AGRICULTURA FAMILIAR EM ÁREAS DE RELEVÂNCIA AMBIENTAL: DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A ADOÇÃO DE PRÁTICAS AMBIENTALMENTE ADEQUADAS Ana Paula Gouveia Valdiones, Luiz Carlos Beduschi Filho [email protected], [email protected] Escola de Artes Ciências e Humanidades – Universidade de São Paulo RESUMO Apesar do crescimento urbano de São Paulo, o município ainda mantém principalmente em sua porção sul, remanescentes naturais importantes. Esses fragmentos proporcionam uma série de serviços ecossistêmicos que influenciam positivamente a qualidade de vida de seus habitantes. No caso do sul do Município percebe-se a sobreposição dessas áreas de relevância ambiental com localidades que têm traços marcantes de ruralidade. Na tentativa de manter e fomentar o caráter rural da região sul de São Paulo, mas também de conservar os fragmentos florestais ali existentes, atribui-se aos agricultores da região um papel relevante de prezar pela manutenção do bem público por meio de práticas de gestão da propriedade rural ambientalmente mais adequadas. Neste contexto, uma pergunta importante a se fazer é a seguinte: quais são os fatores que facilitam a adoção de práticas de gestão da unidade de produção rural mais benéficas à conservação ambiental? O que o trabalho de campo indicou foi que é a imersão dos agricultores em redes de relações sociais voltadas à concretização de uma agricultura sustentável na região do extremo sul de São Paulo é o principal fator que facilita a adoção de práticas mais sustentáveis de gestão da unidade de produção agrícola. A inserção nessas redes, que são descritas com detalhes no artigo, contribui para a valorização do agricultor, do seu trabalho e conhecimento, e do papel que desempenha na manutenção da qualidade ambiental dessa região de extrema relevância para a metrópole. Palavras-chave: região sul de São Paulo; ruralidade; conservação ambiental ABSTRACT Despite the urban sprawl of São Paulo, the city still remains mainly in its southern portion, the remaining important natural. These fragments provide a range of ecosystem services that positively affect the quality of life for its inhabitants. In the case of the south of the city realizes the importance of these areas overlap with environmental locations that have outstanding features of rurality. In an attempt to maintain and promote the rural character of the southern region of São Paulo, but also to conserve the existing forest fragments there is attributed to farmers in the region an important role in striving for maintaining the public good through management practices farm more environmentally appropriate. In this context, an important question to ask is: what are the factors that facilitate the adoption of management practices for rural production unit more beneficial to environmental conservation? What the fieldwork indicated that it was the immersion of farmers in social networks geared to achieving sustainable agriculture in the extreme south of Sao Paulo is the main factor that facilitates the adoption of more sustainable management of the unit agricultural production. The inclusion in these networks, which are described in detail in the article, contributes to the enhancement of the farmer, his work and knowledge, and the role it plays in maintaining environmental quality in this region of extreme relevance to the metropolis. Keywords: south of São Paulo; rurality; environmental conservation. Área Temática: Ciências Sociais e Desenvolvimento - Tema agrícola/rural INTRODUÇÃO O município de São Paulo, conhecido pela dinâmica urbana que anima seu território, possui uma série de outras características por vezes desconhecidas por seus habitantes. Ao norte e extremo sul do município, encontra-se quantidade expressiva da vegetação remanescente da cidade. Essas áreas verdes encontram-se concentradas ao norte na Serra da Cantareira e no extremo sul da cidade, principalmente nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Capivari-Monos e Bororé-Colônia. Esses fragmentos naturais são de grande relevância para a manutenção da qualidade de vida da população, uma vez que prestam quantidade expressiva de serviços ambientais (RAIMUNDO, 2006). Outra característica importante de São Paulo, concentrada no extremo sul, é a existência de traços de ruralidade, sendo a atividade agrícola uma forma de uso da terra ainda presente no município. Isso denota a confluência de dois aspectos importantes no extremo sul da cidade de São Paulo: o primeiro relaciona-se à relevância ambiental da região; enquanto o segundo refere-se ao fato de haver, em meio a uma cidade global (SASSEN, 2004), dinâmicas tipicamente rurais, ambos resistindo ao processo de expansão da mancha urbana. Nessa região, portanto, as unidades de produção rural adquirem novas funções, que vão além da produção agrossilvipastoril, havendo a atribuição de novos papéis sociais e ambientais. Essas áreas e as atividades que nelas se desenvolvem, se realizada adequadamente, podem auxiliar na conquista de um objetivo importante: a conciliação de conservação ambiental e desenvolvimento econômico (BELLENZANI, s.d.). Na busca por tentativas de conciliar o desenvolvimento com a conservação, surgem na região programas estaduais e municipais, projetos e outras ações orientadas a estimular a adoção de práticas produtivas menos impactantes do ponto de vista ambiental. Muitos agricultores são estimulados a reduzir o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas de origem petroquímica, a realizar novas atividades atreladas a conservação ambiental e a repensar e valorizar o papel do agricultor na região. Existem unidades de produção em processo de transição, migrando de sistemas convencionais de produção para sistemas agroecológicos ou explorando outros recursos existentes na unidade de produção. Ainda que não seja a totalidade dos agricultores que resolveu modificar as práticas de gestão da propriedade, o fato é que existem transformações em curso. Um questionamento que se apresenta relaciona-se ao porque que determinados agricultores optam por converter seus sistemas de produção para aqueles mais adequados ambientalmente. Ou, expressa de outra maneira, e sendo a pergunta que norteia esse artigo: quais são os principais fatores que facilitam a adoção de práticas de gestão da propriedade rural que beneficiam a conservação ambiental? Para conseguir responder a pergunta de pesquisa e, sobretudo, explicitar as conclusões dessa investigação, o presente artigo foi dividido em cinco partes, além dessa introdução. O item 2 traz uma apresentação do Município de São Paulo, ressaltando algumas características interessantes a essa pesquisa. No item 3 apresentamse os referenciais teóricos que subsidiam a pesquisa. No item 4 apresenta-se os aspectos metodológicos da pesquisa. Em seguida, o item 5 traz os principais elementos levantados em campo necessários para o entendimento do contexto. Por fim, no item 6 são apresentadas as conclusões do estudo e recomendações para pesquisas futuras e outras iniciativas que foquem o desenvolvimento local de áreas rurais atrelado à conservação da natureza. 2 - O Município de São Paulo Em contraposição aos conhecidos elementos urbanos do município, São Paulo compreende ainda expressivas áreas verdes. A cobertura vegetal existente em São Paulo é constituída basicamente por fragmentos de vegetação natural secundária que resistem ao processo de expansão urbana (SÃO PAULO, 2004). Essas áreas verdes encontram-se concentradas, em sua maior parte, no extremo sul do município, como nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Capivari-Monos (SÃO PAULO, 2004) e Bororé-Colônia. Segundo Raimundo (2006), os remanescentes naturais presentes na Região Metropolitana de São Paulo desempenham papel importante na qualidade de vida de seus habitantes, uma vez que proporcionam uma série de serviços ambientais1 que garantem a manutenção da metrópole. Como exemplo, pode-se citar a amenização das temperaturas do micro e meso clima e melhoria da qualidade do ar; a produção de água em quantidade e qualidade para o abastecimento; o oferecimento de espaços para o lazer e recreação dos habitantes da metrópole; e a oferta de produtos naturais diversos (RAIMUNDO, 2006). As APAs Municipais Capivari-Monos e Bororé-Colônia totalizam quase 1/4 do território da cidade de São Paulo. Ambas encontram-se em área de Proteção de Mananciais e estão situadas numa região que guarda parcela significativa da vegetação do município, integrando a Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo2. Outra particularidade dessas APAs Municipais, é que em seu território predomina o caráter rural, e a atividade agrícola é ainda fonte de renda de parte da população que habita essa área. O uso agrossilvipastoril, segundo Bellenzani (s.d.), tem papel de destaque na área, uma vez que, sendo adequadamente manejado, pode conciliar atividade econômica e conservação ambiental, evitando assim uma das principais ameaças a manutenção dos remanescentes florestais nessa região: a instalação de loteamentos irregulares. A partir dessa breve descrição da região sul de São Paulo, evidenciam-se duas características importantes do extremo sul do Município de São Paulo: (a) que se trata de uma área de relevância ambiental, dado os fragmentos florestais representativos dos ecossistemas naturais que contêm e que prestam diferentes serviços ambientais sem os quais, provavelmente, a qualidade de vida dos munícipes diminuiria; e (b) que apresenta traços de ruralidade, dado o fato de ter nessa região características rurais que têm resistido ao crescimento urbano e cuja manutenção e promoção são de interesse da sociedade, visto que constituem um dos objetivos das APAs ali criadas. Segundo Almeida (2006), áreas rurais próximas a grandes centros urbanos apresentam uma agricultura intensiva, baseada na produção de hortaliças, com degradação ambiental, sobretudo dos solos e dos recursos hídricos. Em contraposição a esses impactos ambientais, essas áreas possuem papel estratégico na produção e 1 Segundo Raimundo (2006:27), os serviços ambientais podem ser definidos como “[...] as condições e os processos pelos quais os ecossistemas naturais e as espécies que os compõem mantêm e asseguram a vida humana na Terra.”. 2 A Reserva da Biosfera do Cinturão Verde (RBCV) da Cidade de São Paulo faz parte de uma rede de áreas globais de relevante valor ambiental instituída pela UNESCO. Atualmente a RBCV caracteriza-se, segundo Mello-Théry & Correia (2009), como uma política ambiental. fornecimento de água para as populações urbanas, criando um histórico de tensão entre produtores e intervenções institucionais (ALMEIDA, 2006). Como aponta Abramovay (2000), nos Estados Unidos e nos países europeus a associação entre ruralidade e espaços naturais é muito evidente, sendo que, sobretudo na Europa, a preservação dos atributos naturais é uma importante preocupação das políticas públicas voltadas ao meio rural. Observa-se que é importante estar atento à minimização dos impactos da atividade agropecuária e também à promoção dos benefícios que esse tipo de uso do solo pode trazer, como, por exemplo, a manutenção de ecossistemas seminaturais e de paisagem de alto valor de amenidade e ambiental (BALDOCK; BEAUFOY3, 1993:19 apud ABRAMOVAY, 2000). Tem-se, portanto, um meio rural que passa a ser visto cada vez menos como um espaço fundamentalmente produtivo. Mas mesmo quando cumpre a função de oferta de produtos agropecuários, o rural está cada vez mais sujeito a pressões que indicam a necessidade do convívio entre essas atividades e valores naturais (ABRAMOVAY, 2000). Dessa forma, o meio rural converte-se, progressivamente, em um bem público (LACOMBE et al, 1998:23 apud ABRAMOVAY, 2002a). Ou seja, o espaço físico da propriedade de produção agrossilvipastoril, que outrora era apenas assunto privado, adquire funções que interessam a uma quantidade maior e mais diversa de atores (ABRAMOVAY, 2002a). Para além da produtividade, como relata Abramovay (2002a) para o cenário europeu, ganha espaço as discussões sobre as múltiplas funções sociais e ambientais da agricultura como, por exemplo, os cuidados com os recursos naturais e com a manutenção da biodiversidade. Podemos perceber no extremo sul de São Paulo esse crescente interesse de diferentes sujeitos para com as atividades agrícolas e não agrícolas que são desempenhadas na região. Novos atores começam a se inserir no cotidiano dos agricultores propondo maneiras de produzir segundo preceitos agroecológicos, como será discutido mais aprofundadamente no item 5. 3 – Contribuições das Escolas Econômicas Uma das formas de se interpretar as mudanças recentes referentes aos agricultores no extremo sul de São Paulo e suas práticas agrícolas e não agrícolas pode fundamentar-se nas contribuições das Escolas Econômicas. Tratemos primeiramente da Escola Neoclássica. Segundo tal abordagem, as pessoas enfrentam tradeoffs, ou seja, passam por situações de escolha conflitante. E, nesse momento, a tomada de decisão exige que sejam comparados os custos e benefícios de possibilidades alternativas de ação (MANKIW, 2001). Sendo assim, a tomada de decisão racional por uma ação só é feita quando o benefício marginal supera o seu custo marginal. Visto que a comparação de custos e benefícios é o que influencia o comportamento das pessoas, toda vez que essaa relação mudar haverá uma reação por parte dos agentes. Dessa forma, a tomada de decisão racional é modificada à medida que o mecanismo de preço oferece novos incentivos que alteram a relação custo/benefício (MANKIW, 2001). Nessa forma de ver a ação do agente econômico, uma interpretação seria a de que o aumento dos preços de produtos agroecológicos, acima de um patamar determinado que supere os custos marginais da modificação do sistema de produção, 3 BALDOCK, D.; BEAUFOY, G. Nature Conservation and New Directions in the EC Common Agricultural Policy. Londres, Arnhem (Holanda), Institute for European Environment Policy, 1993, 224p. seria suficiente para motivar a transição dos produtores convencionais. No entanto, algumas das condições colocadas pela Economia Neoclássica são contestas. North (1990) ao defender o papel das instituições no desempenho econômico coloca que seus pressupostos basais são insuficientes para explicar a realidade. Dado que os agentes têm racionalidade limitada (SIMON, 1947), as informações não estão totalmente disponíveis e nem totalmente transparentes. Existem graus de incerteza que foge ao controle do agente, sendo assim a tomada de decisão não está condicionada apenas ao cálculo de custo e benefício. Além disso, os indivíduos possuem escolhas que atendem também a fatores não-econômicos. Segundo Almeida (2006), no processo de modernização da agricultura, fez-se uso da racionalização econômica para a apresentação e difusão das novas técnicas, subordinando os processos produtivos e o comportamento dos agentes à lógica de mercado. Entretanto, a utilização da análise neoclássica para compreensão das decisõesações do produtor agrícola que coloca a racionalidade econômico-instrumental como única, excetua a diversidade de estratégias que podem referenciar o comportamento do agricultor (ALMEIDA, 2006). Outra alternativa teórica à adoção de determinados comportamentos pelos indivíduos pode fundamentar-se nas contribuições da Nova Sociologia Econômica (NSE). Uma questão clássica da teoria social é como as relações sociais afetam o comportamento do agente e as instituições, como apresenta Granovetter no capítulo intitulado “Economic action and social struture: the problem of embeddednes” (MARTES, 2009). A teoria clássica e neoclássica pressupõe que as relações sociais não afetam o comportamento racional e interesse pessoal (GRANOVETTER, 2007). Segundo Granovetter (2007), quando essas escolas por algum motivo esbarram nas relações sociais, as interpretam como obstáculos circunstanciais que inibem os mercados competitivos. Granovetter (2007) coloca a importância de se considerar o contexto social para a tomada de decisão dos atores, no entanto, eles não seguem estritamente roteiros específicos da categoria social que ocupam. As ações, para o autor, “estão imersas em sistemas concretos e contínuos de relações sociais” (GRANOVETTER, 2007). Segundo a proposta da “imersão” (embeddednes) das ações econômicas na estrutura social, tem-se uma nova configuração e as discussões sobre preferência e racionalidade, à medida que as relações sociais como, por exemplo, poder, amizade, aprovação e confiança, atuam diretamente sobre os comportamentos dos agentes econômicos (MARTES, 2009). Mizruchi (1994) relata que nas últimas décadas, multiplicaram-se as pesquisas que sugerem que o comportamento dos indivíduos e grupos é influenciado pelas redes sociais. As redes reforçam a colaboração e solidariedade e caracterizam-se como instrumentos eficazes na resolução de problemas (JACOBI; MONTEIRO, 2007a). Ao comentar sobre os teóricos de redes, Mizruchi (1994) afirma que para eles as redes concretas de relações sociais incorporam e transcendem as organizações e instituições convencionais. Outra consideração importante sobre a NSE refere-se a sua análise dos mercados, que passa dos mecanismos de formação dos preços para construções sociais. A ação econômica dos agentes estaria incrustada em estruturas sociais que acabam por moldar os mercados e influenciar o comportamento e a interação entre os agentes (BEDUSCHI FILHO, 2008). Uma vez que se entendem os mercados como estruturas sociais, pode-se dizer que a emergência de novos mercados depende da interação recorrente entre agentes com dotações desiguais de poder e diferentes interesses em um determinado contexto (BEDUSCHI FILHO, 2008). Nesse cenário, insere-se e pode ser entendida a emergência de mercados socioambientais4. Dessa forma, podem ser interpretadas as mudanças nas práticas de gestão da propriedade dos agricultores do extremo sul do Município de São Paulo, evidenciando a rede de relações sociais que estão inseridos e qual o papel dessas relações na adoção de novos comportamentos por parte dos agricultores. 4 - Descrição dos Procedimentos O procedimento metodológico constituiu-se do acompanhamento das reuniões ordinárias do Conselho Gestor (CG) da APA Bororé-Colônia durante o ano de 2010 e idas a campo para compreensão das dinâmicas que animam o território que constituiu a área de estudo. Com a intenção de identificar as organizações governamentais e não governamentais que atuam na área e sistematizar os projetos ambientais que foram desenvolvidos, foram realizadas entrevistas com informantes chaves (GEILFUS, 1997). As conversas informais com pessoas da região ou conselheiros da APA Bororé-Colônia também renderam informações na busca por projetos e atores relevantes à pesquisa. Uma vez identificadas as organizações, as entrevistas semi-estruturadas foram aplicadas, visando conhecer e sistematizar os principais aspectos dos projetos. Foram entrevistados: a coordenadora da ONG local Instituto Pedro Matajs, o técnico da ONG 5 Elementos, técnicos da Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) e da Casa de Agricultura Ecológica, o idealizador do Projeto Água Doce e o engenheiro agrônomo vinculado ao Solo Sagrado da Igreja Messiânica. A identificação dos agricultores que adotaram práticas de gestão da propriedade rural ambientalmente mais adequadas à conservação ambiental foi condicionada pelas indicações de técnicos e proponentes de projetos, bem como pelos próprios agricultores. Para a investigação dos possíveis fatores que facilitaram essa transição, também se utilizou entrevistas semi-estruturadas. Foram entrevistadas 13 famílias, de um universo, segundo os técnicos que ali atuam, de 200 unidades produtivas em uso na região, que usam preponderantemente sistemas convencionais de produção. No momento em que o foco estava nos agricultores, e também na investigação das relações sociais, houve a aplicação de dois métodos oriundos da Antropologia. A partir da participação direta em alguns momentos da vida dos agricultores, principalmente naqueles que incluem as atividades que propiciam o encontro entre produtores e outros atores envolvidos com a dinâmica rural da região, como em mutirões e festividades, houve a utilização do método denominado observação participante (GEILFUS, 1997). Com esse método, associada à “descrição densa” proposta por Geertz (1989), pretendeu-se ter uma compreensão mais profunda acerca dos valores e regras de comportamento do grupo, bem como revelar em quais relações e estruturas sociais os agricultores estão imersos (GRANOVETTER, 2007). 5 - Evidências empíricas do estudo Esse item apresenta os principais elementos apreendidos durante o trabalho de campo. Inicia-se com os projetos que ocorreram na região cujo foco foi agricultura 4 Numa discussão sobre como pode ser interpretada a emergência de mercados socioambientais, Beduschi Filho (2008) os define como aqueles que se afirmam a partir de atributos socioambientais como, por exemplo, os mercados de crédito de carbono, de produtos agroflorestais certificados e de comércio justo. sustentável e as principais mudanças na gestão das unidades produtivas incentivadas por essas ações. Algumas evidências apreendidas, sobretudo, durante as entrevistas, também constituem esse item. Discutiu-se, apoiando-se em alguns autores que versam sobre desenvolvimento e capital social, como as novas relações sociais que os agricultores inserem-se têm modificado parte de sua realidade. Por fim, concluiu-se com uma reflexão acerca da mudança institucional ocorrida recentemente na região, como os atores as tem interpretado e quais as expectativas para o cenário futuro. 5.1. Projetos voltados à Agricultura e mudanças na gestão das unidades produtivas Numa abordagem social construtivista tem-se que as questões ambientais são socialmente construídas, a partir da interação entre os diferentes atores sociais (BEDUSCHI FILHO, 2008). Dessa forma, pode-se interpretar o surgimento de projetos e ações com foco em agricultura sustentável na região sul de São Paulo como parte de um processo de construção de um problema ambiental relacionado à atividade agrícola convencional. Os principais atores sociais que defendem práticas de gestão da unidade de produção agrícola mais amenas ao ambiente são, nesse cenário, os integrantes de ONGs e gestores e técnicos da SVMA e de outros órgãos públicos, além de estudantes universitários que atuam em grupos de extensão. Atualmente, somam-se a esse grupo, alguns agricultores que, após sua participação nos projetos, tornaram-se multiplicadores dos ideais agroecológicos. A partir de um levantamento dos principais projetos desenvolvidos relacionados às práticas agrícolas e não-agrícolas mais benéficas a conservação ambiental, chegou-se a cinco projetos interessantes a esse trabalho. De fato, o levantamento não visou dar conta de todas as iniciativas existentes na região que de alguma forma abordem práticas agrícolas sustentáveis, mas focou nas ações voltadas diretamente aos produtores agrícolas. Esse tópico apresenta as principais mudanças nas práticas de gestão da unidade produtiva que foram realizadas incentivadas por esses atores supracitados. Trata-se de um item que tenta explicitar se, de fato, está havendo uma reorientação do comportamento dos agricultores. Dentre as práticas adotadas pelos agricultores, destaca-se a utilização da adubação verde que, por meio do cultivo de algumas espécies vegetais selecionadas, contribui para a reestruturação e enriquecimento do solo. A aquisição de sementes para adubação verde esteve, a priori, relacionada aos projetos, que por meio de articulações diversas, acabam fornecendo-as aos agricultores, mas existe também a coleta de sementes e a troca entre os próprios produtores. A coleta das sementes é estimulada tanto para adubação verde quanto para as demais culturas, visando à independência do agricultor e à qualidade das sementes que serão plantadas. O uso de biofertilizantes e outros compostos orgânicos mostram que a técnica da adubação orgânica também é bastante utilizada. O aumento da aplicação de técnicas alternativas para a reestruturação e recomposição dos nutrientes ao solo tem impacto direto na quantidade de insumos químicos utilizados na produção. Produzidos a partir de combustíveis fósseis e da extração de depósitos minerais, os fertilizantes sintéticos fornecem grandes quantidades de nutrientes às plantas em curto prazo. No entanto, seus componentes são facilmente lixiviados, podendo causar a eutrofização dos corpos hídricos (GLIESSMAN, 2002). A eliminação ou redução do uso de fertilizantes de origem petroquímica foram presenciadas em todas as propriedades visitadas. Essa mudança no manejo tem implicações importantes para a região, visto que as unidades produtivas encontram-se em área de proteção aos mananciais. O controle químico de pragas e de ervas adventícias também foi substituído por compostos naturais de mesma função. Ou então, a própria necessidade da utilização de qualquer defensivo foi quase que totalmente sanada devido às técnicas de adubação orgânica. Apesar dos agrotóxicos baixarem drasticamente a população de pragas em curto prazo, elimina também seus predadores naturais e implica no aumento da resistência das pragas ao produto, potencializando ataques futuros (GLIESSMAN, 2002). Isso leva a um ciclo de utilização de quantidades cada vez maiores dos defensivos químicos. Esses defensivos contaminam os recursos e afetam populações de animais em diferentes níveis, além de contribuir negativamente à saúde dos agricultores e dos consumidores desses alimentos (GLIESSMAN, 2002). No geral, a substituição dos fertilizantes e defensivos de origem petroquímica significou redução de custos para todos os agricultores. Outro ponto importante refere-se às transformações na paisagem da unidade de produção. O incremento na qualidade ambiental das propriedades foi algo tido, explicitamente, como importante para alguns dos entrevistados. As técnicas como tapete verde e cobertura morta, que garantem a proteção do solo, retêm a umidade e fornece matéria orgânica para as culturas, também foram presenciadas. Notaram-se algumas articulações feitas entre agricultores e organizações para obtenção da matéria orgânica, ressaltando o papel dessas técnicas no destino adequado dessa classe de resíduos, ao reincorporá-los ao solo e não os transformando em encargos ao poder público e privado. Outras práticas para conservação do solo ligadas, sobretudo, à diminuição da erosão e exaustão do solo são plantações seguindo curvas de nível e a rotação e diversificação de culturas. A partir da rotação, é possível melhorar também o controle das plantas e insetos, por meio da quebra do seu ciclo de desenvolvimento (5 ELEMENTOS, 2010). Além dessas técnicas de manejo da produção agrícola, pode-se incluir uma atividade extrativista que foi observada na região. A atividade que começa a se consolidar entre alguns agricultores trata-se da coleta de sementes da Jussara (Euterpe edulis Mart.) para extração da polpa e comercialização para fabricação de sucos e, do que se tornou famoso nos últimos anos na região Sudeste, açaí “na tigela”. Como as unidades de conservação da região ainda não têm seus planos de manejo concluídos, a captação e beneficiamento das sementes de Jussara ocorrem em propriedades particulares do entorno e com a supervisão de profissionais associados ao projeto. Na verdade, o que acontece é uma tentativa de valorização da Jussara. A utilização dos frutos dessa palmeira atua na redução de outra prática comum no extremo sul de São Paulo, e de modo geral em toda a área de ocorrência dessa espécie, que é o corte para extração do palmito. É válido lembrar que a Jussara faz parte do grupo de espécies elencadas na lista oficial das espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção5. De modo geral, as novas técnicas adotadas aparecem como alternativas às práticas da agricultura convencional que conduzem, segundo Gliessman (2002), ao declínio da biodiversidade, perturbam o equilíbrio natural dos ecossistemas e compromete a base de recursos naturais da qual tanto a agricultura como a sociedade dependem. Além disso, a substituição dos fertilizantes sintéticos e defensivos químicos implica na diminuição da dependência da agricultura dos insumos externos, que deixa produtores e regiões vulneráveis à falta de fornecimento, flutuações de mercado e aumento de preços (GLIESSMAN, 2002). 5 A Instrução Normativa nº6 de Setembro de 2008 traz a lista oficial das espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção. Disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/179/_arquivos/179_05122008033615.pdf. Acesso em: 12/11/2010 5.2. Os Agricultores Nesse item são feitas algumas considerações baseadas, sobretudo, nas entrevistas com os diferentes atores, acerca das relações sociais que os agricultores estão inseridos. Do universo de agricultores entrevistados que hoje adotam práticas mais benéficas à conservação ambiental na região sul do Município de São Paulo, pode-se fazer uma divisão em dois subgrupos: (a) os agricultores convencionais em fase de transição para sistemas mais sustentáveis, onde a renda obtida com a agricultura é a principal na composição dos ganhos familiares e que, mesmo sendo considerados pequenos produtores, geralmente, cultivam maiores áreas que os demais agricultores entrevistados; e (b) aqueles agricultores que vêem na atividade agrícola um complemento à renda da família. Não praticam, portanto, uma agricultura muito intensiva, sendo a produção relativamente pequena. Embora esses subgrupos, nessa análise, possuam muito mais características semelhantes do que distintas, optou-se por explicitar esse traço que levou à subdivisão, uma vez que ele influencia no tempo de interiorização das técnicas agroecológicas. Numa visita a uma das famílias de agricultores que está em processo de transição da agricultura convencional para a orgânica, percebeu-se que o processo é bastante demorado. Nesse caso, o primeiro contato com o tema agricultura sustentável teve início há quatro anos e, dessa data até hoje, houve um aprofundamento do conhecimento acerca da agroecologia. Ainda assim, a propriedade apresenta apenas 5% da área, aproximadamente, com produção orientada para uma agricultura sustentável. No entanto, a família vem presenciando bons resultados da cultura e venda de produtos orgânicos. Isso, associado à expectativa de que os custos da produção agroecológica diminuam e que haja incentivos públicos a produção orgânica, fizeram com que a vontade seja de conversão de maiores áreas. O que foi notado nesse grupo de agricultores definidos como convencionais em transição para a agricultura agroecológica, é o receio das novas técnicas fracassarem e da produção ser perdida. O processo de interiorização das idéias apresentadas nos projetos e aplicação das técnicas é mais demorado nesse subgrupo. Somado a incerteza da conversão, tem os demais agricultores convencionais que fazem comentários desestimulantes para quem quer se empenhar em novos tipos de manejo. Para Mauri, assim como para outros agricultores entrevistados, o convencimento do outro passa por exemplos de agricultores agroecológicos dando certo. Dessa forma, percebe-se que o efeito demonstrativo – bem-sucedido – tem efeito indutor na adoção de novas práticas agropecuárias. Alguns agricultores que aprenderam os preceitos agroecológicos, propagam as novas técnicas para alguns vizinhos e amigos, que vão, aos poucos, sendo convencidos e modificando as práticas de gestão da unidade de produção. Dessa forma, esses produtores passam de agricultores convencionais para multiplicadores locais. Esse receio de adotar novas práticas tem proporções diferenciadas no caso daqueles produtores que possuem renda associada a outras atividades. A diversificação de atividades e de renda diminui os riscos da adoção de novas técnicas. No entanto, a conversão e produção agroecológica, o preparo de compostos, etc, também tem um tempo para acontecer, e vai evoluindo gradativamente, devido ao fato da dedicação a atividade agrícola não ocupar integralmente o seu tempo (salvo nos casos que a outra fonte de rende seja aposentadoria). Agora, iniciam-se pontos convergentes entre os dois subgrupos delimitados. As características comentadas a partir daqui são, em maior ou menor grau, compartilhadas por todos os entrevistados. Uma das principais observações feitas acerca dos agricultores entrevistados refere-se à valorização do trabalho do agricultor. Ao longo do tempo, a agricultura familiar foi sendo desvalorizada e julgamentos prévios a condenaram ao desaparecimento ou à marginalidade (GUILHOTO et al, 2005). O que foi notada durante o trabalho no campo é uma grande dificuldade de se encontrar pessoas querendo trabalhar com agricultura e muitas famílias que desistiram dessa atividade. No entanto, no grupo dos produtores entrevistados essa desvalorização do agricultor familiar não se expressou. Na publicação oriunda de um dos projetos realizados apresenta-se como um dos resultados qualitativos “[...] o aumento da autoestima dos agricultores, que passaram a exercer suas atividades com uma percepção mais complexa e profunda da agricultura, mudando a relação com o ambiente e tendo mais clareza sobre seu papel na organização da plantação e na sociedade.” (5 Elementos, 2010:47) Ainda que esse dado refira-se unicamente a um dos projetos, não era ponto isolado dos agricultores participantes de outras iniciativas. Eles passam a perceber o quanto o papel da agricultura é relevante no contexto em que estão inseridos para a manutenção da qualidade ambiental. Outro ponto que toca a questão da valorização pode ser explicitado por uma situação comum nas atividades de campo: a apresentação pelos agricultores dos seus produtos agroecológicos, seja em suas casas durante a entrevista ou em eventos onde havia comercialização. Existe um prazer em apresentar os produtos agroecológicos, o que segundo uma apicultura da região não acontecia antes: “Eu tinha vergonha de comercializar meus produtos, agora não.”. O reconhecimento dos produtos como diferenciados acorreu em diversos momentos, seja na hora de oferecer algo na mesa, ou durante as caminhadas pelas unidades produtivas ressaltando a boa aparência da produção. Outro ponto interessante na valorização do trabalho, dos produtos e do conhecimento do agricultor é o exemplo dessa apicultora, que está envolvida em mais um projeto com foco em agricultura sustentável para o próximo ano, no entanto, ela passa de participante, para a posição de idealizadora junto à um instituto atuante na região. Isso vai ao encontro com os estudos de Sen (1999) sobre desenvolvimento, onde afirma que os indivíduos devem se tornar agentes ativos de mudanças e não permanecerem como beneficiários passivos. Sobre o indivíduo na condição de agente, Sen (1999) ressalta que ele participa das ações econômicas, sociais e políticas, envolvendo-se, direta ou indiretamente, conjunto ou individualmente, em diferentes esferas. Os agricultores pesquisados, em sua maioria, conheciam parte expressiva dos coordenadores dos projetos levantados e participaram de algum mutirão, evento ou palestra desenvolvida por outros projetos dos quais não faziam parte. O contato recorrente com técnicos da Casa de Agricultura Ecológica ou da SVMA também foi admitido por todos e, para alguns, foi elemento que auxiliou na transição. Houve um estreitamento das distâncias entre os atores: agricultores passam a se conhecer e alguns se articulam, com o apoio de outras organizações, para a comercialização dos produtos orgânicos; o contato constante com técnicos de órgãos públicos permite que haja o intercâmbio de informações; e permear pelos diferentes projetos permitiu aos agricultores acumularem novos conhecimentos. Ao ser interrogado se houve aumento na quantidade de trabalho, à medida que se converte para a produção orgânica, um agricultor disse: “Aumenta, mas você consegue controlar suas horas, e se torna um trabalho gostoso. Quando eu era empregado [o dono falava]: ‘você vai carpir hoje’, das 7h às 17h carpindo, pode estar sol o que for. Agora não, eu vou carpir até as nove, vou para estufa, vou vender meus negócios, está muito quente vou para a sombra...”. Com essa passagem, o produtor indica algo percebido em outros momentos: ampliaram-se as escolhas dos indivíduos envolvidos com as novas práticas de gestão da unidade de produção agrícola o que, segundo Sen (1999), é tanto fim como meio para o desenvolvimento. A submissão dos preços dos produtos agrícolas às especulações dos intermediários e às altas nos preços dos insumos e defensivos químicos, que refletem variáveis do mercado global, são outros exemplos de privações vividas pelos agricultores. À medida que eles readquirem a capacidade de lidar com a produção de maneira a diminuir os insumos externos, como no caso da utilização de biofertilizantes; ou quando eles participam da emersão de novos mercados locais pautados pela venda direta, como em um dos casos vistos no trabalho de campo, algumas dessas privações vão sendo substituídas por novas alternativas. Dessa forma, alimenta-se um dos preceitos para o desenvolvimento colocado por Sen (1999), que é o de remover fontes de privação de liberdade. No entanto, é preciso se atentar para o fato de que as barreiras ainda não foram todas eliminadas e existe uma série de restrições a serem vencidas. Sobre a abordagem de Amartya Sen acerca do desenvolvimento, Abramovay (2002b: 13), ao concordar com o autor, coloca que “Não basta que a lei garanta certos direitos: o essencial é que os indivíduos tenham as capacidades, as qualificações, as prerrogativas de se deslocar, de participar dos mercados e de estabelecer relações humanas que enriqueçam sua existência.” A ocorrência desses fenômenos é percebida nas novas relações sociais que os agricultores se inserem, bem como em seus depoimentos. Um grupo de produtores que se juntaram e conseguiram participar da emergência de um mercado socioambiental local. Antes, a comercialização pelos integrantes desse grupo dos produtos orgânicos era mais difícil devido as quantidades individuais reduzidas. A venda direta para uma instituição local só foi possível por meio dos subsídios teóricos e práticos fornecidos e construídos junto aos agricultores e devido à articulação de diferentes atores. Retomando ainda a frase do Abramovay (2002b), o estabelecimento de relações humanas que enriquecem a existência do indivíduo também foi percebido. Durante as entrevistas foram recorrentes frases como “conhecer pessoas que nem imaginava...”, além de presenciar a participação de parte dos agricultores em eventos locais e outras atividades que integravam todos os principais projetos que ocorreram na região com foco na agricultura. Por intermédio dos idealizadores dos projetos, alguns produtores viajaram para conhecer sistemas agroflorestais ou para fazer cursos relacionados à agricultura biodinâmica. Essas evidências mais objetivas, mas também baseadas em observações um tanto quanto subjetivas, como, por exemplo, a relação de amizade e descontração entre os agricultores durante os eventos e mutirões, corroboram o entendimento de que ali as relações sociais que se estabeleceram enriquecem a existência dos indivíduos e ampliam as suas perspectivas de atuação na sociedade. Nesse momento, cabe uma análise baseada no conceito de capital social, conceito relativamente novo que, segundo Jacobi & Monteiro (2007b), exprime uma indagação bastante antiga que trata da importância das relações sociais para os processos de desenvolvimento. Abramovay (2002b:5) o define, resumidamente, como “laços de confiança, de compromissos, de vínculos de reciprocidade capazes de estimular os contatos sociais e as iniciativas das pessoas”. A partir dessa definição, pode-se dizer que algo está sendo construído nesse sentido junto aos agricultores da região sul. As redes comunitárias e a relação estado-sociedade têm gerado, mesmo que pontualmente, maior participação, complementaridade e sinergia nas ações entre outros elementos emergentes que podem desencadear um processo de desenvolvimento local. A partir das entrevistas, nota-se que os agricultores perceberam os benefícios pessoais e coletivos que a coordenação e cooperação podem trazer. Existe uma idéia, mais ou menos firmada entre os agricultores, que para atingir determinados objetivos comuns, nesse caso, a solidificação de uma agricultura sustentável na região sul, é necessário uma atuação conjunta. No entanto, o tempo empregado nas atividades que visam uma articulação maior entre os agricultores e os demais atores concorre com o tempo que precisa ser despendido nas atividades agrícolas o que, segundo alguns agricultores, torna-se um empecilho a uma participação mais efetiva. Mesmo assim, alguns começam a ocupar cadeiras de representação nos Conselhos Gestores das APAs e a acompanhar as reuniões do Grupo de Agricultura e Desenvolvimento Rural Sustentável. Com a inserção de novos atores, a gestão compartilhada e descentralizada tende a se solidificar, sendo que, para Dowbor (2008), essa é uma exigência para a solução dos desafios que se colocam a nível local. 5.4. Mudanças Institucionais Recentes Esse tópico visa tratar de algumas mudanças que ocorreram recentemente nas “regras do jogo”, para usar um termo empregado por North (1990). No mês de setembro de 2010, durante as pesquisas de campo, foi assinado o Decreto nº 518016, que regulamenta o Programa de Agricultura Urbana e Periurbana no Município de São Paulo. Além disso, no dia 23 do mesmo mês, foi firmado o Protocolo de Boas Práticas Agroambientais, que visa estimular a adoção da agricultura orgânica e sustentável na cidade e é uma das ações da política municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável e do projeto do Governo do Estado, Guarapiranga Sustentável7. A intenção é que, por meio do programa municipal Agricultura Limpa – Desenvolvimento Rural Sustentável8, os agricultores das bacias hidrográficas Billings e Guarapiranga convertam seus sistemas produtivos do convencional para a agricultura agroecológica. A partir da data de assinatura, os produtores passaram há ter quatro anos para conseguirem cumprir todas as diretivas, recebendo o Selo de Indicação de Procedência Guarapiranga. Esse selo garante a diferenciação do produto no mercado, indicando que o consumidor desses produtos colabora para a manutenção do caráter rural na região sul, o que garante o abastecimento dos mananciais. Prometeram-se, ainda, incentivos à comercialização dos produtos agroecológicos e assistência técnica aos produtores9. Até o momento da pesquisa, tinham assinado o protocolo cerca de 20 agricultores, parte deles é os que foram entrevistados para essa pesquisa. 6 O Decreto Municipal confere nova regulamentação a lei n. 13727, de 12 de janeiro de 2004, que cria o programa de agricultura urbana e periurbana (PROAURB) e revoga o decreto n. 45665, de 29 dezembro de 2004. ¹³ Informações obtidas no website da Prefeitura do Município de São Paulo, <http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/sala_de_imprensa/releases/index.php?p=40539 Acesso em: 27/09/2010. em: >. ¹4 PORTARIA Nº 001/SMSP/ABAST/2010. 9 Informações obtidas no website da Prefeitura do Município de São Paulo, <http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/sala_de_imprensa/releases/index.php?p=40539 Acesso em: 27/09/2010. em: >. O efeito dessas mudanças sobre a realidade da agricultura no extremo sul do Município só poderá ser conferido daqui algum tempo. No entanto, a transformação do ideal de uma agricultura limpa e sustentável para a região em política pública faz crer que os ventos sopram a favor das práticas agroecológicas. Para que as intenções expressas em papel se concretizem, os atores começam a se mobilizar. O grupo de trabalho voltado à agricultura nas APAs se reuniu buscando esclarecer a todos sobre o que essas novas determinações significam na prática e como articular ações e iniciativas para potencializar os resultados. A expectativa é que novas organizações se insiram nessa rede de relações sociais e que passem a construir, junto aos agricultores, alternativas aos comportamentos convencionais, auxiliando na formação de capital social e no processo de desenvolvimento local. 6 – Conclusão As conclusões a que se chega quanto aos fatores que facilitam a adoção de práticas de gestão da unidade de produção a partir desse artigo podem ser diversas: durante o processo de transição o agricultor é valorizado, os custos com insumos caem e o produtor tem maior liberdade econômica, ao passo que pode escolher entre confeccionar seu próprio adubo ou comprar os sintéticos; entre outros pontos que vieram à tona no decorrer da apresentação dos dados e da discussão. No entanto, o que se pretendeu explicitar é que esses elementos são conseqüências geradas a partir do envolvimento dos agricultores nos projetos e da adoção das novas técnicas. O que está na base, portanto, é a “imersão” desses produtores e de outros atores numa rede de relações sociais que possibilitou que houvesse uma reorientação do comportamento do indivíduo e também do grupo. Ou seja, o fato dos agricultores se inserirem em novas relações sociais é o que apresenta a eles alternativas aos comportamentos convencionais. A imersão dos agricultores nessa rede de relações sociais pode ser tida como o principal fator que facilita a adoção de práticas mais benéficas à conservação ambiental e, é por meio dela e pelo contato com novos atores que o agricultor aumenta sua auto-estima e potencializa suas ações. Os laços de confiança e os vínculos de reciprocidade têm auxiliado na organização dos agricultores. Os produtores entrevistados estão iniciando um processo de empoderamento e começam a ocupar as cadeiras de representação destinadas a eles. As práticas mais amenas a conservação ambiental tornam-se meio para o empoderamento e desenvolvimento local, à medida que rompe com privações vivenciadas pelas áreas rurais e periurbanas. A partir do reconhecimento das novas funções sociais e ambientais das áreas rurais e periurbanos, políticas públicas, mesmo que de maneira embrionária, vão sendo formuladas e aplicadas somando às ações voltadas à consolidação de novos sistemas agrários. A expectativa é que, a partir do fortalecimento desses agentes sociais, eles passem a influenciar na formulação e aplicação dessas políticas públicas que visam à consolidação de uma agricultura sustentável no município. A pesquisa realizada deixa uma série de questionamentos em aberto. Uma pergunta que pode ser feita para complementar o estudo sobre a influência das relações sociais na adoção de práticas de gestão da propriedade mais benéficas à conservação ambiental é a seguinte: por que determinados agricultores que, mesmo tendo participado de projetos e conhecendo atores importantes na difusão dos princípios agroecológicos, não modificaram sua forma convencional de produzir? Entender melhor por que determinados agricultores não adotam práticas agroecológicas poderiam render bons frutos à compreensão dos fatores que orientam o comportamento dos agricultores em prol da conservação ambiental. REFERÊNCIAS10 5 ELEMENTOS – Instituto de Educação e Pesquisa Ambiental. Educação Ambiental para a agricultura orgânica nas APAs Bororé-Colônia e Capivari-Monos. São Paulo: 5 Elementos, 2010. ABRAMOVAY, R. Funções e medidas da ruralidade no desenvolvimento contemporâneo. Rio de Janeiro: IPEA, 2000. ABRAMOVAY, R. 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