In : SABOURIN , E. e TON N EAU, J.P. (Org.). Agricultura familiar: interação entre políticas publicas e dinâmicas locais. 1 ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007, v. 1, p. 47-60 A DINÂMICA AGRÍCOLA DO DESENVOLVIMENTO DA AGRICULTURA FAMILIAR NO ALTO URUGUAI/RS: SUAS METAMORFOSES E REAÇÕES LOCAIS Marcelo Antonio CONTERATO1 Marcio GAZOLLA2 Sergio SCHNEIDER3 1. INTRODUÇÃO As abordagens recentes sobre a importância da agricultura de base familiar para o desenvolvimento em áreas rurais vêm ganhando fôlego nos últimos anos com o incremento de pesquisas e discussões políticas a este respeito que demonstram que a importância da agricultura familiar para o desenvolvimento rural vai muito além da produção de alimentos. O alcance de uma nova perspectiva sobre os processos sociais no meio rural, passa pelo reconhecimento da agricultura familiar como uma forma social de trabalho e produção e do desenvolvimento rural que implica um processo que busca alternativas ao tradicional padrão agrícola de desenvolvimento, ainda hegemônico em muitas regiões brasileiras, como é o caso do Alto Uruguai, no estado do Rio Grande do Sul. Por este viés interpretativo, pretende-se contribuir com o debate existente sobre as dinâmicas da agricultura familiar brasileira, procurando demonstrar quais os condicionantes destas em uma região específica bem como suas implicações para o desenvolvimento rural. Para tanto, pressupõe-se que a afirmação e o fortalecimento da agricultura familiar não depende apenas da ampliação da sua legimitidade política e formal mas, sobretudo, de alterações que venham a reduzir a sua dependência e vulnerabilidade, tendo as políticas públicas papel fundamental em tais propósitos. Privilegiar-se-a uma abordagem que busca compreender o dinamismo da agricultura familiar a partir do conjunto de transformações históricas em que esta se inscreve e é o principal agente de desenvolvimento. No que tange aos aspectos metodológicos, este trabalho resulta da síntese de duas pesquisas mais amplas realizadas na região tendo como recorte privilegiado para coleta dos dados o município de Três Palmeiras4. Parra o entendimento da dinâmica do desenvolvimento no Alto Uruguai é importante ter a compreensão do processo de modernização tecnológica experimentado pelas atividades agropecuárias e a crescente externalização de etapas dos processos produtivos ocorridos. As transformações mais significativas na agricultura da região do Alto Uruguai ocorreram das mudanças na base técnico-produtiva estimuladas a partir da modernização da agricultura. É com base neste contexto se desenvolve este trabalho, 1 Licenciado em Geografia, Mestre em Desenvolvimento Rural e doutorando em Desenvolvimento Rural (PGDR) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Endereço: Rua Gonçalves Dias 227/10, Bairro Menino Deus, Porto Alegre, RS. CEP: 90.130-061. E-mail: [email protected]. 2 Engenheiro Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento Rural e Professor do CAFW/UFSM. Rua do Comércio, 698/04, Centro: Frederico Westphalen, RS. CEP: 98.400-000. E-mail: [email protected]. 3 Sociólogo, Mestre e Doutor em Sociologia. Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural e do Departamento de Sociologia da UFRGS. Pesquisador do CNPq (Bolsa Produtividade em Pesquisa). Endereço: Avenida João Pessoa, 31, Bairro Centro, Porto Alegre, RS. CEP: 90.040-000. E-mail: [email protected]. Este trabalho contou com o apoio do CNPq. 4 A este respeito ver trabalhos de Conterato (2004) e Gazolla (2004). 2 buscando estabelecer relações entre os processos mais gerais que determinam as práticas agrícolas (como a modernização da agricultura e a mercantilização) e as reações dos agricultores, seja via políticas públicas ou através de ações de caráter local. O modus operandi deste modelo técnico-produtivo e seus impactos sociais, econômicos e ambientais caracterizam o que se entende por modelo produtivista ou dinâmica agrícola de desenvolvimento, pois apresenta resultados expressivos do ponto de vista produtivo mas pífios sob o aspecto qualitativo e do benefício social. Para analisar os efeitos e os impactos sociais deste padrão de desenvolvimento este trabalho recorre à metodologias quantitativas e qualitativas. O foco do trabalho concentrase sobre o processo de mercantilização da agricultura do Alto Uruguai e a vulnerabilização crescente das famílias de agricultores que se expressa, de um lado, pela intensificação do uso de tecnologias de origem industrial destinadas à produção de commodities (soja, milho, etc.) e, de outro, pela crescente dependência dos produtores e aumento de sua fragilidade em face aos riscos (especialmente climáticos, como as recentes estiagens) e choques esternos (tais como a queda dos preços dos produtos agrícolas e o aumento dos custos dos insumos, como os derivados de petróleo). Assim, o tema deste trabalho consiste na análise dos processos de desenvolvimento da agricultura familiar em ambientes mercantilizados, buscando-se descortinar a sua dinâmica a partir de aspectos sociais, econômicos e políticos e através das ações locais e políticas públicas voltadas ao meio rural. O objetivo principal deste trabalho consiste em descrever e analisar a dinâmica do desenvolvimento da agricultura familiar no Alto Uruguai a partir dos elementos identificadores dos processos de transformação e mercantilização nos quais ela se insere. Como objetivos secundários, procurou-se indicar as iniciativas e reações dos agricultores, dos mediadores e das instituições para fazer frente a uma situação datada, a realidade atual, mas que deve ser problematizada à luz das transformações da agricultura familiar ao longo de sua trajetória regional, dada a sua importância para a formação do tecido social nos mais diversos níveis de análise. A análise da mercantilização da agricultura inspira-se nos trabalhos de Van der Ploeg (1992;1995) que afirma que este processo implica na ampliação da dependência externa das propriedades e dos processos produtivos, não se restringindo as mudanças técnico-produtivas. Por sua vez, a análise da fragilização ou vulnerabilização das condições objetivas de reprodução junto aos agricultores inspira-se nas contribuições de Ellis (1998;2000) na medida em que no Alto Uruguai a mercantilização expôs os agricultores a riscos sociais, tornando-os vulneráveis aos choques decorrentes de situações de estiagens e instabilidades dos mercados. O trabalho está estruturado em seis partes, além da introdução e dos apontamentos finais. Na primeira parte é apresentada a localização, características edafo-climáticas e sociais e econômicas do Alto Uruguai. Na segunda parte faz-se a apresentação da gênese e das metaformoses da agricultura familiar até o período de modernização da base técnicoprodutiva desta agricultura. Na terceira parte discute-se como se deu e quais as conseqüências da modernização da agricultura na região de estudo. A quarta parte é dedicada a discussão dos limites sociais do padrão de desenvolvimento que foi cunhado na região e como isso gerou protesto e reações por parte dos agricultores e de instituições representativas destes. Na quinta parte busca-se apresentar a importância que assume determinadas políticas públicas para a agricultura familiar, como o Pronaf, sem desconsiderar as suas limitações para o fortalecimento daquela forma de agricultura. Na sexta parte discutem-se as iniciativas locais que geram estratégias de desenvolvimento rural para fazer frente as condições de vulnerabilização e fragilização social a que são expostos os agricultores familiares. Ou seja, quais as possíveis alternativas que estão sendo construídas pelas instituições locais para o fortalecimento da agricultura familiar. 3 2. CARACTERIZAÇÃO DA REGIÃO DO ALTO URUGUAI5, RIO GRANDE DO SUL Situado geograficamente no norte do estado do Rio Grande do Sul, o Alto Uruguai possui, quanto ao seu relevo, superfícies irregulares e cotas altimétricas que variam entre 400 a 800m (Piran, 2001). Estas formas de relevo não permitem mecanização plena da superfície agrícola, ocorrendo principalmente nas propriedades localizadas nas áreas mais planas, por conta de um relevo menos acidentado bem como de uma melhor qualidade do solo. No tocante à cobertura vegetal do Alto Uruguai, Piran (2001) afirma que esta apresenta dois traços distintos: ao norte, o predomínio da floresta subtropical entremeada pela araucária, e ao sul, uma vegetação campestre, às vezes recortada pela penetração da floresta subtropical. De acordo com Rückert et al. (1999), a formação vegetal original da floresta subtropical no Alto Uruguai caracterizava-se pela existência de espécies como alecrim (Holocalyx glaziovii), cedro (Cedrela fissilis), louro (Cordia trichotoma), o pinheiro (Araucaria angustifólia), entre outras. No entanto, a vegetação encontra-se bastante devastada se comparada ao início do processo de colonização, sendo a floresta ciliar a formação mais encontrada. Nos capões é comum a presença do timbó (Ateleia galziviana) e nas matas galeria geralmente se encontram resquícios da floresta nativa. Figura: Localização do Alto Uruguai no estado do Rio Grande do Sul com destaque ao município de Três Palmeiras. 5 Neste trabalho, em função das fontes de dados disponíveis, a referência a região de estudo é muito mais uma questão de semântica do que propriamente diferenças nos aspectos analisados. Enquanto a região é mais conhecida pelo senso comum como Alto Uruguai, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a denomina Microrregião de Frederico Westphalen e a Fundação de Economia e Estatística (FEE), com base nos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (COREDES), denomina COREDE Médio Alto Uruguai. Os dados secundários terão, portanto, fontes diversas, enquanto os dados primários fazem referência a pesquisa realizada em Três Palmeiras, município representativo da dinâmica da agricultura familiar regional 4 A região do Alto Uruguai, conhecida e assim usualmente denominada pela população gaúcha a porção mais ao norte do estado do Rio Grande do Sul “confunde-se” com a microrregião de Frederico Westphalen, assim denominada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o IBGE, no ano 2000, a microrregião de Frederico Westphalen contava com uma população total de 184.762 habitantes, sendo 45,3% urbana e 54,7% rural6. Usando recorte espacial semelhante, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) do estado do Rio Grande do Sul indica que o COREDE Médio Alto Uruguai contava, em 2004, com densidade demográfica de 32,9 hab/km2, taxa de analfabetismo 12,7% e expectativa de vida ao nascer de 71,25 anos7 (para o ano 2000). Estudos recentes demonstram que a região do Alto Uruguai pode ser considerada uma das mais deprimidas zonas da geografia econômica gaúcha8. Com base em dados socioeconômicos de 2002 a FEE demonstra que o COREDE Médio Alto Uruguai ocupou a última posição diante dos demais, apresentando baixos indicadores em relação a renda e saneamento e educação e bons indicadores de saúde. 3. GÊNESE E METAMORFOSES DA AGRICULTURA FAMILIAR NO ALTO URUGUAI O Alto Uruguai caracteriza-se por ser uma região de colonização recente, onde se estabeleceram as chamadas “Colônias Novas”, a partir das primeiras décadas do século XIX. A demarcação das novas propriedades por companhias de colonização particulares acelerou e estimulou a chegada das populações descendentes de imigrantes italianos, alemães, poloneses, entre outros. Antes da chegada dos “brancos”, as florestas eram ocupadas por indígenas, principalmente da etnia Kaingang, mas havia também a presença de descendestes de escravos e mestiços, conhecidos como caboclos. A chegada dos colonizadores provocou a apropriação das terras dos indígenas, resultando em seu aldeamento nas reservas, chamadas “toldos”. Este processo foi conflituoso desde o princípio, e ainda que resultasse no domínio dos brancos por muitas décadas, nos dias atuais as disputas recrudescem por conta da retomada das terras colonizadas pelos indígenas que estavam confinados em suas reservas, mediante a expulsão e desapropriação dos colonos que as ocuparam durante o processo de avanço da fronteira agrícola, principalmente em meados do século XX (NASCIMENTO, 2001; CARINI, 2005). Os pequenos proprietários (atualmente denominados de agricultores familiares) até recentemente eram designados como “colonos” (de fato, esta alcunha é ainda hoje a que predomina no senso comum), termo que receberam devido a agricultura familiar do Alto Uruguai ter suas origens no processo mais amplo de colonização do norte do estado do Rio Grande do Sul. Ocorrida a partir de 1900, intensificou-se nas décadas seguintes a partir da disponibilidade de terras a serem ocupadas, realidade observada até meados do século XX. O avanço sobre novas áreas, como foi o caso do Alto Uruguai, foi acompanhado da reprodução de antigas práticas sociais e técnico-produtivas desenvolvidas nas regiões de origem, neste caso as primeiras áreas de colonização, as “Colônias Velhas”, que deram origem a cidades como São Leopoldo, Novo Hamburgo, Caxias do Sul, Bento Gonçalves 6 Os dados do Censo Demográfico 2000 apontam que 81,6% da população do Estado do Rio Grande do Sul era urbana e 18,4% rural, uma desproporção considerável em comparação com o universo aqui pesquisado. Observando-se os dados publicados pelo IBGE pode-se considerar que a microrregião de Frederico Westphalen é a segunda “mais rural” em relação às demais microrregiões no Rio Grande do Sul. A primeira posição é ostentada pela microrregião de Restinga Seca, onde 57,2% da população foi considerada rural e o restante, 42,8%, urbana. 7 Estes dados foram obtidos no site www.fee.tche.br em 6 de junho de 2005. Os COREDEs (Conselhos Regionais de Desenvolvimento) são as regiões de planejamento e desenvolvimento do estado do Rio Grande do Sul, num total de 24. 8 A este respeito ver trabalhos de Schneider & Waquil (2001) e Kageyama (2005). 5 entre outras. A partir da década de 1970, as transformações de ordem técnico-produtivas e socioeconômicas vão se traduzir em uma redução considerável da autonomia das famílias rurais e a reprodução social tornam-se cada vez mais subordinada e dependente dos vínculos mercantis, produzindo-se também uma diferenciação social e produtiva entre os agricultores familiares. É importante destacar que desde o início do processo de ocupação das terras e instalação das primeiras atividades produtivas a agricultura já se orientava por um conjunto de relações mercantis. Neste sentido, as considerações de North (1977) em relação aos agricultores norte-americanos que desbravavam as regiões de fronteira agrícola e mesmo de Weber (1982) sobre a importância das relações com os mercados, podem ser tomadas como válidas para os colonos que se embrenhavam na mata fazendo avançar a fronteira agrícola no Rio Grande do Sul. Para North (1977), não se trata de negar que muitos agricultores levaram uma vida de subsistência, mas, apenas de afirmar que esse tipo de estabelecimento não tinha importância na configuração do desenvolvimento econômico da região, da mesma forma que o agricultor atual que produz para auto-consumo não caracteriza o desenvolvimento da agricultura contemporânea (p.296). Da mesma forma, para Weber (1982) na América, ao contrário da Europa, o mercado foi anterior ao campesinato. 3.1 PRIMEIRA FASE: OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO E INSTALAÇÃO DAS PRIMEIRAS ATIVIDADES PRODUTIVAS (1900-35) Esta primeira fase se dá através da chegada do agricultor e sua família que se instalam em lotes obtidos por compra. A demarcação dos lotes, que invariavelmente não ultrapassavam a dimensão de uma “colônia” (em torno de 24 hectares), era feita a partir dos limites naturais, como os rios, estendendo-se em linha reta até as áreas mais altas, os divisores de água, encontrando-se com os limites de outro lote. Conforme Rückert et al. (1999), em algumas regiões do Alto Uruguai, onde hoje se localizam os municípios de Três Palmeiras e Ronda Alta, a partir de 1920 a dimensão dos lotes vendidos aos colonos não ultrapassava 15 hectares, o que se apresentou como um importante limite econômicoprodutivo em função dos sistemas de cultivo instalados. Em função da hostilidade oferecida pelo ambiente natural, a primeira coisa a fazer era derrubar a mata, construir as primeiras instalações e desenvolver os primeiros cultivos, satisfazendo as necessidades dos membros da família. Os agricultores traziam consigo alguns animais, como vacas, suínos, e cavalos para transporte, sementes de milho, batata e abóbora e os instrumentos necessários para estabelecer as práticas produtivas. Nesta fase, o sistema produtivo instalado pelos colonos pode ser descrito como o sistema de rotação de terras primitivas, conforme definido por Waibel (1949). Era baseado na derrubada e queima da floresta, servindo para a produção de milho, feijão-preto e mandioca, em que o agricultor utilizava ferramentas como cavadeira, machado, foice e enxada. O excedente produtivo era utilizado na criação de porcos, com venda dos animais vivos ou subprodutos, como a banha, sendo trocados por gêneros de primeira necessidade não produzidos na propriedade, como sal, açúcar, café, etc. 3.2 SEGUNDA FASE: O INÍCIO DA ESPECIALIZAÇÃO PRODUTIVA E O APROFUNDAMENTO DAS RELAÇÕES MERCANTIS (1935-1960) A partir da década de 1930 a agricultura familiar do Alto Uruguai já se caracterizava pelo estabelecimento de um processo de aprofundamento e diferenciação em relação ao período anterior, o que, no entanto, não resultou em grandes alterações no sistema de corte e queimada com comercialização de excedentes agrícolas. Esta fase pode ser entendida como aquela em que a especialização produtiva tornou-se uma prática 6 corrente entre agricultores, basicamente no caso da produção de milho que serviria de alimento para a criação de suínos, agora com o intuito da comercialização. A ampliação das áreas cultivadas nas propriedades decorre da necessidade de comercialização de volumes maiores de produção, bem como do aprofundamento das relações mercantis e a expulsão demográfica do excedente populacional que passa a avançar a fronteira agrícola, agora para outros estados, como Santa Catarina e Paraná. Nesta fase, desenvolve-se o sistema de rotação de terras melhoradas. Com o aumento da produtividade surgem casas de comércio que compram a produção originária das pequenas propriedades rurais que, além da subsistência, incrementam a produção destinada ao comércio. Consolida-se a criação de suínos como um dos primeiros traços da especialização produtiva que irá se aprofundar nas décadas seguintes, mas com base em outras atividades. É importante destacar que nesta fase se consolidam importantes mercados consumidores de produtos produzidos regionalmente, como São Paulo, que absorve parte importante da produção de banha e outros derivados de suínos. A melhoria nos sistemas de transporte e canais de comercialização passa a ser fundamental para a consolidação de uma agricultura de base familiar que se orienta crescentemente pelos circuitos mercantis para fortalecer suas estratégias de reprodução social. Da mesma forma, cristalizam-se as situações de diferenciação social e produtiva entre os agricultores, também em função das condições de acessibilidade aos novos canais de comercialização que se apresentam. Ao final desta fase ocorre o surgimento das primeiras Cooperativas de produção no Alto Uruguai, criando canais de comercialização importantes para a consolidação do padrão agrícola de desenvolvimento nesta região. 3.3 TERCEIRA FASE: A MODERNIZAÇÃO DA BASE TÉCNICO-PRODUTIVA E A “SOJICIZAÇÃO” DA AGRICULTURA (1960-90) A partir da década de 1960, para fazer frente ao processo de fracionamento das propriedades, ao esgotamento da fertilidade dos solos e ao fechamento da fronteira agrícola estadual, entre outros aspectos, a agricultura da região buscou na especialização dos sistemas de cultivo uma possibilidade real de ampliar inserção mercantil. Isso resultou, paulatinamente, na formação de uma agricultura familiar dedicada a um repertório de poucos produtos (soja, milho e trigo), sinalizando para uma crescente especialização das atividades produtivas voltadas aos mercados, cada vez mais identificados pela competição através de índices crescentes de produtividade, exigindo a utilização cada vez maior de insumos e produtos industrializados. Esta nova fase tem como marco principal a introdução da cultura da soja, símbolo da modernização da agricultura no norte gaúcho e até hoje o principal produto da agricultura regional. A monocultura da soja resultou num aumento no consumo de produtos industrializados (adubos, defensivos, fungicidas, etc.), uma intensificação da mercantilização das relações de produção, uma dependência crescente dos mercados internacionais quanto ao estabelecimento dos preços dos produtos agrícolas, da busca ao associativismo para criação de canais de comercialização. Em outro trabalho (CONTERATO, 2004), este processo é denominado de “sojicização” da agricultura, que cada vez mais vem sufocando os agricultores familiares, até o momento que emerge na região, como ver-se-á adiante, iniciativas locais para fazer frente aos problemas enfrentados pela agricultura familiar regional. Em face de situações como esta, a ação política, via organização e mobilização dos agricultores familiares, se tornou um importante meio de visibilidade social no Alto Uruguai, fazendo frente a um cenário regional econômico-produtivo adverso. Para o “sucesso”, do que aqui se denomina de “sojicização”, há que se fazer referência ao papel desempenhado pelas Cooperativas de 7 produção que surgiram e se fortaleceram na região a partir da década de 1960. Inicialmente fomentando a produção de trigo, estas cooperativas se constituíram para os agricultores como um canal seguro de escoamento da produção de soja que ganhava fôlego. A atuação das cooperativas não se restringia ao escoamento da produção agrícola. Havia outras formas de atuação que merecem ser destacadas. Estas práticas persistem até os dias atuais. Dentre estas, pode-se citar a disponibilização aos agricultores de serviços de maquinário, como um trator sobre esteiras para avançar sobre as áreas restantes de mata, ou mesmo de caminhões para transporte de adubos, sementes e corretivos. Estas práticas “cooperativas” foram fundamentais para a consolidação da monocultura da soja e do cooperativismo no Alto Uruguai. A “sojicização” da agricultura nesta região foi acompanhada pela intensa quimificação das práticas agrícolas e introdução de força de trabalho mecânica, destituindo gradativamente instrumentos de tração animal e o uso de adubos de origem também animal. 4. MODERNIZAÇÃO, MERCANTILIZAÇÃO E DIFERENCIAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR DO ALTO URUGUAI Para um entendimento mais amplo da dinâmica da agricultura familiar no Alto Uruguai é importante que se entenda a modernização, a mercantilização e a diferenciação social e produtiva como componentes do processo histórico de desenvolvimento desta região. A incorporação de novas tecnologias às atividades agropecuárias é uma das facetas da mercantilização da agricultura, que tem na externalização crescente dos processos produtivos uma de suas manifestações mais visíveis. Estes processos são acompanhados de situações de diferenciação social e técnico-produtiva na agricultura. O processo de modernização da agricultura na região deste estudo é entendido a partir de um conjunto de mudanças mais gerais do capitalismo na agricultura, em que a transformação da base técnico-produtiva9 assume papel fundamental. Associado à mudança na base técnico-produtiva ocorre um processo crescente de integração mercantil e especialização produtiva, aumentando o grau de mercantilização da agricultura. Em Conterato (2004) pode-se encontrar elementos que caracterizam a trajetória da agricultura familiar nessa região e como a sua dinâmica, bem como do próprio desenvolvimento da região, tem-se orientado pela especialização dos sistemas de cultivo, particularmente através das commodities agrícolas, em que o sucesso técnico-produtivo da agricultura não tem sido observado na mesma proporção quanto às condições de vida das populações, como demonstram os dados sobre indicadores econômicos e sociais apresentados ao final desta seção. Por mercantilização entende-se o processo de redução da autonomia das famílias rurais e sua inserção crescente, em circuitos em que predominam as trocas mercantis. Neste processo, as estratégias de reprodução social tornaram-se cada vez mais subordinadas e dependentes, ampliado-se a interação mercantil com o ambiente social e econômico externo. Isso resulta numa crescente externalização, que gera uma multiplicação das relações mercantis, em que as tarefas inicialmente coordenadas pelo próprio agricultor passam a ser coordenadas agora também pelos intercâmbios mercantis, afetando não somente as atividades de produção como proporcionando uma transformação completa do processo de reprodução (VAN DER PLOEG, 1992). No Alto Uruguai, a 9 Para Kageyama, et alii (1990), a modernização da agricultura se dá principalmente pela mudança na base técnica da produção agrícola. É um processo que ganha dimensão nacional no pós-Guerra com a introdução de máquinas na agricultura (tratores importados), de elementos químicos (fertilizantes, defensivos, etc.), mudanças de ferramentas e mudanças de culturas ou novas variedades. É uma mudança na base técnica da produção que transforma a produção artesanal do camponês, à base da enxada, numa agricultura moderna, intensiva, mecanizada, enfim, uma nova maneira de produzir (p. 113). 8 externalização dos processos produtivos na agricultura se dá, por exemplo, pelo acesso a produtos e serviços cada vez mais indispensáveis ao sucesso das atividades agrícolas e disponíveis nos circuitos mercantis, como aquisição de sementes, adubos químicos, herbicidas e serviços de máquina. Portanto, os processos de mercantilização e modernização da agricultura não podem ser tomados como sinônimos. A modernização inscreve-se no processo de mercantilização, este mais amplo do que a simples substituição da base técnico-produtiva na agricultura, pois modifica outros aspectos da vida social e econômica das famílias. A mercantilização não pode ser identificada, inexoravelmente, como sinônimo de fragilização da agricultura familiar. O que deve ser levado em consideração é o ambiente em que este processo se dá e como as famílias passam a orientar suas ações para o estabelecimento de um conjunto de estratégias visando a sua reprodução social. Dentre os aspectos econômico-produtivos podem-se destacar as transformações na estrutura fundiária e a inserção nos mercados de produtos e serviços agropecuários (Tabelas 1 e 2). Novamente a referência empírica é o município de Três Palmeiras em função de pesquisas realizadas recentemente (CONTERATO 2004; GAZZOLA, 2004). Tabela 1: Estrutura fundiária de Três Palmeiras nos anos de 1970, 1975, 1980, 1985 e 1995 (Dados agregados para os municípios de Três Palmeiras e Ronda Alta) Tamanho médio <5 (ha) N° % 24,9 432 17,9 Estrato de área hectares (ha) 5 a 10 10 a 20 20 a 50 50a100 >100 Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % 472 19,5 913 37,7 492 20,3 43 1,8 68 2,8 Ano Nº estab. 1970 2.420 Área total (ha) 60.383 1975 2.337 57.501 24,6 369 15,8 531 22,7 835 35,7 476 20,4 52 2,2 74 3,2 1980 2.307 59.684 25,8 259 11,2 543 23,5 917 39,7 450 19,5 59 2,6 79 3,4 1985 2.464 58.340 23,6 334 13,6 617 25,0 921 37,4 443 18,0 78 3,2 71 2,9 1995 1.914 50.386 26,3 209 10,9 412 21,6 806 42,1 342 17,9 78 4,1 67 3,5 Fonte: IBGE, Censos Agropecuários 1970 a 1995. No que tange À estrutura fundiária, verifica-se um aumento do tamanho médio dos estabelecimentos entre os anos de 1970 e 1995. Apesar de relativamente pequeno, evidencia um processo interessante de concentração fundiária. Neste sentido, pode-se considerar que a especialização produtiva, exigente em inovações tecnológicas e em escalas de produção, leva à concentração fundiária, mesmo em regiões típicas de pequenas propriedades. Este processo pode ser observado pela redução no número de estabelecimentos no estrato inferiores, intensificado a partir de 1975, não coincidentemente em pleno auge da modernização da agricultura na região. Um dos traços característicos da agricultura no município de Três Palmeiras é a concentração da terra, onde os estratos de área de até 5 hectares sofreram drástica redução, enquanto os de mais de 50 hectares aumentaram substancialmente (Tabela 1). Na região do Alto Uruguai, a “sojicização” da agricultura tem papel fundamental na concentração fundiária, pois as pequenas áreas tornam-se impossibilitadas de alcançar índices crescentes de produtividade e de incorporação de inovações tecnológicas, características principais da monocultura da soja, conforme demonstrou Conterato (2004). Isso revela algumas fragilidades socioprodutivas da agricultura da região, uma vez que é nos circuitos mercantis da comercialização das commodities agrícolas e aquisição dos insumos que se define a renda do agricultor. Este talvez seja um dos principais traços negativos da mercantilização no Alto Uruguai, dado por uma integração aos mercados mundiais das cadeias agroalimentares em que as relações caracterizam-se pela quase total submissão dos agricultores às flutuações e às oscilações dos mercados. 9 Estes traços são importantes ingredientes na constituição de “tipos de agricultura” (VAN DER PLOEG, 1990), uma vez que são capazes de determinar os processos de trabalho e as estratégias das famílias rurais. Disso resultam unidades familiares distintas, principalmente no aspecto econômico-produtivo (posse e uso de máquinas e equipamentos agrícolas, uso mais intensivo de insumos, tamanho dos estabelecimentos) e das propriedades cujas famílias apresentam situações de pobreza, de fragilidade social bastante consideráveis. Junto a estas, a importância das transferências sociais, como aposentadorias e pensões, bolsa-escola, bolsa-família, entre outras políticas públicas, é bastante considerável, haja vista a impossibilidade de uma renda satisfatória originada das atividades agrícolas ou mesmo não-agrícolas. O que se observa no Alto Uruguai é uma diferenciação socioeconômica e produtiva associada à modernização da agricultura em seus aspectos mais amplos. Esta diferenciação revela-se em relação à agricultura a partir das mudanças nos sistemas de cultivo e de criações adotados e, em relação aos agricultores, entendida como resultado das reais possibilidades de inserção nos circuitos mercantis e da forma de produzir dos agricultores, levando em consideração os fatores de produção disponíveis, as possibilidades de acessálos e as mudanças no âmbito interno das famílias, como disponibilidade de mão-de-obra e idade dos membros. A diferenciação no âmbito social e técnico-produtivo permitiu o surgimento de “categorias” distintas que estabelecem, à sua maneira bem como por via das possibilidades, as estratégias de reprodução social, estruturando canais de comercialização “formais”, como é o caso das cooperativas e “informais”, como na venda direta aos consumidores (CONTERATO, 2004). De acordo com os dados do projeto sobre a dinâmica da agricultura familiar em distintas regiões do Rio Grande do Sul10, para o ano de 2002, a área total de soja plantada pelos agricultores familiares de Três Palmeiras representava, em média, 41% da superfície agrícola útil (SAU)11 dos estabelecimentos. O milho, outra cultura importante para a agricultura familiar, representava, em média, 25% da SAL, e as áreas com pastagem (nativas e cultivadas) 23%. Tanto o milho como as pastagens têm papel importante em função da atividade leiteira que ganha relevância no município, apresentando-se como uma alternativa em relação, por exemplo, à cultura da soja. Não obstante, a atividade leiteira apresenta-se como uma atividade que tem exigido um crescente grau de especialização dos agricultores, em que a incorporação de inovações tecnológicas é justificada por questões sanitárias e de produtividade. Somando-se as áreas destinadas ao cultivo do milho, soja e pastagens em 2002, estas representavam 89% da SAU das unidades familiares de produção no município de Três Palmeiras. Ou seja, duas culturas temporárias (mais as pastagens também temporárias) e as pastagens permanentes representam praticamente a totalidade da superfície utilizada pelos agricultores. Toma-se este dado como um forte indicador do grau de especialização existente na agricultura familiar da região. Além dos aspectos fundiários, outro importante indicador da dinâmica da agricultura familiar regional refere-se à inserção dos agricultores nos mercados de produtos e serviços agropecuários, a principal faceta da mercantilização da agricultura regional. No 10 Os dados primários aqui apresentados e analisados fazem parte de pesquisa mais ampla, financiada pelo CNPq e desenvolvida entre os Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Programa de Pós-Graduação em Agronomia da Universidade Federal de Pelotas intitulada Agricultura Familiar, Desenvolvimento Local e Pluriatividade no Rio Grande do Sul: a emergência de uma nova ruralidade (Pesquisa AFDLP – UFPel (PPGA)/UFRGS (PGDR), 2003). 11 A superfície agrícola útil (SAU corresponde à área (em hectares) do estabelecimento agrícola efetivamente explorada com atividades agrícolas, ou seja, a Superfície Total (ST) da unidade de produção agrícola menos as áreas improdutivas ou que não estejam sendo exploradas do ponto de vista agrícola). 10 que tange ao Consumo Intermediário (CI12), uma constatação importante é que todos os estabelecimentos encontram-se, de alguma maneira, inseridos nos circuitos mercantis, através da absorção de algum tipo de insumo ou produto, demonstrando que não se trata de agricultores que vivem em regime de economia autárquica (Tabela 2). Tabela 2: Estratos de Consumo Intermediário anual (CI), entre os agricultores familiares do município de Três Palmeiras. Estratos (R$) % das famílias CI médio por família (R$) Até 5 mil 59,3 2.408,00 5.001 a 10 mil 10,2 6.815,00 10.001 a 20 mil 11,8 14.822,00 > de 20 mil 18,7 30.940,00 Total 100,0 10.819,00 Fonte: Pesquisa AFDLP – UFPel (PPGA)/UFRGS (PGDR), 2003. E essa inserção nos circuitos mercantis não apenas caracteriza a mercantilização como faz dela um fator de sua reprodução, uma vez que inseridos num ambiente social econômico competitivo, e de certa maneira seletivo, os agricultores necessitam constantemente renovar estes vínculos. Observa-se também uma integração não homogênea, sendo este comportamento um importante indicativo de diferenciação social e produtiva na agricultura familiar. Outro aspecto importante na determinação da dinâmica da agricultura familiar refere-se aos circuitos ou canais de comercialização, por sua vez associados aos próprios sistemas de cultivo desenvolvidos. Em relação ao primeiro aspecto, os principais destinos da produção de origem animal da agricultura familiar de Três Palmeiras são as Cooperativas, a venda direta de porta em porta e os intermediários. Em relação à produção vegetal, a grande maioria vende para Cooperativas e, em seguida, para intermediários. Já os produtos da transformação caseira são comercializados quase majoritariamente diretamente com os consumidores, num sistema de porta em porta. O sistema cooperativo acaba sendo o principal canal de comercialização da produção. Tais produtos constituemse como verdadeiras commodities, como é o caso da soja, do milho e mesmo do leite, este último adquirido também por grandes empresas do setor agroalimentar através de sistemas de integração agroindustrial e por cooperativas que atuam na região. Os produtos de transformação caseira são principalmente derivados de leite, suínos e frutas. Observa-se que os estabelecimentos encontram-se inseridos nos circuitos mercantis, pela absorção de algum tipo de insumo ou produto, numa demonstração de que não se trata de agricultores que vivem em regime de economia autárquica. No entender de Van der Ploeg (1990; 1992) essa inserção nos circuitos mercantis para aquisição de insumos e produtos não apenas caracteriza a mercantilização como faz dela um fator de sua reprodução, uma vez que, inseridos num ambiente social econômico competitivo e de certa maneira seletivo, os agricultores necessitam constantemente renovar estes vínculos, em que o resultado deste processo é uma constante transformação das atividades produtivas e das formas de relacionamento com o mercado. Mudanças importantes também são observadas na dinâmica populacional. O Alto Uruguai tem-se caracterizado por ser uma região de expulsão populacional, haja vista a 12 O Consumo Intermediário (CI) é o valor dos insumos (produção animal, vegetal e transformação caseira) e serviços (máquinas, equipamentos, manutenção das instalações, luz, gás e água) adquiridos de outros agentes econômicos e destinados ao processo de produção do estabelecimento agrícola. São considerados intermediários por serem integralmente consumidos no decorrer do ciclo produtivo e, através do trabalho e dos demais meios de produção, transformados em produtos agrícolas. 11 redução da sua população total (Gráfico 1). Pode-se considerar que as migrações revelam tanto a expropriação direta da propriedade da terra, como a precarização e expropriação das condições de trabalho familiar. A expropriação direta da propriedade da terra seria uma conseqüência da concentração fundiária a partir da incapacidade dos agricultores de alcançar índices de produtividade, seja pela precariedade dos meios de produção, pelos problemas de fertilidade do solo ou pelo tamanho da propriedade. Já a expropriação das condições de trabalho estaria diretamente ligada à mecanização da agricultura, substituindo a força de trabalho humano a animal pela mecânica. Gráfico 1: Evolução da população total, urbana e rural na microrregião de Frederico Westphalen 1970, 1980, 1991 e 2000. 250.000 225.000 200.000 175.000 150.000 125.000 100.000 75.000 50.000 25.000 0 1970 1980 Rural 1991 Urbana 2000 Total Fonte: Censos Demográficos 1970, 1980, 1991 e 2000. A redução da população rural e mesmo total serve como um indicador do baixo nível de absorção da mão-de-obra no meio rural e de diversificação das atividades econômicas, fazendo com que a mão-de-obra migre para outras regiões na busca de emprego (Gráfico 1). É sob esta perspectiva que se entende a agricultura familiar do Alto Uruguai, como poupadora de mão-de-obra e pouco diversificada no âmbito da produção, fundamentalmente voltada ao mercado, caracterizando-se pelo elevado grau de integração e especialização, com sistemas de cultivos exigentes em inovações tecnológicas, porém pouco intensivos no uso de mão-de-obra. Neste sentido, apesar de a mercantilização tratar-se de um processo amplo e, às vezes, de difícil delimitação, ela se expressa com maior intensidade na produção voltada ao mercado. É sob esta ótica que se identifica a agricultura familiar do Alto Uruguai como especializada, pois a produção voltada ao mercado tem ganhado cada vez mais importância para os agricultores, refletindo um ambiente econômico-produtivo competitivo. Isso não significa que uma característica fundamental da agricultura familiar, que é a produção para autoconsumo, seja totalmente abandonada. Apesar disso há, no Alto Uruguai, fortes indicativos da fragilização da produção para autoconsumo decorrentes de uma inserção mercantil apoiada nos mercados de produtos e serviços agropecuários que, no âmbito das commodities agrícolas (soja, milho, etc.), têm privilegiado a esfera estritamente econômica, avançando sobre tradicionais produtos da agricultura familiar, como aqueles encontrados em hortas, pomares, ou outros produtos vinculados à base alimentar do grupo doméstico (GAZOLLA, 2004). As famílias de agricultores podem ser diferenciadas também segundo a condição de atividade. Do processo mais amplo de modernização e mercantilização resultou três 12 tipos de agricultores familiares. Os monoativos, os pluriativos e os pluriativos de base agrária. A diferenciação se desvela entre estes “tipos”, fundamentalmente, no aspecto econômico-produtivo o que, por sua vez, terá reflexos importantes na reprodução dos indivíduos e famílias. Não obstante, é o acesso aos mercados, agrícolas e não-agrícolas o aspecto definidor desta classificação. Assim, respeitando as definições sobre a classificação das famílias pela ocupação dos seus membros, a primeira consideração a ser feita é a de que a grande maioria das famílias de agricultores familiares de Três Palmeiras (71,2%) trabalha exclusivamente na agricultura, constituindo-se como monoativas. As famílias pluriativas, em que ao menos um dos membros dedica-se ao exercício de outras atividades além das agrícolas, representam 15,2% e as pluriativas de base agrária, representadas basicamente por aquelas famílias em que ao menos um dos membros exerceu atividades de caráter agrícola, como prestação de serviços de maquinaria em épocas de plantio e colheita, somam 13,5% do total (Tabela 3). Tabela 3: Classificação e características econômico-produtivas das famílias de agricultores familiares de Três Palmeiras, segundo condição de atividade (%). Tipo de família % das Área média famílias (ha) CI RA RT Monoativas 71,2 23,6 10.214 6.462 8.827 Pluriativas 15,2 15,1 5.709 4.962 9.935 Pluriativas de base agrária 13,5 27,3 12.774 19.458 23.205 Fonte: Pesquisa AFDLP – UFPel (PPGA)/UFRGS (PGDR), 2003. Aspectos associados à Renda Agrícola (RA) e Renda Total (RT)13 também são elucidativos da diversidade social entre os agricultores e a diferenciação dos sistemas de produção agrícola. A Tabela 3 acaba revelando aspectos desta natureza. No que tange ao tamanho médio dos estabelecimentos (em hectares), a menor área média é entre as famílias pluriativas e a maior, entre as pluriativas de base agrária. No que diz respeito à RA familiar, há uma diferença importante entre as famílias monoativas e pluriativas se comparada às pluriativas de base agrária. Essa diferença também é observada na RT, apesar de a RT das famílias pluriativas ser maior do que a das famílias monoativas, situação inversa à RA. Pode-se considerar que a pluriatividade, pelo do exercício de atividades fora da agricultura, apresenta-se como uma estratégia importante para as famílias de agricultores familiares, principalmente aquelas excluídas do processo de modernização da agricultura. Ainda assim, essas famílias conseguem elevar consideravelmente seus rendimentos, mais que dobrando aquele obtido nas atividades exclusivamente agrícolas. Enquanto isso, a pluriatividade de base agrária parece ser um recurso de geração de renda disponível apenas aos agricultores que têm acesso a tecnologias e equipamentos e conseguiram ascender socialmente mais que a maioria. 13 Uma definição conceitual sobre os tipos de famílias ou agricultores familiares no Alto Uruguai, segundo condição de atividade, dos critérios de formação da Renda Agrícola (RA) e Renda Total (RT) encontra-se em Conterato (2004). 13 5. OS LIMITES DO DESENVOLVIMENTO AGRÍCOLA, A CRISE E O PROTESTO SOCIAL NO ALTO URUGUAI: AS REAÇÕES DOS AGRICULTORES A partir da análise da trajetória do desenvolvimento agrícola e do lugar da agricultura familiar no Alto Uruguai considera-se que o modelo de desenvolvimento produtivista seguido na região gerou uma situação de crise que pode ser identificada em ao menos três situações. A primeira delas é de que os agricultores que se modernizaram tecnologicamente e estão inseridos no modelo de produção de commodities são altamente dependentes dos monocultivos e dos preços internacionais destas, além de terem custos de produção crescente com novas tecnologias (como é o caso dos royalties cobrados pelo uso de sementes geneticamente modificadas) e impactos ambientais através da contaminação dos solos pelo uso intenso de herbicidas, adubos químicos, fungicidas, etc. A segunda situação diz respeito aos agricultores que foram e estão sendo excluídos deste processo e que não conseguem se manter atualizados tecnologicamente, com áreas pequenas de terra e solos degradados, pouco capital imobilizado em máquinas e equipamentos, mas duplamente dependentes dos mercados de produtos e serviços, pois necessitam, além da utilização do pacote tecnológico imprescindível nas situações de monocultura, adquirir serviços de maquinário em períodos de plantio, manejo e colheita das safras. Em sua maioria são os agricultores mais vulneráveis da região, onde as condições de pobreza são mais visíveis. A terceira situação diz respeito à própria economia da região, que em situações da pouco dinamismo da agricultura familiar acaba estagnando, tornando-se dependente do Estado pelos repasses de recursos oriundos de programas sociais, como Bolsa Família, Alimentação, aposentadorias e pensões e outras políticas, na sua maioria, compensatórias. Essa realidade acaba se refletindo em indicadores de desenvolvimento, como o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) e o Produto Interno Bruto per capita (PIB). Segundo dados do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (2003), a maioria dos municípios da região do Alto Uruguai apresenta um IDH-M inferior ao atribuído ao estado do Rio Grande do Sul. Em relação ao PIB per capita da região, apesar da evolução, tem permanecido sempre abaixo daquele atribuído ao estado. Em 1999, o PIB per capita era de R$ 4.797 para a microrregião de Frederico Westphalen e R$ 7.435 para o estado. Para o ano de 2002, o PIB per capita da microrregião era de R$ 6.374 e do estado R$ 10.045. Portanto, considera-se que a dependência dos agricultores e da economia local de um modelo rígido que se pauta apenas pelo produtivismo e o crescimento agrícola representa um risco social para os indivíduos (ELLIS, 2000) e torna ambos vulneráveis aos choques, como os representados por situações de estiagem e instabilidades nos mercados de produtos agropecuários. Em parte, o surgimento e proliferação dos movimentos sociais no Alto Uruguai explica-se como resposta às situações de crise engendradas pela dinâmica agrícola do desenvolvimento, hegemônica nessa região. Dos processos aqui apresentados de modernização e mercantilização da agricultura de base familiar é que vão emergir ações e lutas dos agricultores familiares frente à precarização das condições objetivas de reprodução social de parcela considerável de agricultores. Neste sentido, é importante reforçar que no Alto Uruguai, principalmente a partir da década de 1970, criam-se condições objetivas para a resistência e mobilização dos agricultores diante da exclusão e expropriação das condições de reprodução social, como o fechamento da fronteira agrícola e a precarização da força de trabalho. Cria-se assim uma tensão social perante a necessidade de melhoria das condições de vida, que, para muitos agricultores, somente é possível mediante a mobilização política. Este processo resultou em situações de luta pela terra nas décadas de 1960 e 1970, repercutindo na construção e organização de movimentos sociais amplamente identificados 14 com o meio rural, podendo-se destacar o movimento de mulheres trabalhadoras rurais, o movimento dos atingidos por barragens, dos trabalhadores rurais sem terra. Deve-se registrar a influência da ação organizativa dos “setores progressistas” da Igreja Católica através da mobilização e sensibilização da população quanto a necessidade de se estabelecer ações que fizessem frente à precarização das condições objetivas de reprodução social enfrentadas pelos agricultores, particularmente aqueles excluídos pela modernização da agricultura. A mobilização foi uma das formas encontrada pelos agricultores para fazer frente à exclusão social que parecia iminente no horizonte de muitas famílias. O respaldo encontrado na Igreja Católica e a presença constante dos mediadores religiosos no meio rural serviram para legitimar a “ebulição social” que emergia das áreas rurais do Alto Uruguai, tornando a região um dos berços da mobilização política dos agricultores familiares e, ao mesmo tempo, trazendo para o debate público os resultados perversos da modernização conservadora da agricultura. Alguns estudos (NAVARRO et al 1996:1999; GEHLEN, 1983), indicam que nas regiões como o Alto Uruguai as ações e mobilizações políticas por parte dos agricultores nasceram como uma reação destes em função dos resultados sociais pífios do padrão de desenvolvimento da agricultura desta região. O movimento mais expressivo e reconhecido socialmente, originado das situações de fragilidade social no meio rural, foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) que se constituiu e passou a exercer influência crescente na sociedade. Não é por acaso que nessas regiões a própria organização sindical rural tem conseguido realizar mobilizações e demonstrado as fragilidades sociais decorrentes de décadas de desenvolvimento agrícola. Ambos, MST e Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs), além de intensa mobilização, têm conseguido discutir e apresentar alternativas de desenvolvimento rural, buscando, inclusive, ou de forma autônoma (cooperativas) ou em parceria com o poder público, colocar em prática propostas de desenvolvimento nas áreas rurais, particularmente para aqueles defrontados com situações precárias de reprodução social. As reações dos agricultores por conta dos resultados socioeconômicos do padrão agrícola de desenvolvimento também ocorrem através das associações de crédito e microcrédito para os agricultores familiares. Em estudo recente, Khun (2004) demonstrou a importância do microcrédito à dinâmica do desenvolvimento rural e à agricultura familiar no município de Constantina, localizado na região deste estudo. Os instrumentos de microcrédito analisados por Khun (2004) foram o Pronaf C do governo, o Programa RS Rural do governo estadual, a cooperativa de Crédito do Sistema Cresol e o Sistema do Sicredi. Conforme a autora, todos estes instrumentos de microcrédito presentes no município de Constantina estão consolidados e assumem papel fundamental entre os agricultores familiares do município. O microcrédito constitui-se como alternativa aos agricultores familiares impossibilitados de acessar outros canais de financiamento. Em função disso, o microcrédito se consolidou em uma região como o Alto Uruguai, caracterizada pela mobilização e ação política dos agricultores criando formas institucionalizadas de buscar o fortalecimento da agricultura familiar e melhores indicadores de desenvolvimento rural. Não só o cooperativismo de credito mas, também, o de produção é bastante difundido nessa região. Diante deste contexto de diferenciação social e produtiva da agricultura familiar, a sua crescente mercantilização dos processos produtivos e a sua vulnerabilização social e econômica, parece relevante analisar os principais instrumentos de políticas públicas e programas governamentais que estão em andamento na região. 15 6. AS POLÍTICAS PÚBLICAS E A AGRICULTURA FAMILIAR NO ALTO URUGUAI Na região do Alto Uruguai, as políticas públicas sempre foram importantes para a reprodução social e econômica da agricultura familiar. A partir de 1965 com a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), a agricultura familiar ingressou em novas estratégias de reprodução social, pois, a partir deste período, é que ocorre a sua maior integração ao mercado e o início da tomada de financiamentos públicos. É claro que nem toda a agricultura familiar regional se beneficiou do crédito rural concedido nesse período, mas uma parcela expressiva desta o fez, integrando-se ao mercado e solapando parte das suas estratégias tradicionais de reprodução social – as do período colonial. Deste modo, as políticas públicas praticadas pelo Estado neste período histórico na região foram, em grande medida, desalentadoras para uma parcela da agricultura familiar, pois não foram capazes de gerar um verdadeiro fortalecimento desta de acordo com os seus princípios de funcionamento. Ou seja, as políticas públicas praticadas não levaram em conta os pressupostos de operação das unidades familiares, como a diversidade produtiva, a importância do grupo familiar, as suas estratégias de reprodução social, etc., sendo que o que aconteceu, de uma forma geral, foi uma fragilização desses agricultores. Essas políticas públicas, deste modo, não foram capazes de exercer verdadeiros processos de apoio e estímulos à agricultura familiar regional. Já com relação ao Pronaf, este inaugura um novo modo do Estado intervir com relação à agricultura familiar regional. O Pronaf tem como características ser uma política pública que leva em conta as especificidades da agricultura familiar, as suas estratégias de reprodução social, a forma diversificada de produção, etc., em fim, o Pronaf foi pensado e construído visando justamente atender às demandas desta categoria social dos espaços rurais brasileiros. Neste sentido, a pergunta que se faz neste artigo que serve de guia para as reflexões que se seguem é: será que o Pronaf que é uma política “desenhada” e criada de acordo com as especificidades da agricultura familiar está conseguindo fortalecer os agricultores familiares? E, se os está fortalecendo, qual o tipo de fortalecimento que está sendo gerado? 6.1 O PROGRAMA NACIONAL DE FORTALECIMENTO DA AGRICULTURA FAMILIAR (PRONAF): “HACIENDO MAS DE LO MISMO”14 A importância que assume o Pronaf na reprodução social dos agricultores familiares pode ser verificada pela análise de inúmeros aspectos, sejam de ordem social, econômica, produtiva ou mesmo demográfica. Mas, certamente, um importante indicador da capilaridade do Pronaf entre os agricultores familiares pode ser obtido através da evolução do número de contratos e montantes de recursos investidos (Tabela 4). Observase que todos os municípios tiveram um crescimento significativo do número de contratos e do montante de recursos recebidos, de 2001 a 2003, demonstrando, assim, que o programa possui importante papel no apoio ao financiamento da produção dos agricultores familiares. 14 Fazendo “mas de lo mismo” é uma expressão usada por Schejtman e Berdegué (2003). 16 Tabela 4: Número de contratos e montantes do Pronaf Crédito de Custeio e Investimento em alguns municípios selecionados do Alto Uruguai. 2001 Municípios Contratos (Nº) Montante (R$) 2002 Contratos (Nº) Montante (R$) 2003 Contratos (Nº) Montante (R$) Constantina 2.244 3.454.954,92 2.534 5.143.120,16 1.464 3.056.748,85 Frederico Westphalen 2.160 2.034.974,14 1.467 2.167.332,92 1.219 1.879.220,60 Irai 1.334 1.166.322,50 1.360 1.500.695,78 1.030 1.735.167,34 Palmitinho 791 597.924,47 1.818 2.230.161,42 916 1.160.592,22 Três Palmeiras 455 780.476,90 435 1.522.286,50 408 1.012.912,03 Vicente Dutra 874 1.098.561,50 808 978.485,50 800 1.770.837,41 Vista Alegre 323 414.975,11 449 1.121.910,40 440 1.093.339,11 Fonte: BACEN (Somente Exigibilidade Bancária), BANCOOB, BANSICREDI, BASA, BB, BN E BNDES. Dados atualizados do BACEN: até 02/2003; BANCOOB até 04/2003 (sem operações em 2003); BANSICREDI: até 04/2003; BASA: até 04/2003; BB: até 03/2003; BN: até 04/2003 e BNDES: até 03/2003 (OBS: últimos 3 meses, dados sujeitos a alterações). Verifica-se, também, a importância do Pronaf em termos de cobertura no caso do Alto Uruguai, no qual, na maioria dos municípios, este atinge mais de 60% dos agricultores familiares. Ou seja, mais da metade dos agricultores dos municípios possuem algum tipo de financiamento do Pronaf. Isso é ilustrado pelo caso de Frederico Westphalen, em que a cobertura do Pronaf chega a 88,3% de todos os agricultores do município (FERREIRA et al., 2001)15. Já o tipo de fortalecimento que o Pronaf gera na agricultura familiar pode ser analisado com base nos empreendimentos que o programa financia aos agricultores. O direcionamento do programa pode ser visualizado pela Tabela 8, que traz os principais empreendimentos financiados pelo programa, em ordem de importância, para os municípios pesquisados no Alto Uruguai. Verifica-se que o principal empreendimento financiado pelo Crédito de Custeio diz respeito à implantação das lavouras de grãos e commodities agrícolas como a soja, o milho, o trigo, o fumo e, em um caso, o feijão. Como se sabe, estas lavouras são caracterizadas pelo uso intensivo de fertilizantes químicos, agrotóxicos, sementes melhoradas geneticamente, máquinas agrícolas, dentre outras tecnologias. Estas, também, são as principais formas de inserção mercantil dos agricultores familiares da região. Neste caso, também estas lavouras são as principais responsáveis, em parte, pelo movimento histórico de mercantilização dos agricultores familiares e pelos processos de especialização produtiva e econômica dos mesmos, como já se demonstrou em outros trabalhos (CONTERATO, 2004; GAZOLLA, 2004). Conforme a Tabela 5, observa-se também a importância do Pronaf no financiamento de outros empreendimentos como o da bovinocultura de leite, segundo tipo 15 O Pronaf também foi importante na reprodução social dos agricultores no ano de 2004, pois toda a Região Sul do país foi assolada por uma estiagem que durou, em média, três meses, que fez com que muitos agricultores familiares perdessem percentuais elevados da produção agrícola. Segundo o Jornal Folha do Noroeste (2004, p. 12), as perdas na cultura da soja variaram de 20% a 50% nos municípios do Alto Uruguai; as perdas no feijão safrinha foram de até 75%; e de 40%,na produção de leite. Já segundo o Programa Radiofônico do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Palmitinho, do dia 06/02/2004, as perdas com a estiagem para o milho safrinha chegaram a 80% da produção; com o feijão, também 80% e com a soja, em torno de 20 a 30% do total plantado. Neste sentido, o Pronaf foi importante porque os agricultores que tiveram perdas em função da estiagem nos municípios enquadrados na listagem de perdas além do tradicional rebate para os agricultores que pagaram em dia o financiamento, que é de R$ 200,00 por financiamento, o Governo Federal acenou com mais um desconto de R$ 650,00, o que totalizou um montante de R$ 850,00 por contrato efetuado como uma forma de compensar as perdas advindas da seca. 17 de atividade produtiva em que o crédito de investimento foi mais acionado em todos os seis municípios pesquisados. Grande relevância possui, ainda, o financiamento da fruticultura com a implantação de pomares de diversas frutíferas como videiras, Citrus, pessegueiros, figueiras, etc., que, de um modo geral, fica em terceiro lugar na ordem de prioridade de concessão dos financiamentos na maioria dos municípios. Além destas atividades, vale destacar o incentivo a geração de infra-estrutura rural nas unidades de produção, a melhoria das propriedades físicas e químicas do solo e a suinocultura16. Como atividades pouco financiadas pelo programa, tem-se a piscicultura, a aquisição de pequenas máquinas e equipamentos agrícolas e a implantação de agroindústrias familiares objetivando a agregação de valor a matéria-prima agropecuária. Por outro lado, o Pronaf é um programa de crédito rural que está levando os agricultores familiares à especialização produtiva. A especialização produtiva gerada pelo Pronaf é a situação em que o agricultor familiar é levado, pela política pública, a plantar o que esta financia. Neste caso, os cultivos que se sobressaem é a produção de grãos e de commodities agrícolas, como o milho, a soja, o trigo, o fumo e outras em menor volume (Tabela 8). Este tipo de especialização gerada pelo Pronaf acaba por solapar a própria lógica de operação e de reprodução social das unidades familiares, que tendem, de um modo geral, a funcionar com base em sistemas produtivos e atividades econômicas diversificadas e não com um elenco restrito de opções de cultivo e de reprodução social (ABRAMOVAY e VEIGA, 1999; ANDRADE DA SILVA, 1999; FERREIRA et al. 2001). É também a especialização produtiva do agricultor familiar que desloca espacialmente e temporalmente os pequenos cultivos e criações das unidades familiares, como já se demonstrou em outro trabalho (GAZOLLA, 2004). Para o caso do Alto Uruguai, o município de Frederico Westphalen é ilustrativo deste direcionamento dos recursos do Pronaf, pois neste local 44% dos recursos foram para o milho, 24% para o Pronaf Rotativo (que também financia a implantação de lavouras de milho, soja, fumo, etc.), 17% para a soja e 10% para o fumo, demonstrando que o Pronaf vem sendo utilizado como instrumento para financiar a especialização produtiva. É por o programa estar estimulando o padrão de desenvolvimento produtivista e a especialização produtiva dos agricultores familiares da região que se formula que o Pronaf está fazendo “mas de lo mismo” na feliz expressão de Schejtman e Berdegué (2003). Ou seja, ele continua as fazer mais do mesmo, o que significa continuar financiando o padrão de desenvolvimento vigente. 16 Ressalta-se que alguns destes empreendimentos financiados pelo Pronaf serão retomados à frente e melhor analisados, visando demonstrar qual o papel e o tipo de fortalecimento que geram na agricultura familiar e também junto às pequenas atividades produtivas das famílias, como é o caso do autoconsumo. 18 Tabela 5: Principais empreendimentos rurais financiados pelo Pronaf Crédito de Custeio e Investimento, em ordem de importância, para os municípios pesquisados no Alto Uruguai MUNICÍPIO Três Palmeiras Vista Alegre Constantina Palmitinho Frederico Westphalen Taquaruçu do Sul PRINCIPAIS EMPREENDIMENTOS FINANCIADOS - Custeio de lavouras de soja, milho, trigo e fumo (aquisição de insumos, sementes, fertilizantes, etc.). - Bovinocultura de leite (formação de pastagens, aquisição de matrizes, etc.). - Fruticultura (implantação de pomares de videiras). - Melhoramento das propriedades físicas e químicas do solo (adubação verde, correção da acidez, etc.). - Custeio de lavouras de milho, feijão. - Bovinocultura de leite (aquisição de matrizes, ordenhadeiras, congeladores de resfriamento, etc.). - Melhoramento das propriedades físicas e químicas do solo. - Construção de infra-estrutura rural (galpões de armazenamento de fumo e pequenos estábulos). - Custeio de lavouras das culturas de soja, trigo e milho. - Bovinocultura de leite. - Fruticultura (implantação de pomares de Citrus, pêssegos, videiras, nectarinas, etc.). - Construção de agroindústrias familiares para agregação de valor à matéria-prima (compra de equipamentos, materiais de trabalho, construção das instalações, etc.). - Custeio de lavouras de grãos como milho, soja, trigo, fumo, etc. - Bovinocultura de leite. - Correção das propriedades físicas e químicas do solo. - Aquisição de pequenas máquinas e equipamentos agrícolas (compra de motores estacionários, trituradores, forrageiros, motosseras, etc.). - Fruticultura (implantação de pomares de videiras, Citrus, etc.). - Custeio de lavouras para as culturas de milho, soja, fumo e trigo. - Bovinocultura de leite. - Fruticultura (pomares de videiras, pêssegos, Citrus, figos, etc.). - Suinocultura (construção e melhoria de pocilgas, construção de esterqueiras, compra de matrizes suínas, compra de medicamentos e equipamentos). - Criação de infra-estrutura rural (construção e/ou melhoria de pequenos açudes, pocilgas, etc.). - Financiamento de agroindústrias familiares para agregação de valor à matéria-prima (construção das instalações, compra de máquinas e equipamentos, etc.). - Piscicultura (construção de alguns poucos açudes). - Custeio de lavouras de milho, soja, fumo e trigo. - Bovinocultura de leite. - Fruticultura (implantação de pomares de Citrus, videiras, etc.). - Infra-estrutura rural (construção e/ou melhorias de instalações, galpões, pocilgas e estábulos). Fonte: Pesquisa de Campo (2004). Nesse sentido, o programa está voltado a financiar os empreendimentos rurais que são justamente os tipos de sistemas de produção que fragilizaram a agricultura familiar regional e levaram-na à crescente dependência em relação ao padrão produtivista de desenvolvimento, pois essas culturas são responsáveis pelo processo de externalização e aumento do consumo intermediário de insumos modernos (VAN DER PLOEG, 1990; 1992). É esta lógica da crescente dependência dos agricultores familiares com relação ao mercado que pode levar a uma maior fragilidade das unidades de produção existentes na região, haja vista as características da economia regional. Neste contexto, o Pronaf acaba reproduzindo as condições históricas do padrão produtivista de agricultura (GAZOLLA, 2004; 2005). Em que pese as contradições apontadas anteriormente em relação ao tipo de fortalecimento que o programa está gerando na agricultura familiar, deve-se reconhecer que essa política é muito importante para a reprodução social e a manutenção dos agricultores nos espaços rurais, principalmente do ponto de vista das pequenas atividades rurais que os agricultores desenvolvem no interior da unidade, da produção para autoconsumo e da segurança alimentar das famílias. Com relação ao processo de fortalecimento das pequenas atividades desenvolvidas pelos agricultores, este acontece de uma forma indireta na linha do Pronaf Crédito de Custeio. O agricultor familiar, em alguns casos, acessa o financiamento para a produção de 19 grãos como o milho, a soja, o fumo ou mesmo o Pronaf Rotativo. O agricultor não coloca toda a quantidade do adubo, dos insumos e fertilizantes na cultura principal. O agricultor familiar sempre “guarda” um pouco dos fertilizantes e insumos para executar a implantação de alguma pequena cultura, como uma horta, um plantio de feijão, de arroz, amendoim ou outra cultura qualquer para alimentação da família. Ainda sobre o Pronaf Crédito de Custeio, percebe-se que ele possui um papel importante no fortalecimento da produção para autoconsumo, particularmente pelo apoio à produção de milho nas unidades familiares, um dos produtos mais financiados pelo Pronaf Crédito de Custeio (Tabela 8). O milho, como se demonstrou em outro trabalho (GAZOLLA, 2004), possui o caráter da alternatividade produtiva17 (GARCIA, 1983; 1989) e, neste sentido, pode ser vendido e consumido, dependendo das condições do grupo familiar e de mercado. No caso do Alto Uruguai, uma percentagem muito significativa do milho produzido dentro das unidades familiares é destinada ao autoconsumo intermediário e vai fomentar a criação e engorda de suínos, aves, bovinos caprinos e outros pequenos animais que, muitas vezes, irão servir a alimentação de famílias, especialmente das mais pobres, que não estão integradas verticalmente com os complexos agroindustriais. Assim, uma parcela da produção do milho, em grande medida, é voltada ao autoconsumo e, neste sentido, o Pronaf vem fortalecendo a produção para autoconsumo e gerando segurança alimentar entre os agricultores familiares. Uma linha de crédito importante com relação ao autoconsumo é o Pronaf Alimentos. O Pronaf Alimentos, que foi criado no Plano Safra 2003/2004, objetiva incentivar a produção básica de alimentos da agricultura familiar. Segundo o Plano Safra 2003/2004 (2003), o programa visa estimular a produção de cinco alimentos básicos da mesa dos brasileiros, o arroz, feijão, mandioca, milho e trigo (p. 4)18. O motivo para que, em alguns casos, o Pronaf Alimentos não esteja fortalecendo a produção destes cinco alimentos básicos é simples: verificou-se que os agricultores familiares, muitas vezes orientados pelos sindicatos e escritórios municipais da Emater, usam o recurso para outros fins que não é o da produção dos alimentos, como preconiza o Plano19. Já o Pronaf Crédito de Investimento gera um fortalecimento que pode ser interpretado em função do aumento real das pequenas produções da agricultura familiar, ou pela melhoria da infra-estrutura rural nas unidades de produção, foco desta linha de crédito. Na análise do Pronaf Investimento ainda são importantes as atividades da fruticultura e do leite como estratégias de fortalecimento das pequenas atividades 17 Alternatividade entre (os produtos) serem consumidos diretamente, e assim atender às necessidades domésticas de consumo e, serem vendidos, quando a renda monetária que proporcionam permite adquirir outros produtos também de consumo doméstico, mas que não podem ser produzidos pelo próprio grupo doméstico, como o sal, o açúcar, o querosene, etc. (Garcia Jr., 1989, p. 117). 18 O Pronaf Alimentos é uma linha de crédito especial para estimular a produção de cinco alimentos básicos da mesa dos brasileiros, o arroz, o feijão, a mandioca, o milho e o trigo. Esta modalidade de financiamento está em sintonia com o Programa Fome Zero, visando com a concessão desta linha de microcrédito, combater a pobreza nos espaços rurais e assegurar a geração da produção para autoconsumo. Abrange agricultores com renda bruta anual familiar de até R$ 2 mil. O objetivo é criar condições para que os agricultores mais carentes desenvolvam atividades para sua “subsistência” e garantam de renda. O programa possui valores de financiamento até R$ 1 mil, juros de 1% ao ano, dois anos para quitação do empréstimo e bônus (desconto para pagamento em dia) de 25%. 19 Em alguns casos, os atores sociais de desenvolvimento e os escritórios municipais da Emater orientam os agricultores familiares a acessarem esta modalidade do Pronaf e aplicá-la em atividades lucrativas, comerciais e nos chamados cultivos dinâmicos de mercado, deslocando, assim, os recursos das pequenas atividades para cultivos e atividades lucrativas, fazendo com que a produção de alimentos continue vulnerabilizada na unidade de produção, como já se demonstrou em outro trabalho (GAZOLLA, 2004). 20 familiares, pois recebem um montante relativamente grande dos recursos do programa, principalmente a atividade leiteira, o segundo empreendimento mais financiado nos municípios (Tabela 5). Tanto a fruticultura como o leite são importantes no contexto da reprodução social e alimentar das famílias rurais, por dois motivos: as duas atividades possuem o caráter da alternatividade como formulou Garcia Jr. (1983; 1989) e, também, agem no sentido de diversificar as estratégias de vivência dos agricultores familiares como se referiu Ellis (2000), retirando, em grande medida, a lógica da especialização produtiva e do padrão produtivo dominante do grão e das commodities da região. Os principais empreendimentos financiados pelo Pronaf Investimento na atividade leiteira são: aquisição de ordenhadeiras mecânicas, construção de estábulos para ordenha e de cercas (“potreiros”), aquisição de matrizes leiteiras, compra de resfriadores de expansão ou congeladores, dentre outros (Tabela 5). Em alguns destes casos, o fortalecimento das atividades pelo Pronaf Investimento ocorre de forma direta, como no caso da aquisição das matrizes leiteiras e, em outros, isso ocorre de forma periférica ou indiretamente, como no caso da compra de equipamentos e de pequenas inovações tecnológicas para o desenvolvimento da atividade. No caso da fruticultura, verifica-se que o Pronaf tem financiado projetos de implantação de diversos pomares de espécies frutíferas, como os de laranja, pêssego, figo, morango, implantação de videiras e outras frutíferas em menor escala, propiciando uma diversificação produtiva e econômica dos agricultores familiares (Tabela 5). A produção de frutas tem, assim, um papel importante na reprodução social dos agricultores fora do padrão dominante da produção de grãos. A produção de frutas, na grande maioria, é destinada para a venda, porém, em muitos casos, verificou-se que este tipo de integração dos agricultores ao mercado não é tão subordinada, como no caso das commodities agrícolas. Por outro lado, as famílias podem beneficiar-se do caráter da alternatividade das frutíferas, que podem ser vendidas ou consumidas dependendo das condições alimentares do grupo doméstico e de mercado20. Geralmente, os financiamentos, tanto das linhas do Crédito de Custeio como da de Investimento, não visam estimular as atividades da agricultura familiar como uma das estratégias de reprodução social das famílias, mas sim, visam à inserção mercantil mesmo sendo numa atividade fora do escopo da produção de grãos e das commodities agrícolas. O apoio à produção de alimentos ocorre como se fosse uma conseqüência secundária do estímulo das atividades produtivas mercantis e é, por este motivo, que se insiste, no presente trabalho, que o seu fortalecimento se dá de forma indireta e periférica nas unidades de produção familiares21. 20 No caso da fruticultura, o Pronaf Investimento fortalece a sua produção de forma direta quando a produção de frutas é autoconsumida pelo grupo doméstico. Entretanto, muitas vezes, o Pronaf Investimento financia a estrutura para a implantação de uma estufa para hortaliças ou a cultura de uma frutífera e os agricultores familiares usam esta estrutura, gerada pelo programa, para produzirem os seus alimentos. Ou mesmo, a correção da fertilidade e da acidez do solo para implantar outros cultivos, aproveitando, assim, os recursos do Pronaf e caracterizando, desse modo, um fortalecimento indireto da produção de alimentos. 21 Há também de se considerar que existe uma história produtiva e cultural da região com relação à produção de grãos e commodities agrícolas, como a soja, o milho, o trigo, o fumo, etc., que está “impregnada” nos atores sociais de desenvolvimento, nas instituições e nos próprios agricultores familiares. Em parte, é este motivo que impede que o Pronaf seja uma “ferramenta” verdadeiramente eficaz de desenvolvimento rural e de estímulo, ainda maior do que ele já é, à agricultura familiar regional. Em resumo, é em função desta bagagem histórica produtivista do padrão de desenvolvimento regional que o programa enfrenta dificuldades de fortalecer a dimensão familiar das unidades e gerar alternativas viáveis e sustentáveis de diversificação da economia agrícola e das estratégias de reprodução social. 21 7. A AGRICULTURA FAMILIAR E AS ESTRATÉGIAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL POR INICIATIVA LOCAL No Alto Uruguai existem vários trabalhos que se direcionam a romper o padrão de desenvolvimento produtivista da agricultura familiar regional. Estas ações se desenvolvem na área da bovinocultura de leite, da fruticultura, do tratamento da água e do saneamento básico, de prestação de assistência técnica e extensão rural voltados ao autoconsumo, e de cursos e capacitações profissionais visando ao aprendizado da produção, elaboração e preparo dos alimentos. Isto mostra que, mesmo que persista o padrão agrícola de desenvolvimento, existem iniciativas em curso que apresentam soluções para a vulnerabilização da agricultura familiar e da sua segurança alimentar. Estas ações locais são apresentadas a seguir, tendo como base uma gama ampla de instituições e atores sociais de desenvolvimento que estão atuando na região de estudo. Dentre ações locais, a bovinocultura de leite é uma das principais atividades produtivas vista como alternativa ao padrão de desenvolvimento dos grãos e commodities agrícolas. As iniciativas locais fortalecem a bovinocultura leiteira fornecendo assistência técnica e extensão rural, por meio de veterinários que orientam na prevenção e cura das doenças, na inseminação artificial, no manejo e implantação de pastagens e nas demais orientações gerais. Há, também, orientação quanto à construção de silos, no processo de elaboração de silagem e na alimentação dos animais. As ações locais também se desenvolvem na área de manejo sanitário dos animais e de pastagens, na orientação quanto à escolha e aquisição de matrizes leiteiras e em cursos de profissionalização dos agricultores na atividade22. Em outros casos há, inclusive, a doação de matrizes leiteiras em conjunto com outras políticas públicas estaduais, como o RS-Rural, nas comunidades menos estruturadas e mais pobres dos municípios, bem como outras ações de reestruturação familiar e produtiva das chamadas “bacias leiteiras”23. Outro conjunto importante de iniciativas locais se desenvolve na área da fruticultura. As principais culturas incentivadas pelas ações locais são a citricultura (laranjas, bergamotas, etc.), a viticultura (que está em plena expansão sendo uma das principais culturas), o plantio de pessegueiros, nectarinas, ameixeiras, figueiras. A fruticultura é uma produção que está fora do escopo tradicional de produção de grãos e commodities agrícolas (rompe com o padrão de desenvolvimento hegemônico da região) e que possui o caráter da alternatividade, já que se apresenta também como alternativa de inserção mercantil das unidades de produção familiares. Essa atividade demanda, em algumas épocas do ano, uma menor quantidade de trabalho dos membros da unidade de produção e exige um trabalho diferenciado em relação aos cuidados com as tarefas sendo, em alguns casos, um cultivo menos laborioso do que o de grãos. Também se justifica por ser uma atividade de caráter perene e mais resistente às secas e outras intempéries climáticas. O seu alto valor agregado por unidade de área é responsável pela geração de uma maior renda por área plantada, se se comparar ao cultivo de grãos24. 22 Pelo lado da manutenção do tecido social, o leite é importante para as famílias dos municípios, pelo fato de seguir a trajetória da alternatividade produtiva e por possuir vários usos no contexto da unidade de produção familiar, como formulou Garcia Jr. (1983; 1989). Além do mais, o leite possui um caráter mercantil, assegurando uma renda mensal para as famílias, para que façam frente aos gastos mensais, que chega a ser chamado de “salário do agricultor familiar”. 23 As chamadas “bacias leiteiras” compreendem certas comunidades rurais onde a atividade de produção de leite é predominante. O termo bacia leiteira é tributário das ações estaduais nas chamadas bacias hidrográficas municipais. Desse modo, as políticas estaduais, como o RS-Rural, possuem como unidade básica de ação as chamadas bacias hidrográficas mais pobres dos municípios; por este motivo, o termo “bacia” é utilizado, também, nos casos das ações em torno da bovinocultura de leite. 24 Tanto no caso da bovinocultura de leite, como no da fruticultura, o fortalecimento da produção para autoconsumo não é o objetivo central das iniciativas locais. Na maioria das vezes, o objetivo central é o de 22 Assumem relevância, também, as iniciativas locais que promovem o tratamento da água, a preservação ambiental e o saneamento básico das unidades familiares. No caso da água, as instituições e atores locais desenvolvem um trabalho em relação à manutenção da qualidade de vida e da segurança alimentar dos agricultores familiares, através do desenvolvimento de métodos de tratamento, conservação e análises da qualidade das águas servidas às famílias. Muitos desses trabalhos são executados em conjunto com as políticas públicas estaduais, como o RS-Rural e, em outros casos, são próprios das instituições locais de desenvolvimento, como a Emater, as prefeituras municipais e as SAMs. Essas ações priorizam a construção de banheiros, o destino correto das águas utilizadas nos banheiros e nas cozinhas domésticas, a construção de fossas assépticas e sumidouros, a canalização das águas residuais, a não poluição ambiental com as águas residuais, etc., como já se demonstrou em outra ocasião (GAZOLLA, 2004). Um outro conjunto de iniciativas visa assegurar a qualidade da água para consumo através de ações como a proteção das fontes, poços e vertedouros, limpeza e construção de fontes, tratamento para consumo e preparo dos alimentos, análises periódicas para aferir a qualidade em termos microbiológicos, físicos e químicos, etc. Além disso, as ações enfatizam a “tomada de consciência” dos agricultores sobre a importância da água como elemento essencial à qualidade de vida, à segurança alimentar e à preservação do meio ambiente que se concretizam em termos de orientações em reuniões técnicas, semanas do meio ambiente e prescrições feitas via programas radiofônicos locais. Ainda no âmbito dos trabalhos conjuntos entre instituições locais e o RS-Rural, se pode destacar um conjunto de ações em torno da conservação do solo, como a recuperação das qualidades químicas e físicas, correção da fertilidade e da acidez, manejo de técnicas de adubação orgânica, adubações verdes (cobertura verde do solo) e de controle da erosão. Essas ações locais são importantes tanto do lado da produção dita mercantil, como da produção básica de alimentos, pois o solo é a base e o substrato para o desenvolvimento dos processos produtivos agrícolas e o seu bom estado de conservação e manejo repercute diretamente no potencial produtivo das atividades agropecuárias. Assim sendo, a conservação do solo e sua manutenção em condições adequadas assume uma importância decisiva na reprodução social e alimentar dos agricultores familiares. Outras ações e trabalhos das instituições locais são a construção coletiva e participativa de experiências em unidades demonstrativas que, usualmente, em extensão rural são chamadas de lavouras demonstrativas ou “propriedades modelo”. Consiste na implantação de hortas, pomares e lavouras de arroz, feijão, mandioca, batata, trigo, amendoim, dentre outras, numa comunidade ou mesmo nas escolas municipais de 1º grau, visando demonstrar a implantação e manejo “correto” dos cultivos25. Há também várias iniciativas locais que visam promover a profissionalização dos agricultores, a formação e informação, a transferência de tecnologia e conhecimentos por parte das instituições e organizações sociais. É o caso de cursos ligados à elaboração e propiciar a geração de uma nova estratégia de vivência para que os agricultores familiares se integrem a um “novo” tipo de mercado que não o dos grãos e commodities agrícolas. Assim, o fortalecimento da produção de alimentos e a conseqüente geração da segurança alimentar são secundarizados na formulação de tais ações, que visam à inserção comercial das unidades de produção. 25 Estas experiências, geralmente, são realizadas em escolas ou em propriedades de algum dos agricultores da comunidade e possui um caráter participativo e coletivo na execução dos trabalhos, sendo que todos os agricultores participantes se envolvem na execução da atividade, juntamente com os atores sociais de desenvolvimento. A sua importância reside em fazer com que os agricultores revalorizem a produção básica de alimentos na dinâmica da sua unidade de produção. Neste tipo de atividade, geralmente as SAMs ou a Emater doam parte das sementes, equipamentos e materiais necessários à execução da atividade de formação dos agricultores e estes, por sua vez, contribuem com a sua força de trabalho para construir a horta, plantar o cultivo ou mesmo implantar a lavoura. 23 preparação de alimentos, às boas práticas de higiene e limpeza das habitações, à higienização correta dos alimentos, aos hábitos alimentares saudáveis, ao tratamento da água, ao melhor aproveitamento dos alimentos e à chamada “alimentação alternativa”. O centro dessas iniciativas gravita em torno da formação, capacitação e profissionalização dos agricultores em relação às técnicas de produção, ou seja, a transmissão do corpo do saber, como formularam Woortmann e Woortmann (1997). Por outro lado, as iniciativas locais de desenvolvimento postas em prática na região estimulam, em grande medida, o padrão de desenvolvimento produtivista, que está assentado principalmente em atividades como a produção de grãos e de commodities agrícolas e na integração vertical às grandes agroindústrias processadoras. Muitas das ações locais estimulam o fortalecimento do padrão hegemônico de desenvolvimento agrícola regional e, assim, contribuem para o aprofundamento da mercantilização social e econômica da agricultura familiar, a sua fragilização social e a vulnerabilização da produção de alimentos. Neste sentido, há uma gama de ações locais que são desenvolvidas visando à adequação das áreas de plantio e ao aumento de produção agropecuária. É o caso da construção e recuperação de estradas vicinais, que objetiva o escoamento da produção agrícola das áreas interioranas dos municípios. Também é o caso das máquinas fornecidas pelo poder público local que, através das “patrulhas agrícolas” propiciou: a limpeza de áreas com pedras, controle da erosão, destocamentos, adequações de áreas para plantio, construção de canais de drenagem, fornecimento de trabalhos de máquinas para executar o plantio de grãos, distribuição de esterco orgânico nas unidades de produção, etc. Enfim, trabalhos que visam principalmente à melhoria das áreas de terras impróprias, para que haja a sua incorporação à produção visando ao aumento da produtividade agrícola. Parece haver uma contradição em termos de qual desenvolvimento resulta das iniciativas locais. Há inclusive casos em que os CMDRs aprovaram em seu plano de trabalho, que o fortalecimento do padrão agrícola é a prioridade das iniciativas e trabalhos da Emater e do poder público municipal. Há também um conjunto amplo de iniciativas locais que são voltadas à instalação e ao desenvolvimento de atividades como a suinocultura e a avicultura. Incluem-se, neste sentido, o sistemático fornecimento de máquinas para serviços de terraplanagem para a construção das pocilgas e aviários, o fornecimento de material de construção, como areia, pedras britas, cimento e, em alguns casos, até a força de trabalho de funcionários das prefeituras para executar os sistemas de instalação elétrica, o encanamento ou mesmo a construção das instalações. Neste sentido, a justificativa apresentada para este conjunto de trabalhos é a de que a suinocultura, principalmente, é uma atividade que, em alguns municípios, chega a quase 70% do retorno do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do município. Desse modo, pode-se dizer que reside nessa compreensão a contradição central desse tipo de ação, pois as iniciativas locais praticadas são em função da rentabilidade que as mesmas irão gerar para os cofres públicos, e não para os agricultores familiares.Tanto estes trabalhos de incentivo à produção de grãos, com destaque para a soja e aos CAIs,possuem este viés de estimularem o desenvolvimento financeiro das prefeituras através do retorno de impostos, deixando em segundo plano as aspirações produtivas e econômicas dos agricultores. O que acontece no Alto Uruguai não é diferente de outros lugares, em que o desenvolvimento agrícola e a produção de grãos são as principais estratégias de reprodução das famílias. Neste sentido, ressalta-se que talvez não bastem somente iniciativas locais diferenciadas para modificar este cenário social, econômico e produtivo, pois este decorre de um contexto estrutural do país, que se refere ao “modelo” de desenvolvimento capitalista e suas influências sobre o rural. 24 Assim, pode-se afirmar que as iniciativas locais no Alto Uruguai possuem uma ambigüidade, pois fortalecem tanto as atividades produtivas mercantis e dinâmicas dos agricultores familiares como a produção de alimentos básicos às famílias. No caso da segunda, alguns tipos de fortalecimento gerados na produção de alimentos decorrem da criação de novas alternativas de inserção mercantil como no caso da bovinocultura de leite e da fruticultura. Neste tipo de ação, o fortalecimento da produção para alimentação das famílias ocorre de uma forma indireta e secundária na dinâmica das unidades. Em outros casos, há um fortalecimento direto através da construção de hortas, pomares e pequenas lavouras demonstrativas, ou mesmo no caso das orientações institucionais repassadas aos agricultores sobre a importância deste tipo de produção. Assim, pode-se afirmar que, em grande medida, as iniciativas locais de desenvolvimento estão gerando a segurança alimentar dos agricultores familiares da região, através do estímulo à produção própria de alimentos. 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS Frente a um contexto que privilegia a especialização dos cultivos e expõe os agricultores aos condicionantes de mercado, observa-se um duplo movimento histórico capitaneado pelas instituições de desenvolvimento, pelas organizações de representação política da agricultura familiar e pelos próprios agricultores familiares. De um lado, tem-se um movimento que busca alternativas produtivas, econômicas e sociais ao padrão produtivista de agricultura, em que as políticas públicas e iniciativas locais de desenvolvimento, principalmente, possuem um papel preponderante. De outro lado, tem-se uma outra parcela, que de certo modo é majoritária, tentando manter-se integrada ao padrão de desenvolvimento produtivista atual que, de um modo geral, induz a agricultura familiar a um crescente processo de mercantilização social e econômica. Nesse sentido, as políticas públicas e ações locais são, em resumo, um reflexo deste duplo movimento histórico, contínuo e dual por que vem passando a agricultura familiar regional. Estas, em determinados contextos, refletem a construção de alternativas sustentáveis ao fortalecimento do núcleo familiar e, em outros momentos, induzem a agricultura familiar a se integrar no padrão produtivista. É o caso, por exemplo, das políticas públicas como o Pronaf e as iniciativas locais de desenvolvimento que, somente em parte, conseguem induzir e alavancar processos de desenvolvimento rural que levem em contas novas estratégias de vivência dos agricultores familiares e também a geração e incentivo a criação de novas atividades econômicas e produtivas nos espaços rurais que vão além da produção agrícola. São relativamente poucos os trabalhos realizados pelo Estado que privilegiam processos de desenvolvimento rural sustentáveis, diversificados e que asseguram o fortalecimento dos núcleos familiares. Geralmente os maiores impactos das políticas públicas e das ações locais se dão sobre a produção agropecuária e esquece-se do fortalecimento do grupo familiar que, em última estância, é o que empresta os sentidos e significados a esta forma específica de produção e trabalho nos espaços rurais – a agricultura familiar. Com relação às políticas públicas pode-se dizer que estas estão centradas ao apoio das esferas econômica e produtiva da agricultura familiar e esquecem-se de considerar a importância do grupo doméstico no que diz respeito ao fortalecimento das famílias (considerar as esferas cultural e social da agricultura familiar, privilegiar a diversificação dos modos de vivência, assegurar a segurança alimentar, a produção para autoconsumo, etc.). Desta forma, acredita-se que os processos de desenvolvimento em áreas rurais estão fortemente vinculados ao fortalecimento das formas sociais de trabalho e produção predominantes, como é o caso da agricultura familiar. No Alto Uruguai, a agricultura familiar, mesmo inserida em ambientes fortemente competitivos e muitas vezes 25 excludente, tem se demonstrado capaz de estabelecer um conjunto de estratégias para viabilizar a sua reprodução. Não obstante, este conjunto de estratégias nem sempre são favoráveis à reprodução do grupo doméstico, fragilizando-o, principalmente na esfera familiar não-mercantil. Mesmo a esfera mercantil tem sido fragilizada na medida em que a estratégia agrícola de reprodução social tem fortes componentes de instabilidade, pois nem sempre os mercados e outras esferas da produção conseguem assegurar a reprodução social e econômica da família rural. Exposta a estes condicionantes, a agricultura familiar da região tem poucas possibilidades para diversificar a matriz produtiva e diminuir os riscos inerentes a cada atividade. REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, R. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. São Paulo, Anpocs; Unicamp; Hucitec, 1992. ABRAMOVAY, R.; VEIGA, J. E. Novas Instituições para o Desenvolvimento Rural: o caso do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Brasília-DF, Convênio FIPE/IPEA 07/97. 51p., Abril de 1999. (Texto para discussão n. 641). 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