EDUCAÇÃO PARA A COMPETITIVIDADE OU PARA A CIDADANIA SOCIAL? EDUCAÇÃO PARA A COMPETITIVIDADE OU PARA A CIDADANIA SOCIAL? FERNANDA A. DA FONSECA SOBRAL Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília Resumo: O objetivo deste artigo é discutir a abordagem contemporânea dada à educação na sociedade brasileira, sobretudo às idéias de educação como promotora de competitividade e de cidadania social, mostrando, outrossim, como essas concepções de educação se refletem na política educacional brasileira da década de 90 e como estão relacionadas a certas transformações da sociedade brasileira, nas quais se incluem o processo de globalização e a consolidação da democracia. Palavras-chave: educação no Brasil; cidadania; democracia. A s formas pelas quais a educação vem sendo abordada na sociedade brasileira têm variado historicamente, evidenciando a idéia de Durkheim de que a educação é um processo de socialização (que integra os indivíduos no contexto social) e, por essa razão, varia segundo o tempo e o meio. Embora supondo que a educação não apenas integra o indivíduo ao meio social, mas também lhe proporciona uma maior capacidade de autonomia e, por isso mesmo, de interferência no meio social, é relevante mostrar que a educação sempre tem uma importância eminentemente social, ainda que essa questão assuma conotações diferentes através da história. A intenção aqui é de discutir a abordagem contemporânea dada à educação na sociedade brasileira, sobretudo às idéias de educação como promotora de competitividade e de cidadania social, mostrando, outrossim, como essas concepções de educação refletem-se na política educacional brasileira da década de 90 e como estão relacionadas a certas transformações da sociedade brasileira, nas quais se incluem o processo de globalização e a consolidação da democracia. Porém, antes da discussão sobre as idéias atuais sobre educação, será apresentada de forma resumida a relação entre educação e sociedade brasileira em diferentes momentos da história do país. A RELACÃO EDUCAÇÃO E SOCIEDADE ATRAVÉS DA HISTÓRIA1 Nos anos 50 e até o início da década de 60, a educação é sobretudo considerada um instrumento de mobilidade social. Neste quadro, além das funções de socialização e de formação, a educação deveria dar “status” aos indivíduos. A educação representava, para o indivíduo, a possibilidade de ascensão na hierarquia de prestígio que caracterizava a estrutura piramidal da sociedade e, para a sociedade, uma maior abertura do sistema de estratificação social. Nesse período, o contexto mundial é caracterizado pela reestruturação social abalada pela Segunda Guerra Mundial, pelo fortalecimento do bloco socialista e pela configuração dos sistemas capitalistas e socialista em áreas definidas. Havia então uma preocupação com a legitimação da social-democracia, ameaçada pela ideologia fascista do passado e pelo socialismo soviético. No Brasil, Florestan Fernandes (1972) caracteriza esse período pela passagem de uma ordem social estamental para uma ordem competitiva. Além disso, é um momento em que as idéias de democracia (mais populista do que liberal no Brasil) eram enfatizadas, e através delas pretendia-se diminuir o poder das oligarquias, fortificar a burguesia nascente e dar uma certa participação eleitoral às massas. 3 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 estrutura produtiva, aspectos já observados ao final da década de 50. O desenvolvimento era considerado enquanto modernização e, neste sentido, a inserção do país no mercado internacional era essencial. Embora o modelo econômico de substituição de importações tenha se esgotado e o período 1963-67 tenha passado por baixas taxas de crescimento, a partir de 1968 começa uma nova fase de expansão que vai levar ao chamado “milagre econômico brasileiro”. Neste quadro, delineia-se uma política educacional preocupada sobretudo com a rentabilidade dos investimentos educacionais. Frutos dessa política são a Reforma Universitária de 1968 e a Lei de Profissionalização do Ensino Médio de 1971, que se baseavam na constatação da deficiência de mão-de-obra qualificada necessária ao desenvolvimento econômico do país e da discrepância entre a preparação oferecida pelo sistema educacional e as necessidades da estrutura de emprego. Porém, é importante destacar a política econômica e desenvolvimentista contida na Reforma Universitária, ou seja, a idéia de que a universidade revelava-se inadequada para atender às necessidades do processo de desenvolvimento e modernização que estava ocorrendo, exigindo, portanto, a racionalização das atividades universitárias (criação do departamento, do sistema de créditos, do ciclo básico), a fim de lhes conferir maior eficiência e produtividade, aspecto peculiar à análise econômica da educação. Assim, a criação da pós-graduação no Brasil e o início das atividades de pesquisa na universidade são o resultado de uma política estatal que visava a modernização do ensino superior dentro de um projeto de desenvolvimento. Essa era então a função social da universidade: qualificar recursos humanos e produzir conhecimento científico e tecnológico, no sentido de permitir a expansão industrial brasileira. Assim, há uma mudança na forma de legitimação possibilitada pela educação. Se anteriormente a mobilidade social resultante do acesso à educação expressava uma sociedade mais aberta e democrática, nas décadas de 60 e 70 a legitimação tem base mais econômica, ou seja, o importante é o papel da educação no desenvolvimento. O que importa nesse período é o crescimento econômico e menos a fluidez da sociedade. No final da década de 70, a abertura política começa ao mesmo tempo em que se assiste o final do milagre econômico brasileiro. Neste período, a educação passa a ser considerada politicamente, em que se coloca sobretudo o Nessa sociedade mais aberta que emergia, mesmo a educação continuando a ter uma função decorativa de consolidar “status” sociais definidos por critério de origem socioeconômica, ela também passa a ser requerida como um instrumento de mobilidade social ascendente, sobretudo para as classes médias. Também tem lugar a substituição de importações após a grande depressão mundial, quando ocorreu um rompimento com o modelo agroexportador. Daí resulta um estímulo considerável à industrialização de bens de consumo duráveis. Nesse sentido, a educação tinha um papel importante no processo de legitimação pelo grau de abertura da sociedade. Uma sociedade em processo de industrialização e de democratização deveria mostrar um sistema de estratificação social mais fluído. Diferente é o período posterior. Durante o governo autoritário, em vez de uma preocupação predominante dos estudos em mostrar alterações quanto a barreiras sociais menos rígidas, típica de uma ideologia democrática, a intenção era sobretudo mostrar a possibilidade de rendimentos oferecida pela educação, ou seja, evidenciar os seus aspectos econômicos, típica de uma ideologia desenvolvimentista. Nos meados da década de 60 e nos anos 70, há uma ênfase dos estudos econômicos da educação. A partir do trabalho de Schultz (1973), são utilizados conceitos como o de capital humano, para explicar o investimento em educação, o de produtividade, taxa de retorno, custos da educação e a concepção de educação enquanto mercadoria. Essa visão de educação repercute na sociedade em termos de crescimento econômico e nos indivíduos quanto à melhoria de renda, através de uma maior qualificação para o mercado de trabalho. Nesse período, mundialmente, há a consolidação do sistema capitalista monopolista em contraposição ao sistema socialista. Também esse momento é marcado pelo crescimento econômico surpreendente da Alemanha e do Japão no pós-guerra, fenômeno impossível de ser explicado pela economia clássica a partir dos três fatores de produção, terra, capital e trabalho, exigindo um novo conceito explicativo, como o de “capital humano”. Também a democracia liberal passa a ser substituída por Estados intervencionistas na esfera econômica. No Brasil, esse período é caracterizado pela importância da intervenção do Estado na economia, visando a superação do subdesenvolvimento. Ocorreram uma industrialização progressiva e uma internacionalização da 4 EDUCAÇÃO PARA A COMPETITIVIDADE OU PARA A CIDADANIA SOCIAL? Já na década de 90, a educação é considerada, sobretudo, promotora de competitividade. Essa educação que possibilita a competitividade dá ao indivíduo a condição de empregabilidade e traz para a sociedade a modernidade associada ao desenvolvimento sustentável. O novo contexto mundial é marcado pela globalização e pela menor intervenção do estado na economia, o que estimula ainda mais a competição entre os países e entre as empresas. Além disso, começa a se instalar um novo paradigma produtivo, cuja base técnica é eletroeletrônica, própria do sistema industrial de automação microeletrônica e que está ancorado sobretudo no conhecimento e na educação. Enquanto o fordismo caracterizava-se pela rigidez e simplificação do trabalho, pelo parcelamento de tarefas e pela especialização do conhecimento, o toyotismo (originado no Japão), paradigma vinculado à base eletroeletrônica, tem como características a maleabilidade, a conjugação de tarefas e o conhecimento mais holístico com maior potencial de criatividade. Essas novas tendências levam a pensar o conhecimento pela interdisciplinariedade, intercambialidade e experimentação2 (Peliano, 1998). Nesse contexto, educação e conhecimento estão muito associados a desenvolvimento científico e tecnológico que, por sua vez, levam à competitividade. Diante do processo de globalização, da maior abertura do nosso país ao mercado internacional e da tentativa de entrar no novo paradigma produtivo, a formação de recursos humanos torna-se importante para aumentar a nossa competitividade, seja pela formação de pesquisadores altamente qualificados pelas universidades e pelo sistema de pós-graduação e que são responsáveis pela produção científica de ponta e pela produção de novas tecnologias, seja pela modernização tecnológica das empresas que dependem da pesquisa científica de ponta e também da educação básica e profissional de sua mão-de-obra. Dessa forma, os indivíduos tornam-se mais competitivos no mercado, ou seja, com maior grau de empregabilidade, assim como as empresas ficam mais competitivas no mercado internacional, contribuindo para o desenvolvimento de nossa sociedade. Percebe-se nesse contexto uma legitimação de caráter mais econômico, possibilitada pela educação. Um dos princípios atuais do “Consenso de Washington” é de que a educação é base para o desenvolvimento, idéia já vigente na década de 70 com a economia da educação, que afirmava serem os investimentos em educação muito importantes para o crescimento econômico do país. A no- seu papel na construção da cidadania. Trata-se de um momento de crise de legitimação do Estado, em que os movimentos sociais tiveram um papel importante no sentido de retorno à democratização do país. Há um aprofundamento da discussão sobre o papel das políticas sociais, das políticas públicas na construção da democracia e cidadania, ao lado dos avanços na democratização do país que culminaram com a instituição da anistia, a criação de novos partidos políticos e a realização das primeiras eleições diretas para governadores. Também no contexto mundial foi o auge do desenvolvimento do Estado de Bem-Estar Social, sendo que a democratização passa também a ser muito enfatizada, devido à proeminência da queda do Muro de Berlim, que simbolizava o fim do socialismo. Neste sentido, a democratização do acesso e da gestão da educação era fundamental, tornando então crucial a questão do ensino público em termos da gratuidade e da garantia de recursos públicos e das eleições para os cargos diretivos das instituições educacionais. Quanto à universidade, além do seu papel na construção da cidadania para o qual eram necessárias a ampliação do seu acesso, a democratização dos seus instrumentos de gestão e a sua autonomia, também lhe era requerida a função de contribuir para a autonomia do país. Esta preocupação deve-se ao fato de um novo conceito de desenvolvimento colocado nesse período: apesar de o processo de internacionalização continuar em vigor, a aspiração de autonomia nacional se faz dominante através da necessidade de geração de conhecimento científico e tecnológico, tendo em vista a superação da dependência em relação aos países centrais (estas idéias vão dominar o período da Constituinte). Neste projeto de autonomia, a competência científica e a consolidação da pósgraduação na universidade eram muito importantes, pois o ciclo completo de produção do conhecimento não podia ser dominado sem a pesquisa básica, geralmente realizada na universidade, embora a competência tecnológica e o papel da empresa nacional não tenham sido preteridos neste período. Assim, a educação traria para o indivíduo a sua cidadania no sentido tanto do acesso ao ensino público e gratuito como da sua participação nas diferentes esferas do poder, o que significaria, para a sociedade, uma maior democratização e também uma maior autonomia (através da capacitação científica da universidade), ou seja, a legitimação inspirada pela educação era mais de caráter político. 5 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 terística do período anterior e que se limitava sobretudo à participação no poder. Ou seja, a educação é importante para o país enquanto condição de competitividade, no sentido de permitir a entrada no novo paradigma produtivo que é baseado, sobretudo, na dominação do conhecimento. Porém, a educação também é considerada relevante no que se refere ao seu papel de diminuição das desigualdades sociais, ou seja, como promotora de cidadania social. Dessa forma, o desenvolvimento é obtido através de uma maior competitividade dos indivíduos, das empresas e do país no mercado internacional, bem como através de uma maior participação social dos cidadãos. Isto é o que indicam as políticas mais recentes para a área educacional, que priorizam o ensino fundamental e procuram avaliar e reformar os ensinos médio e superior. “A nova LDB como um todo, em face das suas indefinições e dubiedades, ao que muitos denominam flexibilidade, permite que possa ser realizada uma educação comprometida tanto com o pressuposto de ‘educação para a cidadania’ como com o pressuposto da ‘educação para a competitividade’ – hoje, a perspectiva mais em voga, tanto na educação profissionalizante como na educação propedêutica” (Teixeira, 1999:97). vidade da década de 90 é que não é apenas a educação. Educação, ciência e tecnologia estão sendo consideradas um tripé para o desenvolvimento. O retorno da racionalidade econômica, característica da abordagem econômica da educação pela teoria do capital humano (Schultz, 1973), é explicado, nos países desenvolvidos, pela crise do welfare state e, na América Latina, pela crise do Estado desenvolvimentista (Benakouche, 1999). Enquanto a crise nos primeiros é verificada pelo fato de que a intervenção no Estado na área social, para atender às crescentes demandas sociais, se traduz num déficit fiscal, a crise do Estado desenvolvimentista é explicada pela maciça intervenção do Estado na economia, tornando-se onipresente nas atividades de produção de bens e serviços, levando-a à ineficiência e ineficácia. “A idéia é de eliminar o Estado-Burocrático e Patrimonialista para colocar no lugar o Estado-Empresário” (Benakouche, 1999:34). “Persegue-se, portanto, a diminuição do tamanho do Estado, a redução de custos, o aumento da produtividade, o uso das técnicas de qualidade. Ora, esse encadeamento de conceitos tem um nome e um sobrenome: ele se chama economicidade para não dizer economia” (Benakouche, 1999:35). Embora a racionalidade econômica permeie a idéia de educação para a competitividade na política educacional brasileira recente, não se pode ignorar, entretanto, uma concepção social da educação, no que se refere à ampliação das oportunidades educacionais para diminuir as desigualdades sociais, concretizando-se, dessa forma, uma sociedade mais justa. No período da redemocratização, a cidadania política foi muito reforçada, porém atualmente verifica-se que essa não foi suficiente para consolidar uma maior participação na sociedade, ou seja, uma maior cidadania social. Por essa razão, a educação passa a ser também considerada promotora de cidadania social. As idéias de cidadania política e social têm suas origens no pensamento de Marshall (1979), quando o autor vincula o conceito de cidadania a partir do desenvolvimento dos direitos, iniciando com o aparecimento dos direitos civis, políticos e, finalmente, os sociais. Os direitos civis referem-se aos direitos necessários à liberdade individual, os direitos políticos compreendem a participação no exercício do poder e os direitos sociais, que surgem no século XIX, correspondem ao desenvolvimento das leis trabalhistas e à implantação da educação primária pública. São estes direitos que constituem a cidadania social, diferentemente da cidadania política mais carac- CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO NAS POLÍTICAS PARA OS ENSINOS FUNDAMENTAL E MÉDIO A idéia de educação para competitividade, associada ao desenvolvimento científico e tecnológico, e a idéia de educação para a cidadania social constituem consensos na agenda dos debates e formulação de políticas educacionais em âmbito internacional. As citações apresentadas a seguir confirmam esta tendência: “a educação passa a ocupar, junto com as políticas de ciência e tecnologia, lugar central e articulado na ponta das macropolíticas do Estado, como fator importante para a qualificação dos recursos humanos requeridos pelo novo padrão de desenvolvimento, no qual a produtividade e a qualidade dos bens e produtos são decisivos para a competitividade internacional. Ainda que por si só a educação não assegure a justiça social, nem a erradicação da violência, o respeito ao meio ambiente, fim das discriminações sociais e outros objetivos humanistas que hoje se colocam para as sociedades, ela é, sem dúvida, parte indisponível do esforço para tornar as sociedades mais igualitárias, solidárias e integradas” (Mello, 1998: 43). 6 EDUCAÇÃO PARA A COMPETITIVIDADE OU PARA A CIDADANIA SOCIAL? básica para o futuro cientista, tecnólogo, técnico ou trabalhador, pois a introdução e a absorção de novas tecnologias características do novo paradigma produtivo exigem, além da formação específica, certos conhecimentos básicos e gerais, como pode-se notar na citação a seguir: “Surgem novos perfis de qualificação de mão-deobra. Inteligência e conhecimento parecem ser as variáveis-chave para a modernização e produtividade do processo de trabalho, como também a capacidade de solucionar problemas, liderar, tomar decisões e adaptar-se a novas situações. O modelo de adestramento profissional em tarefas ou etapas segmentadas do processo produtivo tende a ser substituído por outro, com grande ênfase na formação básica em Ciências, Linguagem e Matemáticas” (Mello, 1998:34). As transformações no mundo produtivo e os novos perfis de trabalho que devem ser formados pelo sistema educacional apresentam-se tão evidentes que, na LDB, promulgada em 22 de dezembro de 1996, “inova-se o conceito de educação, introduzindo o componente trabalho como princípio educativo e como elemento que detém estreita relação com a educação geral e a conservação do conhecimento” (Teixeira, 1999:97). Essa associação entre educação, trabalho e desenvolvimento tecnológico aparece mais enfaticamente na política para o ensino médio. Segundo dados da Sinopse/96 – MEC/Inep/Seec, a taxa de escolarização na faixa etária de 15 a 19 anos é de apenas 34,4%. No que se refere à distribuição de matrículas no ensino médio por dependência administrativa, há declínio no setor privado entre 1971 e 1996 (de 43,5% para 19,8%) e crescimento do setor público com predomínio do estadual (72,1%), além de 58,8% dos alunos estarem estudando no período noturno. Isto é, embora esteja ocorrendo um aumento das matrículas no ensino médio, esse fato não se deve, necessariamente, a uma maior qualidade do ensino fundamental que ainda apresenta altos índices de evasão e repetência, mas sim a “resultados de exames supletivos e a retornos de adultos que interromperam seus estudos há algum tempo” (Lobo, 1998:6). Porém, um dos maiores problemas do ensino médio no Brasil e que se reflete nas suas políticas é o da sua identidade: oscila entre o ensino propedêutico, cujo objetivo é preparar o aluno para o ensino superior, e a formação profissional, que tende a ser vinculada às necessidades do mercado de trabalho. Buscando superar os impasses provocados pela Lei o n 5.692/71, que procurou profissionalizar todo o ensino No que se refere à melhoria da educação fundamental, considerada prioritária pelo atual governo, pode-se supor que ela está sendo pensada sobretudo dentro da perspectiva de promoção da cidadania social. Para isso foi criado o Fundef (Fundo de Manutenção de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) pela Emenda Constitucional no 14, de 12/10/96, que subvincula 60% dos 25% da receita de impostos constitucionalmente vinculados à educação. Trata-se de um fundo contábil que, além de transferir recursos para escolas públicas estaduais e municipais, propõe alterações na legislação vigente, redefinindo o papel da União, dos estados e dos municípios na oferta do ensino obrigatório e gratuito, estabelecendo vinculações de recursos para o ensino fundamental. Este fundo, que teve início no Pará, em 1997, e nos demais estados, em 1998, apresenta os seguintes objetivos: promover a justiça social; uma política nacional de eqüidade; efetiva descentralização da gestão educacional do ensino fundamental, junto a estados e municípios; melhoria da qualidade e valorização do magistério público (MEC, 1999). O Fundef tem como meta, também, garantir o aumento da média salarial do magistério do ensino fundamental no país, a colocação de maior volume para os municípios e a garantia de uma redefinição de responsabilidades entre municípios, estados e Distrito Federal. Os documentos governamentais reforçam, sobretudo, a importância da melhoria do ensino fundamental para a promoção da justiça social, uma vez que 14,7% da população de 15 anos ou mais ainda era analfabeta em 1996 (IBGE, 1996), embora os dados do MEC/Inep/Seec para esse mesmo ano já indiquem uma taxa de escolarização líquida de 95% para o ensino fundamental. Assim, a educação fundamental é considerada o patamar inicial para a conquista da cidadania social, sabendo-se, entretanto, que ela só será de fato viabilizada com a universalização da educação básica. Ou seja, mesmo concordando com a priorização do ensino fundamental, essa decisão afetou o ensino médio, pois o Fundef vem romper com a concepção de educação básica conquistada pela LDB (que compreende a educação infantil, fundamental e média como um bloco de aprendizagem básica para toda a população), além de excluir os jovens e os adultos do âmbito dos seus recursos e de diminuir os recursos para a educação infantil e média (Teixeira, 1999). No entanto, deve-se ressaltar também que a melhoria do ensino fundamental é crucial do ponto de vista do desenvolvimento científico e tecnológico do país e da competitividade. É o ensino fundamental que dá a formação 7 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 específica da atividade produtiva à base comum e geral do conhecimento. Porém, o Conselho Nacional de Educação, através do Parecer 17/97, mostrou que a educação profissional de qualquer nível não substitui a educação básica, mas sim a complementa. Se a opção do aluno for pela profissionalização no nível médio, poderá “cursar paralelamente escolas técnicas” (Lobo, 1998). A afirmação a seguir mostrará criticamente a base produtiva da reforma do ensino médio, ou seja, a idéia de educação para a competitividade: “Nessa conjuntura (…) encontramos o campo onde podemos questionar as concepções e políticas de educação básica, formação técnico-profissional e processo de qualificação, requalificação e reconversão, que vêm à pauta no Brasil dos anos 90 vincadas, fortemente, por uma perspectiva produtivista. (…) Voltou-se a afirmar, então, que a inserção dos países do bloco periférico ao processo de globalização em curso somente será possível através do ajuste de seu sistema educacional, sob a nova base científica e tecnológica. Tal (des)ajuste tem suas bases políticas na educação e formação técnico-profissional para o desenvolvimento das habilidades básicas, de atitudes e valores, competências para a gestão de qualidade, para a competitividade e produtividade e, conseqüentemente, para a ‘empregabilidade’. Esta seria, uma vez mais, a exemplo do que foi a Teoria do Capital Humano na sua época, a ‘chave de ouro’ para desvendar o enigma do subdesenvolvimento e da exclusão” (Ignácio, 1999:97). Dessa forma, pode-se perceber que a política educacional para o ensino fundamental tem sido pensada prioritariamente na sua dimensão social, ou seja, para a cidadania social, embora também possa ser considerada para o desenvolvimento científico e tecnológico e para o aumento da competitividade. Já o ensino médio tem sido considerado prioritariamente na sua dimensão econômica, ou seja, para a promoção do desenvolvimento tecnológico e da competitividade, seja do indivíduo através do aumento da sua empregabilidade, seja do país ou das empresas que incorporem inovações tecnológicas. No entanto, a dimensão social não pode ser esquecida, pois a cidadania só será de fato fortalecida à medida que a educação básica, e não somente a educação fundamental, seja universalizada. Essas idéias sobre educação (competitividade e cidadania) vinculam-se, por um lado, ao contexto de globalização que inclui o Brasil na esfera da competição internacional e, por outro, ao contexto de democratização que avançou muito em termos de processo político, mas que deve avançar mais no que se refere à justiça social. médio mas que, de fato, aprofundou a sua dualidade ou a sua ambigüidade, esvaziando tanto o ensino propedêutico quanto o profissionalizante, a LDB de 1996 visou preservar o caráter unitário da formação da pessoa, partindo da proposta de educação geral como eixo unificador, ficando a educação profissional condicionada à ampliação de sua duração. “O ensino médio, atendida a formação geral do educando, poderá prepará-lo para o exercício de profissões técnicas (art. 36 § 2o), no próprio estabelecimento de ensino ou em cooperação com instituições especializadas. Os cursos médios terão equivalência legal e habilitação ao prosseguimento dos estudos” (art. 36 §§ 3o e 4o) (Lobo, 1998). Entre as finalidades básicas do ensino médio, está a preparação básica para o trabalho e para o exercício da cidadania, já refletindo as idéias de educação para a competitividade e de educação para a cidadania social. No que se refere à política para o ensino médio, há uma ênfase maior na sua vinculação ao mundo do trabalho e ao desenvolvimento científico e tecnológico e, assim, à competitividade. Porém, a cidadania não é totalmente esquecida. É o que se pode observar entre as suas diretrizes curriculares, em que se destacam a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes, o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura, a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e o exercício da cidadania. Quanto à educação profissional, constituem avanços significativos o fato de que, pela primeira vez, o tema aparece integrado à legislação educacional, com a possibilidade de acesso de alunos matriculados ou egressos de vários níveis de ensino e dos trabalhadores em geral ou também a possibilidade de certificação de conhecimento adquirido no mundo do trabalho para prosseguimento ou conclusão dos estudos (arts. 39, 41 e 42). A educação profissional pode se efetuar em três níveis: básico, destinado à qualificação, requalificação e reprofissionalização de trabalhadores, independente de qualidade; técnico, destinado a proporcionar habilitação profissional a alunos matriculados ou egressos do ensino médio; e tecnológico, correspondente a cursos de nível superior na área tecnológica, voltados para egressos dos ensinos médio e técnico. A educação profissional de nível técnico é aquela seqüencial ou concomitante ao nível médio, mas os currículos dos ensinos médio e técnico são desvinculados. A separação entre a formação geral e a específica tem sido criticada no sentido da importância da integração da base 8 EDUCAÇÃO PARA A COMPETITIVIDADE OU PARA A CIDADANIA SOCIAL? Gibbons, analisando sobretudo os países desenvolvidos, aponta o aumento da necessidade de conhecimento científico e tecnológico pela indústria na sociedade contemporânea. O conhecimento especializado torna-se um fator-chave na determinação das vantagens comparativas entre as empresas. Em decorrência da grande competitividade internacional, muitas empresas querem introduzir novas tecnologias e, por isso, requerem conhecimento especializado. As empresas então se envolvem em arranjos cooperativos com a participação das universidades, do governo e de outras empresas (Gibbons, 1994). Daí a importância da educação. Ou seja, a busca de competitividade no processo de globalização é uma das condições de emergência do novo modo de produção do conhecimento, que implica transformações na educação em geral e, sobretudo, no ensino superior. Esse novo modo de produção do conhecimento situa-se num contexto de aplicação, no sentido que desenvolve pesquisas a partir da necessidade de resolver problemas práticos ou de atender demandas econômicas ou sociais e não apenas de interesses cognitivos, como na pesquisa básica. Caracteriza-se pela transdisciplinariedade, pois se o conhecimento é produzido num contexto de aplicação e não apenas com a intenção de acumulação do conhecimento na área, muitas vezes o problema a ser solucionado através do conhecimento exige que disciplinas complementares trabalhem a seu respeito. Também o novo modo de produção do conhecimento pressupõe uma heterogeneidade institucional, no sentido que ele não é desenvolvido apenas na universidade, envolvendo várias organizações, incluindo empresas multinacionais, empresas de redes, empresas pequenas de alta tecnologia, universidades, laboratórios de pesquisa, ONGs, como também envolve programas nacionais e internacionais de pesquisa. Além disso, o conhecimento produzido não é orientado apenas para os pares (os membros da comunidade científica), mas também para os não-produtores de conhecimento, implicando uma maior responsabilidade social do conhecimento. Nos anos mais recentes, houve um aumento da consciência pública sobre meio ambiente, saúde, reprodução, etc., que estimulou a produção do conhecimento já dentro desses novos moldes. Certos movimentos sociais e ONGs nessas áreas procuram influenciar nas decisões sobre as pesquisas científicas e tecnológicas, o que revela também uma maior democratização. O novo modo de produção de conhecimento provoca mudanças no ensino superior, pois a pesquisa desenvolvida tradicionalmente nas universidades era mais disci- CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO NAS POLÍTICAS DO ENSINO SUPERIOR E DA PESQUISA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA E o ensino superior, como está sendo pensado na década de 90? As políticas para o ensino superior têm se orientado por alguns temas: a sua diversificação; a redefinição da sua autonomia; e a avaliação de seu desempenho. A proposta de diversificação do ensino superior está baseada no questionamento do modelo único de universidade implantado em 1968 (Martins, 1998). A partir de então, esse ensino seria oferecido por universidades públicas e gratuitas que deveriam associar ensino e pesquisa. A política atual propõe a saída do modelo único, possibilitando que a universidade ofereça formação científica (associando ensino e pesquisa), mas que também instituições de ensino superior possam oferecer formação profissional, tecnológica e formação de professores. Porém, essa saída só teria condições de se efetivar com a autonomia universitária. A definição da autonomia se enquadra na intenção de diminuir os controles burocráticos e normativos, garantir liberdade de organização dos serviços e execução de tarefas, estabelecendo um controle baseado na avaliação do desempenho. Essa avaliação se aplica ao setor público, influindo na distribuição de recursos, e ao setor privado, implicando o processo de credenciamento e recredenciamento de recursos. São os objetivos, metas e prioridades definidos pelas instituições, a partir de certos critérios, que vão balizar a avaliação. É o estabelecimento desses objetivos, que não precisam ser os mesmos para todas as instituições de ensino superior, que favorecerá a diversificação do sistema. Dessa forma, percebe-se a associação feita entre os três eixos da política para o ensino superior. Além dessas questões que constituem hoje a agenda da discussão sobre o ensino superior e que não serão aqui objeto de análise, também circula a idéia de que a universidade, juntamente com outras instituições como as empresas, o governo e as organizações não-governamentais, estaria tendendo, nas suas atividades de pesquisa, a desenvolver um novo modo de produção do conhecimento, dentro da concepção de educação para a competitividade. Dessa forma, as análises recentes sobre a universidade inclinam-se para contextualizá-la dentro de uma “economia do saber”, no sentido de vincular a produção e a transmissão do conhecimento às necessidades do mercado. 9 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 plinar e se realizava sobretudo num contexto acadêmico orientado por interesses da comunidade científica e do processo de conhecimento e não por sua utilidade econômica ou social. No entanto, a consolidação do novo modo de produção de conhecimento não implica, necessariamente, a substituição do antigo. Eles podem se desenvolver simultaneamente, dando margem à realização de pesquisas básicas, ao mesmo tempo em que são estimuladas pesquisas aplicadas e desenvolvimento de tecnologias, só que esses processos cada vez mais não se realizam separadamente. Assim, a lógica da diversificação do ensino superior vincula-se à idéia de diversificação da pesquisa universitária, sem que isso signifique, necessariamente, uma desvalorização da universidade – pelo fato de ela estar associada a outras instituições –, nem uma redução da pesquisa acadêmica – pelo fato de ela não ser a única desenvolvida no contexto universitário.3 Se, por um lado, é a busca da competitividade no mundo atual que leva à maior procura do conhecimento e da educação pela sociedade, por outro, é também a democratização da sociedade que demanda uma maior responsabilidade social do conhecimento. Segundo Gibbons (1994), a massificação do ensino superior também viabiliza a emergência do novo modo de produção de conhecimento, pois o número de pessoas com competência em pesquisa cresce demais para ser absorvido apenas nas universidades. Os lugares com competência em pesquisa diversificam-se. Além disso, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação permite a interação entre diferentes instituições (universidades, governo, empresas, ONGs) e diferentes países, possibilitando a realização de pesquisas em rede. Esses são os novos rumos do conhecimento que refletem mudanças ocorridas no sistema de ensino superior. Dessa forma, Gibbons aponta a heterogeneidade institucional como uma característica importante da produção científica e tecnológica contemporânea, supondo que essa produção se faça agora em vários lugares, como laboratórios governamentais e as empresas privadas, além das universidades. Por outro lado, Leydesdorff e Etzkowitz (1996) sublinham a importância do papel da universidade na “tripla hélice” e sugerem estudar a dinâmica das relações entre a universidade, o governo e a indústria. Já Knorr-Cetina trabalha com o conceito de “arenas transepistêmicas”, considerando, no processo de produção do conhecimento, as decisões negociadas dos pesquisadores e de outros atores não científicos, mas que também participam do processo muitas vezes com interesses nos resultados das pesquisas (empresários, governo, ONGs). Em qualquer uma destas abordagens, o importante é destacar que a produção do conhecimento se faz, nessa nova tendência, a partir de vários atores sociais e de várias instituições relacionadas entre si. Ou seja, estão emergindo transformações no modo de produção do conhecimento, que se vinculam à mundialização da economia, à ascensão da economia dos saberes ou da informação e à introdução das mudanças tecnológicas no processo de produção. Essas mudanças, aliadas à reformulação do papel do Estado que diminui os recursos públicos consagrados à educação, sugerem uma racionalidade econômica que se faz sentir na pesquisa universitária, com a passagem de uma política da ciência para uma política da inovação (Doray e Pelletier, 1999). Porém, há também o fenômeno da democratização que aumenta a necessidade de “social accountability” do conhecimento, ou seja, de uma maior participação da sociedade no processo de conhecimento. A consolidação democrática pode levar os pesquisadores a trabalharem considerando demandas socioeconômicas, pois a opinião pública tende a cobrar mais resultados da pesquisa científica e tecnológica. Isso faz com que aumente o peso das pesquisas temáticas e determine as agendas de pesquisa em função de demandas externas. Em trabalho realizado em 1994 (Sobral e Trigueiro, 1994), mostrou-se que o Brasil já possuía capacitação tecnológica em determinadas áreas, mas que apenas em parte ocorria desenvolvimento das chamadas tecnologias de ponta ou atendimento de demandas econômicas e sociais fundamentais para o país. Afirmou-se, então, que muitas das limitações do nosso desenvolvimento científico e tecnológico centravam-se na questão da formação de recursos humanos, que, por sua vez, ligava-se a deficiências do nosso sistema educacional. Por outro lado, o modelo de desenvolvimento científico e tecnológico, impulsionado pela ciência e que seguia sobretudo a lógica do processo de conhecimento e não as necessidades econômicas e sociais, adotado predominantemente no Brasil, havia se mostrado eficiente no sentido de constituir uma comunidade científica competitiva. Porém, precisaria ser combinado a outros procedimentos que envolveriam, além das demandas do mercado acadêmico-científico, outras demandas do mercado econômico e social. Por essa razão, propôs-se, nessa ocasião, o estabelecimento de um modelo misto de desenvolvimento científicotecnológico, que envolveria a combinação de dois tipos de procedimento: o desenvolvimento científico e tecnológico, 10 EDUCAÇÃO PARA A COMPETITIVIDADE OU PARA A CIDADANIA SOCIAL? em colaboração encontram algumas vantagens, como o acesso aos novos temas de pesquisa, a dados não publicados e a fontes adicionais de financiamento (Meyer- Kramer e Schnoch, 1998; Bataini, Martineau et Trépanier, 1997). impulsionado pela ciência; e aquele orientado pela demanda econômico-social ou pelo mercado. Se o modelo de “impulsão pela ciência”, por um lado, estava sendo satisfatório no que se refere à qualidade dos pesquisadores, das equipes e dos projetos de pesquisa, por outro, estava sendo insuficiente quanto à valorização ou à escolha de temas dentro de certas áreas. Com o modelo misto, ocorreria então a união do mercado econômico-social ao mercado acadêmico. Sendo assim, os eixos orientadores da pesquisa universitária na atualidade a associam à economia e à intervenção social, ou seja, refletem as idéias de educação para a competitividade e educação para a cidadania social, embora com um maior reforço para a questão propriamente econômica. A título de conclusão, pode-se enfatizar a idéia inicial de que a concepção de educação muda através dos tempos e que a sociedade contemporânea, considerada sociedade do conhecimento, requer um repensar sobre a educação. Na década de 90, ela está sendo pensada como educação para competitividade (mais no nível médio e superior) e como educação para a cidadania social (mais no nível fundamental). Porém, é importante destacar que uma única concepção de educação não pode dominar inteiramente, da mesma forma como se afirmou anteriormente que o novo modo de produção de conhecimento não pode excluir o antigo ou que se sugeriu um modelo misto de desenvolvimento científico e tecnológico. No que se refere à educação, as dimensões social e econômica não são necessariamente excludentes. A visão utilitarista não pode eliminar a visão humanista. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BATAINI, S.; MARTINEAU, Y. e TRÉPANIER, M. Le secteur biopharmaceutique québécois et les investissemets directs étrangers: dynamique et impacts des activités de R-D. Étude réalisée pour le Conseil de la science et de la technologie du Québec, 1997. BENAKOUCHE, R. “A autonomia universitária no contexto da reforma do aparelho do Estado”. 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A importância da educação para o novo modo de produção do conhecimento, 1998, mimeo. 1. Algumas das idéias desenvolvidas nesse tópico encontram-se em Sobral (1980 e 1993). SAVIANI, D. Escola e democracia. São Paulo, Cortez, 1985. SCHULTZ, T. O capital humano. Rio de Janeiro, Zahar, 1973. 2. A interdisciplinariedade é a forma que se tem utilizado nas novas áreas do conhecimento para não só atender aos rumos recentes dos estudos, pesquisas e desenvolvimentos técnicos, mas também para testar e descobrir pistas mais promissoras de conquistas e avanços técnico-científicos. A intercambialidade é a forma atualmente mais vantajosa de dinamizar o conhecimento pelo aproveitamento de teorias, metodologias e técnicas de pesquisa de uma disciplina em outra, ou de uma área do conhecimento em outra. A experimentação não é algo estritamente novo, mas tem estado muito mais presente, mesmo na elaboração e teste de teorias científicas, graças ao auxílio extraordinário da ciência da computação. SOBRAL, F.A. da F. Educação e mudança social: uma tentativa de crítica. São Paulo, Cortez, 1980. __________ . “Universidade e pesquisa na nova Constituição”. Em Aberto. Brasília, ano 8, n.43, jul./set. 1989. __________ . “Educação, universidade e sociedade”. Natureza, história e cultura. Porto Alegre, UFRGS/SBS, 1993. __________ . “Educação, ciência e tecnologia no Brasil na década de 90”. Anuário da Educação. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro/Unigranrio, 1996. 3. Estudos recentes sobre as universidades canadenses mostram que não há oposição entre, de um lado, os pesquisadores que desenvolvem pesquisa estritamente aplicada ou em colaboração e, de outro, aqueles que fazem pesquisa fundamental (Godin, 1998). Como as leis de concentração das atividades de pesquisa deixam antever, são geralmente os mesmos pesquisadores que se engajam nos dois tipos de atividades. Além disso, os pesquisadores que investem na pesquisa SOBRAL, F.A. da F. e TRIGUEIRO, M. “Limites e potencialidades da base técnico-científica”. In: SOBRAL, F.A. e FERNANDES, A.M. (orgs.). Colapso da ciência e tecnologia no Brasil. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1994. TEIXEIRA, Z.A. “Políticas públicas e educação para crianças, adolescentes e jovens”. Políticas públicas sociais. Brasília, Inesc, 1999. 11 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 UM SALTO PARA O PRESENTE a educação básica no Brasil GILDA FIGUEIREDO PORTUGAL GOUVÊA Professora do Instituto de Filosofia, Ciências e Letras da Unicamp e Assessora do Ministério da Educação Resumo: A educação básica no Brasil está num momento especialmente delicado. Os dados têm mostrado que há uma evolução positiva em vários indicadores, o que pode estar demonstrando que os rumos estão corretos, mas há ainda um bom caminho a percorrer. O artigo apresentou esses indicadores e discutiu esses rumos, procurando destacar alguns pontos considerados mais dramáticos. Palavras-chave: educação básica; educação e sociedade; políticas públicas. O mundo vem assistindo nos últimos 25 anos transformações profundas no tratamento às questões educacionais que, no caso brasileiro, tornaram mais dramáticas nossas desigualdades de oportunidades. Trabalhando com a análise recentemente sistematizada por Manuel Castells, 1 as mudanças que vêm ocorrendo não são só tecnológicas, mas principalmente culturais e organizacionais. Na “nova economia informacional”, afirma Castells, o ponto-chave para o desenvolvimento econômico, para o enfrentamento das desigualdades e mesmo para a democracia política é a educação. O que conta neste mundo não é a máquina e nem a tecnologia, mas a capacidade das pessoas de processar informações, criar situações, criar alternativas e resolver problemas. O importante não é mais acumular uma grande quantidade de informações, mas sim saber buscar essas informações. Assim a educação deve desenvolver em cada pessoa sua capacidade cognitiva e analítica e quem não for alcançado por um sistema educacional eficiente, terá poucas chances num mundo que cada vez mais individualiza o sistema de trabalho e no qual a inclusão (ou a exclusão) depende cada vez menos da inserção coletiva das pessoas. A educação é hoje para a sociedade informacional o que foi ontem a energia para a sociedade industrial, conclui Castells. OS GRANDES DRAMAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA2 No Brasil, em meados da década de 80, um físico chamado Sérgio Costa Ribeiro, com sua mania de entender o que estava por trás dos números, passou a gritar aos quatro cantos que havia algo de muito estranho com as nossas estatísticas educacionais. Sua conclusão foi quase singela: os números mostravam que havia no país uma enorme discrepância entre a quantidade de crianças na faixa etária de 7 a 14 encontrada pelo Censo populacional do IBGE e as matrículas nas oito séries do ensino fundamental. Em suas palestras ele costumava brincar dizendo que o Brasil era o único caso no mundo em que uma geração valia por quase duas.3 Sérgio era um otimista e enfatizava que esse dado deveria ser olhado como positivo, ou seja, a educação já estava incorporada como um valor para a grande maioria da população, que colocava seus filhos na escola, lutava por mantê-los nela e havia escolas em número suficiente para matricular essas crianças que começavam sua trajetória escolar. O fato de haver mais crianças matriculadas em algumas dessas séries do que a população na faixa etária, teve uma explicação imediata: era causado pela repetência que “segurava” as crianças, e a evasão provocava muitas vezes o fenômeno da dupla contagem. Os dados levantaram uma outra explicação importante: na maior parte das ve- 12 UM SALTO PARA O PRESENTE: A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL zes o “evadido” era um repetente em potencial, ou seja, era aquela criança que no meio do ano não estava com bom aproveitamento e era “aconselhada” pela escola a abandonar os estudos naquele ano e voltar no ano seguinte para não ser considerada repetente. Mas essas eram considerações estatísticas. Atrás delas estava escondido um trágico fenômeno: o fracasso escolar. O que é o fracasso escolar? Nos anos seguintes esse tema foi bastante estudado, e hoje já se possui um quadro bem mais definido dos seus vários aspectos. Deixemos as estatísticas para mais adiante, e vamos nos deter primeiro em seus aspectos qualitativos. O fracasso escolar é uma chaga que se instalou no nosso sistema educacional e condena parte considerável da nossa população ao analfabetismo e ao analfabetismo funcional. O analfabeto funcional é a pessoa que sabe identificar as letras e consegue juntar as sílabas, mas não consegue juntar uma frase nem compreender um texto. Essa pessoa não é capaz de ler um manual, de compreender regras escritas, de comunicar-se via eletrônica e portanto é um excluído desta nova sociedade que está se definindo. E pensem bem que tragédia: parte dos nossos analfabetos entre 15 e 29 anos, que somavam cerca de 2.960.000 em 1997 (cerca de 7% da população nessa faixa etária) segundo o IBGE-PNAD,4 freqüentou a escola e foi expulsa dela por ter “fracassado”. E esses dados levam em conta apenas os analfabetos e não incluem os analfabetos funcionais. Durante muito tempo considerou-se que o principal fator para uma criança deixar a escola era a necessidade de trabalhar para ajudar a família. Essa situação existe, mas está longe de ser a principal determinante da evasão escolar. Estudos têm demonstrado que o fracasso escolar é o principal responsável pelo êxodo e a repetência não melhora o aprendizado dos alunos: “a análise dos resultados das avaliações da educação básica, como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), a avaliação de concluintes do ensino médio e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) confirmam: quanto maior a distorção série/idade dos alunos, pior o seu desempenho. Um aluno que conclui o ensino fundamental aos 18 anos, após uma série de reprovações, tem rendimento médio inferior ao do aluno que conclui as oito séries na idade adequada, ou seja, aos 14 anos (MEC, 1999:35). Imaginem a seguinte situação: a criança entra na escola e começa a apresentar dificuldades para alfabetizar-se. Solução: repetir o ano, uma, duas, três vezes ou mais se necessário, sendo ela considerada a única responsável pelo próprio fracasso. Quando consegue superar a barreira da alfabetização, não se desenvolve em matemática, e novamente “repete”. Não estuda, não presta atenção, é “fraca da cabeça”, dizem. Numa mesma classe, já tendo às vezes 12 anos, convive com colegas de 7. Os colegas a consideram burra, para a escola é incapaz, e os pais são convencidos de que ela é incapaz mesmo. Por que continuar na escola, se todos acham que é perda de tempo? Sua autoestima está destruída, está marcada pela sociedade. Seu futuro já está definido: está excluída. Quem já fez pesquisa de campo e teve a oportunidade de estar em alguma escola percebeu no rosto dessas crianças o sinal do fracasso. As estatísticas mostram a dimensão dessa tragédia. Na contagem populacional que o IBGE fez em 1996, 42% dos jovens brasileiros entre 15 e 19 anos declararam não estar freqüentando a escola e, destes, 46% disseram ter abandonado definitivamente os estudos ao concluir menos de cinco anos de escolaridade. Entre esses jovens encontraremos certamente muitos analfabetos funcionais. Ao observarmos os dados por região, a gravidade da situação se acentua. Na região Nordeste, 65% dos jovens de 15 a 19 anos que estavam fora da escola tinham completado menos de 5 anos de escolaridade; na região Norte eram 59%; na região Centro-Oeste, 41%; na Sudeste, 36% e na região Sul, 34%. Essa é a enorme parcela de “fracassados” do nosso país. Foi assim que, a partir da década de 80, os formuladores de políticas públicas na área de educação começaram a mudar a ênfase de suas recomendações, voltando sua atenção para o que acontecia dentro da escola. Foi também a partir daí que os governos começaram a ouvir desses formuladores que, mais importante do que construir escolas, era dirigir seus investimentos para a qualidade da escola, a qualidade da vida escolar de cada criança ou jovem, a qualificação dos professores, os equipamentos escolares, a oferta e qualidade do livro didático e a avaliação, não como critério para aprovar ou reprovar o aluno, mas para aprovar ou reprovar a escola. Se uma grande quantidade de alunos não aprende ou se evade, deve-se pensar que a principal responsável pela situação é a escola e não o aluno. Essa não foi uma mudança fácil na mentalidade dos governantes, dos políticos e dos educadores. Por desconhecimento da situação real do nosso sistema escolar que havia crescido muito ou por “interesses na indústria da construção de escolas”, uma administração era avaliada pelo número de salas de aula que havia construído e não 13 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 por ter conseguido baixar a taxa de evasão e repetência. Essas escolas, inauguradas com grande alarde pelos governantes e patrocinadas por políticos com interesses eleitorais naquela região (isso na melhor das hipóteses, pois havia muitas denúncias de que os interesses eram também econômicos ligados às empreiteiras que construíam as escolas e depois financiavam campanhas eleitorais), eram muitas vezes erguidas em áreas que possuíam escolas prontas com vagas ociosas. Quem trabalhou na administração pública nesse período, sabe como era difícil fazer prevalecer o critério da demanda real diante das pressões políticas. A outra fonte de resistência estava nos próprios educadores e professores. A discussão em torno da promoção automática ou dos ciclos (um aluno na primeira série, mesmo que não estivesse alfabetizado deveria ser promovido para a segunda série, ou ainda, ciclos de quatro anos, ou seja, só haveria uma avaliação no final da quarta série e no final da oitava série) provocava – e ainda provoca – fortes reações contrárias.5 Os professores justificavam sua posição com o argumento de que era muito difícil trabalhar com uma classe onde os alunos tinham diferentes níveis de conhecimento. Contra esse argumento, alguns educadores levantavam outro: ele enfrentaria a mesma dificuldade tendo numa classe um aluno de 7 anos e outro de 12, pois o de 12 poderia estar defasado no aprendizado formal, mas não na sua idade emocional e de experiência, ingredientes fundamentais para a aplicação de qualquer prática pedagógica. A volta do olhar dos formuladores e de alguns administradores para dentro da escola começou a colocar questões que, se ainda não foram resolvidas, pelo menos provocaram uma guinada radical nas políticas públicas para a educação. O novo rumo estava se definindo: a escola deveria deixar de ser uma formadora de “fracassados” para ser uma formadora de cidadãos com capacidade cognitiva e crítica. Uma das primeiras perguntas que se colocou foi por que essas crianças e jovens fracassavam? Afinal, o que acontece dentro da escola? Sabemos que a situação de pobreza da população tem um papel importante nesse êxodo escolar e nas taxas de repetência. Os dados mostram que a escola tem se democratizado nas últimas três décadas e, portanto, cada vez mais crianças das camadas mais pobres entram na escola. Não podemos menosprezar esse fato, mas não queremos que ele esconda um outro, talvez tão importante quanto as desigualdades sociais e econômicas: o que acontece dentro da escola. Quanto mais pobre for a população, maior o papel desempenhado pela escola no seu processo de inserção na sociedade. A escola representa para muitas dessas crianças e jovens o único ambiente estruturado de convivência, antes até de ser um ambiente de aprendizado de letras e números. Se pensarmos nas populações das periferias das cidades médias e grandes, cujas condições habitacionais são bastante precárias, compostas de famílias que apresentam um grau elevado de desagregação (basta lembrar o número crescente de famílias mantidas apenas pela mãe) e taxas de desemprego que atingem os níveis mais elevados nos momentos de crise econômica, a escola deveria cumprir o papel de acolhê-las, situá-las, exercitar a convivência e a tolerância, e nunca de expulsá-las. A construção da sua auto-estima é o que mais importa. A sua capacidade de aprender, agora sim, as letras e os números vai depender muito dessa acolhida. Escolas sem manutenção adequada, com os vidros quebrados e as carteiras em condições precárias, as paredes sujas, o encanamento entupido, professores desmotivados porque mal-preparados e com salários baixos, professores com medo da violência que já ultrapassou os portões como temos visto pela imprensa, dificilmente poderão ser acolhedoras. Como transformar essa escola para que ela possa exercer seu papel? O QUE ESTÁ SENDO FEITO E QUAIS OS PRINCIPAIS RESULTADOS Alterar esse quadro não é nada fácil. Como vimos, são inúmeros os problemas que precisam ser atacados simultaneamente para mudar a escola por dentro. Mas nem tudo é desesperança. O quadro descrito começou a se alterar significativamente no fim da década de 80, mas foi na década de 90 que os resultados alcançados tanto na continuidade do avanço nos índices de cobertura, quanto nos sinais cada vez mais visíveis de que está melhorando a qualidade do ensino e com ela a “acolhida” das crianças e jovens. Fica difícil, e aliás pouco importa, apontar qual fator está sendo o principal responsável por essa mudança, ou então a quem atribuir as glórias dos bons resultados. Mas a verdade é que foram os esforços conjugados dos três níveis de governo – federal, estadual e municipal –, a participação crescente da comunidade e da sociedade nos assuntos da escola, e principalmente uma convergência de políticas corretas e duradouras, os responsáveis pelos resultados. Quais foram os principais norteadores dessas políticas? 14 UM SALTO PARA O PRESENTE: A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL Segundo documento do Ministério da Educação (MEC/ Inep, 1999a) e outras avaliações que têm sido publicadas nos últimos anos, as políticas implantadas procuraram principalmente: - buscar um novo padrão de eqüidade na oferta do ensino fundamental obrigatório, mediante a garantia da universalização do acesso, implantação de um novo modelo de financiamento, com a criação do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) e a promoção de ações focalizadas para corrigir desigualdades sociais, econômicas e regionais; - apoiar e incentivar as políticas de inclusão dos portadores de deficiência no ensino regular, principalmente se considerarmos que muitas vezes a dificuldade no aprendizado é considerada deficiência mental; - descentralizar os gastos com a merenda escolar,8 colocando os recursos na escola, para que ela administre sua compra e distribuição, evitando desvio e desperdício. É difícil dizer, mas talvez a mudança mais importante na década de 90 quanto ao financiamento da educação foi a criação do Fundef através da Emenda Constitucional nº 14. Com o Fundef houve uma divisão mais clara das responsabilidades de cada nível de governo, e o dinheiro da educação foi aplicado onde estavam os alunos. Agora faz toda a diferença porque só é vantagem para os governos estaduais ou municipais que mantiveram as crianças na escola, pois os recursos do Fundo serão repassados conforme o número de crianças matriculadas, segundo as informações do Censo escolar que o Ministério da Educação realiza anualmente em todo o país. Com essa mudança, a evasão passa a representar perda de recursos para os estados ou municípios. Além disso, o Fundef favoreceu o desenvolvimento da colaboração entre os três níveis de governo, criando também mecanismos de estímulo à participação da comunidade (cada município e cada estado deve formar um conselho que fiscaliza a aplicação dos recursos). Ainda sobre a distribuição dos recursos, a descentralização chegou até a escola com os programas Dinheiro Direto na Escola do governo federal e inúmeros programas semelhantes de governos estaduais e municipais. Essas medidas estimularam a participação dos pais na gestão da escola através das APMs (Associações de Pais e Mestres) que passaram a ser responsáveis por esses recursos e se multiplicaram pelo país, com a criação de cerca de 50 mil desde 1995. Essas iniciativas tornaram mais fácil também a aproximação de várias organizações nãogovernamentais que passaram a ser parceiras na melhoria da escola, tendo agora nas APMs sua base de apoio, execução e fiscalização. - basear o esforço de universalização e melhoria da qualidade na descentralização dos programas e dos recursos públicos destinados ao financiamento do ensino, mediante a adoção de critérios transparentes e universais, eliminando intermediações que não deixam o dinheiro chegar à escola; - dar ênfase na melhoria da qualidade da educação básica, apoiada em políticas de valorização dos professores inclusive com incentivos salariais, na distribuição em tempo hábil e na avaliação do livro didático, na TV Escola e outros instrumentos de educação a distância para apoiar o professor no seu desempenho em classe e na sua atitude diante dos alunos, na introdução do computador na escola, na implantação de parâmetros curriculares nacionais, no treinamento intenso de dirigentes escolares desde secretarias estaduais e municipais até os diretores e secretários das escolas; - criar e implantar o sistema de ciclos e promover regularmente programas de aceleração de aprendizagem, possibilitando àqueles alunos com idade acima do recomendável para a série, que freqüentam classes especiais, que avancem rapidamente nos estudos e alcancem a série compatível;6 - apoiar os programas de alfabetização de jovens e adultos através de parcerias com empresas, organizações nãogovernamentais, universidades e prefeituras, principalmente nos municípios com as mais altas taxas de analfabetismo;7 Os resultados começam a aparecer: - criar cursos supletivos para dar prosseguimento à escolaridade daqueles jovens e adultos que se alfabetizaram; Queda das Taxas de Analfabetismo nas Faixas Jovens da População – O que pode estar indicando que temos cada vez menos “fracassados”. As taxas de analfabetismo entre a população com até 29 anos de idade vêm regredindo anualmente. Na faixa de 15 a 19 anos, o recuo foi de 12,2%, em 1991, para 6%, em 1997. Na faixa etária de 20 a 24, a que- - desenvolver e implantar um sistema nacional de avaliação e de indicadores de desempenho periódicos, o único capaz de informar aos executores das políticas se estamos melhorando ou não e apontar onde estão as falhas; 15 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 TABELA 2 TABELA 1 Número Médio de Anos de Estudo de Pessoas de 10 Anos ou Mais de Idade Brasil – 1960-1996 Taxa de Analfabetismo da População com 15 Anos ou Mais Brasil – 1970-1996 Em porcentagem Anos Taxa de Analfabetismo Anos Homens Mulheres 1970 33,6 1960 2,4 1,9 1980 25,4 1970 2,6 2,2 1991 20,1 1980 3,9 3,5 1995 (1) 15,6 1996 (1) 14,7 1990 5,1 4,9 1995(1) 5,4 5,7 1996(1) 5,7 6,0 Fonte: Fundação IBGE. Nota: Exclusive a população rural de RO, AC, AM, RR, PA e AP. GRÁFICO 1 Fonte: Relatório Sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil, 1996; PNUD/Ipea, 1996. (1) Exclusive a população rural de RO, AC, AM, RR, PA e AP. Os dados foram calculados pelo MEC/Inep/Seec com base na PNAD de 1995 e 1996. Taxa de Analfabetismo da População com 15 Anos ou Mais Brasil – 1970-1996 GRÁFICO 2 Número Médio de Anos de Estudo de Pessoas de 10 Anos ou Mais de Idade Brasil – 1960-1996 Fonte: Fundação IBGE. (1) Exclusive a população rural de RO, AC, AM, RR, PA e AP. da no período foi de 12,2% para 7,1%, e na faixa de 25 a 29 anos, a queda foi de 12,7% para 8,1% (Tabela 1 e Gráfico 1). As mulheres têm melhorado mais rapidamente sua situação em relação aos homens: a taxa para as mulheres entre 15 e 19 anos era de 9% em 1991 e regrediu para 4% em 1997. Entre as mulheres na faixa de 20 a 24 anos, a taxa recuou de 10,5% para 5,5%, e no grupo entre 25 e 29 anos, o recuo foi de 11,5% para 6,4%.9 Fonte: Relatório Sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil, 1996; PNUD/Ipea, 1996. (1) Exclusive a população rural de RO, AC, AM, RR, PA e AP. Os dados foram calculados pelo MEC/Inep/Seec com base na PNAD de 1995 e 1996. Aumento do Número Médio dos Anos de Estudo – Em 1960, o número médio de anos de estudo para a população com 10 anos ou mais estava em torno de dois anos. Em 1997 estava em torno de seis anos, mais um sinal de que nosso sistema educacional se encontra em uma curva ascendente. Em 80, os homens estavam em vantagem quanto aos anos médios de estudo em relação às mulheres (3,9 anos para os homens e 3,5 anos para as mulheres), mas essa situação se inverteu na década de 90 (Tabela 2 e Gráfico 2), quando as mulheres melhoraram mais rapidamente seu perfil educacional. No período de 1990 a 1996, a média de anos de estudos aumentou de 5,1 para 5,7 entre os homens, e de 4,9 para 6 entre as mulheres, o que indica um salto de quase um ano para as mulheres, enquanto eles avançavam meio ano, segundo o mesmo documento do Ministério da Educação. Crescimento da Matrícula em Todos os Níveis de Ensino – Com destaque para o ensino médio (Tabelas 3 e 4 e Gráficos 3 e 4). O crescimento da matrícula no ensino fun- 16 UM SALTO PARA O PRESENTE: A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL TABELA 3 tiva de 4,8% nas quatro séries finais, o que é uma ótima notícia, ou seja, as crianças estão conseguindo vencer a barreira inicial da alfabetização e dos números apontada anteriormente, progredindo de série. Mas a grande notícia vem mesmo do crescimento das matrículas no ensino médio: entre 1994 e 1999 a expansão atingiu 57,3%, uma mé- Matrícula Inicial do Ensino Fundamental, por Dependência Administrativa Brasil – 1994-99 Público Anos Total Números Absolutos Privado % Números Absolutos % 1994 (1) 32.008.051 28.486.693 89,0 3.521.358 11,0 TABELA 4 1995 (1) 32.668.738 28.870.159 88,4 3.798.579 11,6 1996 33.131.270 29.423.373 88,8 3.707.897 11,2 Matrícula Inicial do Ensino Médio, por Dependência Administrativa Brasil – 1994-99 1997 34.229.388 30.565.641 89,3 3.663.747 10,7 1998 35.792.554 32.409.205 90,5 3.383.349 9,5 1999 (2) 36.170.643 Taxas de Crescimento 1994/99 (%) 13,0 32.892.246 90,9 3.278.397 9,1 15,5 Público Anos -6,9 Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. GRÁFICO 3 Matrícula Inicial do Ensino Fundamental, por Dependência Administrativa Brasil – 1994-99 Total Privado Números Absolutos % Números Absolutos % 20,9 1994 (1) 4.936.211 3.905.872 79,1 1.030.339 1995 (1) 5.374.831 4.210.558 78,3 1.164.273 21,7 1996 5.739.077 4.562.558 79,5 1.176.519 20,5 1997 6.405.057 5.137.992 80,2 1.267.065 19,8 1998 6.968.531 5.741.890 82,4 1.226.641 17,6 1999 (2) 7.767.091 Taxas de Crescimento 1994/99 (%) 57,3 6.542.913 84,2 1.224.178 15,8 67,5 18,8 Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. GRÁFICO 4 Matrícula Inicial do Ensino Médio, por Dependência Administrativa Brasil – 1994-99 Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. damental foi de 13% entre 1994 e 1999, segundo dados do Censo escolar de 1999. Com isso o Brasil atingiu nesse ano uma taxa de escolarização líquida de 95,5% na faixa de 7 a 14 anos. Em 1999, pela primeira vez, o Censo registrou variação negativa de 1,5% em matrículas nas quatro séries iniciais do ensino fundamental e uma variação posi- Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. 17 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 TABELA 5 Número de Funções Docentes do Ensino Fundamental, por Grau de Formação Brasil – 1994-1999 Grau de Formação Anos Total Fundamental Incompleto e Completo Médio Completo Superior Completo Números Absolutos % Números Absolutos % Números Absolutos % 41,3 1994 (1) 1.377.665 138.658 10,1 669.656 48,6 569.351 1995 (1) 1.407.625 133.933 9,5 685.596 48,7 588.096 41,8 1996 1.388.247 124.642 9,0 655.004 47,2 608.601 43,8 1998 1.460.455 101.601 7,0 684.514 46,9 674.340 46,2 1999 (2) 1.510.426 81.735 5,4 720.148 47,7 708.543 46,9 9,6 -41,1 Taxas de Crescimento 1994/99 (%) 7,5 24,4 Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. Nota: O mesmo docente pode atuar em mais de um nível/modalidade de ensino e em mais de um estabelecimento. GRÁFICO 5 dia de 11,5% ao ano. Um número maior de pessoas está terminando as oito séries do ensino fundamental e prosseguindo seus estudos para o ensino médio. Número de Funções Docentes do Ensino Fundamental, por Grau de Formação Brasil – 1994-1999 Diminuição das Desigualdades Regionais – Na região Nordeste as matrículas no ensino fundamental cresceram cerca de 27% contra 13% no resto do país, e no ensino médio cresceram 62% contra 57% no conjunto do país. Melhoria do Fluxo no Ensino Fundamental com a Queda das Taxas de Evasão e Repetência – No ensino fundamental a taxa de promoção que já vinha aumentando nos anos anteriores, evoluiu entre 1995 e 1997 (apenas 2 anos) de 65,5% para 74,5%, enquanto no mesmo período as taxas de repetência e evasão diminuíram de 26,7% para 18,7% e de 8,3% para 6,8%, respectivamente. Por outro lado, a distorção idade/série nas séries iniciais que era de 64,1% em 1991, caiu para 46,6% em 1998. Esses são resultados para serem comemorados, pois significam que a escola está acolhendo muito melhor nossos jovens, mostrando uma tendência de superação do triste quadro apresentado na primeira parte deste trabalho. Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. Nota: O mesmo docente pode atuar em mais de um nível/modalidade de ensino e em mais de um estabelecimento. Melhoria da Qualificação dos Professores da Educação Básica – O número de professores tem crescido bastante nos últimos anos: entre 1994 e 1999, o cresci- 18 UM SALTO PARA O PRESENTE: A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL GRÁFICO 6 mento foi de 9,6% no ensino fundamental e de 35,7% no ensino médio segundo o Censo Escolar do Ministério da Educação. Mas apesar disso, houve uma evolução na qualificação desses professores. Nas regiões mais pobres do país, principalmente, o número de professores leigos era muito elevado. Professor leigo é aquele que está encarregado de ministrar aulas sem ter completado o nível escolar exigido para aquela série. Assim, por exemplo, é o professor de primeira a quarta série que não terminou as oito séries do ensino fundamental. Dados do Ministério da Educação indicam que o número de professores leigos no ensino fundamental caiu 41,1% no período de 1994 a 1999, o número de professores com nível médio completo subiu 7,5% e com superior completo aumentou 24,4% (Tabela 5 e Gráfico 5). Para o ensino médio a qualificação também está aumentando: houve uma queda de 65,8% no número de professores leigos e um acréscimo de 45,3% no número de professores com curso superior completo (Tabela 6 e Gráfico 6). São dados realmente impressionantes! Número de Funções Docentes do Ensino Médio, por Grau de Formação Brasil – 1994-1999 Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. Nota: O mesmo docente pode atuar em mais de um nível/modalidade de ensino e em mais de um estabelecimento. Municipalização do Ensino – Seguindo o que prescreve a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, houve um acelerado processo de municipalização do ensino TABELA 6 Número de Funções Docentes do Ensino Médio, por Grau de Formação Brasil – 1994-1999 Grau de Formação Anos Total Fundamental Incompleto e Completo Médio Completo Superior Completo Números Absolutos % Números Absolutos % Números Absolutos % 1994 (1) 295.542 1.876 0,6 50.863 17,2 242.803 82,2 1995 (1) 333.271 1.519 0,5 57.620 17,3 274.132 82,3 1996 326.827 1.068 0,3 43.418 13,3 282.341 86,4 1998 365.874 823 0,2 38.250 10,5 326.801 89,3 1999 (2) Taxas de Crescimento 1994/99 (%) 401.010 642 0,2 47.637 11,9 352.731 88,0 35,7 -65,8 -6,3 Fonte: MEC/Inep/Seec. (1) Dados estimados. (2) Dados preliminares. Nota: O mesmo docente pode atuar em mais de um nível/modalidade de ensino e em mais de um estabelecimento. 19 45,3 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 mos tempos precisam ser redobrados para que se possa, nos próximos cinco anos, eliminar essa chaga. Em segundo lugar, a distorção série/idade continua sendo um problema grave. Mais da metade (54,3%) dos alunos da quinta série do ensino fundamental estão fora da idade. Além disso, há 7 milhões de jovens de 7 a 17 anos no ensino básico fora da idade ideal para a série que freqüentam.10 Outro dado que impressiona: 8,5 milhões de jovens matriculados no ensino fundamental tinham 15 anos ou mais e já deveriam estar no ensino médio. Dos alunos do ensino médio, 3,7 milhões de jovens tinham 18 anos ou mais. As ações para melhoria da qualidade da escola precisam ser incentivadas ao lado de um apoio maciço aos programas de aceleração do aprendizado e dos cursos supletivos presenciais ou à distância. Em terceiro lugar, o país possui ainda 600 mil professores de educação básica sem formação superior, situação que precisará ser alterada até 2007 por exigência da Lei de Diretrizes e Bases. Nesse esforço é muito importante o papel das universidades públicas e privadas e a busca de formas efetivas de financiamento dos futuros professores do ensino básico no caso das instituições particulares. E finalmente, em quarto lugar, temos hoje 7,8 milhões de alunos matriculados no ensino médio e as previsões indicam que em 2002 serão cerca de dez milhões. Hoje já há falta de vagas na rede pública em muitas regiões: aqui sim há necessidade de investimentos em construção de salas de aula ou reforma de edificações para acolher esse número crescente de jovens. Quanto mais rápido se corrigir o fluxo escolar do ensino fundamental, mais dramática será a situação de falta de vagas no ensino médio. Nesse caso, o futuro já chegou. Conseguiremos dar esse salto para o presente? fundamental. Em 1997 havia cerca de 18 milhões de alunos nas escolas estaduais de ensino fundamental e 12 milhões nas escolas municipais. Em 1999 as escolas estaduais “perderam” em torno de dois milhões de alunos e as municipais “ganharam” cerca de quatro milhões (MEC/Inep, 1999b). Essas são as boas notícias, mas há ainda um longo caminho a percorrer. O QUE FALTA FAZER Nas discussões, nem sempre fáceis, entre educadores e formuladores de políticas públicas para educação há uma unanimidade: em educação demora um certo tempo para que uma política implantada comece a apresentar seus resultados, mas os efeitos negativos da interrupção das ações é imediato. Não se está querendo dizer que essas ações não devam ser avaliadas periodicamente e, se for o caso, alteradas com base nessas avaliações. Mas mudar o rumo de acordo com os caprichos dos dirigentes governamentais, apenas para que cada dirigente deixe sua marca, é um erro gravíssimo de conseqüências irreversíveis muitas vezes para toda uma geração. Infelizmente, com algumas exceções, essa tem sido a prática no caso brasileiro. Nesse sentido, procurou-se nesse artigo não atribuir as vitórias alcançadas até aqui a este ou aquele nível de governo. Quem está ganhando é o país que pode hoje visualizar um quadro de inserção no novo século com um pouco mais de otimismo. E essa ressalva torna-se mais importante quando destacamos o que falta fazer. Não se pretende aqui abordar todos os aspectos da complexa realidade educacional, não só por falta de espaço, mas para não passar a sensação de que é uma tarefa impossível. Em primeiro lugar, o analfabetismo é sem dúvida ainda uma das evidências do atraso educacional do País, sobretudo em comparações internacionais. O Brasil segue exibindo uma das taxas de analfabetismo mais elevadas da América Latina, na população com 15 anos ou mais de idade. Em números absolutos, são 15,8 milhões de pessoas, sem considerar os analfabetos funcionais cuja contagem é muito mais complexa. Apesar da redução dessas taxas mostradas anteriormente, observa-se ainda uma forte tendência de regionalização do analfabetismo e sua concentração nas áreas rurais das regiões Norte e Nordeste e na periferia dos grandes centros urbanos. Embora óbvio, vale destacar que pobreza e analfabetismo caminham juntos. Os esforços de toda a sociedade que temos assistido nos últi- NOTAS 1. Refiro-me à trilogia desenvolvida por Castells (1999): A Sociedade em Rede (vol. 1), O Poder da Identidade (vol. 2) e Fim de Milênio (vol. 3). 2. A educação básica segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira engloba oito séries do ensino fundamental mais três séries do ensino médio. 3. A população na faixa de 7 a 14 anos em 1980 era de 23.009.608 (Fundação IBGE), os jovens matriculados nas oito séries do ensino fundamental eram 22.598.254 (MEC/Inep/Seec) dos quais apenas 18.476.634 tinham entre 7 e 14 anos (MEC/Inep/Seec). Como se vê havia 4.121.620 jovens com mais de 14 anos matriculados no ensino fundamental e 4.532.974 jovens entre 7 e 14 anos fora da escola. 4. Os dados não incluem a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. 5. Um bom exemplo desse fato foi a última campanha eleitoral para Governador em São Paulo, em que o candidato Paulo Maluf apresentou como plataforma eleitoral a proposta de acabar com a promoção automática e com os ciclos. Incluía 20 UM SALTO PARA O PRESENTE: A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL nos seus programas depoimentos de mães, com seus filhos ao lado, dizendo: “Imaginem ... este menino não sabe ler nem escrever e passou para a segunda série”. Com esse “estímulo” público dificilmente essa criança irá aprender um dia, pois sua auto-estima está sendo precocemente destruída. tismo entre os jovens é muito mais acentuada na população feminina. Na faixa de 15 a 19 anos, a taxa é de 7,9% para os homens e 4,0% para as mulheres. Na população com faixa etária entre 20 e 24, a taxa de analfabetismo é de 8,7% para os homens e de 5,5% para as mulheres. No grupo com faixa etária entre 25 e 29, a taxa é de 10% para os homens e de 6,4% para as mulheres. Entre a população na faixa entre 30 e 39 anos, o índice de analfabetismo é de 11% para os homens e de 9,4% para as mulheres” (MEC, 2000). 6. Sobre os programas de aceleração de aprendizagem promovidos pelo Ministério da Educação, pelas secretarias estaduais, municipais e organizações nãogovernamentais como a Fundação Ayrton Senna (Programa Acelera Brasil), ver: Setúbal (2000). 10. Há 44 milhões de jovens entre 7 e 17 anos matriculados no ensino básico, enquanto a população nesta faixa etária é de 37 milhões. 7. O Programa Alfabetização Solidária, uma parceria entre o Ministério da Educação, o Conselho do Programa Comunidade Solidária, universidades e faculdades (eram 171 em 1999), empresas (eram 53 em 1999), prefeituras municipais (eram 866 em 1999, atingindo os municípios com os mais altos índices de analfabetismo do país, e mais Rio de Janeiro e São Paulo), já tinha alfabetizado entre 1995 e 1999 cerca de 800 mil jovens e adultos que estavam, ao sair dos primeiros seis meses de aprendizagem, aptos a iniciar o supletivo de primeiro grau. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 8. Para as populações pobres, a merenda escolar ainda é uma das políticas mais importantes para a manutenção das crianças na escola e para melhorar seu desempenho. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo, Paz e Terra, v.1, 1999. 9. “A década de 90 marca a virada das mulheres brasileiras, que ultrapassaram os homens em nível de escolarização. A proporção de pessoas analfabetas já é significativamente menor entre as mulheres do que entre os homens em todos os grupos com até 29 anos de idade. As mulheres também superaram os homens em número médio de anos de estudos e, nas salas de aula, reinam absolutas: 85% dos 1,6 milhão de professores da educação básica em todo o país são do sexo feminino. Elas são maioria entre os alunos do ensino médio, do ensino superior e entre os alunos da 5 a à 8a série do ensino fundamental. Em 1998, elas somavam 56% do total de alunos matriculados no ensino médio e 54% dos alunos do ensino superior. De acordo com a última contagem populacional da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 1996, a queda do analfabe- MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Educação brasileira: políticas e resultados. Brasília, 1999. __________ . O poder da identidade. São Paulo, Paz e Terra, v.2, 1999. __________ . Fim de milênio. São Paulo, Paz e Terra, v.3, 1999. __________ . “Indicadores de educação no Brasil”. Boletim. Assessoria de Comunicação Social – MEC, 29 fev. 2000. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS. Desempenho do sistema educacional brasileiro: 1994-1999. Brasília, 1999a. __________ . Censo escolar 1999. Brasília, 1999b. SETÚBAL, M.A. (org.). Revista Em Aberto. Brasília, MEC/Inep, v.17, n.71, jan. 2000. 21 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 HISTÓRIAS INFANTIS E AQUISIÇÃO DE ESCRITA VERA LUCIA BLANC SIMÕES Fonoaudióloga, Mestre em Lingüística pela FFLCH-USP Resumo: Atualmente, um dos grandes desafios enfrentados na área da educação infantil é o de conseguir adaptar à sala de aula uma prática pedagógica que atenda às necessidades das crianças que já estão “vivendo” o processo de aquisição de leitura e escrita. Discutindo sobre esse processo, e também a respeito da relevância do papel que cumpre a literatura infantil, tenta-se atenuar as soluções para a questão, levantando algumas sugestões práticas que se baseiam nas correlações encontradas. Palavras-chave: ensino; aprendizagem; literatura infantil; pedagogia. S egundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil – Documento Introdutório, “as instituições de educação infantil (pré-escolas) cumprem hoje, mais do que nunca, um objetivo primordial na formação de crianças que estejam aptas para viver em uma sociedade plural, democrática e em constante mudança (...) Ela deve intervir com intencionalidade educativa de modo eficiente visando a possibilitar uma aprendizagem significativa e favorecer um desenvolvimento pleno, de forma a tornar essas crianças cidadãs numa sociedade democrática” (MED/SEF, 1998). Um dos desafios a enfrentar hoje na educação infantil é o de conseguir adaptar uma prática pedagógica voltada para atender às necessidades da criança, que, como será visto, já está vivendo os processos envolvidos na aquisição da linguagem escrita, em todos os seus aspectos. Especificamente em relação à alfabetização, o objetivo a ser alcançado não é mais o de “preparação”, desenvolvimento de prontidões para o ensino fundamental, como se acreditava até então. Atualmente, a alfabetização deixou de ser encarada como um momento estanque e passou a ser compreendida como um processo, no qual a pré-escola (educação infantil) tem papel ativo e constitutivo. Portanto, torna-se necessário estimular cada vez mais o interesse da criança para que, embora carregado de significados, o aprendizado não se perca no curso do tempo. A criança aprende se desenvolvendo e se desenvolve aprendendo. Ao relacionar os aspectos envolvidos na aquisição da escrita com a relevância de oportunidades que a prática de leitura de histórias infantis pode oferecer, pretende-se expor algumas sugestões práticas que podem ser desenvolvidas no ambiente escolar, de forma a atenuar as respostas para esse desafio. APENAS PARA LEMBRAR... Em uma sociedade que tem somente 6% de crianças na faixa etária de 0 a 6 anos freqüentando as instituições de educação infantil, das quais 37% são provenientes de famílias com renda superior a cinco salários mínimos, a preocupação com a qualidade do ensino oferecido a essas crianças, em especial na rede pública, poderia parecer secundária, já que não foi possível ainda sequer atingir uma camada significativa da população brasileira que, a partir da Constituição de 1988, adquiriu direito legal à educação em creches e pré-escolas. Felizmente, a publicação nos últimos anos de diversos estudos vem permitindo que se discuta qual é o papel da educação infantil no processo de aprendizado da criança, e também qual seria a melhor maneira de fazer valer esse papel em nossa sociedade. Numa cultura ágrafa, essas preocupações não teriam tanto sentido, mas nossas crianças, especialmente as oriundas de classes mais baixas, estão inseridas em uma sociedade 22 HISTÓRIAS INFANTIS E AQUISIÇÃO DE ESCRITA esperado de um lobo, de um leão, de uma raposa, de um príncipe; delimitadores iniciais e finais (‘era uma vez... e viveram felizes para sempre’) e estruturas lingüísticas mais elaboradas, típicas da linguagem literária. Aprende pela experiência o som de um texto escrito lido em voz alta”. Essa forma de contato com a linguagem escrita, por outro lado, também oferece, ainda que subliminarmente, informações sobre um dos papéis funcionais que ela pode desempenhar dentro da comunicação. Do ponto de vista psicológico, podemos refletir sobre o impacto e a fascinação que as histórias exercem sobre a criança, de qualquer raça, faixa etária ou inserção social, tanto normal quanto portadora de algum distúrbio (de origem física, psíquica ou funcional). As histórias são um denominador comum a todas as crianças. Assim, para que uma história realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Mas, para enriquecer sua vida, deve estimular sua imaginação, ajudando-a em seu desenvolvimento intelectual, propiciando-lhe mais clareza em seu universo afetivo, auxiliando-a a reconhecer, mesmo de forma inconsciente, alguns de seus problemas e oferecendo-lhe perspectivas de soluções, mesmo provisórias. Muito mais do que um adulto, a criança vive as experiências do tempo presente, e possui apenas vagas noções do futuro, mesmo assim de caráter imediato. Portanto, suas ansiedades frente a eventuais problemas e angústias do cotidiano são supostamente bastante profundas, e é justamente no enriquecimento de seus recursos internos para enfrentá-las que as histórias infantis são um benefício. “É exatamente a mensagem que os contos de fada transmitem à criança de forma múltipla: que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana – mas que, se a pessoa não se intimida mas se defronta de modo firme com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os obstáculos, e ao fim emergirá vitoriosa” (Bettelheim, 1985). Segundo o autor, que elegeu especialmente os contos de fada e suas relações benéficas para o desenvolvimento psíquico da criança como objeto de seus estudos, a maioria das histórias tem seu enredo desenvolvido baseando-se na equação: estabilidade + problema + solução = estabilidade, e trabalha assim uma série de ansiedades da criança. Especialmente os contos de fada que tratam de assuntos existenciais, como morte de progenitores, perigos, o mal e o bem, etc. Eles colocam dilemas existenciais de forma simples e categórica, o que possibilita à criança experienciar o problema de forma mais letrada que, além das desigualdades e injustiças a que as submete, discrimina quem não é alfabetizado, considerando-o inferior. Portanto, apropriar-se da linguagem escrita pode oferecer futuramente a essas crianças maiores possibilidades de inserção social e conquista de autonomia. Segundo Vygotsky (1991:133), “ensinar a escrita nos anos pré-escolares impõe necessariamente que a escrita seja relevante à vida (...) que as letras se tornem elementos da vida das crianças, da mesma maneira como, por exemplo, a fala. Da mesma forma que as crianças aprendem a falar, elas podem muito bem aprender a ler e a escrever”. O PAPEL DA LITERATURA INFANTIL NA FASE INICIAL DA ESCRITA Contar histórias a uma criança pequena é uma atividade bastante corriqueira, nas mais diversas culturas do mundo e em várias situações, tanto no âmbito familiar como no escolar. Como se sabe, essa prática vem se reproduzindo através dos tempos de maneira quase intuitiva. Contudo, alguns estudos já demonstraram o importante papel que as histórias desempenham nos processos de aquisição e desenvolvimento da linguagem humana. As histórias infantis são utilizadas geralmente pelos adultos interlocutores (sejam pais, professores ou terapeutas) como forma de entretenimento ou distração; já que, pelo senso comum, freqüentemente a criança sempre demonstra um interesse especial por elas, seja qual for a classe social à qual pertença. Especificamente em se tratando da aquisição da leitura e da escrita, essas histórias podem oferecer muito mais do que o universo ficcional que desvelam e a importância cultural que carregam como transmissoras de valores sociais. Existe uma acentuada diferença entre as histórias contadas e as histórias lidas para uma criança, já que a linguagem se reveste de qualidade estética quando escrita, e essa diferença já pode ser percebida por ela. Britton (apud Kato, 1997:41) já afirmava que, “ao ouvir histórias, a criança vai construindo seu conhecimento da linguagem escrita, que não se limita ao conhecimento das marcas gráficas a produzir ou a interpretar, mas envolve gênero, estrutura textual, funções, formas e recursos lingüísticos. Ouvindo histórias, a criança aprende pela experiência a satisfação que uma história provoca; aprende a estrutura da história, passando a ter consideração pela unidade e seqüência do texto; associações convencionais que dirigem as nossas expectativas ao ouvir histórias; o papel 23 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 qual um organismo não se desenvolve plenamente sem o suporte de outros de sua espécie, o que afirma que todo conhecimento se constrói socialmente. Durante todo o percurso do desenvolvimento das funções psicológicas, culturalmente organizadas, é justamente esse aspecto cultural, social, de interação com o outro, que desperta processos internos desse desenvolvimento. É o contato ativo do indivíduo com o meio, intermediado sempre pelos que o cercam, que faz com que o conhecimento se construa. Especialmente em se tratando da linguagem, o indivíduo tem papel constitutivo e construtivo nesse processo (ele não é passivo: percebe, assimila, formula hipóteses, experimenta-as, e em seguida reelabora-as, interagindo com o meio). O que lhe proporciona, portanto, modos de perceber e organizar o real é justamente o grupo social (a interação que ele faz com esse grupo). É este que determina um sistema simbólico-lingüístico permeador desses modos de representação da realidade. Ainda segundo o autor, o pensamento e a linguagem estão intimamente relacionados na medida em que o pensamento surge pelas palavras. A significação é a força motriz para essa relação: não é o conteúdo de uma palavra que se modifica, mas a maneira pela qual a realidade é generalizada e refletida nela. E são exatamente essas construções de significados que a criança vai desenvolvendo internamente (como uma linguagem interna, seu modelo de produção do pensamento) que partem da fala socializada, da fala dos outros que a cercam. Foi sobretudo Bakhtin (1992) que, indo mais além, explicitou teoricamente essa posição dialógica sobre a natureza da linguagem. Segundo ele, é o diálogo a unidade real da língua. Ao observar as situações de diálogo produzido interativamente, pode-se perceber que a fala é “polifônica”, que existem numerosas vozes atuando: a voz interna, a voz do outro, a própria voz...; vozes caracterizadas pelas convergências e divergências presentes no discurso dialógico, que propiciam diversas mudanças de posição que o sujeito pode fazer, apreendendo, assim, várias facetas da realidade em que vive e representando-a internamente de forma mais completa. Essa construção, portanto, baseia-se no que ele chamou de uma interação socioverbal. A linguagem é a expressão e o produto da interação social de quem fala com quem fala, acrescida do tópico do discurso. Para Mayrink-Sabinson (1995), a linguagem seria uma atividade que constitui não somente o sujeito e a alteridade que descobre exercer, mas também a si própria: “Dessa forma, o processo de aquisição da linguagem oral e escri- essencial e trabalhar suas angústias com mais nitidez. Ele ainda coloca que, “aplicando o modelo psicanalítico da personalidade humana, os contos de fada transmitem importantes mensagens à mente consciente, à pré-consciente e à inconsciente, em qualquer nível que esteja funcionando no momento. Lidando com problemas humanos universais, particularmente os que preocupam o pensamento da criança, estas histórias falam ao ego em germinação e encorajam seu desenvolvimento, enquanto ao mesmo tempo aliviam as pressões pré-conscientes e inconscientes. À medida que as histórias se desenrolam, dão validade e corpo às pressões do id, mostrando caminhos para satisfazê-las que estão de acordo com as requisições do ego e do superego” (Bettelheim, 1985). Tratando também dessa dimensão, segundo Winnicott (apud Postic, 1993:18), todos nós necessitamos de uma área de ilusão paralela ao mundo real (ou das trocas sociais). Esse espaço interno é responsável pela transição entre o consciente e o inconsciente, movimento que garante o equilíbrio do indivíduo. Por suas atividades diárias, a criança tem contato com o real, com os outros. Ao mesmo tempo, sua imaginação se desenvolve, pois ela toma consciência de seus limites, vive conflitos, experimenta emoções contraditórias e tem muitas dúvidas que não consegue esclarecer. Para tentar resolvê-las e dominar suas angústias, impulsionada por sua curiosidade, ela procura sonhar, imaginar. E, se conseguir canalizar esse mundo imaginário em ações no mundo real, ela desenvolve a capacidade de criação. Os desenhos, as narrativas, enfim, são maneiras de agir para dominar as emoções; as explosões de sonhos e imagens são dirigidas então para a criação. Portanto, a criança deve conseguir alimentar seu imaginário e expressá-lo. Desenvolver a função simbólica por meio de textos, imagens e sons é uma forma de sustentá-lo. SOBRE AQUISIÇÃO DA LEITURA E ESCRITA: ALGUMAS REFLEXÕES E PROPOSIÇÕES Muito se tem pesquisado e discutido em diversas áreas do conhecimento sobre o que acontece durante a aquisição e o desenvolvimento da linguagem no ser humano. Os processos envolvidos nesse percurso têm sido observados de diversos pontos de vista, e as discussões a respeito se multiplicam. Vygotsky, entre outros estudiosos do assunto, buscando compreender a origem e o desenvolvimento dos processos psicológicos do indivíduo (abordagem genética), postula um enfoque sociointeracionista para a questão, no 24 HISTÓRIAS INFANTIS E AQUISIÇÃO DE ESCRITA oral. Ela faz então várias tentativas para estabelecer uma relação entre a produção oral e a produção gráfica, entre o som e a grafia. E começa, com essas tentativas, a relacionar o que escreve com as sílabas das palavras faladas que deseja representar. Entretanto, com seu conhecimento prévio sobre o material escrito, utiliza-se de letras que podem não representar os respectivos sons. Ela percebe nessa fase que pode escrever tudo o que deseja, mesmo que aquilo que expressa graficamente não possa ser decifrado por outras pessoas. Também nessa fase, pode aceitar relutante o fato de escrever palavras menores com poucas letras ou ainda pode se usar, ao escrever uma frase, uma letra somente para uma palavra inteira. A criança passa, então, a conviver com esses dois tipos de correspondência entre a grafia e o som, adentrando assim no nível silábico-alfabético. E começa também a experienciar um conflito, já que é capaz agora de perceber que existe uma representação gráfica correspondente a cada som (percebe a relação entre grafema e fonema). Ela vai reformulando sua hipótese anterior, silábica, que lhe parece insuficiente, e vai alternando sua produção entre essa e a alfabética propriamente dita. Com suas tentativas e reformulações, ela evolui para o nível alfabético, que se estabelece mais firmemente sobre sua percepção da relação entre a grafia e o som. Ela já consegue aceitar que a sílaba é composta de letras que devem ser representadas distintamente, e se torna capaz de perceber outras características da comunicação gráfica, tais como as diferenças entre letras, sílabas, palavras e frases, ainda que ela falhe nessas representações. Vale a pena ressaltar que, em seus estudos, Ferreiro e Teberosky (1985) encontraram crianças que mostram uma seqüência de três níveis evolutivos; em outras, uma seqüência apenas de dois níveis – por exemplo, do pré-silábico ao silábico, ou do pré-silábico ao silábico alfabético, saltando um nível; ou ainda, em menor número, crianças que passam diretamente do nível pré-silábico ao alfabético. Para Mayrink-Sabinson (1995), o trabalho desenvolvido por Ferreiro e colaboradores é centrado em um sujeito considerado idealizado e universal, e descreve as transformações efetuadas por ele. O sujeito age sobre as informações que recebe do ambiente e produz a própria linguagem por meio de esquemas assimilados previamente construídos, deixando de lado uma explicitação teórica sobre o contexto, com o qual os indivíduos agem continuamente e tem papel mediador e, portanto, constitutivo, em todo o processo da aquisição da linguagem escrita. A au- ta como parte do mesmo processo geral de constituição da relação entre o sujeito e a linguagem, estabelecida por meio da dialogia entre sujeitos que se constituem em outros, para seus interlocutores, num movimento contínuo, o qual implica a internalização e tomada da fala do outro pelo sujeito, ao mesmo tempo que dela se distancia para torná-la sua própria.” Especificamente em relação à linguagem escrita, podemos pensar, portanto, que a criança, mesmo antes de ler e escrever as primeiras letras, já participa ativamente dos processos envolvidos nessa aquisição. Ela percebe, analisa, formula suas hipóteses sobre a leitura e a escrita a que está exposta em seu cotidiano. Seria, então, até inadequado imaginar que uma criança em idade pré-escolar não tenha competência e condições de apreender as diversas características da comunicação gráfica. Segundo Contini (1988), uma criança exposta a um ambiente propício, ou seja, material escrito e pessoas que o manuseiem, incluindo a própria criança, já estaria apreendendo seus usos e funções como forma de comunicação antes mesmo dos dois anos de idade. Foram os estudos sobre o que seria a psicogênese da linguagem escrita de Ferreiro e Teberosky (1985) que lançaram uma nova luz sobre as tentativas de descrever as etapas pelas quais a criança passa durante o processo da aquisição. Segundo as autoras, a criança, durante o período de contato com os sinais gráficos, vai evoluindo gradativamente. Essa evolução foi caracterizada em quatro grandes níveis: pré-silábico, silábico, silábico-alfabético e alfabético. No nível pré-silábico, observaram a presença de produções gráficas em que não existe correspondência entre a grafia e o som. A criança nessa fase não demonstra preocupação em diferenciar critérios para suas produções, que se constróem a partir de traços idênticos, garatujas ou grafismos primitivos. Não se percebe tampouco controle da quantidade de letras utilizadas para representar o que se quer escrever. Portanto, a criança não se utiliza de uma palavra escrita para simbolizar graficamente um objeto. Também é nessa fase que se observam as ocorrências do realismo nominal, quando conforme Carraher (1986) e Rego (1990), por exemplo, a criança usa muitas letras para simbolizar objetos grandes e poucas para pequenos, demonstrando assim sua hipótese na qual a representação gráfica de um objeto está diretamente relacionada a um de seus atributos. Já o nível silábico se delimita quando a criança percebe que é possível representar graficamente a linguagem 25 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 histórias deve deixar de ser meramente uma distração para evitar a dispersão do grupo. É um momento rico que deve ser explorado ao máximo por todos. É evidente que, em sala de aula, muitas vezes existe o fator agravante do grande número de crianças por professor. Quanto ao espaço físico, o ambiente deve ser previamente preparado: o mais adequado seria que o educador procurasse encontrar a posição mais natural possível para que todas as crianças estivessem unidas, se sentissem estimuladas para esse momento, estivessem tranqüilas e tivessem acesso visual ao livro que está sendo lido – colocando o livro no chão com as crianças em volta dele, ou segurando-o de forma expositiva, de frente para elas, e, se necessário, apontando para as figuras e para o texto. Reiteramos que é muito importante que o educador fique atento para garantir que todas as crianças (até aquelas mais tímidas, que têm vergonha de reclamar) possam visualizar o livro. As imagens, nessa faixa etária, exercem maior fascínio sobre elas, e na prática podemos notar a ansiedade que experimentam quando não enxergam o que está sendo lido. Apesar de ser importante que as histórias sejam vivenciadas pelas crianças, especialmente as mais novas, de diversas maneiras (contar histórias sem ler, representálas em dramatizações, assisti-las em filmes e projeções, etc.), nos momentos de leitura, o educador deve sempre procurar ser literal e dar certo caráter interpretativo a sua leitura, usando variações de entonação (inclusive para caracterizar a prosódia), de forma clara e agradável. Reduzir ou modificar o texto escrito, transformando-o em linguagem coloquial, priva a criança de experimentar e perceber auditivamente as características que a linguagem escrita carrega (que diferem da linguagem oral). Mesmo que o vocabulário lhes seja desconhecido, encontra-se aí uma boa oportunidade de enriquecê-lo, a partir, sobretudo, das perguntas que elas podem e devem sempre poder elaborar. Não só as perguntas são importantes, mas o conhecimento de mundo que compartilham tem de ser aumentado. O educador deve procurar agir como elemento incentivador do interesse das crianças pelo enredo, comportando-se não somente como leitor (mediador) das histórias mas, também, demonstrando entusiasmo e curiosidade, como mais um ouvinte – participante no mundo do imaginário. Essa postura deve ser reforçada particularmente quando escutar as posteriores “leituras” que as crianças fazem das histórias lidas. Outro critério importante à preparação dessa atividade: o da escolha do livro a ser trabalhado. Como o objeti- tora desenvolveu um estudo calcado em pesquisas sobre as relações entre mãe e criança pré-escolar durante o processo de aquisição, no qual enfoca o papel do interlocutor adulto letrado em suas interpretações das produções gráficas do sujeito. Essas interpretações é que atribuem um significado para as produções da criança – suas representações gráficas (das garatujas às seqüências de letras) –, e assim o adulto passa também por transformações como interlocutor em seus modos de ação. A partir de então, sua fala sobre as produções apresentadas pela criança também é retomada, modificada, enriquecida e transformada por ela e o inverso também ocorre, modificando assim a escrita da criança. O adulto passa a admitir em suas conclusões que se forma nesse contexto uma verdadeira situação dialógica durante o processo de aquisição da escrita, já que o interlocutor e o sujeito vão progredindo e se transformando reciprocamente. Assim, podemos dizer que a leitura e a escrita já não podem ser encaradas meramente como atos de codificação e decodificação, de identificação de palavras, ou até mesmo simplesmente como um processo envolvido com os movimentos oculares e maturação neurofisiológica. Elas envolvem uma gama de outros processos que propiciam a aquisição desse “novo” código pela criança, mas que está inserida num contexto mais amplo de aquisições de linguagem que perdura até a fase adulta. E é nesse sentido que aprender a ler e a escrever implica a constante construção de significado dessas atividades. SUGESTÕES Alguns estudos, como já evidenciado anteriormente, constataram o sucesso alcançado no processo de alfabetização por crianças que, no ambiente familiar, tiveram um contato substancial com a literatura infantil. Essas situações oferecidas a elas são rodeadas de um clima rico em afetividade e segurança, que propicia interação com seus interlocutores adultos de forma bastante natural, com a atenção individualizada que podem receber. Portanto, o prazer e o conforto que a criança sente em sua casa deve sempre estar presente nas atividades na escola. É importante que a criança esteja certa de que pode fazer perguntas e interferir nesses trabalhos, para que se sinta encorajada a exteriorizar seus pensamentos e emoções. Assim, a linguagem escrita adquire um caráter de maior proximidade, e os momentos de interação com o educador (interlocutor letrado) e com as outras crianças é garantido. A leitura de 26 HISTÓRIAS INFANTIS E AQUISIÇÃO DE ESCRITA que também lhes oferece outra informação sobre os possíveis usos da escrita) ou por gravações em áudio e/ou vídeo. “... A criação não surge do nada. Eis por que defendemos a necessidade da leitura por parte da professora e o incentivo à reprodução de histórias pelas crianças como um ponto de partida importante para o surgimento de uma segunda etapa deste processo: o momento da criação. Nada impede, porém, que esse momento seja estimulado, propondo-se às crianças que criem seus próprios livros e produzam textos, mesmo que ainda não estejam alfabetizadas (...) O arquivo dessas produções permitirá também acompanhar o desenvolvimento dos esquemas narrativos das crianças e a incorporação do estilo escrito às suas produções orais” (Rego, 1990). A autora salienta ainda que a criança, em princípio, demonstra em suas reproduções orais muito da fala coloquial, e que é necessário certo tempo para que se observem as características da linguagem escrita em seus discursos. A criança atravessa um período de “hibernação” para que a capacidade de criação de narrativas para textos escritos se desenvolva, refletindo assim os processos construtivos da linguagem. Para o desenvolvimento de atividades que propiciem à criança incentivo à escrita, um estudo sobre a similaridade dos sons entre as palavras, estimulando-a em sua percepção e discriminação auditiva, e que, no decorrer do tempo, se transforme em associação com a escrita, já pode ser iniciado na pré-escola (educação infantil), o que, evitaria a cisão no processo de alfabetização, em que a fase pré-escolar é considerada apenas preparatória à alfabetização formal do ensino fundamental. Um bom exemplo a ser citado seria leituras e jogos com rimas (parlendas, poemas, etc.), nos quais a criança “experimenta” auditivamente as semelhanças sonoras, e, em outro momento, representa graficamente essas palavras, ao fazer a relação entre fonemas e grafemas. vo é o de oferecer, pela leitura de histórias, um contato significativo das crianças com a linguagem escrita, ao selecionar materiais, o educador deve ter sua atenção voltada para a qualidade da criação, a estruturação da narrativa e suas adequações à língua materna, procurando não perder de vista o interesse manifestado pelas crianças. Dessa maneira, é aconselhável que essas atividades se iniciem por leituras de textos mais curtos (com o cuidado de não serem simplistas a ponto de perderem a estrutura narrativa e se limitarem a frases, figuras e palavras soltas), que podem e devem, com o decorrer do tempo, se tornar mais complexos. O educador também deve ter em mente, ao realizar sua seleção, outros aspectos, além da aquisição de linguagem, envolvidos no processo de desenvolvimento: o cognitivo, o afetivo-emocional. Selecionar esses textos envolve, antes de tudo, bom senso e cuidado especial para adequá-los, inclusive, a situações vividas pelas crianças em determinadas épocas, podendo-se utilizar histórias que estejam de acordo com as experiências que elas trazem para a escola (por exemplo, ler uma história de viagens, como Família Robinson, depois das férias escolares). Outra questão a ser tratada diz respeito à freqüência dessas atividades. A leitura de histórias tem maior eficácia conforme sua recorrência aumenta. Crianças nessa faixa etária costumam até mesmo solicitar a repetição da leitura. A proposta é que ela se incorpore à rotina diária na escola, o que não necessariamente implica textos sempre diferentes; “... As crianças que escutam leituras desenvolvem naturalmente um interesse em aprender determinadas histórias e em reproduzi-las oralmente como se estivessem lendo (...) O grupo termina por estabelecer o seu repertório de histórias favoritas, aquelas com as quais as crianças mais se identificam e cujas leituras costumam imitar” (Rego, 1990). O desdobramento da leitura de histórias em outras atividades relacionadas é fundamental na perpetuação do significado para a criança. O educador poderia solicitar, por exemplo, que a criança reproduza oralmente as narrativas lidas por ele. Nesse sentido, seria interessante também estimular que a criança “leia” as histórias (leitura de “faz-de-conta”) para seus colegas. Essas atividades de retomada das histórias podem ir se desdobrando, por sua vez, em outras, como desenhos, dramatizações, etc. Salientamos aqui que o registro dessas atividades decorrentes da leitura pode ser feito de várias formas, sempre com a participação das crianças, seja por escrito (o CONCLUSÃO Não há necessidade de esperar pela alfabetização formal para que as crianças se envolvam com a leitura de histórias infantis e a produção de textos. Entretanto, para que elas se tornem efetivamente leitoras e autoras dos próprios textos, faz-se necessário que, em algum momento do processo de alfabetização, tenham não somente adquirido conhecimentos específicos do código alfabético, mas também (e sobretudo) dos aspectos lingüístico-discursivos em que ele se insere. 27 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 Afinal, parafraseando Smolka (1993): “Não se ‘ensina’ ou não se ‘aprende’ simplesmente a ler e a escrever. Aprende-se uma forma de linguagem, uma forma de interação, uma atividade, um trabalho simbólico.” CONTINI, J. “A concepção do sistema alfabético por crianças em idade préescolar”. In: KATO, M.A. (org.). A concepção da escrita pela criança. Campinas, Pontes, 1988. FERREIRO, E. e TEBEROSKY, A. A psicogênese da língua escrita. Porto Alegre, Artes Médicas, 1985. KATO, M.A.; MOREIRA, N. e TARALLO, F. Estudos em alfabetização. Campinas, Edusf/Pontes, 1997. MAYRINK-SABINSON, M.L.T. “Um evento singular”. In: ABAURRE M.B.M. Cenas de aquisição da escrita. Campinas, ABL/Mercado das Letras, 1995. NOTA MINISTÉRIO da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. “Introdução”. Referencial curricular nacional para educação infantil. Brasília, v.1, MED/SEF, 1998. E-mail da autora: [email protected] POSTIC, M. O imaginário na relação pedagógica. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1993. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS REGO, L.L.B. Literatura infantil: uma nova perspectiva da alfabetização na pré-escola. São Paulo, FTD, 1990. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. E.G.G. Pereira. São Paulo, Martins Fontes, 1992. SMOLKA, A.L.B. A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo. São Paulo, Cortez, 1993. VYGOTSKY, L.S. Pensamento e linguagem. Trad. Jeferson Luiz Camargo. São Paulo, Martins Fontes, 1987. BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fada. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1985. __________ .Formação social da mente. Trad. José Cipolla Neto et alii. São Paulo, Martins Fontes, 1991. CARRAHER ,T.N. (org.). Aprender pensando. Petrópolis, Vozes, 1986. 28 APRENDIZAGEM DE JOVENS E ADULTOS: AVALIAÇÃO DA DÉCADA DA EDUCAÇÃO... APRENDIZAGEM DE JOVENS E ADULTOS avaliação da década da educação para todos SÉRGIO HADDAD Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Presidente da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais e Secretário Executivo de Ação Educativa MARIA CLARA DI PIERRO Assessora da Organização Não-Governamental Ação Educativa Resumo: O artigo avalia a satisfação do direito básico da cidadania à alfabetização e ao ensino básico, abordando a evolução da educação escolar de jovens e adultos no Brasil na década de 90. Analisa o desempenho dos indicadores de alfabetização, cobertura escolar e eqüidade, critica os limites do financiamento público, revela a tendência à descentralização do atendimento escolar e faz uma apreciação dos programas federais de educação de jovens e adultos em curso no final da década. Palavras-chave: políticas educacionais; educação de jovens e adultos; acesso à educação. E m 2000 se encerra a década em que países e organismos de cooperação internacional que participaram da Conferência Mundial de Educação para Todos (Jontiem, Tailândia: março de 1990) deveriam ter realizado esforços conjugados para satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem de crianças, jovens e adultos. No momento em que redigimos este artigo, ainda não havia se realizado a reunião da Cúpula Mundial de avaliação da década (Dakar, Senegal: abril de 2000), mas os encontros nacionais e regionais preparatórios, assim como os documentos preliminares, revelam que embora progressos tenham sido realizados, as metas formuladas em Jontiem não foram alcançadas em sua totalidade nem sequer pelos nove países sobre os quais a cooperação internacional concentrou esforços prioritários.1 Dentre as metas formuladas em 1990 e que estão sendo avaliadas em 2000, encontra-se a ampliação dos serviços de educação básica e capacitação de pessoas jovens e adultas. A metodologia proposta pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) sugere que se analise a ampliação das oportunidades escolares e extra-escolares para jovens e adultos proporcionadas por múltiplos provedores governamentais e não-governamentais, sua pertinência diante das necessidades de aprendizagem dos indivíduos e comunidades, considerando indicadores de eqüidade (territorial, de gênero, étnica e geracional), qualidade (formação dos edu- cadores, conteúdos, materiais e métodos) e gestão (políticas públicas, financiamento, legislação e avaliação). Recomenda ainda que a eficácia dos programas seja avaliada em função de mudanças de comportamento e de seus impactos na melhoria das condições de saúde, emprego e produtividade dos indivíduos e grupos. A complexidade desses indicadores de avaliação reflete o alargamento que o conceito de formação de adultos sofreu no período recente, passando a compreender uma multiplicidade de processos formais e informais de aprendizagem e educação continuada ao longo da vida.2 Uma avaliação dessa natureza implicaria abranger não só os programas de educação escolar de jovens e adultos, mas toda uma gama diversa de atividades socioculturais, de formação para a cidadania, de qualificação e atualização para o trabalho e para a geração de renda, promovidos por diferentes órgãos governamentais e não-governamentais, incluindo programas preventivos de saúde, de formação política e informação sobre direitos, de promoção de jovens, mulheres e idosos, capacitação de conselheiros e agentes comunitários, qualificação e atualização profissional, extensão agrícola, capacitação para o uso de recursos informáticos, aprendizagem de línguas estrangeiras, etc. A avaliação de impactos sobre as condições de vida da população, por sua vez, exigiria a realização de surveys de grande porte, combinados a estudos qualitativos, preferentemente longitudinais, que são raros ou 29 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 não se encontram disponíveis no acervo de pesquisas sobre educação de jovens e adultos no Brasil.3 Ainda que compartilhemos o conceito amplo de educação de jovens e adultos, não está ao nosso alcance realizar uma avaliação tão complexa e abrangente. No entanto, parece prioritário e viável apreciar alguns aspectos da educação escolar de jovens e adultos, não só por ser um objeto acessível e mensurável, mas também porque incide sobre um direito básico da cidadania que é o acesso à alfabetização e ao ensino básico para todos. no campo da educação das pessoas adultas. Entretanto, esses mesmos dados oferecem indícios de que os baixos índices de permanência e progressão no sistema de ensino público e seus escassos resultados qualitativos estejam reproduzindo continuamente um contingente numeroso de analfabetos funcionais,4 pois apenas um terço da população jovem e adulta concluiu os oito anos de escolaridade obrigatória e, mesmo entre os adultos jovens, o percentual daqueles que seguiram mais de três anos de estudos continua a ser reduzido. Na faixa etária de 15 a 19 anos, por exemplo, dois terços dos jovens não concluíram o ensino fundamental e 21,2% deles têm menos de quatro anos de estudos. DECLÍNIO DO ANALFABETISMO E EVOLUÇÃO DOS NÍVEIS DE ESCOLARIDADE A expansão de oportunidades educacionais observada no Brasil na segunda metade do século XX propiciou uma significativa elevação dos patamares de escolaridade da população, em especial do subgrupo feminino, que superou a situação de desvantagem em que se encontrava até o início da década de 90. Em 1996, entretanto, a escolaridade média da população brasileira situava-se em torno dos seis anos de estudos (Tabela 1), abaixo do mínimo estabelecido pela Constituição de 1988 como direito universal dos cidadãos, que corresponde aos oito anos do ensino fundamental. Os índices de analfabetismo absoluto, que vinham regredindo em ritmo lento ao longo do século XX, tiveram uma queda importante no transcorrer dos anos 90, declinando mais de cinco pontos percentuais entre 1991 e 1997 (Tabela 2). Pela primeira vez na história, o analfabetismo começa a recuar também em números absolutos. Essa aceleração do ritmo de alfabetização não será suficiente, porém, para que o Brasil cumpra em 2000 a meta assumida na Conferência Mundial de Educação para Todos, de reduzir o analfabetismo à metade dos índices de 1990. Embora o índice médio de analfabetismo absoluto tenha diminuído, a distribuição do fenômeno no território nacional continua a ser assimétrica, registrando-se taxas muito elevadas na região Nordeste e nas zonas rurais de todo o país (Tabela 3). A desagregação das estatísticas por faixas etárias permite verificar que a elevação das taxas de alfabetização está diretamente relacionada aos grupos etários mais jovens (Tabela 4). Há, pois, evidências de que os progressos observados resultam antes da democratização das oportunidades educacionais na infância e adolescência que dos esforços empreendidos ao longo das últimas décadas TABELA 1 Evolução do Número Médio de Anos de Estudo, por Sexo Brasil – 1960-1996 Anos Homens Mulheres 1960 2,4 1,9 1970 2,6 2,2 1980 3,9 3,5 1990 5,1 4,9 1995 (1) 5,4 5,7 1996 (1) 5,7 6,0 Fonte: Relatório sobre o desenvolvimento humano no Brasil. Ipea/PNUD, 1996. (1) Dados calculados pelo MEC/INEP/Seec com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, exclusive a população rural da região Norte. TABELA 2 Evolução do Analfabetismo entre Pessoas de 15 Anos ou Mais Brasil – 1900-1997 Analfabetos Anos Total Nos Abs. % 1900 9.752.111 6.348.869 65,1 1920 17.557.282 11.401.715 64,9 1940 23.709.769 13.269.381 56,0 1950 30.249.423 15.272.632 50,5 1960 40.278.602 15.964.852 39,6 1970 54.008.604 18.146.977 33,6 1980 73.541.943 18.716.847 25,5 1991 95.837.043 19.233.758 20,1 1997 - - 14,7 Fonte: Fundação IBGE. Censos Demográficos, apud Anuário Estatístico 1995. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD 1997. 30 APRENDIZAGEM DE JOVENS E ADULTOS: AVALIAÇÃO DA DÉCADA DA EDUCAÇÃO... TABELA 3 População de 15 Anos ou Mais sem Instrução, por Situação de Domicílio Brasil – 1996 Total Regiões Urbano Sem Instrução Sem Instrução População Sem Instrução População Nos Abs. Brasil Rural População % Nos Abs. % N os Abs. % 107.123.186 13.957.975 13,03 85.794.435 8.239.086 9,60 21.328.715 5.718.889 26,81 6.846.024 1.077.373 15,74 4.404.695 479.103 10,88 2.441.329 598.270 24,51 28.768.005 6.815.364 23,69 19.413.139 3.226.940 16,62 9.354.866 3.588.424 38,36 7.123.827 785.800 11,03 6.050.031 571.982 9,45 1.073.796 213.818 19,91 Sudeste 47.836.988 4.006.782 8,38 43.074.402 3.105.504 7,21 4.762.596 901.278 18,92 Sul 16.548.332 1.272.656 7,69 12.852.168 855.557 6,66 3.696.164 417.099 11,28 Norte Nordeste Centro-Oeste Fonte: Fundação IBGE.Contagem da população 1996. TABELA 4 População de 15 Anos ou Mais, por Anos de Estudo, segundo Faixas Etárias e Situação do Domicílio Brasil – 1996 Anos de Estudo Faixas Etárias/ Situação do Domicílio Total Nenhuma Nos Abs. Total Menos de 1 Ano % N os Abs. 13,1 1.226.355 De 1 a 3 Anos % N os Abs. % De 4 a 7 Anos N os Abs. % De 8 a 11 Anos 12 Anos ou Mais Nos Abs. % Nos Abs. % 106.623.851 14.018.960 1,1 19.418.606 18,2 36.085.455 33,8 28.515.093 26,7 7.359.382 6,9 15 a 19 Anos 16.507.321 618.434 3,7 275.818 1,1 2.716.859 16,4 17.488.217 45,4 5.280.401 32,0 127.589 0,7 20 a 24 Anos 14.295.099 732.412 5,1 96.735 0,7 2.070.332 14,5 5.155.324 36,0 5.259.255 36,8 981.041 6,8 25 a 29 Anos 12.875.554 833.198 6,5 78.110 0,6 1.926.689 15,0 4.496.603 34,9 4.445.857 34,5 1.095.097 8,5 30 a 34 Anos 12.304.342 930.617 7,6 82.942 0,7 1.990.736 16,2 4.102.187 33,3 3.990.193 32,5 1.207.667 9,8 35 a 39 Anos 10.721.075 1.015.622 9,5 89.929 0,8 1.874.474 17,5 3.573.592 33,3 3.029.643 28,2 1.137.815 10,6 40 a 44 Anos 9.178.837 1.133.383 12,3 93.592 1,0 1.800.125 19,6 2.921.535 31,8 2.257.408 24,6 972.794 10,5 45 a 49 Anos 7.405.722 1.261.159 17,0 92.091 1,2 1.638.091 22,1 2.259.993 30,5 1.452.560 19,6 701.828 9,5 50 Anos ou Mais 22.998.082 7.433.875 32,3 383.626 1,7 5.318.741 23,1 5.995.522 26,0 2.743.190 12,0 1.123.128 4,9 Sem Informação 337.819 60.257 17,8 33.512 9,9 82.559 24,4 92.482 27,4 56.586 16,7 12.423 3,7 34,5 26.579.764 31,1 7.211.488 8,4 9,0 147.894 0,7 Urbano 85.334.432 8.268.870 9,7 768.153 0,9 13.025.453 15,3 29.480.704 Rural 21.289.419 5.750.090 27,0 458.182 2,1 6.393.153 30,0 6.604.751 31,0 1.935.329 Fonte: Fundacão IBGE. Contagem da população 1996. Estudos recentes demonstram ser inútil depositar exclusivamente na dinâmica demográfica a expectativa de superação do analfabetismo, pois o número de analfabetos eliminado pela sucessão geracional vem sendo reposto no mesmo ritmo pela exclusão promovida pelo sistema educativo sobre as novas gerações (Souza, 1999). O analfabetismo no Brasil não é, pois, apenas um problema residual herdado do passado (suscetível de tratamento emergencial ou passível de superação mediante a simples sucessão geracional), e sim uma questão complexa do presente, que exige políticas públicas consistentes, duradouras e articuladas a outras estratégias de desenvolvimento econômico, social e cultural. 31 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 A PRODUÇÃO SOCIAL DO ANALFABETISMO E O COMPORTAMENTO DOS INDICADORES DE EQÜIDADE TABELA 5 Crianças e Adolescentes que Não Freqüentam Escola, por Sexo, segundo Faixa Etária Brasil – 1996 Em porcentagem Dentre os fatores de produção social do analfabetismo mediados pelo sistema escolar, devem ser considerados primeiramente o acesso e a permanência na escola durante a infância e adolescência que, ainda hoje, não estão assegurados a parcelas expressivas da população, com um diferencial negativo para os meninos e rapazes em comparação com as meninas e moças (Tabela 5). Outro fator de exclusão educacional são os elevados índices de reprovação, evasão e reingresso no sistema escolar, que resultam em acentuada defasagem na relação idade/série ideal. Também nesse caso observa-se um diferencial negativo para os estudantes do sexo masculino (Tabela 6). A renda familiar é a característica social que apresenta relação mais intensa com a discriminação no acesso à alfabetização no Brasil, sobredeterminando as diferenças observadas entre os grupos etários e as populações rurais e urbanas das diferentes regiões do país, enquanto gênero e raça operam como fatores relativamente independentes da condição socioeconômica na determinação das oportunidades educacionais. Comentando dados do início da década de 90, segundo os quais a população de rendimento familiar inferior a um quarto do salário mínimo tinha 12 vezes mais probabilidade de ser analfabeta que aquela com renda familiar superior a dois salários mínimos mensais, duas pesquisadoras paulistas afirmariam: “Residir no Nordeste ou Sudeste não afeta as oportunidades de ser alfabetizado se o rendimento da pessoa for superior a dois salários mínimos; ter 39 anos ou mais também pouco afeta – entre sulinos e nordestinos – as oportunidades de aprender ler e escrever, se os rendimentos forem superiores. Porém, ser pobre nessas regiões afeta em muito as oportunidades de letramento. Assim, para todas as faixas etárias, os índices de analfabetismo são piores nas regiões que concentram um maior número de pobres” (Rosemberg e Piza, 1997:125). As mulheres brasileiras têm hoje, em média, uma pequena vantagem nos níveis de escolaridade em relação aos homens, resultado das condições diferenciais de acesso, permanência e desempenho escolar das novas gerações (Tabela 7). A pertinência aos subgrupos étnico-raciais constitui fator de diferenciação no acesso à alfabetização e combi- Faixas Etárias Total Homens Mulheres 4 a 6 Anos 44,6 46,4 43,7 7 a 9 Anos 8,6 9,3 7,9 10,5 11,1 9,9 10 a 14 Anos Fonte: Fundação IBGE. Contagem da população 1996. TABELA 6 Defasagem entre Idade e Série Escolar na População de 7 a 18 Anos Brasil – 1996 Em porcentagem Idade Homens Mulheres 7 Anos 14,7 13,0 8 Anos 40,9 35,5 9 Anos 52,3 45,2 10 Anos 60,6 52,9 11 Anos 65,5 57,9 12 Anos 70,9 62,4 13 Anos 74,6 65,8 14 Anos 77,6 68,5 15 Anos 79,8 71,4 16 Anos 81,4 73,2 17 Anos 82,8 75,3 18 Anos 89,8 86,4 Fonte: Fundação IBGE. Contagem da população 1996. TABELA 7 População de 15 Anos ou Mais, por Sexo, segundo Anos de Estudo Brasil – 1996 Total Homens Mulheres Anos de Estudo Nos Abs. Total Nenhum Menos de 1 Ano % Nos Abs. 106.623.851 100,0 51.895.384 100,0 14.018.960 13,1 6.787.310 13,0 Nos Abs. % 54.728.467 100,0 7.231.650 13,2 1.226.355 1,1 654.873 1,3 571.482 1,0 De 1 a 3 Anos 19.418.606 18,2 9.936.026 19,1 9.482.580 17,3 De 4 a 7 Anos 36.085.455 33,8 17.850.951 34,4 18.234.504 33,3 De 8 a 11 Anos 28.515.093 26,7 13.129.034 25,3 15.386.059 28,1 12 Anos ou Mais 7.359.382 6,8 3.822.192 7,0 6,9 3.537.190 Fonte: Fundação IBGE. Contagem da população 1996. 32 % APRENDIZAGEM DE JOVENS E ADULTOS: AVALIAÇÃO na-se ao gênero para produzir uma acentuada desvantagem nos níveis de escolaridade de indígenas e afrodescendentes, especialmente os do sexo feminino (Tabela 8). Em 1996, quando a escolaridade média da população com mais de 10 anos era 5,3 anos de estudo, os brancos possuíam 6,2 anos de escolaridade em média, enquanto os negros e pardos tinham, em média, dois anos menos de escolaridade. Em 1997, a taxa média de analfabetismo de 14,7% da população com 15 anos ou mais escondia DA DÉCADA DA EDUCAÇÃO... uma enorme disparidade: enquanto o índice de analfabetismo entre os brancos era de 9%, entre os negros e pardos esse percentual elevava-se para 22,2%. Assim, é legítimo concluir que as oportunidades educacionais da população jovem e adulta brasileira continuam a ser negativamente afetadas por fatores socioeconômicos, espaciais, geracionais, étnicos e de gênero, que combinam entre si para produzir acentuados desníveis educativos. TABELA 8 População de 15 Anos ou Mais, por Sexo e Condição de Alfabetização, segundo Cor Brasil – 1991 Total Geral Cor Total Homens Analfabetos Mulheres Analfabetos Analfabetos Total Nos Abs. % Nos Abs. Total 95.810.647 100,0 18.587.459 Branca % Total Nos Abs. % 19,1 49.157.948 9.662.210 19,7 12,6 19 46.652.699 8.925.249 Nos Abs. % 51.231.863 53,5 6.091.433 11,9 24.274.044 2.683.707 11,1 26.957.819 3.407.726 Preta 5.132.592 5,3 1.614.852 31,5 2.601.177 786.258 30,2 2.531.415 828.594 32,7 Parda 38.471.177 40,1 10.708.538 27,8 19.296.795 5.376.706 27,9 19.174.382 5.331.832 27,8 Amarela 485.906 0,5 26.189 5,4 242.739 9.892 4,1 243.167 16.297 6,7 Indígena 171.069 0,2 86.945 50,8 86.763 40.965 47,2 84.306 45.980 54,5 Sem Informação 318.040 0,3 59.502 18,7 151.181 27.721 18,3 166.859 31.781 19,0 Fonte: Fundação IBGE. Censo demográfico 1991. DIREITOS CONSTITUCIONAIS E OUTROS MARCOS LEGAIS da população jovem e adulta ao ensino fundamental, a Emenda 14, aprovada quase na mesma data, alterou a redação do Art. 208 da Constituição, de modo a desobrigar jovens e adultos da freqüência à escola. Embora não tenha sido essa a intenção do legislador, tal mudança no texto constitucional deu margem a interpretações que descaracterizaram o direito público subjetivo, desobrigando os poderes públicos da oferta universal de ensino fundamental gratuito para esse grupo etário.5 A Emenda 14 alterou ainda a redação do Art. 50 das Disposições Constitucionais Transitórias, substituindo o compromisso decenal com a erradicação do analfabetismo e a universalização do ensino fundamental por um mecanismo de operacionalização do regime de cooperação entre as esferas de governo: o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef). Esse processo de desconstituição dos direitos educativos consolidou-se no veto presidencial ao inciso II do Art. 2o da Lei no 9.424/96, que Pela primeira vez na história brasileira, o Art. 208 da Constituição de outubro de 1988 conferiu à população jovem e adulta o direito à educação fundamental, responsabilizando os poderes públicos pela oferta universal e gratuita desse nível de ensino àqueles que a ele não tiveram acesso e progressão na infância e adolescência. No texto original, o Art. 50 das Disposições Transitórias da Constituição de 1988 conferia um prazo de dez anos para a universalização do ensino fundamental e a erradicação do analfabetismo, período em que as três esferas de governo ficavam obrigadas a dedicar a esses objetivos 50% dos recursos públicos vinculados à educação. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) tramitou no Congresso por oito anos e foi, finalmente, aprovada no final de 1996. Embora o Art. 4o da LDB 9.394 tenha reiterado os direitos constitucionais 33 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 regulamentou a Emenda 14, excluindo as matrículas no ensino fundamental de jovens e adultos dos cálculos para a redistribuição de recursos vinculados entre esferas de governo através do Fundef. Diante das limitações ao financiamento decorrente dessa medida, as instâncias subnacionais de governo, às quais cabe a oferta pública de ensino fundamental à população jovem e adulta, foram objetivamente desestimuladas a expandir esse nível e modalidade educativos, o que já em 1998 refletiu-se na redução das matrículas (Tabela 9). TABELA 10 População com 15 Anos ou Mais que Freqüenta a Escola Básica Brasil – 1996 População com 15 Anos ou Mais Freqüenta a Escola Básica N os Abs. Total 1995 1997 11,1 97.815 0,1 Ensino Fundamental 6.863.098 6,4 Ensino Médio 5.016.840 4,6 Fonte: Fundação IBGE. Contagem da população 1996. 1998 TABELA 11 Nos Abs. % 2.136.508 100,0 285 0,0 844 0,0 561 0,0 Estadual 1.378.098 64,5 1.454.687 65,8 1.316.482 63,2 Municipal 506.600 23,7 582.921 26,4 629.201 30,2 Particular 251.525 11,8 171.873 7,8 135.506 6,5 Total 100,0 11.977.753 Alfabetização Evolução da Matrícula Inicial no Ensino Fundamental de Jovens e Adultos, segundo Dependência Administrativa Brasil – 1995-1998 Dependência Administrativa 107.534.609 Freqüenta Escolas TABELA 9 % Federal N os Abs. % 2.210.325 100,0 Nos Abs. % 2.081.750 100,0 População de 15 Anos ou Mais que Freqüenta a Escola, segundo Anos de Estudo Brasil – 1996 Anos de Estudo Sem Instrução e Menos de 1 Ano Alfabetização de Adultos Fonte: MEC/SEF, 1999. % 15.150.760 100,0 97.815 0,7 55.324.958 100,0 Ensino Fundamental Regular 4.652.773 8,4 Ensino Fundamental de Adultos 2.210.325 4,0 1 a 7 Anos de Estudo INDICADORES DE COBERTURA E O PERFIL DA OFERTA DE ENSINO BÁSICO Nos Abs. Fonte: Fundação IBGE. Contagem da população 1996; MEC/Inep. Censo escolar 1996. Os dados censitários do IBGE disponíveis para o ano de 1996 informavam que 11% da população brasileira com idade igual ou superior a 15 anos participava de alguma modalidade do ensino básico (Tabela 10). A maior parte dessa população com 15 anos ou mais que freqüentava o ensino fundamental não o fazia em programas de educação de adultos, mas era constituída por jovens que participavam do ensino fundamental regular com algum grau de defasagem na relação idade/série ideal. Segundo essa fonte, os índices de cobertura dos programas de educação de jovens e adultos estavam abaixo de 1% da demanda potencial por alfabetização e exatos 4% da demanda por ensino fundamental (Tabela 11). Cotejadas as estatísticas de atendimento produzidas pelo sistema educacional, os índices de cobertura dos programas especificamente destinados a jovens e adultos (denominados ensino supletivo) situavam-se em torno dos 3% da demanda potencial por cada um dos segmentos específicos do ensino básico (Tabela 12). TABELA 12 População com 15 Anos ou Mais, segundo Anos de Estudo e Freqüência ao Ensino Supletivo Brasil – 1996-1997 Anos de Estudo População com 15 Anos ou Mais com Escolaridade Básica Incompleta – 1996 (A) Sem Instrução a 3 Anos 4 a 7 Anos de Estudo 8 a 10 Anos Matrícula Inicial em Cursos de Educação Básica de Jovens e Adultos por Nível – 1997 (B) Alfabetização e 1ª a 4ª Séries 5ª a 8ª Séries Ensino Médio Nos Abs. % 34.663.152 97.815 16.407.639 39,77 0,65 18,83 1.043.188 1.311.253 390.925 (B/A) 3,01 3,63 2,38 Fonte: Fundação IBGE. Contagem da População 1996; MEC/Inep. Sinopse Estatística da Educação Básica. Censo escolar 1997. 34 APRENDIZAGEM DE JOVENS E ADULTOS: AVALIAÇÃO DA DÉCADA DA EDUCAÇÃO... TABELA 13 Matrícula Inicial no Ensino Fundamental Supletivo, por Situação do Domicílio Brasil – 1997 Total Rural Urbano Regiões N Abs. % 2.354.441 298.977 655.867 151.948 938.568 309.081 100,00 12,70 27,86 6,45 39,86 13,13 os Brasil Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul N Abs. os 107.956 18.376 55.721 5.205 23.422 5.232 % N Abs. % 4,59 6,15 8,50 3,43 2,50 1,69 2.246.485 280.601 600.146 146.743 915.146 303.849 95,41 93,85 91,50 96,57 97,50 98,31 os Fonte: MEC/Inep/Seec. TABELA 14 O atendimento encontrava-se altamente urbanizado, pois tinha reduzida incidência sobre o analfabetismo e os baixos níveis de escolarização da população rural. A distribuição regional das matrículas não mantinha correspondência com a demanda potencial, refletindo antes a capacidade instalada dos sistemas de ensino em financiar programas e prover vagas (Tabelas 3, 13 e 14). A região Nordeste, por exemplo, onde viviam 48,83% dos analfabetos do país em 1996, registrava apenas 27,86% das matrículas no ensino fundamental de jovens e adultos de 1997. Os 2,8 milhões de estudantes da educação de jovens e adultos (aí incluídas as matrículas no ensino profissionalizante) representavam, em 1997, 5,85% do alunado do ensino básico brasileiro; 2,2 milhões deles estavam matriculados no ensino fundamental e 65,8% nas redes estaduais de ensino. Embora as redes estaduais ainda hoje concentrem a maior parte das matrículas no ensino supletivo, pode-se reconhecer uma clara tendência à municipalização do ensino fundamental (Tabela 9), confirmada pela evolução do número de funções docentes e estabelecimentos que oferecem educação de jovens e adultos (Tabela 16). Há um claro predomínio de adolescentes no alunado: um terço dos estudantes matriculados em cursos de educação de jovens e adultos em 1998 tinham menos de 18 anos (Tabela 17), muitos dos quais nem sequer apresentavam defasagem na relação idade/série ideal para freqüentar o ensino regular (Tabela 18), o que indica que a educação de jovens e adultos está cumprindo a função de inserir no sistema escolar jovens excluídos do ensino regular e acelerar os estudos daqueles cuja progressão foi truncada por sucessivas reprovações ou abandonos. Distribuição dos Analfabetos Brasil – 1996 Em porcentagem Distribuição de Analfabetos sobre o Total Nacional Regiões Brasil 100,00 Norte 7,71 Nordeste 48,83 Centro-Oeste 5,63 Sudeste 28,70 Sul 9,12 Fonte: MEC/Inep/Seec. TABELA 15 Matrículas no Ensino Básico, segundo Dependência Administrativa Brasil – 1997 Matrículas no Ensino Básico Dependência Administrativa Total Federal Nos Abs. % N os Abs. % 49.235.117 100,00 2.881.770 5,85 166.955 0,34 1.609 0,05 Estadual 25.368.006 51,50 1.808.161 62,70 Municipal 17.106.588 34,70 683.078 23,70 Particular 6.593.578 13,40 388.922 13,50 Fonte: MEC/Inep. Censo escolar 1997. 35 Educação de Jovens e Adultos Total SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 TABELA 16 Evolução da Educação de Jovens e Adultos, por Dependência Administrativa e Funções Docentes Brasil – 1986-1998 Em porcentagem Dependência Administrativa Funções Docentes Anos 1986 1987 1995 1997 1998 Federal Estadual Municipal Particular Federal Estadual Municipal Particular 1,4 1,3 0,1 0,1 0,1 69,6 67,4 62,8 51,4 43,6 15,1 17,3 25,2 36,1 44,1 13,9 14 12 12,4 12,2 0,8 0,8 0,1 0,1 0,1 63,4 63,8 59,6 55,4 54,8 7,2 7,8 19,4 22,8 24,8 28,7 27,6 20,9 21,8 20,3 Fonte: MEC/Inep/Seec. TABELA 17 Matrícula Inicial em Educação de Jovens e Adultos, por Faixa Etária Brasil – 1998 Total 7 a 14 Anos 15 a 18 Anos Mais de 18 Anos Regiões Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Nos Abs. % Nos Abs. % Nos Abs. % N os Abs. % 2.881.231 364.606 598.354 1.150.719 515.254 252.298 100,0 12,6 20,7 39,9 17,9 8,7 134.088 20.315 48.419 35.175 18.778 11.401 4,6 5,5 8,1 3,1 3,6 4,5 818.188 134.138 204.893 292.581 123.142 63.434 28,4 36,7 34,2 25,4 23,9 25,1 1.928.955 210.153 345.042 822.963 373.334 177.463 66,9 57,6 57,7 71,5 72,5 70,3 Fonte: MEC/Inep/Seec. Sinopse estatística da educação básica. Censo escolar 1998. Nota: Inclui matrículas em cursos presenciais com avaliação no processo de alfabetização, ensino fundamental, médio e profissionalizante. TABELA 18 Matrículas no Ensino de Jovens e Adultos, por Faixa Etária, segundo Nível de Escolarização Brasil – 1998 Total 7 a 14 Anos 15 a 18 Anos Mais de 18 Anos Nível de Escolarização Total (1) Alfabetização 1ª a 4ª Séries 5ª a 8ª Séries Ensino Médio Nos Abs. % N os Abs. % Nos Abs. % N os Abs. % 2.881.231 147.006 783.591 1.298.119 516.965 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 134.088 12.189 61.605 43.632 9.475 4,6 8,3 7,8 3,3 1,8 818.188 35.635 265.744 426.585 57.553 28,4 24,2 33,9 32,8 11,1 1.928.955 99.182 456.242 827.902 449.937 66,9 67,4 58,2 63,8 87,0 Fonte: MEC/Inep/Seec. Censo escolar 1998. (1) Inclui alunos de cursos de aprendizagem e qualificação profissional. pelas três esferas de governo na educação de jovens e adultos oscilaram de 0,3% a 0,5% do gasto total com educação entre os anos de 1994 e 1996. Nesses três anos, a educação de jovens e adultos foi o nível ou a modalidade de ensino que recebeu o menor percentual de recursos, o que revela sua marginalidade na hierarquia das prioridades da política educacional. Os estados responderam por mais de dois terços das despesas efetuadas com educação de jovens e adultos e os municípios por quase um quarto O GASTO PÚBLICO COM A EDUCAÇÃO BÁSICA Os dados sobre o financiamento e o gasto público da educação, especialmente os que se referem aos governos subnacionais, são de difícil acesso. Um esforço de coleta e compatibilização vem sendo desenvolvido pelo Ipea para alguns anos da década de 90 (Fernandes et alii, 1998aeb). Segundo essa fonte e metodologia, as despesas efetuadas 36 APRENDIZAGEM DE JOVENS E ADULTOS: AVALIAÇÃO DA DÉCADA DA EDUCAÇÃO... TABELA 19 Execução das Despesas Federais em Educação, segundo Programas Brasil – 1995-97 Programas Total Educação 0 a 6 Anos Ensino Fundamental Ensino Médio Ensino Superior Ensino Supletivo Educação Física e Desportos Assistência a Educandos Educação Especial Administração e Outros % sobre Total % do PIB (2) 1995 1996 1997 (1) (1) (1) 1995 1996 1997 1995 1996 1997 9.827.460 244.425 2.579.478 570.036 4.694.436 14.229 59.162 27.061 10.835 1.627.798 8.961.724 240.347 2.593.328 458.313 4.220.443 21.314 47.982 20.279 33.808 1.325.910 9.121.381 235.311 2.734.135 433.461 4.027.490 23.728 79.633 0 32.145 1.555.479 100,00 2,98 31,46 6,95 57,25 0,17 0,72 0,33 0,13 16,56 100,00 3,15 33,96 6,00 55,27 0,28 0,63 0,27 0,44 14,80 100,00 3,11 36,14 5,73 53,23 0,31 1,05 0,00 0,42 17,05 1,45 0,04 0,38 0,08 0,69 0,01 0,24 1,29 0,03 0,37 0,07 0,61 0,01 0,19 1,27 0,03 0,38 0,06 0,56 0,01 0,22 Fonte: Ministério da Fazenda/Siafi. (1) Em R$ mil de 1995. (2) Os valores do Produto Interno Bruto (PIB) e fatores de conversão utilizados nesta série seguem os indicadores do Instituto de Economia do Setor Público (1998): 1995 = R$ 677,5 bilhões; 1996 = R$ 696,5 bilhões; 1997 = R$ 717,3 bilhões. dos gastos, uma proporção que corresponde aproximadamente às respectivas participações nas matrículas. A contribuição da União para o financiamento do ensino supletivo nesses anos foi modesta, situando-se pouco acima de 4% da despesa realizada pelo setor público em seu conjunto. Os dados recentes sobre a execução orçamentária do governo federal revelam uma tendência sutil de crescimento do gasto com educação de jovens e adultos, embora o setor continue a perceber a menor parcela do gasto realizado com todos os níveis e modalidades de ensino (Tabela 19). A maior parcela dos recursos federais provém da cota federal do Salário Educação e destina-se a transferências voluntárias da União para os estados e municípios mediante convênios firmados com o Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (FNDE). Os valores conveniados têm sido muito inferiores aos demandados e, inclusive, aos orçados, revelando que esse sistema de transferências tem um baixo grau de eficiência (Tabela 20). TABELA 20 Transferências Federais para Educação de Jovens e Adultos Brasil – 1995-98 Recursos Demandados (Em R$) Orçados (Em R$) Conveniados (Em R$) Execução (%) 1995 1996 15.959.079 72.284.364 17.760.000 36.000.000 10.787.601 25.106.364 60,74 69,74 1997 1998 56.175.666 45.000.000 33.478.350 74,39 53.700.000 30.492.981 56,78 Fonte: MEC/SEF. FNDE, 1999. surpreendente, pelo qual o Ministério da Educação retirou-se da oferta direta de serviços de educação básica de jovens e adultos,6 enquanto outros ministérios e organismos federais ingressaram nesse campo. São três os programas federais implementados a partir de 1995: o Plano Nacional de Formação do Trabalhador (Planfor), coordenado pela Secretaria de Formação e Desenvolvimento Profissional do Ministério do Trabalho (Sefor/MTb), iniciado em 1996; o Programa Alfabetização Solidária (PAS), coordenado pelo Conselho da Comunidade Solidária, vinculado à Presidência da República, implementado a partir de 1997; e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), coordenado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), vinculado ao Ministério Extraordinário da Política Fundiária (MEPF), que iniciou suas operações a partir de 1998. PROGRAMAS FEDERAIS DE FORMAÇÃO DE PESSOAS ADULTAS Embora não possua rede própria de escolas de ensino fundamental, o governo federal detém meios para induzir ações dos governos subnacionais e da sociedade civil, ou impulsionar programas próprios de educação de pessoas adultas. Na década de 90, observou-se um processo 37 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 O Conselho da Comunidade Solidária, organismo vinculado à Presidência da República, desenvolve desde 1996 o Programa Alfabetização Solidária (PAS), promovido em parceria entre o Ministério da Educação, empresas, universidades e municípios. O PAS consiste em uma campanha de alfabetização inicial desenvolvida em apenas um semestre, dirigida aos municípios mais pobres que apresentam os índices mais elevados de analfabetismo na faixa etária de 15 a 19 anos. O Ministério fornece materiais didático-pedagógicos e alimentação escolar; os municípios mobilizam alfabetizadores, alfabetizandos e espaços para instalação de salas de aula improvisadas; as universidades realizam a coordenação e orientação pedagógica e capacitam os monitores; as empresas cobrem os custos operacionais das universidades e remuneram os educadores. Ao final de 1999 o PAS havia chegado a 866 municípios, envolvendo 60 empresas e 180 universidades públicas e privadas. Sua coordenação afirmava terem sido quase 39 mil os alfabetizadores formados e 776 mil alfabetizandos, dos quais apenas um quinto podia ler e escrever pequenos textos ao concluir o curso. O Programa Alfabetização Solidária padece de algumas das conhecidas limitações das campanhas de alfabetização de jovens e adultos: maneja um conceito de alfabetização estreito e não assegura continuidade de estudos ou oportunidades de consolidação das aprendizagens realizadas; recorre em parte a educadores leigos; e não incide sobre os fatores socioeconômicos e culturais que geram e reproduzem o analfabetismo. O Ministério Extraordinário da Política Fundiária deu início com recursos próprios em 1998 ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, elegendo como prioridade a alfabetização dos trabalhadores rurais assentados, em cursos com um ano de duração. O Pronera é desenvolvido em parceria e co-gerido por um conselho que reúne agentes governamentais, universidades, igrejas, sindicatos e organizações da sociedade civil, inclusive o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Uma característica singular ao Pronera é que, simultaneamente à alfabetização dos trabalhadores rurais assentados, o programa proporciona a escolarização supletiva dos monitores no ensino básico e, em alguns casos, também sua formação para o magistério nos níveis médio e superior. A meta inicial do Pronera para o primeiro ano era alfabetizar cem mil trabalhadores rurais assentados, mas os escassos recursos alocados no programa naquele ano só permitiram contemplar 7% dessa meta; já em 1999 foi possível alcançar 55 mil alfabetizandos. A Secretaria de Formação do Ministério do Trabalho aplicou, no quadriênio 1995/1998, recursos de aproximadamente R$ 1 bilhão do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) no Planfor, que atingiu 3.800 municípios e 5,6 milhões de trabalhadores. O programa é descentralizado nos estados e implementado em parceria com toda sorte de agentes de formação profissional (empresas, sindicatos patronais e de trabalhadores, universidades, escolas técnicas, organizações não-governamentais, etc.). Embora o modelo gerencial não favoreça o desenvolvimento de cursos de longa duração e o grau de articulação dos organismos de formação profissional com os sistemas de ensino básico seja reduzido, o Planfor dispõe de um volume substancial de recursos que potencializam iniciativas de educação básica de jovens e adultos, articuladas a oportunidades de formação profissional. Prevalecem cursos rápidos – com 102 horas de duração média – de qualificação e atualização profissional, mas o programa incorpora um componente de formação em habilidades básicas (leitura, escrita, cálculo, etc.) pelo qual passaram 2,9 milhões de trabalhadores e desempregados no período 1995/1998. O plano confere prioridade de atendimento às populações que são discriminadas no acesso à qualificação e ao mercado de trabalho por fatores de idade, sexo, pertinência étnico-racial, escolaridade, etc. O perfil dos cursistas do Planfor é coerente com essa diretriz, exceto no que diz respeito à população com baixa escolaridade, que está sub-representada no público atendido (Tabela 21). TABELA 21 Perfil da População Economicamente Ativa (PEA) e dos Treinandos do Planfor Brasil – 1996-98 Em porcentagem Grupos Trabalhadores Rurais PEA 1996 24,0 Treinandos do Planfor 1996 1997 25,0 30,0 1998 26,0 Mulheres 40,0 49,0 52,0 50,0 Jovens de 14 a 21 Anos 25,0 37,0 30,0 32,0 Negros/Pardos 43,0 43,0 44,0 45,0 63,0 34,0 47,0 43,0 Escolaridade Inferior ao Ensino Fundamental Fonte: MTb/Sefor. Avaliação gerencial 1995/98. 38 APRENDIZAGEM DE JOVENS E ADULTOS: AVALIAÇÃO DA DÉCADA DA EDUCAÇÃO... vem e adulta vem sendo progressivamente transferida do aparato governamental para a sociedade civil, especialmente por meio de estratégias de convênio com as mais variadas organizações sociais. CONCLUSÕES Ao longo da década de Educação para Todos, não houve uma ampliação significativa das oportunidades educacionais para a população brasileira jovem e adulta e, conseqüentemente, o país não conseguirá atingir ao final do milênio a meta de redução dos índices de analfabetismo à metade daqueles vigentes em 1990. Os avanços obtidos no campo da alfabetização durante a década não resultaram dos esforços empreendidos na educação de jovens e adultos, e sim da combinação do perfil etário e da dinâmica demográfica à melhoria das condições de acesso das novas gerações ao ensino fundamental. O analfabetismo funcional apresenta-se como um fenômeno extenso, difundido em todas as faixas etárias (inclusive entre os jovens), uma vez que a escolaridade média da população e os níveis de aprendizagem alcançados situam-se abaixo dos mínimos socialmente necessários para que as pessoas mantenham e desenvolvam as competências características do alfabetismo. Fenômeno novo, acentuado na década de 90, é a presença significativa de adolescentes nos programas de escolarização antes dirigidos aos adultos. São jovens egressos do ensino regular, com dificuldades na sua escolarização, que acabam por criar novas demandas para a educação de jovens e adultos, tanto sob o ponto de vista das políticas educacionais, quanto dos desafios pedagógicos. A inserção marginal da educação de jovens e adultos na reforma educacional em curso no país faz com que a cobertura escolar para essa faixa etária continue a ser extremamente deficitária e ineqüitativa, considerados os critérios territorial, de renda, de gênero, de etnia ou de geração. A tendência à descentralização do atendimento em direção aos municípios pode ser interrompida pelas limitações ao financiamento decorrentes da implantação de Fundef. Se persistirem as atuais condições do financiamento público, francamente insuficiente, não poderão ser vislumbradas as perspectivas de ampliação dos níveis de atendimento escolar e, portanto, será impossível cumprir as metas do Plano Nacional de Educação. Embora o marco legal vigente assegure o direito universal à educação fundamental em qualquer idade, as políticas públicas em curso tendem a deslocar a escolarização de jovens e adultos para o terreno dos programas assistenciais que visam atenuar os efeitos perversos da exclusão social. Nesse deslocamento, a responsabilidade pública pela oferta da educação básica à população jo- NOTAS 1. Constituído em 1993, esse grupo – conhecido como EFA 9 – reúne os países que possuem o maior contingente de analfabetos do globo: Bangladesh, Brasil, China, Egito, Índia, Indonésia, México, Nigéria e Paquistão. 2. Esse alargamento conceitual consolidou-se na V Conferência Internacional de Educação de Adultos (Hamburgo, 1997), em que foi formulada a seguinte definição: “Por educação de adultos entende-se o conjunto de processos de aprendizagem, formais ou não-formais, graças aos quais as pessoas cujo entorno social considera adultos desenvolvem suas capacidades, enriquecem seus conhecimentos e melhoram suas competências técnicas ou profissionais ou as reorientam a fim de atender suas próprias necessidades e as da sociedade. A educação de adultos compreende a educação formal e permanente, a educação não-formal e toda a gama de oportunidades de educação informal e ocasional existentes em uma sociedade educativa e multicultural, na qual se reconhecem os enfoques teórico e baseados na prática” (Artigo 3o da Declaração de Hamburgo sobre Educação de Adultos). 3. Dois estudos recentes tratam dos impactos do alfabetismo sobre certas esferas de comportamento dos indivíduos (Ribeiro, 1999) e da escolarização sobre o acesso ao emprego e à renda (Letelier, 1999), porém referem-se, respectivamente, a populações da Capital e da Região Metropolitana de São Paulo, e suas conclusões não são generalizáveis para o país em seu conjunto. 4. Embora advirta que a escolarização formal não seja fator exclusivo para determinar os níveis de alfabetismo das pessoas jovens e adultas, um estudo realizado na cidade de São Paulo observa que certos mínimos de escolaridade – situados em torno do ensino fundamental completo – constituem as bases necessárias para que os indivíduos tenham acesso a empregos e incorporem à vida cotidiana práticas sociais que favoreçam o exercício da leitura, da escrita e do cálculo, o interesse pelos debates públicos, a fruição do lazer e dos bens culturais, a busca de informação e de oportunidades de formação continuada, aos quais vinculam-se a manutenção e o desenvolvimento das competências características do alfabetismo (Haddad, 1997b). 5. No início de 2000 a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação deu início à discussão de diretrizes para a educação de jovens e adultos. A minuta de Parecer e Resolução apresentada a discussão pelo relator interpreta que a Emenda 14 não afeta o direito público subjetivo de jovens e adultos ao ensino fundamental gratuito, sendo responsabilidade do poder público ofertálo com qualidade a todos que aspirem se escolarizar. 6. Em março de 1990, imediatamente após a posse, o presidente Fernando Collor de Mello extinguiu a Fundação Educar, que foi o último programa de educação básica de jovens e adultos coordenado pelo Ministério da Educação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. MEC. INEP. Sinopse estatística da educação básica: censo escolar 1997. Brasília, 1998. BRASIL. MEC. INEP. SEEC. Sinopse estatística da educação básica: censo escolar 1998. Brasília, 1999. BRASIL. MEC. SEF. Apoio financeiro à educação de jovens e adultos: relatório 95/98. Brasília, 1999, 31p. DI PIERRO, M.C. As políticas públicas de educação básica de jovens e adultos no Brasil do período 1985/1999. Tese de doutoramento. São Paulo, PUC, 2000. FERNANDES, M.A. da C. et alii. Dimensionamento e acompanhamento do gasto social federal. Brasília, Ipea, 1998a (Textos para Discussão, n.547). __________ . Gasto social das três esferas de governo – 1995. Brasília, Ipea, 1998b (Textos para Discussão, n.598). HADDAD, S. “A educação de jovens e adultos e a nova LDB”. In: BRZEZINSKI, I. (org.). LDB interpretada: diversos olhares se entrecruzam. São Paulo, Cortez, 1997a, p.106-122. 39 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 __________ . (coord.). Alfabetismo funcional na cidade de São Paulo. São Paulo, Ação Educativa, ago. 1997b, 285p. e anexos. ROSEMBERG, F. e PIZA, E. “Analfabetismo, gênero e raça no Brasil”. In: BÓGUS, L. e PAULINO, Y. (orgs.). Políticas de emprego, políticas de população e direitos sociais. São Paulo, Educ, 1997, p.115-142. LETELIER, M.E.G. Escolaridade e inserção no mercado de trabalho: um estudo comparativo entre a Grande São Paulo (Brasil) e a Grande Santiago (Chile). Tese de doutoramento. São Paulo, PUC, 1999. 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São Paulo, FDE, 1993, p.125-148 (Idéias, 19). 40 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 CARLOS BENEDITO MARTINS Professor do Departamento de Sociologia e Diretor-Científico do Núcleo de Estudos sobre Ensino Superior da Universidade de Brasília Resumo: Este artigo procura apresentar e discutir determinados aspectos morfológicos que constituem o ensino superior brasileiro em sua fase contemporânea e salientar que nos últimos 30 anos formou-se no país um complexo campo acadêmico. Destaca também os processos de crescimento quantitativo e de diferenciação institucional que fizeram parte da reestruturação do campo do ensino superior brasileiro. O artigo procura evidenciar um dos desafios centrais para o ensino superior brasileiro nos dias atuais: a formulação de uma política voltada para a totalidade do sistema, capaz de dialogar com os diferentes formatos e vocações acadêmicas das instituições que o integram. Palavras-chave: educação no Brasil; ensino superior; pós-graduação. O anos 90 o ensino superior deu mostras de recuperação na sua capacidade de crescer aceleradamente: nos últimos quatro anos a matrícula nos cursos de graduação apresentou uma taxa de expansão anual de 7% em média. Por outro lado, na dinâmica desse processo de expansão do ensino de terceiro grau, produziu-se um complexo e diversificado sistema de instituições. O hábito intelectualizado de parte considerável da comunidade acadêmica nacional de eleger uma imaginária universidade brasileira como objeto legítimo de reflexão e forma de se referir à totalidade do ensino superior no país tem contribuído para desviar a atenção de um dos aspectos mais significativos do processo de sua expansão: o fenômeno do surgimento de uma multiplicidade de tipos de estabelecimentos acadêmicos com formatos institucionais, vocações e práticas acadêmicas bastante diferenciadas. Em vez de se adotar uma perspectiva que privilegie a instituição universitária como ponto principal de atenção – o que acaba transformando uma manifestação particular em expressão do geral –, considera-se mais apropriado, do ponto de vista analítico, analisar a situação do ensino superior brasileiro atual a partir da noção de campo,1 no interior do qual as universidades e os demais tipos de instituições que o estruturam, como os estabelecimentos isolados, as federações de escolas2 e as faculdades integradas, visam a ocupar posições específicas na hierarquia desse espaço social. Essa postura, acredita-se, possibilita objetivo deste artigo é apresentar e discutir determinados aspectos referentes ao sistema de ensino superior brasileiro nos últimos dez anos, particularmente no que diz respeito ao seu crescimento e ao seu processo de diferenciação institucional. Para compor um breve quadro morfológico, serão apresentados o conjunto de informações sobre o número de instituições que o integram, o volume de matrículas de alunos que o freqüentam, a titulação dos docentes, etc. Esse trabalho parte do pressuposto que esse subsistema educacional vai ocupar uma posição fundamental na dinâmica dos processos de inovação tecnológica, de produção e difusão da ciência e da cultura, assim como desempenhar um papel estratégico no desenvolvimento socioeconômico do país. Ele é nesse sentido, uma peça-chave na tarefa de qualificar os recursos humanos para a modernização da sociedade brasileira e um fator relevante na melhoria dos ensinos fundamental e médio do sistema educacional do país. Os dados que serão apresentados ao longo deste artigo indicam que o ensino superior no país passou por um acentuado crescimento quantitativo nas últimas três décadas, caracterizado pelo aumento do número de instituições, de matrículas, de cursos, de funções docentes, etc. Após experimentar um forte impulso expansionista durante os anos 70, na década seguinte passou por um período de franco arrefecimento, chegando quase a uma situação de estagnação do número de matrículas na graduação. Durante os 41 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 orientar a reflexão para a grande diferenciação institucional que se encontra subjacente na estruturação desse campo específico. Seria oportuno assinalar que os diversos sistemas de educação superior, existentes em países que ocupam uma posição destacada no processo de desenvolvimento socioeconômico, apresentam uma forte diversidade institucional e desempenham uma pluralidade de funções na formação acadêmico-profissional. Nesses sistemas prevalece uma extensa hierarquia de instituições de ensino com perfis acadêmicos específicos, oferecendo cursos e programas para públicos com diferentes motivações e perspectivas profissionais, assim como procuram manter uma relação de sintonia com as amplas demandas provenientes da dinâmica das mudanças sociais vivenciadas por esses países. Esse processo de diferenciação ocorre não apenas no sentido vertical da oferta de formação acadêmico-profissional, mas no plano horizontal, a partir de uma pluralidade de objetivos e conteúdos educacionais – competências e prerrogativas típicas das instituições –, permanecendo, entretanto, um processo de fluidez de comunicação entre os diferentes setores que o integram. 3 Este artigo parte também do pressuposto que a diferenciação institucional produzida no ensino superior brasileiro nas últimas três décadas não deva ser apreendida como um aspecto negativo ou uma manifestação de anomia no funcionamento do campo. Acredita-se que o caminho da política educacional promissora deve ser a heterogeneidade institucional do sistema como um de seus pontos de partida, ou seja, reconhecer a existência de uma multiplicidade de instituições com perfis organizacionais e vocações acadêmicas distintas, evitando tratamentos homogêneos para realidades acadêmicas marcadas pelo signo da disparidade. Pretende-se também ressaltar que a política de ensino superior na sociedade brasileira deve eleger, como uma de suas prioridades, a expansão desse sistema diante do contínuo crescimento do ensino médio verificado no país nos últimos anos. Para se evitar uma nova proliferação descontrolada como a que marcou de forma típica o campo acadêmico nacional nos anos 70, acabando por comprometer a qualidade acadêmica das instituições e do sistema em geral, devem-se criar mecanismos efetivos para combinar essa expansão – cada vez mais necessária – com padrões de qualidade acadêmica e uma contínua avaliação acadêmico-institucional subsidiando o recreden-ciamento periódico das instituições integrantes desse complexo sistema. CRESCIMENTO E DIVERSIFICAÇÃO INSTITUCIONAL DO ENSINO SUPERIOR No intervalo de pouco mais de 30 anos, o sistema de ensino superior brasileiro passou por expressivas mudanças em sua morfologia. No início dos anos 60, contava com cerca de uma centena de instituições, a maioria delas de pequeno porte, voltadas basicamente para atividades de transmissão do conhecimento, com um corpo docente fracamente profissionalizado. Esses estabelecimentos vocacionados para a reprodução de quadros da elite nacional, em geral cultivando um ethos e uma mística institucional, abrigavam menos de 100 mil estudantes, com predominância quase absoluta do sexo masculino. Tal quadro contrasta fortemente com a complexa rede de estabelecimentos constituída ao longo desses anos, portadora de formatos organizacionais e tamanhos variados. Esse sistema absorve hoje 2,1 milhões de alunos matriculados na graduação e aproximadamente 78 mil alunos nos cursos de pós-graduação stricto sensu, que cobre todas as áreas do conhecimento. Nesse processo de mudanças, houve a incorporação de um público mais diferenciado socialmente, o aumento significativo do ingresso de estudantes do gênero feminino, a entrada de alunos já integrados no mercado de trabalho e o acentuado processo de interiorização e de regionalização do ensino. Na trajetória dessas transformações, forma-se um campo acadêmico extremamente complexo em virtude das diferentes posições ocupadas por essas instituições diante dos indicadores que comandam o funcionamento desse espaço social, como a qualidade do ensino oferecido, a titulação do corpo docente, a capacidade científica instalada, os formatos organizacionais desses estabelecimentos, o prestígio e o reconhecimento social e simbólico dos distintos estabelecimentos que o integram. Desde o Estatuto de 1931, o modelo universitário, por mais que tenha sido mera aglomeração de faculdades isoladas, é parâmetro legítimo de organização do ensino superior no país. Por outro lado, esse modelo domina de forma significativa parte do inconsciente acadêmico nacional, de tal modo que o afastamento desse paradigma é considerado um desvio de rota. Em vez de abrir caminho para a diversificação do sistema, a Reforma de 1968, voltada basicamente para as instituições federais, mostrou que o modelo universitário deveria ser o tipo natural de estrutura para o qual convergiria a expansão do ensino superior, atribuindo aos estabelecimentos isolados um caráter excepcional e passageiro. A Constituição de 1988 deu um 42 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 TABELA 1 Evolução do Número de Instituições, por Natureza e Dependência Administrativa Brasil – 1980-98 Anos Total Geral Universidades Total Federações e Integradas Federal Estadual Municipal Particular 1980 882 65 34 9 2 1981 876 65 34 9 2 1982 873 67 35 10 2 1983 861 67 35 10 2 1984 847 67 35 10 1985 859 68 35 1986 855 76 35 1987 853 82 1988 871 1989 902 1990 20 Total Estabelecimentos Isolados Estadual Municipal Particular Total Federal Estadual Municipal Particular 20 1 - 19 797 22 43 89 643 20 49 1 1 47 762 18 68 126 550 20 51 - 2 49 755 18 70 122 545 20 57 - 1 56 737 18 69 111 539 2 20 59 - 1 58 721 18 64 108 531 11 2 20 59 - 1 58 732 18 64 102 548 11 3 27 65 - 2 63 714 18 79 115 502 35 14 4 29 66 - - 66 705 19 69 99 518 83 35 15 2 31 67 - 1 66 721 19 72 89 541 93 35 16 3 39 64 - - 64 745 19 68 79 579 918 95 36 16 3 40 74 - - 74 749 19 67 81 582 1991 893 99 37 19 3 40 85 - 3 82 709 19 63 78 549 1992 893 106 37 19 4 46 84 - 3 81 703 20 63 81 539 1993 873 114 37 20 4 53 88 - 3 85 671 20 57 80 514 1994 851 127 39 25 4 59 87 - 3 84 637 18 48 81 490 1995 894 135 39 27 6 63 111 5 5 101 648 18 44 66 520 1996 922 136 39 27 6 64 143 4 7 132 643 18 43 67 515 1997 900 150 39 30 8 73 91 - 1 90 659 17 44 72 526 1998 973 153 39 30 8 76 93 - - 93 727 18 44 70 595 Fonte: MEC/Inep/Seec. passo adiante na recusa conceitual e política da possibilidade de criação de modelos institucionais diferenciados, ao estabelecer no seu artigo 207 que as universidades obedeceriam o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.4 No entanto, a expansão do ensino superior no país, nos últimos 30 anos, mostrou-se refratária à pretendida homogeneidade institucional almejada pela legislação. Os dados da Tabela 1, além de fornecer outras informações, atestam esse fato com bastante evidência. Como se pode observar, o sistema conta atualmente com 973 instituições, sendo que 153 universidades ocupam uma posição irrelevante, em termos quantitativos, representando apenas 16% do conjunto dos estabelecimentos. Ao contrário do pretendido pela legislação, a expressiva maioria do sistema superior é constituída pelos 727 estabelecimentos isolados que representam 75% da totalidade das instituições de ensino. Apesar do forte crescimento numérico das instituições de ensino superior nas últimas décadas, os dados dispo- níveis mostram uma distribuição desigual do total das IES pelo país. As Tabelas 2 e 3 fornecem informações a esse respeito: a região Sudeste absorve 59% dos estabelecimentos, a Sul, 13%, a Nordeste, 13%, a Centro-Oeste, 11% e a região Norte abriga apenas 4% das instituições. Os dados apontam também para uma forte predominância numérica da rede privada, que engloba 78% dos estabelecimentos, enquanto o setor público é responsável por 22% das instituições. As universidades privadas prevalecem numericamente em todas as regiões do país, principalmente no Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Um dos fenômenos mais significativos das mudanças da morfologia do ensino superior brasileiro contemporâneo é a diminuição do número dos estabelecimentos isolados e o crescimento numérico das universidades. Os dados da Tabela 1 trazem informações a esse respeito. Em 1980, havia no país 797 estabelecimentos isolados que diminuíram para 727 no ano de 1998. Durante o mesmo pe-ríodo, as 65 universidades existentes passaram para 43 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 153, registrando um crescimento de 135%. Enquanto o número de universidades federais permaneceu praticamente estável durante esse período, as estaduais triplicaram, passando de 9 para 30 instituições. O maior impulso para o crescimento das instituições universitárias, entretanto, veio do setor privado, que passou de 20 para 76 universidades, representando um aumento de 280%. As 973 instituições que integram o atual sistema de ensino superior brasileiro são muito diferentes entre si nas vocações acadêmico-profissionais, no formato institucional, etc., envolvendo desde centros de ensino e pesquisa bastante complexos como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e outras, até pequenas e isoladas escolas voltadas basicamente para atividades de ensino, espalhadas pelas diversas regiões do país. É importante compor algumas breves e esquemáticas considerações sobre a diversidade institucional desse sistema nacional de ensino, ressaltando que os 727 estabelecimentos isolados são a rigor uma categoria bastante heterogênea porque abrange instituições de tipos bastante distintos como os institutos federais especializados, entre eles as faculdades de medicina e engenharia. Alguns desses centros, principalmente da rede federal, possuem alto nível acadêmico e uma tradição de pesquisa científica. A maioria dos estabelecimentos isolados, no entanto, surgiram da proliferação do ensino superior a partir dos anos 70, e vários deles apresentam deficiências na formação acadêmica dispensada aos seus alunos. Não seria incorreto afirmar que a tendência é a maioria dos estabelecimentos isolados estar voltada apenas para as atividades de ensino e a prática de pesquisa ser mais uma exceção que uma experiência habitual. Os dados disponíveis indicam que as universidades públicas ocupam posição fundamental no interior do campo acadêmico nacional e papel estratégico no processo de desenvolvimento do país. Basta assinalar, por exemplo, seus contínuos resultados positivos alcançados no Exame Nacional de Cursos, os elevados conceitos obtidos nas avaliações dos Programas de Pós-Graduação feitas pela Capes, sua contribuição para a construção da iden- TABELA 2 Evolução do Número de Instituições, por Dependência Administrativa Brasil – 1980-98 Anos Total Privado Público N os Absolutos % 1980 882 200 682 77,3 1981 876 259 617 70,4 1982 873 259 614 70,3 1983 861 246 615 71,4 1984 847 238 609 71,9 1985 859 233 626 72,8 1986 855 263 592 69,2 1987 853 240 613 71,8 1988 871 233 638 73,2 1989 902 220 682 75,6 1990 918 222 696 75,8 1991 893 222 671 75,1 1992 893 227 666 74,5 1993 873 221 652 74,6 1994 851 218 663 74,3 1995 894 210 684 76,5 1996 922 211 711 77,1 1997 900 211 689 76,5 1998 973 209 764 78,5 Fonte: MEC/Inep/Seec. TABELA 3 Número de Instituições, por Natureza e Dependência Administrativa, segundo as Regiões Brasil – 1998 Regiões Brasil Norte Total Universidades Geral Total 973 153 Pública Federações e Integradas Estabelecimentos Isolados Privada Total Pública Privada Total Pública Privada 77 76 93 - 93 727 132 595 24 40 9 8 1 3 - 3 28 4 Nordeste 124 28 22 6 4 - 4 92 22 70 Sudeste 570 70 21 49 62 - 62 438 62 376 Sul 131 34 19 15 8 - 8 89 19 70 Centro-Oeste 108 12 7 5 16 - 16 80 25 55 Fonte: MEC/Inep/Seec. 44 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 tidade nacional, etc. Deve-se salientar, entretanto, que existem profundas diferenças entre elas quanto ao formato institucional, à vocação acadêmica, às demandas e expectativas profissionais de seus estudantes e às formas desenvolvidas pelas instituições para atendê-las. Elas são diferentes também nas modalidades de combinar o ensino, a pesquisa e a extensão. A maior parte das universidades federais surgiu antes da década de 70 e as 39 existentes formam uma rede nacional de estabelecimentos espalhados pelo território nacional, sendo que Tocantins é o único estado da federação que não conta com uma universidade federal. Excetuando-se as universidades estaduais paulistas, uma parte substancial da capacidade de pesquisa instalada no país encontra-se localizada nessa rede. Tudo leva a crer que as federais são fundamentais para o desenvolvimento do país, porque têm se revelado num espaço destacado do processo de ampliação das oportunidades educacionais, e tornaram um locus central na discussão e divulgação de questões relevantes do país e de nossa época, conduzidas por uma pluralidade de perspectivas analíticas. Longe de mitificar as universidades federais, parte-se do reconhecimento que embora formalmente homogêneas no plano institucional elas não o são no nível acadêmico. Várias instituições dessa rede certamente determinados problemas e deficiências acadêmicas que podem e devem ser equacionados. 5 As sucessivas crises institucionais vivenciadas pelas universidades federais têm evidenciado, de certa forma, o esgotamento do modelo único que as rege, alicerçado nas idéias de universalidade de campo e da indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão. Seguramente, nenhuma legislação tem a capacidade de implementar a indissociabilidade entre as atividades de ensino e de pesquisa em todas as áreas de uma determinada instituição, muito menos transformar um professor em pesquisador ou vice-versa. É preciso reconhecer que algumas universidades, departamentos ou docentes podem ter uma vocação mais orientada para a pesquisa e outras, para o ensino profissional. A verdade é que o modelo único se tem mostrado cada vez mais insatisfatório diante da grande diversidade regional da sociedade brasileira. Em vez de engessá-las num protótipo que acaba produzindo ficções acadêmicas, seria mais recomendável o incentivo da prática efetiva de uma pluralidade de modelos acadêmicos.6 O esgotamento do modelo único para todas as universidades federais tem acentuado a necessidade de se desenvolver uma reflexão mais geral, entre outros aspectos, sobre a autonomia dessas instituições para capacitá-las a definir melhor o seu verdadeiro perfil e a sua real vocação institucional. A prática efetiva da autonomia, por exemplo, permitiria a certos estabelecimentos determinar uma maior vinculação regional, encaminhando determinadas atividades acadêmicas para esta direção. Certas instituições eventualmente poderiam privilegiar a formação a ser dispensada na graduação, outras concentrariam seus esforços na atividade de pesquisa em algumas áreas e/ou no conjunto de sua instituição, etc. O essencial é a autonomia possibilitar que as universidades sejam mais transparentes na formulação do seu projeto institucional e de seus reais objetivos. As universidades federais poderiam, com isso, aumentar a relevância dos seus serviços educacionais e manter uma relação mais dinâmica com os contextos sociais que a permeiam. A autonomia exige também uma avaliação pública das instituições, a partir das metas e prio-ridades por elas estabelecidas.7 As universidades estaduais, como indicam os dados da Tabela 1, cresceram significativamente após os anos 80. Como unidade mais rica da federação, o Estado de São Paulo criou na década de 30 um sistema de instituições próprias que sempre usufruiu de uma tradição de autonomia diante do poder federal. Sua situação econômica foi responsável por um sistema universitário mais estruturado e mais bem apoiado financeiramente que as demais instituições mantidas pelos estados da federação. Atualmente, as estaduais paulistas concentram uma parte substancial da pesquisa e da pós-graduação do país, sobretudo nos cursos de doutorado. A criação das demais universidades estaduais, ocorrida em época mais recente, representa, de certa forma, a capacidade retraída de expansão do sistema federal. As universidades estaduais constituem um segmento bastante específico no conjunto do ensino superior do país. Ao contrário das universidades federais e particulares, elas encontram-se fora da alçada do MEC, uma vez que são financiadas e supervisionadas pelos seus respectivos estados, e por se encontrarem exclusivamente sob a supervisão da esfera estadual ficam relativamente à margem do sistema nacional de ensino superior do país. Nesse sentido, torna-se necessário produzir pesquisas mais sistemáticas sobre esse segmento para avaliar o seu potencial, integrá-lo às políticas nacionais voltadas ao ensino superior para a melhoria acadêmica do conjunto do sistema.8 Os dados existentes sobre esse subcampo indicam que trata-se também de um sistema bastante heterogêneo de vocação acadêmico-institucional, de qualificação acadêmica dos docentes, das carreiras oferecidas e da integração 45 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 entre ensino e pesquisa. De um total de 30 universidades estaduais, 16 oferecem cursos de mestrado e 8 possuem programas de doutorado.9 Como já foi salientado, as estaduais paulistas têm uma expressiva participação nesse sistema de pós-graduação, principalmente de doutorado. Se várias universidades estaduais não se destacam pela atividade de pesquisa, nem por isso deixam de oferecer múltiplos e relevantes serviços educacionais e de extensão, mantendo uma relação bastante dinâmica a sociedade. Diante da heterogeneidade interna das universidades estaduais, percebe-se que sua estruturação a partir de um padrão único, privilegiando a atividade de pesquisa como ocorre em outras partes do conjunto do sistema, acarreta mais arranjos artificiais do que uma efetiva articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Aqui também a experimentação de uma pluralidade de modelos institucionais poderia ser um caminho promissor na exploração positiva da diversidade acadêmica desse segmento. Como uma parte expressiva das universidades estaduais é de criação recente, ou seja, ainda possui pouca tradição na constituição de um poder acadêmico interno capaz de neutralizar interferências, principalmente do poder político estadual, torna-se necessário criar mecanismos efetivos que preservem a liberdade acadêmica dessas instituições. Elas não podem ser tratadas como um mero apêndice do setor burocrático local, com dirigentes, docentes e funcionários contratados e/ou substituídos em função dos interesses momentâneos dos governos estaduais, dos partidos políticos ou dos grupos de oposição. A autonomia das universidades estaduais no campo do poder político local representa uma condição necessária para o seu fortalecimento institucional, ou seja, para a organização de uma vida intelectual fundada em princípios e valores estritamente acadêmicos. A diversidade institucional está presente também no subcampo das universidades privadas, integrado basicamente pelas instituições comunitárias, pelas confessionais e pelos estabelecimentos de perfil mais empresarial, uma vez que é possível constatar nesse segmento uma multiplicidade de projetos acadêmico-institucionais. As universidades comunitárias,10 de modo geral, apresentam um trabalho bastante inovador na prestação de serviços educacionais à comunidade, mantendo um elevado grau de interação no seu contexto social. Elas estão voltadas fundamentalmente para as atividades de ensino e desenvolvem um trabalho significativo no domínio da extensão. Como se sabe, até o final da década de 60, as universidades confessionais possuíam maior peso no conjunto do setor privado nacional e estavam praticamente ligadas à Igreja Católica. A presença do ensino privado confessional não era desprezível, porque respondia, na metade daquela década, por aproximadamente 44% das matrículas. Em período mais recente, houve a criação de certas instituições confessionais nãocatólicas, especialmente metodistas e luteranas. Deve-se destacar que determinadas universidades confessionais, de modo especial algumas PUCs, têm desenvolvido suas atividades pautadas por consistentes padrões acadêmicos. Como indica a bibliografia disponível sobre essa questão, no entanto, não foram as instituições confessionais que estiveram à frente do processo expansionista verificado nos anos 70. Um dos traços marcantes no funcionamento do campo das instituições de ensino superior brasileiro atual foi exatamente, o aparecimento de um “novo ensino privado”, de perfil laico, que se constitui a partir do final dos anos 60, comandado por uma lógica de mercado e um acentuado ethos empresarial. Como já foi assinalado, a partir do final dos anos 80 ocorreu um movimento para transformação de escolas isoladas e/ou federações de escolas em universidades particulares, em grande parte guiado por esse “novo ensino privado”.11 As informações disponíveis sugerem que a lógica para a criação das novas universidades particulares, cujo crescimento foi de 280% nos últimos 20 anos, como indicam os dados da Tabela 1, foi influenciada pela fusão de estabelecimentos isolados, que decresceram durante esse período, e/ou pela criação de faculdades integradas particulares, as quais funcionaram como uma espécie de incubadora de novas universidades, aumentando sua participação quantitativa no sistema de forma significativa. Acredita-se que a expansão recente das universidades particulares foi conduzida pelo interesse de suas mantenedoras em obter maior autonomia, conferida legalmente a esse tipo de instituição, principalmente a liberdade de expandir seus cursos e ampliar as vagas existentes. Expressa também uma estratégia, direta ou indireta, de maximizar simbolicamente a posição dessas instituições no interior do campo acadêmico vis-à-vis com estabelecimentos não-universitários, procurando demarcar posições e aumentar a rentabilidade simbólica dos seus títulos escolares nos mercados acadêmico e extra-acadêmico. Várias dessas novas instituições – organizadas formalmente sob a égide do modelo universitário que prescreve a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão – enfrentam sérias dificuldades no seu cotidiano para implantar uma sólida carreira docente, e não têm obtido resultados convincentes na institucionalização da prática da 46 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 nômico e/ou de capital cultural, que viam nele um possível campo de manobra para colocar em prática suas estratégias de reconversão para obter melhores posições materiais e/ou simbólicas. Essa demanda foi absorvida, em parte, por uma relativa expansão do ensino público e, em maior escala, pelo setor privado, que apresentou um acentuado crescimento nessa época.12 Uma vez encerrado esse processo de absorção de novos grupos sociais, acreditava-se que o ensino superior continuaria a se expandir pelo menos no ritmo do aumento populacional. No entanto, não foi isso que ocorreu. Mesmo continuando a crescer nos períodos seguintes, em termos absolutos, registrou-se uma diminuição acentuada desse ímpeto, em contraste com os períodos anteriores. No início da década de 80 eram 1.377.286 matrículas e, no final, 1.518.904 alunos freqüentando o ensino de terceiro grau, representando um aumento de apenas 10% e uma situação de quase estagnação se comparada ao desempenho das décadas anteriores. Nos primeiros anos da década de 90, o sistema ainda permaneceu praticamente estagnado – de 1990 a 1993 cresceu apenas 3,5%. Os sinais de recuperação começaram a aparecer a partir de 1994 e, segundo os últimos dados disponíveis, em 1998 havia 2.125.958 estudantes matriculados na graduação. Com isso, o sistema teria passado por um aumento de 465 mil matrículas em relação a 1994, ou seja, teria crescido, em termos absolutos, nesses últimos quatro anos, mais que durante o período de 1980 a 1994, quando aumentou para apenas 284 mil alunos. Dados mais recentes certamente indicam que o ensino superior ingressou novamente em uma fase de crescimento acelerado, porque nos últimos quatro anos as matrículas de graduação obtiveram crescimento em torno de 28%. Em comparação com outros países da América Latina, da América do Norte, da Europa, etc., a matrícula brasileira de graduação ainda é bastante insatisfatória e apenas 7,6% da população entre 20 e 24 anos de idade ingressaram no ensino superior. Os desafios para o desenvolvimento do país, entretanto, exigem a expansão mais expressiva desse nível de ensino.13 Os dados da Tabela 4 chamam a atenção para o descompasso entre a expansão de matrículas e o número de alunos que concluem o curso. Durante o período de 1980 a 1998, enquanto as matrículas cresceram em torno de 54%, as conclusões, apenas 21%. O fenômeno da evasão tem participação efetiva nesse desequilíbrio. É interessante analisar a participação dos diferentes tipos de estabelecimentos no recente processo de evolução das matrículas do ensino superior, conforme informações contidas na Tabela 5. Os dados indicam também dois movimentos pesquisa científica e na montagem de seus cursos de pósgraduação. Isso é compreensível uma vez que várias dessas instituições surgiram, organizaram-se e expandiramse como centros de ensino, contando com pouca tradição no domínio da investigação científica. Muitas delas, com vocação estrutural para as atividades de ensino, uma vez transformadas em universidades, criam uma série de artificialismos acadêmicos para atender às exigências da prática da pesquisa e da pós-graduação determinadas pela legislação. Em vez de subsumir essas instituições, assim como as federais e as estaduais, a um modelo único, privilegiando o protótipo universitário e acabando sempre por produzir ficções acadêmicas, seria mais vantajoso estimular uma pluralidade de modelos institucionais e avaliálos segundo seus propósitos e resultados acadêmicos efetivos. É necessário, por outro lado, criar dispositivos que preservem, nessas novas universidades particulares, a liberdade de crítica e de manifestação do pensamento por parte dos docentes, funcionários e alunos, protegendo sua atividade acadêmica de interesses mediatos e/ou imediatos dos seus mantenedores e proprietários. AS MATRÍCULAS, OS CURSOS E OS DOCENTES Ao lado do crescimento e da diversificação das instituições que o integram, o ensino superior no país passou também, nas três últimas décadas, por um forte crescimento de suas matrículas. Os dados da Tabela 4 fornecem informações importantes sobre essa questão. Em 1962, atendia pouco mais de 100 mil alunos, desempenho que contrasta de maneira significativa com os 2,1 milhões que freqüentaram a graduação em 1998. Como se pode perceber existem flutuações nesse processo de expansão. O período de maior número de matrículas ocorreu durante os anos de 1962 e 1972, quando a taxa de crescimento foi de 540%. Na década seguinte, o ritmo começa a diminuir, registrando-se um crescimento de 86% no período entre 1973 e 1983. O resultado dessas duas décadas explica-se, em grande parte, pelo acesso de um público socialmente mais diversificado, com a inclusão acentuada do gênero feminino, de uma clientela composta por pessoas de maior faixa etária e que já se encontravam integradas no mercado de trabalho, em função de grandes transformações no campo da produção econômica, da expansão dos centros urbanos, do desenvolvimento das grandes burocracias estatais e privadas, etc. Tudo leva a crer que o ensino superior assumiu, nesse momento, maior visibilidade para determinados setores das camadas médias urbanas, mais desprovidas de capital eco- 47 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 TABELA 4 Evolução das Estatísticas do Ensino Superior Brasil – 1962-98 Docentes Matrícula (A) (B) 1962 25.213 107.509 4,3 ... ... ... ... ... 1963 28.944 124.214 4,3 19.049 ... ... ... ... 1964 30.162 142.386 4,7 20.282 ... ... ... ... 1965 33.135 155.781 4,7 22.291 ... ... ... ... 1966 36.109 180.109 5 24.301 ... ... ... ... 1967 38.693 212.882 5,5 30.108 ... ... ... ... 1968 44.706 278.295 6,2 35.947 ... ... ... ... 1969 49.547 342.886 6,9 44.709 ... ... ... ... 1970 54.389 425.478 7,8 64.049 145.000 328.931 2,3 ... 1971 61.111 561.397 9,2 73.453 202.110 400.958 2 ... 1972 67.894 688.382 10,1 96.470 230.511 449.601 2 ... 1973 72.951 772.800 10,6 135.339 261.003 574.708 2,2 ... 1974 75.971 937.593 12,3 150.226 309.448 614.805 2 ... 1975 83.386 1.072.548 12,9 161.183 348.227 781.190 2,2 ... Anos (B/A) Concluintes Vagas Inscrições Oferecidas (C) (D) (D/C) Ingressos 1976 86.189 1.096.727 12,7 176.475 382.418 945.279 2,5 ... 1977 90.557 1.159.046 12,8 187.973 393.560 1.186.181 3 ... 1978 98.172 1.225.557 12,5 200.056 401.977 1.250.537 3,1 ... 1979 102.588 1.311.799 12,8 222.896 402.694 1.559.094 3,9 ... 1980 109.788 1.377.286 12,5 226.423 404.814 1.803.567 4,5 356.667 1981 113.899 1.386.792 12,2 229.856 417.348 1.735.457 4,2 357.043 1982 116.111 1.407.987 12,1 244.639 421.231 1.689.249 4 361.558 1983 113.779 1.438.992 12,6 238.096 ... ... ... ... 1984 113.844 1.399.539 12,3 227.824 ... ... ... ... 1985 113.459 1.367.609 12,1 234.173 430.482 1.514.341 3,5 346.380 1986 117.221 1.418.196 12,1 228.074 442.314 1.737.794 3,9 378.828 1987 121.228 1.470.555 12,1 224.809 447.345 2.193.861 4,9 395.418 1988 125.412 1.503.555 12 227.037 463.739 1.921.878 4,1 395.189 1989 128.029 1.518.904 11,9 232.275 466.794 1.818.033 3,9 382.221 1990 131.641 1.540.080 11,7 230.206 502.784 1.905.498 3,8 407.148 1991 133.135 1.565.056 11,8 236.377 516.663 1.985.825 3,8 426.558 1992 134.403 1.535.788 11,4 234.267 534.847 1.836.859 3,4 410.910 1993 137.156 1.594.668 11,6 240.262 548.678 2.029.523 3,7 439.801 1994 141.482 1.661.034 11,7 240.269 574.135 2.237.023 3,9 463.240 1995 145.290 1.759.703 12,1 245.887 610.355 2.653.853 4,3 510.377 1996 148.320 1.868.529 12,6 254.401 634.236 2.548.077 4 513.842 1997 165.964 1.945.615 11.7 274.384 699.198 2.711.776 3.9 573.900 1998 165.122 2.125.958 12.9 ... 776.031 2.858.016 3.7 651.353 Fonte: MEC/Inep/Seec. significativos na configuração das matrículas. O primeiro deles, de contínua diminuição da participação de estabelecimentos isolados no total das matrículas. Esses estabelecimentos respondiam, em 1980, por 46% do alunado de graduação. Já no ano de 1986, essa participação diminuiu para 36% e, no ano de 1998, baixou significativamente para 21%. Contrapondo-se a essa tendência, as universidades aumentaram sua participação na absorção do alunado, paulatinamente, durante esse período. Em 1980, já eram responsáveis por 47% das matrículas, saltando para 51% em 1986. Pouco mais de dez anos 48 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 TABELA 5 Evolução da Matrícula, por Natureza e Dependência Administrativa Brasil – 1980-98 Anos Total Geral Universidades Total Federações e Integradas Federal Estadual Municipal Particular Total Estabelecimentos Isolados Estadual Municipal Particular Total Federal Estadual Municipal Particular 1980 1.377.286 652.200 305.099 81.723 17.019 248.359 96.892 2.622 - 94.270 628.194 11.616 24.907 49.246 542.425 1981 1.386.792 644.203 301.505 82.356 17.595 242.747 186.540 2.244 5.239 179.057 556.049 11.712 45.059 70.100 429.178 1982 1.407.987 659.500 305.468 87.499 17.624 248.909 189.146 - 7.198 181.948 559.341 11.472 47.402 71.725 428.742 1983 1.438.992 687.860 328.044 98.371 17.213 244.232 206.408 - 5.032 201.376 544.724 12.074 48.826 67.129 416.695 1984 1.399.539 672.624 314.194 106.066 17.602 234.762 198.818 - 4.067 194.751 528.097 12.005 49.947 67.998 398.147 1985 1.367.609 671.977 314.102 104.441 15.414 238.020 184.016 - 4.052 179.964 511.616 12.420 42.375 63.876 392.945 1986 1.418.196 722.863 313.520 104.816 20.600 283.927 190.711 - 3.094 187.617 504.622 12.214 48.973 74.415 369.020 1987 1.470.555 761.236 315.956 114.418 26.180 304.682 197.810 - - 197.810 511.509 13.467 53.621 61.323 383.098 1988 1.503.555 770.240 304.465 129.785 17.178 318.812 201.744 - 965 200.779 531.571 13.366 60.951 58.641 398.613 1989 1.518.904 816.024 301.535 136.137 21.663 356.689 183.483 - - 183.483 519.397 13.748 57.560 53.771 394.318 1990 1.540.080 824.627 294.626 136.257 23.499 370.245 202.079 - - 202.079 513.374 14.241 58.160 51.842 389.131 1991 1.565.056 855.258 305.350 153.678 24.390 371.840 225.700 - 9.266 216.434 484.098 14.785 48.637 49.630 371.046 1992 1.535.788 871.729 310.533 159.963 30.353 370.880 205.465 - 9.445 196.020 458.594 15.351 50.170 53.847 339.226 1993 1.594.668 940.921 328.907 167.674 28.623 415.717 210.117 - 10.362 199.755 443.630 15.480 48.861 53.609 325.680 1994 1.661.034 1.034.726 349.790 190.271 31.547 463.118 203.471 - 10.344 193.127 422.837 13.753 41.665 53.080 314.339 1995 1.759.703 1.127.932 353.235 201.974 43.370 529.353 193.814 1.161 4.168 188.485 437.957 14.296 36.080 46.256 341.325 1996 1.868.529 1.209.400 373.880 204.819 47.432 583.269 245.029 1.592 7.089 236.348 414.100 15.107 36.690 48.818 313.485 1997 1.945.615 1.326.459 380.980 226.149 59.292 660.038 192.667 - 1.078 191.589 426.489 14.853 27.529 49.301 334.806 1998 2.125.958 1.467.888 392.873 239.908 67.758 767.349 216.137 - - 216.137 441.933 15.767 35.026 53.397 337.743 Fonte: MEC/Inep/Seec. Os dados da Tabela 6 mostram claramente o predomínio quantitativo do setor privado na evolução das matrículas nos últimos 20 anos no país. De um modo geral, a participação do setor privado nas matrículas ficou em torno de 60% nos últimos 18 anos, período analisado, e em 1998 absorvia 62% do total dos alunos de graduação. Tudo leva a crer que um dos gargalos que emperrou de maneira decisiva o crescimento do sistema foi o desempenho da educação média no país. Quando observa-se, por exemplo, o número de inscrições para o vestibular, não deixa de chamar a atenção, no ano de 1980, que 1.803.567 candidatos se submeteram a esse exame. Mais de dez anos depois, ou seja, em 1992, esse número pouco se alterou, pois inscreveram-se 1.836.859 candidatos, um crescimento de apenas 2% (Tabela 4). Durante esse período, houve oscilações para mais ou para menos, mas não deixou de ser relevante que em 12 anos a demanda foi bastante similar. depois, ou seja, em 1998, destacaram-se na participação das matrículas de graduação no país, uma vez que absorveram 69% desse alunado. O crescimento das instituições universitárias foi, em grande parte, estruturado no processo de fusão de estabelecimentos isolados, o que explica a diminuição desses estabelecimentos na particpação das matrículas. Quando se analisa o crescimento das instituições universitárias, encontram-se diferenças importantes nesse segmento. Tomando como referência o período 1980-1998, as matrículas nas universidades particulares cresceram em torno de 208%, nas universidades municipais, 298% e nas estaduais, 193%. As universidades federais apresentaram um crescimento muito pequeno no número de alunos. Em 1986, as universidades federais abrigavam 313.520 alunos e, 12 anos depois, em 1998, esse número passou para 392.873, registrando um aumento de apenas 25%. Esse resultado é no mínimo preocupante diante do custo desse segmento.14 49 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 superior, o fenômeno do rápido aumento das matrículas nem sempre foi acompanhado, com a mesma intensidade, pelo número de alunos concluintes (Tabelas 7 e 8), porque as altas taxas de repetência certamente contribuíram para esse descompasso. Durante o período 1984-1998, a relação entre concluintes do ensino médio e o número de vagas no ensino superior ficou em torno de 2%. De um modo geral, esses dados demonstram que a retomada da expansão do ensino superior depende, em grande parte, do equacionamento de problemas estruturais existentes no ensino fundamental e no médio. Se a curto prazo o ensino médio ampliar a capacidade de diplomar seus estudantes e as instituições de ensino superior caminharem em direção à maior diversificação de formação profissional e de diplomas, certamente haverá um aumento potencial da demanda que passará a pressionar a expansão do ensino superior no país. Quando se analisam os dados mais recentes, percebese que os cursos de graduação existentes no país (Tabela 9) apresentam um acentuado crescimento. No período 1988/1998, expandiram em torno de 62%. Como se sabe, inicialmente os cursos de graduação foram criados na sociedade brasileira para favorecer a formação nas profissões tradicionais, como o direito, a medicina e a engenharia, e durante um longo período, com poucas variações, o ensino superior estruturou-se para essas carreiras. Paralelamente ao processo de diversificação institucional dos estabelecimentos de terceiro grau, ampliaram-se as carreiras profissionais e atualmente há 150 áreas de graduação, conforme classificação do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep).16 Há também um predomínio da rede particular na oferta dos cursos no país. No ano de 1998, de um total de 6.950 cursos, a rede privada respondia por um total de 3.980, ou seja, 57% dos cursos em funcionamento. Por outro lado, os dados da Tabela 9 indicam um forte crescimento no período 1988/1998 dos cursos oferecidos pelas redes estadual (87%), municipal (86%) e privada (68%). A evolução da oferta de cursos da rede federal cresceu apenas 27%. As informações disponíveis demonstram também uma distribuição fortamente desigual da oferta de cursos entre as regiões do país. Conforme os dados da Tabela 10, no ano de 1998, a região Norte respondia por 5% dos cursos, o Nordeste, por 16%, o Sudeste, por 47%, o Sul, por 23% e a região Centro-Oeste, por 9%. Quando se compara a distribuição do número de cursos por grandes áreas do conhecimento (Tabela 10), percebe-se que apenas duas delas, ciências sociais aplicadas e ciências humanas, TABELA 6 Evolução das Matrículas de Graduação, por Dependência Administrativa Brasil – 1980-98 Anos Total Privado Público N os Absolutos % 1980 1.377 492 885 64,27 1981 1.386 536 850 61,33 1982 1.407 548 859 61,05 1983 1.438 576 862 59,94 1984 1.399 572 827 59,11 1985 1.367 557 810 59,25 1986 1.418 578 840 59,24 1987 1.470 585 885 60,20 1988 1.503 585 918 61,08 1989 1.518 584 934 61,53 1990 1.540 579 961 62,40 1991 1.565 606 959 61,28 1992 1.535 629 906 59,02 1993 1.594 653 941 59,03 1994 1.661 691 970 58,40 1995 1.759 700 1.059 60,20 1996 1.868 735 1.133 60,65 1997 1.948 762 1.186 60,88 1998 2.125 803 1.322 62,21 Fonte: Inep – Censo do Ensino Superior 1998; Evolução do Ensino Superior 1980-1996. A Tabela 7 indica um contínuo crescimento, em termos absolutos, das matrículas do ensino médio. Esse desempenho é explicado pelo aumento das taxas de conclusão do ensino fundamental, pela expansão dos cursos supletivos de primeiro grau e pela oferta de cursos noturnos. Pode-se perceber, no entanto, significativas flutuações nesse crescimento do ensino médio. No período 19711975, a taxa de crescimento foi de 73%, baixando para 7% no período 1980-1985. A partir do final dos anos 80 houve uma retomada do processo de expansão, uma vez que no período 1989-1999 as matrículas cresceram 123%. Os dados evidenciam também a recuperação provocada pelo desempenho do setor público, em especial pela rede estadual que respondia em 1999 por 79% das matrículas. Por outro lado, alguns levantamentos registram o crescimento do número de matrículas do ensino médio em todas as regiões do país, nos últimos dez anos, principalmente em regiões com pequena participação na oferta do ensino superior, seja pelo número de matrículas, seja pelo número de instituições. 15 Tal como ocorreu no ensino 50 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 TABELA 7 Evolução da Matrícula Inicial do Ensino Médio, por Dependência Administrativa Brasil – 1971-99 Anos Dependência Administrativa Total Geral Federal N os Estadual Absolutos % N os Municipal Absolutos % N os Absolutos Particular % N os Absolutos % 1971 1.119.421 44.604 4,0 536.695 47,9 51.074 4,6 487.048 43,5 1972 1.299.937 - - - - - - - - 1973 1.477.650 - - - - - - - - 1974 1.681.728 69.128 4,1 801.861 47,7 73.876 4,4 736.863 43,8 1975 1.935.903 78.888 4,1 919.090 47,5 60.889 3,1 877.036 45,3 1976 2.212.749 82.591 3,7 1.048.625 47,4 71.738 3,2 1.009.795 45,6 1977 2.437.701 84.932 3,5 1.153.703 47,3 71.652 2,9 1.127.414 46,2 1978 2.538.236 90.271 3,6 1.194.096 47,0 79.648 3,1 1.174.221 46,3 1979 2.658.078 89.430 3,4 1.243.366 46,8 86.449 3,3 1.238.833 46,6 1980 2.819.182 86.125 3,1 1.324.682 47,0 97.454 3,5 1.310.921 46,5 1981 2.820.998 92.028 3,3 1.391.730 49,3 117.524 4,2 1.219.716 43,2 1982 2.874.505 96.536 3,4 1.473.352 51,3 126.794 4,4 1.177.823 41,0 1983 2.944.097 101.784 3,5 1.574.752 53,5 137.716 4,7 1.129.845 38,4 1984 2.951.624 93.245 3,2 1.691.107 57,3 134.711 4,6 1.032.561 35,0 1985 3.016.138 99.422 3,3 1.780.155 59,0 132.333 4,4 1.004.228 33,3 1986 - - - - - - - - - 1987 (1) 3.206.207 92.561 2,9 1.854.333 57,8 133.369 4,2 1.125.113 35,1 1988 3.368.150 98.297 2,9 2.039.812 60,6 145.476 4,3 1.084.565 32,2 1989 3.477.859 97.777 2,8 2.170.632 62,4 152.981 4,4 1.056.469 30,4 1990 - - - - - - - - - 1991 3.770.230 103.092 2,7 2.472.757 65,6 176.769 4,7 1.017.612 27,0 1992 (2) 4.085.631 101.200 2,5 2.814.269 68,9 210.422 5,2 959.740 23,5 1993 (3) 4.183.847 100.686 2,4 2.856.821 68,3 235.583 5,6 990.757 23,7 1994 (4) 4.510.199 107.823 2,4 3.112.873 69,0 250.405 5,6 1.039.098 23,0 1995 5.374.831 113.524 2,1 3.808.326 70,9 288.708 5,4 1.164.273 21,7 1996 5.739.077 113.091 2,0 4.137.324 72,1 312.143 5,4 1.176.519 20,5 1997 6.405.057 131.278 2,0 4.644.671 72,5 362.043 5,7 1.267.065 19,8 1998 6.968.531 122.927 1,8 5.301.475 76,1 317.488 4,6 1.226.641 17,6 1999 7.769.199 121.673 1,6 6.141.907 79,1 281.255 3,6 1.224.364 15,8 Fonte: MEC/Inep/Seec; Sinopses Estatísticas. (1) 831 matrículas sem informação de dependência administrativa. (2) Os dados de AM, BA, RJ e SC referem-se ao Censo Escolar de 1991 (3) Os dados de SP e RJ referem-se a 1991 e os dados de SC e PR a 1992. (4) Para o ano de 1994, os dados do RJ e SP referem-se ao Censo Educacional de 1991; os dados do AM e BA referem-se ao Censo Educacional de 1993 e do PR referem-se a 1995. são responsáveis por 51% dos cursos existentes no país. Chama a atenção também a pequena participação de determinadas áreas do conhecimento na oferta de cursos, como engenharia e tecnologia (4%), ciências agrárias (4%) e ciências biológicas (3%). Por outro lado, quando se analisa a distribuição dos cursos por dependência administrativa (Tabela 11), constata-se que o setor privado tem uma forte participação nas ofertas de cursos nas áreas de ciências sociais e aplicadas (70%) na área de ciências humanas (51%), e também na oferta de cursos nas áreas de ciências da saúde (60%), engenharia e tecnologia (50%) e ciências exatas e da terra (52%), que tradicionalmente eram monopolizados pelos estabelecimentos públicos. Qual era a titulação acadêmica dos docentes que participavam nas atividades do ensino superior no país no final dos anos 90? Como se pode constatar, atualmente o 51 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 sistema conta com 165.122 mil docentes (Tabelas 12 e 13), dos quais, apenas 19% possuem a titulação de doutor e 27% a de mestre, ou seja, 54% dos docentes não possuem nenhum título conferido pela pós-graduação stricto sensu, uma vez que 35% são portadores do título de especialista e apenas 19% são graduados. Não deixa de ser preocupante o fato de as instituições particulares, onde se concentram 62% das matrículas da graduação, apresentarem um corpo docente com taxa tão pequena de titulação acadêmica. Os dados evidenciam que 76% dos doutores e 55% dos mestres estão concentrados nas instituições públicas. Esse contingente, certamente, encontrase também em determinadas instituições, como nas universidades estaduais paulistas e em algumas universidades federais. Alguns estudos desenvolvidos sobre o sistema acadêmico nacional têm chamado a atenção para o grau de correlação entre o nível da qualificação acadêmica e a profissionalização da carreira docente no país, e nesse sentido os dados têm demonstrado que o cultivo de um ethos acadêmico e a efetiva prática da profissão acadêmica encontra-se implantada em uma pequena fração das instituições de ensino superior no país.17 TABELA 8 Vagas Oferecidas no Vestibular para o Ensino Superior e Número de Concluintes no Ensino Médio Brasil – 1984-1998 Anos Vagas Oferecidas no Ensino Superior (A) Concluintes do Ensino Médio (B) 343.028 447.345 502.784 548.678 634.236 699.198 776.031 585.193 605.504 658.725 851.428 959.545 1.300.150 1.536.049 1984 1987 1990 1993 1996 1997 1998 B/A 1,7 1,4 1,3 1,6 1,5 1,9 2,0 Fonte: MEC/Sediae/Sinopse Estatística do Ensino Superior. TABELA 9 Evolução do Número de Cursos, por Dependência Administrativa Brasil – 1984-1998 Anos Total Federal Estadual 1984 1985 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1988/98 (%) 3.806 3.923 4.188 4.288 4.453 4.712 4.908 5.081 5.280 5.562 6.252 6.644 6.132 6.950 62,1 960 989 1.041 1.054 1.073 1.085 1.143 1.154 1.185 1.270 1.536 1.581 1.316 1.338 26,9 433 461 554 600 613 644 684 723 739 769 876 964 939 1.125 87,5 Municipal Particular 344 335 326 273 258 272 312 367 369 373 370 433 443 507 85,7 2.069 2.138 2.267 2.361 2.509 2.711 2.769 2.837 2.987 3.150 3.470 3.666 3.434 3.980 68,6 A PÓS-GRADUAÇÃO E SUAS RELAÇÕES COM A GRADUAÇÃO Ao lado da expansão da graduação, desenvolveu-se no país, nos últimos 30 anos, um vigoroso sistema de pós-graduação. No final da década de 60, a pós-graduação tinha aproximadamente 100 cursos, abrangendo não mais de 2 mil alunos. Atualmente conta com 2.066 cursos cobrindo todas as áreas do conhecimento, vários deles com excelente padrão acadêmico. No ano de 1998 esse sistema possuía 77.641 alunos e foi responsável por 16.455 titulações (Ta- Fonte: MEC/Inep/Seec. TABELA 10 Número de Cursos, por Área do Conhecimento, segundo Regiões Brasil – 1998 Total Ciências Exatas e da Terra Ciências Biológicas Engenharia/ Tecnologia Ciências da Saúde Ciências Agrárias Ciências Sociais Aplicadas Ciências Humanas Lingüística, Letras e Artes 6.950 387 1.134 3.247 1.575 607 1.116 66 186 503 260 101 204 12 49 79 40 24 269 15 43 145 58 8 871 37 120 472 189 53 250 17 37 101 70 25 2.122 97 285 1.045 503 192 1.436 97 286 600 317 136 680 46 128 301 138 67 Regiões Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Fonte: MEC/Inep/Seec. 52 Ciclo Básico 2 1 1 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 TABELA 11 Número de Cursos, por Área de Conhecimento, segundo Natureza e Dependência Administrativa Brasil – 1998 Natureza e Dependência Administrativa Total Ciências Exatas e da Terra Total Federal Estadual Municipal Particular 6.950 1.338 1.125 507 3.980 Universidades Federal Estadual Municipal Particular Federações e Integradas Federal Estadual Municipal Particular Estabelecimentos Isolados Federal Estadual Municipal Particular Ciências Biológicas Engenharia/ Tecnologia Ciências da Saúde Ciências Agrárias Ciências Sociais Aplicadas 1.116 228 219 83 586 204 50 59 14 81 269 70 48 15 136 871 185 125 41 520 250 89 50 12 99 2.122 298 175 164 1.485 4.591 1.279 984 310 2.018 766 220 197 46 303 173 50 59 7 57 182 47 34 13 88 676 177 110 31 358 197 82 47 6 62 730 730 124 124 15 15 18 18 66 66 1.629 59 141 197 1.232 226 8 22 37 159 16 7 9 69 23 14 2 30 129 8 15 10 96 Ciências Humanas Lingüística, Letras e Artes Ciclo Básico 1.436 271 294 131 740 680 147 154 47 332 2 1 1 1.212 290 156 107 659 942 267 253 78 344 441 146 127 22 146 2 1 1 13 13 275 275 151 151 68 68 - 40 7 3 6 24 635 8 19 57 551 343 4 41 53 245 171 1 27 25 118 - Fonte: MEC/Inep/Seec. TABELA 12 Distribuição e Taxa de Crescimento das Funções Docentes em Exercício, segundo Regiões e Grau de Formação Brasil – 1990-1998 Regiões/ Grau de Formação 1990 1998 1990/98 1990 Regiões/ Grau de Formação Total 25,4 -31,9 38,7 63,9 83,4 Sudeste Sem Pós-Graduação Especialização Mestrado Doutorado 100,0 26,2 42,1 24,7 7,0 72,2 14,8 115,8 99,3 107,9 100,0 22,4 35,2 29,4 13,0 14,3 -35,0 42,2 38,1 85,0 Total % Total % Brasil Sem Pós-Graduação Especialização Mestrado Doutorado 131.641 45.352 41.597 27.753 16.939 100,0 34,5 31,6 21,1 12,9 165.122 30.890 57.677 45.482 31.073 100,0 18,7 34,9 27,5 18,8 Norte Sem Pós-Graduação Especialização Mestrado Doutorado 4.151 1.629 1.395 885 242 100.0 39.2 33.6 21.3 5.8 7.148 1.870 3.011 1.764 503 Nordeste Sem Pós-Graduação Especialização Mestrado Doutorado 22.293 8.771 6.305 5.422 1.795 100.0 39.3 28.3 24.3 8.1 25.479 5.704 8.966 7.488 3.321 % Fonte: MEC/Inep/Seec. 53 1998 % 1990/98 % % Total 73.021 24.396 21.363 14.997 12.265 100.0 33.4 29.3 20.5 16.8 86.759 15.085 27.822 23.121 20.731 100,0 17,4 32,1 26,6 23,9 18,8 -38,2 30,2 54,2 69,0 Sul Sem Pós-Graduação Especialização Mestrado Doutorado 24.567 7.808 9.797 4.991 1.971 100.0 31.8 39.9 20.3 8.0 33.963 5.666 13.182 10.156 4.959 100,0 16,7 38,8 29,9 14,6 38,2 -27,4 34,6 103,5 151,6 Centro-Oeste Sem Pós-Graduação Especialização Mestrado Doutorado 7.609 2.748 2.737 1.458 666 100.0 36.1 36.0 19.2 8.8 11.773 2.565 4.696 2.953 1.559 100,0 21,8 39,9 25,1 13,2 54,7 -67,0 71,6 102,5 134,1 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 TABELA 13 Número de Funções Docentes em Exercício, por Natureza e Dependência Administrativa, segundo Grau de Formação Brasil – 1998 Grau de Formação Total Total Geral Universidades Outras IES Federal Estadual Municipal Privada Pública Privada Pública Privada 165.122 45.611 30.621 7.506 81.384 75.485 44.528 8.253 36.856 Sem Pós-Graduação 30.890 7.767 5.512 1.049 16.562 12.518 8.908 1.810 7.654 Especialização 57.677 8.303 8.158 4.332 36.884 16.992 17.830 3.801 19.054 Mestrado 45.482 16.371 7.003 1.699 20.409 23.254 12.441 1.819 7.968 Doutorado 31.073 13.170 9.948 426 7.529 22.721 5.349 823 2.180 Total Fonte: MEC/Inep/Seec. TABELA 14 Evolução do Número de Cursos, do Alunado e dos Titulados, por Nível Brasil – 1976-98 Mestrado Cursos Doutorado Total Mestrado Titulados Doutorado 1976 561 200 761 24.190 2.041 26.231 2.199 188 2.387 1977 618 219 837 28.546 2.977 31.523 2.907 316 3.223 1978 664 235 1979 703 252 899 30.109 3.522 33.631 3.885 376 4.261 955 32.330 3.971 36.301 4.003 465 4.468 1980 726 277 1.003 34.550 4.419 38.969 4.121 554 4.675 1981 736 285 1.021 35.409 5.709 41.118 3.952 551 4.503 1982 760 301 1.061 36.268 6.999 43.267 3.782 547 4.329 1983 777 314 1.091 37.351 6.564 43.915 3.968 587 4.555 1984 792 333 1.125 37.985 7.151 45.136 3.657 628 4.285 1985 820 346 1.166 37.943 7.871 45.814 3.802 720 4.522 1986 829 353 1.182 37.825 8.627 46.452 3.630 743 4.373 1987 861 385 1.246 30.337 8.309 38.646 3.865 1.005 4.870 1988 899 402 1.301 31.575 8.515 40.090 3.965 990 4.955 1989 936 430 1.366 33.273 9.398 42.671 4.797 1.139 5.936 1990 964 450 1.414 36.502 10.923 47.425 5.579 1.410 6.989 1991 982 468 1.450 37.205 12.015 49.220 6.772 1.750 8.522 1992 1.018 502 1.520 37.412 13.682 51.094 7.272 1.759 9.031 1993 1.039 524 1.563 38.265 15.569 53.834 4.557 1.875 6.432 1994 1.119 594 1.713 40.027 17.361 57.388 7.550 2.031 9.581 1995 1.159 616 1.775 43.121 19.492 62.613 8.982 2.497 11.479 1996 1.180 627 1.807 44.925 22.004 66.929 10.356 2.972 13.328 1997 1.263 671 1.934 47.271 24.250 71.521 11.925 3.604 15.529 1998 1.339 727 2.066 50.844 26.797 77.641 12.510 3.945 16.455 Anos Total Alunos Matriculados Mestrado Doutorado Fonte: MEC/Inep/Seec. 54 Total O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 bela 14). Ao contrário da graduação, a pós-graduação encontra-se concentrada basicamente nos estabelecimentos públicos (federais e estaduais). Entre outras contribuições, a pós-graduação atraiu e institucionalizou a pesquisa no interior de algumas universidades e/ou instituições, possibilitou o desenvolvimento de um ethos acadêmico e a constituição da profissão acadêmica no país. Tudo leva a crer que a recente expansão dos ensinos de graduação e de pós-graduação foi estruturada a partir de lógicas e práticas acadêmicas bastante distintas. De certa forma, pode-se afirmar que a graduação se expandiu de forma desordenada, sem planejamento estratégico a longo prazo, ao sabor das pressões da demanda por ensino superior e oriunda de grupos interessados em adquirir e/ou acumular um capital escolar. Cresceu também ao sabor da oferta, uma vez que sua expansão em grande escala, como assinalado anteriormente, foi comandada por um setor privado laico, portador de forte ethos empresa-rial, quase sempre voltado mais para a rentabilidade voraz de seus investimentos que para a busca sistemática de melhoria do ensino de graduação. Por outro lado, as instituições públicas, com poucas exceções, também planejaram de modo satisfatório o crescimento e a melhoria do ensino da graduação. Talvez seja mais correto afirmar que o sistema de graduação foi em grande parte o resultado de uma não-política. A Lei no 5.540 que comandou a Reforma Universitária de 1968, basicamente voltada para as instituições públicas, instituiu o sistema de créditos, aboliu o curso seriado, transformou os departamentos em unidades mínimas do sistema. Por meio dessa lei foi modificada também a carreira do magistério, introduzindo-se a dedicação exclusiva às atividades acadêmicas e adotando-se o princípio da indissolubilidade entre ensino e pesquisa. Na verdade, quando se olha retrospectivamente para o funcionamento da graduação, constata-se que, enquanto tendência, existiu um imenso descompasso na união do ensino com a pesquisa nesse nível. Geralmente, alocaram ali os professores com menor experiência e titulação acadêmica, com a função precípua de transmitir os conhecimentos de sua área. A graduação foi formada a partir de um sistema de créditos, sem um sólido sistema de orientação, onde, em princípio, o aluno deveria escolher as disciplinas. No entanto, os currículos de 1968 incharam-se de tal maneira que dificultaram enormemente as escolhas adequadas. Os pré-requisitos, de certa forma, amarraram os alunos, levando-os a permanecer no curso por um longo período, ou então a evadir do curso ou do sistema de ensino de terceiro grau. A graduação, durante as décadas de 70 e 80, cresceu no número de alunos e professores, mas não houve esforços contínuos de implementação de programas para enfrentar esse aumento da demanda, nem para enfrentar a entrada de um público mais diversificado socialmente. O resultado dessa não-política foi o aumento considerável da evasão, um desperdício enorme de estudantes, de disciplinas e uma refração à mudança e à modernização desse nível de ensino. Sem montar um adequado planejamento para orientar seu crescimento, sem uma política de fomento para a melhoria acadêmica, sem um eficiente sistema de avaliação, sem pesquisa e sem prestígio acadêmico, a graduação permaneceu por um longo período como a expressão profana do ensino superior. Ao contrário dessa situação, a pós-graduação cresceu de forma mais planejada e orientada. Como exemplo, mencionemos a existência dos Planos Nacionais de Pós-Graduação18 que traçaram rumos bem-definidos para a sua expansão e, a seu lado, os órgãos de fomento nacionais e internacionais investiram de forma sistemática na implantação desse nível de ensino. Diferentemente do ensino de graduação, a expansão da pós-graduação foi o resultado de uma política indutiva orientada e conduzida pelo poder central. No âmbito das políticas públicas no Brasil, a pós-graduação se apresenta como um dos setores em que o planejamento de médio e de longo prazo tem desempenhado um papel significativo. Essa formação é uma obra conjunta da comunidade acadêmica nacional e da participação decisiva das agências de fomento nacionais. Um dos êxitos desse sistema deve-se à montagem de um eficiente método de credenciamento, no qual se analisa não apenas a pertinência da abertura dos cursos mas suas condições acadêmicas de funcionamento, e além disso implantou-se um sistema periódico de avaliação daqueles em funcionamento, procurando detectar e sanar suas possíveis falhas. A estrutura acadêmica da pós-graduação foi construída a partir de procedimentos bem-definidos. Acoplou-se o ensino à pesquisa, estabeleceu-se um número limitado de disciplinas articuladas com as respectivas linhas de pesquisa dos cursos. Ao mesmo tempo, criou-se um sistema eficiente de orientação de dissertações e teses. O resultado dessa estrutura acadêmica tem permitido um forte crescimento da produção científica que, em várias áreas do conhecimento, tem possibilitado a renovação de campos específicos do saber e contribuído para a introdução de novas questões para investigação. A pós-graduação, por 55 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 grama de Bibliotecas universitárias (Probib) e o Programa de Informatização (Proinf). Merece também ser mencionado o Programa de Integração Pós-Graduação/Graduação (Proin), criado pela Capes em 1995. Essa preocupação maior com o aperfeiçoamento da graduação começou criação, em 1996, do Exame Nacional de Cursos e da avaliação realizada in loco por comitês de especialistas das condições de oferta dos cursos de graduação pelas instituições, especialmente as que obtiveram baixa avaliação.19 Tal conjunto de iniciativas representa, certamente, um fato positivo para a evolução da graduação, até então na zona obscura do ensino superior. É necessário reconhecer, entretanto, quando se considera o tamanho e a dimensão do ensino superior em todo o território nacional e os desafios ao seu aperfeiçoamento, que algumas dessas iniciativas como o Pibic, o Proin, etc. estão circunscritas a poucas instituições. Ao se reconhecer o valor intrínseco dessas iniciativas, deve-se ponderar que devem ser desenvolvidas em conjunto com estratégias mais abrangentes de qualificação dos cursos de graduação. O sistema de ensino superior ocupa uma posição estratégica e fundamental no processo de modernização e de desenvolvimento do país. Tem a função de fornecer quadros profissionais capacitados e pessoal qualificado cientificamente para atender às diversas, e cada vez mais complexas, demandas tanto do setor público quanto do privado, para isso precisando melhorar continuamente seu método de graduação. Necessita também da colaboração de seu sistema de pós-graduação para formar docentes qualificados, pesquisadores e recursos humanos de alto nível. A integração entre os ensinos de graduação e de pósgraduação é altamente desejável, possível e, certamente, pode avançar mais para maior articulação entre esses dois níveis. A pós-graduação deve manter conexões mais estreitas com o ensino de terceiro grau no país, contribuindo com uma série de iniciativas para seu crescente desenvolvimento e modernização. outro lado, liga a vida acadêmica nacional a centros relevantes da produção científica internacional. Contando com um planejamento adequado para orientar seu crescimento, a pós-graduação permanece como a dimensão sagrada do ensino superior brasileiro, sustentada por uma contínua política de financiamento pelos órgãos de fomento nacionais e amparada por um eficiente plano de avaliação de seus cursos. O reconhecimento acadêmico da pós-graduação, em virtude do prestígio da pesquisa, forma também um locus de distinção social e acadêmica de seus professores, um espaço estratégico de acumulação e/ou reprodução de um capital simbólico dos atores envolvidos em suas atividades. Assim como o capital tende a atrair o capital, o prestígio e reconhecimento acadêmicos do sistema de pós-graduação têm estimulado a manutenção de uma política sistemática de apoio e de melhoria constante de seus cursos. O resultado dessa lógica distinta de estruturar esses dois níveis de ensino gerou um claro abandono da graduação, na avaliação, na alocação de recursos e no estímulo à melhoria de seus cursos. Havia, de certa forma, uma premissa implícita na crença que a melhora da pós-graduação traria o aperfeiçoamento automático da graduação. Quando se analisa a totalidade do sistema de ensino de terceiro grau no país, público e privado, percebe-se que o resultado não foi tão satisfatório quanto se esperava. A pós-graduação, certamente, contribuiu de forma decisiva para melhorar a titulação dos docentes que atuam no ensino superior no país. Mas o investimento feito na pósgraduação não produziu um efeito generalizado na melhoria da estrutura do ensino de graduação nas diversas instituições espalhadas pelas várias regiões do país. A partir dos anos 80, assistiu-se à criação de uma série de programas para aperfeiçoar a graduação e articulá-la melhor com a pós-graduação. Nesse sentido, vale ressaltar, por exemplo, o impulso vigoroso das bolsas de Iniciação Científica patrocinadas pelo do CNPq, que tiveram uma trajetória bastante irregular mas ficaram quase estáveis por mais de duas décadas. Somente no final dos anos 80 e especialmente nos anos 90, percebeu-se o crescimento significativo das bolsas do CNPq com a cifra de 18 mil bolsas no ano de 1995. Durante a década de 90, concedeu mais de 65% do total de bolsas de Iniciação Científica. Em 1994, é lançado o Prograd (Programa de Apoio à Graduação) cujo objetivo geral era melhorar a qualidade do ensino da graduação. Esse programa estabeleceu quatro linhas de ações básicas: o Programa de Licenciatura (Prolicen), o Programa de Laboratórios (Prolab), o Pro- CONSIDERAÇÕES FINAIS No final dos anos 90 o ensino superior na sociedade brasileira, após um longo período de estagnação, deu mostras que estava recuperando sua capacidade de crescimento. As matrículas aumentaram em parte pela expansão do ensino médio, acelerada nos últimos anos, e pela pressão de uma clientela de adultos já integrados no mercado de trabalho, que procura as instituições de ensino superior para 56 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 melhorar suas chances profissionais com a obtenção de um título acadêmico. Caso se mantenha a taxa média de crescimento de 7% ao ano, verificada no período 1994-98, teremos aproximadamente 3 milhões de alunos matriculados nos cursos de graduação daqui a cinco anos. Os dados apresentados neste artigo evidenciaram também que a expansão do ensino de graduação verificada nas últimas décadas foi, em grande parte, atendida e patrocinada pelo segmento privado. A rede pública, especialmente as instituições federais, cresceu em um ritmo mais lento se comparada ao setor privado, encontrando dificuldade para atender à ampliação da demanda. A relativa estagnação do setor público mostra, de certa forma, o esgotamento da capacidade dos governos federal e estadual em aumentar seus investimentos na ampliação dessas instituições, principalmente daquelas que realizam atividades de pesquisa. Algumas instituições públicas que concentram determinados cursos tradicionais (direito, medicina, engenharia, arquitetura, odontologia, etc.) acolhem um público de considerável capital social e/ou escolar e têm demonstrado sérias dificuldades para expandir suas matrículas, porque se o fizessem teriam de incorporar outro tipo de público, destituídos de distinção social. A expansão que se anuncia a curto prazo não deveria ser realizada tão-somente pela ampliação do setor privado. Esse segmento, principalmente o integrado pelas instituições laicas, continuará tendo uma participação destacada nesse processo, pelo agudo senso de oportunidade e pela sensibilidade empresarial nas demandas escolares e profissionais do público que almeja ingressar no ensino de graduação. O desenvolvimento científico, tecnológico e cultural do país não poderá ser realizado sem a participação das universidades públicas, uma vez que algumas delas concentram o essencial da prática acadêmica, respondendo pelo que há de mais preeminente na formação da graduação, na oferta da pós-graduação e no desenvolvimento da pesquisa, devendo, por isso, ser amparadas pelo poder público.20 As universidades federais constituem uma rede nacional de estabelecimentos espalhados pelo território nacional e necessitam de um efetivo comprometimento por parte do governo federal em sua manutenção e seu aprimoramento acadêmico. A retomada da expansão do ensino superior precisará de novos rumos, cuja definição e implementação, estarão condicionadas pelas raízes históricas do sistema. A tradição da educação superior brasileira não é universalista. Mais do que em outros países, ela ainda permanece com fortes traços elitistas. Se o fenômeno da elitização, no iní- cio, se identificava pelo reduzido número de instituições e de vagas, a evolução do sistema, decorrente da dinâmica social e do aumento das possibilidades de acesso da população às oportunidades educacionais mais avançadas, introduziu, paulatinamente, novos mecanismos de discriminação e de distinção social, especialmente aqueles ligados ao recorte público/privado, universidade/instituição isolada, ensino de elite/ensino de massa, cursos dominados por camadas privilegiadas socialmente/cursos que absorvem um público socialmente heterogêneo, graduação/pós-graduação, etc. É difícil conceber que a sociedade brasileira venha aceitar, como no passado, um crescimento ilusório, isto é, mero aumento quantitativo de vagas com ensino de menor qualidade, o que tradicionalmente acarreta salas de aula superlotadas e docentes pouco qualificados academicamente. O cenário político brasileiro atual é muito diferente daquele dos anos 70, quando ocorreu a expansão do sistema, porque a relação entre os diversos segmentos envolvidos com o ensino superior é distinta e dá margem a reivindicações e negociações de ordem estritamente acadêmica que, anteriormente, não encontravam espaço adequado. O novo cenário da expansão deve combinar, mais do que nunca, o aumento da capacidade de atendimento do sistema à maior qualificação acadêmica. Essa dinâmica se soma a outra, presente no mercado de trabalho, cada vez mais exigente e seletiva quanto ao perfil dos profissionais que se dispõe a empregar, aliado ao progressivo esgotamento dos segmentos do mercado mais interessados em profissionais de nível superior com perfil não diferenciado, notadamente aquele relativo às burocracias públicas. As próprias reformas em curso na administração pública, especialmente no nível federal e em vários estados da federação, sugerem importantes modificações nesse subconjunto do mercado empregador. Dentro do próprio sistema de ensino superior, instalase, por um processo de concorrência inerente ao funcionamento desse campo, uma competição pela qualidade entre as diferentes instituições que o integram. O surgimento de inúmeras novas universidades, assinalado no início deste artigo, que para continuar a sê-lo devem cumprir uma série de requisitos legais e acadêmico-científicos sobre as atividades de ensino, pesquisa e extensão, exerce, de certa forma, um papel relevante rumo a patamares mais elevados da educação superior. Essa tendência determina a necessidade das instituições perseguirem padrões acadêmicos mais elevados e desenvolver estratégias adequadas que atraiam e mantenham suas distintas 57 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 mento das universidades federais, iniciativas voltadas para melhorar o ensino privado, maior impacto da pós-graduação no processo de aperfeiçoamento dos cursos de graduação, etc. Um dos pontos de partida para colocar em prática uma política voltada ao conjunto do sistema é o reconhecimento de que ele não é apenas desigual na qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão oferecida pelas diferentes instituições. Ele também é um sistema multifacetado composto por instituições públicas e privadas, com diferentes formatos organizacionais e, especialmente, múltiplos papéis e funções locais e regionais, de abrangência nacional e internacional. A tentativa de enquadrar toda essa riqueza e pluralidade num modelo único – em boa parte comandar as representações e as práticas acadêmicas no país – sufocou por muito tempo todo o nosso sistema, impedindo experiências inovadoras capazes de aproximar essas instituições do seu contexto social. A reforma do ensino superior é necessária e deve, como um de seus pressupostos básicos, recusar deliberadamente o privilégio de um único formato de organização para o conjunto do sistema, de tal modo que possa permitir o aparecimento de suas reais vocações e potencialidades específicas no interior de cada instituição. Essa postura possibilitará maior articulação das instituições de ensino com demandas de diferentes perfis de formação profissional advindas do mercado de trabalho, maior diálogo com as diversas aspirações de profissionalização dos estudantes e maior integração com os diversos contextos da sociedade. O sistema de ensino superior estará com isso estabelecendo uma interação mais proveitosa e efetiva com a sociedade brasileira. clientelas, e não mais os meros objetivos de certificação. Esse processo da busca de melhoria acadêmica que se instala no interior desse campo – espera-se que não seja apenas formal – poderá contribuir para a maior diferenciação na qualidade dos serviços acadêmicos oferecidos pelas instituições. Para isso, é necessário um corpo docente efetivamente mais qualificado e recursos materiais suficientes, colocando em funcionamento propostas acadêmicas consistentes. A análise desenvolvida neste artigo procurou também destacar que o ensino superior nos anos 90 iniciou um processo de diversificação institucional. O campo acadêmico nacional vem se diferenciando não apenas em termos de natureza e/ou tipo de dependência administrativa de seus estabelecimentos, mas quanto a distintos perfis organizacionais e vocações acadêmicas expressas por esses centros, como em relação às expectativas profissionais de seus estudantes e às formas desenvolvidas pelas instituições para atendê-las. Na verdade, um dos desafios centrais dos dias atuais para o ensino superior brasileiro é formular uma política não direcionada apenas para uma das partes do sistema. Ao contrário, é necessário um conjunto de ações que tenha como alvo o conjunto das instituições do sistema de ensino a ser enfrentado em sua totalidade. Trata-se, portanto, de criar mecanismos reais que qualifiquem academicamente o sistema como um todo. A política educacional desenvolvida a partir de 1995, através de determinadas medidas, criou condições favoráveis para a diversificação institucional do ensino superior, e estabeleceu mecanismos capazes de orientar um novo processo de expansão pautado pela qualidade acadêmica. Vale ressaltar que, na maioria das vezes, a ação governamental concentrou-se em problemas ad hoc, procurando equacionar problemas específicos, parecendo uma ação fragmentada ao gerar, por exemplo, uma lei sobre a escolha dos dirigentes das universidades federais, ao publicar um decreto especificando a natureza e o funcionamento das instituições de ensino com finalidade lucrativa, ao formular um anteprojeto para autonomia das universidades federais, etc. Essas questões são muito pertinentes e devem ser equacionadas, mas se quer registrar, no entanto, que parece ter faltado a formulação de um plano mais geral e integrado para contemplar um conjunto de medidas estratégicas voltadas para o sistema como, por exemplo, iniciativas de redução das desigualdades regionais existentes no ensino superior, ações para uma ampla política de qualificação dos docentes que atuam no ensino de terceiro grau, política clara e explícita para o fortaleci- NOTAS 1. Com a noção de campo procura-se designar um espaço social que possui uma estrutura própria, relativamente autônoma sobre outros espaços sociais, isto é, outros campos sociais. Mesmo mantendo uma relação entre si, os diversos campos definem-se por objetivos específicos, o que lhes garante uma lógica particular de funcionamento e de estruturação. É característico de um campo possuir sua hierarquia interna, seus espaços estruturados de posições, seus objetos de disputa e de interesses singulares, que são irredutíveis aos objetos, às lutas e aos interesses constitutivos de outros campos. A noção de campo reporta-se aos inúmeros trabalhos de Bourdieu (1980:113-121; 1982a:46-50; 1982b:71-91; 1987:167-177; 1992:298-430). 2. As federações de escolas foram regulamentadas pelo artigo 8 da Lei n o 5.540/68. Segundo essa legislação, as federações de escolas são uma congregação de estabelecimentos isolados, que passa a ser regida por uma estrutura administrativa comum e um regimento unificado. A criação dessa entidade foi concebida como uma fórmula intermediária entre os estabelecimentos isolados e a universidade. O GT da Reforma Universitária, apoiando-se na Indicação no 48/67 do antigo CFE, tinha a expectativa de que essas federações, com o transcorrer do tempo, se transformassem em universidades. Ver a esse respeito Revista Paz e Terra (1968:253). 58 O ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO NOS ANOS 90 3. Sobre a diferenciação institucional e social dos sistemas de ensino superior de alguns países, ver, por exemplo, Clark (1983); Bode (1975); Suleiman (1978); Bourdieu (1989); Passeron (1986); Brunner (1987). sociais e a trajetória desse período de expansão do ensino superior, ver o trabalho de Cunha (1975a) e seu artigo A expansão do Ensino Superior: causas e conseqüências (1975); ver também Martins (1988); Durham e Sampaio (1995). 4. Com relação aos privilégios do modelo universitário, o GT da Reforma Universitária afirmava que: “medida em que se focaliza o conjunto, o que resulta é a preocupação de fidelidade, a idéia universitária em si mesma, suscetível de objetivar-se nos mais variados esquemas dentro de um país que tem proporções continentais... Essa consideração levou a que ainda se mantivesse o sistema de estabelecimentos isolados, atribuindo-lhes porém um caráter excepcional que fixa, mais uma vez, a universidade como o tipo natural de estrutura para o ensino superior”. Revista Paz e Terra (1968:253). Sobre a diversidade de projetos existentes sobre reforma universitária no período enfocado, ver o artigo de Veiga (1985). Para uma discussão sobre o padrão que vinha orientando até então a dinâmica do ensino superior brasileiro e os avanços e limites da Reforma de 1968, ver o trabalho de Fernandes (1975:65-90 e 201-242). Para uma avaliação dos ganhos e perdas advindos da implantação da reforma universitária, ver o artigo de Bomeny (1994). Quanto às origens da estrutura centralizada e formalizada da universidade brasileira, ver o trabalho de Schwartzman (1979:163-191). 13. A comparação entre o total de matrículas e a população entre 20 e 24 anos indica que 15,8% dos jovens nessa faixa etária têm acesso ao ensino superior no país. No entanto, os dados mostram que 53% dos estudantes do terceiro grau possuem mais de 24 anos de idade. Sobre o acesso à educação superior no Brasil e a necessidade de sua ampliação, ver Inep/MEC (1998:49-50). A propósito da comparação do acesso ao ensino superior brasileiro com os demais países da América Latina, ver o trabalho de Brunner e colaboradores (1995). A respeito de determinadas características dos estudantes que freqüentam o ensino de terceiro grau no país, ver Schwartzman (1999). 5. Entre os vários diagnósticos elaborados sobre esse sistema, ver por exemplo o realizado por Durham (1993:5-38), Martins (1993:48-55); Guimarães (1993:4247); Trigueiro (1999). 16. Sobre a criação das primeiras instituições de ensino superior no país e de seus cursos, ver Fávero (1977:20-43). Ver também o trabalho de Campos (1999). 14. Para uma discussão do custo e desempenho das universidades federais, ver o debate promovido pelo Cebrap entre diversos docentes (Novos Estudos Cebrap, 1996). Consultar também Schwartzman (1996). 15. Ver a esse respeito a publicação Desenvolvimento da Educação no Brasil (Ministério da Educação, 1996:29-39). 17. Ver a esse respeito o trabalho de Schwartzman e Balbachevsky (1992). Consultar também o trabalho de Balbachevsky (1996). Quanto à defasagem entre o sucesso da pós-graduação no país e o ritmo lento da capacitação docente para o ensino superior, ver o artigo de Guimarães e Caruso (1996). 6. Com relação à intensificação do debate sobre as universidades federais, desencadeado durante a última greve dos docentes dessas universidades, ver por exemplo o artigo de Giannoti (1998). Seria oportuno assinalar que algumas das preocupações de J.A. Giannoti com as universidades públicas brasileiras encontram-se desenvolvidas em trabalhos anteriores (Giannoti, 1985 e 1986). Ver também o manifesto lançado por expressivos docentes e pesquisadores nacionais (Jornal Ciência Hoje, 25/6/1998). Esse documento, além de assinalar com bastante ênfase o papel estratégico das universidades públicas, reivindica a necessidade de reformas baseadas em valores acadêmicos. 18. Até o presente momento existiram três PNPGs: o I PNPG (1975-1980), II PNPG (1982-1985), e III PNPG (1986-1989). Para uma apreciação detalhada desses planos e seus impactos na montagem de um sistema nacional de pós-graduação, consultar o trabalho de Barros (1998:115-161). 19. Quase um ano depois de instituir o Exame Nacional de Cursos, o MEC, pelo do Decreto n o 2.026, estendeu de forma considerável o processo de avaliação do ensino de terceiro grau. Segundo esse decreto passaria a compreender os seguintes procedimentos: a) análise dos principais indicadores de desempenho global do sistema nacional de ensino superior, por região e unidade da federação, segundo as áreas do conhecimento e o tipo ou natureza das instituições de ensino; b) avaliação do desempenho individual das instituições de ensino superior, compreendendo todas as modalidades de ensino, pesquisa e extensão; c) avaliação do ensino de graduação, por curso, por meio da análise das condições de oferta pelas diferentes instituições de ensino e pela análise dos resultados do Exame Nacional de Cursos; d) avaliação dos programas de mestrado e doutorado, por área do conhecimento. Esse decreto pode ser encontrado, na íntegra, em Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (1997:75-77). 7. As sucessivas diretorias da Andes, com exceção da última eleita em 1998, têm defendido sistematicamente uma política isonômica nacional. Num de seus documentos, afirma-se que: “a isonomia salarial e a carreira única são fatores indispensáveis para condições de trabalho que possam, de fato, garantir um padrão unitário de qualidade para a produção acadêmica nacional. Além disso, seria injusto e arbitrário diferenciar salarialmente o mesmo trabalho, uma vez que trabalho igual deve ter salário igual” (Andes, 1996:11). Para um debate sobre os diferentes projetos de autonomia para as universidades públicas, especialmente as federais, ver o texto de Pinheiro (1998). 8. Não existe na bibliografia nacional estudos realizados sobre as universidades estaduais tomadas em seu conjunto. Os trabalhos disponíveis sobre esse segmento enfocam as universidades estaduais mais antigas e portadoras de maior prestígio acadêmico. Ver a esse respeito, por exemplo, Cardoso (1982); Fernandes (1984); Araújo (1980). O Núcleo de Pesquisas sobre o Ensino Superior da Universidade de São Paulo (Nupes), vem coordenando, em colaboração com pesquisadores do Grupo de Estudos sobre Universidade (GEU) da UFRGS, do Núcleo de Estudos sobre o ensino superior da Universidade de Brasília (Nesub) e da UFMG, a realização de uma pesquisa denominada As universidades estaduais no Brasil: características institucionais, que encontra-se em fase final e sem dúvida, preencherá um espaço importante ao conhecimento de algumas das características acadêmicas desse segmento do ensino superior nacional. 20. Com relação à participação destacada das instituições públicas no sistema nacional de pós-graduação, consultar as publicações Capes (1996; 1997). Sobre a participação das instituições federais na produção científica e na capacitação docente no país, ver os artigos de Figueiredo e Sobral (1991) e de Sérgio (1991). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDES. Proposta da Andes para a universidade brasileira. Brasília, 1996. 9. Do total dos 479 cursos de mestrado (M) e dos 369 de doutorado (D) oferecidos pelas universidades estaduais, a USP responde por 55,5% (M) e 62% (D); a Unesp por 21,5% (M) e 22,7% (D); a Unicamp por 9,3% (M) e 10,8% (D); a Uerj por 4,5% (M) e 1,6% (D). As demais participam com 9,2% do mestrado e 2,9% do doutorado. Ver a esse respeito a publicação do Capes-MEC (1997). ARAÚJO, B.J. (org.). A crise da USP. São Paulo, Brasiliense, 1980. ASSOCIAÇÃO Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. Ensino superior: legislação atualizada. Brasília, 1997. BALBACHEVSKY, E. “Atores e estratégias institucionais: a profissão acadêmica no Brasil”. Documento de Trabalho do Nupes. São Paulo, USP, n.2, 1996. 10. Quanto ao formato institucional das universidades comunitárias e algumas de suas características acadêmicas, ver o trabalho de Neves (1995). 11. A respeito das condições sociais que possibilitaram o aparecimento deste “novo ensino privado”, ver o trabalho de Martins (1989). A respeito de algumas características do ensino privado, ver também Mendes e Castro (1984); Cunha (1991); Durham e Sampaio (1995). A tese de doutoramento de Casali (1989:100233) representa uma contribuição relevante para a reconstituição do surgimento das universidades católicas no Brasil. O trabalho de doutoramento de Sampaio (1998) também é uma contribuição fundamental para se compreender as tendências mais recentes desse segmento do ensino superior. BARROS, E.C. de. Política de pós-graduação: um estudo da participação da comunidade científica. São Carlos, Ed. da UFSCar, 1998. BODE, C. Annoted charts on germany’s higher education and research system. München, Prestel, 1975. BOMENY, H. “A reforma universitária de 1968, 25 anos depois”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.26, out. 1994. BOURDIEU, P. “A expansão do ensino superior: causas e conseqüências”. Revista Debate e Crítica, n.5, 1975. 12. Com relação à noção de estratégia de reconversão, ver o artigo de Bourdieu e Saint-Martin (1993). A discussão de Bourdieu sobre a adesão de uma categoria social às sanções e às hierarquias do sistema escolar pode ser encontrada, entre outros textos, em um artigo clássico consagrado a essa questão denominado Reprodução cultural e reprodução social (Miceli, 1974). Sobre as condições __________ . Questions de sociologie. Paris, Éditions de Minuit, 1980. __________ . Leçon sur la leçon. Paris, Éditions de Minuit, 1982a. __________ . Réponses. Paris, Éditions de Seuil, 1982b. 59 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 GUIMARÃES, R. e CARUSO, N. “Capacitação docente: o lado escuro da pósgraduação”. In: Discussão da pós-graduação brasileira. Brasília, CapesMEC, 1996. __________ . Choses dites. Paris, Éditions de Minuit, 1987. __________ . La noblesse d’état. 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No presente artigo, tendo como referência a realidade do Município de São Paulo, abordaremos a complexidade destes processos, fenômenos novos para a realidade brasileira que se legitimam com a crise fiscal do Estado, sob a hegemonia neoliberal. Palavras-chave: ensino superior; universidade particular; educação no Brasil. O sistema universitário brasileiro começou a vivenciar a partir do início da década de 90 uma grande revolução no que diz respeito às opções para os cidadãos clientes-consumidores no campo acadêmico-universitário. O cenário das universidades paulistanas – até então dominado pelas universidades públicas e pelas de cunho confessional – viu-se significativamente alterado com a entrada de um novo ator: as universidades particulares com explícitos fins lucrativos, geridos enquanto empresas educacionais, oferecendo produtos e serviços de acordo com a demanda do mercado, instituições estas que denominaremos universidades mercantis. São essas universidades que estão dinamizando o mercado de ensino do terceiro grau, um mercado que não era visto enquanto tal, mas que está se revelando muito grande, bastante lucrativo e competitivo, ampliando assim a prateleira de opções para os diversos perfis do consumidor. Essa realidade traz para as ciências sociais desafios teóricos em sua compreensão, ao revelar multiplicidade de análises com implícitas opções político-ideológicas, bem como uma grande polarização teórica. No meio acadêmico ainda existem autores que se prendem a modelos interpretativos os quais impossibilitam aceitar a existência de universidades com diversos perfis. Insiste-se em falar em “Universidade Brasileira” como si- nônimo de universidade pública, gratuita, supostamente equacionadora do ensino, na pesquisa e na extensão. Nesse sentido, torna-se difícil aceitar afirmações categóricas, idealizadoras da universidade enquanto instituição social, adotadas por muitos autores que se fixam no paradigma social-universalista, fruto do Estado Social emergente no pós-guerra, defensores da universidade pública e do ensino universitário como direito social, atividade não-lucrativa e sua conseqüente provisão estatal. O estudo do que denominamos universidades mercantis revela a utilização de novos termos e categorias até há pouco tempo impensáveis de serem utilizados na abordagem do ensino superior. Dois deles utilizamos no início deste ensaio: mercado de ensino e cliente-consumidor. É interessante verificar a rejeição de amplos setores acadêmicos à possibilidade de se compreender o aluno universitário como um cliente-consumidor, a aversão de se considerar o ensino universitário como um produto/serviço comercializado. São questões cujo caráter polêmico se evidencia nos estudos e pesquisas produzidos sobre o ensino superior privado. Como aponta Sampaio (1998:167168), boa parte da literatura acadêmica sobre a expansão do ensino superior no País traz consigo uma visão negativa do ensino superior privado e, em geral, esses estudos “partem do princípio que o Estado deve universalizar o ensino superior público e gratuito e que, portanto, a oferta privada é um desvio indesejado do sistema. Conside- 61 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 O regime militar de 64 implantou uma política de modernização e reestruturação do sistema universitário impulsionada a partir da Lei no 5.540 de novembro de 1968, incluindo importantes bandeiras do movimento estudantil e de docentes das décadas de 50 e 60, tais como: a abolição da cátedra; a criação do departamento como unidade de ensino e pesquisa; a organização do currículo em duas etapas – a básica e a de formação profissionalizante; a adoção do sistema de crédito e da semestralidade; a institucionalização da pesquisa; etc. (Sampaio, 1998:44). Além dessas medidas, a Reforma Universitária reconheceu no plano legal a autonomia didático-científica, disciplinar, administrativa e financeira da universidade, limitada, entretanto, pelo Ato Institucional no 5, de 13 de dezembro de 1968, e pelo Decreto-Lei no 477, de fevereiro de 1969. Sobre isso, Fávero (1998:198) afirma que, durante o regime militar, a gravidade do que acontecia em relação à universidade não estava expressa nos dispositivos legais, mas ocorria fora dessas normas: a universidade, como a sociedade, foi submetida a um regime de terror e de silêncio. A criação e a manutenção das Assessorias de Segurança dentro das universidades, a fim de impedir que mecanismos democráticos, mesmo quando previstos em lei, chegassem a ser efetivamente usados ou implementados, exemplificam muito bem essa realidade. A reforma universitária optou no plano legal pelo fortalecimento das universidades ao decretar que o ensino superior deveria ser ministrado em universidades e excepcionalmente em estabelecimentos isolados. Apesar disso, esse dispositivo legal não foi respeitado e o Conselho Federal da Educação constantemente adotava medidas que possibilitavam a expansão do ensino privado por meio de estabelecimentos isolados. Deve-se lembrar que na década de 60 a pressão social por vagas no ensino universitário era muito grande, continuamente havia manifestações e mobilizações dos alunos que tinham conseguido entrar na universidade mas não estudavam, pois não havia vagas, os famosos “excedentes”. Em 1960 eram aproximadamente 28.728 alunos excedentes; em 1968 – início da Reforma Universitária – esse número saltou para 125.414 alunos; em 1971 esse número chegou a 161.176 alunos. Como afirma Martins (1981:94), “o problema dos excedentes foi contornado através de uma avalanche de autorizações para abertura de novas escolas e ao mesmo tempo a permissão para as instituições já existentes aumentarem suas vagas sem atender a grandes exigências burocráticas”. Ao contrário dos demais países da América Latina, que diante da demanda de democratização do ensino acaba- ram que somente instituições públicas, mantidas com recursos exclusivos do Estado, podem corresponder à missão da universidade: formar profissionais críticos, desenvolver o conhecimento e transformar a sociedade (…) A oferta privada de ensino superior é um mal que se propagou no sistema em virtude da política de favorecimento à iniciativa privada que vigorou durante o regime militar no País”. A autora afirma que em tempos de democracia “a conspiração dos governos militares que promoveu a expansão do ensino privado é substituída pela conspiração neoliberal orientada por organismos internacionais”. Nessas análises, “o ensino superior privado tem objetivos fundamentalmente mercantis (…), operando, em geral, como uma fábrica de diplomas”. São muitas as questões vinculadas à proliferação das universidades mercantis que devem ser aprofundadas: a crise da universidade pública, o redimensionamento do papel do Estado, as funções, a qualidade e as formas de gestão das universidades privadas, etc. No presente ensaio, tendo como referência a realidade do Município de São Paulo, abordaremos e aprofundaremos somente um tópico: a institucionalização do mercado de ensino universitário, fenômeno novo para a realidade brasileira que se legitima com a crise fiscal do Estado, sob a hegemonia neoliberal. QUANDO NOVOS ATORES ENTRAM EM CENA As universidades no Brasil surgiram somente no século XX pela ação do Estado. Até 1968 – início da grande Reforma Universitária que implantou o sistema atualmente vigente, impulsionado pelo regime militar – o sistema universitário brasileiro estava dividido entre universidades públicas financiadas pelo Estado (aproximadamente 31 universidades) e universidades privadas de caráter confessional. O chamado setor privado era composto por aproximadamente 11 universidades de inspiração católica e uma universidade presbiteriana, a Mackenzie. Universidade particular era sinônimo de universidade confessional. Essas universidades, embora particulares, pela própria missão educacional das instituições religiosas, tinham certa preocupação com a qualidade do ensino e, em maior ou menor grau, ao longo dos anos, algumas delas enquadraram-se no modelo de universidade impulsionado pelo governo militar, voltado para a pesquisa e com programas de pós-graduação. Nesse período, a universidade ou era gratuita ou era paga, mas a instituição que cobrava pelos serviços educacionais não tinha nem poderia ter fins lucrativos. 62 UNIVERSIDADES MERCANTIS: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MERCADO ... mos afirmar que no mesmo período existia um grande mercado de ensino superior composto pelos estabelecimentos isolados e faculdades integradas, havendo entre elas algumas diferenças. Embora existissem poucas instituições de elite, a maioria delas era composta por faculdades caracterizadas pela mera transmissão de conhecimentos e pela questionável qualidade, formando um mercado fértil, no qual concorriam instituições de ensino de segunda e terceira divisões. Tomando como referência o Município de São Paulo, pode-se dizer que em termos de instituições de elite, até o final da década de 80, os cidadãos paulistanos tinham poucas opções. Dentro da cidade podiam tentar estudar na PUC-SP, USP, ou Mackenzie. Entre os estabelecimentos isolados de elite de caráter público, existia a Escola Paulista de Medicina, e de caráter privado destacavam-se a Fundação Getúlio Vargas e a Escola Superior de Propaganda e Marketing. Fora do Município de São Paulo a opção era migrar para outras cidades e estudar nos campi da Unesp, Unicamp, UFSCar, Puccamp. No âmbito do ensino de massa, existiam os estabelecimentos isolados, os mesmos que em sua maioria não eram valorizados pela elite acadêmica, pela mídia e pelas famílias de classes média e alta que possuíam uma história geracional de formação superior, devido à duvidosa qualidade de ensino que ofereciam, não possuindo nem status, nem prestígio, se comparadas com as universidades e os estabelecimentos isolados de elite citados. No entanto, diante da dificuldade de ingresso nas universidades, essas instituições tornaram-se opção de estudo superior para um número de alunos bastante elevado; por exemplo, a FMU tinha em 1977 aproximadamente 20 mil alunos, distribuídos em 16 prédios localizados na região sudeste, oeste, sul e centro da cidade de São Paulo; no vestibular de 1979 ofereceram 6.700 vagas, algumas centenas de vagas a mais se comparadas com as 6.240 vagas oferecidas pela USP. Em municípios próximos de São Paulo foram criadas algumas universidades que, respeitando as regras do jogo (ensino gratuito ou pago, mas sem fins lucrativos), se autodenominavam entidades sem fins lucrativos, eram universidades que tiraram o monopólio confessional do ensino privado, tinham proprietários, eram de qualidade questionável se comparadas com as universidades de elite, não eram valorizadas pelas elites acadêmicas e sociais paulistanas, mas muito valorizadas em seus entornos territoriais. Elas surgiram para atender à grande demanda regional por ensino superior da população que o Estado ram massificando as universidades públicas, o regime militar optou pelo investimento financeiro na formação de uma universidade pública de elite, voltada para a pesquisa. Isso acarretou a implantação de programas de pósgraduação, a institucionalização da pesquisa acadêmica, a criação de estímulos para o desenvolvimento de pesquisas e obtenção de graus acadêmicos, e a manutenção de um número estável e restrito de alunos, impedindo desta forma a sua massificação. Paralelamente, optou por incentivar a criação de um sistema de ensino superior de massa que atendesse à elevada demanda social, por meio de uma rede de estabelecimentos isolados sob a iniciativa privada, dedicada basicamente à transmissão de conhecimentos em grande escala. Os empresários da educação optaram por investir na criação de estabelecimentos isolados de pequeno porte e poucas foram as universidades mercantis criadas entre 1968 e finais dos anos 80, as quais proliferaram somente no início da década de 90. Para se ter uma noção da rápida expansão dessas instituições de ensino após o início da reforma de 68, pode-se dizer que em 1971 havia 463 estabelecimentos isolados, e entre 1971 e 1975 foram criados mais 162 instituições desse tipo. Foram precisamente esses estabelecimentos isolados que posteriormente, na década de 80, se transformaram em federação de escolas ou escolas integradas, e muitas delas adotaram o status de universidade. Convém mencionar que essas transformações estão vinculadas estritamente ao aumento de vantagens competitivas do mercado. Aquelas universidades mercantis que em suas origens foram estabelecimentos isolados ou faculdades integradas já estavam desde aquela época, com o caráter de instituição mercantil enraizado. A respeito dessas instituições, Martins (1981:80) havia apontado que “a esmagadora maioria dessas instituições privadas que surgiram após o ano de 1968 se constituíram como empresas privadas capitalistas; ou seja, estavam voltadas para a procura de rentabilidade, utilizando a área educacional como um campo fértil para investimentos (…) com a finalidade de obtenção de lucro e de acumulação de capital”. Ao longo das décadas de 70 e 80, quando da hegemonia das universidades públicas e das universidades confessionais, dificilmente se poderia falar da existência de um mercado de ensino universitário: existiam poucas universidades que o dinamizassem e possibilitassem o princípio da concorrência. Essa época pode ser considerada um período de mercado restrito ou de baixa concorrência. Se nos distanciarmos do mundo das universidades, podería- 63 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 não podia suprir, setores populacionais com recursos financeiros para pagar uma universidade, mas sem condições de conseguir uma vaga em universidades de elite, seja pela localização, seja pelas poucas e concorridas vagas oferecidas. Em outras palavras, eram as primeiras universidades mercantis criadas para conquistar uma fatia do mercado, liberando dessa forma pontos de tensão existentes em um sistema elitista que não conseguia atender às demandas de segmentos populacionais que almejavam ser incluídos no sistema universitário. Em 1973 foi criada a Universidade de Mogi das Cruzes, em 1985, a Universidade Brás Cubas e em 1986, a Universidade de Guarulhos. Foi na segunda metade da década de 80 que surgiu também uma nova universidade confessional católica, a Universidade São Francisco que recém começava a se expandir. O surgimento dessas universidades ainda não tornava explícito o princípio da concorrência entre as universidades na cidade de São Paulo, pois as universidades de elite não encontravam concorrência, e não havia alteração na oferta de serviços porque as opções ainda eram reduzidas se comparadas com o acirramento da competitividade do mercado na década de 90. As universidades mercantis ou, como alguns autores as chamam, novas universidades (Almeida, 1997) surgiram de forma marcante a partir do final da década de 80. No Município de São Paulo foram criadas no espaço de nove anos, entre 1988 e 1997, dez universidades mercantis (Quadro 1) e uma universidade pública (a Escola Paulista de Medicina transformou-se na Universidade Federal de São Paulo). Se considerarmos que até 1988 existiam em São Paulo somente quatro universidades (uma universidade pública – USP –, e três confessionais comunitárias – PUC-SP, Mackenzie e a nova Universidade São Francisco), até 1997 houve um crescimento de 250% (Gráfico 1), totalizando 15 universidades. Em 2000, existe o total de dez universidades mercantis e cinco centros universitários, com o mesmo caráter mercantil desse modelo de universidade emergente (Uninove, Unibero, Uni Sant’Anna, UNI-FMU, São Camilo). Em termos de opções de ensino universitário, considerando os centros universitários, que para concorrer no mercado de ensino superior apresentam-se ao consumidor com a palavra UNI antecedendo seus nomes para ressaltar seu caráter universitário, pode-se afirmar que em 2000 a oferta de ensino universitário foi ampliada de tal forma que ele está sendo oferecido por 20 instituições universitárias: duas universidades públicas, três universidades confessionais e 15 instituições mercantis (dez universidades e cinco centros universitários). Obviamente, a situação do Município de São Paulo é reflexo do que vem acontecendo no Brasil. Se no início da Reforma Universitária de 68 o ensino privado era dominado por 11 universidades católicas e uma presbiteriana, até 1985 existiam 20 universidades particulares em todo o Brasil. O crescimento expressivo deu-se de 1985 a 1990, e nesse período de cinco anos houve um crescimento de 100%, com a criação de mais 20 universidades particulares. Entre 1990 e 1998 foram criadas mais 36 universidades particulares, ou seja, entre 1985 e 1998 havia o total QUADRO 1 Universidades, segundo o Tipo Município de São Paulo – 1980-1999 GRÁFICO 1 Universidades Credenciadas ou Criadas Município de São Paulo – 1988-1997 Universidades Ano de Criação ou Credenciamento Paulista 1988 São Judas 1989 Camilo Castelo Branco 1989 Ibirapuera 1992 Cidade de São Paulo 1992 Cruzeiro do Sul 1993 Bandeirante 1993 São Marcos 1994 Santo Amaro 1994 Anhembi Morumbi 1997 Fonte: Almeida (1997). Fonte: Almeida (1997). 64 UNIVERSIDADES MERCANTIS: A de 56 universidades privadas, um salto quantitativo de 280%. Se antes, somente existiam três universidades para toda a cidade de São Paulo, concentradas na região CentroOeste, em 2000 existem 15 universidades para uma metrópole de 10 milhões de habitantes espalhadas em todas as regiões da cidade. Formaram-se mercados regionais: as universidades concorrem pelos clientes em potencial na Zona Leste, na Zona Norte, no Centro e na Zona Sul. Essa descentralização geográfica facilitou o acesso às universidades, reduzindo o tempo de locomoção, fator importante em uma cidade caracterizada pelas grandes distâncias, quilômetros de trânsito e congestionamento. Uma pesquisa recente registra que a localização da universidade é um fator fundamental, quase determinante, no momento em que o aluno tem de optar por estudar em uma universidade: dos 250 alunos pesquisados da Universidade Ibirapuera, 87% responderam que estudam nessa instituição pela sua boa localização, porque é próxima do trabalho ou de casa; dos 377 alunos pesquisados da Universidade Cruzeiro do Sul, 83% a escolheram pelo mesmo motivo. Os índices também se mantêm altos em outras universidades: na Unicastelo, 73% dos alunos pesquisados apontaram a localização; na Unicid, 65%; na Uniban, 68%, na Universidade São Judas, 58% (Jardilino e Santos, 1999). INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MERCADO ... recursos orçamentários disponíveis. Como aponta Sampaio (1998:67), tudo isso “na prática significa fechar cursos menos procurados, abrir outros com maior capacidade de atrair clientela, alterar o número de vagas oferecidas de acordo com as oscilações das matrículas e da evasão, entre outras providências; decisões como essas de ajuste ao mercado podem ser implementadas sem serem submetidas à tramitação burocrática pela qual passam os pleitos de autorização de cursos encaminhados pelas instituições não-universitárias”. Com a chegada das universidades mercantis, pode-se afirmar que se institucionalizou o mercado de ensino universitário. Antes do surgimento em massa dessas universidades, no Município de São Paulo existiam apenas três universidades que atendiam à demanda por ensino superior em universidades. Após a constituição de 1988 até a segunda metade da década de 90 constatou-se o surgimento de dez universidades, as mesmas que ao competir entre elas estabeleceram o princípio da concorrência. A institucionalização desse mercado na década de 90 deuse de forma acelerada e num curto espaço de tempo, revelando uma concorrência extremamente acirrada, descrita por alguns autores como caso de “verdadeiro canibalismo explícito”, no qual cada universidade mercantil tentava ganhar mais espaço e conquistar uma fatia maior do mercado, valendo-se para isso de todos os recursos disponíveis na área de publicidade e marketing. Para se ter uma dimensão da importância da publicidade, um levantamento feito em 1998 mostrou que entre os 15 maiores anunciantes de outdoor encontravam-se cinco instituições de ensino privadas. O acirramento da competição no mercado de ensino universitário, na primeira metade da década de 90, revelou a profissionalização e a agressividade das propagandas utilizadas pelas universidades mercantis para conquistar o consumidor. Poderia-se dizer que, em termos de propaganda, a diferença entre o produto oferecido por essas universidades e qualquer outro produto direcionado para o público jovem era quase inexistente. Em contraste à década de 80 – período em que também havia propagandas, mas sem haver profissionalização, mercantilização e agressividade decorrente da acirrada concorrência –, a década de 90 apresentou uma guerra pelo consumidor, na qual, longe de mostrar compromisso com a excelência acadêmica, as universidades utilizaram-se de estratégias de sedução do cliente em potencial: os jovens egressos do segundo grau. Assim, criaram-se grandes campanhas veiculadas pe- A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA CONCORRÊNCIA Sem dúvida alguma, um dos motivos principais que determinaram o surgimento das novas universidades foi o estabelecimento das “vantagens competitivas” pela Constituição de 1988, posteriormente regulamentado pela LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, concedido à instituição universidade por meio do princípio da autonomia didático-científica, através do qual não precisariam mais se submeter aos entraves burocráticos do extinto Conselho Federal da Educação, seja para a abertura de determinados cursos, seja para a ampliação ou redução do número de vagas para atender à demanda. A legislação estabelece autonomia para as universidades criarem, organizarem ou extinguirem, em suas sedes, cursos e programas de educação superior previstos na lei, contemplando algumas exceções.1 As universidades também poderiam fixar o número de vagas a serem oferecidas ao mercado de acordo com a capacidade institucional, podendo ampliar e diminuir vagas dentro de seus 65 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 los principais meios de comunicação, com artistas de TV, modelos jovens dentro de um mundo de ilusão, mostrando que estudar em uma universidade não é uma coisa chata, pelo contrário, é prazerosa e divertida, como estar em um clube de férias (Sampaio, 1998). No final da década de 90, a agressividade se deu também no preenchimento das vagas remanescentes dos vestibulares, com descontos nas matrículas e nas anuidades caso os alunos deixassem outras universidades e decidissem se matricular na instituição que estava fazendo a promoção. Diante do excesso de vagas ofertadas no mercado e não-preenchidas, as universidades faziam, após o vestibular, o número de chamadas necessário para preenchê-las, bem como faziam mais de um vestibular para um mesmo semestre. Considerando as diferenças entre universidades, Almeida (1997) assinala que as universidades históricas e tradicionais geralmente restringem suas estratégias de marketing ao que Theodore Levitt (1985) chama de produto genérico, isto é, ao produto em si: os cursos que estão sendo oferecidos ao mercado. Já essas novas universidades, na sua estratégia mercadológica, tendem a mostrar outros elementos ou qualidades distantes do produto em si, os mesmos que muitas vezes ganham maior destaque que o principal produto oferecido pela universidade: o próprio curso. São aspectos que procuram seduzir o consumidor e tornar atraente o produto genérico. Almeida (1997) aponta que, na guerra pelo consumidor, uma piscina, uma sala de musculação, uma localização próxima do metrô, um salão de beleza, uma sala de informática, convênios com “grandes” empresas, uma escola de motorista, um instituto de idiomas, uma praça de alimentação, são elementos que ganham ênfase, muitas vezes maior que o curso ofertado pela universidade. Nesse sentido, as universidades mercantis acabam enfatizando outros aspectos que Levitt chama de produtos esperados pelo cliente (engana-se quem acredita que todo cliente procura somente ensino de qualidade), produtos aumentados (estratégias que ampliam o produto além do que é solicitado ou esperado pelo cliente), produtos potenciais (o que se pode acrescentar de novo ao produto). A guerra entre universidades explicitada na primeira metade da década de 90 ganhou novos contornos após determinadas exigências legais ocorridas com a LDB, especificamente com a Portaria no 971 de 22 de agosto de 1997, que determinou que as universidades deveriam tornar públicas, através de catálogo a ser enviado à Secretaria de Educação Superior do MEC – Ministério de Edu- cação e do Desporto, as condições de oferta de cursos, fazendo constar uma longa e minuciosa lista de informações sobre os dirigentes da universidade e os coordenadores dos cursos, os valores das mensalidades, a infraestrutura, os resultados das avaliações do MEC, etc.2 Sampaio (1998:353) registra três mudanças significativas na propaganda escrita, a partir da introdução dessas exigências legais: - as duas folhas dobradas típicas de folders, passaram a ser 20 ou 30 páginas, organizadas e diagramadas como revistas; - as atividades escolares e as instalações físicas passaram a ser o foco das atividades, os alunos estudando ou usando a infra-estrutura acadêmica tornaram-se coadjuvantes dessas instalações; - os catálogos dão a impressão de não se destinarem ao vestibulando, mas ao MEC. Essa interferência legal possibilitou que as estratégias de marketing e publicidade deixassem de enfocar os produtos ofertados pelas universidades mercantis como mais uma mercadoria para o público jovem, bem como revelou o surgimento de um Estado preocupado com a garantia de informações minimamente necessárias para que o consumidor tenha maiores condições de discernir sobre a escolha do produto que se encaixe em suas necessidades e condições financeiras. Com a institucionalização do princípio da concorrência, constata-se a passagem de um “mercado de demanda” para uma estrutura mais seletiva de “mercado de oferta” (Calleja, 1990). Com o monopólio da PUC-SP e Mackenzie no campo universitário privado, no Município de São Paulo, predominava o mercado de demanda, para o qual qualquer produto oferecido por essas universidades encontrava um número elevado de consumidores, pois havia uma grande demanda por produtos dessas instituições. Naquela época, se essas universidades houvessem ampliado a oferta de cursos por meio da criação de uma estrutura multicampi, sem dúvida alguma teriam obtido facilmente consumidores para seus produtos e, com isto, gerado lucros que teriam sido utilizados de acordo com suas diretrizes institucionais. Com o elevado número de universidades, assiste-se ao surgimento de um “mercado de oferta”, no qual deve-se produzir o que o mercado exige – exigências que podem ser reais ou fictícias – e, principalmente, o que os consumidores querem, dentro de um contexto de acirrada concorrência por clientes em potencial e, principalmente, de excesso de produtos para um número de consumidores que, embora crescente, não con- 66 UNIVERSIDADES MERCANTIS: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MERCADO ... novos tempos, pois elas, tanto quanto as universidades mercantis, também dependem das mensalidades pagas pelos alunos para garantir seus financiamentos. Como assinalam Tachizawa e Andrade (1999:22), nessa nova era de competição nenhuma universidade pode se sentir “excessivamente confiante com as fatias de mercado e as posições competitivas conquistadas (...). Com mercados e seus protagonistas em constante modificação, a possibilidade de que as IESs possam estabelecer vantagem competitiva duradoura não existe mais. Nenhuma instituição de ensino superior, enfim, pode se dar ao luxo de descansar sobre seus louros; cada qual tem de inovar incessantemente para poder competir e sobreviver”. O “mercado de oferta” exige que as top-universidades, além de profissionalizar as propagandas publicitárias, estejam atentas às novas demandas do mercado, oferecendo novos produtos e aprimorando aqueles que já oferecem. No caso da PUC-SP, verificou-se em 1999 o oferecimento de novos cursos no âmbito da graduação, como Turismo, Comunicação e Artes do Corpo, Tecnologias de Mídias Digitais e Comunicação em Multimeios. Aliás, o curso de Turismo geralmente tem sido considerado como um curso técnico e sobre ele sempre recai um olhar de menosprezo acadêmico. O aprimoramento permanente dos produtos é uma decorrência não somente da competição do mercado, mas também do surgimento de uma série de medidas governamentais que estabelecem parâmetros para medir a qualidade dos produtos oferecidos pelas universidades, os mesmos que podem ser considerados instrumentos de auxílio ao consumidor no momento da escolha dos produtos universitários. No mercado do ensino universitário não há espaço para instituições que queiram se valer da fama conquistada com a boa “imagem de marca”; mecanismos de avaliação de cursos, tais como o Exame Nacional de Cursos e a avaliação anual das condições de oferta (contemplando três itens: qualificação dos professores, organização didático-pedagógica e instalações da faculdade), impulsionados pelo Estado, obrigam as universidades de excelência a rever constantemente seus produtos. Isso pode ser exemplificado com o que aconteceu após a divulgação da avaliação do MEC de cursos superiores correspondentes aos anos 1998 e 1999. Em 1999, o MEC apresentou uma lista com 101 cursos de graduação que teriam de ser reavaliados ou corriam o risco de perder a autorização para funcionar. Nessa lista estava incluído o curso de Direito da Universidade Mackenzie – os alunos tiveram muito bom desempenho no provão de 1996, 1997 e 1998, ao obterem letra A, B, A, respectivamente – devido aos itens some todas as vagas e serviços oferecidos pelas universidades particulares no Estado de São Paulo. Assim o “mercado de oferta” é resultado da junção de vários elementos: de um cenário de grande concorrência, do excesso de produtos em relação ao número de consumidores em potencial e das novas exigências do mercado, predominantemente voltado para a prestação de serviços. CONCORRÊNCIA, DIVERSIFICAÇÃO E DIFERENCIAÇÃO No panorama nacional constatou-se, nos últimos anos, uma certa estagnação do número de matrículas nas IES – Instituições de Ensino Superior privadas (englobando-se universidades, federações de escolas, faculdades integradas e estabelecimentos isolados), com um ligeiro crescimento em 1998 (Schwartzman, 1999), enquanto no Estado de São Paulo o mercado apresentou uma demanda que crescentemente veio sendo atendida pelas universidades particulares. Em 1995 as IES privadas representavam 75,9% do total das matrículas do Estado, crescendo para 77,7% em 1996, 79,1%, em 1997, chegando a 80,6%, em 1998. Se por um lado o número de matrículas aumentou, por outro se deve destacar que, em 1998, 14,4% das vagas oferecidas não foram preenchidas. Isso quer dizer que existiam 12.341 vagas à disposição dos consumidores. A necessidade de preencher essas vagas foi um dos motivos que contribuiu para a acirrada competição no mercado de ensino universitário. A institucionalização do mercado deixa explícita uma diversificação de produtos e serviços educacionais sem precedentes, bem como uma acentuada diferenciação entre as universidades que interagem no mercado de ensino. É precisamente essa grande diversificação de produtos e serviços,colocados no mercado por universidades com os mais variados perfis e missões institucionais, que caracteriza o chamado “mercado de oferta” em contraposição ao “mercado de demanda”. Deixando de lado a USP que possui financiamento estatal, a PUC-SP e a Universidade Mackenzie são instituições tradicionais vinculadas à qualidade de ensino e excelência acadêmica, seja na graduação, como no Mackenzie, ou graduação e pós-graduação, como na PUC-SP, as mesmas que dentro da cidade de São Paulo podem ser consideradas top-universidades, caracterizando-se por possuírem prestígio obtido em tempos de mercado restrito ou de baixa concorrência. Nesse novo cenário de acirrada concorrência, as top-universidades vêm adaptando-se aos 67 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 Por sua vez, a existência de mecanismos públicos de avaliação possibilita também a hierarquização das universidades, pois existem indicadores que permitem colocar as universidades em uma hierarquia a partir de critérios de avaliação de qualidade instituídos pelo Estado. As universidades tradicionais terão de esforçar-se para justificar a fama e o prestígio adquiridos em tempos de mercado restrito; por sua vez, as universidades mercantis poderão se diferenciar, ganhando destaque no nicho de mercado escolhido. Eunice Durham e Helena Sampaio (1996), utilizando os trabalhos de Geiger (1986), afirmam que “la educación superior privada en Brasil se encuadraría dentro de lo que el define como mass private sector, que cumplen esencialmente el papel de acomodar el grueso de la demanda popular por educación superior”. Sob essa perspectiva, o mass private sector, se caracterizaria por: - complementar os setores públicos que são relativamente pequenos, mais seletivos e fortemente voltados para as carreiras de elite; instalações e organização didático-pedagógica, considerados insuficientes. Em 2000, o MEC divulgou uma lista de 94 universidades com o risco de perder o credenciamento, incluindo o curso de Jornalismo da PUC, cuja qualificação docente e de infra-estrutura foram avaliadas como insuficientes. Em ambos os casos as reitorias, coordenadores, professores e alunos se posicionaram e questionaram os métodos utilizados pelo MEC. No caso da Universidade Mackenzie, os próprios alunos, que na época se mobilizaram contra a atitude do MEC, declararam na imprensa a ocorrência de mudança e melhorias no curso. No caso da PUC, o fato ainda é muito recente para se verificar as mudanças que provavelmente virão no curso de Jornalismo. “Admite-se que os estatutos eram freqüentemente malaplicados; os programas, estudados de maneira incompleta; as durações obrigatórias dos estudos, não respeitadas, mesmo os exames algumas vezes eram fraudados; negligência e fraude grassavam amplamente (…) O acesso rápido e a baixo custo do diploma constituía o objetivo confesso de muitos estudantes” (Charle e Verger, 1996:29). Se afirmássemos que o texto acima foi extraído de uma pesquisa sobre as universidades paulistas da década de 80, imediatamente o leitor se lembraria das universidades que tinham fama de comercializar títulos, de formar bacharéis com vistas grossas em relação à sua freqüência às aulas. Pois bem, o texto acima foi retirado de um livro no qual se descreve a situação de muitas universidades provincianas no final da Idade Média. O seguinte texto pode ser ainda mais elucidativo: “…a partir do século XVII (…) Na França, se as principais universidades – Paris, Toulouse ou Montpellier – preservavam um determinado nível de exigência, pequenas universidades provincianas – Avignon, Orange, Orléans, Nantes, Caen, Reims – especializaram-se vergonhosamente na venda de graus a preços de liquidação e sem exame sério. A fraude revestia-se de múltiplas formas: teses redigidas por autores profissionais, envio de substituto em lugar do verdadeiro candidato, inscrições prévias feitas por correspondência, etc. É impossível avaliar a importância dessas práticas, mas elas eram amplamente difundidas...” (Charle e Verger, 1996:60). Os textos citados mostram que a diferenciação entre as universidades sempre fez parte dos sistemas universitários. No Brasil, sempre houve uma profunda diferenciação em diversos momentos da sua história. Com a entrada em cena das universidades mercantis, na década de 90, as diferenciações entre instituições podem ser constatadas a partir de diversas variáveis, como qualidade, missão, preço, localização, etc. - rápido poder de expansão mobilizando recursos privados, com o propósito de absorver e adaptar-se à demanda; - atender à demanda em grande escala, de forma rentável, comprometendo a qualidade dos produtos. Diante da grande diversificação institucional que vem ocorrendo no mercado de ensino universitário, pode-se afirmar que a categoria universidade mercantil é muito mais ampla e rica do que as restrições do mass private sector. Deve-se ter claro que, no Brasil, as universidades mercantis nasceram para atender às demandas de massa, mas isso não significa que não possam existir universidades mercantis que sejam centros de excelência, como existem em outros países, onde a maioria desses centros está vinculada à iniciativa privada. Nesse sentido, é fundamental distinguir as universidades mercantis de massa e as universidades mercantis de elite. Sem dúvida alguma, as universidades mercantis surgiram no Brasil como parte do mass private sector, na esteira do ensino público voltado para o ensino de elite.3 Embora seja difícil desvincular as universidades mercantis do mass private sector e de um ensino de qualidade questionável, o surgimento de universidades mercantis de elite é uma possibilidade aberta. A questão é definir sua missão e investir e competir dentro do nicho de mercado escolhido. A emergência de instituições mercantis com qualidade está começando a surgir ou a se expandir, como exemplo pode-se citar a Ibmec, faculdade com 60% de 68 UNIVERSIDADES MERCANTIS: A docentes com o título de doutor, comandada pelos ex-banqueiros Paulo Guedes, do ex-Pactual, e Claudio Haddad, do Banco Garantia. Esse último declarou à imprensa acreditar que a educação privada pode dar dinheiro e oferecer qualidade. Na mesma perspectiva, cita-se a nova Faculdade Trevisan, resultado da sociedade entre o empresário Antoninho Trevisan e o Banco Fator, que planeja investir 18 milhões de reais nos próximos quatro anos. Nela os alunos trabalham com laptops fornecidos pela faculdade (Folha de S.Paulo, 28/12/98). INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MERCADO demanda e baixo custo de investimento financeiro. No Estado de São Paulo, em 1998, os cinco primeiros cursos em número de alunos matriculados em universidades particulares são aqueles que implicam baixo investimento. Em primeiro lugar está o curso de Direito com 73.580 alunos matriculados; em segundo, por Administração com 44.343 alunos; em terceiro lugar, Engenharia com 24.565 alunos; em quarto lugar, Comunicação Social com 19.769 alunos; e em quinto, Psicologia com 15.719 alunos. Como já foi registrado, as universidades mercantis voltadas para o ensino de massa apresentam como característica a procura do lucro nos nichos de competitividade escolhidos. Em decorrência disso, pode-se verificar a implantação de ações voltadas para a redução dos, digamos, custos de produção, o que certamente influi na qualidade do produto ofertado. Aliás, a questão da má qualidade dos produtos oferecidos pelas universidades mercantis de massa tem sido talvez um dos pontos consensuais entre analistas e pesquisadores do ensino superior. Dados oficiais revelam que a maioria das universidades mercantis de massa contrata professores pelo regime de trabalho hora/aula. Se o objetivo é reduzir custos, sem dúvida alguma o pagamento hora/aula é o mais indicado, pois o professor recebe pela aula ministrada, mas esse sistema, sem dúvida, é o pior que existe, uma vez que o professor somente se interessa em chegar na sala de aula e ir embora, não havendo a possibilidade de ficar auxiliando A LÓGICA EMPRESARIAL EM QUESTÃO As universidades mercantis caracterizam-se pela predominância da lógica empresarial, da procura do lucro. Falamos de negócios e, sob essa perspectiva, as universidades mercantis investem onde percebem que há demanda e, portanto, podem obter lucro. Se tomarmos como referência o Brasil, verifica-se que 84,2% do total de universidades particulares estão localizadas na região Sudeste e Sul, enquanto 18% estão distribuídas entre a região Norte (uma universidade), Nordeste (seis universidades) e Centro-Oeste (cinco universidades). Somente no Estado de São Paulo encontramos 30 universidades particulares. Além do investimento em regiões onde há demanda com poder aquisitivo para adquirir produtos educacionais, verifica-se que se dá prioridade aos cursos que apresentam grande TABELA 1 Regime de Trabalho dos Professores das Universidades Criadas após 1988 Município São Paulo – 1998 Regime de Trabalho dos Professores Universidades Mercantis Horista de Massa Tempo Parcial Tempo Integral Total N Absolutos % N Absolutos % N Absolutos % N Absolutos % 561 41,2 533 39,1 269 19,7 1.363 100,0 São Judas 485 72,6 175 26,2 8 1,2 668 100,0 Camilo Castelo Branco 471 75,1 109 17,4 47 7,5 627 100,0 Ibirapuera 367 73,5 114 22,9 18 3,60 499 100,0 Cidade de São Paulo 361 61,8 169 28,9 54 9,3 584 100,0 Cruzeiro do Sul 267 59,4 132 29,3 51 11,3 450 100,0 Bandeirante 382 55,1 92 13,3 219 31,6 693 100,0 São Marcos 235 73,4 56 17,5 29 9,1 320 100,0 Santo Amaro 404 62,9 198 30,9 40 6,2 642 100,0 Anhembi Morumbi 288 75,4 65 17,0 29 7,6 382 100,0 os Paulista ... os Fonte: MEC/Inep/Seec. 69 os os SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 o aluno após a aula ou ficar mais 15 minutos fora dela esclarecendo dúvidas e respondendo questões que os alunos trazem de casa. Essas atividades fundamentais estão fora de cogitação. O professor não é estimulado pela universidade e, portanto, ela não pode exigir maiores compromissos, nem apelar para a função social do docente, pois o professor precisa trabalhar em duas, três, quatro ou mais universidades para garantir um salário no mínimo decente. Esse sistema, além de não criar vínculos entre a universidade e o professor, nem criar a possibilidade da existência de um espírito de comunidade universitária, faz que com que a universidade se torne um espaço de produção “fordista” de diplomas. Se tomarmos como referência os dados existentes em 1998 (Tabela 1), pode se constatar que metade das universidades mercantis paulistanas mantém um índice muito elevado do seu corpo docente sob o regime horista, acima de 70%, e duas delas mantêm mais de 60% de seu corpo docente sob esse mesmo regime de trabalho. Aos dados citados deve-se ainda acrescentar um outro problema: o grau de titulação do corpo docente. Sem dúvida, contratar professores com baixa titulação é uma forma de reduzir custos. No entanto, deve-se considerar que em alguns casos se dá mais importância à experiência profissional do professor para a formação do aluno, do que ao título de mestre ou doutor, e existem profissões e regiões do país que dificilmente possuem mestres e douto- res no mercado. Resta a dúvida, será que há reserva de mestres e doutores suficiente para atender à grande demanda do mercado universitário? Embora polêmico, o grau de formação constitui-se em um indicador da qualidade do corpo docente, como apontam Silva Jr. e Sguissardi (1999:52), e os resultados do provão “demonstraram inquestionavelmente que o conceito A está diretamente relacionado a IES que possuem alto percentual (mais de 50%) de seu corpo docente com titulação de mestrado e doutorado e o mesmo percentual de docentes contratados em regime de trabalho superior a 20 horas semanais”. Em 1995, do total de professores das universidades privadas citadas, 61,8% tinham apenas o título de bacharel ou de especialista; 38,2% eram mestres ou doutores. Os dados de 1998 revelam um pequeno aumento do número de mestres e doutores para 42%. O número de professores que têm somente graduação ou o título de especialista ainda é elevado, 58%. Os percentuais variam de universidade para universidade, mas, em linhas gerais, pode-se dizer que essas universidades procuram ficar no limite exigido pelo Estado para manter o status de universidade, isto é, um terço do corpo docente com titulação de mestre ou doutor. Os elevados índices de professores bacharéis ou especialistas levam a concluir que os gastos com mão-de-obra mais especializada ou com investimento em programas de quali- TABELA 2 Conceito no Provão e Ano em que os Cursos Foram Avaliados pela Primeira Vez nas Universidades Criadas após 1988 Município de São Paulo – 1998 Curso/Conceito e Ano de Avaliação Universidades Mercantis Administração Comunicação Direito Letras de Massa Paulista C - 1996 São Judas B - 1996 C - 1998 Química Elétrica D - 1997 D - 1998 B - 1998 C - 1996 B - 1996 A - 1998 B - 1996 C - 1996 C - 1996 C - 1996 D - 1998 Ibirapuera D - 1996 C - 1997 C - 1998 Cidade de São Paulo C - 1996 C - 1997 C - 1998 Cruzeiro do Sul D - 1996 C - 1998 C - 1998 Bandeirante D - 1998 E - 1998 C - 1998 São Marcos C - 1996 C - 1998 Santo Amaro C - 1998 B - 1998 Anhembi Morumbi C - 1996 C - 1998 Fonte: MEC/Inep/Exame Nacional de Cursos. 70 Odontologia Matemática Veterinária Civil C - 1996 Camilo Castelo Branco C - 1998 Engenharia C - 1997 B - 1998 C - 1997 B - 1998 A - 1998 E - 1997 C - 1998 C - 1998 D - 1997 C - 1998 C - 1998 D - 1997 C - 1998 B - 1998 B - 1997 UNIVERSIDADES MERCANTIS: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MERCADO ... ses de mercado. Duas grandes universidades mercantis paulistanas, a Unip e Uniban, estão se enfrentando em diversas arenas de luta: no plano legal e no confronto direto pelos clientes-consumidores de produtos educacionais, oferecendo promoções aos que adquirem seus produtos. Uma amostra disso é a propaganda da Uniban, amplamente veiculada na imprensa paulistana, na qual os universitários de 2° e 3° anos de Osasco, Alphaville e Barueri que se transferirem para a Uniban, terão 50% de desconto na anuidade. O pagamento efetuado em outra instituição (leia-se na Unip) será integralmente descontado da anuidade na Uniban. Basta apresentar o comprovante de matrícula. Apesar das sérias críticas que podem ser feitas, as universidades mercantis de massa possuem o grande mérito de atender à demanda por ensino superior que o Estado não consegue prover. O princípio de ensino universal público e gratuito constitui-se em uma importante bandeira que não conseguiu se concretizar na realidade. Sem dúvida alguma, ouvir uma afirmação categórica como “as universidades mercantis estão democratizando o acesso ao ensino superior” deve ser frustrante para todos aqueles que sonhavam que algum dia esta democratização ocorresse pela ampliação do serviço educativo público e gratuito fornecido pelo Estado. No entanto, a realidade é outra: foram as universidades mercantis que possibilitaram a democratização do ensino superior e foi a partir da presença delas que um maior número de pessoas pôde ter acesso a uma universidade. A questão da qualidade de ensino é muito séria e delicada e a intervenção do Estado é necessária, mas deve ser redimensionada, não devendo limitar e coibir a iniciativa dos empresários na área do ensino superior, mas principalmente garantir espaços e instrumentos que possibilitem a defesa dos direitos dos cidadãos-consumidores. Nesse sentido, os mecanismos de avaliação de qualidade, principalmente sua ampla divulgação e publicização, podem contribuir para a construção de uma sociedade de consumidores conscientes e responsáveis. Em tempos de “mercados de oferta”, existe uma grande diversidade de produtos dirigidos para clientes com os mais variados perfis, e o importante é os consumidores escolherem conscientemente os produtos e serviços que irão adquirir, avaliando qualidade, expectativas individuais e condições financeiras. Finalizando, acredita-se que a esfera do mercado e do consumo de bens educacionais possibilita a percepção de novos espaços do exercício da cidadania. Como afirma Canclini (1995:57) o processo de consumo está sendo visto como algo ficação docente, bem como com encargos sociais/trabalhistas, são elementos que pesam no momento de optar pela ampliação do quadro de docentes titulados, tudo isso, é claro, para reduzir os “custos de produção” e maximizar os lucros. Em relação à qualidade dos cursos, até a instauração do Exame Nacional de Cursos, em 1996, não existiam indicadores sobre a qualidade dos cursos oferecidos pelas universidades mercantis de massa, o único conhecido, que se generalizava, era que os cursos das universidades mercantis eram ruins ou de qualidade muito questionável. Se forem considerados os conceitos obtidos na primeira avaliação realizada nos cursos das dez universidades analisadas, pode-se constatar a frágil formação recebida pelos alunos que estudam nessas universidades, corroborando-se a idéia generalizada da má qualidade dessas universidades. Poucas se destacaram em algum curso específico. Em geral, os resultados foram reflexo da precária qualidade dos cursos oferecidos. Dos 49 cursos avaliados, 57,1% obtiveram letra C (28 cursos), 18,4%, letra D (nove cursos), 4,1%, letra E (dois cursos). Somente 4,1%, equivalente a dois cursos, obtiveram letra A, e 16,3%, equivalente a oito cursos, obtiveram letra B. Dentre as dez universidades, somente uma delas, a Universidade São Judas, teve um desempenho bastante positivo: dos sete cursos avaliados somente um curso obteve letra C, quatro cursos, letra B, e dois cursos, letra A. OBSERVAÇÕES FINAIS A institucionalização do mercado é uma realidade no cenário universitário que não pode ser ignorada. Os contextos mudaram e para analisar as universidades brasileiras deve-se considerar não somente o mercado universitário como elemento impulsionador de mudanças, mas também a passagem de um cenário marcado pelo mercado restrito ou de baixa concorrência, que sustentaria o mercado de demanda, para um mercado pautado pela acirrada concorrência, propiciando o surgimento do mercado de oferta. A concorrência entre universidades pela ampliação e conquista de novos mercados chegou a tal magnitude que no início de 2000 colocou em crise o Conselho Nacional da Educação – o mesmo que surgiu como alternativa ao tão mal-falado e desgastado Conselho Federal da Educação – que se viu envolvido em sérias acusações de irregularidades. Atrás de todo esse escândalo, existe a pugna de interesses financeiros, interes- 71 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS mais complexo do que uma simples relação entre meios manipuladores e uma massa de consumidores dóceis. Nesse sentido, “cuando se reconoce que al consumir también se piensa, se elige y reelabora el sentido social hay que analizar cómo interviene esta área de apropriación de bienes y signos en formas más activas de participación que las que habitualmente se ubican bajo el rótulo de consumo. En outros términos, debemos preguntarnos si al consumir no estamos haciendo algo que sustenta, nutre y hasta cierto punto constituye un nuevo modo de ser ciudadanos” (1995:43). ALMEIDA, C.R. O brasão e o logotipo. Um estudo das novas universidades na cidade de São Paulo. Tese de doutoramento. São Paulo, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1997. CALLEJA, T. La universidad como empresa: una revolución pendiente. Madrid, Ediciones Rialp, 1990. CANCLINI, N.G. Consumidores y ciudadanos – conflitos multiculturales de la globalización. Mexico D.F., Editorial Grijalbo, 1995. CHARLE, C. e VERGER, J. História das universidades. São Paulo, Editora da Unesp, 1996. DURHAM, E. e SAMPAIO, H. “La educación privada en Brasil”. In: SCHWARTZMAN, S. (org.). América Latina: universidades en transición. Washington, n.61, OEA/OAS, 1996 (Colección Interamer). FÁVERO, M. de L. “Autonomia Universitária e Educação Superior no Brasil”. In: MOROSINI, M. (org.). 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Entre as principais informações que devem constar no catálogo pode-se destacar: relação dos dirigentes, coordenadores de cursos e programas, indicando titulação e/ou qualificação profissional e regime de trabalho; relação nominal do corpo docente da instituição, indicando titulação, qualificação profissional e regime de trabalho; descrição da biblioteca e laboratórios; relação de computadores à disposição dos cursos; número máximo de alunos por turma; relação de cursos reconhecidos e de cursos em processo de reconhecimento; conceitos obtidos nas últimas avaliações realizadas pelo MEC; valor corrente das mensalidades por curso ou habilitação; valor corrente das taxas de matrícula e outros encargos financeiros a serem assumidos pelos alunos. LEVITT, T. A imaginação de marketing. São Paulo, Atlas, 1985. MARTINS, C.B. Ensino pago: um retrato sem retoques. São Paulo, Editora Global, 1981. OYAMA, T. e MANSO, B. “O dono do ensino”. Revista Veja. São Paulo, Editora Abril, 01/set./1999. 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Oyama e Manso (1999) apontam o preenchimento de três lacunas: a) implantou uma universidade descentralizada, em contraste com a USP que centraliza a maioria de seus cursos num único campus, dificultando o acesso dos alunos em termos de locomoção; b) oferece um número maior de vagas no processo de admissão, tornando mais fácil o ingresso a essa instituição de ensino; c) concentra 70% de seus cursos no período noturno, facilitando os estudos para os alunos-trabalhadores, enquanto as universidades públicas federais concentram 85% de seus cursos apenas durante o dia. __________ . O ensino superior no Brasil-1998. Brasília, Inep, n.6, 1999 (Texto para discussão). SILVA Jr., J. dos R. e SGUISSARDI, V. Novas faces da educação superior no Brasil. Reforma do Estado e mudança na produção. Bragança Paulista, Editora da Universidade São Francisco, 1999. TACHIZAWA, T. e ANDRADE, R.O. Gestão de instituições de ensino. São Paulo, Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999. 72 A INICIAÇÃO CIENTÍFICA: MUITAS VANTAGENS E POUCOS RISCOS A INICIAÇÃO CIENTÍFICA muitas vantagens e poucos riscos* FLAVIO FAVA-DE-MORAES Professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e Diretor Executivo da Fundação Seade. Foi: Reitor da Universidade de São Paulo, Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e Diretor Científico da Fapesp MARCELO FAVA Professor de Odontologia Pediátrica na Unesp de São José dos Campos e Universidade Bandeirantes Resumo: O artigo demonstra a importância do programa de iniciação científica para o estudante do curso superior, enfatizando o papel complementar de melhoria da sua análise crítica, maturidade intelectual, compreensão da ciência e possibilidades futuras tanto acadêmicas como profissionais. Descreve as vantagens, mas também enumera alguns aspectos vulneráveis que refletem riscos a serem evitados. É ainda destacada a necessidade de formação de gente capacitada na área tecno-científica como premissa para o nosso desenvolvimento social e econômico. Palavras-chave: ensino e aprendizagem; universidade no Brasil; capacitação científica. A Conferência Mundial sobre Ensino Superior realizada pela Unesco em Paris, em 1998, e que teve a co-participação da Associação Internacional de Universidades conseguiu agregar mais de 3.000 pessoas. Uma das conclusões desta conferência pode ser resumida numa frase: “Não há condições de uma Nação querer ser moderna com desenvolvimento social e econômico se não tiver base científica e tecnológica”. Depois de uma semana de discussão, esta resultante, embora possa parecer simples, é relevante, pois agora não se trata mais de um período em que os grandes vencem os pequenos, os rápidos vencem os lentos, nem mesmo em que os ricos vençam os pobres, mas sim os que sabem vencem os que não sabem. É por isso que nos meios de comunicação observamse, sistematicamente, expressões como sociedade da informação, época da informática, domínio da informação, o que indica que quem dominar o conhecimento é que terá cada vez mais sucesso, como já vem acontecendo desde a 2a Guerra Mundial. Como é que o Brasil conseguirá êxito se, para termos desenvolvimento social e econômico, precisamos possuir base científica e tecnológica? Como estamos no Brasil? E como nos enquadramos internacionalmente? Sem dúvida, temos pessoas qualificadas em todos os ramos de conhecimento, suficientes para transitar internacionalmente sem nos causar nenhum constrangimento, dialogando em condições de igualdade profissional. Então, por que não temos esta verdade tão explícita e visível? Simplesmente porque, se na qualidade possuímos pessoas com esses méritos, na quantidade os números são medíocres. Representamos ainda um número insuficiente para que o Brasil possa ser incluído no rol de países da vanguarda técnico-científica. Portanto, como resolver essa incógnita da equação sobre o capital humano? Onde está a real dificuldade? O problema é que temos 170 milhões de habitantes e apenas 1,2% de estudantes no curso superior. Destes 2 milhões de estudantes no curso superior, um terço está em universidades públicas gratuitas, enquanto os outros dois terços encontram-se em universidades privadas e pagas, sendo que a qualidade institucional ainda predomina nas públicas. Embora se observem raras decisões estratégicas e de vontade política de instituições privadas no sentido de desenvolverem pesquisa, ainda há uma diferença enorme nesta atividade a favor das instituições fomentadas pelo poder público. Este dado é importante, pois a qualidade docente e a do ensino são diretamente vinculadas à geração e ao domínio do conhecimento e não apenas à sua transmissão. Se temos então apenas um terço dos estudantes nas instituições públicas e dois terços nas particulares, o número fica assustador quando você faz a seguinte questão: dos 170 milhões de pessoas no país, havendo 2 milhões estudando no curso de graduação superior, quantas pas- 73 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 sam para o sistema de pós-graduação? Apenas 80.000 estão matriculadas na pós-graduação, sendo que, num curso de prazo longo, um número alto destes estudantes evade do sistema de pós-graduação. Basta dizer que, em 1996, o Brasil fez 2.500 doutores, enquanto os Estados Unidos formou 36.000 no mesmo ano. Dos 2.500 doutores titulados no Brasil, 50% obtiveram seus títulos na USP; 80% foram titulados no Estado de São Paulo e 20% distribuídos em apenas outros cinco estados do país. Portanto, tem-se uma convergência quanto à concepção de que o país é científica e tecnologicamente dependente do Sudeste, para não dizer de São Paulo. A Universidade norte-americana que mais doutores titulou em 1996 foi a Universidade da Califórnia, em Berkley, que formou 806 doutores, de um total de 36.000. Aqui em São Paulo, dos 2.500 doutores, a USP formou 1.260. Quando se verifica a produção científica, a análise fica ainda pior, porque a ciência não é um processo episódico e nem instantâneo, uma vez que possui uma ação incremental, de tradição, de tempo e de maturação intelectual, sendo, portanto, fruto de três vertentes muito relevantes e indissociáveis: constante capacitação das pessoas; infra-estrutura adequada; e investimento permanente. O Estado de São Paulo fica outra vez imbatível quando comparado com outros estados ou mesmo com países latino-americanos. Esse ano o Estado investirá 2,4 bilhões de reais no sistema público de ensino superior, ciência e tecnologia. O Estado é responsável por três Universidades, 19 Institutos de Pesquisa e pelo maior centro de ensino técnico (superior e médio) da América Latina, que é o Centro Paula Souza, com 108 escolas, sendo 99 de ensino médio e nove de ensino superior (Fatecs), distribuídas em quase 100 municípios do Estado. Todo esse sistema de ensino e pesquisa tem uma instituição de apoio, fruto de um descortino absolutamente louvável da sociedade paulista, quando, em 1947, por ocasião da primeira Constituinte Estadual, foi criado pela Assembléia Legislativa um fundo constitucional de recursos para a pesquisa, que iniciou suas atividades em 1962 com a Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa. Só a Fapesp investiu no Estado, entre 1995 e 1998, 1,2 bilhão de reais em infra-estrutura e projetos de pesquisa, o que equivale a 300 milhões de reais por ano, ou a R$ 1 milhão por dia útil.1 A Lei que rege a Fapesp desde a sua criação adota um princípio que estabelece o seguinte: “A Fapesp tem como finalidade o amparo à pesquisa para as pessoas físicas ou instituições jurídicas, quer sejam públicas ou privadas.” Ou seja, ela incorpora conceitos absolutamente justos: não está voltada apenas para as instituições jurídicas, pois permite preferencialmente o acesso in- dividual ou em equipe de pesquisadores; não é somente para o poder público, porque também é aberta para o sistema privado; não é para paulistas, mas sim para quem reside no Estado de São Paulo. Todas essas possibilidades ainda encontram atualmente apenas um obstáculo que prejudica o acesso das instituições que são mais jovens, por quê? À medida que a comunidade científica cresceu, a Fapesp aumentou as exigências de mérito tanto do solicitante como do projeto apresentado. O sistema tornou-se de fácil acesso para quem já possui doutorado, mas é praticamente inacessível para quem ainda não tem esta titulação ou equivalência como pesquisador. Assim, as pessoas que estão nas instituições mais jovens, em que ainda predominam as não tituladas e, portanto, sem acesso direto, devem se agregar a pesquisadores consolidados que submetem seus projetos e obtêm financiamento. Este procedimento da Fapesp confere proteção importante e boa credibilidade ao pesquisador. Tendo em vista que o financiamento é dado ao pesquisador e não à instituição, aquele que consegue ser fomentado pela Fapesp e posteriormente, por uma razão qualquer (de opção de vida, ou de outra natureza), tiver que trocar de instituição, leva todo o projeto consigo para a nova instituição. O compromisso perante a Fapesp é do projeto sob a responsabilidade de quem conquistou a sua execução. Contudo, se temos instituições e pessoas se qualificando, embora ainda em número pequeno, qual a alternativa adotada pela comunidade acadêmica e que se tornou uma tradição que conseguiu êxito? Foi a de estimular a juventude a fugir da rotina escolar, deixando de somente deglutir informações e regurgitá-las nos dias das provas, de passar o curso inteiro sem fazer nada além de assistir aulas, terminar o curso, pegar o diploma e tentar se inserir no mercado de trabalho. Isso gera no estudante uma atitude passiva, não desenvolve seu senso de análise crítica, inibe as idéias inovadoras e, principalmente, lhe confere uma impressão errônea de que o ensino superior é um “colégio de 3o grau”, com uma rotina igual àquela dos ensinos fundamental e médio. Ele vai para o mundo, inserindo-se na sociedade com uma visão de difícil compreensão da verdadeira realidade. AS VANTAGENS E AS IMPRECISÕES DE UM PROGRAMA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA NUMA INSTITUIÇÃO Evidentemente, a Iniciação Científica tem uma história mais favorável do que contrária, sendo considerada, 74 A INICIAÇÃO CIENTÍFICA: MUITAS VANTAGENS E POUCOS RISCOS Também pode-se mencionar que, em geral, todos os estudantes que fizeram iniciação científica têm melhor desempenho nas seleções para a pós-graduação, terminam mais rápido a titulação, possuem um treinamento mais coletivo e com espírito de equipe e detêm maior facilidade de falar em público e de se adaptar às atividades didáticas futuras. Por outro lado, é um erro admitir que iniciação científica existe exclusivamente para formar cientista. Se o estudante de iniciação científica fizer carreira nessa área, tanto melhor, mas se optar pelo exercício profissional também usufruirá de melhor capacidade de análise crítica, de maturidade intelectual e, seguramente, de um maior discernimento para enfrentar as suas dificuldades. Uma outra grande vantagem da iniciação científica é a de permitir que a Instituição, por este programa, favoreça uma maior exposição dos melhores talentos dentre seus alunos. Isso não tem duplo sentido, ou seja, não impede que uma pessoa talentosa não consiga se visibilizar se não fizer iniciação científica, mas é sabido que os que a fazem, em geral, mostram “algo mais”, facilitando sua imediata identificação dentro do programa. Na área de engenharia, os estudantes envolvidos em iniciação científica, freqüentemente muito antes de terminar o curso, já estão sedutoramente convencidos por empresas de que o emprego está assegurado. Os professores sabem, antecipadamente, quais são os melhores alunos da iniciação científica a serem convidados para a pós-graduação. Vários concursos seletivos de docentes foram quase exclusivamente disputados por ex-alunos de iniciação científica, porque os demais não se sentiam competitivos na mesma disputa. Existe, portanto, um diferencial muito forte a favor desse tipo de programa. Outro diferencial privilegiado mostrado pela iniciação científica em relação ao estudante regular refere-se à chance de se entender precocemente de ciência atualizada, em face do convívio com pesquisadores muito experientes, pois o aluno ganha muito mais tempo do que se fosse aprender sozinho. Ao queimar etapas, integrando-se a um grupo competente, o estudante pode ter idéias muito mais criativas e sensatas. Já há evidências suficientes para se afirmar que foi no trabalho de tese dos estudantes de pós-graduação provenientes da iniciação científica que surgiram belas idéias inovadoras. Constatou-se, nos Estados Unidos, que trabalhos selecionados como contribuições científicas relevantes sempre estavam vinculados a nomes notórios da ciência norteamericana. Porém, embora isto fosse verdade, verificouse que praticamente na totalidade desses trabalhos, aquele destacado cientista estava acompanhado por um jovem de forma convicta, com mais vantagens do que imprecisões. A primeira conquista de um estudante que faz iniciação científica é a fuga da rotina e da estrutura curricular, pois agrega-se aos professores e disciplinas com quem tem mais “simpatia” e “paladar”, desenvolvendo capacidades mais diferenciadas nas expressões oral e escrita e nas habilidades manuais. Os estudantes aprendem a ler bibliografia de forma crítica, uma vez que o professor orientador pode lhe mostrar por que, entre o texto A e o B, o B é mais fundamentado que o A e quais as razões. Embora essa análise comparativa sobre o que é mais ou menos correto seja indispensável ao aprendizado, em geral, o estudante não sabe fazê-la. Ele tem a ilusão de que o professor não erra nunca, de que a informação por ele fornecida é sempre correta. Porém, há muitos exemplos em que se pode mensurar a quantidade de informações erradas que docentes transmitem repetitivamente há anos. Isso acontece em maior ou menor escala em qualquer ambiente coletivo, pois não há como evitar medíocres em qualquer instituição; não há como não ter parasitas na comunidade de uma instituição. Todo o êxito do Programa se resume inicialmente em encontrar pessoas de mérito para a sua iniciação científica. Uma outra vantagem alcançada pelos estudantes quando vivenciam a iniciação científica é a de perder o medo, não ter pânico do novo. Quando se aprendem coisas com uma certa autonomia apoiada na diretriz do orientador, posteriormente, na vida prática, ao surgir a primeira dificuldade, ele terá uma razoável habilidade para interpretar o fato e discernir se pode resolvê-lo ou se é preciso consultar quem sabe mais, pois, humildemente, reconhecerá que não tem a solução. Existem pessoas graduadas há muitos anos que entram em uma biblioteca e não sabem sequer manusear fontes de referências, porque nunca foram habituadas a isso. Hoje, com as redes disponíveis, há até ociosidade no uso das fontes internacionais, devido à deficiência de conhecimento sobre o inglês operacional. Ou seja, a informação está acessível, mas não há diálogo entre os autores e atores da informação, pois as dificuldades de comunicação são sérias e quase insuperáveis. Outro destaque refere-se ao fato de que todos os iniciantes científicos são excelentes fontes de informação para as adequações curriculares de impacto nos cursos e graduação, podendo ser considerados termômetros muito importantes da qualidade do curso, do desempenho dos professores e do conteúdo dos programas, ou seja, são excelentes cooperadores do próprio modelo pedagógico. 75 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 os estudantes têm que se livrar? Como é que eles podem se defender? O estudante precisa ser informado de que, eventualmente, há fraudes no sistema e que pelo menos três delas são consideradas criminosas: inventar, falsificar ou plagiar resultados, sendo inaceitáveis no mundo acadêmico e incompatíveis com a ciência. Além desses três crimes, são elencadas pelo menos outras 40 atitudes que, embora não classificadas como criminosas, são tidas como de má-conduta e que o estudante precisa conhecer sua existência, para poder identificar e evitar conscientemente este tipo de ambiente, como por exemplo, estar no trabalho alguém que não teve participação; desenvolver um projeto e dividi-lo para publicálo em vários segmentos quando, na realidade, é um projeto que só tem coerência na íntegra; republicar as mesmas pesquisas alterando redação e títulos, mas enfocando sempre os mesmos resultados; etc. Outra má conduta é a chamada sociedade científica do mútuo elogio, ou seja, a formação das famosas “panelinhas”. Atualmente, sabe-se que os indicadores de desempenho científico não estão somente na publicação, mas também nas suas citações na literatura científica, cujas revistas são indexadas por organizações especializadas. Como decorrência, surgem os clubes das citações, em que se congregam grupos que trabalham na mesma temática e que assumem o compromisso de se autocitarem em todas as suas publicações. Se o sistema científico não é integralmente puro, felizmente tem muito mais mérito para se destacar. Porém, os jovens não devem ser informados só sobre o lado bom; eles também precisam ser orientados sobre os deslizes que o sistema pode oferecer e, neste sentido, os autênticos cientistas não podem se omitir. Espera-se que essas considerações sobre o amplo espectro da iniciação científica e sobre sua relevância na formação de pessoal capacitado e, portanto, no desenvolvimento da ciência brasileira sejam úteis a todos os estudantes. O Brasil conseguiu, em 1997, entrar no grupo dos 20 países mais produtores de ciência e tecnologia, ou seja, pela primeira vez na história, embora estejamos em décimo oitavo lugar, passamos a pertencer a um grupo de elite neste importante setor. Estamos entre os 20 mais e somos o único país latino-americano neste rol, o que demonstra que estamos no caminho certo para uma real consolidação. Não é mais privilégio de países ricos fazer pesquisa. A tese é inversa, ou seja, só país que faz pes- recém-doutorado sob sua orientação. Esses orientadores, quando entrevistados, reconheceram que boa parte do êxito da pesquisa proveio de idéias submetidas pelos estudantes durante o desenvolvimento do projeto. Ou seja, no início, o orientador forneceu o foco temático e a pergunta a ser respondida, mas durante a execução, foram as inovações fornecidas pelos estudantes que garantiram o resultado final bastante criativo e original. Além da citação de algumas vantagens, a iniciação científica também oferece um auxílio financeiro. Muitos bolsistas utilizam estes recursos para comprar livros, fazer documentações, etc., montando seu próprio acervo para o futuro. Alguns usam esse auxílio para ajudar a própria família ou para dispensar a mesada doméstica. Portanto, a iniciação científica exercita também uma outra responsabilidade de natureza social perante uma realidade diferente daquela exclusivamente científica. Dentre as imprecisões do programa de iniciação científica, a mais grave é a de o estudante enfrentar a decepção após demonstrar vontade e motivação na sua relação com a ciência. Ele escolhe seu orientador com base na amizade, no tema que mais gosta, na empatia com o ambiente. O estudante que já teve dificuldade no vestibular para decidir sobre sua vocação também terá dificuldade de escolher um bom orientador, pois ainda não é suficientemente maduro. Portanto, neste momento, há um grande risco, pois existe professor que não orienta, só desorienta. Tem professor que é simpático, mas que pouco sabe, ou sabe errado; tem docente no sistema que cativa o estudante, mas na realidade em nada contribui para ele. É necessário ter cuidado com quem se vincula, ou seja, se é para fazer algo mais que o simples currículo, é indispensável que o faça com pessoas que realmente contribuam com o seu crescimento pessoal e intelectual. Outro cuidado importante a considerar, pois trata-se de uma imprecisão do sistema, está no fato de que muitos iniciantes científicos são convertidos em mão-de-obra barata do orientador, que utiliza o estudante como se fosse um empregado, deturpando o programa e promovendo uma típica exploração de auxílio burocrático. Outra imprecisão no sistema merece atenção. A Academia de Ciência dos Estados Unidos editou, em 1993, o Simpósio “Ciência Responsável”. O texto trata muito mais do cientista do que da ciência, contendo vários alertas aos estudantes sobre imperfeições do sistema científico, tais como: “Prestem atenção, embora a grande maioria dos professores e pesquisadores sejam corretos, o mundo acadêmico não é tão puro como se imagina.” Ou seja, do que 76 A INICIAÇÃO CIENTÍFICA: MUITAS VANTAGENS E POUCOS RISCOS quisa tem chance de ficar rico. Portanto, estimulando a iniciação científica, que é um excelente referencial, temos uma boa probabilidade de identificar uma juventude bastante criativa e, com isso, conquistarmos um melhor desenvolvimento social e econômico. CNPq. Ciência e tecnologia: alicerces do desenvolvimento. São Paulo, Ed. Cobram, 1994. D’AVILA, M.I. (org.). Social development: challenges and strategies. Rio de Janeiro, Unesco/UFRJ, 1995. FAPESP. Relatórios anuais de atividades. São Paulo, 1980-1999. FAVA-DE-MORAES, F. “Iniciação científica”. Jornal do Campus USP. São Paulo, 07/05/87. KERR, C. 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Completam o texto considerações sobre um possível papel educacional das editoras universitárias institucionais para além da publicação de textos para a área educacional. Palavras-chave: publicação universitária; universidades brasileiras; administração educacional. A nálise rápida do conjunto das Editoras Universitárias1 brasileiras mostra bem a diversidade de interpretações para o que pode ou deve ser a editoração institucional da/na Universidade. Catálogo de 1987, elaborado para a primeira participação do conjunto dessas Editoras na Bienal Internacional do Rio de Janeiro permite observar como se fazia, à época, a inserção das editoras no organograma de suas instituições: ligadas a uma das pró-reitorias (acadêmica, administrativa ou de extensão) ou subordinadas ao reitor, diretamente ou por intermédio da chefia de gabinete, ou, mais raramente, ao diretor de uma unidade, acadêmica (um Conselho Editorial ou um dos Centros) ou não (uma coordenadoria de órgão suplementar); setor administrativo, tipo “imprensa universitária”, ou setor acadêmico, dirigido por professor, ou, ainda, de responsabilidade de um diretor subordinado a uma fundação; dirigidas por pessoal da área acadêmica ou administrativa da Universidade, ou por editores especialmente contratados; setor exclusivo para edição de livros e/ou revistas ou integrado à gráfica, respondendo por toda a papelaria da instituição; ou atividade voltada ao ensino e pesquisa em editoração. Assim, integrando diretores de órgão complementar ou suplementar, do quadro acadêmico ou administrativo, ou mesmo estranhos a ele, editores, escritores, gráficos, administradores, contadores e professores das mais diversas áreas (literatura, arquitetura, biblioteconomia, jorna- lismo, psicologia, física), as Editoras Universitárias encontraram-se no seu terceiro Seminário Nacional, em Salvador, em 1985, quando foi decidida a participação conjunta, na Reunião Anual da SBPC, em Curitiba, e na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, em 1986. Nesse Seminário, também foi aprovada a idéia de criação de uma associação nacional, o que veio a ocorrer em 1987, no Seminário de Goiânia. Essas Editoras foram instaladas no bojo da ditadura. Tendo na origem a imprensa oficial, a maioria das Editoras federais mais antigas data dos anos 70, sendo que sua expansão foi resultado da confluência de dois interesses: dos diretores das gráficas de universidades federais, que desde 1976 se reuniam (Da Costa, 1992) para debater temas como padronização dos impressos, custos, melhor aproveitamento dos equipamentos; e do MEC, que em 1981 criou um programa especial, o Proedi,2 para “estimular a publicação da produção científica e intelectual das IES, tanto para fomentar o debate crítico (...) como para dar o imprescindível apoio ao avanço do desenvolvimento científico e tecnológico nacional”. Responsável pela publicação de uma farta literatura, em geral de pesquisa, voltada a problemas regionais, até 1987, ano da criação da Abeu (Associação Brasileira das Editoras Universitárias), este programa atendia apenas às editoras do sistema federal. Algumas curiosidades podem ainda ser acrescentadas para completar esta rápida descrição:3 a Editora da Uni- 78 EDITORAS UNIVERSITÁRIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À INDÚSTRIA OU... vros-texto” (Azevedo, 1986); com a promoção de edições experimentais (Pinsky, 1986); “elo de ligação entre os canais geradores do saber” nas universidades (Costa, 1986); a possibilidade de contribuir de forma efetiva com o ensino através de obras dirigidas (Costa, 1986); divulgação da produção intelectual (artística, literária, científica, tecnológica) do corpo docente da Universidade a que serve (Campos, 1986). Cinco ou seis anos depois, segundo Bufrem (1990) e Da Costa (1992) muitas Editoras têm nova direção, mas de modo geral pensa-se ainda o mesmo, como Edison Rodrigues Lima (1989), então presidente da Abeu; outros destacam alguns aspectos, se não inteiramente novos, agora colocados de outro modo. Em 1991, provocada possivelmente apenas por alterações que ocorreram na Editora da USP, a “sociedade” também se manifesta: o jornal O Estado de S. Paulo (apud Da Costa, 1992:15) afirma, em editorial intitulado “Editoras e Universidades”, que “a definição de uma política editorial é sinal evidente do rumo que uma instituição pretende seguir. Aliás, nestes tempos em que há tantos privilégios exclusivos prometidos à pesquisa aplicada como salvação nacional, definir o que deve ser publicado em uma editora universitária ganha importância capital. Esse debate não pode mais ser adiado”. Entretanto, qualquer que seja a função atribuída a uma Editora Universitária, seu entendimento necessita ainda de mais uma análise. É preciso situar a Editora em seu tempo e espaço, de modo a saber se sua função não estaria já sendo atendida. De novo, a Editora da UFSC como exemplo: seu diretor por mais de dez anos foi um escritor reconhecido,4 contratado diretamente pela Fundação mantenedora da Editora e Gráfica da Universidade, que pensava, como atribuição da Editora Universitária, um “papel complementar ao das editoras comerciais” (Miguel, 1986). E publicava para a Universidade (sua coleção de textos para a graduação em Física, Química, Lingüística, etc. tem sido best seller entre os livros das Editoras Universitárias na Bienal do Livro em São Paulo desde 1986), bem como ficção e poesia de autores que nada tinham a ver com a universidade. O que teria Salim Miguel a dizer hoje, ou se fosse convidado para dirigir uma Editora Universitária em São Paulo? Das 1.184 editoras registradas no Anuário Editorial Brasileiro de 1998, 563 são de São Paulo, sendo que 90% destas localizam-se na capital. Provavelmente, num contexto como este, Editoras Universitárias devem ter mais versidade Federal de Santa Catarina foi, durante muito tempo, se não a única, pelo menos a principal editora do Estado; uma Editora do interior do Rio Grande do Sul lançou, no final dos anos 80, um programa para incentivar e descobrir talentos na escola fundamental, ao verificar que há mais de 50 anos não se publicava nenhum escritor da cidade; em 1998, no Salão Internacional do Livro, em São Paulo, oito Editoras da região Nordeste lançaram uma coleção que recupera escritores da região, importantes mas “esquecidos”; a Editora da UFPa não tinha conselho editorial e era dirigida pelo gráfico responsável pela imprensa universitária, quando começou a publicar Platão em primorosas traduções diretamente do grego; em 1986, no Seminário Nacional das Editoras Universitárias, realizado em Campinas, uma das principais atividades foi uma mesa que reuniu editores de empresas comerciais (Record e EPU) para debate com editores das Editoras Universitárias (Editora UnB e Educ); em 1987/88, a Câmara Brasileira do Livro – CBL tinha um grupo de editores universitários de empresas privadas (o GEU) que recebeu em seu quadro uma representação da recém-criada Abeu; muito antes da criação da Abeu, as Editoras já tinham um projeto para distribuição de suas publicações – o Programa Inter-universitário para Distribuição do Livro (PIDL), responsável pela instalação de uma grande parte das livrarias universitárias das IES federais (condição para participação no Programa); a Editora da PUC-SP, do mesmo modo que muitas outras, iniciou suas atividades com um procedimento que incluía apenas dois passos: selecionar as obras e repassá-las, para edição, a editoras privadas, publicando, em seus primeiros quatro anos, nessa condição, apenas livros na área de Direito. Além de completar o quadro da diversidade possível, estes exemplos parecem mostrar também a liberdade dos editores em seu trabalho. Porém, o que dizem seus diretores sobre o papel e a função das Editoras Universitárias? À diversidade que vivem, será que corresponde também alguma variedade no que se refere aos objetivos que devam ser os das Editoras? Para lidar apenas com o que tem sido publicado, citam-se alguns exemplos retirados de publicação que traz as conferências e debates do Seminário Nacional das Editoras Universitárias de 1986. Destacando em especial suas diferenças em relação às universitárias não institucionais, os representantes das Editoras Universitárias lembram sempre sua “função cultural”, mas especificam ainda: seu papel de “extensão do ensino e da pesquisa” (Rodrigues, 1986); o compromisso com a “produção e tradução de li- 79 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 sil (1500-1889); Universidade e compromisso social – a experiência da reforma da PUC, para ficarmos em exemplos das Editoras paulistas. Um tema com forte presença nas publicações diz respeito a uma espécie de auto-análise da universidade, podendo se tratar da análise da universidade em geral ou de experiências específicas. São exemplos do primeiro caso títulos como: Identidade e transformação – o professor na universidade brasileira; A universidade desafiada; Autonomia universitária; História das universidades; O ideal da universidade. São exemplos do segundo caso: USP 1968-1969; Um passado revisitado – 80 anos do curso de filosofia da PUC-SP; O comportamento acadêmico nos cursos de graduação da Unicamp. As publicações abordadas até aqui têm em comum o fato de constituírem análises sobre problemas ligados à educação, de caráter mais geral ou específico, porém sem uma preocupação com o uso pedagógico imediato, acompanhando uma cultura que, em geral, é das próprias universidades, no sentido de valorizar reflexões sobre diferentes temas, talvez mais que a produção de material “didático” sobre eles. No entanto, mais recentemente, tem surgido – acompanhando uma tendência das universidades do exterior – a preocupação com a publicação de obras facilitadoras do trabalho do professor universitário em sala de aula. Nesse caso, não se trata de livros sobre educação, mas em, ou, talvez, para educação. São obras de caráter introdutório a diferentes áreas do conhecimento, que significam uma contribuição das Editoras Universitárias ao ensino. Introdução à economia; Introdução à filosofia política; Introdução à análise do discurso; Introdução à história da matemática; Introdução aos mecanismos de resistência mecânica são exemplos de títulos que aparecem entre as publicações dessas Editoras. A Educ, por exemplo, tem na sua linha editorial uma série – Trilhas – que publica “ensaios introdutórios sobre temas ou matérias constantes dos currículos de graduação ou de pós-graduação oferecidos pela PUC-SP, cujos autores são professores da PUC-SP ou de outras universidades do Brasil”, possuindo títulos como: Planejamento de pesquisa; Psicologia; Entrevista e ética; Educação física; Crítica genética. Um outro tipo de publicação das Editoras Universitárias para a educação corresponde aos livros didáticos para acompanhamento de cursos, que surgem da preocupação de professores em escrever para seus alunos. Talvez todas tenham alguns títulos nessa categoria, mas há as que formalizam este compromisso no seu projeto editorial, liberdade para decidir suas atribuições. Entretanto, não teriam elas mais dificuldade para defender sua importância tanto junto às instituições de que fazem parte quanto frente às editoras privadas com as quais poderiam eventualmente estar competindo? Por outro lado, que liberdade há para um editor institucional dirigido ou orientado por um conselho editorial escolhido por critérios nem sempre “editoriais”? Qualquer tentativa de responder a questões como estas começará sempre com o condicional “depende.” Porém, pode ser que se chegue a uma só resposta: é no seu projeto editorial que uma Editora Universitária pode se mostrar mais, ou menos, defensável. É no seu projeto editorial que se pode saber a que veio. O CASO DA EDUCAÇÃO NOS PROJETOS DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS A vocação das Editoras Universitárias parece estar, hoje, indissoluvelmente ligada à vocação educacional da universidade e elas têm exercido esse trabalho em educação de múltiplas formas. A mais previsível delas – e, por isso, a primeira que será abordada aqui – diz respeito àquilo que é publicado na área. Ao se falar da área, verifica-se que a própria forma de se reportar a ela já aponta a multiplicidade de contribuições possíveis: trata-se de publicações sobre educação? em educação? para educação? Comecemos pelo que poderia ser chamado de publicações sobre educação. Neste tema, Editoras Universitárias têm, talvez, a sua maior tradição, seguindo aquela que é também a das universidades que lhes dão origem, isto é, a de produzir reflexões (sejam gerais ou sobre aspectos específicos) a respeito das diferentes áreas do saber. São muitas as publicações que analisam diferentes aspectos ligados à educação: educação e sociedade, ensino, aprendizagem, formação de professores, leitura, escrita, educação especial, mulher e educação, educação física, empregabilidade e educação, educação ambiental, trabalho docente, escola pública, alfabetização, educação de trabalhadores, currículo, pré-escola, Estado e educação, livro didático. Uma preocupação recorrente refere-se à recuperação histórica da própria educação, de maneira geral, ou da educação brasileira, ou de algum aspecto particular da educação. Ilustrações disso são títulos como: História da pedagogia; História das universidades; Igreja e educação feminina (1859-1919); Memórias da educação – Campinas (1850-1960); História da instrução pública no Bra- 80 EDITORAS UNIVERSITÁRIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À INDÚSTRIA OU... assessores, fornecendo cuidadosa avaliação dos textos submetidos à apreciação para publicação, aliada à possibilidade que essas Editoras têm, pelo seu vínculo institucional, de fazer da excelência do material a ser publicado o critério primeiro para sua aceitação, ao qual se submete o critério comercial, tem permitido o lançamento de obras de alta qualidade acadêmica, de pesquisas pioneiras, de teorizações inovadoras, de reflexões originais. À medida que a divulgação das obras publicadas tem alcançado uma amplitude cada vez maior, estas vêm se tornando instrumentos de circulação do saber produzido nas universidades, contribuindo para o desenvolvimento da reflexão do leitor, para o diálogo entre especialistas. Porém, as Editoras Universitárias podem estar formando não só o leitor, mas também o autor, uma vez que a proximidade de acesso à publicação daquilo que produzem, a seleção rigorosa do material a ser publicado, o fato de contar com os especialistas das várias áreas, que apontam alterações necessárias para melhorar a qualidade do texto não só do ponto de vista acadêmico, mas também editorial, fazem das Editoras um filtro importante para o trabalho dos professores, um incentivo para que escrevam e para que escrevam melhor. José Castilho Marques Neto, diretor da editora da Unesp, lembra um professor que, tendo um material para publicação, afirmava que seu texto ainda não estava pronto para ser publicado pela editora da Universidade. Algumas experiências chegaram mesmo a ser propostas por Editoras Universitárias para favorecer a formação de autores. A Educ já teve (1986-88) em sua linha editorial uma coleção de material “pré-print” – subdividida em séries: Apoio ao ensino; Apoio à pesquisa; Apoio ao autor – oferecida “como oportunidade especial para o pesquisador ouvir colegas enquanto pesquisa, ou enquanto redige artigo ou livro a ser enviado para publicação; para o autor novo experimentar suas asas; para o autor experimentado debater idéias antes mesmo de lhes dar forma final; e para o professor substituir fotocópia indiscriminada de material escrito para sala de aula”. Revisto, o projeto tem hoje a forma de um Banco de Artigos para liberação sob demanda, “abrindo ao autor um novo canal para difusão de seus trabalhos e trazendo ao leitor material importante à sua atividade como professor, pesquisador, estudante”. Também foi criado nessa Editora o selo Aluno-autor, sob o qual se publicam, na forma de coletâneas organizadas e prefaciadas por professor, “excelentes trabalhos de fim de semestre” ou relatórios de pesquisa de iniciação científica. São materiais submetidos a dois ti- como a Editora da UFSC, com sua série de textos para a graduação, em diferentes áreas, e a Eduem (Editora da Universidade Estadual de Maringá), cuja série Apontamentos visa “possibilitar aos docentes o material de apoio didático-pedagógico, usado em sala de aula”. Além disso, embora com menor freqüência, algumas Editoras Universitárias têm publicado obras com caráter didático para outros níveis de ensino que não o universitário. Uma outra vertente de publicações que tem se tornado comum entre as Editoras Universitárias trata do ensino das diversas matérias. Essas publicações parecem acompanhar a formação, nas Universidades, de núcleos, nas diferentes áreas, preocupados com o seu ensino. Dessa forma, na PUC, por exemplo, acompanhando os trabalhos do núcleo de estudos sobre Educação Matemática, surgiram publicações como Educação Matemática. Uma introdução e até a revista Educação matemática pesquisa. Têm sido freqüentes títulos como: A filosofia e seu ensino; Ensino de serviço social: polêmicas; Ensino de segunda língua: redescobrindo as origens; Português instrumental: uma abordagem para o ensino de língua materna; Ensino das artes nas universidades; Ensino e aprendizagem nas escolas médicas. Ainda sobre aquilo que é publicado, deve-se salientar um tipo de texto que não parece se encaixar em nenhuma das categorias mencionadas, mas que não pode deixar de ser considerado uma contribuição para a educação. Trata-se da inclusão, na linha editorial, de obras cuja finalidade é propiciar a reflexão, contrapor opiniões e fornecer uma abordagem multidisciplinar de diferentes temas, favorecendo o desenvolvimento do pensamento crítico do leitor e a ampliação da maneira de encarar determinado objeto de estudo. Mencionam-se, como exemplos, duas coleções que fazem parte da linha editorial da Educ: Contraponto e Eventos. A primeira publica “títulos que abalem áreas consagradas ou contenham material inovador e desviante, forçando o leitor a pensar aquilo que é tido como consensualmente aceito”; a segunda inclui coletâneas temáticas resultantes de eventos, sempre multidisciplinares e com autores de diferentes instituições. É importante ressaltar, também, outros tipos de contribuição das Editoras Universitárias, que não dizem respeito diretamente àquilo que publicam, aos temas que são objeto de suas obras, como, por exemplo, a formação do leitor. A preocupação com a qualidade do que é publicado concretiza essa função educacional importante das Editoras Universitárias. A facilidade de acesso a especialistas das diversas áreas do conhecimento, que atuam como seus 81 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 As Editoras Universitárias vêm, assim, ampliando sua atuação vinculada à educação e têm mesmo, à medida que se afirmam como centros difusores do conhecimento produzido nas Universidades ou de material relevante para o ensino e o debate acadêmico, contribuído para a própria afirmação institucional das Universidades. pos de seleção, editorial e de área, como qualquer material da Editora. Também a Editora da Unesp desenvolve um projeto – os Laboratórios Editoriais –, cuja preocupação é incentivar a publicação nos diferentes campi da Universidade e contribuir para a formação de autores. Embora o material aí publicado não leve o selo da Editora, tem a sua orientação e a Editora também facilita sua distribuição e venda. Cabe citar ainda o projeto “Espaço Educ”, que traz para a Universidade “a cada semana uma Editora diferente”. Pensado como espaço para atualização na área do livro, tem também como objetivo propiciar aos autores uma apreciação das editoras e seus projetos, ampliando seus conhecimentos sobre onde publicar. Além de leitores e autores, as Editoras Universitárias formam editores científicos; e o fazem de maneiras diferentes, dependendo do projeto editorial de cada uma. Algumas, além de apoiar a publicação das revistas científicas dos diversos setores da Universidade, desde que se adaptem a uma padronização no formato e/ou satisfaçam determinadas condições, sobretudo no que concerne à manutenção de periodicidade e à indexação, desenvolvem um trabalho de acompanhamento e orientação de editores científicos em decisões que contribuem para a qualidade editorial exigida pela comunidade científica; outras chegam a promover eventos, cursos, oficinas para editores e professores sobre o trabalho editorial e sobre direitos autorais. Outras promovem encontros entre os editores de revistas e com representantes de órgãos como a Abec (Associação Brasileira de Editores Científicos) e agências financiadoras na área de publicação. Há ainda uma ou duas que se preocupam em aproximar os editores de catalogadores, indexadores, distribuidores e livreiros e várias que procuram favorecer a relação dos editores das revistas com as bibliotecas da sua Universidade, em atenção ao sistema de permutas de periódicos. Finalmente, as Editoras Universitárias contribuem para a formação em edição. A Educ, por exemplo, tem oferecido, aos estudantes dos cursos de Língua Portuguesa, oportunidade para trabalhar revisão de texto, com acompanhamento do pessoal da própria editora, além de estágio para estudantes de outras áreas que têm o texto e a imagem como objetos centrais de trabalho – Jornalismo e Publicidade. Já a “Escola do Livro”, projeto da parceria Editora Unesp/Câmara Brasileira do Livro, oferece desde 1999 uma variada relação de cursos, com certificado expedido pela Pró-Reitoria de Extensão da Unesp, em áreas que vão desde leitura, redação e revisão de textos, até treinamento em vendas. DO AMADORISMO À PROFISSIONALIZAÇÃO Desde sua instalação, a Abeu tem cobrado – e contribuído para – uma maior profissionalização de suas afiliadas. Quem viu a exposição das Editoras em 1986 no Ibirapuera e as dos últimos anos no Center Norte sabe falar do sucesso desse projeto. Entrevistando o pessoal que tem respondido pela presença da Abeu em eventos internacionais (Feiras do Livro Universitário no país e na América Latina, além das Bienais do Livro do Rio e de São Paulo), verifica-se também a crescente profissionalização na seleção e quantidade dos livros a enviar, quando em 1986 e 1988 parecia que eram apenas oportunidades para “limpar estoque”. De todo modo, de que profissionalização se está falando? Entre as exigências para filiar-se à Abeu, seu primeiro Estatuto já colocava a de ter Conselho Editorial, visando tornar os editores conscientes de sua diferença em relação às editoras privadas. Partilhar, ou mesmo deixar a um Conselho de professores da Universidade, as decisões sobre o que publicar seria uma forma de tornar a produção das Editoras uma produção da Universidade. Confirmada quando da revisão do Estatuto em 1999, esta exigência não tem sido, em verdade, devidamente cobrada, assim como não se tem cobrado que, para se filiar, a Editora tenha que estar ligada a uma IES. Das 86 Editoras que são hoje filiadas à Abeu, apenas 66 são de IES, sendo que as outras pertencem a outro tipo de instituição, em geral institutos de pesquisa em busca de distribuição para suas publicações, ou unidades isoladas de ensino técnico. Entre os objetivos colocados desde o primeiro Estatuto, um referia-se à preocupação com a qualidade gráfica dos livros – recém-observada em seu conjunto quando expostos na SBPC e na Bienal do Livro em São Paulo, em 1986. Se o estande das Editoras Universitárias, nesse ano, foi bem visitado e se vendeu muito bem, em especial na Bienal, em agosto, isso se deveu muito mais ao ocaso do Plano Cruzado do que ao chamariz de um material atraente ou bem feito. A montagem do primeiro catálogo coletivo (1988) reduziu-se a uma apresentação de títulos por área de conhecimento, porque não se conseguiu para todas uma descrição, rápida que fosse, de seus 82 EDITORAS UNIVERSITÁRIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À INDÚSTRIA OU... ser projetos de sua política educacional e cultural, como torná-los ao mesmo tempo projetos que não possam ser simplesmente fechados porque não são do gosto do próximo diretor ou porque este tem seus próprios projetos (não é raro que diretor de Editora Universitária seja diretor também, ou ex-editor, de editora privada)? Os conselhos editoriais das Editoras Universitárias têm aqui um importante papel a desempenhar. Entretanto, é preciso reconhecer que o impedimento maior está ainda na ausência de uma política editorial nas universidades, o que permite que cada diretor pense projetos que, ainda que brilhantes, atendem às vezes a interesses tão pessoais que dificilmente se sustentam após a saída de seus autores. Nesse sentido, talvez atendam melhor a uma “função cultural” as editoras privadas, já que – como lembra Ortiz (1988:29), “entre nós, as contradições de uma cultura artística e outra de mercado não se manifestam de forma antagônica”. E nós nos arriscamos a dizer: artística, mas também literária, científica e tecnológica. Para completar, deve-se lembrar, ainda, que as Editoras Universitárias, institucionais ou privadas, precisam contribuir para a cultura universitária autêntica e não para aquela voltada à indústria cultural, que resulta do “bombardeio publicitário” – que “deixa de fora o que não é imediatamente mercantil”, como recentemente nos lembrou Milton Santos (2000). projetos. Assim, todos os Seminários que se seguiram têm oferecido cursos e oficinas sobre os mais diversos aspectos da produção editorial, além de palestras e debates especiais sobre custos, distribuição e direitos autorais. No que se refere aos projetos editoriais, uma das ocupações da Abeu tem sido a de incentivar co-edições entre as Editoras, seja para aproximá-las, favorecendo a troca de informações e conhecimentos, seja para partilhar material entre as Universidades, ampliando a difusão do saber produzido ou atendendo à tendência de publicações que reúnam autores de diferentes instituições. Agrupadas por região, as Editoras tiveram oportunidades de encontro mais ou menos freqüentes, em geral muito produtivos. O sucesso mais recente é o da região Nordeste, com sua Coleção Nordestina, que já publicou 14 volumes. Entretanto, muito da editoração universitária lembra mais a “artesania editorial” a que se referem Creni (1997), quando fala dos “pequenos editores” da década de 50, tão atentos à seleção do material a publicar como da qualidade gráfica do livro, e Stumpf (1994) que, ao discutir como se estrutura o sistema de produção das revistas universitárias, chama-as de projetos inacabados. São exemplos do primeiro tipo títulos como Por amor às cidades, de preciosa coleção da Editora da Unesp, a publicação dos Contos de Grimm em edição bilíngüe português/alemão da UFCS e o livro para crianças publicado pela Edunisc (Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul), que traz Grimm, Perrault e Basile em português e, respectivamente, alemão, francês e italiano; ou ainda a edição crítica da Educ, de livro publicado no Brasil em francês em 1889, Instrução pública no Brasil, 1500-1889. História e legislação, além do recém-lançado Imagens de magia e de ciência: entre o simbolismo e os diagramas da razão. Quanto aos periódicos científicos, é importante lembrar que dependem do trabalho de edição científica que nunca é suficientemente valorizado, nem pelas agências de avaliação do trabalho acadêmico e, freqüentemente, nem mesmo pelos autores; e que, mais ainda que os livros, precisam sempre ser subsidiados. Submetidas aos projetos das instituições a que se filiam, as Editoras Universitárias, salvo talvez apenas duas bem conhecidas exceções – a Editora da Unesp e a Editora da UnB – têm hoje sua direção alterada a cada mudança de reitor. Além da descontinuidade que isto pode provocar em sua linha editorial, a impressão que se tem é que, a cada encontro, a Abeu precisa “começar tudo de novo”. Porém, se imprensa e edição na universidade têm que, ou podem, NOTAS E-mail das autoras: [email protected] e [email protected] 1. Compreende as editoras universitárias institucionais. 2. O Proedi – Programa de Estímulo à Editoração do Trabalho Intelectual das IES Federais, da Secretaria de Ensino Superior, foi concebido por uma “Coordenação de modernização administrativa” que, em 1981, definiu dotação especial a 11 universidades, selecionadas de modo a representar as diferentes regiões do país. 3. Muito desta descrição resulta apenas da experiência pessoal de uma das autoras, freqüentando os Seminários Nacionais desde 1985, vice-presidente na primeira diretoria da Abeu e respondendo pela organização do estande das Editoras Universitárias nas reuniões anuais da SBPC em 1985, 1987 e 1996 e na Bienal Internacional do Livro em São Paulo de 1986 a 1992. Para mais informações, ver os trabalhos de Bufrem (1990) e Da Costa (1992). 4. Salim Miguel, além de escritor (acaba de publicar seu 19º livro), é jornalista e tinha, quando foi contratado, experiência em revista literária, de cuja criação e direção participara ativamente no Rio de Janeiro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANUÁRIO EDITORIAL BRASILEIRO 1998. Editoras (Banco de dados). São Paulo, Cone Sul, 1999. AZEVEDO, J.E. III Seminário Nacional das Editoras Universitárias. Anais... Campinas, Editora da Unicamp, 1986. III SEMINÁRIO NACIONAL DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS. Anais... Campinas, Editora da Unicamp, 1986. 83 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 BUFREM, L.S. Editoras Universitárias no Brasil: uma crítica para reformulação da prática. Tese de doutoramento. São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 1990. MIGUEL, S. III Seminário Nacional das Editoras Universitárias. Anais... Campinas, Editora da Unicamp, 1986. ORTIZ, R. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo, Brasiliense, 1988. CAMPOS, J. III Seminário Nacional das Editoras Universitárias. Anais... Campinas, Editora da Unicamp, 1986. CATÁLOGO. Editoras Universitárias na III Bienal do Rio. São Paulo, Educ, 1986. PINSKY, J. 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O caso descrito ilustra alguns dos caminhos percorridos por vários projetos desde a sua elaboração nos órgãos normativos como parte de políticas públicas até o dia-a-dia das salas de aula. A análise do processo compreendendo aspectos legais, modalidades e recursos didáticos, temáticas dos programas, e processos de avaliação contribui para o estudo de propostas de inovação. Palavras-chave: reforma educacional; didática e ensino das ciências; avaliação e pesquisa. A podendo servir de ilustração para tentativas e efeitos das reformas educacionais. Um episódio muito significativo ocorreu durante a “guerra fria”, nos anos 60, quando os Estados Unidos, para vencer a batalha espacial, fizeram investimentos de recursos humanos e financeiros sem paralelo na história da educação, para produzir os hoje chamados projetos de 1ª geração do ensino de Física, Química, Biologia e Matemática para o ensino médio. A justificativa desse empreendimento baseava-se na idéia de que a formação de uma elite que garantisse a hegemonia norte-americana na conquista do espaço dependia, em boa parte, de uma escola secundária em que os cursos das Ciências identificassem e incentivassem jovens talentos a seguir carreiras científicas. Esse movimento, que teve a participação intensa das sociedades científicas, das Universidades e de acadêmicos renomados, apoiados pelo governo, elaboraram o que também é denominado na literatura especializada de “sopa alfabética”, uma vez que os projetos de Física (Physical Science Study Commitee – PSSC), de Biologia (Biological Science Curriculum Study – BSCS), de Química (Chemical Bond Approach – CBA) e (Science Mathematics Study Group – SMSG) são conhecidos universalmente pelas suas siglas. Esse período marcante e crucial na história do ensino de Ciências, que influi até hoje nas tendências curriculares das várias disciplinas tanto no ensino médio como no palavra reforma, sempre presente no vocabulário educacional, é definida em âmbito internacional como “uma iniciativa do Estado que estabelece objetivos e critérios claros e ambiciosos, recorre a todas as instâncias políticas para apoiá-la, estimulando iniciativas no nível das escolas e mobilizando recursos humanos e financeiros para sustentar as mudanças propostas” (Timpane e White, 1998). Nossas escolas, como sempre, refletem as maiores mudanças na sociedade – política, econômica, social e culturalmente. A cada novo governo ocorre um surto reformista que atinge principalmente os ensinos básico e médio. O atual movimento de reforma da escola é um processo de mudança nacional com uma forte tendência à volta ao papel centralizador do Estado para emissão de normas e regulamentos. Tomando como marco inicial a década de 50, é possível reconhecer nestes últimos 50 anos movimentos que refletem diferentes objetivos da educação modificados evolutivamente em função de transformações no âmbito da política e economia, tanto nacional como internacional. Na medida em que a Ciência e a Tecnologia foram reconhecidas como essenciais no desenvolvimento econômico, cultural e social, o ensino das Ciências em todos os níveis foi também crescendo de importância, sendo objeto de inúmeros movimentos de transformação do ensino, 85 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 QUADRO 1 Evolução da Situação Mundial, segundo Tendências no Ensino 1950-2000 Situação Mundial Tendências no Ensino 1950 Objetivo do Ensino • Formar Elite • Programas Rígidos • Formar Cidadão-trabalhador • Propostas Curriculares Estaduais • Formar Cidadão-trabalhador-estudante • Parâmetros Curriculares Federais Concepção de Ciência • Atividade Neutra • Evolução Histórica • Pensamento Lógico-crítico • Atividade com Implicações Sociais Instituições Promotoras de Reforma • Projetos Curriculares • Associações Profissionais • Centros de Ciências, Universidades • Universidades e Associações Profissionais Modalidades Didáticas Recomendadas • Aulas Práticas • Projetos e Discussões • Jogos: Exercícios no Computador 1970 1990 Guerra Fria Guerra Tecnológica 2000 Globalização Fonte: Elaboração da autora. fundamental, foi dando lugar, ao longo dessas últimas décadas, a outras modificações em função de fatores políticos, econômicos e sociais que resultaram, por sua vez, em transformações das políticas educacionais, cumulativas em função das quais ocorreram mudanças no ensino de Ciências (Quadro 1). Como já foi mencionado, o movimento dos grandes projetos visava a formação e a identificação de uma elite refletindo não só a política governamental, mas também uma concepção de escola e teve propagação ampla nas regiões sob influência cultural norte-americana, que repercutiu de forma diferente em diversos países ecoando as situações locais. Por exemplo, na Inglaterra, concordou-se com os objetivos gerais do projeto de reforma do ensino de Ciências, mas foi decidido que se devia produzir seus próprios projetos consonantes com a organização escolar de forma a preservar a influência acadêmica e científica de instituições inglesas. Foram elaborados também projetos de Física, Química e Biologia que ficaram conhecidos pelo nome da sua instituição patrocinadora, a Fundação Nuffield. Dada a importância da Inglaterra como núcleo cultural dos países da comunidade britânica, esses projetos tiveram também grande influência. No Brasil, a necessidade de preparação dos alunos mais aptos era defendida em nome da demanda de investigadores para impulsionar o progresso da ciência e tecnologia nacionais das quais dependia o país em processo de industrialização. A sociedade brasileira, que se ressentia da falta de matéria-prima e produtos industrializados durante a 2ª Guerra Mundial e no período pós-guerra, buscava superar a dependência e se tornar auto-suficiente, para o que uma ciência autóctone era fundamental. Paralelamente, à medida que o país foi passando por transformações políticas em um breve período de eleições livres, houve uma mudança na concepção do papel da escola que passava a ser responsável pela formação de todos os cidadãos e não mais apenas de um grupo privilegiado. A Lei 4.024 – Diretrizes e Bases da Educação, de 21 de dezembro de 1961, ampliou bastante a participação das ciências no currículo escolar, que passaram a figurar desde o 1º ano do curso ginasial. No curso colegial, houve também substancial aumento da carga horária de Física, Química e Biologia. Essas disciplinas passavam a ter a função de desenvolver o espírito crítico com o exercício do método científico. O cidadão seria preparado para pensar lógica e criticamente e assim capaz de tomar decisões com base em informações e dados. Quando de novo houve transformações políticas no país pela imposição da ditadura militar em 1964, também o papel da escola modificou-se, deixando de enfatizar a cidadania para buscar a formação do trabalhador, considerado agora peça importante para o desenvolvimento econômico do país. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 5.692, promulgada em 1971, norteia claramente as modificações educacionais e, conseqüentemente, as propostas de reforma no ensino de Ciências ocorridas neste 86 REFORMAS E REALIDADE: O CASO DO ENSINO DAS CIÊNCIAS período. Mais uma vez as disciplinas científicas foram afetadas, agora de forma adversa, pois passaram a ter caráter profissionalizante, descaracterizando sua função no currículo. A nova legislação conturbou o sistema, mas as escolas privadas continuaram a preparar seus alunos para o curso superior e o sistema público também se reajustou de modo a abandonar as pretensões irrealistas de formação profissional no 1º e 2º graus por meio de disciplinas pretensamente preparatórias para o trabalho. Em 1996, foi aprovada uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, nº 9.394/96, a qual estabelece, no parágrafo 2o do seu artigo 1o, que a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. O artigo 26 estabelece que “os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada pelos demais conteúdos curriculares especificados nesta Lei e em cada sistema de ensino”. A formação básica do cidadão na escola fundamental exige o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo, a compreensão do ambiente material e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade. O ensino médio tem a função de consolidação dos conhecimentos e a preparação para o trabalho e a cidadania para continuar aprendendo. Esse aprendizado inclui a formação ética, a autonomia intelectual e a compreensão dos fundamentos científicotecnológicos dos processos produtivos. Embora a lei indique precariamente os valores e objetivos da educação nacional, espera-se que a escola forme o cidadão-trabalhador-estudante quando, por exemplo, determina em seu artigo 80: “O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada.” Tenta-se colocar em prática essas prescrições legais por meio de políticas centralizadas no MEC e que são detalhadas e especificadas em documentos oficias, abundantemente distribuídos com os nomes de “parâmetros” e “diretrizes curriculares”. Fazem parte ainda desses “indicativos políticos” diversos instrumentos de avaliação em que se explicitam as reais intenções da reforma proposta pelo governo. No exame dessa proposta e de suas conseqüências na realidade da educação brasileira, é imprescindível analisar em uma perspectiva histórica a evolução das concepções curriculares preponderantes nesses últimos 50 anos, por meio dos quais foram expressos os desígnios dos governos e seus resultados nos vários níveis dos sistemas educacionais, desde o emissor das políticas até a realidade das salas de aula, que têm mudado muito mais em função da deterioração das condições de trabalho do que por injunções legais. Infelizmente, mantém-se um ensino precário com professores que enfrentam nas escolas problemas de sobrecarga, de falta de recursos e de determinações que deveriam seguir sobre as quais não foram ouvidos. As modificações promovidas por diferentes elementos ao longo dos diversos patamares de decisões que atuam nos componentes curriculares – temáticas e conteúdo, modalidades didáticas e recursos e processos de avaliação – confluem para um cenário que raramente é o planejado pelos emissores do currículo teórico. Na análise desse processo, tem papel fundamental a pesquisa feita no âmbito do ensino das ciências no Brasil e que já constitui um significativo acervo de informações e conhecimentos sobre o que acontece desde a elaboração de documentos normativos até a intimidade do ensino das várias disciplinas científicas. MODALIDADES DIDÁTICAS E RECURSOS As modalidades didáticas usadas no ensino das disciplinas científicas dependem, fundamentalmente, da concepção de aprendizagem de Ciência adotada. A tendência de currículos tradicionalistas ou racionalistasacadêmicos, apesar de todas as mudanças, ainda prevalecem não só no Brasil, mas também nos sistemas educacionais de países em vários níveis de desenvolvimento. Assumindo que o objetivo dos cursos é basicamente transmitir informação, ao professor cabe apresentar a matéria de forma atualizada e organizada, facilitando a aquisição de conhecimentos. Nos anos 60, o processo ensino-aprendizagem era influenciado pelas idéias de educadores comportamentalistas que recomendavam a apresentação de objetivos do ensino na forma de comportamentos observáveis, indicando formas de atingi-los e indicadores mínimos de desempenho aceitável. Foram elaboradas classificações, das quais a mais conhecida, coordenada por Benjamim Bloom, era a que dividia os objetivos educacionais em cognitivo-intelectuais, afetivo-emocionais e psicomotores-habilidades, organizados em escalas hierarquicamente mais complexas de comportamento. Essa linha de trabalho teve papel significativo na educação brasileira e ainda hoje muitos dos processos de planejamento que ocorrem nas escolas constam apenas da redação de objetivos e metas, que em geral são esqueci- 87 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 de operações lógicas pelas quais o aluno passa em uma ordem que vai do sensomotor (18 meses), pré-operacional (até 7 anos), concreta operacional (dos 7 aos 11 anos) até o formal operacional (dos 11 até os 15 anos), passouse a encarar o laboratório como elemento de aferição do estágio de desenvolvimento do aluno e de ativação do progresso ao longo desses estágios e do ciclo de aprendizado. Na perspectiva construtivista, as pré-concepções dos alunos sobre os fenômenos e sua atuação nas aulas práticas são férteis fontes de investigação para os pesquisadores como elucidação do que pensam e como é possível fazê-los progredir no raciocínio e análise dos fenômenos. As prescrições oficiais da expectativa de reforma em curso tratam do assunto superficialmente, havendo uma grande distância entre uma “proposta construtivista” e recomendações que permitam ao professor exercer plenamente o seu papel de catalisador da aprendizagem. Faltam discussões que permitam ao próprio docente nas atuais condições de trabalho criar um clima de liberdade intelectual, que não limite a sua atividade a exposições, leitura ou cópia de textos. Por exemplo, a reação de alunos e professores ao uso de perguntas em classe é uma área de pesquisa de ponta para os que pretendem mudar a escola e o ensino de Ciências em que a função da interação social e da exposição a diferentes idéias é elemento essencial. Como obstáculo a essa transformação, é possível identificar as representações sociais que prevalecem entre professor e alunos. O docente é autoridade que não corre o risco de ser questionada, ou que se permita ouvir diferentes opiniões. Se, por um lado, esse papel autoritário é prejudicial, o outro extremo cada vez mais freqüente por força do refrão de que o “aluno constrói seu próprio conhecimento” leva o professor a abdicar da sua função de orientador do aprendizado. Nesses casos, o laboratório e as aulas práticas podem até ser divertidas mas não levam à formulação ou reformulação de conceitos. Os novos recursos tecnológicos e, principalmente, o uso do computador criam dilemas equivalentes, podendo até ser uma fonte muito eficiente de fornecimento de informações. No entanto, o seu potencial como desequilibrador da vigente relação professor-aluno é ainda subutilizado como instrumento que possa levar o aluno a deixar o seu papel passivo de receptor de informações, para ser o que busca, integra, cria novas informações. O professor passa a ser o que auxilia o aprendiz a procurar e coordenar o que aprende dentro de um esquema conceitual mais amplo. Qualquer reforma deveria suscitar essas dos durante o ano por força da pressão das realidades do dia-a-dia na classe. No final dos anos 60, as idéias de Jean Piaget sobre desenvolvimento intelectual começaram a ser conhecidas e discutidas. Passa assim a ter papel central no processo ensino-aprendizagem da ciência uma perspectiva cognitivista, enfatizando o chamado construtivismo, usado nos atuais documentos oficiais brasileiros de forma impositiva, como um “slogan” que não chega a analisar o significado da discussão sobre mudança conceitual como um processo individual de responsabilidade do aluno ou um processo social. “A primeira perspectiva vê concepções como representações mentais (isto é, construções tangíveis na cabeça dos alunos) enquanto a segunda perspectiva representa as concepções como sendo caracterizações de categorias de descrições que refletem relações pessoamundo” (Duit e Treagust, 1998). Essas idéias conflitantes em vários aspectos não são apresentadas aos professores como controvérsias que devem ser discutidas e analisadas para orientar a escolha de modalidades didáticas baseadas em uma fundamentação sólida. Embora o conceito de processo ensino-aprendizagem tenha importância na escola em geral, no ensino das disciplinas científicas tem conseqüências específicas em vários elementos curriculares. A solução de problemas é um dos seus componentes essenciais, porque várias fases das reformas propostas com nomes variados de “ciência posta em prática”, “método da redescoberta”, “método de projetos” trata-se de fazer questionamentos, encontrar alternativas de resposta, planejar e organizar experimentos que permitam optar por uma delas e daí produzir outros questionamentos. No período 1950-70, prevaleceu a idéia da existência de uma seqüência fixa e básica de comportamentos, que caracterizaria o método científico na identificação de problemas, elaboração de hipóteses e verificação experimental dessas hipóteses, o que permitiria chegar a uma conclusão e levantar novas questões. Com essas premissas, as aulas práticas no ensino de Ciências servem a diferentes funções para diversas concepções do papel da escola e da forma de aprendizagem. No caso de um currículo que focaliza primordialmente a transmissão de informações, o trabalho em laboratório é motivador da aprendizagem, levando ao desenvolvimento de habilidades técnicas e principalmente auxiliando a fixação, o conhecimento sobre os fenômenos e fatos. À medida que a influência cognitivista foi se ampliando em base dos estudos piagetianos considerando fases 88 REFORMAS E REALIDADE: O CASO DO ENSINO DAS CIÊNCIAS reações adversas dos que defendiam a identidade das disciplinas tradicionais, mantendo segmentação de conteúdos mesmo nos anos iniciais da escolaridade. Concomitantemente aos processos que ocorriam nas escolas – o fim da “guerra fria” e o agravamento dos problemas sociais e econômicos – foi incorporada a competição tecnológica, levando a exigir que os estudantes tivessem preparo para compreender a natureza, o significado e a importância da tecnologia para sua vida como indivíduos e como membros responsáveis da sociedade. Para tanto, os cursos deveriam incluir temas relevantes que tornassem os alunos conscientes de suas responsabilidades como cidadãos, pudessem participar de forma inteligente e informada de decisões que iriam afetar não só sua comunidade mais próxima, mas que também teriam efeitos de amplo alcance. A preocupação com a qualidade da “escola para todos” incluiu um novo componente no vocabulário e nas preocupações dos educadores, “a alfabetização científica”. A relação ciência e sociedade provocou a intensificação de estudos da história e filosofia da ciência, componentes sempre presentes nos programas com maior ou menor intensidade servindo em fases diferentes a objetivos diversos. O crescimento da influência construtivista como geradora de diretrizes para o ensino levou à maior inclusão de tópicos de história e filosofia da Ciência nos programas, principalmente para comparar linhas de raciocínio historicamente desenvolvidas pelos cientistas e as concepções dos alunos. Fortalece essa linha o já mencionado movimento denominado “Ciência para todos”, que relaciona o ensino das Ciências à vida diária e experiência dos estudantes, trazendo, por sua vez, novas exigências para compreensão da interação estreita e complexa com problemas éticos, religiosos, ideológicos, culturais, étnicos e as relações com o mundo interligado por sistemas de comunicação e tecnologias cada vez mais eficientes com benefícios e riscos no globalizado mundo atual. A exclusão social, a luta pelos direitos humanos e a conquista da melhora da qualidade de vida não podem ficar à margem dos currículos e, no momento, assumem uma importância cada vez mais evidente. Pela demanda de justiça social nos atuais parâmetros curriculares, muitas das temáticas vinculadas no ensino de Ciências são hoje consideradas “temas transversais”: educação ambiental, saúde, educação sexual. No entanto, a tradição escolar ainda determina que a responsabilidade do seu ensino recaia basicamente nas disciplinas científicas, principalmente a Biologia. questões que são básicas para uma mudança real na qualidade de ensino. TEMÁTICAS Os conteúdos e grandes temas incluídos no currículo das disciplinas científicas refletem as idéias correntes sobre a Ciência. Na fase dos projetos de 1ª geração, a Ciência era considerada uma atividade neutra, isentando os pesquisadores de julgamento de valores sobre o que estavam fazendo. É necessário lembrar que os cientistas tiveram uma atuação significativa na produção da bomba atômica e, de alguma forma, procuravam não assumir sua responsabilidade no conflito bélico. Pretendia-se desenvolver a racionalidade, a capacidade de fazer observações controladas, preparar e analisar estatísticas, respeitar a exigência de replicabilidade dos experimentos. À medida que se avolumaram os problemas sociais no mundo, outros valores e outras temáticas foram incorporadas aos currículos, sendo que mudanças substantivas tiveram repercussões nos programas vigentes. Entre 1960 e 1980, as crises ambientais, o aumento da poluição, a crise energética e a efervescência social manifestada em movimentos como a revolta estudantil e as lutas anti-segregação racial determinaram profundas transformações nas propostas das disciplinas científicas em todos os níveis do ensino. As implicações sociais da Ciência incorporam-se às propostas curriculares nos cursos ginasiais da época e, em seguida, nos cursos primários. Simultaneamente às transformações políticas ocorreu a expansão do ensino público que não mais pretendia formar cientistas, mas também fornecer ao cidadão elementos para viver melhor e participar do breve processo de redemocratização ocorrido no período. A admissão das conexões entre a ciência e a sociedade implica que o ensino não se limite aos aspectos internos à investigação científica, mas à correlação destes com aspectos políticos, econômicos e culturais. Os alunos passam a estudar conteúdos científicos relevantes para sua vida, no sentido de identificar os problemas e buscar soluções para os mesmos. Surgem projetos que incluem temáticas como poluição, lixo, fontes de energia, economia de recursos naturais, crescimento populacional, demandando tratamento interdisciplinar. Essas demandas dependiam tanto dos temas abordados como da organização escolar. É do período de 1950-70 o movimento de Ciência Integrada, que teve apoio de organismos internacionais, principalmente a Unesco, e provocou 89 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 Sputnik provocou movimento de reforma dos anos 60, o desempenho dos alunos norte-americanos nos testes internacionais produziu em 1985 um documento de grande impacto “A Nation at Risk” que serviu de epicentro para uma onda de críticas ao sistema educacional norte-americano e tentativas de reformas que acabaram tendo repercussões no mundo inteiro (Gross e Gross, 1985). No Brasil, é parte das políticas governamentais no plano federal ou estaduais um conjunto de exames que se destinam a descrever a situação nas várias unidades da federação, no sentido de subsidiar decisões de políticas públicas. Instituições internacionais como o Banco Mundial, Banco Interamericano e a Unesco valem-se desses indicadores para fomentar e financiar projetos que implementem tendências que apóiam. O resultado e a validade desses exames para avaliar o aprendizado em Ciências são bastante contestados em função dos instrumentos que os constituem. Discute-se se as tradicionais questões de múltipla escolha são adequadas para aferir o que se pretende produzir dos alunos nas aulas de Ciências. A capacidade de resolver problemas e de demonstrar a compreensão conceitual e formação exige que se busquem também outras formas de verificar o aprendizado. Assim, provas dissertativas e redações teriam como função maior fazer com que os alunos escrevam, demonstrando capacidade de organização lógica e de expressão temática. O reconhecimento das limitações dos instrumentos de avaliação mais freqüentemente usados não impede, no entanto, que os dados numéricos sejam divulgados como resultados confiáveis, exercendo considerável influência na opinião que a sociedade tem da escola. Os meios de comunicação de massa divulgam esses números com interpretações que, muitas vezes, exigem análises mais detidas, mas são aceitos sem discussão pela população em geral, tornando premente a necessidade de uma coleta sistemática de informações coerentes das variáveis que agem no aprendizado de Ciências e que refletiram os objetivos do currículo. Busca-se, assim, distinguir as diferenças entre o currículo proposto, ideal, teórico e o seu resultado, ou seja, o currículo real ou obtido. Por exemplo, na avaliação dos concluintes do ensino médio feita em 1997 em nove estados brasileiros, verifica-se que em Biologia os alunos do período da manhã acertaram menos de 47% das questões, os da tarde, 35,5%, e os da noite, 29%. Em Física, foram 33% de acertos para os alunos da manhã, 28% para os da tarde e 27,5% para os da noite. Química evidenciou problemas com relação A reforma brasileira reforça um movimento equivalente ao da “Ciência para todos”, sem, no entanto, incluir cuidados para que excessos nessa postura tornem o currículo pouco rigoroso, em nome da necessidade que se tornou um estribilho nas publicações e avaliações oficiais de desenvolver “competências e habilidades”. O risco grave é de que se percam de vista os objetivos maiores do ensino de Ciências, que deve incluir a aquisição do conhecimento científico por uma população que compreenda e valorize a Ciência como empreendimento social. Os alunos não serão adequadamente formados se não correlacionarem as disciplinas escolares com a atividade científica e tecnológica e os problemas sociais contemporâneos. Paralelamente aos movimentos nas instâncias normativas dos sistemas escolares, os livros didáticos continuaram a servir de apoio e orientação aos professores para a apresentação dos conteúdos. Uma reforma que tenha pleno êxito depende da existência de bons materiais, incluindo livros, manuais de laboratórios e guias de professores, docentes que sejam capazes de usá-los, bem como condições na escola para o seu pleno desenvolvimento. Avaliação A avaliação sempre teve um papel central na escola brasileira. Uma das influências preeminentes, com uma função normativa mais poderosa do que os programas oficiais, livros didáticos, propostas curriculares ou os atuais parâmetros, sempre foi o exame vestibular. Assim, essas provas, mais do que cumprir a função classificatória para decidir quais os alunos que podem entrar nas escolas superiores, têm grande influência nos ensinos fundamental e médio. No entanto, os exames podem fornecer dados sobre a população escolar cumprindo a maior função da avaliação, ou seja, a de informar à sociedade, às escolas, aos alunos, aos professores e aos pais sobre o aprendizado dos estudantes, da eficiência da escola em função das políticas públicas e das relações contextuais entre os estabelecimentos de ensino e a comunidade nas quais se situam. Com a democratização do país e a disputa por verbas para manutenção dos sistemas escolares, aumenta a pressão por dados que possam servir de indicadores que orientem decisões dos sistemas em todos o níveis de ensino. A competição internacional na guerra tecnológica produziu programas internacionais de avaliação que levaram à comparação do resultado obtido pelos alunos em algumas disciplinas, incluindo as Ciências. Assim como o 90 REFORMAS E REALIDADE: O CASO DO ENSINO DAS CIÊNCIAS saram a se estruturar grupos de professores para preparar materiais e realizar pesquisas sobre o ensino de ciências. Com a expansão dos programas de pós-graduação e delineamento de uma área específica de pesquisa – Ensino de Ciências –, as organizações acadêmicas assumiram a responsabilidade de investigar e procurar fatores e situações que melhorassem os processos de ensino-aprendizado. Esse movimento ocorre agora nos Centros de Ciências ou nas Universidades e ganha atenção das autoridades federais e instituições internacionais, estabelecendo programas como o Premem (Projeto de Melhoria do Ensino de Ciências e Matemática) e o SPEC (Subprograma de Educação para a Ciência), vinculado à Capes (Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e mais recentemente o pró-Ciências e os programas de educação científica e ambiental do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). No plano internacional o processo foi equivalente. Os núcleos catalisadores dos movimentos dos anos 60 foram incorporados pelas universidades. Alguns centros permanecem como o Biological Science Curriculum Study, que até hoje está produzindo inovações no ensino de Biologia. Nos Estados Unidos foram importantes as sociedades científicas ao longo das décadas consideradas neste trabalho, especialmente a American Association for the Advancement of Science – AAAS, que teve persistente preocupação com o ensino elaborando seus próprios projetos curriculares. Nos anos 70, influenciada pelas tendências comportamentalistas proeminentes na época, preparou material para ensino de Ciências para crianças de escola primária. Hoje está conduzindo o chamado Project 2061, que reúne cientistas e educadores no sentido de estabelecer o que “todos os estudantes devem saber ou fazer em ciência, matemática e tecnologia desde os primeiros anos de estudo até o final do curso médio, de modo a promover a sua ‘alfabetização científica’” (AAAS, 1989). Outras associações científicas, como a Unesco e a International Council of Scientific Unions – ICSU, além das sociedades internacionais de Física, Química e Matemática, realizam reuniões e promovem atividades visando o desenvolvimento do ensino de Ciências. No Brasil, sociedades como a SBF (Sociedade Brasileira de Física), a SBQ (Sociedade Brasileira de Química) e a SBG (Sociedade Brasileira de Genética) têm atividades relacionadas ao ensino. A Associação Brasileira para Pesquisa em Ensino de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Ensino de Biologia reúnem juntam centenas de professores dos ensinos fundamental, médio e superior a todos os conteúdos e habilidades. Os alunos da manhã tiveram 33% de acertos, os da tarde, 27,5%, e os da noite, 25%. Apesar das pequenas variações e diferenças nos turnos examinados, o desempenho dos alunos deixa muito a desejar. O Sistema Nacional de Educação Básica – Saeb (1997) e o Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais – Inep (1999) indicam que, nas séries iniciais, em Ciências, os alunos até a 4ª série saem-se bem. Nos outros níveis, o desempenho esperado de alunos de 6ª série chega a ser atingido por 48% dos alunos, na 8ª série por 10% e, no fim do ensino médio, apenas 3% alcançam o nível desejado. Como se pode verificar por esses dados, há uma grande distância entre as propostas de reforma e o resultado efetivo no aprendizado dos alunos. Pesquisa As discussões sobre o ensino de Ciências e tentativa de transformá-lo foram promovidas e mantidas por inúmeras e diversas instituições a partir dos “projetos curriculares” organizados nos anos 60. Na época, o Brasil já tinha uma história de promoção do ensino de Ciências – o IBECC (Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura) em São Paulo, em que eram produzidos manuais de laboratórios e textos, além de equipamentos para a experimentação. Muitos trabalhos esparsos de iniciativas de docentes isolados ou em grupos passaram a se concentrar no IBECC e depois em instituições dele derivadas – Funbec e Cecisp –, que, com o apoio do Ministério da Educação, das Fundações Ford e Rockfeller e da União Panamericana, promoveram intensos programas para a renovação do ensino de Ciências. Especialmente significativa foi a iniciativa do MEC, que criou em 1963 seis centros de ciências nas maiores capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte. A estrutura institucional desses centros era variada. Alguns, como o de Porto Alegre e Rio de Janeiro, tinham vínculos com Secretarias de Governo da Educação e de Ciência e Tecnologia, enquanto os de São Paulo, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais eram ligados às Universidades. Essas instituições tiveram vidas e vocações diferentes, sendo que algumas persistem até hoje, como a de Belo Horizonte, estreitamente associada à Faculdade de Educação da UFMG, e o centro do Rio, que hoje é mantido pela Secretaria da Ciência e Tecnologia. Os outros ou desapareceram ou foram incorporados pelas universidades onde pas- 91 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 desse esforço que levou à criação de grupos de pesquisa em vários pontos do país, a maioria deles gerada pelos pesquisadores formados nos núcleos iniciais, os resultados das pesquisas ainda não atingiram os centros de decisão, nos âmbitos federal, estadual e municipal, para influir decisivamente na preparação e avaliação de currículos, nos projetos de aperfeiçoamento de docentes e nas relações entre os elementos que interagem nas escolas. Os professores em classe ficam cada vez mais afastados tanto do centro de decisões políticas como dos centros de pesquisa. Sem usar as informações de pesquisas prospectivas que coletem dados para evitar esforços e desperdícios, as propostas de reforma têm sido irrealistas ou inaceitáveis pelos professores que finalmente são os responsáveis pelas ocorrências em sala de aula. É tarefa urgente encontrar um meio termo adequado entre os dois extremos: um das organizações centrais trabalhando de forma isolada e outro que deixa a responsabilidade sobre as decisões curriculares exclusivamente à escola e aos docentes. Se, por um lado, é imprescindível a intensificação das relações entre a escola e a comunidade para a formação de cidadãos atuantes, por outro, é absurdo ignorar o que têm a dizer os cientistas e pesquisadores e o que se conhece hoje sobre os processos de reforma curricular. Os parâmetros curriculares fartamente distribuídos, na tentativa de produzir mudanças, usaram muito pouco o considerável montante de informações existentes sobre mudanças do ensino de Ciências. Os cientistas e pesquisadores foram alijados da produção de documentos que vêm levantando controvérsias entre os especialistas e dificuldades para os docentes. Caberá aos cientistas influir colaborando para formular propostas curriculares atualizadas, relevantes e realistas, não só indicando as impropriedades, omissões e propostas discutíveis, mas também propondo linhas de trabalho, sugestões para reformulação, mudanças e substituição. Merecem também uma análise detida para uso mais profundo e abrangente dos dados obtidos nos inúmeros processos de avaliação empreendidos pelo Inep e pelos sistemas de várias unidades da federação para que sejam identificados os pontos necessitados de intervenção como orientação para melhorar o processo educativo em todos os níveis e a confecção dos planos nacional e estaduais de educação. Não cabe mais um trabalho isolado, de gabinete dos legisladores oficiais. Ao contrário, será necessário angariar a participação e adesão da sociedade em seus múltiplos segmentos, para que as declarações de intenção propostas não soneguem a para discutir problemas, apresentar trabalhos e atualizar informações. Incorporam-se também ao movimento de renovação instituições como museus de ciências que estabelecem pontes com um público preponderantemente, mas não exclusivamente, escolar a quem apresentam a ciência por meio de exposições e outras instalações interativas. Há intensa atividade de investigação nos cursos de pósgraduação, acumulando um considerável acervo de conhecimento. Investigações sobre as relações professoralunos, enfatizando vários aspectos do trabalho em laboratório, discussão de problemas e o papel das perguntas em classe, efeito de atividades para aperfeiçoamento de professores na mudança de atitude e aquisição de conhecimentos e o papel dos centros e museus da Ciência são algumas das questões em que os mestrandos e doutorandos vêm trabalhando. A pesquisa em ensino de Ciências levou também à formação de grupos interdisciplinares, congregando professores de institutos de Física, Química, Biologia e das Faculdades e Centros de Educação. O primeiro programa de mestrado em ensino de Ciências interunidades que subsiste até hoje foi instalado na Universidade de São Paulo, em que a partir dessa iniciativa formaram-se grupos de ensino nos Institutos de Física e Química, além do desenvolvimento de uma área temática de Ensino de Ciências e Matemática para mestrado e doutorado na Faculdade de Educação. Assim como ocorreram mudanças nos objetivos e ênfase das propostas curriculares, também a pesquisa foi evoluindo no transcorrer do período considerado neste trabalho. No início do período, foi dada ênfase para avaliação dos resultados dos projetos curriculares. O crescimento das críticas ao modelo experimental, quantitativo, influenciado pela linha psicometrista, gradualmente levou à adoção de novos paradigmas de pesquisa. Passouse a obter dados com observação direta, estudo de documentos, entrevistas com os componentes e usuários dos projetos curriculares, alunos, professores, administradores em projetos de pesquisa quantitativa. Dentro dessa linha básica, foram usadas medidas qualitativo-fenomenológicas, processos etnográficos, naturalísticos, pesquisa participante, estudos de caso, entre outros. O debate entre os que defendem a linha por muitos chamada experimental, que exige dados quantitativos, e os que preferem uma linha naturalística, que apresenta o processo educacional em toda a sua complexidade de intrincadas relações, está longe de ser encerrado. Apesar 92 REFORMAS E REALIDADE: O CASO DO ENSINO DAS CIÊNCIAS __________ . Secretaria de Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais. Brasília, MEC, v.10, 1997. liberdade de ação das instituições, deixando o sistema à mercê dos slogans em voga que refletem as políticas vigentes. DUIT, R. e TREAGUST, D. “Learning in science: from behaviourism towards social constructivism and beyond”. International Handbook of Science Education. Boston, Kluwer Academic Publisher, 1998. GROSS, B. e GROSS, R. (eds.). The great schools debate. New York, Simon & Schuster Inc., 1985. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS. Avaliação de concluintes do ensino médio em nove estados, 1997: relatório final. Brasília, 1998 (Anexo 2). AAAS – American Association for the Advancement of Science. Project 2061 – Science for all americans. Washington, 1989. __________ . Avaliação de concluintes do ensino médio em nove estados, 1997: relatório síntese. Brasília, 1998. ALVES, N. (org.). Múltiplas leituras da nova LDB: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9.394/96). Rio de Janeiro, Quality Mark, 1997. KNAPP, M.S. “Between systemic reform and the mathematics and science classroom: the dynamics of innovation, implementation and professional learning”. Review of Educational Research. New York, v.67, n.2, 1997, p.227-226. BRASIL. Lei n. 4.024 de 20/12/1961: fixa as diretrizes e bases da Educação Nacional. São Paulo, FFCL, 1963. __________ . Diretrizes e bases da educação nacional: Lei n. 5.692, de 11/8/1971, Lei n. 4.024, de 20/12/1961. São Paulo, Imesp, 1981. KRASILCHIK, M. O professor e o currículo das ciências. São Paulo, EPU/Edusp, 1987. __________ . Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria do Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais para o ensino fundamental: documento introdutório. Brasília, MEC, 1995. PESTANA, M.I. de S. et alii. SAEB 97: primeiros resultados. Brasília, Inep, 1999. TIMPANE, M. e WHITE, L.S. (eds.). “Reforming science, mathematics and technology education”. Higher education and school reform. San Francisco, Jossey – Bass publishers, 1998. __________ . Lei n. 9.394 Diretrizes e bases da educação nacional: promulgada em 20/12/1996. Brasília, Editora do Brasil, 1996. 93 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 O MEC E A REORGANIZAÇÃO CURRICULAR IARA GLÓRIA AREIAS PRADO Secretária de Educação Fundamental do MEC Resumo: O texto apresenta um resumo sobre o movimento de reorganização curricular promovido pela Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação do Brasil e aborda os seguintes temas, entre outros: organização da educação básica; questão curricular e qualidade da educação; Parâmetros Curriculares Nacionais; referências curriculares e concepções norteadoras; e formação de professores. Palavras-chave: educação e realidade brasileira; desenvolvimento curricular e instituição pública. A Educação Básica no Brasil é composta por três etapas: educação infantil (que atende hoje cerca de 5 milhões de crianças de 0 a 6 anos, em creches ou pré-escolas, geralmente mantidas pelo poder municipal); ensino fundamental (que atende cerca de 36 milhões de alunos de 7 a 14 anos, tem caráter obrigatório, é público, gratuito e oferecido de forma compartilhada pelos poderes municipal e estadual) e ensino médio (que atende cerca de 7 milhões de jovens de 15 a 17 anos e é oferecido basicamente pelo poder estadual). No Brasil, existe um contingente ainda expressivo, embora decrescente, de jovens e adultos com pouca ou nenhuma escolaridade, o que faz da Educação de Jovens e Adultos um programa especial que visa dar oportunidades educacionais apropriadas aos brasileiros que não tiveram acesso ao ensino fundamental na idade própria, cujo atendimento representa, aproximadamente, 3 milhões de alunos. No que se refere às comunidades indígenas, a Constituição garante-lhes o direito de utilizar suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem, o que se justifica pela existência de cerca de 1.600 escolas indígenas, que hoje possuem cerca de 80 mil alunos índios. Apesar do grandioso número de alunos – mais de 50 milhões – o grande desafio da educação brasileira, que está sendo enfrentado hoje, não é mais a oferta de vagas, mas sim a necessidade de construir escolas onde se aprenda mais e melhor. Relativamente à questão curricular e à qualidade da educação, pode-se dizer que currículos compreendem a expressão dos conhecimentos e valores que uma sociedade considera que devem fazer parte do percurso educativo de suas crianças e jovens. Eles são traduzidos nos objetivos que se deseja atingir, nos conteúdos considerados os mais adequados para promovê-los, nas metodologias adotadas e nas formas de avaliar o trabalho desenvolvido. A definição de quais são esses conhecimentos e valores vem sendo modificada nos últimos anos, devido às demandas criadas pelas transformações na organização da produção e do trabalho e pela conjuntura de redemocratização do país. Portanto, a meta de melhoria da qualidade da educação impôs o enfrentamento da questão curricular como aquilo que deve nortear as ações das escolas, dando vida e significado ao seu projeto educativo. É importante considerar também que, no quadro de diversidade da realidade brasileira, existem grandes discrepâncias em relação à possibilidade de se ter acesso aos centros de produção de conhecimento, tanto das áreas curriculares quanto da área pedagógica. Isto é refletido na formação de professores e nos currículos das escolas, o que não favorece a existência de uma eqüidade na qualidade da oferta de ensino das cerca de 250.000 escolas públicas brasileiras dispersas nas cinco regiões do país. 94 O MEC E A REORGANIZAÇÃO CURRICULAR tituir o que se pode chamar de “escola-cidadã”, expressão de uma política educacional fortemente marcada pelo empenho de criar novos laços entre ensino e sociedade. A finalidade das referências curriculares consiste na radical transformação dos objetivos, dos conteúdos e da didática na educação infantil, no ensino fundamental e na educação de jovens e adultos. Os conteúdos estudados passam a ser os meios com os quais o estudante desenvolve capacidades intelectuais, afetivas, motoras, tendo em vista as demandas do mundo em que vive. A formação se sobrepõe à informação pura e simples, modificando o antigo conceito de que educação é somente transmissão de conhecimentos. A concepção pedagógica subjacente, na nova proposta curricular, aponta no sentido de que: - a escola existe, antes de tudo, para os alunos aprenderem o que não podem aprender sem ela; Até 1995, não havia no país uma referência nacional para nortear os currículos propostos pelas 27 secretarias de educação estaduais e 5.600 municipais que compõem o Estado federativo brasileiro. Após um longo processo de debate nacional, foi aprovada, em dezembro de 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – lei máxima da educação brasileira –, que, dentre suas propostas, determina como competência da União estabelecer, em colaboração com estados e municípios, diretrizes para nortear os currículos, de modo a assegurar uma formação básica comum em todo o país. Era preciso portanto construir referências nacionais para impulsionar mudanças na formação dos alunos, no sentido de enfrentar antigos problemas da educação brasileira e os novos desafios colocados pela conjuntura mundial e pelas novas características da sociedade – como a urbanização crescente. Por outro lado, essas referências precisavam indicar pontos comuns do processo educativo em todas as regiões e, ao mesmo tempo, respeitar as diversidades regionais, culturais e políticas existentes. Dessa forma, no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, uma das prioridades do Ministério da Educação foi a elaboração de referências curriculares para a educação básica, um processo inédito na história da educação brasileira, sistematizando idéias que já vinham sendo utilizadas nas reformulações curriculares de estados e municípios. Os procedimentos seguidos na elaboração dos documentos representam a manifestação do espírito democrático e participativo que deve caracterizar a educação de base no país. Equipes de educadores (professores com larga e boa experiência nas salas de aula, professores universitários e pesquisadores) elaboraram os documentos preliminares. Estas equipes realizaram um estudo dos currículos de outros países (como Inglaterra, França, Espanha, Estados Unidos), analisaram as propostas dos estados e de alguns dos municípios brasileiros, considerando os indicadores da educação no Brasil (como taxas de evasão e repetência, desempenho dos alunos nas avaliações sistêmicas) e estudaram os marcos teóricos contemporâneos sobre currículo, ensino, aprendizagem e avaliação. Os documentos preliminares foram enviados para apreciação e receberam críticas e sugestões de professores universitários e de sala de aula, pesquisadores e de técnicos que atuam nas equipes pedagógicas das secretarias de educação, tendo como idéia-força a perspectiva da formação para a cidadania, pois a criança não é só a cidadã do futuro, ela já é cidadã. Essas idéias inovam ao ins- - o professor organiza a aprendizagem, avalia os resultados, incentiva a cooperação, estimula a autonomia e o senso de responsabilidade dos estudantes; - nada substitui a atuação do próprio aluno no processo de aprendizagem; - o ponto de partida é sempre o conhecimento prévio do aluno; - a avaliação é um instrumento de melhoria do ensino e não uma arma contra o aluno; - a aprendizagem bem-sucedida promove a auto-estima do aluno; o fracasso ameaça o aprender e é o primeiro passo para o desinteresse. A nova proposta apresentada pelo Ministério da Educação aos educadores brasileiros é composta dos documentos Parâmetros Curriculares Nacionais para Educação Fundamental, Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil e para Educação Indígena e a Proposta Curricular para Educação de Jovens e Adultos. Dentro das propostas já referidas, cada qual com sua especificidade, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental incluem, além das áreas curriculares clássicas (Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Naturais, História, Geografia, Arte, Educação Física e Línguas Estrangeiras), o tratamento de questões da sociedade brasileira, como aquelas ligadas a Ética, Meio Ambiente, Orientação Sexual, Pluralidade Cultural, Saúde, Trabalho e Consumo, ou outros temas que se mostrem relevantes. Considerando as particularidades da faixa etária compreendida entre 0 e 6 anos, a proposta educativa dos refe- 95 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 DIAGRAMA 1 Conteúdos Curriculares renciais de educação infantil enfatiza a construção da identidade, autonomia da criança e o seu conhecimento de mundo. Com relação à educação de jovens e adultos, o foco das áreas de Língua Portuguesa, Matemática e dos Estudos da Sociedade e da Natureza está na preocupação com a adequação do trabalho educativo às condições de vida e trabalho dos alunos. Os referenciais para a educação indígena, além das áreas de conhecimento, incluem temas escolhidos por um amplo grupo de professores índios, como, por exemplo, auto-sustentação, ética indígena, pluralidade cultural, direitos, lutas e movimentos, terra e preservação da biodiversidade e educação preventiva para a saúde. Mais de um 1,4 milhão de exemplares dos Parâmetros e Referenciais Curriculares foram entregues a todos os 96 O MEC E A REORGANIZAÇÃO CURRICULAR terior das escolas, incentivando o estudo em grupo dos Parâmetros e Referenciais curriculares, a troca de experiência, o trabalho em equipe; e a articulação entre a teoria e a prática pedagógica. A idéia central do programa é a de que a formação profissional deve estar relacionada ao trabalho desenvolvido na sala de aula. O programa já está implantado em 24 estados e 960 secretarias municipais de educação, envolvendo cerca de 6.000 professores-formadores e com a meta de atingir 130.000 professores do ensino fundamental, da educação infantil e da educação de jovens e adultos. A formação inicial de professores é de responsabilidade das universidades e teve mudanças importantes a partir da Lei de Diretrizes e Bases: uma delas é a de que a formação de professores para atuarem na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental deve ser feita em cursos de nível superior (antes era realizada em cursos de nível médio); a outra é a criação dos Institutos Superiores de Educação, que deverão ser centros formadores, disseminadores, sistematizadores e produtores do conhecimento referente ao processo de ensino, de aprendizagem e de educação escolar, com o objetivo de promover a formação geral dos futuros professores de educação básica, favorecer o conhecimento e o domínio dos conteúdos específicos ensinados nas diversas etapas da educação básica e das metodologias e tecnologias a eles associados, bem como desenvolver habilidades para a condução dos demais aspectos inerentes ao trabalho coletivo da escola. Apesar de ainda existirem alguns professores que estão lecionando sem a devida formação exigida – os chamados professores leigos – a meta é titular esse grupo de professores por meio de formação em exercício que está sendo realizada num programa especialmente elaborado – o Proformação –, que combina parte presencial e parte a distância, com o uso de materiais impressos e de vídeos, e que se desenvolve, prioritariamente, nas regiões mais pobres do país. O Ministério da Educação, por meio dessa reorganização curricular, visa a qualidade do ensino nas escolas públicas brasileiras, assegurando que a educação no país possa atuar de forma decisiva no processo de construção e de exercício da cidadania, sem contudo deixar de cumprir um compromisso da Nação na valorização e formação do magistério, uma vez que os docentes constituem o centro de todo o processo educacional. professores das escolas públicas do Brasil, bem como às instituições de formação de professores. Além disso, encontros e seminários promovidos pelo MEC, secretarias de educação e universidades reuniram grandes grupos de professores e especialistas nos estados e municípios brasileiros com a finalidade de conhecer e debater esses documentos, contando ainda com inúmeros programas das televisões educativas – TV Escola e TV Executiva do MEC, TVs Educativas de diferentes estados –, que também têm ajudado na divulgação e ampliação dos debates. Se entre 1995 e 1998 a prioridade do Ministério da Educação foi a elaboração das diretrizes curriculares, no período subseqüente, de 1999 a 2002, a prioridade é a formação de professores, o que significa repensar os cursos de formação inicial – responsabilidade das universidades – e investir em ações de formação para melhorar a prática dos professores já em exercício na sala de aula. Para impulsionar essa discussão na comunidade educativa do país, o Ministério da Educação elaborou diretrizes para a formação de professores, seguindo os mesmos procedimentos dos documentos anteriores, já citados. Os referenciais mostram a necessidade de mudanças na formação dos professores, proporcionando o desenvolvimento de competências profissionais para atender às novas concepções da educação escolar e do papel de professor. Esses referenciais também redefinem os âmbitos do conhecimento profissional (conhecimentos sobre crianças, adolescentes, jovens e adultos, conhecimentos sobre a dimensão cultural, social e política da educação, conhecimentos pedagógicos, conhecimento experiencial contextualizado na atuação pedagógica, cultura geral e profissional) e a metodologia necessária para desenvolvêlos, além de trazerem orientações para que as escolas de formação organizem seus currículos e para que as secretarias de educação desenvolvam seus trabalhos de formação continuada. A grande diferença entre a formação tradicional e o que se propõe nos novos referenciais é que, ao invés de ser organizada como um elenco de disciplinas, a formação de professores passe a ser definida a partir do trabalho do professor, isto é, das questões que enfrenta efetivamente na sua atuação profissional. A partir de 1999, o MEC vem desenvolvendo em parceria com as secretarias de educação o programa “PCN em Ação”. Esse programa tem como objetivo o desenvolvimento de programas de formação continuada no in- 97 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA uma (re)visão radical GUIOMAR NAMO DE MELLO Diretora Executiva da Fundação Victor Civita e Membro do Conselho Nacional de Educação Resumo: Para que a aprendizagem escolar seja uma experiência intelectualmente estimulante e socialmente relevante, é indispensável a mediação de professores com boa cultura geral e domínio dos conhecimentos que devem ensinar e dos meios para fazê-lo com eficácia. O artigo analisa o sistema brasileiro de formação de professores: apontando sua inadequação para colocar em prática o paradigma curricular requerido pela sociedade da informação e prescrito pela LDB; sugerindo caminhos e estratégias para a construção de modelos de formação; indicando condições mínimas para que os cursos de formação inicial de professores cumpram sua finalidade. Palavras-chave: formação de professores; educação no Brasil; política educacional. O imaginário popular tem alguma razão quando relaciona a atuação do professor ao irônico dito de G.B. Shaw: “Quem sabe faz, quem não sabe ensina.” mente, agregam-se a esse esforço o aumento do número de crianças de 6 anos ao sistema educacional e a expansão do ensino médio. A democratização do acesso e a melhoria da qualidade da educação básica vêm acontecendo num contexto marcado pela modernização econômica, pelo fortalecimento dos direitos da cidadania e pela disseminação das tecnologias da informação, que impactam as expectativas educacionais ao ampliar o reconhecimento da importância da educação na sociedade do conhecimento. Em resposta a essas expectativas, desde a década de 80 os sistemas de ensino público e privado vêm passando por processos de reforma educacional, em âmbito estadual, local ou mesmo nas unidades escolares. Algumas dessas iniciativas de reforma são mais abrangentes e atingem todos os componentes do processo educativo; outras dirigem-se a apenas alguns deles. Com a promulgação da Lei no 9.394/96, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que incorporou as experiências e lições aprendidas ao longo desses anos, inicia-se outra etapa de reforma. Em relação à flexibilidade, regime de colaboração recíproca entre os entes da federação e autonomia dos entes escolares, a nova LDB consolidou e tornou norma uma profunda ressignificação do processo de ensinar e aprender: prescreveu um paradigma curricular no qual os conteúdos de ensino deixam de ter importância em si mesmos e são entendidos S ob o pressuposto de que a formação inicial e continuada de professores é a prioridade na educação brasileira no início do século XXI, o presente trabalho pretende contribuir para a necessária mudança no conteúdo e desenho da educação superior de professores para a educação básica. Este estudo reconhece que a formação inicial é apenas um componente de uma estratégia mais ampla de profissionalização do professor, indispensável para implementar uma política de melhoria da educação básica, e finaliza propondo a criação de um sistema nacional de certificação de competências docentes e a priorização da área de formação de professores nas políticas de incentivo, fomento e financiamento. CONTEXTO: POR QUE É URGENTE REFORMULAR A TEORIA E A PRÁTICA DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO BRASIL Durante os anos 80 e 90, o Brasil deu passos significativos para universalizar o acesso ao ensino fundamental obrigatório: melhorou o fluxo de matrículas e investiu na qualidade da aprendizagem desse nível escolar. Recente- 98 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA: UMA (RE)VISÃO... A etapa que ora se inicia, se implementada para atingir suas conseqüências mais profundas, deverá mudar radicalmente a educação básica brasileira ao longo das duas ou três primeiras décadas do terceiro milênio. Para gerenciá-la de modo competente, é preciso que todos os envolvidos construam uma visão de longo prazo e negociem as prioridades. como meios para produzir aprendizagem e constituir competências nos alunos. Na sucessão da LDB, os órgãos educacionais nacionais estão desenvolvendo um esforço de regulamentação e implementação do novo paradigma curricular. No Conselho Nacional de Educação foram estabelecidas, em cumprimento ao mandato legal desse colegiado, as diretrizes curriculares nacionais para a educação básica. Por seu caráter normativo, as diretrizes são genéricas: focalizam as competências que se quer constituir nos alunos, mas deixam ampla margem de liberdade para que os sistemas de ensino e as escolas definam conteúdos ou disciplinas específicas. No executivo, o MEC elaborou um currículo nacional – os parâmetros curriculares do ensino fundamental e do ensino médio –, além de referenciais curriculares para educação infantil, educação indígena e educação de jovens e adultos. Todo esse trabalho está disponível, em caráter de recomendação, a todos os sistemas e escolas. Estados, municípios e escolas estão, por sua conta, adotando as providências necessárias à organização de seus currículos de acordo com o novo paradigma disposto na LDB e nas normas nacionais. Essas iniciativas se beneficiam tanto dos parâmetros e referenciais preparados pelo MEC quanto da assistência técnica de universidades, instituições de estudos e pesquisas e organizações não-governamentais do setor educacional. A implementação da reforma curricular envolve, e envolverá ainda mais, em diferentes graus, distintos segmentos do setor educacional brasileiro. Devido à complexidade do sistema federativo do país e sua enorme diversidade, esse processo ocorre com muito mais consenso do que dissenso. Duas razões contribuem para a construção desse consenso: o contexto econômico e cultural, que impõe a revisão dos conteúdos do ensino; e a LDB, que atua como fator de coesão. Na medida em que as principais respostas para essa revisão foram contempladas na lei, os vários âmbitos ou instâncias de sua regulamentação e execução estão empenhados em colocá-la em prática. Se a aprovação da LDB marcou o final da primeira geração de reformas educacionais, as diretrizes e parâmetros curriculares inauguraram a segunda geração, que tem duas características a serem destacadas: não se trata mais de reformas de sistemas isolados mas sim de regulamentar e traçar normas para uma reforma da educação em âmbito nacional; e atinge, mais que na etapa anterior, o âmago do processo educativo, isto é, o que o aluno deve aprender, o que ensinar e como ensinar. FORMAÇÃO DE PROFESSORES: DISTORÇÕES E OPORTUNIDADES A divisão entre o professor polivalente e o especialista por disciplinas teve na educação brasileira um sentido burocrático-corporativo. Pedagogicamente, não há nenhuma sustentação consistente para uma divisão que em parte foi causada pela separação histórica entre dois caminhos de formação docente: o normal de nível médio e o superior.1 Por motivos também históricos, houve um momento, em meados dos anos 70, em que a formação do professor das séries iniciais do ensino fundamental passou a ser feita também em nível superior. Mas, mantendo a segmentação tradicional, o locus dessa formação não foi o mesmo das licenciaturas, e sim os cursos de pedagogia nas faculdades de educação. A distância entre o curso de formação do professor polivalente, situado nos cursos de pedagogia, nas faculdades de educação, e os cursos de licenciatura, nos departamentos ou institutos dedicados à filosofia, às ciências, e às letras, imprimiu àquele profissional uma identidade pedagógica esvaziada de conteúdo.2 Não é justificável que um jovem recém-saído do ensino médio possa preparar-se para ser professor de primeira a quarta série em um curso que não aprofunda nem amplia os conhecimentos previstos para serem transmitidos no início do ensino fundamental. Nem é aceitável a alegação de que os cursos de licenciatura “não sabem” ou “não têm vocação” para preparar professores de crianças pequenas. É também difícil de aceitar que, para lecionar até a quarta série do ensino fundamental, o professor domine os conteúdos curriculares dessas séries apenas no nível médio, enquanto para lecionar a partir da quinta em diante do ensino fundamental e médio seja necessário um curso superior de quatro anos. Da mesma forma, é raro que os formadores de formadores justifiquem o currículo de graduação das licenciaturas de futuros professores em função daquilo que eles deverão ensinar nos níveis fundamental e médio. 99 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 Na perspectiva de uma educação básica que deverá ser de pelo menos 11 anos e universalizada para todos, essa divisão precisa ser questionada, em busca de uma visão geral da formação do professor da educação básica. Além disso, do ponto de vista legal, é possível existirem professores especialistas desde o início do ensino fundamental, até mesmo na educação infantil. Da mesma forma, é possível existirem professores polivalentes nas séries terminais do ensino fundamental e até no ensino médio. Do ponto de vista pedagógico, essa é uma decisão que deve ser tomada de acordo com o projeto educacional dos sistemas de ensino ou das escolas. As diretrizes curriculares constantes da LDB e das normas que a regulamentam dão maior ênfase às competências do que às disciplinas, fato que abre amplas possibilidades de organização interdisciplinar, de definição de conteúdos transversalizados que não correspondem a disciplinas tradicionais, de realização de projetos de ensino. Esse paradigma novo vai romper com o modelo disciplinarista que repousa sobre a divisão das licenciaturas no ensino superior. A localização institucional das licenciaturas na estrutura do ensino superior, e particularmente das universidades, cria um divórcio entre a aquisição de conhecimentos nas áreas de conteúdos substantivos e a constituição de competências para ensinar esses conteúdos a crianças, adolescentes ou adultos com atraso escolar.3 O único aspirante ao magistério que ingressa no ensino superior com opção clara pelo ofício de ensinar é o aluno dos cursos de magistério de primeira a quarta série do ensino fundamental. A esses, na maior parte dos cursos, não é oferecida a oportunidade de seguir aprendendo os conteúdos ou objetos de ensino que deverá ensinar no futuro. Aprende-se a prática do ensino, mas não sua substância. Os demais ingressam no ensino superior de formação de professores com a expectativa de serem biólogos, geógrafos, matemáticos, lingüistas, historiadores ou literatos, dificilmente professores de biologia, de geografia, de línguas ou de literatura. Os cursos de graduação são ministrados num contexto institucional distante da preocupação com a educação básica, que não facilita nem mesmo a convivência com pessoas e instituições que conhecem a problemática desta última. Os professores formadores que atuam nesses cursos, quando estão em instituições de qualidade, são mais preocupados com suas investigações do que com o ensino em geral, e menos interessados ainda no ensino da educação básica. No caso do professor polivalente, a preparação se reduz a um conhecimento pedagógico abstrato porque é esvasiado do conteúdo a ser ensinado. No caso do especialista, o conhecimento do conteúdo não toma como referência sua relevância para o ensino de crianças e jovens, e as situações de aprendizagem que o futuro professor vive não propiciam a articulação desse conteúdo com a transposição didática; em ambos os casos, a “prática de ensino” também é abstrata, pois é desvinculada do processo de apropriação do conteúdo a ser ensinado. Para cumprir a LDB na letra e no espírito, será necessário reverter essa situação. A lei manda que o professor de educação básica construa em seus alunos a capacidade de aprender e de relacionar a teoria à prática em cada disciplina do currículo; mas como poderá ele realizar essa proeza se é preparado num curso de formação docente no qual o conhecimento de um objeto de ensino, ou seja, o conteúdo, que corresponde à teoria, foi desvinculado da prática, que corresponde ao conhecimento da transposição didática ou do aprendizado desse objeto? Enquanto a educação básica é um serviço principalmente do setor público, a formação de professores para a educação básica é realizada com importante aporte do setor privado. No Sul e Sudeste, este é largamente majoritário. Nas demais regiões do país, é apenas expressivo, em virtude da grande presença de instituições de ensino superior estaduais e, em menor número, municipais. Não há avaliação da qualidade dos resultados desses cursos de preparação docente, sejam eles públicos ou privados, porque a formação de professores tem sido tratada como qualquer outro curso de nível superior, sem considerar seu papel estratégico para todo o sistema educacional do país.4 Como os demais cursos superiores, eles são previamente autorizados e reconhecidos. Nunca passaram por avaliação posterior das competências necessárias para formar professores da educação básica brasileira.5 Essa situação dá origem a algumas distorções graves: nas regiões em que a oferta de cursos de formação docente é predominantemente privada, o poder público, que mantém a educação básica, garante o mercado de trabalho dos egressos do ensino superior privado sem dispor de mecanismos eficientes de controle da qualidade desses professores; e nas regiões em que os cursos de formação de professores são predominantemente públicos estaduais, o poder público pode financiar com recursos da educação básica a formação de seus professores, o que caracteriza um duplo financiamento das instituições estaduais de ensino superior. 100 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA: UMA (RE)VISÃO... Medidas dessa natureza teriam custos relativamente pequenos se comparados aos que são necessários para arcar com os ônus do fracasso escolar: recuperação do nível de aprendizagem, aceleração da escolaridade e regularização da matrícula dos milhões de alunos atendidos por professores provenientes de cursos de formação ruins. No futuro, a boa qualidade dos professores poderá eliminar os custos de organização dos grandes empreendimentos de capacitação ou educação continuada destinados a ensinar àqueles que, se tivessem aprendido a aprender, poderiam ser gestores da própria atualização profissional. Com professores bem preparados, a educação continuada poderia ser quase inteiramente realizada na escola, sem a parafernália dos grandes encontros de massa, que os tornam eventos de interesse maior para a hotelaria do que para a educação. Os organismos formuladores de políticas, os financiadores de projetos de reforma, as universidades e outras instituições sociais precisam se dar conta e levar a conseqüências práticas esse fato óbvio: no caso brasileiro, o investimento na formação de professores para a melhoria da educação básica pode ser o de melhor rentabilidade ou o de melhor relação custo-benefício. Esse é um cálculo que deverá ser feito principalmente com os estudantes que terão acesso a linhas de crédito para financiar seus cursos superiores. O problema é ainda maior quando se considera que os sistemas públicos de educação básica, estaduais e municipais, gastam volumes consideráveis de recursos em capacitação de professores, dinheiro anualmente pago às mesmas instituições de ensino superior privadas e públicas para refazerem um trabalho que não foi bem-feito durante a formação inicial dos professores. A única e importante vantagem do modelo atual é sua sustentabilidade financeira. As grandes universidades públicas federais e estaduais, nas quais o custo aluno é alto, dedicaram-se muito mais, proporcionalmente, às carreiras superiores “nobres” como medicina, engenharia, direito, arquitetura. Entre essas carreiras, nunca foi incluída a formação de professores para a educação da maioria. Por essa razão, há várias décadas os futuros professores, geralmente originários das camadas médias e médias baixas, arcam com os custos da própria formação profissional no setor privado ou recorrem ao ensino superior estadual, quase sempre de custo e qualidade inferiores ao federal ou aos estaduais “nobres”. Diante das demandas de uma reforma educacional como a que se inicia, essa situação pode representar uma oportunidade histórica. Seria inviável para o poder público financiar, pelos preços das universidades “nobres”, a formação de seus professores de educação básica, que já são mais de um milhão. Com um volume de recursos muito menor, um sistema misto de custos baixos, tanto públicos quanto privados, configuram-se um ponto estratégico de intervenção para promover melhorias sustentáveis a longo prazo no ensino básico. No futuro, o país vai precisar de bons professores, que substituam os hoje existentes. Essa necessidade deverá expressar-se num fluxo que a médio prazo vai repor integralmente o plantel docente hoje existente. Toda e qualquer melhoria na formação desse fluxo de mais de 1,5 milhão de professores vai representar um ensino melhor para dezenas de milhões de alunos durante os 25 que durarem a carreira de cada geração de professores. É urgente investir na organização de um sistema nacional de credenciamento de cursos e certificação de competências docentes radicalmente diferente da atual processualística de autorização e reconhecimento de cursos superiores em geral; apoiar escolas avaliadas e credenciadas, com assistência técnica e financeira; condicionar o exercício do magistério à conclusão do curso em instituição credenciada e à avaliação para certificação de competências docentes. PROPOSTA DE DIRETRIZES PEDAGÓGICAS: CONSEQÜÊNCIAS DA SIMETRIA INVERTIDA ENTRE FORMAÇÃO E EXERCÍCIO PROFISSIONAL A mudança nos cursos de formação inicial de professores terá de corresponder, em extensão e profundidade, aos princípios que orientam a reforma da educação básica, mantendo com esta sintonia fina. Não se trata de criar modismos, mas de buscar modalidades de organização pedagógica e espaços institucionais que favoreçam a constituição, nos futuros professores, das competências docentes que serão requeridas para ensinar e fazer com que os alunos aprendam de acordo com os objetivos e diretrizes pedagógicas traçados para a educação básica. A educação escolar é uma política pública endereçada à constituição da cidadania. Quando forma médicos, contribui para o sistema de saúde da mesma forma que a preparação de cineastas é a contribuição da educação para o desenvolvimento da arte cinematográfica. Quando se tra- 101 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 ção mínima. É preciso que a formação docente propicie a eles a oportunidade de refazer o percurso de aprendizagem que não foi satisfatoriamente realizado na educação básica para transformá-los em bons professores, que no futuro contribuirão para a melhoria da qualidade da educação básica. Essa afirmação, aparentemente redundante, tem o objetivo de evidenciar que a formação inicial de professores constitui o ponto principal a partir do qual é possível reverter a qualidade da educação. É como se, ao tocá-la, fosse mais fácil provocar uma reação do sistema total, gerando um efeito em série: um círculo virtuoso de conseqüências mais duradouras. Assim entendida como componente estratégico da melhoria da qualidade da educação básica, a formação inicial de professores define-se como política pública. Embora não seja necessário que o poder público a execute diretamente, é indispensável que ele estabeleça critérios de financiamento, padrões de qualidade e mecanismos de avaliação e acompanhamento. Com competências a serem constituídas na educação básica, a formação inicial dos professores para atuarem na mesma educação básica deve levar em conta os princípios pedagógicos estabelecidos nas normas curriculares nacionais: a interdisciplinaridade, a transversalidade e a contextualização, e a integração de áreas em projetos de ensino, que constituem hoje mandados ou recomendações nacionais. Observe-se que “levar em conta”, nesse caso, não significa apenas dar informações sobre contextualização, interdisciplinaridade, transversalidade e outros princípios. A simetria invertida de situações de formação e exercício profissional exige que a aprendizagem do conteúdo dos cursos superiores de formação de professores seja presidida pelos mesmos princípios filosóficos e pedagógicos que a lei manda praticar na educação básica. Mas o país também precisa de diversidade curricular que dê conta de sua complexidade cultural, social e econômica. Os cursos de formação docente deverão ter também como referência os planos curriculares e os projetos pedagógicos dos sistemas de ensino públicos e privados e, sempre que possível, das próprias escolas. Isso poderá estimular o surgimento de vários modelos de formação de professores, com maior adequação às necessidades e características das regiões e dos alunos. A consideração radical da simetria invertida entre situação de formação e de exercício não implica tornar as situações de aprendizagem dos cursos de formação do- ta de professores, a educação está cuidando do desenvolvimento dela mesma, para que possa continuar contribuindo para a medicina, a engenharia, as artes e todas as atividades que exigem preparação escolar formal, além de sua finalidade de constituição de cidadania. A situação de formação profissional do professor é inversamente simétrica à situação de seu exercício profissional. Quando se prepara para ser professor, ele vive o papel de aluno. O mesmo papel, com as devidas diferenças etárias, que seu aluno viverá tendo-o como professor. Por essa razão, tão simples e óbvia, quanto difícil de levar às últimas conseqüências, a formação do professor precisa tomar como ponto de referência, a partir do qual orientará a organização institucional e pedagógica dos cursos, a simetria invertida entre a situação de preparação profissional e o exercício futuro da profissão. As diretrizes que se seguem procuram avançar nessa característica, buscando tornar coerente a formação do professor com a simetria existente entre essa formação e o futuro exercício da profissão. Uma conseqüência disso é que a educação inicial de professores deve ter como primeiro referencial as normas legais e recomendações pedagógicas da educação básica. Os professores não são necessários para qualquer projeto pedagógico, mas para aqueles que vão ser executados sob a orientação normativa das diretrizes curriculares nacionais e sob a recomendação dos parâmetros e planos curriculares formulados pelo MEC, pelos sistemas públicos de ensino e pelas escolas particulares. Os modelos ou instituições de formação docente que interessam ao país são, portanto, aqueles que propiciam ou facilitam a constituição de um perfil de profissionais adequados a essa tarefa. Ninguém facilita o desenvolvimento daquilo que não teve oportunidade de aprimorar em si mesmo. Ninguém promove a aprendizagem de conteúdos que não domina, a constituição de significados que não compreende nem a autonomia que não pôde construir. É imprescindível que o professor que se prepara para lecionar na educação básica demonstre que desenvolveu ou tenha oportunidade de desenvolver, de modo sólido e pleno, as competências previstas para os egressos da educação básica, tal como estabelecidos nos artigos 22, 27, 32, 35 e 36 da LDB e nas diretrizes curriculares nacionais da educação básica. Isso é condição indispensável para qualificá-lo como capaz de lecionar na educação infantil, no ensino fundamental ou no ensino médio. Muitos dos jovens que hoje saem da educação básica e ingressam no ensino superior não possuem essa condi- 102 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA: UMA (RE)VISÃO... Isso implica um tipo de organização curricular que, em todas as disciplinas do curso de formação, permita também: a transposição didática do conteúdo aprendido pelo futuro professor; e a contextualização do que está sendo aprendido na realidade da educação básica. Ainda com o exemplo anterior, é imprescindível que o aluno da licenciatura de matemática compreenda qual a relevância do cálculo integral para o ensino da matemática na educação básica. De acordo com esse princípio, desde o primeiro ano e em todas as disciplinas de uma licenciatura especializada, por exemplo, a de língua portuguesa, o exercício de transposição didática do conteúdo e a prática de ensino deveriam estar lado a lado, ministrados pelo mesmo professor ou por outro que também seja especialista em ensino de língua portuguesa. A dupla relação entre teoria e prática resulta em dois significados próprios ao papel da pesquisa na formação do professor. O primeiro deles é negativo: a competência para fazer pesquisa pura na área de conhecimento de sua especialidade não é relevante para a formação do professor, ainda que os conhecimentos produzidos pela investigação da área substantiva o sejam, e muito. O segundo significado é positivo: a capacidade de pesquisar dentro da área de especialidade aplicada ao ensino, refletir sobre a atividade de ensinar e formular alternativas para seu aperfeiçoamento é indispensável para o futuro professor. Com isso, compreende-se que os objetos da pesquisa nos cursos de formação docente são o ensino e a aprendizagem do conteúdo dos componentes curriculares da educação básica. Isso faz da transposição didática o campo de estudos por excelência dos cursos de formação docente: partindo dos currículos dos ensinos fundamental e médio que o professor terá de operar, quais são os conhecimentos que ampliam, aprofundam, dão relevância e pertinência aos conteúdos que deverão ser ensinados pelo professor e aprendidos pelo aluno? Para dar aula de ciências da primeira à oitava séries do ensino fundamental, o que um professor precisa saber de química, física ou biologia? Com que profundidade? Com qual enfoque metodológico, de modo a adequar-se ao estatuto epistemológico dessas ciências, aos objetivos que se tem ao ensiná-las na educação básica, que é educação de cidadania e não de especialistas, e à criança e ao jovem que vivem neste mundo de hoje? Uma vez compreendida a transposição didática, quais as escolhas mais sábias para ensinar e aprender os conteúdos transpostos? Eis aí um mundo de questões relevantes que a pesquisa didática não tem abordado no Brasil. cente mecanicamente análogas às situações de aprendizagem típicas da criança e do jovem na educação média. Não se trata de infantilizar a educação inicial do professor mas de torná-la uma experiência isomorfa à experiência de aprendizagem que ele deve facilitar a seus futuros alunos, ou seja, um aprender que permite apropriar-se de estruturas comuns abstraindo as diferenças de conjuntura. É importante reconhecer que a aprendizagem pode ser mais ou menos estruturada, mas não pode ser descontextualizada e compartimentalizada em disciplinas estanques. E essa afirmação é verdadeira tanto para o futuro aluno desse professor como para o estudante de hoje, possível professor da educação básica, que está cursando a formação docente inicial em nível superior. Isso, é claro, apresenta o problema da educação de formadores. O isomorfismo tem, portanto, duas conseqüências importantes. A primeira é deixar claro que na formação docente está em jogo uma dupla relação entre teoria e prática. A segunda refere-se ao papel da investigação ou da pesquisa nesses cursos. Uma das relações entre teoria e prática na formação do professor deve ocorrer na área de conhecimento especializado. Ora, se no futuro será necessário que o professor desenvolva em seus alunos a capacidade de relacionar a teoria à prática, é indispensável que, em sua formação, os conhecimentos especializados que o professor está constituindo sejam contextualizados para promover uma permanente construção de significados desses conhecimentos com referência a sua aplicação, sua pertinência em situações reais, sua relevância para a vida pessoal e social, sua validade para a análise e compreensão de fatos da vida real. Esse tipo de relação entre teoria e prática, decisiva para o professor, pois ele terá de refazê-la com seus alunos, é relevante para qualquer situação de formação profissional: o aluno da licenciatura em matemática, por exemplo, precisa compreender o significado e a função dos vários anos de cálculo integral a que é submetido, mesmo que não se destine ao magistério da matemática. Mas há outra relação entre teoria e prática que é específica da formação do professor: a aprendizagem da transposição didática do conteúdo, seja ele teórico ou prático. A prática do curso de formação docente é o ensino, portanto cada conteúdo que é aprendido pelo futuro professor em seu curso de formação profissional precisa estar relacionado com o ensino desse mesmo conteúdo na educação básica. 103 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 técnica e arte, caracterizada por uma sensibilidade de artista referida como artistry. A tarefa é um saber-fazer sólido, teórico e prático, criativo a ponto de permitir ao profissional decidir em contextos instáveis, indeterminados e complexos, com zonas de indefinição, o que torna cada situação uma novidade que exige reflexão e diálogo com a realidade. O profissional reflexivo é também aquele que sabe como suas competências são constituídas, é capaz de entender a própria ação e explicar por que tomou determinada decisão, mobilizando para isso os conhecimentos de sua especialidade. A reflexão, nesse caso, identifica-se com a metacognição dos processos em que o profissional está envolvido nas situações de formação e exercício. Para a formação do professor, esse aspecto é crucial. A hipótese, nesse caso, é a de que ao compreender o processo de aprendizagem e constituição de competências, o futuro professor estaria mais preparado para compreender e intervir na aprendizagem de seu aluno. Para dar sustentação a esse processo, o futuro professor deveria aprender sobre desenvolvimento e aprendizagem de modo integrado aos demais conhecimentos do currículo de formação docente. A prática deverá estar presente desde o primeiro dia de aula do curso superior de formação docente, por meio da presença orientada em escolas de educação infantil e ensinos fundamental e médio ou de forma mediada pela utilização de vídeos, estudos de casos e depoimentos ou qualquer outro recurso didático que permita a reconstrução ou simulação de situações reais. O que hoje se entende por estágio deverá, sempre que as condições permitirem, ser equivalente à “residência” para a profissão médica: a culminância de um processo de prática que ocorre pelo exercício profissional pleno, supervisionado ou monitorado continuamente por um tutor ou professor experiente que permita um retorno imediato ao futuro professor dos acertos e falhas de sua atuação. Idealmente, no caso do professor de ensino público, o estágio poderia corresponder ao período probatório de ingresso na carreira docente, desde que o exame para o curso de formação satisfizesse aos requisitos formais do concurso público. A importância da prática decorre do significado que se atribui à competência do professor para ensinar e fazer aprender. Competências são formadas pela experiência, portanto esse processo deve ocorrer necessariamente em situações concretas, contextualizadas. Mas é preciso cuidar para que não exista nova fragmentação. O termo prá- A insistência com a relação teoria e prática decorre do conceito de competência: competência se constrói em situação; não é “conhecimento de”, muito menos “conhecimento sobre”, mas é conhecimento que pode ser mobilizado para agir e tomar decisões em situações concretas. Situações da vida real envolvem sempre um componente imponderável e imprevisível. No ensino, isso é mais do que verdadeiro. Como todos os profissionais, o professor precisa fazer ajustes permanentes em suas ações. Mas o professor, como o médico, o cirurgião, o performer de palco, muitas vezes lida com situações que não se repetem nem podem ser cristalizadas no tempo, aguardando um insight ou discernimento de nova alternativa de ação. Boa parte dos ajustes tem de ser feita em tempo real ou em intervalos relativamente curtos, minutos e horas, na maioria dos casos, dias ou semanas, na hipótese mais otimista, sob risco de passar a oportunidade de intervenção no processo de ensino e aprendizagem. Além do tempo, que limita a periodicidade dos ajustes, os resultados das ações de ensino são previsíveis apenas em parte. O contexto no qual se efetuam é complexo e indeterminado, dificultando uma antecipação exata do produto. A prática docente não tem a exatidão do experimento científico, e é por essa razão que seu ethos não é o do investigador acadêmico. Ao contrário: ensinar requer dispor e mobilizar conhecimentos para improvisar, intuir, atribuir valores e fazer julgamentos que fundamentem a ação mais pertinente e eficaz possível. Ensinar é uma atividade relacional: para co-existir, comunicar, trabalhar com os outros, é necessário enfrentar a diferença e o conflito. Acolher e respeitar a diversidade e tirar proveito dela para melhorar sua prática, aprender a conviver com a resistência, os conflitos e os limites de sua influência fazem parte da aprendizagem necessária para ser professor. Mas ensinar é também uma atividade altamente indeterminada ou altamente determinada por fatores que escapam ao controle de quem ensina. O projeto educativo e a ação cotidiana, a intenção e o resultado na sala de aula, na escola, no sistema e na política educacional sempre guardarão alguma distância, maior ou menor. Ensinar, portanto, exige aprender a inquietar-se e a indignar-se com o fracasso sem deixar destruir-se por ele. Essas competências traçam o perfil do profissional denominado reflexivo pela literatura recente (anexo): um profissional cuja atuação é inteligente e flexível, situada e reativa, produto de uma mistura integrada de ciência, 104 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA: UMA (RE)VISÃO... a opção – nem sempre bem aproveitada – de levar os alunos a aprender conteúdos e a aprender a ensinar conteúdos de modo integrado e polivalente. Essa qualidade é que se quer transportada pelo menos para a formação inicial, em nível superior, de professores de crianças de até 10 ou 11 anos de idade. Essa é razão mais forte para chamar essa modalidade de Curso Normal Superior, nome importante porque pleno do significado que tem para a educação o tradicional curso normal. Se a simetria invertida for levada a sério, a interdisciplinaridade é, em princípio, possível para todos os professores, e assim a resistência à interdisciplinariedade será vencida. Na verdade é muito plausível supor que a sensação de incompetência na especialidade do outro leve o professor a sentir-se ameaçado pelo trabalho interdisciplinar, o que, mais uma vez, recomenda uma etapa básica no curso de formação em que se recuperem ou consolidem os conhecimentos do ensino médio. O professor polivalente ou especialista, independentemente de sua área de especialidade, deve dominar a língua portuguesa, a matemática, a informática e as linguagens de expressão artística, pelo menos no mesmo grau previsto para os formados na última etapa da educação básica. Deve ser capaz de empregar as linguagens como recurso de auto-aprendizagem e de utilizá-las, em sua atividade docente, como meio de comunicação com o aluno e como recurso capaz de ajudar este último, dentro de sua área de especialidade, a organizar cognitivamente a realidade, construir o conhecimento e negociá-lo com os outros. Se é aceita a premissa de que o sentido da profissão de docente não é ensinar, mas fazer o aluno aprender, supõe-se que, para que o professor seja competente nessa tarefa, é importante dominar um conjunto básico de conhecimentos sobre desenvolvimento e aprendizagem. Esse domínio deve estar na aplicação dos princípios de aprendizagem na sala de aula; na compreensão das dificuldades dos alunos e no trabalho a partir disso; na contextualização do ensino de acordo com as representações e os conhecimentos espontâneos dos alunos; do envolvimento dos alunos na própria aprendizagem. A competência implica sempre a articulação de diferentes conhecimentos. No caso do professor, isso significa organizar informações de conteúdo especializado, de didática e prática de ensino, de fundamentos educacionais e de princípios de aprendizagem em um plano de ação docente coerente com o projeto pedagógico da escola; participar da elaboração deste último sabendo trabalhar tica na formação do professor tem três sentidos complementares e inseparáveis. O primeiro sentido refere-se à contextualização, relevância, aplicação e pertinência do conhecimento das ciências que explicam o mundo da natureza e o mundo social; em segundo lugar, identifica-se com o uso eficaz das linguagens como instrumento de comunicação e organização cognitiva da realidade natural e social; em terceiro, a prática tem o sentido de ensinar, referindo-se à transposição didática do conhecimento das ciências, das artes e das letras para o contexto do ensino de crianças e adolescentes em escolas de educação básica. A competência docente não pode prescindir do domínio em extensão e profundidade de um ou mais conteúdos curriculares previstos para os ensinos fundamental e médio. Deve compreender, aplicar e julgar a relevância, relacionar seus conceitos básicos e, como parte inseparável desse domínio de conteúdo especializado, saber fazer a transposição didática do mesmo para situações de ensino e de aprendizagem da educação básica, o que inclui, além de competências de gerência do ensino e da aprendizagem, discernimento para decidir quais conteúdos devem ser ensinados, em que seqüência e com que tipo de tratamento. Mas, independentemente de seu conhecimento especializado, é preciso lembrar que o professor em formação cumpriu a educação básica. Dela saiu, espera-se, tendo constituído conhecimentos, competências e habilidades básicas para ser um cidadão produtivo. Cidadania é antes de mais nada um exercício de polivalência. Essa polivalência ele pode e deve transferir para seu exercício profissional, abrindo-se portanto aos conhecimentos das demais áreas curriculares, interagindo com seus colegas para estabelecer relações entre sua especialidade e as outras disciplinas a fim de estar propício a praticar a interdisciplinaridade. Em outras palavras: uma vez constituída a capacidade de continuar aprendendo e a compreensão do mundo físico e social (objetivos do ensino médio, última etapa da educação básica), o professor deverá saber fazer relações significativas entre os conhecimentos especializados que adquiriu no curso de formação de nível superior e as informações das demais áreas ou disciplinas do currículo da educação básica, trabalhando assim de maneira interdisciplinar e favorecendo em seus alunos a compreensão das relações entre as várias áreas do conhecimento. Nessa perspectiva abre-se, com as novas diretrizes do ensino médio, uma grande oportunidade de trabalho criativo para os cursos desse nível escolar na modalidade normal. A vantagem dos cursos normais de nível médio é 105 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 ração docente. Concretamente, essa missão estará satisfeita se os projetos pedagógicos dos cursos propiciarem que a experiência de aprendizagem dos futuros professores se caracterize segundo os aspectos citados a seguir: - preparação para lecionar nos anos iniciais do ensino fundamental que inclua o domínio dos objetos de ensino: língua portuguesa, matemática, ciências naturais, história e geografia, pelo menos, o que implicará construir em nível superior o modelo do normal de nível médio aproveitando o conhecimento e a experiência dos formadores de professores que se situam nos cursos de licenciatura tradicionalmente dedicados à formação do especialista; em equipe; e estabelecer relações de cooperação dentro da escola e com a família dos alunos. A competência docente requer também mobilizar conhecimentos e valores em face da diversidade cultural e étnica brasileira, das necessidades especiais de aprendizagem, das diferenças entre homens e mulheres, de modo a ser capaz não só de acolher as diferenças, como de utilizá-las para enriquecer as situações de ensino e aprendizagem em sala de aula. O professor competente não se limita a aplicar conhecimentos, mas possui características do investigador em ação: é capaz de problematizar uma situação de prática profissional; de mobilizar em seu repertório ou no meio ambiente os conhecimentos para analisar a situação; de explicar como e por que toma e implementa suas decisões, tanto em situações de rotina como diante de imprevistos, revelando capacidade de metacognição dos próprios processos e de transferência da experiência para outras situações; de fazer previsões, extrapolações e generalizações a partir de sua experiência, e registrá-las e compartilhá-las com seus colegas. Finalmente, mas sem esgotar a relação das competências a serem desenvolvidas pelos cursos de formação, é importante mencionar que a profissionalização do professor depende de sua competência em fazer avaliações, realizar julgamentos e agir com autonomia diante dos conflitos e dilemas éticos de sua profissão, e de sua capacidade em gerenciar seu próprio desenvolvimento profissional por meio de um processo de educação continuada. - currículo de formação em uma (licenciaturas especializadas) ou mais (polivalentes) áreas de conhecimento definido em função das diretrizes curriculares da educação básica e dos currículos recomendados ou dos parâmetros curriculares adotados pelas diferentes instâncias (nacional, estaduais e municipais). A quantidade, seqüência, profundidade da formação do futuro professor em uma ou mais áreas de conhecimento deverão ter como critério aquilo que depois ele terá de ensinar a seus alunos e como deverá ensinar; - integração permanente e contínua entre teoria e prática desde o início do curso de graduação, em todas as disciplinas do currículo de formação profissional, inclusive naquelas tradicionalmente consideradas “alheias” à formação docente. Essa integração deve ser trabalhada como contextualização dos conhecimentos no mundo social e natural de modo a propiciar situações de aprendizagem significativa aos futuros professores, tanto nas áreas de conteúdo específico como nas áreas de fundamentos educacionais; PROPOSTA DE DIRETRIZES INSTITUCIONAIS: DIVERSOS LOCUS, UMA SÓ MISSÃO O arranjo institucional adequado para a formação de professores será aquele que conseguir construir, ao longo do curso, o perfil profissional docente que o país necessita para implementar a reforma da educação básica, consubstanciada em suas diretrizes curriculares nacionais, nos parâmetros curriculares recomendados pelo MEC e nas ações de implementação iniciadas por estados e municípios. É indispensável que os professores em preparação para lecionar nos anos iniciais do ensino fundamental dominem os objetos de ensino: língua portuguesa, matemática, ciências naturais, história e geografia. Portanto, será necessário que o modelo do normal de nível médio seja construído agora como nível superior. A diversidade curricular e de projetos pedagógicos será bem-vinda, observada essa missão dos cursos de prepa- - orientação para a pesquisa em ação ou pesquisa aplicada, com ênfase na relação entre teoria e aplicação, tanto dos conhecimentos de conteúdos ou objetos de ensino quanto dos conhecimentos pedagógicos. Mais ainda, ênfase nas investigações sobre os conteúdos ou objetos de ensino e seu ensino a crianças e jovens. Em outras palavras: investigação sobre conhecimento e transposição didática do conhecimento; - transdisciplinaridade da prática pedagógica e didática pelos demais conteúdos curriculares das disciplinas do curso de graduação para formação de docentes, desde o início do mesmo, para garantir que conteúdos e transposição didática desses conteúdos sejam aprendidos de modo integrado. Quer dizer, contextualização do conhecimen- 106 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA: UMA (RE)VISÃO... te, não envolvidos diretamente no aprendizado da sala de aula, incluindo atividades de elaboração de projetos pedagógicos, de diagnóstico, proposição e execução de programas, iniciativas de integração da escola na comunidade, prestação de serviços de natureza diversa às escolas da comunidade, trabalhos em equipe envolvendo planejamento, gestão e avaliação de projetos de ensino; to substantivo do curso de formação do docente, nas situações e problemas da educação básica, sejam elas de ensino e aprendizagem, sejam elas típicas de outras dimensões da vida escolar; - presença efetiva de disciplinas, recursos, laboratórios ou experiências que assegurem o uso das diferentes linguagens – a língua portuguesa, as linguagens artísticas, a informática, a matemática, as multilinguagens dos meios de comunicação – como recursos de construção do conhecimento no processo de formação profissional do professor; - a existência de um lugar permanente de aplicação dos conhecimentos da didática e da prática de ensino, que envolvem observação, preparação do plano de trabalho docente, regência supervisionada de classes de ensinos fundamental e médio, avaliação, atividades de orientação de alunos, coordenação e animação de trabalho em grupo, entre outras; - relação entre o conhecimento dos princípios que regem o desenvolvimento e a aprendizagem e o processo de construção de conhecimentos de uma ou mais áreas especializadas, de modo a assegurar ao futuro professor uma aprendizagem significativa e aplicada daqueles princípios e uma experiência permanente de metacognição para compreender como ocorre a própria aprendizagem; - residência escolar com efetiva participação, observação em sala de aula, gerenciamento do tempo e do espaço pedagógicos e dos recursos didáticos de apoio, durante tempo suficiente para enfrentar situações diferenciadas e imprevistas, sempre sob a supervisão da escola onde é realizado o estágio, a qual deverá participar da avaliação final do futuro professor. - ligação entre as várias áreas que fundamentam o conhecimento educacional a fim de contextualizar essas informações nas situações mais próximas dos futuros professores – a escola de sua comunidade, a escola que freqüentou, a política educacional local e regional –, desenvolvendo compreensão e aplicação de noções sobre a educação escolar, suas relações com a sociedade, a cultura, a vida política e econômica; - acesso, manipulação e prática com recursos de aprendizagem para si mesmo no curso de formação do docente e com os múltiplos recursos didáticos, tais como: livros, equipamentos, materiais de laboratório, existentes para dar suporte ao trabalho docente na educação básica; - integração entre os diversos campos de ciências humanas e sociais com o objetivo de compreender e aplicar conhecimentos sobre a realidade nacional brasileira, sua diversidade e complexidade social, cultural e étnica, contextualizados por observações reais ou estudos de casos nos quais a questão da diferença é importante, para desenvolver a capacidade de ser pró-ativo na construção de um clima acolhedor das variações e aproveitar a diversidade como recurso de enriquecimento das situações de aprendizagem de seus alunos; - participação em situações formais ou informais de aprendizagem que ampliem os horizontes da informação, produzam inquietude intelectual e facilitem o acesso à cultura acumulada, às manifestações culturais, aos dados sobre fatos e tendências do mundo contemporâneo e do comportamento individual e social, e sobre o desenvolvimento de tecnologias, a economia e a política no futuro professor; - conhecimento das condições de trabalho e carreira para ser capaz de compreender e atuar de modo autônomo frente aos conflitos, impasses e dilemas éticos próprios da profissão de docente e do processo educacional em geral; - interdisciplinaridade entre o ensino da didática e as áreas relacionadas à gestão e outros conhecimentos educacionais, a fim de garantir a superação da visão fragmentadora entre gestão e aspectos pedagógicos; - criação do projeto de formação de professores envolvendo a participação efetiva de escolas ou do sistema escolar público ou privado da região para assegurar: - assistência para a formulação e execução de um projeto de desenvolvimento profissional durante o curso de formação do docente e para a proposta de um plano de autogestão do desenvolvimento profissional por meio de educação continuada após a conclusão do curso de formação do docente; - a aplicação a situações escolares – reais, simuladas ou mediadas – de todos os conhecimentos que forem adquiridos ao longo do curso de formação do docen- 107 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 POR UM SISTEMA NACIONAL DE CERTIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIAS PARA PROFESSORES lecido um padrão de qualidade nacional, ninguém poderá ser professor se seu desempenho revelar competências profissionais inferiores ao padrão nacional; as diretrizes curriculares terão de assegurar princípios de organização pedagógica e curricular comuns para todo o país, qualquer que seja a região, o locus institucional ou a esfera federativa em que ocorra, aí incluídas as universidades, que, em sua autonomia, poderão dar cursos de formação de docente, mas que, no exercício do magistério, terão de oferecer aqueles que cumpram as diretrizes curriculares nacionais. O desenho e a implementação de um sistema desse tipo requerem investimentos financeiros e técnicos e fontes permanentes de financiamento que assegurem regularidade, transparência e independência das agências ou dos organismos avaliadores. Mas os benefícios resultantes na educação básica com procedimentos tecnicamente sustentáveis, institucionalmente transparentes e politicamente estáveis de avaliação de cursos e competências de formandos nos cursos de formação de docentes compensam os investimentos necessários. O maior benefício seria assegurar formação de melhor qualidade para os professores da educação básica das próximas décadas, dentro de princípios legais, diretrizes normativas e recomendações nacionais e estaduais. Com isso, pode-se esperar não só a melhoria da qualidade, como também a plena implementação da reforma da educação básica que se está iniciando. Um benefício secundário, mas significativo, seria eliminar do país os cursos de péssima qualidade e grande procura por parte de alunos que buscam a certificação fácil. A conclusão de cursos desse tipo, que poderiam até continuar existindo, não teria validade nem para a obtenção do diploma, nem para a obtenção de registro ou outra forma de autorização do exercício profissional. Um impacto mais controverso seria promover a seleção natural das instituições privadas e públicas que têm vocação e disposição para formar professores com seriedade e qualidade, e disponibilizar para essas instituições suporte financeiro e técnico que lhes permitisse alcançar esse objetivo ou aperfeiçoar seus resultados por meio de um sistema mais competitivo de acesso aos recursos. Reconhecem-se tanto os riscos reais de um sistema desse tipo quanto os fantasmas ideológicos que povoam o armário de velharias das hostes educacionais. Mas é inevitável perguntar se o receio de adotar uma solução tão evidente não é maior que os impasses políticos que ela causaria. Um país com um sistema de formação do Além do componente curricular propriamente dito, que diz respeito à organização pedagógica do curso de formação, é indispensável que o país pense ou repense os critérios de autorização dos cursos e de avaliação dos formandos e dos professores já em exercício. Essa política precisa ser de âmbito nacional, como são e devem continuar sendo os processos de autorização e avaliação de cursos. Como toda política federativa brasileira, é indispensável que ela seja liderada pela União e formulada com a participação dos diferentes níveis interessados. Vale dizer que uma política nacional de formação de professores precisa ancorar-se em consensos construídos com organismos normativos como o CNE e em coordenação de políticas como o Consed e a Undime, além das agências formadores e das representações não-sindicais do setor educacional e outros segmentos sociais interessados. O primeiro ponto sobre o qual deverá ser estabelecido o consenso refere-se ao caráter nacional da formação de professores. Só uma coesão firme em torno da formação dos docentes como interesse da nação poderá dar significado pleno, forte e eficaz às diretrizes, referenciais ou recomendações sobre o currículo e a organização pedagógico-institucional dos cursos de formação. O segundo ponto de consenso deverá ser o credenciamento de cursos e certificação de competências.6 É preciso que fique claro que, se a formação do professor deve ser uma política nacional, o credenciamento e a certificação também devem estar nesse âmbito, uma vez que os diplomas expedidos têm validade para todo o país. Esses acordos é que darão legitimidade às diretrizes curriculares e a qualquer proposta de avaliação de cursos ou egressos que venha a ser formulada. Independentemente do desenho específico desses componentes da política, tais acordos têm diversos significados: o país reconhece que a formação de professores precisa com urgência ser considerada uma política da União, como uma das prioridades da reforma e melhoria da educação básica. Como interesse nacional, terá de ser detalhada e implementada por organismos próprios, com participação indispensável das instituições formadoras, mas também dos gestores educacionais públicos e privados das três esferas responsáveis pela provisão de educação básica; uma vez estabe- 108 FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA: UMA (RE)VISÃO... docente de má qualidade, cuja única vantagem é a sustentabilidade financeira, precisa colocar a iniciativa privada para trabalhar pela educação básica de melhor qualidade. Do ponto de vista político, o processo de acordo sobre as diretrizes de formação podem servir de estímulo para a discussão – quem sabe mesmo algum novo acordo – sobre planos de carreira. Esse assunto ainda não se esgotou no país, e o problema do excesso de formalismo continua existindo na definição de planos de carreira nos quais títulos formais e tempo de serviço terminam tendo maior peso para promoção e melhoria salarial do que resultados obtidos na escola e com os alunos. Na educação profissional, a certificação de competências é considerada uma resposta para a velocidade da mudança nos processos e nas formas de organização do trabalho. Pode ser levada em conta para o ingresso e o percurso no mercado de trabalho, avaliando a flexibilidade e a laborabilidade ao longo do desenvolvimento profissional, quando existem exigências de periodicidade para certificar novas competências ou recertificar as já constituídas. No caso da carreira docente, esse processo poderá ser de grande impacto para aferir a atualização e a educação continuada do professor e, ao mesmo tempo, impor parâmetros para o ingresso, a progressão na carreira e a remuneração do docente. Numa proposta mais ousada, o curso de formação e o processo de certificação de competências poderiam ser considerados, a exemplo do que ocorre nos IUFM 7 franceses, estágios iniciais ou probatórios da própria carreira docente, com remuneração inicial ou não. Uma vez em operação um sistema nacional de credenciamento de cursos e certificação de competências com legitimidade e credibilidade, nada impediria que sistemas estaduais ou municipais adotassem os resultados produzidos nesse processo para organizar seus planos de carreira e até mesmo de ingresso, respeitadas, é claro, as exigências legais. de estudos e pesquisas, estudos pós-graduados no país e no exterior. Para implementar essas prioridades, no entanto, é preciso dispor de critérios claros, consensuais e objetivos. No que diz respeito ao fomento de estudos e pesquisas, é preciso estimular linhas de investigação, bolsas de estudo no país e no exterior, programas de pós-graduação ou de pesquisa, que focalizem o ensino como objeto de estudo. Tudo isso tem de estar articulado com as diferentes áreas do conhecimento, não com a pedagogia ou não apenas com esta última. Como já foi observado, a investigação didática – entendida em seu sentido mais literal, como o estudo das relações entre o domínio de um campo de saber e o ensino desse conhecimento a crianças e jovens que precisam construir sua cidadania e identidade – é uma temática inexplorada na pesquisa educacional brasileira. É preciso cobrar dos estudos pedagógicos que não limitem seu objeto de pesquisa à atividade do aluno e do professor, sem um sólido quadro teórico que leve em conta qual é e qual deve ser o conteúdo do ensino e, portanto, o conteúdo da formação do professor e da aprendizagem do aluno. Esse viés, responsável por um ativismo pedagogista que ilusoriamente induz a pensar que o ensino é moderno porque “ativo”, baseia-se num conceito limitado da didática. De fato, desde Erasmo na Idade Média, didática não é a escolha do método ou técnica de ensino, ainda que essa etapa final seja muito importante, mas o que a antecede: o estudo da relação entre aquilo que o professor sabe ou deve saber e aquilo que precisa ser aprendido pelo aluno. No Brasil, está bastante disseminada a concepção de que o conhecimento se constrói, e se constrói em situações socialmente determinadas. Essa teoria, que é em princípio benéfica para a educação, não deve, no entanto, substituir os estudos sobre como se organiza a situação de aprendizagem para que o aluno construa ou reconstrua o conhecimento. A ausência dessa segunda parte leva à falsa noção de que a situação de ensino precisa ser desestruturada ou inestruturada para ser construtivista, o que seria a negação da didática. No que diz respeito ao crédito educativo, a prioridade para os alunos que se dirigem ao magistério já é uma política adotada pelo MEC. Falta a ela, entretanto, um sistema de credenciamento dos cursos que condicionem o crédito educativo àquelas instituições públicas e privadas que satisfaçam os padrões básicos de qualidade definidos pelo acordo entre as diferentes instâncias educacionais. PRIORIDADE À FORMAÇÃO DE PROFESSORES NOS SISTEMAS DE FOMENTO E FINANCIAMENTO A melhoria qualitativa da profissionalização do professor da educação básica deve incluir ainda, além da formação inicial e da certificação de competências, mecanismos que priorizem a área de formação do docente nos programas de crédito educativo para estudantes, fomento 109 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 NOTAS 4. Só em 1999, o Inep realizou o Exame de Avaliação de Cursos (Provão) em algumas licenciaturas. E-mail da autora: [email protected] 5. Em muitas ocupações, os organismos que controlam o exercício profissional procuram zelar, a seu modo, pela qualidade dos cursos de formação. É o caso da Ordem dos Advogados – OAB e dos Conselhos Regionais de Medicina e de Engenharia – CRMs e Creas. Alguns chegam mesmo a fazer exames para autorizar a prática da profissão que representam. O tamanho, a complexidade e a fragmentação do setor educacional impediram a existência desse tipo de controle de qualidade de cursos e formados, feita por órgãos profissionais. Pela natureza do trabalho docente, o exame de seu exercício na educação básica constitui atividade que precisa de maior atenção do poder público, pois é o setor governamental quem absorve a maior parte dos professores formados nos ensinos médio ou superior. Redigido em junho 2000. 1. Não foi por acaso que a essa segmentação correspondeu uma de gênero, fazendo do magistério das séries iniciais do ensino fundamental uma atividade quase apenas feminina. 2. Embora existam exceções, a crítica se aplica à maioria dos cursos ou programas de educação inicial de professores. 3. Essa não foi a opção de muitos países europeus e latino-americanos. Nestes últimos, os Institutos de Formação Docente, como são comumente conhecidos no Uruguai, na Argentina, no Chile, entre outros, ou as Escolas Normais Superiores, tais como existem até hoje no México, foram as instituições encarregadas de formar professores de crianças e adolescentes. Diga-se mesmo que esse modelo institucional, no caso da França, existe não apenas para professores, como para outras áreas profissionais, como administração, engenharia, medicina, ficando reservada à universidade a preparação de cientistas, filósofos, mestres de letras com ênfase na investigação científica, como, aliás, foi a inspiração da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras no Brasil, primeiro locus institucional de ensino superior responsável pela formação de professores, que se retalhou em departamentos com a Lei n o 5.540/68. 6. Essa expressão não se refere a nenhuma proposta de modelo para o Brasil, uma vez que é algo novo a ser discutido e consensuado. A expressão credenciamento é uma tentativa de tradução do termo accreditation, tal como usado pelo National Council of Accreditation of Teacher Education (NCATE). Já o termo certificação de competência foi tomado do parecer que estabelece as diretrizes curriculares para a educação profissional e pode referir-se ao tipo de atividade desenvolvida pelo National Board of Professional Teaching Standards (NBPTS) e outros órgãos semelhantes, como o Office of Standards in Education (OFSED), da Inglaterra. 7. Instituts Universitaires de Formation de Maîtres. 110 MODERNIDADE PEDAGÓGICA E MODELOS DE FORMAÇÃO DOCENTE MODERNIDADE PEDAGÓGICA E MODELOS DE FORMAÇÃO DOCENTE MARTA MARIA CHAGAS DE CARVALHO Professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade da PUC-SP e Pesquisadora do Centro de Memória da Educação da USP Resumo: O artigo objetiva discernir, na proliferação dos discursos que, no Brasil, a partir do final do século XIX e nas primeiras quatro décadas do século XX, buscaram legitimar-se como saber pedagógico de tipo novo, moderno, experimental e científico, estilos distintos de organização do campo dos saberes representados como necessários à prática docente. Compreendendo o impresso destinado ao uso de professores como dispositivo de constituição desse campo, distingue dois modelos de formação docente inscritos na configuração material de revistas, livros e coleções que circularam no período: a “Caixa de Utensílios” e a “Biblioteca”. Palavras-chave: pedagogia moderna; história da educação; ensino no Brasil. A partir da segunda metade da década de 20, são evidentes os sinais de que os modelos pedagógicos que vinham balizando as iniciativas de institucionalização da escola no Brasil, desde o final do século XIX, haviam esgotado a sua capacidade de normatizar as práticas docentes. Esse processo de corrosão foi marcado pelas motivações políticas, sociais e econômicas que constituíram as plataformas políticas e pedagógicas dos movimentos que Jorge Nagle chamou, em seus estudos sobre os anos 20, de entusiasmo pela educação e otimismo pedagógico. Dar conta desse processo implica, por isso, relacionar as mutações teóricas e doutrinárias produzidas no campo normativo da pedagogia às questões técnicas e políticas postas no processo de institucionalização da escola. Compreender esse processo de esgotamento de um modelo pedagógico é questão instigante que exige o concerto de uma pluralidade de perspectivas de análise. Sem pretender enveredar, neste texto, pela complexidade das questões que o tema suscita, procura-se recortar nele alguns tópicos, levantando hipóteses que permitam mapear esse processo e rastreando o impacto gradativo e nem sempre convergente de deslocamentos teóricos e doutrinários que determinaram o solapamento de cânones pedagógicos até então representados como portadores do novo em matéria pedagógica, assim como a sua substituição por um outro modelo.1 Toma-se, para tanto, o caso paulista. Nas cinco primeiras décadas republicanas, dois modelos pedagógicos concorrentes configuram-se no Estado de São Paulo, pondo em cena estratégias diferenciadas de formação de professores. Na proliferação dos discursos que os articularam, dois estilos distintos de normatização das práticas escolares buscaram legitimarse como saber pedagógico de tipo novo, moderno, experimental e científico, produzindo estratégias concorrentes de configuração do campo dos saberes representados como necessários à prática docente. No campo normativo da pedagogia moderna, que animou as iniciativas de institucionalização da escola no Estado de São Paulo a partir do final do século XIX, a pedagogia é arte de ensinar. Essa pedagogia estrutura-se sob o primado da visibilidade, propondo-se como arte cujo segredo é a boa imitação de modelos. Diferentemente, a chamada pedagogia da Escola Nova, que começa a se difundir no país em meados da década de 20, pretende subsidiar a prática docente com um repertório de saberes autorizados, propostos como os seus fundamentos ou instrumentos. É no bojo das discussões que se desencadeiam sobre as medidas adotadas pela Reforma Sampaio Dória, em 1920, que começa a ganhar corpo em São Paulo a dissidência no campo normativo da pedagogia. As normas pedagógicas que vinham até então balizando o processo de institucionalização da escola paulista são postas em 111 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 Na lógica que preside a institucionalização do modelo escolar paulista, a pedagogia moderna é entendida como arte de ensinar, em que a prática da observação modula a relação ensino-aprendizagem, instaurando o primado da visibilidade (Rodrigues, 1930). A Escola Modelo anexa à Escola Normal é instituição nuclear. Com moderno e profuso material escolar importado e prédio apropriado, tinha como função a criação de bons moldes de ensino.2 Nela, os futuros mestres podiam aprender a arte de ensinar vendo “como as crianças eram manejadas e instruídas”. Desse modo de aprender centrado na visibilidade e na imitabilidade das práticas pedagógicas, esperava-se a propagação dos métodos de ensino e das práticas de organização da vida escolar. Procedimentos de vigilância e orientação, acionados nos dispositivos de Inspeção Escolar, produziriam a uniformização necessária à institucionalização do sistema de ensino que a propagação do modelo pretendia assegurar. Dispositivos de produção de visibilidade de práticas exemplares, demonstrações na Escola Modelo, Relatórios de Inspetores e Anuários do Ensino testemunham o intento propagador e unificador da Diretoria da Instrução no processo de institucionalização do sistema escolar. Dessa estratégia republicana, resulta o modelo paulista que será exportado para outros estados da Federação: ensino seriado; classes homogêneas e reunidas em um mesmo prédio, sob uma única direção; métodos pedagógicos modernos utilizados na Escola Modelo anexa à Escola Normal e monumentalidade dos edifícios em que a instrução pública se faz signo do progresso. Viagens de estudo ao Estado de São Paulo e empréstimo de técnicos passam a ser rotina administrativa na hierarquia das providências com que os responsáveis pela instrução pública dos outros estados tomam iniciativas de remodelação escolar na Primeira República. Para delinear o campo doutrinário da pedagogia que animou as primeiras iniciativas republicanas em São Paulo, é oportuno referir o relato sobre as práticas de sala de aula que faz o diretor da Escola Normal, Gabriel Prestes, em 1896. Em seu Relatório, há um repertório de convicções pedagógicas partilhadas que se organizam e dispõem: crença na eficácia inconteste dos processos de ensino intuitivo; concepções acerca da natureza infantil formuladas nos marcos de uma psicologia das faculdades mentais; aposta na pedagogia moderna como corpus de saberes e de instrumentos metodológicos aptos a viabilizar a escola de massas, organizando o ensino simultâneo em classes numerosas. É no ponto de convergência dessas convicções e desses propósitos que o exercício escolar questão. Nessa luta de representações, duas posições se opõem, reivindicando para si, cada uma delas, o estatuto de pedagogia moderna e nova, porque ativa. Em meados da década, começa a se articular a posição que reivindica para personagens como Lourenço Filho e Fernando de Azevedo o estatuto de porta-vozes do movimento de renovação educacional que se processava no país e no exterior. Na disputa, uma questão ganha um contorno peculiar: diante das novas idéias pedagógicas que começavam a se difundir no país, que lugar atribuir às iniciativas de modernização pedagógica que, desde o início do século, vinham institucionalizando o modelo escolar paulista? As posições em antagonismo coexistem nas décadas de 20 e 30. A disputa é no sentido de dificultar o trabalho historiográfico, embaralhando a questão, já que muitos dos atores nela envolvidos movimentaram-se na contenda de modo muito fluído. Conhece-se muito bem a herança que a coexistência dessas duas posições legou no pastiche pedagógico que permeia a escola de todos nós. Porém, sabe-se muito pouco acerca das acomodações políticas e pedagógicas que produziram tal herança. Isso porque uma determinada memória foi legada pelos vencedores, que assenhorando-se do título de renovadores da educação, conseguiram expelir para o limbo da velha educação ou da pedagogia tradicional não somente os seus opositores, mas também muitos de seus precursores e aliados. Entretanto, encontraram forte resistência. Os seus opositores reivindicaram para si a herança das tradições pedagógicas institucionalizadas pelos republicanos históricos, erigindo-se em baluartes de defesa do modelo escolar paulista. Para compreender os termos dessa disputa, é interessante, aqui, remeter-se ao campo normativo da pedagogia moderna, que balizou as primeiras iniciativas republicanas de institucionalização da escola em São Paulo. Tão logo proclamada a República, os governantes do Estado de São Paulo, representantes do setor oligárquico modernizador que havia hegemonizado o processo de instauração da República, investem na organização de um sistema de ensino modelar. É assim que a escola paulista, estrategicamente, constituiu-se signo do progresso que a República instaurava; signo do moderno que funcionava como dispositivo de luta e de legitimação na consolidação da hegemonia desse Estado na Federação. O investimento é bem-sucedido e o ensino paulista logra organizar-se como sistema modelar, em duplo sentido: na lógica que preside a sua institucionalização; e na força exemplar que passa a ter nas iniciativas de remodelação escolar de outros Estados. 112 MODERNIDADE PEDAGÓGICA configura-se como a base de estruturação do ensino na Escola Modelo. É em função desses exercícios que uma rotina escolar se estabelece; que o tempo se organiza como horário; que um percurso de aprendizagens se estabelece como programa disciplinar de estudos e como currículo; que as classes de alunos adquirem um perfil e que o espaço da sala de aula se estrutura. Na confluência dessas convicções e propósitos, o exercício escolar é dispositivo que permite alcançar um duplo objetivo: instruir e desenvolver as faculdades naturais da criança. É assim que, no Relatório, uma engenharia minudente estrutura o dia-a-dia escolar, dosando os exercícios, segundo critérios de medida das faculdades mentais das crianças e compondo-os de maneira a se valer de sua natural atividade.3 É oportuno relacionar essa engenharia às concepções pedagógicas que propunham a arte de ensinar como boa cópia de modelos. Falar aqui em cópia não tem o sentido pejorativo que iriam mais tarde lhe emprestar os seus críticos, no intuito de instaurar um novo paradigma de modernidade pedagógica. Falar aqui em cópia de modelos é falar em um tipo de atividade que, partindo da observação de práticas de ensinar, é capaz de extrair analiticamente os princípios que as regem e de aplicá-los inventivamente. Como prescrevia um Manual que, em 1911, o então diretor geral do Ensino em São Paulo, Oscar Thompson, mandaria traduzir e editar – A Arte de Ensinar: “É claro que o sucesso no ensino não depende de se copiar servilmente o método mais aperfeiçoado, mas de se apreender os princípios da arte de ensinar e de aplicálos inteligentemente na prática” (White, 1911). A centralidade do exercício escolar no campo normativo da pedagogia indicia a lógica que preside a organização de impressos que, como a revista A Eschola Pública, estruturam-se como caixas de utensílios para uso de professores, com seções de pedagogia prática compostas por roteiros ou modelos de lições. Nessa lógica, o exercício escolar é espécie de pauta musical que modula, dosa, aprimora e imprime ritmo à natural atividade da criança. Nela, todo um repertório de convicções pedagógicas converge na organização do impresso como caixa de utensílios destinados a promover a atividade do aluno regrada pelo exercício. A arte de ensinar, tal como a concebia essa pedagogia moderna, é, assim, pedagogia prática. Nessa pedagogia das faculdades da alma, ensinar é prática que se materializa em outras práticas; práticas nas quais a arte de aprender formaliza-se como exercício de competências bem determinadas e observáveis em usos escolarmente deter- E MODELOS DE FORMAÇÃO DOCENTE minados. Como artes de saber-fazer-com, ensino e aprendizagem são práticas fortemente atreladas à materialidade dos objetos que lhes servem de suporte. As práticas que se formalizam nos usos desses materiais guardam forte relação com uma pedagogia em que tal arte é prescrita como boa imitação de um modelo. Os incontáveis roteiros de lições divulgados em revistas dirigidas a professores têm as marcas dessa concepção pedagógica. Também a minudência modelarmente prescritiva dos assuntos arrolados nos manuais de pedagogia que compendiam as artes de ensinar as mantém. No âmbito dessa pedagogia, ensinar a ensinar é fornecer esses modelos, seja na forma de roteiros de lições, seja na forma de práticas exemplares cuja visibilidade é assegurada por estratégias de formação docente, preferencialmente dadas a ver em Escolas Modelo, anexas às Escolas Normais. Sob o impacto de redefinições teóricas e doutrinárias de distinta extração, essa pedagogia como arte de ensinar foi sendo gradativamente solapada por iniciativas cujo denominador comum foi a pretensão de construir uma pedagogia científica. Talvez uma das mais ambiciosas e, por isso, mais caracterizada iniciativa de implantação de práticas então tidas como científicas no campo da Pedagogia tenha-se dado com a instalação, em 1914, do Laboratório de Pedagogia Experimental, no Gabinete de Psicologia e Antropologia Pedagógica, anexo à Escola Normal Secundária de São Paulo A instalação do gabinete foi justificada por Oscar Thompson, então diretor da Escola Normal. Teria o governo do Estado entendido “a conveniência de se ampliarem os estudos teóricos e práticos da pedagogia” e, por isso, havia criado o gabinete, além de uma Cadeira de Psicologia Aplicada à Educação. O objetivo da nova instituição pretendia ser o mesmo de similares estrangeiras, em especial norte-americanas: o “estudo científico” da infância, entendido como “exame metódico de todas as energias da criança” (Thompsom, 1914:17-18). O processo de corrosão gradativa da concepção da pedagogia como arte de ensinar não esteve, no entanto, sempre atrelado às práticas de laboratório e à pretensão de construir uma pedagogia científica com elas. Como espécie de efeito colateral dessa pretensão, foi-se produzindo um outro tipo de deslocamento: a autonomização dos métodos de ensino. No campo da pedagogia entendida como arte de ensinar, o método não era dissociável da prática, das artes de fazer, do que decorria uma política de formação docente centrada na produção de condições materiais que favorecessem a imitação inventiva de modelos. 113 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 ganizando-se como caixa de utensílios e fornecendo modelos de lições e materiais para uso do professor. Também alguns manuais, recheados de “coisas para usar” ou de preceitos minudentemente práticos – por exemplo, os de autoria de João Toledo, Didática e Planos de Lição, publicados, respectivamente, em 1930 e 1934 –, são testemunhos dessa mesma longevidade. Perde-se nestes impressos, no entanto, a relação forte que essas modalidades de estruturação do impresso mantinham com as práticas de formação docente tal qual se configuraram no âmbito da pedagogia que animou as primeiras iniciativas republicanas em São Paulo. No Inquérito promovido por Fernando de Azevedo, em 1926, são várias as evidências dessa luta de representações que cindia o campo educacional paulista. Entre muitas, as respostas de Lourenço Filho são especialmente enfáticas. Perguntado sobre o modo como a Reforma de 1925 tratava da “questão de assistência técnica e da inspeção e da fiscalização do ensino” , responde: “Quanto à assistência técnica, louvo com o maior entusiasmo a idéia das medidas que a atual administração tomou a respeito, inspetores especializados e uma revista para professores. Se louvo a idéia, lamento, porém com sinceridade, e não sem tristeza, a sua execução. A ‘Revista Escolar’ parece uma pilhéria proposital ou obra de sabotagem” (Azevedo, 1926:148). A cisão teria continuidade. Os episódios seguintes são pouco conhecidos, mas dignos de nota. Embora não seja possível tratar deles aqui, vale a pena mencionar dois deles: as rixas entre a Sociedade Paulista de Educação e a Diretoria Geral da Instrução Pública que se manifesta de modo inequívoco na disputa acerca da responsabilidade pela organização da III Conferência Nacional de Educação;4 e a polêmica entre Sud Menucci e Renato Jardim em torno da escola paulista. Demarcando posições na disputa política pelo controle do sistema escolar paulista, esses episódios põem em cena a questão pedagógica que atravessava a disputa: o que era escola ativa? No entrecruzamento das posições que reivindicavam o estatuto de pedagogia moderna e nova, porque ativa, a questão ganhava um contorno peculiar: diante das novas idéias pedagógicas que se difundiam no país, provocando debates e gerando iniciativas de reforma escolar em outros Estados, que lugar atribuir à velha escola paulista que tantos anos de glória havia conhecido, impondo-se no país como modelo de modernidade pedagógica? É dessa disputa que a chamada pedagogia da escola nova emerge vencedora, reivindicando para si o monopólio do novo e do moderno e pro- Com toda a precaução que a matéria exige, é possível sustentar que a autonomização dos métodos que marca o solapamento dessa pedagogia como arte de ensinar deuse em duas direções distintas, mas complementares: a de um progressivo didatismo; e a de uma hipervalorização das “ciências” da educação como fundamentos da prática docente. Nesse processo, o impresso pedagógico didatizase em uma proliferação de discursos sobre os métodos ou sobre os fundamentos da prática docente. Um dos marcos inaugurais desse processo de autonomização dos métodos talvez tenha sido o livro de Sampaio Dória, Princípios de Pedagogia, publicado em 1914. Nesse livro, o então professor da disciplina Psicologia, Pedagogia e Educação Cívica, da Escola Normal Secundária, estava interessado em justificar o emprego do “método intuitivo” – peça central nas estratégias republicanas de constituição de um sistema de educação pública modelar em São Paulo –, demonstrando tratar-se de método fundado no princípio de que a educação deveria recapitular, no indivíduo, o processo de evolução da humanidade. Esse tipo de esforço demonstrativo enraizava-se na tradição positivista que tanta penetração havia tido, desde o final do século XIX, na Escola Normal Secundária de São Paulo. Dispositivo de atrelamento da pedagogia ao evolucionismo spenceriano, a “lei da recapitulação abreviada” funcionava também, no livro de Sampaio Dória, como solapamento da pedagogia como arte, enraizando a prática docente no campo discursivo das prescrições metodológicas deduzidas de fundamentos científicos. A tradição pedagógica de que Princípios de Pedagogia constitui-se um marco é produzida também pela ruptura que a chamada Reforma Sampaio Dória provocou na tradição anterior, abalando certezas e rotinas estabelecidas e produzindo polarizações nas discussões sobre o modelo escolar paulista. Porém, é somente a partir do final dos anos 20 que a pedagogia como arte de ensinar dá sinais inequívocos de que havia esgotado a sua capacidade de balizar a prática escolar no Estado de São Paulo. Índices da permanência ou ruínas de estratégias historicamente datadas de organização do campo da pedagogia, livros e revistas pedagógicas mantêm, em todo o período, as marcas dessa pedagogia como arte de ensinar, concorrendo com outros impressos, organizados segundo outras regras. A Revista do Ensino e a Revista Escolar são testemunhos da longevidade de um modo de conceber e organizar o campo normativo da Pedagogia, que guarda forte relação com a concepção da pedagogia como arte de ensinar, or- 114 MODERNIDADE PEDAGÓGICA duzindo, pejorativamente, os saberes pedagógicos concorrentes como pedagogia tradicional. E MODELOS DE FORMAÇÃO DOCENTE las. Como se ensina é um desses livros, de autoria de Sampaio Dória, em que é proposto o método de intuição analítica. Nos mesmos moldes da iniciativa paulista, Lourenço Filho organiza, ainda, a Escola Modelo, anexa à Escola Normal. Comentando a Reforma, na Revista Nacional,6 um colaborador de Lourenço Filho assim descreve essa escola: “Instalada com material todo vindo de S. Paulo, e orientada por um professor paulista (...), o novo estabelecimento tornou-se, em pouco tempo, comparável a um grupo escolar do grande Estado. Foi aí que primeiro se introduziram as novas práticas escolares (a leitura analítica, o cálculo concreto, o ensino simultâneo da leitura e da escrita, o desenho do natural, o ‘slodj’, a cartografia, a ginástica sueca, etc.), práticas essas que, nesse instante, se irradiam por todos os grupos escolares da capital e do interior, como os clarões de uma nova era” (Craveiro, 1923:37). Em 1930, Moreira de Souza, personagem muito atuante no movimento educacional que se aglutinava em torno da Associação Brasileria de Educação, realiza no Ceará uma nova Reforma da instrução pública. Reivindicando para as iniciativas da Reforma o monopólio do novo em matéria pedagógica, o reformador promove a desqualificação das iniciativas anteriores de remodelação das escolas cearenses, não poupando João Hippolyto de Azevedo e Sá, diretor da Escola Normal de Fortaleza, que havia sido um dos principais colaboradores de Lourenço Filho na Reforma de 1922.7 É nesse contexto de disputa entre modelos pedagógicos concorrentes que se inscrevem as questões formuladas a Lourenço Filho, em 1930, por João Hippolyto: a Reforma da Instrução Pública promovida em 1922 havia se pautado nos preceitos da pedagogia da escola nova? Ou teria sido ela concebida nos marcos da pedagogia tradicional? Promovera ela a escola ativa? João Hippolyto já era diretor da Escola Normal quando Lourenço Filho foi alçado ao estatuto de reformador da instrução pública cearense. Em cartas de 1930, o velho diretor reclamava da desqualificação de que vinha sendo vítima. A indignação de João Hippolyto era justificada, afinal, não havia sido ele, João Hippolyto de Azevedo e Sá, o colaborador de Lourenço em uma reforma vazada nos mesmos princípios que norteavam a nova reforma? Cautelosa, a resposta de Lourenço Filho espraia-se por inúmeros esclarecimentos e sugestões, na correspondência que dirige ao velho diretor da Escola Normal. Nela, apesar de toda a cautela, explicita-se o fosso existente entre LOURENÇO FILHO E A NOVA ESCOLA ATIVA Os múltiplos contatos de educadores brasileiros com o movimento pela escola nova que se desenrolava na Europa e nos Estados Unidos, no período entre-guerras, forneceram aos atores do movimento de renovação educacional brasileiro o acesso a um cardápio alargado de possibilidades de intervenção pedagógica. A determinação do crivo que selecionou as proposições pedagógicas difundidas deve levar em conta que, no Brasil, o processo de difusão da pedagogia da escola nova deu-se no âmbito do processo de institucionalização do forma escolar.5 Diferentemente da Europa, onde o movimento pela Escola Nova articulou-se como crítica de um modelo escolar plenamente instituído, no Brasil esse movimento defrontou-se com a situação-problema de sua não implantação na maior parte do país. Em muitas das reformas dos sistemas públicos de ensino que os chamados renovadores educacionais empreenderam nos anos 20 e 30, é essa situação-problema que determina a busca dos recursos técnicos, científicos e doutrinários que a nova pedagogia tornava disponíveis. Nas apropriações que foram feitas desses recursos, estava ainda em jogo a produção de condições materiais e técnicas para implantar o modelo escolar que, em outros países, tinha viabilizado a escola de massas: seriação, classes homogêneas, ensino simultâneo, regulamentação e uniformização do tempo escolar, enquadramento disciplinar, organização do espaço escolar, etc. Na produção dessas condições, a redefinição do conceito de atividade deveria ter um papel central, fazendo com que as práticas escolares passassem a ser reguladas por normas distintas daquelas que prescreviam a arte de bem ensinar como boa cópia de modelos e a arte de bem aprender como exercício das faculdades da alma. A questão pode ser abordada no contexto das reformas dos sistemas de Instrução Pública promovidas, por todo o país, com o concurso dos chamados renovadores da educação, nas décadas de 20 e 30. Tome-se o caso do Estado do Ceará, onde, em 1922, a pedido do governo cearense, Lourenço Filho é enviado de São Paulo, por indicação de Sampaio Dória, como técnico capaz de empreender a Reforma do sistema de ensino. A Reforma pretendeu adaptar ao Ceará o modelo escolar paulista. De São Paulo, Lourenço Filho manda vir mobiliário, materiais e livros, distribuindo-os pelas esco- 115 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 a nova e a velha educação; entre a pedagogia moderna, que fizera a glória do modelo escolar paulista, e a pedagogia da escola nova, que vinha tomar o seu lugar. Escrevia Lourenço: “A princípio todo o ensino era verbal. Acreditava-se na magia da palavra, supunha-se mesmo que ela transmitisse as idéias. Foi ainda um pouco o ensino que aí eu encontrei (… ). Depois do movimento filosófico da Renascença, apareceu a nova concepção de formação genética do espírito: nada está na inteligência que não tivesse passado pelos sentidos. Como conseqüência direta, o ensino de coisas, pelas coisas, ou intuitivo. Quanto tempo levou a implantar-se? Séculos e séculos, e ainda não dominou todas as escolas. Do começo deste século para cá, essa concepção tende a ser substituída por outra, a de uma filosofia pragmatista (a verdade é a utilidade), e de uma filosofia vitalista (além das impressões sensoriais há um quid, em cada indivíduo, que plasma as idéias a sua feição). O próprio pensamento para essa escola é ação: ação reduzida, mas ação. Ação reduzida e sistematizada pela linguagem, mas atividade. Daí, como conseqüência, não se pretender ensinar mais tão somente pela ação das coisas, mas pela ação do indivíduo, único capaz de organizar o espírito solidamente, para o seu fim normal: dirigir a ação.”8 A longa explanação que Lourenço Filho faz ao amigo, em tom professoral, é acompanhada de alguns esclarecimentos: as idéias nela contidas estavam sendo desenvolvidas em um “livrinho”, que dizia estar “compondo”, para “orientação do professorado” de São Paulo, pois, segundo o missivista, “a mesma confusão” que grassava no Ceará estaria alastrando-se entre os professores paulistas. Moldar a escola segundo as novas teorias pragmatistas e vitalistas era tarefa a que – prosseguia Lourenço Filho – se haviam lançado diversos “sistemas” de pedagogia que vinham sendo criados, alguns mais avançados, outros menos. O sistema Decroly, por exemplo, era um destes. Ele poderia ser utilizado pelo amigo, sem que fossem necessárias grandes transformações nas rotinas da escola pública. Aplicá-lo não era ainda realizar a “escola ativa”, proposta mais avançada, cuja aplicação estrita às escolas brasileiras envolveria transformações de tal monta que Lourenço as desaconselhava. Para que o amigo compreendesse bem a questão, Lourenço lhe enviava “um livrinho de Ferrière, o pai dessa escola”, que ele havia feito “traduzir e publicar”.9 Entretanto, a questão colocada por João Hippolyto exigia maiores explicações e a correspondência alongava-se em novas explanações. As “idéias de renovação”, escrevia, eram “mais extensas”, não se circunscrevendo apenas a questões relativas à “técnica de ensinar” e à “ação do mestre”. Elas incluiriam também “uma mais perfeita significação social da escola”, a sua “adaptação ao meio físico e social”. Disso a reforma do Ceará havia tratado, o que era “bem visível no livrinho do Craveiro, composto sob sua sugestão”. As novas idéias incluíam também “uma composição mais perfeita das classes, pelo exame mental das crianças pelos testes”. Outras coisas havia ainda para dizer ao velho diretor da Escola Normal, mas, não querendo “maçá-lo, indo além”, Lourenço anunciava a expedição pelos correios de “vários livrinhos”, que tinha “traduzido e feito traduzir”. Esses “livrinhos” e mais aquele que estava “compondo” – Cinco lições sobre a escola nova 10 – iriam ser de muita utilidade para o velho diretor. Havia, “indiscutivelmente”, segundo Lourenço, “uma mudança a fazer-se no espírito do professorado quanto à filosofia do ensino”, mas isso não poderia ser conseguido “de uma só vez”. Dependeria de uma “lenta propaganda, de estudos e de experimentação”. As explanações dadas a João Hippolyto são complementadas por outras, compostas em tom menos professoral, desenvolvidas em carta dirigida a Moreira de Sousa. O tom da carta é, agora, de leve censura pela precipitação de algumas medidas de reformulação do ensino cearense tomadas pelo diretor geral, seu companheiro de militância na Associação Brasileira de Educação. Censura, também, ao modo como este vinha angariando inimigos e afastando possíveis colaboradores. A carta era uma resposta a uma consulta de Moreira de Sousa e uma cópia dela foi enviada a João Hippolyto. Censurando a inépcia de Moreira de Sousa, Lourenço queria provar-lhe, “por fatos”, que a reforma de 22 havia deixado no Ceará “os germens do ensino ativo”. Sugeria que o amigo lesse dois discursos que havia feito por ocasião da Reforma, citava algumas passagens desses discursos e falava das iniciativas que havia tomado, concluindo: “Digamos que eu não tenha razão. Digamos que a reforma não tenha feito senão ensino intuitivo. Isso já não seria pouco (…) Mas o ensino ativo é contra o ensino intuitivo? Não. É a lição dos mestres, e aliás, de bom senso. Na escola ativa a criança precisa agir. Mas agir sobre o quê? Sobre realidades, evidentemente, sobre coisas. (…) Nos seus artigos de polêmica, vejo que malsina demais o ensino intuitivo. Será talvez exagero consciente, para atrair a atenção para as novas idéias. Mas é uma concepção que não só desnorteia os professores, como, no caso, redunda em injustiça que o amigo certamente não desejou cometer” (Cavalcante, 1998:199). 116 MODERNIDADE PEDAGÓGICA E MODELOS DE FORMAÇÃO DOCENTE truções diárias, lêem muito, sabem o seu tanto de psicologia e ganham de 600$ a 1.000$. Grandes óbices aí encontrará na dificuldade até de não poderem os professores adquirir livros. A escola ativa exige mestres muitos cultos, muito capazes, com espírito criador, com penetração psicológica. Senão é substituir uma rotina por outra” (Cavalcante, 1998:200-201). A crítica à inépcia de Moreira de Sousa é incisiva. Nela, não é o mesmo tom professoral das explanações da carta a João Hippolyto que demarca o fosso entre a nova escola ativa e aquela fundada nos exercícios ativos do ensino intuitivo. Escreve Lourenço: “Você não dissimula que a escola ativa, que prega com tanto ardor, é um combate à reforma de 22 e ao ensino intuitivo. Ora, há nisso uma grave injustiça e, desculpe que lhe diga, um pouco de equívoco acerca do que seja a filosofia do ensino ativo. (...) Não se iluda. Ter programas de centro de interesse, fazer excursões e outras práticas mais ou menos ativas, sem mudança porém da mentalidade do professor e sem compreensão da nova psicologia do comportamento (o behaviorismo dos americanos) pode degenerar em anarquia e diminuição do rendimento do ensino. Será substituir uma rotina por outras, com essa desvantagem: da mais velha sabe-se o que é e o que dá. Da nova ninguém o pode afirmar”(Cavalcante, 1998:200). Diversas no tom, as cartas dirigidas a João Hippolyto e a Moreira de Sousa são complementares nos conceitos que emitem, coincidindo no juízo de que a nova escola ativa propunha-se, ao mesmo tempo, como continuidade e como ruptura relativamente às práticas do ensino intuitivo. Elas discrepam, no entanto, em um ponto. Na carta a Moreira de Sousa, Lourenço afirma não haver escola ativa “sem mudança (…) da mentalidade do professor e sem compreensão da nova psicologia do comportamento (o behaviorismo dos americanos)”. Já na correspondência a João Hippolyto, o fosso existente entre a velha e a nova escola ativa é explicado pelo impacto da “filosofia pragmatista (a verdade é a utilidade) e de uma filosofia vitalista (além das impressões sensoriais há um quid, em cada indivíduo, que plasma as idéias a sua feição)”. Qualquer que seja o entendimento de Lourenço Filho acerca das teorias psicológicas e filosóficas em jogo, é pertinente chamar a atenção para a situação discursiva que marca diferencialmente as duas enunciações. Na carta a Moreira de Sousa, tratava-se de articular uma crítica apontando para o que, do ponto de vista da fundamentação teórica, estava em jogo, sem supor que o seu interlocutor desconhecesse as mais modernas tendências no campo da As censuras que Lourenço Filho faz a Moreira de Sousa não atingem toda a obra pedagógica do diretor da Instrução Pública cearense. Distinguindo entre escola nova e escola ativa, diz na mesma carta: “Obra notável que V. está fazendo é a tentativa de maior socialização da escola. Isso sim, é coisa que ninguém de bom senso pode discutir. Os centros de pais e mestres e as cooperativas escolares são uma obra notável. É escola nova e da boa. O eixo da escola nova é exatamente a maior socialização do trabalho escolar. Escola ativa é apenas um de seus capítulos” (Cavalcante, 1998:200). Na polêmica entre o diretor da Escola Normal de Fortaleza e o novo diretor da Instrução Pública, contrapunham-se representações sobre a escola ativa. Os limites entre as novas propostas pedagógicas que a incensavam e as já velhas proposições sobre a atividade do aluno, centradas no exercício de suas faculdades, eram ao mesmo tempo tênues e nitidamente demarcados. Tênues porque percebê-los exigia conhecimento das mais recentes descobertas do campo da psicologia, assim como uma adequada compreensão das conseqüências desse conhecimento para a prática pedagógica. Nitidamente demarcados, pois, para os iniciados nas novas teorias psicológicas, tratava-se de uma verdadeira revolução no modo de conceber a atividade do aluno e de regrar a prática pedagógica capaz de favorecê-la. Todas as cautelas de Lourenço Filho com relação à implantação das novas idéias pedagógicas nas escolas públicas eram relativas à escola ativa e tinham o seu ponto nodal no preparo dos professores para implantá-la. Em São Paulo, segundo o missivista, a dificuldade havia mesmo ensejado a criação de um Instituto de Educação, uma “faculdade de ciências da educação”, “justamente para divulgar a escola nova e a nova psicologia”. Respondendo a comentários que Sousa lhe enviara sobre algumas instituições paulistas que havia visitado, Lourenço aproveita a oportunidade para marcar, de modo mais nítido, o abismo existente entre as genuínas experiências de escola ativa que, segundo ele, vinham sendo realizadas em São Paulo sob o seu patrocínio, fora da rede pública, na Escola Rio Branco, e a precipitação inepta do amigo, manifestada na tentativa de implantar o mesmo tipo de escola no Ceará: “Estou muito penhorado à excelente impressão que deu a Escola Rio Branco, em artigo aí publicado. O trabalho nela continua, e este ano, com aspectos novos, magníficos. Mas das 11 classes que tenho, verdadeiro ensino ativo há apenas em três delas (…) E os seus professores foram meus alunos, recebem ins- 117 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 pedagogia e da psicologia. Já a carta a João Hippolyto tinha a pretensão didática de ensinar ao velho diretor da Escola Normal um percurso que o levasse a superar suas concepções pedagógicas, introduzindo-o no campo teórico e normativo da nova pedagogia. Partir dessa diferença entre as duas cartas pode ser aqui interessante para compreender as estratégias de divulgação da pedagogia da escola nova adotadas por Lourenço Filho no campo editorial. Os “livrinhos” que Lourenço Filho promete enviar a João Hippolyto haviam sido editados como volumes da Biblioteca de Educação, coleção organizada por ele para a Companhia Melhoramentos de São Paulo. Pela data da correspondência, pode-se afirmar que os volumes enviados tenham sido todos ou alguns dos seguintes: Psicologia Experimental, de Henri Piéron; A Escola e a Psicologia Experimental, de Claparède; Educação moral e educação econômica, de Sampaio Dória; Temperamento e caráter sob o ponto de vista educativo, de Henrique Geenem; Educação e Sociologia, de Émile Durkheim; A hereditariedade em face da educação, por Otávio Domingues; Como se ensina Geografia, por Firmino Proença; A escola ativa e os trabalhos manuais, de Coryntho Fonseca; A lei biogenética e a escola ativa, de E. Claparède; Testes para a medida do desenvolvimento da inteligência, de A. Binet e Th Simon.11 No verso da folha de rosto das primeiras edições dos primeiros volumes da Coleção, a Editora publica um longo texto explanativo do perfil do destinatário e dos objetivos e características da iniciativa editorial. Nele se lê que a Coleção seria composta “de escolhidas traduções e de originais autores brasileiros, procurando desenvolver um plano harmônico, no seu conjunto, e tanto quanto possível perfeito, resumindo os mais salientes problemas educativos da atualidade”. Cada volume conteria “sempre um assunto completo” e a coleção se distribuiria por duas séries. Na primeira, de “caráter geral”, seriam expostas “as bases científicas do ensino, já do ponto de vista genético funcional da sua organização, já do ponto de vista da finalidade social e moral a que deve tender para a elevação do homem, como cidadão e como homem”. Na segunda, seriam examinados “os meios práticos de educação e ensino, tratando-se de modo particular das aplicações que mais nos convenham, com indicações e críticas de sistemas”.12 Organizados como “pequenos manuais” que condensam “as modernas idéias e práticas da educação” (Lourenço Filho, s/d (a)), os volumes da Coleção se dispõem como peças de um conjunto harmônico destinado a constituir a cultura pedagógica do professorado. A Biblioteca de Educação pretendia “ser mais que uma simples coleção de monografias úteis”, teria “um plano organizado”, que estava se desenvolvendo “com perfeita unidade”. Ela encerraria “de um lado a exposição das bases sobre que a reflexão pedagógica pode apoiar-se, com proveito e, de outro, as aplicações, ensaios de didática, explicação e crítica de sistemas”. Embora cada volume contivesse um “assunto completo”, o conjunto visaria “formar um todo harmônico, desde as bases propriamente biológicas, às mais complexas indagações de natureza social e filosófica” (Lourenço Filho, s/d (b)). Cotejadas com esses e com outros dispositivos de modelização da leitura dos livros da Biblioteca de Educação, como os prefácios e as notas de rodapé, as explanações do organizador da coleção na correspondência ao velho diretor da Escola Normal de Fortaleza delineiam o programa de uma política editorial cujo objetivo é a formação de uma nova cultura pedagógica. Nessa política, a Biblioteca de Educação é coleção que compendia os saberes pedagógicos necessários à transformação da mentalidade e da prática do professorado. Formar o professor é transformar a sua mentalidade. É fazê-lo percorrer o caminho que leva à superação de suas concepções sobre a atividade do aluno, deslocando-as do terreno constituído por uma pedagogia centrada no exercício das faculdades da criança. É levá-lo à compreensão das novas finalidades sociais da escola. Nesse programa, as representações de Lourenço Filho sobre as expectativas, disposições e competências de leitura do velho diretor da Escola Normal balizam o itinerário da “mudança a fazer-se no espírito do professorado quanto à filosofia do ensino” através do livro. Essas representações dão índices dos crivos que operaram a seleção dos títulos e assuntos que julgou oportuno editar de modo a promover aquela cultura pedagógica que considerava fundamental para a remodelação das práticas escolares segundo os novos princípios. Nessa perspectiva, é muito interessante observar que as explanações que faz a João Hippolyto são complementadas pela promessa de lhe enviar, pelos correios, “vários livrinhos”, que tinha “traduzido e feito traduzir”. Lourenço esperava que, “com os elementos” que remetia, João Hippolyto pudesse “ir experimentando alguma coisa na Escola Modelo”, pois pretender tudo substituir de uma só vez seria “pura fantasia”. Assim, o crivo que conforma a Biblioteca de Educação não é 118 MODERNIDADE PEDAGÓGICA E MODELOS DE FORMAÇÃO DOCENTE veis. Mas como a natural atividade infantil faz com que o seu espírito não possa aplicar-se demoradamente sobre um mesmo objeto, o tempo escolar é subdividido em períodos de 15 minutos no máximo. Além disso, para manter-se um justo equilíbrio entre a atividade e a atenção que as crianças têm de manter, os exercícios são geralmente intercalados de marchas entre bancos, de canto ou de ginástica, que constituem verdadeiros períodos de recreio, em que as crianças descansam o espírito, predispondo-se para novos exercícios. Outro meio de que lançam mão as professoras para manter o espírito das crianças sempre disposto para o exercício das faculdades intelectuais que apenas desabrocham, é o de entretê-las com constantes ocupações apropriadas à sua tenra idade, ocupações que os americanos chamam de Busy-Work e que consistem em uma imensa cópia de pequenos exercícios tais como: a classificação de pedaços de papel de várias cores e tamanhos, (…) a reprodução de tecidos em papel ou outras tantas ocupações que se harmonizam com o gosto das crianças. Esse gênero de ocupações tem ainda a grande vantagem de permitir que se subdivida a classe, de modo que a mestra possa ocupar-se com menor número de alunos, enquanto os outros se entretêm aprazivelmente a trabalhar brincando e ao mesmo tempo desenvolvendo suas faculdades de observação” (Prestes, 1896:131). apenas constituído pelas concepções pedagógicas de Lourenço Filho, mas também pela avaliação que fez das disposições, expectativas e competências de seu público leitor – os professores e as professoras –, o que significa dizer que esse crivo foi também formado pela avaliação que o organizador da coleção fez acerca da aplicabilidade dos princípios e preceitos da pedagogia que era reivindicada como nova e ativa para as escolas brasileiras. Essa avaliação balizará as estratégias adotadas para promover a mudança pretendida de mentalidade do professorado, constituindo e organizando o campo dos saberes representados como necessários ao exercício da docência segundo critérios de adequação à realidade educacional do país. Institucionalizar a escola no país não era mais tarefa que pudesse se circunscrever nos marcos da pedagogia moderna entendida como arte de ensinar. No campo normativo da nova pedagogia que passa a reivindicar para si o monopólio do moderno, o método é dissociado da prática, das artes de fazer, do que decorrem importantes deslocamentos nas estratégias de formação docente. A produção de condições materiais que favorecessem a imitação inventiva de modelos é substituída por estratégias que visam subsidiar a prática docente com um repertório de saberes autorizados, propostos como os seus fundamentos ou instrumentos. É essa nova estratégia que preside a configuração da Biblioteca de Educação nas duas séries referidas nas primeiras edições dos primeiros volumes da Coleção. Na primeira, de “caráter geral”, seriam expostas, como já se viu anteriormente, “as bases científicas do ensino”. Na segunda, apresentar-se-iam “os meios práticos de educação e ensino, tratando-se de modo particular das aplicações que mais nos convenham, com indicações e críticas de sistemas”. 4. A respeito da disputa ver Carvalho (1998, capítulos 2 e 5). 5. Sobre o conceito de forma escolar ver Vincent; Lahire e Thin (1994) e Pineau (1999). 6. Trata-se de Newton Craveiro, autor do livro de leitura adaptado ao meio cearense, João Pergunta (ou o Brasil Seco), que Lourenço Filho fez editar, para distribuição nas escolas cearenses. 7. Para mais informações sobre o assunto, ver Cavalcante (1998). 8. Essa carta é datada de 10 de março de 1930 e integra o acervo da família de João Hippolyto. Agradeço a Maria Juracy Maia Cavalcante por ter-me facultado o acesso a essa correspondência. 9. Trata-se do livro A lei biogenética e a escola ativa, vol. IX, da Biblioteca da Educação, coleção organizada por Lourenço Filho, para a Companhia Melhoramentos de São Paulo. 10. Ao que tudo indica, trata-se de Introdução ao Estudo da Escola Nova, que seria editado pela Biblioteca de Educação ainda em 1930. É interessante observar que na capa da primeira edição do segundo volume da Coleção – A escola e a psicologia experimental, de Claparède – consta a previsão de publicação de um livro de autoria de Lourenço Filho que parece nunca ter sido publicado: O método em educação. Esse livro seria o volume IV da Coleção. O volume V, cuja publicação é anunciada na mesma capa, também não foi publicado: O aprendizado ativo, por José Escobar. 11. Para dados sobre a coleção e, em particular, sobre as edições e a tiragem desses volumes, ver Monarcha (1997:27-59). 12. Esse texto consta das primeiras edições dos três primeiros volumes e não consta das primeiras edições dos volumes VIII e IX. Não foi possível obter acesso às primeiras edições dos volumes intermediários. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS NOTAS AZEVEDO, F. A Educação na encruzilhada: problemas e discussões. (Inquérito realizado em 1926 pelo jornal O Estado de S. Paulo). São Paulo, Melhoramentos, s.d. E-mail da autora: [email protected] CARVALHO, M.M.C. Molde nacional e fôrma cívica: higiene, moral e trabalho no projeto da Associação Brasileira de Educação (1924-1931). São Paulo, USF, 1998. 1. Este artigo se inscreve nos marcos de uma pesquisa mais ampla que visa analisar estratégias editoriais de conformação dos saberes pedagógicos. Dessa perspectiva, a pesquisa analisa revistas, livros ou coleções destinados ao uso de professores como estratégias diferenciadas de formação docente, que, em situações históricas determinadas, organizam e constituem o campo dos saberes representados como necessários à prática docente. A pesquisa vem sendo desenvolvida com Bolsa de Produtividade de Pesquisa do CNPq. CAVALCANTE, M.J.M. João Hippolyto de Azevedo e Sá. Um educador cearense. Uma investigação sobre o seu desaparecimento da história da Reforma “Lourenço Filho” e da educação no Ceará. Tese de concurso, Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, 1998. CRAVEIRO, N. “ A evolução do ensino no Ceará e a Reforma de 1922”. Revista Nacional. São Paulo, n.7, jul. 1923. __________ . João Pergunta (ou o Brasil Seco). Ceará, Typ Progresso, 1924. 2. Consultar, a respeito, os discursos e o Relatório de Caetano de Campos como Diretor da Escola Normal (Rodrigues, 1930:194-277). DOMINGUES, O. A hereditariedade em face da educação. São Paulo, Companhia Melhoramentos de São Paulo, s/d. 3. Veja-se, por exemplo, o seguinte trecho do Relatório de Gabriel Prestes, sobre a Escola Modelo:“O ensino do primeiro ano, todo intuitivo quanto aos processos empregados, tem por objeto principal inspirar às crianças os hábitos de ordem e de trabalho, cultivando-se o poder da atenção de que eles são suscetí- DORIA, A.S. Princípios de Pedagogia. São Paulo, Pocai-Weiss, 1914. LOURENÇO FILHO. “Prefácio”. In: PROENÇA, A.F. Como se ensina a Geografia. São Paulo, Companhia Melhoramentos de São Paulo, s/d (a). 119 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 __________ . “Prefácio”. In: DOMINGUES, O. A hereditariedade em face da educação. São Paulo, Companhia de Melhoramentos de São Paulo, s/d (b). PRESTES, G. Relatório da Escola Norma apresentado ao Sr. Dr. Alfredo Pujol M.D. Secretário dos Negócios do Interior pelo Diretor Gabriel Prestes. São Paulo, Typografia do Diário Official, 1896. MENUCCI, S. A escola paulista. Polêmica com o sr. Renato Jardim. São Paulo, Copag, 1930. PROENÇA, A.F. Como se ensina a Geografia. São Paulo, Companhia Melhoramentos de São Paulo, s/d. MONARCHA, C. (org.). Lourenço Filho outros aspectos, mesma obra. Marília, Unesp/Mercado das Letras, 1997. RODRIGUES, J.L. Um retrospecto. Alguns subsídios para a história pragmática do ensino público em São Paulo. São Paulo, Instituto D. Ana Rosa, 1930. THOMPSON, O. “O futuro da pedagogia é científico”. O Laboratório de Pedagogia Experimental. São Paulo, Tip. Siqueira, Nagel & Comp., 1914. __________ . “Lourenço Filho e a Biblioteca de Educação (1927-1941)”. In: MONARCHA, C. (org.). Lourenço Filho outros aspectos, mesma obra. Marília, Unesp/Mercado das Letras, 1997. NAGLE, J. Educação e sociedade na Primeira República. São Paulo, Rio de Janeiro, EPU/Fundação Nacional de Material Escolar, 1976. VINCENT, G.; LAHIRE, B. e THIN, D. “Sur l’histoire et la theorie de la forme scolaire”. In: VINCENT, G. (dir.). L’Éducation prisionnière de la forme scolaire. Scolarization et socialisation dans les societés industrielles. Lyon, Presses Universitaires de Lyon, 1994. PINEAU, P. “Premissas básicas de la escolarización como construcción moderna que construyó a la modernidad”. Revista de Estudios del Curriculum, v.2, n.1, jan. 1999. WHITE, E. A arte de ensinar. Um manual para mestres, alunos e para todos que se interessem pelo verdadeiro ensino da mocidade. Trad. de Carlos Escobar. São Paulo, Siqueira Nagel & Comp., 1911. 120 SISTEMAS NACIONAIS DE AVALIAÇÃO E DE INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS SISTEMAS NACIONAIS DE AVALIAÇÃO E DE INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS MARIA HELENA GUIMARÃES DE CASTRO Professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp e Presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Resumo: A estruturação de Sistemas Nacionais de Avaliação e de Informação cumpre papel estratégico no processo de implementação de reformas educacionais, em especial, em países cujos sistemas de ensino caracterizam-se pela extrema descentralização político-institucional e heterogeneidade regional, como o caso do Brasil. Estes sistemas apresentam-se como ferramenta básica para o planejamento, monitoramento e acompanhamento das políticas públicas, subsidiando a tomada de decisões. Palavras-chave: informação e educação; ensino no Brasil; projeto educacional. A implementação de reformas educacionais em um país federativo, cujos sistemas de ensino caracterizam-se por extrema descentralização políticoinstitucional como o Brasil, requer necessariamente a implantação de mecanismos de monitoramento e acompanhamento das ações e políticas em curso por diferentes razões. Em primeiro lugar, estes instrumentos de gestão permitem observar como as reformas estão avançando e, mais importante, quais os acertos e correções em curso exigidos para sua real efetividade. Além disso, eles contribuem para assegurar a transparência das informações, cumprindo assim dois requisitos básicos da democracia: a ampla disseminação dos resultados obtidos nos levantamentos e avaliações realizados; e a permanente prestação de contas à sociedade. Por fim, e não menos importante, os sistemas de avaliação e informação educacional cumprem um papel estratégico para o planejamento e desenho prospectivo de cenários, auxiliando enormemente a formulação de novas políticas e programas que possam responder às tendências de mudanças observadas. Para cumprir estes múltiplos objetivos, os sistemas informacionais precisam estar assentados em bases de dados atualizadas e fidedignas, em instrumentos confiáveis de coleta, em metodologias uniformes e cientificamente embasadas, em mecanismos ágeis e concisos de divulgação. Este artigo discute os avanços e limites dos sistemas de avaliação e informação educacional, implantados a partir de 1995, sob a coordenação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Embora recente, estes sistemas já contam hoje com razoável grau de organização e sofisticação, tanto por sua abrangência como por sua diversificação. Para tanto, descrevem-se a estrutura dos sistemas e seus principais componentes – os censos escolares e as avaliações nacionais: o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Exame Nacional de Cursos (ENC), mais conhecido como “Provão”. Por fim, tendo em vista a importância da disseminação das informações, são apresentadas as bases complementares da informação, organizadas pelo Centro de Informações e Biblioteca em Educação (Cibec). A utilização dos indicadores e informações resultantes dos censos educacionais e das avaliações realizadas pelo Inep tem possibilitado a identificação de prioridades, além de fornecer parâmetros mais precisos para a formulação e o monitoramento das políticas. O desenvolvimento de um eficiente sistema nacional de informações educacionais tem orientado a atuação do governo federal no que se refere à sua função supletiva, voltada para a superação das desigualdades regionais. Com os instrumentos criados, o MEC pode estruturar programas destinados, especificamente, a suprir deficiências do sistema. Observadas em conjunto, as informações disponíveis permitem traçar um quadro abrangente da situação educacional do país e fornecer subsídios indispensáveis para o apro- 121 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 O Censo Escolar gera, assim, um conjunto de informações indispensáveis para a formulação, implementação e monitoramento das políticas educacionais e avaliação do desempenho dos sistemas de ensino. Como toda pesquisa preocupada com a fidedignidade e validade dos seus resultados e dada a necessidade de cumprir os prazos legais, o Censo Escolar apresenta uma complexa sistemática de operacionalização, cuja viabilidade só é possível pela parceria estabelecida entre o Inep e as Secretarias de Educação dos 26 estados e do Distrito Federal, além da cooperação da comunidade escolar, responsável pelo preenchimento do questionário. Entre as atividades permanentes realizadas para a execução do levantamento anual, merecem registro o acompanhamento das alterações do sistema educacional e a identificação de demandas das Secretarias de Educação das unidades da Federação, que podem gerar necessidade de incorporação de variáveis ou a supressão de quesitos no formulário do Censo Escolar. O acompanhamento das alterações do sistema educacional tem sido objeto de grande preocupação, dado que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 20 de dezembro de 1996, além de conferir maior autonomia aos sistemas de ensino, sobretudo no que se refere à forma de organização da educação básica, incentivou ainda práticas inovadoras que valorizam e favorecem o processo de aprendizagem, como a progressão continuada e parcial, os conceitos de classificação e reclassificação de alunos, a possibilidade de aceleração de aprendizagem, entre outros. Os reflexos deste novo dispositivo legal apresentam-se nas reformulações dos sistemas de ensino de estados e municípios que, a partir de 1997, promoveram alterações na oferta de ensino dos diferentes níveis e modalidades e na organização de suas redes. O processo de implantação de novas propostas de organização da educação básica mostra-se, no entanto, muito variado, exigindo assim um acompanhamento que permita verificar o impacto destas alterações e a necessidade de mudanças nos instrumentos de coleta utilizados pelo Censo Escolar. Da mesma forma, torna-se fundamental a realização de estudos que permitam um melhor detalhamento sobre as configurações adotadas em cada sistema de ensino, tanto para a melhoria da qualidade da informação a ser recebida quanto para maior aderência às necessidades dos implementadores de políticas educacionais. Por outro lado, a redefinição do papel e da forma de atuação do MEC enfatizou a necessidade de fortalecer a área de produção e disseminação de estatísticas e in- fundamento de análises e pesquisas críticas que possam enriquecer o debate sobre os rumos da educação brasileira. SISTEMA DE INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS A produção de dados e informações estatístico-educacionais de forma ágil e fidedigna, que retrate a realidade do setor educacional, é o instrumento básico de avaliação, planejamento e auxílio ao processo decisório para o estabelecimento de políticas de melhoria da educação brasileira. É por meio dos censos educacionais que se busca garantir a utilização da informação estatística neste processo, gerando os indicadores necessários ao acompanhamento do setor educacional. Os levantamentos abrangem todos os níveis e modalidades de ensino, subdividindo-se em três pesquisas distintas representadas pelo Censo Escolar, Censo do Ensino Superior e Levantamento sobre o Financiamento e Gasto da Educação, além dos censos especiais, realizados de forma não periódica, abrangendo temáticas específicas, como o caso do Censo do Professor. Censo Escolar O Censo Escolar, de âmbito nacional, realiza o levantamento de informações estatístico-educacionais relativas à Educação Básica, em seus diferentes níveis (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) e modalidades (ensino regular, educação especial e educação de jovens e adultos). O levantamento é feito junto a todos os estabelecimentos de ensino, das redes pública e particular, através do preenchimento de questionário padronizado. Por intermédio do Censo Escolar, o Inep atualiza anualmente o Cadastro Nacional de Escolas e as informações referentes à matrícula, ao movimento e ao rendimento dos alunos, incluindo dados sobre sexo, turnos, turmas, séries e períodos, condições físicas dos prédios escolares e equipamentos existentes, além de informações sobre o pessoal técnico e administrativo e pessoal docente, por nível de atuação e grau de formação. Este levantamento abrange um universo de cerca de 52 milhões de alunos e 266 mil escolas públicas e privadas, distribuídas em mais de 5.500 municípios. A coleta dos dados e o processamento das informações são operacionalizados pelas Secretarias Estaduais de Educação, sob a coordenação-geral da Diretoria de Informações e Estatísticas Educacionais (Seec), do Inep. 122 SISTEMAS NACIONAIS DE AVALIAÇÃO E DE INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS universitários, faculdades integradas e estabelecimentos isolados. A coleta abrange cerca de 1.100 instituições, 2.700.000 alunos, 7.200 cursos e 827 mantenedoras. O levantamento é realizado diretamente pelo Inep, sendo que os dados apurados referem-se a número de matrículas e de concluintes, inscrições nos vestibulares, ingresso por curso e área de conhecimento, dados sobre os professores – por titulação e regime de trabalho e sobre os funcionários técnico-administrativos, entre outros. Anualmente, com os resultados do Censo, é publicada a Sinopse Estatística do Ensino Superior – Graduação. O instrumento de coleta do Censo 2000 passou por uma redefinição, adequando-se ao novo conceito de educação superior estabelecido pela LDB. O questionário foi ampliado, passando a abranger não só a graduação, mas também a pós-graduação. Todas as informações coletadas estarão vinculadas ao Sistema Integrado de Informações da Educação Superior (SIEd-Sup), subsistema atualmente em desenvolvimento e que será abordado no próximo item. O Cadastro Nacional das Instituições de Ensino Superior é atualizado com informações do Censo do Ensino Superior, do Diário Oficial da União, do Conselho Nacional de Educação e Conselhos Estaduais de Educação. formações educacionais na estrutura do ministério que se encontrava desprestigiada. Este objetivo inicia-se, em 1995, com a criação da Secretaria de Desenvolvimento, Inovação e Avaliação Educacional (Sediae) e se concretiza com a reestruturação do Inep que, em 1997, transformou-se em autarquia federal, constituindo-se em centro especializado em avaliação e informação educacional. O recente grau de eficiência e credibilidade alcançado pelo Inep na organização das informações e estatísticas educacionais tem propiciado ampla utilização deste tipo de ferramenta aos formuladores e executores de políticas educacionais. De fato, os programas e projetos executados por intermédio do Fundo Nacional de Desenvolvimento do Ensino (FNDE) apóiam-se nos diagnósticos decorrentes dos levantamentos estatísticos da educação básica e superior. Esta forte conexão entre o sistema de informações e a gestão de políticas é mais perceptível nos programas que envolvem transferências intergovernamentais de recursos. O exemplo mais notório é o Fundo de Manutenção e de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), que movimentou, no exercício de 1999, cerca de R$ 14,2 bilhões, dos quais R$ 675 milhões referentes à complementação da União. Conforme disposto pela legislação instituidora deste fundo, a distribuição dos recursos, no âmbito de cada unidade da Federação, é feita com base na proporção do número de alunos matriculados anualmente nas escolas cadastradas das respectivas redes de ensino, considerando-se para este fim os dados oficiais apurados pelo Censo Escolar. Este mesmo critério de transparência foi adotado pelo MEC como princípio orientador dos principais programas de apoio ao desenvolvimento do ensino fundamental – Merenda Escolar, Livro Didático e Dinheiro Direto na Escola. No seu conjunto, os programas e ações desenvolvidos pelo FNDE envolveram, em 1999, recursos da ordem de R$ 3,5 bilhões. Pode-se concluir, portanto, que as informações sobre a matrícula na educação básica produzidas pelo Censo Escolar tiveram repercussão imediata e direta sobre a distribuição de cerca de R$ 17,7 bilhões, no último exercício. Censos Especiais Com o objetivo de aprimorar as informações disponíveis sobre as diferentes modalidades de ensino e preencher as lacunas existentes, o Inep realiza levantamentos especiais, sempre em parceria com as instituições públicas e organizações não-governamentais diretamente envolvidas com as políticas públicas das respectivas áreas. Em 1997, o Inep realizou o primeiro Censo do Professor, em âmbito nacional, com um retorno expressivo, alcançando mais de 90% dos professores das redes pública e particular de ensino básico. Uma das razões pelas quais o MEC demandou a realização desse levantamento foi a necessidade de dispor de dados sobre o salário dos professores – relacionado com o nível de escolarização e com o tempo de exercício do magistério – para orientar a implantação do Fundef. O Censo do Professor revelou um quadro de profundas desigualdades regionais em relação tanto à qualificação quanto aos níveis de remuneração dos professores, confirmando a necessidade de políticas que promovam melhor distribuição dos recursos e que garantam maior eqüidade na oferta do ensino público, objetivos que vêm sendo atendidos pelo Fundef. Além disso, a divulgação Censo do Ensino Superior O Censo do Ensino Superior promove o levantamento de dados e informações estatístico-educacionais junto às instituições de ensino superior – universidades, centros 123 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 do para atender aos seguintes objetivos: criar uma base única de dados e indicadores da educação superior; eliminar sobreposição de competências e simplificar o processo de coleta de informações junto às instituições de ensino superior; garantir maior transparência e facilitar o acesso da sociedade às informações sobre o perfil e o desempenho das instituições; subsidiar os processos de autorização e reconhecimento de cursos e de credenciamento e recredenciamento das instituições; manter banco de dados atualizado e gerar informações que devem ser apresentadas anualmente pelas instituições por meio do Censo do Ensino Superior e Catálogo de Cursos. Este novo sistema será coordenado pelo Inep e interligado em rede com a Secretaria de Ensino Superior (SESu), a Capes, o CNPq, o Conselho Nacional de Educação (CNE) e os Conselhos Estaduais de Educação, podendo no futuro ampliar a sua rede de parceiros, incorporando outros produtores de informações e avaliações de interesse. Ao Inep cabe a execução da coleta e manutenção de informações e tanto a SESu quanto o CNE e as instituições de ensino superior participarão da definição do que deve ser coletado e divulgado, das políticas de acesso aos dados e de disseminação de informações. dos resultados permite à sociedade se informar sobre a real situação do magistério e participar da busca de alternativas para promover sua valorização. Em 1999, foram realizados três censos especiais: o Censo da Educação Profissional; o Censo da Educação Escolar Indígena; e o Censo da Educação Especial. Os resultados destas pesquisas, com divulgação prevista para este ano, deverão proporcionar um quadro de referência mais preciso sobre a cobertura alcançada e as modalidades de atendimento oferecidas, bem como sobre o conjunto de instituições que atuam nestes segmentos, fornecendo, assim, subsídios para a revisão e o aperfeiçoamento das políticas de expansão da oferta e melhoria do atendimento. A realização destes levantamentos especiais, aos quais será acrescido, neste ano, o Censo da Educação Infantil, permitirá incorporar ao sistema de informações educacionais novas variáveis, completando o mapa da educação brasileira. Levantamentos sobre Financiamento e Gasto da Educação O levantamento de dados relativos aos recursos disponíveis e aplicados na educação abrange as três esferas de governo e envolve o exame e o acompanhamento dos orçamentos federal, estaduais e municipais, além dos repasses intergovernamentais e dos gastos efetivamente realizados. Trata-se de uma importante tarefa, que envolve, no entanto, grandes dificuldades operacionais. De fato, a inexistência de um sistema adequado de execução orçamentária e de consolidação das contas da administração pública, principalmente no nível municipal, que permita a identificação dos programas de trabalho e do elemento da despesa efetivamente realizada, bem como a origem do seu recurso, apresentou-se como a principal dificuldade para a realização dos levantamentos. Nesse sentido, o Inep deu especial atenção para o aprimoramento da metodologia de apuração e de estimação das informações, em conjunto com o Ipea, o IBGE e a Unicamp. Como resultado, já se conseguiu produzir dados sobre gasto público para os exercícios de 1994, 1995, 1996 e 1997. AVALIAÇÕES EDUCACIONAIS No campo das avaliações educacionais, podem ser destacados três grandes projetos: o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb); o Exame Nacional de Cursos (ENC), mais conhecido como “Provão”; e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Por meio destes instrumentos, o MEC assume a responsabilidade atribuída pela LDB de “assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino” e de “assegurar processo nacional de avaliação das instituições de educação superior, com a cooperação dos sistemas que tiverem responsabilidade sobre este nível de ensino”·. Exame Nacional do Ensino Médio SISTEMA INTEGRADO DE INFORMAÇÕES SOBRE O ENSINO SUPERIOR O Enem, iniciativa mais recente entre os três projetos nacionais de avaliação, procura aferir o desenvolvimento das competências e habilidades que se espera que o aluno apresente ao final da escolaridade básica. Oferece assim uma avaliação do desempenho individual, fornecendo O Sistema Integrado de Informações da Educação Superior (SIEd-Sup), em fase de implantação, foi concebi- 124 SISTEMAS NACIONAIS DE AVALIAÇÃO E DE INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS parâmetros para o prosseguimento dos estudos ou para ingresso no mercado de trabalho. Por isso, é um exame voluntário e seu público-alvo são os concluintes e egressos do ensino médio. A concepção do Enem está baseada nas orientações para a educação básica estabelecidas pela LDB e, sobretudo, nas novas diretrizes curriculares e nos parâmetros curriculares nacionais do ensino médio. Portanto, é um instrumento balizador e indutor da reforma deste nível de ensino que vem sendo implantada no país. Em 1999, participaram do Enem mais de 315 mil alunos, representando cerca de 20% do total de concluintes do ensino médio, o que significa um crescimento extraordinário em relação ao primeiro exame, realizado em 1998, que contou com pouco mais de 115 mil participantes. Este aumento significativo está relacionado, sem dúvida, com a utilização dos resultados do exame por instituições de ensino superior, como critério complementar ou substitutivo aos seus processos seletivos. Atualmente 101 universidades brasileiras aceitam o Enem como um dos critérios de acesso ao ensino superior. Como contraface da decisão administrativa de submeter ao processo de renovação o reconhecimento dos cursos com baixo desempenho, o MEC abriu caminho para a renovação automática do reconhecimento dos cursos bem conceituados em três avaliações consecutivas. Caminhase, assim, para a substituição de controles processuais e burocráticos por avaliações externas sistemáticas. Quanto à divulgação dos resultados, além da classificação de acordo com uma escala com cinco faixas de conceito (A, B, C, D e E), a partir de 1999, cada curso passou a receber a distribuição percentual das médias de seus alunos por faixa de desempenho. O novo formato revela não apenas a evolução da média padronizada de cada curso, como vinha sendo feito, mas também o percentual dessa evolução em comparação com o desempenho obtido no exame imediatamente anterior. Outra mudança refere-se à substituição dos conceitos pertinentes à titulação acadêmica e à jornada de trabalho do corpo docente, por uma apresentação da distribuição percentual por categoria, em relação ao número total de professores do curso. Diante de sua principal finalidade – produzir referências objetivas para incentivar e orientar as instituições a corrigirem suas deficiências e a investirem na melhoria do ensino –, o MEC realizou seminários nacionais com coordenadores de curso para discutir o impacto das avaliações sobre os cursos de graduação. Promovidos em parceria com conselhos de classe, organizações profissionais, associações nacionais de ensino e representações das instituições de ensino superior, os seminários geraram consensos como o fato de os resultados do Provão serem um instrumento importante para estimular e orientar a melhoria do ensino de graduação, principalmente no que diz respeito à atualização do currículo, reestruturação do projeto pedagógico dos cursos, prática docente e condições de oferta e de trabalho. O exame também está provocando alterações nas formas de avaliação curricular do desempenho dos alunos, com enfoque voltado para as habilidades e competências adquiridas ao longo da trajetória acadêmica. Exame Nacional de Cursos Implantado em 1996, o Provão já avaliou 2.151 cursos em 13 áreas de graduação1 e tem estimulado um debate intenso sobre as deficiências do ensino superior no país, levando as instituições a investirem na qualificação do corpo docente e na melhoria das instalações físicas, buscando elevar o padrão de qualidade dos cursos oferecidos. Este exame é obrigatório, por lei, para todos os estudantes que estão concluindo os cursos de graduação avaliados a cada ano. Em 1999, foi estabelecida uma vinculação mais efetiva entre o sistema de avaliação do ensino superior, do qual o “Provão” se constitui um importante instrumento, e os processos de renovação do reconhecimento dos cursos e de recredenciamento das instituições. A partir da Portaria Ministerial no 755, de 11 de maio de 1999, 101 cursos das áreas de Administração, Direito e Engenharia Civil que obtiveram conceitos baixos no Provão e na Avaliação das Condições de Oferta de Cursos de Graduação, conduzidas pela SESu, foram submetidos ao longo de 1999 a nova visita das Comissões de Especialistas da SESu e, a partir de suas recomendações, o MEC encaminhou ao CNE pareceres sugerindo renovação do reconhecimento ou estabelecimento de prazo para o atendimento das exigências mínimas, sob pena de fechamento. SISTEMA NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA Iniciado em 1990, o Saeb foi estruturado no sentido de produzir informações sobre o desempenho da educação básica em todo o país, abrangendo as diferentes realidades dos sistemas estaduais e municipais de ensino. Entre os principais objetivos do Saeb, podem ser destacados: 125 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 - monitorar a qualidade, a eqüidade e a efetividade do sistema de educação básica; metodológicas, sobretudo com o objetivo de estabelecer escalas de proficiência por disciplina, englobando as três séries avaliadas, o que permite ordenar o desempenho dos alunos em um continuum. Isso é possibilitado pela aplicação de itens comuns entre as séries e a transformação das escalas de cada disciplina para a obtenção de uma escala comum. O desempenho dos alunos, em cada uma das disciplinas avaliadas, é apresentado em uma escala de proficiência, que pode variar de 0 a 500 pontos. Cada disciplina tem uma escala específica, não sendo comparáveis as escalas de diferentes disciplinas. A média de proficiência obtida pelos alunos de cada uma das três séries avaliadas indica, portanto, o lugar que ocupam na escala de cada disciplina. A descrição dos níveis de proficiência nas escalas demonstra o que os alunos efetivamente sabem e foram capazes de fazer, isto é, o conhecimento, o nível de desenvolvimento cognitivo e as habilidades instrumentais adquiridas, na sua passagem pela escola. As escalas de proficiência mostram, portanto, uma síntese do desempenho dos alunos e, ao serem apresentadas em uma escala única, torna-se possível comparar o desempenho dos alunos, tanto entre os diversos anos de levantamento quanto entre as séries avaliadas. Nesse sentido, pode-se comparar o que os parâmetros e os currículos oficiais propõem e aquilo que está sendo efetivamente desenvolvido em sala de aula. Ou seja, o Saeb releva a distância entre o currículo proposto e o currículo ensinado. Os resultados do Saeb constituem assim um precioso subsídio para orientar a implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do Ensino Fundamental e da reforma curricular do Ensino Médio, pois permitem identificar as principais deficiências na aprendizagem dos alunos. Uma das distorções que as novas diretrizes curriculares pretendem eliminar é precisamente o caráter enciclopédico dos currículos, que tem afetado negativamente a aprendizagem dos alunos. As reformas desencadeadas pelo MEC, consoantes com a nova LDB, induzem mudanças nos currículos propostos, de modo a reduzir a ênfase em conteúdos desnecessários para a formação geral na educação básica e incentivar uma abordagem pedagógica mais voltada para a solução de problemas e para o desenvolvimento das competências e habilidades gerais. Os resultados do Saeb permitem ainda identificar as áreas e conteúdos nos quais os alunos apresentam maiores deficiências de aprendizagem, orientando progra- - oferecer às administrações públicas de educação informações técnicas e gerenciais que lhes permitam formular e avaliar programas de melhoria da qualidade de ensino; - proporcionar aos agentes educacionais e à sociedade uma visão clara e concreta dos resultados dos processos de ensino e das condições em que são desenvolvidos e obtidos. A cada dois anos, são levantados dados que, além de verificar o desempenho dos alunos, mediante aplicação de testes de rendimento, investigam fatores socioeconômicos e contextuais que interferem na aprendizagem. Estes fatores aparecem agrupados em quatro áreas de observação: escola, gestão escolar, professor e aluno. Sua aplicação é feita em uma amostra nacional de alunos representativa do país e de cada uma das 27 unidades da Federação.2 No primeiro ciclo do Saeb, em 1990, aderiram 23 estados. Somente a partir de 1995, tornou-se de fato um sistema nacional, passando a abranger os ensinos fundamental e médio, com a adesão de todos os estados e todas as redes de ensino – estaduais, municipais e particulares. A participação continua sendo voluntária, o que revela que os dirigentes dos sistemas de ensino reconheceram a importância desta ferramenta para monitorar as políticas educacionais. O Saeb procura aferir a proficiência do aluno, entendida como um conjunto de competências e habilidades evidenciadas pelo rendimento apresentado nas disciplinas avaliadas, 3 abrangendo as três séries tradicionalmente associadas ao final de cada ciclo de escolaridade: a 4ª e 8ª séries do ensino fundamental e a 3ª série do ensino médio. Também são aplicados questionários em uma amostra de professores e diretores, obedecendo ao mesmo critério estatístico que assegura a representatividade das redes de ensino de todos os estados e do Distrito Federal. Para a avaliação dos alunos, utiliza-se uma grande quantidade de questões – cerca de 150 por série e disciplina –, o que lhe confere maior validade curricular, pois contempla uma amplitude maior de conteúdos e habilidades, abrangendo grande parte daquilo que é proposto nos currículos estaduais. Desde a sua criação, as características gerais do Saeb, em termos tanto de objetivos quanto de estrutura e concepção, mantiveram-se constantes. No entanto, a partir de 1995, foram implementadas importantes mudanças 126 SISTEMAS NACIONAIS DE AVALIAÇÃO E DE INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS 1996, após a aprovação da LDB. A legislação anterior à LDB também poderá, eventualmente, ser encontrada, desde que esteja relacionada com as normas em vigor. O ProLEI permite uma pesquisa fácil e rápida usando a Internet. Desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS), o ProLEI tem como principal característica a possibilidade de relacionar ou correlacionar duas ou mais normas, através de links, identificando a ligação entre as mesmas. O Cibec conta ainda com outros produtos como a Biblioteca Virtual da Educação (BVE), que é um catálogo com links para mais de 1.600 sites educacionais brasileiros e estrangeiros selecionados na Internet, sobretudo os que se referem à avaliação e estatísticas educacionais; a Bibliografia Brasileira de Educação (BBE), que reúne artigos, estudos, ensaios e livros nos diferentes temas educacionais, permitindo a realização de pesquisas por assunto, autor, título e ano; e o Thesaurus Brasileiro de Educação – Brased, que é uma ferramenta de linguagem documental, que utiliza vocabulário controlado e funciona como mecanismo de localização de documentos e indexação, podendo se constituir como ferramenta ideal para a organização de bibliotecas. mas de capacitação em serviço e formação continuada de professores. A utilização do Saeb como subsídio para planejar programas de capacitação docente vem sendo feita desde 1995. Por isso, tem sido fundamental a permanente articulação entre o Inep e as equipes estaduais do Saeb, permitindo aos dirigentes das redes públicas desenvolver um trabalho de formação continuada dos professores, com base nos resultados da avaliação da aprendizagem verificados em cada unidade da Federação. A DISSEMINAÇÃO DE INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS Com a finalidade de tornar as informações produzidas acessíveis aos usuários, constituídos pelos diferentes atores da área educacional e pelos segmentos sociais interessados na questão, o Centro de Informações e Biblioteca em Educação (Cibec) passou por uma completa reestruturação, transformando-se em núcleo difusor de informações educacionais, com ênfase na avaliação e estatísticas produzidas pelo próprio Inep e em informações gerais processadas por instituições nacionais e internacionais. O sistema de informações do Cibec permite a disseminação virtual e local e apresenta os produtos descritos a seguir. COMENTÁRIOS FINAIS Esta descrição sumária dos principais projetos desenvolvidos pelo Inep permite concluir que, na década de 90, o Brasil realizou notáveis progressos na área de avaliação e produção de informação educacional. Como resultado desses esforços, promovidos com maior intensidade nos últimos cinco anos, o país conta hoje com um sistema moderno e eficiente de indicadores que possibilita monitorar as políticas e diagnosticar com acuidade as deficiências do ensino. O impacto das avaliações nacionais e levantamentos periódicos realizados pelo Inep provocou mudanças que se refletem hoje na nova agenda do debate educacional. A divulgação das informações contribui para qualificar a demanda, desencadeando uma dinâmica de transformação na qual a sociedade torna-se o agente principal. Perfil Municipal da Educação Básica (PMBE) O PMBE é um aplicativo que disponibiliza informações sobre a situação socioeconômica e educacional brasileira. Desenvolvido em parceria com a Fundação Seade, reúne, em um único programa, dados educacionais produzidos pelo Inep e dados estatísticos de diversas fontes oficiais, como o Ministério da Fazenda, a Fundação IBGE, a Fundação Seade, as Secretarias Estaduais da Fazenda e os Tribunais de Contas dos Estados. O sistema dispõe de 252 variáveis sobre os 5.507 municípios instalados até 1996, dez regiões metropolitanas, os 26 estados e o Distrito Federal, as cinco grandes regiões e o Território Nacional. Programa de Legislação Educacional Integrada (ProLEI) NOTAS O ProLEI é um aplicativo que reúne toda a legislação federal, indexando leis, medidas provisórias, decretos, portarias, resoluções, pareceres e instruções normativas, na área de políticas educacionais, publicadas a partir de 1. Administração, Direito, Engenharia Civil, Engenharia Química, Medicina Veterinária, Odontologia, Engenharia Elétrica, Jornalismo, Letras, Matemática, Economia, Engenharia Mecânica e Medicina. 2. O Saeb/97 contou com a participação de 167.196 alunos distribuídos em 5.659 turmas de 1.993 escolas públicas e privadas. Também participaram da pesquisa 127 SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(1) 2000 13.267 professores e 2.302 diretores. Em 1999, o Saeb realizou o seu quinto levantamento nacional consecutivo – os anteriores foram em 1990, 1993, 1995 e 1997. Participaram da amostra do Saeb/99 360.451 alunos, distribuídos em 7.011 escolas públicas e privadas, sendo 133.143 da 4 a série, 114.516 da 8a série do ensino fundamental e 112.792 da 3a série do ensino médio. Em relação ao levantamento anterior, de 1997, houve, portanto, um crescimento de 115,6%. Esta expansão da amostra teve como objetivo garantir maior confiabilidade na com- paração do desempenho por estado e por rede de ensino. Também foram pesquisados 44.251 professores e 6.800 diretores de escolas. 3. O Saeb/99 incorporou novas disciplinas a serem avaliadas. Além de Português, Matemática e Ciências para os alunos da 4a e 8a séries do ensino fundamental, e de Português, Matemática, Biologia, Física e Matemática, para os alunos da 3a série do ensino médio, foram incluídas as disciplinas de Geografia e História. 128