MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MATO GROSSO – CAMPUS CUAIBÁ - OCTAYDE JORGE DA SILVA DEPARTAMENTO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO Curso de Especialização Latu Sensu a Distância: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva ANA LUISA HENTGES LORENZON DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS SANTO AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ALUNOS SURDOS Cuiabá - MT Outubro 2009 INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MATO GROSSO – CAMPUS CUAIBÁ - OCTAYDE JORGE DA SILVA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATU SENSU A DISTÂNCIA: EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INCLUSIVA ANA LUISA HENTGES LORENZON DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS SANTO AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ALUNOS SURDOS Cuiabá - MT Outubro 2009 Ficha Catalográfica Lorenzon, Ana Luisa Hentges Desafios dos Cursos de Informática do Campus Santo Augusto na Inclusão de Alunos Surdos Cuiabá - MT, 2009 Total de folhas: 66 Samborski, Tarcísio Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – Campus Cuaibá - Octayde Jorge da Silva Trabalho de Conclusão Curso de Especialização Latu Sensu a Distância: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva, ANA LUISA HENTGES LORENZON DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS SANTO AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Pesquisa e Pós-Graduação do Curso de Especialização Latu Sensu a Distância: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – Campus Cuiabá – Octayde Jorge da Silva, como exigência para a obtenção do título de Especialista. Orientador: Prof. MSc. Tarcísio Samborski Cuiabá - MT Outubro 2009 ANA LUISA HENTGES LORENZON DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS SANTO AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização Latu Sensu a Distância: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva, submetido à Banca Examinadora composta pelos Professores do Programa de Pós-Graduação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – Campus Cuaibá - Octayde Jorge da Silva como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Especialista. Aprovado em: ____________________ ______________________________________________ Prof. MSc. Tarcísio Samborski ______________________________________________ Profª. MSc. Ana Rita Kraemer da Fontoura _____________________________________________ Profª. MSc. Mariléia Gollo de Moraes Cuiabá - MT Outubro 2009 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho ao meu esposo Maurício, por ausência e compreender pelo eterno a minha incentivo e carinho. À minha família, pelo estímulo, compreensão e afeto, em todos os momentos desta e de outras caminhadas. Dedico também a todas as pessoas que acreditam e lutam por uma educação e uma sociedade inclusiva de fato e de direito. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, pois sem Ele nada seria possível. Ao meu orientador, professor Tarcísio, pelo auxílio, disponibilidade de tempo e material fornecido. Aos amigos e colegas, que me acompanharam nesta caminhada. Às professoras da banca pela participação. Aos participantes da pesquisa, que acreditaram na importância deste estudo como meio de buscar novos caminhos para uma discussão que possa sensibilizar a educação e a sociedade para a inclusão das pessoas com surdez. A todos aqueles que, direta ou indiretamente, colaboraram, e que de alguma forma doaram um pouco de si, para que a conclusão deste trabalho se tornasse possível. “A vida deve ser cuidada e enaltecida; devem cultivar-se todas as possibilidades que encerra e fazer delas um jardim, ainda que seja apenas para ter a alegria de recolher de vez em quando, de cada planta que a própria mão semeou, cultivou e aperfeiçoou, uma flor.” (Da Sabedoria Logosófica) RESUMO As pessoas com surdez têm buscado o direito a uma educação de qualidade, amparadas no princípio da cidadania e nos direitos humanos. Esta pesquisa buscou identificar os desafios dos cursos de Informática do Campus Santo Augusto para a inclusão de estudantes surdos. Foram analisados os projetos pedagógicos dos cursos de Informática, realizadas entrevistas semi-estruturadas com os estudantes surdos da escola, suas mães, seus colegas de aula e com os professores dos cursos. Os Projetos Pedagógicos dos cursos de Informática do Campus Santo Augusto não fazem referência sobre a entrada de estudantes surdos nos cursos. Assim, não há nenhuma definição ou norma que oriente a prática pedagógica e a avaliação da aprendizagem com esses estudantes. Entre os professores entrevistados, a maioria afirmou ser a favor da inclusão dos estudantes surdos na escola regular, afirmando também que não possuem formação para trabalhar com estes estudantes. Em relação aos colegas dos estudantes surdos, observou-se que eles não possuem total clareza acerca do processo de inclusão destes, mas compreendem a real necessidade de ter conhecimento de Libras. Para que os estudantes surdos estudem nos cursos de informática do Campus Santo Augusto e alcancem uma educação profissional e tecnológica adequada às suas necessidades é preciso haver a reformulação dos projetos pedagógicos dos cursos; adaptações curriculares; capacitação para professores e funcionários; ensino de Libras para toda a comunidade escolar; bem como desenvolver projetos com os familiares dos estudantes surdos e a comunidade em geral na busca da conscientização e inclusão social. Palavras-chave: educação, libras, escola inclusiva, surdez. ABSTRACT Deaf people have sought the right to have a quality education, supported the principle of citizenship and human rights. This study aimed to identify the challenges of the IT courses Campus Santo Augusto for the inclusion of deaf students. We analyzed the educational projects of IT courses, and conducted semi-structured interviews with the deaf school, their mothers, their classmates and teachers of the courses. Projects Pedagogical Course Information Campus Santo Augusto no reference on the entry of deaf students in the courses. Thus, there is no definition or standard to guide practice and assessment of learning against these students. Among the teachers interviewed, most said it was for the inclusion of deaf students in regular schools, saying that it did not have training to work with these students. For the colleagues of deaf students, it was observed that they do not have full clarity about the process of inclusion of deaf students, but they understand the real need to know to Pounds. For the deaf students to study computer courses in Campus Santo Augusto, and achieve a professional and technical education appropriate to their needs, there must be a reformulation of the pedagogical courses, curricular adaptations, training for faculty and staff, teaching Pounds for the entire school community, developing projects with the families of deaf students and the wider community in the quest for awareness and social inclusion. Keywords: education, pounds, an inclusive school, deafness. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Inclusão na escola regular....................................... ................................36 Gráfico 2 - Métodos utilizados para facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes surdos.... .................................................................................................38 Gráfico 3 - Participação dos estudantes surdos em apresentações de trabalhos e seminários..................................................................................................................39 Gráfico 4 - Avaliação dos estudantes surdos ............................................................40 Gráfico 5 - Conhecimento sobre a história de vida e história escolar dos estudantes surdos.........................................................................................................................41 Gráfico 6 - Conversa com os pais dos estudantes surdos.........................................42 Gráfico 7 - Melhoria do aprendizado dos estudantes surdos após a tradutoraintérprete de Libras iniciar suas atividades na escola................................................43 Gráfico 8 - Relacionamento com colega surdo(a)......................................................45 Gráfico 9 - Alteração da dinâmica das aulas..............................................................46 Gráfico 10 - Acompanhamento das aulas..................................................................47 Gráfico 11 - Preparação dos professores...................................................................48 Gráfico 12 - Estrutura da escola.................................................................................49 Gráfico 13 - Comunicação com colega surdo(a)........................................................50 Gráfico 14 - Sugestões de melhoria da convivência com colega surdo(a)................51 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................... ................... 11 1 OS SURDOS NA HISTÓRIA E A INCLUSÃO ............................................................ 14 1.1 A Educação dos Surdos na História................................................................ 14 1.1.1 História da Educação dos Surdos no Mundo............................................. 14 1.1.2 História da Educação dos Surdos no Brasil............................................... 16 1.2 Exclusão, Integração e Inclusão.................................................................... 17 1.3 Inclusão e a Teoria Histórico-Cultural............................................................ 20 2 O INSTITUTO FEDERAL FARROUPILHA - CAMPUS SANTO AUGUSTO.... 25 2.1 Perfil do Instituto Federal Farroupilha - Campus Santo Augusto e dos 25 Cursos de Informática.......................................................................................... 3 OS ESTUDANTES SURDOS DO CAMPUS SANTO AUGUSTO.................... 29 3.1 História da Educação dos Surdos em Santo Augusto................................... 29 3.2 A Estudante do Curso de Licenciatura em Computação............................... 30 3.3 O Estudante do Curso Técnico em Informática............................................. 32 4 DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA NA INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS.................................................................................... 35 4.1 Olhar dos Professores dos Cursos de Informática do Campus Santo Augusto .................................................................................................................... 35 4.2 Olhar dos Colegas dos Estudantes Surdos do Campus Santo Augusto....... 44 4.3 Estrutura do Campus Santo Augusto............................................................ 52 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................... 55 REFERÊNCIAS................................................................................................... 61 APÊNDICES........................................................................................................ 64 INTRODUÇÃO A exclusão dos diferentes, daqueles que fogem da normalidade (enquanto normativa estabelecida e não normalidade) não é um tema atual, pois sempre esteve presente no contexto histórico da humanidade. Ao longo da história, observa-se que a eficiência/deficiência sempre esteve ligada às diferenças significativas. A escola caracterizou-se, ao longo do tempo, por uma educação de exclusão justificada nas práticas educacionais, eliminando indivíduos que não se encaixavam nos seus modelos e segregando pessoas com necessidades educacionais especiais - PNEE’s. A discriminação e a segregação tornaram-se algo aceito nas comunidades, negando-se a muitos o direito a uma educação adequada, em virtude de suas particularidades, sejam elas físicas, intelectuais, sociais, culturais, linguísticas, entre outras. Com o advento da modernidade e com ela a noção de direito universal, criam-se as bases ético-morais para uma mudança na maneira de conceber os diferentes. Muitos anos depois, na busca de transformar essa realidade, amparada no princípio da cidadania e nos direitos humanos, novas leis, políticas e projetos vêm sendo formulados para ocorrer a inclusão dos PNEE’s, aceitando-se as diferenças e a participação dos mesmos nas comunidades. No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, propõe a vinculação da educação ao mundo do trabalho. Logo, é preciso haver a inclusão dos PNEE’s, como os surdos, na educação profissional e tecnológica e no mercado de trabalho. Para isso, a educação profissional e tecnológica deve se preparar para atender essa clientela de estudantes, buscando formar profissionais capacitados, tornando o processo de ensino-aprendizagem capaz de garantir o sucesso no mercado de trabalho para os PNEE’s. Para que essa inclusão ocorra, o mercado de trabalho deve também adequar suas estruturas humanas, físicas e técnicas. Infelizmente, a discriminação impede a maioria dessas pessoas de ter acesso a oportunidades na educação, especialmente na formação profissional e, consequentemente, no mercado de trabalho. Não que o sentido da educação deva se dar apenas para a preparação para o trabalho, mas tem sido essa a principal barreira na inclusão das pessoas com necessidades especiais. 12 A empregabilidade não depende somente da vontade e do esforço do PNEE, que busca a sua qualificação através de cursos de capacitação profissional, mas depende também de um novo posicionamento das pessoas à sua volta, de seus familiares, da comunidade escolar, dos empregadores e da comunidade em geral. Há somente dois estudantes surdos matriculados no Campus Santo Augusto, sendo uma estudante surda matriculada no curso de Licenciatura em Computação, e um estudante surdo matriculado no curso Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio. Nesse sentido, esta pesquisa busca identificar os desafios dos cursos de Informática do Campus Santo Augusto para a inclusão de estudantes surdos, verificando como os mesmos podem ser superados, e quais as adaptações necessárias que devem ser executadas. Através de contatos feitos com a Secretaria de Saúde e de Educação de Santo Augusto certificamos que há pessoas surdas no município que possuem o ensino médio completo. O que ocorre, na maioria das vezes, é que elas não possuem um atendimento necessário para o seu desenvolvimento, seja por falta de informação, conhecimento, ou mesmo por preconceito. Com isso, a pessoa surda se torna um fardo para a família, pois esta não sabe como tratá-la e educá-la, enviando-a muitas vezes para instituições como as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais - APAE’s – que não preparam profissionalmente, ou sendo negligenciadas em casa, pois não compreendem que o surdo possui diversas competências. Assim, é imprescindível que os estudantes surdos frequentem uma escola profissionalizante, buscando o seu desenvolvimento para o mercado de trabalho, bem como a sua cidadania. O Campus Santo Augusto se apresenta como uma alternativa a essa segregação. Ele é parte integrante da rede federal de educação profissional e tecnológica, que se configura hoje como uma importante estrutura para que as pessoas tenham um acesso efetivo às conquistas científicas e tecnológicas, formando profissionais qualificados e com novos conhecimentos na área da informática e de suas tecnologias. O Campus Santo Augusto oferece cursos profissionalizantes na área de informática, gestão, alimentos e agropecuária, integrando-se com a sociedade na região em que está localizado e buscando atender as necessidades da mesma. Essa profissionalização possibilita que o estudante surdo seja um profissional 13 qualificado, com várias competências e aumenta as chances de atuar no mercado de trabalho. O presente trabalho está organizado em quatro capítulos. O primeiro capítulo retrata os movimentos relacionados às pessoas com necessidades especiais, que vai desde a exclusão, passando à integração e posteriormente à inclusão. Esses movimentos são analisados à luz da teoria histórico-cultural de Vigotski. Faz-se, também, um breve relato sobre a história da educação dos surdos no mundo e no Brasil. No segundo capítulo é apresentado o Campus Santo Augusto e os cursos de Licenciatura em Computação e Técnico em Informática da escola, apresentando os eixos de orientação dos mesmos. O terceiro capítulo retrata o perfil dos estudantes surdos do Campus Santo Augusto, apresentando suas histórias de vida, tanto social como educacional. O quarto capítulo trata sobre a análise e os desafios encontrados para a inclusão de estudantes surdos nos cursos de informática da escola, baseados nos projetos pedagógicos dos cursos, nos questionários realizados com os estudantes surdos, suas mães, colegas e professores, e na estrutura da escola. 1 OS SURDOS NA HISTÓRIA E A INCLUSÃO 1.1 A educação dos surdos na história 1.1.1 História da educação dos surdos no mundo Na antiguidade, alguns povos não consideravam as pessoas surdas como humanos, pois entendiam que a fala resultava do pensamento, e, logo, quem não falava não pensava e, portanto, não era humano. Não tinham direito de participar da sociedade e da escola, e até mesmo a frequentar os mesmos lugares que os ouvintes. A Igreja Católica, durante a Idade Média, pregou a discriminação dos PNE’s, pois para ela o homem foi criado à “imagem e semelhança de Deus”, e aqueles que não se encaixavam neste modelo eram excluídos. No entanto, a Igreja Católica, que na época detinha grande influência na vida das pessoas, necessitava manter um bom relacionamento com as famílias que detinham o poder econômico, que tinham também familiares surdos. Como não havia escola para surdos, os padres passaram então a educar os surdos oriundos de famílias ricas. A partir do século XVI, surgiram os primeiros educadores de surdos, como o italiano Giralamo Cardamo e o monge beneditino espanhol Pedro Ponce de Leon, que perceberam que os surdos tinham capacidade de aprender a escrever e a ler, e que também podiam ser oralizados. Inicialmente, usaram os sinais como meio de comunicação, e posteriormente, passaram a utilizar o oralismo, desenvolvendo a fala e a leitura labial. Conforme Ana Regina e Souza Campello (2007) no oralismo, que buscava capacitar as pessoas surdas na compreensão e na produção de uma língua oral, a Língua de Sinais era entendida como um impedimento para o desenvolvimento da fala. No ano de 1760, na França, o abade Charles Michel de L’Epée passou a defender o uso da Língua de Sinais, reconhecendo-a como um meio de comunicação entre os surdos, e criou em Paris a primeira escola pública no mundo para estudantes surdos, que foi chamada de Instituto de Surdos e Mudos 15 (atualmente Instituto Nacional de Jovens Surdos). Muitas escolas para surdos foram então fundadas, onde os surdos passaram a ter a oportunidade de adquirir conhecimento e de exercer várias profissões. Durante muito tempo as escolas buscaram oralizar os surdos, tendo poucos resultados satisfatórios, até que em 1878 aconteceu o I Congresso Internacional de Surdos-Mudos em Paris, que definiu que a articulação da leitura labial e o uso de gestos era o melhor método para a educação dos surdos. Esta definição, porém, esteve vigente por apenas dois anos. No II Congresso Internacional de Surdos-Mudos realizado em Milão, em 1880, foi instituído através de votação que o melhor método para educar uma pessoa surda era oral puro, abolindo oficialmente o uso da Língua de Sinais, tendo o entendimento de que “o uso simultâneo de Sinais e fala teria a desvantagem de prejudicar a fala, a Língua oral falada e a precisão de idéias” (HONORA, 2009, p. 120). Alguns estudiosos da época eram contra essa ideia, defendendo que o método oral beneficiava algumas pessoas surdas, enquanto que o método combinado do uso da fala e da Língua de Sinais beneficiava a todos. Apesar deste cenário, o método oral foi adotado em diversos países, negando às pessoas surdas o uso da língua que lhes era de direito, levando-os novamente a uma posição de submissão. O que se observou durante muitos anos foram os insucessos pelo mundo todo na busca da escolarização dos surdos, que sem se utilizarem da Língua de Sinais, adquiriram pouco ou nenhum conhecimento durante sua passagem na escola. A escola forçava os estudantes surdos a desenvolverem a fala, objetivando sua “normalização”, e aqueles que não se adaptavam ao método oral eram considerados retardados. Diante do fracasso do oralismo, a utilização da Língua de Sinais, a partir de 1970, voltou a ser aceita como uma manifestação linguística, sendo então utilizada a linguagem oral e sinalizada ao mesmo tempo. Diversos estudos e pesquisas sobre surdez passaram a indicar que a pessoa surda tenha acesso o mais cedo possível a duas línguas, que são a Língua de Sinais e a Língua oral e escrita do seu País (Educação Bilíngue), objetivando a eliminação das barreiras comunicativas, bem como o seu desenvolvimento. Através da história, pode-se observar que houve avanços e retrocessos ao longo do tempo na busca da escolarização das pessoas surdas, que, 16 por sua vez, não eram autores da sua própria história de vida, ficando a mercê do entendimento dos ouvintes em relação aos temas da surdez. 1.1.2 História da educação dos surdos no Brasil A educação das pessoas surdas no Brasil iniciou durante o Segundo Império, quando, em 1857, Dom Pedro II convidou o professor francês Edward Huet para vir ao Brasil criar, no Rio de Janeiro, a primeira escola para meninos surdos do país, que se chamou de Imperial Instituto de Surdos-Mudos, hoje, Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Através da Língua Francesa de Sinais, trazida pelo educador francês, e dos sistemas de comunicação usados pelos surdos em diversas localidades do Brasil, foi então criada a Língua Brasileira de Sinais. O Instituto utilizou inicialmente a Língua de Sinais, adotando posteriormente o oralismo, conforme determinação do II Congresso Internacional de Surdos-Mudos de Milão, passando a ter o entendimento de que a fala seria o único meio de a pessoa surda ser restituída na sociedade. Com o passar dos anos, e de acordo com os diretores que assumiam o Instituto, houve uma intercalação no foco da educação dos surdos, ora priorizando o desenvolvimento da oralidade, ora o uso da Língua de Sinais, ora a profissionalização dos mesmos. A partir deste momento, outras escolas para surdos foram criadas, representando um avanço na educação. O Instituto se tornou uma referência para todo o Brasil, e em 1951, houve uma importante inovação no Instituto, a criação do Curso Normal de Formação de Professores para Surdos, que passou a receber professores de todo o país para fazer o curso. Nesta época, era utilizado o método do oralismo. Em outro momento, novas práticas, saberes, representações sociais e leis começaram a ser edificadas, não mais pautadas em modelos de normalidade, mas sim na valorização do convívio com a pluralidade, tanto no meio social como educacional. Com a propagação da ideia da garantia do direito de todos à educação e da busca de integração dos PNEE’s, as escolas regulares passaram a receber estudantes surdos, incluindo-os em classes com os demais estudantes, ou, 17 quando existente na escola, em classes especiais para surdos, além das escolas especiais que também atendiam estudantes surdos. Algumas escolas implantaram também salas de recursos. Após inúmeras pesquisas, o Bilinguismo passou a ser difundido no Brasil, sendo atualmente, conforme Ana Regina e Souza Campello (2007), o método mais utilizado na educação de surdos, tendo como língua materna a Língua Brasileira de Sinais e como segunda língua, a Língua Portuguesa escrita. A comunidade surda passou, então, a apresentar reivindicações, como respeito à Língua Brasileira de Sinais, ensino de qualidade, acesso aos meios de comunicação como legendas e uso do TDD - Telecommunication Device for the Deaf (Dispositivo de Telecomunicação para surdos) e serviços de intérpretes. 1.2 Exclusão, integração e inclusão Muito se fala em buscar novas orientações para o ensino escolar, que superem a fragmentação e a exclusão presentes nas práticas escolares, e que contemplem uma nova significação da educação, baseada nas diferentes áreas do saber e na diversidade existente no contexto escolar, almejando uma inclusão educacional e social. Atualmente, podemos observar um grande movimento no sentido de romper a segregação presente na sociedade, buscando a inclusão de pessoas com necessidades especiais – PNE’s, como as pessoas surdas. Durante muito tempo, as noções sobre deficiência eram basicamente ligadas ao misticismo e ocultismo, não tendo uma base científica, carregando marcas de segregação muito fortes e a convicção de incapacidade e inferioridade. As pessoas com alguma deficiência eram totalmente isoladas da escola e da sociedade, através do processo de seleção baseado na normalidade e anormalidade, privilegiando um grupo, e excluindo aqueles considerados fora dos padrões homogeneizadores da sociedade, naturalizando, assim, o fracasso escolar e social. A educação especial, até pouco tempo atrás, era atribuída como tarefa da escola especial, que só atendia estudantes com os mais variados tipos de deficiência, o que os levava ao isolamento e acabava por excluí-los, anulando-os. Eles não tinham contato com os estudantes ditos “normais”, não ocorrendo interação 18 entre os mesmos, nem trocas de experiências, que levassem ao desenvolvimento da cidadania e ao seu crescimento. Hoje, a educação especial passa a ser entendida como uma modalidade de educação escolar para estudantes com necessidades especiais, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino. Entretanto, somente os serviços oferecidos pela escola especial, mesmo tendo suas diferenciações, não chegam a ser inclusivos, apesar de ser um suporte ao processo de inclusão. A inclusão está em constante renovação e evolução, é um processo complexo, que acontece de forma gradual. Enquanto movimento, busca mudanças de paradigmas e de atitudes, novas práticas pedagógicas para a inclusão de pessoas surdas nas escolas regulares, no mercado de trabalho e na sociedade como um todo. Procura também a reformulação de oportunidades e de direitos de uma vida digna para todos, independentemente de se ter ou não uma deficiência. Em resposta a esse movimento, o Estado busca desenvolver políticas públicas e ações baseadas em fundamentos legais, buscando o bem comum. Há diversas legislações e declarações acerca do assunto, como a Declaração de Salamanca de 1994, um dos mais importantes documentos de compromisso de garantia de direitos educacionais, que passou a exercer influência sobre o desenvolvimento das políticas públicas da educação de inclusão. No Brasil, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 205, define que todas as pessoas têm direito a educação, buscando o seu desenvolvimento, capacitação para o mercado de trabalho e o mundo produtivo e exercer sua cidadania através da participação ativa em sua comunidade. A Constituição Federal prevê, também, uma reserva de cotas para empresas com mais de cem empregados, tendo um percentual que deve ser destinado ao emprego de PNE’s, sendo que a empresa deve possibilitar a essas pessoas as condições necessárias para o desenvolvimento de sua função. Mas a realidade é bem diferente, pois elas passam por grandes dificuldades no mercado de trabalho, começando com o preconceito da empresa, que as acha incapacitadas para o mundo produtivo, assim como os colegas de trabalho que por medo ou ignorância acabam isolando-as. As barreiras arquitetônicas figuram também como um problema, dificultando o acesso dos PNE’s, mesmo com a existência da Lei nº. 10.098 de 2000 que estabelece normas e critérios para a promoção da acessibilidade. 19 A inclusão se tornou um movimento mundial, que busca envolver a esfera política, pedagógica, cultural e social, defendendo o direito de participação dos PNEE’s na sociedade, sem que sofram discriminações. Somente as leis, documentos e declarações não têm força para deslocar paradigmas; os atores do processo é que poderão deslocá-los. Cabe a estes promover as mudanças necessárias. Para buscar a inclusão, é necessário compreender alguns conceitos. Conforme o Conselho Nacional de Educação, em sua Resolução nº. 2, de 11 de setembro de 2001, pessoas com necessidades especiais - PNE’s - são aquelas que possuem características de limitação funcional, que podem ser intelectual, física ou múltipla, mas que não a impedem de participar plenamente da sociedade, necessitando ou não de adaptações. Os estudantes com necessidades educacionais especiais - PNEE’s - são aqueles que apresentam dificuldades relevantes no processo de ensino-aprendizagem, os que necessitam de linguagens distintas dos outros estudantes e os que possuem altas habilidades/superdotação. Conforme as mudanças culturais e econômicas, as transformações sociais e as descobertas científicas e tecnológicas foram ocorrendo, as atitudes também foram sendo alteradas, fazendo surgir a noção de educação inclusiva e, com ela, a escola inclusiva. Esta tem como princípio norteador o direito de todas as crianças aprenderem juntas, não importando quais sejam suas diferenças ou dificuldades, considerando também seus ritmos de aprendizagem. Por meio da oferta de uma educação de qualidade, busca a participação dos estudantes e a garantia de continuidade dos estudos. Para isso, as escolas regulares devem se organizar para receber os estudantes com necessidades educacionais especiais, tendo currículos, métodos e recursos educativos adaptados às suas carências, levando em consideração suas características e interesses. O Estado deve oferecer apoio especializado na escola regular, se preciso, ou em escolas especializadas no caso de impossibilidade de interação do estudante na rede regular de ensino, buscando sempre uma educação de qualidade. Com vontade e esforço de toda comunidade escolar é possível tornar a escola um ambiente aberto à diversidade, que busca a melhoria do ensino em um ambiente heterogêneo, que seja rico em experiências, as quais contribuem para o sucesso escolar inclusivo. Assim, a busca da inclusão escolar está baseada na ética, no direito de todo ser humano ter acesso à educação, onde a igualdade 20 deve ser dispensada no momento em que ela se torna um fator de exclusão social e educacional, e valorizada quando busca a igualdade de direitos e deveres para todos, buscando condições para que todos aprendam. 1.3 Inclusão e a teoria histórico-cultural A sociedade tem sido incapaz de lidar de modo apropriado com os desafios apresentados por pessoas com necessidades especiais e que almejam uma participação efetiva nas várias esferas sociais. Tem-se hoje, nas salas de aula, um grupo de estudantes de diferentes possibilidades, que exige pensar o processo de ensino-aprendizagem de modo coletivo e distinto dos padrões atuais compartimentados da escola tradicional. Essa realidade nos leva aos pressupostos da abordagem histórico-cultural de aprendizagem e desenvolvimento. Esta abordagem considera a formação de grupos heterogêneos, pois a heterogeneidade é uma característica encontrada nos diversos grupos humanos, fruto das experiências individuais das pessoas com o meio social, tornando-se imprescindível para as interações na sala de aula. Os diferentes comportamentos, experiências, ritmos, situações familiares, valores e graus de informação e conhecimento de cada estudante, assim como do professor, permitem que inúmeras trocas de vivência e conhecimento aconteçam no cotidiano escolar, ampliando as visões de mundo, de confrontos, de solidariedade, levando consecutivamente a um aumento das aptidões individuais. Assim, a heterogeneidade possibilita um aumento das capacidades cognitivas. Vigotski é um dos defensores da presença da heterogeneidade nas diversas áreas sociais, e sua abordagem está sendo constantemente veiculada nos meios educacionais. A abordagem vigotskiana baseada no sóciointeracionismo compreende que a construção do conhecimento se dá pela interação do sujeito, situado historicamente, com o ambiente sóciocultural onde ele vive. Assim, a educação deve levar em consideração o ambiente cultural que o sujeito nasce e se desenvolve e a sua experiência de vida, que é única, seja esse sujeito com ou sem deficiência, sendo que a cultura passa a integrar a natureza de cada sujeito. De acordo com a abordagem de Marques (2001), a pessoa com alguma deficiência não é menos desenvolvida que as pessoas ditas normais por causa de sua deficiência, ela tem, isto sim, seu processo de desenvolvimento diferenciado, em que a 21 deficiência gera um processo de compensação, que leva ao crescimento da pessoa, transpondo, assim, a sua deficiência. Ou seja, o estudante surdo tem a possibilidade de agir sobre si mesmo e sobre o mundo, transformando-se e desenvolvendo-se, num processo de constituição da pessoa, em que a cultura perpassa a sua dimensão orgânica, e a deficiência assume outras formas. Nesse contexto, o meio social pode tanto bloquear como promover esse processo de desenvolvimento. Ciente de que as deficiências afetam as relações sociais, Vigotski fortaleceu a ideia de que as pessoas com necessidades especiais devem ter uma participação ativa na vida social, superando, assim, toda uma carga de preconceitos que vem junto com a deficiência, através da educação social. O homem é um ser social, e a edificação do conhecimento do estudante ocorre através da interação social entre estudantes com e sem necessidades especiais, onde a capacidade individual é ampliada através da convivência com a heterogeneidade. Deste modo, a escola resgata seu papel de ensinar, garantindo o acesso ao conhecimento a todas as pessoas. Nesse sentido, o desenvolvimento humano é cultural, e, portanto, histórico, pois a história do homem é a história da sua transformação, da sua passagem da ordem da natureza à ordem da cultura, pois ele passa a transformar a natureza pelo trabalho, modificando seu próprio modo de ser. O conhecimento e o pensamento humanos são, em si mesmos, culturais, pois as suas propriedades e características originam-se do caráter da atividade social, do discurso, da linguagem e de outras formas culturais. Segundo Vigotski (apud SIRGADO, 2000), tudo o que é cultural é social; o homem cunha suas condições de existência social e de existência material próprias, ou seja, a organização social é obra do homem, seguindo assim leis históricas que definem as condições de sua produção; as relações sociais e históricas condicionam e transformam a sua realidade concreta. Para os estudantes surdos, a convivência com a diversidade tornase uma importante estratégia, pois expande o seu referencial de mundo e a sua aprendizagem, através da interação com uma nova realidade, o que cria situações de aprendizagem que podem ampliar o seu desenvolvimento. O conjunto de interações entre o estudante e o ambiente faz parte do processo de desenvolvimento do pensamento e da linguagem, sendo que os fatores externos podem comprometer positiva ou negativamente esse processo. 22 Deste modo, é necessário que se desenvolvam alternativas para que os estudantes surdos tenham um meio de comunicação para que consigam desenvolver o seu potencial linguístico. A linguagem é constitutiva do sujeito e tem papel importante na vida em sociedade, pois ela assinala a entrada do homem na cultura e constrói o homem como um indivíduo que é capaz de produzir transformações. Através da linguagem, o indivíduo consegue estruturar seu pensamento e comunicar-se com os outros, possibilitando as interações fundamentais para que ocorra a construção do conhecimento. Para que o estudante surdo possa exercer o seu papel social e integrar-se verdadeiramente na sociedade, é necessário que ele tenha capacidade de comunicação linguística, pois a mesma se apresenta como um dos principais fatores responsáveis pelo processo de desenvolvimento do estudante surdo em sua potencialidade. Para alguns surdos, a língua de sinais é a primeira língua, através da qual o surdo se reconhece como sujeito social e enunciador efetivo. O fator linguístico no caso dos surdos se apresenta como um desafio, pois a língua a ser usada como meio de compreensão deve ser a Língua Brasileira de Sinais – Libras, conforme a Lei nº 10.436, de 2002. Esta Lei, em seu artigo primeiro, define a Língua Brasileira de Sinais - Libras como: Forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas no Brasil. (Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002). A Lei nº 10.436, de 2002, reconhece também a Língua Brasileira de Sinais - Libras como um meio legal de comunicação e de expressão, bem como outros recursos de expressão que estão relacionados à língua, sendo que ela não substitui a modalidade escrita da língua portuguesa. Conforme o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, que regulamenta a Lei nº 10.436, de 2002, e o artigo 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, a pessoa surda é aquela que, pela perda da audição, busca perceber o mundo e interagir com ele através de experiências visuais. A sua cultura é demonstrada, principalmente, pelo uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras. As instituições de ensino devem assegurar que os estudantes surdos tenham acesso a informação, educação e conhecimento em todos os níveis 23 e modalidades de educação. O desafio se apresenta no momento em que a maioria dos professores das disciplinas nas escolas regulares não dominam a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e nem os estudantes ouvintes e, por sua vez, os estudantes surdos apresentam grandes dificuldades no aprendizado da Língua Portuguesa. Para garantir o atendimento educacional especializado para o estudante surdo na escola regular, é necessária a presença constante de um tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa na sala de aula, pois ele se torna um meio que irá beneficiar a aprendizagem e participação em sala de aula deste estudante. Também é preciso realizar um trabalho com os professores das disciplinas das escolas regulares, para que aprendam Libras. O ensino do português é tido como segunda língua para o estudante surdo, pois é no ambiente dos ouvintes que ele viverá sempre. Assim, através do contato direto com os falantes de uma determinada língua, é que a aprendizagem da mesma será efetivada. O estudante surdo terá, então, uma formação bilíngue, com o reconhecimento das duas línguas que fazem parte da formação da pessoa surda. O pensamento e a linguagem estão relacionados, sendo que não há desenvolvimento cognitivo fora da linguagem, e também não há linguagem sem a mediação que ocorre nos processos interativos. A linguagem, que é simbólica, é também a principal mediadora entre o mundo biológico e o cultural. A inclusão do estudante surdo deve acontecer tanto no âmbito educacional e social como no âmbito profissional, através da qualificação e profissionalização do mesmo. A capacitação profissional do estudante surdo deve ser organizada a partir da realidade política, econômica e social em que o País e a sua região situam-se. Nesse sentido, a capacitação para o trabalho não representa somente a abertura de vagas em escolas profissionalizantes, nem mesmo a simples repetição por parte do estudante de algo que lhe foi ensinado, pois essas ações se limitam a “encaixar” o estudante surdo nos cursos, sem que haja uma modificação. O desafio para as escolas é o de repensarem seus currículos, suas finalidades e formas de atuação, adequando o ensino às necessidades da comunidade surda, para que os estudantes tenham condições de estar em constante aprendizado, formando assim profissionais qualificados que tenham acesso ao mundo produtivo. O estudante precisa ter um domínio sobre o fazer, compreendendo o quê, como e por que algo acontece, reconhecendo o resultado final do processo, 24 tomando ciência da sua participação na construção da cidadania e da cultura. Em um mundo que valoriza tanto a competitividade, qualidade total e a produtividade, num constante processo de inovação tecnológica, cabe à escola buscar desenvolver no estudante surdo o seu potencial cognitivo, valores e atitudes, criatividade, sociabilidade, cidadania e autonomia, que são imprescindíveis para um profissional qualificado, buscando sua independência econômica e sentindo-se produtivo em sua comunidade. A Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, que dispõe sobre os planos de benefícios da Previdência Social, prevê uma reserva de cotas para empresas com mais de cem empregados, tendo um percentual que deve ser destinado ao emprego de PNE’s, sendo que a empresa deve possibilitar-lhe as condições necessárias para o desenvolvimento de sua função. Mas a realidade é bem diferente, pois eles passam por grandes dificuldades no mercado de trabalho, começando com o preconceito de muitas empresas, que o acha incapacitado para o mundo produtivo, assim como os colegas de trabalho que por medo ou ignorância acabam isolando-os. 2 O INSTITUTO FEDERAL FARROUPILHA - CAMPUS SANTO AUGUSTO 2.1 Perfil do Instituto Federal Farroupilha - Campus Santo Augusto e dos Cursos de Informática A região de abrangência da escola é definida como Noroeste Colonial do Rio Grande do Sul, sendo chamada de Região Celeiro. É composta de vinte e um municípios aqui relacionados: Barra do Guarita, Bom Progresso, Braga, Campo Novo, Chiapetta, Coronel Bicaco, Crissiumal, Derrubadas, Esperança do Sul, Humaitá, Inhacorá, Miraguaí, Redentora, Santo Augusto, São Martinho, São Valério do Sul, Sede Nova, Tenente Portela, Tiradentes do Sul, Três Passos e Vista Gaúcha. A cidade de Santo Augusto tem uma população de 13.622 habitantes conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE- sobre a contagem da população no ano de 2007. A Região Celeiro situa-se no Vale do Rio Turvo, e segundo a Fundação de Economia e Estatística, Secretaria da Educação e Planejamento do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, apresenta um Produto Interno Bruto -PIBsuperior a US$ 1.200 mil, com uma participação de 3,05% no PIB estadual. A principal atividade da Região é de serviços, destacando-se as vendas de comércio atacadista que detêm 62% do total do comércio, concentrandose nos gêneros produtos alimentícios (78,10%) e químicos (15,27%). Já o comércio varejista (38% do total) concentra-se nos gêneros de pequenos mercados e supermercados (16,10%), combustíveis e lubrificantes (14,31%), veículos (11,30%) e máquinas, aparelhos e equipamentos diversos (10,73%). Salienta-se ainda o setor agropecuário, que ocupa a quarta posição no “ranking” da produção lavoureira, representado, principalmente, pela soja, trigo, milho e mandioca, respectivamente 43,09%, 30%, 12%, 76% do V.B.P. das lavouras da região. A Indústria emprega 11,36 empregados por estabelecimento, concentrando-se no gênero produtos alimentícios que detêm 72,04% do total de empregados do setor na região. Esta representa 1,35% do total de empregados da indústria no Rio Grande do Sul. O comércio varejista emprega em média 2,26 empregados, sendo os gêneros de pequenos mercados e supermercados, tecidos e 26 roupas, confecções e gêneros alimentícios em geral que concentram respectivamente 18,87%, 15,44% e 10,65% do total de empregados deste segmento na região. Destaca-se que este segmento detém 5,65% do total do emprego do comércio varejista no Estado. Já o comércio atacadista emprega em média 3,97 empregados, sendo gêneros produtos alimentares e bebidas os que concentram respectivamente 40,17% e 25,67% do total de empregados deste segmento na região. Esta representa 3,03% do total de empregados do comércio atacadista do Rio Grande do Sul. O Campus Santo Augusto, que iniciou suas atividades no ano de 2008, teve origem no Ceprovale - Centro de Educação Profissional mantido pela Fundação Vale do Rio Turvo para o Desenvolvimento Sustentável - FUNDATURVO/DS para atender a demanda de ensino profissional de Santo Augusto e toda a região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. O Ceprovale seria uma escola comunitária, cuja construção contou com recursos do PROEP, mas a mantenedora e o Ministério da Educação decidiram federalizá-la assim que fosse concluída a construção e a compra de equipamentos. Com a federalização, o Ceprovale passou a ser uma escola federal, denominada Unidade de Ensino Descentralizada de Santo Augusto do Centro Federal de Educação Tecnológica de Bento Gonçalves, mantida com recursos do Ministério da Educação, transformando-se assim em um estabelecimento de ensino público gratuito. Após a aprovação da Lei 11.892, de 29 de dezembro de 2008, que cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, passou a se chamar Campus Santo Augusto, pertencendo ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha. A escola oferece atualmente cursos de nível médio, pósmédio e superiores (licenciaturas e tecnologias), contando com aproximadamente 595 estudantes matriculados. O Campus Santo Augusto busca a inclusão de estudantes com NEE’s, tendo como princípio norteador o direito que todos os estudantes têm de aprenderem juntos, não importando quais sejam suas diferenças ou dificuldades, considerando também seus ritmos de aprendizagem. Ofertando uma educação de qualidade, a Escola busca a participação dos estudantes e a garantia de continuidade dos estudos. Para isso, ela deve se organizar para receber os estudantes com NEE’s, tendo currículos, métodos 27 e recursos educativos adaptados para suas carências, levando em consideração suas características e interesses. A educação profissional no país padece de uma grande carência de docentes qualificados nas escolas, o que leva muitas vezes a um estrangulamento de sua expansão, havendo a necessidade de provimento de formadores com padrões de qualificação adequados à atual complexidade do mundo do trabalho. As licenciaturas são um espaço privilegiado da formação docente inicial pelo importante papel que têm na profissionalização docente; para o desenvolvimento de pedagogias apropriadas às especificidades da educação profissional; o fortalecimento do elo entre ensino-pesquisa-extensão; o intercâmbio de experiências no campo da educação profissional; pensar a profissão, as relações de trabalho e de poder nas instituições escolares Inúmeras escolas, tanto no município de Santo Augusto como na região, dispõem de professores que ministram aulas de Informática sem terem a devida titulação. Na busca de superar o histórico de fragmentação, improviso e insuficiência de formação pedagógica que caracteriza a prática de muitos docentes da educação profissional, é preciso reconhecer que a docência é muito mais que mera transmissão de conhecimentos empíricos ou processo de ensino de conteúdos fragmentados. A licenciatura contempla processos educativos e investigativos de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas de fundamental importância para o desenvolvimento e o atendimento de demandas sociais e regionais, onde a formação do educador deve ser concebida como mediador da construção do conhecimento. Os cursos, na busca de garantir as competências da Educação, são orientados por princípios éticos, políticos e pedagógicos, articulando tecnologia e humanismo, tendo a prática profissional como eixo principal do currículo da formação de professores, utilizando a informática na educação como uma área fundamental na formação dos estudantes. O espaço da formação busca possibilitar aos futuros professores experiências de aprendizagem que integram a teoria e a prática profissional, através de currículos interdisciplinares, atividades pedagógicas orientadas por princípios metodológicos, fazendo uso da problematização da realidade como estratégia didática e da contextualização como princípio pedagógico fundamental. Busca desenvolver no estudante um senso crítico, uma postura emancipatória enquanto 28 sujeito no processo de ensino-aprendizagem, vindo a ser um profissional comprometido com a transformação social e com o futuro, tendo uma atuação comprometida tanto no seu trabalho como em sua comunidade. Os cursos pressupõem o uso de metodologias que estimulem a observação, a criatividade e a reflexão por parte do estudante, evitando a apresentação de soluções prontas, buscando o desenvolvimento das habilidades necessárias para a solução de problemas. Buscam incentivá-los para a participação de atividades de pesquisa básica ou aplicada, uma vez que se entende que a participação em pesquisas tem grande relevância para a melhoria da qualidade de vida do cidadão, além de contribuir para uma maior participação do estudante em sua comunidade. Nesta pesquisa, a metodologia utilizada foi baseada nos seguintes passos: a) revisão bibliográfica sobre o assunto; b) análise dos projetos pedagógicos dos cursos de Licenciatura em Computação e do Técnico em Informática do Campus Santo Augusto; c) análise das unidades didáticas e os equipamentos existentes nas mesmas; d) entrevistas semi-estruturadas com os estudantes surdos da escola, suas mães, seus colegas de aula e com os professores dos cursos; e) sistematização das informações encontradas. As análises procederam-se durante o primeiro semestre letivo deste ano. As entrevistas seguiram um roteiro predefinido (APÊNDICES A, B, C e D), elaborados com o objetivo de que o entrevistado se sentisse à vontade para falar sobre o tema. As questões tiveram como foco a investigação dos estudantes surdos em relação a seus dados pessoais, e questões sobre escolaridade e dificuldades encontradas durante a trajetória escolar. 3 OS ESTUDANTES SURDOS DO CAMPUS SANTO AUGUSTO 3.1 História da educação dos surdos em Santo Augusto Em Santo Augusto, as pessoas com surdez durante muito tempo ficaram isoladas no âmbito de suas famílias, sem fazer parte da educação, da sociedade e do mercado de trabalho. Através de contatos realizados com a Secretaria de Educação e Secretaria de Saúde do município, descobriu-se que há pessoas surdas em Santo Augusto. Não há uma escola de surdos no município e região. A maioria dos surdos do município, que buscam escolarização, dirige-se à escola especial da cidade, a APAE, no entanto, muitas pessoas surdas não frequentam a escola, ficando isoladas. Na APAE de Santo Augusto há, atualmente, 06 estudantes surdos matriculados, todos entre 38 e 45 anos, sendo 05 estudantes com a 3ª série do Ensino Fundamental completa e 01 estudante somente com a alfabetização. A partir dos dados, observa-se que a maioria dos surdos de Santo Augusto não busca sua escolarização, seja por falta de escolas aptas a recebê-los ou por discriminação por parte da família e sociedade, que não os aceitam com suas características e invalidam os seus potenciais, negando a sua busca pela independência e desenvolvimento. Os surdos que optam por estudar nas escolas regulares municipais e estaduais do município não possuem um atendimento educacional especializado, e não há profissional tradutor-intérprete de Libras, o que leva o estudante a ser integrado na escola, ao invés de incluído. Foram realizadas entrevistas com os estudantes surdos do Campus Santo Augusto e com suas mães. As entrevistas aconteceram nas casas dos estudantes, onde foram respondidas perguntas. Houve também conversa informal sobre a vida dos estudantes surdos, e os relatos abaixo são baseados nas entrevistas e conversas com os estudantes surdos e suas mães. 30 3.2 A estudante do curso de Licenciatura em Computação A estudante tem surdez adquirida, perdeu a audição aos três meses de idade, devido a uma dose muito alta de uma injeção de antibiótico (garramicina) para pneumonia. Os pais perceberam que havia algo diferente com sua filha quando ela tinha quase 01 ano de idade, pois era quieta e não se entrosava com outras crianças. A família buscou ajuda médica em várias cidades, mas os médicos afirmavam que não havia nada de errado com a criança, até que um médico de Santa Maria identificou a deficiência auditiva, pois enquanto estavam no consultório passou um avião a jato, que fez bastante barulho, e as pessoas que consultavam com o médico sempre olhavam em direção ao avião. Mas o barulho não fez nenhum efeito na criança, pois ela não olhou e nem se moveu, e o médico detectou através de exames a perda total da audição. A partir da descoberta, a criança passou a usar aparelho auditivo por 03 anos, mas não se adaptou e o abandonou, pois os ruídos machucavam seus ouvidos. Fez tratamento com uma fonoaudióloga (sua tia e também madrinha) que havia se formado recentemente, durante 04 anos. A mãe relatou que a educação e o dia-a-dia com sua filha foi e ainda é bastante difícil. A partir do momento em que a criança começou a fazer fonoaudiologia, ela apresentou um leve desenvolvimento, passando a pronunciar várias palavras e a fazer leitura labial, mas que era muito difícil para ela desenvolver a oralidade, o que era muito insistido por parte da fonoaudióloga. A fonoaudióloga dizia para a mãe que não era para fazer gestos para se comunicar com a filha, pois a criança devia aprender a falar. Na tentativa de alfabetizar a filha, a mãe passou então a colar nos móveis as palavras correspondentes a eles, para que a filha lesse e pronunciasse o nome dos objetos, mas não houve muito progresso, pois a criança ficava irritada por não conseguir falar. A estudante estudou em escolas regulares, e foi um tempo na APAE para estimulação e para alfabetização, mas nas escolas regulares não havia pessoas qualificadas para trabalhar com sua filha, e ela não conseguia acompanhar 31 as aulas, não apresentando evolução. Chegou um momento em que a mãe queria se comunicar com sua filha de qualquer maneira, fosse através da fala ou de gestos. A família resolveu mudar-se para Goiás, que já dispunha de escolas inclusivas com tradutoresintérpretes de Libras. Na sua cidade natal, a estudante havia concluído a 2ª série, mas ao chegar à escola em Goiás, a estudante teve que retornar para a 1ª série novamente, sendo que no momento tinha 11 anos de idade. Nessa escola havia outros estudantes surdos, e o tradutor-intérprete ensinava para os estudantes Libras, que foi quando a estudante começou a ler e escrever, e com 13 anos começou a aprender Libras, o que facilitou muito sua vida. Então, ela passou a ensinar Libras para seus pais, que sempre a apoiaram em seus estudos e em seu aprendizado de Libras. Completou o Ensino Fundamental com 19 anos, ingressando em seguida no EJA na mesma escola, concluindo o Ensino Médio com 21 anos. Nessa escola, a mãe relatou que a maioria dos professores não tinha conhecimento suficiente para trabalhar com estudantes surdos, pois ficavam de costas para sua filha, não olhavam para ela, mas que o tradutor-intérprete sabia como trabalhar com os estudantes, e sua filha apresentou crescimento e desenvolvimento. A mãe relatou que as mensagens de celular e os bate-papos na internet auxiliaram bastante no desenvolvimento da escrita da estudante, pois no início, os pais não entendiam os recados deixados pela filha, e aos poucos foram corrigindo-os, para que a idéia a ser transmitida fosse entendida. Por ser uma pessoa carismática, tinha um grande círculo de amizades, cativando a todos na escola, onde participava de desfiles, e participava de um coral de surdos onde a música era “cantada com as mãos”. Como era uma das estudantes surdas mais novas da escola, seus amigos eram todos mais velhos, em torno de 25 a 45 anos, com os quais se relacionava muito bem, iam a festas, namoravam, e se divertiam ao modo deles. Após a conclusão dos estudos de sua filha, os pais resolveram voltar para Santo Augusto, momento em que a estudante ingressou no curso de Licenciatura em Computação do Instituto Federal Farroupilha - Campus Santo Augusto. A estudante, que desde nova, sempre foi muito detalhista, com ótima 32 percepção visual, e também muito independente, toma suas decisões e escolhas, como que roupas usar e o que quer comprar. Ao chegar a Santo Augusto buscou fazer novas amizades, conhecer mais pessoas surdas, onde ela se tornou uma liderança entre a comunidade surda de Santo Augusto. Graças a ela, seus amigos surdos passaram a se encontrar mais, a saírem para passear e conversar, sendo que ela introduziu o computador entre os surdos, para que utilizassem tecnologias que facilitam suas vidas, como o celular e os bate-papos na internet, pois até então os mesmos não tinham conhecimento e não sabiam como utilizar os aparelhos. Também estimula seus amigos surdos a se comunicarem através de Libras, o que quase não acontecia antes, pois praticamente ninguém tinha conhecimento de Libras. Na escola, ela criou um grupo de estudos entre os servidores que tinham interesse, e passou a dar aulas de Libras uma vez por semana. Participa também de viagens de estudos e apresentou recentemente um trabalho durante um congresso, demonstrando mais uma vez o seu espírito de liderança. A estudante, assim como sua mãe, afirmou preferir frequentar uma escola somente de surdos ao invés de uma escola inclusiva, pois na escola regular se sente sozinha, com dificuldade no que se refere à comunicação, seja entre professores ou colegas, mesmo com a presença da tradutora-intérprete em sala de aula. Sente falta de ter com quem se comunicar através de Libras, de ter um contato maior com a cultura surda, pois mãe e filha entendem que a língua dos surdos é Libras, e que através da Libras se descobre o mundo, passando a viver novas experiências, sem medo, sem precisar esconder-se. A estudante trabalhava em Goiás, mas em Santo Augusto não está conseguindo emprego, mesmo tendo contatado com várias empresas. Deste modo, mãe e filha apresentam anseio referente ao campo de trabalho para os surdos, pois se questionam onde a estudante irá trabalhar após concluir seu curso de Licenciatura em Computação, uma vez que irá trabalhar com estudantes, e a surdez dificulta a comunicação entre eles. 3.3 O estudante do curso Técnico em Informática O estudante, morador de Santo Augusto, tem surdez congênita, devido à rubéola que a mãe teve durante o 2º mês de gestação. 33 Os pais perceberam que o filho tinha alguma coisa diferente, pois ele não respondia quando era chamado, e também porque não brincava com as crianças da vizinhança, até certo dia em que a avó da criança falou que ele poderia ser surdo, fazendo que a mãe brigasse com a avó por não aceitar a ideia. Buscaram então ajuda médica, onde foi detectado que ele possuía apenas 15% de resíduo de audição. Assim, a partir de 1 ano e 7 meses, ele passou a usar aparelho auditivo até os 12 anos, quando não quis mais usar. O estudante frequentou a fonoaudióloga por um tempo, que passou informações para os pais de como trabalhar com ele, mas o tratamento não apresentou muita evolução. Conforme sua mãe, o que mais o ajudou foram os treinos que ela fazia com ele todos os dias durante 1 hora, onde o incentivava a falar. Ela utilizava figuras, brinquedos, jogos para que ele falasse, e relatou que muitas vezes ele chorava porque era difícil e não conseguia falar. O estudante frequentou a APAE de Santo Augusto para estimulação dos 4 aos 5 anos de idade. Ingressou na 1º série em uma escola regular com 06 anos e meio, e com 07 anos já estava lendo bem. Nas séries seguintes teve grandes dificuldades, mas os professores o ajudavam e acabavam passando o estudante de série. A mãe do estudante relatou que durante o Ensino Fundamental, o estudante sempre teve a presença do tradutor-intérprete na sala de aula e também durante as provas, que o ajudava muitas vezes dando-lhe as respostas. Falou também que foi muito difícil educar o filho devido à surdez, onde o que mais a incomodava eram os olhares de piedade, a discriminação, quando as crianças riam dele, e quando chamavam o filho de mudinho. Relatou também que quando o seu filho começou a estudar na escola regular, havia um certo preconceito por parte de alguns professores e estudantes, bem como de alguns pais que acreditavam que ele poderia atrapalhar e desviar a atenção de seus filhos durante as aulas. Já os professores alegavam que não tinham conhecimento para trabalhar com um estudante surdo, mas a maioria deles se esforçava para que o processo de ensino-aprendizagem fosse realmente efetivo. As decisões mais importantes na vida do estudante são tomadas por seus pais, que estão sempre observando suas ações. A escolha de estudar no Campus Santo Augusto foi tomada por seus pais, por ser uma escola 34 profissionalizante e também inclusiva. O estudante, que tem pouco conhecimento de Libras, teve o primeiro contato com Libras na própria escola, da 5ª até a 8ª série, durante as aulas. Mas ele não gosta de Libras, nem sua mãe, que prefere que ele fale e faça leitura labial ao invés de se expressar por gestos, mas sua fala é difícil de ser entendida por outras pessoas. No entanto, o estudante afirmou que após a entrada da tradutora-intérprete na escola, ficou mais fácil entender os conteúdos, e reclamou que ela não fica na sala durante as provas, como ele estava acostumado na escola em que frequentava anteriormente. O estudante, assim como sua mãe, afirmou preferir frequentar uma escola regular inclusiva, que tenha tanto estudantes ouvintes como não ouvintes, pois ele já está acostumado com esta estrutura de escola, que é a que ele sempre frequentou. Isso decorre do fato de a família não ter uma boa aceitação da surdez do filho, o que acaba protegendo-o demasiadamente e guiando sua vida, tanto social como educacional. 4 DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA NA INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS 4.1 Olhar dos professores dos cursos de Informática do Campus Santo Augusto Os desafios dos cursos de informática na inclusão de estudantes surdos foram analisados, dentro do aspecto técnico e didático dos cursos, buscando a adequação dos métodos de ensino diante das necessidades dos estudantes surdos. Os Projetos Pedagógicos dos Cursos de Licenciatura em Computação e do Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio do Campus Santo Augusto não fazem referência alguma sobre a entrada de estudantes com necessidades educacionais especiais (NEE’s) no curso. Assim, não há nenhuma definição ou norma que oriente a prática pedagógica com estudantes com NEE, como os surdos, e nem normas sobre a questão da avaliação da aprendizagem dos estudantes surdos. Na escola, estão havendo algumas discussões sobre uma possível inclusão de ensino de Libras nas aulas, mas ainda não há definições acerca do assunto. Foram entrevistados sete professores que lecionam nos cursos de informática do Campus Santo Augusto. 36 Gráfico 01 – Inclusão na escola regular 14% A favor da inclusão 29% 57% A favor da inclusão, mas com as condições necessárias Contra a inclusão A Autora. Os professores, ao serem questionados se eram favoráveis ou não da inclusão de estudantes com NEE’s na escola regular, e por que, 57% afirmaram ser a favor da inclusão dos mesmos na escola regular, afirmando também que não têm conhecimentos sobre como trabalhar com estudantes surdos, apresentando sentimentos de anseio e medo, pois não têm formação para trabalhar com estes estudantes. Essa situação mexe com a subjetividade, e mesmo que o professor seja um ótimo profissional, quando se depara com uma situação como esta, não sabe o que fazer, o que o desestabiliza. É preciso, então, que busque novas metodologias e novos meios de trabalho, objetivando a diminuição das desvantagens que são impostas pela surdez ao estudante. Dos demais professores, 29% afirmaram ser a favor da inclusão dos estudantes com NEE’s na escola regular, desde que se tenha as condições necessárias para incluir realmente o estudante com NEE. Uma minoria dos professores, 14%, afirmaram ser contra o processo de inclusão de estudantes NEE’s em escolas regulares, devido à falta de condições e conhecimentos para dar o devido atendimento a esses estudantes. Os professores, ao se depararem com um estudante “diferente”, não sabem como trabalhar, pois não conhecem os meios de potencializar a sua aprendizagem. Assim, tanto o modo de ensinar e de avaliar se torna padronizado, não permitindo a percepção do crescimento de cada estudante, dentro de suas capacidades e habilidades. 37 O próximo questionamento foi sobre o significado que o processo de inclusão lhes trazia. Afirmaram que é uma experiência nova; que significa respeito à diversidade, à diferença; que mexe nas estruturas do que era considerado estável e normal; que faz com que percebam as dificuldades que têm para trabalhar com a diversidade existente entre os estudantes; que “oportuniza os PNE’s acesso ao conhecimento, desenvolvendo-se como ser”; que traz valores de fraternidade e humanidade; que cria um ambiente de convivência com as diferenças; que leva ao crescimento como pessoa e professor; que significa desafio; quebra de paradigma. Para incluir, é necessário que a escola passe por uma mudança de paradigmas, e se torne um lugar de convívio com as diferenças, surgindo a partir daí novas relações e experiências, que levam ao desenvolvimento da cidadania e ao crescimento, passando também por um processo de desenvolvimento das propostas educacionais para que satisfaçam toda a diversidade, atingindo a formação dos professores e funcionários, alcançando assim uma inclusão efetiva dos estudantes com necessidades educacionais especiais. O professor precisa ser também, livre de preconceitos, e estar comprometido com a função social e cultural de construir conhecimentos, reconhecendo a plenitude do desenvolvimento humano. Para Cynthia Duk: [...] mudar exige correr riscos, portanto, é preferível evitá-lo. É muito mais seguro ficar na mesma. Além do mais, aceitar algo novo significa, muitas vezes, desligar-se de outra situação. E isto pode ser doloroso. (DUK, 2006, p.133). 38 Gráfico 02 - Métodos utilizados para facilitar o processo de ensinoaprendizagem dos estudantes surdos Comunicação escrita e simbólica Tentativa de atendimento individualizado 8% 8% Recursos extras em alguns momentos (computador e calculadora) Libras 8% 14% 8% Acompanhamento de profissional especializado 8% Não usa métodos específicos Internet 8% 22% Recursos visuais 8% 8% Materiais impressos Atividades mais objetivas A Autora. Em relação aos métodos utilizados para facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes surdos, 8% responderam dar preferência pela comunicação escrita e pelo simbólico; 8% tentativa de atendimento individualizado; 8% utilização de recursos extras em alguns momentos (computador e calculadora); 8% uso de Libras por parte do professor, apesar do pouco conhecimento que declararam possuir; 8% acompanhamento de profissional especializado; 8% declaram não utilizar métodos específicos para os estudantes surdos; 8% utilização da internet como meio de troca de informações; 22% utilização de recursos visuais, como slides, lâminas e até mesmo registro no quadro do que é possível; 14% utilização de materiais impressos; e 8% utilização de atividades mais objetivas. Os professores devem levar em consideração que nem todos os estudantes aprendem no mesmo ritmo e do mesmo modo, devido as suas particularidades e sua história de vida. É preciso adequar as ações pedagógicas à diversidade dos estudantes; aproveitar a riqueza da diversidade dos símbolos, modos de interpretação, significados e manifestações que estão presentes na sala 39 de aula, uma vez que os recursos facilitam a inclusão do estudante surdo no processo pedagógico de aprendizagem É preciso, também, estudar as diferentes maneiras de trabalhar com os estudantes surdos, não lhes dando soluções prontas, mas sim os fazendo raciocinar, pensar sobre as questões, não ser superprotetor, mas preparar os colegas para que recebam naturalmente os colegas surdos, atentar para a sua posição em sala de aula de modo que não fique de costas ou de lado para os estudantes, buscar envolvê-los nas atividades, e, principalmente, acreditar de fato nos seus potenciais e observar seu crescimento. De acordo com Heloisa Maria Moreira Lima Salles: Recomenda-se que a educação dos surdos seja efetivada em língua de sinais, independentemente dos espaços em que o processo se desenvolva. Assim, paralelamente às disciplinas curriculares, faz-se necessário o ensino de língua portuguesa como segunda língua, com a utilização de materiais e métodos específicos no atendimento às necessidades educacionais do surdo. (SALLES, 2004, p.47). Gráfico 03 - Participação dos estudantes surdos em apresentações de trabalhos e seminários 13% Uso do quadro e auxílio dos colegas ouvintes para explicar o conteúdo Ainda não tiveram essa experiência 12% 13% 24% 13% 12% Participação de forma singela 13% Trabalhos entregues pessoalmente e dúvidas sanadas pela internet Uso de slides ou pequenos resumos passados no quadro Auxílio da tradutoraintérprete de Libras Não participam A Autora. Em relação à participação dos estudantes surdos em apresentações de trabalhos e seminários, 12% dos professores afirmaram que os mesmos se 40 restringiam ao uso do quadro e contavam com a ajuda dos colegas ouvintes para explicar o conteúdo; 12% ainda não tiveram essa experiência; 13% afirmaram que a participação ocorria de forma singela antes da chegada na escola da tradutoraintérprete de Libras; 13% afirmaram que os trabalhos são entregues pessoalmente, e que as dúvidas são sanadas pela internet; 24% apresentações através de slides ou pequenos resumos passados no quadro; 13% explicações através de Libras, que eram traduzidas pela tradutora-intérprete de Libras para o professor e colegas; 13% afirmaram que não há participação dos estudantes surdos em apresentações de trabalhos e seminários. O estudante surdo deve participar de todas as atividades em sala de aula, para que possa sentir-se realmente incluído. A apresentação de trabalhos pode ser das formas mais variadas, sendo que o que realmente importa é o seu envolvimento e participação nas atividades. Gráfico 04 – Avaliação dos estudantes surdos 29% Avalição é diferenciada 71% Avaliação não é diferenciada A Autora. Sobre a avaliação dos estudantes surdos, se é diferenciada ou não da avaliação dos estudantes sem necessidades educacionais especiais; 71% dos professores afirmaram que a avaliação é diferenciada. As provas são elaboradas, em sua maior parte, e algumas em sua totalidade, com questões objetivas de múltipla escolha, com menor exigência de interpretação por parte dos estudantes surdos; não utilizam questões subjetivas; questões com foco nos tópicos principais 41 dos conteúdos, e ofertam um tempo maior para a sua realização. No caso de produção de texto dissertativo, os professores permitem que eles utilizem material de consulta. Do total, 29% afirmaram que aplicam a mesma avaliação para todos os estudantes, independente de possuírem ou não alguma necessidade especial. Os professores do curso alegam que é muito difícil compreender o que os estudantes surdos escrevem em seus trabalhos e provas, pois, na maioria das vezes, não há conexão em suas frases e textos. Assim, as adaptações em provas e trabalhos devem ser pensadas a partir das necessidades especiais dos estudantes, para facilitar a verificação do seu real aprendizado. Gráfico 05 – Conhecimento da história de vida e da história escolar dos estudantes surdos 14% Conhece um pouco Conhece muito pouco 43% 43% Não conhece A Autora. Os professores, ao serem questionados se tinham conhecimento da história de vida e da história escolar dos estudantes surdos, 43% responderam que tinham pouco conhecimento; 14% que tinham muito pouco conhecimento e 43% não conheciam a história de vida e a história escolar dos estudantes surdos. Infelizmente, alguns professores ainda não modificaram suas práticas e seus métodos educativos. A maioria dos professores não teve contato com a família dos estudantes surdos, desconhecendo suas histórias de vida e suas 42 histórias escolares. GRÁFICO 06 - Conversa com os pais dos estudantes surdos 29% Conversou com os pais Não conversou com os pais 71% A Autora. Ao serem questionados se haviam conversado com os pais dos estudantes surdos, 71% dos professores entrevistados afirmaram ter conversado, e 29% dos professores não conversaram com os pais. Os professores que conversaram com os pais dos estudantes surdos alegaram que a conversa auxiliou no esclarecimento de dúvidas e na colaboração em relação às atividades de ensino. O envolvimento da família dos estudantes surdos no processo educacional é de extrema importância, pois os pais geralmente exercem grande influência em suas vidas, podendo tanto beneficiá-los como isolá-los da escola e sociedade. A família precisa também receber orientações e apoio, para que, assim, possa cumprir da melhor maneira possível o seu papel educativo junto a seus filhos. 43 GRÁFICO 07 - Melhoria do aprendizado dos estudantes surdos após a tradutora-intérprete de Libras iniciar suas atividades na escola 14% Melhorou muito 43% Melhorou Ainda não foi possível verificar 43% A Autora. A próxima questão foi sobre a melhoria do aprendizado dos estudantes surdos após a tradutora-intérprete de Libras iniciar suas atividades na escola, sendo que 43% dos professores responderam que melhorou muito; 43% responderam que melhorou e 14% responderam que ainda não foi possível verificar se houve ou não melhoria. Os professores que responderam que houve melhoria no aprendizado dos estudantes surdos, em especial a estudante surda, relataram que eles tornaram-se mais interessados nas aulas; houve melhora do desempenho e maior participação nas atividades. A valorização da língua de sinais para os surdos é uma questão essencial, pois se apresenta como uma possibilidade de igualdade de condições de desenvolvimento entre as pessoas. A professora que é tradutora-intérprete de Libras iniciou suas atividades na escola recentemente, no final do primeiro semestre letivo deste ano. Este atraso em conseguir o profissional para atuar na escola prejudicou o desenvolvimento dos estudantes surdos em dois semestres letivos. Antes da chegada da tradutora-intérprete de Libras na escola, observou-se, através das falas dos professores do curso, que os estudantes surdos não conseguiam prestar atenção nas aulas por muito tempo, mesmo apesar do uso, 44 por parte da maioria dos professores, de lâminas e figuras que facilitam a estimulação visual. Os professores repassam para os estudantes, também, cópias impressas do material a ser trabalhado em aula, visando um melhor acompanhamento e entendimento dos conteúdos trabalhados. Mas, mesmo assim, os estudantes apresentavam grandes dificuldades no seu processo de aprendizagem. A falta de conhecimento de Libras por parte da maioria dos professores leva muitas vezes a distorções no processo educativo, tanto para o professor como para o estudante surdo. O professor pode julgar equivocadamente a capacidade cognitiva do estudante surdo, pois ao propor atividades que o mesmo não consegue compreender o que deve ser feito ou respondido, o estudante não realiza a atividade, ignorando-a, ou realiza a atividade, mas não atinge o seu objetivo. O professor, muitas vezes, não consegue perceber a real dificuldade do estudante, que pode estar no entendimento do enunciado da atividade. Para que esta situação não se torne rotina, o professor precisa analisar e entender o processo de aprendizagem deste estudante, buscando interagir através da comunicação visual e dando a ajuda necessária para o estudante, tendo como consequência a resolução da atividade. 4.2 Olhar dos colegas dos estudantes surdos do Campus Santo Augusto Foram entrevistados 49 estudantes que são colegas dos dois estudantes surdos da escola. 45 Gráfico 08 – Relacionamento com colega surdo(a) 2% 6% 18% Ótimo 18% Muito bom Bom Regular Insatisfatório 56% A Autora. Na primeira questão, 6% dos estudantes marcaram que o relacionamento com o(a) colega surdo(a) é ótimo, 18% muito bom, 56% bom, 18% regular e 2% insatisfatório. Através das respostas, observa-se que a maioria dos colegas busca ter um bom relacionamento com o(a) colega surdo(a), independente do meio de comunicação utilizado por eles, buscando incluí-los ao invés de excluílos. Esta socialização é importante para todos os estudantes, pois conforme Maria Salete Fábio Aranha: A socialização é fator indispensável ao processo de desenvolvimento do ser humano, pois é através dela que o indivíduo apropria-se dos comportamentos produzidos pela sociedade na qual está inserido e, consequentemente, amplia suas possibilidades de interação. Pressupõe a aquisição de valores, normas, costumes e condutas que a sociedade transmite e exige. (ARANHA, 2005, p.96). 46 Gráfico 09 – Alteração da dinâmica das aulas 10% 10% Não altera Altera Altera às vezes 80% A Autora. Na segunda questão, 80% dos estudantes responderam que a presença do(a) colega surdo(a) não altera a dinâmica em sala de aula, 10% responderam que altera, e 10% que altera às vezes em algumas disciplinas. Os estudantes que responderam sim alegaram que alguns professores dão mais privilégios ao estudante(a) surdo(a); que os filmes que a turma assiste precisam ser legendados para que o(a) mesmo(a) possa acompanhar; e que a comunicação fica comprometida pelo fato de os colegas não saberem Libras. Os estudantes alegaram que às vezes a dinâmica em sala de aula é alterada quando os professores ditam os conteúdos; e quando alguns professores tratam o(a) estudante(a) surdo(a) de forma diferenciada. 47 Gráfico 10 – Acompanhamento das aulas 4% Acompanha 2% 2% 4% 27% 4% Acompanha com ajuda da tradutora-intérprete de Libras Acompanha devido à leitura labial Acompanha com ajuda da tradutora-intérprete de Libras e leitura labial Acompanha às vezes Não acompanha 57% Acompanha com muitas limitações A Autora. Na terceira questão, 27% dos estudantes responderam que o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula, 57% dos estudantes responderam que o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula com a ajuda da tradutoraintérprete de Libras, 4% que o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula porque faz leitura labial, 4% que é capaz de acompanhar a aula com a ajuda da tradutora-intérprete de Libras e por fazer leitura labial, 2% responderam que às vezes o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula, 2% responderam que não é capaz, e 4% responderam que consegue acompanhar, mas com muitas limitações. De acordo com as respostas, grande parte dos estudantes não possui um claro entendimento do papel da tradutora-intérprete de Libras em sala de aula, pois nas respostas eles referiam-se a ela como se fosse a única professora do(a) colega surdo(a), ignorando os professores das disciplinas. 48 Gráfico 11 - Preparação dos professores 2% Estão preparados 33% Apenas alguns estão preparados 51% Não estão preparados Não respondeu 14% A Autora. Na quarta questão, ao serem questionados se os professores do curso estão preparados para trabalhar com o(a) estudante(a) surdo(a), 33% responderam que sim, 14% responderam que apenas alguns professores estão preparados, 51% responderam que não estão preparados, e 2% não responderam a questão. Os estudantes que responderam que os professores estão preparados para trabalhar com o(a) estudante(a) surdo(a) citaram que isso é devido a presença da professora tradutora-intérprete de Libras que acompanha os estudantes em sala de aula; que são bons profissionais; que buscam meios para melhorar a prática pedagógica com o(a) estudante(a) surdo(a); pelo fato de que os professores podem utilizar-se de e-mail e xerox para repassar o conteúdo das aulas com antecedência; que possuem consciência da presença do(a) estudante(a) surdo(a) na turma. Os estudantes que responderam que apenas alguns professores estão preparados não explicitaram os motivos. Entre os estudantes que responderam que os professores não estão preparados para trabalhar com o(a) estudante(a) surdo(a) eles creditam esta situação ao fato de que os professores nunca tiveram um estudante com surdez; que eles falam muito rápido nas aulas; que às vezes ficam de costas para o(a) 49 estudante(a); que não possuem conhecimento de Libras; e que não possuem conhecimentos para trabalhar com este(a) estudante(a). Os estudantes, mesmo sem terem um conhecimento concreto acerca do processo de ensino-aprendizagem do(a) colega surdo(a), observam que muitas das metodologias utilizadas pelos professores não auxiliam este estudante, uma vez que ele necessita de materiais e metodologias adaptadas às suas necessidades, o que na maior parte das vezes não é respeitado. Gráfico 12 – Estrutura da escola 2% 14% Possui estrutura adequada Não possui estrutura adequada Não soube responder 84% A Autora. Na quinta questão, ao serem indagados se a escola possui a estrutura necessária para atender o(a) estudante(a) surdo(a), 84% responderam que sim, 14% responderam que a escola não está preparada, e 2% responderam que não sabem. Os estudantes que responderam que a escola possui a estrutura necessária afirmaram ser devido à presença da tradutora-intérprete de Libras nas aulas; aos recursos tecnológicos; à adaptação dos estudantes surdos na escola. Os que responderam que não alegaram a falta de ferramentas pedagógicas; falta de qualificação por parte dos servidores para atender os estudantes surdos; a escola não disponibiliza aulas de libras para os estudantes e servidores; e a falta de softwares e equipamentos que facilitem o aprendizado. 50 Através das respostas, observa-se que a maioria dos estudantes não conhece as reais necessidades dos estudantes surdos em relação à estrutura da escola, pois demonstraram entender que a tradutora-intérprete de Libras é a única necessidade dos mesmos, não entendendo que, além deste profissional, são necessários para uma inclusão efetiva um acompanhamento especializado constante, materiais adaptados e softwares que os auxiliem no seu processo de aprendizagem. Gráfico 13 – Comunicação com colega surdo(a) 24% Há dificuldade 39% Há um pouco de dificuldade Não há dificuldade 37% A Autora. Na sexta questão foi solicitado que respondessem se há dificuldade ou não para se comunicar com o(a) colega surdo(a), e quais eram. 39% dos estudantes responderam que sim, 37% responderam que há um pouco de dificuldade, e 24% responderam que não. Entre as respostas positivas, afirmaram que não entendem o que o(a) colega surdo(a) tenta falar; que não conhecem Libras; que a comunicação na aula de Educação Física é difícil, pois não há a presença da tradutora-intérprete de Libras; os colegas surdos nem sempre entendem o que os outros colegas falam; não entendem os gestos que o(a) colega surdo(a) faz; dificuldade em expressar ideias e contar experiências para o(a) estudante(a) surdo(a); e insegurança para interagir com o(a) colega surdo(a). Os estudantes que responderam que há um pouco de dificuldade alegaram que às vezes é um pouco 51 difícil entender o que o(a) colega surdo(a) fala e que eles nem sempre conseguem compreender a fala dos outros colegas; e citaram também a falta de conhecimento de Libras. Os estudantes que responderam que não relataram que possuem conhecimento de Libras, e outros explicaram que já foram colegas do(a) estudante(a) surdo(a) em outra escola, por isso não possuem dificuldades em se comunicar com o(a) mesmo(a). Gráfico 14 – Sugestões de melhoria da convivência com colega surdo(a) 8% 18% Não sabem Não possuem sugestões Não responderam 8% 66% Sugeriram melhorias A Autora. Na última questão, foi solicitado que dessem sugestões de como pode ser melhorada a convivência com o(a) colega surdo(a), sendo que 8% responderam que não sabem como melhorar a convivência, 18% responderam que não possuem sugestões, 8% não responderam a questão, e 66% deram sugestões de como melhorar a convivência com o(a) colega surdo(a). Sugeriram a implementação de um curso de Libras para os estudantes; dinâmicas em grupo durante as aulas com rodízio de colegas para que haja interação com todos; desenvolver o interesse de comunicar-se com o(a) colega surdo(a); maior participação nas aulas por parte do(a) colega surdo(a); conhecêlo(a) melhor; respeitar a deficiência e as suas dificuldades; trabalhos em conjunto; 52 maior utilização de materiais visuais por parte dos professores; e posicionamento correto dos professores em sala de aula em relação ao estudante(a) surdo(a). Através do questionário realizado com os colegas dos estudantes surdos, foi observado que eles não possuem total clareza acerca do processo de inclusão de estudantes PNE’s, mas compreendem a real necessidade de ter conhecimento de Libras, visando uma melhor comunicação e interação com os colegas surdos. Demonstraram também ter respeito aos mesmos, buscando uma boa interação entre todos. Deste modo, a educação de estudantes surdos na escola comum leva à valorização das diferenças no convívio social e o reconhecimento do potencial de cada estudante, desenvolvendo o pensamento e o conhecimento em ambientes de aprendizagem heterogêneos. 4.3 Estrutura do Campus Santo Augusto O Campus Santo Augusto, apesar de buscar sua adequação, não está totalmente preparado para atender os PNEE’s, como os surdos. Para que a instituição seja realmente acessível para os estudantes surdos, são necessárias algumas adequações. O Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Especiais (NAPNE) da escola desenvolveu o projeto Curso de Libras e Cultura Surda, que é ministrado pela estudante surda da escola e pela tradutora-intérprete de Libras. O curso é destinado à comunidade interna do Campus Santo Augusto e para os professores das demais escolas do Município de Santo Augusto, tendo um número limitado de participantes, havendo assim, uma pequena representação de servidores do Campus Santo Augusto no curso. Na escola há também o Curso de Formação Pedagógica, ministrado pelos próprios professores da escola que possuem formação pedagógica. Este curso é destinado aos professores do Campus Santo Augusto que não possuem licenciatura, onde são trabalhadas questões como inclusão social e educacional, e a importância do professor buscar ter conhecimento da história de vida do estudante NEE. Mas o número de professores da escola que participam do curso é pequeno, não atingindo assim, a equipe docente em sua totalidade. É necessário que a instituição implante e desenvolva atividades 53 através do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Especiais (NAPNE) e que contrate mais um profissional tradutor-intérprete de Libras, para que estes profissionais estejam presentes nos três turnos de funcionamento da escola. Com isso, os estudantes surdos poderão buscar auxílio e explicações com os professores nos três turnos, facilitando a compreensão dos ensinamentos repassados pelos mesmos para os estudantes surdos. A instituição deve fornecer, durante palestras e eventos que acontecem em seu auditório, um tradutor-intérprete de Libras, que deve ter um lugar destinado no palco, e também ter disponíveis dispositivos de tecnologia assistiva para atender no palco pessoas com surdez. O Telefone Público para Surdos é um direito que a comunidade surda no Brasil conquistou, sendo garantido o direito de ter o telefone público em rodoviárias, escolas, aeroportos, postos de saúde, metrô e outros locais, através da Lei do Plano Geral de Metas e Universalização – PGMU, aprovado pelo Decreto 4.769 de 27 de junho de 2003, que define que as operadoras de telefonia de cada estado instalem os telefones públicos adaptados. O TDD - Telecommunication Device for the Deaf (Dispositivo de Telecomunicação para surdos) é um sistema de comunicação telefônica digital onde os surdos podem se comunicar com outras pessoas escrevendo suas mensagens em um teclado e visualizando em uma tela as mensagens que lhe são enviadas. A comunicação pode ser feita de duas formas: entre dois terminais TDD, com envio de mensagem escrita diretamente ao outro lado da linha para ser lida na tela do telefone, ou, caso um dos interlocutores não possua o terminal TDD, com o auxílio de um atendente da empresa operadora de telefonia, que receberá a mensagem falada, a digitará e enviará imediatamente para o receptor. Deste modo, é necessário instalar um telefone de uso público adaptado para uso por PNE’s, como os surdos, uma vez que há um telefone público na escola, mas ele não é acessível. As rotas de fuga e as saídas de emergência da escola devem ser sinalizadas com informações visuais, sendo necessária a instalação de alarmes visuais. Os servidores da escola carecem de capacitação para atender os estudantes surdos, pois não possuem conhecimento de Libras, não existindo uma boa comunicação entre os mesmos. 54 A escola não possui uma sala de recursos, sendo preciso organizar uma sala com serviços de natureza pedagógica, que contenha equipamentos e recursos pedagógicos adaptados às necessidades educacionais dos estudantes. Esta sala serve como um complemento para que os PNEE’s, como os estudantes surdos, tenham um atendimento educacional especializado no turno inverso ao da sua aula. O estacionamento da escola é de pedra brita, não tendo vaga destinada para veículos de PNE’s, devendo ser destinadas vagas e ser feita a sinalização das mesmas. Deste modo, observa-se que o espaço da escola deve ser adequado para permitir que as pessoas com necessidades especiais sejam incluídas nos mais diversos processos, por meio do conhecimento e valorização da nossa cultura e história. Cada pessoa, seja criança, jovem ou adulto, deve ter condições de aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades de aprendizagem e de conhecimento, que são necessárias para que possam desenvolver plenamente suas potencialidades, viver e trabalhar com dignidade, participar plenamente do desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas e continuar aprendendo. CONSIDERAÇÕES FINAIS A garantia de escola para todos não basta, uma vez que a educação é um processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, onde a sua inclusão social deve ser assegurada. É necessário que o estudante surdo tenha direito a acesso, participação e aprendizagem na escola, tendo uma educação de qualidade. A escola e a sociedade têm o papel de modificar suas estruturas e seus valores éticos, para que sejam capazes de receber todos os segmentos populacionais que formam a diversidade humana e todas as diferenças que distinguem uma pessoa da outra. As pessoas com surdez ficaram excluídas do convívio educacional e social, pois, durante muito tempo, as propostas e políticas educacionais não asseguraram uma inclusão efetiva, uma vez que consideravam a deficiência como um fator de impossibilidade de avanço no processo de aprendizagem. Hoje, lutam pelo direito de participação na educação e na sociedade. A escola, além de ter o papel de escolarizar o estudante, expandindo seu conhecimento, tem também um importante papel na área social, uma vez que é a instituição que tem a função por excelência de trabalhar com a construção do saber, promovendo assim uma transformação social. Deve oferecer oportunidades para que os estudantes surdos se desenvolvam linguisticamente, pedagogicamente e como cidadãos, para que adquiram novos conhecimentos, reformulem os seus conceitos, e saibam aplicar esses conhecimentos na busca de uma melhor qualidade de vida, tanto para si, como para sua família e comunidade. A escola, através de suas políticas inclusivas, deve desenvolver o estudante visando a sua independência pessoal e financeira. Logo, através de uma formação profissional e tecnológica, o estudante surdo tem melhores oportunidades de inserir-se no mercado de trabalho, no mundo produtivo, exercendo assim sua cidadania. Através desta pesquisa, foram identificados os desafios dos cursos de informática do Campus Santo Augusto na inclusão de estudantes surdos, que são a adequação dos projetos pedagógicos dos cursos visando a inclusão; promoção de adaptações curriculares; cursos de formação para os professores, que 56 forneçam conhecimentos pedagógicos em relação ao processo de ensinoaprendizagem dos estudantes surdos; aquisição e construção de materiais e recursos adaptados às necessidades dos estudantes surdos; implementação do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Especiais (NAPNE) e da sala de recursos; contratação de mais um profissional tradutor-intérprete de Libras; adequação da estrutura física da escola; curso de Libras para toda a comunidade escolar; desenvolvimento de projetos inclusivos com a comunidade e o desenvolvimento de ações articuladas com a educação especial do município. Na busca da inclusão escolar e social, o Campus Santo Augusto deve seguir as leis existentes, almejando a plena participação e acesso dos estudantes surdos na escola e comunidade, possibilitando a igualdade de oportunidades e valorizando a diversidade existente, onde todas as pessoas possam exercer seu papel social, assumindo o compromisso de participação no processo de inclusão. O papel do professor precisa ser considerado no processo de inclusão do estudante surdo, pois ele é quem viabiliza, na sala de aula, as condições adequadas para atender todos os estudantes, em suas necessidades e peculiaridades, contribuindo assim para que todos os estudantes possam participar, de maneira efetiva, de todas as instâncias de convívio social. Para que esta realidade seja atingida, percebe-se a necessidade de modificações no sistema educacional, uma vez que a maioria dos professores e funcionários do Campus Santo Augusto não possuem formação e capacitação específica. Os professores do Campus Santo Augusto precisam preparar-se para atender o desenvolvimento e o ritmo de aprendizagem dos estudantes, tendo a clareza do seu papel de educar a todos, sendo necessária uma constante avaliação da sua prática educativa, visando superar as dificuldades encontradas e elaborar estratégias para o sucesso educacional. O professor necessita ter um olhar único sobre cada estudante, analisando individualmente seus problemas, dificuldades e facilidades, sua autoestima, e personalidade, para assim realizar um melhor trabalho com ele, destacando suas potencialidades e aptidões, e buscando desenvolver os pontos menos favorecidos. É importante também buscar avaliar não só o que o estudante surdo aprendeu, mas a evolução que obteve no processo de ensino-aprendizagem, 57 ou seja, o seu desenvolvimento, tanto na esfera educacional como social. Em face disso, a educação inclusiva prevê um processo de formação continuada para os professores, o que é necessário para os docentes do Campus Santo Augusto. Deste modo, poderão atender a diversidade e especificidade dos estudantes surdos, tendo uma participação decisiva e de qualidade no aprofundamento do processo de inclusão, envolvendo também a equipe administrativa da escola. É preciso que repensem o ensino e revejam suas práticas; adaptem-nas para as necessidades do dia-a-dia; reconheçam as possibilidades dos estudantes surdos; eliminem qualquer tipo de preconceito e indiferença existentes; além de ter também o auxílio da tecnologia para promover uma educação de qualidade para os estudantes surdos, bem como para os demais. Assim, a inclusão de estudantes surdos perpassa pela questão do aperfeiçoamento didático e técnico dos professores e funcionários, bem como das estruturas educacionais. As adaptações necessárias ao ensino vão possibilitar que estudantes surdos estudem nos cursos de informática do Campus Santo Augusto, alcançando uma educação profissional e tecnológica adequada às suas necessidades, constituindo-se em sujeitos cientes de suas capacidades e profissionais qualificados. A aprendizagem é resultante do desenvolvimento de aptidões e de conhecimentos, bem como da transferência destes para novas situações. Logo, o Campus Santo Augusto deve desenvolver ações de adaptação, tanto nos projetos pedagógicos como nos currículos dos cursos de informática, e também promover mudanças atitudinais, uma vez que alguns professores não dão a devida importância às adaptações necessárias para o processo de inclusão dos estudantes surdos. As adaptações curriculares possibilitam um atendimento mais adequado às particularidades dos estudantes. Incluem modificações organizacionais; modificações nos objetivos e conteúdos; na organização didática; na avaliação, que deve ser entendida como um processo contínuo e não estanque; e nas metodologias do processo de ensino-aprendizagem. A modificação dos currículos na escola é um dos passos no caminho da inclusão escolar. A instituição deve tornar os currículos flexíveis, para que possa atender a enorme diversidade dos estudantes, fazendo com que o processo de ensino e aprendizagem seja de qualidade, havendo assim uma educação inclusiva 58 de fato. O currículo constitui uma das possibilidades educacionais de agir diante das dificuldades de aprendizagem dos estudantes; torna-se uma articulação entre o conhecimento escolar e os saberes da vivência dos mesmos, adquirindo uma significação histórica e cultural. Ao ter um currículo flexível, que atenda a toda diversidade existente na sala de aula, assim como o uso de tecnologias assistivas que possibilitam uma inclusão efetiva; a presença de um tradutor-intérprete de Libras em sala de aula no caso de o professor não conhecer Libras; o uso e também estudo de Libras; e a utilização de recursos visuais variados; o conhecimento a ser construído em sala de aula atingirá a todos os estudantes, independentemente de suas especificidades, incentivando a participação de todos na construção do conhecimento. Para se comunicarem, os surdos utilizam uma língua visual-gestual, onde a visão se torna seu principal meio de aquisição de conhecimento, de informação, pois o organismo busca uma forma de compensação para a sua deficiência auditiva, desenvolvendo outras habilidades que não dependam da audição. É extremamente importante que os professores e funcionários da escola tenham conhecimento sobre Libras, para que auxiliem os estudantes surdos em seus estudos, assim como a presença de um tradutor-intérprete de Libras na sala de aula e nos eventos que ocorrem na escola. O professor precisa utilizar recursos variados para a aula, buscando incluir figuras, fotos, entre outros, no material da disciplina ministrada, tendo critérios e avaliações adequadas às necessidades do estudante. Os estudantes surdos podem ter atendimento na escola no turno inverso ao de suas aulas, para reforçar o processo de aprendizagem, desde que não substitua a sua aprendizagem na sala de aula regular. É importante também que a escola mantenha um trabalho sistemático visando a participação das famílias dos estudantes surdos no processo educacional, desenvolvendo projetos com seus familiares e a comunidade em geral na busca da conscientização e inclusão social. Os estudantes surdos podem ajudar a melhorar a ação do professor, pois eles sabem as suas reais necessidades em sala de aula, compartilhando com o professor essas necessidades, buscando a melhoria da prática educativa, e consequentemente, o seu desenvolvimento, pois deste modo se consegue uma participação efetiva dos estudantes surdos em todas as atividades escolares. É fundamental validar a opinião das pessoas surdas, entendê-las, 59 abrir espaço para a reflexão, ensinar respeito sendo respeitosos em nossas relações, estabelecendo um clima afetivo e de confiança. Nas relações, que são carregadas de intensidades (tabus, controvérsias, ideologias, preconceitos), são fundamentais os espaços de reflexão conjunta, contribuindo para que as transformações sociais, bem como as educacionais, políticas e da área da saúde, sejam verdadeiramente progressistas. Como a estrutura da educação brasileira está distribuída entre as esferas municipais, estaduais e federais, é de grande importância essa interligação, havendo um apoio mútuo entre comunidades e governos na busca do desenvolvimento da educação, democratizando o seu acesso, transpondo obstáculos para a aprendizagem e buscando a participação com igualdade de oportunidades. Para alcançar essa melhoria, é preciso que o planejamento de ações do Campus Santo Augusto na área da educação ocorra em conjunto com as outras esferas relacionadas à mesma. A esfera municipal deve estar conectada com as esferas estadual e federal, onde as secretarias devem organizar, planejar e colocar em funcionamento os projetos desenvolvidos em conjunto. O Campus Santo Augusto deve buscar uma maior interligação e articulação com as escolas que atendem a educação especial no município. Isso possibilita investimentos variados, contemplando várias necessidades educacionais, garantindo a evolução do processo de ensino-aprendizagem dos estudantes com e sem necessidades educacionais especiais, e também a permanência e continuidade de seus estudos. Esta estratégia também facilitará o trânsito dos estudantes com necessidades educacionais especiais para a escola regular. Esperamos que, através destas transformações no Campus Santo Augusto, e através de mudanças de atitude com relação aos estudantes com necessidades educacionais especiais, ocorra a efetivação da política de educação inclusiva, buscando sua fundamentação na diversidade e no direito de todos à educação, uma vez que a educação escolar não pode estar alheia aos contextos plurais e complexos nos quais vivemos hoje. Só assim, através da reflexão e de mudanças das práticas educativas e sociais, é que poderemos superar o paradigma da exclusão, alcançando uma inclusão realmente efetiva. Uma vida de inclusão, de respeito à diversidade, em que as pessoas com necessidades especiais façam parte tanto da 60 sociedade como da escola, sem a presença de preconceitos, constituindo cidadãos cooperativos e solidários, havendo a transformação tanto daquele que será incluído como aquilo em que se incluirá. O movimento pela inclusão se coloca de modo irreprimível e, a cada dia, atrai novos adeptos, trazendo ganhos para toda a sociedade. Diante dessa realidade, é preciso que se defenda uma capacitação profissional irrestrita, voltada à diversidade humana, onde os cursos estejam adaptados a esse novo perfil de estudantes, demonstrando também os benefícios da diversidade humana na força de trabalho, na escola e na sociedade. Por isso, esta pesquisa deseja contribuir no sentido de superar visões simplistas no encaminhamento das questões de melhoria da prática educativa, contemplando a multiplicidade que caracteriza o ser humano. REFERÊNCIAS ARANHA, Maria Salete Fábio (org). Saberes e práticas da inclusão – desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de estudantes surdos. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Brasília: MEC/SEESP, 2005. BEYER, Hugo Otto. Por que Lev Vygotski quando se propõe uma educação inclusiva? Revista Educação Especial, Santa Maria, n. 26, 2005. BORGMANN, Marta Estela. Dificuldade de aprendizagem: análise e alternativa de mediação. Ijuí: UNIJUÍ, 2000. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução nº 2, de 11 de setembro de 2001. Institui diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado, 1988. BRASIL. Declaração de Salamanca e linha de ação sobre necessidades educativas especiais. Brasília: UNESCO, 1994. BRASIL. Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999. Regulamenta a Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências. BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. BRASIL. IBGE. Censo Demográfico, 2000 Disponível <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/default.shtm>. Acesso em: 11 ago. 2009. em: BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da criança e do adolescente e dá outras providências. BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. BRASIL. Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de 62 deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. BRASIL. Lei n° 10.436, de 24 de abril de 2002. Disp õe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. CAMPELLO, Ana Regina e Souza. Pedagogia visual/sinal na educação dos surdos. In: Ronice Müller de Quadros e Gladis Perlin. (Org.). Estudos Surdos II. Petrópolis: Editora Arara Azul, 2007, v. 2, p. 100-131. CARVALHO, Maria de Fátima. Conhecimento e vida na escola: convivendo com as diferenças. Ijuí: UNIJUÍ, 2006. DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Atendimento educacional especializado para pessoas com surdez. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Brasília: MEC/SEESP, 2007. DUK, Cynthia. 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Por quê? 2) Qual o significado que o processo de inclusão traz para você? 3) Quais os métodos utilizados para facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes surdos? 4) Como se dá a participação dos estudantes surdos em relação às apresentações de trabalhos e seminários? 5) A avaliação dos estudantes surdos é diferenciada da avaliação dos estudantes sem necessidades educacionais especiais? 6) Conhece a história de vida e a história escolar dos estudantes surdos? 7) Conversou com os pais dos estudantes surdos? 8) O aprendizado dos estudantes surdos melhorou após a tradutora-intérprete de Libras iniciar suas atividades na escola? APÊNDICE B - Questionário para os estudantes surdos dos cursos de Licenciatura em Computação e Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio do Campus Santo Augusto 1) A deficiência auditiva restringe sua autonomia? Como? 2) As pessoas costumam tomar decisões por você? Quando isso acontece? E com que freqüência? 3) No momento em que adquiriu a deficiência auditiva, você ou sua família receberam informações básicas sobre quais atitudes tomar diante desta nova realidade? Quem informou? Como? Buscou ajuda médica especializada? 4) Com que idade e como aprendeu Libras? 5) O conhecimento de Libras facilitou sua vida? 6) O que está achando da escola? 65 7) Em sua opinião, o que precisa ser feito para melhorar para você e para outros surdos que poderão freqüentar os cursos de informática do Campus Santo Augusto? 8) Em sua opinião, é preciso ter uma escola especial para os surdos, ou você tem preferência em freqüentar uma escola regular inclusiva? APÊNDICE C - Questionário para as mães dos estudantes surdos dos cursos de Licenciatura em Computação e Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio do Campus Santo Augusto 1) A surdez do(a) seu filho(a) é congênita ou não? Com que idade ele(a) perdeu a audição e quais foram as causas? 2) Em que momento foi informada sobre a deficiência auditiva de seu filho(a)? 3) Houve dificuldade para aceitar a nova condição de seu filho(a)? 4) No momento em que seu filho(a) adquiriu a deficiência auditiva, você recebeu informações básicas sobre quais atitudes tomar diante desta nova realidade? Quem informou? Como? Buscou ajuda médica especializada? 5) Como foi a vida escolar de seu filho(a)? Ele(a) estudou em escolas especiais? 6) Nas escolas em que seu filho(a) estudou houve preconceito pelo fato de ele(a) ser surdo(a)? APÊNDICE D - Questionário para os colegas dos estudantes surdos dos Cursos de Licenciatura em Computação e Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio do Campus Santo Augusto 1) Avalie o seu relacionamento com o(a) colega surdo(a): ( ) Ótimo ( ) Muito bom ( ) Bom ( ) Regular ( ) Insatisfatório 2) A presença do(a) colega surdo(a) em sala de aula altera a dinâmica das aulas? Em caso afirmativo, quais as mudanças sentidas? 3) Julga que o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula? Por quê? 4) Você acha que os professores do curso estão preparados para trabalhar com o(a) estudante(a) surdo(a)? Por quê? 5) Você acha que a escola possui a estrutura necessária para atender o(a) estudante(a) surdo(a)? Por quê? 6) Você tem dificuldade para se comunicar com o(a) colega surdo(a)? Quais? 66 7) Dê sugestões de como pode ser melhorada a convivência com o(a) colega surdo(a):