MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA
INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MATO
GROSSO – CAMPUS CUAIBÁ - OCTAYDE JORGE DA SILVA
DEPARTAMENTO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
Curso de Especialização Latu Sensu a Distância: Educação Profissional e
Tecnológica Inclusiva
ANA LUISA HENTGES LORENZON
DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS
SANTO AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ALUNOS SURDOS
Cuiabá - MT
Outubro 2009
INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE
MATO GROSSO – CAMPUS CUAIBÁ - OCTAYDE JORGE DA SILVA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATU SENSU A DISTÂNCIA:
EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INCLUSIVA
ANA LUISA HENTGES LORENZON
DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS
SANTO AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ALUNOS SURDOS
Cuiabá - MT
Outubro 2009
Ficha Catalográfica
Lorenzon, Ana Luisa Hentges
Desafios dos Cursos de Informática do Campus Santo Augusto na
Inclusão de Alunos Surdos
Cuiabá - MT, 2009
Total de folhas: 66
Samborski, Tarcísio
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso –
Campus Cuaibá - Octayde Jorge da Silva
Trabalho de Conclusão Curso de Especialização Latu Sensu a
Distância: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva,
ANA LUISA HENTGES LORENZON
DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS SANTO
AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado
ao
Departamento
de
Pesquisa e Pós-Graduação do Curso de
Especialização Latu Sensu a Distância:
Educação Profissional e Tecnológica
Inclusiva, do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia de Mato
Grosso – Campus Cuiabá – Octayde
Jorge da Silva, como exigência para a
obtenção do título de Especialista.
Orientador: Prof. MSc. Tarcísio Samborski
Cuiabá - MT
Outubro 2009
ANA LUISA HENTGES LORENZON
DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA DO CAMPUS SANTO
AUGUSTO NA INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS
Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização Latu Sensu a Distância:
Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva, submetido à Banca Examinadora
composta pelos Professores do Programa de Pós-Graduação do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – Campus Cuaibá - Octayde Jorge
da Silva como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Especialista.
Aprovado em: ____________________
______________________________________________
Prof. MSc. Tarcísio Samborski
______________________________________________
Profª. MSc. Ana Rita Kraemer da Fontoura
_____________________________________________
Profª. MSc. Mariléia Gollo de Moraes
Cuiabá - MT
Outubro 2009
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho ao meu esposo
Maurício,
por
ausência
e
compreender
pelo
eterno
a
minha
incentivo
e
carinho.
À
minha
família,
pelo
estímulo,
compreensão e afeto, em todos os
momentos desta e de outras caminhadas.
Dedico também a todas as pessoas que
acreditam e lutam por uma educação e
uma sociedade inclusiva de fato e de
direito.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, pois sem Ele nada seria possível.
Ao meu orientador, professor Tarcísio, pelo auxílio, disponibilidade de tempo e
material fornecido.
Aos amigos e colegas, que me acompanharam nesta caminhada.
Às professoras da banca pela participação.
Aos participantes da pesquisa, que acreditaram na importância deste estudo como
meio de buscar novos caminhos para uma discussão que possa sensibilizar a
educação e a sociedade para a inclusão das pessoas com surdez.
A todos aqueles que, direta ou indiretamente, colaboraram, e que de alguma forma
doaram um pouco de si, para que a conclusão deste trabalho se tornasse possível.
“A vida deve ser cuidada e enaltecida; devem cultivar-se todas
as possibilidades que encerra e fazer delas um jardim, ainda
que seja apenas para ter a alegria de recolher de vez em
quando, de cada planta que a própria mão semeou, cultivou e
aperfeiçoou, uma flor.”
(Da Sabedoria Logosófica)
RESUMO
As pessoas com surdez têm buscado o direito a uma educação de qualidade,
amparadas no princípio da cidadania e nos direitos humanos. Esta pesquisa buscou
identificar os desafios dos cursos de Informática do Campus Santo Augusto para a
inclusão de estudantes surdos. Foram analisados os projetos pedagógicos dos
cursos de Informática, realizadas entrevistas semi-estruturadas com os estudantes
surdos da escola, suas mães, seus colegas de aula e com os professores dos
cursos. Os Projetos Pedagógicos dos cursos de Informática do Campus Santo
Augusto não fazem referência sobre a entrada de estudantes surdos nos cursos.
Assim, não há nenhuma definição ou norma que oriente a prática pedagógica e a
avaliação da aprendizagem com esses estudantes. Entre os professores
entrevistados, a maioria afirmou ser a favor da inclusão dos estudantes surdos na
escola regular, afirmando também que não possuem formação para trabalhar com
estes estudantes. Em relação aos colegas dos estudantes surdos, observou-se que
eles não possuem total clareza acerca do processo de inclusão destes, mas
compreendem a real necessidade de ter conhecimento de Libras. Para que os
estudantes surdos estudem nos cursos de informática do Campus Santo Augusto e
alcancem uma educação profissional e tecnológica adequada às suas necessidades
é preciso haver a reformulação dos projetos pedagógicos dos cursos; adaptações
curriculares; capacitação para professores e funcionários; ensino de Libras para toda
a comunidade escolar; bem como desenvolver projetos com os familiares dos
estudantes surdos e a comunidade em geral na busca da conscientização e inclusão
social.
Palavras-chave: educação, libras, escola inclusiva, surdez.
ABSTRACT
Deaf people have sought the right to have a quality education, supported the
principle of citizenship and human rights. This study aimed to identify the challenges
of the IT courses Campus Santo Augusto for the inclusion of deaf students. We
analyzed the educational projects of IT courses, and conducted semi-structured
interviews with the deaf school, their mothers, their classmates and teachers of the
courses. Projects Pedagogical Course Information Campus Santo Augusto no
reference on the entry of deaf students in the courses. Thus, there is no definition or
standard to guide practice and assessment of learning against these students.
Among the teachers interviewed, most said it was for the inclusion of deaf students in
regular schools, saying that it did not have training to work with these students. For
the colleagues of deaf students, it was observed that they do not have full clarity
about the process of inclusion of deaf students, but they understand the real need to
know to Pounds. For the deaf students to study computer courses in Campus Santo
Augusto, and achieve a professional and technical education appropriate to their
needs, there must be a reformulation of the pedagogical courses, curricular
adaptations, training for faculty and staff, teaching Pounds for the entire school
community, developing projects with the families of deaf students and the wider
community
in
the
quest
for
awareness
and
social
inclusion.
Keywords: education, pounds, an inclusive school, deafness.
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Inclusão na escola regular....................................... ................................36
Gráfico 2 - Métodos utilizados para facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos
estudantes surdos.... .................................................................................................38
Gráfico 3 - Participação dos estudantes surdos em apresentações de trabalhos e
seminários..................................................................................................................39
Gráfico 4 - Avaliação dos estudantes surdos ............................................................40
Gráfico 5 - Conhecimento sobre a história de vida e história escolar dos estudantes
surdos.........................................................................................................................41
Gráfico 6 - Conversa com os pais dos estudantes surdos.........................................42
Gráfico 7 - Melhoria do aprendizado dos estudantes surdos após a tradutoraintérprete de Libras iniciar suas atividades na escola................................................43
Gráfico 8 - Relacionamento com colega surdo(a)......................................................45
Gráfico 9 - Alteração da dinâmica das aulas..............................................................46
Gráfico 10 - Acompanhamento das aulas..................................................................47
Gráfico 11 - Preparação dos professores...................................................................48
Gráfico 12 - Estrutura da escola.................................................................................49
Gráfico 13 - Comunicação com colega surdo(a)........................................................50
Gráfico 14 - Sugestões de melhoria da convivência com colega surdo(a)................51
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .......................................................................................... ...................
11
1 OS SURDOS NA HISTÓRIA E A INCLUSÃO ............................................................
14
1.1 A Educação dos Surdos na História................................................................ 14
1.1.1 História da Educação dos Surdos no Mundo.............................................
14
1.1.2 História da Educação dos Surdos no Brasil...............................................
16
1.2 Exclusão, Integração e Inclusão.................................................................... 17
1.3 Inclusão e a Teoria Histórico-Cultural............................................................ 20
2 O INSTITUTO FEDERAL FARROUPILHA - CAMPUS SANTO AUGUSTO....
25
2.1 Perfil do Instituto Federal Farroupilha - Campus Santo Augusto e dos 25
Cursos de Informática..........................................................................................
3 OS ESTUDANTES SURDOS DO CAMPUS SANTO AUGUSTO....................
29
3.1 História da Educação dos Surdos em Santo Augusto................................... 29
3.2 A Estudante do Curso de Licenciatura em Computação............................... 30
3.3 O Estudante do Curso Técnico em Informática............................................. 32
4 DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA NA INCLUSÃO DE
ESTUDANTES SURDOS....................................................................................
35
4.1 Olhar dos Professores dos Cursos de Informática do Campus Santo
Augusto ....................................................................................................................
35
4.2 Olhar dos Colegas dos Estudantes Surdos do Campus Santo Augusto....... 44
4.3 Estrutura do Campus Santo Augusto............................................................
52
CONSIDERAÇÕES FINAIS ..........................................................................................
55
REFERÊNCIAS...................................................................................................
61
APÊNDICES........................................................................................................
64
INTRODUÇÃO
A exclusão dos diferentes, daqueles que fogem da normalidade
(enquanto normativa estabelecida e não normalidade) não é um tema atual, pois
sempre esteve presente no contexto histórico da humanidade. Ao longo da história,
observa-se que a eficiência/deficiência sempre esteve ligada às diferenças
significativas.
A escola caracterizou-se, ao longo do tempo, por uma educação de
exclusão justificada nas práticas educacionais, eliminando indivíduos que não se
encaixavam nos seus modelos e segregando pessoas com necessidades
educacionais especiais - PNEE’s. A discriminação e a segregação tornaram-se algo
aceito nas comunidades, negando-se a muitos o direito a uma educação adequada,
em virtude de suas particularidades, sejam elas físicas, intelectuais, sociais,
culturais, linguísticas, entre outras. Com o advento da modernidade e com ela a
noção de direito universal, criam-se as bases ético-morais para uma mudança na
maneira de conceber os diferentes. Muitos anos depois, na busca de transformar
essa realidade, amparada no princípio da cidadania e nos direitos humanos, novas
leis, políticas e projetos vêm sendo formulados para ocorrer a inclusão dos PNEE’s,
aceitando-se as diferenças e a participação dos mesmos nas comunidades.
No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, propõe
a vinculação da educação ao mundo do trabalho. Logo, é preciso haver a inclusão
dos PNEE’s, como os surdos, na educação profissional e tecnológica e no mercado
de trabalho. Para isso, a educação profissional e tecnológica deve se preparar para
atender essa clientela de estudantes, buscando formar profissionais capacitados,
tornando o processo de ensino-aprendizagem capaz de garantir o sucesso no
mercado de trabalho para os PNEE’s. Para que essa inclusão ocorra, o mercado de
trabalho deve também adequar suas estruturas humanas, físicas e técnicas.
Infelizmente, a discriminação impede a maioria dessas pessoas de ter acesso a
oportunidades
na
educação,
especialmente
na
formação
profissional
e,
consequentemente, no mercado de trabalho. Não que o sentido da educação deva
se dar apenas para a preparação para o trabalho, mas tem sido essa a principal
barreira na inclusão das pessoas com necessidades especiais.
12
A empregabilidade não depende somente da vontade e do esforço
do PNEE, que busca a sua qualificação através de cursos de capacitação
profissional, mas depende também de um novo posicionamento das pessoas à sua
volta, de seus familiares, da comunidade escolar, dos empregadores e da
comunidade em geral.
Há somente dois estudantes surdos matriculados no Campus Santo
Augusto, sendo uma estudante surda matriculada no curso de Licenciatura em
Computação, e um estudante surdo matriculado no curso Técnico em Informática
Integrado ao Ensino Médio. Nesse sentido, esta pesquisa busca identificar os
desafios dos cursos de Informática do Campus Santo Augusto para a inclusão de
estudantes surdos, verificando como os mesmos podem ser superados, e quais as
adaptações necessárias que devem ser executadas.
Através de contatos feitos com a Secretaria de Saúde e de
Educação de Santo Augusto certificamos que há pessoas surdas no município que
possuem o ensino médio completo. O que ocorre, na maioria das vezes, é que elas
não possuem um atendimento necessário para o seu desenvolvimento, seja por falta
de informação, conhecimento, ou mesmo por preconceito. Com isso, a pessoa surda
se torna um fardo para a família, pois esta não sabe como tratá-la e educá-la,
enviando-a muitas vezes para instituições como as Associações de Pais e Amigos
dos Excepcionais - APAE’s – que não preparam profissionalmente, ou sendo
negligenciadas em casa, pois não compreendem que o surdo possui diversas
competências.
Assim, é imprescindível que os estudantes surdos frequentem uma
escola profissionalizante, buscando o seu desenvolvimento para o mercado de
trabalho, bem como a sua cidadania. O Campus Santo Augusto se apresenta como
uma alternativa a essa segregação. Ele é parte integrante da rede federal de
educação profissional e tecnológica, que se configura hoje como uma importante
estrutura para que as pessoas tenham um acesso efetivo às conquistas científicas e
tecnológicas, formando profissionais qualificados e com novos conhecimentos na
área da informática e de suas tecnologias.
O Campus Santo Augusto oferece cursos profissionalizantes na área
de informática, gestão, alimentos e agropecuária, integrando-se com a sociedade na
região em que está localizado e buscando atender as necessidades da mesma.
Essa profissionalização possibilita que o estudante surdo seja um profissional
13
qualificado, com várias competências e aumenta as chances de atuar no mercado
de trabalho.
O presente trabalho está organizado em quatro capítulos. O primeiro
capítulo retrata os movimentos relacionados às pessoas com necessidades
especiais, que vai desde a exclusão, passando à integração e posteriormente à
inclusão. Esses movimentos são analisados à luz da teoria histórico-cultural de
Vigotski. Faz-se, também, um breve relato sobre a história da educação dos surdos
no mundo e no Brasil.
No segundo capítulo é apresentado o Campus Santo Augusto e os
cursos de Licenciatura em Computação e Técnico em Informática da escola,
apresentando os eixos de orientação dos mesmos.
O terceiro capítulo retrata o perfil dos estudantes surdos do Campus
Santo Augusto, apresentando suas histórias de vida, tanto social como educacional.
O quarto capítulo trata sobre a análise e os desafios encontrados
para a inclusão de estudantes surdos nos cursos de informática da escola, baseados
nos projetos pedagógicos dos cursos, nos questionários realizados com os
estudantes surdos, suas mães, colegas e professores, e na estrutura da escola.
1 OS SURDOS NA HISTÓRIA E A INCLUSÃO
1.1 A educação dos surdos na história
1.1.1 História da educação dos surdos no mundo
Na antiguidade, alguns povos não consideravam as pessoas surdas
como humanos, pois entendiam que a fala resultava do pensamento, e, logo, quem
não falava não pensava e, portanto, não era humano. Não tinham direito de
participar da sociedade e da escola, e até mesmo a frequentar os mesmos lugares
que os ouvintes.
A Igreja Católica, durante a Idade Média, pregou a discriminação dos
PNE’s, pois para ela o homem foi criado à “imagem e semelhança de Deus”, e
aqueles que não se encaixavam neste modelo eram excluídos.
No entanto, a Igreja Católica, que na época detinha grande
influência na vida das pessoas, necessitava manter um bom relacionamento com as
famílias que detinham o poder econômico, que tinham também familiares surdos.
Como não havia escola para surdos, os padres passaram então a educar os surdos
oriundos de famílias ricas.
A partir do século XVI, surgiram os primeiros educadores de surdos,
como o italiano Giralamo Cardamo e o monge beneditino espanhol Pedro Ponce de
Leon, que perceberam que os surdos tinham capacidade de aprender a escrever e a
ler, e que também podiam ser oralizados.
Inicialmente, usaram os sinais como meio de comunicação, e
posteriormente, passaram a utilizar o oralismo, desenvolvendo a fala e a leitura
labial. Conforme Ana Regina e Souza Campello (2007) no oralismo, que buscava
capacitar as pessoas surdas na compreensão e na produção de uma língua oral, a
Língua de Sinais era entendida como um impedimento para o desenvolvimento da
fala.
No ano de 1760, na França, o abade Charles Michel de L’Epée
passou a defender o uso da Língua de Sinais, reconhecendo-a como um meio de
comunicação entre os surdos, e criou em Paris a primeira escola pública no mundo
para estudantes surdos, que foi chamada de Instituto de Surdos e Mudos
15
(atualmente Instituto Nacional de Jovens Surdos). Muitas escolas para surdos foram
então fundadas, onde os surdos passaram a ter a oportunidade de adquirir
conhecimento e de exercer várias profissões.
Durante muito tempo as escolas buscaram oralizar os surdos, tendo
poucos resultados satisfatórios, até que em 1878 aconteceu o I Congresso
Internacional de Surdos-Mudos em Paris, que definiu que a articulação da leitura
labial e o uso de gestos era o melhor método para a educação dos surdos.
Esta definição, porém, esteve vigente por apenas dois anos. No II
Congresso Internacional de Surdos-Mudos realizado em Milão, em 1880, foi
instituído através de votação que o melhor método para educar uma pessoa surda
era oral puro, abolindo oficialmente o uso da Língua de Sinais, tendo o entendimento
de que “o uso simultâneo de Sinais e fala teria a desvantagem de prejudicar a fala, a
Língua oral falada e a precisão de idéias” (HONORA, 2009, p. 120). Alguns
estudiosos da época eram contra essa ideia, defendendo que o método oral
beneficiava algumas pessoas surdas, enquanto que o método combinado do uso da
fala e da Língua de Sinais beneficiava a todos. Apesar deste cenário, o método oral
foi adotado em diversos países, negando às pessoas surdas o uso da língua que
lhes era de direito, levando-os novamente a uma posição de submissão.
O que se observou durante muitos anos foram os insucessos pelo
mundo todo na busca da escolarização dos surdos, que sem se utilizarem da Língua
de Sinais, adquiriram pouco ou nenhum conhecimento durante sua passagem na
escola. A escola forçava os estudantes surdos a desenvolverem a fala, objetivando
sua “normalização”, e aqueles que não se adaptavam ao método oral eram
considerados retardados.
Diante do fracasso do oralismo, a utilização da Língua de Sinais, a
partir de 1970, voltou a ser aceita como uma manifestação linguística, sendo então
utilizada a linguagem oral e sinalizada ao mesmo tempo.
Diversos estudos e pesquisas sobre surdez passaram a indicar que
a pessoa surda tenha acesso o mais cedo possível a duas línguas, que são a Língua
de Sinais e a Língua oral e escrita do seu País (Educação Bilíngue), objetivando a
eliminação das barreiras comunicativas, bem como o seu desenvolvimento.
Através da história, pode-se observar que houve avanços e
retrocessos ao longo do tempo na busca da escolarização das pessoas surdas, que,
16
por sua vez, não eram autores da sua própria história de vida, ficando a mercê do
entendimento dos ouvintes em relação aos temas da surdez.
1.1.2 História da educação dos surdos no Brasil
A educação das pessoas surdas no Brasil iniciou durante o Segundo
Império, quando, em 1857, Dom Pedro II convidou o professor francês Edward Huet
para vir ao Brasil criar, no Rio de Janeiro, a primeira escola para meninos surdos do
país, que se chamou de Imperial Instituto de Surdos-Mudos, hoje, Instituto Nacional
de Educação de Surdos (INES).
Através da Língua Francesa de Sinais, trazida pelo educador
francês, e dos sistemas de comunicação usados pelos surdos em diversas
localidades do Brasil, foi então criada a Língua Brasileira de Sinais.
O Instituto utilizou inicialmente a Língua de Sinais, adotando
posteriormente o oralismo, conforme determinação do II Congresso Internacional de
Surdos-Mudos de Milão, passando a ter o entendimento de que a fala seria o único
meio de a pessoa surda ser restituída na sociedade.
Com o passar dos anos, e de acordo com os diretores que
assumiam o Instituto, houve uma intercalação no foco da educação dos surdos, ora
priorizando o desenvolvimento da oralidade, ora o uso da Língua de Sinais, ora a
profissionalização dos mesmos.
A partir deste momento, outras escolas para surdos foram criadas,
representando um avanço na educação.
O Instituto se tornou uma referência para todo o Brasil, e em 1951,
houve uma importante inovação no Instituto, a criação do Curso Normal de
Formação de Professores para Surdos, que passou a receber professores de todo o
país para fazer o curso. Nesta época, era utilizado o método do oralismo.
Em outro momento, novas práticas, saberes, representações sociais
e leis começaram a ser edificadas, não mais pautadas em modelos de normalidade,
mas sim na valorização do convívio com a pluralidade, tanto no meio social como
educacional.
Com a propagação da ideia da garantia do direito de todos à
educação e da busca de integração dos PNEE’s, as escolas regulares passaram a
receber estudantes surdos, incluindo-os em classes com os demais estudantes, ou,
17
quando existente na escola, em classes especiais para surdos, além das escolas
especiais que também atendiam estudantes surdos. Algumas escolas implantaram
também salas de recursos.
Após inúmeras pesquisas, o Bilinguismo passou a ser difundido no
Brasil, sendo atualmente, conforme Ana Regina e Souza Campello (2007), o método
mais utilizado na educação de surdos, tendo como língua materna a Língua
Brasileira de Sinais e como segunda língua, a Língua Portuguesa escrita.
A comunidade surda passou, então, a apresentar reivindicações,
como respeito à Língua Brasileira de Sinais, ensino de qualidade, acesso aos meios
de comunicação como legendas e uso do TDD - Telecommunication Device for the
Deaf (Dispositivo de Telecomunicação para surdos) e serviços de intérpretes.
1.2 Exclusão, integração e inclusão
Muito se fala em buscar novas orientações para o ensino escolar,
que superem a fragmentação e a exclusão presentes nas práticas escolares, e que
contemplem uma nova significação da educação, baseada nas diferentes áreas do
saber e na diversidade existente no contexto escolar, almejando uma inclusão
educacional e social.
Atualmente, podemos observar um grande movimento no sentido de
romper a segregação presente na sociedade, buscando a inclusão de pessoas com
necessidades especiais – PNE’s, como as pessoas surdas.
Durante
muito
tempo,
as
noções
sobre
deficiência
eram
basicamente ligadas ao misticismo e ocultismo, não tendo uma base científica,
carregando marcas de segregação muito fortes e a convicção de incapacidade e
inferioridade. As pessoas com alguma deficiência eram totalmente isoladas da
escola e da sociedade, através do processo de seleção baseado na normalidade e
anormalidade, privilegiando um grupo, e excluindo aqueles considerados fora dos
padrões homogeneizadores da sociedade, naturalizando, assim, o fracasso escolar
e social.
A educação especial, até pouco tempo atrás, era atribuída como
tarefa da escola especial, que só atendia estudantes com os mais variados tipos de
deficiência, o que os levava ao isolamento e acabava por excluí-los, anulando-os.
Eles não tinham contato com os estudantes ditos “normais”, não ocorrendo interação
18
entre os mesmos, nem trocas de experiências, que levassem ao desenvolvimento da
cidadania e ao seu crescimento.
Hoje, a educação especial passa a ser entendida como uma
modalidade de educação escolar para estudantes com necessidades especiais,
oferecida preferencialmente na rede regular de ensino. Entretanto, somente os
serviços oferecidos pela escola especial, mesmo tendo suas diferenciações, não
chegam a ser inclusivos, apesar de ser um suporte ao processo de inclusão.
A inclusão está em constante renovação e evolução, é um processo
complexo, que acontece de forma gradual. Enquanto movimento, busca mudanças
de paradigmas e de atitudes, novas práticas pedagógicas para a inclusão de
pessoas surdas nas escolas regulares, no mercado de trabalho e na sociedade
como um todo. Procura também a reformulação de oportunidades e de direitos de
uma vida digna para todos, independentemente de se ter ou não uma deficiência.
Em resposta a esse movimento, o Estado busca desenvolver
políticas públicas e ações baseadas em fundamentos legais, buscando o bem
comum. Há diversas legislações e declarações acerca do assunto, como a
Declaração de Salamanca de 1994, um dos mais importantes documentos de
compromisso de garantia de direitos educacionais, que passou a exercer influência
sobre o desenvolvimento das políticas públicas da educação de inclusão. No Brasil,
a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 205, define que todas as pessoas têm
direito a educação, buscando o seu desenvolvimento, capacitação para o mercado
de trabalho e o mundo produtivo e exercer sua cidadania através da participação
ativa em sua comunidade.
A Constituição Federal prevê, também, uma reserva de cotas para
empresas com mais de cem empregados, tendo um percentual que deve ser
destinado ao emprego de PNE’s, sendo que a empresa deve possibilitar a essas
pessoas as condições necessárias para o desenvolvimento de sua função. Mas a
realidade é bem diferente, pois elas passam por grandes dificuldades no mercado de
trabalho, começando com o preconceito da empresa, que as acha incapacitadas
para o mundo produtivo, assim como os colegas de trabalho que por medo ou
ignorância acabam isolando-as. As barreiras arquitetônicas figuram também como
um problema, dificultando o acesso dos PNE’s, mesmo com a existência da Lei nº.
10.098 de 2000 que estabelece normas e critérios para a promoção da
acessibilidade.
19
A inclusão se tornou um movimento mundial, que busca envolver a
esfera política, pedagógica, cultural e social, defendendo o direito de participação
dos PNEE’s na sociedade, sem que sofram discriminações. Somente as leis,
documentos e declarações não têm força para deslocar paradigmas; os atores do
processo é que poderão deslocá-los. Cabe a estes promover as mudanças
necessárias.
Para buscar a inclusão, é necessário compreender alguns conceitos.
Conforme o Conselho Nacional de Educação, em sua Resolução nº. 2, de 11 de
setembro de 2001, pessoas com necessidades especiais - PNE’s - são aquelas que
possuem características de limitação funcional, que podem ser intelectual, física ou
múltipla, mas que não a impedem de participar plenamente da sociedade,
necessitando ou não de adaptações. Os estudantes com necessidades educacionais
especiais - PNEE’s - são aqueles que apresentam dificuldades relevantes no
processo de ensino-aprendizagem, os que necessitam de linguagens distintas dos
outros estudantes e os que possuem altas habilidades/superdotação.
Conforme as mudanças culturais e econômicas, as transformações
sociais e as descobertas científicas e tecnológicas foram ocorrendo, as atitudes
também foram sendo alteradas, fazendo surgir a noção de educação inclusiva e,
com ela, a escola inclusiva. Esta tem como princípio norteador o direito de todas as
crianças aprenderem juntas, não importando quais sejam suas diferenças ou
dificuldades, considerando também seus ritmos de aprendizagem. Por meio da
oferta de uma educação de qualidade, busca a participação dos estudantes e a
garantia de continuidade dos estudos. Para isso, as escolas regulares devem se
organizar para receber os estudantes com necessidades educacionais especiais,
tendo currículos, métodos e recursos educativos adaptados às suas carências,
levando em consideração suas características e interesses. O Estado deve oferecer
apoio especializado na escola regular, se preciso, ou em escolas especializadas no
caso de impossibilidade de interação do estudante na rede regular de ensino,
buscando sempre uma educação de qualidade.
Com vontade e esforço de toda comunidade escolar é possível
tornar a escola um ambiente aberto à diversidade, que busca a melhoria do ensino
em um ambiente heterogêneo, que seja rico em experiências, as quais contribuem
para o sucesso escolar inclusivo. Assim, a busca da inclusão escolar está baseada
na ética, no direito de todo ser humano ter acesso à educação, onde a igualdade
20
deve ser dispensada no momento em que ela se torna um fator de exclusão social e
educacional, e valorizada quando busca a igualdade de direitos e deveres para
todos, buscando condições para que todos aprendam.
1.3 Inclusão e a teoria histórico-cultural
A sociedade tem sido incapaz de lidar de modo apropriado com os
desafios apresentados por pessoas com necessidades especiais e que almejam
uma participação efetiva nas várias esferas sociais.
Tem-se hoje, nas salas de aula, um grupo de estudantes de
diferentes possibilidades, que exige pensar o processo de ensino-aprendizagem de
modo coletivo e distinto dos padrões atuais compartimentados da escola tradicional.
Essa realidade nos leva aos pressupostos da abordagem histórico-cultural de
aprendizagem e desenvolvimento. Esta abordagem considera a formação de grupos
heterogêneos, pois a heterogeneidade é uma característica encontrada nos diversos
grupos humanos, fruto das experiências individuais das pessoas com o meio social,
tornando-se imprescindível para as interações na sala de aula. Os diferentes
comportamentos, experiências, ritmos, situações familiares, valores e graus de
informação e conhecimento de cada estudante, assim como do professor, permitem
que inúmeras trocas de vivência e conhecimento aconteçam no cotidiano escolar,
ampliando as visões de mundo, de confrontos, de solidariedade, levando
consecutivamente
a
um
aumento
das
aptidões
individuais.
Assim,
a
heterogeneidade possibilita um aumento das capacidades cognitivas.
Vigotski é um dos defensores da presença da heterogeneidade nas
diversas áreas sociais, e sua abordagem está sendo constantemente veiculada nos
meios educacionais. A abordagem vigotskiana baseada no sóciointeracionismo
compreende que a construção do conhecimento se dá pela interação do sujeito,
situado historicamente, com o ambiente sóciocultural onde ele vive. Assim, a
educação deve levar em consideração o ambiente cultural que o sujeito nasce e se
desenvolve e a sua experiência de vida, que é única, seja esse sujeito com ou sem
deficiência, sendo que a cultura passa a integrar a natureza de cada sujeito. De
acordo com a abordagem de Marques (2001), a pessoa com alguma deficiência não
é menos desenvolvida que as pessoas ditas normais por causa de sua deficiência,
ela tem, isto sim, seu processo de desenvolvimento diferenciado, em que a
21
deficiência gera um processo de compensação, que leva ao crescimento da pessoa,
transpondo, assim, a sua deficiência. Ou seja, o estudante surdo tem a possibilidade
de agir sobre si mesmo e sobre o mundo, transformando-se e desenvolvendo-se,
num processo de constituição da pessoa, em que a cultura perpassa a sua
dimensão orgânica, e a deficiência assume outras formas. Nesse contexto, o meio
social pode tanto bloquear como promover esse processo de desenvolvimento.
Ciente de que as deficiências afetam as relações sociais, Vigotski
fortaleceu a ideia de que as pessoas com necessidades especiais devem ter uma
participação ativa na vida social, superando, assim, toda uma carga de preconceitos
que vem junto com a deficiência, através da educação social. O homem é um ser
social, e a edificação do conhecimento do estudante ocorre através da interação
social entre estudantes com e sem necessidades especiais, onde a capacidade
individual é ampliada através da convivência com a heterogeneidade. Deste modo, a
escola resgata seu papel de ensinar, garantindo o acesso ao conhecimento a todas
as pessoas.
Nesse sentido, o desenvolvimento humano é cultural, e, portanto,
histórico, pois a história do homem é a história da sua transformação, da sua
passagem da ordem da natureza à ordem da cultura, pois ele passa a transformar a
natureza pelo trabalho, modificando seu próprio modo de ser. O conhecimento e o
pensamento humanos são, em si mesmos, culturais, pois as suas propriedades e
características originam-se do caráter da atividade social, do discurso, da linguagem
e de outras formas culturais.
Segundo Vigotski (apud SIRGADO, 2000), tudo o que é cultural é
social; o homem cunha suas condições de existência social e de existência material
próprias, ou seja, a organização social é obra do homem, seguindo assim leis
históricas que definem as condições de sua produção; as relações sociais e
históricas condicionam e transformam a sua realidade concreta.
Para os estudantes surdos, a convivência com a diversidade tornase uma importante estratégia, pois expande o seu referencial de mundo e a sua
aprendizagem, através da interação com uma nova realidade, o que cria situações
de aprendizagem que podem ampliar o seu desenvolvimento.
O conjunto de interações entre o estudante e o ambiente faz parte
do processo de desenvolvimento do pensamento e da linguagem, sendo que os
fatores externos podem comprometer positiva ou negativamente esse processo.
22
Deste modo, é necessário que se desenvolvam alternativas para que os estudantes
surdos tenham um meio de comunicação para que consigam desenvolver o seu
potencial linguístico. A linguagem é constitutiva do sujeito e tem papel importante na
vida em sociedade, pois ela assinala a entrada do homem na cultura e constrói o
homem como um indivíduo que é capaz de produzir transformações. Através da
linguagem, o indivíduo consegue estruturar seu pensamento e comunicar-se com os
outros, possibilitando as interações fundamentais para que ocorra a construção do
conhecimento.
Para que o estudante surdo possa exercer o seu papel social e
integrar-se verdadeiramente na sociedade, é necessário que ele tenha capacidade
de comunicação linguística, pois a mesma se apresenta como um dos principais
fatores responsáveis pelo processo de desenvolvimento do estudante surdo em sua
potencialidade. Para alguns surdos, a língua de sinais é a primeira língua, através da
qual o surdo se reconhece como sujeito social e enunciador efetivo.
O fator linguístico no caso dos surdos se apresenta como um
desafio, pois a língua a ser usada como meio de compreensão deve ser a Língua
Brasileira de Sinais – Libras, conforme a Lei nº 10.436, de 2002. Esta Lei, em seu
artigo primeiro, define a Língua Brasileira de Sinais - Libras como:
Forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de
natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um
sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de
comunidades de pessoas surdas no Brasil. (Lei nº 10.436, de 24 de abril de
2002).
A Lei nº 10.436, de 2002, reconhece também a Língua Brasileira de
Sinais - Libras como um meio legal de comunicação e de expressão, bem como
outros recursos de expressão que estão relacionados à língua, sendo que ela não
substitui a modalidade escrita da língua portuguesa. Conforme o Decreto nº 5.626,
de 22 de dezembro de 2005, que regulamenta a Lei nº 10.436, de 2002, e o artigo
18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, a pessoa surda é aquela que, pela
perda da audição, busca perceber o mundo e interagir com ele através de
experiências visuais. A sua cultura é demonstrada, principalmente, pelo uso da
Língua Brasileira de Sinais - Libras.
As instituições de ensino devem assegurar que os estudantes
surdos tenham acesso a informação, educação e conhecimento em todos os níveis
23
e modalidades de educação. O desafio se apresenta no momento em que a maioria
dos professores das disciplinas nas escolas regulares não dominam a Língua
Brasileira de Sinais – Libras, e nem os estudantes ouvintes e, por sua vez, os
estudantes surdos apresentam grandes dificuldades no aprendizado da Língua
Portuguesa.
Para garantir o atendimento educacional especializado para o
estudante surdo na escola regular, é necessária a presença constante de um
tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa na sala de aula, pois ele se torna
um meio que irá beneficiar a aprendizagem e participação em sala de aula deste
estudante. Também é preciso realizar um trabalho com os professores das
disciplinas das escolas regulares, para que aprendam Libras.
O ensino do português é tido como segunda língua para o estudante
surdo, pois é no ambiente dos ouvintes que ele viverá sempre. Assim, através do
contato direto com os falantes de uma determinada língua, é que a aprendizagem da
mesma será efetivada. O estudante surdo terá, então, uma formação bilíngue, com o
reconhecimento das duas línguas que fazem parte da formação da pessoa surda.
O pensamento e a linguagem estão relacionados, sendo que não há
desenvolvimento cognitivo fora da linguagem, e também não há linguagem sem a
mediação que ocorre nos processos interativos. A linguagem, que é simbólica, é
também a principal mediadora entre o mundo biológico e o cultural.
A inclusão do estudante surdo deve acontecer tanto no âmbito
educacional e social como no âmbito profissional, através da qualificação e
profissionalização do mesmo. A capacitação profissional do estudante surdo deve
ser organizada a partir da realidade política, econômica e social em que o País e a
sua região situam-se. Nesse sentido, a capacitação para o trabalho não representa
somente a abertura de vagas em escolas profissionalizantes, nem mesmo a simples
repetição por parte do estudante de algo que lhe foi ensinado, pois essas ações se
limitam a “encaixar” o estudante surdo nos cursos, sem que haja uma modificação.
O desafio para as escolas é o de repensarem seus currículos, suas finalidades e
formas de atuação, adequando o ensino às necessidades da comunidade surda,
para que os estudantes tenham condições de estar em constante aprendizado,
formando assim profissionais qualificados que tenham acesso ao mundo produtivo.
O estudante precisa ter um domínio sobre o fazer, compreendendo o
quê, como e por que algo acontece, reconhecendo o resultado final do processo,
24
tomando ciência da sua participação na construção da cidadania e da cultura. Em
um mundo que valoriza tanto a competitividade, qualidade total e a produtividade,
num constante processo de inovação tecnológica, cabe à escola buscar desenvolver
no estudante surdo o seu potencial cognitivo, valores e atitudes, criatividade,
sociabilidade, cidadania e autonomia, que são imprescindíveis para um profissional
qualificado, buscando sua independência econômica e sentindo-se produtivo em sua
comunidade.
A Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, que dispõe sobre os planos
de benefícios da Previdência Social, prevê uma reserva de cotas para empresas
com mais de cem empregados, tendo um percentual que deve ser destinado ao
emprego de PNE’s, sendo que a empresa deve possibilitar-lhe as condições
necessárias para o desenvolvimento de sua função. Mas a realidade é bem
diferente, pois eles passam por grandes dificuldades no mercado de trabalho,
começando com o preconceito de muitas empresas, que o acha incapacitado para o
mundo produtivo, assim como os colegas de trabalho que por medo ou ignorância
acabam isolando-os.
2 O INSTITUTO FEDERAL FARROUPILHA - CAMPUS SANTO
AUGUSTO
2.1 Perfil do Instituto Federal Farroupilha - Campus Santo Augusto e dos
Cursos de Informática
A região de abrangência da escola é definida como Noroeste
Colonial do Rio Grande do Sul, sendo chamada de Região Celeiro. É composta de
vinte e um municípios aqui relacionados: Barra do Guarita, Bom Progresso, Braga,
Campo Novo, Chiapetta, Coronel Bicaco, Crissiumal, Derrubadas, Esperança do
Sul, Humaitá, Inhacorá, Miraguaí, Redentora, Santo Augusto, São Martinho, São
Valério do Sul, Sede Nova, Tenente Portela, Tiradentes do Sul, Três Passos e Vista
Gaúcha. A cidade de Santo Augusto tem uma população de 13.622 habitantes
conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE- sobre a
contagem da população no ano de 2007.
A Região Celeiro situa-se no Vale do Rio Turvo, e segundo a
Fundação de Economia e Estatística, Secretaria da Educação e Planejamento do
Governo do Estado do Rio Grande do Sul, apresenta um Produto Interno Bruto -PIBsuperior a US$ 1.200 mil, com uma participação de 3,05% no PIB estadual.
A principal atividade da Região é de serviços, destacando-se as
vendas de comércio atacadista que detêm 62% do total do comércio, concentrandose nos gêneros produtos alimentícios (78,10%) e químicos (15,27%). Já o comércio
varejista (38% do total) concentra-se nos gêneros de pequenos mercados e
supermercados (16,10%), combustíveis e lubrificantes (14,31%), veículos (11,30%) e
máquinas, aparelhos e equipamentos diversos (10,73%). Salienta-se ainda o setor
agropecuário, que ocupa a quarta posição no “ranking” da produção lavoureira,
representado, principalmente, pela soja, trigo, milho e mandioca, respectivamente
43,09%, 30%, 12%, 76% do V.B.P. das lavouras da região.
A Indústria emprega 11,36 empregados por estabelecimento,
concentrando-se no gênero produtos alimentícios que detêm 72,04% do total de
empregados do setor na região. Esta representa 1,35% do total de empregados da
indústria no Rio Grande do Sul. O comércio varejista emprega em média 2,26
empregados, sendo os gêneros de pequenos mercados e supermercados, tecidos e
26
roupas,
confecções
e
gêneros
alimentícios
em
geral
que
concentram
respectivamente 18,87%, 15,44% e 10,65% do total de empregados deste segmento
na região. Destaca-se que este segmento detém 5,65% do total do emprego do
comércio varejista no Estado. Já o comércio atacadista emprega em média 3,97
empregados, sendo gêneros produtos alimentares e bebidas os que concentram
respectivamente 40,17% e 25,67% do total de empregados deste segmento na
região. Esta representa 3,03% do total de empregados do comércio atacadista do
Rio Grande do Sul.
O Campus Santo Augusto, que iniciou suas atividades no ano de
2008, teve origem no Ceprovale - Centro de Educação Profissional mantido pela
Fundação
Vale
do
Rio
Turvo
para
o
Desenvolvimento
Sustentável
-
FUNDATURVO/DS para atender a demanda de ensino profissional de Santo
Augusto e toda a região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. O Ceprovale
seria uma escola comunitária, cuja construção contou com recursos do PROEP, mas
a mantenedora e o Ministério da Educação decidiram federalizá-la assim que fosse
concluída a construção e a compra de equipamentos.
Com a federalização, o Ceprovale passou a ser uma escola federal,
denominada Unidade de Ensino Descentralizada de Santo Augusto do Centro
Federal de Educação Tecnológica de Bento Gonçalves, mantida com recursos do
Ministério da Educação, transformando-se assim em um estabelecimento de ensino
público gratuito.
Após a aprovação da Lei 11.892, de 29 de dezembro de 2008, que
cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, passou a se chamar
Campus Santo Augusto, pertencendo ao Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha. A escola oferece atualmente cursos de nível médio, pósmédio e superiores (licenciaturas e tecnologias), contando com aproximadamente
595 estudantes matriculados.
O Campus Santo Augusto busca a inclusão de estudantes com
NEE’s, tendo como princípio norteador o direito que todos os estudantes têm de
aprenderem juntos, não importando quais sejam suas diferenças ou dificuldades,
considerando também seus ritmos de aprendizagem.
Ofertando uma educação de qualidade, a Escola busca a
participação dos estudantes e a garantia de continuidade dos estudos. Para isso, ela
deve se organizar para receber os estudantes com NEE’s, tendo currículos, métodos
27
e recursos educativos adaptados para suas carências, levando em consideração
suas características e interesses.
A educação profissional no país padece de uma grande carência de
docentes qualificados nas escolas, o que leva muitas vezes a um estrangulamento
de sua expansão, havendo a necessidade de provimento de formadores com
padrões de qualificação adequados à atual complexidade do mundo do trabalho.
As licenciaturas são um espaço privilegiado da formação docente
inicial pelo importante papel que têm na profissionalização docente; para o
desenvolvimento de pedagogias apropriadas às especificidades da educação
profissional; o fortalecimento do elo entre ensino-pesquisa-extensão; o intercâmbio
de experiências no campo da educação profissional; pensar a profissão, as relações
de trabalho e de poder nas instituições escolares
Inúmeras escolas, tanto no município de Santo Augusto como na
região, dispõem de professores que ministram aulas de Informática sem terem a
devida titulação. Na busca de superar o histórico de fragmentação, improviso e
insuficiência de formação pedagógica que caracteriza a prática de muitos docentes
da educação profissional, é preciso reconhecer que a docência é muito mais que
mera transmissão de conhecimentos empíricos ou processo de ensino de conteúdos
fragmentados. A licenciatura contempla processos educativos e investigativos de
geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas de fundamental
importância para o desenvolvimento e o atendimento de demandas sociais e
regionais, onde a formação do educador deve ser concebida como mediador da
construção do conhecimento.
Os cursos, na busca de garantir as competências da Educação, são
orientados por princípios éticos, políticos e pedagógicos, articulando tecnologia e
humanismo, tendo a prática profissional como eixo principal do currículo da
formação de professores, utilizando a informática na educação como uma área
fundamental na formação dos estudantes.
O espaço da formação busca possibilitar aos futuros professores
experiências de aprendizagem que integram a teoria e a prática profissional, através
de currículos interdisciplinares, atividades pedagógicas orientadas por princípios
metodológicos, fazendo uso da problematização da realidade como estratégia
didática e da contextualização como princípio pedagógico fundamental. Busca
desenvolver no estudante um senso crítico, uma postura emancipatória enquanto
28
sujeito no processo de ensino-aprendizagem, vindo a ser um profissional
comprometido com a transformação social e com o futuro, tendo uma atuação
comprometida tanto no seu trabalho como em sua comunidade.
Os cursos pressupõem o uso de metodologias que estimulem a
observação, a criatividade e a reflexão por parte do estudante, evitando a
apresentação de soluções prontas, buscando o desenvolvimento das habilidades
necessárias para a solução de problemas. Buscam incentivá-los para a participação
de atividades de pesquisa básica ou aplicada, uma vez que se entende que a
participação em pesquisas tem grande relevância para a melhoria da qualidade de
vida do cidadão, além de contribuir para uma maior participação do estudante em
sua comunidade.
Nesta pesquisa, a metodologia utilizada foi baseada nos seguintes
passos:
a) revisão bibliográfica sobre o assunto;
b) análise dos projetos pedagógicos dos cursos de Licenciatura em
Computação e do Técnico em Informática do Campus Santo Augusto;
c) análise das unidades didáticas e os equipamentos existentes nas
mesmas;
d) entrevistas semi-estruturadas com os estudantes surdos da
escola, suas mães, seus colegas de aula e com os professores dos cursos;
e) sistematização das informações encontradas.
As análises procederam-se durante o primeiro semestre letivo deste
ano.
As entrevistas seguiram um roteiro predefinido (APÊNDICES A, B, C
e D), elaborados com o objetivo de que o entrevistado se sentisse à vontade para
falar sobre o tema.
As questões tiveram como foco a investigação dos estudantes
surdos em relação a seus dados pessoais, e questões sobre escolaridade e
dificuldades encontradas durante a trajetória escolar.
3 OS ESTUDANTES SURDOS DO CAMPUS SANTO AUGUSTO
3.1 História da educação dos surdos em Santo Augusto
Em Santo Augusto, as pessoas com surdez durante muito tempo
ficaram isoladas no âmbito de suas famílias, sem fazer parte da educação, da
sociedade e do mercado de trabalho.
Através de contatos realizados com a Secretaria de Educação e
Secretaria de Saúde do município, descobriu-se que há pessoas surdas em Santo
Augusto.
Não há uma escola de surdos no município e região. A maioria dos
surdos do município, que buscam escolarização, dirige-se à escola especial da
cidade, a APAE, no entanto, muitas pessoas surdas não frequentam a escola,
ficando isoladas.
Na APAE de Santo Augusto há, atualmente, 06 estudantes surdos
matriculados, todos entre 38 e 45 anos, sendo 05 estudantes com a 3ª série do
Ensino Fundamental completa e 01 estudante somente com a alfabetização.
A partir dos dados, observa-se que a maioria dos surdos de Santo
Augusto não busca sua escolarização, seja por falta de escolas aptas a recebê-los
ou por discriminação por parte da família e sociedade, que não os aceitam com suas
características e invalidam os seus potenciais, negando a sua busca pela
independência e desenvolvimento.
Os surdos que optam por estudar nas escolas regulares municipais
e estaduais do município não possuem um atendimento educacional especializado,
e não há profissional tradutor-intérprete de Libras, o que leva o estudante a ser
integrado na escola, ao invés de incluído.
Foram realizadas entrevistas com os estudantes surdos do Campus
Santo Augusto e com suas mães. As entrevistas aconteceram nas casas dos
estudantes, onde foram respondidas perguntas. Houve também conversa informal
sobre a vida dos estudantes surdos, e os relatos abaixo são baseados nas
entrevistas e conversas com os estudantes surdos e suas mães.
30
3.2 A estudante do curso de Licenciatura em Computação
A estudante tem surdez adquirida, perdeu a audição aos três meses
de idade, devido a uma dose muito alta de uma injeção de antibiótico (garramicina)
para pneumonia.
Os pais perceberam que havia algo diferente com sua filha quando
ela tinha quase 01 ano de idade, pois era quieta e não se entrosava com outras
crianças.
A família buscou ajuda médica em várias cidades, mas os médicos
afirmavam que não havia nada de errado com a criança, até que um médico de
Santa Maria identificou a deficiência auditiva, pois enquanto estavam no consultório
passou um avião a jato, que fez bastante barulho, e as pessoas que consultavam
com o médico sempre olhavam em direção ao avião. Mas o barulho não fez nenhum
efeito na criança, pois ela não olhou e nem se moveu, e o médico detectou através
de exames a perda total da audição.
A partir da descoberta, a criança passou a usar aparelho auditivo por
03 anos, mas não se adaptou e o abandonou, pois os ruídos machucavam seus
ouvidos.
Fez tratamento com uma fonoaudióloga (sua tia e também
madrinha) que havia se formado recentemente, durante 04 anos. A mãe relatou que
a educação e o dia-a-dia com sua filha foi e ainda é bastante difícil. A partir do
momento em que a criança começou a fazer fonoaudiologia, ela apresentou um leve
desenvolvimento, passando a pronunciar várias palavras e a fazer leitura labial, mas
que era muito difícil para ela desenvolver a oralidade, o que era muito insistido por
parte da fonoaudióloga. A fonoaudióloga dizia para a mãe que não era para fazer
gestos para se comunicar com a filha, pois a criança devia aprender a falar.
Na tentativa de alfabetizar a filha, a mãe passou então a colar nos
móveis as palavras correspondentes a eles, para que a filha lesse e pronunciasse o
nome dos objetos, mas não houve muito progresso, pois a criança ficava irritada por
não conseguir falar.
A estudante estudou em escolas regulares, e foi um tempo na APAE
para estimulação e para alfabetização, mas nas escolas regulares não havia
pessoas qualificadas para trabalhar com sua filha, e ela não conseguia acompanhar
31
as aulas, não apresentando evolução.
Chegou um momento em que a mãe queria se comunicar com sua
filha de qualquer maneira, fosse através da fala ou de gestos. A família resolveu
mudar-se para Goiás, que já dispunha de escolas inclusivas com tradutoresintérpretes de Libras.
Na sua cidade natal, a estudante havia concluído a 2ª série, mas ao
chegar à escola em Goiás, a estudante teve que retornar para a 1ª série novamente,
sendo que no momento tinha 11 anos de idade. Nessa escola havia outros
estudantes surdos, e o tradutor-intérprete ensinava para os estudantes Libras, que
foi quando a estudante começou a ler e escrever, e com 13 anos começou a
aprender Libras, o que facilitou muito sua vida. Então, ela passou a ensinar Libras
para seus pais, que sempre a apoiaram em seus estudos e em seu aprendizado de
Libras.
Completou o Ensino Fundamental com 19 anos, ingressando em
seguida no EJA na mesma escola, concluindo o Ensino Médio com 21 anos. Nessa
escola, a mãe relatou que a maioria dos professores não tinha conhecimento
suficiente para trabalhar com estudantes surdos, pois ficavam de costas para sua
filha, não olhavam para ela, mas que o tradutor-intérprete sabia como trabalhar com
os estudantes, e sua filha apresentou crescimento e desenvolvimento.
A mãe relatou que as mensagens de celular e os bate-papos na
internet auxiliaram bastante no desenvolvimento da escrita da estudante, pois no
início, os pais não entendiam os recados deixados pela filha, e aos poucos foram
corrigindo-os, para que a idéia a ser transmitida fosse entendida.
Por ser uma pessoa carismática, tinha um grande círculo de
amizades, cativando a todos na escola, onde participava de desfiles, e participava
de um coral de surdos onde a música era “cantada com as mãos”. Como era uma
das estudantes surdas mais novas da escola, seus amigos eram todos mais velhos,
em torno de 25 a 45 anos, com os quais se relacionava muito bem, iam a festas,
namoravam, e se divertiam ao modo deles.
Após a conclusão dos estudos de sua filha, os pais resolveram voltar
para Santo Augusto, momento em que a estudante ingressou no curso de
Licenciatura em Computação do Instituto Federal Farroupilha - Campus Santo
Augusto.
A estudante, que desde nova, sempre foi muito detalhista, com ótima
32
percepção visual, e também muito independente, toma suas decisões e escolhas,
como que roupas usar e o que quer comprar. Ao chegar a Santo Augusto buscou
fazer novas amizades, conhecer mais pessoas surdas, onde ela se tornou uma
liderança entre a comunidade surda de Santo Augusto. Graças a ela, seus amigos
surdos passaram a se encontrar mais, a saírem para passear e conversar, sendo
que ela introduziu o computador entre os surdos, para que utilizassem tecnologias
que facilitam suas vidas, como o celular e os bate-papos na internet, pois até então
os mesmos não tinham conhecimento e não sabiam como utilizar os aparelhos.
Também estimula seus amigos surdos a se comunicarem através de Libras, o que
quase não acontecia antes, pois praticamente ninguém tinha conhecimento de
Libras.
Na escola, ela criou um grupo de estudos entre os servidores que
tinham interesse, e passou a dar aulas de Libras uma vez por semana. Participa
também de viagens de estudos e apresentou recentemente um trabalho durante um
congresso, demonstrando mais uma vez o seu espírito de liderança.
A estudante, assim como sua mãe, afirmou preferir frequentar uma
escola somente de surdos ao invés de uma escola inclusiva, pois na escola regular
se sente sozinha, com dificuldade no que se refere à comunicação, seja entre
professores ou colegas, mesmo com a presença da tradutora-intérprete em sala de
aula. Sente falta de ter com quem se comunicar através de Libras, de ter um contato
maior com a cultura surda, pois mãe e filha entendem que a língua dos surdos é
Libras, e que através da Libras se descobre o mundo, passando a viver novas
experiências, sem medo, sem precisar esconder-se.
A estudante trabalhava em Goiás, mas em Santo Augusto não está
conseguindo emprego, mesmo tendo contatado com várias empresas. Deste modo,
mãe e filha apresentam anseio referente ao campo de trabalho para os surdos, pois
se questionam onde a estudante irá trabalhar após concluir seu curso de
Licenciatura em Computação, uma vez que irá trabalhar com estudantes, e a surdez
dificulta a comunicação entre eles.
3.3 O estudante do curso Técnico em Informática
O estudante, morador de Santo Augusto, tem surdez congênita,
devido à rubéola que a mãe teve durante o 2º mês de gestação.
33
Os pais perceberam que o filho tinha alguma coisa diferente, pois ele
não respondia quando era chamado, e também porque não brincava com as
crianças da vizinhança, até certo dia em que a avó da criança falou que ele poderia
ser surdo, fazendo que a mãe brigasse com a avó por não aceitar a ideia. Buscaram
então ajuda médica, onde foi detectado que ele possuía apenas 15% de resíduo de
audição. Assim, a partir de 1 ano e 7 meses, ele passou a usar aparelho auditivo até
os 12 anos, quando não quis mais usar.
O estudante frequentou a fonoaudióloga por um tempo, que passou
informações para os pais de como trabalhar com ele, mas o tratamento não
apresentou muita evolução. Conforme sua mãe, o que mais o ajudou foram os
treinos que ela fazia com ele todos os dias durante 1 hora, onde o incentivava a
falar. Ela utilizava figuras, brinquedos, jogos para que ele falasse, e relatou que
muitas vezes ele chorava porque era difícil e não conseguia falar.
O estudante frequentou a APAE de Santo Augusto para estimulação
dos 4 aos 5 anos de idade. Ingressou na 1º série em uma escola regular com 06
anos e meio, e com 07 anos já estava lendo bem. Nas séries seguintes teve grandes
dificuldades, mas os professores o ajudavam e acabavam passando o estudante de
série.
A mãe do estudante relatou que durante o Ensino Fundamental, o
estudante sempre teve a presença do tradutor-intérprete na sala de aula e também
durante as provas, que o ajudava muitas vezes dando-lhe as respostas. Falou
também que foi muito difícil educar o filho devido à surdez, onde o que mais a
incomodava eram os olhares de piedade, a discriminação, quando as crianças riam
dele, e quando chamavam o filho de mudinho.
Relatou também que quando o seu filho começou a estudar na
escola regular, havia um certo preconceito por parte de alguns professores e
estudantes, bem como de alguns pais que acreditavam que ele poderia atrapalhar e
desviar a atenção de seus filhos durante as aulas. Já os professores alegavam que
não tinham conhecimento para trabalhar com um estudante surdo, mas a maioria
deles se esforçava para que o processo de ensino-aprendizagem fosse realmente
efetivo.
As decisões mais importantes na vida do estudante são tomadas por
seus pais, que estão sempre observando suas ações. A escolha de estudar no
Campus Santo Augusto foi tomada por seus pais, por ser uma escola
34
profissionalizante e também inclusiva.
O estudante, que tem pouco conhecimento de Libras, teve o primeiro
contato com Libras na própria escola, da 5ª até a 8ª série, durante as aulas. Mas ele
não gosta de Libras, nem sua mãe, que prefere que ele fale e faça leitura labial ao
invés de se expressar por gestos, mas sua fala é difícil de ser entendida por outras
pessoas. No entanto, o estudante afirmou que após a entrada da tradutora-intérprete
na escola, ficou mais fácil entender os conteúdos, e reclamou que ela não fica na
sala durante as provas, como ele estava acostumado na escola em que frequentava
anteriormente.
O estudante, assim como sua mãe, afirmou preferir frequentar uma
escola regular inclusiva, que tenha tanto estudantes ouvintes como não ouvintes,
pois ele já está acostumado com esta estrutura de escola, que é a que ele sempre
frequentou. Isso decorre do fato de a família não ter uma boa aceitação da surdez
do filho, o que acaba protegendo-o demasiadamente e guiando sua vida, tanto social
como educacional.
4 DESAFIOS DOS CURSOS DE INFORMÁTICA NA INCLUSÃO DE
ESTUDANTES SURDOS
4.1 Olhar dos professores dos cursos de Informática do Campus Santo
Augusto
Os desafios dos cursos de informática na inclusão de estudantes
surdos foram analisados, dentro do aspecto técnico e didático dos cursos, buscando
a adequação dos métodos de ensino diante das necessidades dos estudantes
surdos.
Os
Projetos
Pedagógicos
dos
Cursos
de
Licenciatura
em
Computação e do Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio do Campus
Santo Augusto não fazem referência alguma sobre a entrada de estudantes com
necessidades educacionais especiais (NEE’s) no curso. Assim, não há nenhuma
definição ou norma que oriente a prática pedagógica com estudantes com NEE,
como os surdos, e nem normas sobre a questão da avaliação da aprendizagem dos
estudantes surdos. Na escola, estão havendo algumas discussões sobre uma
possível inclusão de ensino de Libras nas aulas, mas ainda não há definições acerca
do assunto.
Foram entrevistados sete professores que lecionam nos cursos de
informática do Campus Santo Augusto.
36
Gráfico 01 – Inclusão na escola regular
14%
A favor da inclusão
29%
57%
A favor da inclusão, mas
com as condições
necessárias
Contra a inclusão
A Autora.
Os professores, ao serem questionados se eram favoráveis ou não
da inclusão de estudantes com NEE’s na escola regular, e por que, 57% afirmaram
ser a favor da inclusão dos mesmos na escola regular, afirmando também que não
têm conhecimentos sobre como trabalhar com estudantes surdos, apresentando
sentimentos de anseio e medo, pois não têm formação para trabalhar com estes
estudantes. Essa situação mexe com a subjetividade, e mesmo que o professor
seja um ótimo profissional, quando se depara com uma situação como esta, não
sabe o que fazer, o que o desestabiliza. É preciso, então, que busque novas
metodologias e novos meios de trabalho, objetivando a diminuição das
desvantagens que são impostas pela surdez ao estudante.
Dos demais professores, 29% afirmaram ser a favor da inclusão dos
estudantes com NEE’s na escola regular, desde que se tenha as condições
necessárias para incluir realmente o estudante com NEE.
Uma minoria dos professores, 14%, afirmaram ser contra o processo
de inclusão de estudantes NEE’s em escolas regulares, devido à falta de condições
e conhecimentos para dar o devido atendimento a esses estudantes.
Os professores, ao se depararem com um estudante “diferente”, não
sabem como trabalhar, pois não conhecem os meios de potencializar a sua
aprendizagem. Assim, tanto o modo de ensinar e de avaliar se torna padronizado,
não permitindo a percepção do crescimento de cada estudante, dentro de suas
capacidades e habilidades.
37
O próximo questionamento foi sobre o significado que o processo de
inclusão lhes trazia. Afirmaram que é uma experiência nova; que significa respeito à
diversidade, à diferença; que mexe nas estruturas do que era considerado estável e
normal; que faz com que percebam as dificuldades que têm para trabalhar com a
diversidade existente entre os estudantes; que “oportuniza os PNE’s acesso ao
conhecimento, desenvolvendo-se como ser”; que traz valores de fraternidade e
humanidade; que cria um ambiente de convivência com as diferenças; que leva ao
crescimento como pessoa e professor; que significa desafio; quebra de paradigma.
Para incluir, é necessário que a escola passe por uma mudança de
paradigmas, e se torne um lugar de convívio com as diferenças, surgindo a partir daí
novas relações e experiências, que levam ao desenvolvimento da cidadania e ao
crescimento, passando também por um processo de desenvolvimento das propostas
educacionais para que satisfaçam toda a diversidade, atingindo a formação dos
professores e funcionários, alcançando assim uma inclusão efetiva dos estudantes
com necessidades educacionais especiais.
O professor precisa ser também, livre de preconceitos, e estar
comprometido com a função social e cultural de construir conhecimentos,
reconhecendo a plenitude do desenvolvimento humano. Para Cynthia Duk:
[...] mudar exige correr riscos, portanto, é preferível evitá-lo. É muito mais
seguro ficar na mesma. Além do mais, aceitar algo novo significa, muitas
vezes, desligar-se de outra situação. E isto pode ser doloroso. (DUK, 2006,
p.133).
38
Gráfico 02 - Métodos utilizados para facilitar o processo de ensinoaprendizagem dos estudantes surdos
Comunicação escrita e simbólica
Tentativa de atendimento
individualizado
8%
8%
Recursos extras em alguns
momentos (computador e
calculadora)
Libras
8%
14%
8%
Acompanhamento de profissional
especializado
8%
Não usa métodos específicos
Internet
8%
22%
Recursos visuais
8%
8%
Materiais impressos
Atividades mais objetivas
A Autora.
Em relação aos métodos utilizados para facilitar o processo de
ensino-aprendizagem dos estudantes surdos, 8% responderam dar preferência pela
comunicação escrita e pelo simbólico; 8% tentativa de atendimento individualizado;
8% utilização de recursos extras em alguns momentos (computador e calculadora);
8% uso de Libras por parte do professor, apesar do pouco conhecimento que
declararam possuir; 8% acompanhamento de profissional especializado; 8%
declaram não utilizar métodos específicos para os estudantes surdos; 8% utilização
da internet como meio de troca de informações; 22% utilização de recursos visuais,
como slides, lâminas e até mesmo registro no quadro do que é possível; 14%
utilização de materiais impressos; e 8% utilização de atividades mais objetivas.
Os professores devem levar em consideração que nem todos os
estudantes aprendem no mesmo ritmo e do mesmo modo, devido as suas
particularidades e sua história de vida. É preciso adequar as ações pedagógicas à
diversidade dos estudantes; aproveitar a riqueza da diversidade dos símbolos,
modos de interpretação, significados e manifestações que estão presentes na sala
39
de aula, uma vez que os recursos facilitam a inclusão do estudante surdo no
processo pedagógico de aprendizagem
É preciso, também, estudar as diferentes maneiras de trabalhar com
os estudantes surdos, não lhes dando soluções prontas, mas sim os fazendo
raciocinar, pensar sobre as questões, não ser superprotetor, mas preparar os
colegas para que recebam naturalmente os colegas surdos, atentar para a sua
posição em sala de aula de modo que não fique de costas ou de lado para os
estudantes, buscar envolvê-los nas atividades, e, principalmente, acreditar de fato
nos seus potenciais e observar seu crescimento.
De acordo com Heloisa Maria Moreira Lima Salles:
Recomenda-se que a educação dos surdos seja efetivada em língua de
sinais, independentemente dos espaços em que o processo se desenvolva.
Assim, paralelamente às disciplinas curriculares, faz-se necessário o ensino
de língua portuguesa como segunda língua, com a utilização de materiais e
métodos específicos no atendimento às necessidades educacionais do
surdo. (SALLES, 2004, p.47).
Gráfico 03 - Participação dos estudantes surdos em apresentações
de trabalhos e seminários
13%
Uso do quadro e auxílio dos
colegas ouvintes para
explicar o conteúdo
Ainda não tiveram essa
experiência
12%
13%
24%
13%
12%
Participação de forma
singela
13%
Trabalhos entregues
pessoalmente e dúvidas
sanadas pela internet
Uso de slides ou pequenos
resumos passados no
quadro
Auxílio da tradutoraintérprete de Libras
Não participam
A Autora.
Em relação à participação dos estudantes surdos em apresentações
de trabalhos e seminários, 12% dos professores afirmaram que os mesmos se
40
restringiam ao uso do quadro e contavam com a ajuda dos colegas ouvintes para
explicar o conteúdo; 12% ainda não tiveram essa experiência; 13% afirmaram que a
participação ocorria de forma singela antes da chegada na escola da tradutoraintérprete de Libras; 13% afirmaram que os trabalhos são entregues pessoalmente,
e que as dúvidas são sanadas pela internet; 24% apresentações através de slides
ou pequenos resumos passados no quadro; 13% explicações através de Libras, que
eram traduzidas pela tradutora-intérprete de Libras para o professor e colegas; 13%
afirmaram que não há participação dos estudantes surdos em apresentações de
trabalhos e seminários.
O estudante surdo deve participar de todas as atividades em sala de
aula, para que possa sentir-se realmente incluído. A apresentação de trabalhos pode
ser das formas mais variadas, sendo que o que realmente importa é o seu
envolvimento e participação nas atividades.
Gráfico 04 – Avaliação dos estudantes surdos
29%
Avalição é
diferenciada
71%
Avaliação não é
diferenciada
A Autora.
Sobre a avaliação dos estudantes surdos, se é diferenciada ou não
da avaliação dos estudantes sem necessidades educacionais especiais; 71% dos
professores afirmaram que a avaliação é diferenciada. As provas são elaboradas,
em sua maior parte, e algumas em sua totalidade, com questões objetivas de
múltipla escolha, com menor exigência de interpretação por parte dos estudantes
surdos; não utilizam questões subjetivas; questões com foco nos tópicos principais
41
dos conteúdos, e ofertam um tempo maior para a sua realização. No caso de
produção de texto dissertativo, os professores permitem que eles utilizem material
de consulta.
Do total, 29% afirmaram que aplicam a mesma avaliação para todos
os estudantes, independente de possuírem ou não alguma necessidade especial.
Os professores do curso alegam que é muito difícil compreender o
que os estudantes surdos escrevem em seus trabalhos e provas, pois, na maioria
das vezes, não há conexão em suas frases e textos.
Assim, as adaptações em provas e trabalhos devem ser pensadas a
partir das necessidades especiais dos estudantes, para facilitar a verificação do seu
real aprendizado.
Gráfico 05 – Conhecimento da história de vida e da história escolar
dos estudantes surdos
14%
Conhece um pouco
Conhece muito pouco
43%
43%
Não conhece
A Autora.
Os professores, ao serem questionados se tinham conhecimento da
história de vida e da história escolar dos estudantes surdos, 43% responderam que
tinham pouco conhecimento; 14% que tinham muito pouco conhecimento e 43% não
conheciam a história de vida e a história escolar dos estudantes surdos.
Infelizmente, alguns professores ainda não modificaram suas
práticas e seus métodos educativos. A maioria dos professores não teve contato
com a família dos estudantes surdos, desconhecendo suas histórias de vida e suas
42
histórias escolares.
GRÁFICO 06 - Conversa com os pais dos estudantes surdos
29%
Conversou com os pais
Não conversou com os
pais
71%
A Autora.
Ao serem questionados se haviam conversado com os pais dos
estudantes surdos, 71% dos professores entrevistados afirmaram ter conversado, e
29% dos professores não conversaram com os pais.
Os professores que conversaram com os pais dos estudantes
surdos alegaram que a conversa auxiliou no esclarecimento de dúvidas e na
colaboração em relação às atividades de ensino.
O envolvimento da família dos estudantes surdos no processo
educacional é de extrema importância, pois os pais geralmente exercem grande
influência em suas vidas, podendo tanto beneficiá-los como isolá-los da escola e
sociedade. A família precisa também receber orientações e apoio, para que, assim,
possa cumprir da melhor maneira possível o seu papel educativo junto a seus filhos.
43
GRÁFICO 07 - Melhoria do aprendizado dos estudantes surdos após
a tradutora-intérprete de Libras iniciar suas atividades na escola
14%
Melhorou muito
43%
Melhorou
Ainda não foi possível
verificar
43%
A Autora.
A próxima questão foi sobre a melhoria do aprendizado dos
estudantes surdos após a tradutora-intérprete de Libras iniciar suas atividades na
escola, sendo que 43% dos professores responderam que melhorou muito; 43%
responderam que melhorou e 14% responderam que ainda não foi possível verificar
se houve ou não melhoria.
Os
professores
que
responderam
que
houve
melhoria
no
aprendizado dos estudantes surdos, em especial a estudante surda, relataram que
eles tornaram-se mais interessados nas aulas; houve melhora do desempenho e
maior participação nas atividades.
A valorização da língua de sinais para os surdos é uma questão
essencial, pois se apresenta como uma possibilidade de igualdade de condições de
desenvolvimento entre as pessoas. A professora que é tradutora-intérprete de Libras
iniciou suas atividades na escola recentemente, no final do primeiro semestre letivo
deste ano. Este atraso em conseguir o profissional para atuar na escola prejudicou o
desenvolvimento dos estudantes surdos em dois semestres letivos.
Antes da chegada da tradutora-intérprete de Libras na escola,
observou-se, através das falas dos professores do curso, que os estudantes surdos
não conseguiam prestar atenção nas aulas por muito tempo, mesmo apesar do uso,
44
por parte da maioria dos professores, de lâminas e figuras que facilitam a
estimulação visual. Os professores repassam para os estudantes, também, cópias
impressas
do
material
a
ser
trabalhado
em
aula,
visando
um
melhor
acompanhamento e entendimento dos conteúdos trabalhados. Mas, mesmo assim,
os
estudantes
apresentavam
grandes
dificuldades
no
seu
processo
de
aprendizagem.
A falta de conhecimento de Libras por parte da maioria dos
professores leva muitas vezes a distorções no processo educativo, tanto para o
professor como para o estudante surdo. O professor pode julgar equivocadamente a
capacidade cognitiva do estudante surdo, pois ao propor atividades que o mesmo
não consegue compreender o que deve ser feito ou respondido, o estudante não
realiza a atividade, ignorando-a, ou realiza a atividade, mas não atinge o seu
objetivo. O professor, muitas vezes, não consegue perceber a real dificuldade do
estudante, que pode estar no entendimento do enunciado da atividade.
Para que esta situação não se torne rotina, o professor precisa
analisar e entender o processo de aprendizagem deste estudante, buscando
interagir através da comunicação visual e dando a ajuda necessária para o
estudante, tendo como consequência a resolução da atividade.
4.2 Olhar dos colegas dos estudantes surdos do Campus Santo Augusto
Foram entrevistados 49 estudantes que são colegas dos dois
estudantes surdos da escola.
45
Gráfico 08 – Relacionamento com colega surdo(a)
2%
6%
18%
Ótimo
18%
Muito bom
Bom
Regular
Insatisfatório
56%
A Autora.
Na primeira questão, 6% dos estudantes marcaram que o
relacionamento com o(a) colega surdo(a) é ótimo, 18% muito bom, 56% bom, 18%
regular e 2% insatisfatório. Através das respostas, observa-se que a maioria dos
colegas busca ter um bom relacionamento com o(a) colega surdo(a), independente
do meio de comunicação utilizado por eles, buscando incluí-los ao invés de excluílos. Esta socialização é importante para todos os estudantes, pois conforme Maria
Salete Fábio Aranha:
A socialização é fator indispensável ao processo de desenvolvimento do ser
humano, pois é através dela que o indivíduo apropria-se dos
comportamentos produzidos pela sociedade na qual está inserido e,
consequentemente, amplia suas possibilidades de interação. Pressupõe a
aquisição de valores, normas, costumes e condutas que a sociedade
transmite e exige. (ARANHA, 2005, p.96).
46
Gráfico 09 – Alteração da dinâmica das aulas
10%
10%
Não altera
Altera
Altera às vezes
80%
A Autora.
Na segunda questão, 80% dos estudantes responderam que a
presença do(a) colega surdo(a) não altera a dinâmica em sala de aula, 10%
responderam que altera, e 10% que altera às vezes em algumas disciplinas.
Os estudantes que responderam sim alegaram que alguns
professores dão mais privilégios ao estudante(a) surdo(a); que os filmes que a turma
assiste precisam ser legendados para que o(a) mesmo(a) possa acompanhar; e que
a comunicação fica comprometida pelo fato de os colegas não saberem Libras. Os
estudantes alegaram que às vezes a dinâmica em sala de aula é alterada quando os
professores ditam os conteúdos; e quando alguns professores tratam o(a)
estudante(a) surdo(a) de forma diferenciada.
47
Gráfico 10 – Acompanhamento das aulas
4%
Acompanha
2%
2%
4%
27%
4%
Acompanha com ajuda da
tradutora-intérprete de Libras
Acompanha devido à leitura
labial
Acompanha com ajuda da
tradutora-intérprete de Libras
e leitura labial
Acompanha às vezes
Não acompanha
57%
Acompanha com muitas
limitações
A Autora.
Na terceira questão, 27% dos estudantes responderam que o(a)
colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula, 57% dos estudantes responderam
que o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula com a ajuda da tradutoraintérprete de Libras, 4% que o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula
porque faz leitura labial, 4% que é capaz de acompanhar a aula com a ajuda da
tradutora-intérprete de Libras e por fazer leitura labial, 2% responderam que às
vezes o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula, 2% responderam que
não é capaz, e 4% responderam que consegue acompanhar, mas com muitas
limitações.
De acordo com as respostas, grande parte dos estudantes não
possui um claro entendimento do papel da tradutora-intérprete de Libras em sala de
aula, pois nas respostas eles referiam-se a ela como se fosse a única professora
do(a) colega surdo(a), ignorando os professores das disciplinas.
48
Gráfico 11 - Preparação dos professores
2%
Estão preparados
33%
Apenas alguns estão
preparados
51%
Não estão preparados
Não respondeu
14%
A Autora.
Na quarta questão, ao serem questionados se os professores do
curso estão preparados para trabalhar com o(a) estudante(a) surdo(a), 33%
responderam que sim, 14% responderam que apenas alguns professores estão
preparados, 51% responderam que não estão preparados, e 2% não responderam a
questão.
Os estudantes que responderam que os professores estão
preparados para trabalhar com o(a) estudante(a) surdo(a) citaram que isso é devido
a presença da professora tradutora-intérprete de Libras que acompanha os
estudantes em sala de aula; que são bons profissionais; que buscam meios para
melhorar a prática pedagógica com o(a) estudante(a) surdo(a); pelo fato de que os
professores podem utilizar-se de e-mail e xerox para repassar o conteúdo das aulas
com antecedência; que possuem consciência da presença do(a) estudante(a)
surdo(a) na turma.
Os estudantes que responderam que apenas alguns professores
estão preparados não explicitaram os motivos.
Entre os estudantes que responderam que os professores não estão
preparados para trabalhar com o(a) estudante(a) surdo(a) eles creditam esta
situação ao fato de que os professores nunca tiveram um estudante com surdez;
que eles falam muito rápido nas aulas; que às vezes ficam de costas para o(a)
49
estudante(a); que não possuem conhecimento de Libras; e que não possuem
conhecimentos para trabalhar com este(a) estudante(a).
Os estudantes, mesmo sem terem um conhecimento concreto
acerca do processo de ensino-aprendizagem do(a) colega surdo(a), observam que
muitas das metodologias utilizadas pelos professores não auxiliam este estudante,
uma vez que ele necessita de materiais e metodologias adaptadas às suas
necessidades, o que na maior parte das vezes não é respeitado.
Gráfico 12 – Estrutura da escola
2%
14%
Possui estrutura
adequada
Não possui estrutura
adequada
Não soube responder
84%
A Autora.
Na quinta questão, ao serem indagados se a escola possui a
estrutura necessária para atender o(a) estudante(a) surdo(a), 84% responderam que
sim, 14% responderam que a escola não está preparada, e 2% responderam que
não sabem.
Os estudantes que responderam que a escola possui a estrutura
necessária afirmaram ser devido à presença da tradutora-intérprete de Libras nas
aulas; aos recursos tecnológicos; à adaptação dos estudantes surdos na escola. Os
que responderam que não alegaram a falta de ferramentas pedagógicas; falta de
qualificação por parte dos servidores para atender os estudantes surdos; a escola
não disponibiliza aulas de libras para os estudantes e servidores; e a falta de
softwares e equipamentos que facilitem o aprendizado.
50
Através das respostas, observa-se que a maioria dos estudantes
não conhece as reais necessidades dos estudantes surdos em relação à estrutura
da escola, pois demonstraram entender que a tradutora-intérprete de Libras é a
única necessidade dos mesmos, não entendendo que, além deste profissional, são
necessários para uma inclusão efetiva um acompanhamento especializado
constante, materiais adaptados e softwares que os auxiliem no seu processo de
aprendizagem.
Gráfico 13 – Comunicação com colega surdo(a)
24%
Há dificuldade
39%
Há um pouco de
dificuldade
Não há dificuldade
37%
A Autora.
Na sexta questão foi solicitado que respondessem se há dificuldade
ou não para se comunicar com o(a) colega surdo(a), e quais eram. 39% dos
estudantes responderam que sim, 37% responderam que há um pouco de
dificuldade, e 24% responderam que não. Entre as respostas positivas, afirmaram
que não entendem o que o(a) colega surdo(a) tenta falar; que não conhecem Libras;
que a comunicação na aula de Educação Física é difícil, pois não há a presença da
tradutora-intérprete de Libras; os colegas surdos nem sempre entendem o que os
outros colegas falam; não entendem os gestos que o(a) colega surdo(a) faz;
dificuldade em expressar ideias e contar experiências para o(a) estudante(a)
surdo(a); e insegurança para interagir com o(a) colega surdo(a). Os estudantes que
responderam que há um pouco de dificuldade alegaram que às vezes é um pouco
51
difícil entender o que o(a) colega surdo(a) fala e que eles nem sempre conseguem
compreender a fala dos outros colegas; e citaram também a falta de conhecimento
de Libras. Os estudantes que responderam que não relataram que possuem
conhecimento de Libras, e outros explicaram que já foram colegas do(a)
estudante(a) surdo(a) em outra escola, por isso não possuem dificuldades em se
comunicar com o(a) mesmo(a).
Gráfico 14 – Sugestões de melhoria da convivência com colega
surdo(a)
8%
18%
Não sabem
Não possuem sugestões
Não responderam
8%
66%
Sugeriram melhorias
A Autora.
Na última questão, foi solicitado que dessem sugestões de como
pode ser melhorada a convivência com o(a) colega surdo(a), sendo que 8%
responderam que não sabem como melhorar a convivência, 18% responderam que
não possuem sugestões, 8% não responderam a questão, e 66% deram sugestões
de como melhorar a convivência com o(a) colega surdo(a).
Sugeriram a implementação de um curso de Libras para os
estudantes; dinâmicas em grupo durante as aulas com rodízio de colegas para que
haja interação com todos; desenvolver o interesse de comunicar-se com o(a) colega
surdo(a); maior participação nas aulas por parte do(a) colega surdo(a); conhecêlo(a) melhor; respeitar a deficiência e as suas dificuldades; trabalhos em conjunto;
52
maior utilização de materiais visuais por parte dos professores; e posicionamento
correto dos professores em sala de aula em relação ao estudante(a) surdo(a).
Através do questionário realizado com os colegas dos estudantes
surdos, foi observado que eles não possuem total clareza acerca do processo de
inclusão de estudantes PNE’s, mas compreendem a real necessidade de ter
conhecimento de Libras, visando uma melhor comunicação e interação com os
colegas surdos. Demonstraram também ter respeito aos mesmos, buscando uma
boa interação entre todos.
Deste modo, a educação de estudantes surdos na escola comum
leva à valorização das diferenças no convívio social e o reconhecimento do potencial
de cada estudante, desenvolvendo o pensamento e o conhecimento em ambientes
de aprendizagem heterogêneos.
4.3 Estrutura do Campus Santo Augusto
O Campus Santo Augusto, apesar de buscar sua adequação, não
está totalmente preparado para atender os PNEE’s, como os surdos.
Para que a instituição seja realmente acessível para os estudantes
surdos, são necessárias algumas adequações.
O Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Especiais
(NAPNE) da escola desenvolveu o projeto Curso de Libras e Cultura Surda, que é
ministrado pela estudante surda da escola e pela tradutora-intérprete de Libras. O
curso é destinado à comunidade interna do Campus Santo Augusto e para os
professores das demais escolas do Município de Santo Augusto, tendo um número
limitado de participantes, havendo assim, uma pequena representação de servidores
do Campus Santo Augusto no curso.
Na escola há também o Curso de Formação Pedagógica, ministrado
pelos próprios professores da escola que possuem formação pedagógica. Este
curso é destinado aos professores do Campus Santo Augusto que não possuem
licenciatura, onde são trabalhadas questões como inclusão social e educacional, e a
importância do professor buscar ter conhecimento da história de vida do estudante
NEE. Mas o número de professores da escola que participam do curso é pequeno,
não atingindo assim, a equipe docente em sua totalidade.
É necessário que a instituição implante e desenvolva atividades
53
através do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Especiais
(NAPNE) e que contrate mais um profissional tradutor-intérprete de Libras, para que
estes profissionais estejam presentes nos três turnos de funcionamento da escola.
Com isso, os estudantes surdos poderão buscar auxílio e explicações com os
professores nos três turnos, facilitando a compreensão dos ensinamentos
repassados pelos mesmos para os estudantes surdos.
A instituição deve fornecer, durante palestras e eventos que
acontecem em seu auditório, um tradutor-intérprete de Libras, que deve ter um lugar
destinado no palco, e também ter disponíveis dispositivos de tecnologia assistiva
para atender no palco pessoas com surdez.
O Telefone Público para Surdos é um direito que a comunidade
surda no Brasil conquistou, sendo garantido o direito de ter o telefone público em
rodoviárias, escolas, aeroportos, postos de saúde, metrô e outros locais, através da
Lei do Plano Geral de Metas e Universalização – PGMU, aprovado pelo Decreto
4.769 de 27 de junho de 2003, que define que as operadoras de telefonia de cada
estado instalem os telefones públicos adaptados.
O TDD - Telecommunication Device for the Deaf (Dispositivo de
Telecomunicação para surdos) é um sistema de comunicação telefônica digital onde
os surdos podem se comunicar com outras pessoas escrevendo suas mensagens
em um teclado e visualizando em uma tela as mensagens que lhe são enviadas. A
comunicação pode ser feita de duas formas: entre dois terminais TDD, com envio de
mensagem escrita diretamente ao outro lado da linha para ser lida na tela do
telefone, ou, caso um dos interlocutores não possua o terminal TDD, com o auxílio
de um atendente da empresa operadora de telefonia, que receberá a mensagem
falada, a digitará e enviará imediatamente para o receptor.
Deste modo, é necessário instalar um telefone de uso público
adaptado para uso por PNE’s, como os surdos, uma vez que há um telefone público
na escola, mas ele não é acessível.
As rotas de fuga e as saídas de emergência da escola devem ser
sinalizadas com informações visuais, sendo necessária a instalação de alarmes
visuais.
Os servidores da escola carecem de capacitação para atender os
estudantes surdos, pois não possuem conhecimento de Libras, não existindo uma
boa comunicação entre os mesmos.
54
A escola não possui uma sala de recursos, sendo preciso organizar
uma sala com serviços de natureza pedagógica, que contenha equipamentos e
recursos pedagógicos adaptados às necessidades educacionais dos estudantes.
Esta sala serve como um complemento para que os PNEE’s, como os estudantes
surdos, tenham um atendimento educacional especializado no turno inverso ao da
sua aula.
O estacionamento da escola é de pedra brita, não tendo vaga
destinada para veículos de PNE’s, devendo ser destinadas vagas e ser feita a
sinalização das mesmas.
Deste modo, observa-se que o espaço da escola deve ser adequado
para permitir que as pessoas com necessidades especiais sejam incluídas nos mais
diversos processos, por meio do conhecimento e valorização da nossa cultura e
história. Cada pessoa, seja criança, jovem ou adulto, deve ter condições de
aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades
de aprendizagem e de conhecimento, que são necessárias para que possam
desenvolver plenamente suas potencialidades, viver e trabalhar com dignidade,
participar plenamente do desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida, tomar
decisões fundamentadas e continuar aprendendo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A garantia de escola para todos não basta, uma vez que a
educação é um processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e
moral da criança e do ser humano em geral, onde a sua inclusão social deve ser
assegurada. É necessário que o estudante surdo tenha direito a acesso,
participação e aprendizagem na escola, tendo uma educação de qualidade.
A escola e a sociedade têm o papel de modificar suas estruturas e
seus valores éticos, para que sejam capazes de receber todos os segmentos
populacionais que formam a diversidade humana e todas as diferenças que
distinguem uma pessoa da outra.
As pessoas com surdez ficaram excluídas do convívio educacional e
social, pois, durante muito tempo, as propostas e políticas educacionais não
asseguraram uma inclusão efetiva, uma vez que consideravam a deficiência como
um fator de impossibilidade de avanço no processo de aprendizagem. Hoje, lutam
pelo direito de participação na educação e na sociedade.
A escola, além de ter o papel de escolarizar o estudante, expandindo
seu conhecimento, tem também um importante papel na área social, uma vez que é
a instituição que tem a função por excelência de trabalhar com a construção do
saber, promovendo assim uma transformação social. Deve oferecer oportunidades
para que os estudantes surdos se desenvolvam linguisticamente, pedagogicamente
e como cidadãos, para que adquiram novos conhecimentos, reformulem os seus
conceitos, e saibam aplicar esses conhecimentos na busca de uma melhor
qualidade de vida, tanto para si, como para sua família e comunidade. A escola,
através de suas políticas inclusivas, deve desenvolver o estudante visando a sua
independência pessoal e financeira. Logo, através de uma formação profissional e
tecnológica, o estudante surdo tem melhores oportunidades de inserir-se no
mercado de trabalho, no mundo produtivo, exercendo assim sua cidadania.
Através desta pesquisa, foram identificados os desafios dos cursos
de informática do Campus Santo Augusto na inclusão de estudantes surdos, que
são a adequação dos projetos pedagógicos dos cursos visando a inclusão;
promoção de adaptações curriculares; cursos de formação para os professores, que
56
forneçam conhecimentos pedagógicos em relação ao processo de ensinoaprendizagem dos estudantes surdos; aquisição e construção de materiais e
recursos adaptados às necessidades dos estudantes surdos; implementação do
Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Especiais (NAPNE) e da
sala de recursos; contratação de mais um profissional tradutor-intérprete de Libras;
adequação da estrutura física da escola; curso de Libras para toda a comunidade
escolar; desenvolvimento de projetos inclusivos com a comunidade e o
desenvolvimento de ações articuladas com a educação especial do município.
Na busca da inclusão escolar e social, o Campus Santo Augusto
deve seguir as leis existentes, almejando a plena participação e acesso dos
estudantes surdos na escola e comunidade, possibilitando a igualdade de
oportunidades e valorizando a diversidade existente, onde todas as pessoas possam
exercer seu papel social, assumindo o compromisso de participação no processo de
inclusão.
O papel do professor precisa ser considerado no processo de
inclusão do estudante surdo, pois ele é quem viabiliza, na sala de aula, as condições
adequadas para atender todos os estudantes, em suas necessidades e
peculiaridades, contribuindo assim para que todos os estudantes possam participar,
de maneira efetiva, de todas as instâncias de convívio social.
Para que esta realidade seja atingida, percebe-se a necessidade de
modificações no sistema educacional, uma vez que a maioria dos professores e
funcionários do Campus Santo Augusto não possuem formação e capacitação
específica.
Os professores do Campus Santo Augusto precisam preparar-se
para atender o desenvolvimento e o ritmo de aprendizagem dos estudantes, tendo a
clareza do seu papel de educar a todos, sendo necessária uma constante avaliação
da sua prática educativa, visando superar as dificuldades encontradas e elaborar
estratégias para o sucesso educacional.
O professor necessita ter um olhar único sobre cada estudante,
analisando individualmente seus problemas, dificuldades e facilidades, sua
autoestima, e personalidade, para assim realizar um melhor trabalho com ele,
destacando suas potencialidades e aptidões, e buscando desenvolver os pontos
menos favorecidos. É importante também buscar avaliar não só o que o estudante
surdo aprendeu, mas a evolução que obteve no processo de ensino-aprendizagem,
57
ou seja, o seu desenvolvimento, tanto na esfera educacional como social.
Em face disso, a educação inclusiva prevê um processo de
formação continuada para os professores, o que é necessário para os docentes do
Campus Santo Augusto. Deste modo, poderão atender a diversidade e
especificidade dos estudantes surdos, tendo uma participação decisiva e de
qualidade no aprofundamento do processo de inclusão, envolvendo também a
equipe administrativa da escola. É preciso que repensem o ensino e revejam suas
práticas; adaptem-nas para as necessidades do dia-a-dia; reconheçam as
possibilidades dos estudantes surdos; eliminem qualquer tipo de preconceito e
indiferença existentes; além de ter também o auxílio da tecnologia para promover
uma educação de qualidade para os estudantes surdos, bem como para os demais.
Assim, a inclusão de estudantes surdos perpassa pela questão do
aperfeiçoamento didático e técnico dos professores e funcionários, bem como das
estruturas educacionais. As adaptações necessárias ao ensino vão possibilitar que
estudantes surdos estudem nos cursos de informática do Campus Santo Augusto,
alcançando
uma
educação
profissional
e
tecnológica
adequada
às
suas
necessidades, constituindo-se em sujeitos cientes de suas capacidades e
profissionais qualificados.
A aprendizagem é resultante do desenvolvimento de aptidões e de
conhecimentos, bem como da transferência destes para novas situações. Logo, o
Campus Santo Augusto deve desenvolver ações de adaptação, tanto nos projetos
pedagógicos como nos currículos dos cursos de informática, e também promover
mudanças atitudinais, uma vez que alguns professores não dão a devida
importância às adaptações necessárias para o processo de inclusão dos estudantes
surdos.
As adaptações curriculares possibilitam um atendimento mais
adequado
às
particularidades
dos
estudantes.
Incluem
modificações
organizacionais; modificações nos objetivos e conteúdos; na organização didática;
na avaliação, que deve ser entendida como um processo contínuo e não estanque; e
nas metodologias do processo de ensino-aprendizagem.
A modificação dos currículos na escola é um dos passos no caminho
da inclusão escolar. A instituição deve tornar os currículos flexíveis, para que possa
atender a enorme diversidade dos estudantes, fazendo com que o processo de
ensino e aprendizagem seja de qualidade, havendo assim uma educação inclusiva
58
de fato. O currículo constitui uma das possibilidades educacionais de agir diante das
dificuldades de aprendizagem dos estudantes; torna-se uma articulação entre o
conhecimento escolar e os saberes da vivência dos mesmos, adquirindo uma
significação histórica e cultural.
Ao ter um currículo flexível, que atenda a toda diversidade existente
na sala de aula, assim como o uso de tecnologias assistivas que possibilitam uma
inclusão efetiva; a presença de um tradutor-intérprete de Libras em sala de aula no
caso de o professor não conhecer Libras; o uso e também estudo de Libras; e a
utilização de recursos visuais variados; o conhecimento a ser construído em sala de
aula atingirá a todos os estudantes, independentemente de suas especificidades,
incentivando a participação de todos na construção do conhecimento.
Para se comunicarem, os surdos utilizam uma língua visual-gestual,
onde a visão se torna seu principal meio de aquisição de conhecimento, de
informação, pois o organismo busca uma forma de compensação para a sua
deficiência auditiva, desenvolvendo outras habilidades que não dependam da
audição. É extremamente importante que os professores e funcionários da escola
tenham conhecimento sobre Libras, para que auxiliem os estudantes surdos em
seus estudos, assim como a presença de um tradutor-intérprete de Libras na sala de
aula e nos eventos que ocorrem na escola. O professor precisa utilizar recursos
variados para a aula, buscando incluir figuras, fotos, entre outros, no material da
disciplina ministrada, tendo critérios e avaliações adequadas às necessidades do
estudante.
Os estudantes surdos podem ter atendimento na escola no turno
inverso ao de suas aulas, para reforçar o processo de aprendizagem, desde que não
substitua a sua aprendizagem na sala de aula regular. É importante também que a
escola mantenha um trabalho sistemático visando a participação das famílias dos
estudantes surdos no processo educacional, desenvolvendo projetos com seus
familiares e a comunidade em geral na busca da conscientização e inclusão social.
Os estudantes surdos podem ajudar a melhorar a ação do professor,
pois eles sabem as suas reais necessidades em sala de aula, compartilhando com o
professor essas necessidades, buscando a melhoria da prática educativa, e
consequentemente, o seu desenvolvimento, pois deste modo se consegue uma
participação efetiva dos estudantes surdos em todas as atividades escolares.
É fundamental validar a opinião das pessoas surdas, entendê-las,
59
abrir espaço para a reflexão, ensinar respeito sendo respeitosos em nossas
relações, estabelecendo um clima afetivo e de confiança. Nas relações, que são
carregadas de intensidades (tabus, controvérsias, ideologias, preconceitos), são
fundamentais os espaços de reflexão conjunta, contribuindo para que as
transformações sociais, bem como as educacionais, políticas e da área da saúde,
sejam verdadeiramente progressistas.
Como a estrutura da educação brasileira está distribuída entre as
esferas municipais, estaduais e federais, é de grande importância essa interligação,
havendo um apoio mútuo entre comunidades e governos na busca do
desenvolvimento da educação, democratizando o seu acesso, transpondo
obstáculos para a aprendizagem e buscando a participação com igualdade de
oportunidades.
Para alcançar essa melhoria, é preciso que o planejamento de ações
do Campus Santo Augusto na área da educação ocorra em conjunto com as outras
esferas relacionadas à mesma. A esfera municipal deve estar conectada com as
esferas estadual e federal, onde as secretarias devem organizar, planejar e colocar
em funcionamento os projetos desenvolvidos em conjunto. O
Campus
Santo
Augusto deve buscar uma maior interligação e articulação com as escolas que
atendem a educação especial no município. Isso possibilita investimentos variados,
contemplando várias necessidades educacionais, garantindo a evolução do
processo de ensino-aprendizagem dos estudantes com e sem necessidades
educacionais especiais, e também a permanência e continuidade de seus estudos.
Esta estratégia também facilitará o trânsito dos estudantes com necessidades
educacionais especiais para a escola regular.
Esperamos que, através destas transformações no Campus Santo
Augusto, e através de mudanças de atitude com relação aos estudantes com
necessidades educacionais especiais, ocorra a efetivação da política de educação
inclusiva, buscando sua fundamentação na diversidade e no direito de todos à
educação, uma vez que a educação escolar não pode estar alheia aos contextos
plurais e complexos nos quais vivemos hoje.
Só assim, através da reflexão e de mudanças das práticas
educativas e sociais, é que poderemos superar o paradigma da exclusão,
alcançando uma inclusão realmente efetiva. Uma vida de inclusão, de respeito à
diversidade, em que as pessoas com necessidades especiais façam parte tanto da
60
sociedade como da escola, sem a presença de preconceitos, constituindo cidadãos
cooperativos e solidários, havendo a transformação tanto daquele que será incluído
como aquilo em que se incluirá. O movimento pela inclusão se coloca de modo
irreprimível e, a cada dia, atrai novos adeptos, trazendo ganhos para toda a
sociedade.
Diante dessa realidade, é preciso que se defenda uma capacitação
profissional irrestrita, voltada à diversidade humana, onde os cursos estejam
adaptados a esse novo perfil de estudantes, demonstrando também os benefícios da
diversidade humana na força de trabalho, na escola e na sociedade. Por isso, esta
pesquisa
deseja
contribuir
no
sentido
de
superar
visões
simplistas
no
encaminhamento das questões de melhoria da prática educativa, contemplando a
multiplicidade que caracteriza o ser humano.
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desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades
educacionais especiais de estudantes surdos. Ministério da Educação. Secretaria
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7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política Nacional para a Integração
da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras
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10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000.
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da Previdência Social e dá outras providências.
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da educação nacional.
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critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de
62
deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências.
BRASIL. Lei n° 10.436, de 24 de abril de 2002. Disp õe sobre a Língua Brasileira de
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APÊNDICES
APÊNDICE A - Questionário para os professores dos Cursos de Licenciatura em
Computação e Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio do Campus Santo
Augusto
1) Você é a favor da inclusão de estudantes com necessidades educacionais
especiais na escola regular? Por quê?
2) Qual o significado que o processo de inclusão traz para você?
3) Quais os métodos utilizados para facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos
estudantes surdos?
4) Como se dá a participação dos estudantes surdos em relação às apresentações
de trabalhos e seminários?
5) A avaliação dos estudantes surdos é diferenciada da avaliação dos estudantes
sem necessidades educacionais especiais?
6) Conhece a história de vida e a história escolar dos estudantes surdos?
7) Conversou com os pais dos estudantes surdos?
8) O aprendizado dos estudantes surdos melhorou após a tradutora-intérprete de
Libras iniciar suas atividades na escola?
APÊNDICE B - Questionário para os estudantes surdos dos cursos de Licenciatura
em Computação e Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio do Campus
Santo Augusto
1) A deficiência auditiva restringe sua autonomia? Como?
2) As pessoas costumam tomar decisões por você? Quando isso acontece? E com
que freqüência?
3) No momento em que adquiriu a deficiência auditiva, você ou sua família
receberam informações básicas sobre quais atitudes tomar diante desta nova
realidade? Quem informou? Como? Buscou ajuda médica especializada?
4) Com que idade e como aprendeu Libras?
5) O conhecimento de Libras facilitou sua vida?
6) O que está achando da escola?
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7) Em sua opinião, o que precisa ser feito para melhorar para você e para outros
surdos que poderão freqüentar os cursos de informática do Campus Santo Augusto?
8) Em sua opinião, é preciso ter uma escola especial para os surdos, ou você tem
preferência em freqüentar uma escola regular inclusiva?
APÊNDICE C - Questionário para as mães dos estudantes surdos dos cursos de
Licenciatura em Computação e Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio
do Campus Santo Augusto
1) A surdez do(a) seu filho(a) é congênita ou não? Com que idade ele(a) perdeu a
audição e quais foram as causas?
2) Em que momento foi informada sobre a deficiência auditiva de seu filho(a)?
3) Houve dificuldade para aceitar a nova condição de seu filho(a)?
4) No momento em que seu filho(a) adquiriu a deficiência auditiva, você recebeu
informações básicas sobre quais atitudes tomar diante desta nova realidade? Quem
informou? Como? Buscou ajuda médica especializada?
5) Como foi a vida escolar de seu filho(a)? Ele(a) estudou em escolas especiais?
6) Nas escolas em que seu filho(a) estudou houve preconceito pelo fato de ele(a) ser
surdo(a)?
APÊNDICE D - Questionário para os colegas dos estudantes surdos dos Cursos de
Licenciatura em Computação e Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio
do Campus Santo Augusto
1) Avalie o seu relacionamento com o(a) colega surdo(a):
( ) Ótimo
( ) Muito bom
( ) Bom
( ) Regular
( ) Insatisfatório
2) A presença do(a) colega surdo(a) em sala de aula altera a dinâmica das aulas?
Em caso afirmativo, quais as mudanças sentidas?
3) Julga que o(a) colega surdo(a) é capaz de acompanhar a aula? Por quê?
4) Você acha que os professores do curso estão preparados para trabalhar com o(a)
estudante(a) surdo(a)? Por quê?
5) Você acha que a escola possui a estrutura necessária para atender o(a)
estudante(a) surdo(a)? Por quê?
6) Você tem dificuldade para se comunicar com o(a) colega surdo(a)? Quais?
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7) Dê sugestões de como pode ser melhorada a convivência com o(a) colega
surdo(a):
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Ana Luisa Hentges Lorenzon