FACULDADE DE PARÁ DE MINAS Curso de Matemática Ana Cláudia Mendes Rezende A APLICAÇÃO DO DESENHO GEOMÉTRICO NAS SÉRIES FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL Pará de Minas 2013 Ana Cláudia Mendes Rezende A APLICAÇÃO DO DESENHO GEOMÉTRICO NAS SÉRIES FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL Monografia apresentada à Coordenação de Matemática da Faculdade de Pará de Minas como requesito parcial para conclusão do curso de Matemática. Orientadora: Mestranda Andréia Fonseca Aguiar Pará de Minas 2013 Ana Cláudia Mendes Rezende A APLICAÇÃO DO DESENHO GEOMÉTRICO NAS SÉRIES FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL Monografia apresentada à Coordenação de Matemática da Faculdade de Pará de Minas como requesito parcial para conclusão do curso de Matemática. Aprovada em ____ / ____ / ____ Orientadora: Profª Mestranda Andréia Fonseca Aguiar Examinador: Ms. Anderson Baptista Leite Dedico este trabalho à minha família pela fé e confiança demonstrada, aos meus amigos pelo apoio incondicional, aos professores pelo simples fato de estarem dispostos a ensinar, à minha orientadora pela paciência demonstrada no decorrer do trabalho, enfim a todos que tornaram este caminho mais fácil de ser percorrido. Agradeço a Deus, o que seria de mim sem a fé que tenho nele, aos meus pais e toda a minha família, pelo carinho, apoio e por não medirem esforços para que eu chegasse até aqui, à minha orientadora Andréia pela compreensão, aos amigos pelo apoio e incentivo constante. “Não há método fácil para se aprender Matemática (ou qualquer outra coisa). A segurança que se pode adquirir em um assunto tem uma só origem: a prática, a experiência muitas vezes repetida onde os insucessos têm valor quanto os sucessos.” Eduardo Wagner Geométricas – Construções RESUMO O objetivo desta pesquisa é mostrar a importância do estudo das Construções Geométricas nas séries finais do ensino fundamental para o desenvolvimento do pensamento geométrico e principalmente pretende-se apontar uma metodologia de ensino que possa auxiliar na aprendizagem desse conteúdo. Através de uma pesquisa bibliográfica pode-se analisar a aplicação do Desenho Geométrico nas séries finais do ensino fundamental, a história da Geometria, e principalmente do Desenho Geométrico, seu desenvolvimento e ensino no Brasil, o motivo pela qual se tornara um conteúdo optativo nas escolas nas décadas de 60 e 70 e seu ressurgimento após tantos anos. Este trabalho almejou ainda mostrar o que se ensina ou o que se espera que seja ensinado nas séries finais do ensino fundamental, através do que é proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) e o que é empregado nos livros didáticos. Procurando uma forma que facilite o ensino-aprendizagem de Geometria, é discorrido sobre o uso da tecnologia da informática e seus softwares como, por exemplo, o Geogebra, que é uma ferramenta de Geometria dinâmica gratuita, podendo ser instalado por qualquer pessoa e em qualquer lugar. Palavras-chave: Construções Geométricas. Geometria. PCN. Tecnologia da Informática. Geogebra. ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 – Exercícios demonstrativos geométricos .............................................. 22 FIGURA 2 – Ponto médio de um segmento ............................................................. 23 FIGURA 3 – Retas paralelas .................................................................................... 24 FIGURA 4 – Retas perpendiculares ......................................................................... 25 FIGURA 5 – Bissetriz de um ângulo ......................................................................... 26 FIGURA 6 – Tela inicial do Geogebra ...................................................................... 30 FIGURA 7 – 1º Passo ............................................................................................... 32 FIGURA 8 – 2º Passo ............................................................................................... 33 FIGURA 9 – 3º Passo ............................................................................................... 33 FIGURA 10 – 4º Passo ............................................................................................. 34 FIGURA 11 – 5º Passo ............................................................................................. 35 FIGURA 12 – Ferramenta Mover ............................................................................. 35 FIGURA 13 – Triângulo ABC .................................................................................... 36 FIGURA 14 – Mediatriz ............................................................................................ 36 FIGURA 15 – Mediatrizes ......................................................................................... 37 FIGURA 16 – Circuncentro ....................................................................................... 37 FIGURA 17 – Construção da Mediatriz .................................................................... 38 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS FAPAM – Faculdade de Pará de Minas LDB – Lei das Diretrizes e Base da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação MMM – Movimento da Matemática Moderna PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais PCN’s – Parâmetros Curriculares Nacionais TI – Tecnologia da Informática SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................ 10 2 2.1 2.2 2.3 HISTÓRIA DA GEOMETRIA .................................................................. 13 A Geometria Euclidiana ........................................................................ 14 O ensino da Geometria no Brasil ......................................................... 15 O ensino do Desenho Geométrico no Brasil ...................................... 17 3 O PCN E O ENSINO DO DESENHO GEOMÉTRICO .............................. 19 3.1 Parâmetros Curriculares de Matemática .............................................. 19 3.2 Livros Didáticos...................................................................................... 21 4 INFORMÁTICA E EDUCAÇÃO MATEMÁTICA ..................................... 28 4.1 Softwares e as Construções Geométricas .......................................... 28 4.1.1 Velhas e novas tecnologias do ensino da Geometria...............................30 4.2 Explorando as diferenças instrumentais e conceitos ..................... 31 4.3 Zona de Risco.. ..................................................................................... 39 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................... 40 6 REFERÊNCIAS ........................................................................................ 42 10 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho busca estudar a seguinte questão: Qual a metodologia indicada para se ensinar Desenho Geométrico a alunos das séries finais do Ensino Fundamental? Construções Geométricas é abordagem matemática com a qual me identifiquei, uma vez que já tinha estudado em um curso profissionalizante e pude perceber o quão importante ela é. Na escola regular não tive a oportunidade de me aproximar deste conteúdo, se não tivesse visto no curso profissionalizante, teria dificuldade no ensino superior. Também pude observar durante a realização dos estágios propostos pela Faculdade de Pará de Minas (FAPAM), que muitos professores não detêm os conhecimentos geométricos necessários para a realização de suas práticas e que em livros didáticos, muita das vezes a Geometria é tratada apenas como definições, propriedades, nomes e fórmulas. A exigência da monografia para a conclusão do Curso de Licenciatura em Matemática constituiu-se em uma ocasião apropriada para que eu procurasse aprofundar os meus conhecimentos a respeito do tema. Portanto este trabalho busca investigar a importância das Construções Geométricas para alunos do ensino fundamental, procurando uma metodologia de ensino – aprendizagem que facilite seu estudo. Tive por finalidade desenvolver a investigação através uma pesquisa bibliográfica, que segundo Lakatos e Marconi: Trata-se de levantamento de toda bibliografia já publicada, em forma de livros, revistas, publicações avulsas e imprensa escrita. Sua finalidade é colocar o pesquisador direto com tudo aquilo que foi escrito sobre determinado assunto. (2001, p. 43 – 44) A pesquisa foi feita em cima da leitura de livros, periódicos científicos, teses, dissertações e informações, sendo colocados em fichas, na qual facilitou o processo de investigação. Busco, através da leitura, relatar a história das Construções Geométricas e consequentemente da Geometria, desenvolvendo uma metodologia que possa facilitar a interação entre o aluno e até mesmo o professor, com o conteúdo, que muitas vezes acaba não sendo trabalhado dentro da sala de aula, por falta de preparo ou informação. 11 (...) não há método fácil para se aprender Matemática (ou qualquer outra coisa). A segurança que se pode adquirir em um assunto tem uma só origem: a prática, a experiência muitas vezes repetida onde os insucessos têm valor quanto os sucessos. (WAGNER, 2000, Prefácio) Através da análise de uma coleção de livros didáticos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, Matemática de Edwaldo Bianchini, adotado atualmente por algumas escolas da rede pública de Pará de Minas e dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), busco analisar o que se ensina (ou se espera que seja ensinado) de Geometria no ensino fundamental e apresento atividades que possam trabalhar a Geometria, fundamentando a importância e o significado da realização dessas atividades. Ao observarmos ao nosso redor, podemos perceber como as Construções Geométricas estão presentes no nosso cotidiano, em objetos, na arquitetura de casas e prédios, em cursos profissionalizantes e superiores, dentre outros. Formas Geométricas aparecem em cerâmicas, pinturas de diversas culturas, na maioria em tudo que está a nossa volta, com a presença de formas como triângulos, quadrados e círculos, além de outras mais complexas. As construções geométricas promovem o desenvolvimento do raciocínio lógico, a criatividade, desenvolve a imaginação, a iniciativa, a capacidade de organização e o pensamento divergente. Além disso, as Construções Geométricas trazem benefícios para a vida acadêmica e social das pessoas. O desenho geométrico é a base necessária para a execução de qualquer tipo de desenho de precisão. Desenvolve o raciocínio lógico e é útil na obtenção de soluções aproximadas de problemas matemáticos, além de complementar o estudo da Geometria plana. (Bongiovanni. Elder. Luciano. 2007, p.9) Construções Geométricas é um instrumento fundamental e de total importância para o aprendizado da Geometria, deve-se buscar resgatar esse ensino do esquecimento e mostrar sua importância. A Geometria e as Construções Geométricas estão interligadas, ao se aprender Desenho Geométrico, o aluno desenvolverá a capacidade de planejar, projetar ou abstrair, podendo dessa forma ser usado em diferentes campos da Matemática. “O desenho geométrico é uma interpretação de realidade geométrica, visual, emocional e intelectual, feito por meio de representação gráfica”. (WAGNER, E. 2000, Prefácio). É grande a importância das Construções Geométricas para 12 alunos e professores, uma vez que serve como base à Geometria. Dessa forma é importante buscar uma metodologia que facilite a aprendizagem para professores e alunos. No próximo capítulo é feita uma análise da história da Geometria e do Desenho Geométrico, como foi o início de seu desenvolvimento na Grécia antiga, a importância da Geometria Euclidiana e o livro Os Elementos de Euclides, além de acontecimentos que marcaram a história da educação Matemática no Brasil. O terceiro capítulo destaca os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) documento elaborado pelo Ministério da Educação (MEC) com a finalidade de orientar as políticas públicas e práticas escolares do ensino básico brasileiro. Ainda analisa uma coleção de livros didáticos e o conteúdo de Desenho Geométrico trabalhado por eles, comparando-os às propostas dos PCN’s. Procurando uma metodologia que facilite a aplicação da Geometria em sala de aula, pode-se observar, no quarto capítulo, que o uso da tecnologia da informática pode ser um meio de aprendizagem com softwares que auxiliam no conteúdo de Geometria, utilizando Construções Geométricas, trazendo benefícios não só para os professores como também para os alunos. Utilizando um software livre, como o Geogebra, na qual qualquer instituição de ensino possa ter acesso por ser gratuito, pude observar o quanto facilita a aprendizagem de Geometria, por ser uma ferramenta de Geometria dinâmica. Nas considerações finais volto à problemática inicial, mostrando e justificando as conclusões encontradas a partir das pesquisas. 13 2 A HISTÓRIA DA GEOMETRIA A palavra grega Geometria é composta por geo que significa terra e metria que significa medida, ou seja, Geometria é a denominação encontrada pelos egípcios e babilônicos em tempos distantes para a medição de terra e segundo Mlodinow (...) a cobrança de imposto foi, talvez, o primeiro imperativo para o desenvolvimento da geometria, pois embora teoricamente o faraó possuísse todas as terras e bens, na realidade os templos e até os indivíduos em particular possuíam imóveis. O governo determinava os impostos da terra baseado na altura da enchente do ano e na área de superfície das propriedades (MLODINOW, 2010, p. 18-19). Devido a isso os egípcios desenvolveram métodos para calcular a área de um quadrado, de um retângulo e de um trapezoide, para demarcarem suas terras após as enchentes do rio Nilo. Os conhecimentos egípcios foram empregados para fins impressionantes, por exemplo, um projeto de estrutura que contava com uma base quadrangular e faces triangulares, contendo uns 145 metros de altura, o que hoje é denominado como pirâmides, que eram construídas para os grandes faraós, considerados como deuses. Para esta construção precisava-se de um harpedonopta que literalmente significa um esticador de cordas. As cordas utilizadas tinham nós em determinadas distâncias, que poderiam servir como vértices, podendo formar triângulos com lados de comprimentos determinados. Segundo Mlodnow (2010), as construções das pirâmides e templos pelas civilizações egípcia e babilônica são o testemunho mais antigo de um conhecimento sistemático da geometria. Contudo, muitas outras civilizações antigas possuíam conhecimentos de natureza geométrica, desde a Babilônia à China, passando pela civilização Hindu. Na Astronomia a utilização da Geometria pelos babilônicos, teve sua revolução através da observação de astros. Todos os feitos dos egípcios e a engenhosidade dos babilônicos contribuíram e muito para a matemática, além de fornecerem aos gregos conhecimentos para suas realizações. Segundo Miskulin: 14 A História da Geometria, assim como muitos outros temas em desenvolvimento e transformação, apresenta duas vertentes básicas interrelacionadas: a primeira caracteriza-se pela extensão do conteúdo da Geometria e a segunda, pela mudança da forma da Geometria. (MISKULIN, 1994, p. 72). São esses paradigmas que permearam o desenvolvimento histórico da Geometria. Conforme Miskulin (1994), a Geometria teve início na antiguidade, e gradualmente foi se desenvolvendo, alcançando atualmente uma dimensão enorme. Num primeiro momento, a observação originada da habilidade humana de reconhecer formas físicas, de comparar figuras e tamanhos, apresentava um caráter intuitivo, uma vez que não havia a preocupação e nem a necessidade de se axiomatizar tais descobertas, pois dessa forma atingiam-se os objetivos necessários e imediatos dos povos. Além disso, as circunstâncias das primeiras civilizações conduziam ao desenvolvimento da Geometria através de grandes descobertas que emergiam das suas próprias necessidades de sobrevivência. Tais descobertas eram pensadas e refletidas dentro de cada cultura específica. A necessidade de delimitar terras gerou a noção de figuras geométricas, a partir das construções de muros ou habitações, surgiam os conceitos de verticalidade, paralelismo e perpendicularismo. Os povos antigos tiveram a necessidade de desenvolver um raciocínio mais elaborado, devido à busca de soluções para os problemas diários, dessa forma, passaram a construir seus objetos de uso individual e coletivo, utilizando conceitos geométricos. 2.1 A Geometria Euclidiana Conforme Putinok, Foram os gregos que deram um molde dedutivo à matemática. A obra Elementos, de Euclides (323-285 a.c), é um marco de valor inestimável, na qual a Geometria é desenvolvida de modo bastante elaborado. É na Geometria grega que nasce o Desenho Geométrico. Na realidade, não havia entre os gregos uma diferenciação entre Desenho Geométrico e Geometria. O primeiro aparecia simplesmente na forma de problemas de construções geométricas, após a exposição de um item teórico dos textos de Geometria. Essa conduta Euclidiana é seguida até hoje em países como a França, Suíça, Espanha, etc., mas infelizmente, os problemas de construções foram há muito banidos dos nossos livros de Geometria. (PUTINOK, 1993, p. 8) 15 Euclides de Alexandria viveu entre 300 e 200 a.C. e desenvolveu o método axiomático (estrutura lógica de pensamento). Ele pegou um pequeno número de conceitos geométricos simples e demonstrou todos os demais como consequência lógica do primeiro. Sua abordagem deu nova forma a filosofia e definiu a natureza da Matemática até o século 19. Sua obra teve grande influência, estando entre as mais lidas de todos os tempos. A obra "Os Elementos" não contém toda a Geometria Grega, nem constituise em um resumo dela. Não resta dúvida de que, na obra de Euclides, está uma grande parte da Matemática, que os gregos anteriores a Euclides e o próprio Euclides elaboraram, porém essa parte não foi tomada ao acaso, mas selecionada de acordo com um critério prefixado, que transforma esse conjunto de conhecimentos em um sistema. (MISKULIN, 1994, p.74) Os elementos de Euclides representam uma importante contribuição para a metodologia das Ciências, de um modo perfeito, o tipo de Geometria que dominou as ciências durante todo o período compreendido entre a antiguidade e a época moderna. A mais importante contribuição de Os Elementos de Euclides foi o seu método lógico inovador, dessa forma garantindo a compreensão de todas as palavras e símbolos, apresentando de forma clara os axiomas ou postulados e deduzindo as consequências lógicas do sistema, empregando somente regras de lógica aceitas, aplicadas aos axiomas e aos teoremas previamente demonstrados. A demonstração significa que a intuição deve ser provada rigorosamente. O objetivo de Euclides era que o seu sistema fosse livre de suposições não reconhecidas baseadas na intuição e em conjecturas. Euclides formulou 23 definições, cinco postulados geométricos e cinco postulados adicionais que chamou de “noções comuns”. 2.2 O ensino da Geometria no Brasil Para Pavanello, (...) o abandono do ensino da Geometria, não se deveu ao desenvolvimento da matemática, que o teria supostamente tornado desnecessário, ou à conclusão de que sua contribuição para o aluno não é importante. (PAVANELLO, 1993) No início do século XX, no Brasil, a maioria da população era analfabeta e não tinham acesso à educação. O ensino secundário era pago e destinado às 16 pessoas da elite, sem aplicações práticas e com livros que desenvolviam os assuntos progressivos e sistemáticos como um todo. Alguns acontecimentos sociais, políticos, econômicos e culturais, repercutiram no campo educacional. Em 1930 foi criado o Ministério da Educação e Saúde, que reestruturava o ensino superior. O ensino da Geometria deveria ter explorações intuitivas, conforme Pavanello (1993). Segundo Zuin, “a partir da década de 60 do século XX, não só as construções geométricas vinham sendo desprezadas, o ensino da geometria Euclidiana também sofreu corte de diversos tópicos no Brasil”. Com influência das mudanças do ensino nos Estados Unidos e Europa, iniciase mais tarde o Movimento da Matemática Moderna (MMM) no Brasil, na qual se queria colocar uma Matemática a serviço das necessidades sociais. O ensino da Geometria veio a ser reduzido ou excluído das instituições escolares. Isso aconteceu devido à necessidade de modificar a Matemática ensinada no secundário aproximando-a da Matemática ensinada nas universidades e utilizadas nas pesquisas. (...) com princípios centrados no rigor e abstração, no formalismo e na Geometria não Euclidiana, uma das intenções do Movimento da Matemática Moderna era associar três campos fundamentais da Matemática: a Aritmética, a Álgebra e a Geometria. (MIKUSKA, 2011, p. 6953) No entanto, desde o final do século XIX, uma crise havia-se estabelecido no ensino da Matemática escolar, que culminaria com o desprestígio da Geometria Euclidiana. As escolas públicas foram as mais afetadas, já as escolas dirigidas pela elite continuaram com o ensino da Geometria. Seguindo o Movimento da Matemática Moderna, os livros didáticos já não apresentavam tanto a Geometria em seus textos didáticos, aumentando o seu descaso, já que não se usava mais a Geometria dedutiva. A Geometria deveria ser trabalhada sob o aspecto das transformações, muitos professores estavam despreparados para tal abordagem, dessa forma deixaram de ensinar os conteúdos geométricos, trabalhando principalmente a Álgebra ou a Aritmética e Teoria dos Conjuntos. A partir da Geometria nasce o desenho geométrico que é uma forma de concretizar os conhecimentos teóricos da Geometria. 17 2.3 O ensino do Desenho Geométrico no Brasil As construções geométricas tiveram grande importância no desenvolvimento da Matemática. Na antiguidade, os gregos tiveram a ideia de representar uma grandeza qualquer por um segmento de reta. Segundo Wagner (2009), podemos visualizar um número real positivo associando a um ponto de uma semirreta graduada. Hoje, podemos associar um número real x assim: | | | 0 1 x Antigamente, a mesma ideia era vista assim: A B Segundo Marinho, et al. (2010), entre 1931 a 1971, o Desenho Geométrico permaneceu no Brasil como componente curricular escolar, “apesar da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1961, propor opções onde o Desenho não seria uma matéria obrigatória nos currículos, ela permaneceu até aparecer neste mesmo período uma emergente desvalorização da disciplina”(p.2). Com a promulgação da Lei nº 5692 da LDB em 1971, o Desenho Geométrico torna-se uma disciplina optativa, muitas escolas aboliram o ensino do mesmo, segundo Pavanello (1993), ocorreu um gradual abandono da Geometria, principalmente em escolas públicas. De acordo com Zuin , no início da década de 70, pode-se falar que existia uma escola para a classe trabalhadora e outra para a elite. Sendo assim, as construções geométricas com régua e compasso eram destinadas a um grupo específico da sociedade, sendo sonegada à classe trabalhadora grande parte dos conhecimentos geométricos. As escolas profissionalizantes, dentro do Desenho Técnico trabalhavam as construções geométricas, pré-requisito indispensável, mas as construções eram apresentadas desligadas da teoria da Geometria Euclidiana. Para o povo apenas o acesso a um saber pragmático. (ZUIN) 18 As construções geométricas com régua e compasso que faziam parte da Geometria nos Elementos de Euclides foram seguidas até o início do século XX, apenas mais tarde na Europa elas foram desvinculadas da Geometria como saber escolar. Em vestibulares de Arquitetura e Engenharia na década de 70, não se via mais a obrigatoriedade de utilizar instrumentos para as construções geométricas, como a régua e o compasso. Sendo este um dos motivos para a dispensa do Desenho Geométrico nas escolas. (...) o ensino oferecido a uma classe não era o mesmo destinado a outra. Conhecimentos acerca do Desenho Geométrico que estimulavam o raciocínio lógico-dedutivo eram aplicados somente às escolas de elite, enquanto as classes menos favorecidas estudavam Educação Artística voltada para o trabalho manual onde não há um estímulo ao raciocínio lógico. (MARINHO, J. 2010) Muitas escolas permaneceram ministrando o ensino das Construções Geométricas, porém como Educação Artística. Até a década de 80 este quadro permaneceu, o Ensino do Desenho Geométrico veio a ser revalorizado por parte de editoras que lançaram coleções de livros didáticos para 5ª a 8ª série. Apenas em 1998, com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) de Matemática para 3º e 4º ciclo do ensino fundamental, ou seja, do 6º ao 9º ano, demonstra-se uma real preocupação ao ensino das construções geométricas neste nível de ensino. As construções geométricas continuam até hoje a ter grande importância na compreensão da Matemática elementar. Seus problemas desafiam o raciocínio e exigem sólido conhecimento dos teoremas de geometria e das propriedades das figuras e não é exagero dizer que não há nada melhor para aprender geometria do que praticar as construções geométricas. (WAGNER, 2009, p i) As construções geométricas são de fundamental importância para uma boa aprendizagem de Geometria, sendo importante para compreensão, fixação e imaginação criativa, auxiliando o raciocínio lógico e exercitando a mente. 19 3 O PCN E O ENSINO DO DESENHO GEOMÉTRICO 3.1 Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática A proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) surge no final do século passado com a finalidade de orientar as políticas públicas e práticas escolares do ensino básico brasileiro, após as décadas de 60 e 70, em que o ensino da Matemática no Brasil, assim como em outros países, passava por um movimento de renovação, ou seja, o Movimento da Matemática Moderna. Os PCN’s estabelecem: (...) uma meta educacional para a qual devem convergir as ações políticas do Ministério da Educação e do Desporto, tais como os projetos ligados a sua competência na formação inicial e continuada de professores, à análise e compra de livros e outros materiais didáticos e à avaliação nacional. Têm como função subsidiar a elaboração ou a revisão curricular dos Estados e Municípios, dialogando com as propostas e experiências já existentes, incentivando a discussão pedagógica interna das escolas e a elaboração de projetos educativos, assim como servir de material de reflexão para a prática de professores. (BRASIL, 1998, p. 36) Os PCN’s foram elaborados de forma a respeitar as diversidades regionais, culturais e políticas que existem no país, além de considerar a necessidade de construir referências comuns em todo o país. No que se refere à Matemática os PCN’s consideram: (...) a Matemática é componente importante na construção da cidadania, na medida em que a sociedade utiliza, cada vez mais, de conhecimentos científicos e recursos tecnológicos, dos quais os cidadãos devem se apropriar. A aprendizagem em Matemática está ligada à compreensão, isto é, à apreensão do significado; aprender o significado de um objeto ou acontecimento pressupõe vê-lo em suas relações com outros objetos e acontecimentos. Recursos didáticos como jogos, livros, vídeos, calculadora, computadores e outros materiais têm um papel importante no processo de ensino aprendizagem. Contudo, eles precisam estar integrados a situações que levem ao exercício da análise e da reflexão, em última instância, a base da atividade matemática. (BRASIL, 1998) A partir de 1998, os PCN’s de Matemática propõem traçados geométricos com régua e compasso, reabilitando a forma de trabalhar a Geometria, que estava esquecida, segundo Zuin “... retomam o ensino das construções geométricas com régua e compasso, salientando o seu valor, não só no estudo da geometria, mas associados a outros conteúdos nas aulas de Matemática”. 20 No ensino fundamental os PCN’s têm dentre muitos objetivos, o de questionar a realidade utilizando o pensamento lógico, a criatividade, a intuição, a capacidade de análise critica para resolver determinadas situações problemas. Para alunos do 6º e 7º ano, denominado nos PCN’s como 3º ciclo, é valorizado o desenvolvimento do pensamento geométrico, auxiliando os alunos a resolverem situações problemas na qual envolvam figuras geométricas planas, utilizando processos como a decomposição e composição, transformação, ampliação e redução auxiliados pelos instrumentos para a construção de desenhos geométricos. Segundo Zuin, a utilização dos instrumentos de desenho aparece com finalidades determinadas quando se coloca que um dos aspectos que merecem (...) atenção neste ciclo é o ensino de procedimentos de construção com régua e compasso e o uso de outros instrumentos, como esquadro, transferidor, estabelecendo-se a relação entre tais procedimentos e as propriedades geométricas que neles estão presentes. É importante que essas atividades sejam conduzidas, de forma que mantenha ligações estreitas com o estudo de outros conteúdos, em particular com as atividades numéricas, métricas e com a noção de proporcionalidade. (ZUIN, p. 10 - 11) Para alunos do 8º e 9º ano, denominado como 4º ciclo, é destacado alguns objetivos específicos nos PCN’s de Matemática: Do pensamento geométrico, por meio da exploração de situações de aprendizagem que levem o aluno a: interpretar e representar a localização e o deslocamento de uma figura no plano cartesiano; produzir e analisar transformações e ampliações/reduções de figuras geométricas planas, identificando seus elementos variantes e invariantes, desenvolvendo o conceito de congruência e semelhança; ampliar e aprofundar noções geométricas como incidência, paralelismo, perpendicularismo e ângulo para estabelecer relações, inclusive as métricas, em figuras bidimensionais e tridimensionais. (BRASIL, 1998.) A abordagem do espaço e forma no PCN é determinada uma vez que se colocam situações em que sejam necessárias construções geométricas com régua e compasso. O aluno passa a desenvolver um tipo de pensamento que lhe permite compreender, descrever e representar, de forma organizada o mundo em que vive. Para Zuin, os PCN’s dão ênfase ao ensino das Construções Geométricas, uma vez que: (...) as discussões sobre as conseqüências da redução ou exclusão dos conteúdos de geometria no ensino fundamental, nos diversos eventos científicos, dirigidos para a Matemática, Educação e Educação Matemática, 21 frutos de pesquisas, influíram nas propostas dos PCN de Matemática. (ZUIN) 3.2 Livros didáticos De acordo com Zuin, nas décadas de 60 e 70, o Movimento da Matemática Moderna foi vinculado principalmente pelos livros didáticos, que durante longo período, teve grande influência. Os livros didáticos são um dos instrumentos mais utilizados pelos professores para organização das atividades e desenvolvimento dentro da sala de aula, portanto é necessário que seja muito organizado tanto para o professor que o tem como material de apoio pedagógico, quanto para o aluno que o auxilia ao estudar sozinho. É enfatizado pelo PCN de Matemática (...) procedimentos de observação, representações e construções de figuras, bem como o manuseio de instrumentos de medidas que permitam aos alunos fazer conjecturas sobre algumas propriedades dessas figuras. Desse modo, o estudo do espaço e das formas privilegiará a observação e a compreensão de relações e a utilização das noções geométricas para resolver problemas, em detrimento da simples memorização de fatos e de um vocabulário específico. Trabalhar com as construções geométricas possibilitaria aos alunos visualizar, elaborar conjecturas, entender e fazer demonstrações. (Zuin) Ao analisar a coleção de livros didáticos do autor Edwaldo Bianchini “Componente curricular: Matemática”, 2006, para alunos do 6º ao 9º ano em relação ao que é proposto pelo PCN, percebe-se que os capítulos se iniciam com uma breve introdução ou história, seguida de definições, gráficos, tabelas, aplicações e outros. Há bastante contextualização nos exercícios propostos, com alguns envolvendo situações problema que abordam as mais diversas áreas do conhecimento, além de curiosidades e questões do dia-a-dia das pessoas e da sociedade. Exercícios que envolvem as Construções Geométricas através do auxilio de régua e compasso, estão bem presentes nestes livros, como podemos ver a seguir, no capítulo de congruência de triângulos: 22 FIGURA 1 – Exercícios demonstrativos geométricos Fonte: Componente Curricular: Matemática, 2006, p. 159, 8º ano. Na coleção, os conceitos são abordados por meio de recursos como textos, imagens e fatos históricos. A teoria é explicada com linguagem clara e objetiva, acessível ao aluno, contribuindo para a autonomia de estudo. A disciplina é trabalhada de acordo com a realidade do aluno, na qual é percebida em várias situações da vida. Nessa coleção é apresentada construções geométricas, que aparecem como atividades complementares ou até mesmo como capítulos inteiros dedicados à 23 conteúdos específicos dentro do Desenho Geométrico, como podemos perceber a seguir, no livro do 8º ano do ensino fundamental. FIGURA 2 – Ponto médio de um segmento Fonte: Componente Curricular: Matemática, 2006, p. 16, 8º ano. A seguir podemos perceber algumas construções geométricas presentes nos livros da coleção Matemática do ensino fundamental, na qual ensina passo a passo como se constroem retas paralelas, uma reta perpendicular à outra reta, bissetriz de um ângulo, utilizando régua e compasso. 24 FIGURA 3 – Retas paralelas Fonte: Componente Curricular: Matemática, 2006, p. 13, 8º ano. 25 FIGURA 4 – Retas Perpendiculares Fonte: Componente Curricular: Matemática, 2006, p. 145, 8º ano. 26 FIGURA 5 – Bissetriz de um ângulo Fonte: Componente Curricular: Matemática, 2006, p. 18, 8º ano. 27 Através desta análise pode-se perceber que nos livros em questão as Construções Geométricas estão presentes. Há uma visão mais abrangente dos traçados geométricos integrados à Geometria Euclidiana. Sobre esse conteúdo o PCN sugere que se questione a realidade utilizando o pensamento lógico, a criatividade, além de auxiliar em problemas fazendo com que o aluno tenha um olhar crítico sobre determinadas situações. O documento busca utilizar instrumentos como régua e compasso em suas ilustrações, quando quer demonstrar uma construção geométrica, além de exercícios que exigem uma construção passo a passo. Em relação à análise desta coleção, a mesma encontrase de acordo com o PCN, uma vez que as Construções Geométricas presentes são justificadas, mostrando aos alunos porque a mesma dá certo. Nas atividades está presente o traçado com régua e compasso e exercícios que focam em desenvolver a criatividade do aluno. 28 4 INFORMÁTICA E EDUCAÇÃO MATEMÁTICA O uso da Tecnologia Informática (TI) nas escolas é um recurso que deve ser bem aproveitado para melhor construção do conhecimento do aluno. Ela é vista como uma opção para ajudar a solucionar alguns problemas relacionados à educação, como a falta de motivação, além de ser um passo para preparar o jovem para o mercado de trabalho. Entretanto é preciso considerar que o uso dessa tecnologia depende muito da forma como é interpretada e colocada em prática pelos professores. Segundo Borba e Penteado (2003) “o computador, portanto, pode ser um problema a mais na vida já atribulada do professor, mas pode também desencadear o surgimento de novas possibilidades para seu desenvolvimento como um profissional da educação.” (p. 15). De acordo com Borba e Penteado (2003), no ensino da Matemática, o uso da TI pode apontar alguns perigos para a aprendizagem, como, por exemplo, o raciocínio matemático passa a ser realizado pelo computador, o aluno não precisará raciocinar mais e deixará de desenvolver sua inteligência, limitando a aprendizagem prática. Porém se bem trabalhada, isso não acontece, pois o aluno pode raciocinar em cima dos problemas propostos pelo professor antes de colocar em prática em softwares dinâmicos, o que auxilia na construção de seu conhecimento. 4.1 Softwares e as construções geométricas Softwares utilizados para meios educacionais possuem diversas capacidades e propriedades que devem ser reconhecidas e aproveitadas tanto pelos professores, mas principalmente pelos alunos, para a melhor construção de seu conhecimento e resolução de situações problemas propostas pelo professor, esse que deve saber conduzir e propor bem o uso do software, dessa forma consegue-se obter êxito no ensino-aprendizagem. O uso de softwares de geometria dinâmica, recurso que possibilita a transformação contínua, em tempo real, ocasionado pelo “arrastar”, apresentam ferramentas com as quais os alunos podem realizar construções geométricas, que são feitas pelo manuseio de régua e compasso, além de auxiliar no melhor aprendizado do conteúdo trabalhado, uma vez que a exploração de softwares de 29 Geometria Dinâmica nos permite realizar, com certa facilidade, investigações sobre propriedades geométricas que dificilmente conseguiríamos observar sem esse recurso. Também possibilita despertar o interesse do aluno devido às cores, ao dinamismo e à importância dada aos computadores do ponto de vista social, que tem sido objetivo da maioria dos professores. A escolha de um software a ser instalado na escola depende desde a condição financeira até a estrutura técnica e pedagógica, uma vez que é necessário ambiente, preparo dos professores, equipamentos e manutenção. Para Borba e Penteado (2003), com a instalação de softwares, os computadores passam a ser uma ferramenta útil à aprendizagem, uma vez que proporciona descobertas que antes do uso dos mesmos seriam pouco viáveis. No mercado, os professores contam com diversos softwares educacionais disponíveis, que possibilitam o enriquecimento de suas aulas, tornado-as mais dinâmicas e atrativas, dentre eles temos o Cabri Géomètre e o GeoGebra. O Cabri Geometre é um software educativo que permite construir e explorar objetos geométricos interativamente, foi criado por Jean Marie Laborde e Franck Bellemain, no Institut d’Informatique et Mathematiques Appliquees de Grenoble, (IMAG) França. Segundo Yuriko Yamamoto Baldin e Guilherme Antonio Lobos Villagra “CABRI é a abreviatura de Cahier de Browllon Interactif (caderno de rascunho interativo).” No Brasil é um dos softwares mais conhecidos atualmente, é um software custeado. Para o ensino – aprendizagem o Cabri torna a linguagem Matemática mais agradável, instigando o aluno a investigar, para confirmação de resultados. Dando ênfase ao uso de um software livre, o GeoGebra pode ser instalado por qualquer pessoa e em qualquer computador, sem exigências de pagamento. É um software de Geometria Dinâmica que reúne Geometria, Álgebra e Cálculo e permite a construção de pontos, figuras geométricas, segmentos, retas, vetores, cônicas e gráficos de funções, facilmente pode ser modificada devido à dinâmica. O Geogebra foi o objeto da tese de doutorado de Markus Hohen Warter na Universidade de Salzburgo, Áustria, com o objetivo de obter um instrumento adequado ao ensino da Matemática, combinando procedimentos geométricos e algébricos. 30 A seguir está representado a tela inicial do Geogebra, composta por uma barra de menus, uma barra de ferramentas, a janela de álgebra, a janela de visualização, o campo de entrada de texto, um menu de comandos e um menu de símbolos. Há duas formas de dar instruções a ele: via barra de ferramentas e por meio do campo de entrada. FIGURA 6 – Tela inicial do Geogebra Fonte: Software GeoGebra 4. 4.2 Velhas e novas tecnologias no ensino da Geometria Com base no saber matemático sobre Construções Geométricas enfatizando recursos como a régua e o compasso, em comparação ao uso de software educativo e dinâmico como o Geogebra, é importante ressaltar os aspectos cognitivos desses instrumentos. Na Geometria, as construções com régua e compasso, segundo WAGNER (1998, p.1) “aparecem no século V aC, época dos pitagóricos, e tiveram enorme importância no desenvolvimento da Matemática grega”. Na época de Euclides 31 (século III aC) o conjunto dos números continuava discreto e o das grandezas contínuas passaram a serem tratados por métodos geométricos. Para WAGNER se sabe que a partir dos gregos surgiu uma espécie de álgebra geométrica em que a palavra construir era o sinônimo do termo resolver. Em uma construção no papel, é necessário lápis e manuseio de régua e compasso, que estão fundamentadas em axiomas que correspondem aos postulados e definições da Geometria Euclidiana. Já no computador, utilizando softwares como o Cabri Géomètre ou GeoGebra, a construção é feita apenas com o auxílio do mouse e do teclado. O objetivo final se diferencia, uma vez que com régua e compasso o aluno busca construir corretamente o que foi proposto através de técnicas ensinadas pelo professor ao passo que essas técnicas são descartadas na geometria dinâmica, pois o computador faz a construção para o aluno. Na geometria dinâmica o mais importante é trabalhar problemas mais complexos, que necessitem de mais raciocínio do que especificamente das simples construções. A estrutura também se diferencia, mas vale ressaltar que a construção feita no computador não é apenas o desenho, mas a versatilidade das construções que podem ser transformadas em outros desenhos mediante manipulação, o que caracteriza a Geometria Dinâmica. Os alunos costumam ter dificuldades para interpretar e manusear as construções com régua e compasso embora o seu uso seja imediato, já com softwares em computadores é necessário o domínio operatório que não se adquire da noite para o dia. 4.2.1 Explorando as diferenças instrumentais e conceitos Para averiguar as diferenças e conceitos instrumentais será feita uma construção com régua e compasso e outra utilizando o software de geometria dinâmica Geogebra. O processo de construção do circuncentro de um triângulo que é obtido pelo cruzamento das três mediatrizes (retas perpendiculares a um segmento nos seus pontos médios) de seus lados, podendo também ser denominado como centro da circunferência circunscrita ao triângulo (circunferência determinada pelos três vértices), por meio do Geogebra se dá da seguinte forma: 32 Ative a ferramenta POLÍGONO e clique em três lugares distintos para formar um triângulo. Para fechar o triângulo clique novamente no primeiro ponto. Obviamente, os pontos não podem estar alinhados. Um triângulo com vértices A, B e C será criado. FIGURA 9 – 1º Passo Fonte: Software GeoGebra 4. Ative a ferramenta MEDIATRIZ. Clique sobre o lado c para criar a reta d, em seguida clique sobre o lado b para criar a reta e logo depois sobre o lado a para criar a reta f. 33 FIGURA 10 – 2º Passo Fonte: Software GeoGebra 4. Selecione a ferramenta INTERSEÇÃO DE DOIS OBJETOS e clique sobre as retas d, e e f. O ponto D será criado. FIGURA 11 – 3º Passo Fonte: Software GeoGebra 4. 34 Ative a ferramenta EXIBIR/ESCONDER OBJETO, clique sobre as retas d, e e f e em seguida pressione. Agora, vamos modificar o nome do ponto D para Circuncentro, clicando com o botão do lado direito do mouse sobre o ponto D e selecionando a opção renomear. Na nova janela que aparecerá, escreva Circuncentro e clique OK. FIGURA 12 – 4º Passo Fonte: Software GeoGebra 4. Ative a ferramenta CÍRCULO DADOS CENTRO E UM DE SEUS PONTOS, clique no ponto Circuncentro e posteriormente em um dos vértices do triângulo ABC. Uma circunferência g será criada. 35 FIGURA 13 – 5º Passo Fonte: Software GeoGebra 4. Ativando a ferramenta mover e arrastar, pode-se mudar o triângulo de posição, movendo um de seus vértices que o círculo permanece circunscrito ao mesmo, sendo uma ferramenta importantíssima da geometria dinâmica. Movendo o vértice A, verificamos que o círculo permanece circunscrito ao triângulo ABC. FIGURA 14 – Ferramenta Mover Fonte: Software GeoGebra 4. 36 Com o uso de régua e compasso, a mesma construção fica da seguinte forma: 01 – Traçar um triângulo ABC, com medidas quaisquer. FIGURA 15 – Triângulo ABC Fonte: Software GeoGebra 4. 02 – Traçar a mediatriz dos segmentos AB, BC e CA. Com a ponta seca do compasso no ponto A, traçar uma circunferência com uma medida qualquer, em seguida com a ponta seca do compasso no ponto B, traçar outra circunferência com a mesma medida da circunferência anterior, na interseção das duas circunferências marcar os pontos D e E, e traçar uma reta r que passe pelos dois pontos,que é a mediatriz que passa pelo segmento AB, isso será feito nos vértices B e C respectivamente. FIGURA 16 - Mediatriz Fonte: Software GeoGebra 4. 37 FIGURA 17 - Mediatrizes Fonte: Software GeoGebra 4. 03 – Na interseção das três retas, r, s e t marcar o ponto J que será o centro da minha circunferência que passa pelos vértices A, B e C, ou seja, o circuncentro do triângulo. FIGURA 18 - Circuncentro Fonte: Software GeoGebra 4. 38 Questionamentos: para a construção geométrica acima, quando usamos o software Geogebra, é só clicar na ferramenta mediatriz que ela aparece, ao passo que com a régua e o compasso, se faz necessário outras construções, baseadas em figuras planas. Segundo Wagner, A mediatriz de um segmento AB é a reta perpendicular a AB que contém o seu ponto médio. Para construir, traçamos dois círculos de mesmo raio, com centros em A e B. Sejam P e Q os pontos de interseção desses círculos. A reta PQ é a mediatriz da AB porque sendo APBQ um losango, suas diagonais são perpendiculares e cortam-se ao meio. É importante lembrar da seguinte propriedade: A mediatriz de um segmento é o conjunto de todos os pontos que equidistam dos extremos do segmento. (WAGNER, 2000, p. 4) FIGURA 19 – Construção da Mediatriz Fonte: Software GeoGebra 4. Enquanto com régua e compasso utiliza-se lápis e papel, no computador apenas utiliza-se o mouse, o teclado e alguns comandos. Utilizando régua e compasso exige maior coordenação motora, sendo necessário seguir vários passos, senão pode ocorrer um erro de distância por menor que seja, e a construção acabar não dando certo, porém com o compasso pode fazer um arco, sem fechar a circunferência, o que não ocorre com o Geogebra quando se utiliza a ferramenta circunferência O computador cria novas possibilidades e sem o professor e suas intervenções, o aluno geralmente, não é capaz de avançar muito, afinal, cabe ao professor de Matemática criar condições e possibilidades para que a experiência do aluno seja enriquecedora. A utilização de régua e compasso e do computador no ensino de Matemática são instrumentos que podem mediar a formação de noções geométricas devido suas potencialidades, tendo em mente que para se fazer uso do computador o aluno deve 39 ter noção de como se faz o manuseio de régua e compasso para uma construção, porém nem sempre é possível considerar que régua e compasso estejam no mesmo contexto que o computador e vice-versa. Com o computador é possível fazer o desenho e a manipula-lo experimentalmente, com a régua e o compasso permite-se o desenho e seguindo teorias relativas ao saber geométrico. 4.3 Zona de risco A prática docente não deve ficar imune à presença da tecnologia informática, por isso deve-se inovar, o que causa medo nos professores. Segundo Borba e Penteado (2003) “alguns professores procuram caminhar numa zona de conforto, onde quase tudo é conhecido, previsível e controlável”, não se aproximam do que se pode chamar de zona de risco, onde é preciso avaliar as consequências das ações propostas. A zona de risco está ligada ao risco da perda de controle e obsolescência, que pode provir em decorrência de problemas técnicos e da diversidade de caminhos e dúvidas que surgem quando os alunos trabalham com um computador. O computador pode nos fornecer a resposta com outra pergunta, e mesmo que o professor tenha preparo, requer uma exploração cuidadosa ou até mesmo discussão com outras pessoas. Para manter-se na zona de risco, o professor deve movimentar-se em busca de novos conhecimentos, ou seja, estar em constante atualização em relação a TI, além de estar sempre buscando novos conhecimentos. Segundo Borba e Penteado, (2003) “muitos professores desistem quando percebem a dimensão da zona de risco”, justificando que os computadores não são para escola, ou não estão preparados e não encontram condições de trabalho na escola. 40 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Iniciei esta pesquisa com o intuito de responder à seguinte questão: Qual a metodologia indicada para se ensinar Desenho Geométrico a alunos das séries finais do Ensino Fundamental? Ao observarmos ao nosso redor podemos perceber como as construções geométricas estão presentes em nosso cotidiano, seja em casas, prédios, objetos, cursos profissionalizantes e até mesmo superiores. As construções geométricas tiveram grande importância no desenvolvimento da Matemática. O estudo das construções geométricas promove o desenvolvimento do raciocínio lógico, a criatividade, a imaginação, a capacidade de organização, o pensamento divergente, além desenvolver no aluno a capacidade de planejar, projetar e abstrair conteúdos em diferentes campos da Matemática, principalmente a Geometria. Em relação ao desenvolvimento da Geometria, em 1998, com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, o ensino das Construções Geométricas veio a ser revalorizado. Os PCN’s retomam as construções com régua e compasso, salientando o seu valor para o ensino da Geometria. Propõe ainda o desenvolvimento do pensamento geométrico, auxiliando os alunos a resolverem situações problemas que envolvam figuras planas, fazendo com que os alunos possam descrever, compreender e representar o mundo em que vivem, ou seja, o que está ao seu redor. A utilização da régua e do compasso auxilia na construção de formas geométricas e na resolução de problemas relacionados ao Desenho Geométrico, que por sua vez baseia-se nos três primeiros postulados dos Elementos de Euclides. Com o desenvolvimento da tecnologia, a Matemática tem a contribuição da Informática, auxiliando através de uma metodologia de ensino-aprendizagem, onde se pode trabalhar as Construções Geométricas de forma descontraída e de um jeito que chama a atenção dos alunos. Existem softwares que podem auxiliar os professores em sua metodologia de ensino, como por exemplo o Geogebra, que é um software livre, gratuito, podendo ser instalado por qualquer pessoa. Ele é uma ferramenta da Geometria Dinâmica, adequado para a aprendizagem de Matemática, 41 que combina Geometria e Álgebra, facilitando vários conceitos devido a várias ferramentas úteis que possui, como, por exemplo, a ferramenta mover/arrastar. Muitos professores ainda possuem uma certa resistência em relação à introdução da tecnologia na sala de aula. Eles têm medo de sair de uma zona de conforto, onde tudo é controlado, tudo é da forma como querem, e partirem para uma zona de risco, ocasionando mudanças. Isso muitas vezes acaba limitando o ensino das Construções Geométricas, quando este ocorre, à régua e compasso. É importante dar ênfase à formação continuada dos professores. Uma vez que os mesmos, ao se interessarem pelo estudo do Desenho Geométrico, terão o domínio do conteúdo possibilitando justificar claramente para o aluno cada construção. O professor também precisa conhecer e saber utilizar bem os softwares de Geometria Dinâmica, diminuído assim, a zona de risco. Também é importante que o professor prepare bem sua aula. Uma aula mal preparada gera insegurança por parte do professor, o que é claramente percebido pelos alunos. Enfim, ao buscar responder à pergunta, concluo que é de fundamental importância o ensino-aprendizagem das Construções Geométricas e que o professor deve utilizar de diferentes metodologias para ensinar esse conteúdo. Régua e compasso continuam sendo elementos primordiais para o ensino das construções, uma vez que possibilita ao aluno construir e justificar sua construção através de propriedades da Geometria. Por sua vez, o uso das Tecnologias também se tornou um eficiente meio pedagógico que deve ser explorado pelo professor. Não podemos deixar de citar a importância de se escolher com responsabilidade o livro didático a ser adotado, já que ele é um importante instrumento para o aluno e professor. Os PCN’s devem ser seguidos pelos docentes, uma vez que contribui para a aprendizagem, e orienta os professores. As mudanças devem ocorrer gradualmente, e os professores devem se adequar a elas, uma vez que são grandes os benefícios para os professores e principalmente para os alunos. 42 REFERÊNCIAS BALDIN, Yuriko Yamamoto. VILLAGRA, Guilhermo Antonio Lobos. Atividades com Cabri-Géomètre II para cursos de licenciatura em matemática e professores do ensino fundamental e médio. São Carlos: EdUFSCar, 2002. BIANCHINI, Edwaldo. Componente Curricular: Matemática. 6º ao 9º ano. 6. ed. São Paulo: Moderna, 2006. BONGIOVANNI, Vincenzo; SAVIETTO, Elder; MOREIRA, Luciano. Desenho Geométrico para o 2º grau. 4. ed. São Paulo: Ática, 2007. BORBA, Marcelo de C.; PENTEADO, Miriam Godoy. Informática e Educação Matemática. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Matemática. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC /SEF, 1998. Disponível em <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/matematica.pdf>. Acesso em: 20/08/2013. FONSECA, Maria da Conceição F. R. et al. 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