1 ANA CAROLINA DE ARAÚJO SILVA ASSESSORIA DE IMPRENSA E COMUNICAÇÃO PÚBLICA NO GOVERNO DE FERNANDÓPOLIS MARÍLIA-SP 2011 2 ANA CAROLINA DE ARAÚJO SILVA ASSESSORIA DE IMPRENSA E COMUNICAÇÃO PÚBLICA NO GOVERNO DE FERNANDÓPOLIS Dissertação apresentada à Universidade de Marília (UNIMAR), Programa de Pós-graduação em Comunicação, para obtenção do Título de Mestre em Comunicação, Área de Concentração Mídia e Cultura. Orientadora: Profª. Drª. Rosângela Marçolla. MARÍLIA-SP 2011 3 Silva, Ana Carolina de Araújo Assessoria de Imprensa e Comunicação Pública no Governo de Fernandópolis./Ana Carolina de Araújo Silva -- Marília: UNIMAR, 2011. 116 f. Dissertação de Mestrado - Mestrado em Comunicação, Universidade de Marília, Marília, 2011. 1. Assessoria de Imprensa 2. Comunicação Pública 3. Comunicação Governamental 4. Direito à Informação I. Silva, Ana Carolina de Araújo CDD -- 302.2 4 Universidade de Marília - UNIMAR Reitor Márcio Mesquita Serva Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação Pró-reitora Profª. Drª. Suely Fadul Villibor Flory Programa de Pós-graduação em Comunicação Coordenadora Profª. Drª. Rosângela Marçolla Orientadora Profª. Drª. Rosângela Marçolla 5 UNIMAR – UNIVERSIDADE DE MARÍLIA Ana Carolina de Araújo Silva “Assessoria de Imprensa e comunicação pública no governo de Fernandópolis” Data da Defesa: ___________________ Dissertação apresentada à Banca Examinadora composta por: Banca Examinadora Prof. Dr. Avaliação: _______________________ Assinatura: ______________ Prof. Dr. Avaliação: _______________________ Assinatura: ______________ Prof. Dr. Avaliação: _______________________ Assinatura: ______________ 6 Aos meus pais Zeca e Elaine e aos meus irmãos Rafael e Andre, que são pura luz, força, fonte de vida e amor incondicional. Ao meu marido Eduardo, sempre pleno de companheirismo, felicidade inesgotável e sublime amor. 7 AGRADECIMENTOS À minha família, pela força e crença no meu trabalho durante toda minha trajetória profissional; Aos meus pais, José Antônio e Elaine, pela importância que sempre deram ao conhecimento e à cultura, incentivando a mim e aos meus irmãos na busca do crescimento intelectual contínuo; Ao meu marido Eduardo pela paciência, companheirismo, paciência, auxílio na transcrição das entrevistas e tratamento das figuras utilizadas na pesquisa, paciência, noites em claro compartilhadas e mais paciência no aguardo do término desta dissertação; À minha orientadora, Profª. Drª. Rosângela Marçolla, pela simpatia, compreensão, profissionalismo e incentivo constante na produção do trabalho; À Profª. Drª. Carly Batista de Aguiar pela orientação atenciosa no início da pesquisa para a dissertação; À banca examinadora, pela disponibilidade e gentileza ao aceitar avaliar este trabalho; À FEF (Fundação Educacional de Fernandópolis), em especial à direção administrativa e acadêmica, pelo apoio no financiamento parcial da pesquisa; À equipe do CDP (Centro de Documentação e Pesquisa) da FEF e ao diretor da Folha de Fernandópolis, Darci Araújo, pela cessão do arquivo do jornal para a pesquisa; À equipe administrativa e pedagógica da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais) – Campus de Frutal, pelo incentivo à qualificação acadêmica docente; Aos meus coordenadores, Kiko Machado e Glauciane Pontes, pelo compartilhamento das dificuldades e das alegrias em todos os anos de desenvolvimento do trabalho; Ao amigo e colega de coordenação na UEMG, Lausamar Humberto, pela força e todas as substituições neste período de pesquisa; Aos amigos que me acompanharam nas viagens para as aulas do Mestrado, nas discussões em sala e nas angústias no longo caminho percorrido até aqui, em especial à Janine Araki, amiga de infância e uma das maiores incentivadoras para a conclusão desta dissertação. A todos, compartilho agora minha felicidade e minha eterna gratidão. 8 "A imprensa é a vista da Nação. Por ela é que a Nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam, ou roubam, percebe onde lhe alvejam, ou nodoam, mede o que lhe cerceiam, ou destroem, vela pelo que lhe interessa, e se acautela do que a ameaça". Rui Barbosa 9 RESUMO Um dos papéis da imprensa é tornar transparentes as ações governamentais. Esta missão é ainda mais visível quando se trata da imprensa local e sua relação com o governo municipal. Este trabalho, através do estudo de caso, evidencia essa relação no município de Fernandópolis, SP, analisando informações divulgadas pela assessoria de imprensa do Executivo e o material publicado pelo jornal Folha de Fernandópolis, no período de 2006 a 2008. Para realizar tal análise, foram utilizados como base os conceitos de comunicação pública e direito à informação e uma pesquisa na documentação federal e municipal sobre assessoria de imprensa governamental. O trabalho evidencia que os interesses políticos e econômicos são entraves na propagação da informação jornalística de caráter público, que é fator determinante na formação do cidadão. PALAVRAS-CHAVE: Assessoria de Imprensa; Comunicação Comunicação Governamental; Direito à Informação; Fernandópolis. Pública; 10 ABSTRACT One of the press’ jobs is to make transparent the governmental actions. This mission is even more visible when we talk about the local press and its relation to the city government. This research, using the case study, shows this relation in the city of Fernandópolis, SP, analyzing information divulged by the City Hall’s Press Agency and the articles published by the newspaper Folha de Fernandópolis, between 2006 and 2008. To do such analysis, had been used as theory base the concepts of public communication and right to information and a research on the federal and city documents about the governmental press agency. The research evidences that the political and economic interests are impediments in the propagation of the public journalistic information, what is determinant on the citizen formation. KEYWORDS: Press Agency; Public Communication; Communication; Right to Information; Fernandópolis. Governmental 11 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 01 (Posição da Assessoria de Imprensa dentro do Organograma de Comunicação) .................................................................................................. 41 Tabela 01 (Mudança no mix de marketing, segundo Kunsch).......................... 43 Gráfico 01 (Composto de comunicação, segundo Kunsch) ............................. 44 Figura 02 (Capa Folha de Fernandópolis 14/01/2006) .................................... 67 Figura 03 (Interna Folha de Fernandópolis 14/01/2006) ................................. 67 Figura 04 (Capa Folha de Fernandópolis 28/01/2006) .................................... 67 Figura 05 (Interna Folha de Fernandópolis 28/01/2006) ................................. 67 Figura 06 (Interna Folha de Fernandópolis 11/02/2006) ................................. 68 Figura 07 (Capa Folha de Fernandópolis 25/02/2006) .................................... 68 Figura 08 (Interna Folha de Fernandópolis 25/02/2006) ................................. 68 Figura 09 (Capa Folha de Fernandópolis 11/03/2006) .................................... 69 Figura 10 (Interna Folha de Fernandópolis 11/03/2006) ................................. 69 Figura 11 (Capa Folha de Fernandópolis 15/03/2006) .................................... 69 Figura 12 (Interna Folha de Fernandópolis 15/03/2006) ................................. 69 Figura 13 (Capa Folha de Fernandópolis 29/04/2006) .................................... 70 Figura 14 (Interna Folha de Fernandópolis 29/04/2006) ................................. 70 Figura 15 (Interna Folha de Fernandópolis 06/05/2006) ................................. 70 Figura 16 (Capa Folha de Fernandópolis 20/05/2006) .................................... 71 Figura 17 (Interna Folha de Fernandópolis 20/05/2006) ................................. 71 Figura 18 (Interna Folha de Fernandópolis 20/05/2006) ................................. 71 Figura 19 (Capa Folha de Fernandópolis 27/05/2006) .................................... 72 Figura 20 (Interna Folha de Fernandópolis 27/05/2006) ................................. 72 12 Figura 21 (Interna Folha de Fernandópolis 27/05/2006) ................................. 72 Figura 22 (Interna Folha de Fernandópolis 27/05/2006) ................................. 72 Figura 23 (Interna Folha de Fernandópolis 27/05/2006) ................................. 73 Figura 24 (Capa Folha de Fernandópolis 03/06/2006) .................................... 73 Figura 25 (Interna Folha de Fernandópolis 03/06/2006) ................................. 73 Figura 26 (Interna Folha de Fernandópolis 03/06/2006) ................................. 74 Figura 27 (Capa Folha de Fernandópolis 26/08/2006) .................................... 74 Figura 28 (Interna Folha de Fernandópolis 26/08/2006) ................................. 74 Figura 29 (Capa Folha de Fernandópolis 19/05/2007) .................................... 76 Figura 30 (Capa Folha de Fernandópolis 26/05/2007) .................................... 80 Figura 31 (Interna Folha de Fernandópolis 26/05/2007) ................................. 81 Figura 32 (Capa Folha de Fernandópolis 30/06/2007) .................................... 84 Figura 33 (Interna Folha de Fernandópolis 30/06/2007) ................................. 85 Figura 34 (Capa Folha de Fernandópolis 31/05/2008) .................................... 88 Figura 35 (Capa Folha de Fernandópolis 13/12/2008) .................................... 88 Figura 36 (Interna Folha de Fernandópolis 13/12/2008) ................................. 88 13 SUMÁRIO Introdução...............................................................................................12 1. A comunicação pública e o direito à informação.....................................18 1.1 O direito à informação................................................................ 20 1.2 A comunicação pública...............................................................22 2. Assessoria de imprensa governamental: evolução histórica da legislação............................................................................................... 30 3. Origens, definições e funções da assessoria de imprensa ....................39 3.1 Comunicação integrada de marketing ........................................ 43 4. O relacionamento entre assessorias e a imprensa.................................47 5. Folha de Fernandópolis: breve histórico.................................................55 6. Expô Fernandópolis: estudo de caso......................................................59 6.1 Metodologia ................................................................................61 6.1.1 Estudo de caso ...................................................................61 6.1.2 Apresentação e análise do material pesquisado.................64 Considerações finais...............................................................................91 Referências.............................................................................................95 14 INTRODUÇÃO O jornalismo é uma atividade conhecida pela rotina dinâmica e busca constante pela novidade. No cotidiano do jornalista, o tempo é sempre curto para a grande quantidade de atividades que precisa desempenhar em um dia de trabalho. Mesmo preocupado com o fazer, pressionado pela briga incessante com o relógio, é essencial que o profissional da notícia pense no porquê do seu fazer ou como desempenha seu trabalho. Um dos questionamentos que o jornalista faz, especialmente depois que termina a graduação, é em torno da aplicação das teorias estudadas nas faculdades à prática cotidiana das redações e das assessorias de imprensa. Foi, então, na tentativa de entender se o fazer jornalístico cumpre algumas das missões a que se propõe na teoria, que esta dissertação de mestrado foi elaborada. Em especial, o trabalho trata de uma das características principais do jornalismo, que já nasceu intrínseca à sua prática desde a popularização da imprensa durante a Revolução Francesa: o papel de tornar transparente a administração pública, “[...] o que implica necessariamente o acesso do povo a todas as informações que dizem respeito ao funcionamento dos poderes públicos, através da imprensa” (NASCIMENTO, 1989, p.64). E não há como estudar esta linha de atuação do jornalista que procura tornar transparentes as ações da administração pública sem falar do trabalho desempenhado pelas assessorias de imprensa governamentais e sua relação com a imprensa. A relação entre assessorias de imprensa e redações tem sido discutida desde que a atividade de assessor foi popularizada no Brasil, na década de 80, “quando o uso da informação e o estabelecimento de relacionamentos adequados (não apenas com a imprensa) passaram a ser estratégicos para as 15 organizações brasileiras” (DUARTE, 2002, p.81). As discussões entraram no currículo dos cursos de jornalismo, mais enfocando o relacionamento entre assessores e meios de comunicação e seus conflitos de interesse e menos o que esse relacionamento estratégico traz como conseqüência para a população. A discussão gira mais em torno das técnicas de divulgação de informação pelas assessorias e como as redações as aproveitam, do que como essa informação chega ao público e se ela realmente traduz a transparência das ações governamentais. Dentre as formas que o cidadão tem de saber sobre as atividades e realizações do governo que elegeu está, além do uso do serviço público no seu cotidiano, a comunicação das decisões e ações pela imprensa. Os jornais cumprem, nesse sentido, a função de fornecer subsídios para que, devidamente informada, a população possa cobrar promessas de eleição, exigir melhorias nos serviços prestados pelo governo e fiscalizar possíveis ações ilegais dos representantes do poder público. Habermas (1965), ao citar Landshut, lembra que é justamente a idéia de opinião pública e participação popular que legitima a democracia na forma como a conhecemos. O Estado moderno põe como princípio da sua própria verdade a soberania popular, e essa por seu turno deve ser a opinião pública. Sem essa atribuição, sem a proposição da opinião pública como a fonte de toda a autoridade investida nas decisões que comprometem o todo, a moderna democracia carece da substância da sua própria verdade. (LANDSHUT apud HABERMAS in COHN, 1971, p.188) Para discutir a contribuição ou não das assessorias de imprensa governamentais no cumprimento da função de informar a população sobre as atividades dos administradores do poder público, este trabalho estuda o caminho pelo qual a informação passa desde que o fato gera notícia nas esferas governamentais até seu resultado final, que é apreciado pelo público. O assunto é analisado, então, em quatro momentos: o trabalho nas assessorias de imprensa do setor público; a transmissão das informações para meios de comunicação da mídia impressa e as relações estabelecidas entre assessorias e redações; como os jornais aproveitam o material enviado pelas assessorias e os transformam em matérias e, finalmente, o resultado final que chega às mãos 16 do leitor. Delimitando o tema, o estudo aqui apresentado mostra como se dá a transmissão da notícia a partir da assessoria de imprensa do governo executivo municipal de Fernandópolis (SP) para a redação do principal jornal impresso que circulava na cidade até dezembro de 2008, a Folha de Fernandópolis. Fernandópolis é uma cidade localizada no noroeste do Estado de São Paulo, a 550 quilômetros da capital do Estado. A escolha pelo estudo na esfera municipal é justificada porque é justamente nas cidades que a visibilidade do governo é maior e as informações mais próximas dos cidadãos, evidenciando mais claramente a influência na população das notícias de temas ligados ao governo. E também é nesta esfera que o eleitor tem o contato mais direto com seus representantes e onde a transparência das ações governamentais (ou a ausência dela) pode ter conseqüências mais claras e imediatas. Norberto Bobbio (2000, p.102), em seu livro O futuro da democracia cita que pode-se interpretar o ideal do governo local como um ideal inspirado no princípio segundo o qual o poder é tanto mais visível quanto mais próximo está. [...] A publicidade de um governo de um município é mais direta, e é mais direta exatamente porque maior é a visibilidade dos administradores e das suas decisões. (BOBBIO, 2000, p.102) A cidade de Fernandópolis também foi escolhida como foco do estudo de caso por se tratar de um município interiorano de 64.707 habitantes1, caracterizando uma cidade de pequeno porte, assim como a maioria dos municípios brasileiros. Segundo o Censo 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 5.282 dos 5.565 municípios brasileiros têm menos de 100 mil habitantes, o que corresponde a aproximadamente 95% das cidades brasileiras (IBGE, 2010). Dos seis jornais impressos que circulavam na cidade no período em que a pesquisa foi realizada, a Folha de Fernandópolis foi o periódico escolhido por ser o mais antigo jornal da cidade em funcionamento e o de maior circulação. O jornal completou 34 anos em 2008 e tinha uma tiragem de cerca de dois mil exemplares, distribuídos aos sábados aos assinantes ou vendidos em diversas bancas da cidade. 1 De acordo com os primeiros resultados do Censo Demográfico 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), disponível em <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso em 03 jan. 2011. 17 Em janeiro de 2009, a Folha de Fernandópolis deixou de existir depois de uma fusão com a Rede Bom Dia, do Grupo Traffic2, dando origem ao jornal Bom Dia Fernandópolis, veículo que circulou de terça a sábado até maio de 2010, quando a fusão foi desfeita e o jornal deixou de circular. Depois do fim da fusão com a Rede Bom Dia, o proprietário da Folha, Darci Araújo, estuda a volta da circulação do jornal em Fernandópolis, agora como bissemanário. Para realizar uma análise da comunicação pública no Executivo municipal, foi escolhido o tema sazonal de maior popularidade em Fernandópolis todos os anos: a Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Fernandópolis, realizada sempre no mês de maio, em razão do aniversário de fundação do município, comemorado no dia 22 do referido mês. Foram analisados os releases sobre o tema enviados pela assessoria de imprensa da Prefeitura de Fernandópolis e matérias sobre o assunto publicadas na Folha de Fernandópolis nos anos de 2006, 2007 e 2008. O período foi selecionado por se tratar dos três anos do governo da prefeita Ana Maria Matoso Bim, que assumiu o governo municipal logo depois do falecimento do agropecuarista Massanobu Rui Okuma. No seu primeiro ano de governo, Okuma teve apoio da população e grande divulgação de suas ações na imprensa local, especialmente no período da Exposição Agropecuária, festa que presidiu antes de ser eleito prefeito. Em 2006, primeiro ano do governo de Ana Bim, a imprensa conferiu à prefeita o mesmo espaço que havia reservado a Rui Okuma no ano anterior. Já em 2007 e 2008, o quadro muda. Como este trabalho evidenciará, a cobertura jornalística e publicação de releases sobre a festa maior da cidade, a Exposição Agropecuária, foi reduzida substancialmente na Folha de Fernandópolis, chegando a ser nula em 2008. Foi um dos objetivos desta pesquisa investigar quais os motivos desta mudança. As análises dos releases e matérias foram realizadas a partir das técnicas metodológicas do estudo de caso. Já a busca de informações junto às pessoas que participaram do processo analisado nesta dissertação foi 2 O Grupo Traffic atua no mercado de marketing esportivo, envolvendo empresas de mídia televisiva, mídia impressa, produção de vídeo, conteúdo para celulares, promoção de shows e eventos e e-business. Dentre os vários empreendimentos do grupo estão a TV TEM (rede de quatro emissoras afiliadas da TV Globo que alcançam 318 cidades no interior de São Paulo), o jornal Diário de S. Paulo e o jornal Bom Dia. 18 realizada por meio da técnica da entrevista em profundidade, enquadradas na tipologia semi-aberta com questões semi-estruturadas. O capítulo 6 desta dissertação detalha tais metodologias e justifica sua utilização para análise do tema escolhido. Além de investigar o caminho da notícia de caráter governamental para a transparência das ações do governo, esta dissertação traz ainda uma discussão sobre o conceito de comunicação pública e do direito à informação como direito a ser garantido à população para que ela tenha subsídios suficientes no exercício dos direitos civis, políticos e sociais. Para embasar tal tema, foi utilizada conceituação dos direitos de cidadania de T. H. Marshall e discutidos por Victor Gentilli, no livro Democracia de massas: jornalismo e cidadania (GENTILLI, 2005). Em se tratando do aproveitamento das notícias de caráter governamental pelos meios de comunicação e justificando como ocorre o relacionamento estratégico entre as assessorias e a imprensa, o trabalho apresenta um breve estudo comparativo das teorias da agenda-setting e interacionista, que justificam o interesse na imprensa em divulgar, quase que diariamente, as notícias enviadas pelos gabinetes do governo. Também figura nesta altura do trabalho uma discussão sobre o newsmaking e as rotinas de produção da notícias, que influenciam no aproveitamento de releases pelas redações. No que tange às leis que permeiam o trabalho de assessoria de imprensa governamental, na falta de uma legislação municipal específica sobre o setor, o trabalho traz a evolução histórica dos documentos que definem os preâmbulos da comunicação pública governamental federal, que na inexistência de uma lei local que regulamente o serviço, servem de base para as equipes de assessoria das prefeituras. Ao final, este trabalho tem como objetivo fornecer subsídios que estimulem a melhora da construção e conseqüente discussão da notícia de caráter público governamental municipal, apontando as causas dos problemas que existem hoje e que acabam prejudicando o acesso do cidadão ao que acontece na esfera de administração do poder político. Além disso, depois do estudo aprofundado do trabalho no âmbito das assessorias de imprensa das prefeituras, pretende-se deixar evidente o cumprimento ou não dos principais 19 preceitos do trabalho dessas equipes (e que constam em lei federal): estimular a sociedade a participar do debate e da definição de políticas públicas essenciais para o desenvolvimento do país e realizar ampla difusão dos direitos do cidadão e dos serviços colocados à sua disposição.3 3 BRASIL, Decreto-lei nº 2.004, de 11 de setembro de 1996. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=144249>. Acesso em: 24 ago. 2005. 20 1. A COMUNICAÇÃO PÚBLICA E O DIREITO À INFORMAÇÃO Para tratar sobre a informação que deve ser divulgada por equipes de assessores em qualquer âmbito governamental, da esfera municipal aos complexos sistemas federais, é preciso antes discutir dois temas fundamentais: a comunicação pública e o direito à informação. Desde a reabertura política no Brasil, na década de 80, uma das principais características do sistema político democrático diz respeito à interferência direta da população no poder, seja por meio do voto direto, seja pela liberdade de expressão e manifestação quanto ao seu descontentamento com relação às ações governamentais, atividades estas praticamente extintas e constantemente coibidas durante a vigência do regime militar. Vive-se, agora, o governo da democracia, que Norberto Bobbio (2000, p. 98) define como “o regime do poder visível” ou “o governo do poder público em público”, tomando aqui como significado do primeiro “público” o oposto de “privado” e ligado ao conceito de Estatal, e o segundo, oposto de “secreto”. Bobbio defende que uma das garantias para que o governo democrático se consolide como o poder público exercido em público, com transparência, é a divulgação dos atos governamentais para a população. Que todas as decisões e mais em geral os atos dos governantes devam ser conhecidos pelo povo soberano sempre foi considerado um dos eixos do regime democrático, definido como o governo direto do povo ou controlado pelo povo. [...] o caráter público do poder, entendido como não-secreto, como aberto ao “público”, permaneceu como um dos critérios fundamentais para distinguir o Estado constitucional do Estado absoluto e, assim, para assinalar o nascimento ou o renascimento do poder público em público. (BOBBIO, 2000, p.100-1) 21 Fica clara nesta citação de Bobbio a principal diferenciação entre o poder absolutista, anti-democrático, e o poder democrático ou poder visível: a publicização dos atos dos governantes, que subsidiam a livre-crítica desses atos e o exercício da real democracia como governo do povo. É só a partir da publicidade dos atos, da informação que chega ao conhecimento da população acerca das decisões do governo, que a sociedade tem subsídio para constituir uma opinião pública, que, no regime democrático, legitima o poder. Entendemos aqui opinião pública segundo o conceito ideal expresso por Jesús Martin Barbero (2001, p. 74), no texto Reconfiguraciones comunicativas de lo público: Esta é entendida originariamente como a ação que se opunha à prática do secreto, própria do Estado absolutista, e será depois o princípio da crítica como direito do público de debater as decisões políticas, este que é o debate cidadão: espaço de articulação entre a sociedade civil e a sociedade política, entre conflito e consenso. 4 [tradução nossa] (BARBERO, 2001, p. 74) Barbero se refere ainda a duas outras importantes definições de opinião pública. Uma, de Tocqueville (BARBERO, 2001, p. 74), que define opinião pública como a vontade das maiorias, relegando a um segundo plano a liberdade individual dos cidadãos, expondo uma contradição dentro do conceito de democracia, que, neste caso, terá o quantitativo com peso maior do que o qualitativa. Outra, de Gabriel Tarde (BARBERO, 2001, p. 74), que se refere à opinião pública como o cruzamento da transformação das crenças da população na opinião política e o desenvolvimento do meio em que esta se expressa, a imprensa. Completa Barbero sobre os estudos de Tarde que O que interessa a Tarde é o novo tipo de coletividade que emerge – o público – como efeito psicológico da difusão da informação. Esse efeito vai ser o deslocamento da legitimidade do político de fora para 5 dentro. [tradução nossa] (TARDE apud BARBERO, 2001, p. 74) 4 5 Ésta es entendida originariamente como la acción que se oponía a la práctica del secreto, propia del Estado absolutista, y será después el principio de la crítica como derecho del público a debatir las decisiones políticas, esto es el debate ciudadano: espacio de articulación entre la sociedad civil y la sociedad política, entre conflicto y concenso. [texto original] Lo que interesa a Tarde es el nuevo tipo de colectividad que emerge – el público – como efecto psicológico de la difusión de la opinión. Esse efecto va a ser o desplazamiento de la legitimidad de lo político desde afuera hacia dentro. [texto original] 22 A partir dos conceitos apresentados, é possível inferir que, no processo de formação da opinião pública, estão intrínsecos dois fatores importantes, ambos objetos de estudo deste trabalho. O primeiro trata-se da própria disponibilidade da informação para a população, para que, a partir dela, se sucedam os processos de discussão que deverão resultar na emergência da opinião pública. O segundo diz respeito a como essa informação é divulgada e, sob esse aspecto, destaca-se o papel das assessorias de imprensa e dos meios de comunicação. Para tratar destes dois assuntos, seguem tópicos específicos acerca do direito à informação e da comunicação pública como um dos preceitos da comunicação governamental na disponibilização das informações de caráter público. 1.1 O direito à informação O conceito de direito possui conexão direta ao conceito de cidadania. De acordo com José Murilo de Carvalho (2006, p. 9), embasado nos estudos de T. A. Marshall, é comum se referir à cidadania como o exercício dos direitos civis, políticos e sociais. “O cidadão pleno seria aquele que fosse titular dos três direitos”, resume o autor (CARVALHO, 2006, p. 9). Não está explicitado nesta conceituação o direito à informação, que Victor Gentilli (GENTILLI, 2005, p. 126) estabelece como um “direito-meio” para o exercício de todos os outros direitos. E já que o direito à informação é um “direito-meio”, é importante que antes se conceitue aqui os direitos civis, políticos e sociais. Esclarece Carvalho (2006, p. 9) que direitos civis são direitos fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante à lei. Eles se desdobram na garantia de ir e vir, de escolher o trabalho, de manifestar o pensamento, de organizar-se, de ter respeitada a inviolabilidade do lar e da correspondência, de não ser preso a não ser pela autoridade competente e de acordo com as leis, de não ser condenado sem processo legal regular. São direitos cuja garantia se baseia na existência de uma justiça independente, eficiente, barata e acessível a todos. (CARVALHO, 2006, p. 9) Já com relação aos direitos políticos, Carvalho lembra que estes se 23 referem à participação do cidadão no governo da sociedade e consistem na capacidade de fazer demonstrações políticas, de organizar partidos, de votar e ser votado. Em geral, quando se fala de direitos políticos, é do direito ao voto que se está falando. Os direitos políticos têm como instituição principal os partidos e um parlamento livre e representativo. São eles que conferem legitimidade à organização política da sociedade. Sua essência é a idéia de autogoverno. (CARVALHO, 2006, p. 09-10) O terceiro item da divisão dos direitos que Carvalho (2006, p. 9-10) conceitua são os direitos sociais, que, segundo o autor, garantem a participação do cidadão na riqueza coletiva. Eles incluem o direito à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, à aposentadoria. A garantia de sua vigência depende da existência de uma eficiente máquina administrativa do Poder Executivo. [...] Os direitos sociais permitem às sociedades politicamente organizadas reduzir os excessos de desigualdade produzidos pelo capitalismo e garantir um mínimo de bem-estar para todos. A idéia central em que se baseiam é a da justiça social. (CARVALHO, 2006, p. 09-10) Neste contexto, como já foi citado anteriormente, o direito à informação não seria um direito inserido em algum destes outros. O direito à informação permeia os direitos civis, políticos e sociais, como uma porta de acesso ao exercício da cidadania. [...] numa sociedade de massas modernas, o acesso à informação jornalística, por parte do cidadão, pode potencialmente vir a consistir num direito que assegura outros direitos, confere condições de igualização (sic) de sujeitos e oferece visibilidade ao poder e ao mundo. (GENTILLI, 2005, p. 128) [grifos do autor] Para Gentilli, o direito à informação se constitui como “direito-meio” à medida que não é um direito em si (embora assegurado na Constituição de 19886), mas o direito que garante ao cidadão obter as informações necessárias para que tenha voz na discussão coletiva que resulta na opinião pública e, por 6 A Constituição de 1988 traz nos incisos XXXIII e LXXII do artigo 5º dos “Direitos e Garantias Fundamentais” o direito de habeas data, que garante que “todos têm direito de receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”. 24 conseqüência, legitima o poder político na democracia moderna. O direito à informação, assim, deve ser pensado como o direito que conclui necessariamente as condições necessárias para realizar as escolhas concernentes ao exercício pleno dos direitos. O direito de cada um ter acesso às melhores condições possíveis para poder formar as próprias referências particulares, fazer suas escolhas e seus julgamentos de modo autônomo. [grifos do autor] (GENTILLI, 2005, p. 130) Exemplificando, no âmbito dos direitos sociais, a informação é indispensável para a vida em sociedade, tal como a divulgação sobre procedimentos de prevenção de doenças e prazos para matrículas em escolas, assim como o acesso às informações sobre os direitos trabalhistas. Já em se tratando dos direitos civis, a informação se mostra presente ao embasar manifestações, no que concerne ao próprio direito de liberdade de expressão, no direito de dizer, de discutir e até mesmo de criar meios de divulgação de pensamentos individuais ou coletivos como jornais, programas de rádio ou sites na internet (observando-se a legislação específica que regula o setor, o que não configura censura). Sob a perspectiva dos direitos políticos, a informação dá ao cidadão acesso ao conhecimento sobre os partidos políticos, sobre o processo eleitoral, candidatos, suas opiniões e posicionamentos. Segundo Gentilli (2005, p. 135), “o direito à informação é um direito imprescindível, sobretudo para o exercício pleno e consciente do direito de voto”. Também é na amplitude do direito à informação, no que tange aos direitos políticos, que está inserida a visibilidade do poder, que é um dos mecanismos para o exercício do poder público em público e interferência da sociedade nas ações governamentais. 1.2 A comunicação pública Ainda não há, na atualidade, um conceito único de comunicação pública que satisfaça às diferentes áreas do conhecimento e atividades profissionais a que se refere esta expressão. O Glossário de Comunicação Pública, organizado por Jorge Duarte e Luciara Veras (2006, p. 26), discute o conceito de comunicação pública da seguinte forma: 25 Matos e Brandão fazem uma releitura dos conceitos e apresentam uma versão que congrega os principais pontos, que são: a participação do Estado, do Governo, da sociedade e do Terceiro Setor, a localização da esfera pública e a fundamentação no interesse público. Matos define Comunicação Pública como “processo de comunicação instaurado em uma esfera pública que engloba Estado, governo e sociedade, um espaço de debate, negociação e tomada de decisões relativas à vida pública do país”. A autora relaciona Comunicação Pública com democracia e cidadania e pensa a Comunicação Pública “como um campo de negociação pública, onde medidas de interesse coletivo são debatidas e encontram uma decisão democraticamente legítima”. Na mesma direção, Brandão define Comunicação Pública como “o processo que se instaura na esfera pública entre o Estado, o Governo e a Sociedade e que se propõe a ser um espaço privilegiado de negociação entre os interesses das diversas instâncias de poder constitutivas da vida pública do país. (DUARTE; VERAS, 2006, p. 26) Heloíza Matos (2006, p. 62) analisa as origens da expressão “comunicação pública” e revela que desde o início do século XX, “o conceito esteve relacionado com a comunicação estatal e a implantação da radiodifusão, e, mais tarde, da televisão pública”. Nesse sentido, o conceito de comunicação pública surge com função normativa, já que os meios eletrônicos devem ser autorizados e regulados por concessão pública. E foi no início da implantação da radiodifusão, na década de 20, que a expressão “comunicação pública” acabou sendo confundida com “comunicação estatal” e tornando-se até sinônimo da última. Segundo Matos (2006, p. 62), “o termo era utilizado em contraste à comunicação do setor privado”. Elizabeth Pazito Brandão (BRANDÃO, 2007, p.1-7) aponta, em seus estudos, pelo menos cinco áreas diferentes de conhecimento e atividade profissional que trabalham com o termo. São elas: comunicação pública identificada com os conhecimentos e técnicas da área de comunicação organizacional, comunicação pública identificada com comunicação científica, comunicação pública identificada com comunicação do Estado e/ou governamental, comunicação pública identificada com comunicação política e comunicação pública identificada com estratégias de comunicação da sociedade civil organizada. Embora cada conceito relacione-se a áreas diferentes, todos convergem em um ponto, segundo Brandão (2007, p. 9), que “diz respeito a um 26 processo comunicativo que se instaura entre o Estado, o governo e a sociedade com o objetivo de informar para a construção da cidadania”. Jorge Duarte (s/d, p. 2) conceitua a comunicação pública de forma parecida, acrescentando a importância do “interesse público” para a efetivação deste tipo de comunicação. A Comunicação Pública ocorre no espaço formado pelos fluxos de informação e de interação entre agentes públicos e atores sociais (governo, Estado e sociedade civil – inclusive partidos, empresas, terceiro setor e cada cidadão individualmente) em temas de interesse público. Ela trata de compartilhamento, negociações, conflitos e acordos na busca do atendimento de interesses referentes a temas de relevância coletiva. A Comunicação Pública ocupa-se da viabilização do direito social coletivo e individual ao diálogo, à informação e expressão. Assim, fazer comunicação pública é assumir a perspectiva cidadã na comunicação envolvendo temas de interesse coletivo. (DUAR7 TE, s/d, p. 2) Antes de delimitar o conceito que será utilizado neste trabalho, vale uma breve diferenciação dos significados de comunicação pública em cada uma das áreas pesquisadas por Elizabeth Brandão (2007, p. 1-7). O primeiro significado identifica a comunicação pública à comunicação organizacional, área que analisa o fluxo de informação dentro das organizações (públicas, privadas ou do terceiro setor) e entre elas e seus públicos. Segundo Brandão, a utilização do termo comunicação pública aqui significa [...] um processo de informação voltado para a esfera pública. [...] Com essa acepção, a comunicação pública tem como objetivo primeiro o mercado, visando atingir os diversos públicos das corporações com o intuito de vender – seja uma imagem, seja um produto, seja uma idéia, seja uma fé – e obter lucro financeiro, pessoal, em status ou poder. (BRANDÃO, 2007, p. 2-3) Já a comunicação pública identificada com comunicação científica diz respeito à divulgação científica ou difusão da informação por meio de canais de integração da ciência com a vida cotidiana das pessoas, especialmente no que tange às descobertas nas áreas da agricultura e da saúde (BRANDÃO, 2007, p. 4). 7 DUARTE, Jorge. Comunicação Pública. s/d. Disponível em: <http://jforni.jor.br/forni/files/ComP%C3%BAblicaJDuartevf.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2010. 27 Outro significado discutido trata da comunicação pública identificada com estratégias de comunicação da sociedade civil organizada. “Trata-se de práticas e formas de comunicação desenvolvidas pelas comunidades e pelos membros do terceiro setor e movimentos sociais ou populares que também é conhecida como comunicação comunitária e/ou alternativa” (BRANDÃO, 2007, p. 7). Nesta perspectiva, são discutidas as políticas públicas de comunicação e o acesso direto do cidadão à construção da opinião pública e participação da agenda pública de discussões. Os dois últimos significados de comunicação pública discutidos por Elizabeth Brandão e que também estão presentes na obra de Jorge Duarte e Heloíza Matos são a comunicação governamental e a comunicação política. Duarte (s/d, p. 3) salienta em seu artigo que esses dois conceitos não são entendidos, na maioria das vezes, como significados específicos dentro de um sentido maior de comunicação pública. Ambos são normalmente confundidos com comunicação pública em sentido mais estrito, tornando-se, equivocadamente, seus sinônimos. Tratemos, então, de diferenciar aqui cada um dos conceitos e apresentar as diferentes concepções discutidas pelos autores pesquisados. A comunicação governamental é a comunicação de responsabilidade do Estado e do Governo e que pretende estabelecer um fluxo informativo e comunicativo com seus cidadãos (BRANDÃO, 2007, p. 4). Duarte se aprofunda na discussão e ainda estabelece a diferença entre Estado – “nesse caso, é compreendido como o conjunto das instituições ligadas ao Executivo, Legislativo e Judiciário, incluindo empresas públicas, institutos, agências reguladoras e área militar” (DUARTE, s/d, p. 2-3) – e governo, que possui a responsabilidade administrativa e política do aparato do Estado, constituindo-se apenas como gestor transitório. A comunicação governamental constitui, então, um dos aspectos da comunicação pública, 28 [...] na medida em que ela é um instrumento de construção da agenda pública e direciona o seu trabalho para a prestação de contas, o estímulo para o engajamento da população nas políticas adotadas, o reconhecimento das ações promovidas nos campos políticos, econômico e social, em suma, provoca o debate público. Trata-se de uma forma legítima de um governo prestar contas e levar ao conhecimento da opinião pública projetos, ações, atividades e políticas que realiza e que são de interesse público. (BRANDÃO, 2007, p. 5) Nesta mesma linha de raciocínio, também a comunicação política se apresenta como um dos aspectos da comunicação pública. Segundo Duarte (s/d, p. 3), “A comunicação política trata do discurso e ação de governos, partidos e seus agentes na conquista da opinião pública em relação a idéias ou atividades que tenham a ver com poder político, relacionado ou não a eleições”. Trata-se das estratégias discursivas para agregar opiniões com o objetivo de obter apoio do cidadão para diversas finalidades, que vão desde a aprovação de uma determinada proposta de ação até a conquista de votos. Heloíza Matos (2006, p. 67) realiza uma análise mais profunda sobre as relações entre comunicação pública e comunicação política, apontando as articulações entre elas. Para tanto, a autora busca em Gerstlé (2005) uma abordagem do processo de comunicação política partindo de três concepções: a instrumental, a ecumênica e a competitiva. A abordagem instrumental engloba a definição de Jorge Duarte para comunicação política. Seria, segundo Matos (2006, p. 67), “um conjunto de técnicas usadas por políticos e governantes para seduzir e manipular a opinião pública”. Também estão incluídas neste eixo a comunicação governamental (que influencia a sociedade por meio da propaganda ideológica), a comunicação educacional e cultural (possibilitada por meio da difusão pública, regulamentada pelo Estado), e também podem ser “consideradas instrumentais as experiências históricas do nazi-facismo na Europa, os regimes populistas e, mais tarde, as ditaduras militares na América Latina, como apontado por Matos (2004)”. A concepção ecumênica, segundo eixo da comunicação política, de acordo com Matos (2006, p. 68), é um processo interativo de troca de informações entre atores políticos, a mídia e o público. Neste caso, “o que conta é a circulação de informações entre os atores envolvidos, independentemente das 29 forças sociais das forças sociais e da cultura política que permeiam o ambiente” (MATOS, 2006, p.68). A autora também salienta que essa concepção da comunicação política se aproxima da comunicação pública quando são multiplicadas as fontes de informação e meios como a mensagem é divulgada, facilitando a discussão pública dos mais diversos temas. Embora a multiplicação e variedade de fontes tenham contribuído para reforçar as disputas no mercado de informação e comunicação, ficam também abertas as possibilidades de produção e disseminação de mensagens de natureza de natureza pública e o envolvimento da sociedade em todas as etapas da Comunicação Pública. (MATOS, 2006, p. 68) A abordagem competitiva da comunicação política envolve uma das discussões que este trabalho pretende realizar. Trata do “embate para influenciar e controlar, pela mídia, as percepções públicas dos acontecimentos políticos que estão em jogo” (MATOS, 2006, p. 69). Se na concepção ecumênica havia a livre e indeterminada troca de informações entre os atores políticos, a mídia e a sociedade, na abordagem competitiva os meios de comunicação atuam como mediadores e, freqüentemente, como atores do debate público. É neste ponto que salientamos o papel da mídia enquanto ampliadora do espaço público de discussões. Antes da consolidação dos meios de comunicação como veículos de informação nacionais ou internacionais, as discussões eram descentralizadas, locais. Com o advento dos meios de comunicação eletrônicos, especialmente da televisão, na década de 50, as discussões passaram a ser ampliadas e levadas, ao mesmo tempo, a diferentes locais e cidadãos. Segundo a teoria da deliberação8, discutida por Matos (2006, p. 69), a mídia de massa não deixa de ter seu papel na ampliação do espaço público para o debate e é no debate coletivo que se criam as condições para uma democracia ampliada, quando a participação dos cidadãos (independentemente dos critérios de gênero, nacionalidade, raça, religião e idade) permite a formação de um autêntico espaço público. (MATOS, 2006, p. 69) 8 A teoria deliberativa da democracia “é um modelo para a organização do coletivo e do exercício público do poder nas principais instituições de uma sociedade, baseado no princípio de que as decisões afetando o bem-estar de uma coletividade devem ser o resultado de um procedimento de deliberação livre e razoável entre cidadãos considerados iguais moral e politicamente” (BENHABIB apud MAIA, 2002, p. 01). 30 Foi com o objetivo de aproveitar essa ampliação do espaço público de discussão proporcionado pelos meios de comunicação que as assessorias de comunicação de organizações públicas, privadas e do terceiro setor passaram a buscar visibilidade na mídia. Matos (2006, p. 70) ressalta que a veiculação de anúncios institucionais, divulgação de balanços (financeiros e sociais) e pautas com temas relacionados à responsabilidade social acabaram gerando até mesmo a criação de novas editorias e publicações especializadas. É nesse contexto que são criadas as condições para o ressurgimento do conceito de Comunicação Pública, seja no formato de jornalismo de serviço (principalmente no rádio ou em programas de TV locais e ou regionais) ou em redes educativas e/ou culturais, na proposta de jornalismo público. (MATOS, 2006, p. 70) Estrela Serrano (1998, p. 03) explica como a ampliação da visibilidade através da mídia mudou a publicização dos atos governamentais. O novo "campo de visão" permite ver aspectos particulares de uma pessoa ou evento, que podem ser retirados de contexto e, por outro lado, quem vê não controla o que vê, nem é visto por quem o vê. A transformação da visibilidade é, assim, marcada pela separação entre a produção e a recepção no que se refere à capacidade de ver e ser visto. Ora, esta mudança das condições da visibilidade mudou as condições do exercício do poder. Os media, sobretudo a televisão, levaram os políticos a encontrar regras para orientar e praticar essa visibilidade, na medida em que necessitam dela, não apenas para assegurar o voto dos eleitores, mas também no exercício do poder no dia a dia, em que os processos de decisão são, cada vez mais, públicos. (SERRANO, 1998, p. 03) Neste estudo, evidencia-se o conceito de comunicação pública permeando todos os aspectos citados, com ênfase na comunicação governamental, mas não se restringindo a ela, visto que é a partir das informações divulgadas pelas assessorias de governo que é possibilitada a manifestação das outras esferas da comunicação pública, já apontadas neste texto. Jorge Duarte (s/d, p. 3) resume tal “missão” no trecho abaixo: 31 Adotam-se como referência, para tratar de CP [Comunicação Pública], conceitos como cidadania, democratização, participação, diálogo, interesse público. Mais poder para a sociedade, menos para os governos; mais comunicação, menos divulgação; mais diálogo e participação, menos dirigismo, são algumas das premissas. A idéia-chave talvez seja a de espírito público, o compromisso de colocar o interesse da sociedade antes da conveniência da empresa, da entidade, do governante, do ator político. O objetivo central é fazer com que a sociedade ajude a melhorar a própria sociedade. (DUARTE, s/d, p. 3) [grifos do autor] O próximo capítulo vai evidenciar como a comunicação pública se desenvolveu ao longo da história e como a legislação brasileira tratou o tema. 32 2. A ASSESSORIA DE IMPRENSA GOVERNAMENTAL: EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA LEGISLAÇÃO A assessoria de imprensa do setor público brasileiro tem origem na área de Relações Públicas e sua difusão aconteceu especialmente durante o governo militar. Um estudo da legislação federal aponta para uma oficialização do serviço em 1968, no governo de Arthur da Costa e Silva. Por meio do Decreto nº 62.119, de 15 de janeiro de 1968, Costa e Silva criou a Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), diretamente ligada à Presidência da República.9 No entanto, Costa e Silva não usufruiu tanto dos serviços da AERP como seu sucessor, o general Emílio Garrastazu Médici, que governou de 1969 a 1974. Maria Luiza Galletti (1982, p.41) ressalta que a criação da AERP surge como uma necessidade de responder às manifestações populares de oposição ao regime militar. A AERP tinha status de superministério e poder de decisão sobre verbas para publicidades e cargos no governo. Difundindo a imagem popular da ditadura, “a AERP logo se tornou modelo para governos estaduais e municipais, bem como para empresas de grande porte, em especial as estatais” (CHAPARRO, 2003, p.42). O assessor chefe, a ser nomeado pelo presidente, poderia ser civil ou militar, mas obrigatoriamente diplomado em Relações Públicas. O primeiro curso superior de Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas no Brasil foi criado em 1967, pela USP. O modelo de assessoria governamental foi padronizado no I Seminário de Relações Públicas do Executivo, realizado de 30 de setembro a 5 de outubro de 1968, no Rio de Janeiro. Participaram do evento a equipe da AERP, 9 BRASIL, Decreto-lei nº 62.119, de 15 de janeiro de 1968. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=193286>. Acesso em: 24 ago. 2005. 33 profissionais de comunicação de 16 ministérios, da Agência Nacional, das estações oficiais de rádio, do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, além de dirigentes da Associação Brasileira de Relações Públicas. Dentre os temas debatidos, estava desde a organização do serviço na esfera federal até normas para a promoção institucional do governo e orientações para divulgação da imagem do governo frente à população. O objetivo estratégico do serviço de assessoria ficou assim definido: Informar os diferentes públicos sobre a execução dos planos governamentais, notadamente os que visem estimular o desenvolvimento nacional para a melhoria das condições de vida do povo e o progresso do País, atraindo a sua compreensão, cooperação e integração dos objetivos comuns. (CHAPARRO, 2003, p.43) Merece especial atenção uma das dez recomendações aprovadas no evento: Aproveitamento integral da figura do Presidente, no seu aspecto humano, moderado e compreensivo, para caracterizar toda a campanha orientada no sentido da valorização do homem, a única susceptível de criar uma imagem efetiva e imediata do governo. (CHAPARRO, 2003, p.43) Hoje, observa-se cada vez mais a confusão entre assessoria governamental e a assessoria pessoal do chefe do Executivo. A orientação citada acima evidencia que este problema existe desde o surgimento do serviço e faz parte das próprias diretrizes de criação da primeira assessoria federal. A AERP funcionou precariamente no governo de Costa e Silva e, como citado anteriormente, foi Médici que efetivou seus serviços. Para tanto, criou em 1970, por meio do Decreto nº 67.611, o Sistema de Comunicação Social do Poder Executivo, do qual a AERP passou a ser órgão central. Os principais objetivos do novo sistema, de acordo com o artigo 2º da lei, eram “formular e aplicar uma política de comunicação social capaz de, no campo interno, estimular a vontade coletiva para o desenvolvimento do país e, no campo 34 externo, contribuir para o melhor conhecimento da realidade brasileira”.10 Segundo Chaparro (2003, p. 43), Médici utilizou tão bem os serviços da assessoria, que sua imagem figurava com freqüência nas casas da população de classe baixa, concorrendo no nordeste com retratos do adorado Padre Cícero. A atuação de jornalistas nas assessorias de imprensa governamentais também tem início nos anos 70. De acordo com Chaparro, eles eram generosamente solicitados a ocupar o espaço crescente das assessorias de imprensa, sob a tutela formal e/ou cultural de departamentos de relações públicas, para trabalhos que nem sempre exigiam a presença física. E sem precisar afastar-se das redações, para que se viabilizasse o jogo duplo do duplo emprego. (CHAPARRO, 2003, p.44) A atuação de jornalistas nesse setor transformou o modo de se produzir press releases11, que de propagandísticos passaram a ter um caráter mais informativo, no formato de notícias. Em Fernandópolis, onde está enfocada esta pesquisa, a figura oficial do assessor de imprensa da prefeitura surge apenas em 1990, através da Lei nº 1.560, que regulamenta o regime jurídico dos servidores municipais e especifica cargos no quadro de pessoal da prefeitura. O então prefeito, Milton Edgard Leão, cria o cargo de “responsável pela imprensa” para cuidar da divulgação das ações do Executivo municipal. O cargo é de provimento em comissão, considerado de confiança, de livre nomeação e exoneração pelo prefeito.12 Além do estatuto geral dos servidores municipais, que define direitos e deveres gerais da classe, não há qualquer outro documento oficial que especifique as funções e atribuições do responsável de imprensa ou assessor de imprensa da Prefeitura de Fernandópolis, que acabam atuando por pura intuição, reprodução do que é feito nas esferas estadual e federal ou, simplesmente, cumprindo ações especificadas pelo chefe do Executivo. 10 11 12 BRASIL, Decreto-lei nº 67.611, de 19 de novembro de 1970. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=197880>. Acesso em: 24 ago. 2005. Press release, release ou relise: material de divulgação produzido pela assessoria de imprensa e destinado aos veículos de comunicação. Deve ser escrito em linguagem jornalística e segundo critérios essencialmente da área, embora não tenha a pretensão de ser aproveitado na íntegra como texto final. (KOPPLIN; FERRARETTO, 2009, p.70) FERNANDÓPOLIS (Município). Lei nº 1.560, de 25 de outubro de 1990. Arquivo Oficial da Prefeitura Municipal de Fernandópolis, Poder Executivo, Fernandópolis, 1990. 35 É por essa razão que o embasamento documental das funções da assessoria de imprensa do Executivo terão como referência, nesta altura da pesquisa, na legislação federal vigente, tomando como ponto de partida as leis, decretos e medidas provisórias editadas após o restabelecimento do regime democrático brasileiro, em 1985, com a eleição de Tancredo Neves e imediata substituição por José Sarney, após a morte do político mineiro. Depois de um governo militar que utilizou a assessoria de imprensa mais como meio de propaganda do que de informação para o cidadão, Sarney herdou de João Baptista Figueiredo o Sistema de Comunicação Social já sem a AERP, desmembrada em Assessoria de Imprensa (AI) e Assessoria de Relações Públicas (ARP) no governo de Ernesto Geisel, em 1976.13 O Sistema era integrado, então, pela Secretaria de Imprensa e Divulgação e pelas unidades de comunicação dos ministérios, dos órgãos diretamente subordinados ao Presidente da República e das entidades de administração indireta. Fernando Collor de Mello pouco modificou essa estrutura, tratando apenas de estabelecer normas mais claras para os serviços de publicidade e propaganda do governo federal, incluindo a criação de regras para a licitação, planejamento, criação, execução e divulgação de campanhas e peças publicitárias.14 Em março de 1993, Itamar Franco altera a estrutura de comunicação do governo com o Decreto nº 785/93, agora sob tutela do Sistema Integrado de Comunicação Social da Administração Pública Federal, que tem como órgão central a Assessoria de Comunicação Social da Presidência da República, mostrando a volta do sistema centralizador da comunicação governamental. O mesmo decreto, no entanto, oficializa a diferenciação entre assessoria de imprensa do governo e do presidente, 13 14 BRASIL, Decreto-lei nº 77.000, de 9 de janeiro de 1976. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=123219>. Acesso em: 24 ago. 2005. BRASIL, Decreto-lei nº 99.296, de 12 de junho de 1990. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=225125>. Acesso em: 24 ago. 2005. BRASIL, Decreto-lei nº 196, de 21 de agosto de 1991. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=225605>. Acesso em: 24 ago. 2005. BRASIL, Decreto-lei nº 537, de 22 de maio de 1992. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=225690>. Acesso em: 24 ago. 2005. 36 proibindo a promoção pessoal do governante. Diz o artigo 1º, § 2º: “Em qualquer hipótese, é vedada a publicidade que, direta ou indiretamente, caracterize promoção pessoal de autoridade ou de servidor público.”15 A mudança estrutural mais importante nas políticas de comunicação do Executivo federal aconteceu três anos depois, no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. O Decreto nº 2.004, de 11 de setembro de 1996, fala, pela primeira vez, em participação da sociedade na definição de políticas públicas, estimulada pelas estratégias de comunicação social do governo. Os objetivos da comunicação social do Poder Executivo ficam assim definidas: I – disseminar informações sobre assuntos de interesse dos mais diferentes segmentos sociais; II – estimular a sociedade a participar do debate e da definição de políticas públicas essenciais para o desenvolvimento do País; III – realizar ampla difusão dos direitos do cidadão e dos serviços colocados à sua disposição; IV – explicar os projetos propostos pelo Executivo Federal nas principais áreas de interesse da sociedade; V – promover o Brasil no exterior; VI – atender às necessidades de informação de clientes e usuários das entidades da Administração indireta e das sociedades sob 16 controle direto e indireto da União. O decreto de FHC ainda estabelece uma diferenciação entre três áreas da comunicação: imprensa, relações públicas e publicidade, dando início à criação de um plano de comunicação onde os três setores atuam, cada um com suas funções definidas. O Sistema Integrado de Comunicação Social da Administração Pública Federal é transformado em Sistema de Comunicação Social do Poder Executivo Federal (SICOM), que tem no comando a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM). A partir desse decreto, as ações de comunicação social do governo passam a ser orientadas pelo Plano de Comunicação Institucional (PCI), elaborado pela SECOM, e pelos Planos Anuais de Comunicação (PACs), elaborados pelas unidades administrativas dos ministérios e pelas unidades administrativas dos órgãos da 15 16 BRASIL, Decreto-lei nº 785, de 27 de março de 1993. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=225788>. Acesso em: 24 ago. 2005. BRASIL, Decreto-lei nº 2.004, de 11 de setembro de 1996. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=144249>. Acesso em: 24 ago. 2005. 37 Presidência da República que tenham a atribuição de gerir atividades de comunicação social. No segundo mandato, FHC mantém a mesma estrutura do SICOM, apenas alterando seu órgão central. A SECOM agora é Secretaria de Estado da Comunicação do Governo, que no governo de Luiz Inácio Lula da Silva passa a ter status de ministério, com Luiz Gushiken no comando. Lula também inova no quadro de cargos do setor de comunicação governamental criando, pelo Decreto nº 4.597/03, a Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, que a princípio ficou sob a batuta do jornalista Ricardo Kotscho, e o cargo de Porta-Voz da Presidência da República, ocupado pelo também jornalista Andre Singer. O restante da estrutura de comunicação social do governo foi mantida, com pequenas alterações em nomes de órgãos.17 No programa de governo de Lula para o segundo mandato, o caderno setorial de comunicação foi publicado com o título “Comunicação e Democracia” e usa o termo “direito do cidadão à informação”. Ao tratar da comunicação institucional, o plano descreve as mudanças ocorridas na Radiobrás, que “gradativamente se afastou de seu histórico de comunicação institucional e buscou adotar em seus veículos uma política editorial mais independente e voltada para o direito do cidadão à informação”.18 O plano ainda trouxe uma longa discussão sobre a democratização dos meios de comunicação, com destaque para a inclusão digital, assumindo o compromisso de ampliar as mudanças efetivadas na Radiobrás para outros meios de comunicação do governo. Em 2006, Lula assinou mais três decretos que detalham os cargos e funções dentro da Secretaria de Imprensa e do Porta-Voz da Presidência da República. O Decreto nº 5.878, de 18 de agosto de 2006, especifica que a Secretaria de Imprensa e Porta-Voz da Presidência da República é o órgão de assessoramento imediato do Presidente da República, com a maioria das atribuições voltadas ao acompanhamento das ações do chefe do Executivo 17 18 BRASIL, Decreto-lei nº 4.597, de 17 de fevereiro de 2003. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=236225>. Acesso em: 24 ago. 2005. CADERNO Setorial Comunicação e Democracia. Disponível em: <http://www.pt.org.br/site/assets/programassetoriais/comunicacao.zip>. Acesso em: 3 jan. 2007. p. 4. 38 federal.19 O documento foi revogado pelo Decreto nº 6.377, de 19 de fevereiro de 2008, que aprova a nova estrutura regimental da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, detalhando suas funções. Esta secretaria é o órgão que reúne, agora, os cargos e atribuições da Secretaria de Imprensa e Porta-Voz da Presidência. O decreto cria, dentre os diversos órgãos e setores da Secretaria de Comunicação Social, o Departamento de Internet e Eventos, nova estrutura que tem dentre seus objetivos a coordenação das atividades de relacionamento com o cidadão, via internet, por meio do Portal Brasil. A Secretaria de Comunicação Social agora é chefiada pelo jornalista Franklin Martins. Segue a íntegra das atribuições dispostas no artigo 1º da estrutura regimental da Secretaria de Comunicação Social: Art. 1o À Secretaria de Comunicação Social, órgão essencial da Presidência da República, compete assistir direta e imediatamente ao Presidente da República no desempenho de suas atribuições, especialmente: I - na formulação e implementação da política de comunicação e divulgação social do Governo; II - na implantação de programas informativos; III - na organização e desenvolvimento de sistemas de informação e pesquisa de opinião pública; IV - na coordenação da comunicação interministerial e das ações de informação e difusão das políticas de governo; V - na coordenação, normatização, supervisão e controle da publicidade e de patrocínios dos órgãos e das entidades da administração pública federal, direta e indireta, e de sociedades sob controle da União; VI - na convocação de redes obrigatórias de rádio e televisão; VII - na coordenação e consolidação da implantação do sistema brasileiro de televisão pública; VIII - na comunicação com a sociedade, por intermédio da divulgação dos atos do Presidente da República e sobre os temas que lhe forem determinados, falando em seu nome e promovendo o esclarecimento dos programas e políticas de governo, contribuindo para a sua compreensão e expressando a opinião do Presidente da República, por determinação deste, em todas as comunicações dirigidas à sociedade e à imprensa; IX - na cobertura jornalística das audiências concedidas pela Presidência da República; X - no relacionamento do Presidente da República com a imprensa nacional, regional e internacional; XI - na coordenação do credenciamento de profissionais de imprensa, do acesso e do fluxo a locais onde ocorram atividades de que participe o Presidente da República; XII - na articulação com os órgãos governamentais de comunicação 19 BRASIL, Decreto-lei nº 5.878, de 18 de agosto de 2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Decreto/D5878.htm#art6>. Acesso em 10 ago. 2007. 39 social na divulgação de programas e políticas e em atos, eventos, solenidades e viagens de que participe o Presidente da República; XIII - na prestação de apoio jornalístico e administrativo ao comitê de imprensa do Palácio do Planalto; XIV - na divulgação de atos e de documentação para órgãos públicos; XV - no apoio aos órgãos integrantes da Presidência da República no relacionamento com a imprensa; e 20 XVI - no exercício de atividades correlatas que lhe forem cometidas. O último documento governamental sobre a comunicação no Executivo Federal é o Decreto nº 6.555, de 8 de setembro de 2008, que dispõe sobre as ações de comunicação neste âmbito. Nos objetivos, uma menção clara ao estímulo da população para a participação no planejamento de políticas públicas de comunicação. Assim estão descritos no artigo 1º os cinco objetivos das ações de comunicação: I - dar amplo conhecimento à sociedade das políticas e programas do Poder Executivo Federal; II - divulgar os direitos do cidadão e serviços colocados à sua disposição; III - estimular a participação da sociedade no debate e na formulação de políticas públicas; IV - disseminar informações sobre assuntos de interesse público dos diferentes segmentos sociais; e 21 V - promover o Brasil no exterior. O decreto apresenta ainda uma nova divisão das ações de comunicação do Poder Executivo Federal, que agora possui seis áreas: imprensa, relações públicas, comunicação digital, promoção, patrocínio e publicidade, esta última subdividida em publicidade de utilidade pública, publicidade institucional, publicidade mercadológica e publicidade legal. O SICOM agora tem como órgão central a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e é formado pelas unidades administrativas dos órgãos e entidades integrantes do Poder Executivo Federal que tenham a atribuição de gerir atividades de comunicação. Os próximos capítulos tratarão das definições e funções específicas da 20 BRASIL, Decreto-lei nº 6.377, de 19 de fevereiro de 2008. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=256769>. Acesso em 31 ago. 2010. 21 BRASIL, Decreto-lei nº 6.555, de 8 de setembro de 2008. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=257632>. Acesso em 31 ago. 2010. 40 assessoria de imprensa e como o relacionamento entre esses órgãos e a imprensa interfere na divulgação da notícia de caráter governamental e o acesso da população a esse material. 41 3. ORIGENS, DEFINIÇÕES E FUNÇÕES DA ASSESSORIA DE IMPRENSA Embora a utilização de assessorias de imprensa hoje seja freqüente e as estratégias de comunicação adotadas por este serviço cada vez mais modernas, a origem desta atividade remete a bem antes da institucionalização da mesma. De acordo com Elisa Kopplin Ferraretto e Luiz Artur Ferraretto (2009, p. 21-2), O conceito de assessoria de imprensa [...] está relacionado a dois aspectos fundamentais: a necessidade de divulgar opiniões e realizações de um indivíduo ou grupo de pessoas e a existência de instituições conhecidas como meios de comunicação de massa. (KOPPLIN; FERRARETTO, 2009, p. 21-2) E esses dois elementos surgiram há muito tempo. Ainda de acordo com Kopplin e Ferraretto (2009, p. 22), a dinastia Han divulgava suas decisões e realizações por meio das cartas circulares, na China, em 202 a.C. Já a Acta diurna era o veículo informativo do Fórum Romano em 69 a.C. Com relação aos meios de comunicação, temos os primórdios da imprensa de massa no Ocidente principalmente depois da criação da prensa com tipos móveis por Johann Gutenberg, no século XV. Entretanto, a imprensa somente ganharia contornos massivos trezentos anos depois, a partir da invenção da rotativa (Friedrich Koenig, 1811), impressora capaz de rodar 1.100 folhas por hora [...] e do linotipo (Otto Mergenthaler, 1885), que substituiu a composição manual tipo a tipo. (KOPPLIN; FERRARETTO, 2009, p.22) A assessoria de imprensa como serviço institucionalizado só teve início 42 em 1906, com o jornalista americano Ivy Lee. Segundo Chaparro (2003), ele abandonou o jornalismo para abrir seu escritório de relações públicas em Nova Iorque e teve como principal desafio assessorar John Rockefeller, empresário da indústria do petróleo, que era “o mais impopular homem de negócios dos Estados Unidos” (CHAPARRO, 2003, p. 34). Para Chaumely e Huisman (1964, p. 9-10), citados por Chaparro (2003), Ivy Lee “foi escolhido, a dedo, para ser o santo de um milagre impensável: conseguir que o velho barão do capitalismo selvagem, de odiado passasse a ser venerado pela opinião pública americana” (CHAPARRO, 2003, p. 34). Outros autores corroboram a teoria de que o serviço de assessoria de imprensa despontou na área empresarial. Ana Maria Córdova Wels (2004, p. 2) destaca a relevância da assessoria a partir dos estudos iniciais da Escola Clássica de Administração, quando os primeiros teóricos dessa área indicaram a necessidade de níveis de assessoramento na hierarquia administrativa, cujas funções, desenvolvidas nesta linha, são identificadas como imprescindíveis na estrutura da organização, oferecendo suporte às ações da Direção. (WELS, 2004, p. 2) E é de dois autores que estudaram a estrutura administrativa desta época uma das definições das funções da assessoria de imprensa. O trabalho completo da assessoria implica a apresentação de uma recomendação clara, baseada na plena consideração de um problema, em entendimentos com as pessoas essencialmente afetadas, sugestões sobre como evitar possíveis dificuldades, e, muitas vezes, preparo de trabalhos escritos [...] de maneira que o gerente possa aceitar ou rejeitar a proposta sem maiores estudos, conferências demoradas ou trabalho desnecessário (KOONTZ; O’DONNELL, 1973, p. 378 apud WELS, 2004, p. 3) Já na área governamental, o primeiro registro do serviço de assessoria de imprensa se deu durante a Primeira Guerra Mundial. Segundo Ferraretto, a guerra “fez com que países envolvidos no conflito, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, criassem setores específicos para a divulgação de informações” (KOPPLIN; FERRARETTO, 2009, p. 26). A mesma estrutura seria repetida durante a Segunda Guerra Mundial. É importante também esclarecer que o serviço de assessoria de imprensa é um componente de uma estrutura maior de comunicação das 43 empresas, órgãos públicos ou do terceiro setor. O departamento de comunicação social integra o plano de marketing de uma organização e tem como objetivo final coordenar as atividades de comunicação entre um assessorado e seus públicos interno e externo, estabelecendo políticas e estratégias que incluem ações em três áreas principais: jornalismo (assessoria de imprensa), relações públicas (responsável pela imagem pessoal ou institucional) e publicidade e propaganda (que cuida da comercialização de serviços e produtos). As relações entre essas três áreas podem ser mais bem visualizadas na Figura 1. Figura 1. Posição da assessoria de imprensa dentro do organograma de Comunicação (gráfico com base em KOPPLIN e FERRARETTO, 2009, p.13 e 17) Especificamente sobre o conceito de assessoria de imprensa, utilizaremos aqui a definição do Manual de Assessoria de Imprensa da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), segundo o qual assessoria de imprensa éo Serviço prestado a instituições públicas e privadas, que se concentra no envio freqüente de informações jornalísticas, dessas organizações, para os veículos de comunicação em geral. Esses veículos são os jornais diários; revistas semanais, revistas mensais, revistas especializadas, emissoras de rádio, agências de notícias, sites, portais de notícias e emissoras de tevê. (FENAJ, 2007, p. 7) 44 O manual ainda faz referência ao trabalho dos assessores como geradores de “mídia espontânea”. Trata-se das notícias publicadas pela imprensa que foram geradas a partir do material enviado pelas assessorias, gratuitamente. A veiculação da notícia também é gratuita, já que não se trata de material publicitário e sim informação jornalística veiculada pelo meio de comunicação por ser interessante ao seu público leitor/ouvinte/telespectador/internauta. Segundo Torquato (2008, p. 83), “a Assessoria de Imprensa é a área nobre do sistema de comunicação externa das organizações. Está consolidada como conceito, como atividade e como suporte estratégico.” Jorge Duarte (2003, p. 236) remete a prática do assessor de imprensa à “gestão dos fluxos de informação e relacionamento entre fontes e jornalistas”. As principais funções do assessor de imprensa, segundo o Manual de Assessoria de Imprensa da FENAJ são: • elaboração de press-releases, sugestões de pauta e press-kits; • relacionamento formal e informal com os pauteiros, repórteres e editores da mídia; • acompanhamento de entrevistas de suas fontes; • organização de coletivas; • edição de jornais, revistas, sites de notícia e material jornalístico para vídeos; • preparação de textos de apoio, sinopses, súmulas e artigos; • organização do mailling de jornalistas; • clipping de notícias (impressos, Internet e eletrônicos); • arquivo do material jornalístico e • participação na definição de estratégias de comunicação. (FENAJ, 2007, p. 10-11) Na esfera governamental, além das funções listadas acima, há ainda a responsabilidade da assessoria de imprensa em divulgar informações que são de direito da população ter conhecimento, contribuindo para a transparência dos regimes democráticos. Marco Antônio de Carvalho Eid, citado por Kopplin e Ferraretto, esclarece este item ao escrever que Assessoria de imprensa no governo também – e sobretudo – deve ser considerada uma atividade de prestação de serviços de transmissão de notícias à mídia e, portanto, à sociedade. Ambas – a primeira como veículo e a segunda como destinatária – têm direito às informações geradas nos organismos públicos. (EID, 2003, p.56 apud KOPPLIN; FERRARETTO, 2009, p. 51) 45 Para obter sucesso no cumprimento dos objetivos listados anteriormente, as assessorias de imprensa governamentais precisam se modernizar e, cada vez mais, se conscientizar que a comunicação integrada de marketing é a melhor saída. A seguir, uma breve conceituação deste tipo de planejamento de comunicação e como a assessoria de imprensa pode ser incorporada neste processo. 3.1 Comunicação integrada de marketing Comunicação integrada de marketing ou simplesmente comunicação integrada é a expressão utilizada para caracterizar o planejamento que envolva ações de diversas áreas da comunicação com um mesmo objetivo: veicular uma mensagem clara ao público. Foi através da comunicação integrada de marketing que a comunicação do setor privado se modernizou e tem tido sucesso. Trata-se, segundo Kotler (2002, p. 388), da integração cuidadosa de todos os canais de comunicação empresariais ou institucionais – propaganda, vendas pessoais, promoção de vendas, relações públicas e marketing direto – para a veiculação de uma mensagem clara, coerente e convincente sobre a organização e seus produtos. A comunicação assumiu tamanha importância no mercado atual que já está em discussão, de acordo com Margarida Kunsch (1998, p. 124), “a substituição dos consagrados 4 pês pelos 4 cês do marketing, o que, em síntese, pode ser assim apresentado:” 4 pês do marketing 4 cês do marketing Produto Cliente Preço Custo possível Ponto Conveniência Promoção Comunicação Tabela 1. Mudança no mix de marketing, segundo Kunsch (1998, p. 124). Dentro do item comunicação, conforme citado por Knusch (2002, p. 46 179), há ainda a necessidade de organizar e integrar as estratégias das “diferentes modalidades organizações, a saber: comunicacionais a comunicação que ocorrem institucional, a dentro das comunicação mercadológica ou de marketing, a comunicação interna e a comunicação administrativa”. Por meio da figura abaixo, Knusch evidencia como pode ser dividido o composto da comunicação dentro das organizações e mostra a assessoria de imprensa integrando o grupo de serviços da comunicação institucional. Figura 2. Composto da comunicação, segundo Kunsch (2002, p. 151). A autora explica ainda que é por meio do planejamento da comunicação de forma integrada que o objetivo final da organização pública, privada ou do terceiro setor pode alcançado com mais facilidade, aliando diferentes técnicas para o mesmo fim, evitando a sobreposição de ações parecidas ou a veiculação de discursos com mensagens completamente diferentes sobre um mesmo tema. A importância da comunicação organizacional integrada reside principalmente no fato de ela permitir que se estabeleça uma política global, em função de uma coerência maior entre os diversos programas comunicacionais, de uma linguagem comum de todos os setores e de um comportamento organizacional homogêneo, além de se evitarem sobreposição de tarefas. Com um sistema integrado, os vários setores comunicacionais de uma organização trabalham de forma conjunta, tendo ante os olhos os objetivos gerais e ao mesmo tempo respeitando os objetivos específicos de cada setor. Trata-se de uma gestão coordenada e sinérgica dos esforços humanos e organizacionais com vistas na eficácia. (KUNSCH, 2002, p. 180) 47 Tratando especificamente da assessoria de imprensa neste composto de comunicação integrada, fica reservada a este setor a mediação com o grande público através da imprensa, com o objetivo principal de apoiar as ações de marketing, influenciando a opinião pública. Kunsch (2002, p. 190) afirma que cabe à assessoria de imprensa, neste contexto, “desenvolver atividades especiais com os jornalistas, um público multiplicador e líder de opinião considerado da maior importância para a extensão das informações que se pretende levar à sociedade”. Ao profissional, tanto de jornalismo como de relações públicas, cabe o importante papel de intermediar a comunicação entre as organizações e a mídia impressa e eletrônica, que multiplicará as informações para toda a sociedade. Por isso, ele deve ter sempre em vista a responsabilidade social dos seus atos e os interesses da opinião pública. (KNUSCH, 2002, p. 193) Parece óbvio que as assessorias de imprensa trabalhem de forma integrada ao sistema de comunicação de uma organização pública, privada ou do terceiro setor. Mas no setor governamental, muitas assessorias acabaram se isolando e se acomodando nas tarefas básicas do dia a dia, como o simples envio de releases à imprensa e cobertura da agenda do governante. Mas é preciso mudar. Torquato (2008, p. 141) chega a esta conclusão em seu livro Tratado de Comunicação Organizacional e Política, onde ressalta que [...] nos últimos anos, o processo de comunicação governamental e política passou por uma revolução. Está esgotado o ciclo do processo de comunicação restrito à operação clássica de Assessoria de Imprensa, cujo fundamento é a cobertura dos atos rotineiros do governo e da presença do governador e do prefeito nas mídias locais, por meio de entrevistas e análises. As assessorias de imprensa têm sido, normalmente, reduto de jornalistas que acabam se acomodando às rotinas, regadas de releases e matérias laudatórias. Esse processo está condenado ao fracasso, em função das demandas sociais diferentes e do caráter fiscalizador que passou a exercer a sociedade. (TORQUATO, 2008, p. 141). O autor argumenta ainda que as assessorias governamentais têm focado o seu trabalho na mídia, com o objetivo maior de fazer com que seus assessorados apareçam em programas de rádio e televisão e sejam fontes de 48 jornais, revistas e sites jornalísticos. E a comunicação governamental deve ir muito além disso, com estratégias focadas em um planejamento integrado de marketing que, dentre vários outros aspectos, deve promover o diálogo constante com a sociedade e a prestação de contas à população. Em resumo, “o desafio da comunicação na instituição pública é aproximar seus serviços da sociedade”. (TORQUATO, 2008, p. 84). O primeiro passo para esta mudança seria a profissionalização das estruturas de comunicação dos governos. Além da qualificação dos profissionais que trabalham nestes setores, Torquato (2008, p. 84) acrescenta que as ações devem desenvolver produtos bem-delineados nas áreas de comunicação jornalística, editoração, relações públicas, propaganda, pesquisa, articulação com a sociedade, eventos. É preciso que as estruturas trabalhem com um conceito sistêmico de comunicação, evitando a disparidade de linguagens. (TORQUATO, 2008, p. 84) Depois de planejadas as estratégias de comunicação e delineadas as ações de assessoria de imprensa, é no relacionamento com a mídia, diariamente, que se alcançam os objetivos pretendidos. No próximo capítulo, entenderemos como essa relação entre assessorias e a imprensa se dá cotidianamente. 49 4. O RELACIOMENTO ENTRE ASSESSORIAS E A IMPRENSA Se não como uma maneira de prestar contas à população ou mesmo informá-la de suas atividades, os governantes pelo menos buscam na imprensa um aliado para manter-se no poder. E o papel das assessorias de imprensa governamentais, muitas vezes, se traduz em emplacar os temas desejados no noticiário diário, não só na forma de publicidade, que explicita a mídia paga, mas como informação jornalística, buscando o aval do meio de comunicação como legitimador do fato noticiado. Mas por que tentar veicular pelos meios de comunicação informações como jornalísticas e não apenas pagar por anúncios? Uma das hipóteses é de que a mídia tem o poder de pautar sobre o que a sociedade discute. De acordo com a hipótese do agendamento, ou agenda-setting, como preferem alguns autores, os assuntos predominantes nos veículos de comunicação ditam sobre o que se fala e até mesmo os relacionamentos na sociedade. Segundo Shaw, citado por Wolf (2005, p. 143), de acordo com a hipótese do agendamento, em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público é ciente ou ignora, dá atenção ou descuida, enfatiza ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas tendem a incluir ou excluir dos próprios conhecimentos o que a mídia inclui ou exclui do próprio conteúdo. Além disso, o público tende a conferir ao que ele inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelos meios de comunicação de massa aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas (SHAW, 1979, p.96 in WOLF, 2005, p.143) Esta hipótese foi sistematizada na década de 70, nos Estados Unidos, 50 como uma reação à teoria dos efeitos limitados, que teve seu auge entre os anos 40 e 60 do século XX. O modelo dos efeitos limitados segue o paradigma funcionalista e teve como um de seus principais pesquisadores Paul Lazarsfeld, da Universidade de Columbia, que estudou a influência da mídia no voto dos americanos durante a campanha eleitoral de 1940. Sob a perspectiva de Lazarsfeld, a imprensa não altera a opinião dos eleitores e ainda contribui para cristalizar as escolhas já feitas anteriormente. A hipótese do agendamento toma corpo com as pesquisas de Shaw e McCombs, que não analisam a mídia na mudança de opiniões, mas sua influência na forma como as pessoas apreendem as informações e constroem seu conhecimento sobre o mundo. A hipótese do agenda-setting não defende que a imprensa pretende persuadir. A influência da mídia nas conversas dos cidadãos advém da dinâmica organizacional das empresas de comunicação, com sua cultura própria e critérios de noticiabilidade [...] (PENA, 2005, p.144) Essa influência, disputada no dia a dia pelos meios de comunicação, é foco de interesse das assessorias de imprensa governamentais, especialmente no que se refere à propagação de assuntos que gerem opiniões positivas sobre os assessorados. Felipe Pena (2005, p.144) acrescenta que a maioria dos estudos embasados nessa teoria refere-se à confluência entre a agenda midiática e a agenda pública. Mas ele completa que os “objetivos não são verificar mudanças de voto ou de atitude, mas sim a influência da mídia na opinião dos cidadãos sobre que assuntos devem ser prioritariamente abordados pelos políticos”. Exemplo claro pôde ser percebido na campanha eleitoral de 2006. Em maio daquele ano, o PCC (Primeiro Comando da Capital) comandou o maior atentado já realizado contra as forças de segurança do Estado de São Paulo. Ocorreram ataques a delegacias, viaturas e bases das Polícias Militar, Civil e Guarda Metropolitana. Segundo a versão do governo do Estado de São Paulo, os ataques eram uma represália à transferência de 765 presos para a Penitenciária de Presidente Bernardes, prisão de segurança máxima. Entre os presos transferidos, estava Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC. Além dos ataques, os presos comandaram rebeliões em prisões por 51 todo o Estado. A situação agravou-se a tal ponto que escolas, unidades de saúde, o comércio e o transporte público deixaram de funcionar por dias. Na época, Geraldo Alckmin (PSDB) tinha acabado de se licenciar do cargo de governador de São Paulo para disputar a eleição à presidência com Luis Inácio Lula da Silva (PT), que partia para o segundo mandato. Em São Paulo, os dois principais candidatos ao governo do Estado eram José Serra (PSDB) e Aloizio Mercadante. A cobertura da imprensa sobre os ataques foi feita diariamente, com programas e cadernos especiais em todos os veículos de comunicação. O tema violência tornou-se pauta obrigatória em todas as discussões, planos de governo, entrevistas e debates políticos. O tema principal das eleições 2006 não foi saúde, nem educação, nem os escândalos de corrupção no primeiro mandato do governo Lula. A agenda pública de discussões centrou o debate (e as promessas) na segurança pública. Enquanto os candidatos do PT à presidência e ao governo de São Paulo acusavam de incompetentes os tucanos paulistas ao não conseguirem prever, evitar ou minimizar o impacto dos ataques do PCC, Alckmin e Serra apontavam dados estatísticos mostrando a diminuição da violência no Estado e insinuavam que os petistas teriam arquitetado os ataques junto ao PCC com o interesse de desestabilizar a campanha tucana. Cinco anos depois dos ataques, em maio de 2011, a ONG Justiça Global e a Clínica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard lançaram oficialmente o relatório São Paulo sob achaque: corrupção, crime organizado e violência institucional em maio de 2006. O relatório aponta que não há como dizer que houve um só culpado pelo episódio, mas ressalta que a corrupção policial foi fator preponderante. O relatório não teve grande espaço na agenda pública de discussões ao ser lançado. A imprensa nacional apenas o noticiou como nota, sem alarde. Não houve ampla discussão sobre as conclusões da pesquisa. A hipótese do agendamento também marca a passagem de uma perspectiva quantitativa dos estudos de comunicação para uma abordagem representativa dos efeitos. O enfoque agora é o significado que a mensagem imprime no público, enfatizado pela freqüência e acúmulo de informações repetidas a que a sociedade fica exposta, influenciando a interpretação das pessoas e a formação da opinião. Segundo Wolf (2005, p. 141), a passagem 52 dos efeitos limitados para os efeitos cumulativos (que levam um tempo maior para serem identificados) implica a substituição do modelo transmissivo da comunicação por um modelo centrado no processo de significação. [...] É a partir desse ponto de vista que a mídia desempenha uma função de construção da realidade [...]. A influência da mídia é postulada, uma vez que esses efeitos nos ajudam a “estruturar a imagem da realidade social, durante o longo período, a organizar novos elementos dessa imagem, a formar novas opiniões e crenças” (Roberts, 1972, p.377). (WOLF, 2005, p. 141) Recentemente surgiram questionamentos quanto à teoria do agendamento, no sentido de que a mídia influi na agenda pública de discussões, mas não de forma determinista. As interações sociais, os tipos de meio de comunicação, a periodicidade em que um assunto é abordado e até mesmo a atenção dispensada pelo público a determinados temas implicam em uma variação da influência exercida pela mídia na agenda pública de discussões. Com o crescimento das redes sociais e a possibilidade do receptor da informação também se tornar o emissor, a agenda de discussões, cada vez mais, deixa de ser monopólio da grande imprensa. E as assessorias de imprensa governamentais agora tentam desenvolver mecanismos para lidar com essa multiplicidade de emissores de informação. Para chegar ao público final e tentar colocar temas de seu interesse na agenda dos assuntos mais divulgados pela imprensa e na agenda pública de discussões, as assessorias governamentais ainda contam com uma grande aliada: as rotinas de produção da notícia. Outra teoria do jornalismo, a interacionista, estuda essa temática e defende que [...] os jornalistas, confrontados com a supra-abundância de acontecimentos e a escassez do tempo, lutando para impor ordem no espaço e no tempo, são obrigados a criar o que Tuchman (1973) designa como a rotina do esperado, tendo como conseqüência, devido a critérios profissionais que utilizam na avaliação das fontes, a dependência nos canais de rotina. (TRAQUINA, 2005, p.195-6) Traquina (2005) explica que quando fontes e jornalistas integram uma mesma rotina, caracterizando até mesmo uma dependência, a integridade da informação fica em perigo. O autor justifica seu ponto de vista com dois argumentos. O contato pessoal e periódico com as fontes estabelece uma 53 relação de confiança e até simpatia, ficando difícil ao jornalista recusar e mesmo contrariar informações provenientes das mesmas. Outra razão de prejuízo à informação é que “quando os jornalistas ficam dependentes das fontes podem ficar orientados para a fonte e, assim, ceder à tentação de escrever para a fonte e não para o público” (TRAQUINA, 2005, p. 196). Em se tratando de fontes oficiais, essa relação de interdependência torna-se ainda simbiótica, onde ambos os agentes são beneficiados pela “troca”, como acrescenta Traquina (2005, p. 196). Para os jornalistas, os benefícios são: 1) a eficácia; 2) uma maior estabilidade no trabalho; e 3) uma autoridade que valida a notícia. Para as fontes oficiais, os benefícios são: 1) a publicitação de seus atos; 2) possivelmente, uma saliência social; e 3) o reforço da sua legitimidade. (TRAQUINA, 2005, p.196) Na própria priorização de temas a serem noticiados, especificados a partir de critérios de valor-notícia ou noticiabilidade – presentes diariamente nas rotinas de produção da notícia – as informações provenientes de órgãos governamentais são, muitas vezes, mais valorizadas do que as demais, especialmente quando o fator determinante for o tempo. Quando se tem meia hora para apenas uma entrevista sobre a variação da inflação, dificilmente um consumidor será ouvido. Em seu lugar, o Ministro da Economia ou qualquer outra fonte oficial será o escolhido. A teoria interacionista, segundo Traquina (2005, p. 199), defende que as notícias são aliadas das instituições legitimadas. A própria rotina de produção das notícias, que passa, como já foi explicitado aqui, pelo constante desafio de lidar com a organização do tempo e do espaço, favorece a interação constante entre jornalistas e as fontes oficiais, e essa conexão “faz das notícias uma ferramenta importante do governo e das autoridades estabelecidas (SHUDSON, 1989) e as notícias, em geral, tendem a apoiar as interpretações oficiosas dos acontecimentos controversos” (TRAQUINA, 2005, p.199). Por se apresentarem como definidores prioritários das informações, as fontes oficiais ou institucionalizadas são chamadas também de primary definers ou definidores primários. São essas as fontes que norteiam toda a discussão da informação a partir do seu posicionamento. Segunda a lógica das redações, essa procura vem com a justificativa de dar legitimidade à informação. Pena 54 (2005) lembra que uma pretensa busca pela objetividade também interfere nesse processo. O jornalista acaba se sentindo resguardado quando uma fonte oficial confirma um fato ou um dado. Além disso, as pressões próximas ao fechamento ou deadline também privilegiam os definidores primários. Na hora do fechamento, o jornalista dará preferência a uma fonte que considere avalizada e não se arriscará a perder a reportagem ou reproduzir a opinião de quem não tem um epíteto institucional à frente do nome. E essa fonte fornecerá as primeiras definições sobre o assunto. Ou seja, será o definidor primário. (PENA, 2005, p.154-5) Schudson (2010, p. 216) salienta que os jornalistas usam esta estratégia para se defender de erros e críticas, isso porque utilizando uma fonte oficial, diminui o grau de responsabilidade do repórter frente às informações divulgadas. Schudson cita que tal explicação foi amplamente estudada por Tuchman (1972, p. 660), que chegou à conclusão que os jornalistas se dispõem a vestir esta camisa de força para evitar os erros e, conseqüentemente, manter seus empregos e carreiras. Esta questão abre margem para uma discussão mais específica sobre o trabalho do jornalista nas rotinas de produção da notícia. Jorge Pedro Sousa (2002) discute profundamente as influências sobre a produção da notícia em sua obra Teorias da Notícia e do Jornalismo, que utiliza como base principal os estudos de Michael Schudson, Pamela Shoemaker e Stephen Reese. Sousa (2002, p. 16) sistematiza em níveis o que ele chama de teoria da notícia ou newsmaking. O autor ressalta que esses níveis devem ser observados como “interdependentes, integrados, interatuantes e sem fronteiras rígidas”. São eles: 1) Ação pessoal – as notícias resultam parcialmente das pessoas e as suas intenções, da capacidade pessoal dos seus autores e atores; 2) Ação social – as notícias são fruto das dinâmicas e dos constrangimentos do sistema social, particularmente do meio organizacional em que foram construídas e fabricadas; 3) Ação ideológica – as notícias são originadas por forças de interesse que dão coesão aos grupos, seja esse interesse consciente e assumido ou não; 4) Ação cultural – as notícias são um produto do sistema cultural em que são produzidas, que condicionam, quer as perspectivas que se têm do mundo, quer a significação que se atribui a esse mesmo mundo (mundividência); 5) Ação do meio físico e tecnológico – as notícias dependem dos dispositivos tecnológicos que são usados no seu processo de fabrico 55 e do meio físico em que são produzidas; 6) Ação histórica – as notícias são um produto da história, durante a qual interagiram as restantes cinco forças que informam as notícias que temos (ação pessoa, social, ideológica, cultural e físicotecnológica). (SOUSA, 2002, p. 16) Embora entendamos que todos os níveis influenciam e contribuem para o processo de construção da notícia, destacaremos aqui a ação social por este ser o nível em que há a maior influência de fontes oficiais e assessorias de imprensa governamentais sobre os jornalistas em suas rotinas de produção. Entendemos aqui rotinas de produção segundo a definição de Sousa (2002, p. 49): As rotinas, enquanto padrões comportamentais estabelecidos, são, entre os processos de fabrico da informação jornalística, os procedimentos que, sem grandes sobressaltos ou complicações, asseguram ao jornalista, sob a pressão do tempo, um fluxo constante e seguro de notícias e uma rápida transformação do acontecimento em notícia. (SOUSA, 2002, p. 49) Dentro os padrões comportamentais citados por Sousa é preciso observar que os meios de comunicação desenvolveram uma grande dependência dos canais de rotina (conferências de imprensa, tribunais, agências noticiosas e releases), estudados dentro do nível da ação. Esta dependência dos canais de rotina, como afirma Sousa (2002, p. 51-60), acaba por institucionalizar determinadas fontes, especialmente as que contam com serviços profissionais de assessorias de imprensa, organizações que têm um horário de funcionamento que muitas vezes coincide com o das redações e possuem equipes de assessores em tempo integral e que podem ser facilmente contatadas. Sousa (2002, p. 51-52) afirma que as rotinas transformaram-se em um poderoso inimigo da abertura democrática e polifônica dos órgãos jornalísticos ao público em geral. Ele aponta como uma das razões A utilização rotineira de fontes “oficiais”, podendo explicar-se porque essas fontes têm capacidade para fornecer regular e convenientemente informação autorizada e clara que poupa aos jornalistas os inconvenientes das investigações em profundidade e da recorrência a especialistas para descodificação, facilitando a manipulação. (SOUSA, 2002, p. 52) 56 Sousa (2002, p. 60) argumenta ainda que a utilização dos canais de rotina acabou por tornar o espaço público jornalístico em “um espaço tendencialmente ocupado por meia dúzia de protagonistas” (SOUSA, 2002, p. 60), estes, em sua maioria, integrantes de grupos de pressão, que Sousa chama de “senhores da economia e agentes de relações públicas”, fontes interessadas na divulgação de determinadas idéias e fatos ou simplesmente na ocultação de outros. Neste ponto, fica claro que o processo do newsmaking, em especial no nível da ação social, facilita que as fontes oficias governamentais sejam ouvidas e suas informações transcritas sem muito questionamento pelos meios de comunicação, assim como também aponta a teoria interacionista. Essa divulgação massiva e constante de informações provenientes de fontes oficiais pela mídia acaba por incluir os temas de interesse destas fontes na agenda de discussões públicas, conforme explica a hipótese da agenda-setting. Nos próximos capítulos, analisaremos como as teorias e hipóteses discutidas até este ponto do trabalho justificam o comportamento do jornal Folha de Fernandópolis frente às informações divulgadas pela assessoria de imprensa da Prefeitura de Fernandópolis no período que é foco de estudo desta dissertação. 57 5. FOLHA DE FERNANDÓPOLIS: BREVE HISTÓRICO A Folha de Fernandópolis circulou pela primeira vez em uma manhã de domingo, no dia 28 de julho de 1974, com 1.000 exemplares. Circulava apenas em Fernandópolis – no noroeste do Estado de São Paulo – e era uma publicação da empresa A-Cine Publicidade Ltda, que teve como fundadores Alencar César Scandiuzi, José Roberto Moreira e Francisco Melfi. Foi o terceiro jornal deste grupo criado na região de Fernandópolis, depois de O Jornal, em Santa Fé do Sul e do Jornal de Jales, na cidade de Jales. Moreira e Melfi também haviam participado da criação desses dois jornais. Em Fernandópolis, o projeto contou com a parceria de Scandiuzi. A primeira edição da Folha trazia a utilidade pública como tema das notícias principais: Instituto com nova denominação (referindo-se à mudança do nome da principal escola de Fernandópolis – de Instituto de Educação para Escola Estadual Líbero de Almeida Silvares) e Meningite adia início das aulas. O colunismo social, comandado pelo advogado Luiz Carlos Bigs Martins, nasceu junto com a primeira edição do jornal e trouxe como destaque a Festa do Vinho da Casa de Portugal, tradicional clube social fernandopolense. Foi Martins que apresentou Darci Araújo aos proprietários da Folha para que o jovem fosse o novo colunista esportivo do jornal. Araújo era, até então, funcionário da COBRAL (Companhia Brasileira de Algodão e Produtos Agrícolas) e tinha realizado vários trabalhos em rádio. Em 1982, ele virou sócio de Scandiuzi e juntos fundaram o Sistema Líder de Comunicação, que no mesmo ano adquiriu a Rádio Difusora AM e, em 1986, a Rádio Jornal FM (hoje arrendada para a Rede Aleluia). José Roberto Moreira, que era de Mirassol, voltou para sua cidade natal em 1978 e deixou a sociedade na Folha. Melfi acabou ficando no 58 comando do Jornal de Jales e aos poucos se desligou da administração do jornal de Fernandópolis. Em entrevista à própria Folha em edição especial de aniversário, Moreira conta sobre o projeto editorial diferenciado com o qual o jornal foi criado: Acho que o mais importante no projeto da Folha de Fernandópolis foi a seriedade com a qual os diretores encararam o desafio de fazer um jornal diferenciado. Na época, 1974, a maioria dos jornais era ligada a grupos políticos ou econômicos. O objetivo era fazer um jornal voltado para as necessidades da comunidade. E isso foi conseguido. (FOLHA ..., 1999, p. 8) Pela parceria com veículos de imprensa de outras cidades da região, a linha editorial da Folha de Fernandópolis seguia um movimento regional pelo desenvolvimento da região noroeste do Estado de São Paulo. Como exemplo, podem ser citadas as inúmeras matérias sobre a necessidade da construção da Ponte Rodoferroviária, finalmente inaugurada em 1998. A construção da ponte sobre o rio Paraná colocou fim ao perigoso e lento transporte realizado por balsa entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, hoje uma das principais rotas de escoamento da produção agrícola do centro-oeste para o sudeste e sul do país. O grupo de empresários que participou da fundação e desenvolvimento da Folha também criou a Editora e Gráfica Ferjal (nome alusivo às cidades de Fernandópolis e Jales), responsável pela impressão do jornal. Vários sócios passaram pela empresa, que hoje tem no comando Alencar César Scandiuzi, Darci Araújo, Deonel Rosa Junior (que foi editor de política da Folha e hoje é diretor do Jornal de Jales) e José Aparecido Roldan. A gráfica faz a impressão de diversos jornais regionais, além de publicações de outros estados, material de divulgação (cartazes, panfletos, cartões etc.), revistas e livros. E foi para modernizar seu parque gráfico que a Folha de Fernandópolis deixou de circular entre 30 de julho de 1991 e 22 de maio de 1993. Até 1991, o jornal era montado artesanalmente, com matérias compostas no sistema linotipo, letra a letra. Era a chama “fase de chumbo”. A dificuldade em colocar fotos no jornal naquela época levava ao atraso de até 15 dias na publicação de eventos com relação à sua realização. Em 1993, com o parque gráfico 59 totalmente novo, a Folha começou a ser impressa no sistema offset, com páginas coloridas. Outra dificuldade no início do jornal era com relação à equipe. No final da década de 70, com a obrigatoriedade dos jornais terem jornalistas profissionais assinando pela publicação, a Folha teve que buscar em São José do Rio Preto (cidade a 110 quilômetros de Fernandópolis) o seu primeiro jornalista com registro profissional: João Roberto Curti. Pela redação da Folha passaram diversos jornalistas, a maioria com ampla experiência no mercado, mas sem diploma. Claudemir Tarláo Cabreira foi o profissional que por mais tempo comandou a redação do jornal, somando 22 anos na Folha nas funções de repórter, redator e editor. Em 2006, depois de já ter saído da redação, Cabreira decidiu fazer o curso de Jornalismo na FEF (Fundação Educacional de Fernandópolis), onde se formou em 2009. Atualmente, ele é assessor de imprensa da FEF. A Folha trocou por mais quatro vezes o seu comando administrativo no século XXI. Entre 2000 e 2005, Alencar César Scandiuzi passou, progressivamente, a administração do jornal para o comando de sua filha Ana Claudia Scandiuzi, que havia se formado em jornalismo. Em 2005, Ana Cláudia vendeu sua parte do jornal para Darci Araújo e José Aparecido Roldan. Começou, então, uma nova fase para a Folha de Fernandópolis. O jornal se associou à Revista Mega, do empresário Gilberto Musto, formando o Sistema Mega de Comunicação. A editoria do jornal passou às mãos da jornalista Tatiana Brandini, hoje assessora de imprensa da Prefeitura de Fernandópolis. José Aparecido Roldan saiu da sociedade em 2007 e em janeiro de 2009, a Folha de Fernandópolis deixou de existir depois de uma fusão com a Rede Bom Dia, do Grupo Traffic, dando origem ao jornal Bom Dia Fernandópolis, veículo que circulou de terça a sábado até maio de 2010, quando a fusão foi desfeita e o jornal deixou de circular. Depois do fim da fusão com a Rede Bom Dia, estuda-se a volta da circulação do jornal em Fernandópolis, agora como bissemanário. Gilberto Musto deixou a sociedade e, atualmente, o título Folha de Fernandópolis pertence somente ao empresário Darci Araújo. A cisão entre Alencar César Scandiuzi e Darci Araújo em 2005 deu 60 origem a um novo jornal em Fernandópolis: Cidadão. A publicação é produzida pela Wing Publicidade e Marketing, com a participação de Glenda Scandiuzi (filha mais nova de Alencar), edição do jornalista Vicente Renesto e supervisão de Alencar César Scandiuzi. O Cidadão circula aos sábados em Fernandópolis e enquanto a Folha ainda estava na ativa, os dois jornais disputavam a preferência dos leitores e as melhores manchetes. Darci Araújo lamenta que a Folha não esteja mais nas bancas e admite que a fusão com a rede Bom Dia não deu o resultado econômico esperado. O projeto Bom Dia não deu certo porque a gente tem dificuldade em Fernandópolis em fazer jornal diário. [...] Fernandópolis não tem um volume de notícias para você manter um jornal diário de qualidade. [...] Era um jornal de alto custo também. O jornal estava sendo rodado em São José do Rio Preto. A gente tinha custo de impressão, de transporte, equipe maior para se manter um jornal diário de qualidade. [...] Esperávamos um retorno muito maior que a gente não teve. Apesar de que a gente tinha uma grande quantidade de 22 assinantes. (ARAÚJO, 2010) . O relacionamento do jornal com o poder público municipal também sofreu mudanças ao longo de sua história. No próximo capítulo, uma análise das matérias sobre a Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Fernandópolis publicadas pela Folha em um período de três anos evidencia como o aproveitamento das informações provenientes da assessoria de imprensa da Prefeitura foi diferente a cada mudança na administração pública municipal. 22 DARCI ARAÚJO, em entrevista concedida à autora em 27 ago. 2010, em Fernandópolis. 61 6. EXPÔ FERNANDÓPOLIS: ESTUDO DE CASO A partir dos conceitos apresentados até aqui, delineia-se o que seria, em uma perspectiva ideal, o papel da assessoria de comunicação governamental nos municípios e seu relacionamento com a imprensa local para o cumprimento dos objetivos da comunicação pública no que tange ao direito da população à informação. Ficou claro também que inúmeros fatores influenciam o relacionamento entre assessorias e imprensa, o que pode afetar diretamente a informação de caráter público e governamental que o cidadão recebe pelos meios de comunicação. A partir deste capítulo, observaremos, na prática, como esse relacionamento pode interferir no conteúdo notícia. Para tanto, será apresentada pesquisa realizada em Fernandópolis, com foco nos anos de 2006, 2007 e 2008, período em que a cidade teve uma mudança no comando do Executivo municipal em virtude da morte do prefeito Massanobu Okuma. A vice-prefeita, Ana Maria Matoso Bim, assumiu a Prefeitura no início de 2007 e se observa, a partir de então, uma mudança drástica no tratamento do jornal Folha de Fernandópolis às informações provenientes do Paço Municipal. E foi justamente para realizar uma análise da comunicação pública no Executivo municipal que a pesquisa enfoca o tema sazonal de maior popularidade na cidade todos os anos: a Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Fernandópolis, realizada sempre no mês de maio, em razão do aniversário de fundação do município, comemorado no dia 22 do referido mês. Todos os anos, são 11 dias de festa que incluem shows, rodeio, exposição de animais e produtos, leilões e diversas outras atividades ligadas ao setor agropecuário. A população de Fernandópolis dirige toda sua atenção ao evento durante este período. 62 A organização da Expô é realizada por uma comissão indicada pelo prefeito. É comum que a maior parte desta comissão organizadora seja de funcionários e diretores da própria Prefeitura. Embora os serviços de publicidade e propaganda do evento sejam normalmente terceirizados a uma empresa de comunicação especializada no setor, a assessoria de imprensa é de incumbência da assessoria da Prefeitura, ficando todo o fluxo de informações jornalísticas destinadas à imprensa na responsabilidade da equipe de Executivo. A Expô de Fernandópolis foi escolhida como objeto de estudo deste artigo por se tratar de um evento anual de grande repercussão na cidade, possibilitando a comparação da comunicação sobre o tema em períodos diferentes. O estudo incluiu análise das edições do jornal Folha de Fernandópolis de 2006 a 2008, em especial as do mês de maio e também as edições que trouxeram matérias referentes ao tema. As matérias publicadas pelo jornal foram comparadas aos releases enviados à imprensa pela assessoria da Prefeitura no mesmo período. Antes de apresentar a análise e conclusões da pesquisa, vale contextualizar o período político que Fernandópolis vivia naquele momento. Ana Maria Matoso Bim, prefeita na época, assumiu o cargo depois do falecimento do agropecuarista Massanobu Rui Okuma, que havia governado a cidade de janeiro de 2005 a fevereiro de 2006. Okuma havia sido presidente da comissão organizadora da Expô anteriormente, enfatizando a importância do evento durante seu mandato. Destaca-se a celeuma na cidade quando da morte de Okuma, já que o prefeito eleito no mandato anterior, Newton Camargo de Freitas, também faleceu no exercício do cargo em março de 2002, tendo seu vice, Adilson Campos, completado o mandato até o final de 2004. Ana Bim teve pouca expressão política enquanto Okuma era prefeito e não escondia seu descontentamento quanto à sua pouca participação no governo municipal. Durante a campanha eleitoral, Ana Bim foi o grande reforço de Okuma, que nunca tinha concorrido a cargo eletivo na cidade. Já Ana Bim havia sido vereadora por três vezes (1988, 1997 e 2001), tendo sido a primeira mulher eleita para ocupar uma cadeira na Câmara em Fernandópolis. Em 1993, foi Diretora Municipal do Bem-Estar Social. O carisma junto à população, no entanto, não conquistou a imprensa local, como mostrará a análise a seguir. 63 6.1 Metodologia A metodologia escolhida para realizar as análises das matérias veiculadas pela Folha de Fernandópolis e dos releases enviados pela assessoria de imprensa da Prefeitura da cidade foi o estudo de caso. Já a busca de informações junto às pessoas que participaram do processo analisado nesta dissertação foi realizada por meio da técnica da entrevista em profundidade, enquadradas na tipologia semi-aberta com questões semiestruturadas. A seguir, segue a fundamentação para a escolha deste método. 6.1.1 Estudo de caso Robert Yin (2001) sistematizou as técnicas de estudo de caso em seu livro Estudo de caso: planejamento e métodos. Nesta obra, o autor define o estudo de caso como “uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da via real, especificamente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos” (YIN, 2001, p. 32). Foi a partir desta definição que a metodologia foi escolhida para analisar o material selecionado. Márcia Yukiko Duarte também realizou um estudo sobre este método de pesquisa e evidenciou as pesquisas na área de comunicação realizadas com o auxílio do estudo de caso. De acordo com a autora O estudo de caso deve ter preferência quando se pretende examinar eventos contemporâneos, em situações onde não se podem manipular comportamentos relevantes e é possível empregar duas fontes de evidências, em geral não utilizadas pelo historiador, que são a observação direta e série sistemática de entrevistas. (DUARTE, 2009, p. 219) 64 As duas fontes de evidências citadas acima foram utilizadas neste trabalho. Adiante, descreveremos as técnicas de entrevista utilizadas ao longo da pesquisa. Ainda justificando a utilização do estudo de caso, Yin (2001, p. 34-35) cita que este método de análise é eficiente para trabalhos da área jornalística. Como exemplo, ele cita o livro All the President’s Man, dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, repórteres do jornal americano The Washington Post que relataram nesta obra o escândalo Watergate e os acontecimentos que levaram à renúncia do presidente Richard Nixon. Yin justifica que, embora não intencionalmente, o método utilizado pelos jornalistas foi um estudo de caso porque os autores confrontam continuamente o leitor com duas questões do tipo “como” e “por que”. Estabelecer o como e o porquê de uma complexa situação humana é um exemplo clássico do uso de estudo de caso, realizado tanto por jornalistas como por cientistas sociais. Se o caso envolve um acontecimento público significante e uma explicação interessante, pode-se acrescentar os ingredientes a um best-seller, como ocorre em All the President’s Men. [grifos do autor] (YIN, 2001, p. 35) Esta dissertação pretende responder às seguintes questões, de acordo com os métodos de análise do estudo de caso: • Como as informações provenientes da Prefeitura de Fernandópolis, no que diz respeito a grandes eventos como a Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial, chegaram ao público leitor do jornal Folha de Fernandópolis no período de 2006 a 2008? • Por que a cobertura do jornal foi tão diferente ao longo do período estudado? Seguindo o roteiro de desenvolvimento da análise, lembramos que os dois primeiros passos da pesquisa foram desenvolvidos nos capítulos anteriores desta dissertação, quando foi apresentado o problema da pesquisa e a fundamentação teórica do trabalho, que incluem a fase de definição do objeto de estudo. Para a coleta de evidências, imprescindível no estudo de caso, foram utilizadas três fontes distintas de dados: 65 • Documentos: segundo MOREIRA (2009, p. 271), “a análise documental compreende a identificação, a verificação e apreciação de documentos para determinado fim”. Foram utilizados para o estudo documentos de origem primária (legislação federal e do município de Fernandópolis sobre cargos, funções e características do sistema público de comunicação social, além de releases da assessoria de imprensa da Prefeitura de Fernandópolis) e documentos de origem secundária (notícias publicadas no jornal Folha de Fernandópolis). • Entrevistas: é considerada uma das mais importantes fontes de informação para um estudo de caso. Nesta pesquisa, foi utilizada a entrevista em profundidade para a obtenção de informações junto às fontes. A entrevista em profundidade é um recurso metodológico que busca, com base em teorias e pressupostos definidos pelo investigador, recolher respostas a partir da experiência subjetiva de uma fonte, selecionada por deter informações que se deseja conhecer. [...] Por meio da entrevista em profundidade, é possível, por exemplo, [...] explicar a produção da notícia em um veículo de comunicação, [...] conhecer as condições para uma assessoria de imprensa ser considerada eficiente. (DUARTE, 2009, p. 62-63) Como se trata de uma pesquisa qualitativa, foi escolhida a entrevista do tipo semi-aberta, com questões semi-estruturadas que partiram de um roteiro-base. Duarte (2009, p. 64) lembra que este tipo de entrevista se caracteriza pela flexibilidade e por explorar ao máximo determinado tema. Foram entrevistados, individualmente, a ex-prefeita de Fernandópolis Ana Maria Matoso Bim, Eduardo Fernando Uliana Barboza (um dos assessores de imprensa de Ana Bim) e o proprietário da Folha de Fernandópolis, Darci Araújo. • Observação participante: esse método é utilizado, segundo Peruzzo (2009, p. 133), quando o pesquisador se insere no grupo pesquisado, participando de todas as suas atividades, ou seja, ele acompanha e vive (com maior ou menor intensidade) a situação concreta que abriga o objeto de sua investigação. Porém, o investigador não “se confunde”, ou não se deixa passar por membro do grupo. Seu papel é o de observador. (PERUZZO, 2009, p. 133) 66 Foi exatamente o cenário que encontramos ao iniciar esta pesquisa. Embora a autora deste trabalho fosse jornalista atuante em Fernandópolis na época em que os fatos relatados aconteceram, não participou diretamente do relacionamento entre a assessoria de imprensa da Prefeitura da cidade e a redação da Folha de Fernandópolis. Mas ao mesmo tempo, pôde acompanhar de perto os acontecimentos relatados nesta dissertação. A escolha desta fonte de dados para o estudo de caso também foi escolhida com base em uma das motivações apontadas por Peruzzo (2009, p. 130-131): [...] ir além da constatação crítica sobre as manipulações da mídia e seu poder de influência [...] e, ao mesmo tempo, contribuir para o avanço da pesquisa em comunicação e para a transformação social. O sentido deste tipo de pesquisa, construído informalmente, era “não só denunciar, mas agir”, extrapolar os muros da universidade e do debate puramente abstrato para o chão dos acontecimentos sociais que envolviam a criação de alternativas comunicacionais nas classes populares. Junta-se, pois, a intenção [...] de não se fazer pesquisa pela pesquisa, mas uma pesquisa que pudesse contribuir para o processo de mudança social. (PERUZZO, 2009, p. 130-131) Definidos os métodos utilizados neste trabalho, a seguir segue a análise do material pesquisado. 6.1.2 Apresentação e análise do material pesquisado O estudo compara o conteúdo dos releases enviados pela assessoria de imprensa da Prefeitura de Fernandópolis e as matérias publicadas pela Folha de Fernandópolis no ano de 2007. Não foi possível a comparação textual das duas fontes de análise em 2006 e 2008 pela seguinte razão: a Prefeitura de Fernandópolis não possui arquivo do material divulgado pela assessoria de imprensa no ano de 2006, primeiro ano do governo Ana Bim. Apenas a partir de 2007, com a nova equipe nomeada pela prefeita, é que os releases foram arquivados. No ano de 2008, a Folha de Fernandópolis não publicou sequer uma nota sobre a Expô Fernandópolis, inviabilizando também a comparação das matérias com os releases. No entanto, mantivemos o material no escopo da pesquisa porque a não publicação das matérias em si já denota o 67 posicionamento do jornal para com a Prefeitura naquele período. No primeiro ano do mandato de Ana Bim, em 2006, percebe-se a manutenção do interesse do jornal pela publicação de matérias sobre a Expô, sempre com ênfase nos aspectos positivos da mesma. Naquele ano, a Folha publicou 29 matérias sobre a Expô, com destaque para o tema em dez capas do jornal. Das 29 matérias, duas foram entrevistas exclusivas com Paulo Birolli, presidente da Expô. Atualmente, Birolli é vice-prefeito de Fernandópolis e integrou a chapa com Luiz Vilar, que derrotou Ana Bim nas urnas em 2008. A cobertura sobre o evento em 2006 foi completa: desde o lançamento da festa, até a agenda de shows, matérias sobre a movimentação financeira proporcionada pela Expô, informações sobre transporte público e o balanço do evento. Na edição de 11 de março de 2006 (Figura 9), por exemplo, o jornal traz a manchete “Já está pronta a latinha de divulgação da Expô 2006”, que trata sobre o lançamento da embalagem da cerveja com publicidade da festa em evento promovido pela Prefeitura, além da notícia “Expô negocia etapa aberta no rodeio nacional da PBR” (Figura 10). Em maio de 2006, o evento obteve a cobertura da Folha em todas as edições. Na edição do dia 26 de agosto de 2006, a Folha traz a manchete “39ª Expô de Fernandópolis arrecada R$ 116 mil” (Figura 28), com o balanço oficial divulgado pela assessoria da Prefeitura em coletiva de imprensa. Nesta época, a assessoria de imprensa da Prefeitura tinha como responsável João Carlos Santos, radialista com longa experiência prática, mas sem formação universitária em Jornalismo. Em fevereiro de 2007, integra a equipe Eduardo Fernando Uliana Barboza, na época estudante de Jornalismo que ficou na assessoria de Ana Bim até o final do mandato da prefeita. Suelem Souza, jornalista formada, assume a assessoria da Prefeitura em abril de 2007, mantendo-se no cargo também até o final de 2008. Completava a equipe da assessoria a psicóloga Maria Aparecida Graneiro, responsável pela comunicação interna da Prefeitura. Eduardo Baboza conta que não havia muita interferência no gabinete na escolha dos temas ou no conteúdo dos releases elaborados pela assessoria e enviados à imprensa. 68 Tínhamos bastante liberdade para definir as pautas. Não havia quase nenhuma interferência do gabinete. Com algumas exceções, que aconteciam quando era necessário divulgar informações vindas direto do gabinete como reuniões oficiais e conquistas de verbas pra o município. Normalmente, os temas eram definidos de acordo com informações repassadas pelas diretorias municipais. E isso só aconteceu depois que conseguimos criar um canal de comunicação com os diretores municipais. Não foi fácil conquistar a confiança deles e manter um fluxo constante de informações. Isso porque a maioria 23 não conhecia direito o trabalho da assessoria. (BARBOZA, 2011) Eduardo conta ainda que apesar dos diversos serviços prestados pela assessoria da Prefeitura de Fernandópolis na época (Clipping, rádio-escuta, atendimento à imprensa, reportagens fotográficas, organização de eventos, cerimoniais, produção de releases, manutenção do site da Prefeitura e produção de conteúdo para o site), diariamente (com exceção dos finais de semana) a imprensa recebia um ou dois releases produzidos pela assessoria do Executivo municipal. A seguir, as cópias das edições da Folha de Fernandópolis de 2006 mostram, como foi discutido no início deste tópico, a forte cobertura positiva da Expô pelo jornal naquele ano. 23 EDURDO FERNANDO ULIANA BARBOZA, em entrevista concedida à autora em 9 jan. 2011, em Frutal-MG. 69 70 71 72 73 74 75 76 77 Em 2007, muda o tom das matérias sobre o assunto no jornal. A assessoria da prefeitura divulgou 13 releases sobre a festa, nenhum deles reproduzido pela Folha. Os releases diziam respeito à agenda de shows, sistema de venda de convites e diversos aspectos do evento como público esperado e efetivo, volume de transações comerciais e balanço geral da festa. Há nos textos, freqüentemente, alusão positiva ao trabalho da Prefeitura e da comissão organizadora da festa como no trecho “A 40ª Expô Fernandópolis está inovando”. A Folha de Fernandópolis publicou, em 2007, duas matérias sobre a Expô, ambas com chamadas pequenas na capa, com títulos que criticavam a administração pública. Comparemos cada edição ao release divulgado na mesma semana. RELEASE 1, enviado à imprensa em 19 de maio de 2007. Catracas terão novas regras na 40ª Expô Fernandópolis A 40ª Expô Fernandópolis está inovando em muitos aspectos em relação aos anos anteriores. Entre as mudanças para 2007 estão as novas regras para a entrada nas catracas. O recinto possui três entradas com catracas para o público e duas entradas somente para caminhões e veículos autorizados. A entrada com os ingressos das “permanentes” continua a mesma, o ingresso é entregue ao responsável pela catraca e é depositado nela. A novidade este ano é que a meia noite todas as catracas se fecham para a entrada e apenas a que fica próxima ao Bartoshow continuará funcionando. As demais estarão liberando apenas a saída do público. A decisão tem o objetivo de organizar a entrada do público que chega a partir deste horário e a saída do público que está deixando o recinto. Em apenas dois dias de festa a 40ª Expô Fernandópolis já recebeu a visita de aproximadamente 40 mil pessoas. Hoje a animação do público fica por conta do show da dupla sertaneja Gino e Geno, para quem ainda for adquirir o ingresso ele estará disponível nas bilheterias do recinto a R$15,00. No primeiro sábado de festa, a Folha não publicou matéria sobre a Expô. Trouxe, na edição de 19 de maio de 2007, um editorial de capa com fortes críticas à administração pública. 78 79 No release, as informações são de caráter informativo, visando a divulgação das regras para entrada e saída do público na Expô. Uma frase, no entanto, procura mostrar o sucesso da festa nos dois primeiros dias do evento: “Em apenas dois dias de festa a 40ª Expô Fernandópolis já recebeu a visita de aproximadamente 40 mil pessoas”. Em eventos importantes do interior paulista como este, sabe-se que uma das maneiras de mensurar o sucesso é quantificando o número de participantes, além da renda. E 40 mil pessoas em dois dias de festa é um público impressionante para a Expô de Fernandópolis. Já o editorial da Folha de Fernandópolis pode ser interpretado segundo dois aspectos: 1) o aniversário da cidade e o que não se tem para comemorar; 2) o futuro de Fernandópolis. Segue a transcrição do texto, na íntegra: Editorial Fernandópolis, 68 anos. No apagar das velas, é hora de reflexão. Há quem diga que não há o que comemorar. Constatação pérfida? Infiel retrato da nossa criança gigante? Consideremos. São 68 anos de uma história de lutas, de conquistas, de crescimento. Em 68 anos, muitas vidas que doaram uma boa parte da sua existência para o desenvolvimento desta cidade. Nessas quase sete décadas, um verdadeiro desfile de lideranças que deram o sangue por um futuro melhor para seus descendentes. Mas, então, por que tanto pessimismo neste aniversário? A resposta se resume em duas palavras: estagnação e resignação. Não se trata apenas de perseguição e fofocas acerca da inércia do poder público municipal. Passamos por uma crise de liderança. É fato. Como prova, uma pesquisa feita em sigilo, recentemente, para identificar as lideranças políticas regionais. Votuporanga e Santa Fé do Sul despontaram como lideranças claras. Em Fernandópolis, no entanto, ninguém se sobressaia. Aliás, o único destaque foi o alto índice de rejeição com relação à prefeita Ana Bim. Sem quem nos guie, que dite a direção, nossa caminhada rumo ao desenvolvimento parou. E não foi na sombra. Sem trajetória definida, não sabemos mais o que queremos para o futuro. E aqui cabe o famoso dito: “para quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve”. E é assim que o fernandopolense vive agora. Qualquer coisa serve. Sem lideranças e sem esperanças, ficamos entregues à resignação e à espera. Não ficamos estupefatos nem diante das hilárias inaugurações das novas pinturas de rodapé e asfalto. Sem reais obras, o glamour das comemorações de aniversário foi resumido em mais um feriado. Então, agora, é só reclamar? Ver no que vão dar as próximas eleições? Não. Fernandópolis merece, de presente, que a população mostre sua força e sua indignação. Agora. E que reivindique! Que não se aquiete e tome logo as rédeas de seu próprio desenvolvimento. A sociedade civil já assumiu esse papel em outros períodos da história fernandopolense. Mais uma vez, é hora da arrancada popular. Aos pretensos líderes, também é tempo de ação. Menos falar e mais fazer. E que as desavenças políticas sejam colocadas de lado para que Fernandópolis encontre novamente, antes dos seus 69 anos, o rumo do seu desenvolvimento. Para que em 2008, tenhamos muito o que comemorar. 80 Os adjetivos e substantivos que acompanham as palavras “aniversário” e “comemoração/comemorar” são, quase no texto todo, de cunho negativo. Dez palavras e expressões foram utilizadas: pessimismo, estagnação, resignação (repetida duas vezes), inércia, crise, rejeição, sem esperanças, hilárias, indignação e desavenças. A conclusão é de que não há o que comemorar no aniversário de Fernandópolis. E tudo é culpa, segundo o texto, de uma crise de lideranças. Aliás, as palavras “liderança” e “líder” foram repetidas seis vezes no editorial, tanto se referindo à crise presente como também a saída para o futuro do município. Com relação ao futuro da cidade, sete palavras ou expressões predominaram: lutas, conquistas, crescimento, desenvolvimento (repetida quatro vezes), futuro melhor (duas vezes), força e ação. Este aspecto denota, no editorial, que pode haver uma mudança nos rumos da cidade, desde que sejam trocadas as “lideranças” atuais. Assim como apontamos anteriormente que o sucesso que uma Exposição Agropecuária pode ser medida em quantidade de público, um termômetro para o sucesso na administração pública municipal são as inaugurações de obras no aniversário da cidade. Em 2007, Ana Bim não realizou inaugurações de grande vulto, chegando a constar na programação do dia 22 de maio, o “lançamento da nova sinalização horizontal” em ruas principais da cidade. O editorial da Folha não perdoou: “Não ficamos estupefatos nem diante das hilárias inaugurações das novas pinturas de rodapé e asfalto. Sem reais obras, o glamour das comemorações de aniversário foi resumido em mais um feriado”. Na semana seguinte, mais um release da Prefeitura e uma matéria na Folha. 81 RELEASE 2, enviado à imprensa em 25 de maio de 2007. Público enfrenta o frio e lota recinto para ver o grupo “Inimigos da HP” Nem mesmo o intenso frio das noites de Fernandópolis afasta o público do recinto de exposições. Na noite desta quinta-feira (24) a festa recebeu a presença de trinta mil pessoas que fizeram o show junto com o grupo de pagode Inimigos da HP. A chuva deu uma trégua para o público fiel da expo Fernandópolis, mas o frio já se tornou companheiro na festa e para alguns até tradição. O show do grupo Inimigos da HP esquentou arena, arquibancada, camarotes e até quem apenas passeava pelo anel do recinto. Tocando grandes sucessos do pagode o grupo paulistano fez o povo dançar e cantar mesmo com o frio, e até inovaram cantando alguns hits sertanejos como “Fricote” do cantor Daniel. Quem esteve presente pode curtir além de música boa, um show de efeitos especiais. O grupo nasceu há cinco anos e meio na capital paulista. Formado em Maio de 1999, por colegas de faculdade que curtiam pagode, mas não sabiam tocar. Eles decidiram aprender apenas para tocar na mesa de bar e pra isso foram a uma loja comprar alguns instrumentos e uma fita de vídeo-aula. Depois de muitos ensaios o grupo começou a ganhar harmonia e entrosamento, até que descobriram que podiam fazer um pagode de qualidade. O nome é uma brincadeira já que o grupo é formado por cinco engenheiros, um publicitário, um designer gráfico, e um advogado e todos durante a faculdade usavam calculadoras da marca HP (Hewlett-Packard). Nas horas de descontração, deixavam as calculadoras de lado e se dedicavam ao samba, daí a escolha do nome que hoje é reconhecido nacionalmente. Quem canta na noite de hoje (25) no palco da 40ª Expo Fernandópolis é a dupla sertaneja Guilherme e Santiago. O ingresso para assistir ao show desta dupla de sucesso custa R$10,00. No sábado (26) é a vez do grupo O Rappa animar o público de Fernandópolis e região no palco da festa. Os ingressos para o show do grupo estarão sendo vendidos a R$15,00. 82 83 84 Na edição do dia 26 de maio de 2007 (Figura 30), duas chamadas na capa referem-se ao evento: “Prefeita é vaiada na festa maio da cidade” e “Expô termina amanhã com show pirotécnico”. O texto desta última dispara: “A estimativa é de que a festa deste ano apresente R$ 400 mil de prejuízo, já que o público vem sendo menor que nas edições anteriores”. A manchete da mesma edição foi “Prefeitura quer merenda escolar 60% mais cara para o ano que vem”. Analisaremos os dois textos comparando-os a partir de um quesito: a participação do público na Expô. No release, expressões mostram a aprovação do público com relação ao evento, apesar de adversidades como o frio e a chuva. Acompanham a palavra público sete expressões positivas: enfrenta o frio, lota recinto, fizeram o show, fiel, frio companheiro, dançar e cantar. Já a matéria da Folha (Figura 31) preferiu enfatizar o comportamento do público na abertura oficial do evento, quando a prefeita Ana Bim foi vaiada. A matéria “Prefeita inaugura obras inacabadas e é vaiada na festa maior da cidade” não traz qualquer alusão aos shows da Expô e aproveita o gancho das vaias para noticiar uma enquete feita por um site (ligado ao jornal) onde a população desaprova o governo municipal. As palavras “vaia”, “vaiada” ou “vaiaram” aparecem seis vezes no texto. Outras palavras que denotam o comportamento do público com relação à administração pública são: péssima, ruim, barrada, problemas e descontentes. Com relação às comemorações do aniversário da cidade, a reportagem ainda salienta a “falta de inaugurações” e “obras inacabadas” (expressão repetida três vezes). Ao todo, foram dezenove palavras ou expressões negativas no texto contra cinco positivas (popularidade, festa, comemorações, boa e excelente). Uma nota na capa do jornal nesta mesma edição (Figura 30) fala sobre o preço do ingresso para entrada no último dia de Expô e sobre a agenda para o final de semana, mas não deixa de criticar a administração. A única expressão positiva é “comemora o resultado”, relatando frase do presidente da Expô, Humberto Cáfaro Filho. Outras cinco palavras negativas dão o tom à nota: prejuízo, público menor, prejudicou, em cima da hora e atraso. A última análise será feita a partir do release e matéria sobre o balanço da festa. 85 RELEASE 3, enviado à imprensa em 30 de maio de 2007. Expô 2007 comemora sucesso com 40 mil pessoas no encerramento A 40ª Expô Fernandópolis que terminou no último domingo (27) comemorou seu sucesso com a presença de 40 mil pessoas no recinto. A festa que recebeu mais de 300 mil durante os 11 dias fechou seu encerramento com chave de ouro. No domingo (27), último dia da Expô o público ganhou entrada franca, além de muitas atrações. Entre as atrações da noite estava a tão esperada final do rodeio Circuito Crystal. O primeiro colocado na montaria em Touro foi o paulista Silvano Alves Almeida, de Pilar do Sul, com 431 pontos. Na categoria cutiano o 1º lugar ficou com Antônio Custódio Almeida, de Fernandópolis que conseguiu 226 pontos; cada campeão levou para casa o prêmio de R$10.000. Para quem não sabe, cutiano é um estilo brasileiro de montar em cavalo, onde o peão não tem o apoio no arreio e se segura apenas em duas cordas amarradas no peito do animal. O tempo de 8 segundos é o limite para o peão ficar sobre o cavalo. O segundo lugar da categoria cutiano ficou com Edílson Antônio Filho de Ap. do Taboado – MS que levou o prêmio de R$8.000 e o terceiro lugar com Antônio Calheiro Moraes de Santa Fé do Sul – SP que levou o prêmio de R$6.000. Na montaria em touro o segundo lugar ficou com Simão da Silva de São Manoel – SP que recebeu o prêmio de R$8.000 e o terceiro colocado foi Danilo da Silva de Conchas-SP que levou R$6.000. Após a premiação o público assistiu a apresentação da Orquestra de Sopros da cidade que animou o público com várias canções. Para encerrar a noite uma chuva de fogos coroou o sucesso da Expô 2007. Foram onze dias de festa com os melhores shows do país, as melhores montarias, as melhores exposições nos pavilhões, os melhores animais em exposição e muita diversão para o público. A festa contou também com várias atrações como feira de carros antigos, Bartoshow e o espaço de música ao vivo da Unicastelo (lounge). 86 87 88 O release sobre o balanço da festa, que foi enviado à imprensa com o título “Expô 2007 comemora sucesso com 40 mil pessoas no encerramento”, afirma que a festa teve um público total de 300 mil pessoas. Não há referência com relação ao lucro ou prejuízo do evento. A Folha de Fernandópolis não publicou o texto. No dia 30 de junho de 2007, estampou na capa a matéria “Balanço da Expô deve gerar denúncia ao MP” (Figura 32), relatando a movimentação de um vereador para pedir explicações à Prefeitura sobre as contas da festa. Na página A8 (Figura 33), a reportagem completa traz nota oficial da assessoria da Prefeitura afirmando que a prestação de contas será feita no prazo devido e dentro da lei. Nove palavras ou expressões (algumas repetidas várias vezes) qualificam os onze dias de festa no release enviado pela assessoria de imprensa: comemora/comemorou, sucesso (duas vezes), chave de ouro, atrações (três vezes), prêmio/premiação (cinco vezes), animou, coroou, diversão e melhores (quatro vezes). A matéria da Folha tem também nove palavras ou expressões que qualificam o balanço da festa, mas todos com tom negativo: acusada/acusação (três vezes), improbidade administrativa (duas vezes), denúncia/denunciada (duas vezes), desrespeito/desrespeitou (duas vezes), gasto (quatro vezes), desinformado, errado, despreparadas e falha. Apesar de a reportagem trazer a nota oficial da Prefeitura sobre a denúncia do vereador, esta ocupou apenas metade do espaço que a matéria de acusação teve na página. O que se pode concluir da análise realizada em releases da Prefeitura e matérias da Folha sobre a Expô em 2007 é que enquanto a assessoria de imprensa procurou enfatizar o sucesso da festa sem mencionar qualquer aspecto sobre os investimentos, lucro ou prejuízo do evento. Os releases também ignoraram os aspectos que foram fontes de crítica pelo jornal. Já a Folha de Fernandópolis não realizou a devida cobertura do evento e apenas se aproveitou do tema para disparar pesadas críticas contra a Prefeitura e, em especial, contra a chefe do Executivo. Este posicionamento não mudou no ano seguinte e seguiu até as vésperas das eleições municipais, quando Ana Bim tentou a reeleição. Ela acabou perdendo a eleição para Luiz Vilar de Siqueira com uma diferença de apenas 891 votos. 89 Em 2008, a Exposição de Fernandópolis foi tema de 20 releases e notas oficiais enviadas de fevereiro a maio pela assessoria de imprensa da Prefeitura aos meios de comunicação locais. A Folha ignorou o evento e não fez qualquer referência à Expô. Na edição que circulou durante a festa, em 31 de maio de 2008, nenhuma menção ao evento na capa do jornal, como podemos verificar na Figura 34. Na edição de 13 de dezembro de 2008, a Folha traz a manchete de capa “Ana Bim eleva IPTU de 2009 acima da inflação” (Figura 35) e na página A8 (Figura 36), uma pequena nota sobre a verba que será destinada à Expô 2009. 90 91 Segundo o diretor do jornal, Darci Araújo, a mudança de linha editorial da Folha de Fernandópolis se deu em função da mudança da postura do jornal com relação ao evento. Ele afirma que o objetivo da Folha “Era noticiar sempre a festa”, jornalisticamente, sem promoção dos gestores públicos. Às vezes ela [a Folha de Fernandópolis] partia para um momento crítico e nem todas as pessoas, nem todos os presidentes, nem todos os prefeitos aceitavam quando você criticava, porque a Folha sempre teve uma linha de editorial de total independência. Evidentemente, a Folha, às vezes, como todo órgão de imprensa, [...] era contratada para fazer a parte de divulgação da festa. [...] Às vezes as pessoas queriam promoção e ela divulgava a festa. E alguns prefeitos ou prefeitas costumam querer misturar o lado jornalístico com o lado da divulgação. Então esse bloqueio quando teve com a Ana Bim foi isso. 24 Ela começou a misturar as coisas. (ARAÚJO, 2010) Mesmo informado pela autora do texto de que a Folha não publicou matérias sobre a Expô em 2008, o empresário negou o boicote total ao evento. Para a então prefeita, os jornais que não publicam o material enviado pela assessoria “não colocam porque não gostam da prefeita”. Ela acrescenta ainda, sobre o boicote da imprensa: [...] eu acho que é uma covardia o que fazem com a opinião do povo. Tem uma lei de imprensa, a gente respeita. Mas eu acho que tem que respeitar também o administrador público. E muitas vezes eles faltam até com o respeito. Falam até inverdades, que se a gente fosse querer brigar ou criar caso, a gente ia criar muito caso. Mas a gente não quer isso. Quem está acompanhando a administração sabe que muita coisa que vai realmente é injustiça que falam de alguma diretoria. Mas eu, pessoalmente, não ligo não. Que falar mal, fala. 25 (BIM, 2008) Eduardo Barboza, assessor de imprensa da Prefeitura em 2008, afirma que mesmo com o boicote da Folha aos eventos promovidos pelo poder público municipal, o atendimento à equipe da reportagem do jornal continuou a ser feito normalmente quando esta procurava a assessoria. Perguntado se o boicote pode ter sido realizado em função do corte em contratos publicitários, o jornalista deu a seguinte resposta: 24 25 DARCI ARAÚJO, em entrevista concedida à autora em 27 ago. 2010, em Fernandópolis-SP ANA MARIA MATOSO BIM, em entrevista concedida à autora em 11 mar. 2008, em Fernandópolis-SP 92 Nós, na assessoria, não tínhamos muito contato com essa parte dos contratos publicitários. Mas percebíamos que quando era época de renegociação e havia mudanças, também mudava a maneira como a imprensa cobria os assuntos da Prefeitura. Na Expô de 2008, a situação ficou mais drástica, não sei se pelos contratos publicitários, mas a maior parte da imprensa boicotou até mesmo a cobertura da 26 Expô. (BARBOZA, 2011) O jornalista deixou claro na entrevista que não só a Folha de Fernandópolis adotou a postura crítica em relação à Prefeitura em 2008, mas a maior parte da imprensa local. Para contornar o problema e conseguir fazer chegar à população as informações sobre os atos do poder público municipal, Eduardo conta que a assessoria acabou desenvolvendo veículos de comunicação próprios. “Usamos outdoors, veiculação de propagandas na TV e criação de informativos próprios para divulgar tudo que estava sendo feito pela Prefeitura” (BARBOZA, 2011)27. Essa solução, no entanto, não é tão eficiente como a cobertura realizada pelos meios de comunicação locais, que dão legitimidade aos temas de caráter público ao colocá-los em discussão em suas publicações. Além disso, o boicote acaba cerceando a população da discussão da pauta pública e exclui a imprensa de um dos seus principais papéis: promover a transparência das ações realizadas no âmbito dos governos. 26 EDURDO FERNANDO ULIANA BARBOZA, em entrevista concedida à autora em 9 jan. 2011, em Frutal-MG. 27 Idem. 93 CONSIDERAÇÕES FINAIS Depois de realizada a análise do material pesquisado para este trabalho, evidenciado no tópico anterior, conclui-se que os serviços prestados pela assessoria de imprensa da Prefeitura de Fernandópolis no período estudado não foram suficientes para que fossem atingidos os objetivos da comunicação pública na cidade. Várias razões podem ser apontadas para justificar esta conclusão. Para explicá-las, antes vamos responder às duas questões elaboradas no início deste estudo de caso: 1) Como as informações provenientes da Prefeitura de Fernandópolis, no que diz respeito a grandes eventos como a Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial, chegaram ao público leitor do jornal Folha de Fernandópolis no período de 2006 a 2008? Pudemos observar que no ano de 2006 a cobertura do jornal sobre o evento foi amplo e enfatizou vários aspectos positivos da festa. Não pudemos comparar com o material enviado à imprensa pela Prefeitura porque não há arquivo de releases daquele ano no Paço Municipal. Em 2007 e 2008, o material sobre a Expô foi enviado diariamente pela assessoria da Prefeitura à imprensa local durante os dias de evento, sempre com textos em tom entusiástico, mostrando a eficiência do poder público e o sucesso da festa. Em 2007, a Folha de Fernandópolis utilizou o tema como base para publicar matérias com críticas à Prefeitura, sem fazer a cobertura diária da Exposição, mencionando poucas informações sobre a festa em si. Já em 2008, a postura do jornal foi de ignorar totalmente o evento em suas páginas. Logo, concluímos que as informações sobre o evento estudado não chegaram integralmente ao público leitor. Não houve, no período pesquisado, 94 informações que pudessem demonstrar um equilíbrio na cobertura da Exposição. Os releases eram freqüentemente propagandísticos e o próprio material divulgado pela Prefeitura continha forte apelo eleitoreiro. Já a cobertura da Folha também sempre se apresentou parcial e incompleta: em 2006 demonstrando forte proximidade com o poder público e em 2007 e 2008 evidenciando uma oposição contumaz e que negligenciou várias informações que interferiram nas notícias publicadas e no parecer que a população pôde ter sobre a Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Fernandópolis. 2) Por que a cobertura do jornal foi tão diferente ao longo do período estudado? As entrevistas realizadas para responder a esta questão não foram totalmente esclarecedoras. Nenhum dos entrevistados apontou razões objetivas para esta mudança na cobertura da Folha sobre os assuntos divulgados pela assessoria da Prefeitura. Mas pudemos observar alguns aspectos desse relacionamento e inferir algumas conclusões. A primeira delas é que o tratamento despendido pela prefeita Ana Bim à imprensa local nunca foi dos melhores. Desde que assumiu a Prefeitura, Ana Bim trocou farpas com parte da imprensa, que era entusiasta com relação ao seu antecessor, Rui Okuma, mas que nunca mostrou satisfação com a presença da primeira mulher no comando do Paço Municipal. A segunda conclusão que se pode tirar a partir da pesquisa realizada é que fatores econômicos influenciam fortemente no tipo da cobertura que a imprensa local faz de eventos realizados pela Prefeitura. Quando o veículo depende de contratos publicitários com o poder público para sobreviver, é difícil que uma cobertura crítica seja realizada. Por outro lado, como foi evidenciado no estudo de caso, a não dependência deste tipo de verba (como afirmou o proprietário da Folha) não obriga o jornal a fazer a cobertura propagandística de eventos como a Expô, mas fica a nítida impressão que este poderia ser o motivo pelo qual o veículo se posicionou tão contrário a qualquer informação positiva que pudesse se referir ao trabalho da Prefeitura. De qualquer maneira, ficou prejudicada a população, que não teve acesso às informações de caráter público sobre o evento, tais como o real montante gasto pela Prefeitura para a realização de uma festa deste porte, o retorno deste investimento para a cidade ou até mesmo informações consideradas de serviço, como os horários e locais 95 de transporte público para o recinto ou os horários de funcionamento de cada evento que integrou a Exposição. Na guerra de interesses entre Prefeitura e imprensa, a comunicação pública não foi privilegiada e o direito da população à informação foi negligenciado. Atualmente, a assessoria de imprensa do Executivo fernandopolense continua sendo feita por profissionais de livre nomeação e exoneração pelo prefeito, mas a estrutura passa por estudos para ser modificada e ganhar status de diretoria municipal, com estrutura própria. Em 2011, o prefeito Luiz Vilar de Siqueira conta com uma equipe de cinco profissionais, sendo duas jornalistas diplomadas (uma que ocupa o cargo de coordenadora da Assessoria de Comunicação e outra que atua como assessora de imprensa), dois estudantes de jornalismo que atuam como estagiários e uma profissional com formação fora da área de Comunicação. Apesar de a equipe contar com jornalistas diplomados, o cargo não exige, oficialmente, que o responsável pela assessoria de imprensa da Prefeitura tenha cursado Jornalismo ou qualquer outro curso superior em Comunicação Social. A equipe é responsável pela assessoria de imprensa da Prefeitura, além dos serviços de relações públicas e gerenciamento da publicidade e propaganda institucional do município, este último serviço executado por uma agência de comunicação terceirizada e contratada para a elaboração de campanhas para o poder público local. De um lado, a equipe ainda carece de profissionais concursados, que teriam mais compromisso com a divulgação de ações de interesse público do que o cuidado com a imagem do chefe do Executivo. O fato de todos os cargos ainda serem de provimento em comissão inibe muito a elaboração de materiais que sejam mais interessantes para o cidadão e descontaminados da ênfase na boa imagem do prefeito. O concurso público, no entanto, não solucionaria todas as deficiências encontradas. A formação universitária especializada para a função também seria fundamental neste aspecto, acompanhada de um forte senso ético dos profissionais. Já é hora de assessores de imprensa de órgãos governamentais entenderem que não devem buscar somente o zelo pela boa imagem do Executivo, mas agirem de fato como precursores da transparência nos governos, atuando como agentes do poder público exercido em público, como 96 defendeu Norberto Bobbio (2000, p. 98). E essa mudança da compreensão das funções de uma assessoria de imprensa do setor público governamental também passa pelos gabinetes dos prefeitos e gestores públicos, uma vez que é preciso independência do jornalista que trabalha na área para que este não tema demissões a qualquer momento caso descorde dos posicionamentos de seus superiores. Já com relação aos meios de comunicação, os interesses políticos motivados por aspectos econômicos ainda constituem os principais problemas. A linha editorial assume, freqüentemente, o partido para onde pende o caixa. O fortalecimento do empresariado local seria uma das saídas para este impasse, tornando a fonte de renda do jornal mais independente dos órgãos governamentais. Além disso, uma formação ética consistente, com clara visão jornalística da missão do profissional para com a comunicação pública ainda é necessária em meios de comunicação de pequeno porte, onde a reprodução da prática equivocada no dia a dia é vista, cada vez mais, como ações ordinárias. Só quando a informação jornalística divulgada ao público for encarada como de fundamental importância para a formação cidadã e conseqüente melhoria da qualidade de vida da população é que a qualidade do jornalismo interiorano atingirá níveis de excelência e promoverá um dos seus preceitos fundamentais que é a transparência das ações públicas para a manutenção da democracia. 97 REFERÊNCIAS ALMINO, João. O segredo e a informação: ética e política no espaço público. São Paulo: Brasiliense, 1986. BARBERO, Jesús Martín. Reconfiguraciones comunicativas de lo público. In: REVISTA Anàlisi, nº 26. Barcelona: Universidad Autónoma de Barcelona, 2001. BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. 10. ed. 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Ana Carolina – O que você entende ser a função do assessor de imprensa? Quais são as funções que o assessor de imprensa tem na Prefeitura de Fernandópolis? Prefeita – Bom, quando nós assumimos aqui a Prefeitura, nós tivemos que, muda a atitude, são maneira de trabalhar diferente. Eu tenho minha maneira, o Rui tinha a dele, e a equipe da gente tem que ser um pouco parecida, a maneira da gente. Então percebi que precisava de outra pessoa que tivesse essa ligação que eu falei. Então eu tinha que fazer o que? Como eu vejo isso. Eu vejo que tem que ser uma coisa transparente, que o assessor de imprensa tem que passar realmente isso, o trabalho da prefeitura, mas eu senti assim, dificuldade pra gente encontrar um profissional que conseguisse ser um pouco de cada coisa: um pouco radialista, um pouco jornalista, um pouco... Porque o cargo aqui teria que ser criado uma marca, tem que formar uma equipe, nós estamos lutando pra isso, porque antes era uma pessoa só que fazia isso tudo. E assessor não é tudo, ou ela escreve bem, ou ela falar bem... é complicado. Então é isso que eu quero que o meu assessor de imprensa fale: procure a Ana Bim, como é a prefeita, qual é o trabalho que ela faz, como é o trabalho que ela faz, num português tranqüilo, numa comunicação básica. Ana Carolina – Então hoje as funções do assessor aqui na Prefeitura é transmitir a informação da Prefeitura para a população. Além disso, ela também faz os serviços de fotografia, de cobertura de eventos. Prefeita – O que eu acho que prejudica até o trabalho do profissional. Prejudica muito. Tanto é que agora estamos colocando pessoas pra fazer isso no lugar dela. Ou ela vai ta ligada ali no que está se falando ou ela vai tirar fotografia. E ela é uma profissional muito boa. A Suelem é excelente e escreve muito bem também. E ta aprendendo a fala. Então é isso, enquanto não formar uma equipe, a coisa não fica legal eu acho. Mas ela consegue passar o que a gente tinha que passar para o povo. E outra coisa, a ligação desse assessor de imprensa com a imprensa de Fernandópolis tem que ser uma relação tranqüila, uma relação de realmente passar a notícia, eu procuro atender todo mundo que quer falar comigo da imprensa, porque tem que ter um contato. E é diferente eu passar e ela passar. Mas Fernandópolis é um pouco complicada. Ana Carolina – Bom, e como é que é feita a escolha do profissional que vai ocupar o cargo de assessor hoje? Ela precisa preencher quais requisitos? 104 Prefeita – Bom, em primeiro lugar escrever bem. Porque o escritor ele nasce. Quem escreve bem, ele nasce. Pra falar bem você se prepara durante a vida. Mas escrever você tem que nascer com o dom e a vontade de escrever, para escrever a coisa como ela realmente é. Foi o primeiro passo que eu vi. E depois tentar aliar isso a uma boa comunicação entre o pessoal, porque havia entre a imprensa, dizendo que eu não falava com ninguém, não atendia ninguém e isso não é verdade. Ana Carolina – É preciso ter diploma de jornalismo? Você exige que seja um jornalista para ocupar o cargo? Prefeita – Eu já tive experiências que mostram que precisa ter. Não adianta, tem que ser um profissional. Ana Carolina – Qual é a sua interferência no trabalho da assessoria? Interferência que eu digo é no sentido orienta, há uma reunião pra decidir os fatos que são divulgados ou o encaminhamento que se dá a um determinado assunto ou não, você deixa isso por conta do assessor de imprensa? Prefeita – Não, eu converso muito com ela e eu procuro deixar ela à vontade também. Quando eu acho que ela tem que fazer alguma coisa diferente eu dou uma sugestão. Muitas vezes ela, como profissional, eu procuro ouvi-la, porque ela fez jornalismo e eu não. Então eu não posso de forma alguma dar meus palpites. Ana Carolina – Essa decisão do que vai ser divulgado é uma decisão conjunta ou é da assessoria? Prefeita – Conjunta. Se a gente não gosta da matéria. Por exemplo, outro dia ela colocou uma foto e eu não gostei. Aí eu falei pra ela: eu não gostei, não ficou legal. Aí a outra pessoa que não saiu na foto ficou chateada. Eu dou liberdade, mas quando eu não gosto eu falo pra ela que não gostei. Mas sempre a gente senta aqui no gabinete para discutir pautas. Ana Carolina – O cargo de assessor de imprensa hoje na prefeitura ele não é concursado, em algumas prefeituras são. Há essa intenção de transformar, porque você disse que está montando uma equipe, em transformar algum desses cargos, em cargos concursados ou não e o porquê Prefeita – Acho que futuramente, vai ser o caminho de toda prefeitura. Acho que o concurso é exigência. Vai ser exigência, mesmo porque é muito importante ter. Porque essa troca dificulta um pouco o trabalho. Acho que concurso público é importante.