A ATUAÇÃO PEDAGÓGICA DOCENTE NA INCLUSÃO DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA NO ENSINO FUNDAMENTAL
A ATUAÇÃO PEDAGÓGICA DOCENTE NA INCLUSÃO DE
CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA NO ENSINO FUNDAMENTAL
Jaqueline da Silva*
Helenice Maria Tavares**
RESUMO
O problema levantado neste trabalho tem como foco explicitar a importância da ação docente na
inclusão de crianças com deficiência intelectual nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Tem o
objetivo de promover reflexões sobre a prática educativa vivenciada diariamente neste contexto
possibilitando ao educador desenvolver um olhar critico sobre sua atuação e os resultados de suas
ações.O resultado esperado com esta pesquisa é o de promover uma mudança de atitudes e de
conceituação do que seja a inclusão e o trabalho desenvolvido neste ambiente através de uma reflexão
critica sobre a ação do educador.A metodologia que fundamenta esta pesquisa é a de referencial
bibliográfico em trabalhos pertinentes ao assunto publicados em artigos e livros.
PALAVRAS CHAVE: Ação docente. Inclusão. Deficiência. Reflexão. Pesquisa.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho levanta a problemática de como tem se desenvolvido a prática
pedagógica dos educadores nas séries iniciais do Ensino Fundamental diante da inclusão de
crianças com deficiência intelectual sem o subsídio de uma boa formação preparatória,
situação esta que evidência a importância da predisposição do educador em favorecimento
deste aluno em processo de inclusão educacional.
O objetivo desta pesquisa é fornecer subsídios para uma reflexão sobre a prática
docente diante da inclusão de crianças com deficiência visando problematizar essa vivência
diária a fim de conscientizar os educadores da importância da sua ação educativa no processo
aquisição e construção do conhecimento assim como para o desenvolvimento destes alunos.
Essa pesquisa se justifica na possibilidade de conscientizar e promover reflexões
sobre a diferença da ação educativa baseada da afetividade e espontaneidade, contra aquela
que é baseada no autoritarismo, nas diferenças e nos resultados.
A metodologia que fundamentou essa pesquisa foi a pesquisa bibliográfica a partir
de publicações anteriores sobre o assunto em documentos impressos como livros, artigos e
teses.
*
Graduanda e Licenciada em Pedagogia pela Faculdade Católica de Uberlândia. E-mail:
[email protected]
**
Professora do Curso de Licenciatura em Pedagogia da Faculdade Católica de Uberlândia. E-mail:
[email protected]
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A pesquisa bibliográfica é aquela que se realiza a partir do registro
disponível, decorrentes de pesquisas anteriores em documentos impressos,
como livros, artigos, teses etc. Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas
já trabalhados por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos
tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a
partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos
textos. (SEVERINO, 2007, p. 122).
A CRIANÇA E SUA VIDA ESCOLAR
Sabemos que as características humanas dependem do convívio social, e da
satisfação das necessidades através da interação com as outras pessoas no mundo social. Estas
necessidades não implicam somente na sobrevivência física, mas também psicológica da
pessoa, o que implica na satisfação das necessidades destes incentivos, proteção, amparo e
conhecimento para que o indivíduo possa desenvolver-se plenamente. É nestas interações
sociais que a criança desenvolve a linguagem e passa por meio dela a se comunicar e a
organizar seu pensamento, aprende a planejar, direcionar e avaliar sua ação. Por meio de
linguagem, os significados se abrangem dando origem à conceitos compartilhados pelos
grupos sociais.
A partir da aquisição do conhecimento, o indivíduo transforma a si mesmo e
desenvolve as funções mentais e a personalidade. O aprendizado ocorre na interação social da
criança com seu meio, e assim gradativamente ela vai ampliando suas formas de lidar com o
mundo e vai construindo significados para as suas ações e para as experiências vividas.
Em Davis e Oliveira, temos, “para que a criança aprenda, ela necessitará interagir
com outros seres humanos, especialmente com os adultos e com outras crianças mais
experientes”. (1990, p.4).
Assim, a natureza social da aprendizagem se dá na interação da criança com as
outras pessoas mais experientes que ela, e que a orientam ou mostram-lhe como proceder
através de gestos e instruções verbais. A criança pode ainda aprender por modelo ao vivenciar
diversas situações no cotidiano, pois o comportamento humano também se modifica em
função da observação de como agem outras pessoas diante das situações diversas que se
apresentam na vivencia cotidiana, podendo assim, reforçar ou extinguir um comportamento.
A aprendizagem não é uma atividade exclusiva do ambiente escolar, pois muito
antes da criança entrar neste contexto ela desenvolve hipóteses, e constrói conhecimentos
sobre o mundo através da sua interação com a família, dos amigos, de pessoas que a criança
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considera significativas, dos meios de comunicação de massas, das experiências do cotidiano
e dos movimentos sociais.
Essas situações de aprendizagem acontecem de forma espontânea e livre sem
nenhuma sistematização ou organização prévia como ocorre na escola e que desenvolve um
processo de aquisição de conhecimentos de forma sistematizada e intencional propiciando um
aprimoramento dos processos de pensamento e da própria capacidade de aprender, o que
causa uma transformação radical na forma de pensar e raciocinar da criança.
A iniciação da criança na escola é um período de grandes transformações em sua
vida, pois lhe é imposta uma rotina diária de atividades que não são exclusivamente lúdicas e
que exige um esforço intelectual e certo nível de desenvolvimento cognitivo que antes nas
suas interações sociais de aprendizagem não lhes era exigido. Uma criança que se encontra
em situação de desvantagem no processo de aquisição de conhecimento devido a diversos
fatores como distúrbio de aprendizagem decorrente de algum tipo de deficiência, muitas
vezes, ao ser inserido nas primeiras séries do ensino fundamental acaba por sofrer não
somente uma grande transformação nas suas formas de pensar e raciocinar, mas sofre também
com as classificações que recebe vinculando ao seu nível de resposta as exigências escolares e
a concepção de educação que o professor adota diante do aluno.
Toda atividade realizada no ambiente escolar tem seu foco intencional que se
realiza na execução do planejamento de ensino, na organização das condições para que a
aprendizagem ocorra efetivamente e que exige clareza quanto aos objetivos que se quer
alcançar, e que também refere-se à estipulação da seqüência de atividades e especificação dos
reforçadores que serão utilizados, assim como a promoção de um ambiente facilitador da
aprendizagem que estimule e aproveite as potencialidades diversas das crianças.
Aucoutier e Lapiere nos evidenciam que:
É através de uma relação entre professor e aluno com deficiência, relação
esta que deve ser baseada de forma espontânea, autêntica e comprometida é
que fluirá uma comunicação numa relação dialética de trocas e que
possibilitara ao educador compreender aquilo que a criança vive. (1986, p.
77).
Quando se pretende construir uma prática pedagógica que possa garantir um
processo de aprendizagem significativo é preciso que se tenha atenção quanto ao que é e
como ele ocorre, pois ensinar é muito mais que transmitir conhecimento. Esse aprendizado
está inter-relacionado ao desenvolvimento infantil, ao nível de maturação da criança, o
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ensinar, o aprender e suas relações com o desenvolver uma ação educativa intencional e
escolher métodos de ensino.
O PAPEL DA ESCOLA
A Escola é um lugar onde se estabelece um emaranhado de relações em que está
envolvido o ensinar e o aprender, assim como as relações econômicas e materiais, sociais e
institucionais, como também entre conteúdos e métodos de ensino, crenças, concepções e
teorias. Em Fontana e Cruz temos que “O cotidiano da escola é permeado por toda esta
complexidade, logo não é nada simples procurar aprendê-lo e compreendê-lo”. (1997, p.2).
Os conceitos que aprendemos na escola, nas diferentes disciplinas são parte de
teorias que buscam explicar e comprovar os fenômenos da natureza e os fatos sociais, que são
organizados conforme uma lógica coerente e requer a utilização de operações complexas de
transição de uma generalização para outras, devendo sempre considerar as expressões e
elaborações próprias da criança. É importante valorizar no ambiente escolar os seus atos de
compreensão e de expressão, pois nestas condições é possível aproveitar e dar continuidade
aos conhecimentos prévios trazidos pelo aluno de seu ambiente sócio afetivo.
O modo pelo qual a criança responde às questões educativas revela se ela
aprendeu ou se não entendeu a exposição do professor; suas expressões podem ser julgados
como falta de entendimento e que levam a conseqüências estigmatizadas, como a que, se a
criança não aprende é por sua própria culpa, pois precisa estudar mais, se dedicar mais.
No entanto, a palavra contém uma multiplicidade que nos revela como as
crianças procuram ativamente apreender o sentido da fala do adulto relacionando com suas
experiências, o que lhe foi dito e trazendo sentidos nem sempre esperados ou reconhecidos
por nós, mas que está contido no conhecimento prévio que cada criança traz consigo e que
apreendeu espontaneamente nas suas relações sociais fora da instituição escolar.
ESCOLA É LUGAR DE APRENDER A APRENDER, LUGAR DE APRENDER
PENSANDO
A expressão acima reflete o deslocamento do foco de ensino, que se transfere para
a aprendizagem. Partimos do pressuposto de que os conceitos científicos são objetos de
conhecimento que o sujeito constrói de acordo com o estágio de desenvolvimento em que se
encontra.
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Em Fazenda (2006) temos que, Piaget considera que os conceitos não podem ser
ensinados, pode-se apenas criar situações para que a criança possa formulá-los, e possibilitarlhe atuar sobre os objetos de conhecimento, e, pela atividade cognitiva levá-la a estabelecer as
relações de análise e de generalização, por meio das quais irá elaborar a palavra. Assim, o
ensino tem sua função social na contribuição do desenvolvimento dos indivíduos,
possibilitando-lhes construir conhecimentos por si mesmos, ou seja, aprender pensando.
A criança necessita de oportunidade para adquirir novos conceitos e palavras na
dinâmica das interações verbais mediadas pelo professor que participa ativamente do seu
processo de elaboração conceitual. Nas relações estabelecidas no espaço escolar, o educador
utiliza novos conceitos, define-os e os apresenta em diferentes contextos de uso e propõe
atividades em que devem ser empregados, possibilita a expressão das elaborações da palavra,
organizando verbalmente seu pensamento, problematiza as elaborações iniciais da criança,
levando-a a retomá-las, a refletir sobre possibilidades não consideradas e a refletir sobre seus
próprios modos de pensar.
Ao atentarmos para as possibilidades, percebemos que as palavras não são apenas
modos de representação do mundo e do pensamento ou instrumentos de comunicação, mas se
constituem em elemento de interação e de constituição de identidade.
Percebemos também, que é nas relações sociais que a neutralidade das palavras se
desfaz, pois, é neste contexto que aprendemos as palavras na linguagem viva e em
funcionamento, numa relação direta na vida das pessoas e redefinimos a relação de ensino
como relação de partilha e de articulação de saberes.
Nesta relação, crianças e professores se ensinam reciprocamente. Nesta troca de
modos de conhecer, ambos atuam como parceiros sociais no seu processo de aquisição do
conhecimento se fazem presente não somente na escola, mas fora dela também.
Na sistematização do conhecimento, em suas práticas culturais e na organização
da atividade intelectiva, a criança necessita da mediação do professor, possibilitando o contato
com diferentes situações de uso dos conceitos, destacando, apontando as diferenças que o
conceito se reveste em cada situação, problematizando os sentidos dicionarizados das palavras
ou tradicionalmente enfatizado nos livros didáticos e nas solenidades escolares.
A DIFÍCIL TAREFA DE LECIONAR
A docência é uma atividade demasiadamente complexa justamente por basear-se
na relação social entre pessoas tão diferentes entre si e com potencialidades para diversas
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áreas e cabe ao professor administrar todas estas complexidades e todos os outros fatores
externos a sua sala de aula, mas que interferem substancialmente na sua relação de ensino
aprendizagem que estabelece com seu alunado.
Muitas vezes em nossa vivência, presenciamos professores perdidos em sua
função de lecionar, impedidos de revelarem seus talentos ocultos; anulados no desejo pela
busca de respostas a suas perguntas, somando a isto, muitos estão presos as tarefas de sua
rotina diária tem a sua capacidade criativa suprimida, e por isto se vêem induzidos a cumprir
apenas o necessário e quase sempre deixando a desejar quanto a sua própria satisfação
enquanto docente, e toda a importância de sua função. Luz e Gesser em seu artigo sobre a
prática docente e pesquisa vem salientar que “A tomada de consciência por parte dos
professores formadores a respeito da importância de refletir sobre suas ações poderia
contribuir para a formação de cidadãos críticos, reflexivos e comprometidos efetivamente
com a educação”. (2007, p.23).
Evidentemente, uma boa formação reflete nas experiências em sala de aula e na
atuação docente e percebe-se quase sempre a necessidade da pesquisa interdisciplinar para a
aquisição do conhecimento que não se explicita apenas no nível da reflexão, mas, no nível da
ação, já que inevitavelmente irá refletir na atividade prática vivenciada cotidianamente e que
se tornará um conhecimento integrante da formação docente.
É importante que o professor em contato com a docência, e que conheça a si
mesmo primeiramente, nas suas formas de pensar e raciocinar, bem como também as suas
maneiras de responder e se adaptar as diferentes situações que se apresentam no cotidiano,
para que então possa compreender a forma como o aluno lhe apresenta e responde a ele.
Cada pessoa tem suas próprias especificidades, sua história de vida, na qual
constroem sua personalidade e suas formas de lidar com o mundo, de interagir na realidade
que o mundo lhe apresenta, seja esta uma realidade favorável, na qual a pessoa desde muito
cedo recebe os estímulos necessários para seu desenvolvimento cognitivo, boa alimentação,
proteção e amparo, enquanto que outras pessoas nascem desprovidas de praticamente tudo e
desenvolvem em alguns casos, uma capacidade de resiliência surpreendente para se sobressair
aos percalços que a realidade impõe.
Cada indivíduo carrega consigo um repertório de conhecimentos que influenciam
suas ações no decorrer da vida e em muitas situações, a pessoa acaba por sofrer preconceitos e
tem suas especificidades estigmatizadas por idéias pré-concebidas de professores e gestores
que reflete em suas ações terminando por reforçar ou estinguir um comportamento sem antes
se prestar ao trabalho de uma investigação, uma observação comportamental do individuo.
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Hoje os procedimentos metodológicos foram ampliados e já temos como
verificar a possibilidade das Histórias de Vida constituírem-se em processos
maiêuticos de sujeitos, projetos e trajetos, que informam, formam e projetam
professores para um outro patamar de vida. (LUZ & GESSER, 2007, p.24).
Através de uma reflexão introspectiva, o professor pesquisador passa a duvidar
das teorias sobre educação existente e passa a percebê-las imperfeitas e incompletas, passando
a questionar se essas teorias podem ou não explicar suas intercorrências práticas decorrentes
de uma dúvida maior, a de que algo de sua prática vivida possa contribuir e somarem-se as
teorias sobre educação e refletir de forma significativa na prática docente de muitos
educadores. Em Luz & Gesser vemos que “é possível um professor ser pesquisador, inclusive
na sua própria sala de aula [...] pesquisar é desenvolver um olhar, é assumir uma postura, um
olhar que não é o da ação”. (2007, p.20).
O professor realmente comprometido com a realidade docente é por si mesmo um
pesquisador que compreende seu universo de ações e de significados e aceita dividir sua
própria percepção do mundo, de homem, e de educação. Este profissional desenvolve a
sensibilidade de compreender o outro, de respeitar suas especificidades e de simultaneamente
esperar e manipular os estímulos ambientais para a apresentação das respostas que coleta da
realidade para a sua ação interventora. Há a necessidade de reflexão na prática educativa
crítica de parar para pensar, analisar e refletir sobre a ação que estamos realizando enquanto
educadores e promotores da formação humana.
A INCLUSÃO ESCOLAR DO ALUNO COM DEFICIÊNCIA
Atualmente temos, constantemente debates, discussões e conversas sobre a tão
falada inclusão nas escolas do Brasil. É uma problemática recente se comparada ao histórico
de outros movimentos educacionais. A inclusão é um desafio que deve ser enfrentado,
dialogado, construído e reconstruído. É um debate que deve ser iniciado principalmente na
academia onde são formados os educadores que vão atuar com esta nova demanda que tende a
crescer cada vez mais.
Na Declaração de Salamanca verificamos que as crianças e adolescentes com
deficiência não precisam e não devem estar fora das instituições de ensino regular de qualquer
nível, mas que têm os mesmos direitos que qualquer outro, com ou sem qualquer tipo de
deficiência. E ainda:
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Aos alunos com necessidades educacionais especiais deverão ser dispensado
apoio contínuo, desde a ajuda mínima nas classes comuns, até a aplicação de
programas suplementares de apoio pedagógico na escola, ampliando-os,
quando necessário, para receber a ajuda de professores especializados e de
pessoal de apoio externo. (BRASIL, 1994, p.32).
A Declaração de Salamanca também deixa bem evidente o direito de igualdade
dos educandos portadores de deficiência a uma educação de qualidade para todos sem
distinção, visando sempre os ganhos que estes educandos podem ter e oferecer nas trocas e
relações estabelecidas com seus pares no ambiente escolar.
O que significa incluir? Para falarmos sobre o significado de inclusão devemos
lembrar que a escola não é homogênea, e, portanto, temos que saber que a escola é um
ambiente repleto de diferenças e antagonismos.
A ação de integrar a pessoa com deficiência à sociedade já acarreta a
necessidade de uma ação inovadora que o prepare para sua inserção numa
sociedade competitiva e segregada, ação esta que é uma via de Mao dupla,
pois ao mesmo tempo que age para integrar age também evidenciando e
estigmatizando as diferenças. O que é considerado como uma anomalia da
pessoa com deficiência acaba por contribuir para fortalecer sua inclusão
social, política e cultural. (MANTOAN, 1997, p. 20).
Quando pensamos em diferenças físicas, percebemos diferença na cor dos
cabelos, dos olhos, da estatura e outras características. Existem também outras diferenças
como as sociais entre ricos e pobres com suas relações antagônicas de poder e dominação, as
diferenças culturais de distinção étnica e racial entre brancos, negros, pardos, índios.
A escola precisa urgentemente estar preparada para uma educação para a
diversidade, pois o Brasil é um país rico em culturas, em etnias, em raças, em credos e possui
um numero crescente de pessoas com algum tipo de deficiência que estão saindo do
enclausuramento em busca de inserção social, educacional e profissional. No Brasil existem
24,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o que representa 14,5% da população,
de
acordo
com
dados
do
Instituto
Brasileiro
de
Geografia
e
Estatística
(IBGE),(BRASIL,2009).
É importante focar a atenção nas diferenças de tratamento destinadas às crianças
com algum tipo de deficiência, Arendt nos mostra seu conceito de educação:
A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o
bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios
recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender
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alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com
antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum. (1972, p. 247).
Portanto, estaremos pautados no significado teórico de diferença significativa que
Amaral e Aquino ressalta:
Penso que a diferença significativa, o desvio, a anomalia, a anormalidade, e,
em conseqüência, o ser/estar diferente ou desviante, ou anômalo, ou
anormal, pressupõem a eleição de critérios, sejam eles estatísticos (moda e
media),
de
caráter
estrutural/funcional
(integridade
de
forma/funcionamento), ou de cunho psicossocial, como o do “tipo ideal”.
(1998. p.13).
O conceito de deficiência refere-se à perda ou anormalidade de estrutura ou
função: deficiências são relativas a toda a alteração do corpo ou da aparência física, de um
órgão ou de uma função, qualquer que seja a sua causa. Já o conceito de incapacidade referese a restrição de atividades em decorrência das conseqüências de uma deficiência em termos
de desempenho e atividade funcional do individuo e que representam as perturbações ao nível
da própria pessoa. “Desvantagens, refere-se à condição social de prejuízo que o individuo
experimenta devido a sua deficiência e incapacidade, as desvantagens refletem a adaptação do
individuo e a interação dele com seu meio”. (AMARAL; AQUINO, 1998, p.24-25).
No contexto da inclusão educacional de crianças com deficiências é fundamental
que a criança seja vista como criança, não lhe negando sua diferença ou característica
orgânica, mas nunca se deve supervalorizar esse fator e resumir uma ação a uma única
característica, principalmente aquela que deprecia uma pessoa ao diferenciá-la diante das
demais. Amaral e Aquino (1998), nos traz que a presença de preconceito e a decorrente
discriminação vivida, ainda com mais intensidade, pelos significativamente diferentes,
impedidos muitas vezes de vivenciar não só sua cidadania como sua própria infância.
Aucoutier e Lapiere nos evidencia que “A criança esta ai com seus problemas,
suas deficiências, suas falhas, mas também com suas potencialidades, e recusamo-nos a fixar
a priori e sem apelação os limites de suas potencialidades”. (1986, p.24).
Não cabe ao educador fixar-se em diagnósticos ou em todos os fatores e estruturas
nas quais definiram a criança com deficiência, pois são fatores que servem para evidenciar a
diversidade de pessoas cada qual com suas características, especificidades e potencialidades
comuns em qualquer ambiente escolar. Assim, é importante estabelecer uma relação
autêntica, comprometida e predestinada e com anseio por fazer a diferença e que para isto se
dispõe em favor do outro de forma comprometida e livre de idéias pré-concebidas,
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preconceitos, paradigmas e estigmas construídos e cristalizados socialmente ao longo da
existência de qualquer pessoa.
Ao longo de nossa existência, aprendemos a eleger critérios para relacionar ou
lidar com tudo que nos cerca diante da realidade em que vivemos e isto se aplica àqueles
critérios que usamos ou que nos ensinaram a usar para diferenciar nossos pares, sejam eles
critérios de diferença significativa, de desvio ou anomalia. Seguimos critérios que pressupõem
a eleição de outros de caráter estatísticos, estrutural-funcional, ou de cunho psico-social que é
a idealização do outro, do tipo ideal, que se espera que o outro seja para ser socialmente
aceito.
Em Amaral e Aquino, temos:
Olhos que vêem, ouvidos que ouvem, membros que se movimentam e
praticam ações como pegar, andar, sentar etc. – tudo isso, em princípio, sem
o auxilio de equipamentos ou recursos específicos. Qualquer alteração de
maior monta nesta “vocação” caracteriza a pessoa que vive essa condição
como significativamente diferente, desviante, anormal e com deficiência
(1998,p. 14).
Sabemos que no ambiente escolar é extremamente complexo, e que neste lugar
todos aprendem e todos ensinam, assim, torna-se importante e ao mesmo tempo fundamental
que o educador perceba a escola de forma completa e isto começa também pelo aluno.
Cabe ao professor levar os alunos a refletir sobre os significados das palavras, os
conduzindo para uma elaboração refletida, pois somente assim ela será incorporada de forma
efetiva ao repertório da criança, possibilitando-a pensar sobre seu próprio modo de utiliza-las,
que é uma atividade intelectual complexa e nova, elas buscam na memória elementos das
experiências vividas, sentidos da palavra já internalizados, organizando verbalmente o
pensamento, elaboram justificativas.
O professor, a partir da atividade intelectual que desenvolve com as crianças,
busca levá-las a refletir e a contextualizá-los nos conceitos propostos dentro de sua realidade
contextual, com base nas experiências de seu grupo social e da sociedade, de questões sobre
cidadania e relações de poder.
Sabendo que há diferentes deficiências e que estas podem possuir diferentes graus
de comprometimento, e que cada pessoa tem suas especificidades e particularidades, cada
uma tem seu tempo e forma diferente para aprender, porque todos somos diferentes e
percebemos o mundo e o conhecemos por perspectivas diferentes, e é por isto que a educação
cada vez mais exige além de uma boa formação por parte dos educadores, exige também uma
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predestinação das pessoas que se propõem a educar, a ensinar e que na perspectiva da
inclusão, o educador necessita conscientizar-se que ele não tem que saber tudo, que não é
obrigado a saber exatamente como lidar com uma pessoa com deficiência, o que por si só é
difícil já que o ser humano naturalmente é o ser mais complexo que existe, é preciso deixar de
ver a inclusão educacional como um desafio intransponível, porque é assim que a vemos
quando somos pegos de surpresa pelo desafio de receber um aluno com deficiência em nosso
ambiente escolar.
O primeiro passo é aceitar que a essência em ser um bom professor está numa
postura filosófica de assumir que nada sabemos e que a nossa interação no ambiente
educativo nos mostrará novas formas de atuação e que, portanto, estamos em constante
aprendizado e que nunca aprendemos tudo.
Um requisito para que a inclusão educacional ocorra de forma satisfatória é que o
professor seja criativo, que procure buscar cada vez mais do que ele já sabe, que busque
ampliar seu repertório de ações e recursos para satisfazer as diferentes necessidades que
advém da diversidade de pessoas inseridas numa sala de aula, porque nem sempre é possível
atender as especificidades inerentes a cada aluno seja ele com ou sem deficiência. Um
professor predisposto a docência não consegue se acomodar com as coisas prontas e
resolvidas, ele se incomoda diante de um desafio, de algo que exige dele um maior empenho e
compromisso.
Diante da inclusão educacional de crianças com deficiências é essencial que o
professor busque inovar-se, adquirir sempre mais conhecimento, pois todo o conhecimento
que viermos a adquirir no dia a dia no contexto da educação inclusiva em sala de aula no
atendimento a essas crianças será sempre pouco porque todos os dias estaremos nos
reciclando, adquirindo novos conhecimentos.
O professor deve então saber que nem todo o deficiente é incapaz e que a
desvantagem é criada a partir de seu contexto. O individuo com deficiência pode não ser
incapaz e não estar em desvantagem. Isso vai depender do ambiente em que ele se encontra e
das pessoas com quem ele interage. Na escola um professor que vai receber um aluno com
deficiência, seja ela qual for, pode fazer com que este educando não esteja em desvantagem
pela deficiência no que tange seu aprendizado, pois há estímulos e metodologias adaptativas
e ambientais para facilitar sua aprendizagem e interação com o ambiente.
Para se trabalhar com uma classe onde há um educando com deficiência, o
professor deve inicialmente abolir do ambiente escolar proposto por ele e as práticas
tradicionais e autoritárias, bem como a de adotar e se limitar no uso do livro didático, ensinar
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e forçar-se somente nos conteúdos programáticos, propostas de projetos e atividades
descontextualizadas da realidade e experiências do aluno considerando como método
avaliativo apenas provas e resultados quantitativos.
Com práticas tradicionalistas e autoritárias, não há condições de ensinar uma
turma heterogênea reconhecendo suas peculiaridades, e, sendo assim nas praticas pedagógicas
e na perspectivas de uma prática escolar não disciplinar, o que deve ser evidenciado no
processo é a experimentação, a criação, a descoberta e a autonomia na construção do
conhecimento. Sobretudo, esse trabalho deve incluir a formação humana onde os educandos
são ensinados a valorizar as diferenças, conviver e interagir com seus pares independente de
suas características, construindo e mantendo um relacionamento harmônico sem exclusão e
esteriótipos.
As atividades realizadas neste tipo de trabalho devem ser abertas e diversificadas,
alem de flexibilizado para a abordagem em vários níveis de compreensão, entendimento,
apropriação e desempenho nessas atividades. Nunca se deve evidenciar ou comparar alunos
que possuem habilidades e potencialidades diferenciadas. O ideal é elogiar e incentivar os
aspectos positivos construídos por todos. Essas atividades podem ser enriquecidas por
debates, pesquisas em grupo, registros escritos e falados, dinâmicas, filmes, músicas e
vivências grupais. Os conteúdos deverão ser trabalhados gradativamente sem cobranças e
limitações.
A avaliação para este ensino deverá ser processual e um dos aspectos a ser
observado é o processo dos alunos nos alunos, no tratamento das informações e participação
na vida social. Devem-se evitar os métodos quantitativos e classificatórios e também trabalhar
para que o aluno faça sua auto avaliação.
Alguns instrumentos poderão ser de grande valia na atuação num ambiente
inclusivo: registros diários, portifólio, arquivos de atividades, impressos e reflexões
significativas das crianças.
Os próprios alunos com deficiências e sua interação com os demais alunos nos
ensinará a trilhar o caminho que deveremos prosseguir, basta aceitar de prontidão esse desafio
que é a inclusão que exige primeiramente olhar o individuo com deficiência em sua totalidade
e não especificamente por sua deficiência, visando sempre não somente a tentativa de
normalizá-lo aos demais, mas sim a intenção equalizadora de promover através da educação a
qualquer pessoa, tendo ela ou não alguma deficiência, a uma melhor qualidade de vida. E
quanto mais cedo isso começar a acontecer, maiores serão as chances de se atingir esse
objetivo e a educação infantil é o primeiro contato da criança com deficiência depois da
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família e toda a ação educativa exercida nesta primeira fase da educação sistematizada da
criança irá repercutir em toda a sua vida acadêmica, social e afetiva.
É indispensável que a atitude do professor seja a de encorajar a criança portadora
de necessidades educativas especiais a buscar ele próprio suas respostas, e a construir o
conhecimento. Situações significativas devem ser sempre colocadas para a criança de modo
que ela se sinta desafiada a refletir e buscar fontes de satisfação daquela necessidade, ou
formas de solucionar a situação. O trabalho do professor consiste, assim, em criar situações
que venham a gerar conflitos cognitivos, que, por sua vez, desencadeiem na criança portadora
de necessidades educativas especiais, o processo de busca pela equilibração, indispensável
para a construção de novas estruturas. Além do mais, todo o trabalho pedagógico deve levar
em conta o processo de desenvolvimento e que as atividades requeridas somente têm razão de
ser se vierem representar “passos dados” nesta longa caminhada.
Sabemos que o fator pelo qual tudo se ordena e organiza introspectivamente na
criança em desenvolvimento, e o que permite ou perturba o desenvolvimento da personalidade
é o núcleo psicoafetivo de cada individuo e que esta mais ou menos oculto no inconsciente e
esta relacionado as experiências corporais e a carga afetiva induzida pelas relações e
interações vivenciadas pela criança com seus pares ou com os objetos. Portanto, a relação
estabelecida entre a criança e os objetos, entre ela e tudo que a rodeia dentro de um contexto
facilitador e estimulador de seu desenvolvimento cognitivo e afetivo é algo de extrema
importância e que deve ter a devida atenção de pais e educadores.
Proporcionar um ambiente estimulador e facilitador da aprendizagem é uma fator
muito importante para o desenvolvimento global de qualquer criança, principalmente em se
tratando de crianças com deficiências. O brincar é a atividade mais prazerosa que existe e que
não é imposta, não há exigências ou regras na brincadeira seja ela livre ou não, que
impossibilite uma criança de participar e desempenhar os papéis representados na brincadeira.
No ato de brincar a criança pode tudo e nesse brincar, ela se desenvolve, amadurece
cognitivamente no seu tempo e a seu modo.
É nesta interação diária do professor em atendimento ao aluno com deficiência no
ambiente escolar que através de uma relação baseada de forma espontânea, autêntica e
comprometida é que fluirá uma comunicação numa relação dialética de trocas e que
possibilitará ao educador compreender aquilo que a criança vive, encontrando ou descobrindo
sua autenticidade, tomando consciência de suas possibilidades, de seus ímpetos comuns a
qualquer criança, de seus impedimentos, de suas defesas, e a partir daí, desenvolver
possibilidades de ação e que terá como suporte a formação do educador.
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Lidar com a deficiência de alguém é algo difícil e exige uma total mudança de
atitudes e ações, mas principalmente, exige uma mudança no que se pensa ser uma
deficiência, pois ela não é algo que possa ser curado, exterminado ou normalizado. Muitos
professores e outros profissionais que lidam com pessoas com deficiência se deparam com
pais que esperam somente por resultados, esperam o milagre acontecer por intermédio da
escola, do psicólogo, do fonoaudiólogo, de terapeutas e tantos outros profissionais. Muitos
pais esperam que estes profissionais consigam transformar a deficiência em eficiência e com
isto não participam da vida, do desenvolvimento do filho, ficam alheios a ele e acabam
expressando seu amor e desespero por um filho diferente e especial de forma superprotetora,
de não-aceitação da deficiência, da necessidade especifica que a criança apresenta, o que
acaba por prolongar o desenvolvimento motor e cognitivo da criança que se desde a tenra
idade recebesse a estimulação necessária teria suas necessidades especifícas reduzidas
agregando-lhe maior qualidade de vida.
Amor não é superproteção. Superproteção é negar a diferença do outro, então
fazemos por ele o que julgamos que ele jamais será capaz. Superproteger uma pessoa é
superestimar a sua capacidade inata de superar suas próprias limitações. É ao mesmo tempo
negar-lhe o direito de crescer e se desenvolver justificado apenas por um amor superprotetor.
Fica difícil um educador ou outro profissional agir sem o apoio da família, ou pior, com pais
que esperam apenas por resultados e não participam do processo e nem como o filho se sente
seguindo sozinho uma caminhada complicada e difícil que é em alguns casos o tratamento
para reabilitação, as seções de estimulação, as horas de terapia, e ainda sua inclusão no
contexto escolar, um ambiente novo e que traz a exigência de um aluno idealizado e que
muitas crianças sabem que não se enquadram nesse perfil.
No dia a dia do contexto escolar onde ocorre a relação aluno-professor é
interessante que se obtenha ou que se alcance uma melhor convivência com a criança no
sentido de que ela participe e interaja. As ações devem partir do agir espontâneo da criança,
de seu desejo, do que lhe cause segurança e prazer na realização. Os desejos dos adultos
sejam eles pais ou professores, mesmo sendo para o bem da criança sempre terão o peso de
cobrança, de um ideário de filho ou de aluno que muitas crianças sabem que não são.
Muitas vezes, o professor se verá sozinho na caminhada da inclusão de um aluno
com deficiência e seus esforços em atender a esse alunado deverá ter foco na redução dos
déficits da criança dando lhe oportunidade e o tempo necessário, mas sem visar modificar as
estruturas ou fatores que causam uma possível limitação ou atraso no desenvolvimento global
da criança, pois este é um campo de atuação para outros profissionais. Ao educador caberá
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repensar sua ação pedagógica, adaptar o currículo as necessidades do aluno, tornar o
conhecimento acessível e principalmente reavaliar seu conceito de educação, de homem, de
cidadania e deficiência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É importante que o professor esteja atento ao nível de desenvolvimento cognitivo
de seus alunos, pois numa sala de aula, a grande diversificação de nível maturacional e de
resposta do aluno a uma nova realidade que vai exigir cada vez mais comprometimento de sua
parte com as atividades intelectuais sistematizadas e intencionais.
Logo, é relevante que nós educadores estejamos atentos aos comportamentos de
nossas crianças principalmente na fase inicial bem como em sua forma de raciocinar e
expressar seus desejos, fantasias, os seus sentimentos, e toda a sua reação diante das novas
situações propostas. E ao proporcionarmos um ambiente estimulante intencionalmente
promovemos situações de aprendizagem, surgimento de novos comportamentos, ou
aprimoramento de outros, ou ainda, a eliminação ou diminuição de comportamentos
indesejáveis.
Assim, concluímos que o processo de ensino-aprendizagem de educandos com ou
sem deficiência ocorre num processo de respeito, diálogo e trocas de vivências. Se o educador
conseguir propiciar a seu educando um ambiente saudável, estimulante e facilitador da
aprendizagem, não haverá no ambiente escolar deficiências nem diferenças, mas haverá uma
prática pedagógica diferenciada. Por isto é importante a formação do professor, na
capacitação continuada para que se tenha um suporte necessário para modificar práticas
retrógodas e reconstruir o ato de ensinar e aprender.
O educador diante da realidade inclusiva em sala de aula deve vivenciar uma
constante dialética entre pensamento e ação, buscando fundamentação teórica para suas ações
práticas na relação com a criança com deficiência e depois posteriormente confrontar essas
experiências diversas e variadas advindas da vivência diária e assim estruturando novas
formas de ação de como melhor atender a esta crescente demanda de pessoas que estão cada
vez mais atuantes e exigindo uma educação igualitária a que tem direito e que lhe dê ao
mesmo tempo o aporte necessário para exercer sua cidadania e preparação para adentrar o
mercado de trabalho, pois é por meio dele que qualquer individuo independente de ter ou não
algum tipo de deficiência é que terá os meios para usufruir de uma melhor qualidade de vida
de forma digna e conquistando seu espaço de atuação e reconhecimento na sociedade.
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Para compreender o quão complexa é a relação dialética do individuo nas
interações dele com a realidade social na qual esta inserido, principalmente em se tratando de
uma pessoa com deficiência, a qual tem suas ações de acesso e com o meio debilitadas e até
dificultadas por causa de preconceitos e esteriótipos que comumentemente caminha junto com
essas pessoas. Para tentar compreender a dinâmica e os reflexos emocionais que as nossas
ações repercutem na pessoa, seja ela nosso aluno com deficiência ou não, assim como
qualquer outra pessoa, basta apenas procurar se colocar no lugar do outro, vestir sua pele para
perceber como se sente uma pessoa que se vê constantemente desafiada pelo ambiente, por
estímulos ou até por cobranças para que atinja um objetivo sem a devida importância em
como ela poderá alcançá-lo, sem a preocupação se há um ambiente facilitador para o
desenvolvimento de potencialidades que esteja atendendo as especificidades e necessidades
inerentes a cada pessoa.
Sempre acarretará em desmotivação, fracasso e frustração quando for dado menos
importância aos meios, aos recursos e as práticas de ação para valorizar, esperar e exigir
sempre os resultados, ao esquecer e desvalorizar a imensa importância existente no processo
de desenvolvimento de potencialidades mediado por pais e professores no contexto de
aprendizagem, seja este contexto escolar ou não.
É a autenticidade da vivência das relações estabelecidas no dia a dia que é
experenciada e sentida, e não pela teoria que deve agregar-se, fazer parte dos atos e atitudes
do professor que interage tão proximamente com a criança com deficiência e que deve basear
sua ação de forma espontânea integrando profundamente seus conhecimentos e seus objetivos
na sua ação prática e diária na relação de ensino aprendizagem.
Todos os conhecimentos teóricos fundamentados cientificamente são necessários
para lidar com a criança com deficiência de forma interventora na relação dialética existente
entre professor-aluno no ambiente escolar, mas estes conhecimentos não serão suficientes e
úteis senão estiver em consonância com ele a espontaneidade, a disponibilidade, a empatia e
noções fundamentais de psicologia disponível a criança em atendimento às suas necessidades,
de sua evolução, dando a real importância e valorização a pessoa, numa relação também de
ajuda que exige desprendimento e compromisso para promover uma atuação que traga como
resultado o máximo em normalização, em qualidade de vida e em interação social.
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