0 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI PRÓ-REITORIA DE ENSINO CENTRO DE CIENCIAS DA SAUDE - BIGUAÇU CURSO DE PSICOLOGIA ALINE CRISTINA DE CARVALHO A TRAJETÓRIA HISTÓRICA E AS POSSÍVEIS PRÁTICAS DE INTERVENÇÃO DO PSICÓLOGO FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS E AOS DESASTRES BIGUAÇU 2009 1 ALINE CRISTINA DE CARVALHO A TRAJETÓRIA HISTÓRICA E AS POSSÍVEIS PRÁTICAS DE INTERVENÇÃO DO PSICÓLOGO FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS E AOS DESASTRES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia na Universidade do Vale do Itajaí, no Curso de Psicologia. Orientadora Profª. Msc. Ilma Borges. BIGUAÇU 2009 2 ALINE CRISTINA DE CARVALHO A TRAJETÓRIA HISTÓRICA E AS POSSÍVEIS PRÁTICAS DE INTERVENÇÃO DO PSICÓLOGO FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS E AOS DESASTRES Este Trabalho de Conclusão de Curso foi considerado aprovado, atendendo os requisitos parciais para obter o grau de Bacharel em Psicologia na Universidade do Vale do Itajaí, no Curso de Psicologia. Biguaçu, 26 de novembro de 2009. Banca Examinadora: _______________________________________ Prof.ª Msc. Ilma Borges – Orientadora _______________________________________ Prof.º Msc. Henry Dario Cunha Ramirez – Membro _______________________________________ Psicóloga Letícia Rauen Delpizzo - Membro 3 AGRADECIMENTOS Aos meus pais Mário e Antonia, e aos meus irmãos André e Mara pelos ensinamentos durante estes 21 anos de trajetória. Pelo carinho, amor, dedicação e encorajamento. Pelo incentivo nos estudos, e principalmente por acreditarem em meu potencial. Ao meu namorado, João Ricardo pela compreensão nos dias de ausência, e pelos dias dedicados a me auxiliar neste trabalho. Pelo incentivo aos meus estudos, respeito a minha futura profissão e a profissional que quero ser. Agradeço, pois nestes anos de namoro foi sempre presente, carinhoso, paciente, amoroso e muito companheiro. As minhas amigas, Lu, Sami, Tutty, Rê, Sissa e Gi e aos meus amigos Gabe, Jivs, Sandro, Doug, Di Be e Yuyu pelos longos anos de amizade e por me tornarem uma pessoa melhor. Agradeço, pois se fazem presentes de perto ou de longe e deixam meus dias mais felizes. Compreendem-me e me aceitam como sou. Animam-me e me acalmam, e entendem meus “sumiços” em virtude dos estudos. As amigas da faculdade, Lis, Lu, Ana, Vanessa, Mariza, Laís S., Thaiara, Laís F. e Murilo por me acompanharem diariamente na faculdade e dividirem as alegrias e dificuldades dos anos de graduação. Pelo reconhecimento e incentivo profissional. A Joice, a Carol, a Le, ao Rê e a todos aqueles amigos que a vida foi colocando no meu caminho, e que permanecem sendo pessoas fundamentais para minha felicidade e crescimento pessoal. Aos técnicos sociais da Caixa Econômica Federal e aos estagiários, pelo interesse e incentivo aos meus estudos. Pelo aprendizado que me proporcionam diariamente. Pelo acolhimento e paciência nos meus momentos de ansiedade. E pela flexibilidade nos dias em que precisei me dedicar a esta monografia. 4 Ao Conselho Regional de Psicologia da 12ª Região de Santa Catarina, pela parceria feita com o Departamento Estadual de Defesa Civil do referido Estado que me oportunizou o estágio na Defesa Civil. E pelos materiais cedidos que ajudaram na produção desta pesquisa. Ao diretor Márcio Luiz Alves e aos funcionários do Departamento Estadual de Defesa Civil do Estado de Santa Catarina pela oportunidade de ter estagiado no local. Pelo acolhimento e colaboração na minha busca de dados para esta pesquisa. E pelo aprendizado vivenciado durante a enchente de novembro de 2008. A Andrea Guimarães, psicóloga que participou da minha banca do projeto desta monografia, e fez contribuições muito importantes. Pelos ensinamentos, incentivo aos estudos e materiais que me indicou. E por sempre tão atenciosa e querida comigo. Ao corpo docente do Curso de Psicologia da Universidade do Vale do Itajaí de Biguaçu, que contribuiu na minha formação e capacitação para o desenvolvimento desta pesquisa, e que diariamente dedicam-se a qualificação profissional de seus acadêmicos. Ao Profº Henry Dario Cunha Ramirez e a Letícia Rauen Delpizzo, por aceitarem prontamente o convite para fazer parte da banca. Ao Profº Dario agradeço pelas contribuições em meu projeto de pesquisa, que me ajudaram no desenvolvimento desta monografia. E pelas aulas de psicologia social que me motivaram a estudar mais sobre este campo de trabalho. A Letícia, agradeço pelas oportunidades que me proporcionou, pelo incentivo a minha qualificação profissional, pelo reconhecimento ao meu trabalho e por ser sempre tão carinhosa e amiga. Em especial agradeço a minha orientadora, Profª Ilma Borges, por ter aceitado o desafio desta pesquisa inovadora. Pela dedicação e comprometimento. Por ter me auxiliado em todos os momentos que precisei. Pela paciência, respeito, ética e relação de amizade estabelecida. Manifesto minha grande admiração pelo seu trabalho, e carinho pelo tempo e interesse investidos em minha formação. A todos aqueles que contribuíram para meu crescimento pessoal e profissional. 5 RESUMO Esta pesquisa objetivou tratar da relação entre o exercício profissional da psicologia frente ao novo campo de trabalho denominado psicologia das emergências e dos desastres. Buscou resgatar a trajetória histórica deste campo e apontar as novas perspectivas de atuação do psicólogo em relação às políticas públicas, contribuindo para produção de conhecimento que subsidie uma atuação consistente neste campo de trabalho. Para tanto, adotou-se a metodologia da pesquisa qualitativa bibliográfica. Foram analisados conceitos referentes às emergências e aos desastres, seus tipos e modos de avaliação; caracterizados pensamentos teóricos de pesquisadores; apontadas possíveis relações entre a percepção social, a prevenção e a resiliência; identificadas possíveis práticas de intervenções no campo; levantados subsídios teóricos em termos de políticas públicas que favorecessem a inserção do campo como lugar de trabalho social; e identificadas possíveis parcerias na inserção da psicologia das emergências e dos desastres nas organizações de ação pública. O estudo foi concluído entendendo que o incentivo à formação especializada neste campo, com ações voltadas para a prevenção dos desastres através do desenvolvimento da percepção social dos riscos, e unificado à abertura de cargos públicos para psicólogos atuarem neste campo, são algumas das iniciativas que possibilitariam a construção de políticas públicas mais eficientes e condizentes com a realidade social vivida nas diversas localidades do Brasil. Concluiu-se também que a estabilidade dos cargos públicos possibilitaria um trabalho contínuo e de longo prazo, através de um planejamento de trabalho interdisciplinar que contemplasse todas as fases dos desastres e estabelecesse parcerias institucionais com profissionais historicamente atuantes no campo. Estas iniciativas desenvolveriam a capacidade de resiliência individual e comunitária da sociedade. Palavras-Chaves: história; psicologia; desastres; intervenção; políticas públicas. 6 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................... 7 2. REFERENCIAL TEÓRICO .... ....................................................................14 2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA INSERÇÃO DA PSICOLOGIA NO CAMPO DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES .................................................................................. 14 2.2 CONCEITUAÇÕES DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES, SEUS TIPOS E MODO DE AVALIAÇÃO. ...................................................................................................... 19 2.3 PRINCIPAIS PESQUISADORES E SEUS PENSAMENTOS TEÓRICOS SOBRE A PSICOLOGIA DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES.................................................22 2.4 POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE A PERCEPÇÃO SOCIAL, A PREVENÇÃO E A RESILIÊNCIA FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS E AOS DESASTRES .................................. 24 2.5 PRÁTICAS DE INTERVENÇÕES DA PSICOLOGIA NO CAMPO DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES .................................................................................. 27 2.6 PSICOLOGIA DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES COMO CAMPO DE TRABALHO SOCIAL ............................................................................................................. 30 2.7 PARCERIAS NA INSERÇÃO DA PSICOLOGIA DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES NAS ORGANIZAÇÕES DE AÇÃO PÚBLICA .............................................. 32 3. METODOLOGIA ......................................................................................... 34 3.1 MÉTODO .......................................................................................................................... 34 3.2 ÉTICA ............................................................................................................................... 35 4. ASPECTOS CONCEITUAIS IDENTIFICANDO AS POSSÍVEIS PRÁTICAS DE INTERVENÇÃO DO PSICÓLOGO FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS E AOS DESASTRES ......................................................... 37 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................... 45 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 47 7 1. INTRODUÇÃO A presente monografia dedicou-se ao estudo da trajetória histórica e das possíveis práticas de intervenção do psicólogo frente às emergências e aos desastres, pois jamais em épocas anteriores, temas relacionados a emergências e desastres foram tão manifestos em nível mundial como atualmente. Fatos que evidenciam a freqüência com que estes acontecimentos têm sido apresentados encontram-se a seguir. Conforme o artigo “Efeito à distância - Energia liberada pelo terremoto da Ásia pode precipitar outros tremores fortes pelo planeta” de Carlos Fioravanti1, o tsunami ocorrido em 16 de dezembro de 2004, foi registrado como o maior terremoto ocorrido nos últimos 40 anos e o quarto maior registrado desde que surgiram os primeiros sismógrafos, em 1900. Sendo a primeira vez que se registrou um tremor tão forte - de magnitude nove, com ondas que chegavam a 20 metros de altura. Segundo o artigo “O estresse pós-traumático em áreas afetadas pelo tsunami” de Ivan Figueira2, após o desastre foram somados meio milhão de feridos, 280 mil mortos em 13 países, 5 milhões de desabrigados, 25.000 desaparecidos e mais de 1.000.000 de pessoas deslocadas para o sul da Ásia e África Ocidental; tratando-se do maior número de mortes já documentado após um tsunami. Em relatório publicado pela National Oceanic & Atmospheric Administration (NOAA), Estados Unidos, em dezembro de 2005, referente ao Furacão Katrina de 29 de agosto do mesmo ano, o qual atingiu a região do Golfo do México, consta que pelo menos 80% da cidade de New Orleans, nos Estados Unidos, estava sob inundação em 31 de agosto. De acordo com o artigo “Vento de furacão esquenta debate sobre mudança climática” de Yurij Castelfranchi3, o Katrina deixou 1,6 mil vítimas e danos de US$ 75 bilhões em New Orleans. Três semanas após o Katrina, a tempestade tropical “Rita” atingiu a mesma região agravando a situação crítica na qual esta já se encontrava. Assim como no nível mundial, o Brasil também vem sendo marcado por debates e ocorrências que remetem às emergências e aos desastres com uma freqüência crescente. No site brasileiro “Desastres Aéreos” 4 encontra-se uma lista com os desastres aéreos ocorridos 1 Revista FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), São Paulo, ed. impressa 108, fev. 2005. 2 Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, p. 93 - 94. jun. 2005. 3 Revista Ciência e Cultura. São Paulo, v. 58, n. 3, jul./set. 2006. 4 www.desastresaereos.net 8 em nosso país e no mundo, pelo menos das últimas quatro décadas. Nela consta o acidente de 17 de julho de 2007, onde o avião Airbus A-320 da Empresa de Transportes Aéreos TAM, derrapou na pista do Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul da Cidade de São Paulo, atravessando a Avenida Washington Luís e batendo em um prédio de carga e descarga da mesma companhia aérea. O acidente deixou 199 pessoas mortas e ficou marcado como sendo o maior da aviação no país. Um ano antes, em 29 de setembro de 2006, na região de Mato Grosso do Sul, ocorreu uma colisão entre o Boeing 737-800 da Empresa de Transportes Aéreos Gol e um Jato XL600 Legacy fabricado pela Empresa Embraer. Esta vitimou 154 pessoas, segundo Relatório Final da CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), 2008, do Comando da Aeronáutica Nacional. Estes são exemplos de ocorrências recentes que chamaram a atenção da população brasileira para a discussão de assuntos que perpassam a esfera dos desastres. No Brasil não são esperados terremotos, explosões vulcânicas e tsunamis, pois esse não está localizado em uma posição geográfica que apresente risco de ocorrência desses tipos de desastres naturais. Porém fatores como a falta de planejamento do desenvolvimento urbano, a má distribuição de renda e a falta de consciência ambiental tornam o país um multiplicador de áreas de risco para população. Em 2004, com a ocorrência do Furacão Catarina, no sul do Estado de Santa Catarina, a população brasileira foi despertada a pensar mais seriamente sobre as emergências e os desastres como algo que pode acontecer no país, e não como algo distante. Segundo dados do IBGE/DEDC5, foram 33.165 desabrigados, 4 mortos, 518 feridos e 7 desaparecidos. A veiculação na mídia, deste e de outros desastres posteriores ocorridos no país, tornou a profissão dos socorristas e principalmente da Defesa Civil gradativamente mais popular e visivelmente mais atuante. Além disso, despertaram o interesse e a necessidade do estudo do tema pelas mais diversas categorias profissionais. Uma vez que as emergências e os desastres não eram um tema culturalmente incluso como campo de estudo no Brasil, existe pouca base de dados produzida sobre o assunto, diferentemente de outros países como Cuba, Chile e Peru, por exemplo, que científica e culturalmente já desenvolvem estudo e preparo para situações emergenciais há décadas. Do ponto de vista social mostra-se relevante o estudo e a produção científica através da pesquisa 5 IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística / DEDC - Departamento Estadual de Defesa Civil de SC 9 sobre o tema em nosso país, visto que estes fenômenos afetam a vida, a saúde e o bem-estar das populações atingidas direta e indiretamente. O Estado de Santa Catarina dentre os Estados do Brasil, historicamente é o que mais tem registros de desastres, sendo as inundações as responsáveis pelo maior número de desabrigados e mortos nas últimas três décadas6. Contudo as inundações no ano de 2008 ultrapassaram todos os números anteriormente já registrados. Segundo o relatório do DEDC, no dia 31 de novembro de 2008, Santa Catarina registrava 78.707 desalojados e desabrigados (27.410 desabrigados, 51.297 desalojados), 19 desaparecidos confirmados e 114 óbitos. Ao final do desastre o número de mortos chegou a 135. Diante dos fatos apresentados, a psicologia, enquanto ciência que se dedica ao estudo e promoção da saúde psíquica humana, passou a reconhecer a vulnerabilidade social e ambiental na qual se encontra o país e, no ano de 2006, realizou o I Seminário Nacional de Psicologia das Emergências e dos Desastres, em uma parceria entre a Secretaria Nacional de Defesa Civil e o Conselho Federal de Psicologia. Em fevereiro de 2008, o Conselho Regional de Psicologia da 12ª Região – Santa Catarina7 assinou o termo de cooperação com a Secretaria Executiva de Justiça e Cidadania do Estado, onde propôs ações a serem desenvolvidas junto com a Defesa Civil do Estado, firmando o compromisso da categoria profissional no desenvolvimento de referências técnicas para atuação frente às emergências e aos desastres. Neste sentido, outras classes profissionais e instituições de poder público passaram a solicitar atuação do profissional psicólogo em situações como: promoção da percepção de áreas de risco principalmente em populações carentes, desenvolvimento de ações que previnam as conseqüências dos eventos adversos, estudo das reações dos indivíduos frente aos desastres, estudo das estratégias de promoção de atitudes mais pró-ativas e menos reativas frente aos desastres, propostas de atuação que promovam o bem-estar dos indivíduos que se encontram em abrigos temporários ou permanentes, dentre outros. Desta maneira, a psicologia enquanto ciência iniciou um processo de estudo e busca de dispositivos eficazes de pesquisa e intervenção sobre o tema em questão, firmando a relevância científica do estudo de assuntos relacionados a emergências e desastres pela categoria profissional. Para a acadêmica o estudo deste tema mostra-se importante, pois a mesma realizou 6 HERRMANN, M. L. de P. (org). Atlas de Desastres Naturais do Estado de Santa Catarina. Florianópolis: SEA/DGED, 2007. 7 Informativo do Conselho Regional de Psicologia da 12ª Região. Florianópolis, ano II, ed. 2, fev. 2008. 10 estágio extracurricular voluntário em uma Organização Não Governamental que se encontrava em área de risco, fato que lhe despertou interesse. Após, realizou outro estágio também extracurricular voluntário, na Defesa Civil do Estado de Santa Catarina em agosto de 2008 e presenciou as conseqüências da enchente causada pelas chuvas nos últimos meses do ano no Estado. Entende-se que a atuação no desenvolvimento de políticas públicas condizentes com a realidade vivida no Brasil passa pela ampliação da pesquisa e da inserção do profissional psicólogo nos mais variados setores públicos sociais. O interesse da acadêmica na área da psicologia social, e a necessidade da instrumentalização e do conhecimento para possível atuação são fatores que motivaram o desenvolvimento desta monografia. A acadêmica compreende também que é preciso levantar historicamente o quanto a profissão desenvolveu seu pensamento e entendimento sobre as emergências e os desastres (enquanto produção de conhecimento científico nacional) através de estudos e ações já implantados ou em desenvolvimento, para que a partir disto seja possível sugerir estudos e propostas que visem referências para atuação do psicólogo em eventos futuros. Ao longo da monografia foi utilizado o termo “campo” para tratar da psicologia das emergências e dos desastres, já que esta ainda encontra-se em processo de desenvolvimento de estudos científicos e formulação base de dados nacional como “área” de atuação da psicologia. O tema da presente monografia tratou da relação entre o exercício profissional da psicologia frente ao novo campo de trabalho denominado psicologia das emergências e dos desastres, buscando resgatar historicamente a trajetória deste tema e as novas perspectivas de atuação em relação às políticas públicas. Compreende-se que a produção desta pesquisa foi uma forma de contribuir para produção de conhecimento que subsidie uma atuação consistente e estimular que este tema torne-se um novo campo de trabalho para psicologia. Em virtude das emergências e dos desastres serem um tema que vem se apresentando no cotidiano dos brasileiros de forma crescente, exige um posicionamento científico relativo aos processos sociais, educacionais, institucionais e de saúde envolvidos na construção do pensamento popular e científico. Quando se comenta sobre desastres no país, estes normalmente se referem aos de causas naturais. Isto ocorre, pois notícias veiculadas na mídia que se relacionam, por exemplo, a atos de violência, dengue, AIDS, desemprego, poluição do ar, desvios de curso de rios, não são compreendidas como desastres ou possíveis fatores de 11 origem destes. Porém, além dos desastres de causa natural (temperaturas extremas, erosão, inundações, pragas vegetais, etc.), podemos verificar também os de origem tecnológica (relacionados com construção civil, incêndios, meios de transporte sem menção de risco químico ou radioativo, etc.), social (relacionados com ecossistemas urbanos e rurais, convulsões sociais, conflitos bélicos, etc.) e biológicos (relacionados com ionosfera, atmosfera, sismologia induzida, etc.) 8. Eventos acarretados por estas causas podem provocar conseqüências tão sérias quanto os de origens naturais. A psicologia enquanto ciência e profissão, ao observar estas conseqüências diretas ou indiretas no meio-ambiente, na economia e no bem-estar da população, têm buscado posicionamento através do estudo das práticas realizadas pelos profissionais historicamente atuantes em situações adversas (Defesa Civil, Exército, Bombeiros, Marinha, Socorristas de forma geral, entre outros), juntamente com o estudo da estrutura teórica e técnica já produzida pela profissão. Com isso busca unir, adaptar, rever e repensar conceitos que desenvolvam referências para atuação do psicólogo nesta área emergente. Em países onde os desastres ocorrem com maior freqüência, a psicologia das emergências e dos desastres possui estudo, pesquisa e técnicas de atuação em crescente adiantamento. Por sua localização geográfica, Cuba, por exemplo, sofre desastres naturais com uma freqüência maior que outros países e por este motivo, antes de 1900, a psicologia das emergências e dos desastres já atuava neste local, porém não de forma sistematizada. Com o acidente nuclear de Chernobyl, no ano de 1986, a antiga União Soviética pediu ajuda a comunidade internacional, surgindo a necessidade de desenvolver um programa médico e psicológico para atender os atingidos por desastres. Desta forma, nos últimos cem anos, psicólogos de Cuba passaram a trabalhar no Centro Latino Americano de Medicina dos Desastres, registrado no Ministério da Saúde Pública cubano, relacionado ao Centro de Referência e Informação de Desastres. Colaboram com a Federação Latino-Americana das Emergências e dos Desastres do Peru e foram solicitados e enviados em brigadas de atendimento da Cruz Vermelha por pelo menos cinco vezes. No Chile, foi criada em 2004 a Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e dos Desastres (SOCHPED), por uma 8 Manuais de classificação de desastres - Site da Secretaria Nacional <http://www.defesacivil.gov.br/publicacoes/index.asp.> Acesso em: 18/02/2009. de Defesa Civil: 12 iniciativa de quinze psicólogos que se reuniram com o corpo de bombeiros de Santiago para descrever, explicar, desenvolver e capacitar pessoas no tema 9. No Brasil é possível perceber movimentos pontuais no desenvolvimento do tema, movimentos estes que são realizados por psicólogos, Defesas Civis e Corpo de Bombeiros em nível estadual e/ou municipal. Como exemplo destes profissionais pode-se citar: Daniela Lopes, psicóloga da Defesa Civil Nacional e Conselheira na Organização dos Estados Americanos (OEA); Ângela Elizabeth Lapa Coelho, psicóloga e professora titular do Programa de Mestrado em Psicologia da Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande, MS; o psicólogo Francisco José Batista de Albuquerque, professor do Curso de Mestrado da Universidade Federal da Paraíba e doutor em Psicologia Social. Estes profissionais concentram-se nas regiões do país mais atingidas por desastres, não se mostrando historicamente diferente, já que os locais mais desenvolvidos no assunto, normalmente são também os mais atingidos. Assim, considerou-se relevante historiar o quanto a produção científica sobre o tema evoluiu nacionalmente e regionalmente, através da busca em base de dados e nas experiências dos órgãos públicos envolvidos, como é o caso da Defesa Civil do Estado de Santa Catarina e do Conselho Regional de Psicologia de Santa Catarina – 12ª Região. Como forma de elaborar o processo de historiar, a presente monografia se baseou na questão de compreender a posição na qual a profissão se encontra frente ao tema, e quais os espaços prioritários a serem pensados. Compreende-se que a estimulação de discussões sobre o tema possibilitará a construção de uma política pública eficiente frente aos fatos emergenciais apresentados. Portanto o objetivo geral da monografia consistiu em analisar a trajetória histórica e as possíveis práticas de intervenção do psicólogo frente às emergências e aos desastres. Os objetivos específicos direcionaram-se a: conceituar as emergências e os desastres explicitando seus tipos e modo de avaliação; caracterizar o pensamento teórico dos pesquisadores; apontar as possíveis relações entre a percepção social, a prevenção e a resiliência frente às emergências e aos desastres; identificar possíveis práticas de intervenções no referido campo; levantar subsídios teóricos em termos de políticas públicas que favoreçam a inserção da psicologia das emergências e dos desastres como campo de trabalho social; e identificar as 9 I Seminário Nacional de Psicologia das Emergências e dos Desastres – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p. 37, 8, 9 e 10 jun. 2006. 13 possíveis parcerias na inserção da psicologia das emergências e dos desastres nas organizações de ação pública. Finalmente, a metodologia caracterizou-se por um processo de caráter qualitativo onde a coleta de dados se deu bibliograficamente através de documentos como periódicos, publicações, impressos, relatos de experiências na área e pesquisa através da internet. 14 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA INSERÇÃO DA PSICOLOGIA NO CAMPO DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES Os primeiros estudos psicológicos sobre os desastres iniciaram no ano de 1909. Nesta época o médico psiquiatra e pesquisador Edward Stierlin desenvolveu, na costa leste dos Estados Unidos, um estudo com 21 sobreviventes de um acidente numa mina em 1906. Em 1908, estudou 135 pessoas após dois meses do acontecimento do terremoto Messina, na Itália. Estes foram os primeiros ensaios para o entendimento de questões relacionadas às emoções das pessoas envolvidas em desastres, segundo o artigo “Psicología en emergencias y desastres una nueva especialidad” publicado por Álamo (2007). Em 1917, no Canadá, ocorreu o desastre de Halifax onde a explosão causada pelo choque acidental entre um navio cargueiro Francês cheio de explosivos e um navio Belga, ocasionou um tsunami que destruiu boa parte da capital da província da Nova Escócia. Duas mil pessoas morreram e nove mil ficaram feridas. Neste evento foram estudadas as variáveis psicológicas envolvidas no evento, através de uma pesquisa científica realizada por Samuel Price10. Em 1944, Lindemann realizou o primeiro estudo sobre a intervenção psicológica no pós-desastre através da avaliação das respostas psicológicas dos sobreviventes e de seus familiares no incêndio do Clube Noturno Coconut Grove, em Boston, Estados Unidos da América. Foram registrados 400 óbitos neste evento11. Nos anos 60 e 70 a psicologia direcionou-se para análise das reações individuais no pós-desastre. Em 1970, a Associação de Psiquiatria Americana publicou um manual de “Primeiros Auxílios Psicológicos em Casos de Catástrofes”, o qual foi traduzido e adaptado pelo médico psiquiatra Baltazar Caravedo, Assessor em Saúde Mental da Direção Geral de Serviços Integrados de Saúde do Ministério da Saúde do Peru. Este manual descreve diversos tipos de reações clássicas aos desastres e os princípios básicos para identificação das pessoas 10 Texto adaptado da fala de Ângela Lapa Coelho no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p. 62, 8, 9 e 10 jun. 2006. 11 Já referendado na nota nove. 15 “perturbadas emocionalmente” 12. Somente em 1974, através do Instituto de Saúde Mental do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, surgiu a primeira lei de atuação e ajuda em desastres na qual consta uma seção sobre orientação psicológica aos atingidos13. Em 1985 após o terremoto ocorrido na Cidade do México que causou a morte de 5000 pessoas, a Faculdade de Psicologia da Universidade Autônoma do México, com o assessoramento de Israel, do Instituto Mexicano de Psicanálise e do Instituto Mexicano de Segurança Social, iniciou um programa de intervenção em crises com o propósito de oferecer apoio psicológico aos afetados pela tragédia14. Neste mesmo ano, na Colômbia, o vulcão Nevado Del Ruiz entrou em erupção e arrasou o povoado de Armero, resultando num saldo de 22.000 mortos e 5.000 feridos. Em agosto do ano seguinte, o Ministério da Saúde da Colômbia, com o assessoramento da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), contando com a ajuda do Dr. Bruno Lima e da Dra. Raquel Cohen, psiquiatras pesquisadores na área15, estabeleceu um programa de atenção primaria em saúde mental para vítimas de desastres. Em 1991, a Cruz Vermelha criou o Centro de Copenhegue de Apoio Psicológico16. Em 2001 aconteceu um incêndio no mercado popular Mesa Redonda, localizado no centro de Lima, Peru. Foram 274 mortos, 210 feridos e 15 carros destruídos. Neste episódio a Sociedade Peruana em Emergências e Desastres foi acionada e atuou no sentido de conscientizar a população das reações normais de luto. Para isto foi criada uma linha telefônica chamada de “infosaúde”, que funcionou com atendimento de psicólogos durante 72 horas após o desastre. Os psicólogos neutralizavam boatos, davam informações verídicas e atualizadas, coordenavam a atuação das diferentes religiões dentro dos necrotérios. Além disso, foram disponibilizados psicólogos para acompanhar os familiares no reconhecimento dos corpos e fornecer orientações de sensibilização. Quando estabilizados fisicamente, os familiares eram abordados por uma equipe de “contenção de crises” 17. Em 2002, ocorreu o I Congresso de Psicologia das Emergências e dos Desastres em Lima, Peru. Neste Congresso foi criada uma entidade denominada Federação Latino12 ALAMO, S. V. Psicología en emergencias y desastres una nueva especialidad. 2007. Texto adaptado da fala de Horácio Toro Ocampo no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p.17, 8, 9 e 10 jun. 2006. 14 Já referendado na nota onze. 15 Já referendado na nota onze. 16 Texto adaptado da fala de Aléxis Lorenzo Ruiz no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p.37, 8, 9 e 10 jun. 2006. 17 Texto adaptado da fala de Desirée Salazar no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p.77, 8, 9 e 10 jun. 2006. 13 16 Americana de Psicologia das Emergências e dos Desastres - FLAPED, cujo objetivo foi reunir psicólogos em sociedades nacionais no Peru e fazer com que os psicólogos que retornassem aos seus países também fossem despertados pela mesma intenção18. Em 2004 foi criada a Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e Desastres – SOCHPED, com os seguintes objetivos: descrever e explicar processos psicológicos que aparecem nas emergências; desenvolver, aplicar e ensinar técnicas psicológicas para situações de emergência; selecionar pessoas para integrar grupos de resgate e trabalhos de risco em geral; capacitar psicologicamente a comunidade para enfrentar emergências19. No Brasil o primeiro registro do processo histórico de inserção da psicologia no estudo, pesquisa e intervenção nas emergências e nos desastres é datado de 1987. Na cidade de Goiânia, estado de Goiás, aconteceu o maior acidente radioativo do país. Centenas de pessoas foram contaminadas acidentalmente através de radiações emitidas por uma cápsula que continha Césio-137. O número de óbitos é incerto em virtude de a contaminação radioativa ter um efeito longo, lento e gradativo. Segundo o Ministério Público pelo menos 600 pessoas morreram em seguida ao acidente, no entanto até hoje a população sofre as conseqüências do mesmo20. Em 1992 a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a UnB (Universidade de Brasília) e a UCG (Universidade Católica de Goiânia) em conjunto com uma equipe de psicólogos Cubana, que já havia atuado no Acidente Nuclear de Chernobyl, realizaram atendimento aos atingidos pelo Césio-137, adaptando o mesmo programa utilizado em 1986 às necessidades da comunidade afetada21. Em 1997, no artigo “A Psicologia Social dos Desastres: existe lugar para ela no Brasil?” publicado por Albuquerque, fez-se citação ao projeto de intercâmbio entre professores da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade de Manitoba, no Canadá, que teve por objetivo trocar experiências e estabelecer pesquisas em comum, como forma de ampliar os conhecimentos e preparar quadros capazes de fomentar estudos sobre o tema da psicologia nos desastres. O 1º Seminário Nacional de Psicologia das Emergências e dos Desastres – Contribuições para a Construção de Comunidades mais Seguras, que ocorreu no ano de 2006 18 Texto adaptado da fala de Rodrigo Molina no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p.55, 8, 9 e 10 jun. 2006. 19 Texto adaptado da fala de Rodrigo Molina no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p.57, 8, 9 e 10 jun. 2006. 20 <http://www.brasilescola.com/quimica/acidente-cesio137.htm> 21 Já referendado na nota quinze. 17 na cidade de Brasília/DF, foi o marco da inserção da psicologia nesta área no Brasil, colocando efetivamente este conhecimento à disposição da sociedade. Este seminário teve por objetivo criar uma rede de intercâmbio com outros países e profissionais que integram a União Latino-Americana de Psicologia-ULAPSI, buscando conhecer as experiências na contribuição da psicologia neste campo de atuação e ampliar o diálogo com a categoria, a sociedade e o governo. Buscou levantar referências nacionais para efetivação de políticas públicas, considerando este campo de atuação profissional como emergente. Neste mesmo momento aconteceu a 1ª Reunião Internacional por uma Formação Especializada em Psicologia das Emergências e dos Desastres, a qual procurou sintetizar elementos curriculares que devem compor a formação dos futuros profissionais que colaborariam com a Defesa Civil22. Em Santa Catarina o processo de inserção da psicologia no estudo e intervenção em emergências e desastres se deu oficialmente no ano de 2008. No dia 06 de fevereiro 2008, foi assinado o Acordo de Cooperação entre o Conselho Regional de Psicologia da 12ª Região, a Defesa Civil do Estado de Santa Catarina e sua Secretaria Executiva da Justiça e Cidadania. Depois de firmado este acordo, através do Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas – CREPOP, que funciona no CRP-12, foi desenvolvido um projeto regional em conjunto com a Defesa Civil Estadual que teve por objetivo construir referências para prática da psicologia catarinense na área das emergências e dos desastres, conforme diretrizes do PAC23. A partir disto foram realizados oito eventos regionais em diferentes localidades do estado de Santa Catarina, onde houve a elaboração de um texto base e oficinas temáticas sobre o assunto, contando com a presença de uma equipe de especialistas na área. Foi também produzida e distribuída por todo estado de Santa Catarina uma cartilha com a finalidade de promover a cultura de percepção de risco em comunidades. Em agosto do mesmo ano, a acadêmica Aline Cristina de Carvalho, autora da presente monografia, que na época se encontrava no quinto período do curso de psicologia da Universidade do Vale do Itajaí em Biguaçu - SC, por interesse no estudo do tema procurou a Defesa Civil do Estado de Santa Catarina solicitando ao Major Márcio Luiz Alves - Diretor 22 I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, 8, 9 e 10 jun. 2006. Comissão organizadora: BOCK, A. M. B; OLIVEIRA, M. V. de; DUARTE, Y. M.; ZAMBERLAM, T.; LOPES, D. da C. 23 O PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, segundo material divulgado no site: www.fazenda.gov.br; foi criado pelo Governo Federal em 22 de Janeiro de 2007 buscando a aceleração do crescimento econômico, o aumento do emprego e a melhoria das condições de vida da população brasileira no período de 2007 a 2010. 18 do Departamento Estadual de Defesa Civil, que fosse aberto um campo de estágio na área das emergências e dos desastres. A proposta foi aceita e através da parceria com o CRP-12 e com a supervisão da professora Ilma Borges, deu-se início o primeiro estágio de psicologia das emergências e dos desastres, na Defesa Civil no Brasil. Juntamente com a abertura do estágio em psicologia das emergências e dos desastres, foi aberto também um campo de estágio em psicologia organizacional, no qual a acadêmica Joice Nascimento da Silva, que se encontrava no oitavo período do curso de psicologia da Universidade do Vale do Itajaí em Biguaçu - SC ingressou na equipe, fazendo com que as estagiárias tivessem uma atuação conjunta. O planejamento inicial foi unificar a atuação das duas estagiárias, pois era um campo de estágio novo e mostrava-se necessário que este processo de inserção acontecesse de forma organizada e processual. Dessa maneira foi entregue um folder explicativo a todos os membros da Defesa Civil onde continha informações sobre a psicologia organizacional e do trabalho, a psicologia das emergências e dos desastres, a finalidade e os objetivos dos estágios nestas áreas e a importância da produção de um Trabalho de Conclusão de Curso - TCC, na área da psicologia das emergências e dos desastres. Neste folder continha também um planejamento das atividades que seriam desenvolvidas. Porém quando as atividades propostas estavam planejadas e prontas para serem iniciadas, Santa Catarina sofreu a maior inundação de sua história, fato iniciado dia 21 de novembro de 2008. Em virtude das proporções tomadas pelo evento, foi necessário postergar a realização das atividades propostas anteriormente e iniciar um novo plano de enfrentamento das circunstâncias frente ao desastre. As estagiárias de psicologia da Defesa Civil Estadual, inicialmente realizaram a mediação entre este e outros órgãos ligados a categoria dos psicólogos e assistentes sociais, os quais se colocavam a disposição para ajudar os afetados. À medida que a situação se agravava, as estagiárias passaram também a realizar um levantamento e atualização diária sobre a situação dos abrigos que estavam sendo montados nos municípios catarinenses. Ao final do dia, distribuíam todas estas informações atualizadas (o número de idosos, de crianças, de adultos, de deficientes, de psicólogos, de assistentes sociais, etc.) aos diversos setores da instituição, bem como aos conselhos estaduais representantes dos psicólogos e dos assistentes sociais. Desta forma cada setor selecionava as informações que lhes eram mais relevantes. 19 Porém, com a situação climática ainda muito instável, e com o aumento acelerado do número de abrigos no estado, no dia 30 de novembro de 2008, as estagiárias organizaram uma reunião onde estiveram presentes: dois representantes da Aliança Internacional Save the Children24; cinco representantes do Conselho Regional de Psicologia da 12ª Região – Santa Catarina; a Senhora Selma Terezinha Adão - Diretora de Assistência Social da Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Habitação do Estado de Santa Catarina; o Major Emerson Neri Emerim - Secretário-Executivo do Departamento Estadual de Defesa Civil de Santa Catarina; as Psicólogas Ana Lopes - Conselheira do Conselho Federal de Psicologia; e Daniela Lopes Psicóloga da Defesa Civil Nacional e Conselheira na Organização dos Estados Americanos (OEA). Nesta reunião foi organizado um grupo de ajuda humanitária entre as instituições presentes para atender aos atingidos pelo desastre. Após esta iniciativa, a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP juntamente com a Secretaria Estadual da Saúde e as Secretarias Municipais de Santa Catarina, definiu um plano de ação emergencial no mês de dezembro. A partir de janeiro de 2009, os profissionais da ABP realizaram capacitações para os indivíduos envolvidos no atendimento aos afetados pelas inundações, baseados em um protocolo de atuação referenciado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Estas capacitações foram norteadas por um cronograma e buscaram atingir as populações que lidam diretamente com aqueles que permanecem sofrendo as conseqüências do desastre de novembro de 2008 25. 2.2 CONCEITUAÇÕES DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES, SEUS TIPOS E MODO DE AVALIAÇÃO Podemos citar diversificados conceitos sobre desastre, dentre eles o “Guia Metodologica Para La Gestion Local de La Mitigacion y Manejo de Desastres en America 24 Organização sem fins lucrativos, nem filiação religiosa ou política, constituída por aproximadamente 90.000 membros em todo mundo. Foi fundada em novembro de 1919 e busca a proteção infantil e juvenil. <http://www.savethechildren.org/> 25 Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP / Estado de Santa Catarina / Secretaria de Estado da Saúde / Superintendência de Planejamento e Gestão / Diretoria de Planejamento, Controle e Avaliação / Gerência de Coordenação da Atenção Básica. Ofício circular nº 0519. Plano de ação emergencial de enfrentamento das enchentes no Estado de Santa Catarina. Florianópolis, 23 dez. 2008. 20 Latina”, publicado por Mansilla, em 1998, na Coperation Italiana do México, define desastres como a alteração ou interrupção da vida cotidiana de uma comunidade devido a um evento de ordem natural, tecnológica ou provocada pelo homem, que produz efeito adverso sobre as pessoas, suas atividades, seus bens e serviços do meio ambiente. É possível perceber uma visão comunitária, bem como dos aspectos subjetivos do conceito de desastre apresentado nesta definição. Nacionalmente a Política Nacional de Defesa Civil 26 (2007) conceitua os desastres como o resultado de eventos adversos, naturais ou provocado pelo homem, sobre um ecossistema vulnerável, causando danos humanos, materiais e ambientais e conseqüentes prejuízos econômicos e sociais. Nesta definição percebemos uma visão mais ampla em relação aos desastres, sem ênfase em aspectos específicos como a anterior. Para o desenvolvimento do presente tópico, utilizamos como base de dados a Política Nacional de Defesa Civil, citada acima, por ser a publicação de referência nacional que trata do tema dos desastres. Variações desta classificação podem ser verificadas regional ou municipalmente, pois estas possuem autonomia para adequar a Política Nacional de acordo com as necessidades locais desde que acompanhadas pelas respectivas regionais e a Secretaria Nacional de Defesa Civil. O termo emergência, que acompanha a denominação psicologia das emergências e dos desastres, remete-se a situação crítica, acontecimento perigoso ou fortuito, incidente e/ou caso de urgência. Já o termo situação de emergência se refere ao reconhecimento legal pelo poder público de situação anormal, provocada por desastre, causando danos (superáveis) à comunidade afetada27. Segundo a Política Nacional de Defesa Civil, os desastres, ameaças e riscos são classificados de acordo com os seguintes critérios: quanto à evolução, quanto à intensidade e quanto à origem. Quanto à evolução, os desastres são classificados em: - desastres súbitos ou de evolução aguda, que se caracterizam pela violência dos eventos adversos causadores dos mesmos (deslizamentos, enxurradas, vendavais, terremotos, erupções vulcânicas, chuvas de granizo e outros); 26 Ministério de Integração Nacional e a Secretaria Nacional de Defesa Civil. Política Nacional de Defesa Civil, 2007. 27 CASTRO A. L. C. de. Glossário de Defesa Civil: estudos de riscos e medicina de desastres. Ed. 2 Brasília: MPO, Departamento de Defesa Civil, 1998. 21 - desastres de evolução crônica ou gradual, que se mostram insidiosos e evoluem através de etapas de agravamento progressivo (seca, erosão ou perda de solo, poluição ambiental e outros); - desastres por somação de efeitos parciais, caracterizados pela somação de numerosos acidentes ou ocorrências, com características semelhantes, os quais, quando somados, ao término de um período definem um grande desastre (cólera, malária, acidentes de trânsito, acidentes de trabalho e outros). Quanto à intensidade, os desastres são classificados em: - acidentes, aqueles em que os danos e prejuízos conseqüentes são de pouca importância para a coletividade; - desastres de médio porte, aqueles em que os danos e prejuízos, embora importantes, podem ser recuperados com os recursos disponíveis na própria área sinistrada; - desastres de grande porte, aqueles que exigem reforço para os recursos locais através do aporte regional, estadual, e/ou federal; - desastres de muito grande porte, aqueles que para garantir uma resposta eficiente de recuperação, exigem a intervenção coordenada dos três níveis do Sistema Nacional de Defesa Civil – SINDEC (sistema que atua na redução de desastres em todo o território nacional) - e, inclusive, de ajuda externa. Quanto à origem, os desastres são classificados em: - naturais, são causados por fenômenos e desequilíbrios da natureza, independentes da ação humana; - humanos ou antropogênicos, são provocados pelas ações ou omissões humanas; - mistos, ocorrem quando as ações e/ou omissões humanas contribuem para intensificar, complicar ou agravar os desastres naturais. Dentro desta classificação referente à origem dos desastres, existem subclassificações como: desastres naturais relacionados com a geodinâmica terrestre externa; desastres naturais relacionados com o incremento das precipitações hídricas e com as inundações; desastres relacionados com meios de transporte sem menção de risco químico ou radioativo; desastres relacionados com a construção civil; desastres humanos relacionados com conflitos bélicos; desastres humanos relacionados com doenças transmitidas por vetores biológicos; desastres mistos relacionados com a geomorfologia, o intemperismo e a erosão; 22 dentre outras subclassificações que podem ser encontradas na Política Nacional de Defesa Civil. Para ilustrar a importância desta classificação podemos citar as secas no semi-árido nordestino brasileiro, que se mensuradas em função da intensidade dos danos e dos prejuízos econômicos e sociais em longo prazo, podem se caracterizar como um desastre muito mais importante que terremotos, erupções vulcânicas e ciclones, freqüentes em outros países. Assim, o estudo da intensidade dos desastres se revela de extrema importância, já que a dosagem dos meios a serem utilizados é diretamente proporcional à intensidade dos danos e prejuízos provocados pelos mesmos. Além das classificações apresentadas, os desastres podem ser divididos em diferentes fases considerando os seguintes aspectos globais: - prevenção: avaliação (áreas de risco) e redução (implantação de medidas estruturais e não-estruturais) de riscos de desastres; - preparação: desenvolvimento institucional; desenvolvimento de recursos humanos; desenvolvimento científico e tecnológico; mudança cultural; motivação e articulação empresarial; informações e estudos epidemiológicos sobre desastres; monitorização, alerta e alarme; planejamento operacional e de contingência; planejamento de proteção de populações contra riscos de desastres focais; mobilização; aparelhamento e apoio logístico; -resposta: socorro (pré – impacto; impacto e limitação dos danos), assistência às populações vitimadas (atividades de logística, assistenciais e de promoção da saúde) e reabilitação do cenário do desastre (avaliação de danos; vistoria e elaboração de laudos técnicos; desmontagem de estruturas danificadas, desobstrução e remoção de escombros; sepultamento, limpeza, descontaminação, desinfecção e desinfestação do ambiente; reabilitação dos serviços essenciais; recuperação de unidades habitacionais de baixa renda). -reconstrução: restabelecer os serviços públicos, a economia da área, o moral social e o bem-estar da população. Procura recuperar os ecossistemas, reduzir as vulnerabilidades, racionalizar o uso do solo e do espaço geográfico, realocar populações em áreas de menor risco, modernizar as instalações e reforçar as estruturas. 2.3 PRINCIPAIS PESQUISADORES E SEUS PENSAMENTOS TEÓRICOS SOBRE A PSICOLOGIA DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES 23 No Brasil, as emergências e os desastres são ainda um tema pouco discutido pelos psicólogos quando comparado a outros assuntos da psicologia. Em outros países já existe uma mobilização da classe dos psicólogos frente ao tema, dentre eles o Chile, com a Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e dos Desastres; e a Argentina, com a Sociedade Argentina de Psicologia das Emergências e dos Desastres. No dia 11 de setembro de 2007, no Hotel NH Parque Central na cidade de Havana, Cuba, por uma iniciativa do Conselho Federal de Psicologia do Brasil - CFP e das autoridades da ULAPSI (União Latino Americana de Entidades de Psicologia) foi criada a Rede Latino Americana em Psicologia das Emergências e dos Desastres. Estiveram presentes as seguintes entidades: Centro Latino Americano de Medicina de Desastres, Cuba- CLAMED; CFP, Brasil; Associação Brasileira de Ensino de Psicologia, Brasil - ABEP; Sociedade Argentina de Psicologia das Emergências e dos Desastres, Argentina – SAPSED; Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e dos Desastres, Chile - SOCHPED; e Sociedade Peruana de Psicologia das Emergências e dos Desastres, Peru - SPPED. Segundo as entidades presentes, esta rede surgiu com o objetivo de cooperar com o intercâmbio e a investigação no campo da psicologia das emergências e dos desastres, contribuindo com o desenvolvimento do tema no continente sul–americano28. Entre os representantes brasileiros interessados em fazer parte desta rede destacaram-se Daniela da Cunha Lopes e Marcos Ribeiro Ferreira, representando a ABEP; Marcus Vinicius de Oliveira Silva e Ângela Elizabeth Lapa Coelho, representando o CFP29. Esses psicólogos destacam-se nacionalmente como precursores do estudo do tema no país. Ângela Coelho e Daniela Lopes, em particular, possuem material científico produzido a partir de seus estudos e experiências pessoais na área. No artigo “Percepção de Risco no Contexto da Seca: Um Estudo Exploratório” (2007), Ângela Coelho apresenta uma visão teórica da importância do desenvolvimento de um pensamento da percepção de risco como um fator determinante para significação de 28 Maiores informações ver site: <http://www.sld.cu/galerias/pdf/sitios/desastres/comunicado_de_la_red_latinoamericana_de_psicologia_en_eme rgencias_y_desastres.pdf> 29 Maiores informações ver site: <http://www.sld.cu/galerias/pdf/sitios/desastres/definicion_de_principios_de_la_red.pdf> 24 eventos adversos, já que as possíveis conseqüências destes eventos são interações dos contextos sociais e ambientais, bem como da historia passada e presente de cada indivíduo. Daniela Lopes, no texto “Psicologia das Emergências e dos Desastres no Brasil”, disponibilizado no material entregue no 4º Fórum Nacional de Defesa Civil, ocorrido em outubro de 2007, no município de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, concorda com as colocações da autora citada anteriormente. Daniela Lopes acrescenta que apesar do imaginário edênico da população brasileira acreditar que mora em um país imune a desastres, o Brasil é um país muito vulnerável a eventos adversos. Isto ocorre em virtude do alto grau de vulnerabilidade decorrente das condições sociais precárias de grande parcela da população. Por este motivo a autora defende que a construção de referências para o campo da psicologia das emergências e dos desastres deve se dedicar principalmente à prevenção, enfatizando o desenvolvimento de uma cultura de percepção de riscos por parte da população. Além destas autoras, outros pesquisadores brasileiros vêm discutindo o tema, como é o caso do psicólogo Francisco José Batista de Albuquerque (Doutor em Psicologia Social e Professor do Curso de Mestrado da Universidade Federal da Paraíba), que em conjunto com o psicólogo Carlos da Silva Cirino, em janeiro de 2000, escreveu o artigo “Percepção de Risco e Vulnerabilidade Social”, no qual defendeu que populações bem preparadas para ocorrência de desastres podem sofrer efeitos mínimos ou moderados dos mesmos. No artigo, os autores esclarecem que as pessoas são afetadas pelos desastres em diferentes intensidades em virtude do nível de vulnerabilidade no qual se encontram. A intensidade com que os indivíduos são afetados pelos eventos adversos, segundo Daniela Lopes (2007), também permite uma classificação quanto aos níveis de vitimados. Esta se refere à forma como o indivíduo está inserido em um evento, pois existem pessoas que são diretamente afetadas (expostas ao evento) e indiretamente afetadas (aquelas que integram o cenário do evento, ou ficam sabendo dele e sentem-se mobilizadas de alguma forma pelo mesmo). No decorrer do desenvolvimento da monografia, foi analisado o pensamento destes e outros autores a serem pesquisados. 2.4 POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE A PERCEPÇÃO SOCIAL, A PREVENÇÃO E A RESILIÊNCIA FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS E AOS DESASTRES 25 Para relacionarmos percepção social, prevenção e resiliência é necessário primeiramente elucidar conceitos intrínsecos a estes temas, como os termos risco e vulnerabilidade. Segundo a Política Nacional de Defesa Civil (2007) risco é a relação existente entre a probabilidade de uma ameaça de evento adverso/acidente se concretizar, em relação ao grau de vulnerabilidade do sistema receptor (ambiente/local em questão) e seus efeitos. Logo este grau de vulnerabilidade é a relação entre a condição intrínseca ao corpo ou sistema receptor, em intercâmbio com a magnitude do evento/acidente, sendo medida em termos de intensidade dos danos prováveis. Portanto o risco é determinado pela probabilidade de uma ameaça se tornar um desastre, que está diretamente ligado ao grau de vulnerabilidade do local que será afetado, já que dependendo do grau de vulnerabilidade os riscos de danos físicos, materiais e psíquicos podem ser potencializados ou minimizados. Segundo Coelho (2007) apud Smith (1992, p. 6) o termo risco é usualmente interpretado como um sinônimo para perigo. Porém, a autora acrescenta que risco, definido tecnicamente, inclui a possibilidade de que um perigo real pode acontecer. O perigo é definido como "... uma ameaça potencial para seres humanos e seu bem estar..." e risco como "... a probabilidade da ocorrência do perigo" (Idem, p. 6). Desta maneira, para a autora, os desastres podem ser vistos como "a ocorrência de um perigo." Por sua vez, percepção social nos desastres é identificar as vulnerabilidades e tentar minimizar as ameaças que colocam em risco a vida das pessoas, suas propriedades e o ambiente. Segundo Albuquerque (1997, p. 240), "o trabalho a ser desenvolvido pelos agentes sociais com relação às situações de desastres ou de vulnerabilidade se encontra na preparação da comunidade para o enfrentamento da possibilidade de ocorrência dos fenômenos”. Albuquerque traz em seu texto “A Psicologia Social dos Desastres: existe lugar para ela no Brasil?” uma visão da percepção social da comunidade como um todo e não somente dos indivíduos. Coloca que populações bem preparadas podem desenvolver atitudes mais proativas de enfrentamento aos desastres. Esta percepção social do perigo e dos riscos está ligada também a crenças, valores e experiências individuais, que podem ao mesmo tempo ser comunitárias. Por exemplo, uma comunidade que já foi afetada por uma enchente pode ter uma percepção diferente do evento em relação a outra comunidade que é afetada pela primeira vez. Da mesma forma um 26 indivíduo desta comunidade já afetada anteriormente pode ter uma visão diferente de outro de sua mesma comunidade, pois as vivências, as perdas (materiais, humanas) podem ter ocorrido de maneira diferenciada para os dois. Daí vem a importância de se trabalhar a percepção social das comunidades em relação aos desastres. Este trabalho permite que a comunidade passe a se prevenir de eventos adversos. Muitas vezes não é possível deslocar esta população para outro local mais seguro, porém através de ações sócio-educativas que podem ser implantadas pelos níveis governamentais e comunitários, é possível trabalhar com esta comunidade para que ela aja de forma a se prevenir dos efeitos de um desastre. Isto implica nos conceitos de prevenção de desastres e prevenção de riscos. O primeiro se trata de um conjunto de ações destinadas a reduzir a ocorrência e a intensidade de desastres naturais ou humanos, através da avaliação e redução de ameaças e/ou vulnerabilidades, minimizando os prejuízos sócio-econômicos e danos humanos, materiais e ambientais. O segundo, por sua vez, se trata de estudos que visam minimizar riscos de desastres, buscando aumentar margens de segurança e reduzir as possibilidades de ocorrência de acidentes ou minimizar os danos causados pelos mesmos30. A Política Nacional de Defesa Civil (2007) traz como objetivo geral de seu trabalho reduzir desastres, e como uma de suas diretrizes a priorização de ações relacionadas com a prevenção de desastres, através de atividades de avaliação e de redução de riscos. Para isto a percepção social aliada à prevenção são ferramentas importantes de trabalho. O desenvolvimento de uma atitude preventiva frente aos desastres favorece também a resiliência dos indivíduos após a ocorrência de um evento adverso. Resiliência segundo Grotberg (2001) é a capacidade humana de enfrentar, superar, ser fortalecido e transformado por experiências de adversidade. O Major Márcio Luiz Alves, Diretor do Departamento Estadual de Defesa Civil do Estado de Santa Catarina, afirma que segundo a ONU a resiliência é como uma teia de aranha que recebe um impacto, desce, porque pesa com violência, e vai voltando a uma situação de normalidade. Para o Major a resiliência é o desenvolvimento da capacidade no ser humano de absorver esse impacto e voltar a uma situação de normalidade, com menor efeito e dano possível. 30 CASTRO, A. L. C. de. Glossário de Defesa Civil: estudos de riscos e medicina de desastres. Brasília: MPO, Departamento de Defesa Civil, ed. 2, 1998. 27 A palavra dano, mencionada pelo Major, é conceituado pela Política Nacional de Defesa Civil (2007) como a medida que define a intensidade ou severidade da perda humana, material ou ambiental (física ou funcional) resultante de um evento adverso/acidente. Desta maneira os conseqüentes danos de um desastre, influenciam na capacidade de enfrentamento/superação das comunidades frente aos eventos. Assim, a resiliência dos afetados por desastres se encontra diretamente relacionada aos danos (humanos, materiais e ambientais) que estes sofreram, bem como ao modo como o grupo em questão desenvolveu sua capacidade de percepção social dos desastres, e como se planejou para prevenção dos mesmos. 2.5 PRÁTICAS DE INTERVENÇÕES DA PSICOLOGIA NO CAMPO DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES Segundo Alamo (2007) 31, a psicologia das emergências e dos desastres relaciona-se com a psicologia clínica, social, organizacional, educacional, da saúde, do desenvolvimento, dentre outras. Isto faz com que o profissional psicólogo que deseja atuar no campo das emergências e dos desastres necessite se desenvolver de forma multidisciplinar e interdisciplinar, já que este campo requer conhecimentos em diversas áreas de seu estudo e formação, além de informações complementares de outros profissionais. Como foi apresentado no item que tratou dos Aspectos Históricos da Inserção da Psicologia no tema das Emergências e dos Desastres, a mesma se deu pelo estudo das reações psíquicas geradas no pós-desastre. Esta vertente de estudo influenciou a classificação das práticas de intervenção do psicólogo que inicialmente apresentaram-se com base nas reações psíquicas dos indivíduos afetados por desastres. O artigo “O Impacto provocado por Traumas Psicológicos em Emergências e Desastres”, de Eliana Torga (2007) 32 , é um exemplo deste tipo de classificação, pois são estabelecidas três fases para descrição do comportamento dos indivíduos: pré-impacto, impacto e pós-impacto. 31 32 Já referenciado na nota onze. TORGA, E. O Impacto provocado por Traumas Psicológicos em Emergências e Desastres. 2007. 28 No pré-impacto é anunciada a ocorrência de um fenômeno ou evento adverso que desencadeará um desastre. Nesta fase o indivíduo apresenta medo, confusão mental, passividade, negação do risco, resistência à mudança e invulnerabilidade. No impacto, o evento adverso manifesta-se, e o indivíduo apresenta reações que podem durar dias ou horas como: ansiedade; medo; preocupação; vergonha; culpa; desorientação; lentidão de raciocínio; dificuldade de compreensão; indecisão; confusão com relação ao tempo; dependência, gratidão, docilidade com relação aos socorristas e autoridades; rebeldia, culpando autoridades e exigindo atenção prioritária para suas necessidades; e pode sofrer a influência do “boato”. Já no pós-impacto, fase imediatamente posterior ao fim da manifestação do evento adverso, o indivíduo se encontra com reações psíquicas de desespero, luto, aflição, vulnerabilidade, vitimização, menos valia e isolamento. Em contrapartida a esta classificação, no livro “Administração para Abrigos Temporários” (2006) 33 , são apresentadas três fases de resposta ao desastre com base em informações do National Center for Post-Traumatic Stress Disorder (Centro Nacional para Transtorno do Estresse Pós-Traumático) 34, apresentadas como fase: de impacto, imediata do pós-desastre e de recuperação. A fase do impacto, diferentemente da compreensão do autor anterior, ocorre imediatamente após o desastre. Neste momento o individuo demonstra atitude heróica e de proteção a vida, com distorções cognitivas e dissociação. A fase imediata do pós-desastre é a de recuo do impacto e início do resgate das atividades habituais. O indivíduo apresenta negação, apatia, desorientação, ansiedade, medo, desespero e tristeza. Já a fase de recuperação é compreendida como um período prolongado de ajustamento e retorno ao equilíbrio anterior, com a presença das seguintes características psíquicas: desilusão, raiva, solidão, frustração, aceitação das perdas e avaliação da situação. Além das classificações já apresentadas, que são definidas pelas reações psíquicas dos indivíduos afetados por desastres enquadradas nos diferentes momentos do mesmo, 33 GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO / SECRETARIA DE ESTADO DA DEFESA CIVIL / SUBSECRETARIA ADJUNTA DE OPERAÇÕES / INSTITUTO TECNOLÓGICO DE DEFESA CIVIL / ESCOLA DE DEFESA CIVIL. Administração para Abrigos Temporários. Secretaria de Estado da Defesa Civil do Rio de Janeiro – SEDEC. Rio de Janeiro, 2006. A organização do presente trabalho foi de Sérgio Simões – Coronel Bombeiro Militar do Rio de Janeiro, Brasil. 34 Maiores informações no site: <http://www.ncptsd.va.gov/ncmain/index.jsp.> Acesso em: 17 mai. 2009. 29 existem as delimitadas pelas reações psíquicas de estresse esperadas pelos indivíduos no decorrer do processo inteiro de um desastre. Alguns sintomas mais freqüentemente identificados estabelecem um panorama que facilita a tomada de medidas que amenizem o sofrimento e diminuam as chances do desenvolvimento de patologias. Segundo o mesmo autor, estes estágios de estresse se dividem em fase de: alerta, resistência, quase-exaustão e exaustão. Na fase de alerta o indivíduo apresenta grande produtividade por conta da adrenalina produzida, causando aumento da energia e do vigor. Euforia, dificuldade de dormir, tensão, dor muscular, azia, irritabilidade, sensibilidade excessiva, ansiedade e inquietação, são sintomas que identificam esta fase. Na fase de resistência o individuo tenta resistir ao estresse, apresentando problemas de memória e muito cansaço. Na fase de quase-exaustão o organismo não consegue mais resistir ou adaptar-se a situação e sofre um colapso gradual. Os sintomas são: insônia; cansaço mental; dificuldade de concentração; perda de memória imediata; embotamento emocional; falta de criatividade; diminuição da produtividade; impotência ou perda do desejo sexual; infecções ginecológicas; doenças de pele; queda de cabelo; gastrite ou úlcera; alterações de peso; apatia; ansiedade; crises de pânico; alterações dos níveis de pressão arterial, colesterol e/ou triglicerídeos e distúrbios de menstruação. Por fim, na fase de exaustão, para se recuperar o sujeito necessita de ajuda médica além da psicológica, pois perde o sono; o desejo sexual; não produz por não ter interesse nem concentração para tal; fica desgastado e com seu sistema imunológico gravemente afetado; não se socializa e perde o senso de humor. Além destas classificações de reação de uma população genericamente atingida por desastres, existem ainda aquelas referentes aos grupos específicos, como a dos grupos considerados de risco (crianças, mulheres e idosos) e a dos membros das equipes de resposta, que serão tratadas no corpo deste trabalho. Com a Política Nacional de Defesa Civil, deliberada pelo Ministério da Integração Nacional e pela Secretaria Nacional de Defesa Civil, em Brasília – Distrito Federal, no ano de 2007, estabeleceram-se quatro fases para planos diretores de enfrentamento dos eventos adversos. A psicologia começou a adequar suas diretrizes de classificação das respostas e das reações anteriormente apresentadas, bem como suas possíveis intervenções nas quatro fases estabelecidas por esta Política Nacional. As fases dividem-se em: prevenção de desastres, preparação para emergências e desastres, resposta aos desastres e reconstrução. 30 Durante o processo que envolve todas as fases estabelecidas pela Política Nacional de Defesa Civil, a psicologia dedica-se a informar, capacitar, mobilizar socialmente, diagnosticar e intervir, de acordo com a demanda apresentada pelo evento adverso (tipo, intensidade, amplitude, etc.). A partir disto, diversos planos de atuação da psicologia podem ser elencados e subdivididos em cada uma destas fases. Este conteúdo foi trabalhado no corpo do presente projeto de conclusão de curso. Vale salientar que o psicólogo atuante em emergências e desastres, enquanto profissional comprometido e ético, deve trabalhar em qualquer fase de um evento adverso buscando ações que visem construir políticas públicas de longo prazo, minimizando os efeitos do evento e promovendo a saúde e bem-estar dos grupos sociais. 2.6 PSICOLOGIA DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES COMO CAMPO DE TRABALHO SOCIAL As emergências e os desastres, que por variados motivos se apresentam com uma freqüência crescente ao redor do mundo, mostram-se como campo relevante para ampliação da atuação da psicologia na esfera dos grupos sociais. Esta conjuntura faz com que o debate do tema seja importante para o desenvolvimento de políticas públicas que contemplem questões relacionadas à saúde psíquica e física dos cidadãos, e, para o desenvolvimento de um posicionamento do poder público condizente com a realidade vivida em cada região, de forma que alcance todas as classes sociais. Em 31 de maio de 2004, através da carta interministerial n°- 00012/MI/MDS/MDA assinada por Patrus Ananias, Ministro de Estado do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ciro Ferreira Gomes, Ministro de Estado da Integração Nacional; Miguel Rossetto, Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário; foi encaminhada ao Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva uma solicitação para aprovação da Medida Provisória nº 190, de 31 de maio 2004 - dou de 01/06/2004 – convertida na Lei nº 10.954, de 29/09/2004. Nesta carta constam as seguintes colocações ministeriais: (...) 3. Os estratos populacionais menos favorecidos e os países menos desenvolvidos, por apresentarem maiores vulnerabilidades culturais, econômicas e sociais, sofrem com mais intensidade os efeitos dos desastres. Os estudos epidemiológicos demonstram, e a própria Organização das Nações Unidas 31 reconhece que, nos últimos anos, os desastres naturais produziram danos muito superiores aos provocados pelas guerras. Por outro lado, os desastres provocados pelo homem são cada vez mais intensos, em função de um desenvolvimento econômico e tecnológico pouco preocupado com os padrões de segurança da sociedade. 4. Num exame retrospectivo, constata-se que, após muitas décadas de esforço, foram poucos os avanços alcançados na redução das vulnerabilidades da sociedade brasileira aos desastres, mesmo àqueles de natureza cíclica como a seca, os incêndios florestais, os deslizamentos e as inundações. Não há implementação de política pública de defesa civil que alcance todos cidadãos brasileiros e quem mais sofre com os desastres são os mais pobres. Para a gestão de riscos, com intervenção preventiva, poupando milhares de vidas e economizando escassos recursos, é imperioso reverter a lógica perversa de atuações espasmódicas administrando desastres. (...) 6. A implementação de política específica para atendimento de populações, no âmbito do programa Resposta aos Desastres, não implica a exclusão das populações atendidas, de outras ações e políticas que se destinam ao apoio a populações vulneráveis e em condição de risco social (...). Apesar da finalidade da lei apresentada ser a aprovação do Auxílio Emergencial Financeiro para atendimento das populações atingidas por desastres, é possível perceber na fala dos ministros uma preocupação com ações que objetivam o bem-estar da população não apenas nos momentos de resposta aos desastres, mas também através de políticas que promovam uma redução da vulnerabilidade e dos riscos sociais. As medidas históricas de atuação reativa a desastres, e não preventiva aos mesmos, tornam a perda econômica e de vidas muito maior do que poderia ser, caso fossem considerados aspectos integrais nas ações preventivas e de reabilitação, segundo a fala dos Ministros. Fica clara também nas falas ministeriais a necessidade de uma Política Pública de Defesa Civil, com intervenção preventiva, que abarque a segurança da sociedade. Desta forma a psicologia frente à construção de políticas públicas de enfrentamento às emergências e aos desastres, e enquanto ciência dedicada ao estudo da subjetividade humana e à promoção da saúde dos indivíduos, pode explanar seus pensamentos e buscar firmar a importância de seus serviços em todas as fases de um desastre. O posicionamento na busca de consolidar políticas públicas que garantam os direitos humanos dos indivíduos frente às emergências e aos desastres, bem como de produzir referências para prática do psicólogo que apontem este campo como área de atuação profissional, encontra respaldo na fala dos ministros anteriormente citada, quando trata do sofrimento dos cidadãos afetados por todas as fases de um desastre. Na presente monografia, a principal análise consiste em rever historicamente a psicologia e sua interface com o campo da psicologia das emergências e dos desastres, buscando refletir sobre as práticas de intervenção que tratam deste, como mais um potencial 32 campo de estudo e trabalho do psicólogo. A estruturação desta análise foi delimitada e detalhada no decorrer da monografia, pois se trata de um trabalho bibliográfico. 2.7 PARCERIAS NA INSERÇÃO DA PSICOLOGIA DAS EMERGÊNCIAS E DOS DESASTRES NAS ORGANIZAÇÕES DE AÇÃO PÚBLICA À medida que a densidade populacional aumentou de forma desordenada, a população de baixo poder aquisitivo passou a ocupar áreas de risco social nos grandes centros urbanos. A ocupação destas áreas se deu pelo aumento do custo de vida em locais centrais, considerados seguros, restando as regiões periféricas das cidades como alternativa para construção das moradias destas populações. Considerando que estas regiões normalmente se encontram nos altos dos morros, beira de rios e beiradas de rodovias, por exemplo, o acesso e a permanência nestas localidades são difíceis e inseguros, principalmente quando consideramos populações de idosos, crianças e deficientes. Em virtude do conjunto de fatores que fazem dessas regiões áreas de elevada vulnerabilidade social, estas populações em situação de risco passaram a ser atingidas com maior intensidade pelos desastres. Diante deste quadro social, o poder público, através da Constituição da República Federativa do Brasil (1988), comprometeu-se com a segurança pública quando diz que: “A segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.” Para cumprir com o dever de zelar pela integridade física, mental e social de todos os indivíduos, foram criados os seguintes órgãos: polícia federal; polícia rodoviária federal; polícia ferroviária federal; polícias civis; polícia militar e corpos de bombeiros militares35. Com a criação destes órgãos, podemos citar instituições que atuam em parceria durante episódios emergenciais e são historicamente reconhecidas pelo trabalho realizado, como é o caso do Exército, Corpo de Bombeiros, Marinha, Aeronáutica, Socorristas e Defesas Civis. Estas parcerias entre instituições se fazem necessárias, pois as proporções que um desastre pode tomar não permitem que a atuação profissional se realize de forma 35 Título V – Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, Cap. III – Segurança Pública, art. 144 33 individualizada. Neste contexto institucional e político é possível analisar a inserção da psicologia enquanto ciência e profissão no âmbito das emergências e dos desastres. A psicologia dedica-se à compreensão da subjetividade e dos fenômenos psicológicos que constituem o desenvolvimento humano. De acordo com o seu desdobramento histórico vem buscando promover a saúde universal dos indivíduos através da compreensão de que os aspectos psíquicos, físicos e mentais funcionam diretamente interligados. Quando falamos em ações preventivas e de minimização do impacto dos desastres, estamos falando também em preservação do bem-estar dos indivíduos e conservação ou restabelecimento da normalidade no cotidiano destes. É possível observarmos que aspectos subjetivos são determinantes para que as condições de vida acima citadas sejam alcançadas. No Brasil, ainda não foram incluídos no quadro de vagas de funcionários públicos atuantes diretamente nesta área, psicólogos que venham a trabalhar nas questões dos desastres. A presente monografia tem por objetivo também levantar esta discussão, visto que é possível constatar demanda de trabalho para este profissional nos diversos espaços que envolvem o tema. A abertura de vagas para psicólogos em concursos públicos no Brasil permitiria o reconhecimento do trabalho da categoria profissional, o desenvolvimento de um projeto de atuação social nas mais diferentes fases dos desastres e por conseqüência, um atendimento populacional que viesse a abarcar as reais necessidades da população do ponto de vista subjetivo. A construção social, política e institucional da inserção dos serviços da psicologia no campo das emergências e dos desastres, em parceria principalmente com instituições como o Corpo de Bombeiros e Defesas Civis, apresenta-se evidente no trabalho e foi debatida no decorrer desta monografia. 34 3. METODOLOGIA A presente monografia consistiu em uma pesquisa de caráter qualitativo. Segundo Ozella (2003, p. 122) 36 “a abordagem qualitativa pretende conhecer, esclarecer, entender, e interpretar os processos que constituem os fenômenos, objetos de investigação.”. Gil (1996) afirma que as pesquisas qualitativas têm como objetivo principal a descoberta de intuições ou o aprimoramento de idéias. Seu planejamento é bastante flexível, de maneira que possibilitam a consideração dos mais variados aspectos relacionados ao fato estudado. Dentro de um referencial teórico com base epistemológica na psicologia históricocultural, a pesquisa qualitativa se dedica a compreender os eventos investigados, descrevendo-os e procurando as suas possíveis relações, integrando o individual com o social (AMORIM, 2002). Com base nestes conceitos e na configuração social que vivenciamos hoje, foi utilizada uma perspectiva dialética da compreensão dos aspectos culturais, educacionais e sociais. Pois conforme Ozella (2003), “Estudar alguma coisa historicamente significa estudála no processo de mudança (...)”. Tendo como premissa básica para o desenvolvimento desta pesquisa a visão filosófica acima descrita, apresentamos a seguir o recorte metodológico que serviu de fundamento para a discussão do tema. 3.1 COLETA DE DADOS Gil (2008, p. 50), ressalta que especificamente no caso da pesquisa bibliográfica, base da presente monografia, a principal vantagem reside no fato de: (...) permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito 36 OZELLA, S. Pesquisar ou construir conhecimento – O ensino da pesquisa na abordagem sócio-histórica. BOCK, A. M. B (org.). In: A perspectiva sócio-histórica na formação em psicologia. Petrópolis – RJ, ed. Vozes, 2003. Cap. 4, p. 113 - 131. 35 dispersos pelo espaço. (...) A pesquisa bibliográfica também é indispensável nos estudos históricos. Em muitas situações não há outra maneira de conhecer os fatos passados senão com base em dados secundários. Segundo Rauen (1999, p. 28), o fluxo da pesquisa bibliográfica passa pelas seguintes fases: 1. Determinação do problema e dos objetivos. Nesta fase o pesquisador está elaborando as linhas mestras gerais do trabalho. 2. Elaboração do plano de trabalho. Esta fase consiste em planejar procedimentos de levantamento bibliográfico (identificação, localização e compilação). 3. Levantamento do material bibliográfico. O pesquisador identifica, localiza, e compila os materiais que serão utilizados na pesquisa propriamente dita. 4. Leitura do material. 5. Fichamento. Fase em que o pesquisador toma os apontamentos que se farão necessários para a elaboração do relatório. 6. Redação do trabalho. A forma de coleta de dados utilizada para o desenvolvimento desta monografia foi a partir de documentos como livros de referência, periódicos, publicações, impressos, relatos de experiências na área e pesquisa através da internet. 3.2 ÉTICA A ética na pesquisa científica se mostra como tema central para discussão em quaisquer perspectivas de trabalho. No âmbito da pesquisa bibliográfica, questões éticas envolvendo o plágio são recorrentemente apontadas. Em virtude deste método de pesquisa científica se desenvolver a partir da coleta de materiais já produzidos, é necessário estarmos atentos para não cometer plágios, copiando idéias e afirmações de outros autores. Segundo Debert (2003, p. 03) “(...) nos debates sobre ética, procedimentos éticos e códigos de ética, os interesses dos grupos pesquisados devem preceder os interesses da pesquisa.”. 37 Tendo em vista que a produção científica das ciências humanas tem por objetivo ampliar conhecimentos através da pesquisa e do estudo de questões pertinentes ao desenvolvimento humano, a presente monografia foi produzida de acordo com os 37 DEBERT, G. G. Poder e Ética na Pesquisa Social. Ciência e Cultura. São Paulo, v. 55, n. 3, p. 3, jul./set. 2003. 36 procedimentos e códigos éticos cabíveis à ciência psicológica, comprometendo-se com os grupos e temas pesquisados. 37 4. ASPECTOS CONCEITUAIS IDENTIFICANDO AS POSSÍVEIS PRÁTICAS DE INTERVENÇÃO DO PSICÓLOGO FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS E AOS DESASTRES É pertinente no desenvolvimento do resgate histórico proposto como objeto de estudo para esta pesquisa, uma análise reflexiva sobre os aspectos teóricos convergentes, a partir dos autores que deram suporte à construção do referencial teórico em discussão. Serão apontados aspectos relativos ao desenvolvimento da percepção de riscos; ao processo de elaboração do luto natural (não patológico); à capacidade de resiliência apresentada frente ao desastre, que se apresenta de forma compatível com a bagagem histórica individual e comunitária; à necessidade da presença do trabalho do profissional psicólogo em todo processo que envolve as emergências e os desastres; às atribuições específicas da profissão nos contextos emergenciais; à necessidade do desenvolvimento do estudo neste campo; à importância da interdisciplinaridade do trabalho do psicólogo que deseja atuar nos eventos adversos; a importância da criação de parcerias institucionais e do desenvolvimento de políticas públicas amparadas pelos conhecimentos da psicologia e de forma eficiente. Albuquerque (1997, p.243) diz que: (...) no Brasil o grau de vulnerabilidade a que a população esta exposta é muito grande, se comparada com a vulnerabilidade em outros países onde condições sociais estão mais bem equacionadas. Isto porque neste país, a péssima distribuição da riqueza está aliada à ausência de serviços governamentais de amparo social aos mais carentes, e até mesmo às populações mais bem aquinhoadas. Os serviços públicos de saúde e educação funcionam em péssimas condições, favorecendo um ambiente de risco e vulnerabilidade permanente, impossibilitando a segurança institucional suficiente para que os indivíduos possam responder eficientemente às situações de desastres. Este ambiente de risco e vulnerabilidade permanente ao qual o autor se refere quando trata da situação de grande parcela da população brasileira, influencia diretamente no desenvolvimento dos recursos psicológicos, sociais e físicos que as populações utilizam para o enfrentamento dos eventos adversos, e, portanto para sua capacidade de resiliência. Coêlho (2007 apud Ursano, Kao & Fullerton, 1992) diz que o significado de todo evento adverso é uma interação complexa entre o evento, o passado e o presente da pessoa, bem como o seu contexto social. Para os sobreviventes de um evento, este significado determina como a situação é vivenciada inicialmente, a maneira em que a recuperação ocorre e a forma pela qual a vida será restabelecida. 38 Esta significação dos indivíduos afetados por desastres é citada por Lopes (2007, p. 1) na seguinte fala: “é necessário romper com esse modelo cultural de falta de percepção de risco, de desproteção diante dos eventos que têm produzido não só perdas materiais, mas principalmente humanas”. A percepção social de riscos mostra-se fundamental para o desenvolvimento de comportamentos pró-ativos frente aos desastres. Para Albuquerque (1997), Coelho (2007), Lopes (2007) e outros estudiosos no tema, a percepção social é a chave do processo de trabalho da psicologia das emergências e dos desastres. Segundo estes autores, o desenvolvimento da mesma, utilizado para o aprimoramento dos recursos psicológicos, sociais e físicos dos grupos sociais, é determinante para a admissão de uma cultura preventiva aos desastres no país, bem como para minimização das possíveis conseqüências dos eventos que estes tenham que enfrentar. Quando falamos das conseqüências de um evento, nos remetemos à fase do desastre onde a psicologia historicamente atuou, ou seja, a reconstrução. Para tratarmos disto, trazemos o conceito de trauma: “experiência que explode a capacidade de suportar um revés, nos traz a perda de sentido, desorganização corporal e paralisação da consciência temporal. (...), pode deixar marcas que influenciam a criatividade e a motivação para a vida, pois produz bloqueios que se estendem à existência, já que o que dá sentido ao mundo fica abalado com a surpresa de o sujeito ver-se sem condições e com medo do futuro” 38 . O estresse pós- traumático, por exemplo, deriva do conceito de trauma, pois ocorre normalmente após um evento compreendido psiquicamente como fortemente ameaçador. É um quadro clínico, definido pelo DSM-IV 39 , onde o abalo do trauma, provocado pelo impacto do evento, faz com que o indivíduo passe a sentir insônia, isolar-se socialmente, baixar a auto-estima, ter capacidade de concentração reduzida, pensamentos suicidas, entre outros. Conforme foi explanado no referencial teórico em discussão, este é um diagnóstico que pode aparecer em indivíduos afetados por desastres, mas a maior parcela desta população não o desenvolve. Segundo Lopes (2007, p. 03): (...) essas pessoas, de maneira geral, são capazes de superar a crise principalmente se tiverem fortalecidas, previamente, suas próprias capacidades de resposta, tanto individual como comunitária, já que o que agrava a repercussão emocional de um 38 BRUCK, N. R. V. A Psicologia das Emergências: Um estudo sobre angústia pública e o dramático cotidiano do trauma. Porto Alegre, 2007. 195 f. Tese (Doutorado em Psicologia) - PUCRS, Fac. de Psicologia. Professor orientador: Dr. Pedrinho Guareschi.. 39 Associação Psiquiátrica Americana (APA). DSM–IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - Fourth Edition / Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais - Quarta Edição). Washington, 1994. 39 evento para os diferentes grupos é não saber o que fazer diante da dimensão dos desastres, o que aprofunda a crise. Os indivíduos afetados por desastres não costumam desenvolver patologias, mas vivenciam um processo de luto decorrente de perdas humanas, materiais e ambientais. Uma questão importante para reflexão da psicologia é se o processo de luto que ocorre nos momentos posteriores aos desastres é o mesmo processo vivenciado por indivíduos que sofrem perdas em situação ambiental de normalidade. Diante do que foi visto ao longo da monografia, fica evidente que as ações da psicologia frente às emergências e aos desastres devem se estender por todo o processo que envolve estes eventos. E esta evidência se mostra como foco fundamental de análise para a psicologia e os psicólogos no momento atual, suscitando as seguintes questões: de que forma a psicologia pode atuar em todas as fases que envolvem as emergências e os desastres; como seria construído um projeto de atuação da categoria que garantisse políticas públicas eficientes de atenção subjetiva às pessoas afetadas por eventos adversos; quais são as atribuições destinadas ao trabalho do psicólogo neste campo, e quais não são de sua competência. Em relação às atribuições da formação profissional do psicólogo no campo das emergências e dos desastres, houve um avanço no ano de 2009 com a publicação da carta circular Nº. 023/2009 da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP). Nesta carta consta que a ABEP, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e a Secretaria Nacional de Defesa Civil, no dia 14 de agosto de 2009, assinaram um protocolo de intenção visando estabelecer condições necessárias para uma cooperação técnica entre os mesmos. O objetivo é garantir que os conteúdos subjetivos inerentes à formação e o exercício profissional do psicólogo sejam contemplados na Política Pública de Defesa Civil. Os autores Albuquerque (1997), Molina (2006), Coelho (2007) e Lopes (2007) sugerem as seguintes ações para o trabalho da psicologia: Albuquerque (1997) sugere um viés interdisciplinar de atuação: - Realizar diagnoses no interior de favelas, para identificar as necessidades da população frente aos órgãos públicos e conscientizar para participação desta população no enfrentamento de algum desastre, ou de sua evolução; - Oferecer cursos profissionalizantes realizados por agentes de desenvolvimento, como forma de capacitar a população, ou pelo menos a sua parte mais jovem, no sentido de 40 minimizar a sua permanência no ciclo vicioso da miséria, a qual favorece sua permanência em locais de vulnerabilidade social; - Implantar políticas públicas de minimização do impacto destes eventos através de metas de longo prazo. Molina (2006) 40 traz ações utilizadas pela SOCHPED (Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e dos Desastres), com ações voltadas para os membros da sociedade e dividindo os eventos adversos em fases: - Pré-desastre – capacitar e treinar habilidades de resposta da população diante de uma emergência; assessorar na definição de planos de emergência; selecionar pessoal para integrar as equipes de primeiras respostas; e implantar planos de monitoramento de estado de saúde mental destas equipes de resposta; - Durante a emergência – intervir em crises; aplicar planos de manejo hospitalar em crises; manejar pacientes e familiares que cheguem a crises decorrentes de emergência ou desastre (diretriz da OPS – Organização Pan-americana de Saúde); - Pós-emergência – avaliar o impacto psicológico e as possíveis estratégias de manejo; investigar os efeitos produzidos pela emergência para melhorar respostas diante de uma possível repetição; realizar módulos de auto-cuidado para equipe de primeira resposta e funcionários de centros hospitalares em geral. Coelho (2007) sugere ações de desenvolvimento de estudo no tema, voltadas à perspectiva social: - Pesquisar sobre percepção de risco, prevenção de desastres e estratégias de mitigação no contexto urbano; - Desenvolver estratégias eficazes de administração de risco, requerendo conhecimento do ambiente físico, dos processos sociais, psicológicos e econômicos que podem afetar as respostas das pessoas às condições ambientais de perigo; - Adotar uma perspectiva social e preventiva na psicologia; - Construir novos modelos teóricos de atenção à saúde e de participação social; - Articular as instituições de ensino, comunidade e serviços. Lopes (2007, p. 04 - 05) possui uma fala voltada para ações técnicas e as divide de acordo com as fases dos desastres estabelecidas pela Política Nacional de Defesa Civil: 40 Texto adaptado da fala de Rodrigo Molina no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p. 56, 8, 9 e 10 jun. 2006. 41 - Prevenção - elaborar um plano de contingência para psicólogos na defesa civil de acordo com a prevalência de desastres e com a vulnerabilidade das comunidades (mulheres, crianças, portadores de necessidades especiais); participar do planejamento e elaboração do plano de contingência elaborado pelas instituições de defesa civil garantindo que a atenção psicológica esteja presente nas ações de redução de risco e de assistência; capacitar as equipes de defesa civil para a valorização dos aspectos subjetivos e emocionais presentes na gestão de risco; oportunizar a coesão comunitária; prever e organizar treinamentos para profissionais que atuam no SUS; planejar e executar programas de prevenção nas escolas; planejar e executar programas de educação comunitária em defesa civil; incentivar atividades coletivas de reconstrução; organizar a capacitação de voluntários; participar da elaboração treinamentos de diferentes profissionais; - Preparação - organizar simulados; dirigir reuniões de organização do plano de chamada; organizar a ocupação do espaço da mídia; - Resposta – elaborar triagem (por nível de comprometimento e local); analisar cenários; acolher; identificar demandas; orientar equipes; incentivar manutenção dos vínculos familiares; orientar e capacitar voluntários; restaurar minimamente o cotidiano das pessoas; promover os trabalhos de oficinas e recreação nos abrigos; promover procedimentos que garantam a equidade no atendimento às pessoas; realizar atenção às equipes de socorro; desenvolver estratégias para combater abusos; - Reconstrução - incentivar manutenção dos vínculos familiares; combater a prática de abusos (sexual, de drogas); restabelecer o coletivo: familiar/vizinhança (garantir o restabelecimento da rede de apoio); incentivar a reconstrução coletiva; monitorar reações emocionais; intervir psicologicamente em caráter clínico nos níveis individual, grupal e comunitário; incentivar os afetados pelo desastre a se integrar no processo de reconstrução enquanto protagonistas do mesmo; cuidar para que sejam preservados os lugares de memória. Pela fala dos autores é possível perceber um direcionamento convergente no que tange as responsabilidades governamentais e comunitárias. Fica evidente também a necessidade da postura de trabalho interdisciplinar que o psicólogo envolvido nas emergências e desastres deve ter. Ressaltamos a importância de planejar ações voltadas ao principal objeto de estudo da psicologia que é a subjetividade humana, para não criarmos direcionamentos de atuação no 42 campo das emergências e dos desastres que se mostrem tecnicistas e/ou desviem-se da competência profissional do psicólogo. O desenvolvimento de recursos humanos; a promoção da saúde, da moral social e do bem-estar emocional através de trabalhos preventivos; o desenvolvimento motivacional e a assistência na recuperação das populações vitimadas, de acordo com a demanda apresentada em cada evento, são diretrizes de atuação que a psicologia não deve perder de vista em suas intervenções frente às emergências e aos desastres. Estes direcionamentos possibilitam ações com conseqüências sobre a recuperação de ecossistemas, a redução de vulnerabilidades e a construção de políticas públicas eficientes (que alcancem todas as classes sociais). Destacamos outra evidencia apontada no processo de desenvolvimento da monografia: a necessidade da produção de pesquisa e extensão da psicologia neste campo de trabalho que se realizam no Brasil. Em outros países, citados ao longo da monografia, isto é feito de forma sistematizada. Mas por se tratarem de culturas e ambientes diferentes, os conhecimentos produzidos nem sempre são aplicáveis a realidades diferentes, fazendo com que necessitemos de pesquisas voltadas à realidade que vivenciada aqui no Brasil. Segundo Marcos Antônio Mattedi (Mestre em Sociologia Política e Diretor do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Regional de Blumenau /SC), a psicologia pode contribuir neste campo de duas formas: produzindo conhecimento através da criação de programas de pós-graduação ou linhas de pesquisa, com a incorporação do tema das emergências e dos desastres na formação e na extensão; e estabelecendo intercâmbio internacional. Na extensão, Mattedi sugere a incorporação do tema no Programa Saúde da Família, pois segundo o autor, os psicólogos possuem conhecimento deste programa interdisciplinar e este alcança com maior facilidade as comunidades carentes. A curto prazo, ele sugere promover eventos junto à comunidade e conhecer a experiência internacional. A médio prazo, implantar programas e linhas de pesquisa que contemplem a mobilização, a problematização e o interesse no campo. E a longo prazo, fazer com que o trabalho da psicologia se torne obrigatório na intervenção em emergências e desastres41. Para construir um programa de formação em psicologia das emergências e dos desastres, Pitágoras Bindé (Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Doutor pela Eberthard-Karls-Universität-Tübigen, Alemanha, na área de prevenção e combate 41 Texto adaptado da fala de Marcos Antônio Mattedi no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p. 56, 8, 9 e 10 jun. 2006. 43 a desastres) 42, aponta alguns desafios: desenvolver uma cultura preventiva e de aplicabilidade dos saberes psicológicos; transitar em diferentes áreas da psicologia, como a comunitária, clínica, ambiental, do transito, da saúde mental, psicopatologia, psicotraumatologia; trabalhar em equipes com paradigmas, geralmente diferentes ou desconhecidos pelo psicólogo; adotar flexibilidade metodológica visando buscar respostas práticas, sustentadas por um planejamento estratégico; gerenciar crises junto à população e aos profissionais envolvidos neste contexto; implementar uma rede nacional para o desenvolvimento da psicologia das emergências e dos desastres no país, em nível de graduação e pós-graduação. O autor sugere que a formação em psicologia das emergências e dos desastres ocorra através da ênfase curricular deste tema, dos estágios básicos, estágios profissionalizantes, atividades multidisciplinares e trabalhos de conclusão de curso, abordando conteúdos inerentes à psicologia e interdisciplinares. Para que sejam colocadas em prática as propostas de incluir estagiários trabalhando com o tema da psicologia das emergências e dos desastres, de produzir monografias neste campo de estudo e de criar formações de psicólogos das emergências e dos desastres, fica evidente, com a produção desta monografia, que são necessárias criações de parcerias institucionais e desenvolvimento de políticas públicas comprometidas com a minimização da alta vulnerabilidade e dos riscos sociais vividos cotidianamente no Brasil. Para tanto, é imprescindível que a psicologia das emergências e dos desastres se torne uma área de atuação no campo social e estabeleça parcerias com profissionais já atuantes em eventos adversos (Bombeiros, Defesas Civis, Exército, Marinha e Socorristas de forma geral). Porém, o trabalho interdisciplinar não pode funcionar enquanto não houver um projeto de atuação social que contemple todas as fases dos desastres, não somente a da reconstrução, e que atue conjuntamente com profissionais das mais diversas áreas. Segundo fala do Major Márcio Luiz Alves, Diretor do Departamento de Defesa Civil do Estado de Santa Catarina, nenhum elemento (indivíduo) pode trabalhar em um evento adverso sem ter participado de todo o processo. Portanto, a presente monografia defende a abertura de vagas para psicólogos junto aos órgãos públicos de assistência responsáveis e credenciados pela sociedade para atuar neste campo, como forma de produzir uma ação continua destes profissionais nos municípios onde 42 Texto adaptado da fala de Pitágoras Bindé no I Seminário Nacional de PED – Contribuições para Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília, p.56, 8, 9 e 10 jun. 2006. 44 atuariam. Isto possibilitaria o conhecimento diário sobre a área de intervenção e a produção de um projeto preventivo condizente com a realidade vivida no local. 45 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente monografia se propôs a analisar a trajetória histórica e as possíveis práticas de intervenção do psicólogo frente às emergências e os desastres, considera-se que a finalidade foi alcançada ao longo do desenvolvimento da mesma. No referencial teórico e no desenvolvimento da presente monografia foram analisados conceitos referentes às emergências e aos desastres, tipos e modos de avaliação; caracterizados pensamentos teóricos de pesquisadores; apontadas possíveis relações entre a percepção social, a prevenção e a resiliência frente às emergências e aos desastres; identificadas possíveis práticas de intervenções no campo; levantados subsídios teóricos em termos de políticas públicas que favorecessem a inserção do campo como lugar de trabalho social; e identificadas possíveis parcerias na inserção da psicologia das emergências e dos desastres nas organizações de ação pública. Após as leituras e análises realizadas durante o desenvolvimento desta monografia, a autora constatou que a psicologia enquanto ciência ainda carece da produção de estudos e pesquisas referentes às emergências e aos desastres. No Brasil, o material científico existente sobre o tema é insuficiente frente à demanda de trabalho que os eventos adversos têm apresentado à categoria profissional. A autora compreende que a pesquisa no tema é fundamental para a elaboração de um planejamento que abarque as especificidades locais, considerando o Brasil um país com demandas variadas. O desenvolvimento do estudo, pesquisa e planejamento é indispensável para uma posterior atuação profissional. É fundamental que o profissional psicólogo atue em todas as fases dos eventos adversos, porém com ênfase em ações de caráter preventivo. O trabalho de percepção social dos riscos pode minimizar as conseqüências individuais e comunitárias dos desastres. Entretanto as políticas públicas brasileiras ainda mantêm um padrão assistencialista e emergencial, concentrando o atendimento nas fases posteriores a ocorrência dos desastres. No intuito de priorizar a atuação em ações preventivas e desenvolver políticas públicas voltadas para esse interesse, faz-se urgente pensar a presença do profissional psicólogo nos órgãos públicos que lidam com esta atividade. A criação de cargos de psicólogos especialistas em emergências e desastres providos por concursos públicos garantiria a estabilidade do profissional. A permanência no cargo possibilitaria que o 46 profissional psicólogo desenvolvesse um projeto de prevenção sócio-educativo de longo prazo e que este fosse executado de maneira contínua, minimizando a probabilidade de interrupções. Além disso, a criação de cargos públicos para psicólogos possibilitaria uma atuação interdisciplinar, considerando a integralidade na atuação às necessidades dos atingidos. Encerra-se o trabalho de conclusão de curso almejando que esta pesquisa sirva de estímulo para continuação do estudo da psicologia das emergências e dos desastres sob diferentes perspectivas filosóficas, antropológicas, psicológicas e metodológicas, e que esse tema seja levado para debate em sociedade, contribuindo assim, para a evolução do processo de percepção social dos riscos. Por fim conclui-se que os objetivos foram devidamente caracterizados e avaliados a partir do quadro conceitual hoje disponível pela literatura. Desse modo, a acadêmica enquanto pesquisadora entende que a pesquisa possibilitou o desenvolvimento no estudo de um campo de atuação emergente para psicologia. Este estudo se mostra de relevante interesse social, tendo em vista o aumento gradativo do contingente populacional e a insuficiência de planejamento urbano, que conseqüentemente aumentam a vulnerabilidade social e os fatores de risco sociais. Estes fatos evidentes no cenário atual brasileiro, somam-se e contribuem para mudanças sociais, climáticas, tecnológicas e de saúde pública, as quais influenciam no aumento da ocorrência de diversos tipos de desastres. Portanto concluímos que o estudo do tema pelas mais diversas categorias profissionais se faz indispensável e urgente. 47 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALAMO, S. V. Psicología en emergencias y desastres una nueva especialidad. 2007. Disponível em: <http://www.momografias.com/trabajos10/emde/emde.shtml> Acesso em: 18 ago. 2008. ALBUQUERQUE, F. J. B. de. A psicologia Social dos desastres. Existe um lugar para ela no Brasil? In A V, ZANELLA (org.) Psicologia e Práticas Sociais. Porto Alegre: ABRAPSO, 1997. p. 95-104, 240. ALBUQUERQUE, F. J. B. de; CIRINO C. da S. Percepção de Risco e Vulnerabilidade Social. Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, jan. 2000. AMORIM, Marília. Vozes e Silêncio no Texto de Pesquisa em Ciências Humanas. Sonia Kramer (org.). 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