Agricultura Familiar: Um estudo de Focalização Regional Antônio Márcio Buainain (UNICAMP) Alberto Di Sabbato (UFF) Carlos Enrique Guanziroli (UFF) Resumo: Existem mais de 4 milhões de agricultores familiares espalhados por todo o território nacional que são fortemente diferenciados segundo o nível de renda e região do país. As duas características mais relevantes da agricultura familiar variam segundo a dispersão espacial e a diferenciação socioeconômica desses agricultores. Essas características são relevantes na medida em que condicionam os objetivos, estratégia e instrumentos de intervenção para a promoção do desenvolvimento da agricultura familiar. Este trabalho busca, em primeiro lugar, identificar as áreas de concentração da agricultura familiar, localizando-as geograficamente nos estados e regiões administrativas. Em segundo lugar, identificar com mais detalhe as principais características dos agricultores familiares nestas grandes áreas de concentração. 1 - Introdução A agricultura familiar brasileira é extremamente diversificada. Inclui tanto famílias que vivem e exploram minifúndios em condições de extrema pobreza como produtores inseridos no moderno agro-negócio e que logram gerar renda várias vezes superiores à que define a linha da pobreza. A diferenciação dos agricultores familiares está associada à própria formação dos grupos ao longo da história, a heranças culturais variadas, à experiência profissional e de vida particulares, ao acesso e à disponibilidade diferenciada de um conjunto de fatores, entre os quais os recursos naturais, o capital humano e o capital social e assim por diante. A diferenciação também está associada à inserção dos grupos em paisagens agrárias muito diferentes uma das outras, ao acesso diferenciado aos mercados e à inserção socioeconômica dos produtores, que resultam tanto das condições particulares dos vários grupos como de oportunidades criadas pelo movimento da economia como um todo, pelas políticas públicas etc. Os agricultores familiares não se diferenciam apenas em relação à disponibilidade de recursos e capacidade de geração de renda e riqueza, mas também se diferenciam em relação às potencialidades e restrições associadas tanto à disponibilidade de recursos e de capacitação/aprendizado adquirido, como à inserção ambiental e sócio-econômica que 1 podem variar radicalmente entre grupos de produtores em função de um conjunto de variáveis, desde a localização até as características particulares do meio-ambiente no qual estão inseridos. O universo diferenciado de agricultores familiares está composto de grupos com interesses particulares, estratégias próprias de sobrevivência e de produção, que reagem de maneira diferenciada a desafios, oportunidades e restrições semelhantes e que, portanto, demandam tratamento compatível com as diferenças. Existem 4.139.369 agricultores familiares no Brasil1 que estão espalhados por todo o território nacional e que são fortemente diferenciados segundo o nível de renda e região do país. De fato, desde o ponto de vista da política pública, as duas características mais relevantes da agricultura familiar são a dispersão espacial e a diferenciação socioeconômica desses agricultores. Essas características são relevantes na medida em que condicionam os objetivos, estratégia e instrumentos de intervenção para a promoção do desenvolvimento da agricultura familiar. Portanto, do ponto de vista da política pública, é importante aprofundar a análise em duas direções. Procura-se neste trabalho, em primeiro lugar, identificar as áreas de concentração da agricultura familiar, localizando-as geograficamente nos estados e regiões administrativas. Em segundo lugar, identificar com mais detalhe as principais características dos agricultores familiares nestas grandes áreas de concentração. 2 - Áreas de concentração dos agricultores familiares Para fins de identificação das áreas de concentração da agricultura familiar no Brasil seguiu-se uma metodologia de aproximações sucessivas que pode ser assim descrita: 1) Primeiramente foram plotados os municípios onde 80% dos produtores eram agricultores familiares (Mapa 1). 2) Depois foi produzido um mapa onde se destacam os municípios onde os agricultores familiares são os mais pobres e os municípios onde são mais prósperos (Mapa 2). 3) Finalmente se produz um mapa onde se detectam “manchas de municípios” com alto valor da produção em mãos dos familiares e relativamente vizinha uns dos outros. O primeiro dos mapas, que figura a continuação, mostra onde estão localizados os municípios com alta incidência numérica de agricultores familiares (80% ou mais), o que acontece em 3179 municípios. 1 Adota-se, aqui, a mesma metodologia do estudo pioneiro realizado sob o patrocínio do Convênio FAO/INCRA, e publicado por Guanziroli et alii (2001). O trabalho, realizado por um grupo de consultores com intensa colaboração e participação de técnicos do Incra, adotou uma tipologia simples que classifica os produtores de forma objetiva a partir de algumas condições básicas do processo de produção que, segundo a hipótese dos autores, explicam tanto a inserção dos agricultores ao mercado como o grau de capitalização e a capacidade de geração de renda. Trata-se, evidentemente, de uma simplificação que foi em grande medida determinada pelas limitações de informação disponível no censo agropecuário.Foram classificados como agricultores familiares os estabelecimentos que atendiam, simultaneamente, às seguintes condições: (i) a direção do estabelecimento era exercida pelo produtor e (ii) o trabalho familiar era superior ao trabalho contratado. Também se estabeleceu um limite máximo para o tamanho dos estabelecimentos apenas para evitar a inclusão de grandes latifúndios improdutivos no universo de unidades familiares. 2 Mapa 1: Municípios com maior incidência de Agricultura Familiar (mais de 80% do total de estabelecimentos) Mas a agricultura familiar está presente de fato em 5483 municípios, embora não sempre com o mesmo grau de incidência. Na Tabela 1 se desagrega esse total em função de suas freqüências relativas. Nela pode se observar, que entre as regiões de altas freqüências (mais de 80%) a maior é a região Nordeste (1.340 municípios), seguida da região Sul (926) e Sudeste (519). Em 635 municípios a proporção de estabelecimentos familiares é de 60% a 79,9% do total, sendo praticamente a metade na região Sudeste. À medida que cai a proporção de estabelecimentos familiares cai o número de municípios: em apenas 257, portanto em menos de 10% do total, os estabelecimentos familiares representam menos de 40% do total do número de estabelecimentos. Quando se consideram os Estados, observa-se uma elevada presença de estabelecimentos familiares nos municípios da Região Sul, Nordeste e em Minas Gerais e São Paulo. 3 Tabela 1: Número de municípios segundo a proporção de estabelecimentos familiares sobre o total dos estabelecimentos recenseados REGIÃO/UF BRASIL NORTE NORDESTE SUDESTE SUL C.-OESTE RO AC AM RR PA AP TO MA PI CE RN PB PE AL SE BA MG ES RJ SP PR SC RS MS MT GO TOTAL DE ESTAB. DO MUNICÍPIOS 80 A 100 60 A 80 40 A 60 20 A 40 0 A 20 TOTAL 3.179 1.412 635 201 56 5.483 279 106 38 18 8 449 1.340 264 107 56 19 1.786 519 686 348 77 16 1.646 926 185 36 9 2 1.158 115 171 106 41 11 444 45 6 1 0 0 52 15 5 1 0 1 22 34 13 8 3 4 62 8 5 0 0 2 15 103 26 7 7 0 143 7 4 3 2 0 16 67 47 18 6 1 139 146 44 13 12 2 217 207 12 2 0 0 221 158 18 6 2 0 184 111 44 7 3 1 166 184 28 5 4 2 223 130 29 16 7 2 184 56 15 13 8 9 101 61 8 4 2 0 75 287 66 41 18 3 415 348 338 132 27 7 852 25 40 9 2 0 76 31 39 13 6 1 90 115 269 194 42 8 628 261 112 22 3 0 398 268 22 2 0 1 293 397 51 12 6 1 467 8 15 34 18 2 77 33 46 28 14 5 126 74 110 44 9 4 241 Por si só a informação dos municípios com maior incidência de estabelecimentos familiares já oferece uma primeira indicação de áreas prioritárias para a ação do setor público. No entanto, o número elevado de municípios e a diferenciação dos agricultores sugerem a necessidade de refinar o critério de incidência e de levar em conta a diferenciação a fim de identificar, com maior precisão, as áreas de concentração da agricultura familiar. Análises realizadas anteriormente2 já haviam revelado que a maioria dos familiares mais pobres se concentrava nas regiões Nordeste, Norte e Sudeste (por causa da elevada incidência Norte de Minas Gerais). Já os agricultores do tipo A e B concentravam-se nas regiões Sul e Sudeste. 2 As classes de renda variam em função do VCO (Valor do Custo de Oportunidade). VCO = 1,2 X Diária Estadual x 260. Classe A= RT>3 VCO, B= VCO<RT<3VCO, C+ VCO/2<RT<VCO e D+ RT<VCO/2. Para mais detalhes ver Guanziroli et al 2001, página 79. 4 Essa diferenciação é essencial para a formatação de políticas diferenciadas; é provável que os agricultores familiares do Tipo A e B da região Sul e Sudeste enfrentem restrições de natureza distinta daquelas que explicam a pobreza da maioria dos agricultores familiares das regiões Norte e Nordeste, o que implica intervir com instrumentos adequados para cada situação. A fim de conhecer melhor a localização diferenciada dos agricultores familiares, foram selecionados os municípios em que a soma do valor da produção dos agricultores dos tipos A e B era igual ou superior a 60% do valor da produção total do município. A idéia é localizar com precisão onde está a ‘nata’ dos agricultores familiares do ponto de vista de capacidade de produção. Foram identificados 817 municípios com maior incidência de agricultores familiares de rendas médias e altas (mais consolidados), os quais foram plotados no segundo dos mapas produzidos especialmente para este trabalho (Mapa 2).3 Isso significou 817 municípios com maior incidência de agricultores familiares de rendas médias e altas (mais consolidados) Por outro lado, também se buscou localizar com maior precisão os ‘bolsões’ de agricultores familiares mais pobres. Para isto foram selecionados os municípios em que a soma do número de estabelecimentos familiares dos tipos C e D (que são os das rendas mais baixas) era igual ou superior a 60% do numero total de estabelecimentos do município. Isso significou 1.655 municípios com maior incidência de agricultores familiares de rendas baixas e muito baixas (os mais pobres), também plotados no Mapa 2. A simples inspeção visual do mapa permite confirma a presença predominante de agricultores pobres na maioria dos municípios da região Nordeste e no Norte de Minas Gerais, uma extensão política do Nordeste. Mas também mostra a presença, não insignificante, de concentrações de agricultores pobres nas regiões Norte e Sul, em particular no estado do Paraná, e de algumas manchas na região central do estado de Santa Catarina e na região da Serra Gaúcha mo Rio Grande do Sul. Já os agricultores de renda mais elevada estão fortemente concentrados nos municípios da Região Sul, com algumas manchas espalhadas pelos demais estados, à exceção de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. As manchas azuis relativamente grandes não indicam que sejam muito significativas desde o ponto de vista da produção, por vários motivos: a) os municípios são muito grandes, mas o sombreamento não significa que toda a área do município esteja coberta por agricultores familiares, b) nesta região pode acontecer que um pequeno número de agricultores prósperos dê conta da maior parte da produção, embora em termos absolutos não seja muito significativa, c) a área dos municípios são grandes e a produção agropecuária de pouca expressão, mas o número de agricultores é relativamente pequeno e o valor de sua produção também. 3 Agradecemos a DEAGRO/IBGE, e a Antônio Florido, pela produção dos mapas. 5 Mapa 2: Distribuição dos Agricultores Familiares de Renda mais Elevada e mais Pobres No total do país as manchas azuis, onde a agricultura familiar representa mais de 60% do VBP municipal, agrupam 431.205 produtores consolidados numa área de 12.134.054 ha; as manchas vermelhas, onde os familiares mais pobres representam mais de mais 60% dos estabelecimentos no município, agrupam 1.718.956 produtores pobres numa área de 22.863.667 ha. Cabe lembrar que o total dos agricultores familiares no Brasil é de 4.139.000, e que os azuis e vermelhos somados são apenas 2.150.000 aproximadamente. Estes números estão mostrando, na realidade, os dois extremos: as áreas onde os agricultores consolidados têm maior importância econômica no município e as áreas onde os mais pobres representam a maioria dos agricultores. Ficam de forma quase 2 milhões de agricultores familiares, tanto pobres como de melhor nível de renda, seja por não serem a maioria ou não terem tanta relevância econômica dentro dos municípios nos quais estão. O terceiro dos mapas, que visa identificar áreas de maior incidência da agricultura familiar foi produzido seguindo uma metodologia que têm duas etapas. 1ª etapa 1) Foram selecionados os municípios em que o valor da produção familiar era igual ou superior a 50% do valor da produção total do município; 2) Em cada estado foi estabelecido um limite, quando necessário, correspondente à mediana superior relativa ao nº de estabelecimentos familiares do estado. Ou seja, foram considerados, dentre os selecionados conforme o item 1, apenas os municípios (classificados em ordem decrescente do nº de estabelecimentos familiares) em que a soma dos estabelecimentos familiares alcançava 50% do total de estabelecimentos familiares do estado; 6 3) Dentre os municípios selecionados conforme o item 2, foi ainda estabelecido um limite referente ao nº absoluto de estabelecimentos familiares, de modo a evitar que se considerassem municípios com pouquíssimos estabelecimentos familiares. Desse modo, quando, após a seleção conforme os itens 1 e 2, ainda existiam municípios com menos de 500 estabelecimentos familiares, foram mantidos apenas os municípios em que o nº de estabelecimentos familiares representava, no mínimo, 1% do total de estabelecimentos familiares do estado (qualquer que fosse o nº absoluto). 2ª etapa (refinamento) 1) Os municípios selecionados na 1ª etapa foram agrupados nas suas respectivas mesorregiões; 2) Foram selecionados, nesta 2ª etapa, os municípios pertencentes as mesorregiões que possuíam nº de municípios selecionados na 1ª etapa igual ou superior a 30% do total de municípios da mesorregião. Na 1ª etapa foram selecionados 1.015 municípios, pertencentes a 317 microrregiões e a 112 mesorregiões. Os resultados são apresentados na Tabela 2.Observa-se que 1.015 municípios em todo o Brasil —localizados em 317 microrregiões e 112 mesorregiões— concentram os estabelecimentos familiares que respondem por mais de 50% da produção do município (e atendem aos outros dois critérios). A maioria está concentrada no Nordeste, demonstrando que mesmo sendo pobres, os agricultores familiares nordestinos tinham importância econômica. Em seguida aparece a região Sul, com 307 municípios. Para fins analíticos e de localização mais refinada dos agricultores familiares, na segunda etapa, esses números foram reduzidos a 564 municípios, pertencentes a 133 microrregiões e a 35 mesorregiões. Desta forma, limpou-se o mapa de casos que pudessem ser atípicos, como municípios onde um número pequeno de agricultores familiares fosse responsável pela maior parte da produção (2 produtores responsáveis por 70% da produção, por exemplo), e os municípios, que embora representativos em número e valor, ficassem muito distantes das regiões onde se concentra o maior número de municípios de agricultura familiar, ou seja, quando se tratava de casos isolados. Desenhou-se, assim, um mapa com ‘manchas’ de municípios com alto valor da produção em mãos dos familiares e relativamente vizinha uns dos outros. O mapa mostra a existência de 35 manchas, que pertencem a 133 microrregiões homogêneas do IBGE, e a 564 municípios. Encontra-se nestas manchas um total de 1.128.865 agricultores familiares de diversas características. 7 Tabela 2: Número de Municípios Selecionados pela Importância da Agricultura Familiar REGIÃO/UF CLASSES DE % DE ESTAB. FAMILIARES SOBRE TOTAL DE ESTAB. DO MUN. 80 A 100 60 A 79,99 40 A 59,99 TOTAL BRASIL NORTE NORDESTE SUDESTE SUL C.-OESTE 978 84 397 170 305 22 36 8 22 3 2 1 1 1 0 0 0 0 1015 93 419 173 307 23 RO AC AM RR PA AP TO MA PI CE RN PB PE AL SE BA MG ES RJ SP PR SC RS MS MT GO 14 5 14 5 27 2 17 42 60 47 36 48 44 14 17 89 120 14 18 18 101 79 125 3 9 10 0 1 0 0 2 1 4 13 2 1 2 3 0 0 0 1 1 2 0 0 1 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 14 6 14 5 29 4 21 55 62 48 38 51 44 14 17 90 121 16 18 18 102 79 126 3 9 11 8 Mapa 3: A situação da Agricultura Familiar no Brasil Com este mapa, foi possível construir uma geografia da agricultura familiar mais reduzida em relação a anterior, já que se passou de 2.200.000 agricultores no mapa das cores vermelha e azul, para um mapa com menos da metade (1.128.865), o que pode facilitar a localização e o atendimento preferencial deste publico, sobre tudo ao levar em consideração, que nestas manchas, agrupam-se agricultores de todos os tipos. Verifica-se também, de forma mais clara, que as áreas de maior concentração de agricultores familiares estão no Nordeste, no Sul e algo na região Norte. A simples superposição dos mapas revela que no Nordeste a contribuição dos agricultores familiares pobres para a produção agropecuária municipal é elevada. A delimitação destas manchas, que agrupam tanto agricultores consolidados como periféricos, revela os locais onde a agricultura familiar é realmente importante, somando mais que 50% da produção do município, a partir do esforço conjunto de todos os tipos de produtores, independentemente do tamanho de sua renda. A Tabela 3 apresenta um resumo com o número de municípios por Estado e Mesorregião, nº e áreas de estabelecimentos familiares e o valor da produção. Nestas manchas concentra-se uma proporção relativamente baixa dos agricultores familiares (27%), que ocupam apenas 17% da área total da agricultura familiar e respondem por 25% do valor da produção. A relação entre proporção de agricultores e proporção do valor da produção revela a elevada presença de agricultores pobres nos mesmos municípios com elevada incidência de agricultores familiares em melhores condições. 9 Tabela 3: Resumo das “Manchas” Prioritárias UF RO AC AM AM RR PA AM MA MA PI PI CE CE CE RN PB PE PE AL SE SE BA BA MG MG ES RJ PR PR PR PR SC SC RS RS MESORREGIÃO LESTE RONDONIENSE VALE DO JURUA C ENTRO AMAZONENSE SUL AMAZONENSE SUL DE RORAIMA BAIXO AMAZONAS NORTE DO AMAPA LESTE MARANHENSE NORTE MARANHENSE C ENTRO-NORTE PIAUIENSE NORTE PIAUIENSE C ENTRO-SUL C EARENSE SERTOES C EARENSES SUL C EARENSE AGRESTE POTIGUAR AGRESTE PARAIBANO AGRESTE PERNAMBUC ANO SERTAO PERNAMBUC ANO AGRESTE ALAGOANO AGRESTE SERGIPANO SERTAO SERGIPANO NORDESTE BAIANO VALE SAO-FRANC ISC ANO DA BAHIA JEQUITINHONHA NORTE DE MINAS C ENTRAL ESPIRITO-SANTENSE NOROESTE FLUMINENSE C ENTRO-SUL PARANAENSE OESTE PARANAENSE SUDESTE PARANAENSE SUDOESTE PARANAENSE NORTE C ATARINENSE OESTE C ATARINENSE C ENTRO ORIENTAL RIO-GRANDEN NOROESTE RIO-GRANDENSE Nº DE MUN. SELEC . 13 4 9 4 4 5 2 19 19 21 15 8 11 13 19 29 24 17 9 7 5 27 10 17 28 10 7 11 19 13 24 12 37 21 71 Nº ESTAB. FAMILIARES 33.745 6.702 22.158 8.575 2.458 17.633 389 59.220 43.607 29.805 27.369 27.230 43.781 34.837 21.102 42.146 65.725 46.386 34.308 23.771 10.646 112.716 33.995 17.860 33.765 14.714 5.607 17.561 30.096 28.594 36.650 14.946 45.252 36.149 99.367 ÁREA FAMILIAR 1.442.156 344.225 539.975 342.902 234.525 741.507 34.326 717.495 188.927 569.709 397.521 305.876 1.078.205 396.386 191.292 271.189 414.127 798.508 132.182 164.646 182.659 1.280.646 636.221 489.474 916.347 309.721 93.641 397.638 562.270 613.040 623.912 364.121 734.016 484.761 1.747.719 VALOR PROD. FAMILIAR 118.326.627 30.443.399 93.507.751 40.679.233 8.356.957 47.522.618 1.995.099 62.051.013 46.793.733 25.874.585 25.348.949 39.683.711 69.963.881 48.951.560 23.327.799 61.186.012 105.673.648 66.376.035 30.805.007 37.427.488 21.885.246 113.704.504 39.956.777 33.645.562 50.817.314 134.287.257 26.317.928 75.150.828 439.531.316 172.593.770 337.881.342 165.089.266 711.349.817 397.797.120 847.607.224 Com base nestes números, pode-se decidir entre uma política de resultados mais imediatos, que implique em eliminar os entraves e reforçar os aspectos produtivos dos mais consolidados; ou, pelo contrário, em apoiar, por meio de políticas de desenvolvimento, os mais pobres, visando sua inclusão social e econômica. 3 - Principais sistemas da agricultura familiar nas áreas de maior concentração Como tinha sido descrito anteriormente, nestas ‘manchas’ de municípios predominam, aparentemente, sistemas de produção comumente estereotipados como de subsistência. Entretanto, ao se limpar os municípios de baixo valor de produção, neste último mapa, emergem sistemas um pouco diferentes destes como se verá a continuação. 10 A grande maioria dos agricultores familiares, enfrentando fortes restrições de recursos em geral, e de terra em particular, adota uma estratégia de exploração intensiva dos recursos escassos, de redução de risco e de busca de segurança alimentar. O resultado é a adoção de sistemas de produção que combinam um conjunto variado de produtos, tanto para o consumo da família, auto-abastecimento de insumos e matérias-primas de utilização do estabelecimento como para comercialização. A seguir identificam-se os principais sistemas de produção da agricultura familiar nas áreas (manchas) onde, segundo a metodologia adotada, a agricultura familiar tem maior importância econômica. A Tabela 4 indica o principal produto e o 2º produto complementar em ordem de contribuição para a geração do valor da produção do estabelecimento. No anexo se apresenta a lista completa de produtos (os 10 mais importantes) para cada mesorregião. 11 Tabela 4: Sistemas de Produção das Regiões com Agricultura Familiar mais desenvolvida REGIÕES DE AGRICULTURA FAMILIAR NORTE NORDESTE 1-LESTE RONDONIENSE 2-VALE DO JURUA 3-CENTRO AMAZONENSE 4-SUL AMAZONENSE 5-SUL DE RORAIMA 6-BAIXO AMAZONAS 7-NORTE DO AMAPÁ 8-NORTE MARANHENSE 9-LESTE MARANHENSE 10-NORTE PIAUIENSE 11-CENTRO-NORTE PIAUIENSE 12-SERTOES CEARENSES 13-CENTRO-SUL CEARENSE 14-SUL CEARENSE 15-AGRESTE POTIGUAR 16-AGRESTE PARAIBANO 17-SERTAO PERNAMBUCANO 18-AGRESTE PERNAMBUCANO 19-AGRESTE ALAGOANO 20-SERTAO SERGIPANO 21-AGRESTE SERGIPANO 22-VALE SÃO-FRANC.DA BAHIA 23-NORDESTE BAIANO 24-NORTE DE MINAS SUDESTE SUL 25-JEQUITINHONHA 26-CENTRAL ESPIRITOSANTENSE 27-NOROESTE FLUMINENSE 28-OESTE PARANAENSE 29-SUDOESTE PARANAENSE 30-CENTRO-SUL PARANAENSE 31-SUDESTE PARANAENSE 32-OESTE CATARINENSE 33-NORTE CATARINENSE 34-NOROESTE RIO-GRANDENSE 35-CENTRO ORIENTAL RIOGRANDENSE Produto(s) Principal Café Mandioca Mandioca Mandioca Mandioca Mandioca Mandioca Mandioca Mandioca Arroz Arroz, feijão. Pecuária de Leite Pecuária de Leite Milho, Pec. Leite Caju Feijão (Caju) Milho Pec. Leite e Corte Pec. Leite e Corte Pec. Leite e Corte Mandioca (laranja) Cebola Feijão (laranja) Pec. Leite e Corte (banana) Pec. Leite e Corte Aves Produto Complementar P.Leite P. Corte. Arroz. Banana Banana Banana Pecuária de Leite Pecuária de Leite Extração vegetal Arroz Pecuária de Leite Pecuária de Corte Milho Arroz, Milho Feijão Feijão,mandioca Pec. Leite e Corte Pec. Leite e Corte Feijão (tomate) Fumo Feijão Pecuária de Corte Pec.Leite de Corte Pec. Leite e Corte Mandioca (café) Café, Banana Hortaliças Pec.Leite, Café Soja, Milho Soja, Milho Milho, Soja Fumo Suínos, Aves, Milho Fumo (banana) Soja, Aves, Milho Tomate Aves Aves Feijão Milho, Feijão Fumo, Arroz Aves (Leite) Aves, Milho (fumo, mandioca) Nota: Foram incluídos os 3 produtos principais da mesorregião, em termos de valor produzido. 3.1 - Região Sul Nos três estados da Região Sul, as manchas territoriais ocupadas pela agricultura familiar, conforme a metodologia adotada, abarcam 8 Mesoregiões. Destaca-se a grande participação da superfície territorial ocupada pela agricultura familiar no total da superfície dessas Mesorregiões (de 35,6% a 71,3%), conformando territórios mais homogêneos e 12 dominados pela presença preponderante da produção familiar. Trata-se de um nível completamente distinto daquele observado nas demais regiões, especialmente no Norte e Nordeste. A área média dos estabelecimentos familiares na Região Sul era de 21,4 ha, estando abaixo da média nacional, que era de 26 ha. Nas Mesorregiões onde se encontram as manhas identificadas, os principais produtos são: soja, milho, fumo, feijão, mandioca, suínos, aves (galinhas) e leite. Por ser a principal área de concentração da agricultura familiar no Brasil, a Região Sul é a que apresenta uma maior diversidade de sistemas e subsistemas produtivos. Os produtores familiares ‘consolidados’ da Região Sul exploram sistemas relativamente complexos. Utilizam os recursos terra, trabalho e capital de forma intensiva, movimentam volumes significativos de capital de giro e apresentam fortes vínculos com os mercados de insumos, produtos e agroindústrias. Aquela com maior extensão de terras dispõe de áreas mecanizáveis. A maioria mantém sistemas diversificados, que incluem desde a produção/comercialização de suínos, leite, aves, milho, feijão até soja e frutas. A integração dos produtores às agroindústrias sempre foi seletiva, mas a partir dos anos 80, em virtude da implantação de processos de ‘qualidade total’ e à necessidade de competir com mercados externos, vem aumentando a escala de produção mínima exigida, reduzindo a margem dos produtores e aumentando a seletividade. Muitos agricultores que sempre tiveram uma relação de produção em parceria com as indústrias estão sendo levados a mudar a atividade e reestruturar seu sistema produtivo. Muitos estão explorando sistemas agroindustriais em menor escala, mais flexíveis e diversificados com capacidade para atender exigências do mercado (em particular os regionais) de forma mais eficiente e que atinjam um maior número de agricultores. Os sistemas baseados na produção de grãos/produção animal mais complexos e integrados à agroindústria, exigem um nível de capitalização que exclui a participação de produtores familiares mais pobres; os outros sistemas vêm sendo explorados tanto por produtores ‘consolidados’ como por famílias com nível de renda mais baixo, sugerindo a existência de trajetória de evolução, ao longo da qual os produtores bem sucedidos transitariam à medida que aumentasse seu nível de acumulação. Por último, os sistemas mais simples, baseados especialmente na produção vegetal, são explorados especialmente pelos agricultores familiares mais pobres. O sistema de ‘autoconsumo + milho e/ou feijão’ é freqüente entre os agricultores familiares mais pobres, que possuem alguma renda externa e contam com uma pequena produção para o autoconsumo. A situação desses produtores varia segundo o tamanho da família, a inserção no mercado de trabalho, a área cultivada com produtos destinados ao consumo próprio e a presença de rendas externas. No sistema ‘milho + feijão + suínos’ a venda de animais é a principal atividade comercial, que permite a geração de um fluxo de renda regular (quase mensal), tendo a venda do excedente de feijão e milho a função de fonte eventual de recursos em geral utilizada na recuperação/manutenção da infra-estrutura da propriedade. O milho é em geral utilizado na criação de suínos, integração que reduz o custo de produção e eleva o valor agregado gerado pelo estabelecimento. A escala mínima de produção de suínos coloca hoje sérias restrições para a viabilidade desse sistema para um grande número de agricultores. Desde o início dos anos 13 90 a produção combinada de milho e de suínos vem passando por significativa reestruturação produtiva impulsionada pelas agroindústrias em busca de maior escala e redução de custos. Muitos produtores vêm enfrentando dificuldades para atender as exigências das empresas e vêm sendo excluídos da integração. De fato, muitos perderam rentabilidade e entraram em crise. Outros com mais terra e recursos introduziram uma atividade adicional ao sistema, normalmente a bovinocultura de leite, para suplementar a queda de renda gerada pelo milho/suíno e feijão. O alto custo inicial do investimento, a necessidade de constantes investimentos em novas tecnologias, os gastos de manutenção, as flutuações no nível de renda e de rentabilidade associadas ao índice de eficiência alcançado e a exigência de dedicação integral de pelo menos uma pessoa com qualificação média limitam a expansão desta atividade, que tende a se concentrar em um número pequeno de produtores. 3.2 - Região Nordeste A Região Nordeste concentra o maior número e a maior superfície territorial de agricultores familiares do país. Entretanto, a área média desses estabelecimentos é a menor, 16,5 ha, quando comparada com as demais Regiões. A partir da metodologia adotada, foi possível identificar várias manchas territoriais de concentração de estabelecimentos familiares. Elas estão inseridas em 16 Mesorregiões, e em todos os estados nordestinos. O percentual da superfície territorial ocupada pela agricultura familiar dentro dessas Mesorregiões é variável: de um mínimo de 8,6% no Leste Maranhense a um máximo de 47% no Sertão Sergipano. O leque de produtos também é variado e representativo da diversidade de sistemas de produção existentes: feijão, milho, mandioca, arroz, leite, bovinos de corte e aves, especialmente. A agricultura familiar no Nordeste apresenta uma diversidade de condições agroecológicas e de relações sociais de produção, que determinaram a formação de uma multiplicidade de sistemas agrários e de produção, muitos dos quais em acelerado processo de transformação. A região caracteriza-se pela marcada concentração de estabelecimentos familiares em algumas áreas geográficas, pelo baixo nível de renda gerado pelas unidades produtivas, pela exígua base de recursos naturais, até mesmo hídrico e fundiário, pela pressão demográfica e deteriorização ambiental. O sistema de produção predominante combina gado e policultura, caracterizando-se pela presença de um consórcio de lavouras junto à criação de gado, especialmente as combinações feijão/milho/mandioca (arroz, eventualmente). Além de gado-policultura, outros sistemas agrários estão presentes. No Litoral, a monocultura extensiva (cana-deaçúcar e cacau, ambos atravessando forte crise) é parte da história do país e formadora da economia e cultura da região. No Nordeste Ocidental combinam-se consórcios de subsistência, criatórios e extrativismo vegetal, em especial do coco babaçu, baseadas em tradicionais técnicas como a roça e queima. No Sul da Bahia a exploração do cacau articula-se com a produção de subsistência. Mais recentemente surgiram sistemas baseados em cultivos mecanizados e/ou irrigados (hortifrutícolas, forragens e, mais recentemente, grãos e café), nos vales (particularmente do rio São Francisco) e nos cerrados, estimulados pelas políticas públicas. 14 O ‘sistema de autoconsumo + milho/feijão consorciados + mandioca + criação’ é amplamente difundido no Nordeste, em particular nos agrestes e sertões. As manivas são plantadas fora da estação das chuvas em áreas solteiras, permitindo o melhor aproveitamento da mão-de-obra alocada às diversas etapas da produção de mandioca e da farinha. O animal – caprino em sua maioria – pastoreia na caatinga. Existem ‘sistemas diversificados de cultivos temporários (inhame, feijão, mandioca, batata, milho) + culturas perenes e criação, fruticultura, criação de gado e suas combinações’, que se baseiam em uma combinação complexa de várias atividades. Ao lado das culturas tradicionais (milho, feijão e mandioca), vem crescendo a produção de inhame, batata, frutas e a criação para fins comerciais. São sistemas intensivos, que requerem um certo nível prévio de capitalização, acesso ao crédito oficial, disponibilidade de água e micro-clima adequado. Geralmente, toda a área é aproveitada; quando em pousio, coloca-se o gado. O acesso à vargem é um fator determinante das opções de produção, pois viabiliza a fruticultura, a criação de gado e, sobretudo, os cultivos de verão. O consórcio inhamefeijão-mandioca (eventualmente, milho) é plantado separado da combinação macaxeiramandioca. Em todo o Nordeste semi-árido os sistemas de produção dos agricultores familiares são caracterizados pela fragilidade diante das secas, que provocam a descapitalização pela morte ou venda dos animais —principal patrimônio acumulado durante os ‘anos bons’. 3.3 - Região Norte A agricultura familiar na Região Norte é importante do ponto de vista econômico e de geração de emprego. A área média dos estabelecimentos familiares, 57,4 ha, encontra-se entre as maiores, obedecendo à tendência observada para as regiões de fronteira agrícola no Brasil. Ao contrário do que ocorreu com a Região Centro-Oeste, foi possível identificar manchas territoriais de agricultura familiar no Norte. Essas manchas estão localizadas em 7 Mesorregiões, distribuídas em todos os estados que compõem a Região. Deve-se atentar que embora sejam visualmente grandes —refletem à dimensão territorial dos municípios— , as manchas identificadas na Região Norte não correspondem a extensas áreas de cultivo sob domínio de agricultores familiares. Com exceção do Leste Rondoniense, a superfície territorial ocupada pelos produtores familiares representa muito pouco da superfície territorial total da Mesorregião. Embora, em valores absolutos, essas superfícies ocupadas não sejam desprezíveis. Por exemplo, no Baixo Amazonas-PA, a superfície territorial com agricultura familiar, 741 mil ha, representa apenas 7,2% da superfície territorial dessa Mesorregião. No Oeste Catarinense (Região Sul), a superfície ocupada pela agricultura familiar é semelhante, 734 mil ha, mas representa 71,3% da superfície territorial dessa Mesorregião. Essa é uma limitação do mapa apresentado. De fato, apenas na Mesorregião Central Espírito-Santense e na maioria das Mesorregiões da Região Sul a superfície territorial da agricultura familiar ultrapassa 50% da superfície territorial da respectiva Mesorregião. Os principais produtos da agricultura familiar nessa Região são: mandioca, milho, feijão, banana, café, arroz, leite e bovinos de corte. Abaixo, descrevem-se os principais sistemas de produção encontrados. 15 A agricultura familiar na Região Norte é fortemente marcada pelo meio ambiente amazônico, pelo isolamento, pelas dificuldades de acesso aos mercados e pela falta de apoio do setor público. Ainda hoje uma parte dos produtores adota sistemas de cultivos itinerantes. A floresta é a principal fonte de nutrientes para os cultivos de ciclo curto, praticado pelo método tradicional de derrubar, queimar, plantar e deixar a área descansar após dois ou três anos de lavouras de subsistência. O encurtamento do período de ‘pousio’ para a recuperação da biomassa florestal é um fato generalizado, reforçando o caráter itinerante das explorações e forçando os agricultores a buscarem novas áreas. Trata-se da clássica expansão da fronteira agrícola na região impulsionada por pequenos produtores familiares, em busca da sobrevivência. Estabilizar esses sistemas é um desafio a ser vencido, e exigirá, sem dúvida, grande esforço de pesquisa e desenvolvimento por parte do setor público. A criação de gado é fundamental na estratégia de acumulação destes produtores. De modo geral o gado proporciona um rendimento mais estável e superior à proporcionada pelas lavouras ‘brancas’ (temporárias — arroz, milho, feijão). Além disso, apresenta a vantagem de alta liquidez, facilidade de transporte (o gado se ‘autotransporta’) para o mercado de estocagem. Proporciona uma melhor distribuição da mão-de-obra familiar ao longo do calendário agrícola, e é flexível em relação aos tratos e demanda de mão-de-obra. O pasto é implantado pouco a pouco no rastro das lavouras de subsistência e o agricultor em geral inicia a criação de gado após ter implantado uma área suficiente de pasto e ter acumulado o bastante para investir na cerca e nos animais. Para aqueles que têm mais terra disponível —uma minoria, com foi visto— a tendência é que a expansão do gado elimine tanto as culturas de subsistência como a floresta, as quais são indispensáveis para a sustentabilidade do sistema tradicional (gado/roça/capoeira). A degradação das pastagens é comum, e a falta de recursos para refertilização restringe a estabilidade dos sistemas e a capacidade de acumulação dos agricultores familiares. O ‘sistema roça pura’ é adotado pelos agricultores mais pobres, sendo, em geral, uma etapa inicial da implantação do ‘sistema roça + pecuária bovina’. Sua viabilidade depende do acesso ao mercado em todas as épocas, uma vez que depende da comercialização de pequenas quantidades de farinha de mandioca. Observa-se em distintas localidades a emergência de sistemas de produção tripartites, compostos de um subsistema de lavouras temporária, um subsistema de pecuária e um subsistema de culturas permanentes. A viabilidade e a sustentabilidade desses sistemas ainda está por ser confirmada. Estudos pontuais registram fracassos e sucessos de experiências baseadas ma implantação de lavouras permanentes. A mandioca é produto relevante em praticamente toda a região, consorciada ou não com o milho, arroz ou/e feijão. Alguns agricultores cultivam pequenas áreas de algodão e de outros produtos, como a melancia, abóbora e caupi. A simples introdução de animais de carga para transportar a mandioca da roça para a casa de farinha, ou do pequeno motor para mecanizar a moagem/ralação da mandioca, permite a uma família típica aumentar o tamanho da roça de 2 para 4 ha. 3.4 - Região Sudeste A superfície territorial da agricultura familiar da Região Sudeste (18,7 milhões de ha) é comparável à do Sul (19,4 milhões de ha), embora o número de estabelecimentos seja 16 sensivelmente menor. A área média desses estabelecimentos é de 25,5 ha; portanto, maior que no Sul. De acordo com a metodologia adotada, foram encontradas poucas manchas de concentração de estabelecimentos familiares na Região, localizadas em 4 Mesorregiões. Apenas a Mesorregião Central Espírito-Santense destaca-se com elevado percentual de superfície territorial com agricultura familiar (53,9%). Não Estado de São Paulo, nenhuma mancha foi formada. Esse resultado não pode ser interpretado como menor importância da agricultura familiar na Região, pois, como se observou, em termos absolutos sua contribuição não pode ser menosprezada, inclusive porque registra níveis elevados de capitalização e dinamismo. O fato de não ser delineada nenhuma mancha em São Paulo é resultado muito mais do elevado nível de produção da agricultura patronal do que da ausência de produtores familiares, que representam 68,9% do número de estabelecimentos do estado (embora apenas 24,5 % da área e 19,5% do valor bruto da produção). Existem grandes disparidades dentro do setor familiar; a agricultura praticada pelos agricultores familiares do Vale do Jequitinhonha ou do Nordeste de Minas Gerais é completamente diferente daquela dos horticultores de Campos, ou ainda dos cafeicultores do Espírito Santo e dos sistemas hortícolas e frutícolas de algumas regiões do Estado de São Paulo. Os ‘sistemas de produção diversificados (milho/feijão + algodão + amendoim + culturas perenes + pecuária)’ da região combinam produções altamente intensivas no uso da área com culturas mais extensivas (pecuária de corte, milho). Muitos estabelecimentos familiares destinam uma área maior às culturas altamente exigentes em mão-de-obra (tomate, banana, café adensado). Outros cultivam café, observando-se a introdução de novas práticas e tecnologias, entre os quais o plantio adensado, a utilização de mudas enxertadas e outros insumos químicos, em alguns casos até irrigação. A cultura da cana-deaçúcar também está presente, de maneira intensiva e mecanizada. As culturas anuais (arroz, feijão, milho) têm pequena importância, mas são fundamentais como parte da subsistência da família e da alimentação dos animais. A presença de produtos do quintal (horta, porcos e aves) é difundida, com comercialização local do excedente. A pecuária de corte apresenta baixa rentabilidade por ha e ocupa uma parte significativa da área, tanto maior quanto maior o estabelecimento e menor a mão-de-obra familiar disponível, mas a adoção de sistemas baseados em gado de corte por agricultores familiares não é muito comum, inclusive em virtude da restrição de área. A produção leiteira é um dos principais pilares do sistema de produção diversificado dos agricultores familiares. No caso dos familiares especializados em leite, o nível tecnológico e a produtividade são elevados, mas ainda assim um número significativo de produtores não logra progressos e vem se inviabilizando. A ordenha é manual e ou baseada em equipamentos mais antigos. Apesar das dificuldades, tanto o nível tecnológico como o rebanho leiteiro expandiu-se durante parte da década. Alguns já possuem animais de melhor nível genético, praticam inseminação artificial, usam complementação alimentar no inverno (silagem, cana e capineiras, ração em alguns casos), fazem manejo de pastagens (rotação, renovação), vacinação e tratamentos sanitários periódicos do gado, etc. A maioria combina a pecuária com outras produções (em geral, leite ou algum cultivo anual). Deve-se notar que a atividade leiteira passou por forte crise e reestruturação a partir da segunda metade da década de 90, que certamente afetou a posição dos agricultores familiares. As normas sanitárias, como exigência de resfriamento na propriedade, e a elevação do custo de 17 coleta são fatores de exclusão dos pequenos agricultores familiares, que produzem poucos litros por dia. A citricultura é um sistema difundido em várias regiões do Estado de São Paulo, explorado por produtores tradicionais que, tendo acumulado algum capital em máquinas e implementos, voltaram-se para essa cultura antes mesmo da crise cafeeira. A citricultura exige um nível de capitalização (equipamentos e capital de giro) relativamente elevado para os padrões da agricultura familiar brasileira, a qual tende a optar por sistemas baseados em uma combinação de tecnologia com uso intensivo de mão-de-obra. Os estabelecimentos citrícolas são, em geral, diversificados (presença de pecuária de leite e de corte em um caso, de algodão em outro), de maneira que uma eventual crise da citricultura poderia ser atenuada com o desenvolvimento de outras produções. Existem sistemas baseados na produção olerícola e ou de flores, que são mais intensivos e, em geral, resultam de um processo longo de acumulação de experiência e capital por parte da família. A cultura do tomate é mais exigente em mão-de-obra, mais delicada e arriscada. Alguns produtores desenvolveram sistemas de produção olerícola mais intensivos, em campo aberto ou em estufa. Nesses casos, culturas como tomate, pimentão, pepino, alface, repolho e couve, são cultivadas também no verão. Outros associaram a olericultura com a ampliação da pecuária ou com culturas perenes menos exigentes em mão-de-obra. Alguns produtores, que dispõem de áreas extremamente reduzidas e mão-deobra abundante, apostam na ampliação e na intensificação da horticultura. Na região de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, os cultivos adotados pelos horticultores familiares são pouco diferentes dos adotados pelos patronais. Além da presença diferenciada dos produtos entre as várias regiões, deve-se notar que tanto a contribuição de cada produto para a formação da renda dos produtores como a forma de organização da produção e o significado do produto na estratégia de reprodução dos agricultores familiares também diferem bastante entre os tipos de agricultores e entre as regiões. O exemplo mais claro é a presença mais ou menos equivalente da atividade de criação de aves e ovos entre os agricultores familiares do Nordeste e Sul. No primeiro caso, a grande maioria referia-se à criação de quintal, não especializada, com vendas esporádicas no comércio local e de baixo nível tecnológico. Na região Sul, ao lado da criação de quintal, estava presente um segmento que explorava a avicultura de carne e ovos de forma intensiva, em articulação com grandes empresas agro-industriais ou cooperativas, voltada essencialmente para comercialização, seja no mercado doméstico seja no mercado internacional. Neste caso, a produção do milho também adquire um significado distinto, pois enquanto os familiares do Nordeste retém uma parte do milho para consumo da família e alimentação da criação de quintal, e vendem o "excedente" no mercado local, os avicultores/suinocultores familiares da região Sul produzem o milho fundamentalmente como complemento de ração para a criação integrada de aves e de suínos, reduzindo desta forma o custo de produção e a dependência do mercado. 4 - À Guisa de Conclusão A focalização espacial da agricultura familiar é um ponto chave, uma vez que tem implicações fortes sobre as políticas públicas de apoio à agricultura familiar. Um agricultor 18 familiar do meio-oeste americano pode ser comparado a um agricultor familiar francês ou brasileiro só porque ambos utilizam majoritariamente mão-de-obra familiar no processo de produção? E um agricultor que explora um minifúndio no sertão nordestino pode ser equiparado a um produtor familiar integrado às grandes agroindústrias do País? Será semelhante aos problemas que enfrentam. No caso brasileiro, com atraso de décadas, a agricultura e os agricultores familiares estão hoje inseridos na agenda política do país, ainda que com poder de barganha que não parece refletir sua importância na geração de riqueza e ocupação. Os agricultores familiares brasileiros têm sido negligenciados pela política pública, e só desde 1995, com o lançamento do PRONAF e o relançamento dos programas de reforma agrária, foram reconhecidos como atores políticos e como sujeitos e beneficiários diretos de políticas públicas. Até então, mesmo esta identidade diferenciada que caracteriza os agricultores familiares, estava diluída em várias políticas setoriais —agrícola combate à pobreza rural, programas integrados de desenvolvimento rural (PDRI), programas de colonização etc. — e em categorias imprecisas como a de pequenos ou micro agricultores. Nos últimos anos, no Brasil e no exterior, os meios empresariais, políticos e acadêmicos ligados à problemática da produção e comercialização de produtos agroindustriais vêm reconhecendo que a competitividade da agropecuária depende de uma estrutura coordenada de agentes econômicos e sociais que permita que seus produtos sejam transformados e disponibilizados aos consumidores finais em condições adequadas de aquisição e consumo. Também é consenso que um ambiente institucional favorável e estável é imprescindível para que isso aconteça. A agricultura familiar não está isenta destes condicionantes. A decisão política de apoiar os agricultores familiares, para ser consistente e efetiva, deve levar em conta a diversidades socioeconômica e regional que caracteriza essa população, e reconhecer, de forma radical, a impossibilidade de apoiar 4,1 milhões de agricultores espalhados em mais de 5 mil municípios. É preciso ter a coragem de selecionar grupos de produtores e áreas específicas, e direcionar e desenhar políticas ou menu de políticas levando em conta as especificidades e potencialidades de cada área. Manter a tradição populista de programas de alcance supostamente universais, mas que na prática atinge apenas uma parcela da população, é o caminho mais rápido para diluir os recursos escassos e banalizar o apoio à agricultura familiar. Selecionar implicar definir, com mais clareza, opções. Já não é suficiente indicar a agricultura familiar como prioridade. É necessário selecionar dentro da agricultura familiar, descriminar uns dos outros. É sem dúvida um dos mais difíceis dilemas de política pública, mas inevitável nas condições do Brasil. Esse trabalho apontou as áreas de maior concentração da agricultura familiar, tomando como base os critérios da participação no Valor Bruto da Produção Municipal Agropecuário, de participação no número total de estabelecimentos e do nível de renda. Foi possível identificar algumas áreas de elevada concentração, e para estas analisou-se os principais sistemas produtivos explorados pelos agricultores familiares. É apenas uma primeira pista sobre a importância de análises mais detalhadas sobre a concentração e especificidades dos agricultores familiares em cada região relevante. 19 5 - Bibliografia BUAINAIN, A. Recomendações para a formulação de uma política de fortalecimento da agricultura familiar no Brasil. Campinas: Convênio FAO/INCRA, 1997. (Mimeogr.). BUAINAIN, A. A Política de Crédito Rural e a Integração dos Complexos Agroindustriais. Campinas. 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