RAYSSA ALVES SILVA O PROFESSOR NO ATENDIMENTO BILÍNGUE ÀS CRIANÇAS SURDAS EM UMA ESCOLA DO ENSINO FUNDAMENTAL Artigo apresentado ao curso de graduação em Pedagogia da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Licenciada em Educação. Orientador: Profº. MSc. Olimpo Ordoñez Carmona Brasília 2014 Dedico a toda minha família, amigos e também aos professores que colaboraram na minha formação. AGRADECIMENTO Primeiramente a Deus, porque sem Ele não seria possível a realização desta etapa. Aos professores que de alguma maneira colaboraram com este trabalho, em especial aos professores da escola pesquisada que contribuíram com seus depoimentos para a formação deste artigo. Aos familiares e pessoas próximas que, durante todo esse tempo, compreenderam e apoiaram a realização do mesmo. A vocês fica todo o meu agradecimento. 5 O PROFESSOR NO ATENDIMENTO BILÍNGUE ÀS CRIANÇAS SURDAS EM UMA ESCOLA DO ENSINO FUNDAMENTAL RAYSSA ALVES SILVA Resumo: O presente artigo tentou verificar como o professor que ensina na proposta bilíngue consegue ensinar o estudante surdo, analisando, assim, as práticas de ensino/aprendizado desses professores, as suas estratégias e também o perfil de professores para atender as crianças surdas. Primeiramente, apresentou-se as leis e um pouco da história da educação dos surdos no Brasil. Caracterizou-se o Atendimento Educacional Especializado – AEE para alunos surdos para, em seguida, tratarmos das questões do bilinguismo, inclusão escolar, formação de professores e a atuação do intérprete na educação bilíngue. Foi utilizada a pesquisa de campo em caráter qualitativo, por meio de observações e entrevistas com os professores que atendiam crianças surdas na modalidade bilíngue. Assim, foi possível verificar que a principal prática do professor bilíngue está nos recursos visuais, com o objetivo de colaborar no ensino/aprendizado do aluno surdo. Já a proposta bilíngue ainda precisa avançar na mediação do ensino da segunda língua – no caso, o português escrito – e também foi constatada a necessidade da formação indispensável e contínua do professor bilíngue. Ficou evidente a falta do aprendizado de Libras do estudante surdo, antes de ingressar na escola, e a importância do ensino precoce da Língua Brasileira de Sinais. Palavras-chave: Formação do professor. Crianças surdas. Bilinguismo. Ensino. Aprendizado. 1. INTRODUÇÃO Ao longo da história, os surdos passaram por várias dificuldades para serem aceitos pela sociedade, tanto na parte da inclusão quanto na luta pela aceitação de sua identidade e cultura. Isso não seria diferente na educação, pois, para chegar à atualidade, os surdos precisaram lidar com questões como a não aceitação da língua de sinais, sendo ensinados oralmente. Atualmente, existem escolas que são preparadas para atender esse aluno, principalmente no que diz respeito à formação do professor e aos recursos pedagógicos utilizados com essas crianças. Em escolas bilíngues, ou seja, nas quais o modelo de educação que se segue é o bilinguismo, a criança é ensinada na Língua Brasileira de Sinais - Libras - como primeira língua e na Língua Portuguesa como modalidade escrita. Nas escolas bilíngues, atende-se tanto alunos com deficiência auditiva, como também alunos que não a possuem, inserindo-os, então, em uma educação inclusiva. As escolas que atendem crianças surdas, em sua maioria, não estão preparadas para recebê-las. Primeiramente, a escola deveria se atentar às práticas pedagógicas utilizadas com esses alunos, para que as crianças surdas tenham um 6 aprendizado efetivo, assim como as demais crianças. A escola que recebe aluno com surdez deve preparar os seus professores com formação adequada para esse atendimento, de maneira que a figura do professor não fique distante do aluno com deficiência auditiva. As práticas pedagógicas que são utilizadas em escolas, que em sua maioria não são bilíngues e que recebem crianças surdas, são, em alguns casos, inadequadas, pois partem do pressuposto de que o ensino e aprendizado sejam do mesmo modo que ocorre com alunos ouvintes, ou seja, não havendo inclusão nesse processo, pois alunos surdos e que fazem o uso de Libras (Língua Brasileira de Sinais) em diversas vezes são comprometidos por não terem os recursos necessários para seu aprendizado, a começar pelo ponto em que o simples fato do professor não saber se comunicar com eles atrapalhe um pouco esse processo, criando um distanciamento na relação aluno e professor, gerando, assim, um agravamento no processo de ensino/aprendizagem. Esse distanciamento não é somente na relação professor e aluno, é também na relação pais e filhos, pois uma criança surda que tem pais ouvintes, em muitos casos, não vê os pais contando histórias antes de dormir, não participa de reuniões familiares, não assiste TV como todos; ou seja, há uma quebra nos laços familiares que crianças ouvintes estão acostumadas e que é provocada pela deficiência. Para lidar com esses conflitos de comunicação, o professor precisa estar preparado para receber um aluno surdo em sala de aula, possibilitando a sua inclusão no meio dos demais alunos. No entanto, para que isso ocorra, é preciso que os educadores busquem por práticas de como ensinar essa criança, que saibam se comunicar com elas e que as crianças estejam inseridas em um meio que as acolha, além de suprir as suas necessidades no ensino. Sabendo das dificuldades e da pouca formação de muitos educadores para lidar com esses alunos em sala de aula, a pesquisa teve como proposta mostrar a importância da formação de professores, mostrando suas práticas pedagógicas adaptadas a crianças surdas e o dia a dia dos professores no ensino voltado a crianças surdas, ou seja, por meio de uma escola bilíngue. A partir destes pressupostos, nasceu o objeto desta pesquisa: De que maneira o professor bilíngue consegue ensinar o estudante surdo? Sendo assim, teve-se, como objetivo geral da pesquisa, analisar a prática de ensino/aprendizado do professor bilíngue na inserção do aluno surdo na escola pública do DF. Como objetivos específicos, temos: traçar o perfil de professores para receber crianças surdas e identificar as estratégias no processo de ensino e aprendizado do estudante surdo. Na pesquisa foi utilizado o método qualitativo, pois permitiu um espaço amplo para compreensão das indagações levantadas, ou seja, na pesquisa foram utilizadas entrevistas e observações que nos permitiram entender melhor como é o atendimento do professor a crianças surdas, as suas práticas com essas crianças e também a sua formação para lidar com esses alunos com surdez. Através da pesquisa, buscou-se contribuir com a formação dos professores que ensinam crianças surdas, implicando diretamente na própria formação do estudante com deficiência auditiva, reconhecendo-o como indivíduo inserido na sociedade e não o separando dela. 7 2. BREVE HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO DOS SURDOS NO BRASIL A história da educação de surdos no Brasil passou por várias modificações ao longo dos anos. Segundo Conrad e Barani (2011), a educação dos surdos no Brasil começa quando Dom Pedro II coloca o Marquês de Abrantes responsável por reunir uma comissão com o fim de promover um instituto para a educação dos surdosmudos. Posteriormente, foi aprovada a Lei nº 939, que previa em seu Capítulo 3 – Disposições Gerais – Art. 16: § 10º Conceder, desde já ao Instituto dos surdos-mudos a subvenção annual de 5.000$000, e mais dez pensões, tambem annuaes, de 500$000 cada huma, a favor de outros tantos surdos-mudos pobres, que nos termos do Regulamento interno do mesmo Instituto, forem aceitos pelo Director e Commissão approvados pelo Governo. (BRASIL, 1857) Com esses ganhos, o governo mandou chamar, ao Brasil, Edward Huet, que era um surdo francês; sendo assim, iniciou-se com ele a educação de surdos no país, com a Língua de Sinais, já que Huet era usuário da Língua de Sinais Francesa. Com a chegada de Huet, em 1857, foi inaugurado por ele o primeiro instituto para surdos no Brasil, que se chamava Imperial Instituto de Surdos Mudos e onde a Lei nº 939 seria implantada. Anos mais tarde, Huet deixou o Instituto. A partir daí começam várias trocas de quem fica a frente do Imperial para surdos-mudos, sendo que, em uma inspeção em 1868, o lugar foi considerado como asilo de pessoas com surdez. A educação de surdos, desde seu início no Brasil, sofria fortes influências da Europa; então, em 1911, o Instituto seguiu o que todos os outros países estavam seguindo e começou a utilizar o oralismo em sala de aula. A Língua de Sinais continuou sendo usada em sala de aula até 1957, quando foi totalmente proibida no Instituto. Em 1956, o nome do Instituto sofreu novas mudanças, de várias que já tinha sofrido, passando a se chamar Instituto Nacional de Surdos Mudos e, em 1957, recebeu o atual nome de Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES. Aproximadamente 30 anos depois da proibição da Língua de Sinais, após a visita de uma professora da Universidade Gallaudet, localizada em Washington, nos Estados Unidos, a qual é toda adaptada para receber alunos com surdez, inicia-se, no Brasil, pesquisas sobre o melhor jeito de ensinar pessoas com surdez. A Comunicação Total chega ao Brasil no fim da década de setenta e, na década seguinte começa o Bilinguismo, que surge com as pesquisas da Professora linguista Lucinda Ferreira Brito, sobre a Língua Brasileira de Sinais. (POKER, p. 4) A partir disso, começam a ser criadas várias leis que visam os direitos dos surdos quanto a sociedade, saúde e também educação. 3. MARCO LEGAL Uma das primeiras leis como marco de mudança na educação dos surdos foi a Lei nº 10.436, de 24 de Abril de 2002, que fala sobre a Língua Brasileira de Sinais: 8 Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expressão a ela associados. Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. (BRASIL, 2002) Esta lei somente foi regulamentada pelo Decreto nº 5.626, em 22 de Dezembro de 2005. A educação dos surdos é amparada também pela Constituição, pois ela, em seu Capítulo 3, que trata da Educação, da Cultura e do Desporto, Seção 1- Da Educação - Artigo 206, inciso I, trata a “igualdade de condições de acesso à permanência na escola” (BRASIL, 1988), o que nos leva a encarar que no âmbito da educação dos surdos tem que haver os recursos necessários, mas nem todas as escolas estão preparadas para receber estes alunos. Já a Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996 - Lei de Diretrizes e Bases da Educação - prevê, em seu artigo 59, a adaptação de recursos para que o atendimento a alunos com necessidades especiais seja realizado da melhor forma (BRASIL, 1996) Continuando na Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, em seu Capítulo V, que trata da Educação Especial, Art. 59, Inciso I, são garantidos “currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos” (BRASIL, 1996) para atender às necessidades de cada aluno. Tal fato nos leva a encarar que tanto pessoas surdas quanto pessoas portadoras de outras necessidades especiais têm direito previsto pela LDB a ter um professor que as inclua no processo de aprendizagem, que seja preparado para atender alunos com necessidades especiais e, assim, utilize de diferentes recursos e meios para que o aprendizado seja efetivo, sem que para isso o aluno precise estudar em classes especiais e possa, assim, estudar em classes comuns, mas tendo atendimento especializado para que o auxilie no melhor entendimento dos conteúdos. É assegurado aos deficientes no art. 59, Inciso III: III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; (BRASIL, 1996) A Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013, altera em partes a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – Da LDB – como o art. 4º, Inciso III, passando a garantir: III - atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino; (BRASIL, 2013) Essa garantia também é prevista na Constituição Federal, em seu Art. 208, Inciso III: “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1998). 9 O atendimento educacional especializado já vinha acontecendo a algum tempo nas escolas, mas somente foi a partir de 2013, com a Lei nº 9.394, que passou a ser garantia para os alunos com deficiência. 4. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO O atendimento educacional especializado – AEE – veio como apoio ao ensino e à aprendizagem de alunos com deficiência. De modo geral, o AEE visa o aprendizado do aluno de maneira efetiva, no qual o estudante não é retirado da sala de aula comum, mas permanece nela um turnoe no turno contrário, sendo que, algumas vezes na semana, revê o que foi mediado nas aulas, só que de maneira que possa entender melhor e construir o seu aprendizado, utilizando de recursos didáticos criados para cada tipo de deficiência e também contando com professores preparados para lidar com aquele aluno. A organização do Atendimento Educacional Especializado considera as peculiaridades de cada aluno. Alunos com a mesma deficiência podem necessitar de atendimentos diferenciados. Por isso, o primeiro passo para se planejar o Atendimento não é saber as causas, diagnósticos, prognósticos da suposta deficiência do aluno. Antes da deficiência, vem a pessoa, o aluno, com sua história de vida, sua individualidade, seus desejos e diferenças. Há aluno que frequentarão o AEE mais vezes na semana e outros, menos. Não existe um roteiro, um guia, uma fórmula de atendimento previamente indicada e, assim sendo, cada aluno terá um tipo de recurso a ser utilizado, uma duração de atendimento, um plano de ação que garanta sua participação e aprendizagem nas atividades escolares. (BRASIL/MEC, 2010, p. 22) Esse atendimento pode ser realizado desde que o aluno frequente a classe comum, em sala de recursos da rede pública na escola de origem, em sala de recursos em outra escola pública, em centro público especializado no atendimento educacional ou em centro educacional especializado particular que não tenha fins lucrativos. Na organização do AEE, é possível atender os alunos em pequenos grupos, se suas necessidades forem comuns a todos. É possível, por exemplo, atender a um grupo de alunos com surdez para ensina-lhes LIBRAS ou para o ensino da Língua Portuguesa escrita. (BRASIL/MEC, 2010, pp. 22) Para se alcançar um bom aproveitamento no AEE, além de professores capacitados, é necessário que o professor do ensino comum esteja em contato com o professor do AEE, pois o atendimento tem que estar caminhando juntamente com o que o aluno esta aprendendo em sala de aula. 4.1. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA ALUNOS SURDOS. Um dos maiores obstáculos na educação de pessoas surdas é a sua inclusão em sala de aula. Visando isso, o AEE voltado para alunos com surdez permite, 10 assim como aos outros alunos com deficiência, a sua inclusão em sala de aula comum, pois a partir do atendimento os alunos têm acesso a recursos que facilitam a sua aprendizagem. O AEE dever ser como uma construção e reconstrução de experiências e vivências conceituais, em que a organização do conteúdo curricular não deve estar pautada numa visão linear, hierarquizada e fragmentada do conhecimento. O conhecimento precisa ser compreendido como uma teia de relações, na qual as informações se processam como instrumento de interlocução e de diálogo. (BRASIL/MEC, 2010, p. 9) Dessa maneira, o aluno com surdez tem a possibilidade de construir seu conhecimento com professores preparados para orientá-lo, sendo que isso contribui com as relações sociais em sala de aula comum. O ensino a alunos surdos parte de um planejamento, Segundo Damázio: O planejamento do Atendimento Educacional Especializado é elaborado e desenvolvido conjuntamente pelos professores que ministram aulas em Libras, professor de classe comum e professor de Língua Portuguesa para pessoas com surdez. O planejamento coletivo inicia-se com a definição do conteúdo curricular, o que implica que os professores pesquisem sobre o assunto a ser ensinado. Em seguida, os professores elaboram o plano de ensino. Eles preparam também os cadernos de estudos do aluno, nos quais os conteúdos são inter-relacionados. No planejamento para as aulas em Libras, há que se fazer o estudo dos termos científicos do conteúdo a ser estudado, nessa língua. Cada termo é estudado, o que amplia e aprofunda o vocabulário. (DAMÁZIO, 2007, p. 26) Os estudantes então têm contato com a Língua Portuguesa na modalidade escrita e a Língua de Sinais, sendo o atendimento em Libras e de Libras. Para passar pelo processo de aprendizagem da Língua Portuguesa na modalidade escrita, o aluno precisa ter uma bagagem de mundo, o que os surdos muitas vezes não têm ao chegarem à escola, pois são privados de muitas coisas devido à falta de audição. Sendo assim, isso atrapalha um pouco o processo de letramento; é aí que o AEE entra como aliado nesse processo. Na educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental, ao começar a aprender o português na modalidade escrita, o aluno entra em contato com o letramento, a fim de que possa ter práticas sociais de interação. Para Soares (2003, p. 3), “Letrar é mais que alfabetizar, é ensinar a ler e escrever dentro de um contexto onde a escrita e a leitura tenham sentido e façam parte da vida do aluno”. Já o ensino de Libras envolve a aprendizagem da Língua de Sinais por meio de vários elementos como a articulação das mãos, os movimentos e expressões faciais. É necessário, para que o aluno surdo tenha um bom aproveitamento e possa aprender a Língua de Sinais de maneira efetiva, este ensino comece desde a Educação Infantil e, de preferência, por um professor surdo. Por último, temos o ensino em Libras, que envolve a aprendizagem dos diversos conteúdos existentes e que os alunos veem em sala de aula comum, mas com a utilização de recursos e totalmente ensinado em Libras. O Atendimento Educacional Especializado, ao lidar com o ensino da Língua Portuguesa na modalidade escrita e com o ensino da Língua de Sinais, promove então o ensino na abordagem bilíngue. 11 4.1.1. BILINGUISMO A Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Libras, em seu Parágrafo único, sancionou que a “Língua Brasileira de Sinais - Libras não poderá substituir a modalidade escrita da língua portuguesa.” (BRASIL, 2002) Com essa lei, tem-se então o Bilinguismo, que como citado anteriormente é a Língua de Sinais Brasileira como primeira língua e a Língua Portuguesa escrita como segunda língua. O bilinguismo é uma proposta de ensino usada por escolas que se propõem a tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar. Os estudos têm apontado para essa proposta como sendo mais adequada para o ensino de crianças surdas, tendo em vista que considera a língua de sinais como língua natural e parte desse pressuposto para o ensino da língua escrita. Skliar et al. (1995) defendem que o reconhecimento dos surdos enquanto pessoas surdas e da sua comunidade linguística assegura o reconhecimento das línguas de sinais dentro de um conceito mais geral de bilingüismo. (QUADROS, 1997, p. 27) À primeira vista, o Bilinguismo parece ser um ganho para educação de surdos no Brasil, e realmente pode ser, mas existe o outro lado da história. Tratar do Bilinguismo é, ao mesmo tempo, tratar de um tema polêmico, pois há sempre quem defenda como quem discorde, principalmente no que se trata do ensino da Língua Portuguesa escrita. Segundo Salles: A produção escrita de indivíduos surdos brasileiros tem sido alvo de muitas discussões, pois esses alunos, mesmo depois de um tempo de escolaridade, continuam apresentando textos escritos com estruturas sintáticas desviantes da gramática da língua portuguesa. (LIMA-SALLES, 2007, p. 17) Se o ensino da Língua Portuguesa escrita não estiver sendo acompanhado pelo ensino da Língua de Sinais, a escrita ficará afetada, sendo então necessário, para melhor aproveitamento na segunda Língua – no caso, o Português escrito - que primeiro se apresente ao aluno surdo a Língua de Sinais, para posteriormente começar o processo de aprendizagem do Português. Segundo Quadros, 1997: Se há um dispositivo de aquisição da linguagem – LAD – comum a todos os seres humanos que precisa ser acionado mediante a experiência linguística positiva, visível à criança, então a criança surda brasileira deve ter acesso à LIBRAS o quanto antes para acionar de forma natural esse dispositivo. A língua portuguesa não será a língua que acionará naturalmente o dispositivo devido, à falta de audição da criança. Essa criança até poderá vir a adquirir essa língua, mas nunca de forma natural e espontânea, como ocorre em a LIBRAS. (QUADROS, 1997, p. 27) Outra problemática encontrada no ensino a alunos surdos usando o Bilinguismo é a existência de poucos professores capacitados a lidar com estes alunos; em sua maioria, os professores só sabem o Português para ensinar a estes alunos, e não sabem a Língua Brasileira de Sinais. O professor precisa ser 12 conhecedor também da Libras, evitando, assim, o distanciamento professor e aluno e facilitando o ensino e a aprendizagem deste aluno. A pesquisadora Salles, aponta que: As pesquisas sobre a educação bilíngue em sala de aula (entre outros, Martin-Jones, 1995) mostram que maior será a proficiência do bilíngue se orientado por um professor bilíngue do que por um professor monolíngue. Tais pesquisas concentram-se nos processos de troca de códigos (codeswitching) pelo professor bilíngue como uma forma de garantir, por exemplo, o entendimento mais adequado de determinados conteúdos em uma ou outra língua. Obviamente, esse tipo de estratégia não é uma opção para o professor monolíngue, que, no caso específico dos surdos, será intermediado por um intérprete (quando houver um). (LIMA-SALLES, 2007, p. 42). Acerca da aprendizagem da criança surda, está também a questão de muitas vezes a criança ser filha de pais ouvintes e não ter contato com a língua de sinais, e sim ser estimulada a ser oralizada. Dessa maneira, Segundo Quadros (1997), quando a criança entra na escola, o cuidado precisa ser redobrado; por nunca ter tido contato com a Libras, o ensino da Língua se dará aos poucos e é necessário que a criança seja recebida por uma pessoa que faça parte da mesma comunidade cultural, social e linguística que a criança, desta maneira, começará a conviver com alguém que tem como língua natural a Libras, dará início à aprendizagem da Língua de Sinais e, consequentemente, à proposta bilíngue. Pesquisa citada pela própria autora exemplifica o que foi colocado anteriormente: [...] a questão abordada por Duffy (1987) sobre o desempenho escolar de crianças surdas filhas de pais surdos. O autor menciona que várias pesquisas têm demonstrado que essas crianças têm melhor desempenho acadêmico do que crianças filhas de pais ouvintes. A razão para essa diferença, conforme o autor apresenta, é a existência de input comum entre os pais e a criança de uma língua nativa. No Brasil, através do contato com alguns surdos que tiveram a oportunidade de desenvolver a língua de sinais desde a mais tenra idade (por serem filhos de pais surdos), percebeu-se que a qualidade das produções escritas e de suas leituras é superior à produção e compreensão de muitos alunos surdos que não têm acesso à língua de sinais precocemente. (QUADROS, 1997, p. 32) A abordagem bilíngue é algo que acompanha a criança desde o processo de aprendizagem de Libras, pois somente a partir dessa aprendizagem a criança obterá um conhecimento e assim terá mais facilidade na compreensão da Língua Portuguesa escrita - o que não quer dizer que a criança não cometerá erros e também terá total êxito no Português. 5. INCLUSÃO ESCOLAR Infelizmente, no Brasil, ainda não se têm muitas escolas que atendam à população surda; isso gera uma exclusão e, segundo a Constituição Federal de 1988, em seu Art. 205, a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família” (BRASIL, 1988). 13 Para Goldfeld (1997, p.42): [...] é muito raro encontrarmos escolas que utilizem a língua e sinais em sala de aula. O que ocorre em muitos casos é que os alunos conversam entre si através da língua de sinais, mas as aulas são ministradas em português, por professores ouvintes que não dominem a LIBRAS, o que praticamente impossibilita a compreensão por parte dos alunos. Mas a pior realidade é que grande parte dos surdos brasileiros e seus familiares nem sequer conhecem a língua de sinais. Aplicada à educação de surdos, o bilinguismo citado anteriormente é uma forma de se incluir o aluno surdo no processo de aprendizagem, para que este possa acompanhar a turma e poder se comunicar. Contudo, também pode ser uma maneira de se excluir, visto que este aluno, embora deva receber uma educação em duas línguas – a Libras e o Português escrito – nem sempre a recebe, pois muitas vezes não conta com estrutura das escolas para um aprendizado efetivo, ou seja, não tem estrutura para o Atendimento Educacional Especializado, e nem professores capacitados, pois esses profissionais, em sua maioria, dão aulas de forma oralizada e nem têm contato com os surdos, deixando que o papel de transmitir as falas na aula seja responsabilidade do interprete. Esse fator, ao mesmo tempo em que é inclusivo, se a escola não tem estrutura para receber este aluno, é excludente, pois pode acontecer do aluno ter que procurar uma escola longe de sua casa para ter garantia de uma educação de qualidade e que atenda suas necessidades. A definição de Inclusão, por Ferreira (2009, p.1088) é: [...] Ato ou efeito de incluir. [...] Educ. Esp. O ato de incluir pessoas portadoras de necessidades especiais na plena participação de todo o processo educacional, laboral, de lazer, etc., bem como em atividades comunitárias e domésticas. [...] Mat. Ato pelo qual um conjunto contém ou inclui outro [...] Partindo da definição dada por Ferreira acerca de Inclusão, no que diz respeito à Matemática, gera uma reflexão, ele nos diz que “[...] um conjunto contém ou inclui outro [...]” (Ferreira, 2009, p.1088), mas, se levada para a inclusão de surdos, supondo que a um conjunto A que são os alunos surdos, e um conjunto B que são os alunos ouvintes, a resposta certamente seria que os alunos surdos estariam inclusos com os alunos ouvintes, dando assim uma ótima prática da inclusão, se levada em consideração uma educação efetiva a todos. No entanto, ressalta-se que os alunos surdos têm certas necessidades que a escola precisa atender, mas determinada escola não atende, logo, os alunos do conjunto A são excluídos dos alunos do conjunto B, pois a escola deveria suprir suas necessidades, mas não tem estrutura para tal; dessa maneira, a escola acolhe, mas não garante a educação efetiva dos alunos surdos, como a educação dos alunos ouvintes, dando, assim, uma prática que tenta incluir, mas na verdade exclui. No Brasil, segundo dados do Censo Escolar, em 2006 existiam 38.006 escolas comuns que não tinha apoio pedagógico especializado para receber alunos com necessidade especiais e somente 17.469 escolas comuns que contavam com apoio pedagógico especializado (BRASIL/MEC/INEP, 2006). Essa pesquisa demonstra o quanto a educação precisa avançar para que os alunos com necessidades especiais sejam incluídos de fato no processo de ensino e aprendizagem e que esta seja mediada com qualidade, além de atender as necessidades de cada tipo de deficiência. 14 6. FORMAÇÃO DE PROFESSORES Um avanço sobre a formação de professores foi o Decreto nº 5.626, em 22 de Dezembro de 2005. Com esse decreto, entrou em vigor também o seu artigo 3º, previsto na Lei 10.346/2002 da Presidência da República, que visa à implantação da disciplina obrigatória de Libras nos cursos de magistério, Pedagogia e Fonoaudiologia. A partir dessa lei, faculdades e Universidades tiveram que mudar as grades dos cursos citados para implantar a disciplina de Libras, sendo que foi um grande avanço para a questão da igualdade e também da inclusão nas escolas. A questão é que a Lei é recente, o que faz pensar que muitos professores nas escolas regulares não tiveram acesso à disciplina de Libras em sua formação, o que se torna um agravante no ensino a criança surdas, pois estes professores estão despreparados para receber estes alunos. Falar sobre formação de professores para ensinar crianças surdas parte do ponto que o professor precisa saber atender as necessidades dessas crianças. Professores que ensinam crianças surdas, de preferência, como dito anteriormente, precisam ser bilíngues, pois o professor monolíngue dificilmente saberá lidar com essa criança em sala de aula, sem a ajuda de um intérprete, visto que esbarra no problema da comunicação existente entre professor e aluno. O professor bilíngue tem o papel de adaptar os conteúdos, currículo e recursos, para que o entendimento das crianças surdas seja efetivo; dessa maneira, Segundo Fernandes: [...] a educação bilíngue depende da presença de professores bilíngues. Assim pensar em ensinar uma segunda língua pressupõe a existência de uma primeira língua. O professor que assumi esta tarefa estará embuído da necessidade de aprender a língua brasileira de sinais (FERNANDES, 2010 apud QUADROS, 2006, p. 19). Acerca da formação de professores para lidar com alunos surdos, várias instituições, como a Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação – EAPE, no Distrito Federal, oferecem cursos de Libras para professores, mas nem sempre é o suficiente para suprir a demanda das escolas, ou não a tanta procura pelos cursos oferecidos. Segundo Tavares e Carvalho (2010, p. 3-4 apud Almeida, 2012, p. 37) Percebe-se que em nosso país, entre os documentos que compõem o conjunto de leis denominado Políticas Públicas e sua implementação, há um grande fosso. Com as políticas públicas educacionais na área de educação de surdos, não é diferente. Há lei para acessibilidade que garante intérprete de Língua de Sinais/Língua Portuguesa durante as aulas, flexibilidade na correção das provas escritas, materiais de informação aos professores sobre as especificidades do aluno surdo etc. Mas, na prática, o que se percebe, é o aluno surdo mais excluído do que incluído nas salas de aula regulares, enfrentando dificuldades, que, muitas vezes os seus familiares é que tentam minimizar, buscando soluções nem sempre eficientes para ajudá-los. Por outro lado, professores, em sua maioria, sem conhecimento mínimo da Libras e, algumas vezes, subsumido por uma carga horária de trabalho exaustiva, não têm tempo para buscar uma formação continuada na área. Carece-se também de cursos de Libras básico e, principalmente, avançado, pois o estudo da língua em seus aspectos gramaticais ainda é restrito em nosso país, 15 justamente porque faltam professores formados nessa área. A falta de profissionais no Brasil para lidar com aluno surdo é grande, isso gera a exclusão desses alunos, pois as escolas carecem de um atendimento que possa suprir a necessidade do aluno surdo, garantindo assim o seu aprendizado com os recursos necessários. Para Quadros (1997, p. 33) apud Davies (1994, p. 111-112), o professor, para atender alunos surdos em uma abordagem que favoreça seu aprendizado, como a abordagem bilíngue, precisa ter três aspectos: o primeiro envolve a habilidade de guiar a criança de modo que esta possa se ver como um futuro adulto na abordagem bilíngue; o segundo envolve o conhecimento das duas línguas, ou seja, Libras e Português, sendo que deve apresentar uma boa comunicação e também domínio do Português para ensinar na modalidade escrita; E, por último, tem-se a questão do professor respeitar ambas as línguas, reconhecendo a importância que as duas têm para a criança. Mas, para o professor alcançar todos esses pontos, a sua formação precisa capacitá-lo para tal objetivo. Um dos problemas que se encontra no ensino a crianças surdas está no professor, quando não tem domínio de Libras, não se comunicar com seu aluno, e essa comunicação se estabelece somente através do intérprete. 7. INTÉRPRETE O decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, que regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobra a Libras, em seu Capítulo IV, art. 14, dispõe: o § 2 O professor da educação básica, bilíngüe, aprovado em exame de proficiência em tradução e interpretação de Libras - Língua Portuguesa, pode exercer a função de tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa, cuja função é distinta da função de professor docente. (BRASIL, 2005) O intérprete de Língua de Sinais, Segundo BRASIL/MEC/SEESP (2004, p. 27), é o profissional que domina a Língua de Sinais, no caso do Brasil, a Libras, e também o Português, que é a língua falada. O intérprete pode ter conhecimento de outras línguas, como a Língua de Sinais Espanhola e interpretar para a Língua de Sinais Brasileira, isso se faz necessário, por exemplo, em conferências internacionais. O profissional precisa apresentar qualificação para poder atuar em cada área, como a formação especifica em educação, que dá a capacitação para atuar em escolas como intérprete. Em escolas regulares comuns, o papel do intérprete é importantíssimo, pois sem ele os alunos surdos não teriam como se comunicar com os colegas e até mesmo com os professores. [...] quando um intérprete de língua de sinais é inserido na sala de aula, fica aberta a possibilidade de o aluno surdo receber a informação escolar na língua de sinais, através de uma pessoa com competência nessa língua. Desse modo, o professor ouvinte pode ministrar aulas sem a preocupação em como passar a informação em sinais, atuando em sua língua de domínio. Na medida em que a condição linguística especial do surdo é 16 respeitada, aumentam as chances de ele se desenvolver e construir novos conhecimentos de maneira satisfatória, em contraponto a uma inclusão escolar sem qualquer cuidado especial. (LACERDA, 2009, p. 34) O intérprete se faz indispensável, no Atendimento Educacional Especializado, quando o aluno está na escola comum; ao ir para o atendimento e lidar com professores que vão mediar o ensino em libras, o intérprete já não é necessário. Em escolas bilíngues, nas quais se tem o ensino em Libras e português escritos, por se ter professores que assim como no atendimento especializado são capacitados para mediar as aulas em Libras, e por todo o contexto da escola ser bilíngue, o intérprete não se faz necessário em nenhum momento. A principal atuação do intérprete está então em escolas regulares comuns, nas quais, em sala de aula, existe o professor regente e o intérprete, que tem como papel traduzir o que o professor fala para o aluno surdo e vice-versa, sendo, então, para os alunos surdos, o principal meio de se comunicar com colegas e outras pessoas dentro da escola. 8. METODOLOGIA A pesquisa utilizada nesse trabalho científico, referente ao processo de ensino aprendizagem da criança surda e ao atendimento do professor, teve um caráter qualitativopor se tratar de um tema bem amplo, que necessitou de observações e alguns questionamentos aos professores que convivem e ensinam as crianças surdas. Utilizando esse modelo, as características permitiram um amplo espaço para a compreensão das indagações levantadas. As características da pesquisa qualitativa são: objetivação do fenômeno; hierarquização das ações de descrever, compreender, explicar, precisão das relações entre o global e o local em determinado fenômeno; observância das diferenças entre os buscados pelos investigadores, suas orientações teóricas e seus dados empíricos; busca de resultados os mais fidedignos; oposições ao pressuposto que defende um modelo único de pesquisa para todas as ciências.(SILVEIRA, 2009, p. 32) Nos problemas acerca do professor no atendimento a crianças surdas, a pretensão foi investigar quais recursos pedagógicos e práticas utilizavam para colaborar no processo de ensino da criança surda. O tema referente a essa pesquisa teve por finalidade explorar o cotidiano do professor no atendimento a crianças surdas, sendo feita uma sondagem com os profissionais para tentar explicar o porquê de vários questionamentos; dessa forma, o trabalho se identificou em torno da pesquisa exploratória. Este tipo de pesquisa tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses. A grande maioria dessas pesquisas envolve: (a) levantamento bibliográfico; (b) entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pesquisado; e (c) análise de exemplos que estimulem a compreensão. (GIL, 2007 apud SILVEIRA, 2009, p 35) Dessa maneira, a pesquisa qualitativa, com todas as suas características, permitiu o contato direto com o objeto de estudo pesquisado – nesse caso, os 17 professores que atendem as crianças surdas - que nos levou à descrição dos dados levantados e à reflexão do problema levantado na pesquisa. A pesquisa realizada nesse trabalho teve também como um de seus procedimentos a pesquisa bibliográfica. Para a coleta de dados, utilizou-se de entrevistas, com o intuito de explicar como funciona a escola bilíngue e também quais são os recursos e práticas utilizados por professores para atender as crianças surdas, assim como a importância da formação de profissionais para atender as mesmas. Foram escolhidos cinco professores que atendem ao Ensino Fundamental I, sendo que foram entrevistadas uma professora do 2º ano que também atende a um aluno do 1º ano, uma do 3º, uma do 4º e duas do 5º ano. A partir disso, foram analisadas as respostas para se chegar à conclusão da pesquisa. Com as entrevistas não houve pretensão de comparar dados, mas sim apresentá-los, para que, dessa maneira, todos possam entender como é o atendimento à criança surda, a partir de uma escola diferenciada no modelo de ensinar a está criança; no caso, em uma Escola Bilíngue. 9. ANÁLISE GERAL DAS OBSERVAÇÕES Durante o período de observação em uma escola que tem uma proposta bilíngue, foi observado que a escola, que é da rede pública de ensino do Distrito Federal, atende o Ensino Fundamental I e II e a Educação de Jovens e Adultos, sendo que há turmas para ouvintes e uma turma de cada ano para alunos com deficiência auditiva. As turmas observadas foram do Ensino Fundamental I, que atendiam somente a alunos surdos, totalizando cinco turmas, sendo uma turma do 2º ano, cuja professora também atende a um aluno do 1º ano, uma turma do 3º ano, uma do 4º ano e duas turmas do 5º ano. As turmas têm de 6 a 8 alunos e não contam com intérpretes pelo fato dos professores já se comunicarem com os alunos na Língua Brasileira de Sinais e ensinarem da mesma maneira. As salas de aula são pequenas e repletas de imagens, palavras, alfabetos e números na Língua de Sinais e também no português escrito. As mesas e cadeiras são organizadas em linha reta de maneira que uma fique ao lado da outra e o professor possa se posicionar a frente dos alunos, para que estes consigam visualizar os sinais. Foi observado que os alunos não fazem uso de livros didáticos. Nas turmas de 1º, 2º e 3º ano, são incentivados a lerem livros de clássicos infantis, contando com o auxílio de vídeos que contam a história na Língua Brasileira de Sinais, mas que nem sempre são fiéis à língua; sendo assim, notou-se a carência de materiais para o melhor aprendizado dos alunos surdos. Os professores a todo o momento recorrem à internet para levar o material à sala de aula, sempre atividades com muita imagem, trabalhando a questão do visual o mais próximo possível da realidade. Por ser uma proposta de educação nova através do bilinguismo, a escola tem apenas um ano de vivência e observou-se que tem problemas a enfrentar, como, por exemplo, no ensino das crianças surdas do 5º ano que, embora estejam neste ano, não dominam o português escrito e nem o mínimo da Língua Brasileira de Sinais, 18 muitas vezes inventando gestos. Sendo assim, os professores precisam trabalhar alguns conteúdos que são de anos anteriores para que o aluno possa aprender da melhor forma, e então não resta tempo para trabalhar alguns conteúdos próprios do 5º ano. A escola conta com Datashow, impressora colorida, quadro digital e computadores, porém, alguns desses recursos os professores têm que se organizar para poder utilizar, já que são poucos à disposição e isso interfere no andamento das aulas, pois, como observado, alguns professores tiveram que adiar alguns conteúdos pelo fato de precisarem do Datashow e este não estar disponível no momento, mostrando que a escola carece de mais recursos. Na turma de 2º ano, notou-se que há um aluno de 1º ano, devido à escola não ter tido número o suficiente de alunos para abrir uma turma para crianças surdas, que é de no mínimo seis alunos, então esse aluno foi para a turma de 2º ano e em alguns momentos a professora atende esse aluno; contudo, mesmo com o empenho da professora, o estudante está sendo prejudicado. Notou-se que a escola, juntamente com os professores, está a cada dia aprimorando o atendimento às crianças surdas, mas que tem muito ainda o que enfrentar para que se possa garantir o aprendizado efetivo desses alunos. 10. ANÁLISE GERAL DAS ENTREVISTAS Na entrevista, buscou-se saber de que maneira o professor bilíngue consegue ensinar o estudante surdo. A partir disso, pode-se analisar o perfil dos professores que atendem estas crianças. Portanto, foi questionado há quanto tempo cada entrevistada trabalhava com crianças surdas. Das 5 entrevistadas, 3 trabalhavam com crianças surdas há 11, 12 e 15 anos, e 2 há pouco tempo: desde março e agosto de 2014. Como complemento a esta pergunta e buscando ainda traçar o perfil de professores no atendimento a crianças surdas, foi levantada a seguinte questão: “Como professor na modalidade bilíngue, como está sendo sua experiência?” Das 5 entrevistadas, de forma unânime, todas colocaram que a experiência estava sendo enriquecedora e que estavam satisfeitas com a modalidade bilíngue. As professoras acreditam que, dessa forma, o aluno surdo aprende melhor e que agora as crianças estão no melhor caminho, como mostra o que foi dito pela Entrevistada “A”: “Bom, eu trabalhei algum tempo com o interprete em sala de aula né, que era aquela sala que tinha duas professoras, e agora a gente tá aqui com essa modalidade realmente da aula bilíngue, o professor falando em Libras sem a necessidade de um outro professor regente na sala de aula. Eu particularmente acredito muito nesse trabalho tá, a gente tem vendo, que tá, vem dando certo mesmo, e esse, eu acredito que a gente agora tá no caminho certo tá.” O professor, para lidar com o aluno com surdez, precisa atender três aspectos segundo Davies (1994, p. 111-112 apud Quadros, 1997, p. 33): a) o professor deve ter habilidade para levar cada criança a identificar-se como um adulto bilíngue; b) o professor deve conhecer profundamente as duas línguas, ou seja, deve conhecer aspectos das línguas requeridos para o ensino da escrita, além de ter bom desempenho comunicativo; 19 c) o professor deve respeitar as duas línguas – isso não significa tolerar a existência de uma outra língua – reconhecendo o estatuto lingüístico comum a elas e atentando às diferentes funções que cada língua apresenta para a criança. Dessa forma, verifica-se que o professor na modalidade bilíngue, além de estar sempre se atualizando, precisa acima de tudo aprofundar-se na língua e respeitá-la para receber o aluno surdo em sala de aula. Para entender, na opinião das entrevistadas, como o bilinguismo contribui no ensino e aprendizado de crianças surdas, foi levantada a seguinte questão: “Até que ponto o bilinguismo contribui no ensino e aprendizado de crianças surdas?" Mais uma vez, as 5 entrevistadas, de forma unânime, apresentaram que não conseguiriam ver outra forma de ensinar a criança surda, colocando a Libras como sendo natural da criança, e que todas as escolas deveriam ter dentro do currículo a questão bilíngue. Sendo assim, todas consideraram que o bilinguismo é de grande importância para o ensino da criança surda, como mostra a resposta da Entrevistada “D”: “Contribui bastante, porque facilita mais trabalhar primeiro Libras como a primeira língua, a língua materna e depois trabalhar o português como segunda língua”. Segundo Dizeu e Caporali, 2005: O bilingüismo possibilita ao surdo adquirir/aprender a língua que faz parte da comunidade surda. O trabalho bilíngüe educacional respeita as particularidades da criança surda, estabelecendo suas capacidades como meio para essa criança realizar seu aprendizado. Esta proposta também oferece o acesso à língua oral e aos conhecimentos sistematizados, priorizando que a educação dever ser construída a partir de uma primeira língua, a de sinais, para em seguida ocorrer a aquisição da segunda língua, o português [...] Na escola da rede pública de ensino do Distrito Federal, que atende os alunos com deficiência auditiva na modalidade bilíngue, coloca-se o português, mas somente na sua forma escrita. Dessa maneira, percebe-se que a proposta bilíngue, além de ensinar, promove o desenvolvimento pleno do aluno, permitindo vivenciar a língua. Na entrevista, buscou-se também identificar as dificuldades; sendo assim, foi feita a seguinte indagação: Quais as principais dificuldades no atendimento às crianças surdas? Nessa questão, 1 das 5 entrevistadas coloca que a grande dificuldade está no ponto que para abrir turmas é necessário ter no mínimo seis alunos, e que dessa forma alguns alunos são prejudicados, como foi o caso de um aluno, citado nas observações, que ficou sem turma do 1º ano pelo fato de não haver mais cinco alunos para formar uma turma. As outras 4 entrevistadas responderam que a principal dificuldade está na falta de ensino precoce de Libras, visto que as crianças chegam à escola sem saber a Língua de Sinais e, portanto, é necessário ensinar primeiramente Libras, para somente depois ensinar o português escrito, o que de certa forma atrasa o aluno. Essa resposta fica bem clara na fala da Entrevistada “B”: “No caso os pais, primeiramente a família a questão da família ainda desconhecer sobre a questão da Libras, ela coloca a criança em contato com a Libras no último caso primeiro ela busca atendimento fonoaudiólogo.. de fonoaudiólogo, ela busca até o implante, como última opção que ela vem pras escolas que trabalham com Libras, então isso dificulta muito porque a criança já chega tardiamente e aqui na 20 escola que ela vai aprender a Libras, seria legal que tivesse desde o inicio uma estimulação precoce, crianças bebês, só em turma porque hoje em dia o que funciona aqui dentro da secretária as crianças surdas de creche ou de educação infantil, pré-escola, elas vão pra uma turma normal né, ou com outras crianças deficientes ou com crianças normais, ditas normais né, e deveria ter uma classe só pra elas também pra que tivesse todo um estímulo voltado pra língua delas.” Então, vê-se que, como foi colocado nas respostas à questão anterior, a Língua não é natural da criança desde que haja um ambiente acessível a isso, assim como para os ouvintes, pois não é possível ensinar uma criança ouvinte sem falar com ela; dessa mesma forma é para o surdo, como ele vai aprender a Libras se não conviver em um ambiente favorável a isso? Quadros (1997, p. 29) nos traz um pouco dessa reflexão. Como uma criança surda, filha de pais ouvintes que nunca viram a língua de sinais, não conhecem pessoas surdas e nem imaginam o que fazer para comunicarem-se com seu filho, vai adquirir a sua primeira língua? Esse é um grande obstáculo para o desenvolvimento psicossocial da criança surda e para o ensino eficiente da língua portuguesa, pois a criança nem sequer nasce em um ambiente que favoreça o desenvolvimento de sua primeira língua, no caso do Brasil, a Libras. Nota-se que não é um problema da criança por ser ela surda, mas um problema social que pode gerar consequências irreversíveis no desenvolvimento da criança caso não seja oferecido a ela o direito de ter acesso à aquisição de uma língua de forma natural. A partir disso, nota-se que a questão da Libras estimulada precocemente para ser uma língua natural da criança surda vai muito além da educação e chega às questões sociais, antes mesmo da criança ser inserida na escola, pois o ideal seria que essa criança já chegasse na escola tendo uma bagagem de mundo, para que o aprendizado dela partisse desse ponto. A quarta questão foi levantada com o intuito de saber dos recursos que os professores utilizam para colaborar na educação do estudante surdo. Sendo assim, a quarta questão foi a seguinte: “Como professor bilíngue, você poderia citar algum recurso que você utiliza para colaborar na educação dos estudantes surdos?” Nessa questão, todas as entrevistadas colocaram que utilizam como recurso principal o Datashow, o Power point, figuras coloridas e lousa digital, para que, assim, o aluno com deficiência auditiva consiga visualizar tudo aquilo que está sendo ensinado, gerando um melhor aprendizado. A entrevistada “E” respondeu da seguinte forma: “Sim. Nós utilizamos na aprendizagem dele basicamente cem por cento visual, então assim a gente procura sempre oferecer figuras, essas figuras se possível a gente tenta oferecer no tamanho real ou demonstrar, levar ele pra poder ver com os próprios olhos, vou falar da bicicleta aí mostrar a bicicleta em si, mostrar um desenho real e não caricaturas da figura. Então a gente sempre tem que oferecer a palavra escrita no português, trabalhar a sinalização do alfabeto manual, a figura e depois sempre tentar contextualizar o que você tá trabalhando dentro de um contexto pra que não fique um vocabulário solto”. Sobre os recursos, e como foi observado, as aulas se tornam bem mais interessantes para os alunos surdos quando se conta com elementos visuais, pois, já que a Libras é uma língua que conta muito com o visual, recursos como estes não poderiam ser dispensados no ensino a crianças surdas, por ser a partir desses 21 elementos, além da criança aprender Libras, ela aprende também o português escrito com mais facilidade. Ainda sobre os recursos, foi questionado quais recursos a escola dispunha para colaborar na aprendizagem das crianças surdas. Todas relataram que a escola dispõe de Datashow, lousa digital, internet, impressora colorida e computadores, porém, das 5 entrevistadas, 3 acrescentaram que a escola dispõe desses recursos, mas não em número o suficiente, causando em alguns momentos certos transtornos, como relatou a Entrevistada “C”: “A escola dispõe de recursos, mas não é o suficiente ainda, porque ás vezes você prepara uma aula você traz pretendendo usar a lousa digital chega aqui outro professor já pegou então a gente necessitaria de mais equipamento.” Sobre esses recursos, Reily (2003 apud Queiroz, 2012, p. 915) nos traz a seguinte reflexão: [...] menciona que é necessário que as escolas organizem o currículo partindo de uma perspectiva visual/espacial; e, se o processo educacional ocorre mediante a interação linguística, deve ocorrer, portanto, na língua brasileira de sinais juntamente com outras experiências visuais, tais como língua portuguesa escrita, mímica/dramatização, figuras, recursos tecnológicos (vídeo/TV, slides, computador, retroprojetor) e leitura, desenvolvendo, nos alunos, a memória visual e o hábito de leitura; recebendo apoio de professor especialista conhecedor de língua de sinais [...] A partir disso, e como foi observado, nota-se que a escola carece de recursos para que a educação do surdo não seja prejudicada e que os professores, mesmo com empenho para confeccionar materiais, ainda não têm o suporte necessário para utilizá-los em sala de aula e assim colaborar na aprendizagem da criança surda. Por meio desta pesquisa, buscou-se também identificar as estratégias adotadas pelos professores no ensino e aprendizado de crianças surdas, estratégias estas que vão desde a formação até a sala de aula. Sendo assim, foi levantado o seguinte questionamento: “Quando o professor não sabe a Língua Brasileira de Sinais no atendimento às crianças surdas, isso interfere na comunicação professor e aluno e vice-versa. Desta maneira o que você acha que esta faltando para que isso não ocorra? Justifique.” As 5 entrevistadas, apontaram que, se o professor trabalha com crianças surdas, ele precisa aprender Libras urgentemente. Para lidar com crianças s/urdas, não basta um curso básico de Libras como é o caso de professores de contrato que entram para trabalhar com os estudantes surdos, mas é preciso ter formação continuada, e mais ainda, é necessário que os professores que trabalham com crianças surdas tenham domínio da Língua de Sinais. A Entrevistada “B” colocou-se da seguinte forma: “Primeiro esse professor não tem que tá aqui junto com os surdos, não tem que tá se ele vier ele tem que fazer urgentemente uma formação mas essa só, só que a língua é como uma outra língua qualquer ela precisa ser vivenciada, então esse professor eu acho que não poderia estar dentro de uma sala de aula com alunos surdos. É, o aprendizado da Libras né, não só o aprendizado mas toda aquela formação de estudo da história da Libras, da história dos surdos, da cultura surda, da identidade surda tem que vim toda essa formação, uma formação voltada tudo pra isso pra esses temas.” 22 As entrevistadas acreditam que o professor, para atender à criança surda, deve estar bem preparado, e sobre isso Davies (1994, p. 111-112 apud Quadros, 1997, p. 33) relata a passagem de outro autor: Ainda quando ao professor, Davies cita uma passagem de Bergmann (1978) em que a autora confessa que é impossível discutir sobre diferentes sistemas educacionais em que o professor não se comunica com o seu aluno. De fato, é muito complicado pensar em educação de surdos sem sequer ter como prioridade o domínio da língua de sinais. Estende-se essa dificuldade a todos os profissionais que atuam diretamente na área da surdez. Sendo assim, o profissional, para atender crianças surdas, deve no mínimo se comunicar com ela, sempre buscar o aprofundamento da língua e se manter atualizado através de formações continuadas. No último questionamento, a questão foi referente a como os professores se prepararam para realizar o atendimento à criança surda,sendo levantada a seguinte indagação: “Que formações buscou pra ter o conhecimento necessário para lidar com crianças surdas?” As entrevistadas relataram que buscaram cursos para o aprendizado da Libras, cursos que a própria escola oferece para os funcionários e também para a comunidade. Das 5 entrevistadas, 4 já cursaram ou ainda estão cursando pósgraduação voltada para o atendimento à criança surda, principalmente na área de português escrito como segunda língua. Tambémverificou-se que, das 5 entrevistadas, todas fazem algum tipo de formação continuada. A entrevistada “A” falou um pouco da sua formação e de como é trabalhar com as crianças surdas: “Olha quando eu comecei a trabalhar com surdos eu cai meio que de paraquedas, eu cai em uma escola que tinha surdos, eu vim pra uma turma de ouvinte e tinha surdos na escola, eu comecei a me interessar pela língua, a escola oferecia cursos eu comecei a fazer os cursos, a escola no caso a secretária de educação, a EAPE que oferecia os cursos né, aí eu comecei a me interessar pela língua antes de trabalhar com eles, aí quando eu comecei a ter um certo domínio na língua eu comecei a trabalhar e até hoje eu nunca parei de estudar. Então assim eu venho eu faço cursos, eu fiz faculdade junto com uma professora surda então eu tive três anos de trabalho com ela sabe, e a língua vai se desenvolvendo mas a gente não para nunca né. Quando você quer trabalhar com uma criança surda você não tem que se preocupar só com a comunicação, você tem que entender a estrutura de aprendizagem dela, porque é diferenciado do ouvinte né, pra você trabalhar com surdo você tem que saber a forma que ele aprende a forma que as coisas chegam que as informações chegam, então coisas que pra gente passar despercebido pro surdo não passa, então assim a estrutura de uma frase que eu vou falar para ele em Libras eu tenho que pensar nessa estrutura antes, eu tenho que pensar na estrutura da língua dele, e eu tenho que pensar por exemplo em uma imagem que eu vou selecionar, se eu quero por exemplo um vestido vermelho, eu quero trabalhar vestido vermelho com ele, eu não posso pegar um mulher vestida de vestido vermelho, por que? Porque ele vai condicionar a palavra vestido vermelho a todas as mulheres que estiverem com vestido vermelho e não é essa a finalidade né, então assim, não é só; a língua é; eu digo que 80% da aprendizagem do surdo tá no entrave da língua, mas também não é simplesmente você aprender a falar com eles e chegar e querer ensinar né, ensinar a gente não ensina a gente desperta, a gente 23 conduz, a gente media, não é questão de ensinar mas você tem que entender a estrutura de pensamento dele.” Sobre o professor estar sempre em formação, Nóvoa (1992) nos traz um pouco dessa reflexão: A formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir a pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência. Por meio da formação continuada, os professores, em geral, não somente aqueles que lidam com crianças surdas, podem analisar as suas práticas docentes e refletir sobre soluções para inúmeras questões que permeiam as escolas. 11. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o objetivo de verificar de que maneira o professor bilíngue consegue ensinar o estudante surdo e como é sua vivência com esse aluno, foram analisadas as suas práticas de ensino/aprendizado e o perfil desses professores, por meio de pesquisas bibliográficas e também pesquisa de campo. Sendo assim, constatou-se que os professores no atendimento às crianças surdas na escola pública do DF utilizam recursos visuais como meio para colaborar no ensino/aprendizado da criança surda, sendo através de figuras, palavras e a própria língua de sinais. A proposta do ensino bilíngue ainda precisa avançar na preparação do professor na mediação da segunda língua para os estudantes surdos, no caso, o português escrito, pois verificou-se que alguns dos professores têm dificuldade nesse ensino, em como ensinar esse conteúdo para o estudante surdo. Essa questão também se agrava pela chegada tardia da criança surda na escola sem ter o mínimo conhecimento da Língua de Sinais que é necessária para o ensino do português escrito, sendo inevitável o professor deixar alguns conteúdos de lado para trabalhar sinais básicos da Libras com o aluno, para aos poucos ir entrando nos conteúdos. Por meio desse fato, estabeleceu-se um paradoxo na questão da Libras ser considerada a língua materna dos surdos, pois esse caso se aplica às crianças que crescem em ambiente favorável a isso, ou seja, convivendo com quem domina a Libras. Porém, as crianças que crescem sem ter nenhum contato com a Língua de Sinais se comunicam muitas vezes através de uma linguagem construída entre elas e as pessoas mais próximas. As crianças surdas que não conhecem a Libras desde os primeiros anos de vida, quando se deparam com o meio social, não conseguem se comunicar com a comunidade surda e nem com os ouvintes. Ao entrar na escola, é necessário que o professor ensine a Língua de sinais a essa criança, porém a formação da linguagem não será realizada de maneira natural, ou seja, que é construída desde o nascimento. Portanto, a criança surda acaba sendo prejudicada em sua entrada na vida escolar. 24 A pesquisa aponta que as crianças diagnosticadas com surdez devem aprender Libras desde a estimulação precoce, sabendo que assim estariam capacitados para enfrentar o mundo escolar e a proposta bilíngue. Portanto, a pesquisa permitiu ver que é de extrema importância que o professor no atendimento às crianças surdas domine a Língua Brasileira de Sinais, conheça a história dos surdos, sua cultura e sua identidade e que, no caso do bilinguismo, não basta o professor dominar as duas línguas, como é o caso de professores que chegam para ensinar a criança surda, é preciso saber como ensinar a criança surda, sendo então necessária a formação continua desse professor. The bilingual teacher in care for deaf children in a school of elementary school Abstract: This article has to determine how the teacher teaches that in the bilingual proposal can teach the deaf student, analyzing the practices of teaching / learning of these teachers, their strategies and also the profile of teachers to meet deaf children. First it was presented some of the history of deaf education in Brazil and laws for the education of the deaf. It was characterized Atendimento Educacional Especializado AEE for deaf students to then treat the question of bilingualism, school inclusion, teacher training and the role of the interpreter in bilingual education. Fieldwork in qualitative, through observations and interviews with teachers who attended deaf children in bilingual mode was used. Through research it was possible verify that the main practice of the bilingual teacher is in the visuals aim to collaborate in the teaching / learning of deaf students. Already a bilingual proposal still needs to advance in mediating the teaching of a second language, in this case the portuguese written and also noted the need for essential and ongoing training of bilingual teacher. Became apparent default of learning Pounds Libras student before entering school and the importance of early education of Língua Brasileira de Sinais. Keywords: Teacher training. Deaf children. Bilingualism. Teaching. Learning. 12. 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