ANA MARIA DE FREITAS QUIRINO
MIGO: POSSIBILIDADES AUTOBIOGRÁFICAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS:
TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA
Dezembro de 2012
ANA MARIA DE FREITAS QUIRINO
MIGO: POSSIBILIDADES AUTOBIOGRÁFICAS
Dissertação apresentada ao Programa de
Mestrado em Letras da Universidade Federal de
São João del-Rei, como requisito parcial para a
obtenção do título de Mestre em Letras.
Área de Concentração: Teoria Literária e Crítica da
Cultura
Linha de Pesquisa: Literatura e Memória Cultural
Orientadora:
Tolentino
Profª
Drª
Eliana
da
PROGRAMA DE MESTRADO EM LETRAS:
TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA
Dezembro de 2012
Conceição
ANA MARIA DE FREITAS QUIRINO
MIGO: POSSIBILIDADES AUTOBIOGRÁFICAS
Banca Examinadora:
Profª. Drª. Eliana da Conceição Tolentino - UFSJ
Orientadora
Profª. Drª. Ilca Vieira de Oliveira. - UNIMONTES
Prof. Dr. Anderson Bastos Martins - UFSJ
Prof. Dr. Cláudio Márcio do Carmo
Coordenador do Programa de Mestrado em Letras
DEZEMBRO DE 2012
Dedico este trabalho a Maria do Carmo e
a Adenor de Freitas, meus pais, meus
primeiros amores.
AGRADECIMENTOS
A gratidão é o reconhecimento de que não fazemos quase nada sozinhos.
Uma palavra, um livro emprestado, um puxão de orelhas, um olhar de compreensão.
Por tudo isso, nós devemos agradecer ao nosso semelhante. Hoje, quero muito
agradecer.
À Professora Doutora Eliana da Conceição Tolentino, minha orientadora,
pelo profissionalismo, entusiasmo e alegria durante a nossa caminhada tão amigável.
À CAPES, pela bolsa de estudos, que colaborou financeiramente para a
minha pesquisa.
À EPCAR, pois a concessão de afastamento parcial das minhas atividades
na Escola possibilitou o meu aprimoramento.
Aos Professores Doutores Ilca Vieira de Oliveira e Anderson Bastos
Martins, por aceitarem compor a banca examinadora desta dissertação.
Ao meu esposo, Mário Lúcio Quirino, pela dedicação e compreensão nos
momentos de dificuldades e nas ausências.
Às minhas filhas Carolina e Rafaela, amor sem limites, fonte de inspiração
e persistência.
Às minhas irmãs Geordani e Cláudia, laços familiares que me sustentam.
À Izilda Ângela Guimarães, amiga de todas as horas; à Maria Antonieta
Amaral César, bondade e presença constantes; à Márcia Valéria Bianchetti, carinho
e companheirismo sempre; à Virgínia Mary M. Prudente, amizade e cumplicidade.
À Sheila Ávila, pela disponibilidade em me ajudar no Abstract; à Fernanda
Abrantes, pela tradução de uma carta escrita em espanhol; ao Alexandre, pela ajuda
na formatação do texto.
À Raphaela, pois construímos uma bonita amizade durante o mestrado.
A todos os meus colegas de trabalho da EPCAR, especialmente aos
membros da Equipe de Língua Portuguesa, ajudaram-me muito de diversas
maneiras.
Chegada a hora, eu viria a ser não o médico que tanto
supus e quis, mas o escritor que jamais cogitei. (Migo,
p.22-23).
Ai vida que esvai distraída, entre os dedos da hora,
tirando da mão até a memória do tato dos meus idos.
Só persistimos, se tanto, na usura da memória alheia,
à véspera do longo esquecimento. (Maíra, p.207).
RESUMO
Este trabalho consiste em uma leitura de Migo, livro de Darcy Ribeiro,
publicado em 1988. Migo reúne 193 capítulos curtos e apresenta uma narrativa que
pode ser lida como uma autobiografia. Para tal tomaremos como pressupostos
teóricos os conceitos de “pacto autobiográfico”, extraído da obra O pacto
autobiográfico: de Rousseau à internet, de Philippe Lejeune (2008) e de “autoficção”
de Serge Doubrovsky (1977), descrito em Escritas de si, escritas do outro: o retorno
do autor e a virada etnográfica, de Diana Klinger (2007). Utilizaremos também dois
outros livros de Darcy Ribeiro ─ Testemunho (1991) e Confissões (1997) ─ para
dialogar com o livro Migo. Apresentaremos um breve perfil intelectual de Darcy
Ribeiro a fim de contextualizar o autor e retratar a vida intelectual desse escritor que
vai ecoar na vida intelectual do principal personagem do livro Migo. Para descrever a
construção formal do livro Migo, apoiamo-nos no livro O trabalho da citação, de
Antoine
Compagnon
(1996).
E realizaremos um estudo
sobre
a
escrita
memorialística, pois em Migo a memória funciona como um fio condutor entre a
ficção e a realidade.
PALAVRAS-CHAVE: Darcy Ribeiro, autobiografia, intelectual, escrita memorialística.
ABSTRACT
This work consists in an interpretation of Migo, Darcy Ribeiro‟s novel,
published in 1988. Migo is composed by 193 short chapters and develops a type of
narrative that can be read as an autobiography. To this purpose, there will be used
as theoretical support the concepts of “autobiographic pact”, extracted from the book
O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet, by Philippe Lejeune (2008) and
“autofiction” by Serge Doubrovsky (1977), described in Escritas de si, escritas do
outro: o retorno do autor e a virada etnográfica, by Diana Klinger (2007). Two other
Darcy Ribeiro‟s novels will be also used ─ Testemunho (1991) and Confissões
(1997) ─ to establish connection with the book Migo. A brief intellectual profile of
Darcy Ribeiro will be presented in order to contextualize the author and present the
intellectual life of this writer which will reflected in the intellectual life of the main
character of the book Migo. To describe the formal construction of the novel Migo, O
trabalho da citação, by Antoine Compagnon (1996) was used as support. And, a
study about memorialistic writing will be performed because in Migo memory works
as a conductor wire between fiction and reality.
KEYWORDS: Darcy Ribeiro, autobiography, intellectual, memorialistic writing.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 10
CAPÍTULO I: PERCURSO INTELECTUAL DE DARCY RIBEIRO .......................... 15
1.1. Fase embrionária de Darcy Ribeiro ................................................................ 19
1.2. Etnólogo indigenista........................................................................................ 21
1.3. Parceria com Anísio Teixeira .......................................................................... 25
1.4. UNB: Universidade de Brasília ....................................................................... 26
1.5. O exílio no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru .................................. 30
1.6. A volta de Darcy Ribeiro ao Brasil em 1976 ................................................... 36
CAPÍTULO II: O EU e O MIGO, DE DARCY RIBEIRO ............................................ 42
2.1. Epígrafe, Roteiro e Sumário ........................................................................... 52
2.2. O Colosso ...................................................................................................... 65
2.3. Eu, migo, comigo........................................................................................... 69
2.4. Migo: do título à obra...................................................................................... 75
CAPÍTULO III – A ESCRITA MEMORIALÍSTICA EM MIGO .................................... 81
3.1. A autobiografia ............................................................................................... 84
3.2. A autoficção ................................................................................................... 92
3.3. Esfolando a memória ..................................................................................... 97
3.4. Darcy, personagem de Ageu ........................................................................ 103
3.5. Ageu e as Minas Gerais .............................................................................. 107
CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 117
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 120
9
INTRODUÇÃO
As
(auto)biografias
ocupam
cada
vez
mais
espaço
na
literatura
contemporânea. Ao escrever sobre si, o escritor manifesta o desejo de permanecer na
escrita e recuperar as emoções de um tempo pretérito. Para alcançar essa
permanência através da escrita, ele registra a presença no mundo e talvez esteja
atendendo a uma necessidade histórico-social de um tempo presente.
Para desenvolver estudos sobre a autobiografia, Philippe Lejeune escreveu
em 1971 o livro L’autobiographie en France, em que afirma ter registrado um inventário
de textos autobiográficos e o funcionamento desse gênero. Logo após, escreveu “O
pacto autobiográfico”, que foi publicado na revista Poétique e, em 1975, foi também
publicado pela Editora Seuil, na França. Esse ensaio de Lejeune tenta definir o que é a
autobiografia e estabelecer os limites do que pode ser considerado como
autobiográfico. O estudo das postulações de Lejeune sobre a autobiografia foi um
suporte teórico valioso para a escrita deste trabalho, pois nos ajudou a compreender
muitos aspectos autobiográficos no livro que escolhemos para estudar: Migo.
No Brasil, segundo Silviano Santiago (2002), houve um crescimento
significativo do gênero autobiográfico após o regime militar de 1964 a 1985. Os
escritores que retornaram do exílio em outros países sentiram necessidade de relatar
as experiências dessa fase, quando chegaram ao Brasil. Darcy Ribeiro esteve exilado
em países latino-americanos entre 1964 a 1976. No entanto, Ribeiro não escreveu
imediatamente ao voltar do exílio e, só depois registrou, em livros, como Testemunho
(1991) e Confissões (1997), as experiências do exílio.
Dentre os romances escritos por Darcy Ribeiro, chamou-nos atenção o livro
Migo, publicado em 1988, que é o objeto desta dissertação. Nessa obra, estão
conjugados elementos biográficos, históricos, factuais e ficcionais que promovem um
jogo entre ficção e realidade. Não se pode eleger um único gênero literário para Migo,
pois vários gêneros literários encontram-se presentes nesse livro. O próprio narrador
assim o define no primeiro capítulo do livro: “Só sei mesmo desse meu livro ─ diário?
romance? biografia? ─ é seu nome provável. Migo.” (RIBEIRO, 1988, p.13).
10
Optamos por empreender uma leitura que leva em conta aspectos
autobiográficos e, acreditamos, dessa forma, justificar o título escolhido para a
dissertação
“Migo:
possibilidades
autobiográficas”.
Não
pretendemos,
nessa
dissertação, demarcar os limites entre a vida e a obra do autor, pois esses limites não
existem.
É necessário observar que como aponta Antonio Candido havia uma tradição
de textos autobiográficos e memorialísticos nos anos de 1970 e 1980, em Minas Gerais,
como A idade do serrote, de Murilo Mendes (1968); Baú de ossos, de Pedro Nava
(1972) e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade (1973). (CANDIDO, 1987,
p.54). Percebemos que Migo está inserido nessa tradição de textos referidos.
Migo é um livro de rememorações, em que o narrador Ageu de Sá Rigueira
traz à tona lembranças da infância, dos amores, da juventude. Há nessa narrativa um
jogo de identidades e, muitas vezes, Ageu Rigueira e Darcy Ribeiro, esse um Darcy
Ribeiro ficcional, parecem ser um mesmo personagem. Darcy Ribeiro afirma em
depoimento que em Migo há uma representação da vida que ele teria se tivesse
permanecido em Minas Gerais. O narrador Ageu, em algumas partes do livro, refere-se
às preferências, vivências e posições políticas de Darcy Ribeiro intelectual brasileiro.
Em Migo, há homenagens a vários escritores com quem Ribeiro conviveu como Emílio
Moura, Cyro dos Anjos, Hélio Pellegrino, Abgar Renault, Fernando Sabino, Autran
Dourado, Edgar da Mata Machado e outros. Essa homenagem ocorre quando esses
autores são mencionados durante a narrativa como amigos de Ageu, que também era
escritor. O narrador Ageu Rigueira relata-nos o quase encontro com Mário de Andrade,
refere-se a Oswald de Andrade e afirma que os maiores escritores de Minas Gerais são
Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Lembra-se dos amigos de Darcy
Ribeiro como Artur Versiani Veloso, Oscar Niemeyer, Glauber Rocha, Vera Brant,
Leonel Brizola e outros.
Ageu Rigueira demonstra ter fascínio pelo passado e comenta que o melhor
da vida é recordar. Surgem até lembranças sobre o exílio de Darcy Ribeiro. Da política,
outra face de Ribeiro, Ageu recorda-se de alguns políticos contemporâneos a Darcy
Ribeiro como Tancredo Neves, José Sarney, Aureliano Chaves, Ulisses Guimarães,
11
José Aparecido, Newton Cardoso e outros. Sabemos, contudo, que o Darcy Ribeiro
que aparece dentro da narrativa é parte da ficção e, portanto, é personagem de Ageu
Rigueira. Como personagem, pôde exercitar a sua ironia e brincar como leitor. Num
jogo de esconder-se e reaparecer, Darcy Ribeiro escreveu um livro planejado, em que
é personagem de si mesmo.
Ao nos deparar com esse livro planejado, Migo, percebemos ter encontrado
um objeto de estudo adequado à Linha de Pesquisa: Literatura e Memória Cultural da
Área de Concentração: Teoria Literária e Crítica da Cultura do Mestrado em Letras da
Universidade Federal de São João del-Rei. As leituras iniciais foram exigindo suporte
teórico para a formulação do projeto de pesquisa. Inicialmente, pareceu-nos difícil
manter um distanciamento em relação ao livro Migo, devido ao entusiasmo pela
descoberta do objeto. Aos poucos, através de leituras de teorias literárias e orientação,
o trabalho foi ganhando novos rumos e apresenta a atual configuração.
Esse trabalho é composto por três capítulos. No primeiro capítulo
descrevemos uma breve biografia intelectual de Darcy Ribeiro, nesse capítulo
relatamos a trajetória do etnólogo, sociólogo, educador, político militante e escritor. A
ênfase dada ao perfil biográfico de Darcy Ribeiro intelectual teve, no mínimo, duas
intenções: contextualizar o autor de Migo e retratar a vida intelectual desse escritor que
vai ecoar na vida intelectual da principal personagem do livro estudado: Migo.
Fizemos referência, a partir de textos biográficos escritos por Darcy Ribeiro,
como por exemplo, Testemunho (1991) e Confissões (1997), a fatos que ocorreram
com Darcy Ribeiro, nos anos de 1940, momento em que era estudante em Belo
Horizonte. Encontramos dados da formação de Ribeiro como sociólogo, em São Paulo
e, posteriormente, a fase de sua convivência com indigenistas. Por volta de 1955,
Darcy Ribeiro aproximou-se de Anísio Teixeira, criador do INEP (Instituto Nacional de
Estudos Pedagógicos), quando ambos passaram a defender a educação pública.
Lembramos a criação da Universidade de Brasília, o exílio na América Latina, a prisão
no Brasil, os desafios para enfrentar o primeiro câncer, no pulmão, e, por fim, o seu
retorno do exílio.
12
No segundo capítulo, abordamos a arquitetura do livro Migo, que é bastante
provocativa. A narrativa é escrita em primeira pessoa por Ageu Rigueira, um narrador,
às vezes, irônico e que relembra fatos da própria vida. Iniciamos abordando o enredo,
que traz a trajetória de Ageu Rigueira. Logo após, de acordo com reflexões teóricas de
Antoine Compagnon (1996), buscamos compreender a epígrafe, o “Roteiro” e o
“Sumário” do livro e o efeito provocado por esses elementos na narrativa. Destacamos
Ageu Rigueira como alter ego de Darcy Ribeiro de acordo com Haydèe R. Coelho
(1997) e encontramos outros personagens também como desdobramentos do narrador
tais como Gê, Elmano e Stela. “Esse Gê, você já cansou de saber, sou eu mesmo. Ele
sou aquele eu que eu houvera sido, se ficasse em Minas. [...] Stela também sou eu, em
mulher.” (RIBEIRO, 1988, p.367). Além disso, tentamos encontrar na obra explicações
para o título Migo, que se mostra uma redução da forma pronominal “comigo”, e ainda
procuramos entender as possíveis significações do que seja esse “Migo” dentro da
narrativa.
No terceiro capítulo, estudamos a escrita memorialística em Migo.
Abordamos a “autoficção”, termo criado sobre Serge Doubrovsky em 1977 a partir dos
estudos sobre a autobiografia, destacamos Darcy Ribeiro como personagem de seu
próprio livro, alguns trechos de lembranças relevantes para o narrador e relatamos a
existência de capítulos metaficcionais que teorizam sobre a escrita, sobre a memória,
sobre o que é romancear. “Saudades de mim. Saudades de meus idos, dos sidos e dos
que deveriam ter sido. Romancear enredos é curtir saudades de mim na carne dos
heterônimos que me dou.” (RIBEIRO, 1988, p.42).
Em nossas considerações finais, tentamos mais uma vez justificar o nome
deste trabalho. Descrevemos os poucos trabalhos acadêmicos que encontramos sobre
Migo. Comentamos a linguagem utilizada na narrativa. Não tivemos intenção de abarcar
todos os aspectos da obra, focalizamos os aspectos autobiográficos. Acreditamos que
Migo abre possibilidade para novos olhares, novas pesquisas.
Em uma passagem do livro, o narrador de Migo tece reflexões sobre os
romances como “espelhos de palavras refletindo mundos não havidos, mas que bem
podiam ─ até deviam ─ ter sido. [...] Esse poder de enredar conferindo existência a
13
personagens [...] é o encanto mágico da literatura”. (RIBEIRO, 1988, p.135). Esse
trecho revela a sutileza da construção ficcional e quando Ageu Rigueira utiliza a
metáfora do espelho que reflete “mundos não havidos” está se referindo claramente à
possível vida de intelectual mineiro que Darcy Ribeiro teria se tivesse permanecido em
Minas Gerais.
Migo traz uma narrativa fragmentada, sem uma sequência cronológica no
sentido tradicional da narrativa. Cada capítulo é, de certa forma, independente e por
esse motivo foi necessário um número elevado de citações, pois o texto desta
dissertação exigiu que passagens fossem citadas com certa generosidade. Quanto à
ortografia, optamos por manter nas citações a grafia original em que foram escritas,
quase todas anteriores à última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa.
Darcy Ribeiro pode ser considerado um intérprete do Brasil, deixou um
acervo sobre pesquisas na área de Antropologia, fez intervenções na educação do
país, teve uma representatividade no cenário político nacional e escreveu cinco
romances. Curioso nos parece o fato de ele mesmo ter criado em 1996 a FUNDAR
(Fundação Darcy Ribeiro), para abrigar seus livros, objetos de arte e sua memória.
Essa fundação abriga mais de trinta mil livros, o arquivo de Darcy Ribeiro praticamente
completo e o arquivo, em fase de acabamento, da antropóloga Berta Gleiser, a primeira
esposa de Ribeiro. Darcy Ribeiro faleceu um ano depois da criação da FUNDAR. Essa
prática de arquivar documentos, livros, quadros e objetos de arte revelam a
necessidade de “arquivamento do eu”, apontam para o temor de ser esquecido e para o
desejo de perpetuar-se, desejo semelhante ao que ocorre em uma autobiografia.
14
CAPÍTULO I: PERCURSO INTELECTUAL DE DARCY RIBEIRO
Intelectual não é flor que se cheire.
(Darcy Ribeiro)
Silviano Santiago (2002), em seu ensaio “Prosa literária atual no Brasil”,
discute a possibilidade de profissionalização do escritor brasileiro e a diversidade do
gênero romance. Considerava que o trabalho literário do jovem escritor brasileiro
poderia deixar de ser um passatempo ou uma atividade casual para que esse pudesse
dedicar-se à escrita em tempo integral como ocorre com os escritores europeus,
americanos ou hispano-americanos. (p.28). Entretanto, faz um alerta aos jovens
escritores que não podem fugir da realidade econômica e das interferências editoriais
sobre sua produção escrita, pois não devem se deixar manipular pelos desmandos
mercadológicos, devem sim reagir e tomar uma posição crítica em relação ao que
escrevem. Quanto à diversidade do gênero romance, parece que a prosa no Brasil das
décadas de 70 e 80 revela uma anarquia formal, anarquia no sentido de vivacidade do
gênero e criatividade do romancista. Duas linhas de romances dessa época de
repressão política são a tendência ao memorialismo e à autobiografia. O memorialismo
é um forte legado do modernismo brasileiro. Ele afirma que políticos, pessoas
influentes, artistas e educadores que foram obrigados a sair do Brasil, devido ao golpe
militar de 64, voltaram ao país à medida que o regime militar perdia poder. No momento
em que esses exilados retornaram, houve uma avalanche de publicação de narrativas
autobiográficas. “A forma autobiográfica ganha força e toma pé com o retorno dos
exilados, logo porém extrapola os limites da simples experiência guerrilheira [...]”.
(SANTIAGO, 2002 p.38). Percebe-se que, “nos jovens políticos, o relato descuida-se
das relações familiares do narrador/personagem, centrando todo o interesse no
envolvimento político do pequeno grupo marginal”. (Ibidem, p.37-39).
De acordo com Santiago (2002), se formos comparar, “o texto modernista é
memorialista (apreensão do clã, da família), enquanto o dos jovens políticos é
legitimamente mais autobiográfico (centrado no indivíduo)”. (Ibidem, p.38).
15
Flora Süssekind em seu livro Literatura e vida literária: polêmicas, diários e
retratos (2004) afirma que a literatura no Brasil após 1964 remete a duas vertentes: “[...]
de um lado, o naturalismo evidente dos romances-reportagem ou disfarçado das
parábolas e narrativas fantásticas; de outro, „a literatura do eu‟ dos depoimentos, das
memórias, da poesia biográfico-geracional.” (p.72). Migo foi criado por um escritor que
viveu muitos anos no exílio pós-64 e pertence à categoria da literatura do “eu” como
veremos durante este trabalho.
Nesse contexto de narrativas de exilados que retornam ao país e, portanto
da avalanche de narrativas memorialísticas, surge o livro Migo, de Darcy Ribeiro,
publicado em 1988, que constitui o corpus desta dissertação. Migo não aborda, entre
tantos aspectos biográficos, o exílio de Darcy Ribeiro durante o Regime Militar no
Brasil. Sabe-se que com o golpe militar de 1964, Darcy Ribeiro teve seus direitos
políticos cassados e esteve exilado durante os anos 60 a 70 em países da América
Latina como Uruguai, Venezuela, Chile e Peru. Ele retorna ao Brasil somente em 1976,
passando a dedicar-se ainda mais à carreira política, elegendo-se, em 1982, vicegovernador do Rio de Janeiro. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.105).
Entretanto, podemos dizer que em Migo, escrito nos anos de 1980, o escritor
retrata metaforicamente um exílio em Minas Gerais. O personagem principal e narrador
é Ageu de Sá Rigueira, um intelectual mineiro que vive recolhido na Belo Horizonte dos
anos 1940, convivendo apenas com poucos amigos que o visitavam. E como o perfil de
intelectual é uma das peles de Darcy Ribeiro, sentimos necessidade de refletir sobre a
função que exerceu como intelectual. Para Darcy Ribeiro,
Migo é uma espécie de retrato psicológico do intelectual na sua forma de
romancista provinciano e um mergulho na mineiridade. É, na verdade,
um romance confessional em que me mostro e me escondo, sem
fanatismos autobiográficos. Mais revelador, porém, acho eu, do que sou
e do que penso, do que seria possível na primeira pessoa. (RIBEIRO,
2009, p.195).
16
Segundo depoimento do próprio autor, publicado em Darcy Ribeiro da
coleção “Encontro com escritores”, livro organizado por Haydée Ribeiro Coelho (1997),
a escrita do livro Migo se deve a um acontecimento na vida política do autor. Em 1987,
ele fora convidado pelo então governador do Estado de Minas Gerais, Newton Cardoso,
para implantar, em Minas, um sistema de escola nos moldes dos CIEPs (Centro
Integrado de Escolas Públicas) do Rio de Janeiro.1 A empreitada não se mostrou muito
profícua. Rapidamente, Darcy Ribeiro, insatisfeito com o que viu e testemunhou nas
Minas Gerais, desistiu da encomenda. Nasceu, porém, dessa visita ao seu estado natal,
o desejo de escrever um livro que transmitisse um sentimento duplo, nostálgico em
relação aos anos 40, 42 e 43 vividos em Belo Horizonte, quando então estava em Belo
Horizonte como estudante e pôde conviver com Fernando Sabino, Otto Lara Resende,
Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos. Ao mesmo tempo, esse livro, Migo, deveria
ser crítico em relação às anacrônicas tradições mineiras. Além disso, desejou constituir
através da ficção, o intelectual que poderia ter sido se nunca tivesse saído de Minas.
(RIBEIRO COELHO, 1997, p.47-48).
Conforme Stuart Hall (2006), o sujeito na pós-modernidade não possui uma
identidade “fixa, essencial ou permanente”, vai assumindo diversas identidades exigidas
pelas interpelações históricas e culturais da época em que vive. Dessa forma, “o sujeito
assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são
unificadas ao redor de um „eu‟ coerente”. (Op. cit., p.13). Desse processo, resultam
identidades que se contradizem, que são impelidas em variadas direções, que são
continuamente deslocadas. Essas contradições identitárias podem ser percebidas na
narrativa de Migo, pois o narrador, o autor e algumas personagens assumem
identidades que se misturam, que se contradizem, construindo um verdadeiro
“patchwork barthesiano”.
1
Os CIEPs foram centros de educação idealizados por Darcy Ribeiro quando atuara como Secretário de Estado de
Cultura, durante o período do governador Leonel Brizola (1982 a 1987 de) no Rio Janeiro. Esses centros tinham
como objetivo oferecer educação de horário integral a 1000 crianças e se caracterizavam por alimentar os alunos,
oferecer ginástica, recreação, banho. (RIBEIRO, 2009, p.183).
17
Ageu de Sá Rigueira, o Gê, narrador-personagem de Migo, é um intelectual
sisudo, ex-professor aposentado, que quase não sai de casa. Em alguns momentos da
narrativa, há uma mescla de identidades entre o narrador e o autor, provocando um
jogo ficcional.
Esse Gê, você já cansou de saber, sou eu mesmo. Ele sou aquele eu
que eu houvera sido, se ficasse em Minas. Gê não é o mineiro, nem a
mineiridade. É só um mineiro, tão diferente dos outros como cada um
deles é. Gente variada assim, estou pra ver. (RIBEIRO, 1988, p.367).
O narrador brinca com o leitor durante boa parte da narrativa, ora negando
que Gê e Darcy Ribeiro sejam um só, ora admitindo que os dois sejam mesmo um só
personagem.
Você terá percebido nesta altura que eu, autor deste livro, pouco tenho a
ver com esse tal Gê, não é? Ele é meu personagem que desembestou.
Sai por aí em estripulias, me obriga a retratá-lo como ele quer ser e
depois, me impõe essas advertências e retificações. Imaginação solta dá
nisto: desatinos. (Ibidem, p.212).
Isto de viver desdobrado em dois, eu mesmo e eu em duplicata, é meu
gozo de romancista. Curto demais. Tanto que não me arrisco a voltar a
ser eu só, na rotina insípida que é minha vida sem Gê. A minha vida e a
sua, não é mesmo? (Ibidem, p.303).
Esse jogo identitário entre narrador Ageu Rigueira e autor Darcy Ribeiro
reforça o que o próprio autor afirma a respeito de uma biografia do possível. “Migo uma
espécie de retrato psicológico do intelectual”, ele afirma. (RIBEIRO, 2009, p.195). Para
ele Migo é uma possibilidade, o que poderia ter sido, o que poderia ter acontecido caso
não tivesse saído de Minas Gerais e ido estudar em São Paulo e não tivesse
empreendido a sua trajetória política. Ageu Rigueira tem estreita ligação autobiográfica
18
com Darcy Ribeiro. E isso reforça mais uma vez a estreita relação identitária entre
narrador e autor de Migo.
Darcy Ribeiro foi um intelectual respeitado e teve reconhecimento pelos
livros que publicou e por sua atuação política. Em 1992, por exemplo, ingressou na
Academia Brasileira de Letras, tornou-se um respeitado antropólogo pela experiência
que obteve convivendo com os índios, pelas reflexões que empreendeu, publicando
vários livros como Sobre o óbvio (1979), Utopia selvagem (1982), Suma etnológica
brasileira (1986), Aos trancos e barrancos (1985/1987), Migo (1988), Testemunho
(1991/2009), O povo brasileiro (1995), Diários índios (1996), Mestiço é que é bom
(1997), Gentidades (1997), América Latina Nação (1998), dentre outros trabalhos.
Recebeu vários títulos de Doutor Honoris Causa no Brasil e no exterior, o que
comprova o reconhecimento obtido dentro e fora do país. Os títulos de Doutor Honoris
Causa lhe foram concedidos pela Universidade da República Oriental do Uruguai, pela
Universidade de Paris-Sorbonne, pela Universidade de Copenhague, Dinamarca, pela
Universidade de Brasília e pela Universidade Central da Venezuela.
Segundo Haydée R. Coelho, para se discutir a obra de Darcy Ribeiro é
preciso pensar em “sua atuação como etnólogo indigenista, como educador, como
político militante e como ensaísta”. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.15). Essas atividades
surgem interligadas em seus livros ficcionais, encenadas pelos seus personagens e
enredadas pela memória. Em suas obras estão presentes o político, o escritor e
principalmente o intelectual.
1.1. Fase embrionária de Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros, em outubro de 1922, e faleceu em
Brasília, em 17 de fevereiro de 1997. A cidade de Montes Claros de sua infância
contava com um número próximo de vinte mil habitantes. Era uma cidade plana, as
casas tinham quintais com árvores frutíferas. Em suas ruas, transitavam carros de bois
carregados de lenha para vender, cavalos e tropas de burros. Essa descrição é
ficcional, pois foi retirada do livro Confissões também de Ribeiro. Não sabemos até que
19
ponto corresponde à realidade de Montes Claros naquela época. (RIBEIRO, 1997, p.1516).
Filho de Reginaldo Ribeiro dos Santos, seu Naldo, e de D. Josefina Augusta
da Silveira Ribeiro, mestra Fininha, o menino Darcy perdeu o pai aos três anos. Por isso
afirmava que “não fui domesticado por ele. E como não tive filhos, nunca domestiquei
ninguém. Dessas carências vem o traço principal do meu caráter, que é a coragem de
me ser, gostem ou não gostem.” (RIBEIRO, 1997, p.29).
Era uma criança alegre e aventureira, o que lhe custou algumas surras. Aos
quatorze anos, despertou para a leitura: Alexandre Dumas, Michel Zevaco, Ponson du
Terrail, Victor Hugo, Augusto dos Anjos, enfim, sua leitura era baseada no que
dispunha em Montes Claros. Despertou também para o cinema: Carlitos, o Gordo e o
Magro, os heróis de faroeste, horrores, aventuras e tantos outros enredos. (RIBEIRO,
1997, p.35-53). Dessa fase, Darcy Ribeiro gostava de relatar
Tamanha devoção às letras significou para mim abrir mão de umas
tantas coisas. Não fui o médico que prometi a mamãe nem fui o
fazendeirão em que quiseram me transformar. Fui um professor querido,
um funcionário devotado, mas só me dediquei mesmo aos ofícios e
vícios de leitor e escritor. (Ibidem, p.54).
A vocação de Darcy Ribeiro para a vida de escritor de livros de antropologia
e de livros literários já despontava na adolescência, quando nasceu o leitor que deu
origem ao escritor. Saiu de Montes Claros em 1939 para estudar Medicina em Belo
Horizonte, satisfazendo uma vontade de sua mãe. De acordo com o livro Confissões
(1997), Darcy Ribeiro ficou sabendo, nesse período, que podia frequentar algumas
aulas de outras faculdades. Ficou maravilhado com a Faculdade de Direito, onde fez
algumas disciplinas. Dessa maneira, cabulava as aulas de Medicina e não conseguia
ser aprovado nunca. Pensou em suicídio, pois estava com muita vergonha das
reprovações no curso de medicina. Acabou desistindo de ser médico. (RIBEIRO, 1997,
p.82).
20
Na universidade mineira, assistiu a muitas aulas de Literatura, Filosofia e
Direito. Ribeiro foi positivamente influenciado por alguns professores. Guilhermino
César, na Literatura; Artur Versiani Veloso, na Filosofia; Orlando de Carvalho, no
Direito; Ayres da Mata Machado “encantador, sorrindo doce, ao contar episódios
bizarros e da história de Minas”. (Ibidem, p.73).
Dos anos 1940 a 1944, além dos passeios pela Praça da Liberdade, em Belo
Horizonte, Ribeiro entrou em contato com a poesia modernista de Carlos Drummond de
Andrade. Naquela época, o Brasil era governado por Getúlio Vargas. Esse foi o
presidente brasileiro que permaneceu no poder por mais tempo (1930-1945 e 19511954). Vivia-se o Estado Novo, instaurado no país sob a ditadura varguista (19371945). Em janeiro de 1942, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial. A Era Vargas
chegou ao fim após a Primeira Guerra Mundial. (CARVALHO, 1999, p.55-82). Nessa
fase histórica efervescente, Darcy Ribeiro residia em Belo Horizonte para estudar e
começou a tomar consciência das questões histórico-sociais que estavam ocorrendo;
ainda muito jovem, chegou a ser convocado pela FEB, mas o recusaram por ele ser
raquítico. Filiou-se ao Partido Comunista, oportunidade em que teve acesso a textos
sobre Marx, Freud, Nietzche e Schopenhauer. (RIBEIRO, 1997, p.80).
1.2. Etnólogo indigenista
Em 1946, Darcy Ribeiro mudou-se para São Paulo e integrou-se a um grupo
intelectual paulista, no qual exerceu seu ativismo político no Partido Comunista. “A
militância comunista envolvia toda a minha vida. Perseguido pela polícia, vivia abrigado
na casa de judeus liberais que me davam de tudo.” (RIBEIRO, 1997, p.136). Desse
grupo faziam parte Portinari, Caio Prado Júnior, Jorge Amado, Oswald de Andrade
entre outros.
Na capital paulista, formou-se pela Escola de Sociologia e Política de São
Paulo, especializando-se em Etnologia. Durante a Segunda Guerra, São Paulo
transformou-se em um centro de excelência de estudo de Ciências Sociais. Passaram
por lá pensadores ilustres como Lévi-Strauss, Radcliffe-Brown, Herbert Baldus, Emilio
21
Willems, Donald Pierson e outros. Assim se configurou o meio intelectual que
influenciou Darcy Ribeiro na sua formação profissional e intelectual. (RIBEIRO, 2009,
p.33-34).
Depois que se formou, queria ser militante revolucionário no Partido
Comunista, mas os dirigentes do Partido dispensaram-no, aconselhando-o a seguir a
carreira de sociólogo. Partiu para o Rio de Janeiro para procurar emprego, conheceu o
Marechal Rondon2, que o contratou como naturalista para trabalhar com os índios em
Mato Grosso. Ainda não havia o cargo de antropólogo no Brasil. (RIBEIRO, 2010, p.8).
Visitou várias tribos para estabelecer comparação com os costumes dos
índios com quem iria trabalhar: conheceu os Terena, os Kaiwá e os Ofaié, no sul de
Mato Grosso. Em seguida, dedicou-se aos índios kadiwéu, no Pantanal. Partiu para a
Floresta Amazônica para estudar os Urubus-Kaapor, contava com o linguista Max
Boudin e com o cineasta Heinz Foerthmann em sua equipe, com os quais fez um
documentário cinematográfico: Um dia de vida numa Tribo da Floresta Tropical.
(RIBEIRO, 1991, p.260).
Em entrevista concedida a CPDOC (1978), afirma que
Na realidade, quando fui para a tribo, com a tribo é que eu aprendi, a ser
etnólogo. A primeira tribo que eu fui estudar, os Kajueu, um grupo
Waikuru de Mato Grosso... No convívio com eles é que aprendi a ser
etnólogo, aprendi a observá-los. Tomei alguns cuidados assim por
esperteza, por malícia. Por exemplo, fiz um estudo rápido de três outras
tribos antes de chegar lá, para eu ter um ponto de comparação, para
não ver os meus índios como os primeiros que se vê. Isso me ajudou
depois. O certo é que sempre fui muito obsessivo, e quando comecei a
fazer Etnologia Indígena, fiquei nisso durante dez anos quase.
(RIBEIRO, 2010, p.11-12).
2
O Marechal Rondon (1865-1958) idealizador do Parque Nacional do Xingu e criador do Serviço Nacional de
Proteção ao Índio. Abriu estradas no sertão, expandiu o telégrafo e ajudou a demarcar as terras indígenas. Foi
considerado Grande Chefe pelos índios. Em 1956, Rondon recebeu uma homenagem, foi dado ao Território do
Guaporé o seu nome, atual Estado de Rondônia. (Marechal Rondon. Disponível em
<http://www.funai.gov.br/indios/personagens/rondon.htm>, acesso em 23/11/2012, às 15h e 39min.).
22
Darcy Ribeiro publicou, em 1950, Religião e Mitologia Kadiwéu, sobre a
religião e os costumes dos índios Kadiwéu. Através dessa obra, recebeu o Prêmio
Fábio Prado de Ensaios, outorgado pela Associação de Escritores de São Paulo, ainda
em 1950. Viveu entre os índios por quase dez anos, entre 1946-1955, e, através de
suas descrições e relatos no livro O Povo brasileiro (2006) e de outras fontes, pode se
pensar que Darcy Ribeiro, vivendo tão próximo aos índios, criou com eles um forte
vínculo. No livro Confissões (1997), há uma descrição dos índios Kaapor que
exemplifica esse vínculo.
Uma das coisas que mais me encantam nos meus Kaapor é sua
vivacidade sempre acesa e sua curiosidade voraz. Ela só se compara às
outras altas qualidades deles, que são um talento enorme para a
convivência solidária e a veemente vontade de beleza que põem em
tudo que fazem. Dói ver como tudo isso se perdeu para nós. (Ibidem, p.
187).
Dessa convivência com os indígenas, apresentou ao Marechal Rondon
vários projetos no sentido de prestação de serviço e proteção aos índios, como a
criação do Museu do Índio, construído no Rio de Janeiro em 1953 e a formulação do
projeto de criação do Parque Indígena Xingu, em 1954. O Museu do Índio funciona
atualmente na Rua das Palmeiras, no bairro Botafogo, possui um site oficial. O Parque
Indígena Xingu foi criado em 1961. Ainda em 1954, Darcy Ribeiro fez a sua primeira
viagem à Europa, foi à Suíça, porque havia sido chamado pela Organização
Internacional do Trabalho, que convidou antropólogos de vários países para a
preparação de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. (RIBEIRO,
2009, p.14-15).
Essa “pele” de etnólogo indigenista vai repercutir em muitos de seus livros
sobre antropologia, ou seja, na “pele” de escritor, inclusive, na sua obra ficcional. O
melhor exemplo é o livro Maíra (1976), em que Ribeiro ficcionaliza o universo
indigenista que conheceu bem de perto e recorda as vivências. Maíra é uma narrativa
23
perpassada por outras narrativas. Traz a história de Isaías e de seu povo indígena
mairum. Ele, um índio desterritorializado, volta a sua tribo para recuperar sua identidade
indígena, mas isso não é possível. A tribo mairum foi criada com base nos
conhecimentos do autor sobre as tribos indígenas com as quais conviveu. Isaías, nome
cristão do Avá, é um dos principais elos entre o mundo indígena e o mundo dos
brancos. Ao voltar de Roma, conhece Alma Freire em Brasília. Ele é índio; ela, branca.
Isaías é o membro da Ordem Missionária e é, ao mesmo tempo, o Avá do Clã Jaguar, o
escolhido para substituir o chefe Anacã do povo Mairum. Decide voltar ao Brasil, a sua
aldeia, ao seu povo. Alma Freire é branca, carioca, quer afastar-se de suas raízes, quer
fugir da cidade, fugir de seu passado. Ele quer voltar às suas origens. Isaías e Alma
vão para a cidade de Naruai. Ela pretende se tornar missionária, buscar para si um
amparo na vida religiosa. Quando Isaías e Alma chegam à aldeia, há um grande
estranhamento entre ele e os índios. Alma convive com os índios como eles são. Isaías
não consegue desligar-se do mundo em que foi educado e passa a ver os seus irmãosíndios com preconceitos sociais e religiosos dos brancos. Sofre com sua existência
ambígua. Voltou à sua tribo, casou-se com a índia Inimá, mas permanece isolado e
sem tomar atitudes, quase não consegue trabalhar. Não é mais um candidato ao
cristianismo, tampouco um índio mairum. Alma cuida de ferimentos dos índios, passa a
servi-los como uma deusa do amor. Alcança uma plenitude com os mairuns que o
próprio Isaías não consegue. Fica grávida de gêmeos, morre. (RIBEIRO, 2007).
A referência aos índios percorre grande parte da obra de Darcy Ribeiro. Está
também presente no livro Migo, no capítulo “Índios” em que o narrador relata a visita do
personagem Carlos Moreira a Ageu Rigueira. Nesse encontro, Moreira leva para Ageu
documentos com registros detalhados sobre a chacina a que foram submetidos os
índios que sobreviveram em Minas, no período do Segundo Reinado. (RIBEIRO, 1988,
p.257). Afastou-se temporariamente dessa temática, quando foi atraído pelas causas da
educação no Brasil.
24
1.3. Parceria com Anísio Teixeira
Anísio Teixeira foi importante educador e escritor no Brasil nos anos de 1920
e nos anos de 1930. Formou-se em Direito na Faculdade de Ciências Jurídicas e
Sociais da Universidade do Rio de Janeiro, em 1922. Na Universidade de Columbia nos
Estados Unidos, cursou e concluiu o Mestrado em Educação, em 1928. Voltou ao Rio
de Janeiro em 1931 e foi convidado pelo Ministro da Educação, Francisco Campos,
para cuidar do ensino secundário. Ainda em 1931, foi nomeado pelo prefeito Pedro
Ernesto (1931-1935) para a Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal.
Nessa fase, liderou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932). Participou
ativamente na Associação Brasileira de Educação (ABE). Demitiu-se em 1935, diante
de pressões políticas que impossibilitaram a sua permanência no cargo. Afastou-se do
Distrito Federal, indo para o interior da Bahia. Entre 1937 e 1945, durante a segunda
guerra, esteve afastado da vida pública. (MICELI, 1979 p.168-171).
Em 1946, a convite de Julien Huxley3, assumiu o cargo de Conselheiro de
Ensino Superior da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura), retomando suas atividades na área educacional.
Tornou-se secretário da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal do Ensino Superior) em 1951. No ano seguinte, assumiu também o cargo de
diretor do INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos). Criou, então, o Centro
Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) para propor estudos antropológicos e
sociológicos sobre a realidade brasileira. Anísio Teixeira já havia se constituído como
autoridade na área da educação em nosso país quando conheceu Darcy Ribeiro.
Aliado a Anísio Teixeira, em 1955, Darcy Ribeiro organizou, sob o patrocínio
da CAPES o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia Cultural no Brasil, no
Museu do Índio, no Rio de Janeiro. Passou a lecionar Etnografia Brasileira e Tupi na
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.
Ingressou em uma equipe da UNESCO a fim de estudar as relações inter-raciais no
3
Britânico, nascido em 1887. Filósofo, educador e escritor. Ele desempenhou um papel de liderança na criação da
UNESCO.
25
Brasil. Nessa época, Ribeiro já era reconhecido como intelectual no país, pois aliava o
seu conhecimento adquirido na convivência com os índios à promoção de cursos para
compartilhar sua experiência.
Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira lutaram em defesa da escola pública no
Congresso Nacional na fase de estruturação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional. Essa lei só foi aprovada em 1960. O que ambos propunham era
uma educação popular. “Aquela foi uma luta memorável em que o melhor da
intelectualidade lúcida e progressista se opunha à reação comprometida com o
privativismo que condena o povo à ignorância.” (Ibidem, p.101). O que eles desejavam
era garantir ao povo uma educação de qualidade, gratuita e sem envolvimento com os
interesses religiosos.
Além da defesa da escola pública, Darcy Ribeiro colaborou com Anísio
Teixeira através de seus conhecimentos sobre Antropologia. Anísio Teixeira contratou
Darcy Ribeiro em 1957, para assumir a direção do CBPE (Centro Brasileiro de
Pesquisas Educacionais) do Ministério da Educação e Cultura. Esse centro de
pesquisas sociológicas e antropológicas tinha como objetivo dar aos líderes da política
educacional brasileira informações imprescindíveis sobre a sociedade e a cultura
brasileira. Como diretor do CBPE, Ribeiro conduziu alguns programas de estudos e
pesquisas de campo em que focalizou temas culturais e educacionais no Brasil.
1.4. UNB: Universidade de Brasília
De acordo com o livro Confissões (1997), foi um grande acontecimento para
Darcy Ribeiro a eleição de Juscelino Kubitschek para Presidente da República. Porém,
foi contrário ao projeto do presidente em relação à construção de Brasília. Acreditava
que reaver um plano de Couto Magalhães para retomar a navegação do Rio Araguaia
seria mais útil para o Brasil do que uma construção de uma cidade no sertão goiano.
Mudou de opinião quando percebeu que o plano de Couto Magalhães era inviável, pois
não atenderia às pequenas propriedades. Darcy Ribeiro passou a apoiar a criação da
nova capital.
26
O plano de construção de uma cidade como Brasília, segundo Darcy Ribeiro,
constava na Constituição de 1891, entretanto nenhum presidente anterior a 1956 teve
ousadia suficiente para executar tal projeto. Victor Nunes Leal, mineiro, amigo de Darcy
Ribeiro, promoveu a aproximação do amigo com o Presidente Juscelino Kubitschek.
Ao ver o plano de Lúcio Costa “a cidade inventada, a cidade mais prodigiosa
do mundo”, Ribeiro empolgou-se, principalmente, porque o arquiteto-chefe seria Oscar
Niemeyer. Havia, no plano urbanístico de Brasília, um local destinado à construção da
universidade. Apesar de temores iniciais, Juscelino Kubitschek decidiu que haveria uma
universidade em Brasília. Essa decisão teve influência de Victor Nunes Leal. Quando
eles voltaram de uma viagem aos Estados Unidos para visitar a Universidade de
Virgínia, Victor Leal disse ao Presidente que “os pais-fundadores daquela nação
tiveram como preocupação fundamental ali implantar universidades.” (RIBEIRO, 1997,
p.258).
O Presidente Juscelino Kubitschek nomeou Darcy Ribeiro para chefiar um
estudo para a criação da Universidade de Brasília. Anísio Teixeira, Cyro dos Anjos e o
arquiteto Oscar Niemeyer também compunham o grupo de estudo para planejar a
instituição. Na inauguração de Brasília, em 1960, o Presidente Juscelino Kubitschek
enviou ao Congresso Nacional a solicitação da referida Universidade. (RIBEIRO, 2010,
p.22-23).
Quando tudo parecia transcorrer bem, Dom Hélder Câmara, Secretário Geral
da CNBB (Conselho Nacional dos Bispos do Brasil), manifestou também o interesse em
criar uma universidade em Brasília, mas tinha que ser católica. Os jesuítas estavam
empenhados nessa criação, afirmando que a universidade principal de Washington era
Católica. O presidente ficou em dúvida sobre qual projeto seria o mais viável; o que
havia incumbido ao grupo composto por Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos e Oscar
Niemeyer ou o projeto de Dom Hélder Câmara. Essa notícia foi desesperadora para
Darcy Ribeiro, o qual logo se lembrou dos freis dominicanos, opositores à ordem
jesuítica. Procurou Frei Mateus Rocha, chefe da ordem dos dominicanos, e pediu-lhe
que interferisse junto ao Papa João XXIII, informando-lhe que já havia oito
universidades católicas no Brasil e que, no entanto, essas instituições não formavam
27
teólogos. Darcy Ribeiro sabiamente prometeu criar um Instituto de Teologia Católica,
caso eles apoiassem a criação da Universidade de Brasília. Frei Mateus Rocha,
atendendo ao pedido de Darcy Ribeiro,
foi lá. Foi lá falar, primeiro, com o Papa Branco, com o Papa dos
dominicanos. Ganhou o Papa dos dominicanos. Junto com ele foi ao
João XXIII. E chegou o Frei Mateus, daí a um mês, com as obras do
João XXIII dedicadas a Darcy Ribeiro. Estão na biblioteca da
Universidade do Brasil, onde devem estar. O único brasileiro que
recebeu, do São João XXIII, as obrinhas dele com dedicatória. É
marroquim vermelha a capa. (RIBEIRO, 2010, p.45-46).
A Igreja Católica apoiou a construção da Universidade de Brasília desde que
fosse construído o Instituto de Teologia Católica lá. Juscelino Kubitschek autorizou a
continuação dos projetos da criação da Universidade. O Instituto de Teologia foi
realmente instaurado e ficou sob os cuidados dos dominicanos, representados por Frei
Mateus. Observamos, nesse fato, o carisma de Darcy Ribeiro e a sua habilidade de
negociação e articulação política.
Jânio Quadros assumiu a Presidência da República, em 1961, reafirmou a
posição de Darcy Ribeiro frente à construção da Universidade. Assim que implantaram
a Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro tomou posse como primeiro reitor. Apesar de
ter sido planejada no governo do Presidente Juscelino Kubitschek, a universidade só foi
inaugurada em 1962. (RIBEIRO, 1991, p.271-272). Para o pesar de seus criadores, “a
realização de ver a UnB erguida durou pouco tempo, tendo seu projeto original sido
totalmente destruído pelo golpe militar de 1964.” (FARIA & VIEIRA SILVA, 2008, p.132133).
Em 1962, Hermes Lima, primeiro-ministro do Governo do Presidente João
Goulart, nomeou Darcy Ribeiro como Ministro da Educação e Cultura, cargo que
exerceu por um curto período de tempo, somente de 1962 a 1963. E é nessa fase que a
Lei de Diretrizes e Bases de Educação Nacional 4024/61 entrou em vigor. A conquista
mais importante para Darcy Ribeiro como Ministro da Educação foi “a campanha de
28
escolarização de todas as crianças e de alfabetização dos adultos.” (RIBEIRO, 2009,
p.116). Essa campanha mobilizou educadores, artistas e voluntários em várias partes
do país. Uma vez mais reforçamos a simultaneidade de pensamento e ação de Darcy
Ribeiro.
No livro Testemunho (2009), Darcy Ribeiro comenta que a sua nomeação
para o Ministério da Educação e Cultura havia gerado um mal-estar entre seus amigos
intelectuais. Era como uma atitude extraordinária à carreira intelectual. Esse incômodo
pode ser explicado, pois não era comum naquela época que um intelectual assumisse
tal cargo, que geralmente era delegado a políticos de carreira. Como Ministro da
Educação e Cultura, implantou o primeiro Programa Nacional de Educação, para
atender aos ensinos primário, médio e superior. Além disso, continuou com uma
campanha para induzir as universidades a realizar uma autocrítica e uma
reestruturação. Para as universidades federais, a sua primeira sugestão era que se
aumentasse o número de matrículas que elas ofereciam. (RIBEIRO, 2009, p.115-117).
Entre outras atitudes concretizadas como Ministro de Educação houve a criação da
Pequena Biblioteca do Professor. Essa biblioteca constava de onze volumes de livros
que foram enviados a cerca de 300 mil professoras primárias para que elas pudessem
se preparar melhor para as suas aulas. Conseguiu também, ao lado de Anísio Teixeira,
que nessa época era membro do Conselho Federal de Educação, verbas federais de
educação para os Estados, ajudando primeiramente os Estados mais pobres.
A parceria de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira na educação foi bem-sucedida
porque souberam persuadir políticos poderosos a apoiar os projetos de ambos nessa
área. Jânio Quadros foi um dos primeiros a ser convencido por eles a fazer da
educação a meta fundamental de seu governo. Darcy Ribeiro obteve mais sucesso ao
lado de Leonel Brizola, que foi seduzido pelo sonho de muitos educadores brasileiros: a
escola primária em tempo integral. Assim, construíram os CIEPS (Centro Integrado de
Escolas Públicas) no Rio de Janeiro. Em março de 1987, deixaram prontos 127 CIEPS,
que posteriormente foram abandonados.
29
1.5. O exílio no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru
Durante o exercício do cargo de Ministro da Educação e Cultura, houve um
convívio mais próximo de Darcy Ribeiro e o Presidente João Goulart. Esse ao mudar o
ministério, convidou Ribeiro para deixar o Ministério da Educação e Cultura e assumir a
Chefia da Casa Civil. Em 1964, Darcy Ribeiro era Chefe da Casa Civil do Presidente
João Goulart e, com a eclosão da ditadura, viu-se obrigado a fugir do Brasil e pedir
exílio no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru. (RIBEIRO, 2009, p.118-119).
Edward W. Said (2005), em seu livro Representações do Intelectual, discute
o exílio dos intelectuais expatriados e marginais. Remonta o significado da palavra
“exílio”. De acordo com o autor, ser exilado nos tempos pré-modernos era um dos
destinos mais tristes. Significava ser uma espécie de pária permanente, além dos anos
de vida sem rumo, sem família, sem terra natal. “Sempre houve uma associação entre a
ideia de exílio e os terrores da lepra: a exclusão moral e social.” (Op. cit., p.55). Essa
seria talvez uma marca permanente no exilado. Apesar de haver casos em que o
exilado conseguisse uma boa adaptação, a grande parte dos exilados sentia
dificuldades em viver distante de sua casa.
Segundo Said (2005), é um erro imaginar o exílio como um ponto final em
relação ao local de origem, na verdade, o exilado convive com a realidade de estar fora
de casa, tem em sua lembrança tudo o que deixou para trás. Parece viver num lugar
intermediário, num “entre-lugar”, não esquece a sua origem totalmente nem se
acostuma com a nova vida inteiramente. É possível que se sinta clandestino. (Ibidem,
p.55-57).
Em 1964, a condição de Darcy Ribeiro no Uruguai era a de intelectual
exilado. Esse foi o seu primeiro exílio de 1964 a 1968. Conforme Said (2005), o que
difere o exílio de um intelectual é a possibilidade de cooperação que esse intelectual
exilado pode oferecer no país no qual se encontra. Para Edward W. Said (2005),
30
[u]m intelectual [exilado] é como um náufrago que, de certo modo,
aprende a viver com a terra, não nela; ou seja, não como Robinson
Crusoé, cujo objetivo é colonizar sua pequena ilha, mas como Marco
Polo, cujo sentido do maravilhoso nunca o abandona e que é um eterno
viajante, um hóspede temporário, não um parasita, conquistador ou
invasor. (Op. cit., p.67).
Darcy Ribeiro parece ter enfrentado o exílio de forma mais amena que tantos
outros. Ele se ocupava de muitas atividades intelectuais como, por exemplo, a criação
da Biblioteca Darcy Ribeiro, em que se encontram os “Cuadernos de Cultura
latinoamericana que eram publicações avulsas destinadas a professores e alunos com
„textos centrales de la historia y la cultura latinoamericanas‟”. (RIBEIRO COELHO,
2010, p.73). Segundo Haydée R. Coelho, quando se fala em “biblioteca”, há de se
pensar essa palavra num sentido mais amplo, como
é importante recordar o que diz Alberto Manguel. O crítico coloca-nos
diante dos vários “sentidos de biblioteca”: as bibliotecas como “entidades
em crescimento constante”, a biblioteca como “espelho do universo” e a
“biblioteca como obra em curso – toda estante vazia é um anúncio de
livro por vir”. (Ibidem, p.76).
Darcy Ribeiro afirma que “o exílio me foi mais leve do que para muitos
companheiros de desterro. Na semana em que cheguei ao Uruguai fui contratado como
professor de tempo integral.” (RIBEIRO, 2009, p.120). Sendo assim, passou a se
ocupar dando aulas na Universidade do Uruguai, atividade que desempenhava com
satisfação de acordo com depoimentos dele sobre o magistério. Em Testemunho
informa que, nos primeiros anos de exílio, imaginava que ficaria fora do Brasil por
poucos meses. Optou por ficar na América Latina, deixando de ir para Paris ou Roma.
Para ele, essa opção lhe possibilitou reestruturar sua vida intelectual. Na Universidade
do Uruguai, de acordo com seu relato, as aulas que lecionava eram as mais silenciosas
já vistas, tal o interesse dos alunos. Auxiliou na estruturação da Enciclopédia da Cultura
31
Uruguaia, coordenada por Ángel Rama, escritor, crítico literário e um dos intelectuais
mais atuantes do seu país. No Uruguai, continuou na militância política com Jango,
Brizola, e com os governos latino-americanos. (RIBEIRO, 1991, p.148-149).
Conforme Haydée R. Coelho (1997), Darcy Ribeiro, no exílio, propôs
reformas para a Universidade da República do Uruguai, o mesmo para a Universidade
Central da Venezuela e para o sistema universitário do Peru. Além disso, colaborou
com o projeto de implantação da Universidade Nacional de Costa Rica e sugeriu a
criação de uma Universidade no México. Salvador Allende pôde contar com Darcy
Ribeiro em um projeto de socialismo em liberdade, no Chile. Colaborou com Juan
Velasco Alvarado, Presidente do Peru, nas reformas políticas. (RIBEIRO COELHO,
1997, p.17).
A professora e pesquisadora Haydée R. Coelho supunha que já havia, antes
do exílio no Uruguai, uma ligação entre os intelectuais Darcy Ribeiro e Ángel Rama, o
que pôde comprovar quando ela esteve naquele país.
No Uruguai, ao consultar o semanário Marcha, tive uma grande
surpresa. Em 24 de maio de 1964, Darcy Ribeiro concede uma
entrevista a Ángel Rama que apresenta o percurso do intelectual
brasileiro ao público uruguaio. Ao perguntar ao antropólogo sobre a nova
geração brasileira, são mencionados: Sérgio Buarque de Holanda;
Florestan Fernandes; Luís Costa Pinto; Victor Leal, Antonio Candido,
Heron Alencar e Hélcio Martins. Como exilado, Darcy começava seu
destino de errância, mas também de conhecimento da América Latina,
apoiado por seus amigos uruguaios, pelas várias qualidades de Ángel
Rama: inteligência, espírito integrador, abertura para o outro, crítica ética
e política. Acredito que o acolhimento que Darcy Ribeiro teve no Uruguai
propiciou trocas culturais importantes e definitivas. Se Rama pode
afirmar que o Uruguai made me, parodiando Grahan Greene, Darcy
pode dizer que sua trajetória de latino-americano ocorre no exílio.
(RIBEIRO COELHO, 2010, p.71).
De acordo com Ribeiro Coelho (2010), foi de suma importância o diálogo
entre Ángel Rama, escritor uruguaio, e Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro. A
aproximação das posturas políticas dos dois intelectuais nas discussões sobre a
32
América Latina demonstra que, para Darcy Ribeiro, essa convivência com Rama foi
significativa. Comprova também o reconhecimento de Ribeiro no Uruguai.
Em 1968, depois de quatro anos no Uruguai, Darcy Ribeiro ficou sabendo da
Marcha dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, logo quis voltar a essa cidade. Solicitou a
Wilson Mirza, seu advogado, que avisasse aos militares o dia e a hora em que chegaria
ao Aeroporto Internacional do Galeão. Recebeu uma advertência de que deveria
procurar rapidamente a Ordem Política e Social, assim que chegou ao Rio de Janeiro
preencheu um questionário. Os primeiros três meses no Brasil foram aparentemente
tranquilos. Porém, devido a entrevistas, que concedeu à mídia falando mal do regime
militar, foi preso, por ocasião da deflagração do Ato Institucional nº 5. (RIBEIRO, 1997,
p.373-374). Darcy Ribeiro passou nove meses no cárcere, uns meses na Fortaleza de
Santa Cruz, ― pertencente ao Exército ― e os meses restantes na Ilha das Cobras,
sede dos Fuzileiros Navais da Marinha. Houve um tribunal militar que o declarou
“pessoa da mais alta periculosidade”. Perseguido pelo Exército, mandaram-no para a
Venezuela. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.95).
Na Venezuela, ocorreu então o seu segundo exílio de 1969 a 1974. Assim
que chegou a Caracas, procurou o reitor da Universidade Central da Venezuela, que o
contratou como professor de Antropologia. Desse contato, originou-se um projeto de
renovação estrutural da UVC (Universidade Central da Venezuela), previsto para dez
anos. Na Venezuela, o seu visto não era permanente, tinha que ser renovado ano a
ano, apesar de ocupar um cargo de professor na Universidade Central da Venezuela e
ter trabalhado também na Universidade de Mérida, na encosta dos Andes. José
Agostinho Silva Michelena, Carlos Domingos, Armando Córdoba e Heinz Sontag ― que
traduziu para a língua alemã o livro O processo civilizatório, de Darcy Ribeiro ― foram
alguns de seus amigos venezuelanos. (RIBEIRO, 1997, p.407-408).
Nesse período que viveu na Venezuela, colaborou também com Chile e
Peru. Salvador Allende venceu as eleições presidenciais no Chile, Darcy Ribeiro tentou
um contrato com o Instituto de Estudos Internacionais do Chile e partiu para a capital
Santiago. Fizera amizade com Allende na ocasião em que esse era senador socialista e
fora visitar João Goulart no início do exílio, no Uruguai. O novo Presidente do Chile
33
conseguiu para Darcy Ribeiro um cargo de pesquisador do Instituto de Cláudio Velles,
ex-esquerdista. (Ibidem, p.413). Salvador Allende, Presidente do Chile, durante o
período de 1970 a 1973, pôde contar com Darcy Ribeiro em um projeto de socialismo
em liberdade. Esse projeto era uma tentativa de realizar uma transição do governo antiimperialista ao socialismo, mas sua intenção era fazer uma implantação pacífica, sem
guerra civil ou ditadura. Tal transição se faria baseada na trajetória democrática de
Allende. Desejava proporcionar ao povo uma vida com mais qualidade. Foi deposto, em
1973, pelo general Augusto Pinochet.
Ainda no Chile, recebeu, através do peruano Carlos Delgado, um convite do
Presidente do Peru, Juan Velasco Alvarado, para apoiar o planejamento de uma
revolução socialista peruana. Darcy Ribeiro gostou da ideia e colaborou com os
peruanos durante três anos. Viajou a Portugal para participar de um ciclo de
conferências nas Universidades do Porto, de Lisboa e de Coimbra. Nesse tempo,
descobriu que tinha um câncer pulmonar. Em Paris, confirmaram o diagnóstico, sendo
assim, solicitou então às autoridades brasileiras permissão para realizar a cirurgia no
Brasil.
Depois de realizada a cirurgia no Rio de Janeiro, em que lhe foi tirado um
dos pulmões, Darcy Ribeiro ficou completamente curado do câncer. Então, mandaramno para o terceiro exílio de 1975 a 1976, no Peru, mas com autorização para voltar ao
Brasil periodicamente para realizar exames. (RIBEIRO, 1997, p.418-431).
Ao retornar ao Peru, Darcy Ribeiro encontrou outra realidade, tudo estava
diferente, Velasco Alvarado estava doente e fora do governo. O país parecia viver uma
contrarrevolução. Enquanto cumpria o seu exílio no Peru, trabalhou mais fora do que
dentro do país. Fora ao México várias vezes e também a Costa Rica. Esse período
transformou-se num grande aprendizado sobre a América Latina. (Ibidem, p.445-446).
Afinal todas essas atividades realizadas por Darcy Ribeiro nesses países,
durante todo o período do exílio, demonstram o seu reconhecimento por parte dos
intelectuais socialistas da América Latina. Sendo afiliado ao Partido Comunista no
Brasil, Ribeiro compactuava, portanto, com o ideário de reformas socialistas dos
34
governos desses países. Firmou-se, portanto, por todas essas evidências, a sua “pele”
de intelectual latino-americano.
Além das fontes de pesquisa e dos textos ficcionais de Darcy Ribeiro, é
válido destacar o livro Darcy, de Vera Brant (2002) grande amiga do escritor, da
juventude até a vida adulta. O livro tem uma visão de Darcy Ribeiro elaborada por uma
amiga. Existem também cartas trocadas por eles. Tais cartas foram escritas no período
em que Darcy Ribeiro estava exilado na Venezuela e no Peru. Embora mereçam
atenção especial, elas não serão todas trabalhadas por nós, nesta dissertação, para
não nos afastarmos do foco principal que é a leitura do livro Migo. Enfim, no livro Darcy
são mostradas algumas facetas particulares do escritor, como, por exemplo, em uma
das cartas a Vera Brant, escrita num bom portunhol, Darcy Ribeiro desabafa:
Lima, 12 de novembro de 1975.
[...] En el último mês anduve em grandes viajes por México y tuve
grandes alegrias. La mayor de ellas fué inventar desde el cero uma
nueve universidad: La Universidad del Tercer Mundo que será
inaugurada em México el próximo año y de la que será Rector el
Presidente Echeverría.
Me acordé mucho, com saudades, de aquellos años belos de Brasília
em que osamos repensar la Universidad, reinventarla y crearla em la
macega goiana. Te acuerdas?
[...] Tengo trabajado mucho afuera y también aquí. Tanto em las cosas
del Proyecto ONU como em mis antropologías y, últimamente, también
em la novela nuestra. Tranquilízate, no es la del mineiro loco: es Maíra.
Una história de mis indios escrita com mucha sal y pimienta, pero sobre
todo com mucho amor por ellos. Creo que estoy logrando, en la forma
de romance, comunicar una imágen sentida del ingígena y su drama,
que nunca conseguí transmitir completamente a através de ensayos
científicos. Em Maíra habla más mi corazón que mi cabeza y te digo que
es mucho mejor. Quizas mis males vengan de gastar tanto La cuca
cuando lo que tengo de bueno es este mi corazón bovino, vexado de
amar.
Cariños y besos. Saudades, abraços aos sobrinhos, Darcy. (BRANT,
2002, p.46).4
4
[...] No último mês andei em grandes viagens pelo México e tive grandes alegrias. A maior delas foi inventar do
zero (nada) uma nova universidade: La Universidad del Tercer Mundo que será inaugurada no México no próximo
ano e da qual será Reitor o Presidente Echeverría.
35
Essa carta possui duas peculiaridades que gostaríamos de destacar: a
referência à Universidade de Brasília, onde Vera Brant também trabalhou, e o fato de
Ribeiro narrar que estava escrevendo o livro Maíra. Mesmo sendo informal, podemos
considerar que essa carta é uma espécie de documento. E mais, essa amizade entre
Darcy Ribeiro e Vera Brant parece ter sido marcante, pois está registrada no livro Migo
“Se senti falta de mãe? Decerto senti, sou sentimental. Nada comparável com Vera que
ficou órfã figadal, pulando corda no quintal, com a mãe morta, exposta na sala de
visitas. Só de desespero”. (RIBEIRO, 1988, p.63). Em Confissões relata que “Vera
Brant é minha amiga muito chegada há quarenta anos. Várias vezes me visitou no
exílio e nunca se desgarra de mim, nem eu dela. O maior talento de Vera é para
amizades devotadas”. (RIBEIRO, 1997, p.572).
1.6. A volta de Darcy Ribeiro ao Brasil em 1976
Para o pesquisador André Luís L. Borges de Mattos (2007), a trajetória de
Darcy Ribeiro evidencia que, até os anos 60, aliava formação acadêmica e
engajamento político, participação em empreendimentos importantes, atuação pública e
escrita de textos científicos que demonstravam interesse pela sociedade nacional. No
entanto, a visibilidade de Darcy Ribeiro se firma com sua entrada na política nacional e
com a sua vivência do exílio em alguns países da América Latina entre os anos 60 e
70. Com as experiências vividas no exílio, é fácil imaginar o seu amadurecimento como
cidadão e como intelectual. Além disso, aproxima-se de outra identidade intelectual,
Me lembrei muito, com saudades, (Lembrei-me com muita saudade) daqueles belos anos de Brasília nos quais
ousamos repensar a Universidade, reinventá-la e criá-la na macega goiana. Você se lembra?
[...] Tenho trabalhado muito fora e também aqui. Tanto nas coisas do Projeto ONU como nas minhas antropologias
e, ultimamente, também na nossa novela (no nosso romance). Fique tranquila, não é a do mineiro louco: é Maíra.
Uma história dos meus índios escrita com muito sal e pimenta, mas, sobretudo com muito amor por eles. Creio que
estou logrando (conseguindo), na forma de romance, comunicar (transmitir) uma imagem sentida do indígena e
seu drama, que nunca consegui transmitir completamente através de ensaios científicos. Em Maíra fala mais meu
coração que minha cabeça e te digo que é muito melhor. Quizas (talvez) meus males venham de gastar tanto a cuca
quando o que tenho de bom é este meu coração bovino, vexado de amar.
Carinhos e beijos. Saudades, abraços aos sobrinhos, Darcy. (BRANT, 2002, p.46). Tradução de Fernanda Abrantes.
36
“[...] que acabou por definir o modelo ao qual ele próprio passou a enquadrar-se – e a
exigir o mesmo para os demais: o do intelectual utópico revolucionário típico dos anos
60.” (MATTOS, 2007, p.313).
A reinserção de Darcy Ribeiro na intelectualidade brasileira não ocorreu
facilmente. Desempregado, viveu muitos meses do pouco que conseguiu guardar no
exílio. A Lei da Anistia, em 1979 trouxe-lhe novas oportunidades. Voltou a lecionar na
Universidade Federal do Rio de Janeiro e, logo após, reiniciou sua vida na política.
No exílio ocorreu uma grande mudança na carreira do escritor Darcy Ribeiro:
do teórico sobre antropologia surgiu o escritor de ficção. Escreveu dois romances nesse
período de exílio, Maíra e O Mulo. Em depoimentos, narra que escrever Maíra era uma
forma de fugir do exílio, era uma maneira de sobreviver àquele sofrimento de estar fora
do Brasil. Ao voltar ao Brasil em caráter definitivo, em 1976, publicou Maíra, o primeiro
de seus cinco romances.
Helena Bomeny (2001), em Darcy Ribeiro: Sociologia de um indisciplinado,
explica as escolhas que ela fez e sobre o nome do livro, que desperta curiosidades.
Com este texto, pretendo encaminhar uma leitura de Darcy como um
intelectual, ao menos três vezes, indisciplinado. Renuncio aqui,
propositalmente, à dimensão da indisciplina no sentido mais imediato,
vulgar, que lhe poderíamos atribuir. Por incompetência e prudência
conscientes, não trato aqui da indisciplina pessoal que marcou seu
próprio trajeto afetivo, largamente apaixonado. A indisciplina será
visitada em três áreas mais próximas do meu próprio treinamento de
ofício. Indisciplinado como mineiro, um exemplar nada típico da versão
burilada por aqueles homens públicos que chegaram ao cenário político
nacional. [...] Indisciplinado como cientista social, se tomamos a
referência da institucionalização das ciências sociais no período de 1940
a 1950, no ambiente que se criou como matriz de referência na Escola
Livre de Sociologia e Política, em São Paulo, onde Darcy foi buscar sua
formação intelectual, mantendo-a como memória e reforço ao longo da
vida. [...] E, indisciplinado por fim, como pedagogo, ou seja, como
alguém que, ao longo de 40 anos, perseguiu uma agenda pública de
intervenção na política educacional brasileira, em sintonia e adesão
confessa ao movimento da Escola Nova [...] (BOMENY, 2001, p.25-26).
37
No Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro participou ativamente da vida política e
chegou a se eleger Vice-Governador do Estado, em 1982, juntamente com Leonel
Brizola, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). Tornou-se secretário da cultura e
coordenador do Programa Especial de Educação, período em que implantou os CIEPs
(Centros Integrados de Educação Pública).
Visitou Cuba em 1989 para participar das comemorações da Revolução
Cubana de 1959. Recebeu condecoração juntamente com um grupo de intelectuais que
se posicionaram a favor da Revolução Cubana.
No governo de Fernando Collor de Melo, elegeu-se senador da república
pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) em 1991. Como senador, publicou a
Revista Informativa Carta, que circulou em 16 exemplares (1991-1996). Essa revista foi
criada pelo Senador Darcy Ribeiro para tratar de problemas sociais, culturais e políticos
do Brasil. Elegeu-se membro da Academia Brasileira de Letras em 1992.
Criou em 11 de janeiro de 1996 a Fundação Darcy Ribeiro, a FUNDAR, que
se encontra sediada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e é guardiã do
arquivo de Darcy Ribeiro juntamente com o arquivo da antropóloga Berta Gleiser
Ribeiro, a sua primeira esposa. Segundo Mattos (2007), a FUNDAR é aberta ao público
para fins de pesquisa e guarda cerca de 30.000 volumes de livros, procedentes em sua
maior parte das bibliotecas particulares de Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro. O acervo
documental de Darcy Ribeiro está teoricamente completo na Fundação. O objetivo da
FUNDAR é o de manter os ideais de Darcy Ribeiro e continuar alguns dos projetos que
deixou iniciados. (MATOS, 2007, p.7). Segundo Luciana Quillet Heymann (2005), a
aproximação da morte e o medo de ser esquecido podem ter sido a grande motivação
de Darcy Ribeiro ao criar a FUNDAR.
Quando me sugeriram criar uma Fundação com meu nome, a idéia me
deu medo de estar fazendo nascer mais uma instituição vetusta:
Fundação Getulio Vargas, Fundação Roberto Marinho. A minha seria
uma pobre fundaçãozinha Zé da Silva, sem poder e sem dinheiro para
crescer e florescer. Qual seria o seu propósito? [...] Acabei caindo em
mim de que precisava mesmo criar a tal Fundação Darcy Ribeiro ─
38
Fundar. Tenho mesmo que transferir a alguém ou a alguma instituição
tarefas que, bem ou mal, eu venho cumprindo a vida inteira e que, sem
mim aí para cuidar delas, ficariam aos azares do acaso. (FUNDAR apud
HEYMANN, 2005, p.50-51).
O seu maior temor era ser esquecido, pretendia permanecer através de
suas obras. Em Confissões (1997), afirma que “Escrevi estas Confissões urgido por
duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. [...] Tinha que
escrever ligeiro, ao correr da pena.” (RIBEIRO, 1997, p.11). De acordo com Walter
Benjamin (1994), “A morte é a sanção de tudo o que o narrador pode contar. É da
morte que ele [o narrador] deriva sua autoridade.” (Op. cit., p.208). Quando escreveu o
livro Confissões, Darcy Ribeiro já sabia que a morte dele estava próxima. Associando
esse fato à reflexão de Benjamin, somos levados a pensar que essa proximidade da
morte afastou de Ribeiro o receio de narrar ideias mais íntimas, sem preocupação com
qualquer tipo de censura, uma vez que era um momento decisivo, em que o tempo
poderia ser uma adversidade. Assim, a circunstância possibilitou a ele narrar
passagens da vida da forma que bem quisesse.
No livro Migo (1988), assevera que será lembrado. “Queira ou não queira, eu
existo hoje e existirei amanhã. Mais do que você, mais do que ninguém.” (RIBEIRO,
1988, p.122). “Meus livros é que continuarão aí falando interminavelmente de mim, por
mim, se é que duram. Serei julgado pelas dicas de meus personagens.” (Ibidem, p.76).
Ribeiro tem necessidade de escrever sobre si e de vincular a sua escrita à possibilidade
de ser lembrado sempre, de não cair no esquecimento.
Essa preocupação de permanência através da escrita nos remete também
ao arquivamento do “eu”; arquivar documentos, correspondências, livros, documentos
pessoais, objetos de arte é construir uma autobiografia. De acordo com Reinaldo
Martiniano Marques (2003)
Ao recorrer a práticas inúmeras de arquivamento de seus papéis,
documentos e materiais, organizando-os e intencionando-os de certo
modo, o escritor realiza uma segunda operação inerente à primeira: ele
também se arquiva. Vale dizer, ele se desvencilha da natureza
39
evanescente da experiência cotidiana, escapa do fluxo incessante e
imprevisível do tempo presente; estanca-o, ao intervir e articular o seu
passado. Torna o seu passado significativo, em termos de sua formação
como escritor, ao selecionar e preservar certos detalhes, passagens,
acontecimentos, atestados por um documento, um registro qualquer.
Afirma-se como ausência no mundo visível, do presente, e como
presença no mundo invisível, do passado. Desvencilha-se do presente,
a fim de se perpetuar no passado, pela memória. Como alguém digno de
vir a ser lembrado pela obra literária e intelectual que construiu. Ao se
arquivar, o escritor manifesta o desejo de vencer o tempo,
permanecendo na memória de um povo ou de um país. (MARQUES,
2003, p.147).
A falta de modéstia de Darcy Ribeiro não é desconhecida, pelo contrário, ele
mesmo se encarregou de deixar isso bem claro. “Admito com toda desfaçatez que
gosto demais de mim e que me acho admirável”. (RIBEIRO, 2009, p.9). Essa
autoadmiração de Ribeiro pode ter motivado a necessidade de arquivamento do “eu”. A
organização e efetivação da FUNDAR (Fundação Darcy Ribeiro) por ele mesmo é uma
ilustração dessa necessidade de se arquivar. É sabido que, um escritor ao escolher os
documentos iconográficos e textuais, objetos de arte e livros que vai deixar arquivados,
possui intenções claras e, talvez, outras menos conscientes. Pode-se imaginar é que,
através de seu acervo arquivado, Darcy Ribeiro constituiu uma representação de
identidade pela qual passou a ser conhecido. Em Migo, narrativa planejada
cuidadosamente, através do narrador Ageu Rigueira, o escritor confirma algumas das
identidades que adotou durante a vida e a preocupação em permanecer pela escrita.
Para Haydée R. Coelho (1997), “Entre a ficção e a realidade, Ageu/Darcy
tem a consciência do papel da escrita como forma de perpetuar a vida.” (Op. cit., p.21).
Nesse sentido, ela chama atenção para o fato de que esse jogo ficcional assemelha-se
ao que é colocado no texto “Borges e eu” do escritor argentino Jorge Luís Borges em
que ele afirma: “Permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me
reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou na habilidosa batida de
um violão.” (BORGES apud. RIBEIRO COELHO, 1997, p.22). A professora Haydée R.
Coelho aponta para uma aproximação da escrita de Darcy Ribeiro e de Jorge Luís
Borges, nesse fragmento, na tentativa de perpetuação pela escrita, pelos personagens.
40
Portanto, borgeanemente, Darcy Ribeiro, na pele de Ageu de Sá Rigueira, no livro Migo
produz, instaura “eus” que se fragmentam e se completam formando um eu intelectual
que espelha e reflete muitas vezes o eu Darcy Ribeiro escritor e intelectual.
Eu me vivendo e me dizendo nesse rio de palavras emocionadas, passo
a existir graças à permanência, à veracidade testemunhal que só a
literatura confere como verdade verdadeira. Você, se não se produz
como literatura, amanhã não será nada, nada, por mais veementes que
sejam seus amores. (RIBEIRO, 1988, p.394-395).
Ageu/Darcy aposta nas chances de ser lembrado pela atividade literária.
Parece demonstrar uma ansiedade quanto à possibilidade de ser esquecido. É possível
inferir que Darcy Ribeiro considerava sua história de vida digna de ser contada. Aqui
podemos lembrar os versos do poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade
(1930): “E eu não sabia que a minha história / era mais bonita do que a de Robinson
Crusoé”. (ANDRADE, 1979, p.57).
Darcy Ribeiro ocupou o cargo de senador da república pelo PDT até o seu
falecimento em 1997. Nesse mesmo ano, publicou-se postumamente o seu último livro
autobiográfico: Confissões. Não tivemos a intenção de abarcar toda a biografia do
escritor. Reafirmamos que nosso maior objetivo com esse capítulo foi apresentar um
breve perfil do intelectual Darcy Ribeiro, que vai repercutir no intelectual Ageu Rigueira,
narrador do livro Migo, objeto desta dissertação.
41
CAPÍTULO II: O EU e O MIGO, DE DARCY RIBEIRO
Ninguém é sincero com ninguém. Nem
eu. (Migo, p.248).
Migo é uma obra que pode ser lida de diversas maneiras. Por isso optamos
por apresentar um resumo sucinto, mostrando como o narrador descreve cada
personagem e a narrativa em si. Apesar de anunciar no “Roteiro” que dá voz a alguns
personagens, vale a pena destacar que o narrador é único e tudo que sabemos sobre
todos os personagens são impressões e pontos de vista de Ageu Rigueira.
Ageu afirma estar escrevendo um livro e avisa que será uma autobiografia
inventada, mas mesmo assim poderá revelar algo de “um de seus tantos eus”.
(RIBEIRO, 1988, p.13). No capítulo “Diário”, o narrador explica como ocorre a sua
escrita.
Escrevo como quem vomita o inconsciente às golfadas, pondo para fora
o que há lá dentro, no fundo de mim. Tudo metido em palavras e frases
legíveis. Verdadeiras? Por vezes. Mas sem nenhum fanatismo de
veracidade, misturando passado e presente como me saiam.
Espontaneamente. Quando tomo o comando me envolvo tanto que me
atrapalho todo. Se me enrosco até não me metendo, quanto mais.
(Ibidem, p.13).
O narrador sugere escrever como se o texto já estivesse pronto e, sem
pensar, ele o coloca no papel, com espontaneidade. Adianta, para os leitores, que
haverá “às vezes” frases verdadeiras “sem nenhum fanatismo de veracidade”.
Entretanto, existe no trecho citado um jogo do narrador, pois esse mesmo narrador
deixa claro que não tem, em Migo, compromisso com a verdade dos fatos nem com o
tempo, passado e presente se misturam. Escreve sobre o seu fazer literário, é,
portanto, também uma narrativa metaficcional, pois o narrador reflete sobre o seu fazer
memorialístico.
42
Segundo Gustavo Bernardo (2010), “a metaficção existe desde que a ficção
veio ao mundo; podemos encontrá-la nos primeiros mitos, que tematizam sempre o
nascimento do próprio mito [...]”. (BERNARDO, 2010, p.39). O conceito “metaficção” foi
introduzido por William Gass em 1958 aproximadamente, baseado no conceito de
metaliteratura. O conceito de autoficção remete-nos com clareza para os textos de
ficção que têm como centro de reflexão a própria ficção. Esse conceito surgiu no
contexto
pós-estruturalista,
pós-moderno.
Os
conceitos
como
“metaliteratura,
metadrama, metapoesia, ou metaficção estão intimamente ligados ao conceito de PósModernismo, servindo mesmo como paradigmas desse conceito”. (CARLOS CEIA,
2012). As narrativas metaficionais subvertem os elementos narrativos tradicionais para
criar um jogo intelectual com a memória, estabelecendo um diálogo entre ficções.
“William Gass define metaficção como uma ficção fundada na elaboração de ficções.”
(BERNARDO, 2010, p.39).
Em Migo, existem muitos capítulos ficcionais, em que o narrador Ageu tece
reflexões sobre a escrita de romances, sobre a memória, sobre autobiografia, enfim,
sobre o fazer literário. Temos uma ficção que reflete sobre a escrita ficcional.
Há em Migo, um “Roteiro” de leitura que propõe mais de uma forma de
leitura. O narrador-personagem Ageu Rigueira deixa claro que pretende manipular o
leitor durante a narrativa. Além disso, o plano do livro Migo demonstra ser uma narrativa
muito bem calculada. Como podemos perceber, o “Roteiro” é uma tentativa de
condução da leitura.
Este é um romance esquisito. Tão e tanto que recomendo variadas
leituras. A mais ordinária delas é a horizontal, papai-mamãe, que se lê
página por página, na sequência natural, bloco por bloco, do primeiro ao
derradeiro capítulo. [...] Na segunda coluna, conto o que acontece em
torno de mim, no dia-a-dia aqui de casa, geralmente manso, por vezes
assustador. É leitura para pecador professo que não lê para julgar, nem
para curtir, mas para também sentir, emocionado, pronto a se
solidarizar comigo. Só peço que não se escandalize, é matéria para
adultos. (RIBEIRO, 1988, p.10).
43
As marcas da condução da leitura podem ser percebidas, por exemplo,
nesse trecho do “Roteiro” em que o narrador afirma “recomendo variadas leituras” e,
depois adverte o leitor: “Só peço que não se escandalize”. O narrador indica ao leitor
como realizar a leitura, as possibilidades de leitura, solicita ao leitor que não o julgue,
que se solidarize com ele (o narrador). Além disso, dispensa o espanto do leitor porque
o assunto do livro é para pessoas adultas. Mostra-se um narrador que estabelece jogos
textuais com o leitor.
No primeiro capítulo de Migo, o narrador inaugura uma marca que vai
permear o romance: dirigir-se diretamente ao leitor. Como por exemplo: “Eu e você, me
creia, porque, querendo ou não, você me co-autora, ajudando a romanceá-lo”.
(RIBEIRO, 1988, p.14). O narrador dirige-se ao leitor e afirma que esse leitor,
desejando ou não, vai ser um co-autor desse livro. Outro exemplo ocorre quando o
narrador antecipa o livro: “[...] Prepare-se para bestagens. Disso é feita a vida e a
literatura também. Sua matéria são bobagens sentimentais [...] que saem de mim,
sentidas, e a que você, conivente, lendo com emoção, vai dando voz, revivendo.”
(Ibidem, p.14). Refere-se ao leitor, que “lendo com emoção”, dará voz à narrativa e
reviverá os sentimentos do narrador.
Em Migo, o narrador constrói uma narrativa, no capítulo “Soma”, em que
simula fazer elucubrações como se fosse um bebê recém-nascido. A narrativa fala da
parteira, do banho morno, das primeiras mamadas; vem tecendo reflexões da
germinação até a vida adulta.
Antes daqueles escassos três quilos de matéria organizada, eu menino,
saído de minha mãe, fui simples óvulo, minúsculo ovo. Já então eu
portava em mim, nas instruções detalhadíssimas que mamãe e papai,
insensatos, me impuseram confluindo alhures, o capital genético de
suas gentes tão contrastadas. [...] Assim cheguei a essas mãos
enrugadas e encardidas, atravessadas de veias grossas azuis,
pulsantes, que vejo escrevendo este romance. Romance da vida, da
minha vida, da sua vida, que é tão-só o desdobramento de algumas
daquelas potencialidades com que nascemos. (Ibidem, p.22).
44
Darcy Ribeiro reproduziu esse capítulo “Soma” no seu livro Confissões
(RIBEIRO, 1997, p.21-23). Fez algumas modificações sobre o local do nascimento e o
nome da avó. Em Migo, diz ter nascido no Mangueiral; em Confissões, Cedro. Mudou
também o nome da avó, de Coló para Mariazinha.
Ageu de Sá Rigueira, narrador-personagem do livro Migo, é mineiro, nascido
na cidade fictícia Mangueiral. É filho de Athos e Bebela. Aos vinte anos, deixou a cidade
natal para morar em Belo Horizonte. Essa mudança já conta quarenta anos, logo nosso
protagonista é sexagenário. A família de Ageu Rigueira queria que ele tomasse conta
das terras do Buritizal (propriedade rural da família), mas insistiu em ir para a faculdade
e se tornar advogado. Desejava estudar e se tornar um intelectual. Revela-nos o mundo
de suas leituras: Ponson Du Terrail, Michel Zevaco, Xavier de Montépin, Alexandre
Dumas, Gavroche.
A sua infância transcorreu em Mangueiral, localidade pequena, sem muitos
atrativos. Nininha, sua única irmã, deu-lhe o apelido de Gê, apelido esse adotado
também pelos amigos dos anos de 1940 em Belo Horizonte.
Nos primeiros anos na capital mineira, leu bastante. Forma que encontrou
para suprir as suas necessidades de conhecimentos gerais. Na Faculdade Federal,
conquistou grandes amizades e se afeiçoou ao professor de Filosofia Artur Versiani
Veloso. Segundo Ageu, esse professor influenciou muito as leituras dele, livrando-o de
autores menos densos e indicando-lhe Bergson, Romain Rolánd, Tolstói, Balzac,
Proust, Thomas Mann, Dreiser e Faulkner. Vale ressaltar que Artur Versiani Veloso
existiu realmente e foi professor de Filosofia de Darcy Ribeiro nos anos de 1940.
Ribeiro tinha grande admiração e respeito por esse professor. Então, podemos
perceber nessa referência à amizade de Ageu pelo professor Veloso uma mescla do
factual dentro do ficcional, marca essa que aparece em vários momentos em Migo.
Ageu Rigueira casou-se com Vilma Nader, com quem teve uma filha, Mila,
que lhes deu dois netos. Vilma era rica e tinha boa aparência, fica subentendido que
Ageu se casara por conveniência. Os padrinhos foram Juscelino Kubitschek e sua
esposa Sara Kubitschek. O casamento começou a ficar ruim quando Vilma e o pai dela
45
tentaram transformar Rigueira em homem de negócios. O casamento não durou muito.
A única filha, Mila, preferiu a companhia da mãe.
A vida de Ageu é marcada pelas lembranças de muitos amores. Relembra
quatro mulheres, especialmente. Stela, amante que só deixou para se casar com Vilma.
Narra o longo namoro com uma aluna, Sol. Ela era noiva de outro, só se relacionaram
depois que já era casada. Beatriz, a mulher com quem se envolveu durante o
casamento com Vilma, morreu jovem e Ageu chorou muito por ela. Lucíola era uma
mulher romana, casada, mais requintada; quando o romance entre eles acabou,
segundo Ageu, ele teve que dar explicações ao marido, um diplomata, que não
conseguia consolar a esposa pela perda do amante. Em certa parte da narrativa, Ageu
relata que esses amores ele viveu mesmo na imaginação. Ainda assim gosta de
recordar esses amores imaginados.
Voltando ao Ageu de sessenta anos, encontramos um homem solitário. É um
ex-professor aposentado que passa a maior parte de seu tempo lendo e escrevendo, é
escritor de romances. Sai de casa raríssimas vezes. Moram em sua casa Zeca, um filho
adotivo e Silviana, mais conhecida pelo apelido de Nora, mulher de Zeca. Este é filho
de uma ex-empregada de Ageu Rigueira, que engravidou no tempo em que trabalhava
na casa de Ageu. A mãe de Zeca teve o filho e partiu quando o menino tinha cinco
anos, a mãe prometia voltar um dia para buscá-lo e nunca o fez. Chegaram a cogitar
que Zeca é filho de Ageu, mas ele só admite ter criado o rapaz. “Zeca é filho de uma
empregada [...] O guri de então cresceu aí, mal cuidado pelas empregadas, ajudando
num servicinho ou noutro, sobretudo nas compras, e se pagando com o troco.”
(RIBEIRO, 1988, p.15).
Ageu gosta de se isolar em sua casa e recebe notícias da cidade e do
mundo através de jornais e dos amigos intelectuais que o visitam: Stela, Guedes, Uriel,
Cura, Canuto, Elmano. No livro Darcy Ribeiro da coleção “Encontro com escritores
mineiros 4” (1997), organizado por Haydée R. Coelho, a autora faz comentários sobre o
livro Migo. Aborda a importância do relacionamento de Ageu com os amigos intelectuais
na evocação de lembranças e na reconfiguração de fatos passados. Além disso,
Ribeiro Coelho elenca os escritores com quem Ageu Rigueira conviveu.
46
O enfoque do espaço da rua e da casa, do público e privado é
possibilitado pelas personagens que se comunicam com Ageu. [...] Junto
com o escritor, os personagens vão encenando a reconstituição da
memória que se faz de maneira presentificada. Como personagem de
ficção, Ageu pode falar de Darcy. No contexto dos anos 40, em Belo
Horizonte, destaca-se a geração literária de Ageu: Darcy, Fernando
Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos.
Todos esses escritores saíram de Minas, projetando-se no Rio de
Janeiro. (RIBEIRO COELHO, 1997, p.20).
Gê é o apelido de Ageu. Gê e os amigos formam um círculo de intelectuais
bem diferentes entre si. Stela é uma ex-namorada de Gê que se transformou em uma
amiga da vida inteira. Guedes cumpre o papel de mineiro que defende as tradições
mineiras a qualquer custo. Cura, o Lelé, é um sacerdote, tem muita proximidade com
Guedes, essa afinidade desperta rumores de que sejam amantes. Canuto não assume
a homossexualidade, narra ter sofrido muita discriminação na juventude. Elmano teve
uma espécie de envolvimento amoroso com Stela, no passado, acredita que Ageu não
aceitou bem essa história; Elmano deseja ser escritor, demonstra inveja de Ageu. Uriel,
um dos diretores do Jornal Estado de Minas, guarda algumas mágoas a respeito da
história de Minas Gerais, pois é a representação de um mineiro que sofre pela história
da devastação indígena, da perseguição aos negros e da degradação do povo mineiro
no período da exploração do ouro em Minas. Uriel relata o seu ressentimento a respeito
da história de Minas Gerais porque se considera um descendente de uma geração que
fora massacrada. Afirma que
[n]as máquinas prodigiosas de gastar gentes desses brasis, a moenda
mineira foi a que mais gente gastou. Gente comprada cara, importada e
taxada de dízimos e quintos. Gente aqui nascida, crioula, escrava,
também comprada e vendida. Gente nascida livre que tantas vezes de
novo se via escravizada, ou se fazia escravizar por seu próprio querer,
para ter o que comer. A fome em Minas, velha como Minas, desgastou
gerações e gerações de gentes, incontáveis. (RIBEIRO, 1988, p.95-96).
47
Uriel, assim como Ageu, gosta de criticar a exploração do povo mineiro na
época da descoberta do ouro em Minas Gerais. Guedes é um contraponto de Uriel, pois
para Guedes ser mineiro é assumir o passado lusitano com orgulho de enforcamentos e
de esquartejamentos ocorridos no passado.
Na rotina da casa do sexagenário Ageu, encontramos Nora que cozinha
bem, limpa a casa e é bem discreta. Ageu e ela almoçam juntos quase sempre, Zeca só
aparece para jantar. Ageu e Zeca, seu filho adotivo, não se dão bem. Zeca não perdoa
o nome que Ageu e Guedes, padrinho de Zeca, deram a ele: José Parido da Silva. Não
sabe quem é o seu pai biológico, mas suspeita que seja filho de Ageu.
Mas precisava ser José Parido? Claro que todo mundo é parido, mas eu
tinha que levar o parto de minha mãe no nome? [...] Um pai qualquer,
que ninguém sabe quem seja: Silva. Uma mãe, Parida. Não perdôo. Não
perdôo esse nome que me deram. Sempre me perguntei se não sou
mesmo filho desse Gê. Pela boataria daqui do bairro, sou. Reconheço
em mim gestos e gostos dele que só podem ser herdados. (RIBEIRO,
1988, p.39).
Esse desabafo está inserido no capítulo “Zeca”, em que o narrador simula
dar voz ao personagem Zeca. Essa estratégia narrativa de simulação de dar voz a
alguns personagens vai ocorrer em outros capítulos como em “Nora”, “Mila”, “Stela”,
“Canuto”, dentre outros. Dessa forma, os personagens vão tecendo em primeira pessoa
comentários sobre Gê, que é, na maioria das vezes, o assunto desses capítulos. Zeca,
desde o início de seu casamento com Nora, leva uma vida desordeira, passa noites fora
de casa e mantém amantes.
Devido às ausências de Zeca, Ageu insinua que passa a ter um caso com
Nora, a mulher de seu filho adotivo Zeca. Pensamos que esse caso amoroso pode ser
apenas uma projeção de um desejo dele. Zeca flagra o casal e passa a torturá-los,
ocupa o grande quarto de Gê e expulsa os dois para o quarto menor. Ageu e Nora
passaram a dormir no quarto dos fundos. Isso se passa no capítulo “Flagra”, na parte
final do livro. Ageu e Nora passaram dias muito angustiados. Entretanto, um ladrão
48
invadiu a casa pelo quarto da frente, em que estava Zeca, deu-lhe três tiros, matou-o e
fugiu. Vieram os vizinhos e amigos de Ageu para consolá-lo, Uriel fez um relato no
Estado de Minas. “O casal dormia quando surgiu o ladrão. Baixinho, com o enorme
revólver na mão. Zeca levantou-se, num salto, para defender a mulher, mas foi
fulminado por vários tiros que o iam jogando pra trás.” (RIBEIRO, 1988, p.422). Na
verdade, Ageu estava aliviado, pois se livrou do escândalo de estar tendo um caso com
a mulher de seu filho adotivo e também pela continuidade do romance com Nora.
Depois que Canuto foi embora, Stela quis emitir suas opiniões, entretanto Nora reagiu e
disse: “─ Manda essa dona embora, Gê. Que vá pros infernos ou pra casa dela. Se
quiser venho pra cá, numa boa.” (Ibidem, p.422). No final, há uma sugestão de que
Ageu e Nora tenham continuado na mesma casa, na mesma rua, na mesma cidade.
No capítulo “Cautela”, o narrador fazendo uso da metaficção alerta o leitor
sobre a inexistência de Nora e de outras personagens. Assim, notamos que está
demonstrando de que forma são construídos os personagens.
Conto a você, aqui entre nós, que Vazinha é mentira de Gê. Nora
também. Não existem, nem deviam ser assim. Despreocupe-se delas.
Preocupe-se comigo. Só eu mereço verdadeiramente sua atenção, até a
sua amizade, aspiro. Meus personagens são tal qual são porque,
largado à solta, sem censura, eles me saíram assim. São invenção
minha, distorcida. Não se comova demais com eles. Suas dores são
fingidos ais; seus amores, imitação. (RIBEIRO, 1988, p.212).
Ao narrar ao leitor a inexistência dos personagens, o narrador deseja mostrar
o funcionamento da narrativa ficcional. O livro Migo, conforme já foi mencionado, não
possui uma sequência linear dos fatos nem compromisso com a ordem cronológica dos
acontecimentos. O enredo surge entremeado aos capítulos metaficcionais e aos
capítulos memorialísticos. Há uma intervenção frequente do mundo não ficcional dentro
da ficção. Num jogo de identidades, Ageu e Darcy se misturam na narrativa e ficção e
realidade se entrelaçam, possibilitando-nos uma leitura autobiográfica.
49
Apresentamos a seguir a árvore genealógica de Ageu de Sá Rigueira que se
encontra no livro Migo. (RIBEIRO, 1988, p.8).
Athos e Bebela são os pais de Ageu Rigueira. Athos descende de Ageu (avô
paterno) à esquerda da árvore genealógica. Bebela é filha de Quincas e Coló (avós
maternos) à direita da árvore.
No centro, está Ageu Rigueira, abaixo do nome de seus pais. À esquerda do
nome Ageu, temos Vilma com quem foi casado por um tempo. Ao lado, aparece o nome
Bia, uma das amantes de Ageu. Depois Lu (Lucíola) que seria outra amante. À direita,
está Nininha, irmã de Ageu.
Ainda à direita, um pouco abaixo do nome da irmã, surgem os nomes dos
amigos. Interessante notar a disposição desses nomes, os primeiros nomes desse
ramo da árvore são o de Stela e o de Canuto. Nesse ponto há uma tripartição do ramo
em que estão Guedes e Lelé (o suposto casal homossexual), abaixo, Elmano (na altura
50
do nome de Ageu), mais abaixo, o nome de Uriel. Com essa configuração dos amigos
de Ageu em sua árvore genealógica, poderíamos pensar no papel desses amigos em
sua vida, na afinidade entre eles e Ageu.
Finalmente, temos Zeca, o filho adotivo, abaixo do nome de Ageu, numa
ligação direta. Ao lado direito de Zeca, aparece Nora, sua mulher. À esquerda de Zeca:
Mila, filha de Ageu e Vilma. Don‟Ana e Vazinha são vizinhas de Ageu, sendo essa
última filha de Don‟Ana. Interessante notar que os nomes de Don‟Ana e de Nora
possuem também uma ligação com o nome de Ageu. Don‟Ana à esquerda e Nora à
direita, pode-se pensar em ambas como fantasias eróticas de Ageu, pois Don‟Ana teve
um caso fortuito com Ageu bem antes do caso dele com Nora. O nome de Vazinha tem
uma ligação como nome de Zeca, parecendo fazer menção à iniciação sexual da
garota.
Essa árvore genealógica de Ageu de Sá Rigueira se parece uma síntese do
enredo do livro Migo representada através de um diagrama. Talvez tenha sido projetada
antes da escrita da narrativa, pois depois de ler o livro e analisar a “Constelação de
Ageu Rigueira” pode se compreender as ligações entre as personagens. Ageu está no
centro da árvore assim como é o personagem principal da narrativa, ele é o narrador e
criador dos outros personagens. De um lado estão os amores imaginários de Ageu e do
outro lado, os amigos intelectuais da mesma forma imaginários. Estão em posição
oposta Stela e Canuto, que brigam muito durante a narrativa; também estão em
oposição Guedes e Uriel que são personagens que se contrapõem a respeito do
conceito sobre ser mineiro. Elmano está alinhado a Ageu, pois, como personagem, é
um desdobramento dele. Mila, Zeca e Nora estão ligados a Ageu, em uma linha
horizontal na árvore genealógica, como representação de filhos dele. Mila é a filha
legítima; Zeca, o filho adotivo; e Nora, por ser casada com Zeca, é como uma nora de
Ageu.
51
2.1. Epígrafe, Roteiro e Sumário
Antoine Compagnon (1996) em seu livro O trabalho da citação, apresentanos um histórico do surgimento dos textos introdutórios em livros. Compara esses
textos aos postes, marcos e barreiras policiais que defendem uma cidade. Assim como
uma cidade é cercada de proteção, o livro também é cercado por todos os lados. A
epígrafe é um dos pilares em que o texto se apoia. (Op. cit., p.124).
Migo possui uma epígrafe que aborda a presença de mineiros e esses vão
aparecer na narrativa do livro. Não encontramos a autoria dessa epígrafe, o que
conseguimos descobrir é que se trata de parte de uma cantiga do folclore mineiro que
consta no livro Cantos Populares do Brasil: Volume II, 1883, organizado por Sylvio
Romero. Conforme Compagnon (1996), a epígrafe é a citação mais essencial de um
livro. É “um ícone no sentido de uma entrada privilegiada na enunciação”. (Op. cit.,
p.120). Por ser precursora, ela tem liberdade e é tão forte como um grito, como um
raspar de garganta antes do que vai se pronunciar. O narrador de Migo escolheu como
epígrafe os versos abaixo:
Minha gente eu vou m‟embora
Mineiro tá me chamando
Mineiro tem esse jeito
Chama a gente e vai andando
(RIBEIRO, 1988, p.9).
Em Migo, temos um narrador sedutor, não há indícios de ingenuidade na
narrativa, que é bem planejada. Isso nos faz crer que essa epígrafe foi escolhida
cuidadosamente. Segundo Darcy Ribeiro, a motivação para a escrita do livro Migo
ocorreu em 1987, período em que veio a Minas Gerais para trabalhar com o
Governador Newton Cardoso. O escritor relata que, devido a sua vinda ao estado natal,
desejou escrever um livro que abordasse, entre outros temas, Minas Gerais. A epígrafe
do livro Migo traz versos que tratam da saída de um eu lírico “eu vou m‟embora”; versa
52
também sobre um convite “Mineiro tá me chamando” e sobre a identidade mineira em
“mineiro tem esse jeito”. Pode-se pensar que essa epígrafe aponta para uma busca de
definição do que é ser mineiro.
Quanto ao prefácio, Compagnon (1996) afirma que na “retórica antiga” os
textos iniciais tinham a captatio benevolentiae5, dirigiam-se ao leitor de forma concisa e
ofereciam-lhe condições de compreender a obra. Porém, Compagnon nos adverte que
a busca dessa “benevolência” mudou bastante. (Op. cit., p.128-129). Declara que
[o] prefácio não se dirige a qualquer leitor (ao leitor inocente); ou melhor,
se ele cai em suas mãos, é para renegá-lo ─ não o convida, não o
solicita ─, através de uma deturpação que divulga ao público uma carta
destinada a um único leitor, singular e avisado, que já leu o livro (até
mesmo o traduziu; ele não é nada inocente). Sua leitura foi uma
produção ou uma realização, isto é, uma leitura modelo. Todo prefácio
supõe assim um leitor modelo ou um tradutor fictício; esse é um traço
característico da cena imaginária do prefácio: escrevo-o para alguém
que já me leu atentamente (e compreendeu-me). (Op. cit., p.130).
Percebemos, então, que na modernidade o prefácio é um texto que possui
outras intenções mais complexas do que simplesmente apresentar a obra que será lida.
Não é escrito para um leitor comum e, sim, para o próprio escritor como leitor de seu
livro. Compagnon (1996) afirma que o prefácio é como um toque final do texto, escrito
quase sempre depois da obra pronta, por quem já conhece toda a história. O prefácio
não é produzido para facilitar a leitura para o leitor comum e, muitas vezes, o
prefaciador tem como objetivo propor um método, seduzindo um tipo de leitor mais
ingênuo.
Compagnon ainda afirma que o prefácio é definido por estabelecer um elo
entre o título do livro, que às vezes é “desencorajador”, e “o assunto do livro”, que deve
ser mais interessante. Para ele, o prefácio é, de forma secundária, uma conexão entre
o autor e o texto ou entre o leitor e o texto, de modo algum entre o leitor e o autor,
5
A busca da benevolência. Tradução de Cleonice P. B. Mourão, tradutora do livro O trabalho da citação.
53
“separados pelo livro”. Dessa forma, o leitor deve sempre desconfiar do prefácio, deve
lê-lo de forma crítica. A principal função do prefácio é ligar o título e o texto. “O prefácio
é retrospectivo. É por isso que intercedendo pelo título, antecipa o livro; é por isso que
se dirige a um leitor imaginário que já o leu.” (Op. cit., p.130-131).
Parece paradoxal o fato de que o prefácio, sendo o texto que se lê
primeiramente, antes de se iniciar a leitura do romance, tenha sido escrito depois dele.
O prefácio é necessário para dar um “acabamento” ao livro. Compagnon acrescenta
que
[é] porque ele é tudo isso que o prefácio representa um momento
necessário e inevitável da escrita (um acontecimento histórico: só o
prefácio do livro pode ser datado e localizado: a morte). A morte “dita
antecipadamente”, é o gesto grave pelo qual consinto em morrer. Eu me
dou a morte na primeira página, está findo o sujeito que fui, enquanto
escrevi isso que você vai ler. O benefício é imenso. Executando-me,
anulo o tempo da escrita; imobilizo-o ou reverto-o fechando o livro sobre
si mesmo, uma vez que ele começa pelo fim. (Op. cit., p.132-133).
Num livro, é preciso pensar o prefácio como sendo o começo e ao mesmo
tempo o fim desse livro. É uma estratégia para apresentar a obra que vem a seguir e
também para finalizar a escrita dessa obra. O leitor deve atentar para as possíveis
intenções contidas no prefácio. Conforme Compagnon (1996), um prefácio pode sugerir
uma forma de leitura ao leitor, mostrando-lhe, por exemplo, que um leitor deve ler um
romance pela primeira vez sem parar nas dificuldades e entender, de forma geral, o
assunto do tal livro; e, através de uma segunda e de uma terceira leituras dessa obra,
esse leitor poderá compreendê-la. (Op. cit., p.131).
Para iniciar o seu livro, o autor de Migo se valeu do artifício de escrever um
“Roteiro”, que pode ser considerado um prefácio, uma vez que possui as características
desse tipo de texto. A seguir, apresenta um “Sumário” que é outro caminho de
condução da leitura. O “Roteiro-prefácio” em Migo recomenda várias formas de leitura
ao leitor. Esse “Roteiro” é como o prefácio conforme Compagnon (1996) “O prefácio é
54
retrospectivo. É por isso que, intercedendo pelo título, antecipa o livro; é por isso que se
dirige a um leitor imaginário; que já o leu [...]. (COMPAGNON, 1996, p.130). O “Roteiro”
tem caráter retrospectivo, pois só foi escrito depois de terminada toda a narrativa de
Migo. Antecipa o livro como, por exemplo, ao explicar o assunto da quarta coluna de
capítulos o narrador afirma que esses capítulos tratam “da mineiridade e outras
bobagens de meu estofo de escritor, suportável para leitor nostálgico, sentimental,
disposto a rir de mim e de nós ou a chorar conosco, teorizando dores e gozos.”
(RIBEIRO, 1988, p.10). Percebemos, então, que o narrador adianta um resumo dessa
parte. De maneira geral, o “Roteiro” se assemelha a uma carta destinada ao leitor.
Portanto, consideramos que esse “Roteiro” desempenha as funções de um prefácio.
No “Roteiro”, o narrador denomina o livro de “romance esquisito” e aponta
leituras. As possibilidades de leitura da narrativa indicadas pelo “Roteiro”, em Migo, são
estabelecidas quando o narrador coloca em quatro colunas as várias entradas para o
texto, separando-as em seis blocos através da palavra Colosso. Instaura, dessa forma,
um pacto de leitura a partir desse “Roteiro”. Esse pacto de leitura nos remete a Philippe
Lejeune (2008), no livro O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet, que nos
adverte que quando um narrador propõe um pacto de leitura, influencia o leitor a
participar de um acordo, como se esse contrato fosse consentido pelas duas partes. O
narrador Ageu indica, por exemplo, a possibilidade de se ler o livro Migo a partir da
primeira coluna que se refere à sua vida, aos seus sustos e amores, ou somente ler os
capítulos cujos títulos estão grafados em negrito. Esses títulos grafados em negrito
representam os capítulos em que os personagens supostamente falariam sobre si
mesmos. Há que se ressaltar que o livro permite as várias entradas, mas existe uma
estreita ligação entre os capítulos, entretanto, seguir uma das entradas sugeridas pelo
narrador em nada dificulta o entendimento da obra. No final do “Roteiro”, a presença de
Darcy Ribeiro e do narrador são bem marcadas:
55
[h]á uma leitura mais, bizarra, recomendável para leitores preguiçosos. É
a dos capítulos de título grifado [em negrito]. Neles, nem Ageu, nem eu,
metemos o bedelho. São os próprios personagens que falam, se
espelham, confessando-se diretamente a você. (RIBEIRO, 1988, p.10).
Quando afirma “nem Ageu, nem eu”, acreditamos que o autor está
interferindo na escrita de forma intencional, porque a presença do “eu” aponta para um
outro que não é o narrador Ageu. Para assinar esse “Roteiro” de leitura, o autor utiliza
as iniciais A.R., de Ageu Rigueira, e marca a cidade onde Rigueira escreveu o “Roteiro”:
Maricá, cidade em que Darcy Ribeiro possuía uma casa de praia e se “refugiava” para
escrever, conforme informa o livro Confissões. A indicação da cidade Maricá é outro
indício da presença de Darcy Ribeiro nesse “Roteiro”. (RIBEIRO, 1997, p.538).
56
Consideramos necessário transcrever o Roteiro-Prefácio, à guisa de
ilustração.
ROTEIRO
Este é um romance esquisito. Tão e tanto que recomendo
variadas leituras. A mais ordinária delas é a horizontal, papai-mamãe,
que se lê página por página, na seqüência natural, bloco por bloco, do
primeiro ao derradeiro capítulo.
Outras leituras possíveis, atabalhoadas, é verdade, mas
divertidas, são as verticais. Você lê seguindo a coluna que escolha deste
roteiro. Se optar por esta leitura, saiba que meu formalismo não é
bitolado, nem colunável. Você vai ter encontrões.
Na primeira coluna, me reconstituo de menino até agora,
contando vida, sustos e amores vividos e viventes, dando sempre fato e
circunstância. Até parece romance antigo.
Na segunda coluna, conto o que acontece em torno de mim, no
dia-a-dia aqui de casa, geralmente manso, por vezes assustador. É
leitura para pecador professo que não lê para julgar, nem para curtir,
mas para também sentir, emocionado, pronto a se solidarizar comigo.
Só peço que não se escandalize, é matéria para adultos.
A terceira, fala dos amigos que me freqüentam. É pelo menos
intrigante porque todos se detestam entre si e a mim também. E eu mais
a eles. É um fuxico só. Mas é meu lastro, sem ele eu nem seria
inteligível, se é que sou. Saltando esta coluna você gostará mais de
mim.
A quarta coluna é a da mineiridade e outras bobagens de meu
estofo de escritor, suportável para leitor nostálgico, sentimental, disposto
a rir de mim e de nós ou a chorar conosco, teorizando dores e gozos.
Você também pode ler bobamente, salteando capítulo a capítulo,
como se lhe dê na santa gana. Afinal, o livro é seu e sem conivência do
leitor não há romance que se aprume. O acaso pode bem resultar
melhor do que minha compaginação.
Há uma leitura mais, bizarra, recomendável para leitores
preguiçosos. É a dos capítulos de título grifado [em negrito]. Neles, nem
Ageu, nem eu, metemos o bedelho. São os próprios personagens que
falam, se espelham, confessando-se diretamente a você.
Há, ainda, uma sobra de capítulos que juntei em duas séries, ao
final. Este resto é indispensável a qualquer leitura e se trata do que há
de mais emocionante em romance. Não deve é ser lido isoladamente.
Jamais. Pode até levar você ao suicídio.
Vamos, minha cara, meu caro, vamos logo. Sente, se abanque,
porque ler deitado faz mal à vista, acomode-se bem, me leia e desfrute,
se puder.
A.R. Maricá. Agosto de 1988. (RIBEIRO, 1988, p.10).
57
O narrador apresenta na página seguinte o “Sumário”, que traz títulos de 188
capítulos divididos em quatro colunas, separadas em seis blocos na horizontal pelo
título “Colosso” que se repete cinco vezes, totalizando 193 capítulos. Os títulos dos
capítulos são dispostos em colunas temáticas. Na primeira coluna, relata a infância,
seus sustos e seus amores; na segunda, narra o cotidiano da casa de Ageu; na
terceira, refere-se aos amigos intelectuais que o visitam; e, na quarta, expõe reflexões
sobre Minas Gerais. Como se pode ver no “Roteiro” transcrito, não há numeração das
páginas e isso dificulta encontrar os capítulos no decorrer do livro. Dessa forma, o leitor
será obrigado a folhear o livro de 422 páginas em busca de uma direção de leitura que
o “Roteiro” indica, porém o leitor tem a liberdade de, no meio do caminho, ler outros
capítulos. O leitor tem uma entrada na narrativa ao folhear as páginas de Migo em
busca de um caminho aparentemente pré-determinado pelo “Roteiro”. Os títulos dos
capítulos são curtos, há nomes de personagens e de cidades, pronomes, substantivos,
verbos, adjetivos.
A leitura página após página não traz um efeito muito diferente da leitura
realizada seguindo as colunas sugeridas pelo “Roteiro”. Lendo os capítulos de cada
coluna do “Sumário”, podemos perceber que às vezes aparece um ou outro capítulo
que aborda o assunto principal de outra coluna, esse é um bom exemplo de que não se
pode confiar em tudo que o prefácio-roteiro informa. O narrador sugere também uma
leitura apenas dos capítulos, cujos títulos estão em negrito, nos quais supõe-se que os
personagens ganhem voz, falando de si mesmos. Entretanto, nesses capítulos
negritados, os personagens falam quase sempre de Ageu e não de si mesmos. No
capítulo negritado “Nora”, por exemplo, Nora opina sobre seu sogro Ageu Rigueira:
Seu Gê? Acho até simpaticão, todo mundo se impressiona com ele. Eu
não! Zeca, então, se estufa de orgulho. Que será que papai e mamãe
pensarão do velho Gê? Só tinham se visto na cerimônia do casamento
civil. [...] Meus velhos gostaram do ajantarado e da casa. Gostaram dele
[Ageu] também, até demais. [...] Quem não gosta de se dar, de ser meio
parente do professor Ageu Rigueira? Até eu gosto de dizer que sou a
nora dele. (Ibidem, p.73).
58
Stela, no capítulo negritado que traz seu nome, relata
[q]uando comecei a ir à casa de Gê, ia de bonde. Depois, por muito
tempo, fui de ônibus. Agora, vou e volto no meu fusca. Gê, cordial
demais [...] É matreiro demais, esse meu Gê. Roga ao mundo que não o
veja no que é. Só se mostra na mansidão: doçuras. Gato, escondendo
garras. Na verdade, nunca vi Gê furioso, nem mesmo zangado pra valer.
Nada desse mundo emocionou muito a ele nos anos todos, tantos, de
nosso convívio. [...] Por que é que me importa o Gê? Estou sempre
pondo esse cara no meu destino. (Ibidem, p.193).
No final do “Roteiro”, quando o narrador afirma que a leitura dos últimos
capítulos das colunas é indispensável, está claramente conduzindo a leitura. Sugere,
até mesmo, a posição física que o leitor deve tomar para ler o seu livro. “Vamos, minha
cara, meu caro, vamos logo. Sente, se abanque, porque ler deitado faz mal à vista,
acomode-se bem, me leia e desfrute, se puder.” (Ibidem, p.10). O narrador impõe de
uma forma ardilosa a sua narrativa e o seu modo de narrar.
Consideramos necessário, para maior clareza, apresentar o “Sumário” como
ele se apresenta no livro Migo.
59
SUMÁRIO
DIÁRIO
SOMA
NININHA
SANTINHA
GUARDIÃ
SINA
MÃE
SEXO
ALCOVA
MATADOR
NÓS
ELA
SOGROS
ZECA
CHORO
ABORTO
ELOÁ
NORA
CALEI
EXTRA
CASA
VILMA
CASÓRIO
BIA
RAIZ
O BARÃO
PAI
A BANDA
SOL
MOÇAS
MILA
JAMAIS
CAJU
NORA
COCHILO
TRISTEZA
FILHA
VAZINHA
REBATE
PESADELO
DON’ANA
CHUVA
COPO
PRIMA
AMAR
LU
MATRIZ
GENTE
MANGUEIRAL
RETORNO
QUITUTES
MANGAS
NORA
CARNAVAL
REDE
FAGULHAS
MILA
VOCÊ
OLHARES
IDEM
LEGADO
CONSTRUÇÃO
TESÃO
SIÁ RITA
CRESPO
TRAVÉS
MAGNÓLIA
HORAS
PILEQUE
CARRILHÃO
LOTES
TROTE
MILA
CINZA-E-MEL
VOZ
BANHO
NININHA
NORA É NORA
QUIMERA
VEXAME
ANO NOVO
É PRECISO
MÚSICA
COMIGO
PROÍBO
ESPELHO
NORA
DOMINUS
NORA FLOR
STELA
EUS
QUE FAZER?
FLAGRA
FUGA
ME LEIA
MEXERICO
O PAR
MILAGRE
PUSELA
GUEDES
DOM
NECRO
RINHA
URIEL
AGEU
IDOS
CREDO
SAUDADES
RIO
JANELAS
VIDA
NONADA
BEAGÁ
EU
BRIGA
CURA
CIRCO
O OUTRO
O-PORTO
CANUTO
PAPELÃO
MODÉSTIA
GERAÇÃO
G§C
MINEIROS
SÃO PAULO
PALAVRAS
ANDORINHAS
AMORES
ÓCIO
MITO
SOLIDÃO
FICÇÃO
ROMANCE
STELA
ELOGIOS
PROLIXO
FAUNA
CURITA
MORTOS
BENTO
FÊMINA
TON’ZÉ
FRESCO
MINAS
ESQUINA
CAUTELA
ALTERNOS
ALCEU
MEL
CONGONHAS
ÍNDIOS
FASTIO
VIAGEM
EGO
TOSSE
FILA
LOUCAS
ELMANO
LSD
BROCHA
NÓS OUTROS
VELHA
PUDENS
PEDRAL
VEJO
CARETA
CAVALA
PRAGAS
QUINA
VÍCIO
TÉDIO
MIGO
ROTINA
DROGA
COBRA
ZECA
FELICIDADE
SERRANIA
ESCRITURA
CAL
TRANSA
AMO
GLAUBER
URIEL
CABAÇO
QUARTO
RÉQUIEM
COLOSSO
COLOSSO
COLOSSO
COLOSSO
COLOSSO
(RIBEIRO, 1988, p.11).
60
Toda essa preocupação com a arquitetura do livro Migo nos faz pensar que
esse narrador persuasivo tem grande preocupação com a recepção desse livro. Ele não
deseja simplesmente narrar uma história, ele almeja convencer o leitor. Expressa o seu
grande desejo:
[o] que quero mesmo é escrever o livro, não um livro mais. Quero o livro.
Aquele, inesquecível. Um livro que pegado ninguém largasse mais.
Lesse e relesse vezes sem conta. Um livro tão bem enredado, urdido e
curtido que pasmasse a quem me lesse. Isto é o que mais quero na
vida. Isto e Nora. (Ibidem, p.152-153).
Empenha-se na escrita desse livro, que planejou cuidadosamente. Embora
possua um enredo comum, Migo se mostra relevante uma vez que sua estrutura
trabalhada
une
capítulos
do
enredo,
capítulos
metaficcionais
e
capítulos
memorialísticos. Deseja convencer o leitor através de estratégias imprevisíveis como,
por exemplo, ora afirmando ora negando a existência de Dargeu, uma mistura de Darcy
e Ageu. O narrador enreda o leitor e o traz para dentro da narrativa, mostra-lhe que a
existência dele e de Migo dependem da existência de um leitor.
A Estética da Recepção se volta para a recepção dos textos. Wolfgang Iser
(1979), em “A interação do texto com o leitor”, afirma que na relação texto-leitor, não há
uma posição face a face, o que não permite um diálogo entre ambos, como em outras
relações sociais. Isso dificulta a recepção do texto e
o leitor [...] nunca retirará do texto a certeza explícita de que a sua
compreensão é a justa. Além do mais, na interação diática, as réplicas
de cada participante têm um fim determinado; em conseqüência, elas se
integram em um contexto de ações, que funciona como o horizonte da
interação e muitas vezes serve como um tertium comparationis. Ao invés
disso, falta à relação entre texto e leitor um quadro de referências
semelhantes. Muito ao contrário, os códigos que poderiam regular esta
interação são fragmentados no texto e, na maioria dos casos, precisam
primeiro ser construídos. Assim, pois, a finalidade e as condições
61
diferenciam a interação entre texto e leitor de pressupostos importantes
da interação diática. (Op. cit., p.87-88).
Em uma situação de diálogo, em qualquer circunstância social, os
interlocutores possuem uma série de condições favoráveis, como o contexto do diálogo,
a possibilidade de replicar, as expressões faciais e gestuais entre outras. Entre texto e
leitor, faltam essas condições de favorecimento da comunicação próprias do diálogo, o
que pode comprometer a recepção do texto. O texto proporciona várias representações
projetivas do leitor, que dão margem a diferenciadas leituras. Então, Iser (1979)
entende que para que as possibilidades de comunicação possam se realizar,
devem existir no texto complexos de controle, pois a comunicação entre
texto e leitor só tem êxito quando ela se submete a certas condições.
Estes meios de controle, no entanto, não podem ser tão precisos quanto
numa situação de face a face, nem tão determinados como um código
social que regula a interação diática. (ISER, 1979, p.89).
É preciso que esse complexos de controle levem texto e leitor a um processo
de comunicação. “Os vazios e as negações contribuem de diversos modos para o
processo de comunicação que se desenrola, mas, em conjunto, têm como efeito final
aparecerem como instâncias de controle.” (Ibidem, p.91). Percebemos, em Migo, a
presença desses meios de controle da leitura. Eles ocorrem através de um
cerceamento da liberdade do leitor, uma proibição mesmo de julgamento pelo leitor.
Durante a narrativa, o narrador de Migo faz várias interpelações ao leitor, como em
[a]qui pra nós, leitor-leitora, o que é que Nora tem a ver com as
safadezazinhas da menina? Não é da conta dela e não é da sua conta
também não. Leitor não é censor. Não fique aí me julgando. Não
consinto. Nosso trato é eu escrever a estória de Gê, minha história, para
você ler. E estamos falados! Julgar-me é privilégio meu, de que não abro
mão. Só meu. (RIBEIRO, 1988, p.25).
62
Em outra passagem do livro, questiona o leitor: “E você aí, homem ou
mulher, que me lê e me julga, que tal o seu caldo? Você gosta de ser tal qual é?
Trocaria seu jeito, seu destino pelo de alguém? Quem? Esqueça isso.” (Ibidem, p.133).
O narrador tem uma preocupação com o fato de ser julgado pelo leitor. Ele tenta cercar
e cercear qualquer liberdade que o leitor possa ter, cabendo a ele somente julgar, mas
nunca ser julgado. No capítulo “Cautela”, o narrador afirma que
[l]iteratura pede pureza d‟alma, do leitor também, naturalmente, e do
escritor, principalmente. Há, é certo, o leitor ardiloso, desses de duas,
quatro leituras do mesmo romance, querendo enredar o autor, tirando do
livro o que ele não pôs lá. Essas castigações do texto, a meu juízo,
devem ser deixadas é para crítico que, de ofício, tem mesmo que ser
chato, sacana, espírito de porco, advogado do Diabo. Não nós, você que
me lê e eu que escrevo pr‟ocê. Nós, não. (RIBEIRO, 1988, p.212).
Dessa forma, está mais uma vez limitando a ação do leitor comum e julgando
o leitor crítico como ardiloso e chato. Em outro momento da narrativa, pede ao leitor:
“Me leia confiante.” (Ibidem, p.69). Habilmente vai envolvendo o leitor numa espécie de
labirinto, onde os caminhos do leitor se entrecruzam entre afirmações e posteriores
negações de como agir diante da leitura de Migo.
O leitor que o narrador de Migo tanto evoca parece-nos ser o leitor ideal.
Segundo Iser (1996), o leitor ideal é aquele que deveria ter o mesmo código do autor,
deveria ser capaz de realizar na leitura todo o potencial de sentido do texto ficcional, até
mesmo esgotá-lo. Seria um leitor com acesso às mesmas intenções do autor, é quase
uma impossibilidade. Ageu demonstra querer dominar o leitor. Em alguns momentos,
parece desejar dialogar com o suposto leitor ideal, este seria o único a compreender
suas angústias, ânsias e ideais. O narrador deseja que o livro seja lido por muitas
pessoas, pois compara-se a Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, que são
63
grandes escritores e que tiveram reconhecimento em vida. Falando de Canuto, um de
seus amigos, no capítulo “Mexerico” afirma que
[o] que Canuto come mesmo, insaciável, é literatura: romance e poesia.
Devora! Com bom gosto, é certo, rejeitando o ruim, o reles, apegando-se
amoroso ao bom. Terá lido Drummond, mil vezes; o Rosa, quinhentas; a
mim, mais de cem. Sabe melhor que eu da minha obra inteira, em
detalhes miúdos. (RIBEIRO, 1988, p.26).
É esse livro que faço agora e que hei de lavrar e acurar e apurar como a
maravilha maior de que sou capaz. Maravilha maior não só minha, mas
de todos os escritores mineiros. Nesta altura eu penso no Rosa e me
encolho. Preciso é ser maior que ele. O maior dos escritores brasileiros.
E por que não do mundo inteiro? (Ibidem, p.369).
Ageu se compara a escritores de reconhecimento porque deseja alcançar a
grandiosidade deles, vender tantos livros como eles. Alguns trechos de obras desses e
de outros autores são citados durante a narrativa.
Muitos capítulos de Migo possuem, ao final, num jogo intertextual, uma
citação de versos, que se referem àquele capítulo de alguma forma, às vezes o
resumindo, outras vezes servindo de tema para o próximo capítulo. Esses versos são
de autores diversos, de nacionalidades diferentes, de outros tempos e contemporâneos
a Darcy Ribeiro.
A maior parte desses versos pertence a autores brasileiros como Carlos
Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Castro Alves, Vinícius de Moraes, Augusto de
Campos, Emílio Moura, Gerardo Mello Mourão, Manuel Bandeira, Maciel Monteiro, Raul
Bopp, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Mário Quintana entre outros. Há versos
de autores portugueses como Camões, Fernando Pessoa, Sá de Miranda, Paio Soares
de Taveirós; há muitos versos de César Vallejo, poeta peruano; do chileno Pablo
Neruda; de Alejandre Lora, um mexicano; de Bernard de Ventador, um poeta
americano; Emily Dickinson também americana; existem versos de Dante Alighieri; de
Mark Alexander Boyd, um poeta inglês. Há, inclusive, dois versículos bíblicos.
64
Percebemos que o autor Darcy Ribeiro transita entre a tradição europeia e a tradição
latina.
O autor de Migo demonstra conhecer as tradições europeia e latina trazendo
para seu texto versos de diferentes poetas. Esse conhecimento pode levar um escritor
a escrever não somente sobre o seu país e a sua contemporaneidade, mas
considerando toda a literatura europeia concomitantemente com a literatura de seu país
e de seu tempo. Há na narrativa de Migo uma tentativa de aproximação entre a tradição
europeia e a tradição latina, que aponta para um amadurecimento da escrita e também
para um compromisso em registrar uma geração literária contemporânea ao escritor.
2.2. O Colosso
A palavra “Colosso”, em Migo, é o nome de cinco capítulos que separam os
seis blocos horizontais de capítulos do “Sumário”, transcrito na página 60. Trata-se de
um “Sumário” incomum, porque os capítulos não são numerados nem possuem
indicação da página em que se encontram. Nesse “Sumário”, os nomes de 188
capítulos estão dispostos em quatro colunas e, através do título “Colosso”, surgem
outros cinco capítulos separando horizontalmente seis blocos de capítulos. Apenas o
primeiro bloco não é antecedido por um capítulo de nome “Colosso”. Se por um lado
separa os capítulos, por outro lado a palavra “Colosso” prefacia esses capítulos e pode
ser entendida como uma conexão entre eles. Tal conexão possibilita o narrador a
reforçar o enredo de Ageu com a localização espacial de Belo Horizonte, aproximar os
amigos intelectuais de Gê, descrever alguns momentos da história e da política dos
mineiros e, sobretudo, discutir a arquitetura da cidade.
O “Colosso” vai sendo apresentado no livro, aos poucos, despertando grande
curiosidade. Descrito como uma construção arredondada, o que mais chama atenção
no “Colosso” é o tamanho. Há variadas suposições dos amigos de Ageu a respeito do
que seja essa construção. Nenhum deles sabe o que é; Zeca pensa ser um cassino,
Stela deseja um museu, Elmano quer um abrigo geriátrico, Canuto sonha com uma
biblioteca, Guedes quer ali a instalação de um instituto histórico mineiro, Nora está
65
assustada: “Que é aquilo, Santo Deus? Enormidade maior não há. O senhor precisa ir
ver. É o Colosso de Rodes, só que arredondado, disforme, informe. (Ibidem, p.101).
Ageu comenta sobre o “Colosso”: “Eu vi e não vi: divisei. De longe é um pedregulho
enorme, redondo, informe ou disforme. De perto, me pareceu o cocoruto do Pão de
Açúcar.” (RIBEIRO, 1988, p.275).
No primeiro capítulo com o nome de “Colosso”, é anunciada a construção de
“alguma coisa” de tamanho exagerado, fazendo lembrar o impasse da inauguração da
Igreja de São Francisco na Pampulha, em Belo Horizonte. Uriel defendeu a construção
dizendo que “Quando JK inaugurou a Pampulha foi a mesma coisa. Uma celeuma.
Todo mundo perplexo com as obras se perguntando que igreja herege era aquela, com
a torre do lado de fora, invertida.” (RIBEIRO, 1988, p.101).
No segundo capítulo, questiona-se o desconhecimento da obra pelas
autoridades de Minas Gerais.
O certo é que ninguém sabe pra que se levanta Colosso tão colossal.
Será que o prefeito sabe? O governador, se não sabe é um banana.
Como é que as multi constroem aqui uma Coisa dessas que, com pouco
tempo mais se inaugura, sem darem nenhuma satisfação às autoridades
e ao público? Sem que prefeito e governador saibam de nada? É uma
desfaçatez. Uma vergonha. O gordo e o magro são uns palermas.
(RIBEIRO, 1988, p.187).
É realmente de se espantar a construção de um monumento em uma capital
como Belo Horizonte sem o conhecimento do governador do estado e do prefeito da
cidade, o narrador Ageu fica inconformado com esse desprezo pelo Estado de Minas,
“uma vergonha”. Na narrativa, o “Colosso” causa admiração e divide a opinião das
pessoas.
Há quem goste, há quem deteste. A esquerda é contra, porque gastouse ali cimento que daria para fazer casas para os favelados do Morro do
66
Cabrito. A direita é a favor, porque se trata de uma obra privada, de
caráter cultural e patriótico, financiada pelas empresas exportadoras de
minério. Sem ônus para o Estado, dizem orgulhosos. (RIBEIRO, 1988,
p.275).
O narrador é a representação de um intelectual mineiro, que está indignado
com o monumento colossal, tece comentários sobre os posicionamentos políticos da
esquerda e da direita sobre tal construção. Além disso, considera que essa construção
demonstra uma grandiosidade que não é natural a Minas Gerais. Chega a afirmar que
São Paulo comportaria tal magnitude.
No terceiro capítulo “Colosso”, inaugura-se o tal monumento, “pedregulho
enorme, redondo”. Os políticos de esquerda se manifestam contra a construção,
consideram um desrespeito à soberania mineira. O narrador afirma que “Seria a
primeira obra de arte de Belo Horizonte, depois da Pampulha.” (Ibidem, p.275). Na
inauguração, a multidão mineira invade o monumento, não há ninguém para explicar a
serventia da obra colossal. Segundo o narrador, o “Colosso” fica localizado no meio de
uma área florestal, no Bairro da Baleia, um possível bairro de Belo Horizonte.
No quarto capítulo “Colosso”, o Ministro da Cultura veio a Minas para tombar
o monumento. “O Ministro da Cultura esteve em Minas para tombar o Colosso. [...]
tombar o Colosso, Celso, para quê?” (RIBEIRO, 1988, p.359). O Ministro da Cultura
era, na realidade, Celso Furtado, durante o governo de José Sarney (1985-1990). O
narrador afirma que nem o prefeito nem o governador sabem bem o que o “Colosso” é;
imagina, sarcasticamente, como seria a mulher do governador perguntando sobre a
obra: “Newtinho, meu bem, que é aquele Trem? (Ibidem, p.359). O governador de
Minas Gerais nessa época era Newton Cardoso.
No quinto capítulo “Colosso”, revela-se o que é o tal monumento e há um
escândalo na cidade. Trata-se de uma construção colossal em forma de útero,
enfeiando a cidade, segundo Ageu.
Estalou o escândalo em Belo Horizonte. O povo parece que descobriu o
que é o Colosso, ou o Trem, como eles dizem. É pura pornografia.
67
Magno-pornô. Deboche. [...] Quem entra lá, atravessa, primeiro, uma via
aberta entre dois paredões imensos que vão escurecendo à medida que
se avança. Ao final, já anda às apalpadelas. Aí, dá com um tufo de
vergalhões de aço, pretos, grossos, retorcidos, tão grande e espesso
que uma pessoa passaria por aquilo como uma pulga pelos pentelhos.
Transposto o tufo, entra numa imensa boca e desemboca num
longuíssimo, larguíssimo túnel rosado, com estrias vermelhas, liso e
brilhante como se fosse feito de pele e de pérola. Mucosa rosa. Começa,
então, a ouvir uma música celestial, que, aos poucos, vai ficando solene
e, à medida que prossegue, começa a ficar rítmica e excitante. A certa
altura a música pára de estalo e surgem em toda potência, estrondando
roucas, as batidas do coração materno. Aí, então, o invasor, aterrado, se
encontra a si mesmo e berra de espanto seu grito primevo. Apavorado.
Despenca do espaço, até onde, não se sabe. Até a vida, decerto.
(RIBEIRO, 1988, p.403).
A descrição do “Colosso” possui um teor erótico e surpreendente na
narrativa, talvez intencionada a chocar o leitor. O “Colosso” é um monumento com o
interior em forma de genitália feminina, há uma representação da vulva até o útero. As
personagens ao entrarem no “Colosso”, sentem-se de tamanho mínimo e parecem
retornar ao útero materno. É como se retornassem pela vagina materna ao início da
própria vida, talvez ao grande momento da concepção.
Essa alegoria do “Colosso” nos remete ao quadro “A Origem do Mundo”, de
1866, de Gustave Courbet. É uma pintura que representa o corpo nu de uma mulher.
Nessa representação, a cabeça da mulher não aparece e o foco recai sobre as coxas
abertas e o sexo feminino. O quadro fora encomendado por um riquíssimo colecionador
de imagens eróticas. Depois, pertenceu a Jacques Lacan e atualmente se encontra no
Museu d‟Orsay, em Paris. (KORFMANN, 2007, p.47). Segundo Michael Korfmann
(2007), sobre a qualidade quase fotográfica das pinturas realistas de Gustave Courbet
parece-lhe que o pintor tentava expressar de forma bem completa o que tomava como
inspiração. (KORFMANN, 2007, p.47).
A mesma temática do quadro de Coubert, “A origem do mundo” aparece no
filme Hable con Ella, “Fale com ela” (2002), com direção e roteiro de Pedro Almodóvar.
Nesse filme, há um curta-metragem também de Almodóvar cujo nome é Amante
Minguante, “Amante Encolhido”. Nesse pequeno filme que ocorre dentro do filme,
68
temos uma narrativa em que há um homem e sua namorada. Ela está desenvolvendo
uma fórmula para acabar com a obesidade. O homem ingere a fórmula recém-criada
pela amada e começa a encolher até chegar a poucos centímetros de altura. Por estar
diminuto, o amante visita o corpo da namorada enquanto ela dorme. Eis que temos uma
cena que nos remete ao quadro “A origem do mundo”: o homem, diante da vagina de
proporção gigantesca para ele, resolve entrar nela e permanece para sempre dentro do
corpo feminino. A fotografia do filme explora os detalhes da entrada vaginal com o púbis
coberto de pelos.
Se estabelecermos uma analogia do “Colosso” ao quadro “A Origem do
Mundo” e à cena do filme “Fale com ela”, teremos em comum talvez a crueza da
representação da vagina de forma tão contundente. É possível que o “Colosso”, que é
uma parte de uma obra literária, tenha sido inspirado pelo quadro de Courbet. As
diferentes artes (pintura, cinema e literatura) se aproximam, em contextos históricos
também diferentes, por tomarem como tema a genitália feminina. O “Colosso” é para
nós, além de uma reverberação artística, uma solução encontrada pelo narrador para
metaforizar a criação literária, o nascimento da narrativa em Migo.
2.3. Eu, migo, comigo
Ageu Rigueira é alter ego de Darcy Ribeiro, segundo Haydée Ribeiro Coelho
(1997). “Darcy Ribeiro apresenta, na ficção, o mundo de suas leituras e de sua
formação [...] trata da vida do escritor mineiro Ageu de Sá Rigueira.” (RIBEIRO
COELHO, 1997, p.19).
O personagem central do livro é Ageu que se comporta como um eu-Darcy
se, em sua trajetória, ele não tivesse ido para São Paulo, para o Rio de Janeiro e para
o mundo, ou melhor, se tivesse estacionado a sua vida de intelectual
em
Belo
Horizonte. “[...] acho que Darcy me assume tão bem porque espelho a vida que ele
gostaria de ter vivido. Amo os amores que ele mais queria amar. Assim é ele. Foi-se de
Minas há tanto tempo, perambular pelo mundo, mas não se consola.” (RIBEIRO, 1988
p.363). Em outros momentos, Ageu incorpora a representação de intelectual mineiro.
69
“Ageu [...] constitui uma projeção de um eu que poderia ser uma pessoa que não fui. Eu
conto antes a história de Montes Claros e tento mostrar um intelectual provinciano em
Minas Gerais [...]” (RIBEIRO COELHO, 1997, p.48). Configura-se, assim, na narrativa
de Migo, uma mistura de “eus”, que são projeções de Dargeu, Gêdar, Ageu e Darcy.
Sou sempre eu, igual a mim, mas tão diferente do que seria se tivesse
ficado lá que, de fato, sou três. Sou o eu que levo em mim, o que teria
sido se tivesse vivido minha vida no Mangueiral, com Nininha, indo e
vindo ao Buritizal. Sou esse eu que sou, agora, feito aqui em Belo
Horizonte. Sou o que devia ter sido, tão aspirado, se me tivesse
mandado daqui. (RIBEIRO, 1988, p.259). Grifos nossos.
Esses três “eus” são uma junção de Ageu Rigueira (personagem) e Darcy
Ribeiro (autor), porque o primeiro seria o “eu” que permaneceria na cidade natal e
assumiria as terras da família. O segundo “eu” é Ageu que se fez em Belo Horizonte e
permaneceu lá. O terceiro “eu” é o que deveria ter saído de sua terra natal, passado por
Belo Horizonte e encontrado o mundo, parece-nos uma referência direta a Darcy
Ribeiro.
Gê é o apelido de Ageu, cresceu na casa da avó Dona Coló com Nininha,
sua irmã mais velha e algumas criadas. Tem muitas lembranças da infância. Conviveu
com a família somente no Mangueiral. O nome Gê aparece nos momentos mais
particulares de Ageu, momentos em que Ageu se refere à família e ao se relacionar
com os amigos. Nininha, a irmã de Ageu, sempre o chama de Gê: “Fiz testamento, Gê.
Lego tudo pr‟ocê. A casa e o Buritizal, Gê.” (RIBEIRO, 1988, p.266). Os amigos
também o chamam pelo apelido como, por exemplo, quando Guedes tenta persuadi-lo
a se integrar à Academia Mineira de Letras. “Ora, ora, seu Gê! Se até o Rosa entrou,
isto não basta?” (Ibidem, p.311).
Num jogo identitário, o narrador afirma uma divisão de “eus”. Se ele é o
personagem Ageu Rigueira, esse é também Gê, um outro e mesmo “eu” que também
pode se desdobrar em Dargeu, junção das iniciais de Darcy e final do nome Ageu. Ou
70
mesmo desdobrar-se em Gêdar, numa disposição diferente das iniciais dos nomes do
personagem e do autor do livro. Numa projeção especular, autor e narradorpersonagem existem a partir de uma criação literária e da participação do leitor.
Gê e eu. Eu e Gê. Dargeu. Gêdar. Eu sou eu? Ou eu sou ele? Ele é eu?
Somos nós dois um só? Somos! Nisto está o risco. Há horas em que me
sinto já tão atracado nele, que nem sou eu. O que me salva é o desejo
de fugir dele. Voltar a mim. Ele, o que quer mesmo é que eu fique
pregado aí nele, para todo o sempre amém. Gê só existe como sombra
e criatura minha. Mas feito, perfeito, como está e instalado aí dentro de
você que me lê, ele é ele mesmo. Sempre acho que, se me ausento, ele
é nada. Mas começo a duvidar. Eu sem ele também sou nada pra você.
Existo é para fazê-lo. Vivo é nele. (RIBEIRO, 1988, p.303).
O narrador deixa claro para o leitor que Ageu Rigueira é um personagem,
autônomo enquanto tal, mas é também uma criação e projeção de Darcy Ribeiro. “Não
se confunda, leitor, esse Gê ou Ageu Rigueira, não tem nada a ver comigo. Assino este
livro é como autor. Ele terá mais, talvez, é com você.” (Ibidem, p.98).
O termo francês, correspondente ao pronome “eu” da língua portuguesa, é
je, com pronúncia fechada, com sonoridade semelhante a Gê. Logo, poderíamos dizer
que Gê é outra forma de se dizer “eu”. Sendo o Gê parte de Ageu, podemos pensar na
palavra francesa jeu = jogo. Verificamos durante toda a narrativa um jogo de
identidades entre Ageu Rigueira, Dargeu, Gê e Darcy Ribeiro. Conforme Lejeune
(2008), temos as seguintes reflexões:
O inegável aspecto normativo do “pacto” se deve essencialmente à
apresentação categórica do problema da identidade. [...] Se, em 1980,
escolhi o título Je est un autre [Eu é um outro] para a coletânea de
artigos escritos depois do Pacto, foi justamente para reintroduzir a idéia
de jeu [jogo] que está fatalmente ligada à de identidade. (LEJEUNE,
2008, p.56).
71
Lejeune (2008), em seu livro O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet,
demonstra haver um elo entre o pacto autobiográfico e a questão da identidade.
Considera de grande importância o estabelecimento da identidade para o gênero
autobiográfico, por esse motivo escolheu o nome Je est um autre (Eu é um outro) para
intitular a coletânea de artigos, que escreveu em 1980, depois do “pacto
autobiográfico”, com intuito de apontar a ligação identitária do jogo entre o “eu e o
outro”. Ageu é um “eu” que joga. A palavra “eu” também está dentro do nome Ageu. No
capítulo “Escritura”, o narrador afirma: “Esse Gê, você já cansou de saber, sou eu
mesmo. Ele sou aquele eu que houvera sido, se ficasse em Minas”. (RIBEIRO, 1988, p.
367). Aparece nesse capítulo o personagem Darcy Ribeiro.
A palavra “escritura” significa “documento autêntico de um contrato”
conforme o dicionário Aurélio (FERREIRA, 1999, p.801). Pensando nesse significado e
analisando o capítulo “Escritura”, percebemos que se trata de mais um contrato
estabelecido dentro do livro Migo. O narrador inicia o capítulo assumindo a natureza
contratual do texto, selada pelo pacto entre ele e o leitor:
[r]ecuso o direito autoral divino de tudo ver e tudo saber. Entrar no íntimo
de meus personagens e fazê-los falar de suas intimidades mais
recônditas, é dar uma de Deus onisciente, passarinhando acima deles,
sabetudando, para dizer a você o que é, o já sido e o que ainda há de
ser. (Ibidem, p.367).
Um contrato requer pelo menos duas partes interessadas em um único
objetivo e dispostas a fazer certas concessões mútuas. No caso, o narrador, sob a
“pele” de Darcy Ribeiro reconhece que existe uma hierarquização entre esses dois
sujeitos, no entanto, aparentemente recusa o papel de criador demiurgo.
O Darcy-narrador relata, em certo momento da narrativa, estar em uma
conferência do PMDB, em Maryland, estado do nordeste dos Estados Unidos e
lembrar-se de Gê, como se ele fosse gostar de estar ali. “Qual! Gê, de palavras feito,
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não vê nada, nem tem olhos de ver. Quem vê sou eu, pra ele e pr‟ocê. Sou eu que,
aqui, olho com os dois olhos: deslumbrado.” (RIBEIRO, 1988, p.348).
Segundo Hall (2006), analisando “como o conceito de identidade mudou: do
conceito ligado ao sujeito do Iluminismo para o conceito sociológico e, depois, para o do
sujeito
pós-moderno” (HALL,
2006,
p.21),
afirma
que
as identidades eram
uniformizadas e que passaram a deslocadas. Houve um descentramento da identidade
do sujeito pós-moderno. A identidade desse sujeito pós-moderno é forjada através de
“processos inconscientes, e não algo inato” (Op. cit., p.38). Pensava-se que a
identidade era fixa e estável, mudou-se essa concepção, uma vez que a identidade
estará sempre em processo, sendo reformulada em contínuo movimento de vir a ser.
Para Hall (2006), a questão da identidade
surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós
como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é preenchida a partir
de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser
vistos por outros. [...] nós continuamos buscando a identidade e
construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus
divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer
fantasiado da plenitude. (Op. cit., p.39).
Portanto, a relação do “eu” com os outros é fator essencial na formação da
identidade e a busca de uma unidade plena dessa identidade pode ser configurada em
uma escrita biográfica. Podemos afirmar que em Migo há a representação da busca de
identidade de que nos fala Hall (2006) e a consciência de que a identidade plena sabese de antemão impossível. Em Migo, temos um autor que, através do personagemnarrador, apresenta eus divididos, sem inteireza, projeções de um eu para outros. Ageu
Rigueira são vários “eus” divididos em busca de uma identidade: Ageu, Dargeu, Gê,
Gêdar, Darcy Ribeiro, Stela e Elmano, todos “eus” a partir dos nomes que os outros lhe
dão ou que o projetam.
Elmano é outra identidade de Ageu. No capítulo “Necro”, Ageu está
devaneando sobre sua morte e acredita que um de seus amigos vai escrever seu
73
necrológio para o Jornal de Minas ou para o Estado de Minas. Pergunta-se o que dirão
dele, um possível indício de preocupação com a imagem pessoal. Afirma que não vai
se importar, uma vez que já estará morto mesmo. Logo após, deixa escapar que
continuará através de seus livros e personagens. Imagina que será julgado
postumamente pelos seus personagens, pelos seus vários “eus”. Menciona Elmano e
diz que gostaria de ser como ele, pois esse não dá importância ao que dizem dele.
“Gostaria de ser como o Elmano que não dá bola para julgamento alheio. Será que não
dá?” (RIBEIRO, 1988, p.76).
Acreditamos que Elmano constitui mais um alter ego de Darcy Ribeiro
porque há, na narrativa, vários indícios dessa projeção, como na passagem em que
Elmano considera que Ageu deu certo na vida, mas não ele. Elmano admira Ageu,
deixando sempre uma pista de que queria ser como ele. “Pobre de mim, nunca fiz
literatura como Ageu. Sempre me dei à ciência, ao ensaio.” (RIBEIRO, 1988, p.202).
Ageu o admira e se projeta nele. “Elmano é o retrato de minha ambiguidade,
reconheço. Talvez seja, também, quem eu quisera ser.” (Ibidem, p.339).
No capítulo negritado que leva o seu nome, “Elmano”, esse começa a falar
de si, logo se compara a Gê e reconhece ter inveja do amigo. O nome Elmano,
sonoramente, remete-nos a hermano, que em espanhol significa irmão. Dessa forma,
podemos afirmar que também Elmano é mais um desdobramento de Darcy Ribeiro, de
Ageu Rigueira, de Dargeu, de Gêdar.
Estou sempre implicando com a mistura contraditória de vaidades e de
inseguranças que é o caráter de Elmano. Insegurança esquisita,
inesperada, numa pessoa vaidosa, vivida, bem-sucedida, que podia, até
devia, andar contente de si. Mas não, é todo um carente. Ele e eu. [...]
Em mim, acho até simpática esta carência que, injusto reclamo no
Elmano. Ela me relaciona de forma cordial com os outros, pedindo
julgamento amável. (Ibidem, p.167).
Elmano admite que entre ele e Gê existem muitas afinidades, representa o
outro Gê que necessita de elogios e mimos. Gê desabafa que “O balanço de Elmano,
74
tão sombrio, poderia até me inspirar a fazer eu mesmo, o mesmo, no mesmo tom. Teria
até minhas alegações negativas a fazer enquanto escritor. Ai de mim.” (RIBEIRO, 1988,
p.401). Ageu, o intelectual que não saiu de Minas Gerais, lamenta estar fixado em Belo
Horizonte e não ter ido para outras cidades e ao comentar que “Elmano se passeia
contente pelo mundo afora, como ideólogo, pensador e até mesmo, salvador
vocacional. Um dia despertará, espera, a admiração geral”. (Ibidem, p.196). Demonstra
uma vez mais identificar-se com Elmano.
Stela é uma personagem que se destaca no livro, está ao lado de Ageu
durante muitos anos, o narrador afirma que foram namorados, amantes, quase se
casaram e mantiveram uma estreita ligação de amizade. No capítulo “Escritura”, Ageu
revela que “Stela também sou eu, em mulher. Feita para ser o contraponto, o côncavo
do convexo de Gê. Pena é que, como você viu, ela se desembestou para ser o que
bem quis, des-ser.” (RIBEIRO, 1988, p.367). Em outra passagem: “Meu vínculo com
Stela, o dela comigo, é fundo. [...] Nos pertencemos, de fato, um ao outro.” (Ibidem,
p.141).
Portanto, podemos concluir que os personagens Gê, Dargeu, Elmano e Stela
são desdobramentos de Ageu, que é alter ego de Darcy Ribeiro. Por um lado, Ageu se
divide em vários “eus”, que vão se reunir na representação de Darcy Ribeiro.
2.4. Migo: do título à obra
Fica evidente que o título da obra é uma redução do pronome comigo que
remete para companhia, comigo significa “com + (antigo) migo, provavelmente do lat.
vulg. cumecum”, (HOUAISS, 2009). Entretanto, quando se opta apenas por Migo,
reduz-se o pronome e reforça-se a intimidade, a interiorização, a solidão, a
individualidade e talvez aponte um olhar do “eu” para si mesmo.
Sobre a titulação de livros, Compagnon (1996) informa que se trata de uma
criação recente, século XVI, e que o título funciona, abaixo do nome do autor, como um
mecanismo de entrada em um livro. Acrescenta que o título de um livro possui uma
ambivalência, pois ele “denota e tem um sentido ─ corresponde às duas ordens de
75
questões [...] uma que concerne à técnica de sua reprodução, outra à lógica de sua
produção.” (COMPAGNON, 1996, p.107). Essa ambivalência composta pela denotação,
que corresponde ao significado do título, e pelo sentido, que justifica a razão da escolha
desse título, é uma referência ao assunto do livro.
O título Migo estabelece referência com a obra. É um título que suscita
curiosidade, pois reduzido em si mesmo instiga o leitor e não antecipa a narrativa,
embora na contracapa apareça a informação de que se trata de um romance. O título
Migo parece denotar um olhar de um “eu” para si mesmo e parece ter um sentido de
subjetividade.
No primeiro capítulo do livro Migo, Ageu Rigueira, o narrador esclarece que
[s]ó sei mesmo desse meu livro ─ diário? romance? biografia? ─ é seu
nome provável: Migo. Não sei bem por quê. Será talvez para expressar
minha identidade mais íntima: a-migo, co-migo. Lembra também inimigo.
Que mais? Sei lá! Migo seja, isso me basta. Suspeito também que Migo
seja eu. Sou eu. (Ibidem, p.13).
Dessa forma, o título abre para o jogo que a narrativa instaura quando coloca
em cena vários “eus” que se confluem, em Ageu, Gê, Dargeu, Gêdar, Elmano, Darcy.
No capítulo Palavras, Ageu Rigueira, o narrador, tenta definir Migo.
Eu, você, nós... palavras ! Tudo é ambiguidade pronominal. Qualquer
deles se aplica a qualquer um. Só migo sou eu mesmo metido em mim,
intimamente comigo, como meu próprio ser, indivisível. O seu eu, se
você é, haverá de ser um migo, que nem o meu, fazendo de você uma
pessoa única que persiste, insubornável na sua identidade essencial, até
que morra, que nem eu. Mas que se seja com mais coragem que eu.
Peque ou santeie, mas se gaste, pelo amor de Deus. (RIBEIRO, 1988,
p.127).
76
O narrador quer mostrar que Migo é ele ensimesmado de si. Projeta
habilmente jogos de palavras utilizando muito à vontade os pronomes eu, mim, migo,
comigo. “Você e eu, eu e você, somos, cada um de nós, eu próprio, um ser em mim:
migo. Inalcançável para qualquer outro”. (Ibidem, 1988, p.134). Em outro trecho, temos:
“Cada qual tem seu migo íntimo lá consigo. Isto é migo. Meu de mim, comigo: migo.
Tão eu e meu como meu umbigo.” (Ibidem, 1988, p.251).
No Dicionário Latino de Ernesto Faria (1992, p.334), encontramos o verbete
mecum = cum + me traduzido para o português como o pronome “comigo”. Essa
constatação nos levou à Gramática Histórica, de Ismael de Lima Coutinho (1970) que
assim descreve o termo mecum.
mecum (ablativo) > mego (arcaico), migo. Resultou a forma mecum do
ablativo me + cum. Leite de Vasconcelos supõe que em migo houve
influência de mi. J.J. Nunes diz que, no latim vulgar, já ocorria micum. O
esquecimento posterior do final -go de migo era a evolução natural da
preposição latina cum foi causa de que o povo reforçasse aquele
composto com a mesma preposição, de que resultou a forma atual
pleonástica comigo. A desnasalação da primeira sílaba de comigo
explica-se por absorção do -m- de com pela nasal seguinte.
(COUTINHO, 1970, p.253).
Dessa forma, verificamos que migo é a forma latina de comigo, a escolha do
título Migo sugere a proposta do “eu” como objeto autobiográfico. Trata-se de um “eu
duplo”, o “eu-ficcional” falando de um outro “eu” ou de si mesmo. “Migo” pode ser lido
como “minha vida”, “meu eu”, “eu” apenas, “eu comigo mesmo”, “eu em mim”, ou seja,
parece-nos que esse título aponta para a subjetividade de Ageu e de Darcy Ribeiro,
aqui como personagem em Migo, o Darcy Ribeiro ficcionalizado.
Encontramos, na narrativa, várias tentativas de definição de Migo. Todas
essas definições são cercadas de formas pronominais e de figuras de linguagem, como
metáforas dentre outras. No capítulo “Comigo”, por exemplo, Ageu imagina uma
possível relação amorosa com Nora, utiliza migo como metáfora da conjunção carnal.
77
“Corpo a corpo, atracados. Meu corpo, o corpo de Nora: um corpo só. Migo dela no
meu migo. Comigo. Umbigo a umbigo. Eu e Nora, Nora e eu. Eus. Sexo no sexo,
atrelados. Eu em Nora, Nora ni mim.” (RIBEIRO, 1988, p.387).
Ageu confessa que Migo é a sua essência.
Este livro, essência de mim, é meu migo, arrancado da solidão de meu
eu: É migo, comigo, para entrar em você; para ser, aí no seu íntimo,
contigo, consigo. Tudo aqui são circunlóquios, metáforas, paráfrases.
Sou eu atrás de mim, me abortando pelos lados, voando por cima,
cavando por baixo, nessa busca do desconhecido de mim, do meu migo,
dizível e indizível. (Ibidem, p.213).
No capítulo “Vício”, depois de falar dos seus três primeiros romances, Maíra,
O Mulo e Utopia Selvagem, o eu-Darcy tece reflexões sobre o livro Migo.
Agora, o desafio é maior. Aqui encarno minha própria carne, a que podia
ter sido, até devia. Mas não fui, aterrado que fiquei com a sina proposta
de reviver a vida dos meus. O que busco é aquele eu que eu teria sido,
é meu sentimento mineiro do mundo que eu teria tido, para, aqui, curti-lo
de mentira, como se fosse meu mesmo no mais intrínseco de mim.
(Ibidem, p.335).
Migo é, portanto, o desconhecido de si, a busca de si nas memórias que
empreende através da escrita. Segundo Michael Pollak (1989), “através do trabalho de
reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações
com os outros.” (POLLAK, 1989, p.13). No livro Migo, o narrador tenta construir a
imagem de um intelectual mineiro que permaneceu em Minas Gerais. O seu lugar social
é o de escritor, de intelectual e, mesmo assim, a sua identidade não se mostra bem
delineada, uma vez que o narrador se une e se confunde com seus personagens. Ageu
de Sá Rigueira relata a história de sua vida. De acordo com Pollak, quando contamos a
história de nossa vida, buscamos manter uma coerência para relatar os fatos mais
importantes e dar uma continuidade, geralmente, através de uma ordenação
78
cronológica. Contar a própria vida sugere uma necessidade de reconstrução da
identidade. Em Migo, não há linearidade dos fatos, pois o enredo é entrecortado por
alguns capítulos metaficcionais, que descrevem o processo da escrita de romances; por
outros capítulos que teorizam sobre memória e outros que discorrem sobre Minas
Gerais. O narrador não tem compromisso com a fidelidade aos fatos nem mesmo com
as marcações temporais, porque se trata de uma autobiografia inventada, uma obra
que tem aspectos ficcionais e não ficcionais, em que o narrador estabelece vários jogos
identitários com o leitor. Porém, fica claro que a memória é um elo entre os fatos
passados e o presente da narrativa com a finalidade de reconstruir a identidade do
intelectual mineiro.
Para reforçar a tentativa de definição do “migo”, há ainda um capítulo cujo
título é o mesmo do livro “Migo”. Nesse afirma-se: “Migo é isto aí. E este sentimento
contente de mim mesmo. E este sentido amor por mim. É a vontade de ser amado”.
(Ibidem, p.349). O desejo de ser amado expresso pela escrita da obra, pela exposição
desse eu-vários que se expõe ao leitor e a esse chama para compartilhar a busca de
compreensão de si próprio num exercício autobiográfico de um eu-Darcy Ribeiro, de um
eu-Ageu Rigueira narrador e dos outros “eus” que se apresentam e se encenam no jogo
narrativo.
Como se vê, em Migo, ocorre uma rememoração de Darcy Ribeiro através de
um “eu-ficcional” que tenta representar o que ele teria sido se não tivesse saído de
Minas Gerais para se lançar no mundo. No capítulo “Andorinhas”, por exemplo, há essa
revelação do que ocorreria em Migo, uma autobiografia intelectual de Darcy Ribeiro,
quando explica que
[r]omances são espelhos de palavras refletindo mundos não havidos,
mas que bem podiam ─ até deviam ─ ter sido. Minhas criaturas de papel
que existem só dentro dos romances meus, existem com veemência
total. Esse poder de enredar conferindo existência a personagens,
verdade a acontecimentos, é o encanto mágico da literatura. (RIBEIRO,
1988, p.135).
79
Essa passagem constitui-se uma definição de romance como reflexo de
mundos imaginários. Ao se referir “a mundos não havidos, mas que bem que podiam”,
o narrador faz alusão ao propósito principal de Migo, que é narrar a vida de Darcy
Ribeiro se ele tivesse permanecido em Minas Gerais, por isso acreditamos que Migo
pode ser lido como uma autobiografia intelectual de Darcy Ribeiro. Quanto à definição
de romance, estende-se à existência ficcional dos personagens e confere um caráter de
“verdade” aos fatos da narrativa. Essa “verdade” dos acontecimentos nos remete à
“verdade poética”, conceito desenvolvido por Silviano Santiago, em seu artigo
“Meditação sobre o ofício de criar”. Nesse artigo, Santiago tece reflexões sobre a
ficcionalização no texto literário: “A verdade não está explícita numa narrativa ficcional,
está sempre implícita, recoberta pela capa da mentira, da ficção. No entanto, é a
mentira, ou a ficção, que narra poeticamente a verdade ao leitor.” (SANTIAGO, 2008,
p.177).
80
CAPÍTULO III – A ESCRITA MEMORIALÍSTICA EM MIGO
Passado só serve pra isso, pra ser lembrado. É
vida que já se foi, querendo existir como sobejo.
Gravetos de lenha queimando um foguinho sem
calor. (Migo, p.313).
Em todos os dias de nossas vidas, lembramo-nos de pessoas, fatos, lugares,
objetos. Essas lembranças vêm, às vezes, involuntariamente e nos enredam sem que
nos demos conta disso. Em outros momentos, esforçamo-nos para recordar detalhes
de nossas vidas, momentos de um passado remoto ou de um passado recente.
Esquecemos certos fatos rapidamente; outros, porém, jamais esqueceremos. A esse
conjunto de ações dá-se o nome de memória.
Segundo Ecléa Bosi (2003),
[a] memória opera com grande liberdade escolhendo acontecimentos no
espaço e no tempo, não arbitrariamente, mas porque se relacionam
através de índices comuns. São configurações mais intensas quando
sobre elas incide o brilho de um significado coletivo. (BOSI, 2003, p.31).
Com toda essa liberdade de escolha, que a princípio nos parece
casualidade, vamos talvez descobrir mais tarde os motivos de tal escolha. E o que nos
parece apenas uma ação individual se baseia em experiências coletivas, a memória é
sempre coletiva.
Evocação do passado, eis a definição mais simples e direta do que seja a
memória. É, pois, a capacidade humana em apreender e guardar na lembrança o
tempo vivido, protegendo-o do esquecimento total. A lembrança mantém uma
representação do que fomos e não haverá retorno dessa condição.
Em Migo, ocorre uma representação de uma história de vida narrada por um
personagem que tem o perfil de alter ego do escritor desse livro, Darcy Ribeiro,
81
acreditamos, por esse motivo, que pode ser lido como uma escrita autobiográfica. A
memória, em Migo, é um elo que vai promovendo a união entre as recordações e o
presente narrativo.
Para William Gass (1994), a autobiografia se inicia com “a memória e a
consequente divisão do eu em aquele-que-foi e aquele-que-é.” (GASS apud JACOBY,
1997, p.254). Em Migo, a possível autobiografia se baseia na memória e na divisão do
“eu” em aquele-que-é, no presente, que deseja se ver como aquele-que-seria. Darcy
Ribeiro, intelectual mineiro projetou-se em São Paulo, Rio de Janeiro e, até mesmo, em
outros países, deseja compor através da imaginação a vida que teria se tivesse
permanecido em Minas Gerais. Acreditamos tratar-se de uma escrita memorialística,
autobiográfica, inserida no gênero confessional.
O gênero confessional é uma recriação, em que a memória se combina com
a imaginação. É uma “literatura centrada no sujeito, pois o sujeito é objeto de seu
próprio discurso”. (REMÉDIOS, 1997, p.9). Pode ter diferentes formatos como a
autobiografia, a carta, o poema, o diário dentre outros. Embora haja semelhanças entre
as autobiografias, os romances autobiográficos e os diários, pois são formas
autobiográficas centradas na figura de um narrador em primeira pessoa que se mostra,
há um espaço mais ou menos definido para cada uma dessas possibilidades de escrita
memorialística. Pode-se considerar que o início do gênero confessional remonta
séculos passados, a sua produção se firma no início do século XVIII, com a noção da
existência do “indivíduo”, com o estabelecimento da sociedade burguesa. No entanto,
no século XX, diários, relatos pessoais, confissões “tornaram-se produtos de consumo
corrente”. (Op. cit., p.9).
Quando se fala em autobiografia, é possível que o leitor espere encontrar
confidências,
confissões,
culpas
e
arrependimentos.
Grandezas
e
misérias
compartilhadas com o leitor. Não é um processo simples assim, William Gass propõe a
seguinte pergunta: “que tipo de personagem posso esperar representar perante a
consciência de uma outra pessoa ou perante o mais impiedoso dos palcos públicos ─ a
página impressa?” (GASS apud
JACOBY, 1997, p.254). Para Gass, “a página
82
impressa” é o público mais cruel, talvez por ser um registro que pode ser lido de
diversas formas, em diferentes épocas e por diversos tipos de leitor.
Segundo Compagnon (2010), durante algumas décadas, os estudos literários
destinaram uma posição muito variável ao leitor. Por um lado, havia abordagens que o
ignoravam totalmente; por outro lado, as abordagens que o valorizavam e, até mesmo,
consideravam-no em primeiro plano. Somente a partir da segunda metade do século
XX, algumas teorias literárias problematizaram a função e o papel do leitor, enfocando a
própria ação requerida no ato da leitura. A principal delas é a estética da recepção.
(COMPAGNON, 2010, p.137).
De acordo com Zilberman (1989), a estréia da estética da recepção no
âmbito da teoria da literatura se deve a uma conferência proferida por Hans Robert
Jauss na Universidade de Constança em 1967. O título inicial dessa conferência era “O
que é e com que fim se estuda a história da literatura” e posteriormente teve o seguinte
título: “A história da literatura como provocação da ciência literária”. Parece ter havido,
por parte de Jauss, uma intenção de polemizar sobre os pontos de vista em vigor na
história da literatura, investindo-se contra o seu ensino e tomando uma posição radical
que confere ao texto a marca da ruptura de uma nova era. Além disso Jauss propôs
uma reformulação dos estudos da história da literatura (ZILBERMAN, 1989, p.29-30).
Zilberman (1989) afirma que Jauss organizou em sete teses o seu projeto de
reformulação da história da literatura. Em uma dessas teses, o teórico atribui à
recepção de uma obra e ao efeito que ela exerce na sociedade ao conhecimento
prévio, por parte os leitores, do gênero dessa determinada obra. Ou seja, uma obra de
um gênero mais conhecido é mais facilmente compreendida. A sétima tese, além de
relacionar a literatura com a sociedade, tem um propósito à medida que “Jauss enfatiza
a função que exerce, de cunho formador: a literatura pré-forma a compreensão de
mundo do leitor, repercutindo, então em seu comportamento social.” (Ibidem, p.38). A
estética da recepção foi um amparo teórico importante para esta pesquisa. Em Migo, o
narrador faz constantes interpelações ao leitor sobre o lugar que esse ocupa no mundo.
83
Parece-nos que o maior valor da estética da recepção encontra-se em uma
nova concepção metodológica para o conhecimento da literatura. E, sobretudo, rever a
posição do leitor como um dos principais elos do processo literário. (Op. cit., p.32).
3.1. A autobiografia
A autobiografia é um gênero literário em que uma pessoa narra a história da
sua própria existência. É um meio de registrar a sua presença no mundo. Ao narrar a
sua própria vida, o autobiógrafo retoma fatos passados e faz uma leitura de suas
experiências de vida. Acrescenta ao “eu” vivido um “eu” ficcional.
Philippe Lejeune, em seu livro O pacto autobiográfico: de Rousseau à
internet (2008) define autobiografia como “narrativa retrospectiva em prosa que uma
pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em
particular a história de sua personalidade”. (LEJEUNE, 2008, p.14). A partir dessa
definição, Lejeune elabora uma definição da autobiografia em quatro categorias
diferenciadas, que seriam constitutivas de toda autobiografia. A primeira categoria
estabelece a forma da linguagem, preferencialmente, como uma narrativa em prosa; em
segundo lugar, o assunto dessa narrativa deve ser uma vida individual ou a história de
uma personalidade; em terceiro lugar, o narrador deve identificar-se com o autor, cujo
nome remete a um personagem real; em quarto lugar, é necessário haver uma relação
de identidade entre narrador e personagem principal e adotar uma perspectiva de
retrospecção da narrativa. Para o pensador francês, é imprescindível um pacto que
pressuponha identidade de nome entre o autor, o narrador e a pessoa de quem se fala,
trata-se do “pacto autobiográfico”. Há várias formas de se estabelecer esse “pacto
autobiográfico”: através de um roteiro de leitura na parte inicial de um livro, pela ligação
entre autor e narrador durante a narrativa, às vezes por meio do título de um livro.
Enfim, devem coincidir autor = narrador = personagem principal. (LEJEUNE, 2008,
p.14-15).
Em 1988, Darcy Ribeiro publicou Migo, uma obra que pode ser considerada
autobiográfica. Em primeira pessoa, Ageu Rigueira se apresenta como um intelectual
84
sexagenário que vive em Belo Horizonte. Em algumas partes do livro, o narrador de
Migo deixa claro que Darcy Ribeiro e Ageu Rigueira sejam a mesma pessoa.
[...] contei como minhas, estórias minhas e de Darcy, em suas andanças
latino-americanas. Histórias de terremotos. O que vi, de verdade, no
México, nem vi. Era de noite e eu pensava que fosse alucinação do
pileque que tinha tomado. Acordei com a cama do outro lado do quarto.
Tremendíssimo foi o do Chile, que contei como se fosse meu e quase
matou Darcy de medo. Principalmente, ao ouvir a coisa horrível que é a
terra trovoando, cruscindo, diz ele, estrugindo. A vidraçaria do quarto
balançava como se fosse cortina. (RIBEIRO, 1988, p.216).
Esse trecho e outros semelhantes a ele, na narrativa, nos levam a pensar em
um texto autobiográfico. O autor do livro é Darcy Ribeiro, o narrador e também
personagem principal é Ageu Rigueira. Sobre essa obra, Ribeiro afirma que escreve a
vida que poderia ter vivido se não tivesse saído das Minas Gerais.
O autor circula por alguns gêneros literários e chega até mesmo a questionar
o que seja a sua obra. Migo é autobiografia, é romance, é romance-autobiográfico, é
diário, é autoficção? O que podemos afirmar é que Migo traz elementos autobiográficos,
permitindo assim uma predominância principalmente da (auto)biografia e da autoficção.
No início do livro, há um “Roteiro” em que o narrador procura conduzir o
leitor, propondo um contrato, apresentando uma forma de leitura, de como se deve
realizar a leitura. É um pacto de leitura, que tenta manipular o leitor quanto ao modo de
ler. No entanto, sabemos que o leitor está livre para ler, o leitor pode desprezar as
sugestões do narrador. (LEJEUNE, 2008, p.57).
Compagnon (2010) afirma que a estética da recepção é uma abordagem
teórica que revalorizou a leitura e o efeito produzido no leitor. (Op. cit., p.145). Para
“Roman Ingarden, fundador da estética fenomenológica” (Op. cit., p.146), e
posteriormente para Wolfgang Iser, o texto literário é “caracterizado por sua
incompletude e a literatura se realiza na leitura. [...] O objeto literário autêntico é a
própria interação do texto com o leitor”. Conforme Ingarden e Iser, o objeto literário é
85
“um esquema virtual” formado de lacunas, de indeterminações que são preenchidas
pela leitura. (Op. cit., p.147).
A noção de “leitor implícito” surgiu baseada na noção de “autor implícito”,
introduzida pelo crítico americano Wayne Booth em The Rhetoric of Fiction [A Retórica
da Ficção]. Wayne Booth “defendia a tese segundo a qual um autor nunca se retirava
totalmente de sua obra, mas deixava nela sempre um substituto que a controlava em
sua ausência: o „autor implícito‟”. (Op. cit., p.148). Em Migo, notamos a presença do
leitor, de forma bem explícita, “Vamos, minha cara, meu caro, vamos logo. Sente, se
abanque, porque ler deitado faz mal à vista, acomode-se bem, me leia e desfrute se
puder.” (RIBEIRO, 1988, p.10). O “autor implícito” interpela o “leitor implícito” e define,
assim, um pacto de leitura para introduzir o leitor no livro.
Compagnon relata que, para Iser, o “leitor implícito” é imprescindível para a
construção do sentido do texto, fornece um modelo ao leitor real. (COMPAGNON, 2010,
p.149). Iser afirma que o leitor possui “um ponto de vista móvel, errante, sobre o texto”.
(Op. cit., p.150). Isso porque vai descortinando um aspecto do texto de cada vez e,
através da memória, congrega os aspectos para dar coerência ao texto, sem ter uma
visão do texto todo simultaneamente. Iser “insiste naquilo que chama de „repertório‟, [...]
conjunto de normas sociais, históricas, culturais trazidas pelo leitor como bagagem
necessária à sua leitura”. (Op. cit., p.150). Acreditamos que o efeito que o texto provoca
no leitor pode ser diferenciado conforme o repertório de cada um.
Iser acredita que a obra é aberta, mas apenas para que o leitor obedeça a
ela. “O leitor implícito [...] só tem como escolha obedecer às instruções do autor
implícito, pois é o alter ego ou o substituto dele.” (Op. cit., p.150). E, seguindo esse
raciocínio, o “leitor real” se vê diante de um impasse: seguir as prescrições do “leitor
implícito” ou recusar as instruções de leitura. (Op. cit., p.150).
“O leitor de Iser é um espírito aberto, liberal, generoso, disposto a fazer o
jogo do texto”. Esse leitor é ainda um “leitor ideal” semelhante a um crítico culto, ou
seja, o “leitor ideal” é um “leitor culto”, que conhece as obras clássicas e se interessa
pelas modernas. (Op. cit., p.151).
86
Jauss chama de “horizonte de expectativa” o que Iser considera como
“repertório”: “o conjunto de convenções que constituem a competência de um leitor (ou
de uma classe de leitores) num dado momento; o sistema de normas que define uma
geração histórica”. (Op. cit., p.154). O “horizonte de expectativa”, com uma nuança
histórica, “é o conjunto de hipóteses compartilhadas que se pode atribuir a uma geração
de leitores”. (Op. cit., p.209). O “horizonte de expectativas”, de certa forma, não deixa
de ser o conhecimento de mundo numa determinada época.
Compagnon afirma que, para Jauss,
[g]raças [ao leitor], a história literária parece novamente legítima, mas
ele continua ignorado. Jauss nunca estabelece distinção entre recepção
passiva e produção literária (a recepção do leitor que se torna, por sua
vez, autor), nem entre leitores e críticos. [...] O leitor continua sendo uma
entidade abstrata e desencarnada em Jauss, que tampouco nada diz
sobre os mecanismos que ligam, na prática, o autor e seu público. (Op.
cit., p.214).
A distinção entre a recepção passiva e produção literária seria como
distinguir leitores e críticos. Apenas os críticos que deixam suas reflexões escritas
sobre suas leituras podem descrever os horizontes de expectativa, pois é provável que
somente através de uma leitura que se desdobra em escrita, pode-se descrever “as
hipóteses compartilhadas” de leituras de uma mesma geração. O leitor, para Jauss, não
desempenha, na prática, uma ligação entre o autor e seus leitores. Essa posição se
mostra diferente da posição de Iser que acredita que o leitor está propenso ao jogo do
texto.
Em Migo, aparece o “leitor implícito” submetido aos jogos do “autor implícito”,
que é o narrador. No capítulo “Saudade”, o narrador, além de teorizar sobre a
construção do romance, aborda o leitor.
87
Romancear enredos é curtir saudades de mim na carne dos heterônimos
que me dou. Margem a margem, por toda a extensão deste meu rio de
palavras, sou eu que me resumo e me alterno, falando a você –
sinceramente, intimamente – de mim, de nós. (RIBEIRO, 1988, p.42).
O leitor na passagem acima parece estar submetido à vontade do narrador,
quando esse afirma “sou eu que me resumo e me alterno, falando a você –
sinceramente, intimamente – de mim, de nós”, pois o narrador escolhe como vai narrar
e o que vai narrar. Essa estratégia de referir-se ao leitor durante a narrativa é mais um
jogo textual. Resta ao “leitor implícito” nortear o “leitor real”, que vai decifrar o jogo
textual. Em outra passagem, o narrador afirma “Sou o que quero ser, escritor de livros
legíveis, sem maiores pretensões artísticas ou poéticas. Escrevo é para entreter você.
No máximo comover, jamais me impor, exemplar, persuadir, convencer.” (Ibidem, p.
68). Nesse trecho, o narrador reafirma o jogo que estabelece com o leitor, apontando as
intenções lúdicas de sua narrativa.
A teoria da estética da recepção, quando se refere às questões sobre autor e
leitor, remete-nos ao dialogismo de Mikhail Bakhtin (1984). O conceito de dialogismo
contribui sobremaneira para a compreensão da questão do leitor, pois “parte do
princípio linguístico segundo o qual todo ato de linguagem sempre leva em conta a
presença, ainda que invisível, de alguém para quem se fala ou escreve”. (BAKHTIN
apud SILVA, 2009, p.181). Caso consideremos que o que é falado ou escrito visa a um
interlocutor, podemos dizer que “todo ato de linguagem participa, mesmo que num grau
pequeno, da intenção de convencer, de persuadir o ouvinte/leitor; e também prevê, ou
imagina prever, as possíveis reações desse ouvinte/leitor”. (Op. cit., p.181).
Para Bakhtin, o ato da linguagem não prescinde dessa relação dialógica,
pois todo significado vai depender “de uma relação entre quem emite e quem recebe”.
(Op. cit., p.181). Portanto, na leitura de uma obra, além dos personagens que interagem
entre eles mesmos, há o diálogo entre uma pessoa que lê e o próprio livro. Quando
Bakhtin afirma que o ato de linguagem conta com a presença, ainda que invisível, de
alguém para quem se fala ou escreve, poderíamos fazer uma associação com o “leitor
88
implícito” de Wolfgang Iser, pois “esse alguém para quem se fala ou escreve” tem
dimensão semelhante ao “leitor implícito”.
Migo é uma possibilidade autobiográfica. Isso pode ser percebido em trechos
como “Livro maldizente, esse meu, não é mesmo? Mas de mim você verá que não falo.
Entrego é quem a mim se achega confiante. Tenho é que me cuidar. Disfarçar mais
para que isto seja publicável”. (RIBEIRO, 1988, p.77).
No capítulo “Ficção”, temos mais um fragmento em que o leitor vai ser
chamado à narrativa.
Cada personagem desse romance sou eu e é você, seja você quem for,
homem ou mulher. Nosso Gê respira o alento de vida que nós lhe
damos. Nisto ambos concordamos, colaboramos. Criando um
personagem me multiplico, dou vida a ele e vivo, sentido, sua vida. [...]
Assim é que você co-autora meus romances. Fantasiamos juntos, eu
escrevendo, enredando. Você lendo, imaginando. Coniventes, criamos e
nutrimos pessoas a que só falta carteira de identidade para serem gente
como nós. (Ibidem, p.178).
Nesse fragmento, o narrador busca uma identificação com o leitor. Está
tecendo reflexões sobre o jogo ficcional como, por exemplo, quando fala da criação de
personagens. Assim, demonstra dominar a escrita e, em seguida, propõe ao leitor uma
coautoria do romance em que ele também é personagem. Logo, podemos pensar Migo
como uma história de vida do narrador Ageu. Esse é alter ego do escritor Darcy Ribeiro,
temos então um texto autobiográfico.
Para escrever O pacto autobiográfico, Lejeune (2008) considera As
Confissões (Jean-Jacques Rousseau) como modelo de autobiografia clássica para
inspirar os seus estudos. Na primeira versão de O pacto autobiográfico publicado em
1975, Lejeune se mostra irredutível quanto aos limites do que é autobiografia e o
caráter de veracidade. Se o narrador-personagem acaso tiver um nome fictício, que
para Lejeune é um nome diferente do autor, pode até induzir o leitor a imaginar que os
fatos vividos por ele (pelo narrador-personagem) sejam idênticos ou muito parecidos
89
com dados da vida do autor que consta na capa do livro. Mesmo com motivos
suficientes para se pensar em autobiografia, se não houver o pacto autobiográfico
Lejeune afirma “esse texto não é uma autobiografia, já que esta pressupõe, em primeiro
lugar, uma identidade assumida na enunciação, sendo a semelhança produzida pelo
enunciado totalmente secundária”. (Ibidem, p.24-25). Os textos de ficção em que o
leitor pode encontrar semelhanças entre dados do autor e do narrador Lejeune atribui à
categoria do romance-autobiográfico. Lejeune nomeou os casos possíveis de
autobiografia. Para tal baseou-se em dois critérios: “relação entre o nome do
personagem e o nome do autor, natureza do pacto firmado pelo autor”. (LEJEUNE,
2008, p.28).
Houve duas reescritas de O pacto autobiográfico, uma chamada de O pacto
autobiográfico (Bis) publicado, em 1986, e outra intitulada O pacto autobiográfico, 25
anos depois publicado, em 2001. Nessas versões, Lejeune admite novas possibilidades
de como se pensar em autobiografia e assume ter sido radical em alguns pontos da sua
primeira versão do pacto autobiográfico, que foi publicada em 1975.
Em O pacto autobiográfico (Bis), faz uma releitura de “O pacto autobiográfico
com o objetivo de rever alguns pontos sensíveis: a definição, o vocabulário, o contrato,
o estilo e a ideologia autobiográfica”. (LEJEUNE, 2008, p.49). Quanto à definição de
autobiografia, “narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria
existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua
personalidade” (LEJEUNE, 2008, p.14), o autor afirma não se reconhecer mais nessa
definição. Acredita ser primordial a identificação da obra a ser analisada e se for preciso
deslocar os limites autobiográficos. “[...] a experiência demonstra que é preferível
começar pela análise de um corpus ao invés de propor imediatamente uma definição”.
(LEJEUNE, 2008, p.51).
Quanto ao contrato de leitura, Lejeune acrescenta que é possível haver uma
discordância entre a intenção inicial do autor e a intenção que será fornecida ao leitor,
isso porque talvez o autor não tenha a dimensão dos resultados da indução que propôs
ao leitor em sua apresentação do pacto. Devem ser levadas em conta as circunstâncias
que existem entre autor e leitor como a interferência do editor para atender à mídia,
90
modificando a escolha de subtítulos, classificações e até mesmo a chamada
publicitária. (Ibidem, p.57).
No texto O pacto autobiográfico, 25 anos depois, Lejeune repensa O pacto
autobiográfico e chega a se arrepender de não ter reconhecido o talento de XavierÉdouard Lejeune, seu bisavô, pois Lejeune demorou uns dez anos para considerar o
livro escrito pelo bisavô como uma autobiografia.
Wander Melo Miranda (2009) em seu livro Corpos escritos, toma como objeto
de análise as obras Memórias do Cárcere e Em Liberdade, de Graciliano Ramos e de
Silviano Santiago, respectivamente. Considera as posições de Lejeune e de outros
teóricos a respeito da autobiografia e evidencia que a postura que ele adotará em seu
livro Corpos escritos será a de um discurso literariamente intencionado. Tal postura faz
diferença, pois um texto literariamente intencionado permite a interação de uma
modalidade narrativa com outros tipos de modalidades aproximadas. Wander Miranda
questiona “se o que limita ou define um texto autobiográfico depende da vida concreta
do autor ou da própria estrutura textual”. (MIRANDA, 2009, p.29). Conclui ser difícil
demarcar os limites entre a vida e a obra do autor. “Dessa perspectiva, a autobiografia
não se confunde com a dita vida de um autor, com o corpus empírico que forma a vida
de um homem empiricamente real.” (DERRIDA apud MIRANDA, 2009, p.29).
Eneida M. Souza (2007), em “Notas sobre a crítica biográfica” afirma que “a
crítica biográfica [...], englobando a relação complexa entre obra e autor, possibilita a
interpretação da literatura além de seus limites intrínsecos e exclusivos, por meio de
pontes metafóricas entre o fato e a ficção.” (SOUZA, 2007, p.105). Dessa forma, a
crítica literária corrobora com as reflexões de Wander M. Miranda no que tange à
complexidade da relação obra e autor nos escritos (auto)biográficos e enfatiza a
existência de elos entre o fato e a ficção nesse gênero.
Entendemos que no texto autobiográfico ocorre uma transfiguração da vida
na obra. A autobiografia é uma autorrepresentação em que a ficcionalidade reveste a
autorreferencialidade. Não importa o grau de referencialidade, a autobiografia é uma
narrativa cujo objetivo é dar a conhecer uma versão da história de vida do
autobiografado. (MIRANDA, 2009, p.37).
91
A
definição
de
autobiografia
conforme
Lejeune
(2008),
“narrativa
retrospectiva [...] que uma pessoa real faz de sua própria existência [...]” (LEJEUNE,
2008, p.14), leva-nos ao seguinte questionamento: como compreender a identidade da
“pessoa real” que narra a história da própria vida? Parece-nos que essa “pessoa real”
se transforma em um “eu ficcional”, ou seja, o autobiógrafo se torna, dentro da
narrativa, um personagem de si mesmo.
No livro Migo, de Darcy Ribeiro, do qual fizemos uma leitura autobiográfica,
essas questões surgem na narrativa. Primeiramente porque o narrador não define o
gênero do livro, pode ser romance, autobiografia, diário ou crônica. Em segundo lugar,
porque o “eu” se desdobra em seus personagens e o próprio Darcy Ribeiro surge, na
narrativa, também como personagem. O que pudemos entender é que há um
amálgama entre aspectos ficcionais e não ficcionais nesse livro.
3.2. A autoficção
O termo autoficção surge a partir dos estudos de autobiografia. Lejeune
(2008) elaborou um quadro de combinações possíveis, considerando apenas narrativas
autodiegéticas, para obter como resultado o que poderia ser nomeado autobiografia e o
que poderia ser nomeado romance. Essas combinações se valiam de dois critérios: a
relação entre o nome do personagem e o nome do autor e a existência de pacto
autobiográfico, de pacto romanesco ou inexistência de pacto. Aliadas aos dois critérios
haveria três situações possíveis: a) o personagem tem um nome diferente do autor, b) o
personagem não tem nome, c) o personagem tem nome igual ao do autor. Para
exemplificar, vamos considerar um dos casos que Lejeune considera ser uma
autobiografia: uma obra em que o personagem não tem nome, mas há uma
identificação explícita entre autor e personagem, confirmada no prefácio. É o caso do
livro História de minhas idéias, de Edgar Quinet; o nome do personagem não aparece
na narrativa nem uma vez, porém o “eu” refere-se sempre a Edgar Quinet. (LEJEUNE,
2008, p.28-30).
92
Lejeune deixou, no entanto, duas combinações sem uma possível
nomenclatura, às quais denominou casas cegas. Serge Doubrovsky sentiu-se instigado
a resolver uma dessas casas cegas. Deu o próprio nome ao personagem e associou ao
pacto romanesco. Dessa forma, escreveu um romance sobre a sua história, Fils (1977),
e chamou-o de autoficção. O nome Fils pode significar filho ou fios6. Lejeune considerou
admirável o livro e afirmou que, a partir do livro de Serge Doubrovsky,
pude observar um fenômeno mais amplo: nos últimos dez anos, da
„mentira verdadeira‟ à autoficção, o romance autobiográfico literário
aproximou-se da autobiografia a ponto de tornar mais indecisa do que
nunca a fronteira entre esses dois campos. (LEJEUNE, 2008, p.59).
Podemos
observar
que
Lejeune,
embora
pareça
demonstrar
uma
preferência pela autobiografia, considera a autoficção como um gênero próximo àquela.
Em O Pacto autobiográfico, 25 anos depois, Lejeune faz uma autocrítica, em que vai
apontar gêneros próximos à autobiografia e afirma que
tentei estudar analiticamente uma série de gêneros fronteiriços ou de
casos-limites: a autobiografia que finge ser uma biografia (a narrativa em
terceira pessoa), a biografia que finge ser uma autobiografia (as
memórias imaginárias, todos os mistos de romance e autobiografia
(zona ampla e confusa que a palavra-valise autoficção, inventada por
Doubrovsky para preencher uma casa vazia de um de meus quadros,
acabou por abranger), a enunciação irônica e o discurso indireto, todos
os casos em que um mesmo eu engloba várias instâncias (história oral,
entrevista, textos escritos em colaboração etc.) depois as produções que
associam a linguagem, capaz de dizer eu, a meios de comunicação que
se mostram menos capazes de fazê-lo (como a imagem) etc.
(LEJEUNE, 2008, p.81.).
6
Tradução feita pela Professora doutora Jovita M. G. Noronha, da Universidade Federal de Juiz de Fora em Palestra
intitulada “O pacto autobiográfico de Philippe Lejeune”, proferida na Universidade Federal de São João del-Rei, no
dia 05 de dezembro de 2011.
93
Para Lejeune, há muitos equívocos na leitura desses gêneros e acredita ser
possível que muitas autoficções sejam lidas como autobiografias. Ocorre que, a partir
da segunda reescrita do pacto autobiográfico, Lejeune se mostra mais flexível quanto
às definições de autobiografia, mas afirma “para mim, o essencial continua sendo,
confesso, o pacto, quaisquer que sejam as modalidades, a extensão, o objeto do
discurso de verdade que se prometeu cumprir.” (LEJEUNE, 2008, p.81). O teórico
francês admite que sua definição inicial de autobiografia era bem rigorosa, admite ainda
o surgimento de muitas dúvidas, relata continuar estudando esse tema e promete
novidades para o ano de 2016.
“A autoficção se inscreve no coração do paradoxo no final do século XX:
entre o desejo narcisista de falar de si e o reconhecimento da impossibilidade de
exprimir uma „verdade‟ na escrita.” (KLINGER, 2007, p. 26). Diana Irene Klinger (2007),
em seu livro Escritas de si, escritas do outro, busca apoio em Philippe Gasparini (2004)
que utilizou três nomenclaturas para produções literárias da “escrita de si”:
“autobiografia fictícia, romance autobiográfico e autoficção”. (GASPARINI, apud
KLINGER, 2007, p.45). Na autobiografia fictícia, o autor finge escrever uma
autobiografia, porém não exige a identidade entre personagem principal, narrador e
autor. O romance autobiográfico se insere na categoria do verossímil. A autoficção
mescla o verossímil ao inverossímil. Para Klinger (2007), o risco da classificação das
produções literárias de Gasparini é denominar todo tipo de ficção em autoficção. No
entanto, Klinger seguindo a definição de Doubrovsky afirma que “a autoficção é um
gênero bivalente, ambíguo, andrógino”. (KLINGER, 2007, p.48).
Parece-nos que o termo autoficção é bem complexo, por esse motivo e além
das novas interpretações que está recebendo desde que foi criado, é difícil apontar as
teorias que vêm sendo formulados sobre ele. Portanto vamos nos atentar para a
definição de Doubrovsky.
Serge Doubrovsky (1988) se sentiu provocado a demonstrar a sua
insatisfação com as postulações de Lejeune sobre o pacto autobiográfico. A casa cega
do quadro de Lejeune seria a possibilidade de um romance com identidade de nomes
do personagem principal, autor e narrador. Assim, Doubrovsky escreveu um romance
94
com esses aspectos, chamou esse romance de autoficção, uma ficção de
acontecimentos e de fatos reais. Para ele, a autoficção não é “nem autobiografia nem
romance, e sim, no sentido estrito do termo, funciona entre os dois, em um reenvio
incessante, em um lugar impossível e inacessível fora da operação do texto”.
(DOUBROVSKY, apud KLINGER, 2007, p.47).
Doubrovsky compreende a autoficção como uma ficção de uma pessoa que
escreve “um romance de sua vida”. Por isso, tenta conceituá-la como “a ficção que eu,
como escritor, decidi mostrar de mim mesmo e por mim mesmo, incorporando, no
sentido estrito do termo, a experiência de análise, não somente no tema, mas também
na produção do texto”. (DOUBROVSKY, apud KLINGER, 2007, p.52). O romance Fils
(1977) apresenta autor e narrador com o mesmo nome, a narrativa é ficcional. Dessa
forma, Diana Klinger (2007) pensou a autoficção sendo um tipo de escrita de si que não
tem nenhum compromisso com a verdade, exterior e anterior ao texto. (KLINGER,
2007, p.167).
A autoficção seria outra possibilidade de leitura de Migo, visto que há
também aspectos característicos da autoficção nesse livro, embora já tenhamos
afirmado não ser possível apontar um único gênero literário para essa obra. Dentro do
livro na página cinco, temos abaixo do nome “Migo” a palavra “romance”, essa
indicação já nos remete à existência de uma escrita ficcional. Trata-se de uma narrativa
ficcional autodiegética, em que o narrador é Ageu de Sá Rigueira.
Sou Ageu Rigueira, mineiro bom, natural de Mangueiral, filho de Athos,
músico boêmio de vocação, de ofício guarda-livros. Minha mãe, Bebela,
católica orante, morreu de me parir. Em Mangueiral vivi infância vadia.
Aqui em Belo Horizonte, mocidade atormentada, querendo me matar.
Vim aos vinte anos, aqui estou atolado há quarenta, sempre com
vontade de escapar. Ainda escapo. (RIBEIRO, 1988, p.19).
No entanto, à medida que a narrativa se desenrola, encontramos aspectos
factuais como em: “Tancredo morreu! Morreu Tancredo! ─ o Brasil chora. Minas inda
95
mais.” (RIBEIRO, 1988, p.46). Além dessa passagem, encontramos outras em que
surgem nomes de personalidades de existência real como Juscelino Kubitschek, Carlos
Drummond de Andrade dentre outros.
Há aspectos autobiográficos explícitos que abordam fatos reais da vida do
escritor como em “Darcy vem pra cá! Isto mesmo, doidura pura, Darcy volta, vem
construir brizolões (centenas) pro Newton.” (Ibidem, p.265). Essa notícia veiculada por
um personagem remete à vinda de Darcy Ribeiro a Minas Gerais a convite do
Governador Newton Cardoso, em 1987, para que Darcy Ribeiro construísse em Minas
escolas como os CIEPS, que Ribeiro juntamente com Leonel Brizola construíram no Rio
de Janeiro. E, conforme já informamos anteriormente, esse fato ocorreu na realidade.
Além desses aspectos autobiográficos, Darcy Ribeiro interfere na narrativa e
o consideramos personagem do narrador Ageu.
Eu apenas o concebo e o vou criando ao descrevê-lo. Faço isso com as
manhas do ofício, para que você ache que é tudo verdade. Quero
mesmo é que você se identifique com meus personagens, pensando
que é um deles. [...] Juntos, eu escrevendo, você lendo, comporemos o
romance de Gê e de nós dois. (Ibidem, p.98).
Este é o livro das minhas verdades. Mangueiral é o nome falso de um
lugar real, onde nasci eu, e muita gente mais. Lá crescemos, brincando
debaixo de mangueiras mil, de centenárias jaqueiras, de pitombeiras e
de tanto arvoredo mais. (Ibidem, p.98).
O personagem Darcy, além de participar do jogo de identidades em que finge
contrapor-se a Ageu, tece comentários sobre a escrita do livro, deixando
indeterminações de sua função dentro da obra.
96
Mas, retomando as reflexões de Doubrovsky sobre a autoficção que não é
“autobiografia nem romance” e que estabelece entre esses gêneros literários uma
ligação, dando-lhes um “entre-lugar” difícil de ser captado e também explicado,
entendemos que é possível realizar uma leitura de Migo como autoficção.
3.3. Esfolando a memória
Os capítulos de Migo, aparentemente independentes, são alinhavados pela
memória. O narrador intitula as suas recordações de “recordos” e, através de alguns
capítulos metaficcionais, vai reconstituindo as suas memórias. Afirma carregar em si
muitas lembranças, das quais podemos inferir que são importantes para a constituição
de sua identidade.
Mergulho outra vez no poço dos meus recordos. Levo no peito toda uma
humanidade. Levo principalmente, o cemitério de meus mortos e o
magote dos meus ausentes que me voltam incansáveis. Eu os vejo,
vivos e presentes, como um dia foram, mas sabendo que estão mortos,
ou que, longe de mim, envelhecem sozinhos. Só existem como matéria
de memória na minha lembrança, como eu existirei recordável na
lembrança de outra gente. Mas não são eles, os ausentes ou os mortos
que mais me atazanam. São meus próprios eus que eu fui, vivi e deixei
de ser. (RIBEIRO, 1988, p.292).
O que me cabia mesmo é romancear, logo vi. O romance como forma
livre de repensar a existência, com as suas paixões insondáveis: o amor,
a santidade, a sexualidade, a libertinagem, o assassínio, o suicídio, o
incesto, o fascínio, o horror, o desprezo, a abnegação, a angústia, e
todos os outros aguilhões do corpo e da alma. Nada disso se sabe
olhando para fora, objetivamente. Só se sabe, só se sente, olhando para
dentro, subjetivamente. (Ibidem, p.282).
Este recordo eu tinha, tenho, no fundo de mim, sempre pronto a se
desdobrar. É matéria vivente da memória, me devolve Solzinho toda
inteira, na sua forma, aquela, nas suas cores solares, no seu cheiro
nítida. (Ibidem, p.171).
97
A narrativa em Migo se mostra fragmentada e o narrador se vale da memória
como um fio que enreda toda essa fragmentação. Ao recordar pessoas, fatos,
sentimentos, o narrador parece estar prolongando suas experiências passadas e
espera ser recordado pelas pessoas. Assim percebemos a memória interligando
passado e futuro. Ageu é escritor de romances e quer demonstrar que, só através da
subjetividade, do olhar para dentro de si consegue-se repensar a vida.
“Mas não são eles, os ausentes ou os mortos que mais me atazanam. São
meus próprios eus que eu fui, vivi e deixei de ser.” (Op. cit. p.292). A busca de seus “eus”
pode apontar para uma preocupação existencial de ser e de permanecer nas
recordações de outras pessoas. O narrador declara existir na imaginação, ou seja, na
ficção, admite que é um personagem. Através das palavras e com as palavras pode
reviver amores, remoer saudades, demonstrar ternura. “Sou feito de palavras. Palavras
lidas. Palavras faladas. Palavras ouvidas. Não há lembrança minha de minha vida
vivida que não me venha envolta de palavras.” (Ibidem, p.126). Ao escrever romances,
Ageu parece demonstrar que
se realiza, que acredita em sua existência.
“Romanceando. Nisto é que eu me alço com algum sustento no registro da realidade
presente; outro, em passados recordados e até arriscando um pé em futuros viáveis.”
(Ibidem, p.282).
Além de escritor de romances, Ageu se define como leitor e bom ouvinte.
Comenta que os fracassados na vida são pessoas que se importam apenas em
acumular riqueza material, acrescenta que esse tipo de pessoa inspira a criação de
personagem de romance.
Termina o capítulo “Caju” com versos de Fernando Pessoa: “O poeta é um
fingidor. Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor a dor que deveras
sente”. (PESSOA apud RIBEIRO, 1988, p.123). Nesses versos metapoéticos de
Fernando Pessoa, do poema Autopsicografia, o eu lírico sente uma dor, e essa dor é
revestida por outra dor, a fingida. O fingimento poético nos encaminha para uma
possível interpretação desses versos como uma definição do que é ser poeta. Em Migo,
temos um narrador que finge sentir dores como solidão, abandono e a dor de um amor
98
impossível, Nora. Tudo isso nos leva a perceber o jogo ficcional de representação da
realidade.
Para amenizar as dores fingidas, Ageu afirma sentir prazer quando se
recorda de seus casos amorosos. Por meio desses devaneios eróticos, o narrador
rejuvenesce. Nessa atitude, são apresentadas mulheres como Bia, Sol, Lu, as quais
seriam possíveis amantes do narrador. Ageu relata que as mulheres citadas são
representações das mulheres de Darcy Ribeiro.
A verdade que eu aqui revelo, agora, doída verdade, é que por trás de
minhas amadas tantas, tão belas, que aqui desfilam suas graças,
eriçando pêlos, destilando óleos e mirras, recendendo almíscar, estão,
disfarçadas, as amadas de Darcy. Você reparou como as mulheres dele
são sempre peludas e cheias de cheiros? (RIBEIRO, 1988, p.363).
Conclui que os amores vindos através da lembrança são mais bonitos, mais
vigorosos, talvez porque sejam reconstruções de lembranças. Distante desses amores
vividos, Ageu entende que eles estiveram sempre em suas recordações. “Agora, tão
longe de meus amores vividos, descubro que minhas amadas estão, sempre estiveram,
foi em mim, como fontes jorrantes de amor.” (Ibidem, p.240). Assim, compreendemos
que esses amores têm existência na imaginação de Ageu, no momento em que ele
evoca essas lembranças.
Ageu de Sá Rigueira constrói através da narrativa as suas memórias, vai
tecendo sua identidade. Afirma se sentir seguro por ter suas raízes no Mangueiral.
“Mangueiral me dá seguranças insubstituíveis. Principalmente a de ter raiz. Isto me faz
peculiar entre as gentes cá de fora, tão sem cara.” (Ibidem, p.137). Esse sentimento de
pertencimento é uma necessidade social, pois confere uma identidade ao personagem.
Diz sentir-se mais seguro através de suas raízes, identifica-se com a sua cidade natal,
manifesta sentir saudades de lá. Tem certeza de que no Mangueiral possui segurança
afetiva.
99
É bom demais ter certeza de que Mangueiral existe . De que lá está
Nininha que me ama e há uma vida que me espera sem parar. Não
importa quanta carência ou indiferença encontre eu cá. Sei que sou
oriundo de lá e que Nininha me quer de graça. Culpado ou inocente. [...]
Às vezes matuto meus impossíveis. Quem não? O melhor deles é
maginar uma vontade forte, irresistível, de voltar pra casa, voltar lá pro
Mangueiral. (Ibidem, p.137).
Quando Ageu se lembra de Mangueiral de forma saudosista demonstra que,
no momento da enunciação está inseguro e procura segurança nessa lembrança do
lugar de nascimento. Procura, dessa forma, um pertencimento através do espaço de
nascimento e da vivência durante o período da infância.
Enumera o que trouxe do Mangueiral, sua caveira, suas carnes, seus
cabelos, suas unhas e suas memórias.
Trouxe, inclusive minha caveira que lá já portava inteira. Não as carnes.
Estas, provisórias, se refizeram, se renovaram, se enrugaram. São
outras. A cabeleira e as unhas de lá também se foram. Hoje, se eu não
podasse, elas formariam medonha teia de sagarços cacheados de
longuíssimas conchas nacaradas. Principalmente, trouxe minha alma,
fundida lá. (RIBEIRO, 1988, p.137).
As carnes eram provisórias e foram se renovando e enrugando, modificandose a partir das vivências. O esqueleto veio de lá. Mas sua identidade foi se moldando,
modificando-se com as vivências.
O narrador evoca também lembranças de Buritizal, o espaço rural onde sua
família possui terras.
Quanta ciência minuciosa a daquela minha gente roceira. Um saber
diferente. Viviam em casas espaçadas umas das outras, por toda a
vastidão do Buritizal. Cada família com sua rocinha, nos mandava
100
galinhas d‟angola, ovos de pato, leitões e requeijões, até sabão feito de
cinza mandavam. Toda aquela gente minha se foi, escorraçada pela
pastaria. Foram, como eu, ser baianos em São Paulo, por aí. Eu atolei
em Belo Horizonte. (RIBEIRO, 1988, p.269).
Através das recordações, o narrador evoca detalhes da vida anterior a vinda
para a capital mineira. Há nessa passagem um pouco de saudosismo, que em seguida
ele direciona para a dispersão dos seus conterrâneos que se projetaram em São Paulo.
E, além disso, parece reclamar de ter fixado residência em Belo Horizonte.
Relata que a glória de sua família é o Barão de Gurutuba, seu trisavô, ou
melhor, um dos seus tantos tataravós. Lembra-se da avó Coló que se casou com
Joaquim Pedro Conegundes. As pessoas da família da avó materna de Ageu gostavam
de ter fazendas. Nesse ponto da narrativa, Ageu se compara a Carlos Drummond de
Andrade, quer se sentir “um fazendeiro do ar”. Essa comparação se apresenta como
mais um elo estabelecido pela memória.
Ageu relata outras lembranças como a de seu avô Quincas Sá quando esse
comprou um carrilhão para a Igreja da cidade. Passaram seis horas comemorando:
comendo, bebendo, soltando fogos, duas bandas líricas, ruas enfeitadas. Ageu se
pergunta por que o avô teria agido assim; para impor admiração ou pagar pecado feio.
Por que se lembrar desse fato? Quantos estavam presentes? A memória é sempre
coletiva, pois apesar de parecer um fenômeno individual ela é partilhada com as
pessoas que conosco compõem um grupo.
De acordo com Halbwachs,
[t]alvez seja possível admitir que um número enorme de lembranças
reapareça porque os outros nos fazem recordá-las; também se há de
convir que, mesmo não estando esses outros materialmente presentes,
se pode falar de memória coletiva quando evocamos um fato que tivesse
um lugar na vida de nosso grupo e que víamos, que vemos ainda agora
no momento em que recordamos, do ponto de vista desse grupo.
(HALBWACHS, 2009, p.41).
101
Essa lembrança da compra do sino da igreja pode ter sido vivenciada por
Ageu como pode ter sido contada para ele por seus familiares. Não tem importância se
o personagem tenha participado dessa comemoração ou ter recebido informações
sobre essa festa, de qualquer forma a memória é sempre coletiva pois pertence ao
ponto de vista do grupo de pessoas a que ele pertence. Isso também ocorre quando
Ageu se lembra da morte de sua mãe Bebela. Lembra-se do pai, que estava esquecido
na narrativa. O pai não suportou tanto sofrimento sem a esposa, entregou-se à bebida e
ao bandolim. Morreu jovem. Em meio às suas recordações afirma: “Hoje vi,
longamente, o corpo morto de meu pai, exposto na sala de fora da fazenda, sobre um
catre.” (RIBEIRO, 1988, p.154). Dessa forma, podemos dizer que a memória é uma
forte presença em Migo. Através dela, o narrador vai construindo a sua narrativa de
vida e, por meio de representação, a narrativa de parte da vida de Darcy Ribeiro.
Ageu admite viver de sua memória, de suas ficções, de sua imaginação.
Nós todos, literatos, não seremos uns onanistas? Não trocamos a vida
real, gozosa ou sofrida, mas real, de toda gente que sabe vivê-la, por
fantasias de personagens, amores inventados, substitutivos
masturbatórios? (RIBEIRO, 1988, p.27).
O narrador nomeia de “substitutivos masturbatórios” o sentimento de prazer
que os escritores podem ter ao produzir obras, por isso considera os literatos “uns
onanistas”, que, na visão do narrador, trocam até mesmo o prazer sexual pelo prazer
conferido pela leitura e escrita. Ageu afirma que passou a maior parte da vida lendo e
escrevendo. Acrescenta que gosta é de gentes de papel, os personagens de seus
romances. Sobre esses ele afirma que criou de acordo com sua vontade, ainda assim,
às vezes um ou outro acabam por surpreendê-lo.
Ageu relata-nos que gosta de pensar, diz que é uma máquina de pensar.
Afirma que comanda, quase sempre, essa máquina de pensar e, quando quer abri-la,
as recordações vêm desordenadas.
102
Quando quero recordar passados, me abro e eles me vêm
desordenados, inesperados, surpreendentes. Mas sempre enredados
em seqüências de cenas significantes. Eu recuso uma, recuso outra,
pego alguma, aprofundo, escarafuncho. (RIBEIRO, 1988, p.82).
Essa é mais uma reflexão metaficcional sobre a maneira como vêm as
lembranças ao narrador. No final desse capítulo “Calei”, admite que esse fluxo é mais
uma invenção. “Aqui entre nós, o fluxo é miraculoso. Se minha inspiração tivesse um
milésimo do vigor desta fábrica de imagens soltas, instantâneas, eu poderia escrever
livros incomparáveis.” (Ibidem, p.85).
A rememoração é acentuada em Migo, pois é através da memória que
narrador e personagens vão compondo a narrativa e refletindo as intenções da escrita
desse livro.
Vamos retornar à minha escritura de esfolar memória. Isto me acaba,
me aniquila, mas alivia. Me dá o gozo que hoje tenho. Descarrega as
saudades tantas demais que carrego. Saudades do ruim e do bom, que
a vida me deu e me tirou. Meu coração sentimental, tudo destila. Sofre
outra vez, gozozo, dores doídas. Busca, contente, a ressonância de
alegrias antigas. (RIBEIRO, 1988, p.139).
O narrador tenta justificar as escolhas que fez para narrar as suas histórias,
admitindo o gosto pelo tom memorialístico e também tentando imprimir a sensação de
umas dores talvez imaginárias, nessa junção de saudade e alegria.
3.4. Darcy, personagem de Ageu
O crítico Fábio Lucas (1991) afirma que “a particularidade mais notória em
Migo consiste na intervenção freqüente e direta do mundo não ficcional dentro da
ficção”. (LUCAS, 1991, p.248). Durante a narrativa, o narrador Ageu refere-se a várias
103
personalidades brasileiras como políticos, professores da Universidade Federal de
Minas Gerais e escritores. Dentre os escritores, aparece Darcy Ribeiro. Ageu chega a
visitá-lo em uma viagem ao Rio. “Só visitei Darcy e Cláudia. Avisando antes, claro.
Tudo bem. Ruim foi encontrar lá o Elmano. Aqui não tenho prazer de vê-lo. Lá não
necessitava.” (RIBEIRO, 1988, p.52). Entendemos, portanto, que esse Darcy Ribeiro
que aparece no livro é um personagem, é também ficção. Ageu Rigueira é alter ego de
Darcy Ribeiro e Darcy é personagem de Ageu. Isso porque, dentro da ficção, as
personalidades tornam-se “gentes de papel”, ou seja, são ficcionalizadas.
No capítulo “Cautela”, Darcy Ribeiro como personagem de Ageu, alerta-nos
que devemos ter cuidado com Gê, porque ele “está fazendo [nossa] cabeça. [...] Ele
engabela muito e é convincente.” (RIBEIRO, 1988, p.212). Está propondo mais um jogo
de identidades ao insinuar que Gê está manipulando o leitor, afinal os personagens
Darcy Ribeiro e Gê são um só.
Acho uma desonestidade o escritor se servir do romance para doutrinar.
A natureza do romance pede inocência do leitor, e ainda mais do
escritor. Quem lê, ou bem se abre e se entrega deixando-se penetrar até
o fundo, ou não goza. Nisto, precisamente nisto, reside o perigo. O leitor,
inocente, se abrindo para participar vitalmente da história romanceada.
E o bandido do autor, em lugar de enredo romanesco, insinuando idéias,
metendo doutrinas. (RIBEIRO, 1988, p. 212).
Na verdade, ao falar dessa ingenuidade do leitor e do escritor, o personagem
Darcy Ribeiro está tentando controlar o leitor, impedindo mais uma vez que esse leitor
possa emitir opiniões. “Cautela” é mais um capítulo metaficcional, que reflete sobre
como é o seu processo de escrita. Escreve como que “parindo crias” (p.213). Relata
que as criações saem de sua imaginação “sem qualquer plano nem intenção. Se razão
há, [...] isto não é assunto meu. É tarefa de crítico e ele que se vire, misturando fatos
inventados por mim com teorias cabeludas lá dele [...]” (Ibidem, p.213).
No capítulo “Gente”, há marcas bem claras de Darcy Ribeiro como em “Esse
Gê, meu personagem, voz falante nesse romance, é ficção. Seus sequazes, idem,
104
idem.” (RIBEIRO, 1988, p.248). Sequazes significa partidários, assim Ribeiro afirma que
Gê e seus seguidores são apenas vozes falantes nessa narrativa. Gê é ficção,
personagem do autor Darcy Ribeiro. Entretanto, esse Darcy Ribeiro que surge no livro é
personagem de Gê, pois participa da narrativa e pode assumir os seus “eus”. “Eu, sou
eu mesmo que, aqui de cima, invento, traço e retraço, neles, retratos meus disfarçados.
Mais reveladores, talvez que qualquer confissão que no meu caso, como no de todos
mais, é sempre insincera; têm que ser.” (Ibidem, p.248).
No capítulo “Alceu”, que se refere a Alceu Amoroso Lima, Darcy Ribeiro
interfere na narrativa para brincar com o tempo que no jogo da memória não tem
precisão cronológica.
Perdão, leitor, suporte mais uma intervenção minha. Indispensável. Este
capítulo do Ageu, além de injusto com Alceu é um feio anacronismo.
Alceu morreu em 1983 ─ eu até discursei no cemitério ─ Gê começou
esse diário romanceado em 1985; hoje é 29 de outubro de 1987. Como
é que ele podia ter assistido ontem a uma conferência do Alceu?
Caduquice. Isso é que é. Só pode ser. O velho destrambelhou.
(RIBEIRO, 1988, p.229).
Essa é mais uma passagem metaficcional. Darcy-personagem está
duvidando da afirmação do narrador Ageu, discute o assunto da narrativa. Insinua que
as datas mencionadas estejam incorretas e se permite julgar o narrador.
“Esse Darcy é da pá virada. Me meteu numa campanha eleitoral
dele.”(Ibidem, p. 184). Nesse capítulo, Ageu Rigueira expõe-se mais uma vez ao jogo
das identidades, critica as manias de Darcy Ribeiro. Nesse trecho, Ageu emite
julgamento sobre Darcy Ribeiro, apontando para uma das “peles” que Ribeiro possui, a
de candidato político. Lembrando tratar-se de Darcy-personagem, notamos que o
narrador deseja produzir dúvidas no leitor quanto ao julgamento que faz de Ribeiro. É
real ou fictício?
“Você viu como Darcy se intrometeu? Me pôs pra trás, o sacripanta. Isto é
rememoração dele. Não tem nada a ver comigo. Sacana.”(Ibidem, p.293). Esse trecho
105
conclui o capítulo metaficcional “Vejo”, que contém doze parágrafos, dentre eles, nove
iniciados pela expressão “Me vejo”, em que Ageu recorda e reinventa fases de sua vida
de criança, ginasiano, universitário a militante comunista em São Paulo. “Me vejo
criança, olhando meu pai morto, de perfil, com fios de barba aparecendo [...] Meu pai
que nunca vi vivo nem morto! Isto não é lembrança, é imaginação, fantasia, desvario.”
(Ibidem, p.292). Nesse trecho, reaparece o fio da memória. O personagem afirma
lembrar-se do pai morto e, em seguida, relata que nunca vira o pai, isso ocorre porque
quando há lacunas nas rememorações, completamos essas lacunas com informações
de outras pessoas ou, até mesmo, inventamos lembranças.
No capítulo “Vício”, o narrador apresenta-nos metaficionalmente os
romances de Darcy Ribeiro. O personagem Darcy cria indeterminações para iludir o
leitor, em diversos momentos da narrativa. Comporta-se como personagem, mas
também menciona fatos da realidade, quando, por exemplo, elenca os romances do
escritor Darcy Ribeiro.
Este meu Migo que você lê aí, não sei onde, não sei quando, é o quarto
romance que escrevo. [...] Num, o primeiro, me visto de índio Mairum
para sentir e fazer sentir a dor e o gozo de ser índio. Seu tema é a morte
de Deus: morre porque o mundo não tem remédio. [...] Noutro me faço
de fazendeirão boçal, como minha gente dos dois costados [...] Tudo fiz,
pus quanto talento tinha, para desenhar odioso aquele Mulo e ele me
saiu comovente. [...] No terceiro assumo, rindo, a nossa consciência
numa anti-utopia glauberiana em que me disfarço de negro prenhador
de amazonas [...]. (Ibidem, p.334-335).
Os livros apresentados são na ordem de publicação: Maíra (1976), O Mulo
(1981), Utopia selvagem (1982) e Migo (1988). Nesse capítulo “Vício”, há também
passagens metaficionais:
Agora, o desafio é maior. Aqui encarno minha própria carne, a que podia
ter sido, até devia. Mas não fui, aterrado que fiquei com a sina proposta
106
de reviver a vida dos meus. O que busco é aquele que eu teria sido, é
meu sentimento mineiro do mundo que eu teria tido, para, aqui curti-lo
de mentira, como se fosse meu mesmo no mais intrínseco de mim.
(RIBEIRO, 1988, p.335).
Nesse trecho, o narrador de Migo, Ageu Rigueira, Darcy Ribeiro, Gê, Dargeu,
Gêdar, descreve o próprio livro Migo: um “eu” ficcional que busca um “eu” que teria sido
com uma visão de mineiro sobre o mundo. Ao afirmar “Aqui encarno minha própria
carne”, reafirmamos a nossa leitura autobiográfica dessa obra.
3.5. Ageu e as Minas Gerais
Em Confissões (1997), Darcy Ribeiro narra que ao voltar exílio, quis rever as
Minas Gerais. Iniciou sua trajetória por Montes Claros, sua cidade natal, para rever a
mãe, os entes queridos, sua terra, sua gente. Desejou visitar as cidades históricas de
Minas Gerais, passou por Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Diamantina. Queria rever
as igrejas mineiras, os casarões antigos, as ruas empedradas. A viagem de Ribeiro
pode ser comparada à histórica viagem às cidades coloniais mineiras, em 1924, de um
grupo de intelectuais paulistas ligado à Semana de Arte Moderna. Entre esses
intelectuais estavam Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e
outros. Através dessa viagem, os paulistas tiveram a oportunidade de conhecer um
pouco mais sobre a história mineira, que se tornou objeto de reflexão para a arte
moderna. Darcy Ribeiro diz sentir um exaltado sentimento patriótico em relação a
Minas, buscando sempre descendentes da coragem de Felipe dos Santos, de
Tiradentes e do Aleijadinho, considerava que seriam esses descendentes os
responsáveis em renovar o Estado de Minas Gerais. (RIBEIRO, 1997, p.463-464).
Quando voltei do exílio dei uma vasta volta por Minas Queria ver minha
terra, minha gente. Abraçá-los, comovido. Primeiro fui a Montes Claros
ver mamãe, minha família, acompanhado de jornalistas que iam em
107
avião próprio, porque eu não os queria comigo. Eu era notícia, então,
como exilado como exilado voltando para casa. (Ibidem, p.463).
Outro episódio recordável de meu retorno foi a visita que fizemos,
mamãe e eu, a um fazendeiro nosso vizinho e amigo da família, seu
Lopinho. Ao chegarmos, a mulher dele gritou para dentro no timbre mais
alto, para vencer sua surdez, que era eu, o Darcy da Fininha, que estava
voltando. Ele contestou lá de dentro: “Não é, não. Ninguém volta do
desterro”. (Ibidem, p.463).
As reflexões sobre Minas Gerais em Migo possuem um duplo sabor; um
sabor nostálgico de quem quer manter vínculos com as suas origens e um sabor
amargo da constatação de que a pátria mineira necessita evoluir. Em Migo, o autor
Darcy Ribeiro constrói uma visão crítica de Minas, através do narrador Ageu Rigueira.
Perdoe-me, você que me lê, essa explosão zangada de minha veia
cívica mineiral. Isso às vezes me ocorre, mas é raro. Não se assuste.
Sou manso. Manso, como os mineiros todos. Só nos movemos e
comovemos, de fato, é para forçar o mundo a continuar tal qual.
Entretanto, sinto no fundo do peito que existe outra Minas, que há de
ser. Uma Minas profunda de rios secretos, correndo subterrâneos. Uma
Minas que, incógnita, permanecerá até seu dia. Quando? Para quê? Sei
lá. Só sei que ela está rilhando os dentes nesta espera secular. Era
potranca ainda quando isto começou. Hoje é cavala no cio, presa nos
varais de aroeira, escoiceando no escuro. [...] É hora, Minas, é hora,
acorda. Rompe essas peias, joga fora esses arreios, eriça o pelo,
balança a cabeça e as crinas, salta, escoceia e saia à luz de outro dia de
glória. (RIBEIRO, 1988, p.311-312).
Ageu é um escritor mineiro, nascido no interior e estabelecido em Belo
Horizonte há quarenta anos. Sonha com Minas Gerais novamente gloriosa, com o novo
dia em que se faça nas Gerais, através de atos fortes, “um mundo de belas verdades,
renegando esse mundo de pobres verdades e tristes mentiras”. (RIBEIRO, 1988, p.78).
Assim que chegou à capital mineira, nos idos de 1940, rapidamente, Ageu
descobriu as tribos políticas que disputavam os poderes entre si em Belo Horizonte. De
108
um lado, os opositores ao poder vigente, “Virgilinho, Afonsinho, Miltinho, Pedrinho,
Zezinho e Biazinho”. De outro lado, aqueles ligados ao governo de Benedito Valadares
(1933 – 1945), envolvidos nas teias do regime militar, “Chico Campos, Capanema,
Alkimim, Ciro, Casassanta” e tantos outros, para ele, dissimulados. Da política aos
costumes mais populares, tece reflexões sobre os mineiros.
O patriciado mineiro com seus dois bandos. O dos desapeados do poder
que ruminavam ressentimento: Virgilinho, Afonsinho, Miltinho, Pedrinho,
Zezinho, Biazinho. E o outro, o dos alçados ao governo, uns áulicos de
boca presa nas tetas da ditadura: Benedito, Chico Campos, Capanema,
Alkimim, Ciro, Casassanta. O patronato de banqueiros e outros ladrões,
escondidos atrás de suas façanhas, eu nem via. (Ibidem, p.88).
Ageu critica os mineiros quanto a um sentimento ufanista de serem donos de
uma região geograficamente cercada por montanhas. Conforme Ageu, não há morro
que se destaque em Minas, o que há são serras que erguem fronteiras entre o estado
mineiro e o mundo. Indaga se não é esse o motivo de os mineiros estarem tão
atrasados na vida e na história. No tempo da extração do ouro, considera que os
mineiros ficaram na frente dos outros brasileiros. Depois, só houve recuo. Acredita que
o povo das Minas é um povo conformado. Lamenta a dispersão da gente mineira, na
época em que o ouro acabou. Depois da glória aurífera, Minas Gerais foi desmatada,
encontra-se coberta de capinzais a esperar gado que não vem. O povo mineiro ficou
abandonado, somente vivendo da lembrança dos corajosos desbravadores. Dessa
forma, começa a definir o que são os mineiros:
Isto somos, descendentes miúdos de audazes pioneiros de agruras,
virados capiaus geralistas desses carrascais do Acaba-Mundo.
Imprevidentes, sem ouros, agora vendemos os ferros da morraria e
tocamos fogo na mataria. Disto agora vivemos, queimando os verdes
para fazer carvão. Fundindo pobres ferros de exportação. (RIBEIRO,
1988, p.111).
109
O tempo a seu tempo, dirá se Minas se acaba sem glória, ou se ─ queira
Deus ─ se alça, outra vez altaneira. Minas que um dia se alçou pelos
ouros, pelos diamantes e pela liberdade, se alçará por si mesma?
Tomara! Nada indica que isto suceda. Só de vê-los, ─ Ó! meu povo ─ a
vocês e a mim também, tão pachorrentos nós todos, me revolvem as
tripas. Por que esse povo meu, tão capaz de grandezas de antanho,
agora é tão chinfrim? (Ibidem, p.111).
Através de Ageu e de outros personagens, vai sendo forjada uma crítica
sobre Minas Gerais quanto a alguns aspectos como o conformismo do povo pobre e
sofrido, o isolamento de Minas em relação aos outros estados, o atraso da mentalidade
intelectual do estado. Ageu como alter ego de Darcy Ribeiro está refazendo os
caminhos que Ribeiro percorreu. Quando escreveu Migo (1988), Ribeiro já havia vivido
as experiências do exílio, conhecido bem mais a América Latina e muitos países
europeus. Darcy Ribeiro demonstra um sentimento de amor a Minas Gerais, mas, ao
mesmo tempo, evidencia que o estado mineiro não evoluiu.
No capítulo intitulado “Alceu”, Ageu Rigueira participou de uma conferência
de Alceu Amoroso Lima sobre Minas e mineiridades. O narrador ironiza dizendo que
teria sofrido uma conferência, acredita que Alceu, sendo carioca, tenha inveja dos
mineiros, do que ele imagina que são os mineiros. Ageu critica as excessivas
qualidades que Amoroso Lima atribui ao povo de Minas Gerais. Para Alceu, os mineiros
são, ao mesmo tempo, o povo “mais chinfrim e o mais admirável”. (RIBEIRO, 1988, p.
228). Narra como Alceu A. Lima descreve fisicamente os mineiros e, também,
moralmente. Chama a conferência de “patacoada”, nomeia Amoroso Lima de
passadista reacionário, contrabandeador de cultos e valores eternais. Chega a atribuir
uma fala a Alceu de Amoroso Lima:
__Mineiros do meu Brasil, sede cada vez mais tal e qual sois. A missão
de Minas é impor respeito ao passado. É incutir amor à tradição. É a
todos os homens bons conclamar para o serviço de Deus, da Pátria e da
Família. (RIBEIRO, 1988, p.229).
110
Saímos juntos comentando nossa mineiridade franco-britânica, suíça e
sínica. Guedes, encantado, declamou louvores a Alceu. Ele seria o único
pensador autêntico do Brasil. O intelectual que surgiu, afinal, para
entender e fazer entender a nós, mineiros. Seu pensamento, acrescenta,
precisa ser difundido pelos púlpitos e pelas cátedras para salvar o Brasil
da demagogia, da corrupção e do modernismo. (Ibidem, p.229).
Bomeny (1994) aborda a mineiridade clássica de Alceu Amoroso Lima, para
a qual “O sentido da vida estaria assegurado pela manutenção da tradição, e no mineiro
tal gesto se manifestaria na desconfiança em relação a mudanças”. (BOMENY, 1994,
p.18). A escritora parece considerar que a visão da mineiridade e dos mineiros em
Alceu Amoroso Lima é uma visão baseada em modelos já estabelecidos. A mineiridade
é vista como valorização das tradições mineiras e os mineiros são vistos como pessoas
contrárias a renovações.
Para o narrador, a mineiridade está associada a três heróis que deviam ser
fonte de inspiração para os mineiros. São eles: Felipe dos Santos, Joaquim José e
Antônio Francisco. Relata-nos que o santo de sua devoção é Antônio Francisco, mulato
mineiro. O narrador considera como lenda ou mito a história que contam de Aleijadinho,
não acredita que algum artista teria feito com “tocos de mãos” as obras barrocas
espalhadas em Minas, que são atribuídas a Aleijadinho. Considera essa história
exageradamente sofrida. Para ele é uma mentira. Ao abordar o passado de Minas
Gerais do século XVIII, podemos pensar no livro A tradição inventada, de Eric
Hobsbawm (2008). Para esse autor, existem na história oficial fatos e tradições que
parecem ter ocorrido fielmente como descritos e, no entanto, não ocorreram da maneira
como foram retratados. Por vezes costumes e celebrações tomadas como antigas são
bem recentes e até mesmo inventadas.
O termo “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, mas nunca
indefinido. Inclui tanto as “tradições” realmente inventadas, construídas e
formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira
mais difícil de localizar num período limitado de tempo ─ às vezes coisa
111
de poucos anos apenas ─ e se estabeleceram com rapidez.
(HOBSBAWM, 2008, p.9).
A expressão “tradição inventada” constitui um conjunto de práticas,
normalmente controladas através de regras geralmente aceitáveis. Esse é o caso de
práticas ritualísticas ou simbólicas, que tem como objetivo estabelecer certos valores e
normas comportamentais pela repetição e criar uma continuidade com um passado
histórico. (HOBSBAWM, 2008, p.9). Mas essa continuidade com o passado se mostra
artificial; nesse sentido, as “tradições inventadas” são reações a fatos novos que
adotam a forma do passado ou que constituem seu próprio passado pela reprodução
quase forçada. (Op. cit., p.10). O autor afirma que “[se] pode dizer que as tradições
inventadas são sintomas importantes e, portanto, indicadores de problemas que de
outra forma poderiam não ser detectados nem localizados no tempo.” (Op. cit., p.20).
As “tradições inventadas” podem ludibriar os cidadãos no que tange a suas relações
humanas com o passado.
Ageu Rigueira enumera as igrejas mais belas de Minas; no entanto, lamenta
as badaladas dos sinos das referidas igrejas para uma falsa glória em dias terríveis
como em maio de 1720, em que houve o esquartejamento de Felipe dos Santos, e em
maio de 1792, data do enforcamento de Tiradentes. Aliás, Ageu denuncia como falso
esse enforcamento, pois a morte de Joaquim José da Silva Xavier tem data anterior ao
espetáculo ocorrido em praça pública. Ao ser enforcado, o corpo de Tiradentes já
estava em decomposição. Hobsbawn (2008), ao se referir às “tradições inventadas”
afirma que “o objetivo e a característica das tradições, inclusive das inventadas, é a
invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas,
tais como a repetição.” (HOBSBAWN, 2008, p.10). Podemos inferir que para a História
oficial mineira é mais cômodo repetir a versão do enforcamento de Tiradentes, bem
como repetir outras possíveis histórias inventadas.
Na narrativa de Migo, Ageu ao visitar Congonhas com um grupo de amigos,
depois de assistir a uma encenação da Semana Santa, comenta o ritual religioso de
celebrações em contraste com a alegria dos estudantes da cidade. Tem uma visão
112
crítica
bem negativa daquela
tradição de
encenações religiosas vazias de
espiritualidade e cheias de mero exibicionismo, o narrador afirma. Destaca um verso de
Gerardo Mello Mourão, poeta cearense, que sintetiza a visão daquele momento:
“Gasta-se o círio pascal no castiçal de bronze e o coração não gasta o amor”, ou seja,
“o castiçal” é de “bronze”, porém falta sentimento, pois não se gasta “o amor” do
“coração”. Ageu ironiza afirmando que “quase” rezou, devido ao clima cerimonioso do
momento, retrato do ritualismo católico mineiro. O único prazer que tal viagem lhe
rendeu foi o de rever as estátuas dos profetas, obras atribuídas a Aleijadinho.
Recordando os seus heróis do passado mineiro, o narrador está e certa forma
querendo encontrar outros mineiros que merecem destaque. Como escritor que é,
parece ter esperança na geração de escritores mineiros, representantes ilustres dos
mineiros.
Drummond e Guimarães Rosa são a salvação de Minas para Ageu. O
narrador também presta a sua homenagem a outros escritores mineiros Abgar Renault,
Otto Lara, Cyro dos Anjos, com a consideração própria de um escritor frente aos seus
mestres e amigos.
Hamlet fundou a Inglaterra; Fausto, a Alemanha. Foi Gravoche que fez a
França francesa. Sancho criou a Espanha, Babitt, a outra América. A
Colômbia sem Gabo estaria torta. São eles que conferem presença e
dignidade à existência de seus povos. Os romancistas e os poetas,
principalmente. Que seria de nós, brasileiros, sem Carlos e sem Rosa?
(RIBEIRO, 1988, p.136).
Queremos você na Academia Mineira de Letras, sô. [...] ─ Qual,
Guedes! Não dá, não. Quem votaria em mim? Nem os mineiros ─ o
Cyro, o Abgar, Otto, velhos amigos ─ nem deles, tenho voto certo.
─Votam, sim. Votam. Por você e por Minas. É outro mineiro no poleiro.
(Ibidem, p.311).
Elege grandes escritores para que cada um possa representar o seu país.
Refere-se aos países europeus, principalmente, demonstrando outra vez o seu
reconhecimento da tradição. Logo após, declara sua reverência aos autores Carlos
113
Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Em outra passagem, faz uma paródia do
“Poema da Necessidade”, de Carlos Drummond de Andrade publicado no livro
Sentimento do Mundo, em 1940. O poema de Carlos Drummond tem como
característica a anáfora, a expressão “É preciso” aparece no início de quase todos os
versos. Drummond se utiliza dessa repetição da estrutura dos versos para descrever as
necessidades do homem de seu tempo, revela um olhar pessimista diante da
possibilidade de destruição do homem, pois esse poema remete a um tempo de
guerras. Também em Migo, o narrador vale-se desse recurso formal:
Estou que nem Carlos. Não posso mais com tanto dever e precisão. É
preciso escrever esse livro. É preciso ser discreto com Nora. É preciso
suportar Zeca. É preciso ouvir os amigos. É preciso aguentar a Stela. É
preciso sofrer Canuto. É preciso ser inteligente. É preciso ouvir música.
É preciso! Merda! Nada é preciso. Preciso é de mim que me perdi no
meio deles todos, servil, sendo o que querem que eu seja. Merda!
(RIBEIRO, 1988, p.369).
Com
essa
paródia,
acreditamos
que
Ageu
está
mais
uma
vez
homenageando Drummond. Questiona o que seria dos brasileiros sem Carlos
Drummond e Guimarães Rosa. Nessa manifestação notamos o desejo do narrador de
ser reconhecido enquanto escritor como Guimarães Rosa e Carlos Drummond de
Andrade.
Em “Pedral”, outro capítulo, Ageu caracteriza um tipo de mineiro, grupos de
homens agachados picando fumo e pitando, contando casos. Esse tipo de mineiro
parece corresponder a uma visão caricatural. Ageu não se conforma com o fato de os
mineiros estarem há tanto (séculos) na mesma busca de riquezas e continuarem
pobres. Relata-nos que a origem de toda a exploração de minério se deve a El Rei de
Espanha, que tinha muito desejo pelas pedras e pelo ouro. Fernão (mameluco) com
sua bandeira veio para Minas. Por sete anos buscou esmeraldas, encontrou turmalinas.
As suas pedras verdes-faiscantes eram, na verdade, turmalinas. “Sua bandeira trágica
serviu mesmo foi para mostrar que não eram de prata mas de puro ferro as morrarias
114
dessas Minas.” (RIBEIRO, 1988, p.285). Vieram outras bandeiras. Conta-nos que um
negro de Antonio Dias descobriu o ouro, tendo escalado alguns morros, alcançou o
Itacolomi e, ao redor dele, o riacho de Tripuí, correndo sobre as pepitas de ouro preto.
Vieram pessoas de todos os lados do Brasil, principalmente de São Paulo, e
logicamente de Portugal. Quando o ouro acabou, ficaram alguns restos nas igrejas. É
como se o Brasil ficasse todo amarrado pela sombra da época da extração do ouro nas
Gerais. Ageu dá uma versão da história da exploração aurífera em Minas Gerais.
Reescreve a história oficial e a questiona deixando claro que as tradições são
inventadas de acordo com interesses.
Ageu gosta e tem orgulho é de Minas Gerais no século XVIII. Afirma que se
Aleijadinho fosse contemporâneo dele, morreria de fome, uma vez que a arte não teria
o valor merecido. As Minas do século dezoito tinham boa arquitetura, boa música, boa
pintura, boa escultura e boa literatura.
Repetidas vezes Ageu Rigueira lamenta o esquartejamento de Felipe dos
Santos, o enforcamento de Tiradentes e relembra a grandiosidade da obra de
Aleijadinho. Chamou-nos a atenção essa recorrência da menção ao sofrimento dos
seus três heróis mineiros, essa repetição parece ser uma comparação do sofrimento de
Felipe dos Santos, de Tiradentes e de Aleijadinho ao castigo sofrido pelos
inconfidentes, índios e negros martirizados em Minas.
Escolheu Minas Gerais do
século XVIII para fazer um contraponto à mentalidade do povo mineiro colonial aos
mineiros da década de 80 após a ditadura militar. Em Migo, a representação da
mineiridade é uma forma sarcástica de mostrar as falsas verdades históricas, os mitos
enganosos e desmitificar os heróis forjados.
Santo maior de minha devoção é Antônio Francisco. Mulato mineiro,
brioso, tesudo. Irado. Castigado por Deus, na carne e nos ossos, como
ninguém jamais foi. Isso dizem, eu não creio. Exageram. Segundo a
lenda, Antônio Francisco teria criado com tocos de mãos as obras mais
belas que essas Minas viram. Que as obras sejam belas, ninguém
duvidou jamais. Que ele tenha feito aquilo com restos de mãos, é
impossível. Suas criações são esplêndidas demais. O mito, asqueroso
demais. (Ibidem, p.160).
115
O autor de Migo, através de seus personagens e narrador, vai descortinando
seu sentimento patriótico por Belo Horizonte como metonímia de Minas Gerais e do
Brasil. Em Migo, encontramos uma visão crítica de Minas Gerais. Não deixa de apontar
as tradições mineiras meramente repetitivas e talvez falsas, não se cala diante das
incoerências sócio-políticas, não deixa de mencionar os que se sacrificaram na história
de Minas Gerais, como garimpeiros anônimos e outros como Felipe dos Santos e
Tiradentes.
116
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Encontrar o livro Migo (1988), de Darcy Ribeiro, foi motivo de entusiasmo,
pois logo percebi ser um objeto de pesquisa instigante. Depois das primeiras leituras,
almejava estudar, além de Migo, os livros Maíra (1976) e Confissões (1997) também de
Darcy Ribeiro. Iniciada a pesquisa, a banca de qualificação sugeriu que deveria limitar o
corpus dada a complexidade das obras e o tempo destinado ao mestrado. Então, decidi
empreender uma leitura de Migo, sob os aspectos da autobiografia.
Surgiram
os
primeiros
obstáculos
uma
vez
que
estabelecer
um
distanciamento necessário entre a admiração pelo autor e o estudo do objeto se tornou
difícil para mim. Essa batalha foi travada durante toda a escrita desta dissertação,
porque conhecer parte da vida de Darcy Ribeiro foi empolgante. Porém, não tive a
intenção de demarcar os limites entre a vida do autor e a sua obra porque essa tarefa
não é possível, tampouco era meu objetivo. Outras dificuldades surgiram na
estruturação deste trabalho, ocasionadas pela forma como a narrativa em Migo se
apresenta. Trata-se de uma narrativa fragmentada, os 193 capítulos curtos trazem um
enredo entre capítulos metaficcionais e capítulos memorialísticos e, em muitos desses
capítulos, surgem marcas autobiográficas.
Quanto ao enredo, pode-se afirmar que o narrador Ageu Rigueira, Gê,
desdobra-se em outros “eus” e juntos representam um outro “eu” de Darcy Ribeiro. O
narrador brinca com o leitor o tempo todo, mostrando-se e escondendo-se através de
máscaras, através de heterônimos como Elmano e Stela. Esse mesmo narrador
assume variadas posturas, às vezes irônico, às vezes nostálgico. Quando relembra os
amores inventados, emprega um tom nostálgico. As mulheres imaginárias da narrativa
são capazes de fazer muitas loucuras por amor ao narrador. Ageu admite que sejam
amores imaginários. Constrói uma rede de amigos intelectuais e lhes dá uma voz nos
capítulos cujos títulos aparecem em negrito no sumário como “Nora”, “Vazinha”, “Mila”,
“Nininha”, “Stela”, “Guedes”, “Uriel”, “Cura”, “Canuto”, “Curita”, “Ton‟zé”, “Ego”,
“Elmano”, “Pudens”, “Uriel”. Na verdade, as personagens falam muito mais de Ageu do
que delas mesmas. O final do enredo traz um novo amor ao narrador sexagenário: a
117
união com Nora. Esse amor tardio lembra o poema “Campo de flores”, de Carlos
Drummond de Andrade, publicado em Claro Enigma, 1951.
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
(...)
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
Darcy Ribeiro afirma que Migo é “um romance esquisito” (p.10) ou uma
“autobiografia inventada”. (p.13). É uma tentativa de recompor a vida que ele teria se
tivesse ficado em Minas Gerais e jamais fosse conhecer outras cidades e outros
países. A linguagem utilizada em Migo traz termos arcaicos (“aguilhões”, “ludibriar”,
“iracundos”), neologismos (“sabetudando”, “meninas vinteaneiras”, “brancarrões”),
gírias, coloquialismos, metáforas, expressões poéticas e nomes alegóricos de
personagens (Vilma: Vil-e-má). Percebemos, diante de passagens do livro, que Darcy
Ribeiro desejava que Migo fosse um livro reconhecido como os livros de Guimarães
Rosa e de Carlos Drummond de Andrade.
Nos capítulos metaficcionais, são apresentadas ao leitor as artimanhas da
escrita ficcional: como ocorre o processo de criação; é, pois, um livro ficcional
discorrendo sobre a ficção. Segundo Gustavo Bernardo (2010), “a metaficção é uma
ficção que não esconde que o é, mantendo o leitor consciente de estar lendo um relato
ficcional, e não um relato da própria verdade.” (p.42).
Os capítulos memorialísticos trazem marcas autobiográficas como pode ser
observado nas lembranças sobre a universidade em Belo Horizonte, quando o narrador
118
cita os amigos e professores com quem conviveu nos anos de 1940. A escolha de
Minas Gerais como espaço físico da narrativa reforça essa conotação autobiográfica,
por ser o escritor de Migo um mineiro e ter vindo trabalhar em Belo Horizonte nos anos
de 1980.
A partir do título “Migo: possibilidades autobiográficas”, admite-se a
existência de outras possibilidades de leitura e análise da obra Migo, que, por exemplo,
poderia ser lida como autoficção. Entretanto, foi feita a opção pela leitura
autobiográfica. O título preserva a dissertação de interpretações equivocadas e aponta
para a intenção desta pesquisa: realizar uma leitura do livro Migo, de Darcy Ribeiro, sob
o viés da autobiografia.
Os romances de Darcy Ribeiro são reconhecidos no meio acadêmico, no
entanto, Migo parece ser menos divulgado que os demais livros desse autor, uma vez
que encontrei poucos trabalhos acadêmicos a respeito dele. Migo é citado em outros
livros do próprio escritor. Além dessas citações, apenas encontrei estudos sobre Migo
em Darcy Ribeiro: Encontro com escritores mineiros 4 (1997), organizado por Haydée
Ribeiro Coelho e um ensaio do crítico Fábio Lucas, em seu livro Mineiranças (1991),
que compara Migo, de Darcy Ribeiro a Um artista aprendiz, de Autran Dourado.
A narrativa em Migo se vale de recursos já utilizados anteriormente na
literatura brasileira como a narrativa em primeira pessoa, os aspectos autobiográficos e
os aspectos memorialísticos. É preciso destacar que em 1988, data da publicação de
Migo, já havia uma tradição de romances memorialísticos em Minas Gerais como A
idade do serrote, de Murilo Mendes (1968); Baú de ossos, de Pedro Nava (1972) e
Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade (1973). Dessa forma, pode-se afirmar
que Migo se insere num rol de memorialistas mineiros.
Como memorialista, Darcy Ribeiro desejava permanecer através de sua
escrita e isso pode ser comprovado em suas obras Migo (1988) e Confissões (1997),
obras que consideramos autobiográficas e que exemplificam a “escrita de si”.
É necessário esclarecer que, em “Migo: possibilidades autobiográficas”, não
houve a pretensão de abranger todos os aspectos do livro estudado. Essa obra
apresenta relevância literária e poderá ser estudada a partir de novos olhares.
119
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ANA MARIA DE FREITAS QUIRINO