de acesso ao nível superior público, baseado unicamente no critério de cor da pele, consequentemente põe de lado outros critérios importantes, tais como a condição econômica e o critério do mérito. Seguindo esse mesmo raciocínio Menin et al. (2008) diz que valores como justiça, igualdade e mérito estão sendo questionados pelas políticas de ação afirmativa, levando a maioria dos universitários a se oporem a tais políticas. Além disso, nessa perspectiva de mérito e de igualdade formal, mantém-se o tratamento igual para aqueles que são desiguais, ampliando as desigualdades. Ou seja, tratar indivíduos historicamente discriminados como iguais é não reconhecer as dificuldades e limitações que estes sofreram e sofrem. Se todos são iguais perante a lei, negros e brancos possuem a mesma capacidade, é irrelevante a política de cotas, tornando o esforço pessoal o principal critério no ingresso numa universidade. Mas, se existe diferenças entre negros e brancos devido a um contexto histórico que não distribuiu oportunidades iguais, faz-se necessário tal política. Azevedo (2004) complementa que os brancos saem prejudicados, perdendo o direito a concorrer a uma boa universidade, movidos pelos seus próprios esforços, disciplina e talento, já que a cor da pele teria precedência sobre o mérito individual de cada vestibulando. Ainda neste contexto, Bortolini e Pena (2004, p. 46) levantam sobre a possibilidade de a genética definir quem deve se beneficiar das cotas e das ações afirmativas, mesmo que não existam diferenças morfológicas, biológicas e intelectuais entre a raça branca e a raça negra. Estes autores afirmam que: Raças humanas não existem do ponto de vista genético ou biológico. Apenas 5% da variação genômica ocorre entre as chamadas ‘raças’. Ademais, somente 0,01% do genoma humano varia entre os indivíduos. Em outras palavras, toda a discussão racial gravita em torno de 0,0005% do genoma humano! O que se pretende demonstrar através destes estudos é que biologicamente não existem diferenças entre as pessoas. A cor de um indivíduo é estabelecida por alguns genes totalmente desprovidos de influência sobre inteligência, talento artístico ou habilidades sociais. Para os autores, estes estudos podem servir de subsídios para as decisões políticas. Defendem que o 18 perfil genético da população brasileira seja levado em conta em decisões políticas. Entretanto, estes autores não ignoram o fato da pigmentação da pele ser elemento predominante da avaliação social de um indivíduo e talvez a principal fonte do preconceito. Ainda sobre o tema preconceito Maggie e Fry (2004) acreditam que a implantação da política de cotas leva a imaginar o Brasil composto não de infinitas misturas, mas de uma raça branca e de uma raça negra. Duarte e Guelfi (2009) dizem que sobre a implantação dos programas de ação afirmativa, dois argumentos têm sido utilizados para atacá-los. O primeiro é baseado no fato do estabelecimento de vagas para negros institucionalizaria o racismo, pois faz uso da raça e, o segundo diz que o sistema contraria uma identidade mestiça que seria nossa identidade nacional, criando com a categoria binária o desentendimento ou conflito racial. Sobre esses argumentos os autores dizem que o que está em jogo não é a raça, como se ela fosse uma essência, mas o que ela representa na sociedade como um padrão de exclusão. Além desses aspectos, a falsa crença de demarcação de identidades pelos programas de inclusão como geradora do racismo, se fundamenta em uma série de equívocos, como por exemplo, a entrada na universidade não é mecanismo de formação de identidade, mas apenas uma das múltiplas influências a que estão sujeitos os indivíduos. Para estes autores não há problema racial, o que existe é racismo ou desigualdades raciais. Os programas de inclusão partem da constatação de problemas sociais verdadeiros, comportamento das raças. não de ideologias raciais sobre o Neste sentido Duarte (2004) diz que o reconhecimento expresso do direito ao ensino obrigatório e público como direito público subjetivo autoriza a possibilidade de, constatada a ocorrência de uma lesão, o mesmo ser exigido contra o Poder Público de imediato e individualmente. Ocorre que, como estamos diante de um direito social, o seu objeto não é uma prestação individualizada, mas sim a realização de políticas públicas, sendo que sua titularidade se estende aos grupos vulneráveis. O autor ainda lembra que o direito à educação não se reduz ao direito do indivíduo de cursar o ensino obrigatório e superior para alcançar melhores oportunidades de emprego e contribuir para o desenvolvimento econômico da nação. Deve ter como escopo o oferecimento de condições para o 19 desenvolvimento pleno de inúmeras capacidades individuais, jamais se limitando às exigências do mercado de trabalho, pois o ser humano é fonte inesgotável de crescimento e expansão no plano intelectual, físico, espiritual, moral, criativo e social. E é nestas dimensões que o sistema educacional deve proporcionar oportunidades de desenvolvimento, fomentando valores como o respeito aos direitos humanos e a tolerância, sempre em condições de liberdade e dignidade. Além disso, o autor diz que o importante é perceber que a implantação de um sistema público adequado de educação interessa não apenas aos beneficiários, mas à coletividade. Nessa relação com os direitos humanos, Piosevan (2009) diz que no âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos, destacam-se duas estratégias, sendo a primeira uma estratégia repressiva - punitiva, que tem por objetivo punir, proibir e eliminar a discriminação e, a segunda uma estratégia promocional, que objetiva promover, fomentar e avançar a igualdade. A autora diz que se o combate à discriminação é medida emergencial para a implementação do direito à igualdade, esta medida por si só, é insuficiente. Logo, se faz necessário conjugar a vertente repressiva–punitiva com a vertente promocional através de ações afirmativas. Estas são adotadas para avaliar e remediar as condições resultantes de um passado de discriminação, cumprindo a finalidade pública decisiva ao projeto democrático, que é a de assegurar a diversidade e a pluralidade social. O que a autora pretende dizer é que se a raça e etnia sempre foram critérios utilizados para exclusão de afrodescendentes em nosso país, que hoje sejam utilizados, ao invés disso, para a sua necessária inclusão, encontrando respaldo jurídico, seja na Constituição, seja nos tratados internacionais ratificados pelo Brasil. Ainda neste contexto, Bertúlio (2009) diz que não há impedimento legal para a proposição da Política de Cotas, ou seja, o sistema jurídico nacional permite, em larga escala, que o Estado determine, edite ou incentive a edição de políticas públicas focadas em peculiar razão explícita e objetiva de desigualdade, que enseje uma reorganização nas oportunidades ofertadas aos grupos atingidos, para o fim de equalizar a demanda ou concorrência dos indivíduos, para melhoria da qualidade de vida do grupo e, consequentemente, da sociedade como um todo. O autor diz que se a Constituição reconhece que há discriminação e desigualdades na sociedade, é preciso necessariamente 20 haja a garantia para que tais fenômenos não se perpetuem. Se considerarmos a Constituição, a partir dos princípios norteadores da República, concluiremos que não efetivar medidas compensatórias para reduzir as desigualdades é um ato de omissão inconstitucional. Maliska (2009) concorda com tal pensamento ao dizer que o não fazer as políticas compensatórias legitimadas pelo artigo 3º da Constituição, implica inconstitucionalidade por omissão do legislador ordinário. O autor diz que não se trata de discricionariedade do poder público em realizar ou não realizar as medidas compensatórias, mas de um dever imposto pela Constituição ao Estado, quando presente a discriminação real. Além disso, acrescenta que a inscrição como cotista não pode ser obrigatória, pois o Estado não pode impor rótulos ou impor tratamentos diferenciados, já que desrespeitaria o principio da liberdade. Assim, é indispensável a manifestação expressa de sua vontade. A Política de Cotas não pretende que todos os negros sejam identificados pelo programa, mas tão-somente aqueles que, reconhecendo-se negros, consideram-se legítimos destinatários de políticas compensatórias. O autor acredita que nesse momento a política cumpre os requisitos acima referidos, pois se faz urgente a reversão do perfil do aluno de terceiro grau no Brasil. Democratizar o espaço público universitário, que forma a elite do país, é uma condição imperiosa para dar ao negro na sociedade brasileira o que lhe é de direito. Ademais, a Política de Cotas se justifica constitucionalmente se ela estiver alcançando a finalidade esperada, ou seja, reduzindo as desigualdades e proporcionando ao grupo beneficiado melhores condições de vida, tanto sob o ponto de vista das perspectivas para esse grupo no tocante a referências sociais, como na integração consistente dessas pessoas nas classes médias. 21 2.5. Os trabalhos analisados O primeiro trabalho estudado foi a tese de Arbache (2006), que focou o aspecto da “Ética da Libertação” de Dussel. Esse estudo, de natureza qualitativa, analisou o caso da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no intuito de identificar e compreender o processo de implantação de reservas de vagas/cotas nos cursos de graduação em 2003, pela Lei Estadual nº 3.708/2001. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semi– estruturadas. Os alunos foram selecionados para a pesquisa com base nas características fenotípicas de negros e pardos, já que a universidade não divulgou a lista com os nomes dos alunos cotistas. Através deste estudo, foi possível a autora confirmar sua questão inicial, que supunha que o que o sistema de cotas na UERJ revelaria um sistema de eticidade crítico, tendo as vozes das vítimas como protagonistas. O segundo trabalho é a dissertação de Sortero (2009), que analisa a trajetória dos estudantes negros da cidade de Salvador, que ingressaram na universidade pública ou privada através da Política de Cotas ou do ProUni. Sua meta era compreender em que medida a escolha por uma ou outra forma de ingresso corresponde a diferenças na trajetória e/ou nas expectativas dos estudantes em relação à inserção no mercado e à ascensão social. A autora percebeu que os negros demonstraram compreender que seu ingresso no ensino superior é fruto, além de seu próprio mérito, da ação política do movimento negro no Brasil. Constatou, também, que o avanço na melhoria de vida para a população negra e pobre, na perspectiva desses estudantes, depende de sua atuação. O terceiro e último trabalho é a dissertação de Sacramento (2005), que analisou as experiências vividas pelos alunos ingressantes na Escola Superior de Desenho Industrial - ESDI, pela da adoção da modalidade de cotas raciais. Por meio de uma pesquisa empírica e da interpretação quantitativa e qualitativa dos dados sobre esta experiência pioneira no Ensino Superior, o trabalho buscou traçar o perfil destes jovens e as motivações que os levaram a escolher a carreira de design, considerada pela sociedade como de alto prestígio. O trabalho identificou as estratégias de permanência em curso e as mudanças observadas na instituição e no campo do design. Os jovens negros 22 demonstraram ampliação de suas expectativas e projetos futuros, relataram possibilidades de transformação em relação ao mercado de trabalho e comunicaram formas de estar e permanecer na ESDI. 23 3. Metodologia Sendo o objetivo deste trabalho a análise da Política de Cotas através das impressões dos cotistas, foi necessária a busca de trabalhos acadêmicos que tivessem como foco as experiências destes alunos. Localizamos cinco trabalhos com esse foco, três dissertações e duas teses. Entretanto, uma dissertação e uma tese foram descartadas, pois não traziam as falas dos cotistas na íntegra, fugindo do propósito deste trabalho. Após uma leitura completa desses estudos, passamos à análise das falas dos alunos. O primeiro passo foi agrupá-las em categorias, com base em seu conteúdo, sendo elas: 1. Oportunidade: nesta categoria localizam-se as falas dos cotistas que de alguma forma evidenciam a relação entre a política de cotas e a oportunidade de estar no ensino superior. 2. Quebra de barreiras: aqui estão as falas dos cotistas que relacionam a política de cotas à superação de barreiras impostas pelo poder econômico. 3. Autodeclaração: nesta categoria as falas dos cotistas apontam vantagens e desvantagens da autoclassificação. 4. Discussão Social: Aqui as falas dos cotistas tratam da presença ou ausência de discussões na universidade sobre a entrada de cotistas. 5. Merecimento: nesta categoria as falas dos cotistas mostram que estes acreditam que são merecedores das vagas, pois pertencem a um grupo excluído social e economicamente. 6. Discriminação: aqui foram agrupadas as falas que tratam explicitamente da questão da discriminação dos cotistas nas universidades. 7. Sensação de culpa: nesta categoria estão as falas dos cotistas que revelam sentimentos de culpa por ocuparem vagas que poderiam ter sido destinadas a pessoas que tiveram desempenho melhor do que o deles nas provas de ingresso ao ensino superior. Estas categorias, posteriormente, serviram de subsídio para uma síntese geral. Na análise, comparamos esses dados com o referencial teórico. 24 4. Resultados Sendo o objetivo deste trabalho a análise da Política de Cotas sob o olhar dos cotistas, os resultados serão apresentados na forma de síntese das falas dos cotistas retiradas dos três trabalhos selecionados. No trabalho 1, as opiniões dos alunos se focaram mais na questão ética envolvida na Política de Cotas do que em suas experiências pessoais. Muitos alunos acreditam que a Política de Cotas decorre de um contexto histórico de lutas dos negros pelo direito de oportunidade e de igualdade. Nesse sentido, não é vista como concessão da classe dominante, mas como um direito conquistado por meio de lutas, o que fica evidenciado nas falas a seguir: Foi um direito que conseguimos depois de muitas lutas. (Estudante do Curso de Direito) (...) Então, quando conseguimos esta vitória – isto é para nós é uma vitória, de entrar na faculdade e estar aqui dentro, mesmo sendo deficiente de estudo, de cultura, de tudo. Mas aqui dentro você tem a oportunidade de mudar essa situação. (Estudante do Curso de Letras) Eu acho que o fato de eu estar aqui hoje é porque eu venci muitas barreiras, é uma coisa histórica, porque o espaço acadêmico não foi criado para qualquer um. (Estudante do Curso de Direito) Percebe-se que as cotas são vistas como medidas de reparação pelas injustiças sofridas pelos negros: Eu tenho uma opinião que vem do seguinte pressuposto, o negro quando subiu à favela, ele não teve a mesma oportunidade que os imigrantes tiveram. Nós ficamos com as piores escolas, com os piores professores, com a falta de saneamento básico, de luz (...). (Estudante do Curso de Letras) Ela corrige uma desigualdade entre as pessoas, no caso da Universidade. (Estudante do Curso de Direito) ... Essas medidas visam reparar algum dano sofrido por algum grupo étnico, racial, por alguma questão histórica. (Estudante do Curso de Direito) 25 Para vários alunos, as cotas são atualmente a única possibilidade de acesso ao ensino superior: Foi a possibilidade que nós temos. Eu encontrei alguns alunos e eles me falaram que ficaria mais fácil para passar e nós teríamos essa oportunidade. (Estudante do Curso de Engenharia de Produção) Ela visa dar acesso à universidade pública que, infelizmente para nós que somos negros e temos uma renda inferior, justamente isso dificulta o acesso. [...] Se não tivesse reserva de cotas eu não passaria no vestibular. (Estudante do Curso de Direito) Além de propiciar oportunidade aos negros, a implantação dessa medida por algumas universidades federais suscitou muitas discussões sobre o preconceito. Uma das questões mais polêmicas diz respeito à declaração de cor no ato das inscrições para o vestibular, o que levantou questões importantes sobre quem é o negro em um país tão miscigenado quanto o nosso: Eu acho que a principal questão levantada com relação ao sistema de cotas foi: Quem é o negro no Brasil? Como você vai definir quem é negro neste país que é mestiço e que tem uma diversidade cultural tão grande? (Estudante do Curso de Direito) Se negro não se declara como negro ou como pardo você está dizendo que não sabe qual é a sua cor. (Estudante do Curso de Filosofia) Outra conseqüência da declaração de cor é a falsa autodeclaração de algumas pessoas com intuito de entrarem na faculdade: Eu já vi gente branca de olho azul se declarando parda ou negra para poder entrar na faculdade por causa das cotas. Tem muita gente que não visualiza isto, essa relação cotas, negros e desigualdade, vêem só um jeito de entrar na faculdade. (Estudante do Curso de Enfermagem) Apesar dos cotistas acreditarem que a Política de Cotas visa à inclusão de um grupo excluído historicamente, não significa que ela não excluiu outros grupos que se também se encontram em condições desprivilegiadas. Identificamos comentários que mostram certo incômodo dos cotistas, quando 26 pensam em alunos que vivem com dificuldades econômicas, mas por serem brancos não tiveram a mesma oportunidade: Eu me colocando no lugar daquele que está no cursinho prévestibular, está na mesma situação que eu e, só porque eu sou negra, fui beneficiada e ele ficou para trás. Não acho justo (Estudante do Curso de Medicina). Em parte, porque a gente entra pela cotas de negros, de certa forma nós estamos prejudicando alguém que passou fora das cotas. Então, fica esta coisa de que estamos tomando a vaga de quem precisa é uma coisa muito complicada (Estudante do Curso de Pedagogia). Não acho justo porque houve alunos que entraram com muito pouco ponto, ou seja, eu não sei se a pessoa não está preparada, ou se não fez boa prova no dia, mas tem gente que fez muito ponto e não entrou (Estudante do Curso de Medicina). Foi mencionado também outro efeito da política de cotas: a potencialização da discriminação já existente na sociedade: Antes de começar o curso estavam dizendo que estava tendo discriminação, que o pessoal que estava entrando por cotas não iria ter o mesmo desenvolvimento, não conseguiria terminar o curso. Estavam falando que o nível iria baixar (Estudante do Curso de Enfermagem). Alguns professores falam que não têm discriminação nenhuma, mas outros não mostram que têm alguma discriminação sim. É a maneira de agirem, eles falam de outros anos e comparam com este ano (Estudante do Curso de Medicina). Quando a gente entrou para cá era um pouco discriminado, não tanto pelos alunos, mas por conta da mídia que caiu em cima (Estudante do Curso de Letras). A impressão que dá é que estão fazendo um favor aos cotistas, que eles são uns coitados (Estudante do Curso de Pedagogia). E essas políticas, às vezes, não deixam de ser objetos de discriminação, porque quando separa, passa a ter um vestibular para negros, mulheres e outras pessoas, não deixa de ser uma política de discriminação (Estudante do Curso de Pedagogia). 27 Uma importante questão levantada trata da falta de preocupação da universidade em auxiliar os alunos cotistas, ignorando que estes não tiveram um ensino básico que lhes garantissem a permanência na mesma: Nós entramos totalmente alienados dentro de uma universidade, sem saber o nosso papel aqui dentro, ou de usar um computador, Eu, por exemplo, nunca tive contato com informática. Essa falta de preocupação levou, em alguns casos, à formação de grupos de apoio e até mesmo à mobilização de alguns professores a ajudarem seus alunos: [projeto Espaços Afirmados] ajuda os alunos e foi uma maneira de interagir em todos os cursos da área de humanas e uma maior integração com os alunos. Nós temos monitores que nos ajudam a desenvolver trabalhos e auxiliam no nosso desenvolvimento (Estudante do Curso de Pedagogia). Sim, pelo menos aqui eu acho que os professores estão sendo muito amigos, eles têm ajudado no que diz respeito aos trabalhos (Estudante do Curso de Pedagogia). Em síntese, nas falas dos alunos entrevistados no estudo 1, podemos perceber alguns benefícios que política de cotas lhes propiciou. Ela é vista como resultado de muitas lutas dos negros para conquistarem seu lugar na sociedade, conquistando igualdade e oportunidades. Possibilitou o ingresso de pessoas que não acreditavam que um dia teriam a oportunidade de estar no ensino superior e, mais ainda, permitiu que seu passado fosse reconhecido desmistificando o preconceito a elas atribuído. Apesar dessas contribuições, vimos que ela não elimina questões que se apresentam no dia-a-dia, como as diversas formas de discriminação e a dificuldade dos alunos em se manterem no curso. O trabalho 2 foca mais as experiências pessoais dos cotistas e como a Política de Cotas permitiu que esses alunos se preocupassem com o mercado de trabalho e com seu futuro. Muitos têm a consciência de que se não existisse tal política, provavelmente teriam que trabalhar e deixar os estudos para segundo plano: [entrar na faculdade] era uma necessidade. Porque quem é pobre chega certa idade que o pai não pode mais suprir as necessidades, é tanto porque eu tive que estudar o nível médio 28 em escola pública, porque não tinha mais condição de pagar uma rede particular. Aí você tem duas opções, ou você consegue entrar numa faculdade federal ou estadual que é de graça, ou você vai ter que trabalhar pra quem sabe um dia você fazer vestibular em uma faculdade particular e conseguir ingressar (Vitor, 20 anos). Eu sairia do ensino médio, teria que buscar um emprego o mais rápido possível se eu ainda quisesse dar sequência a meus estudos, então entrar em curso preparatório pra tentar uma universidade estadual ou federal, mas pra isso eu teria que entrar num emprego pra pagar um bom curso. Ou então, eu apenas começaria a trabalhar, ganhando dinheiro, sem perspectiva de dar sequência aos estudos (Pilas, faculdade B). Foi possível perceber o valor que os alunos dão ao curso superior e também a importância de uma especialização para a inserção no mercado de trabalho, levando a uma mudança social e uma melhoria de vida: Chega um momento que você começa entender as coisas, aí você começa a entender que pra você conseguir alguma coisa na sua vida, o nível superior passa a ser uma das opções, entendeu? Você passa a entender que pra você ser médico, ser advogado, dentista, a maioria das profissões, você precisa ter nível superior. Acho que é isso, eu entendi que eu precisava ter uma melhor formação e buscar uma coisa melhor, principalmente uma mudança social que a gente aspira, melhorar de vida, melhorar a vida da família (Lucas, 21 anos). Agora que tem de diferente é a parte superior da coisa. Antigamente não, antigamente o ensino médio era sua universidade. Você precisava ter o comprovante, tendo o ensino médio, beleza, dava pra entrar numa empresa. E ali naquela empresa, dependendo da sua desenvoltura, você ia crescendo. Mas hoje em dia não é mais assim. Pra assumir um cargo de chefia você precisa ter nível superior (Luís, 28 anos). O que eu aprendi hoje é que você tem que se aprimorar, não é apenas somente cursar a faculdade (Pilas, faculdade B). Outro fator importante é que os cotistas se identificam e se sentem diferentes, percebendo que tem um perfil diferente dos demais alunos: Logo quando começaram as aulas, ninguém sabia quem era cotista e quem não era... os professores não perguntavam sobre isso, acho que até é proibido, mas ficava aquela coisa... Eu não sabia quem era cotista, mas fui me aproximando mais das pessoas que tinham aquele mesmo perfil que eu, que 29 vestiam roupa mais simples... também que ficavam no intervalo na faculdade (Bruna, 21 anos). Apesar da faculdade não divulgar os nomes dos alunos cotistas, muitos se sentiam discriminados, apesar de seus colegas alegarem ser contra o racismo: Hoje em dia se tem um discurso... todo mundo na minha faculdade defende o discurso ‘eu sou contra o racismo’, um discurso muito bonito. Mas a pessoa negra se sente diferenciada no tratamento que recebe em diversos espaços que um estudante branco, o estudante comum, porque é o padrão ser assim, não seria tratado (Lucas, 21 anos). ... o preconceito na nossa sociedade acaba designando lugares que são lugares de negros e lugares que são pra o branco ocupar. Principalmente naquelas posições que se dá menor prestígio social não há estranhamento, ou uma discriminação, porque se acha talvez que negro está no lugar dele (Luís, 20 anos). Eu, particularmente como estudante negro que me inseri numa faculdade que tem um perfil mais elitista, que as pessoas têm tanto um padrão de cor diferente do meu, na sua maioria, um padrão social, sinto isso. Não sinto a discriminação... assim, ninguém nunca chegou pra mim e disse ‘olha, você é negro, você é isso e aquilo’. Mas uma discriminação de... por exemplo, você fala com uma pessoa da faculdade, você passa numa lanchonete e a pessoa nem fala com você, nem olha na sua cara (Vitor, 20 anos). Dentre os 32 alunos entrevistados, somente um, ao alegou que não se sentia discriminado. Ele atribuía a ausência de discriminação ao fato de existir um elevado percentual de negros em seu curso: Dentro do meu curso mesmo eu ainda não pude perceber discriminação, porque a gente tem uma relativa proporção de estudantes negros lá no curso, minha turma é bem heterogênea e esse corte racial não parece evidente, se existe eu ainda não pude perceber. Em síntese, nas falas dos alunos entrevistados no trabalho 2, podemos perceber a importância da Política de Cotas no ingresso no ensino superior, visto que muitos somente trabalhariam se esta oportunidade não lhes fosse dada. Além disso, fica claro nas falas dos cotistas a importância do mercado de 30 trabalho na mudança social e na melhora de vida. Apesar destas contribuições, a discriminação se faz presente em diversas formas como a indiferença por parte dos alunos brancos. O trabalho 3 foca as experiências pessoais dos cotistas e como a Política de Cotas promoveu mudanças nas concepções dos alunos sobre os próprios negros. Muitos acreditam que tal política quebrou barreiras históricas, possibilitando que um grupo excluído tivesse oportunidade de ingressar na universidade, mesmo que esta seja destinada à elite: A reserva de vagas foi positiva porque derrubou uma barreira imposta pelo poder econômico para aqueles que não o detinham (Aluna da turma de 2004). A partir do momento que existe um grupo grande de pessoas que tem um prejuízo devido ao modo como a sociedade os ‘posiciona’, estas merecem uma oportunidade nos locais que são normalmente de difícil acesso (Aluna da turma de 2004). Acho que a entrada dos cotistas foi válida, pois muitos estudantes talentosos estão tendo a chance de estudar numa boa universidade e explorar o seu potencial, o que dificilmente aconteceria sem o sistema de cotas (Aluna da turma de 2004). Um importante aspecto que tal medida possibilitou foi a discussão sobre a classificação das pessoas pela cor. Muitos não concordam com a classificação do IBGE, pois esta não leva em conta a origem e a cultura dos alunos e de suas famílias: Bom, eu assumo a postura de ser negro. Não tenho vergonha, só que assim pela pesquisa do IBGE, pelos dados que eles dizem, pardo, amarelo, preta assim, eu já não concordo tanto (Aluno da turma de 2003). Minha família é muito misturada. Eu tinha uma bisavó que era índia, um bisavô que era italiano então não tem como definir mesmo. Na verdade a minha mãe e eu somos as mais escuras da minha família. Minhas primas, a minha avó é branca, é meio complicado definir a minha família (Aluna da turma de 2004). ... Eu me classifico como parda porque eu sou descendente mas eu sei que quando olham pra mim, acham que eu sou branca. Eu me considero parda por família, porque meu avô é negro, a minha mãe na certidão dela ta parda. Mas tenho avô branco também. Tem muitas pessoas que talvez têm mais 31 descendência que eu e se consideram brancas, então é muito difícil (Aluna da turma de 2003). Ademais, muitos acreditam ser difícil classificar a população de um país de misturas, como o Brasil: Acho uma classificação meio complicada porque no Brasil tem muita miscigenação então você acaba sendo um pouco de tudo então é meio fora de uso, não sei, acho que não classifica bem (Aluna da turma de 2004). Outros, ainda, acreditam que a classificação de raças diferencia as pessoas, levando ao racismo e ao preconceito: Acho errado classificar as pessoas em raças, independentes do objetivo de tal classificação. Sabe-se que só há uma raça – a humana – e as cotas apenas reforçam a noção de que há diferentes raças e consequentemente, o racismo (Aluna da turma de 2003). Uma vez que você reserva vagas de acordo com a cor das pessoas fica óbvio o preconceito. Por uma pessoa ser negra ou parda ela tem menos capacidade de passar no vestibular? Sem contar com todas as demais ‘cores’ que são prejudicados por terem menos chance ainda de passar, já que para eles as vagas diminuíram (Aluna da turma de 2004). Muitos alunos não concordam com a Política de Cotas, pois esta apesar de incluir os negros, exclui os brancos pobres, gerando outra forma de discriminação: Na minha opinião esta foi uma decisão racista, pois privilegia o negro que é pobre em relação ao branco que também é pobre (Aluna da turma de 2004). Acho uma medida paliativa e discriminatória em relação aos brancos (Aluno da turma de 2003). Além disso, esta política favorece os negros de maneira geral, possibilitando que negros de uma classe média ou alta tenham uma maior facilidade de ingresso numa universidade: Com esse tipo de lei muitas pessoas que possuem uma boa renda familiar e bom acesso a escolas e cursos particulares roubam vagas de quem não tem acesso a uma educação. Sem 32 as cotas este tipo de aluno passaria e acho que ele só escolheu a cota por ser mais fácil (Aluno da turma de 2003). Além de reservar um número excessivo de vagas para alunos negros, a reserva de vagas permitiu a entrada de alunos com renda per capita alta, deixando os outros alunos com renda menor e, até com mais estudo fora do sistema (Aluno da turma de 2003). Em muitas das falas dos alunos, foi possível perceber que a Política de Cotas trouxe muitos benefícios, tais como: crescimento pessoal em função de estar na faculdade, capacidade de formular sozinhos suas opiniões e de assumir atitudes independente da opinião dos outros e, ampliação do universo cultural: (...) eu cresci muito aqui dentro, eu aprendi muita coisa. Quando eu entrei aqui, as pessoas até que comentam, eu era muito inseguro, muito tímido, hoje eu ainda sou um pouco tímido, mas é uma coisa que eu controlo melhor e fora que aconteceram várias coisas aqui que me serviram para ver que eu não preciso necessariamente estar seguindo a opinião dos outros, eu posso tomar umas atitudes em relação a minha vida mesmo que todos discordem dela, de lutar (Aluno da turma de 2003). Muda sim. As pessoas meio que inconscientemente passam a te dar um pouco mais de valor. Ainda mais que é uma faculdade pública (Aluna da turma de 2004). Eu comecei a freqüentar mais museus após passar pela a faculdade. Era assim o tipo de atividade cultural que eu não estava acostumado. Eu fui porque eu passei a ter necessidade, a faculdade te obriga de uma forma ou outra porque você tem que adquirir cultura, a cultura que talvez você já deveria ter e que tem de adquirir, para seu próprio trabalho cada vez possa ser mais desenvolvido (Aluno da turma de 2004). Acho que me tratam com um pouco mais de respeito, apesar de você ser adulto só aos 21 anos de idade, quando eu entrei pra faculdade eu passei a ser visto como um adulto, porque eu tinha 17 anos quando soube que passei pra cá e passaram a me tratar como adulto neste momento (Aluno da turma de 2003). Outro aspecto positivo encontrado nas falas de alguns alunos é não se sentirem discriminados e como o ingresso no ensino superior mudou a opinião dos alunos em relação aos cotistas: 33 ...não vi nenhum preconceito, nenhuma discriminação, nem nada. Até hoje a galera trata a gente na boa. Eu não sei como era a relação antes das cotas que eu não tava aqui antes, mas nesses aspectos assim não tenho nenhuma reclamação a fazer não (Aluno da turma de 2003). Eu achava que com o sistema de cotas haveria um choque grande dentro da faculdade, que seria algo agressivo entre os alunos cotistas e não cotistas e quando eu entrei vi que isso era um preconceito meu que não aconteceu. A receptividade dos alunos foi boa, entre os alunos não vi nenhuma situação de preconceito, discriminação ou conflito e a relação com os cotistas é totalmente normal. A entrada aqui serviu para mudar o meu ponto de vista (Aluno da turma de 2003). No meu curso são muito competentes e são tão alunos quanto os que não entraram por cotas (Aluno da turma de 2004). Apesar de alguns cotistas não se sentirem discriminados por parte dos alunos, alguns professores se mostraram apreensivos quanto ao modo de dar sua aula, pressupondo que teriam que baixar o seu padrão: (...) A parte dos professores, eu já achei que não foi muito legal não, eu já senti uma coisa mais... quase uma perseguição. Não uma perseguição no sentido mais pesado da palavra, mas uma coisa não declarada, até uma professora que até já foi mandada embora, que fez uns comentários desnecessários (Aluno da turma de 2003). Houve sim uma preocupação muito grande por agora estarem trabalhando com um perfil de estudantes que não recebeu uma educação liberal, recebeu uma educação coerciva, pouco criativa, restrita, e ficou aquela coisa de ‘Será que eu vou ter que baixar meu padrão?’ (Aluno da turma de 2003). Apesar de muitos concordarem que tal política permitiu que os negros tivessem oportunidade de ingressar na universidade pública, foi possível identificar no grupo entrevistado a presença da crença de que a melhor solução para o problema do negro no Brasil seria o investimento e a reparação do ensino básico, permitindo a todos a mesma capacidade de competir no vestibular: 34 O vestibular, como processo de qualificação e avaliação dos candidatos, não deveria ser mexido. Outras providências deveriam ser tomadas para proporcionar mudanças sociais e dar oportunidade de acesso a uma educação de base sólida (Aluno da turma de 2003). Acho positiva a preocupação do Estado em aumentar a quantidade de negros na universidade, porém às vezes dá a entender que os negros não são capazes de passar em vestibular. Por isso, acredito ser mais justo definir cotas para pessoas com renda baixa. Mas o que seria ideal é uma reforma nas escolas públicas, aumentar a qualidade do ensino público (Aluno da turma de 2004). O Estado deveria investir mais no ensino de base, melhorar a qualidade das escolas públicas para que todos, negros e brancos, independente de sua condição social, possam competir em igualdade por uma vaga nas Universidades (Aluno da turma de 2003). Em síntese percebemos, nas falas dos cotistas no trabalho 3, a importância da Política de Cotas na inclusão de alunos socialmente e economicamente excluídos, permitindo que estes ao ingressar na universidade mudem suas concepções em relação a si mesmos e melhorem sua qualidade de vida. Além disso, o fato de estar na faculdade fez com que estes alunos se sentissem valorizados, sendo respeitados pela sociedade que um dia os reprimiu. Outra contribuição foi que alguns alunos não se sentiram discriminados, possibilitando que os cotistas se sentissem como qualquer outro aluno. Apesar de tantas contribuições, muitos alunos acreditam que tal medida leva as pessoas a se classificarem pela cor, o que pode levar a uma diferenciação de raças, acarretando no racismo. A característica mais marcante nas falas dos cotistas é a consciência do real problema estar relacionado ao ensino público básico, que impossibilita qualquer aluno de ter a uma mesma capacidade de competição em um vestibular. Dessa forma, acreditam que a solução é a reparação e investimento deste ensino. 35 5. Análise Fica claro que todos os cotistas entrevistados acreditam que a Política de Cotas é conseqüência das diversas lutas dos negros para conquistarem seu lugar de direito na sociedade. Guimarães (2003) aponta uma luta muito importante, o movimento negro de 1978, que tinha como foco a discriminação racial, que posteriormente foi relacionada à pobreza negra, passando a ser referência às desigualdades de tratamento e de oportunidades. Piosevan (2009) acrescenta que a Política de Cotas, devido a estas lutas, busca solucionar um passado discriminatório, acelerando o processo da igualdade substantiva por parte de grupos vulneráveis como as minorias étnicas e raciais. Não surpreende, portanto, que os cotistas atribuam a política de cotas aos movimentos sociais dos afros descendentes. Outro aspecto comum aos três trabalhos é a dificuldade relatada pelos cotistas em se classificarem de acordo com o censo do IBGE, já que o Brasil é um país constituído de uma grande diversidade cultural e racial. Esta dificuldade poderia ser atribuída ao fato do conceito de raça não existir solidamente no nosso imaginário e, também, ao fato das categorias de raças nunca terem sido implantadas explicitamente por lei (AZEVEDO, 2004). Neste sentido, Menin et al. (2008) indicam a existência de uma crença nacional, segundo a qual no Brasil não existem desigualdades étnico-raciais, sendo as relações entre os negros e os brancos um “mito da democracia racial”. Como se pode notar é difícil classificar as pessoas. Então, foi atribuída aos candidatos ao vestibular a tarefa de se autoclassificar (MAGGIE e FRY, 2004). Este ato foi considerado difícil pelos cotistas do nosso estudo, para quem a desigualdade social entre brancos e negros existe e pode ser intensificada pela classificação das pessoas, tendo em vista que ela as diferencia. Outro aspecto importante sobre a classificação foi mencionado por Azevedo (2004). Ele afirma que as pessoas se classificam de acordo com seus ideais, que podem ser diferentes dos de outros. Há uma brecha, portanto, para situações extremas, mas quais brancos se declaram negros para tirar vantagem no vestibular. Este é um problema apontado por Azevedo (2004) ao 36 comentar que a forma como uma pessoa se classifica pode não concordar com a forma de classificação do outro Foi observada no trabalho 1 e no trabalho 3 a presença de sensação de culpa dos cotistas em relação àqueles alunos que se encontram na mesma situação econômica que eles, mas que não poderão ter a mesma oportunidade por não serem negros. Acreditam, ainda, que ao excluir os brancos pobres as cotas estão gerando outra forma de discriminação. Este aspecto é levantado por Brandão (2005), quando diz que a implantação de um sistema de acesso ao nível superior público baseado unicamente no critério de cor da pele, coloca de lado outros critérios importantes, tais como a condição econômica e o critério do mérito. Além disso, Menin et al. (2008) diz que valores como justiça, igualdade e mérito estão sendo questionados pelas políticas de ação afirmativa, levando a maioria dos universitários a se oporem a tais políticas. Azevedo (2004) complementa que os brancos sairiam prejudicados, perdendo o direito a concorrer a uma boa universidade, movidos pelos seus próprios esforços, disciplina e talento, já que a cor da pele teria precedência sobre o mérito individual de cada vestibulando. No que diz respeito à discriminação nas universidades, não houve consenso nas falas. Apesar de acreditarem na existência de discriminação, alguns cotistas afirmaram que não se sentiram discriminados pelos outros alunos, sendo tratados como qualquer aluno. Entretanto, foi possível observar que outros se sentiram discriminados, indiretamente, pela maneira como as pessoas se comportavam em relação a eles ou até por insinuações de alguns professores. Sobre essa questão, Duarte e Guelfi (2009) dizem que essas discriminações vieram da falsa crença de que definir identidades pelos programas de inclusão de negros gera o racismo. Para estes autores a criação de estatísticas sobre identificação racial não gera racismo ou a entrada na universidade não é mecanismo de formação de identidade, mas apenas uma das múltiplas influências a que estão sujeitos os indivíduos. Outro aspecto muito importante encontrado nas falas dos cotistas é o impacto que o ingresso na universidade pela Política de Cotas proporcionou em suas vidas. Muitos acreditam que sem esta política nunca teriam a chance de ingressar no ensino superior ou que se um dia entrassem seria por muitos esforços. Estar numa universidade trouxe diversos benefícios como 37 crescimento pessoal, capacidade de formular sozinhos suas opiniões e de assumir atitudes independente da opinião dos outros, além da ampliação de seu universo cultural. Permitiu que suas concepções sobre os próprios cotistas mudassem, acreditando que estes têm a mesma capacidade que os outros alunos. Neste sentido, Maliska (2009) acredita que a Política de Cotas está alcançando a finalidade esperada de reduzir desigualdades e proporcionando ao grupo beneficiado condições de vida, tanto sob o ponto de vista das perspectivas para esse grupo no tocante a referencias sociais, como na integração consistente dessas pessoas nas classes médias. Para esse autor, estas razões justificam sua constitucionalidade. Apesar de muitos concordarem que tal política permitiu a sua inclusão, foi possível identificar no grupo entrevistado a presença da crença de que a melhor solução para o problema do negro no Brasil seria o investimento e a reparação do ensino básico, permitindo a todos a mesma capacidade de competir no vestibular. Este pensamento é o mesmo de Maggie e Fry (2004), que sugerem que o fim da desigualdade estaria na implantação de uma escola pública de melhor qualidade, não só nos bairros de classe média, mas também nas periferias. Ainda neste sentido, Menin et al. (2008) também defendem que seria mais justo privilegiar alunos das escola públicas, já que o problema da pouca representação de alunos negros nas universidades estaria ligado à pobreza e à má qualidade do ensino público. Para finalizar, localizamos nas falas dos cotistas tanto aspectos positivos como aspectos negativos sobre a entrada na universidade pela Política de Cotas. A partir dessas falas, consideramos que a política sozinha não resolve os problemas que estes alunos enfrentam. Dessa forma, a melhor solução para esta polêmica seria uma reestruturação e investimento no ensino público, pois através destes, todos teriam oportunidades educacionais iguais, independente de sua origem ou características físicas. 38 6. Considerações Finais Sendo o objetivo deste trabalho a análise da Política de Cotas através das experiências dos cotistas, acredito que ele foi alcançado, pois foram localizadas falas dos cotistas que posteriormente foram analisadas de acordo com os referenciais teóricos. Além disso, este trabalho permitiu visualizar os aspectos positivos e negativos que a Política de Cotas traz para o público alvo, possibilitando que novas reflexões possam ser feitas, levando em consideração as experiências dos cotistas e não somente suposições. Um importante aspecto a ser mencionado, é a visão que os cotistas têm do vestibular. Pode-se perceber nas falas dos cotistas a aceitação da sociedade ser julgada de acordo com méritos e esforços pessoais, evidenciando a credibilidade que dão ao método de seletividade do vestibular. Ademais, alguns cotistas apontam como melhor solução para a dificuldade do negro ingressar no ensino superior, a reestruturação e o investimento do ensino público básico, não sugerindo uma nova forma de ingresso no ensino superior, diferente daquele existente atualmente. Um motivo claro para este comportamento é uma sociedade historicamente capitalista, exigindo que as pessoas sejam individualistas e extremamente competitivas para atingir ascensão profissional. Pode-se notar também nas falas dos cotistas, que estes aceitam a situação em que vivem e como a população os classifica, sentindo-se culpados por estarem ocupando a vaga de outra pessoa. Acredito que muitas mudanças ainda precisam ser feitas, não somente relacionadas ao sistema educacional e econômico nos quais fazemos parte, mas também uma mudança na mentalidade da sociedade, desmitificando o preconceito atribuído aos negros. Para que isto ocorra é necessário que ações afirmativas sejam criadas, permitindo a convivência de diferentes pessoas num mesmo ambiente para que elas possam perceber que todos somos iguais e temos direitos iguais independente de raça, cor, etnia, sexo e condição financeira. 39 7. Referências Bibliográficas ARBACHE, A. P. R. B. A Política de Cotas Raciais na Universidade Pública Brasileira: Um desafio Ético. 2006. Tese. (Doutorado em Educação/ Currículo), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. AZEVEDO, C. M. M. Cota racial e Estado: Abolição do racismo ou direitos de raça? Caderno Pesquisa, Campinas, v. 34, n. 121, Jan. 2004. BRANDÃO, C. F. As Cotas na Universidade Pública Brasileira: Será esse o caminho? Campinas: Autores Associados, 2005. BERTÚLIO, D. L. L. Racismo e Desigualdade racial no Brasil. IN: DUARTE E. C. P.; BERTÚLIO, D. L. L.; SILVA, P. V. B. Cotas Raciais no Ensino Superior: Entre o Jurídico e o Político. Curitiba: Juruá Editora. 2009. BORTOLINI, M. C.; PENA, S. D. J. Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas? Estudos avançados, São Paulo, v.18, n. 50, Fev. 2004. DUARTE, C. S. Direito Público Subjetivo e Políticas Educacionais. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v.18, n.2, Abr. 2004. DUARTE, E. C. P.; GUELFI, W. P. Cotas raciais, Política Identitária e Reivindicação de direitos. IN: DUARTE E. C. P.; BERTÚLIO, D. L. L.; SILVA, P. V. B. Cotas Raciais no Ensino Superior: Entre o Jurídico e o Político. Curitiba: Juruá Editora. 2009. GUIMARÃES, A. S. A. Acesso de negros às universidades públicas. Caderno Pesquisa, São Paulo, n. 118, Mar. 2003. HOFLING, E. M. Estado e Políticas (Públicas) Sociais. Cadernos Cedes, Campinas, vol. 21, nº 55, Nov. 2001. MAGGIE, Yvonne; FRY, Peter. A reserva de vagas para negros nas universidades brasileiras. Estudos avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, Abr. 2004 . MALISKA, M. A. Análise da constitucionalidade das cotas para negros em universidades públicas. IN: DUARTE E. C. P.; BERTÚLIO, D. L. L.; SILVA, P. V. B. Cotas Raciais no Ensino Superior: Entre o Jurídico e o Político. Curitiba: Juruá Editora. 2009. MENIN, Maria S. S. et al. Representações de estudantes universitários sobre alunos cotistas: confronto de valores. Educação Pesquisa, São Paulo, vol.34, no. 2, Ago. 2008. 40 PIOSEVAN, F. Ações Afirmativas sob a perspectiva dos direitos humanos. IN: DUARTE E. C. P.; BERTÚLIO, D. L. L.; SILVA, P. V. B. Cotas Raciais no Ensino Superior: Entre o Jurídico e o Político. Curitiba: Juruá Editora. 2009. SACRAMENTO, M. P. Ação Afirmativa: O Impacto da Política de Cotas na ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial). 2005. Dissertação. (Mestrado em Educação), Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro. SORTETO, E. C. Negros no Ensino Superior: Trajetórias e Expectativas de Estudantes de Administração Beneficiados por Políticas de Ação Afirmativa (ProUni e Cotas) em Salvador. 2009. Dissertação. (Mestrado em Sociologia), Universidade de São Paulo, São Paulo. 41 8. ANEXO Emenda Modificativa ao Projeto-lei 3627/2004 de iniciativa do Poder Executivo (Do Sr. Dep. Neucimar Fraga) Emenda modificativa ao Projeto-lei 3627/2004 de iniciativa do Poder Executivo, elaborada nos termos do artigo do Regimento Interno da Câmara dos Deputados: Artigo 1º - Os artigos 1o.; 2o. e 5o. do projeto-lei 3627/2004 passam a vigorar com a seguinte redação: Art. 1º As instituições públicas federais de ensino técnico, agrotécnico, tecnológico e cientifico, em quaisquer de seus níveis, médio, pós-médio e superior, e em qualquer especialidade, reservarão, em cada concurso de seleção para ingresso em seus cursos, no mínimo, cinqüenta por cento de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino público. Art. 2º Em cada instituição de ensino, especificadas no artigo anterior, as vagas de que trata o art. 1o serão preenchidas por uma proporção mínima de autodeclarados negros e indígenas igual à proporção de pretos, pardos e indígenas na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Parágrafo único. No caso de não-preenchimento das vagas segundo os critérios do caput, as remanescentes deverão ser completadas por estudantes que tenham cursado integralmente o ensino público. Art. 5º O Poder Executivo promoverá, no prazo de dez anos, a contar da publicação desta Lei, a revisão do sistema especial para o acesso de estudantes negros, pardos e indígenas, bem como daqueles que tenham cursado integralmente o ensino público às instituições federais de ensino. 42 Artigo 2º - Revogam-se as disposições em contrário. Neucimar Fraga Deputado Federal – PL/ES 43 Estou ciente do conteúdo da Monografia “A POLÍTICA DE COTAS SOB O OLHAR DOS COTISTAS” ________________________________________________ Profa. Dra. Rosana dos Santos Jordão (Orientador – Universidade Presbiteriana Mackenzie) _________________________________________________ Natalia Fernandes Garcia de Carvalho (Aluno – Código de Matrícula 4070077-1) Trabalho a ser apresentado em: Junho/2010