ambiente da inovação brasileira
Outubro/Novembro/Dezembro 2009
no 58 • Ano XV
Inovação
em 14 passos
A receita criada no Vale do
Silício para o desenvolvimento
de habitats inovadores
Sucesso
Os vencedores do 13º Prêmio Nacional
de Empreendedorismo Inovador
Mercado verde
O desafio de desenvolver
tecnologias sustentáveis
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
Índice
ambiente da inovação brasileira
Outubro/Novembro/Dezembro 2009 • no 58 • Ano XV
30
ISSN 1980-3842
A revista Locus é uma publicação
da Associação Nacional de
Entidades Promotoras de
Empreendimentos Inovadores
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Mauricio Guedes, Maurício
Mendonça, Jorge Audy e
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Jornalista responsável
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Edição de arte
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Produção
Apoio
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Impressão
Gráfica Brasil Uberlândia
Tiragem
5.000 exemplares
Habitats de inovação
Especialistas discutem qual o caminho para o
desenvolvimento de regiões inovadoras. Confira os 14 passos
propostos pelo professor da Universidade de Stanford,
William Miller, para propiciar a criação de polos de
inovação.
22
Presidente
Guilherme Ary Plonski
c a p a
50
E n t re v i s t a
O CEO do 22@Barcelona, Josep Miguel Piqué, fala do distrito inovador que
extrapola os limites de um parque tecnológico tradicional e integra ciência e
tecnologia à arte e à cultura.
E m
M o v i m e n t o
Temas, debates e pessoas que transformaram em um grande sucesso o XIX
Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas e o 3º
Global Fórum.
Ne g ó c i o s
Incubadoras e empresas encontram nas tecnologias sustentáveis um mercado
rentável e conectado às demandas sociais, ambientais e econômicas das regiões em
que atuam.
O p o r t u n i d a de
Conheça as principais tendências em tecnologias móveis e descubra por que o setor
figura entre os nichos de negócio do futuro.
I n t er n a c i o n a l
Pequenas empresas inovadoras apostam na internacionalização, antes vista como
privilégio das gigantes.
E x t r a
A diretora do infoDev, Valerie D’Costa, fala sobre o programa do Banco Mundial
para empreendedorismo e a representatividade do Brasil no cenário mundial da
inovação.
I n v es t i m e n t o
O Prime sai do papel e promete alavancar o desenvolvimento de milhares de
empresas inovadoras espalhadas pelo Brasil.
S u c ess o
A trajetória dos vencedores da 13ª edição do Prêmio Nacional de
Empreendedorismo Inovador.
Ges t ã o
Anprotec apresenta modelo para excelência de gestão em incubadoras. Inspirada
nas melhores iniciativas praticadas no mundo todo, o modelo é 100% brasileiro.
O p i n i ã o
Mauricio Guedes: Concentra mas não sai
carta ao leitor
T
odos os anos, pessoas ligadas ao movimento do empreendedorismo inovador
têm a oportunidade de parar para refletir
sobre os caminhos do desenvolvimento. A
parada estratégica ocorre durante o Seminário Nacional de Empreendedorismo Inovador, promovido pela Anprotec em conjunto com uma série de parceiros. Em 2009,
o evento ocorreu em Florianópolis (SC) e
trouxe uma proveitosa novidade: foi desenvolvido em paralelo ao 3º Global Forum,
encontro promovido pelo infoDev, projeto
do Banco Mundial voltado ao empreendedorismo e à inovação. Juntos, os eventos
ganharam força e discutiram temas essenciais ao desenvolvimento sustentável, que
alia crescimento econômico a avanços sociais e preservação ambiental.
O relato dos eventos e os temas debatidos pelos participantes de ambos formaram
a base desta edição especial da Locus. Nossa equipe acompanhou plenárias, sessões
paralelas, workshops e outras tantas atividades que integraram o Seminário e o Forum, para trazer a você, leitor, uma cobertura completa das principais discussões
que cercam o movimento. Assim, as matérias desta edição se propõem a indicar tendências, relatar opiniões e descrever ações
que servem de exemplo.
Nesse sentido, a reportagem de capa revela a importância da criação de ambientes
favoráveis à inovação, nos quais parques
tecnológicos e incubadoras de empresas
integram uma rede maior de agentes, formada por governo, instituições de ensino
e pesquisa e investidores. Traçando um paralelo com o Vale do Silício, mostramos
os 14 passos indicados por William Miller,
ex-reitor e codiretor do Programa de Re-
giões Inovadoras e Empreendedorismo da Universidade de Stanford,
que tornam propício o
desenvolvimento de
uma região inovadora.
As ideias de Miller são
reforçadas pelo entrevistado desta edição,
Josep Miguel Piqué,
CEO do 22@Barcelona,
o Distrito da Inovação
que está mudando o
perfil econômico da cidade espanhola.
Promover processos e produtos focados
no bem-estar social é um dos 14 passos
indicados pelo especialista de Stanford. O
desenvolvimento de tecnologias sustentáveis, tema da reportagem da seção Negócios, confirma a teoria. O Brasil já conta
com uma incubadora especializada em econegócios, a IncubaLIX, que vem contribuindo para o desenvolvimento local da
Região Metropolitana de Vitória (ES). A
trajetória da incubadora comprova que o
mercado de tecnologias sustentáveis está
em expansão, mas ainda faltam empreendedores dispostos a correr os riscos inerentes ao negócio.
Não se deixar intimidar pelos riscos é
um dos segredos dos vencedores do Prêmio
Nacional de Empreendedorismo Inovador,
protagonistas da seção Sucesso desta edição. Da incubadora do interior do Paraná
à empresa graduada especializada em nanotecnologia, o empreendedorismo inovador mostra sua contribuição ao desenvolvimento do país.
Boa leitura!
C onselho E ditorial
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6
Daniella Fernandes
Entrevista
Talita M arçal
O talento tem que respirar
I
magine uma cidade cercada por arte e
cultura. Nela, empresas inovadoras
poderiam conviver com universidades e
centros científicos e tecnológicos. Pessoas
talentosas trabalhariam e morariam ali,
desfrutando de áreas verdes e de boa
qualidade de vida. Essa é a proposta de
transformação urbana do 22@Barcelona,
também chamado de Distrito da Inovação.
O projeto está sendo desenvolvido na
Espanha desde 2000 e ocupa um espaço de
aproximadamente 200 hectares de solo
industrial. Para falar do distrito inovador, o
CEO do 22@, Josep Miguel Piqué, veio ao
Brasil em 2009 para participar de um
seminário sobre inovação promovido pela
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prefeitura do Rio de Janeiro.
Piqué também conversou com a
Locus sobre essa nova geografia
urbana, desenhada pela Economia do
Conhecimento. Segundo ele, estamos
entrando em um território sem
modelos, pois a arquitetura da cidade
do conhecimento extrapola o
conceito de parques tecnológicos
tradicionais e demanda que arte e
cultura se integrem à ciência e à
tecnologia. Quem habita essa nova
urbe são talentos cuja habilidade não
apenas é criar, mas saber compor
redes, conectando realidades locais
ao mercado global.
Locus: O Distrito da Inovação é um
novo modelo de cidade, é o modelo da
cidade do conhecimento. Quais são as
bases nas quais o 22@Barcelona está
apoiado?
Piqué: O 22@ é um projeto de transformação urbanística, econômica e social de
um distrito decadente de Barcelona, que,
no século XIX, era uma zona industrial.
Além da recuperação da área, o distrito
marca a tomada de consciência da nova
Economia do Conhecimento e da urbanização dessa economia. O 22@ também
potencializa a força da marca de Barcelona para vender-se ao mundo. A cidade já
era vista como amiga pelos visitantes e
turistas, mas o distrito inovador projeta
ainda mais a capacidade de Barcelona ser
amigável e atrativa, ao valorizar a nova
economia, o talento e as pessoas.
Locus: O talento é matéria-prima da
Economia do Conhecimento. Como
criar condições para desenvolvê-lo?
Piqué: O talento tem que respirar. E respirar talento significa atrair, reter, desenvolver e criar de forma integrada. Se não
temos talentos chineses e hindus suficientes nas nossas atividades diárias, dificilmente nossas empresas vão abordar mercados na China e na Índia. A lógica da
atração é atrair os melhores ou pessoas
desses territórios. A incorporação de elementos de fora também traz a vantagem
de evitar grupos de pesquisa endogâmicos. Com a vinda e a instalação do talento, têm que ser criadas condições para que
ele seja retido. A intenção do 22@Barcelona é atrair grupos de várias nacionalidades para formar comunidades conectadas entre si, local e internacionalmente.
A ideia é que um recém-chegado possa
conectar-se de maneira mais estruturada
à sua comunidade de referência, no geral
associada à comunidade linguística.
Locus: Como a arte e a cultura podem
influenciar a Economia do
Conhecimento? É possível conectar
artistas e empresas?
Piqué: Ao urbanizar-se, a Economia do
Conhecimento permite que as atividades
econômicas e industriais da cidade possam beneficiar-se do próprio ambiente
urbano. A cidade não só é o espaço para
viver e trabalhar, como é um local capaz
de estimular e prover mensagens, impactando a cada segundo os talentos que ne-
Respirar talento significa atrair, reter,
desenvolver e criar de forma integrada. Se não
temos talentos chineses e hindus suficientes nas nossas
atividades diárias, dificilmente nossas empresas vão
abordar mercados na China e na Índia.
la vivem e gerando inovação. Passear por
Barcelona e ver o Templo da Sagrada Família, de Gaudí, ou estar no 22@ e ver um
artista atuar, não são mensagens neutras.
Esse é um modo informal de impactar a
cultura e as pessoas. Quando falamos em
arte e cultura, temos que ficar atentos às
suas duas expressões: a da indústria cultural, ligada à música, ao audiovisual ou
ao mercado editorial, e especialmente, a
da arte e da cultura como um elemento
transversal que pode impactar em setores
não necessariamente culturais. As Tecnologias de Informação são um setor vertical para as telecomunicações e também
podem dar valor a outras áreas que utilizam tecnologias. O artista é criador, usuário, crítico e, sobretudo, capacitado para implementar um conceito, podendo,
dessa maneira, participar do processo de
criação de produtos e serviços mediante
metodologias de inovação.
Locus: O senhor poderia citar um
exemplo dessa interação?
Piqué: No 22@ há o programa Disonancias, no qual a GTD, empresa que desenvolve software para setores aeroespaciais,
utiliza um conjunto de artistas para desenhar uma nova nave não tripulada. Se
a máquina de inovação em vez de ser
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7
Entrevista
científico-tecnológica passa a ser artística, cria-se outra forma de inovar. No
lugar do método científico, lógico e planificado, o método artístico, com sua
criatividade. Percebemos, então, uma
possibilidade de hibridação de grupos
de cientistas e de artistas, ou de empresários e artistas, para o desenvolvimento de projetos não estritamente culturais
ou artísticos. Inovar vira sinônimo de
hibridar, tornando necessário inserir a
arte e a cultura no processo de criação
de novos produtos e serviços.
Locus: Pensando nos países da
América Latina, em especial no Brasil,
como o senhor acha que a inovação
pode contribuir para a transformação
social?
Piqué: Acho importante a mensagem de
um sistema de inovação local e global
que seja baseado no trabalho conjunto
do trio governo, universidade e indústria. Para a criação da Economia do Conhecimento é determinante o papel da
administração pública, nas esferas federal, estadual e municipal, e também a
colaboração das empresas. Mas na América Latina, principalmente no Brasil,
Se a máquina de inovação em vez de ser
científico-tecnológica passa a ser artística,
cria-se outra forma de inovar. No lugar do método
científico, lógico e planificado, o método artístico,
com sua criatividade.
um fator essencial é a universidade ser
uma instituição de referência em longo
prazo. Se além da docência e da pesquisa, ela aceitar uma terceira função, a de
transferência do conhecimento, teremos
na América Latina a universidade como
um dos grandes artífices do desenvolvimento econômico. A ela caberá desenvolver estruturas híbridas e mistas, como
os parques científicos ou as incubadoras,
que, em geral, são os meios de desenvol-
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ver a economia e de ligar universidade e
empresa a uma estrutura de integração
mais eficaz. Se ainda urbanizarmos essa
economia, não só transformamos o aspecto econômico como também o social.
A Universidade de Barcelona usou a universidade como mecanismo de transformação social ao localizá-la em uma área
antes degradada e que hoje é o 22@.
Locus: O que seria necessário para que
um distrito inovador fosse construído
no Brasil?
Piqué: Aqui, um dos pontos centrais é a
instalação de clusters urbanos. Isso significa que precisamos ter no mesmo espaço
físico universidades, centros tecnológicos
e empresas “tractoras” (assim chamadas
em espanhol por serem grandes empresas, geralmente de âmbito nacional e internacional, que incentivam o crescimento em uma dimensão macro. Elas também
fomentam pequenas e médias empresas,
ativando mundialmente economias locais). O segundo ponto é aproveitar a
transformação como elemento de aprendizagem da cidade e forma de alavancar
a compra pública. A transformação deve
servir para desenvolver novas tecnologias, desenvolver cidades e, sobretudo,
novas soluções de cidade. As novas tecnologias podem reabilitar setores antigos
ou, no caso das tecnologias urbanas de
circulação, repensar o transporte. O processo de transformação traz ainda para
um pequeno empresariado local a possibilidade de aprendizado.
Locus: Existem micro e pequenas
empresas em 22@Barcelona? Como
micro e pequenas empresas podem se
conectar à Economia do
Conhecimento?
Piqué: Em 22@ existem empresas de todos os portes. Cada cluster tem grandes
empresas “tractoras”, médias e pequenas,
e ainda novas empresas saídas de incubadoras. No caso das pequenas e médias,
é importante que não trabalhem sozi-
nhas e que estejam inseridas em uma cadeia de valor, que se “clusterizem”. Em
um meio inovador, elas podem tirar vantagens de fusão ou de aquisição por parte de alguma outra empresa. O ideal é
que trabalhem sabendo que seu produto
ou serviço, ao final, vai ter como cliente
alguém do cluster, por exemplo. Isso permite que suas curvas de aprendizagem
sejam muito mais rápidas. Uma pequena
empresa não precisa vender internacionalmente no seu primeiro dia, mas é fundamental que ela pense como inserir em
uma escala de venda internacional o produto ou o serviço que desenvolve localmente, projetando-os para o mundo. Essa projeção das pequenas e médias
empresas pode apoiar-se nas grandes
empresas que as cercam em um ambiente criativo, pois são as grandes corporações que podem dotar as pequenas de
capilaridade global.
Locus: E quanto à capacidade de
ruptura das micro e pequenas
empresas?
Piqué: Um professor chamado Jerry Engel
fala da diferença entre a inovação de uma
pequena empresa e a de uma grande. Na
grande empresa tudo está sistematizado e
há aversão ao risco. O bom da pequena empresa inovadora é que ela pode ser radical
em sua proposta, porque não tem nada a
perder. A partir do momento em que uma
proposta radical de valor surge no mercado, se a grande corporação está afinada
com as novas empresas ela pode absorver
a inovação dentro da sua estrutura empresarial. O objetivo é que as cidades sejam
meios que facilitem as possibilidades de
interação das grandes corporações com pequenas empresas inovadoras.
Locus: Como fica o papel das
incubadoras no processo?
Piqué: As incubadoras são a base para
criar iniciativas empresariais. Elas devem
apoiar não somente o nascimento das empresas, mas o crescimento e também os
chamados planos de saída. São eles que
apontam caminhos. Se uma empresa será
comprada por outra maior, se ela abrirá
capital no mercado acionário vendendo-
Uma pequena empresa não precisa vender
internacionalmente no seu primeiro dia, mas é
fundamental que ela pense como inserir em uma escala de
venda internacional o produto ou o serviço que desenvolve
localmente, projetando-os para o mundo.
se ao IPO (Initial Public Offering), se optará por fusões e aquisições. O importante é que essa lógica prevê se uma empresa
nasce com vontade de ser vendida, de entrar no mercado de capital ou de conseguir financiamento para crescer. As incubadoras também devem incorporar redes
de business angels, investidores que além
de injetar dinheiro compartilham experiência e as colocam em redes de contato.
As incubadoras têm que saber o que fazer
para as iniciativas crescerem, têm que conectá-las aos mercados de saída e, principalmente, aos mercados de capital.
Locus: Quais são os desafios do Distrito
da Inovação?
Piqué: Temos dois grandes desafios relacionados ao crescimento econômico e
territorial. Um é que a expressão de 22@
se expanda para o resto de Barcelona. Não
a região de 22@, mas a equipe de transformação. E que o 22@ venha a liderar o
desafio de mudança econômica do resto
da cidade, uma zona franca de valor alimentar e o que será a zona do trem de
alta velocidade, que ligará 22@ com La
Sagrera, localidade de outro distrito de
Barcelona. Enquanto desafio conceitual,
temos o estabelecimento do diálogo entre
arte, cultura e empresa. Entendemos que
existem novas fronteiras e, por isso, estamos trabalhando em fábricas culturais e
em como elas podem ser meios para conectar empresas e cultura.
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M O V I M E N TO
Fotos: Divulgação / Anprotec
O evento do empreendedorismo brasileiro
Seminário e Global
Fórum reuniram cerca
de mil pessoas em
Florianópolis (SC)
Inovação e empreendedorismo são eixos estruturantes
de uma agenda de desenvolvimento à altura dos desafios
do novo contexto mundial e das expectativas de uma sociedade mais sustentável e coesa. Para essa finalidade,
foram articulados dois dos eventos mais expressivos desse segmento: o 3º infoDev Fórum Global de Inovação &
Empreendedorismo e o XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológico e Incubadoras de Empresas, realizados
em outubro de 2009, em Florianópolis (SC).
O encontro contou com a presença recorde de 1.077
pessoas, de 76 países. Durante quatro dias, foram realizados 10 minicursos, dois workshops, 11 sessões plenárias,
uma rodada de negócios entre
instituições de diferentes países e
69 apresentações de trabalhos. A
cooperação entre as instituições
envolvidas facilitou a conjugação
de esforços entre o Information
for Development Program (infoDev), iniciativa vinculada ao Banco Mundial; o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil, a
Anprotec e o Sebrae.
Investimento, internacionalização e desenvolvimento inclusivo foram os temas que direcionaram as discussões entre os
participantes dos eventos. Realizado pela primeira vez fora da
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Índia, o Fórum Global se encarregou de propor uma
visão participativa dos negócios em prol do desenvolvimento inclusivo mundial. O Seminário Nacional, sob
a ótica do investimento e da internacionalização, prospectou formas de tornar micro e pequenas empresas
inovadoras alavancas econômicas e sociais.
Os dois eventos possibilitaram debates sobre políticas
voltadas para a inovação, identificando as principais
ações de promoção e fortalecimento de parcerias público-privadas; o papel das incubadoras de empresas para
o desenvolvimento de setores como agronegócios e energias limpas, os tipos de investimentos que podem e estão sendo aplicados nas empresas inovadoras nascentes, as
estratégias de internacionalização que estimulam a cooperação
entre empreendimentos inovadores e a atratividade dos parques tecnológicos para investimentos públicos e privados.
Braço do Banco Mundial para
empreendedorismo e inovação e
um dos parceiros da Anprotec,
o infoDev atua desenvolvendo
atividades de tecnologia da inMakhtar Diop, diretor do Banco
Mundial para o Brasil, também
participou do evento
formação e comunicação (TIC)
para alavancar a inovação em
nos países em desenvolvimento.
70 países em desenvolvimento
O Fórum representa a área cené de US$ 25 milhões, dos quais
tral de atuação da entidade e viUS$ 3 milhões em serviços e
sa a troca de ideias e experiêndinheiro foram investidos no
cias entre os representantes de
Brasil, incluindo o montante
destinado à organização do
incubadoras de diversos países
do globo. “Esses encontros e fóevento. A gerente do programa,
runs são formas importantes de
Valerie D’Costa, reiterou que o
reafirmar parcerias, estreitar repaís foi escolhido para sediar o
lações e aprender em primeira
evento por ser um expoente inmão sobre desenvolvimento susternacional. “Com essa parceria, procuramos obter transfetentável. Na era do e-mail e da
videoconferência, não há nada
rência de know-how. Há
como trocas de experiência cara
incubadoras em todo o mundo
Khalil, do Banco Mundial: projetos brasileiros de
a cara”, disse Valerie D’Costa, diolhando para o Brasil em busca
empreendedorismo têm grandes diferenciais
retora do infoDev.
de um guia para desvendar as
Para Guilherme Ary Plonski, presidente da Anprotec,
maneiras como o país trabalha o processo de incubaa realização conjunta dos eventos no Brasil foi uma oporção”, conclui.
O governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da
tunidade para uma avaliação dos impactos da crise para
Silveira, deu o exemplo da China para mostrar como
o empreendedorismo inovador mundial. “É uma convicum país pode alavancar a sua economia por meio do
ção que inovação e empreendedorismo são componentes
desenvolvimento inovador. “Este século vai ser maressenciais não apenas de um receituário de tratamento
das consequências da crise, mas também elementos conscado pelos países que sabem e não pelos países que
trutivos estruturais de uma economia privada mais sustêm”, destacou. O governador frisou a importância de
tentável, de um setor público mais responsivo e de uma
se fazer investimentos em educação, ciência e tecnosociedade civil mais proficiente”, afirmou.
logia para alavancar economias. “Podemos ser um Vale do Silício pela geração de conhecimento aqui. Não
somos um país de commodities, somos um país que
Por que o Brasil
exporta inteligência”, garantiu. Apostando nessa ideia,
O diretor da área de TI do Banco Mundial – entio estado de Santa Catarina aprovou lei que prevê indade que detém o programa infoDev, Mohsen Khalil,
vestimentos de 2% da receita em inovação e empreendedorismo.
disse que a parceria com o Brasil repercutiu pelo
mundo e um dos objetivos é
Luiz Henrique da Silveira, governador de Santa Catarina, acompanhado
justamente criar uma plataforpor Ronaldo Mota (‘a direita) e Paulo Okamotto (à esquerda)
ma de unificação e troca de experiências. Khalil frisou ainda
que os projetos brasileiros de
empreendedorismo têm grandes diferenciais, com foco nas
pessoas menos privilegiadas
como mulheres e jovens. “Nosso objetivo é usar a tecnologia
para que esses indivíduos tenham a capacidade de realizar
sonhos”, declarou.
Segundo Khalil, o valor do
aporte fornecido pelo Banco
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M O V I M E N TO
Fotos: Divulgação / Anprotec
Acordos com Espanha e Portugal fomentam internacionalização
promovida pelo ENI durante o Seminário da Anprotec. A rodada reuniu 17 estrangeiros de parques tecnológicos, empresas, entidades e institutos de P&D,
representando sete países (Portugal, Espanha, Eslovênia, Costa Rica, Uruguai, Chile e Colômbia). Do Brasil, 65 empresários participaram do evento que gerou
160 encontros. “Essa aproximação pessoal, quando os
empresários se conhecem e têm a oportunidade de
conversar, é um primeiro passo para a concretização
de negócios”, completa Steinbruch.
Inovação cultural
Plenária também abordou internacionalização de MPEs
A internacionalização de empresas inovadoras ganhou mais aliados durante o Seminário Nacional, com
as assinaturas de dois acordos entre instituições brasileiras e europeias. Um deles foi selado entre o Escritório de Negócios Internacionais (ENI), da Fundação
Certi, e o Invest Lisboa, agência de promoção de investimentos na capital portuguesa.
Com o objetivo de identificar negócios em Lisboa,
o acordo oferece às empresas inovadoras a oportunidade de prestar serviços e consultorias na capital portuguesa, além de buscar investidores locais. “Será um
facilitador para as empresas interessadas em expandir
seus negócios em Portugal, dando suporte local desde
a abertura de mercado até consultoria customizada”,
afirma Alexandre Steinbruch, coordenador do ENI,
entidade ligada à Associação Comercial de Lisboa.
Outro convênio foi assinado entre a Fundação Certi e a Universidade Carlos III de Madri. O texto prevê
acesso bilateral das empresas aos mercados brasileiro
e espanhol. O objetivo do convênio é promover cooperação técnica, capacitação e transferência de tecnologia entre as empresas ligadas aos parques tecnológicos da universidade espanhola e da Certi. “O convênio
visa diretamente a internacionalização das empresas,
que terão, por exemplo, disponibilidade de espaço e
infraestrutura no parque tecnológico da Universidade
de Madri, assim como receberemos as empresas espanholas”, diz Steinbruch .
Os acordos foram resultados da rodada de negócios
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Na noite de abertura do evento, em 28 de outubro,
os participantes se encantaram com a apresentação do
espetáculo “Divertissement”, da Companhia Jovem da
Escola do Teatro Bolshoi do Brasil.
Primeira escola do Balé Bolshoi fora da Rússia, a
instituição busca proporcionar uma possibilidade de
crescimento cultural para crianças carentes. O projeto
é desenvolvido em Joinville desde 1998 e atende crianças de 22 estados do Brasil, que sonham em ser bailarinos. Com um elevado padrão de excelência na área,
o Bolshoi é reconhecido como a melhor instituição de
dança clássica do mundo.
Apresentação do Balé Bolshoi na abertura do evento
Metas do 3º Global Forum
Projeto do Banco Mundial para empreendedorismo e inovação, o infoDev atua desenvolvendo atividades de tecnologia da informação e comunicação
(TIC) nos países em desenvolvimento. O Fórum, que
teve sua terceira edição realizada em 2009, representa a área central de atuação da entidade e visa a
troca de ideias e experiências entre os representantes de incubadoras de diversos países.
Valerie D’Costa, gerente do projeto, explica que
atingiu o principal objetivo do evento: mudar a direção estratégica adotada até agora pela instituição.
“Saindo de pura incubação de negócios e indo para
um panorama internacional da agenda da inovação
e desenvolvimento tecnológico. O programa do
evento objetivou atingir exatamente isso. Não falamos apenas de questões ligadas ao dia a dia da incubação, mas pensamos as questões mais estratégicas, ligadas ao desenvolvimento, colocando a
inovação como uma ferramenta para isso”.
Além disso, o Global Forum foi uma forma de
destacar o Brasil, que é um novo doador do infoDev
por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia. A
entidade possui 175 incubadoras associadas nos países em desenvolvimento do mundo e todas participaram do evento no Brasil. O Fórum possibilitou
o surgimento de novas ideias para o movimento na
área de inovação e empreendedorismo e também
para o próximo anfitrião do Global Forum, que será a Finlândia.
Workshop discutiu a importância
dos parques tecnológicos
“A universidade não se adapta mais às necessidades da sociedade de um modo geral. Nesse contexto, surgem os parques tecnológicos como um realce dessa necessidade de deixar de fazer ensino
para conseguir uma relação maior com a sociedade”. A frase acima, dita pelo reitor da Universidade de Itajubá (Unife), Renato Aquino, resume o
conteúdo de um dos workshops do XIX Seminário:
“Parques tecnológicos: políticas públicas, atração
de investimentos e estratégias de desenvolvimento
– por que e como”. Na tarde do primeiro dia do Seminário, profissionais do setor se reuniram para
expor as razões e motivações para se investir em
um parque tecnológico.
Aquino debateu as incongruências entre o mercado e o meio universitário e disse que, no Brasil, muitos acadêmicos têm muito receio em misturar os dois
setores. “Há um conflito entre a formação para o
mercado e a formação intelectual, o que não é incompatível de forma alguma”, comentou.
Patentes criadas desde o século
XVII estão disponíveis na internet
Em parceria com o infoDev, a M-CAM – empresa de serviços em transferência de tecnolgia e
inovação – lançou, durante o 3º Global Forum, o
Global Innovation Commons, site que agrega patentes de um sistema que é arquivado desde o século XVII.
David Martin, presidente da M-CAM, explicou
que essas patentes possuem um valor intangível de
US$ 2 trilhões e que agora estão disponíveis na internet, no site http://www.globalinnovationcommons.org/front. “A única condição é que o usuário
das informações disponíveis no Global Innovation
Commons deve compartilhar com os demais o que
ele está fazendo. Caso alguma patente seja melhorada, essa melhora deve ser compartilhada e a referência ao Global Innovation, quando as informações
forem compartilhadas, é obrigatória”, explica. As
centenas de milhares de patentes disponíveis no site não são mais mantidas por órgãos oficiais e, por
isso, estão expiradas.
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M O V I M E N TO
Campo Grande sedia XX Seminário em 2010
O XX Seminário de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas ocorrerá em Campo Grande (MS), em
2010. Com 755 mil habitantes, a cidade é considerada o portal do Pantanal. Por isso, o prefeito municipal, Nelson Trad Filho, afirma que a cidade está muito satisfeita em abrigar um evento desse porte.
De acordo com Trad, a realização do Seminário na cidade vai estimular discussões que aliem inovação e sustentabilidade, dois temas em destaque na agenda global atualmente. “Os administradores da geração mais jovem
têm certamente uma preocupação maior com isso e sabemos que nessas discussões podem estar soluções para
problema futuros, que podem ser combatidos por meio da inovação. Então, estamos muito satisfeitos em tocar
nesse tema e influenciar positivamente a pauta do seminário de 2010”, afirma o prefeito. As reuniões entre a
prefeitura de Campo Grande e a Anprotec iniciaram em novembro de 2009, para adequar o evento às características do município.
Com a mulher ganhando cada vez mais espaço nas
universidades e no ambiente empresarial, seria natural
que o movimento do empreendedorismo inovador
também fosse bastante aquecido pela força feminina.
Entretanto, segundo profissionais do infoDev, programa do Banco Mundial, especialmente nos países em
desenvolvimento como o Brasil ainda há inúmeras barreiras que impedem a presença delas no cenário da
incubação de negócios.
Esse foi o tema de uma sessão paralela no Seminário: “Incubadoras de Empresas & Mulheres Empreendedoras”. A mesa era formada por profissionais que
comandaram ações do projeto do Banco Mundial em
prol da promoção do empreendedorismo feminino pelo mundo: Zamira Akbagysheva, líder do grupo; Mbarou Mbaye, coordenadora das ações na África, e Noelia de Leon, coordenadora das ações na América
Latina e no Caribe.
Proveniente do Quirguistão, Zamira destacou que
existem 6 mil negócios incubados no mundo e que
poucos enfocam as mulheres. Exatamente para promover uma maior inserção do sexo feminino nesse
ambiente, o infoDev tem como estratégia a promoção
de ações de divulgação de informações sobre o tema,
procurando estimular a maior inserção delas no cenário da inovação e empreendedorismo.
As causas para a falta de inserção das mulheres no
ambiente inovador, segundo a senegalesa Mbarou, são
fatores desestimulantes, como barreiras culturais e religiosas, sobrecarga de atividades, pouca organização
e falta de acesso a crédito. “Muitas mulheres não conseguem obter um financiamento por não terem uma
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Empreendedorismo feminino em pauta
propriedade”, explicou. Noeli, da Costa Rica, destacou
que na América Latina e no Caribe a falta de capacitação, as dificuldades de ingresso no mercado de trabalho e o baixo acesso a tecnologias são outros obstáculos a serem enfrentados.
Para combater o problema, o grupo apresentou recomendações gerais para atuação dos países, como a
promoção de capacitações, a criação de iniciativas de
apoio aos negócios femininos e melhorar estratégias
para acesso das mulheres ao mercado. As profissionais
ponderaram que existem oportunidades para o empreendedorismo feminino crescer no continente, que incluem ações de várias organizações pelo desenvolvimento das mulheres, como os cursos de capacitação
via internet, o grande número de profissionais do sexo
feminino em posições para tomar decisões políticas e
a criação do Fundo de Desenvolvimento das Nações
Unidas para a Mulher.
A programação do Seminário foi iniciada com uma
série de treinamentos voltados a profissionais de incubadoras de empresas. A Anprotec, em parceria com
o Sebrae, realizou cursos sobre temas ligados à internacionalização e a tecnologias inovadoras.
As maneiras como as empresas incubadas podem se
aproveitar do cenário internacional foram abordadas
no tema “Estratégias de Cooperação Internacional”.
Segundo Maurício Schneck, assessor de relações internacionais da Anprotec e um dos palestrantes, a ideia
era mostrar quais são os passos que levam uma empresa a conseguir alavancar as estratégias de internacionalização.
Em “Avaliação e Valorização de Tecnologias Inovadoras”, os profissionais contaram com a participação
de Rosangela Ribeiro e Luís Afonso Bermudéz, respectivamente gerente e diretor do Centro de Apoio
ao Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de
Brasília.
Rosangela comenta que o treinamento teve como
objetivo repassar técnicas de como valorar o potencial
de tecnologias inovadoras. Para a profissional, na
maioria das vezes as universidades públicas e mesmo
Divulgação / Anprotec
Treinamentos incentivam a internacionalização de MPEs
as empresas incubadas desenvolvem pesquisas para a
aplicação em produtos e processos pouco voltados ao
mercado. Por isso, o treinamento discutiu o valor das
tecnologias e de que maneira elas podem se inserir no
mercado, pensando em elementos de gestão, como público-alvo, investimento e processos.
Para fazer com que cada incubadora consiga analisar sua própria realidade, Rosangela e Bermudéz aplicaram algumas técnicas que chamam de validação e
valoração de tecnologias inovadoras, exemplificando
com casos reais.
Homenagem a Sinhá Moreira
Durante o encerramento do XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas, representantes do Vale da Eletrônica homenagearam a precursora do polo tecnológico de Santa Rita do
Sapucaí.
Luiza Renoó Moreira, a Sinhá Moreira, fundou a Escola Técnica de Eletrônica (ETE) em 1959. Filha do banqueiro Francisco Moreira da Costa e descendente de uma família de políticos tradicionais, Sinhá Moreira,
com recursos próprios, implantou a primeira escola técnica de eletrônica do país. Além disso, preocupou-se
com questões sociais de diferentes formas, inclusive na área da saúde. O Presidente Juscelino Kubitschek instituiu o ensino médio profissionalizante no Brasil, naquele mesmo ano. Dessa forma, a ETE pôde ter suas atividades iniciadas.
Elias Kallás, professor de sociologia em Santa Rita, que participou do Seminário, conta que na cidade há um
folclore em torno das atividades que fizeram de Sinhá Moreira o grande símbolo do Vale da Eletrônica. Preocupada com o fato de todos os homens saírem para estudar e retornarem já casados, ela buscou estruturar o ensino técnico de Santa Rita. Com isso, os homens porderiam estudar lá, as moças teriam oportunidade de se casar
e a cidade não passaria por um processo de envelhecimento.
A verdade é que Sinhá Moreira se preocupou com questões sociais de diferentes formas, inclusive na área de
saúde. Meia década depois da fundação da ETE, a cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí conta com 130 empresas do setor de eletroeletrônicos, organizadas em um Arranjo Produtivo Local e que empregam 10 mil pessoas. Sinhá Moreira faleceu em 1963, muito antes de pensar na formação do Vale da Eletrônica. A cidade jamais a esqueceu.
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E M
M O V I M E N TO
Plonski é reeleito
presidente da Anprotec Fotos: Divulgação / Anprotec
Guilherme Ary Plonski foi reeleito para a
presidência da Anprotec, na Assembleia Geral que aconteceu no último dia 28 de novembro, durante o Seminário da Anprotec.
Na composição da diretoria, que comandará a entidade pelos próximo dois anos,
está a vice-presidente Francilene Procópio
Garcia, primeira mulher eleita ao cargo.
Francilene é diretora geral da Fundação
Parque Tecnológico da Paraíba (ParqTcPB)
e professora e pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desde 1989. O reitor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e co-criador da Rede Mineira
de Inovação (RMI), Renato de Aquino Faria
Nunes, reforça o comando da Anprotec, assim como Tony Chierighini, da Fundação
Centro de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi). Foram reeleitos para o corpo dirigente Gisa Helena Melo Bassalo, da
Universidade Federal do Pará (UFPA), e
Paulo Roberto de Castro Gonzalez, da Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec). Entre os planos para 2010 estão a implementação dos programas Sapi e Cerne, o
incentivo à internacionalização das empresas e a continuidade das parcerias para dar
apoio aos parques tecnológicos. “Será uma
agenda parecida com a dos dois anos anteriores, mas com um estágio mais avançado dos temas”, conclui Plonski. Parcerias
para apoio
aos parques
tecnológicos
seguem sendo
prioridade
na gestão
de Plonski
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Na trilha do empreendedorismo inovador O Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)
foi parceiro da Anprotec na organização do Seminário. O presidente da entidade, Paulo Okamotto, comenta por que a inovação é um fator essencial para o desenvolvimento da economia brasileira. Quais são os instrumentos usados pelo Sebrae para diminuir a dificuldade, no Brasil, em transferir conhecimento
acadêmico e científico para o mercado?
Desenvolvemos algumas ferramentas, como os agentes locais, 30 pessoas nos estados, contratadas pelo Sebrae, que vão
às empresas e fornecem consultoria especializada. Também
trabalhamos dando apoio a incubadoras e fazendo parcerias
para levar esse conhecimento às empresas. Se bem combinados com o potencial empresarial de uma região, as incubadoras e os parques tecnológicos podem ser um grande instrumento para fazer com que o conhecimento crie produtos de
alta tecnologia. Quais as políticas do Sebrae para estimular MPEs a investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil? Como incentivar a cooperação com ICTs, PqTs e Incubadoras
nessa área?
O que nós estimulamos nas micro e pequenas empresas
é que elas entendam que para inovar não necessariamente é
preciso realizar longas e custosas pesquisas, como as grandes
empresas. Também atuamos estimulando o acesso às novas
tecnologias, porque, muitas vezes, saber que existe uma máquina mais moderna e um processo mais eficiente já é um
grande passo para a inovação. Como fazer com que instrumentos de incentivo à inovação alavanquem o setor?
É importante informar às empresas que há institutos e centros
de pesquisa que podem desenvolver ideias, que há dinheiro
e financiamento, quais incubadoras, parques tecnológicos e
empresas podem auxiliá-los.
Nesse contexto, também entram as orientações sobre as
leis que podem ajudá-los a
crescer competitivamente. Okamotto explica os
instrumentos utilizados
pelo Sebrae para fomentar
a inovação no Brasil
A relação entre agronegócios sustentáveis e a inclusão social pautou mais
uma plenária do Seminário da Anprotec. A mediação foi feita pelo gerente
de Agronegócios do Sebrae Nacional,
Paulo Alvim. Para ele, “o agronegócio
sustentável é um assunto relevante e
no Brasil tem sido trabalhado com a
relação entre produção de alimentos,
de fibras e da agroenergia”.
O chefe de Agronegócios do Instituto Icrisat, da Índia, Kiran Sharma, ressaltou o papel do agronegócio como
instrumento de mudança. “É preciso
diversificar a produção e gerar receitas”, afirmou. O Icrisat criou na Índia
um parque tecnológico que trabalha com biotecnologia para o agronegócio.
A coordenadora do Movimento em Conhecimento Rural da Fundação de Pesquisa Swaminathan, também da
Índia, Ganga Vidya, falou que a instituição trabalha com conceitos como agricultura orgânica e cidades verdes,
que utilizam energias renováveis e elementos não poluentes.
Índia, Brasil e África do Sul na
rota do desenvolvimento Representantes dos três países se reuniram no Seminário para discutir as similaridades nos problemas e nas alternativas de empreendedorismo de cada região. O diretor de inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Eduardo Costa, detalhou os
principais programas desenvolvidos pelo governo
federal. “Nosso trabalho é investir nas empresas e
medir o retorno que essa verba tem para as mesmas”, explica.
Boni Mehlomakulu, presidente do Bureau of
Standards da África do Sul, destacou o poder da
inovação nos mais diversos segmentos. “Por meio
da tecnologia, podemos criar soluções para levar
água e comida, por exemplo, para quem não tem”,
argumenta. Harkesh Kumar Mittal, consultor do Departamento de Ciência e Tecnologia da Índia, observa que os
países emergentes devem se basear no exemplo de
outras nações asiáticas, que começaram a investir
em produtos com maior valor agregado. SHUTTERSTOCK
Sustentabilidade social no agronegócio
Estrategigrama: nova
ferramenta para avaliação
de parques tecnológicos
O diretor da Associação Internacional de Parques
Tecnológicos (IASP), Luis Sanz, apresentou durante
o Seminário da Anprotec o Estrategigrama, uma ferramenta para análise de parques tecnológicos. Ele
apresentou o caso do Porto Digital de Recife (PE),
que utiliza o sistema.
Segundo Sanz, a ferramenta pode ser usada para
mensurar o impacto de um parque tecnológico, para
verificar a evolução estratégica do parque ou ainda
para a tomada de decisões sobre como e onde construir um parque tecnológico.
A ferramenta tem um índice que varia entre 10 e
-10, com uma série de itens que são analisados e determinados por esses indicadores. Isso permite aos
parques tecnológicos planejar mudanças em médio
e longo prazo, alterando seu perfil. “Podemos tirar
conclusões ao analisar dados de vários parques tecnológicos usando as ferramentas do Estrategigrama”,
explicou Sanz.
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c
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s
SHUTTERSTOCK
N
Foco nas gerações futuras
Tecnologias sustentáveis geram oportunidades de negócios
e um novo nicho para atuação de incubadoras de empresas
A
sustentabilidade ganha cada vez mais
espaço na agenda das empresas. Além
do interesse na promoção do bem-estar nas
esferas social, econômica e ambiental, diversas iniciativas têm trilhado um caminho
de sucesso em negócios sustentáveis. Atenta a mais esse nicho de mercado, a Anprotec e o infoDev reuniram especialistas
para discutir o tema. A plenária sobre tecnologias sustentáveis foi um dos destaques
do XIX Seminário Nacional de Parques
Tecnológicos e Incubadoras de Empresas
e III infoDev Fórum Global de Inovação &
Empreendedorismo.
O gerente sênior do portfólio de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC)
do International Finance Corporation, Kent
Lupberger, conduziu a discussão, que contou com representantes do setor de TIC do
infoDev, do Stratus Group no Brasil, da
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empresa GeoCiclos, do Chile; da embaixada finlandesa nos Estados Unidos e da
Companhia de Energia do Meio Ambiente
de Ruanda.
Entre as principais questões abordadas, destacaram-se a discussão sobre a
ausência de políticas públicas de incentivo à inovação no setor de meio ambiente, as condições ideais para aplicação de
fundos como o do Status Group e o destaque do Brasil no cenário mundial nas
questões referentes a energias limpas e
potencial inovador.
Segundo Lupberger a situação é de alerta. “Estamos usando os recursos dos nossos
filhos hoje, numa proporção de 1,4 vezes
mais do que podemos restituir”. Ele defendeu um crescimento responsável, que encontre respaldo nas políticas públicas.
“Creio que as empresas ambientalmente
Potencial verde
Apesar de condições adversas, o diretor
no Brasil do grupo de investimentos Stratus Group, Oren Pinsky, vê no país um grande potencial para crescimento no mercado
da inovação sustentável. O grupo trabalha
com diversas linhas, como o de growth capital, no qual está inserido o Fundo Stratus
CleanTech, especializado em investimentos
na economia limpa. “O Brasil reúne vantagens como o meio ambiente e biodiversidade favoráveis, a cultura de reciclagem,
o potencial hídrico, as energias renováveis
e a produção orgânica”, destaca Pinsky, responsável pelo CleanTech.
Mas por que, afinal, todo esse potencial
ainda não é aproveitado? Para o especialista em política de TIC do infoDev, do
BancoMundial, Seth Ayers, as startups da
área de tecnologias limpas têm um proces-
DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
so mais demorado de implantação. Segundo ele, isso se deve basicamente a dois aspectos: o alto investimento em P&D e a
necessidade de educação do público.
No caso do fundo da Stratus, o foco são
empresas que estão no final do processo de
incubação, crescendo e caminhando para
abrir seu capital e com faturamento anual
entre R$ 15 milhões e R$ 150 milhões. Na
outra ponta da cadeia estão as empresas
nascentes, que sofrem ainda mais com as
dificuldades apontadas por Ayers.
A IncubaLIX vive de perto essa realidade.
A gestora da incubadora reconhece que a
aposta no mercado de tecnologias sustentáveis está dando certo, mas a captação
de empreendedores
é a maior dificuldade encontrada.
“Uma incubadora
de econegócios tem
um perfil muito diferenciado. Dificilmente vemos nesse
ramo histórias de
jovens que saem da
faculdade e montam sozinhos seu
próprio negócio,
com um notebook
debaixo do braço.
O investimento ini-
Plenária sobre
tecnologias
sustentáveis integrou
a programação
do Seminário e do
Global Forum
Ayers, do infoDev:
alto investimento em
P&D e necessidade
de educação do
público são inerentes
às tecnologias
sustentáveis
DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
corretas deveriam
ter um tratamento
diferenciado, para
mudar a mentalidade da comunidade
e dos empresários”,
argumentou.
A falta de diferenciação por parte
do poder público é
apenas uma das dificuldades enfrentadas pela primeira
e única incubadora
brasileira especializada em econegócios, a IncubaLIX, instalada no município
de Cariacica, na Região Metropolitana de
Vitória (ES). A gestora da incubadora, Alessandra Schirmer, considera injusta a política de tributação aplicada no Brasil. “Não
temos nenhuma diferenciação em relação
aos impostos, mesmo trabalhando com resíduos. Esses produtos já foram tributados
quando usados na sua finalidade original
e no processo de reutilização passam por
nova tributação”, explica.
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N
e
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ó
c
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o
s
cial é geralmente alto e a demanda é por
grandes espaços físicos”, afirma.
E espaço físico é o que não falta para a
IncubaLIX. Com sede no aterro sanitário
Marca Ambiental, a incubadora conta com
2,5 milhões de metros quadrados. Atualmente, abriga quatro ecoindústrias em fase de incubação e outras sete graduadas.
Elas recebem apoio nos serviços de escritório, na disponibilização de áreas e prédios para instalação, de equipamentos e na
contratação de mão de obra local.
Exemplo sustentável
DIVULGAÇÃO / INCUBALIX
Empresa residente
na IncubaLIX fabrica
tijolos ecológicos
Na IncubaLIX, a preocupação com o meio
ambiente vai além do investimento em ideias
sustentáveis. A sede e as instalações do aterro são construídas com tijolos e telhas ecológicos, produzidos por uma das incubadas
(mais informações no box). Ao contrário dos
demais aterros, no Marca Ambiental não se
sente mau cheiro, já que os resíduos não
aproveitáveis são alocados em valas profundas e isoladas do solo com material impermeabilizante para evitar o vazamento e contaminação dos lençóis freáticos. Quando a
célula atinge a capacidade máxima, sua superfície é reflorestada com mudas de eucalipto e pínus canadense.
Para chegar a esse patamar, a IncubaLIX
contou com o apoio de diversos parceiros.
A implantação da incubadora só foi possível graças à empresa Marca Ambiental, que
atua na área de gestão de resíduos. A empresa participa do Programa Capixaba de
Materiais Reaproveitáveis (PCMR) e apoiou
a iniciativa pioneira, em parceria com o
governo estadual, com o Sebrae/ES e com
o Instituto Ideias.
A criação do Instituto Marca de Desenvolvimento Socioambiental (Imadesa), em
2006, consolidou a atuação da empresa na
área da responsabilidade social. Da parceria do Imadesa com o Sebrae/ES, no ano
seguinte nasceu a IncubaLIX.
A incubadora conta hoje com uma clientela formada pelas prefeituras de Vitória e
de mais 60 cidades da região metropolitana e do interior. Essas entidades respondem
pelo desembarque de mais de mil toneladas de resíduos por dia no aterro. Esse material é armazenado, separado e transportado até as ecoindústrias ligadas à
IncubaLIX.
As perspectivas dos gestores da incubadora são a expansão do número de incubadas e a captação de mais recursos. “O
que tem se mostrado atualmente é que o
negócio não está relacionado apenas à questão ambiental, mas que também tem um
potencial financeiro promissor”, observa
Alessandra.
A partir desse foco, muitas empresas caminham no estrado da aposta nas tecnologias sustentáveis para agregar valor a seus
produtos e processos. “A tecnologia limpa
é a melhor classe de ativos do mundo de capital de risco”, analisa Lupberger. Adotando
essa estratégia, muitos empreendedores captam recursos e investimentos, geram renda
e emprego e ainda contribuem para a sustentabilidade social e ambiental.
No Chile
A GeoCiclos é uma empresa de econegócios localizada em Valparaíso, cidade ao
leste do Chile. O empreendimento foi concebido a partir de um trabalho acadêmico
realizado pela engenheira ambiental Andrea Arriagada, que buscou a parceria da
engenheira química Lina Razeto, sendo que
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Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
até então ambas atuavam no mercado da
agroindústria. Juntas, criaram uma empresa especializada no desenvolvimento, integração e implementação de sistemas para
o tratamento de resíduos orgânicos. A receita, segundo Arriagada, é simples: “Transformamos lixo em dinheiro”.
O carro-chefe da GeoCiclos é o desenvolvimento de plantas de compostagem e
humificação (o processo de formação do
húmus), que são utilizadas para o tratamento dos dejetos orgânicos domiciliares
e de indústrias. A ideia de investir na compostagem encontrou terreno fértil no mercado chileno. Andrea explica que o custo
para manejar somente os resíduos domiciliares é altíssimo, chegando à casa dos US$
50 mil por mês no Chile.
A empresa está incubada no Instituto Internacional para La Innovación Empresarial, da Universidad Tecnica Federico San-
ta Maria, e firmou parceria com a Corfo, a
agência de desenvolvimento econômico do
Chile. Hoje, a GeoCiclos oferece serviços
nas áreas de design e implantação de plantas de compostagem, assessoria na gestão
de resíduos, assessoria em Produção Limpa, além de promover capacitação em reciclagem de resíduos orgânicos.
Andrea afirma que o grande desafio está daqui para frente, quando a GeoCiclos
deixará de receber incentivos públicos e
terá que caminhar com as próprias pernas.
“O mercado ainda não está consolidado,
há a necessidade de uma mudança de mentalidade, uma consciência ambiental tanto
no nível industrial como no domiciliar”,
observa. É essa consciência, somada ao espírito empreendedor, que fomenta o crescimento constante de iniciativas rentáveis
e sustentáveis como a da GeoCiclos e da
IncubaLIX.
Negócios sustentáveis
e você reside na Grande Vitória ou no interior do
Espírito Santo, fique atento às convocações que são
feitas via edital e publicadas no site: http://www.
marcaambiental.com.br/
FOTOS DIVULGAÇÃO / INCUBALIX
Veja abaixo os produtos e processos desenvolvidos
pelas empresas residentes na IcubaLIX:
Biococo – produz mantas e artefatos a partir de fibras
de coco e já tem atuação consolidada no mercado.
Revertec – trabalha com reciclagem e
reaproveitamento de materiais oriundos de
equipamentos e aparelhos eletroeletrônicos. Os
produtos são revendidos nos mercados interno e
externo.
Biomarca – reaproveita óleos descartados por
bares, restaurantes e condomínios para fabricar
biocombustível.
Fertsan – reaproveita os resíduos do setor
sucroalcooleiro e utiliza o material para alimentar
uma pequena estação de energia termelétrica que
opera no aterro.
O aterro Marca Ambiental abriga também outras
sete empresas graduadas: a ecofábrica de papel
reciclado, à base de ervas e flores; a ecoindústria Marca
de Vassouras PET, a ecoindústria Marca de Tijolos
Ecológicos, a ecoindústria Marca de Telhas Ecológicas,
a ecoindústria Marca de Tinta Ecológica, com materiais
feitos de resíduos da exploração de rochas ornamentais;
a ecoindústria Marca de Grãos de Plástico e a
ecoindústria Marca de Sacolas Recicladas.
Se a sua ideia é compatível com o perfil da IncubaLIX
Biomarca, que
reaproveita óleo
de cozinha,
e fabricação
de vassouras
ecológicas
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o p o r t u n i d a d e
Distantes, desiguais, conectados
Amplamente utilizada em países em desenvolvimento, tecnologia móvel
figura entre nichos de negócio com grande potencial de crescimento
N
ão há como negar o papel do celular
na inclusão tecnológica das populações de países em desenvolvimento. Em
maio de 2009 o Brasil chegou a 157,5 milhões, uma densidade de 82,4 celulares
por cem habitantes, segundo a Agência
Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Já em 2003 o número de celulares havia
superado o de telefones fixos no país. Segundo Marc Laperrouza, diretor de pesquisa da École Polytéchnique Fédérale
Lausanne, da França, a telefonia móvel é
a única tecnologia, em toda a história,
mais utilizada nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos. Nas na-
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Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
ções mais pobres estão 59% dos assinantes
do mundo. Com base nesse fato a gerente
do infoDev, Valerie D’Costa, questionou
aos participantes da plenária Acessibilidade e Conectividade Móvel: como uma
ferramenta estratégica e revolucionária
como o celular pode auxiliar no desenvolvimento de novos mercados?
O infoDev, programa do Banco Mundial focado no desenvolvimento de atividades de Tecnologia da Informação e
Comunicação (TIC), busca promover
ações que respondam a essa questão.
“Criando negócios sustentáveis na economia do conhecimento” é o nome dado
Crescimento constante
Ferramenta de inclusão digital, o celular
foi, por muito tempo, objeto de luxo. No
Brasil, há pouco mais de uma década muitos se angustiavam com a disputa de uma
desejada e cara linha móvel. No final de
1997, véspera da privatização da Telebrás,
4,5 milhões de aparelhos móveis estavam
em serviço no país.
Com a popularização do serviço, após
a privatização das empresas de telecomunicação, surgiram mais usuários,
mais aparelhos, mais instalações. Resultado: crescimento de escala e barateamento dos celulares e da infraestrutura
de rede. Para atender a uma população
de baixa renda, com possibilidade limitada de pagar por serviços de telecomunicações, ao lado de uma demanda forte
nas classes mais altas, as operadoras tiveram que oferecer serviços para todos
os tipos de bolso. Criaram um mix de
planos composto por alternativas com
preço de minuto baixo e valor fixo alto
ou preços por minuto mais altos sem tarifa fixa. As classes A e B escolheriam a
primeira alternativa, enquanto as demais
ficariam com a segunda.
A estratégia deu
certo. É inegável o
papel do pré-pago
na universalização
dos serviços de telecomunicação. O
terminal móvel é
o único meio de
comunicação em
12,1% das residências das classes C, D e E brasileiras. O dado é da
Pesquisa Nacional
por Amostra de
D o m i c í l i o
(PNAD), do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2003. Mesmo que o celular
seja o famoso “pai de santo”, aquele que
só recebe chamada, a ponte entre os trabalhadores sem endereço comercial definido – pedreiros, manicures, taxistas e
motoboys, vendedores dos mais variados
produtos em feiras livres – e seus clientes é feita pelo celular.
DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
ao projeto mais recente da entidade. Formalizado em dezembro de 2009 entre o
infoDev, a Nokia e o governo finlandês,
o projeto deve investir 11,9 milhões de
euros (cerca de R$ 30 milhões) em programas para promover inovação e competitividade entre micro e pequenas empresas da África, Ásia e Europa Central,
nos setores de TIC e agronegócios. “O
projeto vai incentivar o uso principalmente de tecnologias móveis para que os
empresários desenvolvam plataformas,
serviços e aplicativos em seus países.
Acreditamos que o celular é uma importante ferramenta de inclusão social”, afirma Valerie. A expectativa é que o projeto crie empregos, melhore o ambiente de
inovação e empreendedorismo dessas regiões e aumente a produtividade dos setores que prioriza.
Valerie D’Costa, do
infoDev: como o
celular pode auxiliar
o desenvolvimento
de novos mercados?
Faz tudo
Celular, hoje em dia, também faz ligações, porque as utilidades e os aplicativos
são tantos que, na maioria das vezes, o
objetivo primeiro de um consumidor de
celular não é apenas o de se comunicar
com outras pessoas. Ele fotografa, filma,
transmite canais de TV aberta, toca música... e fala. Com uma crescente oferta
de inovações, a indústria de aparelhos
trouxe uma grande variedade de funções,
antes não relacionadas a aparelhos celulares. Com essa oferta, personalizaramse, inicialmente, os toques por meio de
ringtones, e o uso de sons polifônicos
criou um novo negócio. O celular com
câmera surgiu em 2000, quando a Sharp
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
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DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
o p o r t u n i d a d e
Rittes, da Oi: serviço
de mobile payment substitui uso do
cartão de crédito
apres entou ao
mercado o J-Phone, nos Estados
Unidos. O aparelho foi lançado comercialmente em
2002 e os primeiros modelos chegaram ao Brasil
em 2003. Daí para
aplicativos como
GPS e TV embutidos foi um pulo.
Outra novidade
é o pagamento de
contas pelo celular. Roberto Rittes,
diretor geral da
operadora de telefonia móvel Oi,
apresentou na plenária o projeto Paggo, tecnologia que foi adquirida pela empresa no início de 2008. O Paggo é uma
plataforma que realiza pagamentos por
celulares. Segundo Rittes, a oportunidade
de mercado surgiu da constatação de que
os lojistas resistiam a aceitar cartões de
crédito devido ao custo cobrado pelas
operadoras. Assim, a empresa elaborou o
serviço de mobile payment, pelo qual o
estabelecimento comercial só precisa adquirir um chip que custa US$ 2.
Disponível em nove estados do Brasil,
o OiPaggo foi testado inicialmente no
Nordeste do país. “A ideia é que taxistas,
pipoqueiros e até barracas da beira da
praia aceitem o pagamento pelo celular”,
explicou Rittes. Para estimular os consumidores a utilizarem o serviço, as transações de compra são feitas por meio de
torpedos gratuitos.
Em todo lugar
Atualmente, a tecnologia mais utilizada
pelas operadoras móveis no Brasil é o
GSM (Global System for Mobile Communications), que já está na terceira geração.
24
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
O aumento de velocidade nas redes das
operadoras com a 3G, como é conhecida,
está intensificando a presença dessas empresas no mercado de banda larga para
acesso à internet. Nas regras do edital de
licitação dessa tecnologia, a Anatel incluiu
obrigações de cobertura em municípios
não atendidos e prazos para que elas sejam cumpridas.
Atualmente, segundo dados da Anatel,
1.190 dos 5.564 municípios brasileiros não
contam com o serviço de telefonia móvel.
São cidades pequenas, com menos de 30
mil habitantes, mas que juntas abrigam
12,1 milhões de pessoas, o equivalente à
soma das populações de Santa Catarina e
do Maranhão. Conforme as recomendações
da Anatel, até abril de 2010 todas essas cidades devem ser atendidas. Esse é o prazo
máximo que o órgão regulador deu para as
operadoras de telefonia móvel chegarem
aos grotões do Brasil.
Com o avanço tecnológico e o compromisso das operadoras de telefonia
móvel de levarem a 3G às regiões mais
isoladas do Brasil, é bem possível que
muitas pessoas acessem a internet pela
primeira vez via celular, tanto aquelas
hoje sem conexão quanto uma nova geração que já usa o aparelho quase como
principal ferramenta de comunicação.
Hoje os celulares mais comprados são
os smartphones, que possuem funcionalidades avançadas e aplicativos semelhantes aos de computadores pessoais.
Diante da falta de padronização desses
aparelhos, divididos atualmente entre os
sistemas Windows Mobile, da Microsoft,
e Symbian, formado por um grupo de
empresas no qual a Nokia é majoritária,
a Google ofereceu uma saída. Propôs a
formação da Open Handset Alliance, onde estão fabricantes de chips, aparelhos
e softwares, com a ideia de desenvolver
um padrão aberto para os terminais móveis, por enquanto batizado de Android.
A entrada da Google nessa área é uma
mostra da força que o acesso à internet
deve ganhar no celular.
i n t e r n a c i o n a l
Prontas para ganhar o mundo
Pequenas empresas inovadoras provam que a conquista do
mercado internacional deixou de ser privilégio das gigantes
A
SHUTTERSTOCK
famosa internacionalização, que por
muito tempo parecia possível apenas
para grandes organizações, está cada vez
mais inserida no cotidiano de pequenas
empresas. Nos últimos anos, o termo ampliou seu significado. O que antes se restringia a vender e comprar fora do país,
agora envolve contratos e parcerias comerciais para fabricação, montagem, distribuição, manutenção, suporte de pósvenda e mesmo para venda de licenças,
marcas e franquias no exterior.
Liderados por grandes empresas no
passado, os movimentos de internacionalização das cadeias produtivas e de globalização da economia hoje permitem, embora de forma ainda menos evidente, a
entrada de pequenas empresas no mercado global. Barreiras a esse processo não faltam: pouca informação,
baixa escala de produção e recursos escassos impedem que
MPEs sejam mais agressivas
no mercado externo. Por
outro lado, parcerias com
empresas maiores e ingresso em cadeias produtivas internacionais têm
se mostrado boas alternativas aos empreendimentos que buscam crescer
fora do país de origem.
Ao se tornar a representante sul-americana da Ansys,
a catarinense ESSS ganhou o
visto para o mercado internacional. Especializada no desenvolvimento de sistemas de simulação numérica, a ESSS optou por atuar como
revendedora da empresa americana, que
atua no mesmo nicho de negócios. Em
pouco tempo, a empresa, que foi incubada no Centro Empresarial para
Laboração de Tecnologias Avançadas (Celta), de Florianópolis, abriu
um escritório no Chile e passou a desenvolver projetos nos Estados Unidos
e na Argentina.
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DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
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da pela Vale, interessada em incorporar
corpo técnico qualificado à sua busca por
reservas de petróleo e gás.
Da incubadora ao exterior
Alessandro
Teixeira, da Apex: maioria dos
empreendimentos
desconhece a
própria capacidade
de exportação
Em 2008, a ESSS alcançou faturamento
superior a R$ 10 milhões, passando de
MPE a empresa de médio porte. A trajetória da ex-incubada mostra que pequenos empreendimentos crescem a partir
da inovação. A ESSS ganhou projeção nacional ao desenvolver a biblioteca de programação COIlib, em parceria com o Laboratório de Simulação Numérica em
Mecânica dos Fluidos e Transferência de
Calor da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC). A COIlib foi base para
importantes projetos na área de simulação de reservatórios de petróleo, criando
um vínculo entre a empresa, a UFSC e o
Centro de Pesquisas da Petrobras
(Cenpes), para realizar projetos de P&D
nas áreas de exploração, produção, refino
e distribuição de petróleo e derivados.
No Rio de Janeiro, a incubadora de empresas da Coppe/UFRJ foi o palco de uma
história de internacionalização diferente,
em que o empreendimento já nasceu envolvido com uma cadeia produtiva globalizada. Foi o caso da PGT, especializada
em identificar áreas com potencial para
descobertas de petróleo. Além das brasileiras Vale, Queiroz Galvão e Starfish, a
norueguesa Norse Energy e a colombiana
Ecopetrol figuravam entre seus clientes,
garantindo a presença no mercado internacional. Em 2008, a empresa foi compra-
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Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
Quando a conquista de mercados passa
pela inovação, as pequenas tendem a levar
vantagens. “Os negócios de menor porte
podem responder mais rapidamente às
demandas do mercado. Além disso, o alto
grau de especialização é um outro diferencial dos empreendimentos de menor
porte”, afirma André Calazans, analista de
projetos da Financiadora de Estudos e
Projetos (Finep). Porém, a mesma estrutura enxuta que barateia as pesquisas
pode atrapalhar os pequenos na hora da
comercialização. Sem tantos recursos para
investir em marketing e distribuição, fica
difícil competir em pé de igualdade com
os grandes nomes do mercado.
Para ajudar MPEs a superar as barreiras
de acesso ao mercado externo, a Agência
Brasileira de Promoção de Exportações e
Investimentos (APEX-Brasil) e o Sebrae
desenvolvem programas específicos. O
programa da APEX em parceria com a
Anprotec, por exemplo, oferece R$ 6 milhões em recursos para apoiar empresas
de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) instaladas em incubadoras e
parques tecnológicos de todo o país.
A meta do projeto é elevar o patamar de
exportações, passando dos US$ 100 mil
obtidos em 2008 para US$ 1,9 milhão em
2009 e US$ 2,3 milhões em 2010. “As MPEs
precisam entender que o processo de inovação, em especial a inovação incremental,
está diretamente ligado à internacionalização. Para isso investimos também na capacitação de gestores para que conciliem os
dois processos”, explica Maurício Schnek,
assessor de relações internacionais da Anprotec. Os mercados-alvo iniciais do projeto são Estados Unidos, México, França,
Reino Unido, Alemanha, Portugal, Espanha e Colômbia.
Além-fronteiras
Durante a plenária “Inovação: da concepção à comercialização e à internacionalização”, do XIX Seminário Nacional de
Parques Tecnológicos e Incubadoras de
Empresas, representantes de diferentes países apresentaram exemplos de promoção
de empresas nacionais no mercado internacional. No caso de Cingapura, apresentado por Serene Ho, diretora de negócios e
DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
Ao promover os setores intensivos em
tecnologia, o projeto busca contribuir
para agregar valor à pauta de exportação brasileira. “Nessa parceria, trabalhamos com o conceito de ‘Incubadora
de Exportação’, ou seja, queremos que as
empresas que ainda estão nascendo,
dentro das incubadoras e dos parques
tecnológicos, já estejam desde o início
se preparando para atuar também fora
do Brasil. Sabemos que a maioria dos
empreendimentos ainda desconhece sua
capacidade de exportação e de geração
de novas fontes de receita e conhecimento no exterior”, explica Alessandro
Teixeira, presidente da APEX. O projeto
apoia as empresas que têm um baixo nível de experiência internacional, mas
que já apresentam boas práticas de gestão e um grande potencial técnico. As
ações em parceria com a Anprotec incluem planejamento estratégico, inteligência comercial e branding (gestão de
marcas) do setor.
O Sebrae também desenvolve programas
para ajudar as MPEs a se internacionalizarem. De acordo com a instituição, o país
possui 13.450 pequenas empresas exportadoras. Esse dado não é conclusivo, pois
muitas empresas levam seus produtos para
fora do país através de tradings, de forma
que o seu CNPJ não apareça no produto
exportado. Em 2009, o Programa de Internacionalização de MPEs do Sebrae beneficiou 1.100 empresas do país, com investimento de R$ 13 milhões, em 2009.
Serene Ho: em Cingapura, empresas
do país já nascem
voltadas para fora
desenvolvimento do Departamento de Relações Internacionais, as empresas do país
já nascem voltadas para fora.
Cingapura é uma ilha do Pacífico habitada por dois milhões de pessoas, principalmente chineses, malaios e indianos, e tornou-se um microestado independente em
1965. Por não possuir recursos naturais, o
país buscou outra forma de desenvolver
sua economia. O governo criou, então, um
ambiente favorável ao empreendedorismo
com incentivos fiscais, programas de exportação e suporte de internet. Segundo
Ho, hoje, o microestado tornou-se o melhor lugar para se abrir um negócio do
mundo, contando com 7 mil multinacionais e um PIB de US$ 180 bilhões.
Alessandro Teixeira, que representou o
Brasil na plenária, ressaltou a diferença
entre os dois países: por aqui, as empresas nascem substancialmente para atender ao mercado interno. Para ele, essa
mentalidade deve mudar. “As empresas
nacionais precisam ter capacidade de
mutação tanto de produtos, quanto de
processos produtivos, pois devem atender mercados com características heterogêneas”, afirmou Teixeira.
Na plenária, foram relatados cases de
duas empresas brasileiras que tiveram sucesso em seus processos de internacionalização: Natura e Ouro Fino (veja box na
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DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
Cooperação internacional
Vinicius Lages, do
Sebrae: cooperação
entre instituições
de apoio às MPEs
pode acelerar
internacionalização
página 29). A capacidade de adaptação a
diferentes mercados foi essencial para que
a Natura, em 1994, se lançasse no mercado internacional. A empresa percebeu que
as cores usadas nos cosméticos vendidos
no Brasil não atraíam tanto as mulheres
de outros países. Além de mudar o mix de
produtos, a Natura precisou desenvolver
processos de produção e gestão que se adequassem à demanda internacional. No começo, foram criados centros de distribuição e formação de consultoras na
Argentina, na Bolívia, no Chile e no Peru.
“Utilizar a faixa fronteiriça para dar início
ao processo de internacionalização de uma
empresa é um importante passo, porque a
proximidade física facilita a integração”,
afirma Vinicius Lages, gerente da Unidade
de Assuntos Internacionais do Sebrae.
Hoje a Natura está presente em sete países
da América Latina e na França, com mais
de 60 mil consultoras fora do Brasil.
Lages sugere ainda que as empresas nacionais aproveitem as grandes comunidades brasileiras que vivem em países como
Estados Unidos, Japão e Europa para expandir seus negócios. “Outros países como
China e Índia souberam aproveitar bem
essa rede de cidadãos de seus países vivendo no exterior para lançar estratégias de
internacionalização de produtos, serviços
e mesmo de suas marcas”, explica.
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O acirramento da concorrência internacional e a intensificação dos fluxos de
pessoas, mercadorias e informações parecem empurrar as empresas para um
mercado cada vez mais global. Mas o
processo de cooperação internacional é
antigo. Teve início em 1944 na Conferência de Bretton Woods, quando foram
estabelecidas regras para as relações comerciais e financeiras entre os países
mais industrializados do mundo. Segundo historiadores, o sistema Bretton
Woods foi o primeiro exemplo, na história mundial, de uma ordem monetária
totalmente negociada, focada na coordenação das relações comerciais entre
as nações. Desde então, surgiram entidades para organizar essas relações, entre elas a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Durante o XIX Seminário Nacional de
Parques Tecnológicos e Incubadoras de
Empresas, o Sebrae apresentou as diversas vantagens da cooperação internacional, visando uma estratégia do processo
de internacionalização de empresas.
Compartilhamento de custos, inovação
aberta e acesso a novos conhecimentos,
tecnologias e mercados são as principais.
“Uma relação de cooperação entre instituições de apoio às MPEs pode encurtar a
curva de aprendizagem, assegurando
maior acesso a informações, à oferta de
serviços técnicos especializados, bem
como à identificação de parceiros comerciais idôneos”, explica Vinicius Lages.
A internacionalização de MPEs é uma
das quatro metas da Política de Desenvolvimento Produtivo, do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior (MDIC). O objetivo é aumentar
em 10% o número de MPEs exportadoras em 2010, em relação às 11.792 empresas que exportavam em 2006. Para
que a meta se torne viável, a burocracia
e a falta de informação das empresas
ainda precisam ser combatidas.
Made in Brazil
é mapeada e levada ao laboratório, adjacente à
fábrica. Lá trabalham cerca de 80 profissionais, entre
farmacêuticos, bioquímicos e engenheiros, divididos
em equipes dedicadas a cada uma das diferentes
espécies animais. Os prazos de desenvolvimento são
longos. Da prancheta à prateleira, um produto leva,
em média, quatro anos para ser desenvolvido. Só o
processo de registro consome no mínimo 12 meses.
Mas, antes disso, a equipe percorre um trajeto que
começa com uma pesquisa bibliográfica, segue por
estudos aprofundados dos componentes, pesquisas
de embalagens e formulação, desenvolvimento em
laboratório e depois sua transposição para a escala
industrial, testes clínicos em animais, fabricação de
lotes-piloto e elaboração de dossiês. Só então é feita
a entrada do pedido de registro no Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que autoriza a
comercialização.
É a prioridade dada à inovação e ao desenvolvimento
de novos produtos que diferencia a Ouro Fino de suas
concorrentes nacionais e lhe garante uma participação
de 7% num mercado altamente pulverizado, em que
a líder – a franco-americana Merial – detém uma fatia
de apenas 11%. Historicamente, as multinacionais
dominaram esse mercado e as empresas brasileiras se
contentaram com pequenas parcelas de segmentos
isolados. O investimento em pesquisa era muito
pequeno e a estratégia básica adotada pelas nacionais
era brigar por preços.
Produção na Ouro Fino: empresa identificou
oportunidade de negócios no Oriente Médio
DIVULGAÇÃO / OURO FINO
Relatado pelos participantes da plenária, o case da
Ouro Fino exemplifica as oportunidades que o mercado
internacional pode guardar. Instalada em Cravinhos,
nas proximidades de Ribeirão Preto, a 320 quilômetros
de São Paulo, a fábrica da Ouro Fino desenvolve
fármacos e outros produtos destinados ao cuidado de
bois, cavalos, cabras, ovelhas, porcos, aves e animais
de estimação. Eles são vendidos em todo o Brasil e
exportados para outros 30 países da África, América
Latina, Ásia e do Oriente Médio. Em 2007, geraram um
faturamento de R$ 176,9 milhões.
A Ouro Fino Agronegócio começou suas atividades
num galpão alugado de 300 metros quadrados, há 23
anos. Seus fundadores, os amigos de infância Norival
Bonamichi e Jardel Massari investiram, em 1987, o
equivalente a R$ 40 mil para transformar o sonho do
negócio próprio numa empresa que hoje emprega
630 pessoas. A primeira empreitada dos dois amigos
foi uma representação de produtos veterinários,
criada em 1985.
Em processo de internacionalização, desde 1997, a
Ouro Fino possui uma única filial no exterior que foi
montada no México. Nos outros 29 países, a empresa
atua com representantes comerciais. São 42 brasileiros
no exterior, para onde também são estendidas as
iniciativas de inovação. Em 2002, por exemplo, a
Ouro Fino criou o primeiro vermífugo para camelos e
dromedários do mundo. A oportunidade de negócio
foi identificada por um profissional de vendas que
atuava no Oriente Médio. Numa conversa com um
pastor de dromedários da Mauritânia, ele descobriu que
não existiam produtos específicos para esses animais,
responsáveis pela produção do
leite, base da alimentação dos
povos nômades em regiões
desérticas. Determinados
a atender a uma demanda
que os grandes laboratórios
internacionais consideravam
pequena demais para justificar
investimentos, os pesquisadores
da Ouro Fino se dedicaram a
desenvolver a nova droga, testada
e comercializada exclusivamente
nos países do Oriente Médio.
Hoje, ela já responde por 15% do
faturamento no exterior.
O nascimento de novas drogas
percorre um longo caminho.
Uma necessidade de mercado
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e
Novas bases para o crescimento
Ao estimularem a criação de empreendimentos inovadores,
parques tecnológicos e incubadoras de empresas contribuem
de forma decisiva para o desenvolvimento sustentável
O
s processos de inovação e de desenvolvimento regional estão diretamente atrelados à implantação de parques tecnológicos. De acordo com dados da IASP
(International Association of Science Parks,
na sigla em inglês), estima-se que existam
hoje 1,5 mil parques em todo o mundo e
que esse número tende a crescer em um
curto espaço de tempo. O fenômeno que
ocorre nos cinco continentes foi amplamente discutido durante o XIX Seminário
Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas, realizado em conjunto com o 3º Global Forum, da infoDev,
projeto do Banco Mundial.
Quando se fala em polos de inovação,
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Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
é impossível não traçar paralelos com o
Vale do Silício. A região da Califórnia
(EUA) foi palco do nascimento de gigantes como Google, Yahoo, Intel e Hewllet
Packard (HP). Impossível também dissociar o sucesso das empresas de base tecnológica da influência da Universidade
de Stanford.
A parceria entre instituições de ensino,
governo e investidores foi, entre outros aspectos, a mola propulsora para o desenvolvimento da região. A receita para o sucesso é um modelo cíclico que envolve
pesquisa, desenvolvimento de processos e
produtos para mercado, investimento via
capital de risco e retorno de uma porcen-
SHUTTERSTOCK
Campus da Universidade de Stanford, celeiro de grandes ideias
Divulgação / Anprotec
tagem desse investimento à universidade
para financiar novas pesquisas.
Baseado no modelo adotado pelo Vale
do Silício, o ex-reitor e codiretor do Programa de Regiões Inovadoras e Empreendedorismo da Universidade de Stanford,
William Miller, elaborou uma série de 14
passos que tornam propício o desenvolvimento de uma região inovadora. Durante a plenária “Habitats de Inovação
Sustentável”, Miller explicou cada passo,
enfatizando a importância da criação de
ambientes que incentivem decisões de risco e a não punição por eventuais falhas,
inerentes ao processo de empreendedorismo inovador.
Essa mesma questão, chamada pelos
americanos de risk taking, foi abordada
também na “Plenária sobre Parques Tecnológicos”, em que um dos palestrantes era
Tony Knopp, diretor do Programa de Ligação Industrial do Massachussets Institute
of Technology (MIT). Knopp explicou que
o jovem empreendedor não deve ser punido por suas falhas, pois isso faz parte do
seu aprendizado. “Em uma entrevista para
emprego, se eu tiver na minha frente duas
pessoas, uma das quais com falhas no seu
currículo, eu vou dar preferência por essa
pessoa, pois ela já aprendeu com o erro.
Enquanto que aquele que nunca errou, não
sabe lidar com essa situação”, destacou.
Polos de inovação
Atualmente os ambientes de inovação estão fortemente relacionados aos parques
tecnológicos. Mauricio Guedes, vice-presidente da IASP, apresentou, durante a ple-
O professor
Miller define os
14 passos para o
desenvolvimento de
um ambiente inovador
Inovação em 14 passos
1) Intensidade em conhecimento – Fomentar o
incentivo à pesquisa, através das universidades e dos
institutos de ciência e tecnologia.
2) Universidades e institutos de pesquisa que
interagem efetivamente com o setor produtivo –
Transferência de conhecimento e tecnologia para o
mercado com proteção da propriedade intelectual.
3) Políticas públicas favoráveis – O governo deve
utilizar ferramentas de incentivo à inovação,
facilitando o acesso de empresas a novas tecnologias.
4) Estímulo à meritocracia – Reconhecer o mérito de
boas iniciativas e incentivá-las.
5) Flexibilidade e mobilidade de recursos humanos –
Recursos humanos adaptáveis e flexíveis, que atuem
em redes sociais de trabalho.
6) Ambiente que incentiva atitudes de risco e tolera
falhas – Capacidade de encarar o erro como parte
do processo de aprendizado para empreender.
7) Capital de risco inteligente – Promoção da cultura
do venture capital e do investimento consciente.
8) Ambiente de livre mercado – Desenvolvimento
de um ambiente competitivo, aberto tanto a
intervenções externas quanto locais.
9) Colaboração entre empresas, governo e ONGs –
Manter uma relação colaborativa entre todos os
envolvidos no fomento do ambiente inovador.
10) Serviço especializado para a infraestrutura dos
negócios: advogados, contadores etc. – Investir
em áreas que demandem a expertise de profissionais
especializados.
11) Alta qualidade de vida – Promover processos e
produtos que promovam o bem-estar social.
12) Contatos globais – Articulação e interação com
redes de trabalho globais.
13) Capacidade de abrigar multiclusters – Criação
de um ambiente capaz de trabalhar com
setores variados.
14) Liderança para transformar – Criação de um
ambiente propício ao nascimento de líderes, com
foco na transformação econômica e social.
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nária, características e tendências atuais desses
polos de inovação. “Os parques tecnológicos
ao redor do mundo estão cada vez mais integrados à universidade. Atuam como gestores do relacionamento dos agentes que compõem o sistema de inovação: universidade,
empresa e governo”, explica. Segundo Guedes, os atuais parques tecnológicos têm uma
preocupação maior com o envolvimento da
sociedade, promovendo, inclusive, áreas de
lazer, cultura e educação.
Exemplo desse modelo é o 22@Barcelona
ou Distrito de Inovação, na Espanha, projeto que agora completa 10 anos. Com o
objetivo de transformar um bairro industrial obsoleto, o Poblenou, em um ambiente inovador, o parque promoveu uma verdadeira transformação urbana. A ideia é
integrar agentes do sistema de inovação
com atividades do bairro, para proporcionar a melhoria da qualidade de vida da população. Todas as ações desenvolvidas no
22@Barcelona têm foco na inovação (confira na página 6 a entrevista com o CEO do
22@, Josep Miguel Piqué).
As diferenças regionais, culturais e econômicas influenciam a formação dos parques. É comum que os polos tecnológicos
tenham foco em dois ou três setores de
atuação. “Mesmo que os parques atuem em
rede com clusters de outras regiões do
mundo – o que é imprescindível para a sua
sobrevivência –, seu principal objetivo é
promover inovação local e regional”, afirma Guedes. Nesse sentido, o infoDev lançou, em março deste ano, um projeto que
visa avaliar as necessidades de desenvolvimento de dois países em especial: Jordânia e Uganda, a partir de suas características geográficas e espaciais. O programa
será implantado com base nas experiências
brasileira e sul-coreana, que, de acordo
com a entidade, tiveram sucesso ao implementar polos regionais de desenvolvimento (ver box).
Programas como o do infoDev geram emprego e empresas de base tecnológica e, para o diretor mundial de Local Software Economy da Microsoft, Juliano Tubino, esse
tipo de desenvolvimento decorre da aposta
em polos inovadores. Segundo o diretor, a
Microsoft trabalha com categorias, que definem quais locais são propícios ao desenvolvimento de projetos, sempre levando em
conta as potencialidades de cada região e as
especificidades culturais e econômicas.
“Nosso foco permanente é o desenvolvimento local. A cultura e a atitude empreendedoras são pilares que definem as nossas
categorias para aposta em determinadas regiões”. Para ele, os locais têm que estar aptos a treinar e criar pessoas fora de uma carreira pré-existente, atitude que deve ser
fomentada pelas universidades.
Desenvolvimento inteligente
O infoDev e o Departamento de Finanças,
Economia e Desenvolvimento Urbano (FEU, na sigla
em inglês) do Banco Mundial estão trabalhando
juntos para avançar no mais recente projeto de
Tecnologia da Informação e Comunicação para o
Desenvolvimento (ICT4D), principal bandeira do
infoDev. O objetivo do projeto é conhecer e analisar
características regionais e espaciais de países em
desenvolvimento, a partir de uma ferramenta de
alta tecnologia, para o diagnóstico de necessidades
essenciais ao crescimento dessas regiões.
A primeira etapa do projeto envolve analisar como
Brasil e Coreia do Sul desenvolveram polos de inovação
regionais respeitando suas características econômicas,
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regionais e culturais. O segundo passo é monitorar
as características espaciais de Uganda e da Jordânia,
dando suporte à capacidade institucional e política
desses países para criarem uma estrutura regional de
desenvolvimento. A partir do conhecimento adquirido,
a tarefa final do programa será disseminar as lições
tiradas do projeto, incluindo publicação de guias e
relatórios.
O infoDev utilizará sua experiência em desenvolver
programas de Tecnologia da Informação e
Comunicação (TIC) para diagnosticar problemas reais,
enquanto que o departamento do Banco Mundial
atuará com a ferramenta de GIS para auxiliar nesse
monitoramento regional.
O Microsoft Sol, articulado em parceria com a Anprotec, é um dos programas
desenvolvidos pela empresa que leva em
conta o potencial inovador de pequenas
empresas de software e auxilia no seu
processo de expansão acelerada. O programa é uma versão brasileira de uma iniciativa global, que ajuda as startups através do acesso a todas as ferramentas de
desenvolvimento da Microsoft, com poucos requisitos para participação e sem
custos antecipados. Com pouco mais de
um ano de operação, o programa já investiu mais de R$ 2,5 milhões em startups
brasileiras (leia box).
Tubino argumenta que, além da atitude
empreendedora, a educação é outro aspecto imprescindível para o desenvolvimento
de polos inovadores. “Se um indivíduo possui um nível de educação mais elevado tem
cinco vezes mais chances de estar dentro
do grupo de empreendedores”, argumenta.
Qualificação e aposta em incubadoras especializadas são os dois pilares que explicam os surpreendentes números do mercado inovador na China, segundo o
assistente da direção do Shangai Technology Innovation Center, Wang Zhen. Segundo Zhen, que participou da plenária
“Desenvolvendo Polos de Inovação”, no
XIX Seminário da Anprotec, a China conta hoje com 670 incubadoras, que já graduaram mais de 30 mil empreendimentos
e contam com mais de 44 mil empresas incubadas, que geram cerca de 1,2 milhão de
empregos diretos.
Inovação verde e amarela
Em sintonia com o movimento de incubadoras de empresas e parques tecnológicos ao redor do mundo, o Brasil também
corre atrás de sua independência tecnológica, investindo em inovação e empreendedorismo. Para 2010, o orçamento aprovado para o Ministério da Ciência e
Tecnologia (MCT) é de R$ 7,6 bilhões, incluindo despesa com pessoal. Desse montante, R$ 2,7 bilhões estão previstos para
o Fundo Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (FNDCT). Essa
receita é aplicada pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) em projetos de pesquisa e desenvolvimento.
Por muitos anos, principalmente durante
o período de substituição de importações,
Crescimento acelerado
Com o objetivo de acelerar o processo de
crescimento das micro e pequenas empresas de
Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC),
fornecendo desde o software até a capacitação em
estratégias de negócios, o Programa Microsoft SOL,
lançado pela Microsoft Brasil em novembro de 2008,
já alcançou 320 micro e pequenos negócios de base
tecnológica em todo o país. No total, 34 incubadoras
do Brasil foram atendidas.
O projeto oferece 25 licenças de 55 softwares
Microsoft. Entre as principais estão Vista, Office,
Visual Studio e SQL Server. Além dos softwares, todas
as empresas participantes têm direito a diversos
outros benefícios, como conteúdo online, suporte
técnico, hosting, treinamento presencial (técnico e de
negócios), dicas e direcionamento profissional feito por
especialistas. A iniciativa demandou investimentos da
ordem de R$ 2,5 milhões.
Os treinamentos são realizados nos Centros de
Inovação Microsoft espalhados pelo país, com cursos
presenciais de conteúdo técnico (28 horas) e conteúdo
de negócios (28 horas).
Para participar, as empresas devem ter até três anos
de existência, faturamento anual igual ou inferior a R$
1,2 milhão e atuar com tecnologia. Estima-se que no
Brasil existam 8 mil empresas de base tecnológica com
esse perfil.
As inscrições são avalizadas por um parceiro
validador – entidades como Associação Nacional
de Entidades Promotoras de Empreendimentos
Inovadores (Anprotec), Sociedade Brasileira para
Promoção da Exportação de Software (Softex) e
Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia
da Informação, Software e Internet (Assespro), entre
outras. Mais informações no site do programa: http://
www.microsoftsol.com.br/.
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a maior parte das empresas brasileiras operava tecnologias importadas e maduras. A
capacitação necessária para usar essas tecnologias era considerada relativamente fácil. Por isso, não se requeria ou estimulava,
de forma efetiva, a geração de novos conhecimentos. Esse cenário está mudando.
Desde o início do século XXI, o país colocou na pauta de suas políticas públicas a
inovação. “O Brasil melhorou de maneira
incrível as formas de financiamento nos
últimos 10 anos”, observa Tubino. O lançamento do Livro Branco, em 2002, com
as estratégias para o sistema nacional de
ciência, tecnologia e inovação, foi um marco. Antes disso, no final dos anos 90, a implantação dos fundos setoriais já foi um
demonstrativo de que o país começava a se
preocupar com o desenvolvimento de tecnologias nacionais.
O marco legal veio com a regulamentação da Lei 10.973, em 2004. Esses mecanismos lançados pelo governo federal buscam
criar um ambiente adequado para que as
empresas inovem, enfatizando programas
cooperativos entre setor produtivo e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs).
O governo não é o único agente na estruturação de um sistema nacional de inovação. As universidades e os centros de
pesquisa também são peças importantes
nesse processo, principalmente no Brasil,
onde 80% dos pesquisadores estão nessas
instituições. Além das ICTs, incubadoras
de empresas e parques tecnológicos, que
têm a inovação como razão de ser, atuam
muitas vezes na estruturação de sistemas
locais de desenvolvimento econômico e social. No país existem 400 incubadoras e 74
parques, que já incubaram 6 mil empreendimentos inovadores.
No centro de todo esse processo estão
as empresas. De acordo com a última Pesquisa de Inovação Tecnológica realizada
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 33,4% das empresas industriais brasileiras fizeram algum tipo de
inovação em produtos ou processos entre
2003 e 2005.
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O mapa da inovação
Parques Tecnológicos em operação
ICTs
REGIÃO NORTE
Parques Tecnológicos em fase de implantação: 1
Parques Tecnológicos em fase de projeto: 3
Estados que têm lei de inovação própria:
➔ Amazonas: Lei nº 3.095, de 17 de novembro de 2006
Case:
Parque de Ciência e Tecnologia Guamá – PCT-Guamá
O PCT-Guamá, ainda em obras, é resultado de parceria
entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o governo
do estado. A expectativa é que o novo polo de inovação
comece a operar em 2010. O parque deverá ocupar uma
área de 72 hectares do Campus Universitário do Guamá.
Atuando nas áreas de biotecnologia, tecnologias e
sistemas de informação e comunicação e energia, o PCTGuamá já firmou convênio com a Vale para implantar
um laboratório de Tecnologia do Alumínio.
REGIÃO CENTRO-OESTE
Parques Tecnológicos em fase de implantação: 2
Parques Tecnológicos em fase de projeto: 3
Estados que têm lei de inovação própria:
➔ Mato Grosso: Lei nº 297, de 7 de janeiro de 2008
Case:
Parque Científico e Tecnológico da UnB – PCTec-UnB
O Parque Científico e Tecnológico (PCTec), ligado
à Universidade de Brasília (UnB), está em fase de
implantação e desenvolverá as inovações tecnológicas
utilizando o conhecimento produzido pela pesquisa
científica, como os tradicionais modelos de parque.
O projeto tem como gestor o Centro de Apoio ao
Desenvolvimento Tecnológico da Universidade,
centro de incubação que já graduou 47 novos
empreendimentos, a maioria de base tecnológica, e
possui, atualmente, 26 empresas incubadas.
REGIÃO NORDESTE
Parques Tecnológicos em fase de implantação: 1
Parques Tecnológicos em fase de projeto: 1
Estados que têm lei de inovação própria:
➔
Ceará: Lei nº 14.220, de 16 de outubro de 2008
➔
Pernambuco: Lei nº 13.690, de 16 de dezembro
de 2008
➔
4
16
Alagoas: Lei nº 7.117, de 12 de novembro de 2009
➔
Sergipe: Lei nº 6.794, de 2 de dezembro de 2009
Case:
5
Fundação Parque Tecnológico da Paraíba ParqTcPB
Especializada no setor de Tecnologia da Informação
e Comunicação, a fundação foi criada em 1984 e é
um dos quatro parques tecnológicos mais antigos
do país, que surgiram com o início da política
pública para o setor. A fundação é localizada na zona
especial de Ciência e Tecnologia, instituída pelo
Plano Diretor do Município de Campina Grande,
no bairro de Bodocongó, e atua em parceria com
universidades federais da região. A incubadora do
parque abriga 27 empreendimentos.
4
7
Bahia: Lei nº 17.346, de 2008
➔
50
25
10
REGIÃO SUL
REGIÃO SUDESTE
Parques Tecnológicos em fase de implantação: 6
Parques Tecnológicos em fase de implantação: 9
Parques Tecnológicos em fase de projeto: 7
Parques Tecnológicos em fase de projeto: 18
Estados que têm lei de inovação própria:
➔ Santa Catarina – Lei nº 14.348, de 15 de janeiro de 2008
Estados que têm lei de inovação própria:
➔ Minas Gerais – Lei nº 17.348, de 17 de janeiro de 2008
➔
Rio Grande do Sul – Lei nº 13.196, de 13 de julho de
2009
Case:
Parque Tecnológico Itaipu
O Parque Tecnológico Itaipu (PTI), localizado em
Foz do Iguaçu (PR), atua através do programa PTI –
Empreendedorismo, que contempla as diferentes
etapas do desenvolvimento das startups. O PTI auxilia os
empreendimentos em pré-incubação, os incubados e
os graduados, por meio da Fábrica de Empreendimento,
da Incubadora Empresarial Santos Dumont e do
Condomínio Empresarial, respectivamente. Com mais
de 1,16 milhão de km2, abriga três empreendimentos
que estão em fase de pré-incubação, 18 que estão
incubados e outros dois graduados que operam no
Condomínio Empresarial.
➔
São Paulo – Lei Complementar nº 1.049, de 19 de junho
de 2008
➔
Rio de Janeiro – Lei nº 5.361, de 29 de dezembro de 2008
➔
Espírito Santo – Lei nº 7.871, de 21 de dezembro de 2009
Case:
Parque Tecnológico do Rio
O Parque Tecnológico do Rio situa-se no campus da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estimula
a interação entre a universidade e empreendimentos
inovadores. O parque abriga a incubadora de empresas
Coppe/UFRJ, que tem como prioridade de atuação as áreas
de energia, meio ambiente e tecnologia da informação. São
350 mil metros quadrados, onde se concentram 16 empresas
incubadas, que recebem estímulo para a transformação de
pesquisas em produtos e serviços, além de 12 graduadas,
que são apoiadas na consolidação do seu negócio.
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
35
Divulgação / Anprotec
Extra
O papel do infoDev na economia
dos países em desenvolvimento
B
raço do Banco Mundial para empreendedorismo e inovação e um dos
parceiros da Anprotec, o infoDev atua desenvolvendo atividades de
tecnologia da informação e comunicação (TIC) nos países em
desenvolvimento. Em 2009, a entidade realizou o 3º Global Forum em
paralelo ao XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras
de Empresas. O Fórum representa a área central de atuação da entidade e visa
a troca de ideias e experiências entre os representantes de incubadoras de
diversos países do globo. A seguir, confira a entrevista exclusiva com Valerie
D’Costa, gerente do infoDev.
Locus: Em sua opinião, quais são os
principais aspectos de inovação nos
quais o Brasil se desenvolveu a ponto
de ser exemplo para os países em
desenvolvimento?
D’Costa: O Brasil é um país muito grande e que possui muitas entidades e agências que atuam no desenvolvimento inovador. A Anprotec tem um papel essencial
dentro desse contexto. Existem muitas
36
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
atividades sendo realizadas de maneira
eficiente, com um excelente histórico.
Há planos muito sofisticados, como,
por exemplo, as estratégias de internacionalização. Outro ponto que realmente me impressiona é a ligação entre institutos de alto aprendizado e incubadoras
que existe no país, procurando sempre
a comercialização do que é produzido.
Esse é exatamente um dos maiores pro-
blemas que o infoDev identifica em outros países onde atua: a dificuldade em
tirar os conceitos do mundo das ideias
e aplicar no mercado, o que o Brasil
tem conseguido fazer. Percebemos que
muitos países têm boas ideias no laboratório, dentro do campo da pesquisa,
dentro da universidade, mas não conseguem vendê-las. É preciso fazer um
plano de negócios, lucrar com isso.
Dessa perspectiva, vejo muitos projetos
no Brasil.
Locus: Analisando um pouco o
trabalho do infoDev não só no Brasil,
mas no mundo, de que maneira vocês
acreditam que o setor de TIC contribui
para melhorar o nível de
desenvolvimento das nações?
D’Costa: O infoDev existe exatamente
porque acreditamos que há uma conexão
muito forte entre o acesso à informação,
à tecnologia e o nível de desenvolvimento de um país. É muito claro para nós
que quando existe acesso à informação
há poder e inclusão. Então, o desenvolvimento da TIC não significa apenas ganhar dinheiro, realizar negócios. É um
elemento de inclusão social e de acesso
à tecnologia. O infoDev trabalha para
mostrar e provar isso e para investir em
atividades ao redor do mundo que ajudem essa realidade a ser alcançada.
Locus: O Global Forum é uma das
principais, não é mesmo?
D’Costa: Sem dúvidas, é uma das principais ferramentas que usamos para alcançar essa meta. É o momento em que
divulgamos essa ideia para as pessoas.
Se olharmos para o mundo hoje, veremos que a tecnologia está caminhando
a um passo muito acelerado, porque o
mercado está sempre em transformação.
Por isso, o infoDev vai continuar trabalhando com afinco para conseguirmos
desenvolver esse acesso à TIC e deixar
o mercado igualmente dinâmico em todos os países.
Locus: Quais são as principais metas
que vocês acreditam já ter atingido
com o desenvolvimento desse trabalho
especialmente na América Latina?
D’Costa: É difícil destacar apenas algumas, pois existe um número enorme de
trabalhos e projetos no mundo todo. Mas
podermos dizer que, de uma maneira geral, tentamos desenvolver uma teia de
conhecimento global. Isso quer dizer que
o infoDev cria uma gama de produtos e
serviços nesse sentido. Disponibilizamos
uma série de ferramentas em nosso site
que qualquer pessoa pode baixar gratuitamente. Tentamos agregar o conhecimento global e descobrir as melhores
práticas que as empresas e incubadoras
utilizam ao redor do mundo, a fim de
consolidar essas informações e repassálas. Ou seja, muitas das ações que fazemos são baseadas na perspectiva de desenvolver um conhecimento global.
Temos muitos bons exemplos de países
ao redor do mundo que estão realmente
fazendo a diferença, como Brasil, Armênia e China. No setor de incubadoras de
empresas, possuímos uma ampla gama
de conhecimento formada por meio de
nosso trabalho pelo mundo.
Locus: O 3º Global Forum atingiu os
resultados esperados?
D’Costa: O evento superou minhas expectativas. Discutimos tecnologias limpas, agronegócios, os problemas enfrentados por mulheres que querem
empreender os seus negócios, internacionalização de MPEs, gestão de incubadoras e estratégias de inovação para
países em desenvolvimento. Essas discussões são muito ricas e proveitosas.
Selamos novas parcerias com o Brasil e
vamos realizar atividades conjuntas na
agenda de inovação e empreendedorismo, unindo cada vez mais o nosso trabalho. Outro ponto positivo foi que durante esses dois eventos pudemos reunir
os acionistas do infoDev para dialogar
sobre projetos futuros.
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
37
i nv e s t i m e n t o
Prime no caixa
Empreendedores catarinenses assinaram contratos do Programa durante o
XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas
D
DIVULGAÇÃO / 4 BORDAS
O empreendedor
Araújo mostra o
inovador SPS. Recursos
do Prime devem
impulsionar o projeto
e olho no potencial inovador de mais
de 5 mil empresas espalhadas pelo
Brasil, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) repassou em fevereiro metade dos R$ 120 mil previstos para a
primeira etapa de subvenção do Programa
Primeira Empresa Inovadora (Prime). Só
no ano passado, quando o programa entrou
em operação, foram investidos R$ 240 milhões e aproximadamente 1,4 mil empresas
foram contempladas pelo programa, que
oferece subsídio financeiro e suporte técnico para desenvolvimento de empresas
nascentes e inovadoras.
O aporte financeiro é administrado de
forma descentralizada, por 17 incubadoras-âncora, na forma de recursos não reembolsáveis. As incubadoras estão distribuídas por todo o território nacional e
operam sob a chancela da Associação Nacional das Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec).
O Centro Empresarial para Laboração
de Tecnologias Avançadas (Celta), da Fundação Certi (Centros de Referência em
38
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
Tecnologias Inovadoras), de Florianópolis
(SC), é uma dessas incubadoras-âncora.
Durante o XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas, os 118 empreendedores selecionados pelo Celta assinaram os contratos do
Prime. O diretor de inovação da Finep,
Eduardo Costa, destacou a importância do
programa. “Nós, da Finep, temos certeza
de que é dessas empresas que virá o desenvolvimento em Ciência e Tecnologia. Dependemos muito mais de vocês do que vocês dependem desse dinheiro”, afirmou.
Na hora certa
Do outro lado do país, em Campina Grande, interior da Paraíba, o Prime chegou na
hora certa para a empresa 4 Bordas, que desenvolve tecnologias para atletas de natação.
“Se não fosse o Programa, dificilmente eu
conseguiria lançar meu produto no mercado”, reconhece o proprietário da empresa e
nadador profissional Alcedo Medeiros de
Araújo. Ele é o idealizador de um sistema
denominado Swimming Power System
(SPS), que combina transdutores de força
com um software para mensurar a força de
propulsão de nadadores de alto rendimento
e paraolímpicos. Para Araújo, os recursos
do Prime já têm destino certo. “Com os resultados das consultorias financeira, jurídica e principalmente de marketing, financiadas pelo Programa, poderei firmar parcerias
com grandes clubes no Brasil e exterior”,
explica.
E são justamente esses os requisitos da
Finep para a segunda etapa do programa.
Somente após a constatação de que as empresas aplicaram os primeiros R$ 120 mil
DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
na contratação de recursos humanos e serviços de consultoria é que elas terão direito ao próximo passo: receber um financiamento de mais R$ 120 mil, que podem ser
pagos em 100 parcelas sem juros, por meio
do Programa Juro Zero.
Com isso, estima-se que o programa contabilize investimentos de aproximadamente R$ 1,35 bilhão, nos quatro anos de aplicação. “Cada empresa que tiver sucesso vai
influenciar não apenas o seu faturamento,
mas também ter um impacto positivo sobre a cadeia produtiva na qual está inserida”, destacou Costa.
As vantagens do Prime são indiscutíveis,
argumenta o empresário Araújo. A trajetória de sua empresa é a prova de que a
transferência de tecnologia da universidade para o mercado é tão possível quanto
necessária. Desde agosto de 2007 o empreendedor desenvolvia sua ideia na universidade, e só transformou-a em realidade
depois de incubar a empresa na Fundação
Parque Tecnológico da Paraíba.
Hoje Araújo já tem um protótipo com
patente nacional assegurada e patenteamento internacional em andamento. Caminhando a passos largos rumo à inovação
e amparada pelo Prime, a 4 Bordas deve
lançar o SPS em junho e tem no seu banco
de ideias outras duas novas invenções do
mesmo segmento de mercado, visando os
dois maiores eventos esportivos no Brasil:
a Copa de 2014 e as Olimpíadas do Rio de
Janeiro, em 2016.
Empreendedores
catarinenses assinaram
contratos com a Finep
durante o Seminário
Além do Prime
Para empresas que não foram selecionadas ou que não se
enquadravam nos critérios do Prime, a Finep oferece outras
alternativas de financiamento. Confira abaixo alguns programas
desenvolvidos pela agência de fomento para empreendimentos
inovadores:
Finep Inova Brasil – Financiamento com encargos reduzidos
para a realização de projetos de pesquisa, desenvolvimento e
inovação.
Juro Zero – Financiamento ágil e sem exigência de garantias
reais, voltado para atividades inovadoras em pequenas empresas
que atuam em setores priorizados pela Política Industrial,
Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce).
Inovar-Semente – Programa de Investimentos à Criação de
Empresas de Base Tecnológica, focado na constituição de fundos
de aporte de capital-semente.
Inovar – Incubadora de apoio à criação de fundos de capital de
risco para empreendimentos inovadores.
Subvenção Econômica – Permite a aplicação de recursos
públicos não reembolsáveis diretamente em empresas,
compartilhando custos e riscos com o empreendimento.
Inovar – Fórum Brasil Capital de Risco – Processo de
estímulo à capitalização de empresas de base tecnológica.
PNI – Programa Nacional de Incubadoras e Parques
Tecnológicos.
Saiba mais em www.finep.gov.br
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39
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s
s
o
Anprotec reconhece os
mais inovadores do ano
Cerimônia de premiação reuniu empreendedores
oriundos das mais diversas regiões do país
V
alorizar pessoas, projetos, ações e iniciativas voltadas ao futuro. Esse é um
dos objetivos do Prêmio Nacional de Empreendedorismo Inovador, promovido pela Anprotec em parceria com o Sebrae. Em
sua 13ª edição, o Prêmio contou com a participação de 46 instituições, entre incuba-
doras, parques tecnológicos e empresas
incubadas e graduadas. A premiação
aconteceu durante o XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas e o 3º Global Fórum,
em Florianópolis (SC).
A cerimônia de premiação reuniu lideMelhor Empresa Incubada
Desidratec – Indústria e Comércio de
Tecnologia de Desidratação Ltda., de
Fortaleza (CE)
VENCEDORES DA ETAPA NACIONAL
RR
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Divulgação / Anprotec
PB
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Vencedores
comemoram
a conquista da
premiação concedida
pela Anprotec
RN
DF
MG
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SP
PR
SC
RS
ES
RJ
Melhor Empresa Graduada
Nanocore Biotecnologia S/A,
de Campinas (SP)
Melhor incubadora de empresas orientadas
para o desenvolvimento local e setorial
Incubadora de Empresas Educere, de Campo
Mourão (PR)
Melhor incubadora de empresas orientadas
para a geração e uso intenso de tecnologias
Instituto Gene Blumenau, de Blumenau (SC)
Melhor Parque Tecnológico
Parque Científico e Tecnológico da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul –
Tecnopuc, de Porto Alegre (RS)
40
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
Melhor projeto de promoção da cultura do
empreendedorismo inovador
Projeto Sinapse da Inovação, de Florianópolis (SC)
ranças do movimento e foi conduzida pelo
Secretário Executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, Luis Antonio Rodrigues Elias, e pelo presidente da Anprotec,
Guilherme Ary Plonski. “Colocamos de vez
o tema em nossa agenda, o que é um grande ganho para a nação”, concluiu Elias. Os
nove premiados concorreram em categorias
regionais e nacionais, e foram avaliados por
uma comissão que reuniu membros da Anprotec e representantes de órgãos públicos,
entidades de classe, agências de fomento e
empresas (veja relação completa no box da
página 46).
Educação para o empreendedorismo inovador
Aliar educação e tecnologia para gerar desenvolvimento social foi o segredo da
Incubadora de Empresas Educere, localizada em Campo Mourão, no Centro-Oeste do
Paraná. Focado na área de biotecnologia, o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da
Educere abriga empresas com base em um projeto social que atua na formação de jovens
com potencial empreendedor.
O surgimento da Fundação se deu pela necessidade de uma empresa da região, a
Cristófoli Biossegurança. O desafio de montar uma empresa de base tecnológica em uma
cidade agrícola passava pela qualificação dos profissionais da região. Para sobreviver, a
empresa necessitava capacitar sua própria força de trabalho. Para isso, criou a Fundação
Educere, em 1997.
A maioria dos jovens apoiados pela Fundação é formada por alunos de escolas públicas
locais, que são estimulados a empreender por meio de atividades multidisciplinares. Desde
sua criação, a Fundação Educere já atendeu aproximadamente 320 jovens. Hoje oferece
cursos gratuitos de eletrônica, mecânica e escultura clássica, aulas de neurolinguística,
palestras, viagens e visitas técnicas, além de promover cursos de extensão em eletrônica
para adultos, em parceria com o Senai. A instituição dá suporte para o desenvolvimento de
novos negócios voltados para a difusão e transferência de tecnologia na área biomédica.
Com o prêmio, o diretor da Fundação, Ater Cristófoli, acredita na consolidação da
entidade. “Esse reconhecimento é uma vitrine muito importante para nós. A visibilidade
não se dá somente entre a comunidade das incubadoras, mas também nos órgãos
financiadores como a Finep, o Sebrae e as prefeituras da região, que nos dão crédito para
alavancar nossos projetos”, comemora Cristófoli.
Integração local
Iniciativa oferece cursos
gratuitos a jovens
de escolas públicas
de Campo Mourão
Divulgação / Educere
A conquista na categoria de incubadora orientada para o desenvolvimento local é
fruto de uma importante vocação da região. O Arranjo Produtivo Local de Insumos e
Equipamentos de Uso Médico de Campo Mourão é composto por 11 indústrias, que
contam com 20 fornecedores locais e regionais. O APL gera cerca de mil empregos
diretos e os produtos desenvolvidos são
exportados para mais de 30 países. A Educere já auxiliou 16 empresas e hoje
conta com quatro incubadas, a maioria
abertas por ex-alunos. Das iniciativas
apoiadas pela Fundação, oito obtiveram
sucesso e hoje atuam no mercado.
“Continuaremos focados na área de saúde,
sempre pensando na capacitação técnica
para competir nesse mercado, que os
chineses estão ávidos para conquistar. E a
educação é a ferramenta para garantir este
sucesso”, destaca Cristófoli.
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
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Pioneirismo na seleção de boas ideias
O Sinapse da Inovação é um projeto de promoção de novas ideias, que proporciona
a troca de informações entre empresas inovadoras e a sociedade, gerando um processo
democrático para a escolha de empreendimentos que receberão recursos de subvenção.
Coordenado pela Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi), de
Florianópolis (SC), o projeto abrigou 1.174 ideias no ano passado.
Após ampla divulgação na iniciativa em todo o estado de Santa Catarina, as propostas
foram apresentadas em um blog, onde poderiam ser votadas por qualquer visitante para
receber a subvenção. Os votos, somados a critérios objetivos monitorados por consultores
especializados, são o passaporte para participar do curso oferecido pelo projeto, que
contempla apenas 10% dos inicialmente inscritos. Focado nas questões-chave de
empreendedorismo – produtos e processos, capital, mercado e gestão –, o curso oferece
todo o suporte para o desenvolvimento da nova empresa, servindo como um plano de
negócios simplificado.
Depois de uma nova avaliação de especialistas, os projetos são selecionados pela Certi
para pleitear recursos de subvenção. Se cumprirem os requisitos exigidos por programas
específicos, as empresas recebem R$ 50 mil da Fundação de Apoio à Pesquisa de Santa
Catarina (Fapesc) e da Finep. A Certi não intermedeia a operação financeira, apenas
indica os projetos. Na operação do ano passado, 60 projetos foram contemplados,
em oito diferentes regiões de Santa Catarina. Após o recebimento do subsídio, os
empreendimentos que ainda não eram residentes instalaram-se em incubadoras para
consolidar o negócio.
Transferência de conhecimento
Divulgação / Anprotec
O coordenador do projeto, professor Antônio Rogério de Souza, acredita que a grande
vantagem da promoção da cultura do empreendedorismo pelo Sinapse está na conversa
entre a academia e o mercado. “O grande ganho está na mobilização do meio acadêmico. A universidade se fecha no seu conhecimento e com isso gera um grande gap entre a ciência
e os processos e produtos”, analisa.
Como a metodologia se adapta a diferentes regiões e pode ser aplicada nos mais
variados segmentos, Souza acredita que a tendência é de que o Sinapse seja replicado
em outros estados. “O mais interessante na conquista do Prêmio de Empreendedorismo
Inovador foi o marketing, a exposição da nossa ideia. A partir disso, muitas iniciativas
surgiram e há uma demanda de diversos lugares do Brasil”.
Idealizadores do
projeto recebem
premiação
por promover
a cultura do
empreendedorismo
inovador
42
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
O gene da inovação
Em operação desde novembro de 2002, o Instituto Gene possibilita a geração de empresas
focadas na inovação. Para garantir o crescimento sustentável de suas incubadas, fomenta a
pesquisa e a transferência de conhecimento do meio acadêmico para o mercado. Em 2009,
destacou-se como a incubadora com melhores indicadores de desempenho, deixando para trás
outras três concorrentes à mesma categoria no Prêmio Nacional de Empreendedorismo Inovador.
O Instituto nasceu como uma consequência do desenvolvimento da Incubadora de
Empresas Gene-Blumenau, um projeto de extensão do Departamento de Sistemas e
Computação da Universidade Regional de Blumenau (FURB), localizada no Vale do Itajaí,
uma das regiões mais industrializadas de Santa Catarina. Apoiado pelo CNPq por meio da
Sociedade Softex, o Projeto Genesis (Geração de Novas Empresas em Software, Informação
e Serviços) foi o pontapé inicial para consolidar a incubadora. Assim como aconteceu
em Blumenau, o Genesis foi responsável pela implantação de pré-incubadoras de base
tecnológica em várias regiões do país.
Fundado por um grupo de professores da FURB, o Instituto Gene conta hoje com 28
incubadas e já graduou outras 28 desde a sua criação. Trabalhando para a capacitação e o
desenvolvimento profissional, o empreendimento registra uma taxa média de crescimento
de 147% ao ano entre as suas graduadas, nos dois primeiros anos de mercado. Em 2009, essas
empresas geravam cerca de 180 empregos diretos na região de Blumenau. Além de promover
o desenvolvimento econômico ao abrigar novas empresas, o Instituto tem contribuído para
ampliar a capacidade de inovação de empreendimentos que já estão estabelecidos.
Aposta no Prime
Divulgação
O Instituto Gene se destacou no ano passado, quando conseguiu aprovar todos os 120
projetos que submeteu ao programa Primeira Empresa Inovadora (Prime), da Financiadora de
Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia. “Atingimos a meta porque
criamos uma ampla rede de parceiros em dezenas de cidades de quatro estados diferentes,
além do desenvolvimento de um software para o monitoramento do processo de atração e
seleção de propostas”, explica o presidente do Instituto, Carlos Eduardo Negrão Bizzotto.
Atingir a meta da Finep para o Prime e receber o reconhecimento da Anprotec foram
importantes conquistas da incubadora. “O Prêmio tem grande credibilidade, pois faz uma
avaliação isenta e técnica das candidatas. É um reconhecimento da qualidade do nosso
trabalho e divulga a marca do Instituto Gene para incubadoras, parques tecnológicos e
instituições ligadas ao empreendedorismo e à inovação”, afirma Bizzotto.
Sede do Instituto,
referência nacional em
incubação de empresas
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
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Excelência em transferência de tecnologia
Divulgação / Anprotec
Localizado no campus central da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (PUC/RS), em Porto Alegre, e com uma área de 4,5 hectares, o Tecnopuc tem como
objetivo principal inserir a Universidade no processo de desenvolvimento tecnológico,
econômico e social da região, por meio da promoção de inovação e de transferência de
tecnologia.
Com 50 empresas e entidades residentes, o Parque Tecnológico, vencedor do 13º
Prêmio Nacional de Empreendedorismo Inovador, atua diretamente no processo de
interação entre governo, universidade e empresas. Como acontece em muitos parques
tecnológicos do mundo, o Tecnopuc possui áreas de atuação especializadas: Tecnologia
da Informação e Comunicação (TIC), Eletroeletrônica, Energia e Meio Ambiente, Ciências
Biológicas da Saúde e Biotecnologia. De acordo com Rui Jung Neto, administrador do
Parque, essas áreas temáticas foram definidas em função da capacidade acadêmica da
Universidade, envolvendo grupos de pesquisa científica e tecnológica e cursos de pósgraduação (mestrado e doutorado). Isso tudo associado à existência de demandas da
sociedade.
As empresas pioneiras no Tecnopuc, no início dos anos 2000, foram a Dell
Computadores, que instalou o Global Development Center – GDC, primeira unidade de
desenvolvimento de software para uso interno da empresa fora dos Estados Unidos, e a
HP (Hewlett-Packard), que instalou no Parque duas unidades: uma de operação de P&D –
a maior da América Latina – e outra de operação de software.
Com 2.800 colaboradores, hoje as principais empresas e entidades instaladas no
Tecnopuc são – além da Dell e da HP – Microsoft, Ubisoft, ThoughtWorks, Tlantic (fábrica
de software do grupo Sonae), TOTVS, Stefanini, DBServer, Assespro-RS e Abinee-RS,
Softsul, PMI (Project Management Institute), Associação de Jovens Empresários – AJEPOA e a Fundação Pensamento Digital. Além disso, o Parque abriga projetos inovadores
como o CB Solar (Centro de Referência em Energia Solar do Ministério da Ciência e
Tecnologia) e o CPBMF (Centro de Pesquisa em Biologia Molecular e Funcional), que
atua integrado à empresa 4G e ao CEPAC (Centro de Excelência em Pesquisa sobre
Armazenamento de Carbono), em parceria com a Petrobras.
O prédio de 15 andares do Tecnopuc permite que sejam instalados escritórios de 70 a
1.000 m2, o que possibilita ao Parque abrigar desde grandes empresas multinacionais até
empresas nascentes que se desenvolvem na Incubadora de Base Tecnológica RAIAR.
Aliando as pesquisas
acadêmicas com
as demandas
do mercado, o
Tecnopuc foi
reconhecido como
o melhor parque
tecnológico do país
44
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
Inovação consciente como diferencial
Divulgação / Anprotec
Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação
(FAO), o Brasil está entre as 10 nações que mais desperdiçam comida no mundo. Cerca de
35% de toda a produção agrícola brasileira acaba no lixo. Isso representa R$ 12 bilhões
em alimentos jogados fora diariamente, segundo dados do Serviço Social do Comércio
(SESC). Foi com o intuito de reduzir esse desperdício que José Ailton Leão Barbosa,
Clodenir Ponciano Lima e Wagner Jucá criaram a Indústria e Comércio de Tecnologia de
Desidratação Ltda., conhecida por Desidratec, empresa incubada há três anos no Parque
de Desenvolvimento Tecnológico (Padtec) da Universidade Federal do Ceará.
Ponciano, gerente administrativo da empresa, explica que a técnica desenvolvida pela
equipe da Desidratec permite realizar a conservação de alimentos através da desidratação.
“A estocagem à temperatura ambiente desses alimentos reduz os custos de logística de
conservação, com baixo gasto de energia térmica e elétrica”, afirma.
A empresa está testando o produto no mercado e tem como principal foco o setor
agropecuário com a oferta de equipamentos de desidratação moduláveis, ou seja, que
podem ser adaptados às necessidades do consumidor. “Os equipamentos são de fácil
operação e manutenção para desidratação de produtos agrícolas que geralmente são
desperdiçados na safra por falta de processos de conservação economicamente viáveis ou
por falta de demanda”, defende Ponciano.
Exemplo disso é o que a técnica da Desidratec pode fazer com o concentrado de frutas,
que vai ser consumido apenas na entressafra. A matéria-prima pode ser desidratada
e guardada na temperatura ambiente, sem refrigeração. Durante a entressafra, o
concentrado é reidratado para ser transformado pela indústria processadora de alimentos.
Vencedora do 13º Prêmio Nacional de Empreendedorismo Inovador, na categoria
Melhor Empresa Incubada, a Desidratec desenvolve P&D com recursos de agências de
fomento, como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Em 2008, a microempresa
cearense arrecadou cerca de R$ 1 milhão em projetos aprovados pela Finep. Em 2009,
foram R$ 432 mil. Com o lançamento do produto no mercado, a empresa pretende
contratar 32 funcionários para se juntarem à equipe da Desidratec, que atualmente
trabalha com oito pessoas.
A Desidratec quer vender sua tecnologia também para outros países. Contatos com
Nigéria, Cabo Verde e África do Sul foram realizados em 2009. Para Ponciano, o objetivo
de diminuir o desperdício de alimentos no Brasil é o que faz da Desidratec uma empresa
inovadora.
Empreendedores da
Desidratec exibem
o prêmio de melhor
empresa incubada
Locus • Outubro/Novembro/Dezembro 2009
45
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o
Comissão avaliadora
»» CNPq – Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico
»» Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas
»» MDIC – Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior
»» MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia
»» Secretaria de Desenvolvimento
Tecnológico e Inovação
»» Finep – Financiadora de Estudos e Projetos
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Divulgação / Anprotec
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Um pé no mercado e outro na academia
O emprego crescente da biotecnologia e da nanotecnologia
nos diferentes segmentos da indústria motivou a criação da
Nanocore, empresa de biotecnologia focada no desenvolvimento
de produtos e processos no setor da saúde humana e animal.
A vencedora do 13º Prêmio Nacional de Empreendedorismo
Inovador na categoria Melhor Empresa Graduada destaca-se pela
versatilidade de seus produtos e bons resultados.
Fundada em 2003, a partir de projetos acadêmicos
envolvendo os sócios fundadores José Maciel Rodrigues Júnior
e Karla de Melo Lima, a empresa iniciou suas atividades no
campus da Universidade de São Paulo em fevereiro de 2004, na
Incubadora SUPERA, em Ribeirão Preto (SP).
Em 2006, já graduada pela incubadora e focada na ampliação
de suas atividades, a Nanocore foi transferida para o Condomínio
Technopark, em Campinas, também no estado de São Paulo, que
representa um polo nacional de empresas de base tecnológica e
centro da indústria farmacêutica no Brasil. Ainda em 2006, após
o licenciamento das atividades laboratoriais da Nanocore pelo
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a
empresa passou a atuar em diferentes fases do desenvolvimento
de produtos voltados ao agronegócio.
A empresa trabalha nas diferentes etapas de desenvolvimento
de medicamentos, vacinas e métodos diagnósticos, focada na
obtenção de dados para viabilizar o registro de produtos junto
às agências regulatórias (MAPA e Anvisa). Os desenvolvimentos
incluem estudos em escala de bancada, prova de conceito,
desenvolvimento e validação de ferramentas analíticas
de controle e caracterização, e transposição de escala de
processos. As atividades são desenvolvidas dentro dos critérios
de Boas Práticas de Laboratório e da ISO 17025 – que garante
qualidade aos medicamentos analisados pela Nanocore. Hoje a
empresa possui 60 clientes no Brasil e no exterior.
A relação com o meio acadêmico permite que
a empresa esteja atenta às novas pesquisas e
descobertas. Além disso, essa relação permitiu
fortalecer a base tecnológica da empresa que
nasceu com recursos da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio
do PIPE e do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq).
Com nove laboratórios, a Nanocore é um spin
off de redes de pesquisa ligadas a universidades. A empresa conta hoje com a colaboração direta de
mais de 25 pesquisadores de diferentes instituições
de ensino e pesquisa.
Empresa paulista se destacou como
a melhor graduada do Brasil
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SHUTTERSTOCK
GEST
O cerne do desenvolvimento
Anprotec desenvolve um novo modelo para a gestão de incubadoras,
focado na melhoria contínua de processos e serviços oferecidos
O
movimento de incubadoras de empresas no Brasil, que teve início com a
implantação do Programa de Parques Tecnológicos em 1984, teve uma taxa expressiva de crescimento nos últimos 10 anos,
com uma média de 25% ao ano. Atualmente, as incubadoras brasileiras apoiam 4.800
empresas, gerando cerca de 20 mil empregos diretos. Além disso, já foram graduadas mais de 1.500 empresas, que faturam
mais de R$ 1,6 bilhão por ano.
Ambientes de inovação por natureza,
incubadoras buscam consolidar empresas
nascentes no mercado visando, principal-
mente, ao desenvolvimento sustentável.
Para que auxiliem MPEs a levarem projetos de pesquisa e desenvolvimento para a
sociedade é preciso que as incubadoras
tenham modelos excelentes de gestão. Foi
para isso que a Anprotec, em parceria com
o Sebrae, desenvolveu o Cerne (Centro de
Referência para Apoio a Novos Empreendimentos), um programa de certificação
para atestar a qualidade das incubadoras
brasileiras.
O projeto, que começou a ser desenvolvido em 2007, é um novo modelo de atuação das incubadoras, que visa criar uma
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FOTOS: DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
GEST
Marcos Suassuna,
membro da equipe
do Projeto Cerne
plataforma de soluções, de forma a
ampliar a capacidade em gerar, sistematicamente, empreendimentos
inovadores bemsucedidos. Com isso, cria-se uma base de referência
para que as incubadoras de diferentes
áreas e tamanhos
possam utilizar elementos básicos para reduzir o nível
de variabilidade na
obtenção de sucesso das empresas apoiadas.
Com o objetivo de ampliar quantitativa
e qualitativamente os resultados do segmento, a certificação será similar a outros
programas consagrados, como ISO 9000
ou 14000. O programa foi concebido a
partir da análise do modelo de atuação
americana dos SBDC (Small Business Development Centers), que priorizam a aceleração do crescimento das empresas, e
Workshop reuniu
representantes de
incubadoras de todo o país
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do exemplo europeu dos BIC (Business
Innovation Centers). “Os BIC são focados
em identificar e apoiar a inovação nas
empresas nascentes e também nas já existentes, sobretudo pequenas e médias.
Além disso, estimulam a inovação como
componente importante para o desenvolvimento econômico regional”, explica
Sheila Pires, superintendente executiva
da Anprotec.
O be nchmark desses programas foi
realizado a partir de missões internacionais que permitiram à Anprotec unir o
que eles têm de melhor às características
próprias das incubadoras nacionais. Isso
faz do Cerne um modelo 100% brasileiro.
O projeto foi baseado também no modelo de gestão de incubadoras que são referência do Brasil, como as vencedoras do
13º Prêmio Nacional de Empreendedorismo Inovador.
De acordo com o Termo de Referência
do Cerne, distribuído durante o XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológicos
e Incubadoras de Empresas, que ocorreu
em outubro de 2009, em Florianópolis, o
sucesso do programa depende da compreensão e implantação de um conjunto de
DIVULGAÇÃO / ANPROTEC
Gestores de incubadoras avaliaram
ferramentas do Cerne
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princípios sobre os quais os sistemas e
processos serão estruturados. Durante o
Seminário, também foi realizado um
workshop em que representantes da Anprotec e do Sebrae puderam explicar melhor os objetivos e condições de implantação do programa.
Em função da complexidade e do número de sistemas a serem implantados, o
Cerne foi estruturado como um Modelo
de Maturidade da Capacidade da incubadora em gerar, sistematicamente, empreendimentos de sucesso. Por isso, foram
criados quatro níveis crescentes de maturidade. A lógica escolhida para estruturar
os níveis de maturidade foi organizálos a partir de eixos norteadores:
empreendimentos, incubadora,
rede de parceiros e melhoria
contínua (inovação) – veja
ilustração.
Segundo Sheila, as incubadoras associadas à Anprora
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Mauricio Guedes*
*Mauricio Guedes é
diretor da Incubadora
de Empresas da
Coppe/UFRJ e do
Parque Tecnológico da
UFRJ e vice-presidente
da International
Association of Science
Parks (IASP).
50
o último Carnaval do Rio, mais de
500 blocos saíram pelas ruas, desfilando nomes geniais. Entre os publicáveis neste espaço, estão o Simpatia é
Quase Amor, Sovaco de Cristo, Imprensa que eu Gamo (obviamente criado por
jornalistas), Nem Muda nem Sai de Cima
(do bairro da Muda), Me Beija que eu
sou Cineasta, Mulheres de Chico e a histórica Banda de Ipanema. A associação
que os reúne atende pelo nome de Sebastiana, uma bem-humorada e também
genial homenagem ao santo padroeiro
da cidade.
O Concentra mas não Sai, fundado em
1995 pela cantora Beth Carvalho, não
desfila, só concentra. O seu nome bem
que poderia ser tomado emprestado por
pesquisadores, empresários e agentes de
governo, para uma oportuna reflexão sobre a dinâmica do Triângulo de Sábato
(ou da Triple Helix, como queiram)
entre nós.
A nossa “concentração para a inovação”,
seja ela avaliada pelos investimentos em
C&T, pela formação de mestres e doutores
ou pelas publicações científicas, gera expectativas no campo do desenvolvimento
econômico bem superiores aos resultados
alcançados. Temos importantes exceções,
em setores como agricultura, aeronáutica
e energia, mas a regra geral ainda é um
distanciamento entre os mundos da academia e das empresas. Nos últimos anos,
a relação, que era contaminada pela falta
de interesse, desconfiança ou mesmo rivalidade, evoluiu para um clima de cerimônia. Já é um avanço, mas não é suficiente para um bom desfile.
O país avançou no campo legislativo. A
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Lei de Inovação impulsionou a cultura da
inovação no meio científico. Criou o instrumento da subvenção econômica, a possibilidade de licença para pesquisadores
que queiram criar uma empresa de base
tecnológica e a equalização de taxas de
juros. Fez renascerem os Núcleos de Inovação Tecnológica, trouxe a previsão legal
para que nossas universidades criassem
incubadoras de empresas (embora já houvesse centenas delas em operação e a experiência brasileira fosse reconhecida internacionalmente). Provocou a discussão
do tema da inovação tecnológica nas assembleias legislativas de mais de uma dezena de estados, que também criaram as
suas Leis de Inovação.
No final de 2009, uma importante iniciativa do setor empresarial não recebeu
a devida atenção dos meios de comunicação. Em um manifesto, a CNI assumiu um
compromisso com a mudança e lançou a
MEI – Mobilização Empresarial pela Inovação, declarando que quer fazer da inovação uma prioridade estratégica de todas
as empresas, independentemente de seu
porte ou setor de atividade.
Este clima de “concentração para o desfile” pode ser muito bem aproveitado este
ano. Teremos a 4ª Conferência Nacional
de Ciência, Tecnologia e Inovação, com o
título “Política de Estado para Ciência, Tecnologia e Inovação com vista ao Desenvolvimento Sustentável”. Teremos eleições, um
momento de debates e disputas, mas também uma excelente oportunidade para a
construção de alguns consensos. A criação
de um ambiente propício para a inovação
e para o empreendedorismo inovador deveria ser um desses consensos.
ambiente da inovação brasileira
Outubro/Novembro/Dezembro 2009
no 58 • Ano XV
Inovação
em 14 passos
A receita criada no Vale do
Silício para o desenvolvimento
de habitats inovadores
Sucesso
Os vencedores do 13º Prêmio Nacional
de Empreendedorismo Inovador
Mercado verde
O desafio de desenvolver
tecnologias sustentáveis
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