16, 17 e 18 de Julho de 2015 Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) R. L. De Campos1 Financiamento: FAPEG O AGROSEBRAE: um recorte na região de Araraquara - São Paulo/Brasil RESUMO: A proposta de comunicação visa apresentar e debater as relações entre produção, reprodução e apropriação do conhecimento a partir de pesquisa sobre agricultura “alternativa” desenvolvida no interior do estado de São Paulo no Brasil, e dum programa específico do SEBRAE – Sistema Brasileiro de Apoio ás Micro e Pequenas Empresas chamado AGROSEBRAE. Uma opção diante á produção massificada e as conseqüências e efeitos negativos da agricultura convencional ou agronegócio que na busca pela maximização dos lucros e hegemonia de mercado traz como conseqüência, dentre outras, o uso excessivo de agrotóxicos, agressão ao meio ambiente, doenças, padronização de gostos e sentidos, etc. Palavras Chave: capitalismo cognitivo, agricultura alternativa, subjetividade, saber e conhecimento. Sociólogo, professor da UFG – Universidade Federal de Goiás na FCS – Faculdade de Ciências Sociais de Goiânia e professor colaborador junto ao programa de Pós Graduação da UNESP – Universidade Estadual Paulista, FCL/Campus Araraquara, Contato: [email protected] 1 AGROSEBRAE: a case in the region of Araraquara - São Paulo/Brazil Abstract: This paper presents and discusses linkages between production, reproduction and appropriation of knowledge, Based upon empirical research on “alternative agriculture” in rural areas of the state São Paulo (Brazil). Specifically, our focus is put in analyzing AGROSEBRAE, one of the programmers’ of SEBRAE ( Brazilian System of Support to Micro and Small Companies). Data analysis infers that this is one option facing massified production and the consequences and effects of conventional agriculture. This latter form, also known as agro-business, in its’ quest for profit and market hegemony, brings forward, among other aspects, the excessive use of toxic substances, aggressions over the environment, health issues, standardization of taste and senses, etc. Keywords: Cognitive capitalism, alternative agriculture, subjectivity, knowledge Introdução O Brasil assim como outros países ditos desenvolvidos ou vis-à-vis em vias de desenvolvimento passa por transformações resumidas como sendo resultados da crise do chamado capitalismo industrial ou sociedade salarial. Esta nova organização produtiva “recupera na transformação” saberes e conhecimentos, conforme aparece na proposta de Gorz, (2005), e que são valorizados no ou pelo circuito de mercados. Ou então, uma nova organização produtiva mais flexível, plural, dispare e que sugestivamente se estrutura valorizando elementos de subjetividade como gostos, sabores, qualidade de vida, dentre outros. A flexibilização, conforme compreendida por David Harvey (2008) possibilita a reflexão e a valorização da diversidade (sabores, estética etc.) rompendo com o conceito “padrão” e massificado de produção e consumo de massas. Na esteira deste processo as instituições de maneira geral são permeadas por transformações que buscam captar este potencial produtivo traduzindo em representação. No Brasil, grosso modo, o SEBRAE é a instituição modelo que capta este novo potencial produtivo transformando em representação. O SEBRAE foi criado em 1972 como entidade privada sem fins lucrativos tendo como objetivo fomentar o empreendedorismo. A proposta desde então é trabalhar com o potencial produtivo dos pequenos e médios empreendimentos que se auto-organizam valorizando o conhecimento. Canalizar estes conhecimentos e viabilizá-los em pequenas e médias empresas é o objetivo do SEBRAE enquanto instituição. O slogan do SEBRAE instituído oficialmente em 2008 é: “Quem tem conhecimento vai para frente”. Trata-se de fomentar o desenvolvimento via matrizes duma nova economia com valores como preservação ambiental, cooperativismo, participação social, emprego, qualidade de serviços, desenvolvimento local e principalmente empreendedorismo. A aposta do SEBRAE é que a nova economia que se forma com a crise da sociedade salarial fundase no conhecimento e na capacidade empreendedora de transformar este conhecimento em produtos aceitos pelo mercado e nucleados como empresas que se relacionam num mix de cooperação e competição. O maior capital de uma empresa é o conhecimento. E a capacidade de usá-lo para desenvolver produtos, idéias e serviços é o melhor diferencial competitivo. Há uma grande quantidade de informação disponível nos mais diferentes meios (jornais, revistas, rádio, televisão, bibliotecas, internet etc.). Essas informações, quando úteis e aplicáveis, geram conhecimento dentro da empresa, o que é fundamental para a inovação de produtos, serviços, processos, marketing e organizacional. Para melhorar a utilização desse conhecimento, os pequenos negócios podem implementar a gestão do conhecimento. Ela nada mais é do que o conjunto de atividades e práticas que permitem à empresa criar, registrar, compartilhar, proteger e usar os conhecimentos mais importantes para gerar inovações e trazer benefícios econômicos para ela mesma. (SEBRAE, 2014.) Foi em 1997 quando o SEBRAE, diante da verificação de potencial produtivo e a explosão de pequenas empresas ligadas á agricultura e de alguma maneira as sociedades rurais, propõe a experimentação do programa piloto SAI – Sistema Agroindustrial Integrado. O objetivo inicial era expandir a metodologia, princípios e objetivos da instituição á experiências agrícolas ou mais propriamente pequenos e médios empreendimentos agrícolas. O desafio era adequar sua ação – gerenciamento, planejamento produtivo, inovação, captação de recursos, marketing, etc.- a um público novo. E, diga-se de passagem, um público nada acostumado a receber políticas públicas de desenvolvimento, haja vista que no Brasil historicamente o desenvolvimento agrícola e agrário foi pensado e praticado a partir dos grandes empreendimentos monocultores encerrados em latifúndios e em grandes investimentos de capital. As primeiras experiências foram avaliadas pela instituição como positivas. Todavia, conforme prática corrente da instituição, carecendo de mais experiências de campo, de mais “experimentação”. Após anos de experiências trabalhadas com grupos de produtores em diferentes partes do Estado de São Paulo o SAI passa por reformulações principalmente em 2001 e 2009. A guisa dos resultados alcançados com o projeto piloto, o SAI atua flexibilizando aplicativos de acordo com cada caso em específico avaliando e considerando realidades difusas avaliadas e trabalhadas sempre em proveito da instituição e dos objetivos do programa. O AGROSEBRAE posto em prática em 2011 nada mais é que o resultado de anos de experiência com o SAI que passou por seguidas reformulações que incorporaram positivamente ás experiências de campo com os produtores agrícolas. O AGROSEBRAE é o resultado das “missões” com o projeto piloto seguindo a mesma matriz metodológica do SAI, porém, melhor adequada e transformada com vistas á cada realidade concreta “experimentada. O modelo SEBRAE de gestão e organização funciona ás avessas da organização produtiva vigente no capitalismo industrial. Ao invés de vender força de trabalho na condição de executor de tarefas pré-programadas alheias á cognição de quem executa, o agente da produção passa a ser ele próprio uma empresa sendo que a vida torna-se mercadoria nos elementos mais periféricos, “supérfluos” e fluídicos. O consumidor é agente ativo determinando o consumo. Detentores de capacidade ou conhecimento produtivo, vis-à-vis prescindem do comando empreendendo e conciliando trabalho (execução) com conhecimento (concepção). Conforme Gorz (2005): A pessoa deve, para si mesma, tornar-se uma empresa; ela deve se tornar, como força de trabalho, um capital fixo que exige ser continuamente reproduzido, modernizado, alargado, valorizado. Nenhum constrangimento lhe deve ser imposto do exterior, ela deve ser sua própria produtora, sua empreendedora e sua própria vendedora, obrigando-se a impor a si mesma constrangimentos necessários para assegurar a viabilidade e a competitividade da empresa que ela é. (p. 23) O alvo do SEBRAE é justamente este público de “trabalhadores produtores” auto-empreendedores. O SEBRAE atua metodologicamente e em várias frentes (organização, marketing, gestão, gerenciamento, captação de recursos, etc.) exatamente reunindo maneiras de codificar, portanto de transformar, o saber em conhecimento. Ao contrario das instituições burocratizadas do período industrial o SEBRAE transforma o saber produtivo destes agentes mediante participação e métodos difusos em resultados valorizados pelo mercado. Lembrando que no limite, e mesmo por definição, instituição alguma produz conhecimento, quem produz conhecimento é quem executa o trabalho reunindo as condições cognitivas e materiais para sua efetivação. Ou então: No sistema fordista, a comunicação quando entrava diretamente na produção, desempenhava um papel perturbador, desestabilizante, de bloqueio da produção. Ou trabalhava-se silenciosamente, ou, quando havia comunicação, a atividade produtiva era suspensa. No sistema pós-fordista, ao contrário, a inclusão da comunicação tem um valor diretamente produtivo. O AGROSEBRAE atua captando este potencial produtivo que se constitui em novos mercados formado por pequenos e médio empresários. Atua mais comumente nos nichos de produção que normalmente, quer no sistema de produção, como caso mais emblemático dos produtos orgânicos, quer na recuperação de sabores e valores ligados aos alimentos e a alimentação como no caso do movimento slow food, se apresentam como alternativa a produção e ao consumo de massa. O AGROSEBRAE se estrutura como instituição de nova ordem que valoriza, promove e capita este potencial produtivo formado em circuitos de comunicação de produtores. Como a produção dita alternativa aparece primeiro como um nicho, algo pequeno que cresce e se desenvolve como “fuga” e alternativa ás mazelas da sociedade industrial (uso excessivo de agrotóxicos, intensificação da produção, padronização da produção, gostos, sabor, etc.) o AGROSEBRAE capta este novo potencial. Ainda que esta fosse uma vertente do evento auto-empreendedor que quiçá seja o elemento central mais emblemático da crise da sociedade salarial e do regime fordista de produção. Tomo, portanto, o termo “agricultura alternativa” como prática (ação) agrícola permeada e carregada de significados e saberes humanos, o que por definição se contrapõe á agricultura convencional pensada como produção de alimentos e, portanto, apenas como “calorias e comodites”. Dentre as definições, ao que parece, aquela proposta pelo movimento slow food, inclusive recuperando a autoria do interessante conceito de “ato agrário”, é a que melhor se aproxima desta abertura de possibilidades que permeia as possibilidades duma agricultura alternativa. O consumidor orienta o mercado e a produção com suas escolhas e, aumentando sua consciência sobre estes processos, ele ou ela assumem um novo papel. O consumo se torna parte do ato produtivo e o consumidor se torna então um co-produtor. O produtor exerce um papel importante no processo, trabalhando para alcançar a qualidade, tornando sua experiência disponível e acolhendo os conhecimentos e saber-fazer dos outros. O esforço deve ser comum e deve ser feito com a mesma consciência e espírito interdisciplinar, como a ciência da gastronomia. Cada um de nós é chamado a praticar e disseminar um novo, mais preciso e ao mesmo tempo mais amplo conceito de qualidade do alimento, baseado em três pré-requisitos básicos e interconectados. A qualidade do alimento deve ser: bom, limpo e justo. A escolha dos alimentos é um ato produtivo que aproxima o agente social dum produtor-consumidor. O produto acaba permeado por valores como dotados de senso estético, valores morais e consciência ética. O produtor é um produtor de alimentos e mais do que isso de “modo de vida”. A pratica duma agricultura alternativa ligada à percepção do ato-agrário 2 é expressão deste novo momento de subjetivação que acontece com a crise do fordismo e do modelo de produção e consumo rígidos. Distintas: agricultura biodinâmica, agro ecologia, ecogastronomia3, produção orgânica, fair trade, organizações como o movimento slow food, Terra Madre ou Arca do gosto, ou mesmo outras mais ligadas às técnicas de produção como sistema mandala 4 , permacultura5, etc. O AGROSEBRAE e a experiência Brasileira A região de Araraquara é compreendida dentro da antiga divisão agrícola de Ribeirão Preto a qual se destaca como região de forte vocação agrária. Uma região marcada pelo assalariamento agrícola promovido pelos grandes complexos produtivos, 2 Ato que congrega a figura do produtor e do consumidor com forte potencial de subjetividade atinente á escolha. Para o movimento Slow food comer de maneira limpa, justa e com sabor (bom) é um ato produtivo em si. O termo é atribuído ao poeta agricultor norte americano Wendel Berry que aponta que “comer é um ato-agrário”, pois produzir alimentos é uma prática cheia de significados e deve ser considerado um ato gastronômico. 3 Movimento que prega o uso de alimentos saudáveis, produzidos de maneira sustentável e sem uso de agrotóxicos ou mesmo conservantes químicos. Valoriza sabores e saberes locais via preservação e conscientização ambiental, biodiversidade e responsabilidade social. 4 Trata-se de sistema de produção sustentável e com pouca necessidade de energia. Produção em círculos concêntricos tendo na base o reservatório de água donde são criados peixes. A partir deste centro se distribui a água e irriga as diversas e combinadas culturas produzidas em círculo por vários motivos além da irrigação também a construção de barreiras naturais que impede o dificulta a permeabilidade de pragas favorecendo o controle biológico. 5 Trata-se de sistema de produção agrícola criada por ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmegren na década de setenta. A idéia básica é trabalhar com a natureza se aproveitando desta força sem contrariar. Trata-se dum sistema holístico de produção agrícola. É sustentável e economicamente viável trabalhando com três princípios básicos: o cuidado com a terra, com as pessoas e a partilha de excedentes. principalmente da cana-de-açúcar. Segundo dados do Projeto LUPA 2007/2008 6 : Censo Agropecuário do Estado de São Paulo (2009) existem um mil cento e cinqüenta propriedades rurais no município, das quais 47,04% variam entre 10 e 20 hectares representando um total de 541 propriedades. Um percentual bastante alto se comparada com outras regiões e municípios do Estado (LUPA, 2009). Este mesmo Lupa de 2007/2008 apontava mudanças em relação comparativa com o levantamento anterior de 1995/96. Este indica aumento significativo do número de propriedades entre um e quinhentos alqueires 7 enquanto as propriedades de quinhentos até dez mil alqueires sofreram significativa diminuição. O maior aumento, da ordem de 27,3% no período, foi de propriedades que variavam entre cinco e dez alqueires seguida com 24,7% das propriedades que têm entre dez e vinte alqueires. Ocorre que as propriedades entre um e dois alqueires aumentou 27% no período, o maior aumento, praticamente igual àquelas entre cinco e dez alqueires. (LUPA, 2009). As propriedades entre cem até duzentos alqueires aumentaram apenas 3,1% e entre duzentos e quinhentos alqueires 2,3%. O estudo que desenvolvemos indicava mais de duzentas pequenas e médias empresas agrícolas na região, sendo que foram estimadas, por este mesmo levantamento de amostragem, pelo menos quinhentas ocorrências do tipo. Dentre estas cerca de 20% dos casos podem ser consideradas alternativas, a maioria delas ligadas á produção orgânica. A condição de alternatividade é dada por características que envolvem escolhas qualitativas. Produção alternativa (orgânica, fair trade, livre de agrotóxico, etc.), ou mesmo com diferenciais de produção sustentável, sem agressão ao meio ambiente, ou propondo diferentes formas de produzir (mandala, permacultura, sistemas rotacionados, etc). O interesse foi atribuir valor qualitativo como diferencial do sistema ou modelo de produção convencional. Uma característica marcante que define este tipo de produção agrícola de tipo alternativa é que não existe choque ou incompatibilidade de modelos, sugerindo inclusive, a interdependência simbiótica entre eles. No mais das “Levantamento Censitário das Unidades de Produção Agrícola”. Trata-se do mais completo e importante levantamento censitário do Estado de São Paulo, que é realizado a cada dez anos. O último LUPA entrevistou 324.601 unidades de produção distribuídas em 645 municípios do Estado de São Paulo 7 No Brasil existe uma gama de medidas em alqueires como o “Alqueire Mineiro”, “Alqueire do Norte”, “Alqueirão” ou “Alqueire Goiano” e o “Alqueire paulista”. O Ministério da Agricultura e Reforma Agrária reconhece esta diversidade ainda que os dois mais utilizados são o Alqueire Mineiro com 48.400 mil metros quadrados e o Alqueire paulista com 24.200 metros quadrados. No caso nos referimos ao alqueire paulista. 6 vezes a alternatividade é possibilitada pela garantia de renda com parte da propriedade destinada ao modelo convencional8. É neste cenário de “hegemonia” agroindustrial canavieira centrada em grandes latifúndios produtores de açúcar e álcool que foi palco de um dos programas AGROSEBRAE sobre o qual realizamos pesquisa financiada pela FAPESP – Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo e que contou com grupo de jovens estudantes bolsistas que realizaram pesquisa de campos com levantamentos e aplicação de questionários. A primeira premissa da pesquisa foi singularizar e especificar a atividade ou trabalho agrícola. Premissa esta adotado pelo modelo do AGROSEBRAE desde a experiência do SAI, ou seja, de que era preciso o “convívio” do trabalho de campo para entender a atividade em si bem como as motivações e formas de atividades coletivas que se organizam. O trabalho agrícola, conforme ponderam Hardt e Negri (2005) além de se singularizar diante de todo e qualquer outro tipo de atividade se constitui no maior desafio para pensar a ação coletiva do novo milênio. O trabalho agrícola continua sendo extremamente diferente da mineração, do trabalho industrial, do trabalho nos serviços e outras formas de trabalho. A vida agrícola tem uma relação impar com a terra, desenvolvendo uma relação simbiótica com a vida dos elementos – o solo, a água, o ar, a luz do sol. (E aqui podemos reconhecer claramente o potencial de que a agricultura se torne biopolítica). A agricultura é, e sempre será uma forma singular de produção e de vida, e, no entanto – este tem sido nosso ponto primordial – os processos da modernização têm criado relações comum de produção e troca que são compartilhadas pela agricultura e outras formas de produção. (p. 165) Um tipo de atividade ligada ao savoir-faire, e que tem, portanto, caráter vital (dos elementos vitais: água, terra, ar, compondo um caráter afetivo: produção de valor afeto). Portanto, o caráter biopolítico do trabalho agrícola permite a produção de afeto circundante nos fluxos lingüísticos e no cotidiano da cooperação coletiva no fluxo do trabalho, de mercados e enfim em toda forma da vida em comum. AGROSEBRAE e expropriação do conhecimento 8 A pesquisa demonstrou entre outras que a maior parte das produções que foram consideradas alternativas apenas foi viabilizada dado que o proprietário garantiu sua sobrevivência inicial e a manutenção dos gastos domésticos via produção convencional. No caso trata-se mais do fornecimento de cana-de-açúcar ou arrendamento de terras para as usinas de produção de açúcar e álcool da região. O programa AGROSEBRAE seguindo a metodologia SEBRAE já consolidada no Brasil atua justamente na promoção (facilitação ou venda) de conhecimento. Todavia, a tese central estruturadora da pesquisa é que o conhecimento é produzido pela ação cotidiana e inventiva de quem trabalha e transforma á produção, para tanto mobilizo o conceito francês que ao que parece melhor se aproxima desta definiçãosavoir-faire. Outra premissa básica é que em principio, ou seja, no ato da produção coletiva, o conhecimento não tem dono ou proprietário. Conforme pondera Gorz (2005): Os saberes comuns ativados pelo trabalho imaterial não existem senão em sua prática viva, e por ela.Eles não foram adquiridos ou produzidos em vista de trabalho que podem realizar ou do valor que podem assumir. Eles não podem ser destacados dos indivíduos sociais que os praticam, nem avaliados em equivalente monetários, nem comprados ou vendidos. Os saberes resultam da experiência comum da vida em sociedade e não podem ser legitimamente assimilados ao capital fixo. (p. 33) Resulta que a chamada “economia do conhecimento” se sustenta expropriando – pilhando formas de vida, saberes comum que são experimentados no ato da sua criação. Toda a metodologia AGROSEBRAE, filha dileta do antes programa SAI se estruturou captando demandas e inventivas dos pequenos agricultores. A prática do SAI consistia em “missões” de campo. Estas missões tinham como objetivo captar “potencias produtivos”, organizações voluntárias, núcleos de cooperação, etc. Num primeiro momento o que os agentes faziam era ira á campo entender como os pequenos e médios produtores agrícolas se organizavam coletivamente do ponto de vista da produção. Após captarem este potencial é que propunham ações direcionadas para solução de problemas. Exemplo é quando verificavam a carência de gestão racional da produção e passavam a vender técnicas de gerenciamento; ou quando verificavam a carência de mercados curtos e estruturavam e orientavam grupos de produtores já previamente organizados em torno da produção via prefeitura, igreja ou poder público local. O primeiro momento da metodologia SAI foi frutífero e produtivo considerando os objetos do programa. Num segundo momento houve choque entre produtores e agentes de campo uma vez que quando o SAI passa a atuar no direcionamento da produção agrícola faz com agentes – técnicos recrutados na sociedade. Eram agentes que incorporavam rapidamente técnicas de produção e a metodologia do SAI, mas não podiam incorporar a vivência de campo, o envolvimento com a produção, pelo simples fato de que não serem produtores. Os produtores não confiavam em agentes treinados “em dois finais de semana” que lhes vinham ensinar a produzir. O programa incorpora rapidamente esta nova demanda, e passa a recrutar agentes que tinham vivencia, prática e comunicação compatível com a realidade dos pequenos produtores agrícolas. O programa se estrutura o tempo todo incorporando práticas de campo. Um dos principal feito do SAI foi detectar potencias produtivos e associativos, cabendo posteriormente ao AGROSEBRAE (que trocou de nome para incorporar novas experiências) atuar em grupos de produtores já formados, identificados e avaliados com potencial. É justamente esta capacidade da apropriação e privatização do comum que caracteriza historicamente o capitalismo. Cabendo, portanto, dialogar com a tese do capitalismo cognitivo nas transformações estruturais que tem acontecido na matriz produtiva. Recupero aqui a definição e o debate acerca do tema, postulando uma leitura das transformações apontadas acima pela via da produção do conhecimento. Para Bernard Paulré (2011), bem como para autores como, Christian Marazzi (2011); Toni Negri (2011); André Gorz (2005), dentre outros, o capitalismo cognitivo pode ser definido como: (...) a acumulação essencial do capitalismo contemporâneo é a acumulação cognitiva, assumida no sentido lato, compreendendo o conhecimento, a informação, a comunicação, a criatividade, em suma, as atividades da mente. É o papel central dessa acumulação que diferencia o capitalismo cognitivo do período histórico do qual recentemente saímos, o capitalismo industrial. Nesse último contexto, a acumulação é centrada principalmente no capital físico e na organização do trabalho. No período pós industrial (ou cognitivo), o investimento físico e a organização do trabalho não desaparecem, mas não são mais centrais e não constituem mais a orientação essencial da acumulação e do progresso. (p. 235-6) Trata-se, portanto, dum postulado que enfatiza que a acumulação e a expropriação do comum continuam sendo à base do capitalismo. O que muda com relação á rigidez do capitalismo dito industrial é que agora o conhecimento apropriado passa a ser valorizado e vendido. A base material continua existindo, sendo, todavia, valorizada a idéia, a subjetividade, e no limite o conhecimento cristalizado em determinado produto. Para André Gorz (2005) o saber se constitui e se confunde com a identidade cultural do sujeito, e que, portanto, faz dele (sujeito) que na new econome torna sua vida um business: O saber é, antes de tudo, uma capacidade prática, uma competência que não implica necessariamente conhecimentos formalizáveis, codificáveis. (...) Eles não são ensinados; aprendem-se-nos pela prática, pelo costume, ou seja, quando alguém se exercita fazendo aquilo que se trata de aprender a fazer. Sua transmissão consiste em apelar à capacidade do sujeito se produzir a si próprio. (...) O saber é apreendido quando a pessoa o assimilou ao ponto de esquecer que teve e aprendê-lo. (...) Os saberes comuns ativados pelo trabalho imaterial não existem senão em sua prática viva, e por ela. Eles não foram adquiridos ou produzidos em vista de trabalho que podem realizar ou do valor que podem assumir. Eles não podem ser destacados dos indivíduos sociais que o praticam, nem avaliados em equivalentes monetários, nem comprados ou vendidos. (p. 32-3) Temos, portanto, uma situação na qual o saber se distingue do conhecimento, haja vista que este segundo pode ser codificado, portanto transmitido “em bloco” ou apostilado. Com o saber, diferentemente isso não acontece. O melhor exemplo desta diferença pode ser dado entre se conhecer a gramática (código) duma língua e saber falar a língua produzindo o que ela tem de vivo que é a comunicação. O AGROSEBRAE “vende” conhecimento. Capta o potencial produtivo dos agentes no fluxo de suas ações, “digere”, transforma e transfere conhecimento codificado. Apontamentos finais Se o trabalho na agricultura se singulariza e distingue de qualquer outra atividade produtiva, pela própria necessidade de transformar sem aniquilar elementos vitais, a agricultura alternativa é a expressão melhor acabada deste tipo de atividade pela potencialidade subjetiva que carrega. Trata-se da composição imaterial e cognitiva de um tipo de produção carregada de significados (sem agrotóxico ou agressão ao meio ambiente, produzida á prezando “justo” recuperando ou preservando sabores, aparência, estética, etc.). Também, o lócus de manifestação destas experiências pode surpreender. No caso da pesquisa realizada, trata-se de região propagada aos quatro cantos como de monocultura canavieira. O que sugere o debate iniciado na década de setenta por Piore e Sabel (1985) sobre a formação de aglomerados produtivos, convivendo ou até se valendo da logística das grandes empresas. No caso do AGROSEBRAE apresentado e discutido aqui como singularidade composta por vertente agrícola do SEBRAE, trata-se de “instituição de novo tipo novo” que succiona, para utilizar terminologia cara à sociologia empresarial de base organizacional, transforma e potencializa o conhecimento. Posteriormente vende o “saber” transformado para os agentes que produziram o conhecimento. Referências bibliográficas GORZ, A. (2005), O Imaterial: conhecimento, valor e capital, São Paulo: Annablume. LAZZARATO, M. NEGRI, A.(2001), Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade, Rio de Janeiro: DP&A. MARAZZI, C. (2011) A violência do Capitalismo financeiro. In FUMAGALLI A. e MEZZADRA, S (eds.) 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