ANA MARIA DE FREITAS QUIRINO MIGO: POSSIBILIDADES AUTOBIOGRÁFICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS: TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA Dezembro de 2012 ANA MARIA DE FREITAS QUIRINO MIGO: POSSIBILIDADES AUTOBIOGRÁFICAS Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João del-Rei, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Letras. Área de Concentração: Teoria Literária e Crítica da Cultura Linha de Pesquisa: Literatura e Memória Cultural Orientadora: Tolentino Profª Drª Eliana da PROGRAMA DE MESTRADO EM LETRAS: TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA Dezembro de 2012 Conceição ANA MARIA DE FREITAS QUIRINO MIGO: POSSIBILIDADES AUTOBIOGRÁFICAS Banca Examinadora: Profª. Drª. Eliana da Conceição Tolentino - UFSJ Orientadora Profª. Drª. Ilca Vieira de Oliveira. - UNIMONTES Prof. Dr. Anderson Bastos Martins - UFSJ Prof. Dr. Cláudio Márcio do Carmo Coordenador do Programa de Mestrado em Letras DEZEMBRO DE 2012 Dedico este trabalho a Maria do Carmo e a Adenor de Freitas, meus pais, meus primeiros amores. AGRADECIMENTOS A gratidão é o reconhecimento de que não fazemos quase nada sozinhos. Uma palavra, um livro emprestado, um puxão de orelhas, um olhar de compreensão. Por tudo isso, nós devemos agradecer ao nosso semelhante. Hoje, quero muito agradecer. À Professora Doutora Eliana da Conceição Tolentino, minha orientadora, pelo profissionalismo, entusiasmo e alegria durante a nossa caminhada tão amigável. À CAPES, pela bolsa de estudos, que colaborou financeiramente para a minha pesquisa. À EPCAR, pois a concessão de afastamento parcial das minhas atividades na Escola possibilitou o meu aprimoramento. Aos Professores Doutores Ilca Vieira de Oliveira e Anderson Bastos Martins, por aceitarem compor a banca examinadora desta dissertação. Ao meu esposo, Mário Lúcio Quirino, pela dedicação e compreensão nos momentos de dificuldades e nas ausências. Às minhas filhas Carolina e Rafaela, amor sem limites, fonte de inspiração e persistência. Às minhas irmãs Geordani e Cláudia, laços familiares que me sustentam. À Izilda Ângela Guimarães, amiga de todas as horas; à Maria Antonieta Amaral César, bondade e presença constantes; à Márcia Valéria Bianchetti, carinho e companheirismo sempre; à Virgínia Mary M. Prudente, amizade e cumplicidade. À Sheila Ávila, pela disponibilidade em me ajudar no Abstract; à Fernanda Abrantes, pela tradução de uma carta escrita em espanhol; ao Alexandre, pela ajuda na formatação do texto. À Raphaela, pois construímos uma bonita amizade durante o mestrado. A todos os meus colegas de trabalho da EPCAR, especialmente aos membros da Equipe de Língua Portuguesa, ajudaram-me muito de diversas maneiras. Chegada a hora, eu viria a ser não o médico que tanto supus e quis, mas o escritor que jamais cogitei. (Migo, p.22-23). Ai vida que esvai distraída, entre os dedos da hora, tirando da mão até a memória do tato dos meus idos. Só persistimos, se tanto, na usura da memória alheia, à véspera do longo esquecimento. (Maíra, p.207). RESUMO Este trabalho consiste em uma leitura de Migo, livro de Darcy Ribeiro, publicado em 1988. Migo reúne 193 capítulos curtos e apresenta uma narrativa que pode ser lida como uma autobiografia. Para tal tomaremos como pressupostos teóricos os conceitos de “pacto autobiográfico”, extraído da obra O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet, de Philippe Lejeune (2008) e de “autoficção” de Serge Doubrovsky (1977), descrito em Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica, de Diana Klinger (2007). Utilizaremos também dois outros livros de Darcy Ribeiro ─ Testemunho (1991) e Confissões (1997) ─ para dialogar com o livro Migo. Apresentaremos um breve perfil intelectual de Darcy Ribeiro a fim de contextualizar o autor e retratar a vida intelectual desse escritor que vai ecoar na vida intelectual do principal personagem do livro Migo. Para descrever a construção formal do livro Migo, apoiamo-nos no livro O trabalho da citação, de Antoine Compagnon (1996). E realizaremos um estudo sobre a escrita memorialística, pois em Migo a memória funciona como um fio condutor entre a ficção e a realidade. PALAVRAS-CHAVE: Darcy Ribeiro, autobiografia, intelectual, escrita memorialística. ABSTRACT This work consists in an interpretation of Migo, Darcy Ribeiro‟s novel, published in 1988. Migo is composed by 193 short chapters and develops a type of narrative that can be read as an autobiography. To this purpose, there will be used as theoretical support the concepts of “autobiographic pact”, extracted from the book O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet, by Philippe Lejeune (2008) and “autofiction” by Serge Doubrovsky (1977), described in Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica, by Diana Klinger (2007). Two other Darcy Ribeiro‟s novels will be also used ─ Testemunho (1991) and Confissões (1997) ─ to establish connection with the book Migo. A brief intellectual profile of Darcy Ribeiro will be presented in order to contextualize the author and present the intellectual life of this writer which will reflected in the intellectual life of the main character of the book Migo. To describe the formal construction of the novel Migo, O trabalho da citação, by Antoine Compagnon (1996) was used as support. And, a study about memorialistic writing will be performed because in Migo memory works as a conductor wire between fiction and reality. KEYWORDS: Darcy Ribeiro, autobiography, intellectual, memorialistic writing. SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 10 CAPÍTULO I: PERCURSO INTELECTUAL DE DARCY RIBEIRO .......................... 15 1.1. Fase embrionária de Darcy Ribeiro ................................................................ 19 1.2. Etnólogo indigenista........................................................................................ 21 1.3. Parceria com Anísio Teixeira .......................................................................... 25 1.4. UNB: Universidade de Brasília ....................................................................... 26 1.5. O exílio no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru .................................. 30 1.6. A volta de Darcy Ribeiro ao Brasil em 1976 ................................................... 36 CAPÍTULO II: O EU e O MIGO, DE DARCY RIBEIRO ............................................ 42 2.1. Epígrafe, Roteiro e Sumário ........................................................................... 52 2.2. O Colosso ...................................................................................................... 65 2.3. Eu, migo, comigo........................................................................................... 69 2.4. Migo: do título à obra...................................................................................... 75 CAPÍTULO III – A ESCRITA MEMORIALÍSTICA EM MIGO .................................... 81 3.1. A autobiografia ............................................................................................... 84 3.2. A autoficção ................................................................................................... 92 3.3. Esfolando a memória ..................................................................................... 97 3.4. Darcy, personagem de Ageu ........................................................................ 103 3.5. Ageu e as Minas Gerais .............................................................................. 107 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 117 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 120 9 INTRODUÇÃO As (auto)biografias ocupam cada vez mais espaço na literatura contemporânea. Ao escrever sobre si, o escritor manifesta o desejo de permanecer na escrita e recuperar as emoções de um tempo pretérito. Para alcançar essa permanência através da escrita, ele registra a presença no mundo e talvez esteja atendendo a uma necessidade histórico-social de um tempo presente. Para desenvolver estudos sobre a autobiografia, Philippe Lejeune escreveu em 1971 o livro L’autobiographie en France, em que afirma ter registrado um inventário de textos autobiográficos e o funcionamento desse gênero. Logo após, escreveu “O pacto autobiográfico”, que foi publicado na revista Poétique e, em 1975, foi também publicado pela Editora Seuil, na França. Esse ensaio de Lejeune tenta definir o que é a autobiografia e estabelecer os limites do que pode ser considerado como autobiográfico. O estudo das postulações de Lejeune sobre a autobiografia foi um suporte teórico valioso para a escrita deste trabalho, pois nos ajudou a compreender muitos aspectos autobiográficos no livro que escolhemos para estudar: Migo. No Brasil, segundo Silviano Santiago (2002), houve um crescimento significativo do gênero autobiográfico após o regime militar de 1964 a 1985. Os escritores que retornaram do exílio em outros países sentiram necessidade de relatar as experiências dessa fase, quando chegaram ao Brasil. Darcy Ribeiro esteve exilado em países latino-americanos entre 1964 a 1976. No entanto, Ribeiro não escreveu imediatamente ao voltar do exílio e, só depois registrou, em livros, como Testemunho (1991) e Confissões (1997), as experiências do exílio. Dentre os romances escritos por Darcy Ribeiro, chamou-nos atenção o livro Migo, publicado em 1988, que é o objeto desta dissertação. Nessa obra, estão conjugados elementos biográficos, históricos, factuais e ficcionais que promovem um jogo entre ficção e realidade. Não se pode eleger um único gênero literário para Migo, pois vários gêneros literários encontram-se presentes nesse livro. O próprio narrador assim o define no primeiro capítulo do livro: “Só sei mesmo desse meu livro ─ diário? romance? biografia? ─ é seu nome provável. Migo.” (RIBEIRO, 1988, p.13). 10 Optamos por empreender uma leitura que leva em conta aspectos autobiográficos e, acreditamos, dessa forma, justificar o título escolhido para a dissertação “Migo: possibilidades autobiográficas”. Não pretendemos, nessa dissertação, demarcar os limites entre a vida e a obra do autor, pois esses limites não existem. É necessário observar que como aponta Antonio Candido havia uma tradição de textos autobiográficos e memorialísticos nos anos de 1970 e 1980, em Minas Gerais, como A idade do serrote, de Murilo Mendes (1968); Baú de ossos, de Pedro Nava (1972) e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade (1973). (CANDIDO, 1987, p.54). Percebemos que Migo está inserido nessa tradição de textos referidos. Migo é um livro de rememorações, em que o narrador Ageu de Sá Rigueira traz à tona lembranças da infância, dos amores, da juventude. Há nessa narrativa um jogo de identidades e, muitas vezes, Ageu Rigueira e Darcy Ribeiro, esse um Darcy Ribeiro ficcional, parecem ser um mesmo personagem. Darcy Ribeiro afirma em depoimento que em Migo há uma representação da vida que ele teria se tivesse permanecido em Minas Gerais. O narrador Ageu, em algumas partes do livro, refere-se às preferências, vivências e posições políticas de Darcy Ribeiro intelectual brasileiro. Em Migo, há homenagens a vários escritores com quem Ribeiro conviveu como Emílio Moura, Cyro dos Anjos, Hélio Pellegrino, Abgar Renault, Fernando Sabino, Autran Dourado, Edgar da Mata Machado e outros. Essa homenagem ocorre quando esses autores são mencionados durante a narrativa como amigos de Ageu, que também era escritor. O narrador Ageu Rigueira relata-nos o quase encontro com Mário de Andrade, refere-se a Oswald de Andrade e afirma que os maiores escritores de Minas Gerais são Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Lembra-se dos amigos de Darcy Ribeiro como Artur Versiani Veloso, Oscar Niemeyer, Glauber Rocha, Vera Brant, Leonel Brizola e outros. Ageu Rigueira demonstra ter fascínio pelo passado e comenta que o melhor da vida é recordar. Surgem até lembranças sobre o exílio de Darcy Ribeiro. Da política, outra face de Ribeiro, Ageu recorda-se de alguns políticos contemporâneos a Darcy Ribeiro como Tancredo Neves, José Sarney, Aureliano Chaves, Ulisses Guimarães, 11 José Aparecido, Newton Cardoso e outros. Sabemos, contudo, que o Darcy Ribeiro que aparece dentro da narrativa é parte da ficção e, portanto, é personagem de Ageu Rigueira. Como personagem, pôde exercitar a sua ironia e brincar como leitor. Num jogo de esconder-se e reaparecer, Darcy Ribeiro escreveu um livro planejado, em que é personagem de si mesmo. Ao nos deparar com esse livro planejado, Migo, percebemos ter encontrado um objeto de estudo adequado à Linha de Pesquisa: Literatura e Memória Cultural da Área de Concentração: Teoria Literária e Crítica da Cultura do Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João del-Rei. As leituras iniciais foram exigindo suporte teórico para a formulação do projeto de pesquisa. Inicialmente, pareceu-nos difícil manter um distanciamento em relação ao livro Migo, devido ao entusiasmo pela descoberta do objeto. Aos poucos, através de leituras de teorias literárias e orientação, o trabalho foi ganhando novos rumos e apresenta a atual configuração. Esse trabalho é composto por três capítulos. No primeiro capítulo descrevemos uma breve biografia intelectual de Darcy Ribeiro, nesse capítulo relatamos a trajetória do etnólogo, sociólogo, educador, político militante e escritor. A ênfase dada ao perfil biográfico de Darcy Ribeiro intelectual teve, no mínimo, duas intenções: contextualizar o autor de Migo e retratar a vida intelectual desse escritor que vai ecoar na vida intelectual da principal personagem do livro estudado: Migo. Fizemos referência, a partir de textos biográficos escritos por Darcy Ribeiro, como por exemplo, Testemunho (1991) e Confissões (1997), a fatos que ocorreram com Darcy Ribeiro, nos anos de 1940, momento em que era estudante em Belo Horizonte. Encontramos dados da formação de Ribeiro como sociólogo, em São Paulo e, posteriormente, a fase de sua convivência com indigenistas. Por volta de 1955, Darcy Ribeiro aproximou-se de Anísio Teixeira, criador do INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), quando ambos passaram a defender a educação pública. Lembramos a criação da Universidade de Brasília, o exílio na América Latina, a prisão no Brasil, os desafios para enfrentar o primeiro câncer, no pulmão, e, por fim, o seu retorno do exílio. 12 No segundo capítulo, abordamos a arquitetura do livro Migo, que é bastante provocativa. A narrativa é escrita em primeira pessoa por Ageu Rigueira, um narrador, às vezes, irônico e que relembra fatos da própria vida. Iniciamos abordando o enredo, que traz a trajetória de Ageu Rigueira. Logo após, de acordo com reflexões teóricas de Antoine Compagnon (1996), buscamos compreender a epígrafe, o “Roteiro” e o “Sumário” do livro e o efeito provocado por esses elementos na narrativa. Destacamos Ageu Rigueira como alter ego de Darcy Ribeiro de acordo com Haydèe R. Coelho (1997) e encontramos outros personagens também como desdobramentos do narrador tais como Gê, Elmano e Stela. “Esse Gê, você já cansou de saber, sou eu mesmo. Ele sou aquele eu que eu houvera sido, se ficasse em Minas. [...] Stela também sou eu, em mulher.” (RIBEIRO, 1988, p.367). Além disso, tentamos encontrar na obra explicações para o título Migo, que se mostra uma redução da forma pronominal “comigo”, e ainda procuramos entender as possíveis significações do que seja esse “Migo” dentro da narrativa. No terceiro capítulo, estudamos a escrita memorialística em Migo. Abordamos a “autoficção”, termo criado sobre Serge Doubrovsky em 1977 a partir dos estudos sobre a autobiografia, destacamos Darcy Ribeiro como personagem de seu próprio livro, alguns trechos de lembranças relevantes para o narrador e relatamos a existência de capítulos metaficcionais que teorizam sobre a escrita, sobre a memória, sobre o que é romancear. “Saudades de mim. Saudades de meus idos, dos sidos e dos que deveriam ter sido. Romancear enredos é curtir saudades de mim na carne dos heterônimos que me dou.” (RIBEIRO, 1988, p.42). Em nossas considerações finais, tentamos mais uma vez justificar o nome deste trabalho. Descrevemos os poucos trabalhos acadêmicos que encontramos sobre Migo. Comentamos a linguagem utilizada na narrativa. Não tivemos intenção de abarcar todos os aspectos da obra, focalizamos os aspectos autobiográficos. Acreditamos que Migo abre possibilidade para novos olhares, novas pesquisas. Em uma passagem do livro, o narrador de Migo tece reflexões sobre os romances como “espelhos de palavras refletindo mundos não havidos, mas que bem podiam ─ até deviam ─ ter sido. [...] Esse poder de enredar conferindo existência a 13 personagens [...] é o encanto mágico da literatura”. (RIBEIRO, 1988, p.135). Esse trecho revela a sutileza da construção ficcional e quando Ageu Rigueira utiliza a metáfora do espelho que reflete “mundos não havidos” está se referindo claramente à possível vida de intelectual mineiro que Darcy Ribeiro teria se tivesse permanecido em Minas Gerais. Migo traz uma narrativa fragmentada, sem uma sequência cronológica no sentido tradicional da narrativa. Cada capítulo é, de certa forma, independente e por esse motivo foi necessário um número elevado de citações, pois o texto desta dissertação exigiu que passagens fossem citadas com certa generosidade. Quanto à ortografia, optamos por manter nas citações a grafia original em que foram escritas, quase todas anteriores à última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa. Darcy Ribeiro pode ser considerado um intérprete do Brasil, deixou um acervo sobre pesquisas na área de Antropologia, fez intervenções na educação do país, teve uma representatividade no cenário político nacional e escreveu cinco romances. Curioso nos parece o fato de ele mesmo ter criado em 1996 a FUNDAR (Fundação Darcy Ribeiro), para abrigar seus livros, objetos de arte e sua memória. Essa fundação abriga mais de trinta mil livros, o arquivo de Darcy Ribeiro praticamente completo e o arquivo, em fase de acabamento, da antropóloga Berta Gleiser, a primeira esposa de Ribeiro. Darcy Ribeiro faleceu um ano depois da criação da FUNDAR. Essa prática de arquivar documentos, livros, quadros e objetos de arte revelam a necessidade de “arquivamento do eu”, apontam para o temor de ser esquecido e para o desejo de perpetuar-se, desejo semelhante ao que ocorre em uma autobiografia. 14 CAPÍTULO I: PERCURSO INTELECTUAL DE DARCY RIBEIRO Intelectual não é flor que se cheire. (Darcy Ribeiro) Silviano Santiago (2002), em seu ensaio “Prosa literária atual no Brasil”, discute a possibilidade de profissionalização do escritor brasileiro e a diversidade do gênero romance. Considerava que o trabalho literário do jovem escritor brasileiro poderia deixar de ser um passatempo ou uma atividade casual para que esse pudesse dedicar-se à escrita em tempo integral como ocorre com os escritores europeus, americanos ou hispano-americanos. (p.28). Entretanto, faz um alerta aos jovens escritores que não podem fugir da realidade econômica e das interferências editoriais sobre sua produção escrita, pois não devem se deixar manipular pelos desmandos mercadológicos, devem sim reagir e tomar uma posição crítica em relação ao que escrevem. Quanto à diversidade do gênero romance, parece que a prosa no Brasil das décadas de 70 e 80 revela uma anarquia formal, anarquia no sentido de vivacidade do gênero e criatividade do romancista. Duas linhas de romances dessa época de repressão política são a tendência ao memorialismo e à autobiografia. O memorialismo é um forte legado do modernismo brasileiro. Ele afirma que políticos, pessoas influentes, artistas e educadores que foram obrigados a sair do Brasil, devido ao golpe militar de 64, voltaram ao país à medida que o regime militar perdia poder. No momento em que esses exilados retornaram, houve uma avalanche de publicação de narrativas autobiográficas. “A forma autobiográfica ganha força e toma pé com o retorno dos exilados, logo porém extrapola os limites da simples experiência guerrilheira [...]”. (SANTIAGO, 2002 p.38). Percebe-se que, “nos jovens políticos, o relato descuida-se das relações familiares do narrador/personagem, centrando todo o interesse no envolvimento político do pequeno grupo marginal”. (Ibidem, p.37-39). De acordo com Santiago (2002), se formos comparar, “o texto modernista é memorialista (apreensão do clã, da família), enquanto o dos jovens políticos é legitimamente mais autobiográfico (centrado no indivíduo)”. (Ibidem, p.38). 15 Flora Süssekind em seu livro Literatura e vida literária: polêmicas, diários e retratos (2004) afirma que a literatura no Brasil após 1964 remete a duas vertentes: “[...] de um lado, o naturalismo evidente dos romances-reportagem ou disfarçado das parábolas e narrativas fantásticas; de outro, „a literatura do eu‟ dos depoimentos, das memórias, da poesia biográfico-geracional.” (p.72). Migo foi criado por um escritor que viveu muitos anos no exílio pós-64 e pertence à categoria da literatura do “eu” como veremos durante este trabalho. Nesse contexto de narrativas de exilados que retornam ao país e, portanto da avalanche de narrativas memorialísticas, surge o livro Migo, de Darcy Ribeiro, publicado em 1988, que constitui o corpus desta dissertação. Migo não aborda, entre tantos aspectos biográficos, o exílio de Darcy Ribeiro durante o Regime Militar no Brasil. Sabe-se que com o golpe militar de 1964, Darcy Ribeiro teve seus direitos políticos cassados e esteve exilado durante os anos 60 a 70 em países da América Latina como Uruguai, Venezuela, Chile e Peru. Ele retorna ao Brasil somente em 1976, passando a dedicar-se ainda mais à carreira política, elegendo-se, em 1982, vicegovernador do Rio de Janeiro. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.105). Entretanto, podemos dizer que em Migo, escrito nos anos de 1980, o escritor retrata metaforicamente um exílio em Minas Gerais. O personagem principal e narrador é Ageu de Sá Rigueira, um intelectual mineiro que vive recolhido na Belo Horizonte dos anos 1940, convivendo apenas com poucos amigos que o visitavam. E como o perfil de intelectual é uma das peles de Darcy Ribeiro, sentimos necessidade de refletir sobre a função que exerceu como intelectual. Para Darcy Ribeiro, Migo é uma espécie de retrato psicológico do intelectual na sua forma de romancista provinciano e um mergulho na mineiridade. É, na verdade, um romance confessional em que me mostro e me escondo, sem fanatismos autobiográficos. Mais revelador, porém, acho eu, do que sou e do que penso, do que seria possível na primeira pessoa. (RIBEIRO, 2009, p.195). 16 Segundo depoimento do próprio autor, publicado em Darcy Ribeiro da coleção “Encontro com escritores”, livro organizado por Haydée Ribeiro Coelho (1997), a escrita do livro Migo se deve a um acontecimento na vida política do autor. Em 1987, ele fora convidado pelo então governador do Estado de Minas Gerais, Newton Cardoso, para implantar, em Minas, um sistema de escola nos moldes dos CIEPs (Centro Integrado de Escolas Públicas) do Rio de Janeiro.1 A empreitada não se mostrou muito profícua. Rapidamente, Darcy Ribeiro, insatisfeito com o que viu e testemunhou nas Minas Gerais, desistiu da encomenda. Nasceu, porém, dessa visita ao seu estado natal, o desejo de escrever um livro que transmitisse um sentimento duplo, nostálgico em relação aos anos 40, 42 e 43 vividos em Belo Horizonte, quando então estava em Belo Horizonte como estudante e pôde conviver com Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos. Ao mesmo tempo, esse livro, Migo, deveria ser crítico em relação às anacrônicas tradições mineiras. Além disso, desejou constituir através da ficção, o intelectual que poderia ter sido se nunca tivesse saído de Minas. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.47-48). Conforme Stuart Hall (2006), o sujeito na pós-modernidade não possui uma identidade “fixa, essencial ou permanente”, vai assumindo diversas identidades exigidas pelas interpelações históricas e culturais da época em que vive. Dessa forma, “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um „eu‟ coerente”. (Op. cit., p.13). Desse processo, resultam identidades que se contradizem, que são impelidas em variadas direções, que são continuamente deslocadas. Essas contradições identitárias podem ser percebidas na narrativa de Migo, pois o narrador, o autor e algumas personagens assumem identidades que se misturam, que se contradizem, construindo um verdadeiro “patchwork barthesiano”. 1 Os CIEPs foram centros de educação idealizados por Darcy Ribeiro quando atuara como Secretário de Estado de Cultura, durante o período do governador Leonel Brizola (1982 a 1987 de) no Rio Janeiro. Esses centros tinham como objetivo oferecer educação de horário integral a 1000 crianças e se caracterizavam por alimentar os alunos, oferecer ginástica, recreação, banho. (RIBEIRO, 2009, p.183). 17 Ageu de Sá Rigueira, o Gê, narrador-personagem de Migo, é um intelectual sisudo, ex-professor aposentado, que quase não sai de casa. Em alguns momentos da narrativa, há uma mescla de identidades entre o narrador e o autor, provocando um jogo ficcional. Esse Gê, você já cansou de saber, sou eu mesmo. Ele sou aquele eu que eu houvera sido, se ficasse em Minas. Gê não é o mineiro, nem a mineiridade. É só um mineiro, tão diferente dos outros como cada um deles é. Gente variada assim, estou pra ver. (RIBEIRO, 1988, p.367). O narrador brinca com o leitor durante boa parte da narrativa, ora negando que Gê e Darcy Ribeiro sejam um só, ora admitindo que os dois sejam mesmo um só personagem. Você terá percebido nesta altura que eu, autor deste livro, pouco tenho a ver com esse tal Gê, não é? Ele é meu personagem que desembestou. Sai por aí em estripulias, me obriga a retratá-lo como ele quer ser e depois, me impõe essas advertências e retificações. Imaginação solta dá nisto: desatinos. (Ibidem, p.212). Isto de viver desdobrado em dois, eu mesmo e eu em duplicata, é meu gozo de romancista. Curto demais. Tanto que não me arrisco a voltar a ser eu só, na rotina insípida que é minha vida sem Gê. A minha vida e a sua, não é mesmo? (Ibidem, p.303). Esse jogo identitário entre narrador Ageu Rigueira e autor Darcy Ribeiro reforça o que o próprio autor afirma a respeito de uma biografia do possível. “Migo uma espécie de retrato psicológico do intelectual”, ele afirma. (RIBEIRO, 2009, p.195). Para ele Migo é uma possibilidade, o que poderia ter sido, o que poderia ter acontecido caso não tivesse saído de Minas Gerais e ido estudar em São Paulo e não tivesse empreendido a sua trajetória política. Ageu Rigueira tem estreita ligação autobiográfica 18 com Darcy Ribeiro. E isso reforça mais uma vez a estreita relação identitária entre narrador e autor de Migo. Darcy Ribeiro foi um intelectual respeitado e teve reconhecimento pelos livros que publicou e por sua atuação política. Em 1992, por exemplo, ingressou na Academia Brasileira de Letras, tornou-se um respeitado antropólogo pela experiência que obteve convivendo com os índios, pelas reflexões que empreendeu, publicando vários livros como Sobre o óbvio (1979), Utopia selvagem (1982), Suma etnológica brasileira (1986), Aos trancos e barrancos (1985/1987), Migo (1988), Testemunho (1991/2009), O povo brasileiro (1995), Diários índios (1996), Mestiço é que é bom (1997), Gentidades (1997), América Latina Nação (1998), dentre outros trabalhos. Recebeu vários títulos de Doutor Honoris Causa no Brasil e no exterior, o que comprova o reconhecimento obtido dentro e fora do país. Os títulos de Doutor Honoris Causa lhe foram concedidos pela Universidade da República Oriental do Uruguai, pela Universidade de Paris-Sorbonne, pela Universidade de Copenhague, Dinamarca, pela Universidade de Brasília e pela Universidade Central da Venezuela. Segundo Haydée R. Coelho, para se discutir a obra de Darcy Ribeiro é preciso pensar em “sua atuação como etnólogo indigenista, como educador, como político militante e como ensaísta”. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.15). Essas atividades surgem interligadas em seus livros ficcionais, encenadas pelos seus personagens e enredadas pela memória. Em suas obras estão presentes o político, o escritor e principalmente o intelectual. 1.1. Fase embrionária de Darcy Ribeiro Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros, em outubro de 1922, e faleceu em Brasília, em 17 de fevereiro de 1997. A cidade de Montes Claros de sua infância contava com um número próximo de vinte mil habitantes. Era uma cidade plana, as casas tinham quintais com árvores frutíferas. Em suas ruas, transitavam carros de bois carregados de lenha para vender, cavalos e tropas de burros. Essa descrição é ficcional, pois foi retirada do livro Confissões também de Ribeiro. Não sabemos até que 19 ponto corresponde à realidade de Montes Claros naquela época. (RIBEIRO, 1997, p.1516). Filho de Reginaldo Ribeiro dos Santos, seu Naldo, e de D. Josefina Augusta da Silveira Ribeiro, mestra Fininha, o menino Darcy perdeu o pai aos três anos. Por isso afirmava que “não fui domesticado por ele. E como não tive filhos, nunca domestiquei ninguém. Dessas carências vem o traço principal do meu caráter, que é a coragem de me ser, gostem ou não gostem.” (RIBEIRO, 1997, p.29). Era uma criança alegre e aventureira, o que lhe custou algumas surras. Aos quatorze anos, despertou para a leitura: Alexandre Dumas, Michel Zevaco, Ponson du Terrail, Victor Hugo, Augusto dos Anjos, enfim, sua leitura era baseada no que dispunha em Montes Claros. Despertou também para o cinema: Carlitos, o Gordo e o Magro, os heróis de faroeste, horrores, aventuras e tantos outros enredos. (RIBEIRO, 1997, p.35-53). Dessa fase, Darcy Ribeiro gostava de relatar Tamanha devoção às letras significou para mim abrir mão de umas tantas coisas. Não fui o médico que prometi a mamãe nem fui o fazendeirão em que quiseram me transformar. Fui um professor querido, um funcionário devotado, mas só me dediquei mesmo aos ofícios e vícios de leitor e escritor. (Ibidem, p.54). A vocação de Darcy Ribeiro para a vida de escritor de livros de antropologia e de livros literários já despontava na adolescência, quando nasceu o leitor que deu origem ao escritor. Saiu de Montes Claros em 1939 para estudar Medicina em Belo Horizonte, satisfazendo uma vontade de sua mãe. De acordo com o livro Confissões (1997), Darcy Ribeiro ficou sabendo, nesse período, que podia frequentar algumas aulas de outras faculdades. Ficou maravilhado com a Faculdade de Direito, onde fez algumas disciplinas. Dessa maneira, cabulava as aulas de Medicina e não conseguia ser aprovado nunca. Pensou em suicídio, pois estava com muita vergonha das reprovações no curso de medicina. Acabou desistindo de ser médico. (RIBEIRO, 1997, p.82). 20 Na universidade mineira, assistiu a muitas aulas de Literatura, Filosofia e Direito. Ribeiro foi positivamente influenciado por alguns professores. Guilhermino César, na Literatura; Artur Versiani Veloso, na Filosofia; Orlando de Carvalho, no Direito; Ayres da Mata Machado “encantador, sorrindo doce, ao contar episódios bizarros e da história de Minas”. (Ibidem, p.73). Dos anos 1940 a 1944, além dos passeios pela Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, Ribeiro entrou em contato com a poesia modernista de Carlos Drummond de Andrade. Naquela época, o Brasil era governado por Getúlio Vargas. Esse foi o presidente brasileiro que permaneceu no poder por mais tempo (1930-1945 e 19511954). Vivia-se o Estado Novo, instaurado no país sob a ditadura varguista (19371945). Em janeiro de 1942, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial. A Era Vargas chegou ao fim após a Primeira Guerra Mundial. (CARVALHO, 1999, p.55-82). Nessa fase histórica efervescente, Darcy Ribeiro residia em Belo Horizonte para estudar e começou a tomar consciência das questões histórico-sociais que estavam ocorrendo; ainda muito jovem, chegou a ser convocado pela FEB, mas o recusaram por ele ser raquítico. Filiou-se ao Partido Comunista, oportunidade em que teve acesso a textos sobre Marx, Freud, Nietzche e Schopenhauer. (RIBEIRO, 1997, p.80). 1.2. Etnólogo indigenista Em 1946, Darcy Ribeiro mudou-se para São Paulo e integrou-se a um grupo intelectual paulista, no qual exerceu seu ativismo político no Partido Comunista. “A militância comunista envolvia toda a minha vida. Perseguido pela polícia, vivia abrigado na casa de judeus liberais que me davam de tudo.” (RIBEIRO, 1997, p.136). Desse grupo faziam parte Portinari, Caio Prado Júnior, Jorge Amado, Oswald de Andrade entre outros. Na capital paulista, formou-se pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, especializando-se em Etnologia. Durante a Segunda Guerra, São Paulo transformou-se em um centro de excelência de estudo de Ciências Sociais. Passaram por lá pensadores ilustres como Lévi-Strauss, Radcliffe-Brown, Herbert Baldus, Emilio 21 Willems, Donald Pierson e outros. Assim se configurou o meio intelectual que influenciou Darcy Ribeiro na sua formação profissional e intelectual. (RIBEIRO, 2009, p.33-34). Depois que se formou, queria ser militante revolucionário no Partido Comunista, mas os dirigentes do Partido dispensaram-no, aconselhando-o a seguir a carreira de sociólogo. Partiu para o Rio de Janeiro para procurar emprego, conheceu o Marechal Rondon2, que o contratou como naturalista para trabalhar com os índios em Mato Grosso. Ainda não havia o cargo de antropólogo no Brasil. (RIBEIRO, 2010, p.8). Visitou várias tribos para estabelecer comparação com os costumes dos índios com quem iria trabalhar: conheceu os Terena, os Kaiwá e os Ofaié, no sul de Mato Grosso. Em seguida, dedicou-se aos índios kadiwéu, no Pantanal. Partiu para a Floresta Amazônica para estudar os Urubus-Kaapor, contava com o linguista Max Boudin e com o cineasta Heinz Foerthmann em sua equipe, com os quais fez um documentário cinematográfico: Um dia de vida numa Tribo da Floresta Tropical. (RIBEIRO, 1991, p.260). Em entrevista concedida a CPDOC (1978), afirma que Na realidade, quando fui para a tribo, com a tribo é que eu aprendi, a ser etnólogo. A primeira tribo que eu fui estudar, os Kajueu, um grupo Waikuru de Mato Grosso... No convívio com eles é que aprendi a ser etnólogo, aprendi a observá-los. Tomei alguns cuidados assim por esperteza, por malícia. Por exemplo, fiz um estudo rápido de três outras tribos antes de chegar lá, para eu ter um ponto de comparação, para não ver os meus índios como os primeiros que se vê. Isso me ajudou depois. O certo é que sempre fui muito obsessivo, e quando comecei a fazer Etnologia Indígena, fiquei nisso durante dez anos quase. (RIBEIRO, 2010, p.11-12). 2 O Marechal Rondon (1865-1958) idealizador do Parque Nacional do Xingu e criador do Serviço Nacional de Proteção ao Índio. Abriu estradas no sertão, expandiu o telégrafo e ajudou a demarcar as terras indígenas. Foi considerado Grande Chefe pelos índios. Em 1956, Rondon recebeu uma homenagem, foi dado ao Território do Guaporé o seu nome, atual Estado de Rondônia. (Marechal Rondon. Disponível em <http://www.funai.gov.br/indios/personagens/rondon.htm>, acesso em 23/11/2012, às 15h e 39min.). 22 Darcy Ribeiro publicou, em 1950, Religião e Mitologia Kadiwéu, sobre a religião e os costumes dos índios Kadiwéu. Através dessa obra, recebeu o Prêmio Fábio Prado de Ensaios, outorgado pela Associação de Escritores de São Paulo, ainda em 1950. Viveu entre os índios por quase dez anos, entre 1946-1955, e, através de suas descrições e relatos no livro O Povo brasileiro (2006) e de outras fontes, pode se pensar que Darcy Ribeiro, vivendo tão próximo aos índios, criou com eles um forte vínculo. No livro Confissões (1997), há uma descrição dos índios Kaapor que exemplifica esse vínculo. Uma das coisas que mais me encantam nos meus Kaapor é sua vivacidade sempre acesa e sua curiosidade voraz. Ela só se compara às outras altas qualidades deles, que são um talento enorme para a convivência solidária e a veemente vontade de beleza que põem em tudo que fazem. Dói ver como tudo isso se perdeu para nós. (Ibidem, p. 187). Dessa convivência com os indígenas, apresentou ao Marechal Rondon vários projetos no sentido de prestação de serviço e proteção aos índios, como a criação do Museu do Índio, construído no Rio de Janeiro em 1953 e a formulação do projeto de criação do Parque Indígena Xingu, em 1954. O Museu do Índio funciona atualmente na Rua das Palmeiras, no bairro Botafogo, possui um site oficial. O Parque Indígena Xingu foi criado em 1961. Ainda em 1954, Darcy Ribeiro fez a sua primeira viagem à Europa, foi à Suíça, porque havia sido chamado pela Organização Internacional do Trabalho, que convidou antropólogos de vários países para a preparação de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. (RIBEIRO, 2009, p.14-15). Essa “pele” de etnólogo indigenista vai repercutir em muitos de seus livros sobre antropologia, ou seja, na “pele” de escritor, inclusive, na sua obra ficcional. O melhor exemplo é o livro Maíra (1976), em que Ribeiro ficcionaliza o universo indigenista que conheceu bem de perto e recorda as vivências. Maíra é uma narrativa 23 perpassada por outras narrativas. Traz a história de Isaías e de seu povo indígena mairum. Ele, um índio desterritorializado, volta a sua tribo para recuperar sua identidade indígena, mas isso não é possível. A tribo mairum foi criada com base nos conhecimentos do autor sobre as tribos indígenas com as quais conviveu. Isaías, nome cristão do Avá, é um dos principais elos entre o mundo indígena e o mundo dos brancos. Ao voltar de Roma, conhece Alma Freire em Brasília. Ele é índio; ela, branca. Isaías é o membro da Ordem Missionária e é, ao mesmo tempo, o Avá do Clã Jaguar, o escolhido para substituir o chefe Anacã do povo Mairum. Decide voltar ao Brasil, a sua aldeia, ao seu povo. Alma Freire é branca, carioca, quer afastar-se de suas raízes, quer fugir da cidade, fugir de seu passado. Ele quer voltar às suas origens. Isaías e Alma vão para a cidade de Naruai. Ela pretende se tornar missionária, buscar para si um amparo na vida religiosa. Quando Isaías e Alma chegam à aldeia, há um grande estranhamento entre ele e os índios. Alma convive com os índios como eles são. Isaías não consegue desligar-se do mundo em que foi educado e passa a ver os seus irmãosíndios com preconceitos sociais e religiosos dos brancos. Sofre com sua existência ambígua. Voltou à sua tribo, casou-se com a índia Inimá, mas permanece isolado e sem tomar atitudes, quase não consegue trabalhar. Não é mais um candidato ao cristianismo, tampouco um índio mairum. Alma cuida de ferimentos dos índios, passa a servi-los como uma deusa do amor. Alcança uma plenitude com os mairuns que o próprio Isaías não consegue. Fica grávida de gêmeos, morre. (RIBEIRO, 2007). A referência aos índios percorre grande parte da obra de Darcy Ribeiro. Está também presente no livro Migo, no capítulo “Índios” em que o narrador relata a visita do personagem Carlos Moreira a Ageu Rigueira. Nesse encontro, Moreira leva para Ageu documentos com registros detalhados sobre a chacina a que foram submetidos os índios que sobreviveram em Minas, no período do Segundo Reinado. (RIBEIRO, 1988, p.257). Afastou-se temporariamente dessa temática, quando foi atraído pelas causas da educação no Brasil. 24 1.3. Parceria com Anísio Teixeira Anísio Teixeira foi importante educador e escritor no Brasil nos anos de 1920 e nos anos de 1930. Formou-se em Direito na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade do Rio de Janeiro, em 1922. Na Universidade de Columbia nos Estados Unidos, cursou e concluiu o Mestrado em Educação, em 1928. Voltou ao Rio de Janeiro em 1931 e foi convidado pelo Ministro da Educação, Francisco Campos, para cuidar do ensino secundário. Ainda em 1931, foi nomeado pelo prefeito Pedro Ernesto (1931-1935) para a Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal. Nessa fase, liderou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932). Participou ativamente na Associação Brasileira de Educação (ABE). Demitiu-se em 1935, diante de pressões políticas que impossibilitaram a sua permanência no cargo. Afastou-se do Distrito Federal, indo para o interior da Bahia. Entre 1937 e 1945, durante a segunda guerra, esteve afastado da vida pública. (MICELI, 1979 p.168-171). Em 1946, a convite de Julien Huxley3, assumiu o cargo de Conselheiro de Ensino Superior da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), retomando suas atividades na área educacional. Tornou-se secretário da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior) em 1951. No ano seguinte, assumiu também o cargo de diretor do INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos). Criou, então, o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) para propor estudos antropológicos e sociológicos sobre a realidade brasileira. Anísio Teixeira já havia se constituído como autoridade na área da educação em nosso país quando conheceu Darcy Ribeiro. Aliado a Anísio Teixeira, em 1955, Darcy Ribeiro organizou, sob o patrocínio da CAPES o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia Cultural no Brasil, no Museu do Índio, no Rio de Janeiro. Passou a lecionar Etnografia Brasileira e Tupi na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Ingressou em uma equipe da UNESCO a fim de estudar as relações inter-raciais no 3 Britânico, nascido em 1887. Filósofo, educador e escritor. Ele desempenhou um papel de liderança na criação da UNESCO. 25 Brasil. Nessa época, Ribeiro já era reconhecido como intelectual no país, pois aliava o seu conhecimento adquirido na convivência com os índios à promoção de cursos para compartilhar sua experiência. Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira lutaram em defesa da escola pública no Congresso Nacional na fase de estruturação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Essa lei só foi aprovada em 1960. O que ambos propunham era uma educação popular. “Aquela foi uma luta memorável em que o melhor da intelectualidade lúcida e progressista se opunha à reação comprometida com o privativismo que condena o povo à ignorância.” (Ibidem, p.101). O que eles desejavam era garantir ao povo uma educação de qualidade, gratuita e sem envolvimento com os interesses religiosos. Além da defesa da escola pública, Darcy Ribeiro colaborou com Anísio Teixeira através de seus conhecimentos sobre Antropologia. Anísio Teixeira contratou Darcy Ribeiro em 1957, para assumir a direção do CBPE (Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais) do Ministério da Educação e Cultura. Esse centro de pesquisas sociológicas e antropológicas tinha como objetivo dar aos líderes da política educacional brasileira informações imprescindíveis sobre a sociedade e a cultura brasileira. Como diretor do CBPE, Ribeiro conduziu alguns programas de estudos e pesquisas de campo em que focalizou temas culturais e educacionais no Brasil. 1.4. UNB: Universidade de Brasília De acordo com o livro Confissões (1997), foi um grande acontecimento para Darcy Ribeiro a eleição de Juscelino Kubitschek para Presidente da República. Porém, foi contrário ao projeto do presidente em relação à construção de Brasília. Acreditava que reaver um plano de Couto Magalhães para retomar a navegação do Rio Araguaia seria mais útil para o Brasil do que uma construção de uma cidade no sertão goiano. Mudou de opinião quando percebeu que o plano de Couto Magalhães era inviável, pois não atenderia às pequenas propriedades. Darcy Ribeiro passou a apoiar a criação da nova capital. 26 O plano de construção de uma cidade como Brasília, segundo Darcy Ribeiro, constava na Constituição de 1891, entretanto nenhum presidente anterior a 1956 teve ousadia suficiente para executar tal projeto. Victor Nunes Leal, mineiro, amigo de Darcy Ribeiro, promoveu a aproximação do amigo com o Presidente Juscelino Kubitschek. Ao ver o plano de Lúcio Costa “a cidade inventada, a cidade mais prodigiosa do mundo”, Ribeiro empolgou-se, principalmente, porque o arquiteto-chefe seria Oscar Niemeyer. Havia, no plano urbanístico de Brasília, um local destinado à construção da universidade. Apesar de temores iniciais, Juscelino Kubitschek decidiu que haveria uma universidade em Brasília. Essa decisão teve influência de Victor Nunes Leal. Quando eles voltaram de uma viagem aos Estados Unidos para visitar a Universidade de Virgínia, Victor Leal disse ao Presidente que “os pais-fundadores daquela nação tiveram como preocupação fundamental ali implantar universidades.” (RIBEIRO, 1997, p.258). O Presidente Juscelino Kubitschek nomeou Darcy Ribeiro para chefiar um estudo para a criação da Universidade de Brasília. Anísio Teixeira, Cyro dos Anjos e o arquiteto Oscar Niemeyer também compunham o grupo de estudo para planejar a instituição. Na inauguração de Brasília, em 1960, o Presidente Juscelino Kubitschek enviou ao Congresso Nacional a solicitação da referida Universidade. (RIBEIRO, 2010, p.22-23). Quando tudo parecia transcorrer bem, Dom Hélder Câmara, Secretário Geral da CNBB (Conselho Nacional dos Bispos do Brasil), manifestou também o interesse em criar uma universidade em Brasília, mas tinha que ser católica. Os jesuítas estavam empenhados nessa criação, afirmando que a universidade principal de Washington era Católica. O presidente ficou em dúvida sobre qual projeto seria o mais viável; o que havia incumbido ao grupo composto por Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos e Oscar Niemeyer ou o projeto de Dom Hélder Câmara. Essa notícia foi desesperadora para Darcy Ribeiro, o qual logo se lembrou dos freis dominicanos, opositores à ordem jesuítica. Procurou Frei Mateus Rocha, chefe da ordem dos dominicanos, e pediu-lhe que interferisse junto ao Papa João XXIII, informando-lhe que já havia oito universidades católicas no Brasil e que, no entanto, essas instituições não formavam 27 teólogos. Darcy Ribeiro sabiamente prometeu criar um Instituto de Teologia Católica, caso eles apoiassem a criação da Universidade de Brasília. Frei Mateus Rocha, atendendo ao pedido de Darcy Ribeiro, foi lá. Foi lá falar, primeiro, com o Papa Branco, com o Papa dos dominicanos. Ganhou o Papa dos dominicanos. Junto com ele foi ao João XXIII. E chegou o Frei Mateus, daí a um mês, com as obras do João XXIII dedicadas a Darcy Ribeiro. Estão na biblioteca da Universidade do Brasil, onde devem estar. O único brasileiro que recebeu, do São João XXIII, as obrinhas dele com dedicatória. É marroquim vermelha a capa. (RIBEIRO, 2010, p.45-46). A Igreja Católica apoiou a construção da Universidade de Brasília desde que fosse construído o Instituto de Teologia Católica lá. Juscelino Kubitschek autorizou a continuação dos projetos da criação da Universidade. O Instituto de Teologia foi realmente instaurado e ficou sob os cuidados dos dominicanos, representados por Frei Mateus. Observamos, nesse fato, o carisma de Darcy Ribeiro e a sua habilidade de negociação e articulação política. Jânio Quadros assumiu a Presidência da República, em 1961, reafirmou a posição de Darcy Ribeiro frente à construção da Universidade. Assim que implantaram a Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro tomou posse como primeiro reitor. Apesar de ter sido planejada no governo do Presidente Juscelino Kubitschek, a universidade só foi inaugurada em 1962. (RIBEIRO, 1991, p.271-272). Para o pesar de seus criadores, “a realização de ver a UnB erguida durou pouco tempo, tendo seu projeto original sido totalmente destruído pelo golpe militar de 1964.” (FARIA & VIEIRA SILVA, 2008, p.132133). Em 1962, Hermes Lima, primeiro-ministro do Governo do Presidente João Goulart, nomeou Darcy Ribeiro como Ministro da Educação e Cultura, cargo que exerceu por um curto período de tempo, somente de 1962 a 1963. E é nessa fase que a Lei de Diretrizes e Bases de Educação Nacional 4024/61 entrou em vigor. A conquista mais importante para Darcy Ribeiro como Ministro da Educação foi “a campanha de 28 escolarização de todas as crianças e de alfabetização dos adultos.” (RIBEIRO, 2009, p.116). Essa campanha mobilizou educadores, artistas e voluntários em várias partes do país. Uma vez mais reforçamos a simultaneidade de pensamento e ação de Darcy Ribeiro. No livro Testemunho (2009), Darcy Ribeiro comenta que a sua nomeação para o Ministério da Educação e Cultura havia gerado um mal-estar entre seus amigos intelectuais. Era como uma atitude extraordinária à carreira intelectual. Esse incômodo pode ser explicado, pois não era comum naquela época que um intelectual assumisse tal cargo, que geralmente era delegado a políticos de carreira. Como Ministro da Educação e Cultura, implantou o primeiro Programa Nacional de Educação, para atender aos ensinos primário, médio e superior. Além disso, continuou com uma campanha para induzir as universidades a realizar uma autocrítica e uma reestruturação. Para as universidades federais, a sua primeira sugestão era que se aumentasse o número de matrículas que elas ofereciam. (RIBEIRO, 2009, p.115-117). Entre outras atitudes concretizadas como Ministro de Educação houve a criação da Pequena Biblioteca do Professor. Essa biblioteca constava de onze volumes de livros que foram enviados a cerca de 300 mil professoras primárias para que elas pudessem se preparar melhor para as suas aulas. Conseguiu também, ao lado de Anísio Teixeira, que nessa época era membro do Conselho Federal de Educação, verbas federais de educação para os Estados, ajudando primeiramente os Estados mais pobres. A parceria de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira na educação foi bem-sucedida porque souberam persuadir políticos poderosos a apoiar os projetos de ambos nessa área. Jânio Quadros foi um dos primeiros a ser convencido por eles a fazer da educação a meta fundamental de seu governo. Darcy Ribeiro obteve mais sucesso ao lado de Leonel Brizola, que foi seduzido pelo sonho de muitos educadores brasileiros: a escola primária em tempo integral. Assim, construíram os CIEPS (Centro Integrado de Escolas Públicas) no Rio de Janeiro. Em março de 1987, deixaram prontos 127 CIEPS, que posteriormente foram abandonados. 29 1.5. O exílio no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru Durante o exercício do cargo de Ministro da Educação e Cultura, houve um convívio mais próximo de Darcy Ribeiro e o Presidente João Goulart. Esse ao mudar o ministério, convidou Ribeiro para deixar o Ministério da Educação e Cultura e assumir a Chefia da Casa Civil. Em 1964, Darcy Ribeiro era Chefe da Casa Civil do Presidente João Goulart e, com a eclosão da ditadura, viu-se obrigado a fugir do Brasil e pedir exílio no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru. (RIBEIRO, 2009, p.118-119). Edward W. Said (2005), em seu livro Representações do Intelectual, discute o exílio dos intelectuais expatriados e marginais. Remonta o significado da palavra “exílio”. De acordo com o autor, ser exilado nos tempos pré-modernos era um dos destinos mais tristes. Significava ser uma espécie de pária permanente, além dos anos de vida sem rumo, sem família, sem terra natal. “Sempre houve uma associação entre a ideia de exílio e os terrores da lepra: a exclusão moral e social.” (Op. cit., p.55). Essa seria talvez uma marca permanente no exilado. Apesar de haver casos em que o exilado conseguisse uma boa adaptação, a grande parte dos exilados sentia dificuldades em viver distante de sua casa. Segundo Said (2005), é um erro imaginar o exílio como um ponto final em relação ao local de origem, na verdade, o exilado convive com a realidade de estar fora de casa, tem em sua lembrança tudo o que deixou para trás. Parece viver num lugar intermediário, num “entre-lugar”, não esquece a sua origem totalmente nem se acostuma com a nova vida inteiramente. É possível que se sinta clandestino. (Ibidem, p.55-57). Em 1964, a condição de Darcy Ribeiro no Uruguai era a de intelectual exilado. Esse foi o seu primeiro exílio de 1964 a 1968. Conforme Said (2005), o que difere o exílio de um intelectual é a possibilidade de cooperação que esse intelectual exilado pode oferecer no país no qual se encontra. Para Edward W. Said (2005), 30 [u]m intelectual [exilado] é como um náufrago que, de certo modo, aprende a viver com a terra, não nela; ou seja, não como Robinson Crusoé, cujo objetivo é colonizar sua pequena ilha, mas como Marco Polo, cujo sentido do maravilhoso nunca o abandona e que é um eterno viajante, um hóspede temporário, não um parasita, conquistador ou invasor. (Op. cit., p.67). Darcy Ribeiro parece ter enfrentado o exílio de forma mais amena que tantos outros. Ele se ocupava de muitas atividades intelectuais como, por exemplo, a criação da Biblioteca Darcy Ribeiro, em que se encontram os “Cuadernos de Cultura latinoamericana que eram publicações avulsas destinadas a professores e alunos com „textos centrales de la historia y la cultura latinoamericanas‟”. (RIBEIRO COELHO, 2010, p.73). Segundo Haydée R. Coelho, quando se fala em “biblioteca”, há de se pensar essa palavra num sentido mais amplo, como é importante recordar o que diz Alberto Manguel. O crítico coloca-nos diante dos vários “sentidos de biblioteca”: as bibliotecas como “entidades em crescimento constante”, a biblioteca como “espelho do universo” e a “biblioteca como obra em curso – toda estante vazia é um anúncio de livro por vir”. (Ibidem, p.76). Darcy Ribeiro afirma que “o exílio me foi mais leve do que para muitos companheiros de desterro. Na semana em que cheguei ao Uruguai fui contratado como professor de tempo integral.” (RIBEIRO, 2009, p.120). Sendo assim, passou a se ocupar dando aulas na Universidade do Uruguai, atividade que desempenhava com satisfação de acordo com depoimentos dele sobre o magistério. Em Testemunho informa que, nos primeiros anos de exílio, imaginava que ficaria fora do Brasil por poucos meses. Optou por ficar na América Latina, deixando de ir para Paris ou Roma. Para ele, essa opção lhe possibilitou reestruturar sua vida intelectual. Na Universidade do Uruguai, de acordo com seu relato, as aulas que lecionava eram as mais silenciosas já vistas, tal o interesse dos alunos. Auxiliou na estruturação da Enciclopédia da Cultura 31 Uruguaia, coordenada por Ángel Rama, escritor, crítico literário e um dos intelectuais mais atuantes do seu país. No Uruguai, continuou na militância política com Jango, Brizola, e com os governos latino-americanos. (RIBEIRO, 1991, p.148-149). Conforme Haydée R. Coelho (1997), Darcy Ribeiro, no exílio, propôs reformas para a Universidade da República do Uruguai, o mesmo para a Universidade Central da Venezuela e para o sistema universitário do Peru. Além disso, colaborou com o projeto de implantação da Universidade Nacional de Costa Rica e sugeriu a criação de uma Universidade no México. Salvador Allende pôde contar com Darcy Ribeiro em um projeto de socialismo em liberdade, no Chile. Colaborou com Juan Velasco Alvarado, Presidente do Peru, nas reformas políticas. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.17). A professora e pesquisadora Haydée R. Coelho supunha que já havia, antes do exílio no Uruguai, uma ligação entre os intelectuais Darcy Ribeiro e Ángel Rama, o que pôde comprovar quando ela esteve naquele país. No Uruguai, ao consultar o semanário Marcha, tive uma grande surpresa. Em 24 de maio de 1964, Darcy Ribeiro concede uma entrevista a Ángel Rama que apresenta o percurso do intelectual brasileiro ao público uruguaio. Ao perguntar ao antropólogo sobre a nova geração brasileira, são mencionados: Sérgio Buarque de Holanda; Florestan Fernandes; Luís Costa Pinto; Victor Leal, Antonio Candido, Heron Alencar e Hélcio Martins. Como exilado, Darcy começava seu destino de errância, mas também de conhecimento da América Latina, apoiado por seus amigos uruguaios, pelas várias qualidades de Ángel Rama: inteligência, espírito integrador, abertura para o outro, crítica ética e política. Acredito que o acolhimento que Darcy Ribeiro teve no Uruguai propiciou trocas culturais importantes e definitivas. Se Rama pode afirmar que o Uruguai made me, parodiando Grahan Greene, Darcy pode dizer que sua trajetória de latino-americano ocorre no exílio. (RIBEIRO COELHO, 2010, p.71). De acordo com Ribeiro Coelho (2010), foi de suma importância o diálogo entre Ángel Rama, escritor uruguaio, e Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro. A aproximação das posturas políticas dos dois intelectuais nas discussões sobre a 32 América Latina demonstra que, para Darcy Ribeiro, essa convivência com Rama foi significativa. Comprova também o reconhecimento de Ribeiro no Uruguai. Em 1968, depois de quatro anos no Uruguai, Darcy Ribeiro ficou sabendo da Marcha dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, logo quis voltar a essa cidade. Solicitou a Wilson Mirza, seu advogado, que avisasse aos militares o dia e a hora em que chegaria ao Aeroporto Internacional do Galeão. Recebeu uma advertência de que deveria procurar rapidamente a Ordem Política e Social, assim que chegou ao Rio de Janeiro preencheu um questionário. Os primeiros três meses no Brasil foram aparentemente tranquilos. Porém, devido a entrevistas, que concedeu à mídia falando mal do regime militar, foi preso, por ocasião da deflagração do Ato Institucional nº 5. (RIBEIRO, 1997, p.373-374). Darcy Ribeiro passou nove meses no cárcere, uns meses na Fortaleza de Santa Cruz, ― pertencente ao Exército ― e os meses restantes na Ilha das Cobras, sede dos Fuzileiros Navais da Marinha. Houve um tribunal militar que o declarou “pessoa da mais alta periculosidade”. Perseguido pelo Exército, mandaram-no para a Venezuela. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.95). Na Venezuela, ocorreu então o seu segundo exílio de 1969 a 1974. Assim que chegou a Caracas, procurou o reitor da Universidade Central da Venezuela, que o contratou como professor de Antropologia. Desse contato, originou-se um projeto de renovação estrutural da UVC (Universidade Central da Venezuela), previsto para dez anos. Na Venezuela, o seu visto não era permanente, tinha que ser renovado ano a ano, apesar de ocupar um cargo de professor na Universidade Central da Venezuela e ter trabalhado também na Universidade de Mérida, na encosta dos Andes. José Agostinho Silva Michelena, Carlos Domingos, Armando Córdoba e Heinz Sontag ― que traduziu para a língua alemã o livro O processo civilizatório, de Darcy Ribeiro ― foram alguns de seus amigos venezuelanos. (RIBEIRO, 1997, p.407-408). Nesse período que viveu na Venezuela, colaborou também com Chile e Peru. Salvador Allende venceu as eleições presidenciais no Chile, Darcy Ribeiro tentou um contrato com o Instituto de Estudos Internacionais do Chile e partiu para a capital Santiago. Fizera amizade com Allende na ocasião em que esse era senador socialista e fora visitar João Goulart no início do exílio, no Uruguai. O novo Presidente do Chile 33 conseguiu para Darcy Ribeiro um cargo de pesquisador do Instituto de Cláudio Velles, ex-esquerdista. (Ibidem, p.413). Salvador Allende, Presidente do Chile, durante o período de 1970 a 1973, pôde contar com Darcy Ribeiro em um projeto de socialismo em liberdade. Esse projeto era uma tentativa de realizar uma transição do governo antiimperialista ao socialismo, mas sua intenção era fazer uma implantação pacífica, sem guerra civil ou ditadura. Tal transição se faria baseada na trajetória democrática de Allende. Desejava proporcionar ao povo uma vida com mais qualidade. Foi deposto, em 1973, pelo general Augusto Pinochet. Ainda no Chile, recebeu, através do peruano Carlos Delgado, um convite do Presidente do Peru, Juan Velasco Alvarado, para apoiar o planejamento de uma revolução socialista peruana. Darcy Ribeiro gostou da ideia e colaborou com os peruanos durante três anos. Viajou a Portugal para participar de um ciclo de conferências nas Universidades do Porto, de Lisboa e de Coimbra. Nesse tempo, descobriu que tinha um câncer pulmonar. Em Paris, confirmaram o diagnóstico, sendo assim, solicitou então às autoridades brasileiras permissão para realizar a cirurgia no Brasil. Depois de realizada a cirurgia no Rio de Janeiro, em que lhe foi tirado um dos pulmões, Darcy Ribeiro ficou completamente curado do câncer. Então, mandaramno para o terceiro exílio de 1975 a 1976, no Peru, mas com autorização para voltar ao Brasil periodicamente para realizar exames. (RIBEIRO, 1997, p.418-431). Ao retornar ao Peru, Darcy Ribeiro encontrou outra realidade, tudo estava diferente, Velasco Alvarado estava doente e fora do governo. O país parecia viver uma contrarrevolução. Enquanto cumpria o seu exílio no Peru, trabalhou mais fora do que dentro do país. Fora ao México várias vezes e também a Costa Rica. Esse período transformou-se num grande aprendizado sobre a América Latina. (Ibidem, p.445-446). Afinal todas essas atividades realizadas por Darcy Ribeiro nesses países, durante todo o período do exílio, demonstram o seu reconhecimento por parte dos intelectuais socialistas da América Latina. Sendo afiliado ao Partido Comunista no Brasil, Ribeiro compactuava, portanto, com o ideário de reformas socialistas dos 34 governos desses países. Firmou-se, portanto, por todas essas evidências, a sua “pele” de intelectual latino-americano. Além das fontes de pesquisa e dos textos ficcionais de Darcy Ribeiro, é válido destacar o livro Darcy, de Vera Brant (2002) grande amiga do escritor, da juventude até a vida adulta. O livro tem uma visão de Darcy Ribeiro elaborada por uma amiga. Existem também cartas trocadas por eles. Tais cartas foram escritas no período em que Darcy Ribeiro estava exilado na Venezuela e no Peru. Embora mereçam atenção especial, elas não serão todas trabalhadas por nós, nesta dissertação, para não nos afastarmos do foco principal que é a leitura do livro Migo. Enfim, no livro Darcy são mostradas algumas facetas particulares do escritor, como, por exemplo, em uma das cartas a Vera Brant, escrita num bom portunhol, Darcy Ribeiro desabafa: Lima, 12 de novembro de 1975. [...] En el último mês anduve em grandes viajes por México y tuve grandes alegrias. La mayor de ellas fué inventar desde el cero uma nueve universidad: La Universidad del Tercer Mundo que será inaugurada em México el próximo año y de la que será Rector el Presidente Echeverría. Me acordé mucho, com saudades, de aquellos años belos de Brasília em que osamos repensar la Universidad, reinventarla y crearla em la macega goiana. Te acuerdas? [...] Tengo trabajado mucho afuera y también aquí. Tanto em las cosas del Proyecto ONU como em mis antropologías y, últimamente, también em la novela nuestra. Tranquilízate, no es la del mineiro loco: es Maíra. Una história de mis indios escrita com mucha sal y pimienta, pero sobre todo com mucho amor por ellos. Creo que estoy logrando, en la forma de romance, comunicar una imágen sentida del ingígena y su drama, que nunca conseguí transmitir completamente a através de ensayos científicos. Em Maíra habla más mi corazón que mi cabeza y te digo que es mucho mejor. Quizas mis males vengan de gastar tanto La cuca cuando lo que tengo de bueno es este mi corazón bovino, vexado de amar. Cariños y besos. Saudades, abraços aos sobrinhos, Darcy. (BRANT, 2002, p.46).4 4 [...] No último mês andei em grandes viagens pelo México e tive grandes alegrias. A maior delas foi inventar do zero (nada) uma nova universidade: La Universidad del Tercer Mundo que será inaugurada no México no próximo ano e da qual será Reitor o Presidente Echeverría. 35 Essa carta possui duas peculiaridades que gostaríamos de destacar: a referência à Universidade de Brasília, onde Vera Brant também trabalhou, e o fato de Ribeiro narrar que estava escrevendo o livro Maíra. Mesmo sendo informal, podemos considerar que essa carta é uma espécie de documento. E mais, essa amizade entre Darcy Ribeiro e Vera Brant parece ter sido marcante, pois está registrada no livro Migo “Se senti falta de mãe? Decerto senti, sou sentimental. Nada comparável com Vera que ficou órfã figadal, pulando corda no quintal, com a mãe morta, exposta na sala de visitas. Só de desespero”. (RIBEIRO, 1988, p.63). Em Confissões relata que “Vera Brant é minha amiga muito chegada há quarenta anos. Várias vezes me visitou no exílio e nunca se desgarra de mim, nem eu dela. O maior talento de Vera é para amizades devotadas”. (RIBEIRO, 1997, p.572). 1.6. A volta de Darcy Ribeiro ao Brasil em 1976 Para o pesquisador André Luís L. Borges de Mattos (2007), a trajetória de Darcy Ribeiro evidencia que, até os anos 60, aliava formação acadêmica e engajamento político, participação em empreendimentos importantes, atuação pública e escrita de textos científicos que demonstravam interesse pela sociedade nacional. No entanto, a visibilidade de Darcy Ribeiro se firma com sua entrada na política nacional e com a sua vivência do exílio em alguns países da América Latina entre os anos 60 e 70. Com as experiências vividas no exílio, é fácil imaginar o seu amadurecimento como cidadão e como intelectual. Além disso, aproxima-se de outra identidade intelectual, Me lembrei muito, com saudades, (Lembrei-me com muita saudade) daqueles belos anos de Brasília nos quais ousamos repensar a Universidade, reinventá-la e criá-la na macega goiana. Você se lembra? [...] Tenho trabalhado muito fora e também aqui. Tanto nas coisas do Projeto ONU como nas minhas antropologias e, ultimamente, também na nossa novela (no nosso romance). Fique tranquila, não é a do mineiro louco: é Maíra. Uma história dos meus índios escrita com muito sal e pimenta, mas, sobretudo com muito amor por eles. Creio que estou logrando (conseguindo), na forma de romance, comunicar (transmitir) uma imagem sentida do indígena e seu drama, que nunca consegui transmitir completamente através de ensaios científicos. Em Maíra fala mais meu coração que minha cabeça e te digo que é muito melhor. Quizas (talvez) meus males venham de gastar tanto a cuca quando o que tenho de bom é este meu coração bovino, vexado de amar. Carinhos e beijos. Saudades, abraços aos sobrinhos, Darcy. (BRANT, 2002, p.46). Tradução de Fernanda Abrantes. 36 “[...] que acabou por definir o modelo ao qual ele próprio passou a enquadrar-se – e a exigir o mesmo para os demais: o do intelectual utópico revolucionário típico dos anos 60.” (MATTOS, 2007, p.313). A reinserção de Darcy Ribeiro na intelectualidade brasileira não ocorreu facilmente. Desempregado, viveu muitos meses do pouco que conseguiu guardar no exílio. A Lei da Anistia, em 1979 trouxe-lhe novas oportunidades. Voltou a lecionar na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, logo após, reiniciou sua vida na política. No exílio ocorreu uma grande mudança na carreira do escritor Darcy Ribeiro: do teórico sobre antropologia surgiu o escritor de ficção. Escreveu dois romances nesse período de exílio, Maíra e O Mulo. Em depoimentos, narra que escrever Maíra era uma forma de fugir do exílio, era uma maneira de sobreviver àquele sofrimento de estar fora do Brasil. Ao voltar ao Brasil em caráter definitivo, em 1976, publicou Maíra, o primeiro de seus cinco romances. Helena Bomeny (2001), em Darcy Ribeiro: Sociologia de um indisciplinado, explica as escolhas que ela fez e sobre o nome do livro, que desperta curiosidades. Com este texto, pretendo encaminhar uma leitura de Darcy como um intelectual, ao menos três vezes, indisciplinado. Renuncio aqui, propositalmente, à dimensão da indisciplina no sentido mais imediato, vulgar, que lhe poderíamos atribuir. Por incompetência e prudência conscientes, não trato aqui da indisciplina pessoal que marcou seu próprio trajeto afetivo, largamente apaixonado. A indisciplina será visitada em três áreas mais próximas do meu próprio treinamento de ofício. Indisciplinado como mineiro, um exemplar nada típico da versão burilada por aqueles homens públicos que chegaram ao cenário político nacional. [...] Indisciplinado como cientista social, se tomamos a referência da institucionalização das ciências sociais no período de 1940 a 1950, no ambiente que se criou como matriz de referência na Escola Livre de Sociologia e Política, em São Paulo, onde Darcy foi buscar sua formação intelectual, mantendo-a como memória e reforço ao longo da vida. [...] E, indisciplinado por fim, como pedagogo, ou seja, como alguém que, ao longo de 40 anos, perseguiu uma agenda pública de intervenção na política educacional brasileira, em sintonia e adesão confessa ao movimento da Escola Nova [...] (BOMENY, 2001, p.25-26). 37 No Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro participou ativamente da vida política e chegou a se eleger Vice-Governador do Estado, em 1982, juntamente com Leonel Brizola, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). Tornou-se secretário da cultura e coordenador do Programa Especial de Educação, período em que implantou os CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública). Visitou Cuba em 1989 para participar das comemorações da Revolução Cubana de 1959. Recebeu condecoração juntamente com um grupo de intelectuais que se posicionaram a favor da Revolução Cubana. No governo de Fernando Collor de Melo, elegeu-se senador da república pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) em 1991. Como senador, publicou a Revista Informativa Carta, que circulou em 16 exemplares (1991-1996). Essa revista foi criada pelo Senador Darcy Ribeiro para tratar de problemas sociais, culturais e políticos do Brasil. Elegeu-se membro da Academia Brasileira de Letras em 1992. Criou em 11 de janeiro de 1996 a Fundação Darcy Ribeiro, a FUNDAR, que se encontra sediada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e é guardiã do arquivo de Darcy Ribeiro juntamente com o arquivo da antropóloga Berta Gleiser Ribeiro, a sua primeira esposa. Segundo Mattos (2007), a FUNDAR é aberta ao público para fins de pesquisa e guarda cerca de 30.000 volumes de livros, procedentes em sua maior parte das bibliotecas particulares de Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro. O acervo documental de Darcy Ribeiro está teoricamente completo na Fundação. O objetivo da FUNDAR é o de manter os ideais de Darcy Ribeiro e continuar alguns dos projetos que deixou iniciados. (MATOS, 2007, p.7). Segundo Luciana Quillet Heymann (2005), a aproximação da morte e o medo de ser esquecido podem ter sido a grande motivação de Darcy Ribeiro ao criar a FUNDAR. Quando me sugeriram criar uma Fundação com meu nome, a idéia me deu medo de estar fazendo nascer mais uma instituição vetusta: Fundação Getulio Vargas, Fundação Roberto Marinho. A minha seria uma pobre fundaçãozinha Zé da Silva, sem poder e sem dinheiro para crescer e florescer. Qual seria o seu propósito? [...] Acabei caindo em mim de que precisava mesmo criar a tal Fundação Darcy Ribeiro ─ 38 Fundar. Tenho mesmo que transferir a alguém ou a alguma instituição tarefas que, bem ou mal, eu venho cumprindo a vida inteira e que, sem mim aí para cuidar delas, ficariam aos azares do acaso. (FUNDAR apud HEYMANN, 2005, p.50-51). O seu maior temor era ser esquecido, pretendia permanecer através de suas obras. Em Confissões (1997), afirma que “Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. [...] Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena.” (RIBEIRO, 1997, p.11). De acordo com Walter Benjamin (1994), “A morte é a sanção de tudo o que o narrador pode contar. É da morte que ele [o narrador] deriva sua autoridade.” (Op. cit., p.208). Quando escreveu o livro Confissões, Darcy Ribeiro já sabia que a morte dele estava próxima. Associando esse fato à reflexão de Benjamin, somos levados a pensar que essa proximidade da morte afastou de Ribeiro o receio de narrar ideias mais íntimas, sem preocupação com qualquer tipo de censura, uma vez que era um momento decisivo, em que o tempo poderia ser uma adversidade. Assim, a circunstância possibilitou a ele narrar passagens da vida da forma que bem quisesse. No livro Migo (1988), assevera que será lembrado. “Queira ou não queira, eu existo hoje e existirei amanhã. Mais do que você, mais do que ninguém.” (RIBEIRO, 1988, p.122). “Meus livros é que continuarão aí falando interminavelmente de mim, por mim, se é que duram. Serei julgado pelas dicas de meus personagens.” (Ibidem, p.76). Ribeiro tem necessidade de escrever sobre si e de vincular a sua escrita à possibilidade de ser lembrado sempre, de não cair no esquecimento. Essa preocupação de permanência através da escrita nos remete também ao arquivamento do “eu”; arquivar documentos, correspondências, livros, documentos pessoais, objetos de arte é construir uma autobiografia. De acordo com Reinaldo Martiniano Marques (2003) Ao recorrer a práticas inúmeras de arquivamento de seus papéis, documentos e materiais, organizando-os e intencionando-os de certo modo, o escritor realiza uma segunda operação inerente à primeira: ele também se arquiva. Vale dizer, ele se desvencilha da natureza 39 evanescente da experiência cotidiana, escapa do fluxo incessante e imprevisível do tempo presente; estanca-o, ao intervir e articular o seu passado. Torna o seu passado significativo, em termos de sua formação como escritor, ao selecionar e preservar certos detalhes, passagens, acontecimentos, atestados por um documento, um registro qualquer. Afirma-se como ausência no mundo visível, do presente, e como presença no mundo invisível, do passado. Desvencilha-se do presente, a fim de se perpetuar no passado, pela memória. Como alguém digno de vir a ser lembrado pela obra literária e intelectual que construiu. Ao se arquivar, o escritor manifesta o desejo de vencer o tempo, permanecendo na memória de um povo ou de um país. (MARQUES, 2003, p.147). A falta de modéstia de Darcy Ribeiro não é desconhecida, pelo contrário, ele mesmo se encarregou de deixar isso bem claro. “Admito com toda desfaçatez que gosto demais de mim e que me acho admirável”. (RIBEIRO, 2009, p.9). Essa autoadmiração de Ribeiro pode ter motivado a necessidade de arquivamento do “eu”. A organização e efetivação da FUNDAR (Fundação Darcy Ribeiro) por ele mesmo é uma ilustração dessa necessidade de se arquivar. É sabido que, um escritor ao escolher os documentos iconográficos e textuais, objetos de arte e livros que vai deixar arquivados, possui intenções claras e, talvez, outras menos conscientes. Pode-se imaginar é que, através de seu acervo arquivado, Darcy Ribeiro constituiu uma representação de identidade pela qual passou a ser conhecido. Em Migo, narrativa planejada cuidadosamente, através do narrador Ageu Rigueira, o escritor confirma algumas das identidades que adotou durante a vida e a preocupação em permanecer pela escrita. Para Haydée R. Coelho (1997), “Entre a ficção e a realidade, Ageu/Darcy tem a consciência do papel da escrita como forma de perpetuar a vida.” (Op. cit., p.21). Nesse sentido, ela chama atenção para o fato de que esse jogo ficcional assemelha-se ao que é colocado no texto “Borges e eu” do escritor argentino Jorge Luís Borges em que ele afirma: “Permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou na habilidosa batida de um violão.” (BORGES apud. RIBEIRO COELHO, 1997, p.22). A professora Haydée R. Coelho aponta para uma aproximação da escrita de Darcy Ribeiro e de Jorge Luís Borges, nesse fragmento, na tentativa de perpetuação pela escrita, pelos personagens. 40 Portanto, borgeanemente, Darcy Ribeiro, na pele de Ageu de Sá Rigueira, no livro Migo produz, instaura “eus” que se fragmentam e se completam formando um eu intelectual que espelha e reflete muitas vezes o eu Darcy Ribeiro escritor e intelectual. Eu me vivendo e me dizendo nesse rio de palavras emocionadas, passo a existir graças à permanência, à veracidade testemunhal que só a literatura confere como verdade verdadeira. Você, se não se produz como literatura, amanhã não será nada, nada, por mais veementes que sejam seus amores. (RIBEIRO, 1988, p.394-395). Ageu/Darcy aposta nas chances de ser lembrado pela atividade literária. Parece demonstrar uma ansiedade quanto à possibilidade de ser esquecido. É possível inferir que Darcy Ribeiro considerava sua história de vida digna de ser contada. Aqui podemos lembrar os versos do poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade (1930): “E eu não sabia que a minha história / era mais bonita do que a de Robinson Crusoé”. (ANDRADE, 1979, p.57). Darcy Ribeiro ocupou o cargo de senador da república pelo PDT até o seu falecimento em 1997. Nesse mesmo ano, publicou-se postumamente o seu último livro autobiográfico: Confissões. Não tivemos a intenção de abarcar toda a biografia do escritor. Reafirmamos que nosso maior objetivo com esse capítulo foi apresentar um breve perfil do intelectual Darcy Ribeiro, que vai repercutir no intelectual Ageu Rigueira, narrador do livro Migo, objeto desta dissertação. 41 CAPÍTULO II: O EU e O MIGO, DE DARCY RIBEIRO Ninguém é sincero com ninguém. Nem eu. (Migo, p.248). Migo é uma obra que pode ser lida de diversas maneiras. Por isso optamos por apresentar um resumo sucinto, mostrando como o narrador descreve cada personagem e a narrativa em si. Apesar de anunciar no “Roteiro” que dá voz a alguns personagens, vale a pena destacar que o narrador é único e tudo que sabemos sobre todos os personagens são impressões e pontos de vista de Ageu Rigueira. Ageu afirma estar escrevendo um livro e avisa que será uma autobiografia inventada, mas mesmo assim poderá revelar algo de “um de seus tantos eus”. (RIBEIRO, 1988, p.13). No capítulo “Diário”, o narrador explica como ocorre a sua escrita. Escrevo como quem vomita o inconsciente às golfadas, pondo para fora o que há lá dentro, no fundo de mim. Tudo metido em palavras e frases legíveis. Verdadeiras? Por vezes. Mas sem nenhum fanatismo de veracidade, misturando passado e presente como me saiam. Espontaneamente. Quando tomo o comando me envolvo tanto que me atrapalho todo. Se me enrosco até não me metendo, quanto mais. (Ibidem, p.13). O narrador sugere escrever como se o texto já estivesse pronto e, sem pensar, ele o coloca no papel, com espontaneidade. Adianta, para os leitores, que haverá “às vezes” frases verdadeiras “sem nenhum fanatismo de veracidade”. Entretanto, existe no trecho citado um jogo do narrador, pois esse mesmo narrador deixa claro que não tem, em Migo, compromisso com a verdade dos fatos nem com o tempo, passado e presente se misturam. Escreve sobre o seu fazer literário, é, portanto, também uma narrativa metaficcional, pois o narrador reflete sobre o seu fazer memorialístico. 42 Segundo Gustavo Bernardo (2010), “a metaficção existe desde que a ficção veio ao mundo; podemos encontrá-la nos primeiros mitos, que tematizam sempre o nascimento do próprio mito [...]”. (BERNARDO, 2010, p.39). O conceito “metaficção” foi introduzido por William Gass em 1958 aproximadamente, baseado no conceito de metaliteratura. O conceito de autoficção remete-nos com clareza para os textos de ficção que têm como centro de reflexão a própria ficção. Esse conceito surgiu no contexto pós-estruturalista, pós-moderno. Os conceitos como “metaliteratura, metadrama, metapoesia, ou metaficção estão intimamente ligados ao conceito de PósModernismo, servindo mesmo como paradigmas desse conceito”. (CARLOS CEIA, 2012). As narrativas metaficionais subvertem os elementos narrativos tradicionais para criar um jogo intelectual com a memória, estabelecendo um diálogo entre ficções. “William Gass define metaficção como uma ficção fundada na elaboração de ficções.” (BERNARDO, 2010, p.39). Em Migo, existem muitos capítulos ficcionais, em que o narrador Ageu tece reflexões sobre a escrita de romances, sobre a memória, sobre autobiografia, enfim, sobre o fazer literário. Temos uma ficção que reflete sobre a escrita ficcional. Há em Migo, um “Roteiro” de leitura que propõe mais de uma forma de leitura. O narrador-personagem Ageu Rigueira deixa claro que pretende manipular o leitor durante a narrativa. Além disso, o plano do livro Migo demonstra ser uma narrativa muito bem calculada. Como podemos perceber, o “Roteiro” é uma tentativa de condução da leitura. Este é um romance esquisito. Tão e tanto que recomendo variadas leituras. A mais ordinária delas é a horizontal, papai-mamãe, que se lê página por página, na sequência natural, bloco por bloco, do primeiro ao derradeiro capítulo. [...] Na segunda coluna, conto o que acontece em torno de mim, no dia-a-dia aqui de casa, geralmente manso, por vezes assustador. É leitura para pecador professo que não lê para julgar, nem para curtir, mas para também sentir, emocionado, pronto a se solidarizar comigo. Só peço que não se escandalize, é matéria para adultos. (RIBEIRO, 1988, p.10). 43 As marcas da condução da leitura podem ser percebidas, por exemplo, nesse trecho do “Roteiro” em que o narrador afirma “recomendo variadas leituras” e, depois adverte o leitor: “Só peço que não se escandalize”. O narrador indica ao leitor como realizar a leitura, as possibilidades de leitura, solicita ao leitor que não o julgue, que se solidarize com ele (o narrador). Além disso, dispensa o espanto do leitor porque o assunto do livro é para pessoas adultas. Mostra-se um narrador que estabelece jogos textuais com o leitor. No primeiro capítulo de Migo, o narrador inaugura uma marca que vai permear o romance: dirigir-se diretamente ao leitor. Como por exemplo: “Eu e você, me creia, porque, querendo ou não, você me co-autora, ajudando a romanceá-lo”. (RIBEIRO, 1988, p.14). O narrador dirige-se ao leitor e afirma que esse leitor, desejando ou não, vai ser um co-autor desse livro. Outro exemplo ocorre quando o narrador antecipa o livro: “[...] Prepare-se para bestagens. Disso é feita a vida e a literatura também. Sua matéria são bobagens sentimentais [...] que saem de mim, sentidas, e a que você, conivente, lendo com emoção, vai dando voz, revivendo.” (Ibidem, p.14). Refere-se ao leitor, que “lendo com emoção”, dará voz à narrativa e reviverá os sentimentos do narrador. Em Migo, o narrador constrói uma narrativa, no capítulo “Soma”, em que simula fazer elucubrações como se fosse um bebê recém-nascido. A narrativa fala da parteira, do banho morno, das primeiras mamadas; vem tecendo reflexões da germinação até a vida adulta. Antes daqueles escassos três quilos de matéria organizada, eu menino, saído de minha mãe, fui simples óvulo, minúsculo ovo. Já então eu portava em mim, nas instruções detalhadíssimas que mamãe e papai, insensatos, me impuseram confluindo alhures, o capital genético de suas gentes tão contrastadas. [...] Assim cheguei a essas mãos enrugadas e encardidas, atravessadas de veias grossas azuis, pulsantes, que vejo escrevendo este romance. Romance da vida, da minha vida, da sua vida, que é tão-só o desdobramento de algumas daquelas potencialidades com que nascemos. (Ibidem, p.22). 44 Darcy Ribeiro reproduziu esse capítulo “Soma” no seu livro Confissões (RIBEIRO, 1997, p.21-23). Fez algumas modificações sobre o local do nascimento e o nome da avó. Em Migo, diz ter nascido no Mangueiral; em Confissões, Cedro. Mudou também o nome da avó, de Coló para Mariazinha. Ageu de Sá Rigueira, narrador-personagem do livro Migo, é mineiro, nascido na cidade fictícia Mangueiral. É filho de Athos e Bebela. Aos vinte anos, deixou a cidade natal para morar em Belo Horizonte. Essa mudança já conta quarenta anos, logo nosso protagonista é sexagenário. A família de Ageu Rigueira queria que ele tomasse conta das terras do Buritizal (propriedade rural da família), mas insistiu em ir para a faculdade e se tornar advogado. Desejava estudar e se tornar um intelectual. Revela-nos o mundo de suas leituras: Ponson Du Terrail, Michel Zevaco, Xavier de Montépin, Alexandre Dumas, Gavroche. A sua infância transcorreu em Mangueiral, localidade pequena, sem muitos atrativos. Nininha, sua única irmã, deu-lhe o apelido de Gê, apelido esse adotado também pelos amigos dos anos de 1940 em Belo Horizonte. Nos primeiros anos na capital mineira, leu bastante. Forma que encontrou para suprir as suas necessidades de conhecimentos gerais. Na Faculdade Federal, conquistou grandes amizades e se afeiçoou ao professor de Filosofia Artur Versiani Veloso. Segundo Ageu, esse professor influenciou muito as leituras dele, livrando-o de autores menos densos e indicando-lhe Bergson, Romain Rolánd, Tolstói, Balzac, Proust, Thomas Mann, Dreiser e Faulkner. Vale ressaltar que Artur Versiani Veloso existiu realmente e foi professor de Filosofia de Darcy Ribeiro nos anos de 1940. Ribeiro tinha grande admiração e respeito por esse professor. Então, podemos perceber nessa referência à amizade de Ageu pelo professor Veloso uma mescla do factual dentro do ficcional, marca essa que aparece em vários momentos em Migo. Ageu Rigueira casou-se com Vilma Nader, com quem teve uma filha, Mila, que lhes deu dois netos. Vilma era rica e tinha boa aparência, fica subentendido que Ageu se casara por conveniência. Os padrinhos foram Juscelino Kubitschek e sua esposa Sara Kubitschek. O casamento começou a ficar ruim quando Vilma e o pai dela 45 tentaram transformar Rigueira em homem de negócios. O casamento não durou muito. A única filha, Mila, preferiu a companhia da mãe. A vida de Ageu é marcada pelas lembranças de muitos amores. Relembra quatro mulheres, especialmente. Stela, amante que só deixou para se casar com Vilma. Narra o longo namoro com uma aluna, Sol. Ela era noiva de outro, só se relacionaram depois que já era casada. Beatriz, a mulher com quem se envolveu durante o casamento com Vilma, morreu jovem e Ageu chorou muito por ela. Lucíola era uma mulher romana, casada, mais requintada; quando o romance entre eles acabou, segundo Ageu, ele teve que dar explicações ao marido, um diplomata, que não conseguia consolar a esposa pela perda do amante. Em certa parte da narrativa, Ageu relata que esses amores ele viveu mesmo na imaginação. Ainda assim gosta de recordar esses amores imaginados. Voltando ao Ageu de sessenta anos, encontramos um homem solitário. É um ex-professor aposentado que passa a maior parte de seu tempo lendo e escrevendo, é escritor de romances. Sai de casa raríssimas vezes. Moram em sua casa Zeca, um filho adotivo e Silviana, mais conhecida pelo apelido de Nora, mulher de Zeca. Este é filho de uma ex-empregada de Ageu Rigueira, que engravidou no tempo em que trabalhava na casa de Ageu. A mãe de Zeca teve o filho e partiu quando o menino tinha cinco anos, a mãe prometia voltar um dia para buscá-lo e nunca o fez. Chegaram a cogitar que Zeca é filho de Ageu, mas ele só admite ter criado o rapaz. “Zeca é filho de uma empregada [...] O guri de então cresceu aí, mal cuidado pelas empregadas, ajudando num servicinho ou noutro, sobretudo nas compras, e se pagando com o troco.” (RIBEIRO, 1988, p.15). Ageu gosta de se isolar em sua casa e recebe notícias da cidade e do mundo através de jornais e dos amigos intelectuais que o visitam: Stela, Guedes, Uriel, Cura, Canuto, Elmano. No livro Darcy Ribeiro da coleção “Encontro com escritores mineiros 4” (1997), organizado por Haydée R. Coelho, a autora faz comentários sobre o livro Migo. Aborda a importância do relacionamento de Ageu com os amigos intelectuais na evocação de lembranças e na reconfiguração de fatos passados. Além disso, Ribeiro Coelho elenca os escritores com quem Ageu Rigueira conviveu. 46 O enfoque do espaço da rua e da casa, do público e privado é possibilitado pelas personagens que se comunicam com Ageu. [...] Junto com o escritor, os personagens vão encenando a reconstituição da memória que se faz de maneira presentificada. Como personagem de ficção, Ageu pode falar de Darcy. No contexto dos anos 40, em Belo Horizonte, destaca-se a geração literária de Ageu: Darcy, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos. Todos esses escritores saíram de Minas, projetando-se no Rio de Janeiro. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.20). Gê é o apelido de Ageu. Gê e os amigos formam um círculo de intelectuais bem diferentes entre si. Stela é uma ex-namorada de Gê que se transformou em uma amiga da vida inteira. Guedes cumpre o papel de mineiro que defende as tradições mineiras a qualquer custo. Cura, o Lelé, é um sacerdote, tem muita proximidade com Guedes, essa afinidade desperta rumores de que sejam amantes. Canuto não assume a homossexualidade, narra ter sofrido muita discriminação na juventude. Elmano teve uma espécie de envolvimento amoroso com Stela, no passado, acredita que Ageu não aceitou bem essa história; Elmano deseja ser escritor, demonstra inveja de Ageu. Uriel, um dos diretores do Jornal Estado de Minas, guarda algumas mágoas a respeito da história de Minas Gerais, pois é a representação de um mineiro que sofre pela história da devastação indígena, da perseguição aos negros e da degradação do povo mineiro no período da exploração do ouro em Minas. Uriel relata o seu ressentimento a respeito da história de Minas Gerais porque se considera um descendente de uma geração que fora massacrada. Afirma que [n]as máquinas prodigiosas de gastar gentes desses brasis, a moenda mineira foi a que mais gente gastou. Gente comprada cara, importada e taxada de dízimos e quintos. Gente aqui nascida, crioula, escrava, também comprada e vendida. Gente nascida livre que tantas vezes de novo se via escravizada, ou se fazia escravizar por seu próprio querer, para ter o que comer. A fome em Minas, velha como Minas, desgastou gerações e gerações de gentes, incontáveis. (RIBEIRO, 1988, p.95-96). 47 Uriel, assim como Ageu, gosta de criticar a exploração do povo mineiro na época da descoberta do ouro em Minas Gerais. Guedes é um contraponto de Uriel, pois para Guedes ser mineiro é assumir o passado lusitano com orgulho de enforcamentos e de esquartejamentos ocorridos no passado. Na rotina da casa do sexagenário Ageu, encontramos Nora que cozinha bem, limpa a casa e é bem discreta. Ageu e ela almoçam juntos quase sempre, Zeca só aparece para jantar. Ageu e Zeca, seu filho adotivo, não se dão bem. Zeca não perdoa o nome que Ageu e Guedes, padrinho de Zeca, deram a ele: José Parido da Silva. Não sabe quem é o seu pai biológico, mas suspeita que seja filho de Ageu. Mas precisava ser José Parido? Claro que todo mundo é parido, mas eu tinha que levar o parto de minha mãe no nome? [...] Um pai qualquer, que ninguém sabe quem seja: Silva. Uma mãe, Parida. Não perdôo. Não perdôo esse nome que me deram. Sempre me perguntei se não sou mesmo filho desse Gê. Pela boataria daqui do bairro, sou. Reconheço em mim gestos e gostos dele que só podem ser herdados. (RIBEIRO, 1988, p.39). Esse desabafo está inserido no capítulo “Zeca”, em que o narrador simula dar voz ao personagem Zeca. Essa estratégia narrativa de simulação de dar voz a alguns personagens vai ocorrer em outros capítulos como em “Nora”, “Mila”, “Stela”, “Canuto”, dentre outros. Dessa forma, os personagens vão tecendo em primeira pessoa comentários sobre Gê, que é, na maioria das vezes, o assunto desses capítulos. Zeca, desde o início de seu casamento com Nora, leva uma vida desordeira, passa noites fora de casa e mantém amantes. Devido às ausências de Zeca, Ageu insinua que passa a ter um caso com Nora, a mulher de seu filho adotivo Zeca. Pensamos que esse caso amoroso pode ser apenas uma projeção de um desejo dele. Zeca flagra o casal e passa a torturá-los, ocupa o grande quarto de Gê e expulsa os dois para o quarto menor. Ageu e Nora passaram a dormir no quarto dos fundos. Isso se passa no capítulo “Flagra”, na parte final do livro. Ageu e Nora passaram dias muito angustiados. Entretanto, um ladrão 48 invadiu a casa pelo quarto da frente, em que estava Zeca, deu-lhe três tiros, matou-o e fugiu. Vieram os vizinhos e amigos de Ageu para consolá-lo, Uriel fez um relato no Estado de Minas. “O casal dormia quando surgiu o ladrão. Baixinho, com o enorme revólver na mão. Zeca levantou-se, num salto, para defender a mulher, mas foi fulminado por vários tiros que o iam jogando pra trás.” (RIBEIRO, 1988, p.422). Na verdade, Ageu estava aliviado, pois se livrou do escândalo de estar tendo um caso com a mulher de seu filho adotivo e também pela continuidade do romance com Nora. Depois que Canuto foi embora, Stela quis emitir suas opiniões, entretanto Nora reagiu e disse: “─ Manda essa dona embora, Gê. Que vá pros infernos ou pra casa dela. Se quiser venho pra cá, numa boa.” (Ibidem, p.422). No final, há uma sugestão de que Ageu e Nora tenham continuado na mesma casa, na mesma rua, na mesma cidade. No capítulo “Cautela”, o narrador fazendo uso da metaficção alerta o leitor sobre a inexistência de Nora e de outras personagens. Assim, notamos que está demonstrando de que forma são construídos os personagens. Conto a você, aqui entre nós, que Vazinha é mentira de Gê. Nora também. Não existem, nem deviam ser assim. Despreocupe-se delas. Preocupe-se comigo. Só eu mereço verdadeiramente sua atenção, até a sua amizade, aspiro. Meus personagens são tal qual são porque, largado à solta, sem censura, eles me saíram assim. São invenção minha, distorcida. Não se comova demais com eles. Suas dores são fingidos ais; seus amores, imitação. (RIBEIRO, 1988, p.212). Ao narrar ao leitor a inexistência dos personagens, o narrador deseja mostrar o funcionamento da narrativa ficcional. O livro Migo, conforme já foi mencionado, não possui uma sequência linear dos fatos nem compromisso com a ordem cronológica dos acontecimentos. O enredo surge entremeado aos capítulos metaficcionais e aos capítulos memorialísticos. Há uma intervenção frequente do mundo não ficcional dentro da ficção. Num jogo de identidades, Ageu e Darcy se misturam na narrativa e ficção e realidade se entrelaçam, possibilitando-nos uma leitura autobiográfica. 49 Apresentamos a seguir a árvore genealógica de Ageu de Sá Rigueira que se encontra no livro Migo. (RIBEIRO, 1988, p.8). Athos e Bebela são os pais de Ageu Rigueira. Athos descende de Ageu (avô paterno) à esquerda da árvore genealógica. Bebela é filha de Quincas e Coló (avós maternos) à direita da árvore. No centro, está Ageu Rigueira, abaixo do nome de seus pais. À esquerda do nome Ageu, temos Vilma com quem foi casado por um tempo. Ao lado, aparece o nome Bia, uma das amantes de Ageu. Depois Lu (Lucíola) que seria outra amante. À direita, está Nininha, irmã de Ageu. Ainda à direita, um pouco abaixo do nome da irmã, surgem os nomes dos amigos. Interessante notar a disposição desses nomes, os primeiros nomes desse ramo da árvore são o de Stela e o de Canuto. Nesse ponto há uma tripartição do ramo em que estão Guedes e Lelé (o suposto casal homossexual), abaixo, Elmano (na altura 50 do nome de Ageu), mais abaixo, o nome de Uriel. Com essa configuração dos amigos de Ageu em sua árvore genealógica, poderíamos pensar no papel desses amigos em sua vida, na afinidade entre eles e Ageu. Finalmente, temos Zeca, o filho adotivo, abaixo do nome de Ageu, numa ligação direta. Ao lado direito de Zeca, aparece Nora, sua mulher. À esquerda de Zeca: Mila, filha de Ageu e Vilma. Don‟Ana e Vazinha são vizinhas de Ageu, sendo essa última filha de Don‟Ana. Interessante notar que os nomes de Don‟Ana e de Nora possuem também uma ligação com o nome de Ageu. Don‟Ana à esquerda e Nora à direita, pode-se pensar em ambas como fantasias eróticas de Ageu, pois Don‟Ana teve um caso fortuito com Ageu bem antes do caso dele com Nora. O nome de Vazinha tem uma ligação como nome de Zeca, parecendo fazer menção à iniciação sexual da garota. Essa árvore genealógica de Ageu de Sá Rigueira se parece uma síntese do enredo do livro Migo representada através de um diagrama. Talvez tenha sido projetada antes da escrita da narrativa, pois depois de ler o livro e analisar a “Constelação de Ageu Rigueira” pode se compreender as ligações entre as personagens. Ageu está no centro da árvore assim como é o personagem principal da narrativa, ele é o narrador e criador dos outros personagens. De um lado estão os amores imaginários de Ageu e do outro lado, os amigos intelectuais da mesma forma imaginários. Estão em posição oposta Stela e Canuto, que brigam muito durante a narrativa; também estão em oposição Guedes e Uriel que são personagens que se contrapõem a respeito do conceito sobre ser mineiro. Elmano está alinhado a Ageu, pois, como personagem, é um desdobramento dele. Mila, Zeca e Nora estão ligados a Ageu, em uma linha horizontal na árvore genealógica, como representação de filhos dele. Mila é a filha legítima; Zeca, o filho adotivo; e Nora, por ser casada com Zeca, é como uma nora de Ageu. 51 2.1. Epígrafe, Roteiro e Sumário Antoine Compagnon (1996) em seu livro O trabalho da citação, apresentanos um histórico do surgimento dos textos introdutórios em livros. Compara esses textos aos postes, marcos e barreiras policiais que defendem uma cidade. Assim como uma cidade é cercada de proteção, o livro também é cercado por todos os lados. A epígrafe é um dos pilares em que o texto se apoia. (Op. cit., p.124). Migo possui uma epígrafe que aborda a presença de mineiros e esses vão aparecer na narrativa do livro. Não encontramos a autoria dessa epígrafe, o que conseguimos descobrir é que se trata de parte de uma cantiga do folclore mineiro que consta no livro Cantos Populares do Brasil: Volume II, 1883, organizado por Sylvio Romero. Conforme Compagnon (1996), a epígrafe é a citação mais essencial de um livro. É “um ícone no sentido de uma entrada privilegiada na enunciação”. (Op. cit., p.120). Por ser precursora, ela tem liberdade e é tão forte como um grito, como um raspar de garganta antes do que vai se pronunciar. O narrador de Migo escolheu como epígrafe os versos abaixo: Minha gente eu vou m‟embora Mineiro tá me chamando Mineiro tem esse jeito Chama a gente e vai andando (RIBEIRO, 1988, p.9). Em Migo, temos um narrador sedutor, não há indícios de ingenuidade na narrativa, que é bem planejada. Isso nos faz crer que essa epígrafe foi escolhida cuidadosamente. Segundo Darcy Ribeiro, a motivação para a escrita do livro Migo ocorreu em 1987, período em que veio a Minas Gerais para trabalhar com o Governador Newton Cardoso. O escritor relata que, devido a sua vinda ao estado natal, desejou escrever um livro que abordasse, entre outros temas, Minas Gerais. A epígrafe do livro Migo traz versos que tratam da saída de um eu lírico “eu vou m‟embora”; versa 52 também sobre um convite “Mineiro tá me chamando” e sobre a identidade mineira em “mineiro tem esse jeito”. Pode-se pensar que essa epígrafe aponta para uma busca de definição do que é ser mineiro. Quanto ao prefácio, Compagnon (1996) afirma que na “retórica antiga” os textos iniciais tinham a captatio benevolentiae5, dirigiam-se ao leitor de forma concisa e ofereciam-lhe condições de compreender a obra. Porém, Compagnon nos adverte que a busca dessa “benevolência” mudou bastante. (Op. cit., p.128-129). Declara que [o] prefácio não se dirige a qualquer leitor (ao leitor inocente); ou melhor, se ele cai em suas mãos, é para renegá-lo ─ não o convida, não o solicita ─, através de uma deturpação que divulga ao público uma carta destinada a um único leitor, singular e avisado, que já leu o livro (até mesmo o traduziu; ele não é nada inocente). Sua leitura foi uma produção ou uma realização, isto é, uma leitura modelo. Todo prefácio supõe assim um leitor modelo ou um tradutor fictício; esse é um traço característico da cena imaginária do prefácio: escrevo-o para alguém que já me leu atentamente (e compreendeu-me). (Op. cit., p.130). Percebemos, então, que na modernidade o prefácio é um texto que possui outras intenções mais complexas do que simplesmente apresentar a obra que será lida. Não é escrito para um leitor comum e, sim, para o próprio escritor como leitor de seu livro. Compagnon (1996) afirma que o prefácio é como um toque final do texto, escrito quase sempre depois da obra pronta, por quem já conhece toda a história. O prefácio não é produzido para facilitar a leitura para o leitor comum e, muitas vezes, o prefaciador tem como objetivo propor um método, seduzindo um tipo de leitor mais ingênuo. Compagnon ainda afirma que o prefácio é definido por estabelecer um elo entre o título do livro, que às vezes é “desencorajador”, e “o assunto do livro”, que deve ser mais interessante. Para ele, o prefácio é, de forma secundária, uma conexão entre o autor e o texto ou entre o leitor e o texto, de modo algum entre o leitor e o autor, 5 A busca da benevolência. Tradução de Cleonice P. B. Mourão, tradutora do livro O trabalho da citação. 53 “separados pelo livro”. Dessa forma, o leitor deve sempre desconfiar do prefácio, deve lê-lo de forma crítica. A principal função do prefácio é ligar o título e o texto. “O prefácio é retrospectivo. É por isso que intercedendo pelo título, antecipa o livro; é por isso que se dirige a um leitor imaginário que já o leu.” (Op. cit., p.130-131). Parece paradoxal o fato de que o prefácio, sendo o texto que se lê primeiramente, antes de se iniciar a leitura do romance, tenha sido escrito depois dele. O prefácio é necessário para dar um “acabamento” ao livro. Compagnon acrescenta que [é] porque ele é tudo isso que o prefácio representa um momento necessário e inevitável da escrita (um acontecimento histórico: só o prefácio do livro pode ser datado e localizado: a morte). A morte “dita antecipadamente”, é o gesto grave pelo qual consinto em morrer. Eu me dou a morte na primeira página, está findo o sujeito que fui, enquanto escrevi isso que você vai ler. O benefício é imenso. Executando-me, anulo o tempo da escrita; imobilizo-o ou reverto-o fechando o livro sobre si mesmo, uma vez que ele começa pelo fim. (Op. cit., p.132-133). Num livro, é preciso pensar o prefácio como sendo o começo e ao mesmo tempo o fim desse livro. É uma estratégia para apresentar a obra que vem a seguir e também para finalizar a escrita dessa obra. O leitor deve atentar para as possíveis intenções contidas no prefácio. Conforme Compagnon (1996), um prefácio pode sugerir uma forma de leitura ao leitor, mostrando-lhe, por exemplo, que um leitor deve ler um romance pela primeira vez sem parar nas dificuldades e entender, de forma geral, o assunto do tal livro; e, através de uma segunda e de uma terceira leituras dessa obra, esse leitor poderá compreendê-la. (Op. cit., p.131). Para iniciar o seu livro, o autor de Migo se valeu do artifício de escrever um “Roteiro”, que pode ser considerado um prefácio, uma vez que possui as características desse tipo de texto. A seguir, apresenta um “Sumário” que é outro caminho de condução da leitura. O “Roteiro-prefácio” em Migo recomenda várias formas de leitura ao leitor. Esse “Roteiro” é como o prefácio conforme Compagnon (1996) “O prefácio é 54 retrospectivo. É por isso que, intercedendo pelo título, antecipa o livro; é por isso que se dirige a um leitor imaginário; que já o leu [...]. (COMPAGNON, 1996, p.130). O “Roteiro” tem caráter retrospectivo, pois só foi escrito depois de terminada toda a narrativa de Migo. Antecipa o livro como, por exemplo, ao explicar o assunto da quarta coluna de capítulos o narrador afirma que esses capítulos tratam “da mineiridade e outras bobagens de meu estofo de escritor, suportável para leitor nostálgico, sentimental, disposto a rir de mim e de nós ou a chorar conosco, teorizando dores e gozos.” (RIBEIRO, 1988, p.10). Percebemos, então, que o narrador adianta um resumo dessa parte. De maneira geral, o “Roteiro” se assemelha a uma carta destinada ao leitor. Portanto, consideramos que esse “Roteiro” desempenha as funções de um prefácio. No “Roteiro”, o narrador denomina o livro de “romance esquisito” e aponta leituras. As possibilidades de leitura da narrativa indicadas pelo “Roteiro”, em Migo, são estabelecidas quando o narrador coloca em quatro colunas as várias entradas para o texto, separando-as em seis blocos através da palavra Colosso. Instaura, dessa forma, um pacto de leitura a partir desse “Roteiro”. Esse pacto de leitura nos remete a Philippe Lejeune (2008), no livro O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet, que nos adverte que quando um narrador propõe um pacto de leitura, influencia o leitor a participar de um acordo, como se esse contrato fosse consentido pelas duas partes. O narrador Ageu indica, por exemplo, a possibilidade de se ler o livro Migo a partir da primeira coluna que se refere à sua vida, aos seus sustos e amores, ou somente ler os capítulos cujos títulos estão grafados em negrito. Esses títulos grafados em negrito representam os capítulos em que os personagens supostamente falariam sobre si mesmos. Há que se ressaltar que o livro permite as várias entradas, mas existe uma estreita ligação entre os capítulos, entretanto, seguir uma das entradas sugeridas pelo narrador em nada dificulta o entendimento da obra. No final do “Roteiro”, a presença de Darcy Ribeiro e do narrador são bem marcadas: 55 [h]á uma leitura mais, bizarra, recomendável para leitores preguiçosos. É a dos capítulos de título grifado [em negrito]. Neles, nem Ageu, nem eu, metemos o bedelho. São os próprios personagens que falam, se espelham, confessando-se diretamente a você. (RIBEIRO, 1988, p.10). Quando afirma “nem Ageu, nem eu”, acreditamos que o autor está interferindo na escrita de forma intencional, porque a presença do “eu” aponta para um outro que não é o narrador Ageu. Para assinar esse “Roteiro” de leitura, o autor utiliza as iniciais A.R., de Ageu Rigueira, e marca a cidade onde Rigueira escreveu o “Roteiro”: Maricá, cidade em que Darcy Ribeiro possuía uma casa de praia e se “refugiava” para escrever, conforme informa o livro Confissões. A indicação da cidade Maricá é outro indício da presença de Darcy Ribeiro nesse “Roteiro”. (RIBEIRO, 1997, p.538). 56 Consideramos necessário transcrever o Roteiro-Prefácio, à guisa de ilustração. ROTEIRO Este é um romance esquisito. Tão e tanto que recomendo variadas leituras. A mais ordinária delas é a horizontal, papai-mamãe, que se lê página por página, na seqüência natural, bloco por bloco, do primeiro ao derradeiro capítulo. Outras leituras possíveis, atabalhoadas, é verdade, mas divertidas, são as verticais. Você lê seguindo a coluna que escolha deste roteiro. Se optar por esta leitura, saiba que meu formalismo não é bitolado, nem colunável. Você vai ter encontrões. Na primeira coluna, me reconstituo de menino até agora, contando vida, sustos e amores vividos e viventes, dando sempre fato e circunstância. Até parece romance antigo. Na segunda coluna, conto o que acontece em torno de mim, no dia-a-dia aqui de casa, geralmente manso, por vezes assustador. É leitura para pecador professo que não lê para julgar, nem para curtir, mas para também sentir, emocionado, pronto a se solidarizar comigo. Só peço que não se escandalize, é matéria para adultos. A terceira, fala dos amigos que me freqüentam. É pelo menos intrigante porque todos se detestam entre si e a mim também. E eu mais a eles. É um fuxico só. Mas é meu lastro, sem ele eu nem seria inteligível, se é que sou. Saltando esta coluna você gostará mais de mim. A quarta coluna é a da mineiridade e outras bobagens de meu estofo de escritor, suportável para leitor nostálgico, sentimental, disposto a rir de mim e de nós ou a chorar conosco, teorizando dores e gozos. Você também pode ler bobamente, salteando capítulo a capítulo, como se lhe dê na santa gana. Afinal, o livro é seu e sem conivência do leitor não há romance que se aprume. O acaso pode bem resultar melhor do que minha compaginação. Há uma leitura mais, bizarra, recomendável para leitores preguiçosos. É a dos capítulos de título grifado [em negrito]. Neles, nem Ageu, nem eu, metemos o bedelho. São os próprios personagens que falam, se espelham, confessando-se diretamente a você. Há, ainda, uma sobra de capítulos que juntei em duas séries, ao final. Este resto é indispensável a qualquer leitura e se trata do que há de mais emocionante em romance. Não deve é ser lido isoladamente. Jamais. Pode até levar você ao suicídio. Vamos, minha cara, meu caro, vamos logo. Sente, se abanque, porque ler deitado faz mal à vista, acomode-se bem, me leia e desfrute, se puder. A.R. Maricá. Agosto de 1988. (RIBEIRO, 1988, p.10). 57 O narrador apresenta na página seguinte o “Sumário”, que traz títulos de 188 capítulos divididos em quatro colunas, separadas em seis blocos na horizontal pelo título “Colosso” que se repete cinco vezes, totalizando 193 capítulos. Os títulos dos capítulos são dispostos em colunas temáticas. Na primeira coluna, relata a infância, seus sustos e seus amores; na segunda, narra o cotidiano da casa de Ageu; na terceira, refere-se aos amigos intelectuais que o visitam; e, na quarta, expõe reflexões sobre Minas Gerais. Como se pode ver no “Roteiro” transcrito, não há numeração das páginas e isso dificulta encontrar os capítulos no decorrer do livro. Dessa forma, o leitor será obrigado a folhear o livro de 422 páginas em busca de uma direção de leitura que o “Roteiro” indica, porém o leitor tem a liberdade de, no meio do caminho, ler outros capítulos. O leitor tem uma entrada na narrativa ao folhear as páginas de Migo em busca de um caminho aparentemente pré-determinado pelo “Roteiro”. Os títulos dos capítulos são curtos, há nomes de personagens e de cidades, pronomes, substantivos, verbos, adjetivos. A leitura página após página não traz um efeito muito diferente da leitura realizada seguindo as colunas sugeridas pelo “Roteiro”. Lendo os capítulos de cada coluna do “Sumário”, podemos perceber que às vezes aparece um ou outro capítulo que aborda o assunto principal de outra coluna, esse é um bom exemplo de que não se pode confiar em tudo que o prefácio-roteiro informa. O narrador sugere também uma leitura apenas dos capítulos, cujos títulos estão em negrito, nos quais supõe-se que os personagens ganhem voz, falando de si mesmos. Entretanto, nesses capítulos negritados, os personagens falam quase sempre de Ageu e não de si mesmos. No capítulo negritado “Nora”, por exemplo, Nora opina sobre seu sogro Ageu Rigueira: Seu Gê? Acho até simpaticão, todo mundo se impressiona com ele. Eu não! Zeca, então, se estufa de orgulho. Que será que papai e mamãe pensarão do velho Gê? Só tinham se visto na cerimônia do casamento civil. [...] Meus velhos gostaram do ajantarado e da casa. Gostaram dele [Ageu] também, até demais. [...] Quem não gosta de se dar, de ser meio parente do professor Ageu Rigueira? Até eu gosto de dizer que sou a nora dele. (Ibidem, p.73). 58 Stela, no capítulo negritado que traz seu nome, relata [q]uando comecei a ir à casa de Gê, ia de bonde. Depois, por muito tempo, fui de ônibus. Agora, vou e volto no meu fusca. Gê, cordial demais [...] É matreiro demais, esse meu Gê. Roga ao mundo que não o veja no que é. Só se mostra na mansidão: doçuras. Gato, escondendo garras. Na verdade, nunca vi Gê furioso, nem mesmo zangado pra valer. Nada desse mundo emocionou muito a ele nos anos todos, tantos, de nosso convívio. [...] Por que é que me importa o Gê? Estou sempre pondo esse cara no meu destino. (Ibidem, p.193). No final do “Roteiro”, quando o narrador afirma que a leitura dos últimos capítulos das colunas é indispensável, está claramente conduzindo a leitura. Sugere, até mesmo, a posição física que o leitor deve tomar para ler o seu livro. “Vamos, minha cara, meu caro, vamos logo. Sente, se abanque, porque ler deitado faz mal à vista, acomode-se bem, me leia e desfrute, se puder.” (Ibidem, p.10). O narrador impõe de uma forma ardilosa a sua narrativa e o seu modo de narrar. Consideramos necessário, para maior clareza, apresentar o “Sumário” como ele se apresenta no livro Migo. 59 SUMÁRIO DIÁRIO SOMA NININHA SANTINHA GUARDIÃ SINA MÃE SEXO ALCOVA MATADOR NÓS ELA SOGROS ZECA CHORO ABORTO ELOÁ NORA CALEI EXTRA CASA VILMA CASÓRIO BIA RAIZ O BARÃO PAI A BANDA SOL MOÇAS MILA JAMAIS CAJU NORA COCHILO TRISTEZA FILHA VAZINHA REBATE PESADELO DON’ANA CHUVA COPO PRIMA AMAR LU MATRIZ GENTE MANGUEIRAL RETORNO QUITUTES MANGAS NORA CARNAVAL REDE FAGULHAS MILA VOCÊ OLHARES IDEM LEGADO CONSTRUÇÃO TESÃO SIÁ RITA CRESPO TRAVÉS MAGNÓLIA HORAS PILEQUE CARRILHÃO LOTES TROTE MILA CINZA-E-MEL VOZ BANHO NININHA NORA É NORA QUIMERA VEXAME ANO NOVO É PRECISO MÚSICA COMIGO PROÍBO ESPELHO NORA DOMINUS NORA FLOR STELA EUS QUE FAZER? FLAGRA FUGA ME LEIA MEXERICO O PAR MILAGRE PUSELA GUEDES DOM NECRO RINHA URIEL AGEU IDOS CREDO SAUDADES RIO JANELAS VIDA NONADA BEAGÁ EU BRIGA CURA CIRCO O OUTRO O-PORTO CANUTO PAPELÃO MODÉSTIA GERAÇÃO G§C MINEIROS SÃO PAULO PALAVRAS ANDORINHAS AMORES ÓCIO MITO SOLIDÃO FICÇÃO ROMANCE STELA ELOGIOS PROLIXO FAUNA CURITA MORTOS BENTO FÊMINA TON’ZÉ FRESCO MINAS ESQUINA CAUTELA ALTERNOS ALCEU MEL CONGONHAS ÍNDIOS FASTIO VIAGEM EGO TOSSE FILA LOUCAS ELMANO LSD BROCHA NÓS OUTROS VELHA PUDENS PEDRAL VEJO CARETA CAVALA PRAGAS QUINA VÍCIO TÉDIO MIGO ROTINA DROGA COBRA ZECA FELICIDADE SERRANIA ESCRITURA CAL TRANSA AMO GLAUBER URIEL CABAÇO QUARTO RÉQUIEM COLOSSO COLOSSO COLOSSO COLOSSO COLOSSO (RIBEIRO, 1988, p.11). 60 Toda essa preocupação com a arquitetura do livro Migo nos faz pensar que esse narrador persuasivo tem grande preocupação com a recepção desse livro. Ele não deseja simplesmente narrar uma história, ele almeja convencer o leitor. Expressa o seu grande desejo: [o] que quero mesmo é escrever o livro, não um livro mais. Quero o livro. Aquele, inesquecível. Um livro que pegado ninguém largasse mais. Lesse e relesse vezes sem conta. Um livro tão bem enredado, urdido e curtido que pasmasse a quem me lesse. Isto é o que mais quero na vida. Isto e Nora. (Ibidem, p.152-153). Empenha-se na escrita desse livro, que planejou cuidadosamente. Embora possua um enredo comum, Migo se mostra relevante uma vez que sua estrutura trabalhada une capítulos do enredo, capítulos metaficcionais e capítulos memorialísticos. Deseja convencer o leitor através de estratégias imprevisíveis como, por exemplo, ora afirmando ora negando a existência de Dargeu, uma mistura de Darcy e Ageu. O narrador enreda o leitor e o traz para dentro da narrativa, mostra-lhe que a existência dele e de Migo dependem da existência de um leitor. A Estética da Recepção se volta para a recepção dos textos. Wolfgang Iser (1979), em “A interação do texto com o leitor”, afirma que na relação texto-leitor, não há uma posição face a face, o que não permite um diálogo entre ambos, como em outras relações sociais. Isso dificulta a recepção do texto e o leitor [...] nunca retirará do texto a certeza explícita de que a sua compreensão é a justa. Além do mais, na interação diática, as réplicas de cada participante têm um fim determinado; em conseqüência, elas se integram em um contexto de ações, que funciona como o horizonte da interação e muitas vezes serve como um tertium comparationis. Ao invés disso, falta à relação entre texto e leitor um quadro de referências semelhantes. Muito ao contrário, os códigos que poderiam regular esta interação são fragmentados no texto e, na maioria dos casos, precisam primeiro ser construídos. Assim, pois, a finalidade e as condições 61 diferenciam a interação entre texto e leitor de pressupostos importantes da interação diática. (Op. cit., p.87-88). Em uma situação de diálogo, em qualquer circunstância social, os interlocutores possuem uma série de condições favoráveis, como o contexto do diálogo, a possibilidade de replicar, as expressões faciais e gestuais entre outras. Entre texto e leitor, faltam essas condições de favorecimento da comunicação próprias do diálogo, o que pode comprometer a recepção do texto. O texto proporciona várias representações projetivas do leitor, que dão margem a diferenciadas leituras. Então, Iser (1979) entende que para que as possibilidades de comunicação possam se realizar, devem existir no texto complexos de controle, pois a comunicação entre texto e leitor só tem êxito quando ela se submete a certas condições. Estes meios de controle, no entanto, não podem ser tão precisos quanto numa situação de face a face, nem tão determinados como um código social que regula a interação diática. (ISER, 1979, p.89). É preciso que esse complexos de controle levem texto e leitor a um processo de comunicação. “Os vazios e as negações contribuem de diversos modos para o processo de comunicação que se desenrola, mas, em conjunto, têm como efeito final aparecerem como instâncias de controle.” (Ibidem, p.91). Percebemos, em Migo, a presença desses meios de controle da leitura. Eles ocorrem através de um cerceamento da liberdade do leitor, uma proibição mesmo de julgamento pelo leitor. Durante a narrativa, o narrador de Migo faz várias interpelações ao leitor, como em [a]qui pra nós, leitor-leitora, o que é que Nora tem a ver com as safadezazinhas da menina? Não é da conta dela e não é da sua conta também não. Leitor não é censor. Não fique aí me julgando. Não consinto. Nosso trato é eu escrever a estória de Gê, minha história, para você ler. E estamos falados! Julgar-me é privilégio meu, de que não abro mão. Só meu. (RIBEIRO, 1988, p.25). 62 Em outra passagem do livro, questiona o leitor: “E você aí, homem ou mulher, que me lê e me julga, que tal o seu caldo? Você gosta de ser tal qual é? Trocaria seu jeito, seu destino pelo de alguém? Quem? Esqueça isso.” (Ibidem, p.133). O narrador tem uma preocupação com o fato de ser julgado pelo leitor. Ele tenta cercar e cercear qualquer liberdade que o leitor possa ter, cabendo a ele somente julgar, mas nunca ser julgado. No capítulo “Cautela”, o narrador afirma que [l]iteratura pede pureza d‟alma, do leitor também, naturalmente, e do escritor, principalmente. Há, é certo, o leitor ardiloso, desses de duas, quatro leituras do mesmo romance, querendo enredar o autor, tirando do livro o que ele não pôs lá. Essas castigações do texto, a meu juízo, devem ser deixadas é para crítico que, de ofício, tem mesmo que ser chato, sacana, espírito de porco, advogado do Diabo. Não nós, você que me lê e eu que escrevo pr‟ocê. Nós, não. (RIBEIRO, 1988, p.212). Dessa forma, está mais uma vez limitando a ação do leitor comum e julgando o leitor crítico como ardiloso e chato. Em outro momento da narrativa, pede ao leitor: “Me leia confiante.” (Ibidem, p.69). Habilmente vai envolvendo o leitor numa espécie de labirinto, onde os caminhos do leitor se entrecruzam entre afirmações e posteriores negações de como agir diante da leitura de Migo. O leitor que o narrador de Migo tanto evoca parece-nos ser o leitor ideal. Segundo Iser (1996), o leitor ideal é aquele que deveria ter o mesmo código do autor, deveria ser capaz de realizar na leitura todo o potencial de sentido do texto ficcional, até mesmo esgotá-lo. Seria um leitor com acesso às mesmas intenções do autor, é quase uma impossibilidade. Ageu demonstra querer dominar o leitor. Em alguns momentos, parece desejar dialogar com o suposto leitor ideal, este seria o único a compreender suas angústias, ânsias e ideais. O narrador deseja que o livro seja lido por muitas pessoas, pois compara-se a Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, que são 63 grandes escritores e que tiveram reconhecimento em vida. Falando de Canuto, um de seus amigos, no capítulo “Mexerico” afirma que [o] que Canuto come mesmo, insaciável, é literatura: romance e poesia. Devora! Com bom gosto, é certo, rejeitando o ruim, o reles, apegando-se amoroso ao bom. Terá lido Drummond, mil vezes; o Rosa, quinhentas; a mim, mais de cem. Sabe melhor que eu da minha obra inteira, em detalhes miúdos. (RIBEIRO, 1988, p.26). É esse livro que faço agora e que hei de lavrar e acurar e apurar como a maravilha maior de que sou capaz. Maravilha maior não só minha, mas de todos os escritores mineiros. Nesta altura eu penso no Rosa e me encolho. Preciso é ser maior que ele. O maior dos escritores brasileiros. E por que não do mundo inteiro? (Ibidem, p.369). Ageu se compara a escritores de reconhecimento porque deseja alcançar a grandiosidade deles, vender tantos livros como eles. Alguns trechos de obras desses e de outros autores são citados durante a narrativa. Muitos capítulos de Migo possuem, ao final, num jogo intertextual, uma citação de versos, que se referem àquele capítulo de alguma forma, às vezes o resumindo, outras vezes servindo de tema para o próximo capítulo. Esses versos são de autores diversos, de nacionalidades diferentes, de outros tempos e contemporâneos a Darcy Ribeiro. A maior parte desses versos pertence a autores brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Castro Alves, Vinícius de Moraes, Augusto de Campos, Emílio Moura, Gerardo Mello Mourão, Manuel Bandeira, Maciel Monteiro, Raul Bopp, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Mário Quintana entre outros. Há versos de autores portugueses como Camões, Fernando Pessoa, Sá de Miranda, Paio Soares de Taveirós; há muitos versos de César Vallejo, poeta peruano; do chileno Pablo Neruda; de Alejandre Lora, um mexicano; de Bernard de Ventador, um poeta americano; Emily Dickinson também americana; existem versos de Dante Alighieri; de Mark Alexander Boyd, um poeta inglês. Há, inclusive, dois versículos bíblicos. 64 Percebemos que o autor Darcy Ribeiro transita entre a tradição europeia e a tradição latina. O autor de Migo demonstra conhecer as tradições europeia e latina trazendo para seu texto versos de diferentes poetas. Esse conhecimento pode levar um escritor a escrever não somente sobre o seu país e a sua contemporaneidade, mas considerando toda a literatura europeia concomitantemente com a literatura de seu país e de seu tempo. Há na narrativa de Migo uma tentativa de aproximação entre a tradição europeia e a tradição latina, que aponta para um amadurecimento da escrita e também para um compromisso em registrar uma geração literária contemporânea ao escritor. 2.2. O Colosso A palavra “Colosso”, em Migo, é o nome de cinco capítulos que separam os seis blocos horizontais de capítulos do “Sumário”, transcrito na página 60. Trata-se de um “Sumário” incomum, porque os capítulos não são numerados nem possuem indicação da página em que se encontram. Nesse “Sumário”, os nomes de 188 capítulos estão dispostos em quatro colunas e, através do título “Colosso”, surgem outros cinco capítulos separando horizontalmente seis blocos de capítulos. Apenas o primeiro bloco não é antecedido por um capítulo de nome “Colosso”. Se por um lado separa os capítulos, por outro lado a palavra “Colosso” prefacia esses capítulos e pode ser entendida como uma conexão entre eles. Tal conexão possibilita o narrador a reforçar o enredo de Ageu com a localização espacial de Belo Horizonte, aproximar os amigos intelectuais de Gê, descrever alguns momentos da história e da política dos mineiros e, sobretudo, discutir a arquitetura da cidade. O “Colosso” vai sendo apresentado no livro, aos poucos, despertando grande curiosidade. Descrito como uma construção arredondada, o que mais chama atenção no “Colosso” é o tamanho. Há variadas suposições dos amigos de Ageu a respeito do que seja essa construção. Nenhum deles sabe o que é; Zeca pensa ser um cassino, Stela deseja um museu, Elmano quer um abrigo geriátrico, Canuto sonha com uma biblioteca, Guedes quer ali a instalação de um instituto histórico mineiro, Nora está 65 assustada: “Que é aquilo, Santo Deus? Enormidade maior não há. O senhor precisa ir ver. É o Colosso de Rodes, só que arredondado, disforme, informe. (Ibidem, p.101). Ageu comenta sobre o “Colosso”: “Eu vi e não vi: divisei. De longe é um pedregulho enorme, redondo, informe ou disforme. De perto, me pareceu o cocoruto do Pão de Açúcar.” (RIBEIRO, 1988, p.275). No primeiro capítulo com o nome de “Colosso”, é anunciada a construção de “alguma coisa” de tamanho exagerado, fazendo lembrar o impasse da inauguração da Igreja de São Francisco na Pampulha, em Belo Horizonte. Uriel defendeu a construção dizendo que “Quando JK inaugurou a Pampulha foi a mesma coisa. Uma celeuma. Todo mundo perplexo com as obras se perguntando que igreja herege era aquela, com a torre do lado de fora, invertida.” (RIBEIRO, 1988, p.101). No segundo capítulo, questiona-se o desconhecimento da obra pelas autoridades de Minas Gerais. O certo é que ninguém sabe pra que se levanta Colosso tão colossal. Será que o prefeito sabe? O governador, se não sabe é um banana. Como é que as multi constroem aqui uma Coisa dessas que, com pouco tempo mais se inaugura, sem darem nenhuma satisfação às autoridades e ao público? Sem que prefeito e governador saibam de nada? É uma desfaçatez. Uma vergonha. O gordo e o magro são uns palermas. (RIBEIRO, 1988, p.187). É realmente de se espantar a construção de um monumento em uma capital como Belo Horizonte sem o conhecimento do governador do estado e do prefeito da cidade, o narrador Ageu fica inconformado com esse desprezo pelo Estado de Minas, “uma vergonha”. Na narrativa, o “Colosso” causa admiração e divide a opinião das pessoas. Há quem goste, há quem deteste. A esquerda é contra, porque gastouse ali cimento que daria para fazer casas para os favelados do Morro do 66 Cabrito. A direita é a favor, porque se trata de uma obra privada, de caráter cultural e patriótico, financiada pelas empresas exportadoras de minério. Sem ônus para o Estado, dizem orgulhosos. (RIBEIRO, 1988, p.275). O narrador é a representação de um intelectual mineiro, que está indignado com o monumento colossal, tece comentários sobre os posicionamentos políticos da esquerda e da direita sobre tal construção. Além disso, considera que essa construção demonstra uma grandiosidade que não é natural a Minas Gerais. Chega a afirmar que São Paulo comportaria tal magnitude. No terceiro capítulo “Colosso”, inaugura-se o tal monumento, “pedregulho enorme, redondo”. Os políticos de esquerda se manifestam contra a construção, consideram um desrespeito à soberania mineira. O narrador afirma que “Seria a primeira obra de arte de Belo Horizonte, depois da Pampulha.” (Ibidem, p.275). Na inauguração, a multidão mineira invade o monumento, não há ninguém para explicar a serventia da obra colossal. Segundo o narrador, o “Colosso” fica localizado no meio de uma área florestal, no Bairro da Baleia, um possível bairro de Belo Horizonte. No quarto capítulo “Colosso”, o Ministro da Cultura veio a Minas para tombar o monumento. “O Ministro da Cultura esteve em Minas para tombar o Colosso. [...] tombar o Colosso, Celso, para quê?” (RIBEIRO, 1988, p.359). O Ministro da Cultura era, na realidade, Celso Furtado, durante o governo de José Sarney (1985-1990). O narrador afirma que nem o prefeito nem o governador sabem bem o que o “Colosso” é; imagina, sarcasticamente, como seria a mulher do governador perguntando sobre a obra: “Newtinho, meu bem, que é aquele Trem? (Ibidem, p.359). O governador de Minas Gerais nessa época era Newton Cardoso. No quinto capítulo “Colosso”, revela-se o que é o tal monumento e há um escândalo na cidade. Trata-se de uma construção colossal em forma de útero, enfeiando a cidade, segundo Ageu. Estalou o escândalo em Belo Horizonte. O povo parece que descobriu o que é o Colosso, ou o Trem, como eles dizem. É pura pornografia. 67 Magno-pornô. Deboche. [...] Quem entra lá, atravessa, primeiro, uma via aberta entre dois paredões imensos que vão escurecendo à medida que se avança. Ao final, já anda às apalpadelas. Aí, dá com um tufo de vergalhões de aço, pretos, grossos, retorcidos, tão grande e espesso que uma pessoa passaria por aquilo como uma pulga pelos pentelhos. Transposto o tufo, entra numa imensa boca e desemboca num longuíssimo, larguíssimo túnel rosado, com estrias vermelhas, liso e brilhante como se fosse feito de pele e de pérola. Mucosa rosa. Começa, então, a ouvir uma música celestial, que, aos poucos, vai ficando solene e, à medida que prossegue, começa a ficar rítmica e excitante. A certa altura a música pára de estalo e surgem em toda potência, estrondando roucas, as batidas do coração materno. Aí, então, o invasor, aterrado, se encontra a si mesmo e berra de espanto seu grito primevo. Apavorado. Despenca do espaço, até onde, não se sabe. Até a vida, decerto. (RIBEIRO, 1988, p.403). A descrição do “Colosso” possui um teor erótico e surpreendente na narrativa, talvez intencionada a chocar o leitor. O “Colosso” é um monumento com o interior em forma de genitália feminina, há uma representação da vulva até o útero. As personagens ao entrarem no “Colosso”, sentem-se de tamanho mínimo e parecem retornar ao útero materno. É como se retornassem pela vagina materna ao início da própria vida, talvez ao grande momento da concepção. Essa alegoria do “Colosso” nos remete ao quadro “A Origem do Mundo”, de 1866, de Gustave Courbet. É uma pintura que representa o corpo nu de uma mulher. Nessa representação, a cabeça da mulher não aparece e o foco recai sobre as coxas abertas e o sexo feminino. O quadro fora encomendado por um riquíssimo colecionador de imagens eróticas. Depois, pertenceu a Jacques Lacan e atualmente se encontra no Museu d‟Orsay, em Paris. (KORFMANN, 2007, p.47). Segundo Michael Korfmann (2007), sobre a qualidade quase fotográfica das pinturas realistas de Gustave Courbet parece-lhe que o pintor tentava expressar de forma bem completa o que tomava como inspiração. (KORFMANN, 2007, p.47). A mesma temática do quadro de Coubert, “A origem do mundo” aparece no filme Hable con Ella, “Fale com ela” (2002), com direção e roteiro de Pedro Almodóvar. Nesse filme, há um curta-metragem também de Almodóvar cujo nome é Amante Minguante, “Amante Encolhido”. Nesse pequeno filme que ocorre dentro do filme, 68 temos uma narrativa em que há um homem e sua namorada. Ela está desenvolvendo uma fórmula para acabar com a obesidade. O homem ingere a fórmula recém-criada pela amada e começa a encolher até chegar a poucos centímetros de altura. Por estar diminuto, o amante visita o corpo da namorada enquanto ela dorme. Eis que temos uma cena que nos remete ao quadro “A origem do mundo”: o homem, diante da vagina de proporção gigantesca para ele, resolve entrar nela e permanece para sempre dentro do corpo feminino. A fotografia do filme explora os detalhes da entrada vaginal com o púbis coberto de pelos. Se estabelecermos uma analogia do “Colosso” ao quadro “A Origem do Mundo” e à cena do filme “Fale com ela”, teremos em comum talvez a crueza da representação da vagina de forma tão contundente. É possível que o “Colosso”, que é uma parte de uma obra literária, tenha sido inspirado pelo quadro de Courbet. As diferentes artes (pintura, cinema e literatura) se aproximam, em contextos históricos também diferentes, por tomarem como tema a genitália feminina. O “Colosso” é para nós, além de uma reverberação artística, uma solução encontrada pelo narrador para metaforizar a criação literária, o nascimento da narrativa em Migo. 2.3. Eu, migo, comigo Ageu Rigueira é alter ego de Darcy Ribeiro, segundo Haydée Ribeiro Coelho (1997). “Darcy Ribeiro apresenta, na ficção, o mundo de suas leituras e de sua formação [...] trata da vida do escritor mineiro Ageu de Sá Rigueira.” (RIBEIRO COELHO, 1997, p.19). O personagem central do livro é Ageu que se comporta como um eu-Darcy se, em sua trajetória, ele não tivesse ido para São Paulo, para o Rio de Janeiro e para o mundo, ou melhor, se tivesse estacionado a sua vida de intelectual em Belo Horizonte. “[...] acho que Darcy me assume tão bem porque espelho a vida que ele gostaria de ter vivido. Amo os amores que ele mais queria amar. Assim é ele. Foi-se de Minas há tanto tempo, perambular pelo mundo, mas não se consola.” (RIBEIRO, 1988 p.363). Em outros momentos, Ageu incorpora a representação de intelectual mineiro. 69 “Ageu [...] constitui uma projeção de um eu que poderia ser uma pessoa que não fui. Eu conto antes a história de Montes Claros e tento mostrar um intelectual provinciano em Minas Gerais [...]” (RIBEIRO COELHO, 1997, p.48). Configura-se, assim, na narrativa de Migo, uma mistura de “eus”, que são projeções de Dargeu, Gêdar, Ageu e Darcy. Sou sempre eu, igual a mim, mas tão diferente do que seria se tivesse ficado lá que, de fato, sou três. Sou o eu que levo em mim, o que teria sido se tivesse vivido minha vida no Mangueiral, com Nininha, indo e vindo ao Buritizal. Sou esse eu que sou, agora, feito aqui em Belo Horizonte. Sou o que devia ter sido, tão aspirado, se me tivesse mandado daqui. (RIBEIRO, 1988, p.259). Grifos nossos. Esses três “eus” são uma junção de Ageu Rigueira (personagem) e Darcy Ribeiro (autor), porque o primeiro seria o “eu” que permaneceria na cidade natal e assumiria as terras da família. O segundo “eu” é Ageu que se fez em Belo Horizonte e permaneceu lá. O terceiro “eu” é o que deveria ter saído de sua terra natal, passado por Belo Horizonte e encontrado o mundo, parece-nos uma referência direta a Darcy Ribeiro. Gê é o apelido de Ageu, cresceu na casa da avó Dona Coló com Nininha, sua irmã mais velha e algumas criadas. Tem muitas lembranças da infância. Conviveu com a família somente no Mangueiral. O nome Gê aparece nos momentos mais particulares de Ageu, momentos em que Ageu se refere à família e ao se relacionar com os amigos. Nininha, a irmã de Ageu, sempre o chama de Gê: “Fiz testamento, Gê. Lego tudo pr‟ocê. A casa e o Buritizal, Gê.” (RIBEIRO, 1988, p.266). Os amigos também o chamam pelo apelido como, por exemplo, quando Guedes tenta persuadi-lo a se integrar à Academia Mineira de Letras. “Ora, ora, seu Gê! Se até o Rosa entrou, isto não basta?” (Ibidem, p.311). Num jogo identitário, o narrador afirma uma divisão de “eus”. Se ele é o personagem Ageu Rigueira, esse é também Gê, um outro e mesmo “eu” que também pode se desdobrar em Dargeu, junção das iniciais de Darcy e final do nome Ageu. Ou 70 mesmo desdobrar-se em Gêdar, numa disposição diferente das iniciais dos nomes do personagem e do autor do livro. Numa projeção especular, autor e narradorpersonagem existem a partir de uma criação literária e da participação do leitor. Gê e eu. Eu e Gê. Dargeu. Gêdar. Eu sou eu? Ou eu sou ele? Ele é eu? Somos nós dois um só? Somos! Nisto está o risco. Há horas em que me sinto já tão atracado nele, que nem sou eu. O que me salva é o desejo de fugir dele. Voltar a mim. Ele, o que quer mesmo é que eu fique pregado aí nele, para todo o sempre amém. Gê só existe como sombra e criatura minha. Mas feito, perfeito, como está e instalado aí dentro de você que me lê, ele é ele mesmo. Sempre acho que, se me ausento, ele é nada. Mas começo a duvidar. Eu sem ele também sou nada pra você. Existo é para fazê-lo. Vivo é nele. (RIBEIRO, 1988, p.303). O narrador deixa claro para o leitor que Ageu Rigueira é um personagem, autônomo enquanto tal, mas é também uma criação e projeção de Darcy Ribeiro. “Não se confunda, leitor, esse Gê ou Ageu Rigueira, não tem nada a ver comigo. Assino este livro é como autor. Ele terá mais, talvez, é com você.” (Ibidem, p.98). O termo francês, correspondente ao pronome “eu” da língua portuguesa, é je, com pronúncia fechada, com sonoridade semelhante a Gê. Logo, poderíamos dizer que Gê é outra forma de se dizer “eu”. Sendo o Gê parte de Ageu, podemos pensar na palavra francesa jeu = jogo. Verificamos durante toda a narrativa um jogo de identidades entre Ageu Rigueira, Dargeu, Gê e Darcy Ribeiro. Conforme Lejeune (2008), temos as seguintes reflexões: O inegável aspecto normativo do “pacto” se deve essencialmente à apresentação categórica do problema da identidade. [...] Se, em 1980, escolhi o título Je est un autre [Eu é um outro] para a coletânea de artigos escritos depois do Pacto, foi justamente para reintroduzir a idéia de jeu [jogo] que está fatalmente ligada à de identidade. (LEJEUNE, 2008, p.56). 71 Lejeune (2008), em seu livro O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet, demonstra haver um elo entre o pacto autobiográfico e a questão da identidade. Considera de grande importância o estabelecimento da identidade para o gênero autobiográfico, por esse motivo escolheu o nome Je est um autre (Eu é um outro) para intitular a coletânea de artigos, que escreveu em 1980, depois do “pacto autobiográfico”, com intuito de apontar a ligação identitária do jogo entre o “eu e o outro”. Ageu é um “eu” que joga. A palavra “eu” também está dentro do nome Ageu. No capítulo “Escritura”, o narrador afirma: “Esse Gê, você já cansou de saber, sou eu mesmo. Ele sou aquele eu que houvera sido, se ficasse em Minas”. (RIBEIRO, 1988, p. 367). Aparece nesse capítulo o personagem Darcy Ribeiro. A palavra “escritura” significa “documento autêntico de um contrato” conforme o dicionário Aurélio (FERREIRA, 1999, p.801). Pensando nesse significado e analisando o capítulo “Escritura”, percebemos que se trata de mais um contrato estabelecido dentro do livro Migo. O narrador inicia o capítulo assumindo a natureza contratual do texto, selada pelo pacto entre ele e o leitor: [r]ecuso o direito autoral divino de tudo ver e tudo saber. Entrar no íntimo de meus personagens e fazê-los falar de suas intimidades mais recônditas, é dar uma de Deus onisciente, passarinhando acima deles, sabetudando, para dizer a você o que é, o já sido e o que ainda há de ser. (Ibidem, p.367). Um contrato requer pelo menos duas partes interessadas em um único objetivo e dispostas a fazer certas concessões mútuas. No caso, o narrador, sob a “pele” de Darcy Ribeiro reconhece que existe uma hierarquização entre esses dois sujeitos, no entanto, aparentemente recusa o papel de criador demiurgo. O Darcy-narrador relata, em certo momento da narrativa, estar em uma conferência do PMDB, em Maryland, estado do nordeste dos Estados Unidos e lembrar-se de Gê, como se ele fosse gostar de estar ali. “Qual! Gê, de palavras feito, 72 não vê nada, nem tem olhos de ver. Quem vê sou eu, pra ele e pr‟ocê. Sou eu que, aqui, olho com os dois olhos: deslumbrado.” (RIBEIRO, 1988, p.348). Segundo Hall (2006), analisando “como o conceito de identidade mudou: do conceito ligado ao sujeito do Iluminismo para o conceito sociológico e, depois, para o do sujeito pós-moderno” (HALL, 2006, p.21), afirma que as identidades eram uniformizadas e que passaram a deslocadas. Houve um descentramento da identidade do sujeito pós-moderno. A identidade desse sujeito pós-moderno é forjada através de “processos inconscientes, e não algo inato” (Op. cit., p.38). Pensava-se que a identidade era fixa e estável, mudou-se essa concepção, uma vez que a identidade estará sempre em processo, sendo reformulada em contínuo movimento de vir a ser. Para Hall (2006), a questão da identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é preenchida a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. [...] nós continuamos buscando a identidade e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude. (Op. cit., p.39). Portanto, a relação do “eu” com os outros é fator essencial na formação da identidade e a busca de uma unidade plena dessa identidade pode ser configurada em uma escrita biográfica. Podemos afirmar que em Migo há a representação da busca de identidade de que nos fala Hall (2006) e a consciência de que a identidade plena sabese de antemão impossível. Em Migo, temos um autor que, através do personagemnarrador, apresenta eus divididos, sem inteireza, projeções de um eu para outros. Ageu Rigueira são vários “eus” divididos em busca de uma identidade: Ageu, Dargeu, Gê, Gêdar, Darcy Ribeiro, Stela e Elmano, todos “eus” a partir dos nomes que os outros lhe dão ou que o projetam. Elmano é outra identidade de Ageu. No capítulo “Necro”, Ageu está devaneando sobre sua morte e acredita que um de seus amigos vai escrever seu 73 necrológio para o Jornal de Minas ou para o Estado de Minas. Pergunta-se o que dirão dele, um possível indício de preocupação com a imagem pessoal. Afirma que não vai se importar, uma vez que já estará morto mesmo. Logo após, deixa escapar que continuará através de seus livros e personagens. Imagina que será julgado postumamente pelos seus personagens, pelos seus vários “eus”. Menciona Elmano e diz que gostaria de ser como ele, pois esse não dá importância ao que dizem dele. “Gostaria de ser como o Elmano que não dá bola para julgamento alheio. Será que não dá?” (RIBEIRO, 1988, p.76). Acreditamos que Elmano constitui mais um alter ego de Darcy Ribeiro porque há, na narrativa, vários indícios dessa projeção, como na passagem em que Elmano considera que Ageu deu certo na vida, mas não ele. Elmano admira Ageu, deixando sempre uma pista de que queria ser como ele. “Pobre de mim, nunca fiz literatura como Ageu. Sempre me dei à ciência, ao ensaio.” (RIBEIRO, 1988, p.202). Ageu o admira e se projeta nele. “Elmano é o retrato de minha ambiguidade, reconheço. Talvez seja, também, quem eu quisera ser.” (Ibidem, p.339). No capítulo negritado que leva o seu nome, “Elmano”, esse começa a falar de si, logo se compara a Gê e reconhece ter inveja do amigo. O nome Elmano, sonoramente, remete-nos a hermano, que em espanhol significa irmão. Dessa forma, podemos afirmar que também Elmano é mais um desdobramento de Darcy Ribeiro, de Ageu Rigueira, de Dargeu, de Gêdar. Estou sempre implicando com a mistura contraditória de vaidades e de inseguranças que é o caráter de Elmano. Insegurança esquisita, inesperada, numa pessoa vaidosa, vivida, bem-sucedida, que podia, até devia, andar contente de si. Mas não, é todo um carente. Ele e eu. [...] Em mim, acho até simpática esta carência que, injusto reclamo no Elmano. Ela me relaciona de forma cordial com os outros, pedindo julgamento amável. (Ibidem, p.167). Elmano admite que entre ele e Gê existem muitas afinidades, representa o outro Gê que necessita de elogios e mimos. Gê desabafa que “O balanço de Elmano, 74 tão sombrio, poderia até me inspirar a fazer eu mesmo, o mesmo, no mesmo tom. Teria até minhas alegações negativas a fazer enquanto escritor. Ai de mim.” (RIBEIRO, 1988, p.401). Ageu, o intelectual que não saiu de Minas Gerais, lamenta estar fixado em Belo Horizonte e não ter ido para outras cidades e ao comentar que “Elmano se passeia contente pelo mundo afora, como ideólogo, pensador e até mesmo, salvador vocacional. Um dia despertará, espera, a admiração geral”. (Ibidem, p.196). Demonstra uma vez mais identificar-se com Elmano. Stela é uma personagem que se destaca no livro, está ao lado de Ageu durante muitos anos, o narrador afirma que foram namorados, amantes, quase se casaram e mantiveram uma estreita ligação de amizade. No capítulo “Escritura”, Ageu revela que “Stela também sou eu, em mulher. Feita para ser o contraponto, o côncavo do convexo de Gê. Pena é que, como você viu, ela se desembestou para ser o que bem quis, des-ser.” (RIBEIRO, 1988, p.367). Em outra passagem: “Meu vínculo com Stela, o dela comigo, é fundo. [...] Nos pertencemos, de fato, um ao outro.” (Ibidem, p.141). Portanto, podemos concluir que os personagens Gê, Dargeu, Elmano e Stela são desdobramentos de Ageu, que é alter ego de Darcy Ribeiro. Por um lado, Ageu se divide em vários “eus”, que vão se reunir na representação de Darcy Ribeiro. 2.4. Migo: do título à obra Fica evidente que o título da obra é uma redução do pronome comigo que remete para companhia, comigo significa “com + (antigo) migo, provavelmente do lat. vulg. cumecum”, (HOUAISS, 2009). Entretanto, quando se opta apenas por Migo, reduz-se o pronome e reforça-se a intimidade, a interiorização, a solidão, a individualidade e talvez aponte um olhar do “eu” para si mesmo. Sobre a titulação de livros, Compagnon (1996) informa que se trata de uma criação recente, século XVI, e que o título funciona, abaixo do nome do autor, como um mecanismo de entrada em um livro. Acrescenta que o título de um livro possui uma ambivalência, pois ele “denota e tem um sentido ─ corresponde às duas ordens de 75 questões [...] uma que concerne à técnica de sua reprodução, outra à lógica de sua produção.” (COMPAGNON, 1996, p.107). Essa ambivalência composta pela denotação, que corresponde ao significado do título, e pelo sentido, que justifica a razão da escolha desse título, é uma referência ao assunto do livro. O título Migo estabelece referência com a obra. É um título que suscita curiosidade, pois reduzido em si mesmo instiga o leitor e não antecipa a narrativa, embora na contracapa apareça a informação de que se trata de um romance. O título Migo parece denotar um olhar de um “eu” para si mesmo e parece ter um sentido de subjetividade. No primeiro capítulo do livro Migo, Ageu Rigueira, o narrador esclarece que [s]ó sei mesmo desse meu livro ─ diário? romance? biografia? ─ é seu nome provável: Migo. Não sei bem por quê. Será talvez para expressar minha identidade mais íntima: a-migo, co-migo. Lembra também inimigo. Que mais? Sei lá! Migo seja, isso me basta. Suspeito também que Migo seja eu. Sou eu. (Ibidem, p.13). Dessa forma, o título abre para o jogo que a narrativa instaura quando coloca em cena vários “eus” que se confluem, em Ageu, Gê, Dargeu, Gêdar, Elmano, Darcy. No capítulo Palavras, Ageu Rigueira, o narrador, tenta definir Migo. Eu, você, nós... palavras ! Tudo é ambiguidade pronominal. Qualquer deles se aplica a qualquer um. Só migo sou eu mesmo metido em mim, intimamente comigo, como meu próprio ser, indivisível. O seu eu, se você é, haverá de ser um migo, que nem o meu, fazendo de você uma pessoa única que persiste, insubornável na sua identidade essencial, até que morra, que nem eu. Mas que se seja com mais coragem que eu. Peque ou santeie, mas se gaste, pelo amor de Deus. (RIBEIRO, 1988, p.127). 76 O narrador quer mostrar que Migo é ele ensimesmado de si. Projeta habilmente jogos de palavras utilizando muito à vontade os pronomes eu, mim, migo, comigo. “Você e eu, eu e você, somos, cada um de nós, eu próprio, um ser em mim: migo. Inalcançável para qualquer outro”. (Ibidem, 1988, p.134). Em outro trecho, temos: “Cada qual tem seu migo íntimo lá consigo. Isto é migo. Meu de mim, comigo: migo. Tão eu e meu como meu umbigo.” (Ibidem, 1988, p.251). No Dicionário Latino de Ernesto Faria (1992, p.334), encontramos o verbete mecum = cum + me traduzido para o português como o pronome “comigo”. Essa constatação nos levou à Gramática Histórica, de Ismael de Lima Coutinho (1970) que assim descreve o termo mecum. mecum (ablativo) > mego (arcaico), migo. Resultou a forma mecum do ablativo me + cum. Leite de Vasconcelos supõe que em migo houve influência de mi. J.J. Nunes diz que, no latim vulgar, já ocorria micum. O esquecimento posterior do final -go de migo era a evolução natural da preposição latina cum foi causa de que o povo reforçasse aquele composto com a mesma preposição, de que resultou a forma atual pleonástica comigo. A desnasalação da primeira sílaba de comigo explica-se por absorção do -m- de com pela nasal seguinte. (COUTINHO, 1970, p.253). Dessa forma, verificamos que migo é a forma latina de comigo, a escolha do título Migo sugere a proposta do “eu” como objeto autobiográfico. Trata-se de um “eu duplo”, o “eu-ficcional” falando de um outro “eu” ou de si mesmo. “Migo” pode ser lido como “minha vida”, “meu eu”, “eu” apenas, “eu comigo mesmo”, “eu em mim”, ou seja, parece-nos que esse título aponta para a subjetividade de Ageu e de Darcy Ribeiro, aqui como personagem em Migo, o Darcy Ribeiro ficcionalizado. Encontramos, na narrativa, várias tentativas de definição de Migo. Todas essas definições são cercadas de formas pronominais e de figuras de linguagem, como metáforas dentre outras. No capítulo “Comigo”, por exemplo, Ageu imagina uma possível relação amorosa com Nora, utiliza migo como metáfora da conjunção carnal. 77 “Corpo a corpo, atracados. Meu corpo, o corpo de Nora: um corpo só. Migo dela no meu migo. Comigo. Umbigo a umbigo. Eu e Nora, Nora e eu. Eus. Sexo no sexo, atrelados. Eu em Nora, Nora ni mim.” (RIBEIRO, 1988, p.387). Ageu confessa que Migo é a sua essência. Este livro, essência de mim, é meu migo, arrancado da solidão de meu eu: É migo, comigo, para entrar em você; para ser, aí no seu íntimo, contigo, consigo. Tudo aqui são circunlóquios, metáforas, paráfrases. Sou eu atrás de mim, me abortando pelos lados, voando por cima, cavando por baixo, nessa busca do desconhecido de mim, do meu migo, dizível e indizível. (Ibidem, p.213). No capítulo “Vício”, depois de falar dos seus três primeiros romances, Maíra, O Mulo e Utopia Selvagem, o eu-Darcy tece reflexões sobre o livro Migo. Agora, o desafio é maior. Aqui encarno minha própria carne, a que podia ter sido, até devia. Mas não fui, aterrado que fiquei com a sina proposta de reviver a vida dos meus. O que busco é aquele eu que eu teria sido, é meu sentimento mineiro do mundo que eu teria tido, para, aqui, curti-lo de mentira, como se fosse meu mesmo no mais intrínseco de mim. (Ibidem, p.335). Migo é, portanto, o desconhecido de si, a busca de si nas memórias que empreende através da escrita. Segundo Michael Pollak (1989), “através do trabalho de reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros.” (POLLAK, 1989, p.13). No livro Migo, o narrador tenta construir a imagem de um intelectual mineiro que permaneceu em Minas Gerais. O seu lugar social é o de escritor, de intelectual e, mesmo assim, a sua identidade não se mostra bem delineada, uma vez que o narrador se une e se confunde com seus personagens. Ageu de Sá Rigueira relata a história de sua vida. De acordo com Pollak, quando contamos a história de nossa vida, buscamos manter uma coerência para relatar os fatos mais importantes e dar uma continuidade, geralmente, através de uma ordenação 78 cronológica. Contar a própria vida sugere uma necessidade de reconstrução da identidade. Em Migo, não há linearidade dos fatos, pois o enredo é entrecortado por alguns capítulos metaficcionais, que descrevem o processo da escrita de romances; por outros capítulos que teorizam sobre memória e outros que discorrem sobre Minas Gerais. O narrador não tem compromisso com a fidelidade aos fatos nem mesmo com as marcações temporais, porque se trata de uma autobiografia inventada, uma obra que tem aspectos ficcionais e não ficcionais, em que o narrador estabelece vários jogos identitários com o leitor. Porém, fica claro que a memória é um elo entre os fatos passados e o presente da narrativa com a finalidade de reconstruir a identidade do intelectual mineiro. Para reforçar a tentativa de definição do “migo”, há ainda um capítulo cujo título é o mesmo do livro “Migo”. Nesse afirma-se: “Migo é isto aí. E este sentimento contente de mim mesmo. E este sentido amor por mim. É a vontade de ser amado”. (Ibidem, p.349). O desejo de ser amado expresso pela escrita da obra, pela exposição desse eu-vários que se expõe ao leitor e a esse chama para compartilhar a busca de compreensão de si próprio num exercício autobiográfico de um eu-Darcy Ribeiro, de um eu-Ageu Rigueira narrador e dos outros “eus” que se apresentam e se encenam no jogo narrativo. Como se vê, em Migo, ocorre uma rememoração de Darcy Ribeiro através de um “eu-ficcional” que tenta representar o que ele teria sido se não tivesse saído de Minas Gerais para se lançar no mundo. No capítulo “Andorinhas”, por exemplo, há essa revelação do que ocorreria em Migo, uma autobiografia intelectual de Darcy Ribeiro, quando explica que [r]omances são espelhos de palavras refletindo mundos não havidos, mas que bem podiam ─ até deviam ─ ter sido. Minhas criaturas de papel que existem só dentro dos romances meus, existem com veemência total. Esse poder de enredar conferindo existência a personagens, verdade a acontecimentos, é o encanto mágico da literatura. (RIBEIRO, 1988, p.135). 79 Essa passagem constitui-se uma definição de romance como reflexo de mundos imaginários. Ao se referir “a mundos não havidos, mas que bem que podiam”, o narrador faz alusão ao propósito principal de Migo, que é narrar a vida de Darcy Ribeiro se ele tivesse permanecido em Minas Gerais, por isso acreditamos que Migo pode ser lido como uma autobiografia intelectual de Darcy Ribeiro. Quanto à definição de romance, estende-se à existência ficcional dos personagens e confere um caráter de “verdade” aos fatos da narrativa. Essa “verdade” dos acontecimentos nos remete à “verdade poética”, conceito desenvolvido por Silviano Santiago, em seu artigo “Meditação sobre o ofício de criar”. Nesse artigo, Santiago tece reflexões sobre a ficcionalização no texto literário: “A verdade não está explícita numa narrativa ficcional, está sempre implícita, recoberta pela capa da mentira, da ficção. No entanto, é a mentira, ou a ficção, que narra poeticamente a verdade ao leitor.” (SANTIAGO, 2008, p.177). 80 CAPÍTULO III – A ESCRITA MEMORIALÍSTICA EM MIGO Passado só serve pra isso, pra ser lembrado. É vida que já se foi, querendo existir como sobejo. Gravetos de lenha queimando um foguinho sem calor. (Migo, p.313). Em todos os dias de nossas vidas, lembramo-nos de pessoas, fatos, lugares, objetos. Essas lembranças vêm, às vezes, involuntariamente e nos enredam sem que nos demos conta disso. Em outros momentos, esforçamo-nos para recordar detalhes de nossas vidas, momentos de um passado remoto ou de um passado recente. Esquecemos certos fatos rapidamente; outros, porém, jamais esqueceremos. A esse conjunto de ações dá-se o nome de memória. Segundo Ecléa Bosi (2003), [a] memória opera com grande liberdade escolhendo acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente, mas porque se relacionam através de índices comuns. São configurações mais intensas quando sobre elas incide o brilho de um significado coletivo. (BOSI, 2003, p.31). Com toda essa liberdade de escolha, que a princípio nos parece casualidade, vamos talvez descobrir mais tarde os motivos de tal escolha. E o que nos parece apenas uma ação individual se baseia em experiências coletivas, a memória é sempre coletiva. Evocação do passado, eis a definição mais simples e direta do que seja a memória. É, pois, a capacidade humana em apreender e guardar na lembrança o tempo vivido, protegendo-o do esquecimento total. A lembrança mantém uma representação do que fomos e não haverá retorno dessa condição. Em Migo, ocorre uma representação de uma história de vida narrada por um personagem que tem o perfil de alter ego do escritor desse livro, Darcy Ribeiro, 81 acreditamos, por esse motivo, que pode ser lido como uma escrita autobiográfica. A memória, em Migo, é um elo que vai promovendo a união entre as recordações e o presente narrativo. Para William Gass (1994), a autobiografia se inicia com “a memória e a consequente divisão do eu em aquele-que-foi e aquele-que-é.” (GASS apud JACOBY, 1997, p.254). Em Migo, a possível autobiografia se baseia na memória e na divisão do “eu” em aquele-que-é, no presente, que deseja se ver como aquele-que-seria. Darcy Ribeiro, intelectual mineiro projetou-se em São Paulo, Rio de Janeiro e, até mesmo, em outros países, deseja compor através da imaginação a vida que teria se tivesse permanecido em Minas Gerais. Acreditamos tratar-se de uma escrita memorialística, autobiográfica, inserida no gênero confessional. O gênero confessional é uma recriação, em que a memória se combina com a imaginação. É uma “literatura centrada no sujeito, pois o sujeito é objeto de seu próprio discurso”. (REMÉDIOS, 1997, p.9). Pode ter diferentes formatos como a autobiografia, a carta, o poema, o diário dentre outros. Embora haja semelhanças entre as autobiografias, os romances autobiográficos e os diários, pois são formas autobiográficas centradas na figura de um narrador em primeira pessoa que se mostra, há um espaço mais ou menos definido para cada uma dessas possibilidades de escrita memorialística. Pode-se considerar que o início do gênero confessional remonta séculos passados, a sua produção se firma no início do século XVIII, com a noção da existência do “indivíduo”, com o estabelecimento da sociedade burguesa. No entanto, no século XX, diários, relatos pessoais, confissões “tornaram-se produtos de consumo corrente”. (Op. cit., p.9). Quando se fala em autobiografia, é possível que o leitor espere encontrar confidências, confissões, culpas e arrependimentos. Grandezas e misérias compartilhadas com o leitor. Não é um processo simples assim, William Gass propõe a seguinte pergunta: “que tipo de personagem posso esperar representar perante a consciência de uma outra pessoa ou perante o mais impiedoso dos palcos públicos ─ a página impressa?” (GASS apud JACOBY, 1997, p.254). Para Gass, “a página 82 impressa” é o público mais cruel, talvez por ser um registro que pode ser lido de diversas formas, em diferentes épocas e por diversos tipos de leitor. Segundo Compagnon (2010), durante algumas décadas, os estudos literários destinaram uma posição muito variável ao leitor. Por um lado, havia abordagens que o ignoravam totalmente; por outro lado, as abordagens que o valorizavam e, até mesmo, consideravam-no em primeiro plano. Somente a partir da segunda metade do século XX, algumas teorias literárias problematizaram a função e o papel do leitor, enfocando a própria ação requerida no ato da leitura. A principal delas é a estética da recepção. (COMPAGNON, 2010, p.137). De acordo com Zilberman (1989), a estréia da estética da recepção no âmbito da teoria da literatura se deve a uma conferência proferida por Hans Robert Jauss na Universidade de Constança em 1967. O título inicial dessa conferência era “O que é e com que fim se estuda a história da literatura” e posteriormente teve o seguinte título: “A história da literatura como provocação da ciência literária”. Parece ter havido, por parte de Jauss, uma intenção de polemizar sobre os pontos de vista em vigor na história da literatura, investindo-se contra o seu ensino e tomando uma posição radical que confere ao texto a marca da ruptura de uma nova era. Além disso Jauss propôs uma reformulação dos estudos da história da literatura (ZILBERMAN, 1989, p.29-30). Zilberman (1989) afirma que Jauss organizou em sete teses o seu projeto de reformulação da história da literatura. Em uma dessas teses, o teórico atribui à recepção de uma obra e ao efeito que ela exerce na sociedade ao conhecimento prévio, por parte os leitores, do gênero dessa determinada obra. Ou seja, uma obra de um gênero mais conhecido é mais facilmente compreendida. A sétima tese, além de relacionar a literatura com a sociedade, tem um propósito à medida que “Jauss enfatiza a função que exerce, de cunho formador: a literatura pré-forma a compreensão de mundo do leitor, repercutindo, então em seu comportamento social.” (Ibidem, p.38). A estética da recepção foi um amparo teórico importante para esta pesquisa. Em Migo, o narrador faz constantes interpelações ao leitor sobre o lugar que esse ocupa no mundo. 83 Parece-nos que o maior valor da estética da recepção encontra-se em uma nova concepção metodológica para o conhecimento da literatura. E, sobretudo, rever a posição do leitor como um dos principais elos do processo literário. (Op. cit., p.32). 3.1. A autobiografia A autobiografia é um gênero literário em que uma pessoa narra a história da sua própria existência. É um meio de registrar a sua presença no mundo. Ao narrar a sua própria vida, o autobiógrafo retoma fatos passados e faz uma leitura de suas experiências de vida. Acrescenta ao “eu” vivido um “eu” ficcional. Philippe Lejeune, em seu livro O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet (2008) define autobiografia como “narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade”. (LEJEUNE, 2008, p.14). A partir dessa definição, Lejeune elabora uma definição da autobiografia em quatro categorias diferenciadas, que seriam constitutivas de toda autobiografia. A primeira categoria estabelece a forma da linguagem, preferencialmente, como uma narrativa em prosa; em segundo lugar, o assunto dessa narrativa deve ser uma vida individual ou a história de uma personalidade; em terceiro lugar, o narrador deve identificar-se com o autor, cujo nome remete a um personagem real; em quarto lugar, é necessário haver uma relação de identidade entre narrador e personagem principal e adotar uma perspectiva de retrospecção da narrativa. Para o pensador francês, é imprescindível um pacto que pressuponha identidade de nome entre o autor, o narrador e a pessoa de quem se fala, trata-se do “pacto autobiográfico”. Há várias formas de se estabelecer esse “pacto autobiográfico”: através de um roteiro de leitura na parte inicial de um livro, pela ligação entre autor e narrador durante a narrativa, às vezes por meio do título de um livro. Enfim, devem coincidir autor = narrador = personagem principal. (LEJEUNE, 2008, p.14-15). Em 1988, Darcy Ribeiro publicou Migo, uma obra que pode ser considerada autobiográfica. Em primeira pessoa, Ageu Rigueira se apresenta como um intelectual 84 sexagenário que vive em Belo Horizonte. Em algumas partes do livro, o narrador de Migo deixa claro que Darcy Ribeiro e Ageu Rigueira sejam a mesma pessoa. [...] contei como minhas, estórias minhas e de Darcy, em suas andanças latino-americanas. Histórias de terremotos. O que vi, de verdade, no México, nem vi. Era de noite e eu pensava que fosse alucinação do pileque que tinha tomado. Acordei com a cama do outro lado do quarto. Tremendíssimo foi o do Chile, que contei como se fosse meu e quase matou Darcy de medo. Principalmente, ao ouvir a coisa horrível que é a terra trovoando, cruscindo, diz ele, estrugindo. A vidraçaria do quarto balançava como se fosse cortina. (RIBEIRO, 1988, p.216). Esse trecho e outros semelhantes a ele, na narrativa, nos levam a pensar em um texto autobiográfico. O autor do livro é Darcy Ribeiro, o narrador e também personagem principal é Ageu Rigueira. Sobre essa obra, Ribeiro afirma que escreve a vida que poderia ter vivido se não tivesse saído das Minas Gerais. O autor circula por alguns gêneros literários e chega até mesmo a questionar o que seja a sua obra. Migo é autobiografia, é romance, é romance-autobiográfico, é diário, é autoficção? O que podemos afirmar é que Migo traz elementos autobiográficos, permitindo assim uma predominância principalmente da (auto)biografia e da autoficção. No início do livro, há um “Roteiro” em que o narrador procura conduzir o leitor, propondo um contrato, apresentando uma forma de leitura, de como se deve realizar a leitura. É um pacto de leitura, que tenta manipular o leitor quanto ao modo de ler. No entanto, sabemos que o leitor está livre para ler, o leitor pode desprezar as sugestões do narrador. (LEJEUNE, 2008, p.57). Compagnon (2010) afirma que a estética da recepção é uma abordagem teórica que revalorizou a leitura e o efeito produzido no leitor. (Op. cit., p.145). Para “Roman Ingarden, fundador da estética fenomenológica” (Op. cit., p.146), e posteriormente para Wolfgang Iser, o texto literário é “caracterizado por sua incompletude e a literatura se realiza na leitura. [...] O objeto literário autêntico é a própria interação do texto com o leitor”. Conforme Ingarden e Iser, o objeto literário é 85 “um esquema virtual” formado de lacunas, de indeterminações que são preenchidas pela leitura. (Op. cit., p.147). A noção de “leitor implícito” surgiu baseada na noção de “autor implícito”, introduzida pelo crítico americano Wayne Booth em The Rhetoric of Fiction [A Retórica da Ficção]. Wayne Booth “defendia a tese segundo a qual um autor nunca se retirava totalmente de sua obra, mas deixava nela sempre um substituto que a controlava em sua ausência: o „autor implícito‟”. (Op. cit., p.148). Em Migo, notamos a presença do leitor, de forma bem explícita, “Vamos, minha cara, meu caro, vamos logo. Sente, se abanque, porque ler deitado faz mal à vista, acomode-se bem, me leia e desfrute se puder.” (RIBEIRO, 1988, p.10). O “autor implícito” interpela o “leitor implícito” e define, assim, um pacto de leitura para introduzir o leitor no livro. Compagnon relata que, para Iser, o “leitor implícito” é imprescindível para a construção do sentido do texto, fornece um modelo ao leitor real. (COMPAGNON, 2010, p.149). Iser afirma que o leitor possui “um ponto de vista móvel, errante, sobre o texto”. (Op. cit., p.150). Isso porque vai descortinando um aspecto do texto de cada vez e, através da memória, congrega os aspectos para dar coerência ao texto, sem ter uma visão do texto todo simultaneamente. Iser “insiste naquilo que chama de „repertório‟, [...] conjunto de normas sociais, históricas, culturais trazidas pelo leitor como bagagem necessária à sua leitura”. (Op. cit., p.150). Acreditamos que o efeito que o texto provoca no leitor pode ser diferenciado conforme o repertório de cada um. Iser acredita que a obra é aberta, mas apenas para que o leitor obedeça a ela. “O leitor implícito [...] só tem como escolha obedecer às instruções do autor implícito, pois é o alter ego ou o substituto dele.” (Op. cit., p.150). E, seguindo esse raciocínio, o “leitor real” se vê diante de um impasse: seguir as prescrições do “leitor implícito” ou recusar as instruções de leitura. (Op. cit., p.150). “O leitor de Iser é um espírito aberto, liberal, generoso, disposto a fazer o jogo do texto”. Esse leitor é ainda um “leitor ideal” semelhante a um crítico culto, ou seja, o “leitor ideal” é um “leitor culto”, que conhece as obras clássicas e se interessa pelas modernas. (Op. cit., p.151). 86 Jauss chama de “horizonte de expectativa” o que Iser considera como “repertório”: “o conjunto de convenções que constituem a competência de um leitor (ou de uma classe de leitores) num dado momento; o sistema de normas que define uma geração histórica”. (Op. cit., p.154). O “horizonte de expectativa”, com uma nuança histórica, “é o conjunto de hipóteses compartilhadas que se pode atribuir a uma geração de leitores”. (Op. cit., p.209). O “horizonte de expectativas”, de certa forma, não deixa de ser o conhecimento de mundo numa determinada época. Compagnon afirma que, para Jauss, [g]raças [ao leitor], a história literária parece novamente legítima, mas ele continua ignorado. Jauss nunca estabelece distinção entre recepção passiva e produção literária (a recepção do leitor que se torna, por sua vez, autor), nem entre leitores e críticos. [...] O leitor continua sendo uma entidade abstrata e desencarnada em Jauss, que tampouco nada diz sobre os mecanismos que ligam, na prática, o autor e seu público. (Op. cit., p.214). A distinção entre a recepção passiva e produção literária seria como distinguir leitores e críticos. Apenas os críticos que deixam suas reflexões escritas sobre suas leituras podem descrever os horizontes de expectativa, pois é provável que somente através de uma leitura que se desdobra em escrita, pode-se descrever “as hipóteses compartilhadas” de leituras de uma mesma geração. O leitor, para Jauss, não desempenha, na prática, uma ligação entre o autor e seus leitores. Essa posição se mostra diferente da posição de Iser que acredita que o leitor está propenso ao jogo do texto. Em Migo, aparece o “leitor implícito” submetido aos jogos do “autor implícito”, que é o narrador. No capítulo “Saudade”, o narrador, além de teorizar sobre a construção do romance, aborda o leitor. 87 Romancear enredos é curtir saudades de mim na carne dos heterônimos que me dou. Margem a margem, por toda a extensão deste meu rio de palavras, sou eu que me resumo e me alterno, falando a você – sinceramente, intimamente – de mim, de nós. (RIBEIRO, 1988, p.42). O leitor na passagem acima parece estar submetido à vontade do narrador, quando esse afirma “sou eu que me resumo e me alterno, falando a você – sinceramente, intimamente – de mim, de nós”, pois o narrador escolhe como vai narrar e o que vai narrar. Essa estratégia de referir-se ao leitor durante a narrativa é mais um jogo textual. Resta ao “leitor implícito” nortear o “leitor real”, que vai decifrar o jogo textual. Em outra passagem, o narrador afirma “Sou o que quero ser, escritor de livros legíveis, sem maiores pretensões artísticas ou poéticas. Escrevo é para entreter você. No máximo comover, jamais me impor, exemplar, persuadir, convencer.” (Ibidem, p. 68). Nesse trecho, o narrador reafirma o jogo que estabelece com o leitor, apontando as intenções lúdicas de sua narrativa. A teoria da estética da recepção, quando se refere às questões sobre autor e leitor, remete-nos ao dialogismo de Mikhail Bakhtin (1984). O conceito de dialogismo contribui sobremaneira para a compreensão da questão do leitor, pois “parte do princípio linguístico segundo o qual todo ato de linguagem sempre leva em conta a presença, ainda que invisível, de alguém para quem se fala ou escreve”. (BAKHTIN apud SILVA, 2009, p.181). Caso consideremos que o que é falado ou escrito visa a um interlocutor, podemos dizer que “todo ato de linguagem participa, mesmo que num grau pequeno, da intenção de convencer, de persuadir o ouvinte/leitor; e também prevê, ou imagina prever, as possíveis reações desse ouvinte/leitor”. (Op. cit., p.181). Para Bakhtin, o ato da linguagem não prescinde dessa relação dialógica, pois todo significado vai depender “de uma relação entre quem emite e quem recebe”. (Op. cit., p.181). Portanto, na leitura de uma obra, além dos personagens que interagem entre eles mesmos, há o diálogo entre uma pessoa que lê e o próprio livro. Quando Bakhtin afirma que o ato de linguagem conta com a presença, ainda que invisível, de alguém para quem se fala ou escreve, poderíamos fazer uma associação com o “leitor 88 implícito” de Wolfgang Iser, pois “esse alguém para quem se fala ou escreve” tem dimensão semelhante ao “leitor implícito”. Migo é uma possibilidade autobiográfica. Isso pode ser percebido em trechos como “Livro maldizente, esse meu, não é mesmo? Mas de mim você verá que não falo. Entrego é quem a mim se achega confiante. Tenho é que me cuidar. Disfarçar mais para que isto seja publicável”. (RIBEIRO, 1988, p.77). No capítulo “Ficção”, temos mais um fragmento em que o leitor vai ser chamado à narrativa. Cada personagem desse romance sou eu e é você, seja você quem for, homem ou mulher. Nosso Gê respira o alento de vida que nós lhe damos. Nisto ambos concordamos, colaboramos. Criando um personagem me multiplico, dou vida a ele e vivo, sentido, sua vida. [...] Assim é que você co-autora meus romances. Fantasiamos juntos, eu escrevendo, enredando. Você lendo, imaginando. Coniventes, criamos e nutrimos pessoas a que só falta carteira de identidade para serem gente como nós. (Ibidem, p.178). Nesse fragmento, o narrador busca uma identificação com o leitor. Está tecendo reflexões sobre o jogo ficcional como, por exemplo, quando fala da criação de personagens. Assim, demonstra dominar a escrita e, em seguida, propõe ao leitor uma coautoria do romance em que ele também é personagem. Logo, podemos pensar Migo como uma história de vida do narrador Ageu. Esse é alter ego do escritor Darcy Ribeiro, temos então um texto autobiográfico. Para escrever O pacto autobiográfico, Lejeune (2008) considera As Confissões (Jean-Jacques Rousseau) como modelo de autobiografia clássica para inspirar os seus estudos. Na primeira versão de O pacto autobiográfico publicado em 1975, Lejeune se mostra irredutível quanto aos limites do que é autobiografia e o caráter de veracidade. Se o narrador-personagem acaso tiver um nome fictício, que para Lejeune é um nome diferente do autor, pode até induzir o leitor a imaginar que os fatos vividos por ele (pelo narrador-personagem) sejam idênticos ou muito parecidos 89 com dados da vida do autor que consta na capa do livro. Mesmo com motivos suficientes para se pensar em autobiografia, se não houver o pacto autobiográfico Lejeune afirma “esse texto não é uma autobiografia, já que esta pressupõe, em primeiro lugar, uma identidade assumida na enunciação, sendo a semelhança produzida pelo enunciado totalmente secundária”. (Ibidem, p.24-25). Os textos de ficção em que o leitor pode encontrar semelhanças entre dados do autor e do narrador Lejeune atribui à categoria do romance-autobiográfico. Lejeune nomeou os casos possíveis de autobiografia. Para tal baseou-se em dois critérios: “relação entre o nome do personagem e o nome do autor, natureza do pacto firmado pelo autor”. (LEJEUNE, 2008, p.28). Houve duas reescritas de O pacto autobiográfico, uma chamada de O pacto autobiográfico (Bis) publicado, em 1986, e outra intitulada O pacto autobiográfico, 25 anos depois publicado, em 2001. Nessas versões, Lejeune admite novas possibilidades de como se pensar em autobiografia e assume ter sido radical em alguns pontos da sua primeira versão do pacto autobiográfico, que foi publicada em 1975. Em O pacto autobiográfico (Bis), faz uma releitura de “O pacto autobiográfico com o objetivo de rever alguns pontos sensíveis: a definição, o vocabulário, o contrato, o estilo e a ideologia autobiográfica”. (LEJEUNE, 2008, p.49). Quanto à definição de autobiografia, “narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade” (LEJEUNE, 2008, p.14), o autor afirma não se reconhecer mais nessa definição. Acredita ser primordial a identificação da obra a ser analisada e se for preciso deslocar os limites autobiográficos. “[...] a experiência demonstra que é preferível começar pela análise de um corpus ao invés de propor imediatamente uma definição”. (LEJEUNE, 2008, p.51). Quanto ao contrato de leitura, Lejeune acrescenta que é possível haver uma discordância entre a intenção inicial do autor e a intenção que será fornecida ao leitor, isso porque talvez o autor não tenha a dimensão dos resultados da indução que propôs ao leitor em sua apresentação do pacto. Devem ser levadas em conta as circunstâncias que existem entre autor e leitor como a interferência do editor para atender à mídia, 90 modificando a escolha de subtítulos, classificações e até mesmo a chamada publicitária. (Ibidem, p.57). No texto O pacto autobiográfico, 25 anos depois, Lejeune repensa O pacto autobiográfico e chega a se arrepender de não ter reconhecido o talento de XavierÉdouard Lejeune, seu bisavô, pois Lejeune demorou uns dez anos para considerar o livro escrito pelo bisavô como uma autobiografia. Wander Melo Miranda (2009) em seu livro Corpos escritos, toma como objeto de análise as obras Memórias do Cárcere e Em Liberdade, de Graciliano Ramos e de Silviano Santiago, respectivamente. Considera as posições de Lejeune e de outros teóricos a respeito da autobiografia e evidencia que a postura que ele adotará em seu livro Corpos escritos será a de um discurso literariamente intencionado. Tal postura faz diferença, pois um texto literariamente intencionado permite a interação de uma modalidade narrativa com outros tipos de modalidades aproximadas. Wander Miranda questiona “se o que limita ou define um texto autobiográfico depende da vida concreta do autor ou da própria estrutura textual”. (MIRANDA, 2009, p.29). Conclui ser difícil demarcar os limites entre a vida e a obra do autor. “Dessa perspectiva, a autobiografia não se confunde com a dita vida de um autor, com o corpus empírico que forma a vida de um homem empiricamente real.” (DERRIDA apud MIRANDA, 2009, p.29). Eneida M. Souza (2007), em “Notas sobre a crítica biográfica” afirma que “a crítica biográfica [...], englobando a relação complexa entre obra e autor, possibilita a interpretação da literatura além de seus limites intrínsecos e exclusivos, por meio de pontes metafóricas entre o fato e a ficção.” (SOUZA, 2007, p.105). Dessa forma, a crítica literária corrobora com as reflexões de Wander M. Miranda no que tange à complexidade da relação obra e autor nos escritos (auto)biográficos e enfatiza a existência de elos entre o fato e a ficção nesse gênero. Entendemos que no texto autobiográfico ocorre uma transfiguração da vida na obra. A autobiografia é uma autorrepresentação em que a ficcionalidade reveste a autorreferencialidade. Não importa o grau de referencialidade, a autobiografia é uma narrativa cujo objetivo é dar a conhecer uma versão da história de vida do autobiografado. (MIRANDA, 2009, p.37). 91 A definição de autobiografia conforme Lejeune (2008), “narrativa retrospectiva [...] que uma pessoa real faz de sua própria existência [...]” (LEJEUNE, 2008, p.14), leva-nos ao seguinte questionamento: como compreender a identidade da “pessoa real” que narra a história da própria vida? Parece-nos que essa “pessoa real” se transforma em um “eu ficcional”, ou seja, o autobiógrafo se torna, dentro da narrativa, um personagem de si mesmo. No livro Migo, de Darcy Ribeiro, do qual fizemos uma leitura autobiográfica, essas questões surgem na narrativa. Primeiramente porque o narrador não define o gênero do livro, pode ser romance, autobiografia, diário ou crônica. Em segundo lugar, porque o “eu” se desdobra em seus personagens e o próprio Darcy Ribeiro surge, na narrativa, também como personagem. O que pudemos entender é que há um amálgama entre aspectos ficcionais e não ficcionais nesse livro. 3.2. A autoficção O termo autoficção surge a partir dos estudos de autobiografia. Lejeune (2008) elaborou um quadro de combinações possíveis, considerando apenas narrativas autodiegéticas, para obter como resultado o que poderia ser nomeado autobiografia e o que poderia ser nomeado romance. Essas combinações se valiam de dois critérios: a relação entre o nome do personagem e o nome do autor e a existência de pacto autobiográfico, de pacto romanesco ou inexistência de pacto. Aliadas aos dois critérios haveria três situações possíveis: a) o personagem tem um nome diferente do autor, b) o personagem não tem nome, c) o personagem tem nome igual ao do autor. Para exemplificar, vamos considerar um dos casos que Lejeune considera ser uma autobiografia: uma obra em que o personagem não tem nome, mas há uma identificação explícita entre autor e personagem, confirmada no prefácio. É o caso do livro História de minhas idéias, de Edgar Quinet; o nome do personagem não aparece na narrativa nem uma vez, porém o “eu” refere-se sempre a Edgar Quinet. (LEJEUNE, 2008, p.28-30). 92 Lejeune deixou, no entanto, duas combinações sem uma possível nomenclatura, às quais denominou casas cegas. Serge Doubrovsky sentiu-se instigado a resolver uma dessas casas cegas. Deu o próprio nome ao personagem e associou ao pacto romanesco. Dessa forma, escreveu um romance sobre a sua história, Fils (1977), e chamou-o de autoficção. O nome Fils pode significar filho ou fios6. Lejeune considerou admirável o livro e afirmou que, a partir do livro de Serge Doubrovsky, pude observar um fenômeno mais amplo: nos últimos dez anos, da „mentira verdadeira‟ à autoficção, o romance autobiográfico literário aproximou-se da autobiografia a ponto de tornar mais indecisa do que nunca a fronteira entre esses dois campos. (LEJEUNE, 2008, p.59). Podemos observar que Lejeune, embora pareça demonstrar uma preferência pela autobiografia, considera a autoficção como um gênero próximo àquela. Em O Pacto autobiográfico, 25 anos depois, Lejeune faz uma autocrítica, em que vai apontar gêneros próximos à autobiografia e afirma que tentei estudar analiticamente uma série de gêneros fronteiriços ou de casos-limites: a autobiografia que finge ser uma biografia (a narrativa em terceira pessoa), a biografia que finge ser uma autobiografia (as memórias imaginárias, todos os mistos de romance e autobiografia (zona ampla e confusa que a palavra-valise autoficção, inventada por Doubrovsky para preencher uma casa vazia de um de meus quadros, acabou por abranger), a enunciação irônica e o discurso indireto, todos os casos em que um mesmo eu engloba várias instâncias (história oral, entrevista, textos escritos em colaboração etc.) depois as produções que associam a linguagem, capaz de dizer eu, a meios de comunicação que se mostram menos capazes de fazê-lo (como a imagem) etc. (LEJEUNE, 2008, p.81.). 6 Tradução feita pela Professora doutora Jovita M. G. Noronha, da Universidade Federal de Juiz de Fora em Palestra intitulada “O pacto autobiográfico de Philippe Lejeune”, proferida na Universidade Federal de São João del-Rei, no dia 05 de dezembro de 2011. 93 Para Lejeune, há muitos equívocos na leitura desses gêneros e acredita ser possível que muitas autoficções sejam lidas como autobiografias. Ocorre que, a partir da segunda reescrita do pacto autobiográfico, Lejeune se mostra mais flexível quanto às definições de autobiografia, mas afirma “para mim, o essencial continua sendo, confesso, o pacto, quaisquer que sejam as modalidades, a extensão, o objeto do discurso de verdade que se prometeu cumprir.” (LEJEUNE, 2008, p.81). O teórico francês admite que sua definição inicial de autobiografia era bem rigorosa, admite ainda o surgimento de muitas dúvidas, relata continuar estudando esse tema e promete novidades para o ano de 2016. “A autoficção se inscreve no coração do paradoxo no final do século XX: entre o desejo narcisista de falar de si e o reconhecimento da impossibilidade de exprimir uma „verdade‟ na escrita.” (KLINGER, 2007, p. 26). Diana Irene Klinger (2007), em seu livro Escritas de si, escritas do outro, busca apoio em Philippe Gasparini (2004) que utilizou três nomenclaturas para produções literárias da “escrita de si”: “autobiografia fictícia, romance autobiográfico e autoficção”. (GASPARINI, apud KLINGER, 2007, p.45). Na autobiografia fictícia, o autor finge escrever uma autobiografia, porém não exige a identidade entre personagem principal, narrador e autor. O romance autobiográfico se insere na categoria do verossímil. A autoficção mescla o verossímil ao inverossímil. Para Klinger (2007), o risco da classificação das produções literárias de Gasparini é denominar todo tipo de ficção em autoficção. No entanto, Klinger seguindo a definição de Doubrovsky afirma que “a autoficção é um gênero bivalente, ambíguo, andrógino”. (KLINGER, 2007, p.48). Parece-nos que o termo autoficção é bem complexo, por esse motivo e além das novas interpretações que está recebendo desde que foi criado, é difícil apontar as teorias que vêm sendo formulados sobre ele. Portanto vamos nos atentar para a definição de Doubrovsky. Serge Doubrovsky (1988) se sentiu provocado a demonstrar a sua insatisfação com as postulações de Lejeune sobre o pacto autobiográfico. A casa cega do quadro de Lejeune seria a possibilidade de um romance com identidade de nomes do personagem principal, autor e narrador. Assim, Doubrovsky escreveu um romance 94 com esses aspectos, chamou esse romance de autoficção, uma ficção de acontecimentos e de fatos reais. Para ele, a autoficção não é “nem autobiografia nem romance, e sim, no sentido estrito do termo, funciona entre os dois, em um reenvio incessante, em um lugar impossível e inacessível fora da operação do texto”. (DOUBROVSKY, apud KLINGER, 2007, p.47). Doubrovsky compreende a autoficção como uma ficção de uma pessoa que escreve “um romance de sua vida”. Por isso, tenta conceituá-la como “a ficção que eu, como escritor, decidi mostrar de mim mesmo e por mim mesmo, incorporando, no sentido estrito do termo, a experiência de análise, não somente no tema, mas também na produção do texto”. (DOUBROVSKY, apud KLINGER, 2007, p.52). O romance Fils (1977) apresenta autor e narrador com o mesmo nome, a narrativa é ficcional. Dessa forma, Diana Klinger (2007) pensou a autoficção sendo um tipo de escrita de si que não tem nenhum compromisso com a verdade, exterior e anterior ao texto. (KLINGER, 2007, p.167). A autoficção seria outra possibilidade de leitura de Migo, visto que há também aspectos característicos da autoficção nesse livro, embora já tenhamos afirmado não ser possível apontar um único gênero literário para essa obra. Dentro do livro na página cinco, temos abaixo do nome “Migo” a palavra “romance”, essa indicação já nos remete à existência de uma escrita ficcional. Trata-se de uma narrativa ficcional autodiegética, em que o narrador é Ageu de Sá Rigueira. Sou Ageu Rigueira, mineiro bom, natural de Mangueiral, filho de Athos, músico boêmio de vocação, de ofício guarda-livros. Minha mãe, Bebela, católica orante, morreu de me parir. Em Mangueiral vivi infância vadia. Aqui em Belo Horizonte, mocidade atormentada, querendo me matar. Vim aos vinte anos, aqui estou atolado há quarenta, sempre com vontade de escapar. Ainda escapo. (RIBEIRO, 1988, p.19). No entanto, à medida que a narrativa se desenrola, encontramos aspectos factuais como em: “Tancredo morreu! Morreu Tancredo! ─ o Brasil chora. Minas inda 95 mais.” (RIBEIRO, 1988, p.46). Além dessa passagem, encontramos outras em que surgem nomes de personalidades de existência real como Juscelino Kubitschek, Carlos Drummond de Andrade dentre outros. Há aspectos autobiográficos explícitos que abordam fatos reais da vida do escritor como em “Darcy vem pra cá! Isto mesmo, doidura pura, Darcy volta, vem construir brizolões (centenas) pro Newton.” (Ibidem, p.265). Essa notícia veiculada por um personagem remete à vinda de Darcy Ribeiro a Minas Gerais a convite do Governador Newton Cardoso, em 1987, para que Darcy Ribeiro construísse em Minas escolas como os CIEPS, que Ribeiro juntamente com Leonel Brizola construíram no Rio de Janeiro. E, conforme já informamos anteriormente, esse fato ocorreu na realidade. Além desses aspectos autobiográficos, Darcy Ribeiro interfere na narrativa e o consideramos personagem do narrador Ageu. Eu apenas o concebo e o vou criando ao descrevê-lo. Faço isso com as manhas do ofício, para que você ache que é tudo verdade. Quero mesmo é que você se identifique com meus personagens, pensando que é um deles. [...] Juntos, eu escrevendo, você lendo, comporemos o romance de Gê e de nós dois. (Ibidem, p.98). Este é o livro das minhas verdades. Mangueiral é o nome falso de um lugar real, onde nasci eu, e muita gente mais. Lá crescemos, brincando debaixo de mangueiras mil, de centenárias jaqueiras, de pitombeiras e de tanto arvoredo mais. (Ibidem, p.98). O personagem Darcy, além de participar do jogo de identidades em que finge contrapor-se a Ageu, tece comentários sobre a escrita do livro, deixando indeterminações de sua função dentro da obra. 96 Mas, retomando as reflexões de Doubrovsky sobre a autoficção que não é “autobiografia nem romance” e que estabelece entre esses gêneros literários uma ligação, dando-lhes um “entre-lugar” difícil de ser captado e também explicado, entendemos que é possível realizar uma leitura de Migo como autoficção. 3.3. Esfolando a memória Os capítulos de Migo, aparentemente independentes, são alinhavados pela memória. O narrador intitula as suas recordações de “recordos” e, através de alguns capítulos metaficcionais, vai reconstituindo as suas memórias. Afirma carregar em si muitas lembranças, das quais podemos inferir que são importantes para a constituição de sua identidade. Mergulho outra vez no poço dos meus recordos. Levo no peito toda uma humanidade. Levo principalmente, o cemitério de meus mortos e o magote dos meus ausentes que me voltam incansáveis. Eu os vejo, vivos e presentes, como um dia foram, mas sabendo que estão mortos, ou que, longe de mim, envelhecem sozinhos. Só existem como matéria de memória na minha lembrança, como eu existirei recordável na lembrança de outra gente. Mas não são eles, os ausentes ou os mortos que mais me atazanam. São meus próprios eus que eu fui, vivi e deixei de ser. (RIBEIRO, 1988, p.292). O que me cabia mesmo é romancear, logo vi. O romance como forma livre de repensar a existência, com as suas paixões insondáveis: o amor, a santidade, a sexualidade, a libertinagem, o assassínio, o suicídio, o incesto, o fascínio, o horror, o desprezo, a abnegação, a angústia, e todos os outros aguilhões do corpo e da alma. Nada disso se sabe olhando para fora, objetivamente. Só se sabe, só se sente, olhando para dentro, subjetivamente. (Ibidem, p.282). Este recordo eu tinha, tenho, no fundo de mim, sempre pronto a se desdobrar. É matéria vivente da memória, me devolve Solzinho toda inteira, na sua forma, aquela, nas suas cores solares, no seu cheiro nítida. (Ibidem, p.171). 97 A narrativa em Migo se mostra fragmentada e o narrador se vale da memória como um fio que enreda toda essa fragmentação. Ao recordar pessoas, fatos, sentimentos, o narrador parece estar prolongando suas experiências passadas e espera ser recordado pelas pessoas. Assim percebemos a memória interligando passado e futuro. Ageu é escritor de romances e quer demonstrar que, só através da subjetividade, do olhar para dentro de si consegue-se repensar a vida. “Mas não são eles, os ausentes ou os mortos que mais me atazanam. São meus próprios eus que eu fui, vivi e deixei de ser.” (Op. cit. p.292). A busca de seus “eus” pode apontar para uma preocupação existencial de ser e de permanecer nas recordações de outras pessoas. O narrador declara existir na imaginação, ou seja, na ficção, admite que é um personagem. Através das palavras e com as palavras pode reviver amores, remoer saudades, demonstrar ternura. “Sou feito de palavras. Palavras lidas. Palavras faladas. Palavras ouvidas. Não há lembrança minha de minha vida vivida que não me venha envolta de palavras.” (Ibidem, p.126). Ao escrever romances, Ageu parece demonstrar que se realiza, que acredita em sua existência. “Romanceando. Nisto é que eu me alço com algum sustento no registro da realidade presente; outro, em passados recordados e até arriscando um pé em futuros viáveis.” (Ibidem, p.282). Além de escritor de romances, Ageu se define como leitor e bom ouvinte. Comenta que os fracassados na vida são pessoas que se importam apenas em acumular riqueza material, acrescenta que esse tipo de pessoa inspira a criação de personagem de romance. Termina o capítulo “Caju” com versos de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. (PESSOA apud RIBEIRO, 1988, p.123). Nesses versos metapoéticos de Fernando Pessoa, do poema Autopsicografia, o eu lírico sente uma dor, e essa dor é revestida por outra dor, a fingida. O fingimento poético nos encaminha para uma possível interpretação desses versos como uma definição do que é ser poeta. Em Migo, temos um narrador que finge sentir dores como solidão, abandono e a dor de um amor 98 impossível, Nora. Tudo isso nos leva a perceber o jogo ficcional de representação da realidade. Para amenizar as dores fingidas, Ageu afirma sentir prazer quando se recorda de seus casos amorosos. Por meio desses devaneios eróticos, o narrador rejuvenesce. Nessa atitude, são apresentadas mulheres como Bia, Sol, Lu, as quais seriam possíveis amantes do narrador. Ageu relata que as mulheres citadas são representações das mulheres de Darcy Ribeiro. A verdade que eu aqui revelo, agora, doída verdade, é que por trás de minhas amadas tantas, tão belas, que aqui desfilam suas graças, eriçando pêlos, destilando óleos e mirras, recendendo almíscar, estão, disfarçadas, as amadas de Darcy. Você reparou como as mulheres dele são sempre peludas e cheias de cheiros? (RIBEIRO, 1988, p.363). Conclui que os amores vindos através da lembrança são mais bonitos, mais vigorosos, talvez porque sejam reconstruções de lembranças. Distante desses amores vividos, Ageu entende que eles estiveram sempre em suas recordações. “Agora, tão longe de meus amores vividos, descubro que minhas amadas estão, sempre estiveram, foi em mim, como fontes jorrantes de amor.” (Ibidem, p.240). Assim, compreendemos que esses amores têm existência na imaginação de Ageu, no momento em que ele evoca essas lembranças. Ageu de Sá Rigueira constrói através da narrativa as suas memórias, vai tecendo sua identidade. Afirma se sentir seguro por ter suas raízes no Mangueiral. “Mangueiral me dá seguranças insubstituíveis. Principalmente a de ter raiz. Isto me faz peculiar entre as gentes cá de fora, tão sem cara.” (Ibidem, p.137). Esse sentimento de pertencimento é uma necessidade social, pois confere uma identidade ao personagem. Diz sentir-se mais seguro através de suas raízes, identifica-se com a sua cidade natal, manifesta sentir saudades de lá. Tem certeza de que no Mangueiral possui segurança afetiva. 99 É bom demais ter certeza de que Mangueiral existe . De que lá está Nininha que me ama e há uma vida que me espera sem parar. Não importa quanta carência ou indiferença encontre eu cá. Sei que sou oriundo de lá e que Nininha me quer de graça. Culpado ou inocente. [...] Às vezes matuto meus impossíveis. Quem não? O melhor deles é maginar uma vontade forte, irresistível, de voltar pra casa, voltar lá pro Mangueiral. (Ibidem, p.137). Quando Ageu se lembra de Mangueiral de forma saudosista demonstra que, no momento da enunciação está inseguro e procura segurança nessa lembrança do lugar de nascimento. Procura, dessa forma, um pertencimento através do espaço de nascimento e da vivência durante o período da infância. Enumera o que trouxe do Mangueiral, sua caveira, suas carnes, seus cabelos, suas unhas e suas memórias. Trouxe, inclusive minha caveira que lá já portava inteira. Não as carnes. Estas, provisórias, se refizeram, se renovaram, se enrugaram. São outras. A cabeleira e as unhas de lá também se foram. Hoje, se eu não podasse, elas formariam medonha teia de sagarços cacheados de longuíssimas conchas nacaradas. Principalmente, trouxe minha alma, fundida lá. (RIBEIRO, 1988, p.137). As carnes eram provisórias e foram se renovando e enrugando, modificandose a partir das vivências. O esqueleto veio de lá. Mas sua identidade foi se moldando, modificando-se com as vivências. O narrador evoca também lembranças de Buritizal, o espaço rural onde sua família possui terras. Quanta ciência minuciosa a daquela minha gente roceira. Um saber diferente. Viviam em casas espaçadas umas das outras, por toda a vastidão do Buritizal. Cada família com sua rocinha, nos mandava 100 galinhas d‟angola, ovos de pato, leitões e requeijões, até sabão feito de cinza mandavam. Toda aquela gente minha se foi, escorraçada pela pastaria. Foram, como eu, ser baianos em São Paulo, por aí. Eu atolei em Belo Horizonte. (RIBEIRO, 1988, p.269). Através das recordações, o narrador evoca detalhes da vida anterior a vinda para a capital mineira. Há nessa passagem um pouco de saudosismo, que em seguida ele direciona para a dispersão dos seus conterrâneos que se projetaram em São Paulo. E, além disso, parece reclamar de ter fixado residência em Belo Horizonte. Relata que a glória de sua família é o Barão de Gurutuba, seu trisavô, ou melhor, um dos seus tantos tataravós. Lembra-se da avó Coló que se casou com Joaquim Pedro Conegundes. As pessoas da família da avó materna de Ageu gostavam de ter fazendas. Nesse ponto da narrativa, Ageu se compara a Carlos Drummond de Andrade, quer se sentir “um fazendeiro do ar”. Essa comparação se apresenta como mais um elo estabelecido pela memória. Ageu relata outras lembranças como a de seu avô Quincas Sá quando esse comprou um carrilhão para a Igreja da cidade. Passaram seis horas comemorando: comendo, bebendo, soltando fogos, duas bandas líricas, ruas enfeitadas. Ageu se pergunta por que o avô teria agido assim; para impor admiração ou pagar pecado feio. Por que se lembrar desse fato? Quantos estavam presentes? A memória é sempre coletiva, pois apesar de parecer um fenômeno individual ela é partilhada com as pessoas que conosco compõem um grupo. De acordo com Halbwachs, [t]alvez seja possível admitir que um número enorme de lembranças reapareça porque os outros nos fazem recordá-las; também se há de convir que, mesmo não estando esses outros materialmente presentes, se pode falar de memória coletiva quando evocamos um fato que tivesse um lugar na vida de nosso grupo e que víamos, que vemos ainda agora no momento em que recordamos, do ponto de vista desse grupo. (HALBWACHS, 2009, p.41). 101 Essa lembrança da compra do sino da igreja pode ter sido vivenciada por Ageu como pode ter sido contada para ele por seus familiares. Não tem importância se o personagem tenha participado dessa comemoração ou ter recebido informações sobre essa festa, de qualquer forma a memória é sempre coletiva pois pertence ao ponto de vista do grupo de pessoas a que ele pertence. Isso também ocorre quando Ageu se lembra da morte de sua mãe Bebela. Lembra-se do pai, que estava esquecido na narrativa. O pai não suportou tanto sofrimento sem a esposa, entregou-se à bebida e ao bandolim. Morreu jovem. Em meio às suas recordações afirma: “Hoje vi, longamente, o corpo morto de meu pai, exposto na sala de fora da fazenda, sobre um catre.” (RIBEIRO, 1988, p.154). Dessa forma, podemos dizer que a memória é uma forte presença em Migo. Através dela, o narrador vai construindo a sua narrativa de vida e, por meio de representação, a narrativa de parte da vida de Darcy Ribeiro. Ageu admite viver de sua memória, de suas ficções, de sua imaginação. Nós todos, literatos, não seremos uns onanistas? Não trocamos a vida real, gozosa ou sofrida, mas real, de toda gente que sabe vivê-la, por fantasias de personagens, amores inventados, substitutivos masturbatórios? (RIBEIRO, 1988, p.27). O narrador nomeia de “substitutivos masturbatórios” o sentimento de prazer que os escritores podem ter ao produzir obras, por isso considera os literatos “uns onanistas”, que, na visão do narrador, trocam até mesmo o prazer sexual pelo prazer conferido pela leitura e escrita. Ageu afirma que passou a maior parte da vida lendo e escrevendo. Acrescenta que gosta é de gentes de papel, os personagens de seus romances. Sobre esses ele afirma que criou de acordo com sua vontade, ainda assim, às vezes um ou outro acabam por surpreendê-lo. Ageu relata-nos que gosta de pensar, diz que é uma máquina de pensar. Afirma que comanda, quase sempre, essa máquina de pensar e, quando quer abri-la, as recordações vêm desordenadas. 102 Quando quero recordar passados, me abro e eles me vêm desordenados, inesperados, surpreendentes. Mas sempre enredados em seqüências de cenas significantes. Eu recuso uma, recuso outra, pego alguma, aprofundo, escarafuncho. (RIBEIRO, 1988, p.82). Essa é mais uma reflexão metaficcional sobre a maneira como vêm as lembranças ao narrador. No final desse capítulo “Calei”, admite que esse fluxo é mais uma invenção. “Aqui entre nós, o fluxo é miraculoso. Se minha inspiração tivesse um milésimo do vigor desta fábrica de imagens soltas, instantâneas, eu poderia escrever livros incomparáveis.” (Ibidem, p.85). A rememoração é acentuada em Migo, pois é através da memória que narrador e personagens vão compondo a narrativa e refletindo as intenções da escrita desse livro. Vamos retornar à minha escritura de esfolar memória. Isto me acaba, me aniquila, mas alivia. Me dá o gozo que hoje tenho. Descarrega as saudades tantas demais que carrego. Saudades do ruim e do bom, que a vida me deu e me tirou. Meu coração sentimental, tudo destila. Sofre outra vez, gozozo, dores doídas. Busca, contente, a ressonância de alegrias antigas. (RIBEIRO, 1988, p.139). O narrador tenta justificar as escolhas que fez para narrar as suas histórias, admitindo o gosto pelo tom memorialístico e também tentando imprimir a sensação de umas dores talvez imaginárias, nessa junção de saudade e alegria. 3.4. Darcy, personagem de Ageu O crítico Fábio Lucas (1991) afirma que “a particularidade mais notória em Migo consiste na intervenção freqüente e direta do mundo não ficcional dentro da ficção”. (LUCAS, 1991, p.248). Durante a narrativa, o narrador Ageu refere-se a várias 103 personalidades brasileiras como políticos, professores da Universidade Federal de Minas Gerais e escritores. Dentre os escritores, aparece Darcy Ribeiro. Ageu chega a visitá-lo em uma viagem ao Rio. “Só visitei Darcy e Cláudia. Avisando antes, claro. Tudo bem. Ruim foi encontrar lá o Elmano. Aqui não tenho prazer de vê-lo. Lá não necessitava.” (RIBEIRO, 1988, p.52). Entendemos, portanto, que esse Darcy Ribeiro que aparece no livro é um personagem, é também ficção. Ageu Rigueira é alter ego de Darcy Ribeiro e Darcy é personagem de Ageu. Isso porque, dentro da ficção, as personalidades tornam-se “gentes de papel”, ou seja, são ficcionalizadas. No capítulo “Cautela”, Darcy Ribeiro como personagem de Ageu, alerta-nos que devemos ter cuidado com Gê, porque ele “está fazendo [nossa] cabeça. [...] Ele engabela muito e é convincente.” (RIBEIRO, 1988, p.212). Está propondo mais um jogo de identidades ao insinuar que Gê está manipulando o leitor, afinal os personagens Darcy Ribeiro e Gê são um só. Acho uma desonestidade o escritor se servir do romance para doutrinar. A natureza do romance pede inocência do leitor, e ainda mais do escritor. Quem lê, ou bem se abre e se entrega deixando-se penetrar até o fundo, ou não goza. Nisto, precisamente nisto, reside o perigo. O leitor, inocente, se abrindo para participar vitalmente da história romanceada. E o bandido do autor, em lugar de enredo romanesco, insinuando idéias, metendo doutrinas. (RIBEIRO, 1988, p. 212). Na verdade, ao falar dessa ingenuidade do leitor e do escritor, o personagem Darcy Ribeiro está tentando controlar o leitor, impedindo mais uma vez que esse leitor possa emitir opiniões. “Cautela” é mais um capítulo metaficcional, que reflete sobre como é o seu processo de escrita. Escreve como que “parindo crias” (p.213). Relata que as criações saem de sua imaginação “sem qualquer plano nem intenção. Se razão há, [...] isto não é assunto meu. É tarefa de crítico e ele que se vire, misturando fatos inventados por mim com teorias cabeludas lá dele [...]” (Ibidem, p.213). No capítulo “Gente”, há marcas bem claras de Darcy Ribeiro como em “Esse Gê, meu personagem, voz falante nesse romance, é ficção. Seus sequazes, idem, 104 idem.” (RIBEIRO, 1988, p.248). Sequazes significa partidários, assim Ribeiro afirma que Gê e seus seguidores são apenas vozes falantes nessa narrativa. Gê é ficção, personagem do autor Darcy Ribeiro. Entretanto, esse Darcy Ribeiro que surge no livro é personagem de Gê, pois participa da narrativa e pode assumir os seus “eus”. “Eu, sou eu mesmo que, aqui de cima, invento, traço e retraço, neles, retratos meus disfarçados. Mais reveladores, talvez que qualquer confissão que no meu caso, como no de todos mais, é sempre insincera; têm que ser.” (Ibidem, p.248). No capítulo “Alceu”, que se refere a Alceu Amoroso Lima, Darcy Ribeiro interfere na narrativa para brincar com o tempo que no jogo da memória não tem precisão cronológica. Perdão, leitor, suporte mais uma intervenção minha. Indispensável. Este capítulo do Ageu, além de injusto com Alceu é um feio anacronismo. Alceu morreu em 1983 ─ eu até discursei no cemitério ─ Gê começou esse diário romanceado em 1985; hoje é 29 de outubro de 1987. Como é que ele podia ter assistido ontem a uma conferência do Alceu? Caduquice. Isso é que é. Só pode ser. O velho destrambelhou. (RIBEIRO, 1988, p.229). Essa é mais uma passagem metaficcional. Darcy-personagem está duvidando da afirmação do narrador Ageu, discute o assunto da narrativa. Insinua que as datas mencionadas estejam incorretas e se permite julgar o narrador. “Esse Darcy é da pá virada. Me meteu numa campanha eleitoral dele.”(Ibidem, p. 184). Nesse capítulo, Ageu Rigueira expõe-se mais uma vez ao jogo das identidades, critica as manias de Darcy Ribeiro. Nesse trecho, Ageu emite julgamento sobre Darcy Ribeiro, apontando para uma das “peles” que Ribeiro possui, a de candidato político. Lembrando tratar-se de Darcy-personagem, notamos que o narrador deseja produzir dúvidas no leitor quanto ao julgamento que faz de Ribeiro. É real ou fictício? “Você viu como Darcy se intrometeu? Me pôs pra trás, o sacripanta. Isto é rememoração dele. Não tem nada a ver comigo. Sacana.”(Ibidem, p.293). Esse trecho 105 conclui o capítulo metaficcional “Vejo”, que contém doze parágrafos, dentre eles, nove iniciados pela expressão “Me vejo”, em que Ageu recorda e reinventa fases de sua vida de criança, ginasiano, universitário a militante comunista em São Paulo. “Me vejo criança, olhando meu pai morto, de perfil, com fios de barba aparecendo [...] Meu pai que nunca vi vivo nem morto! Isto não é lembrança, é imaginação, fantasia, desvario.” (Ibidem, p.292). Nesse trecho, reaparece o fio da memória. O personagem afirma lembrar-se do pai morto e, em seguida, relata que nunca vira o pai, isso ocorre porque quando há lacunas nas rememorações, completamos essas lacunas com informações de outras pessoas ou, até mesmo, inventamos lembranças. No capítulo “Vício”, o narrador apresenta-nos metaficionalmente os romances de Darcy Ribeiro. O personagem Darcy cria indeterminações para iludir o leitor, em diversos momentos da narrativa. Comporta-se como personagem, mas também menciona fatos da realidade, quando, por exemplo, elenca os romances do escritor Darcy Ribeiro. Este meu Migo que você lê aí, não sei onde, não sei quando, é o quarto romance que escrevo. [...] Num, o primeiro, me visto de índio Mairum para sentir e fazer sentir a dor e o gozo de ser índio. Seu tema é a morte de Deus: morre porque o mundo não tem remédio. [...] Noutro me faço de fazendeirão boçal, como minha gente dos dois costados [...] Tudo fiz, pus quanto talento tinha, para desenhar odioso aquele Mulo e ele me saiu comovente. [...] No terceiro assumo, rindo, a nossa consciência numa anti-utopia glauberiana em que me disfarço de negro prenhador de amazonas [...]. (Ibidem, p.334-335). Os livros apresentados são na ordem de publicação: Maíra (1976), O Mulo (1981), Utopia selvagem (1982) e Migo (1988). Nesse capítulo “Vício”, há também passagens metaficionais: Agora, o desafio é maior. Aqui encarno minha própria carne, a que podia ter sido, até devia. Mas não fui, aterrado que fiquei com a sina proposta 106 de reviver a vida dos meus. O que busco é aquele que eu teria sido, é meu sentimento mineiro do mundo que eu teria tido, para, aqui curti-lo de mentira, como se fosse meu mesmo no mais intrínseco de mim. (RIBEIRO, 1988, p.335). Nesse trecho, o narrador de Migo, Ageu Rigueira, Darcy Ribeiro, Gê, Dargeu, Gêdar, descreve o próprio livro Migo: um “eu” ficcional que busca um “eu” que teria sido com uma visão de mineiro sobre o mundo. Ao afirmar “Aqui encarno minha própria carne”, reafirmamos a nossa leitura autobiográfica dessa obra. 3.5. Ageu e as Minas Gerais Em Confissões (1997), Darcy Ribeiro narra que ao voltar exílio, quis rever as Minas Gerais. Iniciou sua trajetória por Montes Claros, sua cidade natal, para rever a mãe, os entes queridos, sua terra, sua gente. Desejou visitar as cidades históricas de Minas Gerais, passou por Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Diamantina. Queria rever as igrejas mineiras, os casarões antigos, as ruas empedradas. A viagem de Ribeiro pode ser comparada à histórica viagem às cidades coloniais mineiras, em 1924, de um grupo de intelectuais paulistas ligado à Semana de Arte Moderna. Entre esses intelectuais estavam Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e outros. Através dessa viagem, os paulistas tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a história mineira, que se tornou objeto de reflexão para a arte moderna. Darcy Ribeiro diz sentir um exaltado sentimento patriótico em relação a Minas, buscando sempre descendentes da coragem de Felipe dos Santos, de Tiradentes e do Aleijadinho, considerava que seriam esses descendentes os responsáveis em renovar o Estado de Minas Gerais. (RIBEIRO, 1997, p.463-464). Quando voltei do exílio dei uma vasta volta por Minas Queria ver minha terra, minha gente. Abraçá-los, comovido. Primeiro fui a Montes Claros ver mamãe, minha família, acompanhado de jornalistas que iam em 107 avião próprio, porque eu não os queria comigo. Eu era notícia, então, como exilado como exilado voltando para casa. (Ibidem, p.463). Outro episódio recordável de meu retorno foi a visita que fizemos, mamãe e eu, a um fazendeiro nosso vizinho e amigo da família, seu Lopinho. Ao chegarmos, a mulher dele gritou para dentro no timbre mais alto, para vencer sua surdez, que era eu, o Darcy da Fininha, que estava voltando. Ele contestou lá de dentro: “Não é, não. Ninguém volta do desterro”. (Ibidem, p.463). As reflexões sobre Minas Gerais em Migo possuem um duplo sabor; um sabor nostálgico de quem quer manter vínculos com as suas origens e um sabor amargo da constatação de que a pátria mineira necessita evoluir. Em Migo, o autor Darcy Ribeiro constrói uma visão crítica de Minas, através do narrador Ageu Rigueira. Perdoe-me, você que me lê, essa explosão zangada de minha veia cívica mineiral. Isso às vezes me ocorre, mas é raro. Não se assuste. Sou manso. Manso, como os mineiros todos. Só nos movemos e comovemos, de fato, é para forçar o mundo a continuar tal qual. Entretanto, sinto no fundo do peito que existe outra Minas, que há de ser. Uma Minas profunda de rios secretos, correndo subterrâneos. Uma Minas que, incógnita, permanecerá até seu dia. Quando? Para quê? Sei lá. Só sei que ela está rilhando os dentes nesta espera secular. Era potranca ainda quando isto começou. Hoje é cavala no cio, presa nos varais de aroeira, escoiceando no escuro. [...] É hora, Minas, é hora, acorda. Rompe essas peias, joga fora esses arreios, eriça o pelo, balança a cabeça e as crinas, salta, escoceia e saia à luz de outro dia de glória. (RIBEIRO, 1988, p.311-312). Ageu é um escritor mineiro, nascido no interior e estabelecido em Belo Horizonte há quarenta anos. Sonha com Minas Gerais novamente gloriosa, com o novo dia em que se faça nas Gerais, através de atos fortes, “um mundo de belas verdades, renegando esse mundo de pobres verdades e tristes mentiras”. (RIBEIRO, 1988, p.78). Assim que chegou à capital mineira, nos idos de 1940, rapidamente, Ageu descobriu as tribos políticas que disputavam os poderes entre si em Belo Horizonte. De 108 um lado, os opositores ao poder vigente, “Virgilinho, Afonsinho, Miltinho, Pedrinho, Zezinho e Biazinho”. De outro lado, aqueles ligados ao governo de Benedito Valadares (1933 – 1945), envolvidos nas teias do regime militar, “Chico Campos, Capanema, Alkimim, Ciro, Casassanta” e tantos outros, para ele, dissimulados. Da política aos costumes mais populares, tece reflexões sobre os mineiros. O patriciado mineiro com seus dois bandos. O dos desapeados do poder que ruminavam ressentimento: Virgilinho, Afonsinho, Miltinho, Pedrinho, Zezinho, Biazinho. E o outro, o dos alçados ao governo, uns áulicos de boca presa nas tetas da ditadura: Benedito, Chico Campos, Capanema, Alkimim, Ciro, Casassanta. O patronato de banqueiros e outros ladrões, escondidos atrás de suas façanhas, eu nem via. (Ibidem, p.88). Ageu critica os mineiros quanto a um sentimento ufanista de serem donos de uma região geograficamente cercada por montanhas. Conforme Ageu, não há morro que se destaque em Minas, o que há são serras que erguem fronteiras entre o estado mineiro e o mundo. Indaga se não é esse o motivo de os mineiros estarem tão atrasados na vida e na história. No tempo da extração do ouro, considera que os mineiros ficaram na frente dos outros brasileiros. Depois, só houve recuo. Acredita que o povo das Minas é um povo conformado. Lamenta a dispersão da gente mineira, na época em que o ouro acabou. Depois da glória aurífera, Minas Gerais foi desmatada, encontra-se coberta de capinzais a esperar gado que não vem. O povo mineiro ficou abandonado, somente vivendo da lembrança dos corajosos desbravadores. Dessa forma, começa a definir o que são os mineiros: Isto somos, descendentes miúdos de audazes pioneiros de agruras, virados capiaus geralistas desses carrascais do Acaba-Mundo. Imprevidentes, sem ouros, agora vendemos os ferros da morraria e tocamos fogo na mataria. Disto agora vivemos, queimando os verdes para fazer carvão. Fundindo pobres ferros de exportação. (RIBEIRO, 1988, p.111). 109 O tempo a seu tempo, dirá se Minas se acaba sem glória, ou se ─ queira Deus ─ se alça, outra vez altaneira. Minas que um dia se alçou pelos ouros, pelos diamantes e pela liberdade, se alçará por si mesma? Tomara! Nada indica que isto suceda. Só de vê-los, ─ Ó! meu povo ─ a vocês e a mim também, tão pachorrentos nós todos, me revolvem as tripas. Por que esse povo meu, tão capaz de grandezas de antanho, agora é tão chinfrim? (Ibidem, p.111). Através de Ageu e de outros personagens, vai sendo forjada uma crítica sobre Minas Gerais quanto a alguns aspectos como o conformismo do povo pobre e sofrido, o isolamento de Minas em relação aos outros estados, o atraso da mentalidade intelectual do estado. Ageu como alter ego de Darcy Ribeiro está refazendo os caminhos que Ribeiro percorreu. Quando escreveu Migo (1988), Ribeiro já havia vivido as experiências do exílio, conhecido bem mais a América Latina e muitos países europeus. Darcy Ribeiro demonstra um sentimento de amor a Minas Gerais, mas, ao mesmo tempo, evidencia que o estado mineiro não evoluiu. No capítulo intitulado “Alceu”, Ageu Rigueira participou de uma conferência de Alceu Amoroso Lima sobre Minas e mineiridades. O narrador ironiza dizendo que teria sofrido uma conferência, acredita que Alceu, sendo carioca, tenha inveja dos mineiros, do que ele imagina que são os mineiros. Ageu critica as excessivas qualidades que Amoroso Lima atribui ao povo de Minas Gerais. Para Alceu, os mineiros são, ao mesmo tempo, o povo “mais chinfrim e o mais admirável”. (RIBEIRO, 1988, p. 228). Narra como Alceu A. Lima descreve fisicamente os mineiros e, também, moralmente. Chama a conferência de “patacoada”, nomeia Amoroso Lima de passadista reacionário, contrabandeador de cultos e valores eternais. Chega a atribuir uma fala a Alceu de Amoroso Lima: __Mineiros do meu Brasil, sede cada vez mais tal e qual sois. A missão de Minas é impor respeito ao passado. É incutir amor à tradição. É a todos os homens bons conclamar para o serviço de Deus, da Pátria e da Família. (RIBEIRO, 1988, p.229). 110 Saímos juntos comentando nossa mineiridade franco-britânica, suíça e sínica. Guedes, encantado, declamou louvores a Alceu. Ele seria o único pensador autêntico do Brasil. O intelectual que surgiu, afinal, para entender e fazer entender a nós, mineiros. Seu pensamento, acrescenta, precisa ser difundido pelos púlpitos e pelas cátedras para salvar o Brasil da demagogia, da corrupção e do modernismo. (Ibidem, p.229). Bomeny (1994) aborda a mineiridade clássica de Alceu Amoroso Lima, para a qual “O sentido da vida estaria assegurado pela manutenção da tradição, e no mineiro tal gesto se manifestaria na desconfiança em relação a mudanças”. (BOMENY, 1994, p.18). A escritora parece considerar que a visão da mineiridade e dos mineiros em Alceu Amoroso Lima é uma visão baseada em modelos já estabelecidos. A mineiridade é vista como valorização das tradições mineiras e os mineiros são vistos como pessoas contrárias a renovações. Para o narrador, a mineiridade está associada a três heróis que deviam ser fonte de inspiração para os mineiros. São eles: Felipe dos Santos, Joaquim José e Antônio Francisco. Relata-nos que o santo de sua devoção é Antônio Francisco, mulato mineiro. O narrador considera como lenda ou mito a história que contam de Aleijadinho, não acredita que algum artista teria feito com “tocos de mãos” as obras barrocas espalhadas em Minas, que são atribuídas a Aleijadinho. Considera essa história exageradamente sofrida. Para ele é uma mentira. Ao abordar o passado de Minas Gerais do século XVIII, podemos pensar no livro A tradição inventada, de Eric Hobsbawm (2008). Para esse autor, existem na história oficial fatos e tradições que parecem ter ocorrido fielmente como descritos e, no entanto, não ocorreram da maneira como foram retratados. Por vezes costumes e celebrações tomadas como antigas são bem recentes e até mesmo inventadas. O termo “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as “tradições” realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado de tempo ─ às vezes coisa 111 de poucos anos apenas ─ e se estabeleceram com rapidez. (HOBSBAWM, 2008, p.9). A expressão “tradição inventada” constitui um conjunto de práticas, normalmente controladas através de regras geralmente aceitáveis. Esse é o caso de práticas ritualísticas ou simbólicas, que tem como objetivo estabelecer certos valores e normas comportamentais pela repetição e criar uma continuidade com um passado histórico. (HOBSBAWM, 2008, p.9). Mas essa continuidade com o passado se mostra artificial; nesse sentido, as “tradições inventadas” são reações a fatos novos que adotam a forma do passado ou que constituem seu próprio passado pela reprodução quase forçada. (Op. cit., p.10). O autor afirma que “[se] pode dizer que as tradições inventadas são sintomas importantes e, portanto, indicadores de problemas que de outra forma poderiam não ser detectados nem localizados no tempo.” (Op. cit., p.20). As “tradições inventadas” podem ludibriar os cidadãos no que tange a suas relações humanas com o passado. Ageu Rigueira enumera as igrejas mais belas de Minas; no entanto, lamenta as badaladas dos sinos das referidas igrejas para uma falsa glória em dias terríveis como em maio de 1720, em que houve o esquartejamento de Felipe dos Santos, e em maio de 1792, data do enforcamento de Tiradentes. Aliás, Ageu denuncia como falso esse enforcamento, pois a morte de Joaquim José da Silva Xavier tem data anterior ao espetáculo ocorrido em praça pública. Ao ser enforcado, o corpo de Tiradentes já estava em decomposição. Hobsbawn (2008), ao se referir às “tradições inventadas” afirma que “o objetivo e a característica das tradições, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas, tais como a repetição.” (HOBSBAWN, 2008, p.10). Podemos inferir que para a História oficial mineira é mais cômodo repetir a versão do enforcamento de Tiradentes, bem como repetir outras possíveis histórias inventadas. Na narrativa de Migo, Ageu ao visitar Congonhas com um grupo de amigos, depois de assistir a uma encenação da Semana Santa, comenta o ritual religioso de celebrações em contraste com a alegria dos estudantes da cidade. Tem uma visão 112 crítica bem negativa daquela tradição de encenações religiosas vazias de espiritualidade e cheias de mero exibicionismo, o narrador afirma. Destaca um verso de Gerardo Mello Mourão, poeta cearense, que sintetiza a visão daquele momento: “Gasta-se o círio pascal no castiçal de bronze e o coração não gasta o amor”, ou seja, “o castiçal” é de “bronze”, porém falta sentimento, pois não se gasta “o amor” do “coração”. Ageu ironiza afirmando que “quase” rezou, devido ao clima cerimonioso do momento, retrato do ritualismo católico mineiro. O único prazer que tal viagem lhe rendeu foi o de rever as estátuas dos profetas, obras atribuídas a Aleijadinho. Recordando os seus heróis do passado mineiro, o narrador está e certa forma querendo encontrar outros mineiros que merecem destaque. Como escritor que é, parece ter esperança na geração de escritores mineiros, representantes ilustres dos mineiros. Drummond e Guimarães Rosa são a salvação de Minas para Ageu. O narrador também presta a sua homenagem a outros escritores mineiros Abgar Renault, Otto Lara, Cyro dos Anjos, com a consideração própria de um escritor frente aos seus mestres e amigos. Hamlet fundou a Inglaterra; Fausto, a Alemanha. Foi Gravoche que fez a França francesa. Sancho criou a Espanha, Babitt, a outra América. A Colômbia sem Gabo estaria torta. São eles que conferem presença e dignidade à existência de seus povos. Os romancistas e os poetas, principalmente. Que seria de nós, brasileiros, sem Carlos e sem Rosa? (RIBEIRO, 1988, p.136). Queremos você na Academia Mineira de Letras, sô. [...] ─ Qual, Guedes! Não dá, não. Quem votaria em mim? Nem os mineiros ─ o Cyro, o Abgar, Otto, velhos amigos ─ nem deles, tenho voto certo. ─Votam, sim. Votam. Por você e por Minas. É outro mineiro no poleiro. (Ibidem, p.311). Elege grandes escritores para que cada um possa representar o seu país. Refere-se aos países europeus, principalmente, demonstrando outra vez o seu reconhecimento da tradição. Logo após, declara sua reverência aos autores Carlos 113 Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Em outra passagem, faz uma paródia do “Poema da Necessidade”, de Carlos Drummond de Andrade publicado no livro Sentimento do Mundo, em 1940. O poema de Carlos Drummond tem como característica a anáfora, a expressão “É preciso” aparece no início de quase todos os versos. Drummond se utiliza dessa repetição da estrutura dos versos para descrever as necessidades do homem de seu tempo, revela um olhar pessimista diante da possibilidade de destruição do homem, pois esse poema remete a um tempo de guerras. Também em Migo, o narrador vale-se desse recurso formal: Estou que nem Carlos. Não posso mais com tanto dever e precisão. É preciso escrever esse livro. É preciso ser discreto com Nora. É preciso suportar Zeca. É preciso ouvir os amigos. É preciso aguentar a Stela. É preciso sofrer Canuto. É preciso ser inteligente. É preciso ouvir música. É preciso! Merda! Nada é preciso. Preciso é de mim que me perdi no meio deles todos, servil, sendo o que querem que eu seja. Merda! (RIBEIRO, 1988, p.369). Com essa paródia, acreditamos que Ageu está mais uma vez homenageando Drummond. Questiona o que seria dos brasileiros sem Carlos Drummond e Guimarães Rosa. Nessa manifestação notamos o desejo do narrador de ser reconhecido enquanto escritor como Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Em “Pedral”, outro capítulo, Ageu caracteriza um tipo de mineiro, grupos de homens agachados picando fumo e pitando, contando casos. Esse tipo de mineiro parece corresponder a uma visão caricatural. Ageu não se conforma com o fato de os mineiros estarem há tanto (séculos) na mesma busca de riquezas e continuarem pobres. Relata-nos que a origem de toda a exploração de minério se deve a El Rei de Espanha, que tinha muito desejo pelas pedras e pelo ouro. Fernão (mameluco) com sua bandeira veio para Minas. Por sete anos buscou esmeraldas, encontrou turmalinas. As suas pedras verdes-faiscantes eram, na verdade, turmalinas. “Sua bandeira trágica serviu mesmo foi para mostrar que não eram de prata mas de puro ferro as morrarias 114 dessas Minas.” (RIBEIRO, 1988, p.285). Vieram outras bandeiras. Conta-nos que um negro de Antonio Dias descobriu o ouro, tendo escalado alguns morros, alcançou o Itacolomi e, ao redor dele, o riacho de Tripuí, correndo sobre as pepitas de ouro preto. Vieram pessoas de todos os lados do Brasil, principalmente de São Paulo, e logicamente de Portugal. Quando o ouro acabou, ficaram alguns restos nas igrejas. É como se o Brasil ficasse todo amarrado pela sombra da época da extração do ouro nas Gerais. Ageu dá uma versão da história da exploração aurífera em Minas Gerais. Reescreve a história oficial e a questiona deixando claro que as tradições são inventadas de acordo com interesses. Ageu gosta e tem orgulho é de Minas Gerais no século XVIII. Afirma que se Aleijadinho fosse contemporâneo dele, morreria de fome, uma vez que a arte não teria o valor merecido. As Minas do século dezoito tinham boa arquitetura, boa música, boa pintura, boa escultura e boa literatura. Repetidas vezes Ageu Rigueira lamenta o esquartejamento de Felipe dos Santos, o enforcamento de Tiradentes e relembra a grandiosidade da obra de Aleijadinho. Chamou-nos a atenção essa recorrência da menção ao sofrimento dos seus três heróis mineiros, essa repetição parece ser uma comparação do sofrimento de Felipe dos Santos, de Tiradentes e de Aleijadinho ao castigo sofrido pelos inconfidentes, índios e negros martirizados em Minas. Escolheu Minas Gerais do século XVIII para fazer um contraponto à mentalidade do povo mineiro colonial aos mineiros da década de 80 após a ditadura militar. Em Migo, a representação da mineiridade é uma forma sarcástica de mostrar as falsas verdades históricas, os mitos enganosos e desmitificar os heróis forjados. Santo maior de minha devoção é Antônio Francisco. Mulato mineiro, brioso, tesudo. Irado. Castigado por Deus, na carne e nos ossos, como ninguém jamais foi. Isso dizem, eu não creio. Exageram. Segundo a lenda, Antônio Francisco teria criado com tocos de mãos as obras mais belas que essas Minas viram. Que as obras sejam belas, ninguém duvidou jamais. Que ele tenha feito aquilo com restos de mãos, é impossível. Suas criações são esplêndidas demais. O mito, asqueroso demais. (Ibidem, p.160). 115 O autor de Migo, através de seus personagens e narrador, vai descortinando seu sentimento patriótico por Belo Horizonte como metonímia de Minas Gerais e do Brasil. Em Migo, encontramos uma visão crítica de Minas Gerais. Não deixa de apontar as tradições mineiras meramente repetitivas e talvez falsas, não se cala diante das incoerências sócio-políticas, não deixa de mencionar os que se sacrificaram na história de Minas Gerais, como garimpeiros anônimos e outros como Felipe dos Santos e Tiradentes. 116 CONSIDERAÇÕES FINAIS Encontrar o livro Migo (1988), de Darcy Ribeiro, foi motivo de entusiasmo, pois logo percebi ser um objeto de pesquisa instigante. Depois das primeiras leituras, almejava estudar, além de Migo, os livros Maíra (1976) e Confissões (1997) também de Darcy Ribeiro. Iniciada a pesquisa, a banca de qualificação sugeriu que deveria limitar o corpus dada a complexidade das obras e o tempo destinado ao mestrado. Então, decidi empreender uma leitura de Migo, sob os aspectos da autobiografia. Surgiram os primeiros obstáculos uma vez que estabelecer um distanciamento necessário entre a admiração pelo autor e o estudo do objeto se tornou difícil para mim. Essa batalha foi travada durante toda a escrita desta dissertação, porque conhecer parte da vida de Darcy Ribeiro foi empolgante. Porém, não tive a intenção de demarcar os limites entre a vida do autor e a sua obra porque essa tarefa não é possível, tampouco era meu objetivo. Outras dificuldades surgiram na estruturação deste trabalho, ocasionadas pela forma como a narrativa em Migo se apresenta. Trata-se de uma narrativa fragmentada, os 193 capítulos curtos trazem um enredo entre capítulos metaficcionais e capítulos memorialísticos e, em muitos desses capítulos, surgem marcas autobiográficas. Quanto ao enredo, pode-se afirmar que o narrador Ageu Rigueira, Gê, desdobra-se em outros “eus” e juntos representam um outro “eu” de Darcy Ribeiro. O narrador brinca com o leitor o tempo todo, mostrando-se e escondendo-se através de máscaras, através de heterônimos como Elmano e Stela. Esse mesmo narrador assume variadas posturas, às vezes irônico, às vezes nostálgico. Quando relembra os amores inventados, emprega um tom nostálgico. As mulheres imaginárias da narrativa são capazes de fazer muitas loucuras por amor ao narrador. Ageu admite que sejam amores imaginários. Constrói uma rede de amigos intelectuais e lhes dá uma voz nos capítulos cujos títulos aparecem em negrito no sumário como “Nora”, “Vazinha”, “Mila”, “Nininha”, “Stela”, “Guedes”, “Uriel”, “Cura”, “Canuto”, “Curita”, “Ton‟zé”, “Ego”, “Elmano”, “Pudens”, “Uriel”. Na verdade, as personagens falam muito mais de Ageu do que delas mesmas. O final do enredo traz um novo amor ao narrador sexagenário: a 117 união com Nora. Esse amor tardio lembra o poema “Campo de flores”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em Claro Enigma, 1951. Deus me deu um amor no tempo de madureza, quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro, e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor. (...) Mas, porque me tocou um amor crepuscular, há que amar diferente. De uma grave paciência ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia tenha dilacerado a melhor doação. Há que amar e calar. Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde. Darcy Ribeiro afirma que Migo é “um romance esquisito” (p.10) ou uma “autobiografia inventada”. (p.13). É uma tentativa de recompor a vida que ele teria se tivesse ficado em Minas Gerais e jamais fosse conhecer outras cidades e outros países. A linguagem utilizada em Migo traz termos arcaicos (“aguilhões”, “ludibriar”, “iracundos”), neologismos (“sabetudando”, “meninas vinteaneiras”, “brancarrões”), gírias, coloquialismos, metáforas, expressões poéticas e nomes alegóricos de personagens (Vilma: Vil-e-má). Percebemos, diante de passagens do livro, que Darcy Ribeiro desejava que Migo fosse um livro reconhecido como os livros de Guimarães Rosa e de Carlos Drummond de Andrade. Nos capítulos metaficcionais, são apresentadas ao leitor as artimanhas da escrita ficcional: como ocorre o processo de criação; é, pois, um livro ficcional discorrendo sobre a ficção. Segundo Gustavo Bernardo (2010), “a metaficção é uma ficção que não esconde que o é, mantendo o leitor consciente de estar lendo um relato ficcional, e não um relato da própria verdade.” (p.42). Os capítulos memorialísticos trazem marcas autobiográficas como pode ser observado nas lembranças sobre a universidade em Belo Horizonte, quando o narrador 118 cita os amigos e professores com quem conviveu nos anos de 1940. A escolha de Minas Gerais como espaço físico da narrativa reforça essa conotação autobiográfica, por ser o escritor de Migo um mineiro e ter vindo trabalhar em Belo Horizonte nos anos de 1980. A partir do título “Migo: possibilidades autobiográficas”, admite-se a existência de outras possibilidades de leitura e análise da obra Migo, que, por exemplo, poderia ser lida como autoficção. Entretanto, foi feita a opção pela leitura autobiográfica. O título preserva a dissertação de interpretações equivocadas e aponta para a intenção desta pesquisa: realizar uma leitura do livro Migo, de Darcy Ribeiro, sob o viés da autobiografia. Os romances de Darcy Ribeiro são reconhecidos no meio acadêmico, no entanto, Migo parece ser menos divulgado que os demais livros desse autor, uma vez que encontrei poucos trabalhos acadêmicos a respeito dele. Migo é citado em outros livros do próprio escritor. Além dessas citações, apenas encontrei estudos sobre Migo em Darcy Ribeiro: Encontro com escritores mineiros 4 (1997), organizado por Haydée Ribeiro Coelho e um ensaio do crítico Fábio Lucas, em seu livro Mineiranças (1991), que compara Migo, de Darcy Ribeiro a Um artista aprendiz, de Autran Dourado. A narrativa em Migo se vale de recursos já utilizados anteriormente na literatura brasileira como a narrativa em primeira pessoa, os aspectos autobiográficos e os aspectos memorialísticos. É preciso destacar que em 1988, data da publicação de Migo, já havia uma tradição de romances memorialísticos em Minas Gerais como A idade do serrote, de Murilo Mendes (1968); Baú de ossos, de Pedro Nava (1972) e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade (1973). Dessa forma, pode-se afirmar que Migo se insere num rol de memorialistas mineiros. Como memorialista, Darcy Ribeiro desejava permanecer através de sua escrita e isso pode ser comprovado em suas obras Migo (1988) e Confissões (1997), obras que consideramos autobiográficas e que exemplificam a “escrita de si”. É necessário esclarecer que, em “Migo: possibilidades autobiográficas”, não houve a pretensão de abranger todos os aspectos do livro estudado. Essa obra apresenta relevância literária e poderá ser estudada a partir de novos olhares. 119 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Carlos Drummond. Antologia Poética. 13 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1979. ANDRADE, Carlos Drummond. Claro Enigma. 10 ed. 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