educação e desenvolvimento fundamentos e conceitos jorge carvalho arroteia unidade de investigação construção do conhecimento pedagógico nos sistemas de formação título Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos autor Jorge Carvalho Arroteia design e serviços de prépress Gabinete de Imagem Fundação João Jacinto de Magalhães impressão Grafigamelas – Indústria Gráfica, Lda edição Universidade de Aveiro, Comissão Editorial Departamento de Ciências da Educação Campus Universitário de Santiago 3810-193 Aveiro tiragem 350 exemplares depósito legal ????????????? ISBN 978-972-789-250-1 catalogação recomendada Arroteia, Jorge de Carvalho, 1947Educação e desenvolvimento : fundamentos e conceitos / Jorge Carvalho Arroteia. - Aveiro : Universidade de Aveiro. Comissão Editorial. Departamento de Ciências da Educação, 2008. - 391 p. Unidade de investigação construção do conhecimento pedagógico nos sistemas de informação ISBN 978-972-789-250-1 (brochado) Desenvolvimento da educação // Fundamentos da educação // Políticas educativas // Avaliação da educação CDU 37.014 Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida ou transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo, electrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização do editor. À minha Família, Aos Mestres e Alunos, Sempre presentes no meu trabalho. Índice Apresentação 13 Acção educativa Programa Projecto 17 19 20 Administração Direcção Motivação Participação 25 29 29 30 Administração educacional 33 Análise social da educação Aprendizagens escolares Planos de estudos Planos curriculares Sucesso escolar Recursos educacionais Tecnologia e educação 39 40 41 42 45 46 47 Avaliação Avaliação do ensino superior 49 52 Carta escolar 55 Democratização do ensino Acessibilidades Apoios educativos e sociais Igualdade de oportunidades Educação para todos 63 66 67 70 72 Demografia escolar Diagrama de Lexis Esperança de vida escolar População escolar 75 76 77 78 Demografia e sociedade Migrações e ensino Prospectiva 83 87 91 Desempenho Eficiência Eficácia Qualidade 95 96 96 97 Desenvolvimento da educação Capital humano Oferta escolar Redes 103 105 107 108 Economia e educação Despesas em educação Financiamento da educação Gastos em educação 111 112 113 113 Educação Educação de base Educação de adultos Educação não formal 115 116 116 117 Educação comparada 119 Educação em centros urbanos 123 Educação e desenvolvimento Desenvolvimento humano Desenvolvimento comunitário Desenvolvimento socioeconómico Ensino superior e desenvolvimento regional 127 128 130 133 137 Educação e direitos Direito à educação Educação e direitos humanos 145 145 147 Escola Estabelecimento de ensino Instituição escolar Sistema escolar 153 155 156 157 Escola eficaz 159 Família e educação 161 Formação inicial de professores 165 Formação ao longo da vida Andragogia Educação e formação de adultos 169 171 172 Formação profissional 175 Funções da educação 179 Gestão Clima escolar Estratégia Liderança 183 184 185 186 Indicadores Indicadores da OCDE 189 195 LBSE Modalidades especiais de educação escolar 197 198 Métodos de investigação Investigação-acção Estudos de caso Estudos monográficos Análise organizacional 199 201 203 203 203 Mobilidade social Meio social Selecção social 205 206 206 Mudança social e educação Analfabetismo Inovação 209 212 214 Organismos internacionais BIE – Bureau International d’Éducation ONU – Organização das Nações Unidas UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Oganization CE – Conseil de l’Europe OCDE – Organisation de Coopération et de Développement Économiques UE – União Europeia 219 219 219 220 220 221 221 Organização escolar Organograma 223 225 Pedagogia social Acção pedagógica Inclusão social Tempo de lazer e animação 227 232 233 233 Planeamento Planeamento da educação Métodos de planeamento da educação 235 237 242 Poder Autonomia Descentralização Desconcentração Regionalização 245 247 249 249 250 Política educativa Construção da política educativa Dimensões de análise Contextos 253 255 257 258 Procura social da educação Alunos Escolarização Massificação escolar Crise de educação 261 264 264 266 266 Profissão docente 269 Reformas de ensino 275 Regulação do sistema educativo 283 Regulação do ensino superior Regulação pela mão da avaliação Regulação pela mão da inspecção 287 290 290 Rendimento escolar Abandono escolar Desperdício escolar Resultados Sucesso escolar 295 295 296 297 298 Sistema Sistema de ensino 299 300 Sistema educativo português Subsistemas 303 307 Sistema de informação educacional 327 Socialização 333 Território Assimetrias regionais Comunidade 341 342 344 Tipologia dos sistemas educativos A base morfológica A organização social Coerência interna Organização interna 347 349 350 352 354 União Europeia Fundamentos da política educativa Orientações relativas à educação e à formação Questões em aberto 357 357 359 361 Nota final 365 Bibliografia 367 Apresentação “Porque na muita sabedoria há muita arrelia, e o que aumenta o conhecimento, aumenta o sofrimento”. “Eclesiastes, 1, 18” Ao longo da nossa actividade docente e profissional, fomos diversas vezes chamados a participar em tarefas relacionadas com a direcção, a administração e a avaliação do sistema educativo, no seu todo, ou de algum dos seus subsistemas e instituições, em particular. Esta colaboração veio reforçar o interesse pelo aprofundamento dos aspectos relativos à gestão e à orientação de certas medidas atinentes ao desenvolvimento, ao planeamento e à evolução próxima do sistema educativo português. Frequentemente, constatámos como muitas das decisões relativas ao planeamento e à administração deste sistema nem sempre pareciam concordantes com os princípios teóricos, a racionalidade científica e os ensinamentos académicos de algumas escolas de pensamento. Com agrado, registamos como, no decurso das últimas décadas, muitos temas relacionados com a análise sócio-organizacional do sistema educativo português têm vindo a ser aprofundados, sobretudo em estudos de natureza académica, levados a cabo em diferentes instituições de ensino superior e segundo perspectivas diferenciadas. Tal facto tem vindo a fortalecer uma dinâmica investigativa e uma matriz teórica e reflexiva, indispensáveis ao progresso de muitas ciências, nomeadamente as que integram, no seu corpus, a análise social dos fenómenos educacionais, a administração pública e a política educativa. Contudo, apesar do enriquecimento do acervo bibliográfico em diversas áreas do saber, os resultados de muitas das tomadas de decisão de natureza política continuam a ser contraditórios em relação a certos pressupostos teóricos, atinentes à matriz de funcionamento das organizações educativas – entendidas como organizações sociais – ou, mesmo, quanto aos resultados esperados, gorando as expectativas da população escolar e da sociedade em geral. Por isso, apesar da retórica dos discursos oficiais, muitas delas devem ser equacionadas face aos pressupostos inscritos na Constituição da República Portuguesa (CRP), relacionados com a construção de um Estado de direito democrático, assente na democracia económica, social e cultural e no aprofundamento da democracia participativa (artº 2), bem como na sua extensão a toda a população. Não cabe no âmbito deste texto apreciar nenhuma medida concreta, sobretudo as que foram tomadas depois da segunda metade de Novecentos, quando o sistema educativo português, seguindo as tendências que se haviam verificado noutros contextos europeus, passou a registar os efeitos do processo de democratização da educação, responsável pelo aumento progressivo 14 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos da população escolar, pelo alargamento da rede de estabelecimentos de ensino e de formação e pelo desenvolvimento dos diversos subsistemas de ensino. Tão pouco nos cabe apreciar os seus reflexos sobre as organizações escolares, a população estudantil, o sistema de ensino no seu todo ou sobre a sociedade portuguesa. Tal facto exigiria uma análise aprofundada das múltiplas medidas de acção educativa ditadas por princípios ideológicos e programáticos enunciados nos textos de acção governativa e que, no seu conjunto, configuraram “políticas de educação” distintas consoante o momento, as opções estratégicas, os interesses, as disponibilidades e a visão dos seus responsáveis. O trabalho em questão pretende, sim, recordar os fundamentos e os conceitos relacionados com o desenvolvimento dos sistemas educativos. Assim: · serve de roteiro à análise da desenvolução e planeamento, da acção e da política educativa e da sua relação (e dependência), em relação aos fenómenos sociais que os acompanham. Por fenómenos sociais entendemos, à semelhança de Gurvitch (1979, p. 27), os “fenómenos sociais totais”, como “totalidades reais em marcha, em movimento permanente”, sendo “o elemento vulcânico da realidade social, a origem das erupções desta “; · toma em consideração o desenvolvimento de cada indivíduo e de todos os homens, segundo processos que apontam para o conjunto de dimensões do ser humano; · tem presente a disponibilidade e a utilização dos recursos postos à disposição do sistema educativo, reunindo as mesmas unidades e factores na acção educativa, atributos que Perroux (1987, p. 31-32) identifica como fazendo parte do “novo desenvolvimento”: global, endógeno e integrado. Juntamos-lhe uma outra característica, o desenvolvimento sustentado, tendo em consideração a evolução dos sistemas sociais e ambientais e a pertinência da acção pedagógica e educativa na preservação dos equilíbrios societais e naturais, resultantes da exploração incontida destes recursos, da exploração humana e do agravamento das desigualdades sociais. Neste sentido, justifica-se o título que escolhemos para este trabalho: educação e desenvolvimento. De facto, entendemos que a educação deve ser considerada como um fenómeno social, em evolução permanente, exigindo coerência, motivação e participação dos seus actores, em articulação com o projecto, a identidade e a visão prospectiva das políticas educativas, de formação e de investigação que as orientam. Por outro lado, ela é o principal factor responsável pela evolução dinâmica das sociedades actuais, na busca do desenvolvimento e do bem-estar humano e social, conducente ao crescimento, à inovação tecnológica (LOUREIRO, 1985), à inclusão social e à procura de soluções contra as ameaças humanas, naturais e outras, que pairam sobre a humanidade. E como recordam Debesse e Mialaret (1974, p. 367), qualquer sociedade, capitalista ou socialista, “assenta na produção e no trabalho”, semelhantes nos meios, diferentes nos fins, mas sujeitas à mesma evolução técnica que “caracteriza as duas sociedades” (Loc. cit.). Para o desempenho destas funções, cabe aos sistemas de ensino organizarem-se, de forma não só a “perpetuar os valores e as competências dos seus habitantes, mas também para preparar esta população para as mudanças que o progresso reclama” (UNESCO, 1965, p. 13). De acordo com este documento da UNESCO (Loc. cit.), todo o sistema de ensino “é o produto da sociedade (…) depende da estrutura social dominante e das aspirações culturais Jorge Carvalho Arroteia 15 da população, das oportunidades oferecidas pelas diferentes profissões e do seu prestígio, das disponibilidades orçamentais e dos recursos financeiros, enfim do conjunto do regime politico e administrativo”. Complementarmente, consideramos o desenvolvimento como um processo complexo, que tem a ver não só com o expansão e o crescimento do sistema económico, mas também com as mudanças sociais e culturais que lhe andam associadas. Neste contexto, ganha particular relevância a formação dos recursos humanos e o “acréscimo de conhecimentos, de competências, de aptidões laborais (…) de todos os membros de uma sociedade” (Op. cit., p. 74). O estudo dos diferentes fenómenos educacionais que fazem parte do nosso quotidiano – enquanto “actores” de um sistema responsável pela formação, investigação e prestação de serviços à comunidade, como é o subsistema de ensino superior – obriga-nos a reflectir sobre as decisões, as práticas e sobre os programas que fazem parte desta actividade, sobretudo os que se relacionam com a docência, a investigação e a formação dos nossos alunos. Esta vivência leva-nos a ter em consideração diversos tipos de abordagens dos fenómenos sociais e dos processos de evolução e de mudança que reflectem o processo civilizatório que vivemos e as influências da abertura das fronteiras do conhecimento e do saber que experimentamos. A perspectiva que seguimos neste trabalho atendeu, portanto, às preocupações académicas que nos assistem no domínio da análise social e organizacional da educação e à vivência de situações diversas, com o acompanhamento e o cumprimento de funções burocráticas, integradas em “cadeias hierárquicas” de organizações públicas, relacionadas com a direcção, a gestão e a regulação do sistema educativo português. A experiência aí recolhida, completada com a leitura e a pesquisa individual, foram enriquecedoras para a nossa reflexão, contribuindo para a identificação de alguns eixos estruturantes de análise dos fenómenos sociais e educacionais. De acordo com esta matriz, procuramos sistematizar, seguindo uma ordem, sempre que possível, alfabética e ordenada, os fundamentos e os conceitos que nos pareceram apropriados à compreensão dos aspectos relacionados com o desenvolvimento, a administração e o planeamento da educação. No trabalho que realizámos, evocamos alguns dos autores que, primeiramente, nos alertaram para a importância de temas contidos nos programas das disciplinas do Departamento de Ciências da Educação da Universidade de Aveiro, e que nos serviram de base à formação “ao longo da vida” que encetámos. Assim, procurámos estruturar este trabalho dando primazia aos conceitos que, em nosso entender, estão associados ao assunto que elegemos como tema, a começar pelas notas sobre “acção educativa” e, a concluir, com a referência sobre algumas das preocupações da UE sobre a educação e a formação no seio dos países europeus, e sobre os desafios que se colocam à identidade e à diversidade dos seus sistemas sociais e educativos (GARRIDO, 1996). Como se verá em algumas abordagens, não prescindimos de referenciar obras e autores que, para alguns, podem ser considerados “históricos”. Fazemo-lo seguindo o entendimento de Mendras e Forsé (1983, p. 8), de relembrar o passado, de “raconter une histoire pour construire un paradigme qui doit servir à comprendre d’autres transformations sociales relevant du même type”. Esta é a nossa opção, por considerarmos, também, que, apesar da multiplicidade de estudos e de análises recentes que incidem sobre os diferentes assuntos sociais e educacionais, 16 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos há uma matriz a ser tida em conta nos estudos actuais, a qual, nem sempre, é devidamente valorizada em estudos recentes. A sua evocação constitui um testemunho do contributo de certas obras para a compreensão da mudança social e o reforçar da “consciência colectiva” e do legado científico de diversos autores que nos ajudam a compreeender as marcas dos diversos “ciclos sociais” e que as gerações mais novas – sobretudo as que estão mais próximas do nosso contexto de trabalho – não devem, de todo, ignorar. Muitos outras referências podiam ou deveriam ser evocadas. Por se tratar de um primeiro ensaio, reconhecemos o interesse de uma eventual actualização ou mesmo do seu aprofundamento, sobretudo numa perspectiva comparada. Para tanto, esperamos o contributo dos que, generosamente, entenderem pronunciar-se sobre o interesse, a oportunidade e a validade deste “roteiro”. Acção educativa Em sentido amplo, a acção educativa é uma forma de “acção social”, entendida por Weber (ARON, 1982, p. 509) como “um comportamento humano (…), uma atitude interior ou exterior voltada para a acção, ou para a abstenção”, relacionada com o comportamento de outras pessoas. Este tipo de acção, considerada não como revolucionária, “mas como uma tarefa dinâmica de desenvolvimento das potencialidades sociais”, como assinala Ansart (1990, 265), encara esta concepção dinâmica, “aberta à antropologia, à história, atenta à complexidade e à mudança” (Op. cit., p. 266), como indispensável a qualquer tipo de análise, de cariz sociológico, sobre fenómenos que afectam a escola e a nossa sociedade. Diz-nos Sarmento (1997, p. 41) que “a abordagem da acção inscreve uma problemática que é dominada pela extrema heterogeneidade dos conceitos que para ela são convocados (…)”. Prossegue o mesmo autor, referindo que esta abordagem “faz-se sob as lentes das diversas disciplinas que constituem as ciências sociais (a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia Social, a Ciência Política, as teorias organizacionais, etc.), cada uma delas interessada em promover os seus próprios quadros conceptuais, em apresentar as suas próprias definições, em dilucidar as antinomias e os dualismos que se colocam a propósito da relação da acção com o seu objectivo científico próprio (acção e sociedade, acção e cultura, acção e sujeito, etc.)”. No domínio que nos interessa, relacionado com o desenvolvimento, a política e o planeamento da educação, a acção educativa abarca diferentes tipos de iniciativas, sobretudo de carácter pedagógico e administrativo, conduzidas pela escola, pelos professores, pelo poder central, no âmbito do ministério da tutela e serviços centrais dependentes, e levadas a cabo pelas organizações escolares, pelo poder local e por entidades locais, direccionadas para a população escolar (alunos e docentes) ou para a comunidade. Estas podem abarcar programas específicos, de natureza educacional e formativa, de intervenção sócio-educativa e projectos diferenciados, orientados para determinados estratos da população. Parte integrante da acção educativa é o “acto educativo”, que Formosinho (“O sistema educativo-conceitos básicos”, in: ALVES-PINTO, ALÇADA, SILVA, 1986/88, p. 277-290) define por várias componentes (Op. cit., p. 279): “a) instrução – é a transmissão de conhecimentos e técnicas; b) socialização – é a transmissão de normas, valores e crenças, hábitos e atitudes; c) estimulação – é a promoção do desenvolvimento integral do educando (desenvolvimento intelectual, afectivo, motor, psicológico).” 18 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Como nos recorda Rocha (1988, p. 117), “a intervenção educativa tem por razão última ajudar o educando a realizar-se integralmente como ser humano”. Daí a necessidade de se atender à natureza humana: “o homem é activo – e realiza-se através de tarefas que, alterando o ambiente, o modificam a ele próprio”. Por outro lado, tendo presente as orientações de D’Hainaut (1980, p. 22), a acção educativa efectua-se em três níveis de decisão: “· ao nível político, determinam-se os ‘fins’ da acção; · ao nível da gestão da educação, precisam-se as ‘finalidades’ que deveriam conduzir a realizar as intenções da política educativa; · ao nível da realização, determinam-se os ‘objectivos’, que exprimem os resultados esperados das acções que se empreendem para alcançar finalidades propostas ao nível da gestão”. Como qualquer acção humana, a acção educativa é condicionada por diversos factores, relacionados com o tipo de sociedade, o regime político, a natureza da instituição de ensino, a diversidade da população escolar (docente e discente), o envolvimento dos seus ‘actores’, bem como pela relação escola-meio. Por ‘actores’, entendemos todos os interessados no desenvolvimento das políticas educativas pertencentes quer ao “sistema político formal (instituições oficiais: representantes eleitos, funcionários, dirigentes partidários, etc.) como os que dispõem de estatuto político informal (grupos de interesse, associações voluntárias, etc.) (FIGUEIREDO, 2001, p. 22). Daí considerarmos que qualquer acção educativa depende do projecto educativo, de âmbito nacional, regional ou local, e assenta na elaboração de um diagnóstico da realidade educacional, social e escolar, dos meios e recursos, dos objectivos específicos e da programação e no desenvolvimento de acções concretas, a realizar nas escolas ou de intervenção sobre o meio. Dada a diversidade de situações e a multiplicidade de factores que condicionam o aproveitamento escolar da população discente, é imperioso o conhecimento do sistema educativo no seu conjunto, dos alunos e das suas identidades, das organizações escolares e das suas particularidades, das estratégias a seguir em cada uma das situações, dos actores no seu conjunto e da própria sociedade. Este conhecimento deve assentar no desenvolvimento da investigação científica, baseada não só na descrição dos fenómenos sociais e educativos, mas também na sua interpretação, compreensão e explicação, assim como na prática da autonomia institucional e no apoio, no acordo e na colaboração entre os diversos parceiros responsáveis pela educação e formação cívica da população discente. O desenvolvimento destas acções, consubstanciada em iniciativas diversas, integradas em projectos, programas e em planos de acção, sobretudo locais e regionais, devem traduzir as opções de política educativa do poder central, os seus objectivos, os meios e as estratégias relacionadas com as reformas institucionais, pedagógicas e de desenvolvimento da educação na sua articulação com os demais sistemas sociais. Tal deve acontecer, igualmente, em relação às autarquias: municípios e freguesias. Havendo organismos internacionais que se preocupam com as questões do ensino e da fomação, transcrevemos do “Portal da Unesco” – http://portal.unesco.org 22AGO06) o enunciado de alguns tipos de acção, articulados com a política e as estratégias educativas: Jorge Carvalho Arroteia 19 “i) acesso e participação à educação de base; ii) equidade e redução das disparidades de género, das disparidades regionais, das disparidades rural/urbano e das desigualdades sociais; iii) qualidade e pertinência da formação nos diferentes níveis (educação de base, ensino secundário geral, ensino técnico e profissional, ensino superior, educação de adultos, etc.; iv) lugar do sector privado e das comunidades locais na organização da educação; v) regulação dos fluxos de alunos entre o ensino formal e não formal; público e privado; secundário geral, técnico e profissional; superior curto e longo; elementar e secundário; secundário e superior, etc.; vi) aspectos institucionais, como a gestão, o planeamento e o equilíbrio entre a descentralização, a desconcentração e a centralização; vii) partenariado e comunicação entre os actores e os parceiros sociais, os níveis de participação assim como as formas de participação e de comunicação; viii) a gestão dos custos ao nível das despesas correntes e de capital; ix) as políticas e as estratégias de mobilização de recursos em articulação com a descentralização e o desenvolvimento do sector privado e o desenvolvimento de parcerias”. Recorde-se que a importância da educação na promoção do desenvolvimento humano e sustentável tem vindo a ser reconhecida por diversas instituições internacionais, pelo que a acção e divulgação das “boas práticas” educativas devem ser incentivadas ao nível da escola, dos serviços centrais e regionais e consideradas na gestão dos sistemas educativos. Para tanto, o recurso a programas de formação específicos e a projectos curriculares e extracurriculares, que permitam o desenvolvimento local e a participação alargada dos elementos que fazem parte da escola e do seu meio envolvente, constitui um intrumento de valorização da acção educativa, quer seja de natureza pedagógica ou de intervenção comunitária. Não devemos, no entanto, esquecer que, face às mudanças constantes da nossa sociedade, a acção educativa de hoje exige dos pedagogos uma atenção redobrada, no sentido de acompanharem esta evolução, adaptando a sua actividade às exigências presentes e futuras dos alunos e da sociedade onde vivem. Programa O conceito de ‘programa’ suscita diferentes interpretações, consoante o tipo de análise a empreender. Por isso, referimos várias propostas de definição. Para Landsheere (1979, p. 217), o programa “é o conjunto integrado de actividades concebidas para atingir um determinado fim”. Estas podem ser de diferente natureza, social, económica, cultural ou outra, incluindo um leque de acções da mesma natureza ou complementares, mas levadas a cabo pela mesma organização. Por ‘programa educativo’, entende o mesmo autor (Loc. cit.) o “plano de acção em matéria de educação”. Ainda no âmbito da educação, o ‘programa’ pode ser entendido de formas complementares. Para D’Hainaut (1980, p. 19), o “programa” é, em princípio, “uma lista de matérias a ensinar acompanhadas de ‘instruções metodológicas’ que eventualmente a justificam e dão indicações sobre o método ou sobre a abordagem que os seus autores julgam a melhor, ou a mais pertinente, para ensinar essas matérias”. Por sua vez, Vidal, Cárave e Florêncio (1992, p. 120) 20 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos entendem o ‘programa escolar’ como o “conjunto ordenado de conteúdos escolares”, e, para Sáenz (1988, p. 474), como “o conjunto de actividades com objectivos educativos que o professor ou a equipa de professores prepara, com vista à sua concretização no centro escolar”. Neste caso, estas devem ter em atenção o conteúdo, o grau de instrução dos alunos, os níveis a atingir no fim do curso, o material didáctico disponível, a idade dos alunos e as características, em termos de homogeneidade/heterogeneidade do grupo escolar. Por sua vez, Zabalza (1991, p. 12-23) entende o ‘programa’ como “o documento oficial de carácter nacional ou autonómico em que é indicado o conjunto de conteúdos, objectivos, etc., a considerar em determinado nível”. Mais, ainda: o programa “traduz os mínimos comuns a toda uma sociedade, constituindo a ‘estrutura comum de uma cultura’ e as previsões gerais relativamente às necessidades de formação e de desenvolvimento cultural e técnico dessa mesma sociedade”. A sua gestão e aprofundamento são assegurados na escola pelos professores, mas aos pais, à comunidade, às autoridades educativas e aos próprios alunos é exigida uma larga participação no seu desenvolvimento. Tal justifica-se, na medida em que, constituindo um programa escolar uma “estrutura central de referência”, torna-se imprescindível ultrapassar as desigualdades existentes, de forma a que as metas a atingir pelos alunos que frequentam o sistema educativo, qualquer que seja a sua origem geográfica e social, sejam cumpridas. Recorda-nos o mesmo autor (Op. cit., p. 17) que o programa, assim considerado, constitui “um primeiro passo do desenvolvimento curricular”, entendido este “como um ‘continuum’ que se desenvolve em fases sucessivas e a diversos níveis do sistema escolar: administração central, regiões, escolas, turmas concretas”. Na lógica do desenvolvimento curricular, o desenvolvimento progressivo do programa, tendo em conta as condições específicas de cada escola, das turmas, dos alunos, dos diferentes contextos educativos, consubstancia a actividade de programação através da qual cada escola pode “responder às necessidades educativas dos seus alunos e, inclusivamente, (…) colaborar no desenvolvimento comunitário de todo o grupo social de que faz parte”. Projecto À semelhança do conceito anterior, também a noção de ‘projecto’ pode ser utilizada em diferentes contextos, sociais, políticos, pedagógicos e outros. Em quaisquer deles, porém, o projecto tem subjacente uma determinada acção, destinada a melhorar ou modificar uma ou um conjunto de situações, surgindo como uma “constelação organizada de actividades que são dirigidas para a realização de certos objectivos e para a obtenção de certos resultados” (ERASMIE, LIMA, 1989, p. 63). Para Vidal, Cárave e Florêncio (1992, p. 120), falar de projecto em educação “significa falar de intenções e de adequação (…), a exposição, adaptação e desenvolvimento dos objectivos e experiências educativas que se pretendem para um nível de ensino, etapa, ciclo ou área concreta de ensino”. Por sua vez, M. Rodríguez (SÁENZ, 1988, p. 432) define ‘projecto’ como um “documento pedagógico, elaborado pela comunidade, que, com carácter temporal, expressa, de forma realista e concreta, o que fazer no domínio educativo, tendo presente a coerência de acção e a organização académica do centro”. Nesta perspectiva, o projecto situa-se entre o “ideário” – “o que a escola quer ser – e as programações concretas que cada Jorge Carvalho Arroteia 21 dia levam a cabo os elementos da mesma – o que a escola faz. O projecto expressa o que a escola pretende” (Op. cit., p. 433). A importância dos projectos pedagógicos é uma necessidade “para dinamizar o acto educativo”, como refere Boutinet (1986, p. 20), uma vez que o seu desenvolvimento permite “mobilizar a motivação dos alunos, aumentar a eficácia do sistema educativo, substituir uma lógica de conteúdos, uma lógica de objectivos, de distinguir, enfim, no âmbito de um programa, os elementos centrais e os elementos subsidiários”. Tal aplica-se não só a este tipo de projecto, mas também aos projectos de ensino, de aprendizagem e aos projectos didácticos e educativos. Estes últimos têm vindo a merecer a atenção redobrada por parte de alguns cientistas nacionais (ERASMIE, LIMA, 1989; COSTA, 1990, 1991 e 1997; CANÁRIO, 1992; BARROSO, 1992), que através da sua investigação têm chamado a atenção para a pertinência e oportunidade do ‘projecto educativo’. De acordo com Costa (1990a, p. 12), “a questão do Projecto Educativo de Escola aparece (…) suportada por uma concepção política de sociedade que assenta num modelo de democracia participativa com relevo para o papel de intervenção da sociedade civil. A tradução deste modelo, ao nível educativo, passa por um sistema de ensino descentralizado e por uma escola (comunidade educativa) com um grau de autonomia suficiente para definir e implementar o seu próprio Projecto Educativo”. A sua relação com a autonomia, a direcção, a participação e a comunidade educativa é, em data posterior, realçada por Formosinho (Prefácio. in: COSTA, 1991, p. 5), que entende o projecto educativo como um “instrumento organizacional de expressão da vontade colectiva desta escola-comunidade educativa, é um documento que dá um sentido útil à participação, é a corporização operativa da autonomia da escola comunidade”. Neste sentido, o Projecto Educativo de Escola é, no dizer de Costa (Op. cit., p. 10), um “documento de carácter pedagógico que, elaborado com a participação da comunidade educativa, estabelece a identidade própria de cada escola através da adequação do quadro legal em vigor à sua situação concreta, apresenta o modelo geral de organização e os objectivos pretendidos pela instituição e, enquanto instrumento de gestão, é ponto de referência orientador na coerência e unidade da acção educativa”, elaborado de acordo com o ideário da escola, o plano anual e o regulamento interno (Op. cit., p. 20) e seguindo um conjunto de procedimentos, tal como o preconiza o estudo de Costa (1991). Cremos do maior interesse recordar uma outra proposta relativa à importância da pedagogia do projecto, com particular relevância para a de Projecto de Classe. Para Hugon (1992, p. 108, in: ESTRELA, FALCÃO, 1992), este será definido “como o conjunto de práticas pedagógicas organizando situações educativas, concebidas em torno da realização de acções finalizadas por uma produção concreta”, desenvolvido numa lógica de inovação e investigação-acção. De acordo com experiências realizadas na região de Paris, esta autora (Loc. cit.), acrescenta: “ao nível pedagógico, o projecto de classe é globalização do ensino, valorizando o saber-fazer, pela multiplicação das prática. É a aquisição de utensílios à medida de situações verdadeiras… Ao nível social, é uma noção que abre a escola para um outro tipo de relações: o estatuto da criança modifica-se. Activa, torna-se parceira dos adultos e implicada nas aprendizagens.” E que dizer da sua aplicação perante a diversidade de contextos e de públicos que caracterizam o nosso sistema educativo, sobretudo em certas áreas residenciais na periferia de grandes centros urbanos? 22 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos De acordo com a legislação que consagra o “Regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário” (Dec.-Lei nº 115-A/98, de 4 de Maio – artº 3), o “projecto educativo” é o “documento que consagra a orientação educativa da escola, elaborado e aprovado pelos seus órgãos de administração e gestão para um horizonte de três anos, no qual se explicitam os princípios, os valores, as metas e as estratégias segundo os quais a escola se propõe cumprir a sua função educativa”. Tendo em conta o avanço de estudos sobre este tema, recordamos que, no domínio científico, um projecto de investigação é a “descrição de uma pesquisa a realizar e dos meios necessários à sua realização” (LANDSHEERE, 1979, p. 217), a qual deve contemplar os aspectos seguintes: “1. problema; 2. como a solução do problema poderá contribuir para o progresso da teoria ou da prática pedagógica (objectivos gerais e objectivos específicos); 3. hipóteses de solução; 4. definição dos principais termos utilizados; 5. primeira síntese da literatura; 6. etapas de observação ou da experiência: a) o que se fará e como (plano experimental…); b) que dados se pretende reunir; c) como serão registados; d) como serão validados; e) como serão analisados; 7. calendário de trabalho; 8. necessidades de pessoal e de material; 9. orçamento.” O sentido, amplo, da noção de projecto e a sua aplicação em diferentes contextos organizacionais, escolas, empresas, associações e outras entidades, permite apresentar uma outra definição de projecto (NOCE, PARADOWSKI, 2005, p. 14): “um projecto consiste numa acção específica que permite estruturar metodológica e progressivamente uma realidade futura. Um projecto permite elaborar uma resposta às necessidades de um utilizador; de um cliente ou de uma clientela e implica um objectivo e acções a realizar com base num conjunto de recursos”. Se tivermos ainda em conta a oportunidade do lançamento de projectos que tenham como referência as necessidades básicas do indivíduo (saúde, educação, emprego e condições de vida) (SERRANO, 2000, p. 21), então podemos falar em “pojecto social”, direccionado para um grupo ou para uma organização ou instituição social, mas confinados, sempre, a uma área territorial. Em suma, de acordo com Costa (2006, p. 89-90), o desenvolvimento de projectos educacionais obedece a metodologias específicas, que podem dar origem a projectos de natureza distinta, tais como: “Projectos educativos locais – situados, fundamentalmente, no âmbito de actuação da administração autárquica, designadamente a municipal, desenvolvidos sob a sua coordenação e supervisão, traduzem-se em propostas de desenvolvimento educativo de uma colectividade local, na base das quais se deverão construir as cartas educativas municipais (…). Jorge Carvalho Arroteia 23 Projectos de desenvolvimento local e intervenção comunitária – trata-se de projectos que dirigem a sua atenção para as comunidades locais e para as suas potencialidades de desenvolvimento, identificando problemas comuns, construindo colectivamente as soluções e os modos de realização através da mobilização dos recursos e vontades locais (…). Projectos de formação – associados inicialmente aos programas de alfabetização, os projectos de formação e educação de adultos abarcam hoje também outros domínios, como os da formação contínua, da formação e do reconhecimento de competências, da requalificação e reconversão profissional (e mesmo do ensino profissional) – ou seja, da chamada educação permanente e formação ao longo da vida (…)”. Na apresentação deste tema, podemos ainda evocar Serrano (2000, Introdução), que, a propósito das características da sociedade actual e da mudança que a identifica, nomeadamente as de natureza científica, técnica, e, sobretudo, educacional, considera que os projectos de natureza social ajudam o homem a “tomar consciência dos seus próprios problemas”, podendo contribuir, desta forma, “para a transformação e humanização da sociedade” (Op. cit., 19). Para tanto, aponta como exemplo o desenvolvimento de projectos sociais, com o intuito de melhorar uma determinada realidade social na qual florescem situações que importa remediar. Pelo seu interesse, transcrevemos a definição que esta autora apresenta de “projecto social” – orientado para um grupo social, uma instituição ou uma unidade territorial – bem como as fases que importa considerar na sua realização (Op. cit., p. 20-21): “o projecto é um plano de trabalho com carácter de proposta que concretiza os elementos necessários para conseguir os objectivos desejados. Tem como missão prever, orientar e preparar o caminho para o que se vai desenvolver. Todo o projecto compreende: · uma descrição do que se quer alcançar, indicando com precisão a sua finalidade; · uma adaptação do projecto às características do ambiente e às pessoas que o vão desenvolver; · dados e informações técnicas para o melhor desenvolvimento do projecto, assim como os instrumentos de recolha de dados; · os recursos mínimos indispensáveis à sua aplicação; · uma calendarização precisa do desenvolvimento do projecto. Estas são algumas das questões que se prendem com o desenvolvimento de diferentes tipos de iniciativas, relacionadas com os problemas sociais contemporâneos, que convivem com a instituição escolar, a qual tem uma palavra a dizer relativamente ao seu desempenho pedagógico e à relação com a comunidade. Administração Em sentido amplo, a “administração” tem uma função específica, que é a de assegurar o cumprimento das políticas definidas pelo Governo. Tal conceito está ligado ao exercício da direcção, da gestão ou da governação, sobretudo de natureza pública. Assim, para Birou (1978, p. 23), a “administração” é a “actividade que consiste em gerir e em fazer funcionar instituições, empresas ou qualquer organização económica e social”, pública ou privada. Por sua vez, Sumpf e Hugues (1973, p. 11) falam-nos de “administração” como o “conjunto de relações sociais estabelecidas num grupo (…), relativas à prossecução de uma produtividade mais racional, porque assenta num conjunto de decisões e na harmonização das motivações de todos os membros do grupo”. Entendida, ainda, como “a ciência e a arte de planejar, organizar, dirigir e controlar os empreendimentos humanos” (SANTOS, 1964, p. 16), a administração prevê o exercício de um conjunto de tarefas e de funções que permitem a consecução dos grandes objectivos a atingir por qualquer empresa ou grupo organizado. Trata-se, portanto, de um processo que engloba diversas fases e funções, que têm acompanhado a evolução das actividades laborais e de produção, relacionadas com o crescimento da indústria e da própria sociedade. Deste modo, constatamos a existência de etapas decisivas que facilitaram o seu desenvolvimento e que levaram à racionalização da actividade humana no seio das organizações sociais, públicas e privadas. Assim aconteceu, primeiramente, com a revolução industrial e a mecanização que permitiu aumentar a produtividade manufactureira e a produção nas grandes unidades laborais. Os principais escritos relativos à “teoria da administração” surgiram no início do século XX, quando o engenheiro de empresas, Frederick W. Taylor, publicou, em 1911, um trabalho relativo aos “Princípios da administração moderna”, ainda hoje aplicáveis à actividade humana. Dando ênfase às tarefas e pensando, sobretudo, no aumento da produtividade e na realização dos trabalhos rotineiros dentro da empresa, pela adaptação e treino do operário ao trabalho que deve executar, Taylor assinalou alguns princípios fundamentais que, ainda hoje, se aplicam às organizações modernas (BENÍTEZ, 1986, p. 26). Destes, destacamos: · “cada actividade laboral deve ser estudada de modo a definir-se a melhor maneira de a realizar. Uma vez definida essa actividade, devem ser dadas a cada trabalhador instruções escritas quanto ao modo de fazer o seu trabalho; · (…) cada trabalhador deve ser seleccionado com base em critérios objectivos de forma a atingir uma maior eficiência. Na fase seguinte deve garantir-se um aperfeiçoamento específico e um aperfeiçoamento contínuo; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 26 · · (…) é necessário um sistema de controlo a fim de garantir que toda a actividade seja realizada de acordo com o plano previamente estabelecido; (…) deve haver uma separação nítida entre planeamento e execução. A elaboração do plano cabe à direcção e a sua execução ao trabalhador”. Alguns anos mais tarde, em 1916, um outro engenheiro, Henry Fayol, num trabalho sobre “Administração industrial e geral”, defendeu que “em todas as organizações existe uma série de funções de cuja inter-relação e eficácia depende o êxito de qualquer instituição” (Op. cit., p. 27). Contrariamente à anterior, conhecida pela “teoria da administração científica do trabalho” (ou do “homem-máquina”), a “teoria clássica” de Fayol passou a dar maior atenção à estrutura organizacional das empresas, assinalando como funções essenciais da administração as seguintes: técnicas, relativas à produção de bens e serviços; comerciais, destinadas à compra e venda de matérias; financeiras, relacionadas com a gestão de capitais; segurança, abarcando a protecção de pessoas e bens; contabilísticas, relacionadas com a contabilidade da empresa; e administrativas. O exercício desta última função engloba as seguintes fases: planeamento, organização, direcção, coordenação e controlo. Estas tarefas devem integrar as diferentes fases que assinalam a administração, nomeadamente a administração educacional, que prossegue um determinado número de fins e de objectivos específicos. Note-se que a administração dos sistemas de ensino, pela diversidade de estruturas que a compõem e extensão territorial onde é exercida, deve ser igualmente encarada como uma vasta ‘organização’, dominada por estruturas, centralizadas ou não, mas sujeitas à aplicação de princípios reconhecidos como indispensáveis à boa gestão. Destacamos dentre eles: divisão do trabalho, autoridade e responsabilidade, disciplina, unidade de comando e de direcção, subordinação dos interesses individuais aos colectivos, centralização, hierarquia, ordem, equidade e estabilidade (COSTA, 1996, p. 29). Devido à evolução das tarefas e das próprias organizações sociais, hoje em dia as funções relativas à administração das organizações sociais têm vindo a aumentar, contando actualmente o management empresarial com novas funções. Destas, destacamos: previsão; planificação (que compreende várias fases no seu processo, desde a recolha de dados à definição de objectivos e à elaboração de planos e de programas); organização; direcção e coordenação; motivação; comunicação; avaliação (GHILARDI, SPALLAROSSA, 1989). Convirá recordar que o desenvolvimento das sociedades industriais e a especialização crescente das funções e das organizações sociais sugeriram novas propostas relativas ao modo de condução racional dessas actividades e ao aparecimento de novos contributos teóricos. Dentro destes, destacamos a abordagem sugerida por Max Weber (CRUZ, 1989), que, no enunciado da “teoria burocrática”, chama a atenção para a necessidade da racionalização das actividades económicas e sociais, através da criação de órgãos especializados, dotados de autoridade legal e racional. O poder exercido por esses órgãos privilegia a hierarquização, bem definida (pela dependência dos cargos e não das pessoas, como sucedia no caso da submissão tradicional e carismática), e a divisão do trabalho social, com base numa especialização funcional, através da departamentalização. Igualmente necessários são o ingresso e a progressão na carreira, assentes na competência técnica e não noutros privilégios sociais, tais como relações familiares, amizades ou o carisma pessoal. Tais procedimentos são legitimados por regras Jorge Carvalho Arroteia 27 formais, que definem, com precisão, os direitos e deveres de cada trabalhador, garantindo, assim, a objectividade e as relações impessoais entre os diferentes membros da organização. Uma das características do aparelho administrativo construído de acordo com este modelo é, segundo Fernandes (1992, p. 36), “o sistema de normas exaustivamente definidas e a estrutura de relações hierárquicas entre os diferentes níveis da organização é para Weber o meio adequado para assegurar a coordenação eficaz da acção societária que a elite dirigente pretende exercer sobre toda a sociedade”. Além destas, a existência de vínculos administrativos, impedindo a proeminência dos direitos pessoais, devem apontar para o cumprimento de grandes objectivos comuns que orientam as organizações burocráticas. Por outro lado, a previsibilidade do seu funcionamento constitui uma das últimas características destas organizações que reservam para o centro delas a responsabilidade da decisão, da inovação e da coordenação de toda a actividade e informação, respeitante ao seu conjunto. A falência dos procedimentos relativos às teorias já referidas, – principalmente em relação à ‘teoria burocrática’, que se revelou sede de inúmeras disfunções relacionadas com a despersonalização, o formalismo, a rotina e a resistência à mudança –, centradas, essencialmente, na estrutura e no funcionamento das organizações sociais, acabou por mostrar, ainda durante os anos trinta do século passado, a necessidade de se repensar o seu funcionamento, dando maior ênfase às pessoas que as servem. Para tanto, contribuíram as experiências efectuadas, na Western Electric (estudos de Hawthorne), por Elthon Mayo (em 1942), que mostraram como “a conduta do trabalhador não depende tanto da sua personalidade, mas sim do grupo laboral onde se insere”. Por outro lado, realçaram “a importância da comunicação como elemento fundamental para evitar os conflitos nas organizações” (BENÍTEZ, 1986, p. 27). Esta postura favorece a compreensão das necessidades sociais dos trabalhadores, a motivação, o comportamento em grupo e a satisfação profissional das necessidades humanas (das fisiológicas às de auto-realização), podendo trazer um acréscimo da produtividade por parte dos elementos de qualquer empresa. Por sua vez, as propostas contidas na “teoria das relações humanas” de Elthon Mayo foram enriquecidas com o enunciado de novos contributos relativos ao comportamento organizacional, dando ainda maior ênfase às pessoas. Referimo-nos à análise comportamental representada pelas “Teorias do X e do Y” de Douglas Mac Gregor. Assinalou Mac Gregor (“Teoria do X”) a grande repugnância do ser humano pelo trabalho e mudança, o desinteresse em assumir responsabilidades de direcção e de procurar acima de tudo a segurança, pouco lhe interessando, dado o seu carácter egoísta e ambição reduzida, os objectivos da organização. Estes pressupostos serviram ao autor para procurar justificar, através de outro enunciado, a “Teoria do Y”, a integração do homem nas organizações, a sua motivação e interesses. Novamente de Benítez (Op. cit., p. 28), transcrevemos alguns dos princípios básicos desta última teoria: · “o trabalho é tão importante para o homem como o jogo, a diversão ou o descanso. Segundo circunstâncias que podem variar, o trabalho pode constituir uma fonte de satisfação (caso em que o fará voluntariamente) ou um castigo (caso em que o evitará); · o controlo e as sanções não são os únicos meios para que o homem prossiga os fins da organização. A satisfação induzida pelas características da personalidade (…) são um estímulo para a actividade laboral; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 28 · · a capacidade de imaginação, de engenho e de espírito criativo existem em grande número de indivíduos. Se o homem encontra as condições adequadas para desenvolver estas capacidades então não só as reunirá como tentará assumir a sua responsabilidade; no estado actual das organizações, a capacidade intelectual do ser humano só é utilizada parcialmente”. Como já notámos, a evolução das organizações sociais, na actualidade, tem vindo a sugerir novas pistas para a sua interpretação e análise. Por isso, diversos contributos têm surgido nos últimos anos, relacionados com a vida das sociedades e com a sua complexificação actual. Entre as novas propostas, salientamos a “teoria sistémica,” que considera a administração como um “sistema” de variáveis múltiplas e dinâmicas, como um todo dinâmico, que tem em conta os diferentes elementos da organização, como um todo de partes interligadas, relacionadas entre si e orientadas para os mesmos objectivos. Tal perspectiva, não sendo inovadora no domínio do estudo das organizações sociais, contempla igualmente as relações entre estas e o seu meio envolvente e a sua modificação através de mecanismos complexos de auto-regulação. Tal acontece, principalmente, com os “sistemas abertos”, conhecidos pela sua capacidade de adaptação e de reacção ao meio – “retroacção” – que permite a adaptação contínua do produto final às necessidades do próprio meio, a continuidade e a sobrevivência das organizações sociais. Caso assim não se verifique, predomina a certeza, a previsibilidade, o planeamento e o controlo cerrados, característicos dos “sistemas fechados” e das teorias ‘clássica’ e ‘burocrática’ da administração. A exposição destes aspectos referentes à teoria geral da administração não esgota o enunciado de outros pressupostos, nomeadamente a “teoria da contingência”, que defende não existirem “normas ideais” para dirigir as organizações sociais, já que estas dependem, essencialmente, de factores contextuais. Se aplicadas à administração educacional, podemos referir novas abordagens teóricas, tais como as “teorias da anarquia”, da “democracia”, da “arena política” e outras. No seu conjunto, estas sugerem-nos a necessidade de uma análise mais aprofundada da escola e das suas imagens organizacionais. Trata-se, aliás, de assunto desenvolvido por outros autores, nomeadamente por Costa (1996). A apresentação acima descrita não esconde a existência de novos atributos que devem caracterizar a administração no seu conjunto, sobretudo se esta for entendida numa perspectiva mais dinâmica e inovadora. Neste caso, a administração pode revestir os seguintes atributos: · dinâmica: permeável a mudanças internas dentro da organização e a um melhor aproveitamento dos seus recursos humanos; · inovadora: facilitadora dessas mudanças; · eficaz: garantindo os melhores resultados face ao planeamento realizado; · estável e duradoura: funcionando independentemente das flutuações políticas; · participativa: fomentando o envolvimento de todos os actores sociais afectados pelas medidas de política educativa. Tendo em conta o processo de crescimento económico e social das sociedades industriais, estas têm vindo a registar um aumento crescente do sector público, devido à oferta acrescida de bens e serviços que acompanham o bem-estar e o progresso social. Esta situação tem Jorge Carvalho Arroteia 29 levado ao aumento crescente das despesas públicas, isoladamente e na sua relação com o PIB, conduzindo, por isso, a uma maior racionalidade da “teia burocrática do Estado” e a uma gestão mais cuidada e responsável dos seus agentes. Direcção A direcção, entendida como “a acção de dirigir, consistindo em estabelecer e manter uma linha de actuação determinada”, exige o planeamento, execução e controle de um conjunto de actividades a desempenhar no seio de uma organização social (DACAL, 1986, p. 154). É, ainda, entendida como “um processo aberto e flexível, que pretende harmonizar os recursos e os elementos pessoais com vista a alcançar metas previamente determinadas” (Loc. cit.) e constitui uma das tarefas fundamentais de toda a actividade administrativa. Se aplicada à educação, as actividades relacionadas com a preparação de iniciativas no âmbito da acção e da política educativa exigem o domínio de um conjunto de princípios estruturantes, sobretudo na área da administração pública e da gestão dos recursos humanos. Por outro lado, requer um conhecimento aprofundado da estrutura e da organização do sistema educativo, dos diversos subsistemas que o formam, do universo de instituições que o integram e das pessoas que nele trabalham e frequentam. O cumprimento dos seus princípios directores, a articulação entre os seus órgãos e a comunicação entre os seus elementos constituem a essência do funcionamento deste sistema. Tendo presente o desenvolvimento científico das teorias relacionadas com a organização científica do trabalho, as mudanças de ambientes e a importância crescente dos aspectos atinentes à direcção dos recursos humanos, o conceito de direcção, tal como a referimos, tem vindo a evoluir, cabendo-lhe novas tarefas concernentes à gestão e à liderança das organizações sociais. De facto, partilhando das mesmas responsabilidades de direcção, a gestão e a liderança permitem alcançar os melhores resultados em termos de execução e desempenho, de processos, de participação e de resultados, permitindo transformações profundas no seio das organizações educativas. Motivação O cumprimento das funções clássicas do “management” (empresarial e educacional) deve contemplar a motivação, que constitui um dos factores mais relevantes a assumir pelos comportamentos individuais no seio das organizações. Dacal (1986, p. 306) refere-se à motivação como revestindo “uma componente dinâmica, de estímulo à actividade para objectivos e metas previamente estabelecidas e aceites pelo indivíduo”. Por isso, e sem esquecer a “hierarquia das necessidades” – que, segundo Maslow, poderiam justificar o cumprimento de certas tarefas – ou os trabalhos de Mc Gregor sobre as motivações individuais, entendemos, à semelhança de Ghilardi e Spallarossa (1989, p. 35), que a “participação nas actividades de direcção” constitui um dos factores positivos na motivação do pessoal docente e na prossecução dos objectivos consignados em textos de reforma do sistema educativo. Este facto pressupõe que o sucesso deste passa, necessariamente, pelo envolvimento dos docentes na gestão do sistema educativo e, sobretudo, pela sua motivação em relação às propostas de mudança e das reformas em curso. Sem pretendermos esgotar as funções clássicas do management (empresarial e escolar), recordamos que a motivação constitui 30 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos um dos factores mais relevantes no assumir dos comportamentos individuais no seio das organizações. Reportando-nos à realidade portuguesa, a Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) defende nos seus princípios gerais (artº 43) que a administração e gestão escolares “devem assegurar o pleno respeito pelas regras de democraticidade e de participação que visem a consecução de objectivos pedagógicos e educativos”, auxiliados pelo “job enrichment” do pessoal docente, que, segundo Ghilardi e Spallarossa (Op. cit., p. 35), constitui um terceiro requisito indispensável à motivação do pessoal docente. A leitura de diversas obras e contributos sobre esta matéria expressa orientações distintas que hoje animam os modelos do “management educacional”. Com efeito, se tivermos em conta os aspectos essenciais das teorias clássicas da administração, constatamos não ser possível, em muitos dos seus aspectos, uma aplicação imediata desses princípios à gestão das instituições escolares. Consideremos alguns exemplos. Para Fayol, tido como o “pai do management moderno”, qualquer organização” é considerada como uma máquina construída segundo normas rígidas”, que funciona fora de pressões internas ou externas. Assim entendida, a “rigidez” e o “mecanicismo” constituem as características fundamentais das organizações sociais que funcionam de acordo com os seguintes princípios basilares (Op. cit., p. 24): especialização das incumbências; estandartização do rendimento; unidade de comando e centralização da tomada de decisões. Outras abordagens mais recentes, baseadas na “teoria das relações humanas”, tiveram em consideração o estudo dos “componentes humanos da organização”, do conhecimento do seu comportamento, dos hábitos e das motivações dos trabalhadores. Nesta perspectiva assentam as teorias de Mc Gregor, nas suas relações com a teoria de Maslow (baseada na hierarquia das necessidades humanas). Aqui as necessidades sociais de estima e de auto-realização são apontadas tão importantes como as necessidades primárias de natureza fisiológica e de segurança. Ainda, de acordo com Ghilardi e Spallarossa (Op. cit., p. 25), no âmbito do management educacional qualquer instituição escolar tem de ser entendida como um complexo “sistema aberto”, em condições “de exprimir elevados níveis de interacção com o ambiente”. Por estas razões, a administração educacional surge-nos como uma operação complexa identificada por diversas funções (cf: Fayol, Weber, Mayo, McGregor e outros), sujeitas a interacções várias entre a escola e o seu meio ambiente, como assinalam outros autores como Emery, Trist, Aldrich e outros. Participação A participação é um dos requisitos fundamentais para o bom funcionamento de qualquer organização social, uma vez que implica um envolvimento pessoal no cumprimento dos objectivos e colaboração em tomadas de decisão que dizem respeito ao grupo e aos seus elementos. Em regra, estes estão animados por sentimentos de identificação, de pertença e por laços de solidariedade, levando-os, geralmente, a ajustar os seus comportamentos aos interesses colectivos. Modernamente, a cooperação constitui um dos pressupostos básicos para os modelos de governação em “networks”. Em relação à escola, observa Lima (1991, p. 164) que “a participação é uma das palavras-chave da política educativa depois de 25 de Abril de 1974 (e, de certa forma, já o era antes, Jorge Carvalho Arroteia 31 enquanto reivindicação), omnipresente nos discursos político, normativo e pedagógico”. Esta participação exige o envolvimento de outros públicos em actividades promovidas pela instituição escolar, que não só os seus alunos e docentes, mas também os pais, as autarquias e outras entidades, sendo uma consequência do processo de democratização do ensino e do desenvolvimento de projectos de acção orientados para a participação pública dos pais e da sociedade em geral. Daí o interesse do envolvimento de entidades exteriores à escola nas suas actividades, nos seus órgãos de gestão e em actividades diversas que promovam uma maior proximidade entre a instituição escolar e o seu meio. A mobilização de entidades exteriores à escola permite partilhar diferentes responsabilidades relacionadas com a gestão, a mobilização e o financiamento de actividades inerentes ao ensino, facilitando, por esta via, os resultados conseguidos pela instituição escolar. Tal facto resulta frequentemente da própria alteração das estruturas e da organização do sistema de ensino, levando a uma maior intervenção do poder regional e do poder local em relação aos problemas que afectam a comunidade. Um exemplo desta atitude é a participação dos pais, das autarquias, das associações locais, representadas nos órgãos de gestão da escola, bem como na possibilidade de elaboração de “projectos educativos” próprios, indiciadores da autonomia acrescida das escolas no contexto local da sua actuação. A participação dos cidadãos na vida das instituições democráticas insere-se no estabelecido na CRP. Entre os diferentes órgãos abertos à participação democrática, refere-se o caso do Conselho Nacional de Educação, “com funções consultivas, sem prejuízo das competências próprias dos órgãos de soberania, para efeitos de participação das várias forças sociais, culturais e económicas na procura de consensos alargados relativamente à política educativa (…)”. Por sua vez, a Constituição Europeia consagra no seu artigo I-47 o Princípio da democracia participativa, que permite o estabelecimento, através de canais adequados, do diálogo entre e União e o cidadão. Quanto à administração e gestão dos estabelecimentos de educação e ensino, estes são regidos pelos princípios de “democratização” e de “participação”. A sua condução deve orientar-se por “uma perspectiva de integração comunitária”, prevalecendo os “critérios de natureza pedagógica e científica sobre critérios de natureza administrativa”. Estes aspectos estão definidos não só na Lei de Bases (artº 45), mas também nos documentos reguladores do exercício desta gestão e administração escolar. Assim, de acordo com Sarmento (1997, p. 557), “a construção de uma administração participativa da educação passa pela definição de níveis de responsabilidade e pela construção de dispositivos que assumam o território como nível de administração”, ou seja, a “ultrapassagem de uma lógica predominantemente vertical e compartimentada da administração para uma lógica predominantemente horizontal e integrada, aos diferentes níveis (central, regional, municipal, de ‘território educativo’ e de estabelecimento de ensino)”. A importância da participação dos pais na organização escolar levou Nóvoa (1992, p. 27) a afirmar que “as escolas com melhores resultados são, normalmente, aquelas que conseguem criar condições propícias a uma colaboração das famílias na vida escolar”, uma vez que estes “podem ajudar a motivar e a estimular os seus filhos, associando-se aos esforços dos profissionais do ensino”. Por outro lado, se atendermos à acção educativa, “o grande desafio que se coloca às políticas de educação é o de manter vivas dinâmicas de reforma permanente 32 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos e de ajustamento contínuo, gerindo social e politicamente a instabilidade daí decorrente, ou seja, conquistando a sociedade para a participação nos processos de mudança” (AZEVEDO, 1994, p. 31). Estas são, com efeito, algumas das questões que se levantam à administração dos sistemas sociais e educativos e ao envolvimento da sociedade nos seus processos. Administração educacional A administração do ensino corresponde a uma área específica da administração pública, que incide sobre o sistema educativo, no seu conjunto, e as ofertas de formação das escolas integradas no serviço público. A administração educacional, prosseguindo as finalidades gerais da administração pública, tem natureza própria e métodos específicos que levam ao cumprimento das políticas educativas, pelo que pode ser encarada sob diferentes perspectivas: uma perspectiva funcional, relacionada com o exercício da função administrativa; uma outra, institucional, relacionada com o funcionamento das estruturas e das organizações educativas; outra ainda, mais social, relacionada com as novas funções atribuídas à educação por via da mudança e da dinâmica social, em contextos rurais e urbanos, nacionais e globais. Como afirma Azevedo (1994, p. 181), parafraseando Kant, “há duas invenções humanas que podem ser consideradas mais difíceis do que quaisquer outras – a arte da governação e a arte da educação; e as pessoas ainda se digladiam acerca do seu verdadeiro significado”. De facto, tal como os demais sistemas sociais, o sistema educativo está marcado por uma estrutura complexa, resultado de inúmeras interacções sociais e da acção de diversos condicionalismos (de ordem filosófica, política, histórica, cultural, religiosa e comportamental, agindo isoladamente ou em conjunto). Estes aspectos ganham maior significado se tivermos em conta as funções específicas que este tem sido chamado a desempenhar, tais como a transmissão “às gerações mais jovens das técnicas, dos conhecimentos, dos costumes, dos usos, das crenças e, em geral, do património cultural criado ao longo da história” (DACAL, 1986, IX). Note-se que, para além de agente de socialização, o sistema educativo assume, com outros agentes de socialização, um papel activo nesse processo, estimulando a transmissão do saber e as aprendizagens orientadas, igualmente, para a especialização laboral, característica das sociedades desenvolvidas e com elevada divisão do trabalho. Para além destas responsabilidades, reconhecemos que ao sistema educativo caberá ainda facilitar o desenvolvimento das capacidades de reflexão crítica, tarefa que exige, na sua essência, a assunção de um “modelo democrático” de gestão. Neste caso, os membros das organizações educativas assumem um papel essencial no cumprimento dos objectivos que as instituições escolares se propõem alcançar. Não cabendo, agora, a análise das funções da educação, recordamos, à semelhança de Faure, esse tipo de relação dialéctica que entre ambos se estabelece: o sistema escolar reproduz e contribui, simultaneamente, para a transformação da própria sociedade. Trata-se da “mudança social” decorrente da acumulação e da valorização de conhecimentos que permitem à educação ser considerada como um poderoso “factor residual” desta mudança, promovendo 34 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos o progresso e a formação das gerações vindouras, com recurso aos conhecimentos acumulados pelos seus antepassados. Note-se que esta capacidade de vencer as barreiras sociais, culturais e tecnológicas, abrindo caminho ao avanço da sociedade, depende não só do teor dos conhecimentos transmitidos, mas, acima de tudo, do modelo de organização e funcionamento das estruturas educativas que permitem a acção educativa conducente à mudança. Este é, também, o entendimento de Caillods (1989, p. 26), ao defender a mudança das estruturas educativas como uma das condições fundamentais para a “melhoria institucional” e da qualidade dos sistemas educativos. Como o reconheceu Habermas, o nível de desenvolvimento de uma sociedade depende da “capacidade de aprender permitida pelas instituições”. Assim, entendemos como é útil relacionar a capacidade de inovação dos sistemas sociais com o tipo de organização, a estrutura formal dos sistemas educativos e o modelo da sua administração. De entre outros factores, tal depende, também, da procura social da educação que, de forma constante, tem vindo a modificar os padrões de funcionamento, os modelos de gestão e a eficácia interna e externa dos sistemas educativos. Reconhecemos como a “massificação da escola” trouxe novos problemas (pedagógicos, institucionais e humanos), aos quais, nem sempre de forma satisfatória, a organização e a gestão educacional conseguem responder. Este fenómeno realça o papel da educação na formação dos recursos humanos, como factor de mobilidade e de promoção social, e a acção da escola, “como uma necessidade para responder às necessidades, cada vez mais variadas”, da nossa sociedade, conforme o reconheceu Caillods (Op. cit., p. 11). Recorde-se que a procura de instrução tem alimentado os fluxos escolares, sugerindo a sua importância, quer como um “bem de investimento”, quer como um “bem de consumo”. Nestas circunstâncias, compreendem-se as expectativas que se colocam aos modelos de gestão do sistema escolar, que terão obrigatoriamente de privilegiar, nos seus princípios e fundamentos, uma estreita relação com o meio. Daí que o conhecimento e a participação da sociedade sejam imprescindíveis para que o sistema educativo, como sistema aberto, possa cumprir cabalmente as suas funções. Entre estas, cabe assegurar a participação alargada da população, principalmente da população escolar (docentes e discentes). Reportando-nos à realidade portuguesa, a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 46/86, com as alterações que posteriormente foram introduzidas) defende, nos seus princípios gerais (artº 43), que a administração e gestão do sistema educativo “devem assegurar o pleno respeito pelas regras de democraticidade e de participação que visem a consecução de objectivos pedagógicos e educativos, nomeadamente no domínio da formação social e cívica”. A consulta de outros documentos evidencia orientações distintas, que animam os modelos actuais do “management educacional”. Estes fundamentam-se em diversas teorias da administração, embora não seja possível uma aplicação imediata de todos esses princípios à gestão das instituições escolares. Vejamos alguns exemplos. Para Fayol, considerado como o “pai do management moderno”, qualquer organização “é entendida como uma máquina construída segundo normas rígidas”, funcionando independentemente das pressões internas e externas que sobre ela se exerçam. Daí que a “rigidez” e o “mecanicismo” constituam as características fundamentais das organizações que funcionam de acordo com os seguintes princípios basilares (GHILARDI, SPALLAROSSA, 1989, p. 24): Jorge Carvalho Arroteia · · · 35 especialização das incumbências; estandartização do rendimento; unidade de comando e centralização da tomada de decisões. Mais próximas do modelo que perfilhamos, as abordagens que sustentam a “teoria das relações humanas” desenvolveram-se a partir do estudo das “componentes humanas da organização”, do conhecimento do seu comportamento, dos hábitos e das motivações dos trabalhadores. Nesta perspectiva assentam as teorias de Mc Gregor nas suas relações com a teoria de Maslow (baseada na hierarquia das necessidades humanas). De facto, as necessidades sociais, de estima e de auto-realização são tão importantes como as necessidades primárias de natureza fisiológica e de segurança. Contudo, se aplicadas ao management educacional, qualquer instituição escolar tem de ser entendida como um complexo “sistema aberto”, em condições de exprimir elevados níveis de interacção com o ambiente (Op. cit., p. 25). Nestas circunstâncias, a administração escolar surge como uma operação complexa, identificada com diversas funções (prever, organizar, dirigir, coordenar e controlar, na perspectiva de Fayol, ou já, planificar, organizar, seleccionar, dirigir, coordenar, informar e orçamentar – POSCORB – segundo Gulik e UrwicK), sujeitas a interacções diversas entre as organizações educacionais e o seu meio ambiente. Daí, portanto, que o conhecimento da comunidade onde a escola se insere constitua uma das primeiras condicionantes da decisão estratégica e da orientação global das actividades a desenvolver pela escola. Esta função deverá ser mesmo estimulada pelo Estado, como uma das condições fundamentais para se conseguir o almejado “desenvolvimento endógeno” e a promoção social das diferentes regiões. Com efeito, como nota Tedesco (CAILLODS, 1989, p. 331), “a função do Estado não deverá ser a de impor um modelo cultural determinado mas a de encorajar o recurso a valores e a formas de organização reflectindo um acordo essencial”, reconhecendo-se como essenciais a “solidariedade”, a “criatividade”, a “participação” e a “eficiência”. Anotemos outros ensinamentos relacionados com a teoria sistémica. Se identificarmos as instituições educacionais com uma empresa interessada em manter o maior número de relações com o seu meio ambiente, tal só é efectivado a partir de um processo organizacional que permita uma optimização perfeita dos recursos humanos e materiais, de forma a garantir-se o cumprimento de um conjunto de objectivos comuns da sua população. Assim, a melhoria da qualidade de instrução, a “produtividade educativa” e a própria inovação são objectivos difíceis de alcançar, mesmo com o recurso a sofisticados meios de informação tecnológica, caso as expectativas dos seus agentes não sejam tomadas em consideração. Se aceitarmos como premissa essencial da escola (e dos sistemas de ensino) a promoção do desenvolvimento humano, pensamos, à semelhança do que escreveu Loureiro (1985, p. 19), “que tal mudança é uma questão política e uma questão pedagógica e, por isso, as estratégias respectivas devem ser cumulativamente políticas e pedagógicas”: estratégia política que passará, necessariamente, pela redefinição clara dos objectivos e das metas a atingir pelo sistema educativo português; estratégia pedagógica, assente na melhoria objectiva das condições institucionais e na formação permanente dos agentes educativos, de forma a concretizar-se a tão almejada democratização do ensino, o desenvolvimento humano dos alunos e a promoção do sucesso educativo. Resta-nos inserir uma terceira alternativa, a inclusão de 36 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos uma estratégia administrativa e organizacional, que favoreça a descentralização administrativa e a autonomia institucional, promovendo um maior empenhamento e participação nas tarefas educativas por parte, dos pais, professores e de toda a comunidade. Só assim será possível integrar os diferentes pressupostos da administração educativa e a manutenção das componentes estruturais básicas ao nível quer dos sistemas de decisão, quer do sistema operativo. Recorde-se que o sistema de decisão abarca o planeamento, a informação e o controlo, integrando o sistema operativo a acção de todos os órgãos responsáveis pela realização e execução dos planos e programas e pela gestão dos recursos materiais, humanos, técnicos e económicos que fazem parte da administração central e local. Compreende-se, desta forma, que, ao estabelecer a existência de “estruturas administrativas de âmbito nacional regional autónomo, regional e local” (artº 43 – LBSE), o Estado atribua à administração central funções de natureza distinta (artº 44): “a) concepção, planeamento e definição normativa do sistema educativo, com vista a assegurar o seu sentido de unidade e de adequação aos objectivos de âmbito nacional; b) coordenação global e avaliação, da execução das medidas da política educativa a desenvolver de forma descentralizada ou desconcertada; c) inspecção e tutela, em geral, com vista, designadamente, a garantir a necessária qualidade do ensino; d) definição dos critérios gerais de implantação da rede escolar, da tipologia das escolas e seu apetrechamento, bem como das normas pedagógicas a que deve obedecer a construção de edifícios escolares; e) garantia da qualidade pedagógica e técnica dos vários meios didácticos, incluindo os manuais escolares”. Já “a nível regional, e com o objectivo de integrar, coordenar e acompanhar a actividade educativa, será criada em cada região um departamento regional de educação (…)”. Reduzindo os diversos atributos de forma mais expedita e seguindo uma terminologia proposta por Dacal (1986, XXVIII), são funções próprias da administração educacional: · fixação de objectivos; · planeamento e organização; · informação e controle. A primeira função está ligada à função política de concepção do sistema, tendo embora presente que a determinação daqueles pressupostos está relacionada com as necessidades do sistema social, às quais o poder político deve atender. Esta posição assenta no pressuposto da existência de um paradigma multidimensional, num tipo de abordagem multidisciplinar, que contempla as transformações operadas no sistema educativo nas suas diversas dimensões: humana, sociopolítica, pedagógica e económica. Assim sendo, e tendo presente a prevalência da dimensão humana sobre todas as outras dimensões, encaramos como fundamental a implementação de estratégias educacionais que garantam um adequado desenvolvimento económico, a repartição da riqueza, a promoção das igualdades de acesso e de sucesso educativos, a harmonia entre a quantidade e a qualidade do ensino, a satisfação das necessidades básicas e profissionais à população docente e discente, a adequada inserção das instituições Jorge Carvalho Arroteia 37 escolares no tecido social económico e cultural e a afirmação de um modelo de gestão, humanista e participativo. Este modelo passa pelo cumprimento de uma condição fundamental: a autonomia. A relação entre a administração educacional e o planeamento é, hoje em dia, mais estreita e complementar, dada a mudança social em curso e as necessidades de recursos materiais, humanos e financeiros, justificados pelas exigências, sempre burocráticas, implementadas pelo poder. Por outro lado, a relação entre ambas justifica-se, tendo em conta a maior procura social da educação e o aumento da esperança de vida escolar, a necessidade de uma adequada e justa repartição dos recursos, a transparência da governação e a construção de novos cenários resultantes da evolução da sociedade portuguesa, da sociedade europeia e da marcha dos processos gerais de globalização. Em Portugal, a política da educação é da responsabilidade dos Ministérios da Educação – que integra os serviços centrais e as direcções regionais de educação – e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior. Nas Regiões Autónomas, é da responsabilidade dos Governos Regionais. De acordo com a LBSE (artº 45), “a direcção de cada estabelecimento ou grupo de estabelecimentos dos ensinos básico e secundário é assegurada por órgãos próprios, para os quais são democraticamente eleitos os representantes dos professores, alunos e pessoal não docente (…)”. Por sua vez, de acordo com a legislação relativa ao “regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário” (Dec-Lei nº 115-A/98, de 4 de Maio – artº 7), são órgãos próprios de administração e de gestão das escolas – ensino não superior (ME): · Assembleia: órgão responsável pela definição das linhas orientadoras da actividade da escola (com a participação e representação da comunidade educativa); · Conselho executivo ou director: órgão de administração e gestão da escola nas áreas pedagógica, cultural, administrativa e financeira. · Conselho pedagógico: órgão de coordenação e orientação educativa da escola, nos domínios pedagógico e didáctico, da orientação e acompanhamento dos alunos e da formação inicial e contínua dos professores e funcionários; · Conselho Administrativo: órgão deliberativo em matéria administrativa e financeira. A estes compete respeitar os princípios orientadores da administração das escolas (artº 4 – Dec.-Lei nº 115-A/98): · democraticidade e participação de todos os intervenientes no processo educativo (…); · primado de critérios de natureza pedagógica e científica sobre critérios de natureza administrativa; · representatividade dos órgãos de administração e gestão da escola (…); · responsabilização do Estado e dos diversos intervenientes no processo educativo; · estabilidade e eficiência da gestão escolar (…); · transparência dos actos de administração e gestão”. O cumprimento destes princípios aplica-se à administração educativa e ao exercício da sua autonomia, na qual o “regulamento interno” tem um papel fundamental. De facto, este estabelece (artº 3 – Dec.-Lei nº 115-A/98) “o regime de funcionamento da escola, de cada um 38 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos dos seus órgãos de administração e gestão, das estruturas de orientação e dos serviços de apoio educativo, bem como os direitos e os deveres dos membros da comunidade escolar”. Análise social da educação A análise social da educação abarca o conjunto de procedimentos de natureza científica que permitem conhecer as relações entre os fenómenos educacionais e os fenómenos de natureza social, isoladamente, e nas suas relações com o sistema educativo. Este tipo de análise pressupõe a identificação dos fenómenos em estudo, a sua interpretação, compreensão e explicação, com base em metodologias específicas carreadas das diversas Ciências Sociais, em particular da Sociologia, da Demografia, da Economia, da Antropologia ou da Geografia Social. Assim, o mesmo fenómeno social e educacional, tal como o (in)sucesso dos alunos, pode ser abordado de forma distinta, consoante a ciência que o retrata: interessa à sociologia, nas suas relações com o meio e o grupo social; à administração, na análise das estruturas que o enquadram; à psicologia, nos aspectos individuais e comportamentais do aluno; à demografia, na análise quantitativa do mesmo; à economia, no que respeita aos custos; à geografia da educação, na análise da sua distribuição territorial, em relação às características da sociedade. Se entendermos a educação como um fenómeno que deve atender às “necessidades sociais”, a análise social da educação deve ocupar-se da compreensão dos fenómenos educativos, entendidos aqui como o “conjunto de práticas, de modos de procedimento, de costumes que constituem fenómenos perfeitamente definidos e que têm a mesma natureza que os outros fenómenos sociais” (DURKHEIM, 1980, p. 72). Assim entendida, a análise social da educação debruça-se sobre os fenómenos educativos, segundo perspectivas diferenciadas, consoante a natureza e o objecto de estudo. Esta abordagem permite um entendimento alargado da realidade escolar e social dos fenómenos e das questões fulcrais com que se debatem os sistemas educativos na actualidade. A análise destas questões é concretizada através do recurso a métodos apropriados que garantem a cientificidade desta abordagem, nomeadamente através da conceptualização dos fenómenos em apreço, da selecção e crítica das fontes, do processo de recolha dos dados, do tratamento da respectiva informação, da divulgação dos resultados e dos processos de avaliação do estudo. Tal como apontam Pires, Fernandes e Formosinho (1991, p. 32), a análise social da educação está fundamentada na sua génese, exercício e objectivos, uma vez que esta “aparece como tendo a sua origem na sociedade ou num grupo social (e não apenas na vontade individual de cada membro); é uma acção exercida por várias pessoas e tem por objectivo responder a necessidades ou projectos sociais (e não apenas a necessidades ou projectos individuais)”. Mais, ainda, “a educação é uma acção global, visando a formação e desenvolvimento total do homem e não apenas um aspecto parcelar”. 40 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos O aprofundamento de estudos nesta área não desmerece o aprofundamento de outras abordagens, sobretudo no âmbito da Sociologia da Educação, cujas preocupações, de acordo com Morrish (1979, p. 29-30), incidem na “análise dos processos sociológicos implicados nas instituições educativas” (…), “na investigação dos aspectos sociológicos dos fenómenos e instituições docentes, considerados essencialmente como problemas de natureza sociológica, mais do que da prática educativa”. Se pretendermos inserir a natureza destes trabalhos numa perspectiva mais ampla, relacionada com as tarefas a desempenhar por um sociólogo (de acordo com o Departamento do Trabalho dos EUA), então podemos aceitar, como base da sua intervenção, a definição que Horton e Hunt (1980, p. 30) registam sobre o seu desempenho: “desempenha pesquisa sobre a origem e o desenvolvimento de grupos de seres humanos e de padrões de cultura e organização social que surgiram da vida grupal da sociedade; coleta e analisa dados científicos concernentes a fenómenos sociais, minorias étnicas, classes sociais e mudança social (…)”. Aprendizagens escolares A aprendizagem de toda uma vasta gama de conhecimentos básicos, de tradições, de modelos, de normas, de valores, de símbolos e de práticas sociais constitui um processo lento, no qual participamos ao longo da nossa vida através de uma rede complexa de iniciativas, interdependências e influências mútuas que se exercem entre o indivíduo e o meio onde vive. Para tanto, contribui em primeiro lugar a socialização, processo amplo de natureza “psicossocial”, através do qual “se forma a personalidade de base, sob influência do meio e particularmente das instituições educativas, familiares, religiosas, etc.” (BIROU, 1978, p. 380). O processo de aprendizagem que se inicia com o domínio das primeiras letras e a aquisição das regras do comportamento familiar, de práticas sociais, de valores familiares, colectivos e outros, fazem parte do nosso quotidiano e desenvolvem-se ao longo de estádios sucessivos do crescimento humano, sendo auxiliadas por acção de múltiplos factores e agentes que garantem o conhecimento de um número elevado de papéis e de atitudes comportamentais, facilitadoras do processo de integração no nosso meio ambiente. Entre outras definições deste fenómeno, retemos a de Cabanas (1984, p. 145), que define a socialização “como um processo interaccional de aprendizagem social que permite à pessoa humana durante toda a sua vida assumir, interiorizar e integrar na estrutura da sua personalidade as formas e os conteúdos culturais do seu meio ambiente, bem como incorporar-se progressivamente na sociedade na qual há-de viver como membro activo da mesma”. Embora com outro significado, fazem ainda parte deste processo as aprendizagens, os métodos e as técnicas especializadas que se vão desenvolvendo ao longo de vários ciclos de estudos e que permitem uma adequada capacitação profissional, capaz de garantir o exercício de uma actividade, produtiva ou de serviços, no seio das sociedades industrializadas e de serviços em que vivemos. Note-se, ainda, que a especialização laboral, própria das sociedades desenvolvidas e com elevada divisão do trabalho social, realiza-se não só dentro das próprias instituições escolares, mas, fundamentalmente, fora delas, privilegiando a acção de outros agentes, que não só a escola, neste processo de socialização. Tal leque de conhecimentos faz parte da chamada “educação informal” ou “paralela”, cuja relevância nas sociedades Jorge Carvalho Arroteia 41 pós-industriais é por demais evidente, concorrendo, assim, com os processos clássicos de ensino-aprendizagem, assegurados pela escola tradicional. As aprendizagens oficiais são traduzidas em planos de estudos, ou planos curriculares, que contêm os programas específicos de cada disciplina, aprovados oficialmente. Por sua vez, estes são elaborados a partir de um conjunto de teorias e de métodos de ensino, elaborados de acordo com os quadros ético, cultural, filosófico e pedagógico, e de diferentes contextos sociais e políticos que definem o modelo de ensino, em articulação com o modelo de sociedade. Contudo, a expansão da “sociedade de informação”, não só no domínio educacional, mas também na indústria, nos serviços, nas comunicações, etc., oferece, cada vez mais, oportunidades em relação às aprendizagens e às competências desenvolvidas na escola. Tendo em conta o fenómeno actual da mundialização, baseada na comunicação e inovação e a necessidade de novas aprendizagens, transcrevemos de Carnoy (1999, p. 75) o seguinte: “os principais obstáculos à melhoria do ensino na maior parte dos países reside na dificuldade de definir as melhores práticas na sala de aula e os materiais necessários para a sua aplicação. Em consequência, para que a avaliação tenha um impacto significativo nos resultados escolares do país, estes devem fazer um esforço contínuo para ajudar os professores (e a escola) a melhorarem as práticas na sala de aula”. Por isso, como afirma Azevedo (1998, in: MARQUES et al., p. 9), “o currículo escolar tem de ser profundamente revisto, as políticas públicas de educação devem fazer tudo para evitar o surgimento de novas desigualdades no seio da sociedade de informação, as instituições escolares precisam de ser incentivadas a construir ambientes humanos de ensino e aprendizagem ‘que lhes permitam inovar estruturalmente, além de se poderem equipar tecnologicamente’”. Estas são algumas questões relacionadas com a obsolescência e a perenidade dos saberes escolares e com a necessidade da adopção de novos métodos de ensino que favoreçam uma formação permanente dos cidadãos, a sua motivação e interesse permanente; a oferta de oportunidades e de recursos para que sejam estes a construir, de forma estimulante e diversificada, novos objectivos e conhecimentos baseados na descoberta e na aquisição de outras competências (RODRÍGUEZ, RODRÍGUEZ, 1992). Planos de estudos De acordo com Dacal (1986, p. 337), o plano de estudos consiste num “conjunto ordenado de matérias e disciplinas que devem ser frequentadas num nível do sistema educativo, e cujo aproveitamento dá direito à obtenção de um certificado, título ou diploma de valor académico ou profissional”. Refere, ainda, o mesmo autor (Loc. cit.) que a selecção de matérias a incluir nestes planos é determinada por diversos critérios: · psicológicos (interesses e capacidades do aluno), · sociológicos (necessidades da sociedade), · ideológicos (valores e ideais filosóficos, políticos e religiosos), · científicos (matérias fundamentais no âmbito do conhecimento), · pedagógicos (matérias de maior valor formativo). Tendo presente o estipulado na LBSE (artº 6), relacionado com a universalidade, obrigatoriedade e gratuitidade do ensino básico, bem como nos seus objectivos (artº 7 – LBSE), os planos de 42 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos estudos integram diferentes áreas curriculares disciplinares, áreas curriculares não disciplinares e uma área facultativa. Esta configuração procura assegurar uma educação que favoreça o desenvolvimento “pleno e harmonioso da personalidade” de qualquer indivíduo, em particular da criança, colocando a acção educativa no centro do próprio desenvolvimento humano, e constitui uma das preocupações do nosso sistema educativo. Neste sentido, o sistema educativo organiza-se de acordo com um conjunto de princípios estruturantes, em níveis distintos, cada um deles com fins específicos e uma organização adequada de forma a promover a “permanente acção formativa orientada para favorecer o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade”, como estipula o artº 1, da Lei de Bases do Sistema Educativo Português. Planos curriculares O desenho dos planos curriculares tem em consideração o conceito de ‘curriculum’, entendido por D’Hainaut (1980, p. 21) como sendo “um plano de acção pedagógica muito mais largo que um programa de ensino”, compreendendo não só os “programas para as diferentes matérias, mas também uma definição das finalidades da educação pretendida, uma especificação das actividades de ensino e de aprendizagem (…) e, finalmente, indicações precisas sobre as maneiras como o ensino ou o aluno serão avaliados”. Contudo, como recorda Pardal (1993, p. 14), “um currículo escolar não corresponde a uma mera construção técnica de planos de estudos, de estratégias de aprendizagem e de mecanismos de avaliação. Um currículo escolar é uma construção sócio-pedagógica elaborada por uma estrutura política, assente num conjunto de valores”. De acordo com a LBSE (artº 8), e tendo presente a existência dos três ciclos sequenciais nos quais se divide o nosso sistema de ensino (o ensino básico, o ensino secundário e o ensino superior), o ensino básico (EB) compreende três ciclos sequenciais (artº 8), sendo globalizante e da responsabilidade de um só professor, no 1º ciclo; organizado em “áreas interdisciplinares de formação básica”, no 2º ciclo; e “integrando áreas vocacionais diversificadas”, no 3º ciclo. Destaca-se, no 1º ciclo do EB, o desenvolvimento da linguagem oral, a iniciação e progressivo domínio da leitura e da escrita, das noções essenciais de cálculo, do meio físico e social, das expressões plástica, dramática, musical e motora. No 2º ciclo, salienta-se a formação humanística, artística, física, desportiva, científica e tecnológica, bem como a educação moral e cívica. Já no 3º ciclo, aponta-se para a aquisição sistemática e diferenciada da cultura moderna, nas suas dimensões humanística, literária, artística, física e desportiva, científica e tecnológica. Relativamente a cada um dos ciclos do ensino básico, transcrevem-se as componentes de cada uma das outras áreas curriculares. Quanto ao desenvolvimento curricular, estipula a LBSE (artº 47) que “a organização curricular da educação escolar terá em conta a promoção de uma equilibrada harmonia, nos planos horizontal e vertical, entre os níveis de desenvolvimento físico e motor, cognitivo, afectivo, estético, social e moral dos alunos”. Prossegue com a indicação de que “os planos curriculares do ensino básico incluirão em todos os ciclos e de forma adequada uma área de formação pessoal e social, que pode ter como componentes a educação ecológica, a educação do Jorge Carvalho Arroteia 43 consumidor, a educação familiar, a educação sexual, a prevenção de acidentes, a educação para a saúde, a educação para a participação nas instituições, serviços cívicos e outros do mesmo âmbito”. Quadro 1 1º CEB Área curric.disciplinar Exp. Art. e Fis/Mot. Estudo do Meio Língua Portuguesa Matemática 2ºCEB Línguas, Est. Sociais Líng. Portuguesa Líng. Estr. (F/A/I) Hist., Geog. Port. Área curric. disciplinar Área curric.disciplinar Matemática e Ciências Matemática Área curric.disciplinar Área curric.disciplinar Área curric.disciplinar Área curric.disciplinar Área curric.disciplinar (Facultativa) Áreas curric. não disciplinar E. Artist., Tecnológica Educ. Visual, Tecn. Educ. Musical Educ. Física Área de Projecto Estudo Acompanhado Formação Cívica Form. Pessoal, Social Educ. Moral Relig. Área de Projecto Estudo Acomp. Formação Cívica 3ºCEB Lin. Port., Ling. Est. Líng. Port. LE1; LE2 Ciênc. Hum., Sociais História Geografia Matemática Ciênc. Físicas e Nat. Ciênc. Naturais Físico-Química Educ. Artística Educ. Visual Educ. Tecnolog. Outra Educação Física Int. às TIC (9º ano) Form. Pes., Social Educ. Moral Relig. Área de Projecto Estudo Acomp. Formação Cívica De forma global, a escolaridade básica deverá garantir uma articulação entre os ciclos e obedecer a “uma sequencialidade progressiva, conferindo a cada ciclo a função de completar, aprofundar e alargar o ciclo anterior, numa perspectiva de unidade global do ensino básico”, de acordo com as seguintes particularidades: · “desenvolvimento da linguagem oral e da iniciação e progressivo domínio da leitura e da escrita, das noções (…) de aritmética e do cálculo, do meio físico e social, das expressões plástica, dramática, musical e motora” (1º ciclo); · “a formação humanística, artística, física e desportiva, científica e tecnológica e a educação moral e cívica, visando habilitar os alunos a assimilar e interpretar crítica e criativamente a informação (…)” (2º ciclo); 44 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos · “a aquisição sistemática e diferenciada da cultura moderna, nas suas dimensões humanística, literária, artística, física e desportiva, científica e tecnológica, indispensável ao ingresso na vida activa e ao prosseguimento de estudos, bem como a orientação escolar e profissional que faculte a opção de formação subsequente ou de inserção na vida activa, com respeito pela realização autónoma da pessoa humana” (3º ciclo). No que ao ensino secundário diz respeito, este está organizado (artº 10) “segundo formas diferenciadas, contemplando a existência de cursos predominantemente orientados para a vida activa ou para o prosseguimento de estudos (…)”. Por outro lado, é defendida a “permeabilidade” entre estes cursos, deixando em aberto a possibilidade de uma maior “mobilidade social”, que poderá estar subjacente à estratificação social, orientadora da escolha destas duas vias. Sobre as características do currículo, estipula o artº 47 da LBSE que “os planos curriculares do ensino secundário terão uma estrutura de âmbito nacional, podendo as suas componentes apresentar características de índole regional e local, justificadas nomeadamente pelas condições socioeconómicas e pelas necessidades em pessoal qualificado”. Note-se que, de acordo ainda com o anterior artigo, “a organização curricular da educação escolar terá em conta a promoção de uma equilibrada harmonia, nos planos horizontal e vertical, entre os níveis de desenvolvimento físico e motor, cognitivo, afectivo, estético, social e moral dos alunos”, devendo, por isso, os planos curriculares incluir um leque variado de ensinamentos que favoreçam esta formação. Estas são algumas das preocupações que foram expressas na Lei 46/86, que deverão completar os ensinamentos ministrados no seio de outras instituições, familiares ou educativas, de forma a completar a prossecução dos objectivos sócio-afectivos, referentes à transmissão de valores e modos de comportamento relativos à convivência social e política, às relações interpessoais, aos papéis sociais, à sexualidade, etc. De facto, como recorda Loureiro (1985, p. 23), à escola caberá, fundamentalmente, estruturar-se de forma a assegurar uma orientação das aprendizagens mais no sentido da orientação do “desenvolvimento humano” do que na “transmissão de conteúdos didácticos”, libertando-a, deste modo, da influência da organização social dominante que nela vê, essencialmente, o desenvolvimento da sua função económica e política. Nesta perspectiva e de acordo, ainda, com aquele autor, à escola caberia romper com um certo “determinismo genético”, promovendo a descoberta das aptidões individuais, de forma a transformá-la, directa e primordialmente, num “centro de activação e orientação do desenvolvimento humano”. Prossegue este autor (Op. cit., p. 23-24), afirmando que este processo deverá ser resultado de uma “interacção entre o que cada um é num determinado momento e o seu meio”, tendo embora presente que, apesar de nos caber um papel relevante na modificação do meio, este acaba igualmente por nos transformar. É a hipótese que este autor sustenta, ao nível, sobretudo, da aprendizagem formal, quando afirma: “1º Não há padrões de aprendizagem a priori, porque não pode haver padrões de desenvolvimento (…). 2º Não se pode dizer que alguém não seja capaz de aprender, não possa ser escolarizado, porque a aprendizagem passa a ser não descoberta mas construção de aptidões do desenvolvimento de cada um e todo o ser humano como tal é sujeito de desenvolvimento (…). Jorge Carvalho Arroteia 45 3º O que se aprende não resulta tanto de aptidões específicas para essas aprendizagens como da forma como estas são organizadas (…). 4º As aprendizagens são o meio e o instrumento privilegiados nos quais e pelos quais se processa o desenvolvimento humano (…). 5º (…) as disciplinas, todo o currículo, devem ser organizadas e dadas de modo a constituírem autênticos programas de activação do desenvolvimento humano (desenvolvimento psicológico, social, vocacional, etc.) 6º A aprendizagem tende a ser individualizada ao máximo e o educador será cada vez menos o especialista dum saber para se transformar num especialista do desenvolvimento humano (…). 7º (…) o modelo da escola poderá ser assim um modelo verdadeiramente educativo, e não ser um modelo psicológico, social ou qualquer outro.” Quanto ao ensino superior, os planos curriculares “respeitam a cada uma das instituições de ensino que ministram os respectivos cursos (…)”. De realçar que a conclusão dos níveis anteriores confere o direito à atribuição de um diploma, o mesmo sucedendo com o ensino superior, que, de acordo com a LBSE (artº 13), confere os seguintes diplomas: Bacharel, Licenciado, Mestre e Doutor. No seu conjunto, os respectivos planos curriculares estão organizados de acordo com um conceito de currículo, o qual, segundo Zabalza (1991, p. 12), consiste no “conjunto de pressupostos de partida, das metas que se deseja alcançar e dos passos que se dão para as alcançar”; mais ainda, o currículo consiste no “conjunto de conhecimentos, habilidades, atitudes, etc., que são considerados importantes para serem trabalhados na escola, ano a ano”. À parte de outros considerandos relativos à sequência das aprendizagens e da frequência escolar em períodos correspondentes à duração do ensino básico e ao período de escolaridade obrigatória, hoje em dia há a possibilidade de reconhecimento de alguns cursos ministrados por outras entidades e/ou ministérios (sobretudo na área do emprego), através de programas de “aprendizagem” e de “programas específicos” de formação, com reconhecimento dessas competências às habilitações oficiais atribuídas pelo Ministério da Educação. Mesmo assim, os desafios que se levantam ao desenvolvimento e construção dos curricula escolares têm de ir mais além e atender às mudanças que afectam a nossa sociedade. Assim o reconhece Azevedo (1998, p. 9): “o currículo escolar tem de ser profundamente revisto, as políticas públicas de educação devem fazer tudo para evitar o surgimento de novas desigualdades no seio da sociedade da informação, as instituições escolares precisam de ser incentivadas a construir ambientes humanos de ensino e aprendizagem “que lhes permitam inovar estruturalmente, além de se poderem equipar tecnologicamente”. Sucesso escolar O sucesso escolar pode ser expresso através dos resultados finais de funcionamento do sistema educativo no seu todo, por sub-sistemas, níveis e estabelecimentos de ensino. A nível pessoal, este é uma componente essencial do sucesso humano, pelo que “todo o sistema educativo se deve ordenar intrinsecamente para o sucesso educativo” (PATRÍCIO, 1987, p. 147), Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 46 dado que “todo o insucesso educativo de qualquer educando é, a esta luz, um insucesso do sistema” (Loc. cit.). Se considerarmos o sistema educativo no seu conjunto, o sucesso escolar expressa-se através de um conjunto de indicadores de mobilidade e de aproveitamento, relacionados com a avaliação das aprendizagens dos alunos. No seu conjunto, a apreciação do rendimento dos alunos pode ser analisada segundo diferentes dimensões, dentre as quais Barros (1996, p. 47-68) enumera as seguintes: · de natureza socioeconómica, relacionadas com as disponibilidades económicas dos alunos; · de natureza sociocultural, condicionadas pelo “capital cultural” da população escolar; · de natureza escolar, relacionadas com os mecanismos de avaliação e o rendimento dos alunos. Diversas medidas legislativas têm vindo a ser aprovadas com vista à promoção do sucesso escolar dos alunos. Dentro destas recordamos o Programa Interministerial para a Promoção do Sucesso Educativo – PIPSE – (Decreto-Lei nº 178/71, de 30 de Abril), visando quer a total escolarização no ensino básico quer a promoção do sucesso e da qualidade educativos. Também o Programa Educação Para Todos – PEPT 2000 –, criado por Resolução do Conselho de Ministros, nº 29/92, de 9 de Agosto, retoma os princípios anteriormente expressos, apelando para um maior envolvimento e participação da sociedade. Recursos educacionais O conjunto de meios físicos, humanos, financeiros, e outros, que asseguram o funcionamento dos sistemas de ensino constituem os recursos educacionais. Seguindo uma abordagem sistémica, estes elementos representam os inputs, ou seja, “tudo o que entra no sistema educativo, o que inclui não só recursos materiais e financeiros como também os alunos e professores que pertencem ao sistema” (ME, 1987). Pela sua importância, destaca-se os recursos físicos e financeiros, constituídos pela componente material e orçamental, que permite o funcionamento do sistema de ensino, e os recursos humanos, compostos pelos agentes de ensino, técnicos e funcionários que garantem o seu funcionamento. De acordo com dados do ME-GIASE, o total de docentes, em 2003/04, no Continente, era o seguinte: Quadro 2 Nível/tipo 1º Ciclo 2º Ciclo 3º Ciclo e Secundário Total 37 251 34 754 82 099 Dada a sua natureza e escassez, a gestão dos recursos financeiros exige um conjunto de procedimentos que envolvem a sua utilização eficaz (permitindo os melhores resultados Jorge Carvalho Arroteia 47 com o menor dispêndio destes), racional ou económica, segundo critérios de equidade e de coerência nacional. No seu conjunto, a utilização adequada destes recursos permite que os adultos e os jovens socialmente desfavorecidos possam aceder aos limiares da formação cívica e profissional, contribuindo, desta forma, para a redução das desigualdades sociais impostas pelas “heranças”, individual e geracional, bem como para o incremento da participação cívica dos cidadãos. Tecnologia e educação A mudança social que se tem vindo a verificar na nossa sociedade, decorrente da evolução de uma sociedade industrial para uma outra, de carácter terciário e de serviços, exige, no dizer de Martins (1999, p. 21), que o “sistema de ensino-formação de respostas, quer quanto ao tipo de formação, quer quanto aos conteúdos curriculares, e que o sistema empregador tenham, cada vez mais, de recorrer à reconversão dos seus trabalhadores e a uma formação contínua e de forma permanente”. Estes procedimentos têm vindo a ser alicerçados na construção da “sociedade de informação”, a qual, no dizer, ainda, de Martins ((Loc. cit.), baseado em trabalhos de John Naisbitt (1988), assenta no uso intensivo das tecnologias de informação, as quais “serão, de início, aplicadas às antigas tarefas industriais e, em seguida, darão gradualmente lugar a novas actividades, processos e produtos” (Loc. cit.), entre os quais, o ensino de qualidade, assente, também, na inovação nas comunicações e “na tecnologia de computadores“ (Loc. cit.), responsáveis pelo acelerar do ritmo de mudança. Diversos autores têm vindo a dar o seu contributo na definição de conceitos, na aplicação de técnicas e na divulgação de trabalhos e resultados escolares decorrentes da utilização de diferentes “meios” e “sistemas” de ensino e de aprendizagem. Neste sentido, importa notar que a utilização de tecnologia (ou de diferentes tecnologias) em educação pressupõe a existência de um suporte físico, relacionado com a tecnologia educativa, que permite a utilização de técnicas e de material diverso, susceptíveis de promoverem a eficácia do ensino. Complementarmente a esta há uma outra dimensão, a científica, orientada para a resolução dos problemas da aprendizagem e do ensino. Transcrevemos de um antigo texto do ME-Québec (1982, p. 39) os aspectos positivos relacionados com a sua divulgação: “· aumentar a motivação dos alunos; · faz apelo a aprendizagens anteriores; · fornece novos estímulos de aprendizagem; · activa a resposta do aluno; · permite uma “retroacção” mais rápida; · encoraja uma prática apropriada”. De salientar que a utilização das novas tecnologias na educação (TIC), com vista a favorecer as aprendizagens escolares e a formação profissional ao longo da vida, tem vindo a ser uma das preocupações da grande maioria dos países europeus, da OCDE e outros, que têm vindo a investir grandemente na sua utilização, precoce e universal. Entre os exemplos da sua aplicação, nota-se o recurso crescente da sua utilização não só em sessões de ensino presencial, mas também a divulgação e competitividade do ensino à distância, em cursos de diferente natureza, 48 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos no âmbito da escolarização de base e da formação inicial e contínua de profissionais em diversos sectores e actividades. Tal acontece de acordo com as exigências da sociedade de informação em que os sistemas educativos devem “garantir uma educação relevante e de grande qualidade para todos os estudantes” (SKILBECK, 1998, p. 33), utilização esta integrada “em estratégias educativas mais globalizantes e num vasto quadro de políticas sociais, económicas e culturais coerentes” ((Loc. cit.) e onde os professores têm um papel fundamental a desempenhar. Assim, conclui este autor (Op. cit., p. 48): “não foram os educadores que criaram as novas tecnologias do final do século XX, nem são eles que as controlam, mas têm agora a oportunidade e a responsabilidade de as usar criativamente e de um modo eficiente, no sentido de fortalecer e enriquecer a educação de todos”. Avaliação Em relação aos processo ensino-aprendizagem, a avaliação pedagógica “é um processo sistemático que visa determinar em que medida os objectivos educativos são alcançados pelos alunos” (LANDSHEERE, 1979, p. 111). No que concerne ao processo do planeamento socioeconómico, a avaliação é uma etapa fundamental deste, que permite conhecer não só os resultados do trabalho e dos investimentos realizados, mas também melhorar alguns dos pressupostos e dos procedimentos utilizados. Não sendo um fim em si, a avaliação, se correctamente realizada, permite melhorar o desempenho do sistema, no seu conjunto, e a acção dos seus actores, em particular. De facto, como o reconhecem Estrela e Nóvoa (1992, p. 9), a avaliação tem uma função estruturante do sistema de ensino, “que nunca deixou de estar presente no quotidiano escolar – nomeadamente ao nível da regulação das práticas pedagógicas, das aprendizagens dos alunos e das relações com a comunidade envolvente (…)”. Vejamos o entendimento de outros autores. Para D.L. Stufflebeam et al. (1971), a avaliação consiste num “processo de identificar, obter e proporcionar informação útil e descritiva acerca do valor e mérito das metas, a planificação, a realização e o impacto de um objecto determinado, com o fim de servir de guia para a tomada de decisões, para solucionar os problemas de responsabilidade e promover a compreensão dos fenómenos”. Este entendimento exige o cumprimento de três fases principais, relacionadas com a selecção, a recolha e a divulgação da informação pelas partes interessadas. O modelo de avaliação elaborada por este autor – CIPP (contexto-input-processo-produto) – contempla quatro grandes domínios (MATEO, 2000, p. 143-144): · avaliação do “contexto”, cujos objectivos consistem na “definição do cenário onde se situam os elementos relevantes do contexto”, ou seja, a leitura da realidade circundante; · avaliação do “input”, destinada à recolha de informação “para estabelecer como utilizar adequadamente os recursos existentes com o fim de alcançar os objectivos programados”; · avaliação do “processo”, ou seja, “a análise do desenvolvimento do curriculum e a tomada de decisões relacionadas com o controle e a sua gestão”; · avaliação do “produto”, orientada para a “recolha de informação a fim de comprovar se o produto final obtido com o desenvolvimento do curriculum responde ou não às expectativas nele depositadas”, permitindo a tomada de decisão por parte da administração sobre o programa em curso. Num trabalho mais recente, este autor (STUFFLEBEAM, SHINKFIELD, 1993, p. 19) considera que a avaliação “supõe comparar objectivos e resultados”, utilizando, por isso, diversos 50 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos procedimentos e objectivos que lhe permitam obter uma informação segura e imparcial sobre todo sistema educativo. É este o entendimento de Rodrigues (1992, p. 16), que aponta a abrangência da avaliação, nos seus “mais diversos níveis, aspectos e elementos, como por exemplo: alunos; professores; ensino, métodos e estratégias; meios e materiais; manuais escolares; suportes e documentos de ensino à distância; ciclos de ensino e estruturas educativas; equipamentos e instalações escolares e de formação; estabelecimentos e instituições de ensino; projectos, programas, planos de estudos e currículos; reformas educativas e inovações de toda a ordem; políticas de educação; sistemas educativos globais e seus subsistemas; e até a própria avaliação”. Oportuno será considerar a necessidade de uma constante “referencialização” da prática de avaliação, no sentido que Figari (1992, p. 135) lhe atribui, ou seja, “o conjunto das modalidades que consistem em determinar um contexto e nele delimitar os elementos portadores de sentido, em construir (ou reconstruir) um sistema de referências relativo a um objecto (ou a uma situação) preciso e em relação ao qual se poderão justificar os diagnósticos e as avaliações”. Esta é uma perspectiva que permite ultrapassar o carácter burocrático de muitas das abordagens quantitativas e comparativas da avaliação, permitindo que esta “não se realize em função de um referencial normativo preexistente e fechado, mas antes em função de uma referencialização a construir”. A avaliação prende-se não só com as aprendizagens dos alunos e o desempenho dos docentes, mas também com o funcionamento da instituição escolar. De facto, como assinalam Costa e Ventura (2005, p. 148), “proceder à avaliação de uma organização educativa sem que esse investimento se repercuta na própria instituição – na identificação dos seus constrangimentos, dificuldades e insucessos e em consequentes estratégias de mudança, de melhoria das práticas educativas e de desenvolvimento do bem-estar das pessoas – constituirá certamente uma perda de tempo”. De acordo com estes autores (Op. cit., p. 149), a avaliação institucional da escola (auto-avaliação e desenvolvimento organizacional) repercute-se ao nível das práticas das instituições educativas e na construção de “efectivas comunidades de aprendizagem”. Tendo em conta a LBSE, o seu artº 1 determina que o sistema educativo deve favorecer o “desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade”. Esta perspectiva obriga-nos a uma contínua avaliação dos “aspectos educativos e pedagógicos, psicológicos e sociológicos, organizacionais, económicos e financeiros e, ainda, os de natureza político-administrativa e cultural” (artº 49). Tal situação tem subjacente conhecer o funcionamento e a eficiência interna do sistema, e analisar a sua eficácia. Assim, promover a eficácia do sistema educativo e isoladamente a eficácia das diversas unidades que o constituem, principalmente das escolas, é uma preocupação dos responsáveis da administração educacional, da população docente e da sociedade. A análise de um processo de avaliação prende-se com a utilização de diversos tipos de indicadores. Entre eles destacamos os relacionados com: acesso, equidade, eficiência interna, eficiência externa, eficácia, qualidade, custos e financiamento. No seu conjunto, a utilização da informação recolhida através destes indicadores permite alterar a organização e as condições de funcionamento das organizações sociais e educativas, contribuindo, ainda, para uma melhor acção dos organismos intermédios. De realçar que os resultados da avaliação são fundamentais Jorge Carvalho Arroteia 51 na avaliação das políticas educativas, tanto ao nível macro (relacionados com os resultados das reformas educativas), como ao nível micro (resultados ao nível dos estabelecimentos de ensino). No seu conjunto, o conhecimento destes permite melhorar o funcionamento das instituições, das práticas e modelos de ensino, da organização dos estudos, da formação de recursos, do aproveitamento global dos alunos e das relações entre a escola e a comunidade. Assim se justifica o recurso a alguma da legislação relacionada com a avaliação dos alunos nos diversos subsistemas de ensino. No ensino básico, a legislação de 1992 (Desp. Normativo nº 98-A/92) referia que a “avaliação dos alunos do ensino básico incide sobre o cumprimento dos objectivos gerais de cada um dos ciclos e dos objectivos específicos de cada disciplina ou área disciplinar”, apontando diversas vias de prosseguir as modalidades de avaliação formativa, sumativa, aferida e especializada. Por sua vez, o Despacho Normativo nº 30/2001 estabeleceu novas orientações para a avaliação dos alunos do ensino básico, considerando esta como “elemento integrante e regulador da prática educativa”. De acordo com o preâmbulo deste documento, dá-se ênfase ao carácter formativo da avaliação e à valorização de uma lógica de ciclo. Da legislação publicada na sequência da reforma do ensino secundário e da publicação da LBSE, nos finais da década de oitenta, destaca-se o Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto. Por sua vez, o Despacho Normativo nº 338/93 estabelece as diversas modalidades de “avaliação formativa, sumativa e aferida”, com vista a estimular o sucesso educativo dos alunos, melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem e “certificar os conhecimentos, competências e capacidades dos alunos, quer para efeitos de prosseguimento de estudos, quer para ingresso na vida activa” (Preâmbulo). Mais ainda, estabelece que a avaliação dos alunos do ensino secundário “é um elemento integrante da prática educativa que permite a recolha sistemática de informações e a formação de juízos para a tomada de decisões adequadas às necessidades dos alunos e do sistema educativo”. A acção educativa considera a avaliação dos alunos do subsistema de ensino superior separado dos demais. Em simultâneo, a avaliação recobre não só o desempenho dos alunos, mas também o desempenho dos professores e dos agentes e funcionários do Estado. Neste caso, o processo de avaliação tem em consideração o trabalho desenvolvido e os resultados alcançados dentro das organizações públicas. Quanto à população docente, a avaliação do desempenho está consignada no respectivo Estatuto da Carreira Docente (Dec.-Lei nº 139-A/90, de 28 de Abril). De acordo com o Decreto Regulamentar nº 11/98, de 15 de Maio, “a avaliação do desempenho dos docentes passa (…) a ser encarada como estratégia integrada no modo como as escolas, enquanto instituições dinâmicas e inseridas num sistema mais amplo, desenvolvem e procuram valorizar os seus recursos humanos” (Preâmbulo) de acordo com o estipulado no respectivo Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário. Como exemplo de um programa nacional recente, destaca-se o da avaliação integrada das escolas, desenvolvido pela Inspecção-Geral de Educação (2001). Orientado para os subsistemas de educação de infância, ensino básico e secundário, este programa tinha como objectivos principais: · “valorizar as aprendizagens e a qualidade da experiência escolar dos alunos; · identificar os pontos fortes e fracos do desempenho das escolas; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 52 · · · induzir processos de auto-avaliação nas escolas; recolher informação e caracterizar o desempenho do sistema escolar; regular o funcionamento do sistema escolar”. Avaliação do ensino superior A avaliação do ensino, reconhecida globalmente, em 1986, pela LBSE, só no decurso da década de noventa é que foi regulamentada para o ensino superior através da publicação de legislação específica: Lei nº 38/94 (Lei da Avaliação do Ensino Superior) e Dec. Lei nº 205/98, responsável pela criação do Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior. O desenvolvimento deste processo justificou-se pela expansão do ensino superior (ensino universitário e ensino politécnico) registada em Portugal, sobretudo no decurso das duas últimas décadas, traduzida no acréscimo significativo de alunos e de estabelecimentos de ensino (de natureza pública, particular e cooperativa ou de natureza concordatária). Por isso, como assinalaram Simão, Santos e Costa (2002, p. 243), o processo de avaliação deve ser encarado “em termos sistémicos”, visando reduzir “uma elevada heterogeneidade institucional, em que coexistem instituições e unidades de excelência com casos evidentes de duvidosa qualidade”. Às instituições de ensino superior cabe um papel fundamental na formação dos recursos humanos e de diplomados, nas diferentes áreas do conhecimento, e a sua participação no desenvolvimento da sociedade portuguesa. Para tanto, compete-lhes desempenhar diversas funções, tais como participar na “ressocialização dos saberes”, atribuição que, indo além do seu contributo na formação inicial, obriga estas instituições a responder às necessidades de aperfeiçoamento cultural e profissional da população. Estas actividades circunscrevem-se, prioritariamente, a um determinado contexto geográfico ou território mais próximo, conduzindo à “territorialização da formação”, o que sugere o desenvolvimento destas acções, orientadas preferencialmente para esse contexto, e a atenderem às necessidades do tecido produtivo, incentivando o trabalho e a investigação científica, contribuindo, desta forma, para a “partilha da inovação” que acompanha todo o processo de desenvolvimento. Referem-se os instrumentos fundamentais que estiveram na origem da criação do sistema de avaliação deste subsistema de ensino, em particular a Lei nº 38/94 (“Lei de avaliação do ensino superior”), aplicada às instituições de ensino superior universitário e de ensino superior politécnico, públicas e não públicas. Na sua essência, esta lei estabeleceu as bases do sistema de avaliação e acompanhamento das referidas instituições de ensino superior, tendo presente a relevância da melhoria da qualidade, a informação e o esclarecimento da comunidade educativa e da sociedade portuguesa em geral. Esta Lei definiu serem finalidades da avaliação: “a) Estimular a melhoria da qualidade das actividades desenvolvidas; b) Informar e esclarecer a comunidade educativa e a comunidade portuguesa em geral; c) Assegurar um conhecimento mais rigoroso e um diálogo mais transparente entre as instituições de ensino superior; d) Contribuir para o ordenamento da rede de instituições do ensino superior.” De acordo com esta legislação (artº 3), a avaliação incidiu sobre: “a) O ensino, designadamente as estruturas curriculares, a nível científico, os processos pedagógicos e as suas características inovadoras; Jorge Carvalho Arroteia 53 b) A qualificação dos agentes de ensino; c) A investigação realizada; d) A ligação à comunidade, designadamente através da prestação de serviços e da acção cultural; e) O estado das instalações e do equipamento…; f) Os projectos de cooperação internacional”. Para melhor esclarecimento, transcrevem-se os princípios basilares deste sistema de avaliação (artº 6): “Autonomia e imparcialidade da entidade avaliadora; Participação das instituições avaliadas; Audição de docentes e discentes; Publicidade dos relatórios de avaliação respeitantes a cada instituição, e das respostas dos estabelecimentos avaliados”. De acordo com a referida Lei, a avaliação contemplou um processo de auto-avaliação e um processo de avaliação externa, desenvolvidos por comissões de especialistas de reconhecido mérito. Esta última fase devia conduzir à avaliação global do ensino superior, a “meta-avaliação”. A responsabilidade geral do processo de avaliação e de acompanhamento do ensino superior foi atribuída, nessa data, ao Ministério da Ciência e do Ensino Superior, o qual devia assegurar os princípios de “harmonia”, “coesão” e “credibilidade”. A coordenação da avaliação externa cabe a “entidades representativas” do ensino público e do ensino particular e cooperativo (universitárias e politécnicas), reconhecidas pelo referido Ministério. Note-se que as alterações entretanto registadas, quer ao nível dos sistemas de formação, quer nos sistemas produtivos e de emprego, conduziram a situações de algum desajuste, que se repercutem na funcionalidade interna do ensino superior, bem como na sua eficiência e eficácia. Alguns exemplos negativos desta coerência entre os elementos deste subsistema social e do seu meio estão referidos no emprego desqualificado e no desemprego dos jovens diplomados, facto que contraria muitas das expectativas relativas aos investimentos realizados (pessoais e institucionais), ao funcionamento de algumas instituições e à organização deste subsistema de ensino. Daí a atenção sobre as questões sobre o acesso, as relações entre o ensino superior e a sociedade, a autonomia destas instituições, a formação dos recursos humanos, a qualidade do ensino, a natureza da investigação e a internacionalização do ensino. Neste sentido, o sistema de avaliação e acompanhamento das instituições de ensino superior considerou como relevantes os aspectos relativos à ”procura efectiva dos alunos, o sucesso escolar e os mecanismos de apoio social”, à “ inserção dos diplomados no mercado de trabalho”, bem como os aspectos relativos ao funcionamento e gestão das escolas, nomeadamente no que concerne à “colaboração interdisciplinar, interdepartamental e interinstitucional” e à “eficiência de organização e gestão”. Trata-se de aspectos que confirmam as preocupações sobre a qualidade das instituições de ensino superior, sobre a coerência global do seu funcionamento e dos seus principais componentes, representados no modelo sistémico que subjaz a estas preocupações. 54 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos A legislação anteriormente referida foi completada com a publicação da Lei nº 205/98, que estabeleceu as regras gerais do processo de avaliação e acompanhamento do ensino superior, nomeadamente a constituição das “entidades representativas”, dos “conselhos de avaliação”, criados no seio de cada uma destas entidades, e do “Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior”. Este último foi reconhecido como entidade coordenadora da avaliação a nível nacional e o garante da qualidade e da excelência necessários ao desenvolvimento do processo de avaliação. Como entidades representativas foram aceites: · Fundação das Universidades Portuguesas (para as universidades públicas); · Associação dos Institutos Superiores Politécnicos Portugueses (para o ensino politécnico público); · Associação Portuguesa do Ensino Superior Particular (para as universidades e estabelecimentos de ensino universitário e politécnico de natureza particular). Na sequência desta legislação, foram criados quatro conselhos de avaliação responsáveis pelo processo de avaliação externa das instituições de ensino superior, correspondentes aos subsistemas universitário e politécnico, público e privado, sendo eles: · Conselho de Avaliação do Ensino Universitário Público; · Conselho de Avaliação do Ensino Politécnico Público; · Conselho de Avaliação do Ensino Universitário Privado; · Conselho de Avaliação do Ensino Politécnico Privado. Estes são, com efeito, os aspectos essenciais que identificam o processo de avaliação, que, embora iniciado em 1994 e abrangendo então todas as universidades públicas, foi encerrado em 1999, para dar lugar, a partir de 2000, a um programa vasto e uniforme de avaliação de todas as instituições de ensino superior, universitário e politécnico, públicas e privadas. O ciclo posterior, com a duração de cinco anos, abarcou, em simultâneo com a auto-avaliação institucional, a avaliação externa, no ensino universitário e no ensino politécnico, dos cursos nas diferentes áreas científicas. Esta tarefa envolveu o Conselho Nacional de Avaliação como entidade responsável por todo o processo de avaliação e de acompanhamento das instituições de ensino superior em Portugal. Recorde-se que, sendo a avaliação e o acompanhamento das instituições de ensino superior entendidos como um “elo” da cadeia de melhoria da qualidade do nosso sistema de ensino, nela devem tomar lugar de destaque não só os decisores políticos, mas também os utentes deste sistema (alunos, pais, professores, empregadores e entidades ligadas às ordens e às actividades profissionais). Por isso, foram considerados o contexto, os processos e os resultados, entendidos como factores indispensáveis à melhoria qualitativa do desempenho das instituições avaliadas e à melhoria da qualidade das políticas educativas que informam o nosso sistema social e educativo. Carta escolar “A carta escolar é uma forma de planeamento a nível local, ou seja, um processo dinâmico que, partindo de um diagnóstico detalhado da situação ao nível local e tendo por base os objectivos e as normas fixadas a nível nacional, tem como finalidade a previsão das necessidades futuras em matéria de educação, ao nível local, e propor as medidas necessárias para responder a estas necessidades” (IIPE, 1982, p. 14). O conjunto destas medidas faz parte do planeamento da educação e integra diversas etapas que abarcam: a escolha da metodologia de trabalho; a alocação de meios para a sua realização; a criação de estrutura administrativa responsável pela sua execução a aplicação; e a formação de decisores e de pessoal responsável pela sua gestão. Para além da “carta escolar”, que deve incidir sobre a localização, actual e futura, da rede de estabelecimentos escolares, importa assinalar a existência de demais equipamentos que sirvam de suporte a outras actividades educativas, tais como cursos e programas relacionados com a formação profissional. Neste caso, estamos em presença de uma “carta educativa”, de extensão mais alargada, e que se constitui como um auxiliar do processo de planeamento socioeconómico de âmbito regional ou nacional. Por isso, o traçado desta carta engloba não só os equipamentos escolares, mas também outros equipamentos que permitam a realização de actividades educativas inseridas em programas extra-escolares, de formação profissional, de ensino recorrente e outras iniciativas abertas à sociedade e relacionadas com a educação não formal. Para a sua elaboração, importa conhecer em profundidade a população, as suas características e distribuição, a localização dos equipamentos educativos, bem como as eventuais propostas para a sua instalação, as quais devem ter em conta as densidades demográficas e as áreas de recrutamento dos alunos, uma vez que, para a criação de um novo estabelecimento, é necessário garantir um número mínimo de alunos que se desloquem dentro de uma área geográfica, que não seja demasiado vasta. Da mesma forma, importa integrar no rol destas preocupações a diversidade de outros factores locais que podem contribuir para a melhoria do sistema educativo, em particular as que têm origem nas actividades da população e que permitam a sua participação na construção de um espaço alargado, confinante da escola, designado por “território educativo”. Note-se que a extensão da área de recrutamento dos alunos depende da acessibilidade e do tempo gasto na deslocação, das suas idades, das infra-estruturas de apoio à população escolar e, naturalmente, do tipo de equipamento relacionado com o nível de ensino que estamos a considerar. Nestas circunstâncias, a carta escolar tem sido um dos pilares do processo de “microplaneamento” do ensino, identificado por um conjunto de vantagens em detrimento do 56 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos planeamento central. Neste sentido, tem cabido à carta escolar desempenhar uma função relevante, na medida em que permite: · racionalizar a utilização dos recursos; · facilitar uma maior igualdade de oportunidades em matéria de educação; · facilitar a concretização das reformas do sistema educativo (IIPE, 1982, p. 15). Retemos algumas das etapas que nos permitem elaborar a carta escolar: · “Diagnóstico: análise da oferta actual e identificação dos desequilíbrios existentes no acesso à educação e nas condições do ensino. · Projecção das necessidades de escolarização a nível local, em função do Plano. · Preparação das propostas de modo a assegurar uma igualização das condições de ensino e o respeito por certas normas de utilização dos espaços e dos professores” (Op. cit., p. 16). O traçado da carta escolar deve ter ainda em conta diferentes factores, dentre os quais salientamos: · demográficos, relacionados com as características da população residente na área do seu traçado e na potencial clientela dos estabelecimentos que integram a rede; · pedagógicos, tendo em atenção o tipo de ensino e a sua especialização, a tipologia dos estabelecimentos e a sua ocupação; · geográficos, atendendo sobretudo às acessibilidades, física, económica (custos de funcionamento) e social (tendo em conta a redução das disparidades regionais na escolarização dos alunos ou entre os diferentes grupos sociais); · económicos, relativos aos custos de funcionamento; · políticos, envolvendo aspectos relacionados com a administração do sistema e a autonomia concedida aos diferentes estabelecimentos e agrupamentos que integram a rede escolar. Interessa, ainda, recordar que na elaboração da carta escolar há sempre a interacção dos níveis local, regional e nacional, pelo que a mesma deve ser acompanhada de um processo de regionalização que tenha em conta as “características e as necessidades específicas de cada região” (Op. cit., p. 34) e dos seus habitantes. Destacamos alguns aspectos práticos, relacionados com o traçado da carta escolar. De acordo com o texto de um estudo do GEP (1990a, p. 13), a carta escolar, como “(re)configuração da rede escolar, deverá ser um processo dinâmico, expressão de uma política educativa projectada num determinado horizonte temporal, permanentemente reavaliada e actualizada, no quadro de uma prática de planeamento educativo, desenvolvida de uma forma sistemática e continuada aos diversos níveis da Administração”. Mais ainda, o traçado da carta escolar só é válido se se fizer acompanhar da identificação dos critérios de planeamento, entendidos estes como “as normas orientadoras para a reorganização da rede escolar, norteadas por princípios de diversidade e complementaridade, visando alargar a oferta de tipologias de modo a responder às várias realidades regionais, quer demográficas quer sociais ou outras e articular e associar, numa determinada área territorial, os vários estabelecimentos e outros equipamentos sociais de modo a racionalizar a oferta.” Jorge Carvalho Arroteia 57 Sendo assim, poderíamos ser tentados a pensar que a utilização da carta escolar só terá significado num processo de macroplaneamento da educação e não à escala regional. Recorde-se que o processo do microplaneamento da educação, a nível regional ou local, é um dos processos mais eficazes na implementação de qualquer reforma educativa ou num processo de democratização do sistema educativo, uma vez que facilita a satisfação das necessidades reais em educação, aproximando a oferta da procura. Por esta razão se compreende que esta designação possa vir a ser preterida a favor de uma outra, mais abrangente – a de “mapa educativo –, o qual tenderá a realçar não só “a planificação das actividades exclusivamente escolares, mas também todas as actividades educativas, incluindo os programas extra-escolares de alfabetização, pós-alfabetização, formação profissional, etc”. Por outro lado, a designação de “mapa educativo” contempla a existência de outros espaços educativos, que não só a escola, facto que não deve deixar de ser devidamente encarado na actualidade (IIPE, 1987, p. 48). De acordo com este estudo (Op. cit., p. 50), a utilização da carta escolar permite “realizar ou consolidar a escolarização primária e universal; incrementar o acesso ao ensino secundário; melhorar a qualidade da educação e promover melhores condições de ensino nas escolas sem provocar um forte aumento dos custos, organizar uma rede de centros educativos de ensino técnico e profissional e elaborar o mapa das universidades ou de instituições do ensino superior.” Importa assinalar a importância do “mapa educativo”, quer na racionalização e utilização dos recursos existentes, quer na redução das disparidades e na promoção das igualdades de acesso aos equipamentos educativos. Sendo assim, o traçado de qualquer “mapa educativo” deve contemplar não só os aspectos geográficos, relacionados, sobretudo, com a acessibilidade e o traçado das áreas de influência, mas também com os factores demográficos que atendem, nestas circunstâncias, à distribuição da população residente, à sua composição e estrutura, aos movimentos natural e migratório, bem como às projecções futuras da população residente. Para além destes factores e da consideração dos aspectos de natureza política e ocupacional que condicionam a localização de um qualquer equipamento educativo – sobretudo quando relacionado com a estrutura da mão-de-obra local e as actividades económicas dominantes –, o traçado da carta escolar obedece, ainda, a diversos critérios, sobretudo de natureza pedagógica, ligados à organização e à distribuição do serviço docente, à utilização dos espaços educativos, à qualidade e eficácia do sistema educativo. De facto, como refere Barroso (1990, p. 81), o estudo do “espaço escolar” constitui um dos factores de relevo na explicação do rendimento dos alunos e da eficácia e qualidade do ensino. Daí que, para além do estudo da organização do estabelecimento de ensino e da estrutura social da sua população, a leitura pedagógica do espaço escolar, “nas implicações das diferentes soluções arquitectónicas na realização do processo educativo,” permite realçar diversas áreas temáticas que podem ser valorizadas no traçado da carta escolar. Como instrumento auxiliar do planeamento e tendo em conta a quantidade de elementos que reúne, o traçado desta carta revela-se, portanto, do maior interesse, uma vez que permite: “racionalizar a utilização dos recursos; facilitar uma maior igualdade de oportunidades em matéria de educação; facilitar a concretização de reformas do sistema educativo (IIPE, 1982, p. 15). Estas funções da carta escolar permitem, por um lado, um melhor aproveitamento 58 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos dos recursos disponíveis e, por outro, facilitam ainda a análise detalhada das diferenças do desenvolvimento da educação entre as diversas unidades territoriais ou eventualmente entre os grupos sociais, promovendo um desenvolvimento mais harmónico do sistema educativo. Desta forma, a carta escolar torna-se não só num poderoso instrumento do processo de planeamento, mas também da política educativa, uma vez que, promovendo o melhor conhecimento das regiões e dos seus resultados, facilita as tomadas de decisão do poder central, favorecendo, por sua vez, uma “maior participação dos funcionários regionais e locais (…) no processo do planeamento da educação” (Op. cit., p. 13). Compreende-se, assim, que a sua validade será reforçada se esta se associar ao processo de regionalização do território, o qual, ao atender às características específicas de cada região, permite uma melhor articulação entre os níveis local e central e uma gestão mais correcta do sistema de ensino. Como referiu Chau (1969, p. 44), a elaboração deste documento “não deve ser uma construção puramente teórica”, devendo, por isso, atender às características dominantes da distribuição da população e às áreas de recrutamento dos alunos, utilizando, portanto, outros critérios, como o da acessibilidade, da tipologia dos equipamentos educativos e dos limiares da população, que condicionam a configuração genérica da rede e a gestão de todos os seus recursos. Completamos as referências sobre a carta escolar com a indicação das etapas e dos factores a considerar na elaboração deste documento. De acordo com o IIPE (1982, p. 16), a elaboração da carta escolar, compreende três etapas distintas: · diagnóstico da oferta actual e identificação dos desequilíbrios existentes; · projecção das necessidades de escolarização, a nível do ensino obrigatório e pós-obrigatório; · preparação das propostas da carta prospectiva. Quanto aos factores a ter em consideração, para além dos de ordem demográfica, os quais devem atender, sobretudo, aos movimentos da população, e aos de ordem geográfica, os quais, como referimos, devem ter sobretudo em conta a acessibilidade aos estabelecimentos de ensino, deve atentar-se ainda nos custos financeiros (factor económico), nas disparidades regionais de escolarização, nas disparidades entre os grupos sociais ou na resistência à escolarização (factores sociais). Embora referidos em último lugar, mas devendo ser considerados como prioritários, os factores de ordem pedagógica, relacionados, por exemplo, com a carga horária, os horários da população docente e discente, o grau de ocupação do estabelecimento, entre outros, são aspectos relevantes a ter em consideração neste processo complexo e no cumprimento de todos os objectivos que facilitem a democratização do ensino. Note-se que o desenvolvimento de um sistema de ensino democrático, no qual todos os alunos tenham acesso à educação, exige ainda uma verdadeira articulação entre os diversos subsistemas e redes de ensino, para além de uma interacção entre os diferentes níveis de administração do sistema educativo. Diversos estudos levados a cabo no âmbito da Sociologia da Educação têm demonstrado as relações entre a “herança social” dos alunos, o “sucesso escolar” e a “mobilidade social” da população escolar. Não sendo nosso objectivo discutir essa realidade, lembramos apenas o interesse da comparação de certos indicadores sociais que podemos associar ao estudo formal dos resultados escolares. Entre eles realçamos os indicadores de situação que Jorge Carvalho Arroteia 59 podem ser utilizados nos estudos de comunidade, os quais precisam o contexto em que se desenvolvem as actividades de ensino-aprendizagem. Destacamos, por isso, diversos tipos de indicadores que podem ser agrupados, de acordo com as suas afinidades, de natureza geográfica, demográfica, económica e social. Para além destes, podemos ainda considerar os que dizem respeito à saúde, ao alojamento e, por fim, os diversos indicadores de natureza sociocultural, largamente utilizados não só em estudos de comunidade, mas também em estudos monográficos mais vastos. Uma última palavra para a relevância da carta escolar na política educativa. Como foi referido anteriormente, a carta escolar é um instrumento do planeamento utilizado em diferentes contextos económicos e sociais, mas de grande utilidade prática na aplicação de qualquer política educativa. Recordam-se, a propósito, algumas das características do planeamento educativo: · começamos por realçar o seu carácter “integrador”. Tal significa que, quando se esboça qualquer estudo prévio, deverá atender-se às infra-estruturas existentes, adaptando a implantação de novos equipamentos educativos aos recursos já disponíveis, de modo a verificar-se um aproveitamento e uma melhor utilização de todos os recursos educativos; · identificamos, em seguida, o seu carácter “dinâmico”. Neste caso, uma vez identificada a rede, deverá desenvolver-se o parque escolar, tendo em conta não só a malha existente – “rede escolar” –, mas também as tendências e as perspectivas de desenvolvimento futuro das diferentes regiões; · para além destas características, “(…) o planeamento e a gestão da rede escolar deverão subordinar-se essencialmente a conceitos de racionalização, o que pressupõe a coordenação de recursos, a avaliação sistemática de metodologias, a análise de custos, a criação de indicadores de eficácia numa perspectiva global de rentabilização do parque existente e dos novos investimentos “ (GEPa, 1990, p. 40); · deve, ainda, o planeamento caracterizar-se pela sua “diversidade”, “flexibilidade” e “complementaridade” (Loc. cit.). O primeiro daqueles atributos permite, através do recurso a várias tipologias, “adequar as dimensões e funções da escola à natureza local e especificidade de cada região”; o segundo facilita “a integração dos equipamentos educativos na organização social colectiva, através da utilização dos equipamentos educativos para outros fins, que não só os de natureza pedagógica”; finalmente, o último permite articular e associar “numa determinada área regional os recursos físicos existentes, racionalizando a sua gestão e utilização.” A aceitação destes conceitos pressupõe, assim, a definição de uma política de desenvolvimento do território que atenda às assimetrias regionais e sectoriais existentes para que a nova rede de estabelecimentos escolares possa vir a contribuir “para potenciar o desenvolvimento como factor crítico e estratégico de valorização dos recursos humanos e produtivos e de melhoria das condições de qualidade de vida” (Loc. cit.). É, aliás, o que pretende a Lei de Bases do Sistema Educativo, que defende o planeamento da rede escolar, de forma a contribuir “para a eliminação de desigualdades e assimetrias locais e regionais, de modo a assegurar a igualdade de oportunidades de educação e ensino a todas as crianças e jovens” (artº 37). A propósito da rede escolar, lembra a LBSE, no domínio da regionalização, que “o planeamento e reorganização da rede escolar, assim como a construção e manutenção 60 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos dos edifícios escolares e seu equipamento, devem assentar numa política de regionalização efectiva, com definição clara das competências dos intervenientes, que, para o efeito, devem contar com os recursos necessários“ (artº 38). Sobre os edifícios escolares, dá as seguintes indicações (artº 39): · “Os edifícios escolares devem ser planeados na óptica de um equipamento integrado e ter suficiente flexibilidade para permitir, sempre que possível, a sua utilização em diferentes actividades da comunidade e a sua adaptação em funções das alterações dos diferentes níveis de ensino, dos currículos e métodos educativos. · A estrutura dos edifícios escolares deve ter em conta, para além das actividades escolares, o desenvolvimento de actividades de ocupação de tempos livres e o envolvimento da escola em actividades extra-escolares. · A densidade da rede e as dimensões dos edifícios escolares devem ser ajustadas às características e necessidades regionais e à capacidade de acolhimento de um número equilibrado de alunos, de forma a garantir as condições de uma boa prática pedagógica e a realização de uma verdadeira comunidade escolar. Legislação apropriada, nomeadamente a Lei nº 159/99, de 14 de Setembro, tem vindo a atribuir às autarquias locais, através dos Conselhos Municipais de Educação, responsabilidades acrescidas no domínio da educação e, particularmente, na elaboração da “carta escolar”. Neste âmbito, refere-se, ainda, o Decreto-Lei nº 7/2003, de 15 de Janeiro, que define as normas de funcionamento e atribuições do “Conselho Municipal de Educação” (artº 3), considerado como “uma instância de coordenação e consulta que tem por objectivo promover, a nível municipal, a coordenação da política educativa, articulando a intervenção, no âmbito do sistema educativo, dos agentes educativos e parceiros sociais interessados, analisando e acompanhando o funcionamento do respectivo sistema e propondo as acções consideradas adequadas à promoção de maiores padrões de eficiência e eficácia do mesmo”. De acordo com este diploma (artº 10), a carta educativa é, “a nível municipal, o instrumento de planeamento e ordenamento prospectivo de edifícios e equipamentos educativos a localizar no concelho, de acordo com as ofertas de educação e formação que seja necessário satisfazer, tendo em consideração a melhor utilização dos recursos educativos, no quadro do desenvolvimento demográfico e socioeconómico de cada município”. Assim, um dos primeiros objectivos da carta escolar (artº 11) é o de “assegurar a adequação da rede de estabelecimentos de educação pré-escolar e de ensino básico e secundário, de forma a que, em cada momento, as ofertas educativas disponíveis a nível municipal respondam à procura efectiva que ao mesmo nível se mantiver” (…). A consulta deste documento permite aprofundar outros conceitos fundamentais, tais como os de “rede educativa” (artº 13), de “equipamentos educativos” (artº 14), bem como os preceitos fundamentais relacionados com o “ordenamento da rede” (artºs 15 a 17) e os aspectos relativos à elaboração da carta educativa (artºs 18 a 21). Tendo presente a evolução da nossa sociedade e os desafios que hoje se colocam quer ao poder central quer ao poder local e ao papel relevante a desempenhar pelas autarquias nos domínios da educação, do ensino, da formação e como promotoras do desenvolvimento local, importa assinalar que as cartas educativas devem ter em consideração a existência de novas dinâmicas sociais e de formação, enquadradas pelo desenvolvimento de “comunidades de Jorge Carvalho Arroteia 61 aprendizagem”, propiciadoras de novas dinâmicas sócio-educativas. Nestas circunstâncias, o traçado destas cartas deve contemplar (AZEVEDO, 2006, p. 62- 64) a cartografia dos “recursos educativos da comunidade local”; assinalar as redes de “cooperação entre as escolas e outros agentes sócio-educativos”; fomentar a “construção participada de políticas de educação social”; considerar a “relevância da formação contínua e em serviço por parte de todos os intervenientes nos projectos sócio-educativos e da investigação científica, sobretudo numa lógica de investigação-acção” e permitir o “papel relevante de um planeamento estratégico que seja criativo e flexível, construído sobre visões abertas quanto ao futuro, partilhadas entre os actores sócio-educativos da comunidade”. Pelo seu interesse, transcrevemos de Azevedo (Op. cit., p. 62) os aspectos a realçar na cartografia que suporta a elaboração da carta educativa e que se deve distinguir não tanto pela “quantificação dos recursos existentes, no quadro dos limites político-administrativos de um dado territorio municipal, mas sobretudo: i) na densidade de relações e redes já existentes e que se desvelam; ii) na revelação da antropologia dos lugares e das suas histórias que surgem espantosas à luz do dia; iii) na identificação e no conhecimento e na valorização dos recursos realmente existentes, alguns deles escondidos em instituições ainda dormentes para as dinâmicas comunitárias; iv) na identificação das falhas existentes e dos ‘buracos por preencher’, sobretudo junto de grupos populacionais mais carenciados e, em geral, de fraco capital cultural; v) na perspectiva integradora e sistémica a que pode conduzir toda a acção sócio-educativa”. Estas considerações abrem novas perspectivas ao traçado e à dinamização deste importante instrumento de planeamento local, que é a carta escolar, fazendo-o perder o seu carácter estático, como as primeiras noções o faziam supor e adequando-o a novas formas de administração social e territorial e às dinâmicas criadas em torno do movimento das “Cidades Educadoras” e dos desafios da Pedagogia Social. Por outro lado, faz-nos relembrar a oportunidade e pertinência dos processos de planeamento social e da sua articulação com o planeamento educativo como forma de prosseguir objectivos e metas concretas do desenvolvimento territorial e das comunidades locais. Democratização do ensino À democratização do ensino encontra-se subjacente o conceito de “direito à educação” para todos os cidadãos e o estabelecimento de condições que permitam o cumprimento de um período de escolarização básica, ou de “escolaridade obrigatória”. Na prática, traduz-se na criação de condições de igualdade de acesso à educação, no acréscimo da frequência escolar, nos resultados do sucesso dos alunos e no aumento da participação dos cidadãos na vida da comunidade. Esta postura tem em conta a facilitação do acesso à escola a todos os cidadãos, o reconhecimento de que esta frequência é útil para o crescimento económico e social e o sentido de equidade, entendida como “garantia de êxito de todos através de uma oferta educativa diversificada e de qualidade” (FIGUEIREDO, 2001, p. 39). De acordo com Lima (1991, p. 124), “historicamente conotado com o ‘direito à educação’, o conceito de democratização do ensino focalizou sobretudo o problema do acesso à educação, reclamando-se então uma expansão da escola pública, a criação de mais escolas, a consagração de uma escolaridade universal e gratuita, mais tarde de uma escolaridade obrigatória sucessivamente mais prolongada, em suma, de uma escola para todos” (…). Porém, a democratização do ensino e a construção da escola democrática não são realizações apenas dependentes de uma efectiva política de acesso igualitário”. Como foi assinalado num colóquio organizado na sede da Unesco (Paris, 17-21Junho, 1985), sobre a democratização da educação: “L’histoire de l’éducation pendant les dernières décennies est marquée par la recherche constante de nouvelles méthodes et de nouvelles stratégies susceptibles de promouvoir l’exercice de plus en plus large du droit à l’éducation, considéré en tant que l’un des droits fondamentaux de l’homme comme l’une des conditions indispensables au progrès économique, social et culturel des sociétés. L’ensemble des multiples actions et activités visant à promouvoir ce droit se fusionnent dans un processus complexe qui est appelé couramment la démocratisation de l’éducation, et qui se trouve en relation étroite avec la démocratisation de la société”. A eliminação dos obstáculos à frequência da população em idade escolar e os incentivos à escolarização universal repercutiram-se no acréscimo da frequência da população escolar registada em diversos países do globo, em particular nos países em vias de desenvolvimento, no período posterior à segunda guerra mundial. Tais medidas traduziram-se na implementação de ciclos de escolaridade básica, com o fim de responderem às necessidades dessa população e da sociedade em geral. Este processo foi acompanhado por um alargamento da rede escolar e pelo aumento dos efectivos docentes, fenómenos que romperam com muitas das barreiras sociais e culturais dominantes, facilitando o acesso crescente da população jovem aos diversos 64 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos níveis de ensino, em particular ao ciclo correspondente à educação de base, promovida pelo poder político e incentivada por alguns organismos internacionais, tais como a UNESCO, a ONU e o Banco Mundial. Na sequência destas medidas, registou-se um aumento da “esperança de vida escolar” em todos os níveis de ensino e um acréscimo da participação colectiva da população (docente, discente e da sociedade em geral) nas tomadas de decisão relacionadas com a gestão dos centros educativos. O acolhimento dado a este fenómeno não se pode dissociar da democratização da sociedade, nem tão pouco do esforço universal de se facilitar à população, em geral, o acesso às infra-estruturas sócio-educativas e à educação de qualidade. De forma global, importa realçar que o acesso ao sistema educativo é medido através de diferentes tipos de indicadores, em particular os que respeitam as admissões no sistema e os que indicam a escolarização e a transição dentro do mesmo. O processo de democratização do ensino tem sido determinado pela evolução do contexto internacional, em particular depois do eclodir dos fenómenos de industrialização e de urbanização, que deram origem à escola de massas. Como o reconhecem Colom e Domínguez (1997, p. 23), “o desenvolvimento económico e os êxitos conseguidos pelo capitalismo primitivo levou a que pouco a pouco se aprofundassem os valores democráticos, e nesta perspectiva política se dotasse a escola de maiores possibilidades funcionais (…). O desenvolvimento capitalista necessitava cada vez mais de gente capacitada, pelo que se estabeleceu que a escola poderia ser um elemento propiciador a nível formativo (…), o que fazia pressupor manter uma posição mais ambientalista das aptidões intelectuais, estas já não eram específicas de uma classe ou de um nível económico, pelo que se devia transformar aquele sistema escolar, hierárquico e reprodutor, a fim de preparar um funcionamento escolar que se requeria compensador e corrector das diferenças sociais”. Defende a CRP (artº 73) ser dever do Estado promover a democratização da educação e da cultura, favorecendo, desta forma, a garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar (artº 74). Mais ainda, defende a participação democrática no ensino (artº 77), na qual intervenham os professores e as suas associações, os alunos, os pais, as comunidades e instituições de carácter científico na definição da política de ensino. Por sua vez, a Lei de Bases do Sistema Educativo reconhece o âmbito do sistema educativo que deve favorecer, no seu conjunto, o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade (artº 1). Daí o considerar, nos seus Princípios Organizativos (artº 3), que o sistema educativo tem por responsabilidade descentralizar, desconcentrar e diversificar as estruturas e acções educativas, com vista a proporcionar uma correcta adaptação às realidades, um elevado sentido de participação das populações, uma adequada inserção no meio comunitário e níveis de decisão eficientes. Estabelece a Lei de Bases do Sistema Educativo Português (artº 2): “1. Todos os portugueses têm o direito à educação e à cultura (…). 2. É da especial responsabilidade do Estado promover a democratização do ensino, garantindo o direito a uma justa e efectiva igualdade de oportunidades no acesso e sucesso escolares. 3. No acesso à educação e na sua prática, é garantida a todos os portugueses o respeito pelo princípio da liberdade de aprender e de ensinar, com tolerância para com as escolhas possíveis, tendo em conta, designadamente, os seguintes princípios: Jorge Carvalho Arroteia 65 a) O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas; b) O ensino público não será confessional; c) É garantido o direito de criação de escolas particulares e cooperativas”. 4. O sistema educativo responde às necessidades resultantes da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos, incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários e valorizando a dimensão humana do trabalho. 5. A educação promove o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, respeitador dos outros e das suas ideias, aberto ao diálogo e à livre troca de opiniões, formando cidadãos capazes de julgarem com espírito crítico e criativo o meio social em que se integram e de se empenharem na sua transformação progressiva”. Esta perspectiva é recente na história da sociedade portuguesa. Com efeito, se tivermos em conta a evolução recente do sistema educativo português, registamos ser a partir dos anos setenta (século XX), com Veiga Simão, que se divulga a utilização do conceito de “democratização do ensino”, noção pouco corrente até então. As preocupações sociais deste ministro, relacionadas com a “democratização” do ensino em Portugal, são patentes num trecho dos seus discursos: “um princípio fundamental que não me canso de repetir […] é o da necessidade de uma autêntica democratização do ensino que, sem excepção, permita a qualquer jovem ocupar na sociedade o lugar que lhe compete, em exclusiva dependência da sua capacidade intelectual e sem condicionalismos sociais e económicos”. Tais preocupações estiveram na origem do alargamento da rede escolar, da criação de infra-estruturas pedagógicas e científicas e do “Instituto de Acção Escolar” (IASE), em cujos objectivos cabia: · a criação de cantinas escolares em todas as escolas e a substituição da “sopa tradicional” pelo leite ou por outro alimento racional; · a concessão de bolsas de estudo aos estudantes necessitados; · a construção de alojamentos para estudantes e professores. O conjunto destas medidas permitiu um aumento da frequência e do nível de instrução da população portuguesa. A este respeito importa assinalar que, muito embora a melhoria do nível de instrução de uma população seja vital para o desenvolvimento económico e social de um país, o seu crescimento rápido, tal como se regista em muitas regiões do globo, é considerado por alguns economistas como um obstáculo em virtude das necessidades dos investimentos demográficos. Por isso, ainda que promovendo a “universalidade” de um ensino primário (obrigatório), a sua duração depende das disponibilidades financeiras, dos recursos humanos disponíveis, da evolução e dos níveis de desenvolvimento do país, tendo em conta a existência de uma certa “aceleração evolutiva” no desenvolvimento das sociedades, que “renovam autonomamente o seu sistema produtivo e reformam as suas instituições sociais no sentido da transição de um a outro modelo de formação sociocultural” (RIBEIRO, 1983, p. 55). 66 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Estas condições dão origem ao alargamento progressivo dos períodos de escolaridade obrigatória, à adaptação dos programas e curricula às novas condições sociais e tecnológicas, ao alargamento da rede escolar, em suma, à tentativa de “democratização” do ensino, permitindo uma igualdade de oportunidades a todos os cidadãos no que respeita não só à escolaridade obrigatória, mas também à frequência dos níveis de ensino, secundário, superior ou mesmo da educação pré-escolar. Contudo, como nota Azevedo (1994, p. 29), muitas destas medidas mantêm os traços de políticas educativas inconsistentes, as quais “confundiram exigência escolar com reprovação e repetência e reduziram, em parte, a democratização à abertura da porta de entrada das escolas a todos, condenando depois, lá dentro da “caixa negra”, hipocritamente, uma parte tão significativa da população à reprovação e à exclusão”. Note-se que o processo de democratização exige o conhecimento aprofundado da população escolar, das suas características e dos diversos fenómenos relacionados com a população discente, em ligação com os restantes fenómenos, de natureza social, que ocorrem na sociedade. Da mesma forma, importa conhecer a localização dos equipamentos educativos, as densidades demográficas e as áreas de recrutamento dos alunos, as acessibilidades, situações identificadas através do traçado da “carta escolar” e presentes nas opções de política educativa relacionadas com o desenvolvimento da educação e do seu contributo nos processos locais e regionais de desenvolvimento sócio-económico e cultural. Acessibilidades A facilidade de acesso da população aos diferentes bens e serviços de ensino, aos equipamentos culturais e outros constitui um factor de sucesso das medidas de acção educativa e do processo de democratização do ensino. Daí que, ao analisarmos a procura da educação e os seus resultados, possamos atender a diferentes aspectos que condicionam essa proximidade ou acessibilidade. Entre eles, destacamos: · A acessibilidade física, ditada pelas condições do relevo, das vias de comunicação, da distância e do tempo dispendido no percurso entre a escola e a residência dos alunos. Daí a delimitação desta acessibilidade pressupõe a definição de áreas de influência específica – para cada escola ou nível de ensino – e a necessidade de criação de mecanismos de compensação para os casos em que as dificuldades naturais ponham em risco uma cobertura eficaz do serviço educativo e o aproveitamento dos alunos. A necessidade da criação de uma rede de transportes escolares, de cantinas, de residências escolares, de centros de ocupação dos tempos livres e de outros equipamentos sociais e culturais é tanto maior quanto menor for a acessibilidade física, vindo colmatar as lacunas deixadas por uma distribuição territorial dos equipamentos educativos menos eficiente. · Para além dos aspectos físicos, a acessibilidade económica é outro dos factores que condiciona a frequência escolar, principalmente nos níveis de escolaridade pós-obrigatória. Com efeito, se a democratização do ensino é praticamente conseguida no ensino básico e elementar, o alargamento do período de escolaridade obrigatório – também designado por “esperança de vida escolar” legal – anda intimamente ligado às dificuldades socioeconómicas e ao nível e condições de vida e de habitação dos cidadãos. Assim, se tivermos em conta a situação das famílias portuguesas no decurso do último censo da Jorge Carvalho Arroteia · 67 população (INE, 2002, CII), verifica-se que, “em 2001, cerca de 10% dos alojamentos não tinham pelo menos uma das quatro instalações básicas (electricidade, instalações sanitárias, água canalizada e instalações de banho ou duche) (…). Denota-se que o litoral, especialmente as regiões onde estão integradas as principais aglomerações urbanas, apresentava melhores coberturas de infra-estruturas básicas”. Estas condições realçam como a facilidade e os custos da frequência escolar devem ser calculados em função não só das disponibilidades financeiras da família e das despesas correntes – encargos com transportes, alimentação, alojamento e material didáctico –, mas também da contabilização dos custos indirectos que um aluno poderia auferir se tivesse optado por uma actividade profissional. Este foi um dos temas de muito agrado para alguns economistas que, no início dos anos setenta, consideraram o cálculo dos benefícios económicos, devidos ao grau de instrução, como uma das “taxas de rendimento” (COOMBS, 1970, p. 49-53), a ter em conta nos investimentos e no planeamento da educação. As acessibilidades acima referidas podem ser completadas com o conhecimento da acessibilidade sociocultural, a qual pode conduzir à auto-eliminação de alguns grupos sociais a determinados bens culturais e do ensino por razões de “herança cultural” do seu agregado familiar, e de inibição cultural que os níveis de instrução menos elevados podem ocasionar em relação à procura da educação. Estas causas, se aplicadas ao caso português, podem justificar os abandonos precoces do sistema e algumas das quebras das taxas de escolarização, sobretudo a nível do ensino secundário em certos distritos, principalmente os do interior, onde a percentagem de população com elevado grau de iletracia é ainda relevante. De facto, como refere Gras (1974, p. 283), “a sub-educação dos pais nas classes desfavorecidas coloca-os numa situação difícil perante a orientação das crianças, porque os impede de aperceber todas as perspectivas que oferece cada nível escolar”, dificultando, nestas circunstâncias, a sua mobilidade social. Tal facto justifica os elevados índices de analfabetismo e de iletracia da população, expressos quer na ausência de frequência escolar, quer no deficiente domínio de conhecimentos básicos de leitura e de outra espécie, registados na população portuguesa. Uma breve referência sobre a realidade portuguesa em 2001 assinala a débil herança cultural das populações residentes no Alentejo e no interior da região Centro do país, onde se situavam as maiores taxas de analfabetismo da população portuguesa, ao contrário da faixa litoral, entre a Península de Setúbal e o Vale do Lima, onde essas taxas apresentavam os menores valores (INE, 2002, LXVIII). Como dificuldades desta ocorrência, podemos salientar, também, a distribuição dos equipamentos no território consubstanciada na “carta escolar” ou, se considerarmos uma visão mais alargada da mesma, os resultados de políticas educativas e sociais menos consistentes. Apoios educativos e sociais A abertura da escola ao universo da população em idade escolar tem vindo a evidenciar dificuldades de aprendizagem e de sucesso escolar, decorrentes do desenvolvimento humano do aluno ou do nível de rendimento do seu meio familiar e social. Com o intuito de remediar 68 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos essas condições, são desenvolvidos apoios sociais e metodologias e estratégias diferenciadas, relacionadas com o ensino e as actividades da sala de aula e outros apoios adicionais de âmbito escolar e educativo. Estas preocupações têm subjacente a “construção de uma escola democrática“ (Despacho conjunto nº 105/97), que procura “centrar nas escolas as intervenções diversificadas necessárias para o sucesso educativo de todas as crianças e jovens; assegurar de modo articulado e flexível, os apoios indispensáveis ao desenvolvimento de uma escola de qualidade para todos e perspectivar uma solução simultaneamente adequada às condições e possibilidades actuais (…)”. Legislação mais recente (Ministério da Educação – Desp. nº 1438/2005-2ª Série) considera como apoios educativos “o conjunto de estratégias e das actividades concebidas no âmbito curricular e de enriquecimento curricular, desenvolvidas na escola e no seu exterior, que contribuam para que os alunos adquiram as competências, de forma a possibilitar o sucesso educativo de todos os alunos”. De acordo com este documento, esse apoio reveste-se das seguintes modalidades: “a) pedagogia diferenciada na sala de aula; b) programas de tutoria para apoio a estratégias de estudo, orientação e aconselhamento do aluno; c) programas de compensação (…); d) programas de ensino específico da língua portuguesa para alunos oriundos de países estrangeiros”. Por sua vez, os apoios sociais consubstanciam-se, essencialmente, nas actividades da acção social escolar. Entende-se por acção social o conjunto de realizações e de iniciativas postas à disposição da população escolar e das suas famílias, que permitam superar as condições individuais relacionadas com a herança material e cultural dos alunos e promover a integração social, o desenvolvimento pessoal e o aproveitamento escolar. Revestindo diferentes tipos de modalidades materiais, financeiras e outras, esta acção exerce-se quer ao nível do ensino básico e obrigatório, quer nos restantes níveis de ensino, secundário e superior. Assim, a LBSE estabelece, no seu artº 27, que “são desenvolvidos, no âmbito da educação pré-escolar e da educação escolar, serviços de acção social escolar concretizados através da aplicação de critérios de discriminação positiva que visem a compensação social e educativa dos alunos economicamente mais carenciados”. Dadas as profundas assimetrias sociais e culturais que identificam a sociedade portuguesa, o acesso da população escolar aos equipamentos educativos, bem como o sucesso dos alunos, é bastante diferenciado. Nestas circunstâncias, importa ter em conta não só as diferentes “heranças culturais” da população escolar, mas também a diversidade social dos públicos que frequentam o nosso sistema de ensino, assim como as desigualdades impostas por diferentes acessibilidades, sobretudo de natureza cultural e económica, que afectam o acesso comum desta população aos bens educativos. Situações desta natureza agravam as desigualdades sociais de origem, induzem fenómenos de exclusão social que interessa remediar e exigem uma eficaz justiça social que se traduza no apoio directo aos estudantes mais necessitados, capaz de suprir aquelas dificuldades. Se tivermos em conta o exemplo específico do ensino superior, a criação dos Serviços e Acção Social foi estabelecida pelo Decreto-Lei nº 132/80, de 17 de Maio e 125/84, de Jorge Carvalho Arroteia 69 26 de Abril. Por sua vez, o Decreto-Lei nº 129/93, de 22 de Abril, define as bases do sistema de acção social no âmbito das instituições de ensino superior. De acordo com a Lei nº 1/2003, cabe ao sistema de acção social a responsabilidade de concessão de bolsas, de empréstimos e de outras formas de intervenção. Compete-lhe, portanto, desempenhar uma acção que tende a superar as desigualdades sociais e económicas da população escolar e garantir que a igualdade de oportunidades, promovida pela democratização do ensino, tenha em devida conta a universalidade dos estudantes, abrangendo na sua acção todos os utentes do sistema em condições de equidade e de justiça social. De notar as dificuldades que acompanham esta situação, sobretudo se considerarmos as marcas acentuadas da estratificação social que identificam a nossa sociedade. Por esta razão importa que o sistema de acção social tenha presente a repartição equilibrada dos recursos, de modo a garantir uma justa repartição dos apoios, directos e indirectos, suportados pelo erário público. É esta complementaridade da acção familiar, porque necessária e indispensável à superação das desigualdades económicas e sociais de origem, que tem de apoiar de forma inequívoca (e sem agravar as injustiças sociais) a população estudantil, sobretudo os estudantes deslocados dos seus ambientes familiares. Estas preocupações foram referidas na Lei de desenvolvimento e qualidade do ensino superior (Lei nº 1/2003), que atribui à acção social (artº 11): “1. O Estado, através de um sistema de acção social do ensino superior, assegura o direito à igualdade de oportunidades de acesso, frequência e sucesso escolar, pela superação de desigualdades económicas, sociais e culturais”. Enuncia, ainda, esta Lei diferentes medidas a tomar no âmbito do sistema de acção social, relacionadas com bolsas de estudo, alimentação e alojamento, serviços de saúde, actividades culturais e desportivas e apoios educativos. Por isso, a concluir, refere a mesma Lei: “3. Aos estudantes dos estabelecimentos de ensino superior não público serão estendidos os benefícios e regalias já asseguradas aos estudantes do ensino superior público no âmbito da acção social do ensino superior”. Por sua vez, a Lei nº 37/2003, de 22 de Agosto, que revogou a anterior legislação relativa ao financiamento deste subsistema de ensino – Lei nº 113/97, de 16 de Setembro – estabelece as bases do financiamento do ensino superior, e um conjunto de apoios sociais, directos e indirectos, aos estudantes economicamente carenciados e à população estudantil em geral. Destacam-se as bolsas de estudo, o acesso à alimentação e alojamento, as actividades culturais, desportivas, os empréstimos e outros apoios educativos que os estudantes podem beneficiar através do sistema de acção social. Tendo presente o nosso contexto societal, a acção do sistema de acção social tem de conjugar-se na busca de uma gestão eficiente e de uma prestação adequada que garantam uma gestão eficaz no aprofundamento do processo de democratização social, da participação familiar e da cidadania plena desta população escolar. Assim, os investimentos orientados para o sistema de acção social, conjuntamente com os investimentos globais em formação de recursos humanos, poderão não só facilitar a almejada melhoria da qualidade do ensino Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 70 superior e contribuir para o estabelecimento de sinergias necessárias à estabilidade social, política e intergeracional que devem acompanhar o desenvolvimento da nossa sociedade e da sua educação terciária. Igualdade de oportunidades A igualdade de oportunidades pressupõe a aplicação de um conjunto de medidas, de natureza social e pedagógica, que permita as mesmas possibilidades de acesso à educação e de sucesso a todos os alunos. Como assinala Éliard (2000, p. 8), esta questão, que já fez correr muita tinta, mantém-se actual dado “o largo consenso que se afirmou durante décadas em torno da ideia segundo a qual, através de reformas, a escola poderia igualizar as oportunidades de acesso numa sociedade de contrastes responsável por ocultar e pôr em causa a igualdade formal de direitos”. De acordo com Simões (1997, p. 265), a “igualdade, no campo da educação, foi vista durante décadas como a expansão da educação a todos, através da disseminação geográfica de escolas e do alargamento social da frequência da escola”. Mais ainda, “a igualdade foi concretizada em termos de estrutura escolar através da escola única e da unificação de vias escolares”, do desenvolvimento do “curriculo uniforme” e de “tratar a todos os alunos do mesmo modo, independentemente da sua origem, grupo de pertença ou condição – ensinar a todos como se fossem um só (…) evolução institucional que visava dar a todos o mesmo tipo de educação” traduzida numa “pedagogia uniforme (…) expressão na sala de aula do ideal de igualdade” (Op. cit., p. 266). Confundindo-se, parcialmente, com o processo de “democratização do ensino”, a noção de igualdade de oportunidades está intimamente ligada ao nível de vida, à herança cultural e à acessibilidade aos diversos equipamentos educativos e à informação. Da mesma forma, continua associada à configuração administrativa e organizacional do sistema que, só por si, pode contrariar as intenções postas numa política de abertura e de democratização da educação. Como outros conceitos sociais, o princípio da igualdade de oportunidades tem vindo a evoluir ao longo do tempo (COLOM, DOMÍNGUEZ, 1997, p. 24-25): · até aos finais da primeira grande guerra, entendia-se que “seria missão dos sistemas estatais de educação oferecer uma formação conveniente a cada inteligência e adaptar-se assim às possibilidades dos alunos. Para isso, a escola deve orientar o seu trabalho de acordo com as aptidões dos alunos”; · no pós-guerra, com o avanço da democratização do ensino, “a nova forma de entender a igualdade de oportunidades pressupõe uma visão mais ampla do problema das diferenças sociais e do papel da educação na sociedade, já que incide particularmente no desejo de abolir os obstáculos exteriores que podem impedir as possibilidades educativas aos membros da sociedade”. Por isso, considerou-se relevante: – abolição dos obstáculos geográficos que impeçam esse objectivo; – ajudas financeiras aos alunos; – unificação do ensino num corpo de conhecimentos básico. “Nestas circunstâncias, os alunos, todos por igual, podem beneficiar durante mais tempo do sentido igualitário e compensatório que aporta a educação” ((Loc. cit.). Jorge Carvalho Arroteia 71 Em data mais recente, o princípio da igualdade de oportunidades assenta num novo modelo sociológico, que defende ser o reconhecimento de que “a inteligência e as aptidões escolares são de índole inteiramente sócio-cultural” (Loc. cit.). Logo, ”tem-se agora a convicção de que a educação, na sociedade actual, deve ser um elemento igualitário e compensatório, pelo que todos os alunos devem ter as mesmas oportunidades educativas, independentemente da sua capacitação” (Loc. cit.). Assim, no dizer de Pardal (1991, p. 36), “o início da educação escolar obrigatória corresponde ao momento a partir do qual mais se defende a igualdade de oportunidades no plano escolar” ou, ainda, “sendo certo que a expansão da escolarização não implica, por si mesma, igualdade de oportunidades, não deixa, todavia, de ser verdade que a maior ou menor escolarização constitui um bom indicador de mobilidade social e de expansão de oportunidades sociais” (Loc. cit.). As diferentes concepções relacionadas com a igualdade de oportunidades defendem que o sistema educativo não deve diferenciar a educação dos alunos em função das aptidões que evidenciam. Tal facto leva a estender o ensino secundário a todos os alunos, sem que o sistema educativo utilize qualquer mecanismo de filtração ou de separação, e a implantar um conceito de ensino secundário que contemple ao mesmo tempo matérias de natureza intelectual e profissional. Desta forma, o êxito do sistema escolar não estará já em preparar ou formar os alunos mais capacitados, mas centrará a sua actividade em responder às necessidades de todas as classes e de todos os indivíduos. A igualdade de oportunidades coloca-se então como estratégia de resolver as “oportunidades desiguais” (COLOM, DOMÍNGUEZ, 1997, p. 26). Entre as condições que afectam a igualdade de oportunidades, destacam-se as assimetrias territoriais, que comprometem a aplicação do princípio da “descentralização democrática”, defendido no artº 6º do CRP. Estas desigualdades sugerem, portanto, a aplicação de um certo número de medidas que permitam “a realização da democracia económica, social e cultural”, preconizada no artº 2º da CRP. Em nosso entender (ARROTEIA, 1984, p. 122 e 127), tais medidas justificam-se plenamente se atendermos “ao relativo aumento da população e às disparidades regionais existentes, ao acréscimo da população docente e de funcionários, em virtude do aumento recente da população escolar (…), à maior participação das populações nas decisões respeitantes ao sector educativo que acompanhará a descentralização dos sistemas de educação”. Só assim o Estado cumprirá plenamente a sua missão: garantir a todos os cidadãos “o direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar”, através das seguintes acções: a) “assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; b) criar um sistema público de educação pré-escolar; c) garantir a educação permanente e eliminar o analfabetismo; d) garantir a todos os cidadãos, segundo as suas capacidades, o acesso aos graus mais elevados de ensino, de investigação científica e de criação artística; e) estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino; f) inserir as escolas nas comunidades que servem e estabelecer a interligação do ensino e das actividades económicas, sociais e culturais; g) promover e apoiar o acesso dos cidadãos portadores de deficiência ao ensino e apoiar o ensino especial, quando necessário; (…) Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 72 i) assegurar aos filhos dos emigrantes o ensino da língua portuguesa e o acesso à cultura portuguesa; j) assegurar aos filhos dos imigrantes apoio adequado para efectivação do direito ao ensino” (artº 74 – CRP). Educação para todos Dentre as diversas iniciativas e programas de acção tendentes à promoção da democratização do ensino, registam-se os esforços desenvolvidos por organismos internacionais no sentido de promoverem a alfabetização da população do globo e as desigualdades, em particular as que se relacionam com o género, nos diversos países e contextos civilizacionais. Promovida pela UNESCO, a conferência mundial “L’éducation pour tous”, teve lugar em Jomtien (Tailândia), em 1990, reunindo quase milhar e meio de responsáveis políticos, educadores e representantes de ONG e OG que proclamaram a referida declaração universal – “Educação para todos” (HALLAK, 1992). Para além da UNESCO, associaram-se na promoção desta iniciativa a UNICEF, o PNUD e o Banco Mundial. A referida reunião teve como objectivos principais: acentuar a importância e a incidência da educação de base sobre todos os membros da sociedade; criar um consenso alargado para encetar estratégias para satisfação das necessidades de aprendizagem das crianças, jovens e adultos e criar um fórum mundial de partilha de experiências e de resultados da investigação no sentido de reforçar os programas então em curso e os futuros. Pelo seu interesse, enumeram-se os princípios básicos desse encontro: 1. Satisfação das necessidades básicas de aprendizagem a crianças, jovens e adultos; 2. Promover uma nova visão, ampla e renovada, da educação; 3. Universalizar o acesso à educação e fomentar a equidade; 4. Concentrar esforços na aprendizagem e na avaliação dos resultados; 5. Aumentar os mesmos e o alcance da educação básica; 6. Melhorar as condições de aprendizagem; 7. Fortalecer a concertação de acções; 8. Desenvolver políticas de apoio; 9. Mobilizar recursos; 10. Fortalecer a solidariedade internacional. Transcrevem-se, ainda, as dez conclusões finais da referida Conferência: 1. O reconhecimento de sérias dificuldades financeiras, devido ao problema do endividamento, o que torna difícil de pôr em marcha os objectivos da “educação para todos”; 2. O reforço e uma nova abordagem da questão da educação das mulheres; 3. A necessidade de uma participação efectiva dos pais e das colectividades na oferta de serviços no domínio da educação de base; 4. A necessidade de passar do simples respeito pelas culturas nacionais a uma promoção efectiva destas; 5. A necessidade de concentrar a atenção necessária aos desafios provocados pelas mudanças tecnológicas rápidas e pela correspondente explosão da informação; Jorge Carvalho Arroteia 73 6. A necessidade urgente de integrar o ensino da higiene e das ciências do ambiente na educação de base; 7. A importância que há de dar maior atenção aos deficientes, aos grupos marginais e aos refugiados; 8. O reconhecimento de que a importância à educação de base não deve negligenciar os outros níveis de educação que são igualmente importantes; 9. A importância que há de sublinhar o perigo de se cair no analfabetismo e a necessidade de incentivar o prosseguimento de estudos; 10. A necessidade absoluta de desenvolver iniciativas internacionais para satisfazer as necessidades de uma educação de base para todos”. O enunciado desta Conferência tem subjacente o enunciado de uma série de valores e de princípios, nomeadamente o da igualdade de oportunidades, que permitam vencer as barreiras sociais e impedir o “darwinismo” social dominante em certas sociedades. Demografia escolar De acordo com Clerc (1974, p. 221), a “demografia procede à descrição estatística dos grupos humanos, dando especial atenção aos efectivos e aos factores que afectam os movimentos e que permitem explicar e prever as variações dos efectivos”. No que respeita à demografia escolar, trata-se de um ramo especializado da demografia social, interessado no estudo quantitativo desta população. Ocupa-se, ainda, do estudo das características da população e dos diversos fenómenos relacionados essencialmente com a população discente (admissão, progressão interna e abandono do sistema educativo), relacionando-os com os restantes fenómenos de natureza social que ocorrem na sociedade e com o conhecimento da população docente e funcionários, integrados nesse mesmo sistema. Para Girard (1970, XVIII), a “demografia escolar” estuda as características, a evolução, a distribuição e frequência da população nos diferentes graus de ensino, a duração de cada ciclo de estudos, os abandonos e as “migrações” entre os diferentes ciclos, tendo em conta que as reprovações e os abandonos estão ligados a fenómenos patológicos e a causas exógenas, relacionadas com o sistema escolar, ou endógenas, em ligação com as aptidões individuais. Por outro lado, a “demografia escolar” interessa-se pelo conhecimento das características do corpo docente, relativas ao número e estrutura por sexo e idades, às qualificações profissionais, à sua origem social e geográfica, bem como à sua distribuição espacial e por níveis de ensino, de modo a auxiliar a entender as condições reais de democratização da educação e, nesse sentido, ajudar as tomadas de decisão relativas ao planeamento e à política educativa. Nesta perspectiva, o campo de estudo da “demografia escolar” ultrapassa o mero conhecimento da evolução, da estrutura e dos movimentos da população, para se interessar pelas condições associadas ao desenvolvimento económico, pelas reformas sociais e pela inovação tecnológica das sociedades pós-industriais, identificadas por uma hierarquia de sistemas de natureza diferente (TOURAINE, 1982, p. 103) e elevado grau de diferenciação. Embora parecendo difícil conciliar os interesses do ensino com o estudo da população, a “difusão do saber” por um número cada vez maior de indivíduos “cria laços cada vez mais estreitos entre os problemas do ensino e os problemas da educação”, isto é, “dirigindo-se aos homens, o ensino passou para o domínio da demografia” (GIRARD, 1970, XVII). Esta afirmação é particularmente verdadeira quando se assiste a um aumento crescente de alunos no sistema escolar, porventura desajustado na sua concepção actual e, por isso, mal adaptado à realidade presente. Tal realidade justifica amplamente a abordagem dos fenómenos demográficos e o seu interesse no estudo da sociedade, bem como a importância que se pode reconhecer à “dinâmica de tratamento de cultura” (WORSLEY, 1977) e às formas de “difusão do saber”, como o ensino formal, que, hoje em dia, constitui um dos temas de estudo no âmbito das ciências sociais. 76 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Justifica-se, por isso, que, dada a especificidade de certos temas desta ciência, relacionados principalmente com a explosão escolar ou centrados em torno do conhecimento do(s) sistema(s) educativo(s), tenha surgido uma nova área de interesse, a demografia escolar, cuja relevância no diagnóstico e nas tomadas de decisão de política educativa é hoje sobejamente reconhecida. Que o digam, por exemplo, o leque de países em via de desenvolvimento, nos quais o aumento dos efectivos escolares (discentes e docentes) e a expansão quantitativa dos seus sistemas educativos têm vindo a tornar-se numa pesada carga financeira, levando, por isso, a modificar muitas das metas de desenvolvimento inicialmente desejadas por esses países. Como um ramo da demografia social, a demografia escolar recorre aos mesmos métodos e técnicas utilizadas na análise demográfica, relativos à natureza dos dados, à sua dinâmica e estrutura, ao tipo de análise (longitudinal ou transversal) e às projecções demográficas. Tendo em conta o enunciado de alguns fenómenos escolares, eles podem ser assinalados, quer através de valores numéricos, quer de diversas representações gráficas, das quais o Diagrama de Lexis (nome de um demógrafo alemão do século XIX) constitui um bom exemplo. Diagrama de Lexis Dentre os aspectos relativos aos fenómenos demográficos escolares, importa assinalar a duração da “vida escolar”, ou seja, o período de tempo efectivo em que o aluno frequenta o sistema de ensino. Neste caso, e contrariamente ao que sucede em demografia geral, em que os marcos importantes da vida de um indivíduo são o nascimento e a morte, em demografia escolar conta-se o ingresso e o abandono do sistema educativo (ensino formal). Durante este lapso de tempo – “vida escolar” –, devemos atender às “migrações”, isto é, aos movimentos dos alunos entre os diversos níveis. Como o reconhece Gras (1974, p. 297), “o lugar ocupado na estrutura social” está ligado ao rendimento, à educação, à estrutura familiar, à reputação da comunidade, etc., agindo estes factores uns sobre os outros “para preservar a estrutura social na sua forma actual, assim como o lugar da família no seio desta estrutura”. O estudo quantitativo da população humana realça uma variedade dos fenómenos demográficos – natalidade, nupcialidade, fecundidade, mortalidade, etc. –, que condicionam a evolução da população. Daqui se infere que o tempo constitui uma da variáveis essenciais em demografia, podendo este ser avaliado através do recurso ao “Diagrama de Lexis”. Em linhas gerais, referimos que este diagrama é constituído por um sistema de eixos cartesianos ortogonais, nos quais estão marcadas em abcissas as datas de observação (variável temporal) e nas ordenadas o intervalo de tempo (ou duração) entre o “acontecimento origem” (o que introduz o fenómeno em estudo) e a manifestação desse fenómeno. Por sua vez, o traçado das linhas diagonais – “linha de vida” – permite assinalar a interrupção de um determinado fenómeno, conhecido por “ponto mortuário” (M), que pode corresponder não só à morte, ao divórcio, à emigração, mas também, se aplicado ao estudo da população escolar, à saída do indivíduo da escola. Este diagrama facilita-nos os dois tipos de análise: a “análise longitudinal” e a “análise transversal”, as quais, se aplicadas à “vida escolar” de um indivíduo, nos permitem seguir o seu percurso dentro do sistema de ensino ou apenas os níveis de escolarização obtidos à saída deste sistema. Durante a sua permanência no sistema educativo, são as “migrações internas”, Jorge Carvalho Arroteia 77 isto é, os movimentos dos alunos entre os diversos níveis de ensino, e os abandonos que nos alertam para a existência de eventuais patologias sociais que podem justificar a ocorrência de valores extremos nestes fenómenos. Duração 4 M 3 N 2 1 0 Q I II III IV Anos Figura 1. Diagrama de Lexis Como reconhecem outros autores (GRAS, 1974, BOUDON, 1979, CACOUAULT et al., 1995, entre outros), a dimensão destes movimentos dentro do sistema educativo é reveladora do grau de estratificação social e das facilidades de mobilidade geradas pela sociedade. Com efeito, a frequência dos diferentes níveis de ensino é condicionada, primeiramente por razões demográficas, que, de acordo com a população escolarizável, determinam as “pressões” sobre o sistema. Outras razões são ditadas pelo lugar ocupado pelo aluno na estrutura social, facto que ajuda a compreender melhor as relações existentes entre os sistemas social e o educativo. Um dos indicadores desta relação é a duração ou permanência do aluno no sistema educativo, ora considerado por “esperança de vida escolar”, cujo aumento tem vindo a alargar-se no tempo, à semelhança do que sucede, por outras razões, com a esperança de vida da população. Esperança de vida escolar Esta designação é adaptada da Demografia Social e traduz a duração média de permanência de um indivíduo no(s) ciclo(s) de estudos, enquanto frequenta o sistema formal do ensino. Esta frequência exige a sua inscrição ou matrícula num determinado ano de estudos estabelecido legalmente e a sua consequente renovação. A duração média da escolarização é, frequentemente, condicionada pela “herança cultural” do aluno, mas a esperança de vida escolar depende ainda da duração do ciclo de estudos obrigatório e do processo de democratização do sistema. Assim, de acordo com um documento do IIPE (1989, p. 3), o cumprimento deste ciclo é importante, uma vez que permite “aos educadores avaliar a pertinência dos objectivos pedagógicos, dos programas e dos métodos de ensino, assim como examinar a relação Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 78 entre toda a série de factores internos e externos ligados à frequência e às performances ou resultados escolares”. Tomando como exemplo o caso português, o período de escolaridade obrigatória passou dos seis anos, estabelecidos em 1964 (DL 45810), para os nove anos, com a publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº 46/86). Estabelece esta Lei (artº 6): “1. O ensino básico básico é universal, obrigatório e gratuito e tem a duração de nove anos. (…) 4. A obrigatoriedade de frequência do ensino básico termina aos 15 anos de idade”. Apontamos algumas datas em que o período de escolaridade sofreu alterações: · Em 1960, verificou-se o seu alargamento para quatro anos, a alunos de ambos os sexos (DL 42994 de Maio de 1960), pondo, assim, termo a uma situação existente desde 1956, que tornara o ensino obrigatório quatro anos para os rapazes e três anos para as raparigas (DL 40964 de Dezembro, 1960); · A anterior redução de escolaridade obrigatória para três anos (então de cinco anos, desde 1919), estabelecida em Março de 1930 (Decreto 18140), é uma consequência da política seguida pelo Estado Novo, o qual, no dizer de Mónica (1978, p. 39), “estava empenhado numa política geral de estagnação educacional e que era fundamentalmente indiferente à problemática da educação popular”. Esta perspectiva foi modificada no começo dos anos sessenta, devido a “pressões feitas pela Europa aquando do alargamento do período de escolaridade obrigatória e da criação do ciclo preparatório” (Directo e TV). O alargamento do período de escolaridade obrigatória para mais três anos constituiu uma das preocupações da sociedade portuguesa que em 1986, através da Lei nº 46/86, viu esse período aumentar para nove anos. Note-se que, sendo a democratização do ensino praticamente conseguida a nível do ensino básico, o alargamento da “esperança de vida escolar”, para além do período de escolaridade obrigatório, anda ligado às dificuldades socioeconómicas e nível de vida dos cidadãos, que acompanham diversas formas de insucesso escolar, bem como à expressão das “moratórias educacionais”, ou seja, do adiamento da entrada no mercado de emprego por via do alargamento do período de frequência escolar e de formação. De facto, tem-se vindo a assistir, no decurso das últimas décadas, a uma entrada cada vez mais tardia dos alunos no mercado de emprego, facto que tem vindo a contribuir para um aumento do capital cultural e de formação da população jovem. Por isso, os “custos” da frequência escolar devem ser calculados não só em função das despesas correntes com a educação, mas tabém tomando em consideração os custos indirectos que um indivíduo deveria auferir, tendo anteriormente optado pelo exercício de uma actividade profissional e consequente remuneração. População escolar O aumento da população escolar é indissociável do crescimento da população residente. Com efeito, o crescimento natural da população durante um determinado período não é mais do que uma variação dos seus efectivos, resultante da diferença entre os nascimentos e os óbitos. Contudo, para além destes factores naturais, poderão ainda interferir os movimentos Jorge Carvalho Arroteia 79 migratórios, cuja influência no cálculo dos efectivos da população escolar tem vindo a tornar-se cada vez mais notória, sobretudo nas áreas afectadas pelos movimentos migratórios. Para além destes factores, a frequência dos alunos nas organizações escolares poderá ser afectada não só pelo crescimento da população em geral, mas também por outros factores, dentre os quais se destaca a procura social do ensino e a política educativa. No primeiro caso, o processo do ensino está intimamente relacionado com a melhoria do nível de vida das populações e, no segundo, com as perspectivas de desenvolvimento económico, que poderão provocar o alargamento do período de escolaridade obrigatória, da rede escolar e a diversificação dos cursos (Secundários, Médios e Superiores), tendo em vista quer a democratização do ensino, quer a sua adaptação às necessidades impostas pela evolução tecnológica dos nossos dias. Estes são os aspectos a considerar quando se analisam as frequências escolares e, sobretudo, quando se realizam estudos prospectivos relacionados com os efectivos, a formação dos recursos humanos e as metas de desenvolvimento económico, social e cultural. Nestas circunstâncias, os métodos de previsão devem ter em conta não só os objectivos da política educativa e a evolução recente da procura, mas também os fenómenos relacionados com a progressão e a mobilidade dentro do sistema educativo, bem como as necessidades de formação e de diplomados, determinados pelos cenários de crescimento, considerados em função das políticas sectoriais e sociais (IIPE, 1983). Como compreendemos, o alargamento do período de escolaridade acompanhou os esforços de “democratização” do ensino sentidos no nosso sistema educativo, devido às pressões feitas pelos restantes países europeus para o alargamento do período de escolaridade obrigatória. Por estas razões, o aumento da população escolar não deixou de se acentuar no decurso dos últimos anos, principalmente nos ciclos de estudo secundário e superior. Assim aconteceu em Portugal, depois de 1974, data a partir da qual se registou uma “inflexão no sistema” (SAMPAIO, 1980, p. 12), com o processo de democratização da sociedade portuguesa. Alguns valores recentes relativos ao continente podem comprová-lo. Quadro 3 Alunos inscritos 1º Ciclo EB 2º Ciclo EB 3º Ciclo EB 10º e 11º anos Ano lectivo 1980/81 825 824 285 646 230 087 90 134 Ano lectivo 1989/90 626 553 316 415 346 930 129 872 Ens. Médio e Sup. 78 300 146 787 Em relação ao último período intercensitário, os dados inscritos nos recenseamentos da população de 2001 registam em relação à população residente, com 15 ou mais anos, o seguinte nível de instrução: Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 80 Quadro 4 População Pop. c/ act. Econ. 1991-2001 8 699 515 4 990 208 S/ nível de ensino Ens.básico 89 102 2 971 350 1º CEB 2º CEB 3º CEB Ens. Secundário Ens. Superior Bacharelato Licenciatura Mestrado Doutoramento 1 531 043 810 947 629 360 1 109 059 785 674 168 723 552 579 45 149 19 223 Os valores anteriores mostram a variação dos alunos registada nos diferentes níveis de ensino e acusa o decréscimo acentuado da população no 1º ciclo do EB, em consequência da redução das taxas de natalidade da população portuguesa, ocorridas de há alguns anos a esta parte. Pelo contrário, no que respeita aos restantes níveis de ensino, a variação reflecte o aumento da “esperança de vida escolar”, o alargamento da própria rede e as perspectivas de mobilidade social esperadas pela titularidade de um diploma, a par das causas naturais ou demográficas que se acentuaram nos últimos anos. Disso nos dá conta a evolução relativa ao 3º ciclo do EB, a qual mereceu uma atenção por parte do INE (2002, LXIX), que, comparativamente a 1991, destacou o seguinte: · “Em 2001, a proporção de indivíduos com 15 ou mais anos que completou o 3º ciclo do ensino básico, ou seja, o ensino obrigatório, foi bastante superior à de 1991, principalmente nas mulheres em idades mais jovens. · As maiores proporções verificaram-se na Grande Lisboa, Península de Setúbal e Grande Porto (valores a oscilarem entre os 53,9% e os 43,4%). Em contraste, as mais baixas observaram-se no Tâmega (20,3%) e no Pinhal Interior Sul (21,3%). · As variações mais fortes, no período intercensitário, ocorreram na faixa litoral, com destaque para Grande Porto, Pinhal Litoral Oeste, Grande Lisboa, Península de Setúbal e Algarve; em contrapartida, o crescimento da população que completou este nível de ensino, foi mais fraco nas sub-regiões do Norte e Centro interior, entre as quais se incluem as de menor proporção”. No que concerne à população docente, os dados actuais dão-nos conta da sua evolução no tempo e distribuição por níveis de ensino, realçando os valores actuais as mudanças operadas no sistema educativo português e a natureza das medidas de política educativa que o têm condicionado. Em simultâneo, dão-nos conta da necessidade de se repensar o investimento social em educação e na formação, como defende Azevedo (2002, p. 121), de modo a criar Jorge Carvalho Arroteia 81 novas dinâmcias societais, bem como, de acordo com o citado autor ((Loc. cit.), a “assunção de novas responsabilidades”, traduzidas numa “maior liberdade de ensinar e de aprender, uma maior participação social, procurando e construindo a informação, avaliando, contrapondo, dando fim a um ciclo de mera diabolização da administração pública e de profunda inacção social”. Demografia e sociedade O aumento dos efectivos escolares registado há mais de dois séculos nos países industrializados do Ocidente Europeu só tardiamente, no termo da Segunda Guerra Mundial, é que se tornou extensivo aos restantes países, principalmente aos que, a partir de então, experimentaram os efeitos directos da chamada revolução industrial. Inicialmente, aquele aumento dos efectivos escolares verificou-se apenas no ensino elementar (séculos XVII e XVIII) e, a partir do século XIX, transmitiu-se ao secundário (CLERC, 1974, p. 235). Embora produzindo os mesmos efeitos, a chamada explosão escolar tem causas diferentes, se referidas a um ou a outro caso. Com efeito, à semelhança do que refere Girard (1970, XXII), o aumento dos efectivos escolares e universitários nos países industrializados não se explica pelo crescimento da população total ou pelo “movimento de natalidade”, mas sim pelo aumento da “população dos jovens, que, em cada ano e para além da escolaridade obrigatória, prosseguem os seus estudos numa escola ou numa universidade”. Segundo o mesmo autor (Loc. cit.), a chamada “revolução escolar” deve-se a “um movimento contínuo, cujos efeitos cumulativos se fazem sentir actualmente no topo da pirâmide”. De realçar que, a nível global, o aumento destes efectivos foi uma consequência das grandes transformações sociais, económicas e demográficas, decorrentes do processo da revolução industrial, expressas no envelhecimento da população residente (e consequente baixa dos valores de fecundidade), no crescimento urbano, na igualdade de sexos e na mobilidade social, as quais terão provocado uma maior “procura social do ensino”. Estas condições são praticamente extensivas aos países em vias de desenvolvimento, salvo no que respeita ao envelhecimento da população, uma vez que os valores de natalidade persistem, na maior parte dos mesmos, bastante elevados. Tal facto constitui um dos entraves ao desenvolvimento do ensino, em virtude dos investimentos necessários a realizar, não só neste sector, mas também na economia, na saúde, na assistência social etc., investimentos tanto mais necessários quanto maior for o ritmo de crescimento dos habitantes deste país. São os chamados “investimentos demográficos”. No que respeita à realidade portuguesa, é de notar que, à semelhança do que se passou noutros países da Europa, também a evolução da população escolar em Portugal, registada nas últimas décadas, tem vindo a ser afectada pelo declínio gradual da natalidade (e da fecundidade) que acompanhou o desenvolvimento industrial e urbano experimentado. Este fenómeno, largamente difundido na maior parte dos países do Ocidente Europeu durante os séculos XVIII e XIX, só tardiamente foi divulgado entre nós, condicionando não só o desenvolvimento da economia nacional, mas também a expansão dos seus diversos sectores de actividade. 84 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Também por esta razão, a evolução da população portuguesa, que durante séculos apresentou um regime demográfico de tipo tradicional, caracterizado por elevadas taxas de natalidade e de mortalidade geral e infantil, passou a registar, sobretudo a partir dos anos sessenta do século passado, uma quebra acentuada da sua natalidade (NAZARETH, 2004), que para o conjunto do país pouco excedia os 10,5‰ em 2001, situando-se a mortalidade geral pouco abaixo deste valor – cerca de 10‰. Esta evolução natural alterou-se profundamente devido à melhoria significativa das condições de vida e sanitárias da população, à alteração das suas estruturas demográficas e por acção dos movimentos migratórios. Importa assinalar que, entre 1991 e 2001, a população total portuguesa passou de cerca de 9,8 milhões de habitantes para 10,3 milhões, traduzindo-se este aumento numa redução de 16% do grupo etário dos 0-14 anos; de uma quebra de 8,1% do grupo etário dos 15-24 anos e por acréscimos de 11,8% e 26,1%, respectivamente, para os grupos etários de 25-64 anos e de mais de 65 anos de idade. Estas referências acentuam o fenómeno progressivo do envelhecimento da população portuguesa, a qual, de acordo com os dados do Censo de 2001 e tendo em conta o traçado da respectiva pirâmide etária (INE, 2002, LIII), era o seguinte: · “O agravamento do fenómeno do envelhecimento demográfico, quer pela base da pirâmide, como resultado da baixa de natalidade, quer pelo topo, em consequência do aumento da longevidade, imprime um novo contorno à pirâmide etária de 2001. · Estas transformações ocorreram em todas as regiões do país, a um ritmo especialmente forte nas regiões menos envelhecidas, ou seja, nas regiões autónomas e no Norte. · A idade média da população residente em Portugal (39,5 anos em 2001) registou um acréscimo de cerca de 3 anos, comparativamente a 1991. A maior esperança média de vida por parte das mulheres, devido ao fenómeno da sobremortalidade masculina, reflecte-se na diferença de idades médias entre os dois sexos: 38 anos para os homens e 41 anos para as mulheres. · A relação de masculinidade passou de 93,1 homens por cada 100 mulheres, em 1991, para 93,4, em 2001. Os homens excederam o número de mulheres até à idade exacta dos 30 anos, enquanto em 1991 tal se verificava até aos 25 anos, consubstanciando recentes melhorias no campo da mortalidade masculina e o maior afluxo de imigrantes, essencialmente masculinos e nas idades activas jovens.” Estas alterações são particularmente relevantes se apreciadas em função dos diferentes grupos funcionais, em particular dos que frequentam o sistema educativo. Assim, tendo em conta a população que frequenta o sistema regular de ensino (básico e secundário), entre os 6 e os 17 anos, registou-se, na última década, uma quebra significativa, de quase 1⁄2 milhão de alunos, assim repartidos (SILVA, 2006, p. 74): Jorge Carvalho Arroteia 85 Quadro 5 Grupo etário 6-9 10-11 12-14 15-17 Total 6-17 1991 494 495 277 757 2001 406 428 213 368 Taxa de var. % -18 -23 457 871 484 535 1 714 658 330 128 372 523 1 322 447 -28 -23 -23 Estas alterações, conjuntamente com a das estruturas demográficas, traduzem novos cenários demográficos – relacionados com a procura social da população escolar, em formação inicial e ao longo da vida – pelo que transcrevemos do trabalho do INE (2002, LV), relacionado com os resultados finais do censo de 2001 e respectivas assimetrias, o seguinte: · “Em 2001, a proporção de jovens (0-14 anos) situou-se em 16% do total da população, sendo ultrapassada pela proporção de idosos (65 ou mais anos), que registou o valor de 16,4%. · Tâmega, Ave, Cávado e as Regiões Autónomas detinham as mais elevadas proporções de jovens (acima dos 18%), contrastando com os valores mais reduzidos observados nas sub-regiões Beira Interior Sul e Pinhal Interior Sul. · No que respeita à representação da proporção dos idosos, o mapa fica praticamente invertido: Pinhal Interior Sul, Beiras Interiores e Alto Alentejo registam as proporções mais elevadas do país, superiores a 25% do total da população residente. · Entre 1991 e 2001, em todo o território nacional diminuiu a importância relativa dos jovens e aumentou a de idosos. As Regiões Autónomas e o Norte registaram os maiores decréscimos de jovens; Alentejo, Lisboa e Centro evidenciaram-se com os maiores acréscimos de idosos”. No conjunto dos movimentos migratórios (emigração e migrações internas), estes contribuíram fortemente para alterarem a estrutura e a distribuição dos habitantes, reforçando a tendência, já anteriormente sentida, de desertificação progressiva de grandes áreas do território, em particular as mais montanhosas e do interior, em detrimento das áreas de maior acessibilidade do litoral do país (NAZARETH, 1988). Dados mais recentes, de 2001 (INE, 2002, LVII), confirmam as alterações principais registadas entre 1991 e 2001: · “Em 2001, a taxa de atracção total em Portugal foi de 2,4% contra 1,7% em 1991, e traduzia exclusivamente as entradas da população que residia no estrangeiro, desde 1995 e 1985, respectivamente, uma vez que os fluxos internos se anulam. · Entre 1991 e 2001, as taxas de atracção total registaram um aumento significativo em todo o país, à excepção da Região Autónoma dos Açores (-0,4 pontos percentuais), sendo evidente o aumento da atractividade no litoral e em algumas áreas fronteiriças. · Algarve (8,6%), Península de Setúbal (8%0), Oeste (7,6%), Pinhal Interior Norte (6,8%) e Pinhal Litoral (6,7%) eram as sub-regiões mais actractivas em 2001, ou seja, as que receberam uma maior percentagem de migrantes, provenientes de outras NUTS II ou do estrangeiro. Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 86 · As taxas de atracção total mais baixas situaram-se na Região Autónoma dos Açores (2,7%), Tâmega (2,9%), Grande Porto e Ave (3,6%)”. Assim, ao crescimento demográfico regular conhecido ainda no início do terceiro quartel do século XX seguiu-se, durante os anos sessenta, principalmente nas regiões rurais, uma quebra significativa da população, seja pela diminuição da natalidade, seja pela atracção exercida pelos centros industriais e urbanos, dentro e fora do país, que, dotados de melhores possibilidades de trabalho, se tornaram mais atractivos para grandes contingentes migratórios. Este movimento tem vindo a provocar, em todas as regiões do país, um esvaziamento progressivo dos seus habitantes, alterando significativamente a composição e as estruturas demográficas da população portuguesa. Tal facto deu, assim, origem à deslocação das populações oriundas das regiões rurais que alimentaram um autêntico “êxodo”, contribuindo, desta forma, para o aumento da população urbana, a par da desertificação crescente de algumas áreas do território, gerando, hoje em dia, novos padrões da oferta educativa. Estes aspectos foram retratados em 2001 (INE, 2002, LVIII), confirmando, relativamente ao território nacional, que: · “As sub-regiões com as taxas de repulsão mais elevadas eram o Douro, Beira Interior (Norte e Sul), Pinhal Interior Sul, Baixo Mondego, Grande Lisboa, Baixo Alentejo e Alentejo Litoral, que perderam entre 3,9% e 4,4% da população residente para outras NUTS III do país. O peso relativo das saídas para outras unidades territoriais era diminuto nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. · Pinhal Interior (Sul e Norte) e Baixo Alentejo atenuaram substancialmente as taxas de repulsão entre 1991 e 2001 (mais de 0,5 pontos percentuais). · Para além do interior do país e do Alentejo, que se mantêm como as zonas mais repulsivas, surgiram, em 2001, novos pólos emissores, associados a grandes centros urbanos, designadamente de Grande Lisboa e Baixo Mondego (4,3%)”. Estas alterações estão a traduzir-se no desenho das novas cartas escolares e nas opções e estratégias de política educativa do poder central e do poder local. Situação semelhante foi já descrita por Carron e Chau (1981, p. 77) em território suíço, mostrando como a alteração das estruturas e dos efectivos demográficos condicionam a oferta escolar conduzindo, em caso de perda, ao encerramento de escolas, e como este fenómeno se reflecte sobre a perda de atractividade da comunidade condicionando, por sua vez, a evolução demográfica de um determinado centro ou de uma área mais alargada, a própria região. Trata-se de um tema de grande interesse este, o de apreciar como é que as desigualdades regionais, actuais e futuras da oferta educativa, são “um fenómeno secundário decorrente das divisões administrativas existentes” (Op. cit., p. 36) e da hierarquia cultural e política dos ‘poderes locais’. Os aspectos acima referidos traduziram-se numa quebra acentuada da população em idade escolar, no Continente português, comprovada pelos valores seguintes da população em idade escolar, nos anos de 1991 e de 2001: Jorge Carvalho Arroteia 87 Quadro 6 Pop. idade escolar 1991 2001 6-9 anos 10-11 anos 494 495 277 757 406 428 213 368 12-14 anos 15-17 anos 457 871 484 535 330 128 372 523 1 714 658 9 375 926 1 322 447 9 869 343 Total (6-17 anos) População Total Contudo, os movimentos migratórios foram decisivos para o alargamento da rede de centros urbanos do país, contribuindo, igualmente, para o aumento de outras povoações, de menores dimensões, que fazem parte do território. Daí que, como reflexo destes movimentos e potenciando ainda os efeitos do alargamento do período de escolaridade obrigatória, se tenham verificado, em alguns dos centros urbanos, aumentos dos efectivos escolares, justificados pela atracção demográfica e melhoria das condições de vida da população residente e pela maior acessibilidade aos equipamentos educativos. Embora afectada por diversos tipos de constrangimentos relacionados com a natureza e o tipo de investimentos realizados, bem como por outros recursos humanos e materiais, o alargamento constante da rede escolar, consubstanciada na construção de novas escolas, tem vindo a contribuir para acentuar certas disparidades que caracterizam o sistema escolar e a sociedade portuguesa. Tais desequilíbrios não deixam, no entanto, de ser agravados quer pela desigual distribuição dos rendimentos, de bens e do poder entre os diferentes grupos e classes sociais quer, ainda, pelas diferentes acessibilidades: cultural, física e económica que identificam a população residente ou mesmo pelo desenvolvimento dos movimentos pendulares (de carácter duradouro) da população. Note-se que, em qualquer sociedade, o acréscimo da esperança de vida traduz uma melhoria significativa das condições de vida, de bem-estar e de desenvolvimento socioeconómico dessa população, sendo certo que quanto mais elevada for a esperança de vida escolar-média de uma população, tanto maior será o seu nível sociocultural e as perspectivas de crescimento dos diversos sectores de actividade. Migrações e ensino Os fenómenos de mobilidade geográfica têm vindo a assumir, no contexto da sociedade actual e do modelo de “escola de massas”, uma importância relevante dada a diversidade da composição familiar, da estrutura etária e das expectaivas sociais, económicas e culturais das populações migrantes. Mais uma vez, retomando os dados do recenseamento de 2001 (INE, 2002, LX), regista-se o seguinte: · “Grande Lisboa era o principal centro receptor de população proveniente de outras sub-regiões (8,1%), seguida do Baixo Mondego (6,6%). Estas, conjuntamente com o Grande Porto e as NUTSIII envolventes, Baixo Vouga, Pinhal Litoral, Médio Tejo e Lezíria do Tejo, registavam as maiores percentagens de entradas diárias de população proveniente de outras unidades territoriais. Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 88 · · · De forma geral, as áreas que acolhem mais população nas deslocações pendulares estão associadas a pólos de emprego ou ensino. Relativamente às saídas, Península de Setúbal observava a maior percentagem de indivíduos que se deslocava diariamente para trabalhar ou estudar (15,9%), seguida, com valores razoavelmente distantes, do Tâmega, Pinhal Interior Norte, Lezíria do Tejo e Oeste, entre 9,0% e os 7,7%. O Algarve e as Regiões Autónomas registavam as menores proporções de saídas para as outras sub-regiões, às quais se juntam todas as outras do interior do território nacional”. Sendo reconhecida a importância dos centros urbanos, prestadores de serviços e de oferta de formação de nível terciário, os quais cobrem não só as capitais de distrito, mas também outros centros urbanos de menores dimensões, importa assinalar as interacções dos movimentos de entrada e de saída população no terrritório nacional. Assim, de acordo com os dados do censo de 2001 (INE, 2002, LXI), verifica-se que: · “Em 2001, o maior número de interacções inter-regionais verificou-se em direcção às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto: na primeira, com origem na Península de Setúbal e destino na Grande Lisboa; e na segunda, com origem no Tâmega e destino no Grande Porto. · É igualmente nas maiores bolsas de população flutuante – Grande Lisboa e Grande Porto – que se concentra o maior volume de deslocações interconcelhias, ou seja, dentro das próprias sub-regiões. · Por todo o território nacional são visíveis os pólos de interacção com cidades de média dimensão, especialmente no litoral e, de forma menos evidente, no interior. · Os pólos universitários e de serviços registam os maiores fluxos de interacção, quer inter-regionais, quer interconcelhios. · Nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, pela própria condição de insularidade, só se registaram interacções significativas a nível intra-regional”. Estes são alguns aspectos relacionados com a mobilidade interna da população. No entanto, para além das migrações internas, importa fazer referência ao grande número de cidadãos de outras nacionalidades que residem em território nacional. Com efeito, o desenvolvimento de comunidades imigrantes residentes em países da Europa Ocidental, constituídas inicialmente por povos de origem mediterrânica, especialmente por portugueses, tem vindo a pôr em evidência a presença de uma população jovem, em idade de escolarização, e o aparecimento de um conjunto de problemas relacionados não só com a integração dos emigrantes adultos mas, particularmente, com a socialização desta população pertencentes à “2ª geração” de emigrantes. Os dados relativos ao censo de 2001 (INE, 2002, LIX) indicavam o seguinte: · “Em 2001, foram recenseados 226.715 indivíduos com nacionalidade estrangeira a residir em Portugal, representando 2,2% do total da população residente. · Entre 1991 e 2001, a proporção de estrangeiros duplicou, verificando-se um aumento generalizado em todo o país, excepto nas Regiões Autónomas. Os maiores acréscimos ocorreram no Algarve, Grande Lisboa e Península de Setúbal. Jorge Carvalho Arroteia · · 89 Angola (16,3%), Cabo Verde (14,6%) e Brasil (14,1%) eram as nacionalidades recenseadas mais representativas em Portugal. Com proporções bastante significativas, os nacionais de países como a Ucrânia, Moldávia, Roménia e Rússia vêm diversificar a composição da população residente com nacionalidade estrangeira. Nas sub-regiões com maior proporção de estrangeiros (1,2% ou mais), predominavam os nacionais de Cabo Verde (Grande Lisboa e Península de Setúbal), Brasil e Ucrânia (Oeste), Ucrânia (Lezíria do Tejo), Reino Unido (Algarve), Alemanha e Cabo Verde (Alentejo Litoral), Venezuela (Baixo Vouga e R.A. Madeira), França e Ucrânia (Pinhal Litoral)”. A presença desta população tem vindo a dar origem a diversas iniciativas, visando a integração social destes cidadãos e a manutenção da sua identidade de origem. Assim se justificou, nos tempos idos do “ciclo europeu de emigração”, a criação, nos países de acolhimento, de cursos de língua e de cultura maternas, iniciativas que, não obstante terem sido acarinhadas pelos Governos de ambos os países, por via da dispersão destas comunidades, não permitiram, ainda hoje, cobrir as necessidades de toda a população imigrante. Assim se compreendem os fracassos escolares e certas dificuldades sociais desta população, sobretudo dos jovens, que, tendo regressado a Portugal após uma permanência mais ou menos longa no estrangeiro, não conseguiram superar as deficiências de aprendizagem no domínio da língua, referentes ao período de permanência fora do seu país. Da mesma forma, poder-se-ão relacionar com esta situação outros tipos de problemas: a sua identidade, a inserção tardia dos alunos nos sistemas de ensino dos países de acolhimento e a sua inserção posterior no mercado laboral. Note-se que o reconhecimento à diferença e o respeito pelas culturas de origem das populações imigrantes justifica a criação de cursos de língua e cultura maternas, os quais, funcionando de forma paralela ou integrados no sistema regular de ensino dos países de acolhimento, permitem o ensino daquelas matérias às novas gerações de emigrantes. Para além da leccionação dessas matérias, estas iniciativas contribuem, ainda, para o estabelecimento de novas relações entre a população autóctone e as comunidades imigrantes, assentes no desenvolvimento de actividades escolares e associativas. Dos exemplos conhecidos, destaca-se, sobretudo, as manifestações de natureza intercultural, baseadas na “pedagogia intercultural”, a qual tem procurado dar resposta aos desafios de relação, mobilidade, interdependência e globalização que vão caracterizando as sociedades actuais. Como em tempo notou o Conselho da Europa, sendo “o interculturalismo uma opção sociológica global” deverá interessar não só às sociedades de origem ou às sociedades de acolhimento, mas a toda a comunidade, em particular aos pais, às autoridades académicas, às associações culturais e aos professores, favorecendo o desenvolvimento de acções concretas que permitam reforçar a construção de uma consciência e unidade europeias, ou seja, promovendo o espírito de cooperação e de solidariedade que os acordos políticos procuram defender. Em simultâneo com estas iniciativas, o reconhecimento pelas sociedades de acolhimento de outras culturas e traços de civilização específica da população imigrante tem sido decisivo para concretizar diversos projectos escolares, que visam reforçar o carácter multifacetado do espaço europeu e a sua diversidade étnica e cultural. Note-se que o desenvolvimento de uma “pedagogia activa” e “diferenciada”, onde se devem inserir as realizações de natureza intercultural – porque implica, em simultâneo, a 90 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos população escolar, as sociedades de origem e as sociedades de acolhimento – deve atender, primeiramente, às necessidades específicas da população jovem imigrante e não aos interesses dos grupos de adultos representados pelos professores ou só pelos familiares dos alunos. Esta postura exige, assim, um conjunto de acções articuladas e partilhadas, que devem valorizar as experiências pedagógicas e os programas de acção inovadores, para os quais devem ser chamados a colaborar pais e professores, as autoridades escolares e os Governos de ambas as nacionalidades. No seu conjunto, muitas outras manifestações de interesse cultural, desportivo e recreativo, geralmente apoiadas pelos governos de ambos os países, têm sido tomadas por iniciativa das Igrejas, dos sindicatos e das associações de emigrantes. Experiências anteriores levadas a cabo em diversos países de imigração têm mostrado que o êxito de muitas destas iniciativas passa por uma articulação conjunta dos projectos de natureza intercultural, ao nível não só da sua concepção, mas também da sua realização, exploração e avaliação. Daqui se infere a necessidade de se melhorar a formação da população docente, que, para além de uma sólida formação pedagógica de base, deverá possuir uma outra mais específica no domínio da educação intercultural. Por isso se justifica uma maior atenção aos programas de formação inicial e contínua dos professores, sobretudo dos que trabalham mais directamente com as comunidades imigrantes e que têm a responsabilidade da leccionação dos cursos de língua e cultura portuguesas ou já de outras matérias integradas em experiências pedagógicas inovadoras, em curso em diferentes países. Pensando especificamente em Portugal, convirá notar que, em virtude da independência dos territórios outrora sob administração portuguesa, registada durante a década de setenta, a situação recente mostra alterações muito significativas no padrão normal das nossas migrações. Assim, e à semelhança do que se tem verificado com outros países vizinhos da Europa Mediterrânica, Portugal deixou de ser, apenas, um país de forte emigração para se constituir, recentemente, como um pólo de atracção para novos imigrantes. Por este facto, as referências e os padrões mais comuns das migrações a que anteriormente fizemos referência modificaram-se totalmente, devido à enorme presença de imigrantes entre nós, realçando a oportunidade e interesse dos estudos desta natureza. Justificam-no não só a experiência vivida, no passado, pelos nossos compatriotas emigrados, mas também o fortalecimento das diversas comunidades estrangeiras residentes no continente português. No seu conjunto, estas têm-se mantido concentradas em torno quer dos principais centros urbanos da área metropolitana de Lisboa, quer já noutros centros e distritos mais industrializados do Norte e do Centro do território. Nestes espaços, coabitam africanos de diversas nacionalidades, sul-americanos e asiáticos, das mais diversas origens e proveniências. Para além destes, um número assinalável de cidadãos europeus completam o leque de imigrantes que, desde os finais da década de setenta, tem chegado, cada vez em maior número, ao nosso país. Para além destas comunidades, um número igualmente crescente de cidadãos comunitários tem vindo a fixar residência entre nós (na maior parte espanhóis e ingleses), engrossando o caudal de nacionalidades representadas entre os cerca de dez milhões de habitantes residentes em Portugal, no início da década de noventa. A diversidade de origem não esconde um outro fenómeno, igualmente notório na sociedade portuguesa. É a existência, entre esta população, de emigrantes já regressados e de descendentes seus naturalizados noutros países; de portugueses retornados das antigas colónias de África; Jorge Carvalho Arroteia 91 de cidadãos africanos oriundos dos novos países de expressão portuguesa; e de outros cidadãos que, legal ou clandestinamente, se estabeleceram em Portugal ou aqui aguardam a oportunidade para se fixarem ou, pelo contrário, para se deslocarem para outro canto da comunidade europeia. Mais do que uma inventariação exaustiva destas nacionalidades e do seu montante, convirá assinalar que o reconhecimento e a integração destas comunidades na sociedade portuguesa passa, igualmente – como sucedeu com os portugueses na Europa durante os anos sessenta e setenta – pela aceitação e reconhecimento da sua cultura, das suas raízes históricas e dos traços dominantes das civilizações de origem. Só assim será possível contribuir para um maior entendimento entre as diversas civilizações e culturas, promovendo, em simultâneo, a aproximação entre elas e o desenvolvimento científico, económico e tecnológico, capaz de superar as divergências políticas, sociais e culturais, bem como os fenómenos de exclusão social que continuam a persistir no velho continente europeu. Da mesma forma, e por via da antiguidade das relações estabelecidas entre este e os outros continentes, só o entendimento e o respeito pelas diversas culturas e civilizações poderão contribuir para o equilíbrio e desenvolvimento das relações entre os países do “centro” e os novos blocos geoeconómicos da periferia, que hoje se confrontam não só com a fragilidade dos seus recursos, mas também com uma plétora de cidadãos desejosos de reconhecerem a paz e as vantagens das revoluções democrática e termonuclear, bem como os seus efeitos sobre as condições de vida e a dignidade do ser humano. Prospectiva A construção de novos cenários e de tendências demográficas, económicas e sociais ocupa cientistas com diferentes formações, sobretudo os que se preocupam com a mudança social e de paradigmas que tem acompanhado a evolução dos modelos de organização social, de produção e de consumo das sociedades pós-industriais. Trata-se de uma preocupação pertinente, na medida em que, como o reconhecem Mendras e Forsé (1983, p. 253), “a sociedade de amanhã, como a de hoje, deve apresentar uma certa coerência no seu conjunto, por detrás de numerosas incoerências: é, por isso, necessário traçar uma imagem coerente”. No dizer, ainda, dos referidos autores (Op. cit., p. 254), “o estudo das forças sociais não permite prever o seu sucesso ou fracasso”, apesar da necessidade de observação dos fenómenos sociais, em circunstância alguma, poder ser realizada, “isolando-os do seu contexto histórico particular” (Op. cit., p. 259). A evolução e a mudança da nossa sociedade e, por arrastamento, dos sistemas educativos sugeriram a Husén (1978, p. 117) duas reflexões fundamentais: “1. temos de encarar a educação como um sistema completo, o que significa que não o devemos limitar aos sistemas do tipo da escola convencional; 2. temos de considerar o sistema educacional dentro do seu contexto social, económico e político. O que exige é que haja uma ‘ampla opção’ pelas alternativas do futuro.” Estas reflexões dão maior importância aos estudos prospectivos, baseados inicalmente em projecções demográficas, económicas e outras, que se têm vindo a acentuar no contexto das sociedades actuais, em mudança contínua, que é responsável pela alteração constante do 92 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos panorama e dos cenários de diferentes natureza. Daí o interesse de se procurar antever algumas situações futuras, relacionadas com o desenvolvimento, o bem-estar social e a evolução e necessidades dos sistemas de ensino e de formação. De acordo com Martins (1996, p. 18), “os estudos prospectivos não visam (…) ler o futuro, mas o traçar de um quadro social, entre outros possíveis, com base nas evidências, quer do passado, quer e sobretudo do presente”. Esta noção, se aplicada à educação, remete-nos para a consulta de outro autor, Grácio (1981, p. 649), que afirma: pela sua natureza e funções, “a educação, do pequeno círculo familiar ao vasto campo nacional, é por natureza uma actividade orientada para o futuro; é prospectiva”. Contudo, a aplicação dos métodos de natureza prospectiva incidem não só sobre este subsistema social, mas também sobre os demais sistemas sociais na sua globalidade, com particular incidência sobre os aspectos de natureza demográfica, económica, estratégica e outros. A prospectiva consiste, por isso, na combinação de diferentes metodologias que permitem acompanhar e prever o futuro da sociedade ou de algum dos seus sistemas fundamentais. Associada frequentemente à evolução tecnológica ou à economia, a sua referência no domínio educativo tem acompanhado a evolução e as práticas relacionadas com o planeamento da educação, com ênfase para a identificação de objectivos e de cenários a construir, através de processos de aprendizagem colectiva, que apontam para a prossecução de um certo número de fins estabelecidos. A visão de futuro que se pretende alcançar, as metas a atingir, os meios e os actores a envolver fazem parte da construção do planeamento estratégico, em que a prospectiva surge como elemento congregador de esforços, de agentes e de dinâmicas necessárias para a construção e modificação de um sistema de referência. Entre outros aspectos a considerar, estes assentam num conhecimento adequado da rede, dos alunos, do pessoal docente, da tipologia dos estabelecimentos e das despesas por aluno, e gerais, das necessidades e dos perfis de formação, etc., aspectos que permitem avaliar as necessidades futuras dos sistemas educativos. Se aplicada ao processo de planeamento educativo, a análise prospectiva deve ter em atenção: · o planeamento como processo e não como actividade isolada; · carácter prospectivo do planeamento; · carácter último do desenvolvimento humano; · melhoria qualitativa do sistema educativo; · articulação dos diversos níveis do sistema educativo no contexto do progresso social; · coerência com o projecto de sociedade assumido pelos cidadãos. A relação entre o planeamento e a prospectiva assume-se, de acordo com Pimpão (1995, p. 65), como sendo, aquele, “uma prospectiva normativa que confronta a incerteza não como uma restrição, mas sim como um quadro de liberdade para definir a função de preferência social mais desejada, lutando, assim, contra o determinismo e o acaso”. A realização de estudos prospectivos, baseados em diagnósticos de situação e em análises de natureza comparada, deve antecipar as medidas relacionadas com a evolução, as necessidades de formação de recursos humanos e os processos de desenvolvimento. Jorge Carvalho Arroteia 93 São uma responsabilidade das organizações educacionais e das sociedades que encaram o direito à educação e à formação como uma das exigências morais e cívicas a cumprir pelo Estado e pelo cidadão. Assim o entende Eurydice (1999, p. 8), que, em trabalho realizado sobre a prospectiva em educação no seio dos Estados-Membros da UE, regista o seguinte: “la prospective est un des principaux outils en mesure d’aider le décideur politique à orienter l’action présente à la lumière des avenirs possibles. L’enjeu central consiste à distinguer, parmi la masse des faits observables, ceux qui seront porteurs d’avenir. Pour ce faire, la prospective et les scenarios qu’elle dévellloppe s’associent étroitement à d’autres approches (planification, planification stratégique, projections quantitatives, etc.), en fonction des différentes étapes de la réflexion prospective, pour servir des objectifs communs”. Desempenho O exercício da actividade docente e administrativa é objecto de apreciação, tendo em conta o exercício das funções e das actividades, contempladas nos respectivos estatutos profissionais, e considerando, igualmente, os conhecimentos e as competências adquiridas pelos alunos nos programas e nas actividades de ensino. São vários os factores de natureza administrativa, organizacional e pessoal que afectam o exercício da actividade docente, nomeadamente a sua motivação e participação, pelo que nos parece oportuno realçar, tal como o reconheceu Loureiro (1985, p. 316), que se “se der como assente que a escola é o factor primordial da mudança social, os agentes educativos são a base do próprio progresso e desenvolvimento social”, não havendo, portanto, “transformação possível na educação, novas orientações no ensino, sem a respectiva transformação dos agentes educativos”. Em termos mais amplos, podemos apreciar o funcionamento do sistema educativo no seu desempenho e nos seus resultados. Daí ser possível associar, no primeiro caso, o desempenho à sua eficiência e, no segundo, à sua eficácia. A propósito dos ensinamentos que nos chegaram através da teoria sistémica, identificamos a instituição escolar como uma empresa interessada em manter o maior número de ligações com o seu meio ambiente. Neste caso, o seu desempenho é assegurado por um processo organizacional que permite a optimização dos recursos humanos e materiais existentes, de forma a garantir o cumprimento de um conjunto de objectivos comuns. Daí que a melhoria da qualidade de instrução, a “produtividade educativa” e a própria inovação nos pareçam objectivos difíceis de alcançar, mesmo com o recurso a sofisticados meios de informação tecnológica, se as expectativas de cada um dos seus agentes não forem totalmente satisfeitas. Recorde-se que o desempenho profissional anda associado não só à formação, inicial e ao longo da vida dos professores, mas também ao clima organizacional das escolas, que afecta indistintamente, os docentes e os alunos. Nesta perspectiva, apontamos de Brunet (1992, p. 133) os aspectos que podem condicionar a satisfação individual e, por conseguinte, o próprio desempenho pessoal: · tipo de relações interpessoais; · coesão do grupo de trabalho; · grau de implicação na tarefa; · apoio recebido no trabalho. A propósito deste tema, recorda-nos Nóvoa (1992, p. 27), em ligação com a “escola eficaz”, que a estabilidade profissional do corpo docente ”é uma condição essencial ao desenvolvimento 96 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos organizacional das escolas”, uma vez que “nenhum estabelecimento de ensino pode levar a cabo projectos coerentes de acção se o seu pessoal mudar constantemente ou estiver sujeito a situações de instabilidade”. Em termos práticos, o desempenho dos professores obriga ao cumprimento de um conjunto de obrigações e de deveres estipulados no respectivo Estatuto da Carreira Docente e em legislação complementar relativa à avaliação do seu desempenho. Eficiência Por eficiência do sistema entendemos o processo que pretende caracterizar os resultados parcelares, conseguidos durante o desenrolar de qualquer processo educativo, de acordo com os meios disponíveis e os investimentos realizados. Definida por Chiavenato (1987.II, p. 529) como uma “medida normativa da utilização dos recursos disponíveis nesse processo”, a eficiência pode ainda ser entendida como uma “relação entre custos e benefícios”, pressupondo um acompanhamento constante do processo educativo e uma análise crítica dos seus instrumentos de avaliação. Se pensarmos na eficiência educativa, há algumas informações relacionadas com o funcionamento diário do sistema, tais como, número médio de dias escolares, assiduidade dos professores e dos alunos, monitorização do sistema através dos serviços de inspecção, que nos podem dar informações sobre o desempenho diário e o funcionamento global do sistema. O senso comum considera a eficiência como o “fazer bem as coisas”. Eficácia De acordo com um documento do IIPE (1989, p. 3), a eficácia traduz-se numa relação “óptima” entre as entradas e os resultados alcançados no decurso do funcionamento de um sistema. A sua análise é feita através do recurso a um conjunto de indicadores de situação, que apontam, frequentemente, para as condições de funcionamento e para as disfunções que afectam a sua organização e processo. Tentando uma definição mais precisa, “eficácia” do sistema é “uma medida normativa do alcance de resultados” (CHIAVENATO, 1987.II, p. 528), noção que anda, geralmente, associada aos resultados finais alcançados por essas complexas organizações que são os sistemas educativos. Como se compreende, dada a sua natureza e complexidade, os objectivos alcançados dependerão de vários factores internos e externos, dentre os quais se destaca a interacção com o meio ambiente e o grau de envolvimento dos agentes que interferem no processo educativo. Estes aspectos dizem respeito à eficácia externa do sistema. Contudo, se atendermos à eficácia interna do sistema, esta tem em consideração a análise dos fluxos da população desde a sua admissão ou entrada até à saída ou abandono (migrações internas dentro do sistema). Maior eficácia interna implica um menor desperdício escolar, traduzido na melhoria das condições de acolhimento do sistema escolar, na promoção do sucesso e na redução do abandono escolar. A evolução deste fenómeno anda geralmente associado à disponibilidade dos orçamentos e a condições internas de funcionamento dos estabelecimentos de ensino, relacionadas com os equipamentos, os recursos humanos e a gestão pedagógica. Se pensarmos em exemplos da “escola eficaz”, diz-nos Oliveira (XAVIER, SOBRINHO, MARRA, 1994, p. 19) que, como “condições necessárias para uma escola eficaz, aparecem Jorge Carvalho Arroteia 97 a autonomia de gestão da escola, a liderança pelo director, a participação da comunidade e a existência de recursos sob controle local”. Aponta, ainda, o mesmo autor que as condições suficientes para estas escolas incluem “a capacitação dos professores, o estabelecimento de planos de carreira para o magistério e a avaliação externa das mesmas”. Nestas circunstâncias, e como já o referimos noutro local (ARROTEIA, 1991, p. 187), “a concretização das expectativas e das funções que atribuímos ao sistema escolar só é possível mediante a satisfação de um certo número de funções sociais (…)” e pela “observância de um conjunto de normas ditadas pela própria organização social onde aquele se insere”. É o caso da legislação escolar. Numa perspectiva sistémica, consideramos, ainda, que estes dois pressupostos são fundamentais para o bom funcionamento do sistema escolar, que só poderá atingir plenamente os seus objectivos se os diversos elementos que o compõem se encontrarem devidamente articulados e solidários no cumprimento de um objectivo específico e comum a todos os seus membros. As relações sociais estabelecidas no seio da organização escolar, bem como os seus resultados são fundamentais na construção de uma “escola eficaz”. Se referida ao conjunto de unidades que fazem parte do sistema de ensino, esta noção obriga a atender à procura dos alunos, à avaliação e adequação das suas aprendizagens e à participação da população escolar e da sociedade, em geral, no seu funcionamento interno. Se tivermos em conta a eficácia interna desse sistema, esta pode ser apreciada através dos fluxos de alunos e do conhecimento das taxas de aproveitamento, de reprovação e de abandono, por ano escolar ou por ciclo de estudos. A análise destes fenómenos pode ter em consideração o aluno, individualmente, ou uma “cohorte”, ou seja, um conjunto de discentes que vivem em conjunto e durante o mesmo lapso de tempo os mesmos fenómenos escolares. De realçar que a noção de eficácia não é idêntica entre os educadores e os economistas, na medida em que os primeiros tomam em consideração as aprendizagens dos alunos e, os segundos, os recursos e a produtividade do sistema. Daí que as comparações não sejam sempre coincidentes, uma vez que podemos apreciar sistemas com um bom desempenho interno, ou seja, sem grandes desperdícios, e as aprendizagens dos alunos não corresponderem às necessidades do mercado ou da sociedade. De facto, hoje em dia, a adaptação dos cursos às necessidades do mercado de trabalho, bem como a empregabilidade geral dos diplomados constituem indicadores utilizados na apreciação da eficácia externa do sistema educativo. O senso comum considera a eficácia como o “fazer as coisas certas”. Qualidade A expansão recente dos sistemas educativos, traduzida no alargamento da rede escolar e no aumento crescente da população escolar, provocando, nalguns casos, uma saturação dos equipamentos educativos, tem originado uma alteração crescente da qualidade dos serviços educativos. Assim, a sua introdução no discurso da política educacional e no discurso pedagógico é recente, vindo a impor-se por imperativos sociais e económicos, já que as expectativas da sociedade em relação ao seu próprio desenvolvimento se transferem para a escola, considerando a educação factor decisivo de crescimento e de bem-estar social e atribuindo à escola responsabilidades na modernização da formação para a vida activa e na criação de estímulos e motivações para a educação permanente, bem como na igualização 98 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos de possibilidades de sucesso no seio escolar” (ARROTEIA, PARDAL, MARTINS et al., 1995, p. 20). Difícil de definir e de agrupar num único indicador, a qualidade do serviço educativo deve constituir uma das constantes preocupações dos responsáveis pela política educativa. Este é um assunto do maior interesse na actualidade. Assim, se tivermos em conta um estudo de C.E. Beeby (1967, p. 19), este refere-se ao dilema vivido pelos países em vias de desenvolvimento, confrontados “a escolher entre a expansão quantitativa rápida (…) e exigida pelo direito que todos têm à educação e a restrição desse direito, de modo a manter e aumentar a qualidade do nosso sistema educacional que, em si mesmo, é uma realização dispendiosa”. A este respeito, propõe o referido autor (Op. cit., p. 21-23) que a qualidade em educação podia ser considerada em três níveis: “no nível mais simples está o que se poderia chamar de conceito de qualidade de sala de aula (…)”; o segundo nível é apreciado fora já da sala de aula, na praça do mercado, “pela relação entre a ‘entrada’ e a ‘saída’ do sistema escolar, como medida da sua produtividade e eficiências imediatas (…)”; o terceiro nível, “onde a qualidade é julgada com critérios sociais mais amplos (…)”. Afirma o referido autor (Op. cit., p. 23) que “nesse nível todos se tornam especialistas em educação. E cada um de nós julga o sistema escolar nos termos das metas finais que estabelecemos para nós mesmos, nossos filhos, nossa tribo, nosso país”. Na sequência da expansão quantitativa dos sistemas de ensino e da importância reconhecida à educação como factor de mudança social, a qualidade manteve-se na agenda das preocupações da UNESCO, lendo-se, num documento do IIPE (1988, p. 1), que reconheceu: “parmi ceux qui dénoncent ‘la baisse du niveau de l’éducation’ et qui réclament des mesures pour améliorer la situation, on retrouve aussi bien des parents d’élèves, des enseignants et des employeurs que des administrateurs, des planificateurs et des responsables politiques. Dans le débat, il est évident que tout le monde n’entend pas toujours la même chose par ‘qualité de l’éducation’”. Mais ainda, tendo em conta que o conceito de qualidade é relativo e que “en fait, les critères de qualité doivent résulter des objectifs du système scolaire concerné, lequel doit, à son tour, se fonder sur les conditions et les besoins du pays (…) les objectifs et les normes en matière de rendement ou d’excellence du système éducatif ne sont pas prescrits une fois pour toutes, mais ils doivent être revus à la lumière du processus de développement”. Estas razões obrigam a que uma análise cuidada deste fenómeno deva ter em conta o contexto social, o qual determina os inputs do sistema educativo, mas também os processos pedagógicos e os resultados, respondendo às necessidades da população em geral e não apenas de algumas das suas “élites”. Assim, a procura da qualidade nas aprendizagens escolares tem vindo a orientar-se para novos conceitos que referem a “excelência” na educação como uma das metas a atingir pelos sistemas educativos. De forma global, a qualidade constitui uma das preocupações fundamentais dos governos, dos pais, dos professores e dos empregadores que acolhem a população diplomada. Para tanto, terá contribuído a enorme segmentação do mercado de trabalho registada hoje em dia, bem como a constante mutação técnica e tecnológica que tem permitido à nossa sociedade construir a “era da informação”. Como em tempo assinalaram Rassekh e Vaideanu (1987, p. 86), “a explosão da informação e a difusão do saber foi um dos fenómenos particularmente importantes durante a última década”. Daí que, a par do crescente aumento da população escolar (discente e docente) e Jorge Carvalho Arroteia 99 das transformações sociais, económicas, políticas ou tecnológicas registadas nos últimos anos, particularmente nas sociedades ocidentais, alguns estudos prospectivos anteviram, para o início do século actual, que “a formação quer dizer a educação para a competência e criatividade será o investimento mais importante uma vez que é o homem a única riqueza e motor da indústria e do progresso material em geral” (Op. cit., p. 88). Por este motivo, a educação tem uma função primordial: estabelecer “um equilíbrio entre a ciência e a tecnologia, considerada como os meios e os valores que constituem a finalidade da vida e da acção humana” (Loc. cit.). Para tanto, devem concorrer o estabelecimento de um certo número de metas a serem cumpridas pelo sistema educativo no seu conjunto e não, apenas, por alguns dos seus estabelecimentos e dirigentes. Na sua globalidade, estes deverão imprimir, nas suas relações com os colaboradores mais directos, um tipo de liderança assente na democratização, na participação, na motivação humana, na racionalidade e na qualidade dos serviços educativos. Tal como acontece nas empresas, a qualidade é, hoje em dia, uma questão de sobrevivência. Por isso, a qualidade em educação é, no dizer de Ambrósio (CNE, 2002, p. 23), “um objecto e um objectivo sociopolítico que carece de definição, de esclarecimento da intencionalidade política subjacente à sua construção, de compreensão pública da influência do pensamento económico, do pensamento de gestão, do pensamento educativo, do pensamento político, dos quadros ideológicos subjacentes que sustentam esta intencionalidade”. Dada a abrangência desta definição, a tão almejada “qualidade em educação” só pode ser atingida quando todos os envolvidos no processo educacional – alunos e professores, pais e funcionários, comunidade – alcançarem a satisfação plena do seu trabalho. A este propósito, refere ainda Sallán (1996, p. 340) que a Q.T. “é um vector importante da vida das organizações”, devendo estar sempre presente na definição das políticas, na formação do pessoal, na comunicação interna e na sua avaliação sistemática. Por isso, cabe ao Estado implementar programas de “Qualidade Total” (QT) que abranjam os diversos domínios, de natureza pedagógica e administrativa, e que garantam o funcionamento do sistema. Ao aceitarmos estes princípios, temos presente o esforço de transformação das organizações educativas, o qual passa por incentivar a autoformação contínua e permanente dos agentes educativos (em particular dos professores) e a dos seus utentes. Tal abertura permite o fortalecimento de um “espírito crítico” que garanta à educação poder assumir-se como “um meio de desenvolver a consciência e não unicamente um instrumento de treino e de endoutrinamento” (Op. cit., 93). É esta a essência da “formação ao longo da vida”, que não pode ser menosprezada pela administração educacional. No dizer de Neiva (XAVIER, SOBRINHO, MARRA, 1994, p. 227), “as organizações existem para satisfazer as necessidades e expectativas das pessoas. Esta é a razão de ser de uma organização, ou seja, é a sua verdadeira missão. A qualidade do produto/serviço está directamente associada ao grau de satisfação das pessoas. Qualidade e satisfação são quase sinónimos”. Nestas circunstâncias, a “qualidade em educação” será alcançada quando todos os envolvidos no processo educacional (alunos e professores, pais, funcionários e comunidade) alcançarem a satisfação do seu trabalho. Assim se pronuncia Azevedo (1994, p. 182): “as organizações escolares que evidenciam melhor qualidade parece serem aquelas que mais apostam na permanente interacção quer entre os seus actores, as suas equipas de trabalho e os seus 100 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos orgãos internos, quer entre estes e os outros actores e instituições exteriores às escolas e que com elas muito interesse têm em cooperar”. Não nos parece difícil entender como estes diversos actores sociais constituem os verdadeiros “clientes” do sistema educativo. E não esqueçamos de incluir neste grupo o próprio Ministério da Educação, com a diversidade de orgãos e serviços, de estruturas centrais e regionais, de natureza pedagógica e administrativa. Sendo assim, a esta entidade cabe implementar programas de “Qualidade Total” que abranjam os diversos domínios, de natureza pedagógica e administrativa, e que garantam o funcionamento do sistema. Espera-se, portanto, que a aplicação de diversos programas de QT ao nosso sistema educativo permita a melhoria não só do seu funcionamento e dos resultados, mas também das “performances” desta organização, garantindo a optimização dos recursos humanos, materiais e financeiros. Além do mais, tal deve permitir ultrapassar muitas das rotinas e das disfunções que preenchem o quotidiano das escolas e dos serviços integrados neste sistema burocrático. Do que sabemos acerca do funcionamento interno da instituição escolar, e não obstante as tentativas de desconcentração que têm sido levadas a cabo com a criação de serviços regionais do Ministério da Educação, os programas de QT só são aplicáveis no quadro de uma maior autonomia da escola, de uma maior mobilização dos seus recursos e da participação de todos os seus membros. Para tanto, haverá certamente que adaptar as estratégias educacionais a um novo contexto social e político, económico e cultural, em consonância com as dinâmicas locais e das próprias comunidades educativas. Transcreve-se uma grelha de possíveis indicadores de qualidade da escola. Em relação ao sistema educativo português, a Inspecção-Geral da Educação é o organismo responsável pela”garantia da qualidade do sistema e de salvaguarda dos interesses legítimos de todos os que o integram” (Dec. Lei nº 208/2002, de 17 de Outubro). No caso de organismos internacionais, destacamos, a título exemplificativo, o programa internacional SACMED, implementado pelo Institut International de Planification de l’Éducation (UNESCO) e constituído por um consórcio de países da África Meridional e Oriental, para a monitorização da qualidade em educação. De acordo com a Carta Informativa do IIPE (2006), através do desenvolvimento deste projecto, a comunidade internacional compromete-se a “melhorar todos os aspectos qualitativos da educação, garantindo os parâmetros mais elevados, para conseguir resultados de aprendizagem reconhecidos e mensuráveis, especialmente no domínio da leitura, da aritmética e das competências práticas essenciais”. Jorge Carvalho Arroteia Quadro 7 Despesas escolares 1. Despesas por aluno 2. Total de despesas escolares Elementos materiais específicos 3. Dimensão da turma 4. Dimensão da escola 5. Materiais didácticos disponíveis 6. Recurso às novas tecnologias 7. Qualidade das construções escolares 8. Dimensão e actividade da biblioteca 9. Equipamentos laboratoriais 10. Cantina escolar Qualidade profissional dos professores 11. Duração dos cursos de formação (universitária e formação profissional inicial) 12. Formação em serviço 13. Experiência prática (anos de serviço) 14. Aptidão profissional 15. Nível salarial 16. Origem socioeconómica 17. Pontualidade e absentismo Métodos didácticos/Organização da sala de aula 18. Duração dos programas de ensino 19. Frequência de trabalhos de casa 20. Aquisição activa dos conhecimentos pelo aluno 21. Rendimento do aluno esperado pelo professor 22. Tempo gasto pelo professor na preparação das aulas Gestão da Escola 23. Competência do Director 24. Grau de ocupação da escola 25. Reprovações dos alunos Fonte: POSTLETHWAITE, 1988, p. 21 (Adapt. de IIPE, 1988) 101 Desenvolvimento da educação O aumento da procura social da educação e da frequência dos diferentes níveis de ensino anda associado à política de democratização desenvolvida pela maioria dos Governos, nomeadamente no que diz respeito ao acréscimo de investimentos no sistema educativo, bem como às expectativas de mobilidade social da população. Este fenómeno tem vindo a acentuar-se desde o início da revolução industrial, acompanhando os processos de mobilidade geográfica e social da população, a industrialização e a urbanização crescentes registadas desde então. Tais aspectos têm condicionado, ao longo dos anos, o alargamento progressivo da rede de estabelecimentos de todos os níveis de ensino, favorecendo, por esta via, a formação profissional e a criação de novas oportunidades de emprego mais especializadas. Em consequência destes fenómenos, o desenvolvimento da educação anda, igualmente, associado à evolução das políticas de ensino e de formação dos recursos humanos, às mudanças sociais e à evolução da nossa sociedade e da sua entrada na “era do conhecimento”. Nesta perspectiva, faz sentido a afirmação de Delors (1996, p. 36) de que “a educação tem, sem dúvida, um papel importante a desempenhar, se se quiser dominar o desenvolvimento do entrecruzar de redes de comunicação que, pondo os homens a escutar-se uns aos outros, faz deles verdadeiros vizinhos”. Note-se, contudo, que, em sociedades marcadas por um crescimento contínuo da sua população, “a expansão dos sistemas educativos tem constituído uma pesada carga financeira para todos os governos e, em particular, para os dos países em vias de desenvolvimento” (BRIMER, PAULI, 1971, p. 48). Este fenómeno exige um forte acréscimo de investimentos, que os economistas designam por “investimentos demográficos”, os quais pesam sobre o rendimento nacional, no sentido de permitir o acréscimo da população escolar e a manutenção do nível de vida da população. Assim, a democratização do ensino, em termos de igualdade de oportunidades, de acesso e de sucesso educativo, baseia-se no alargamento da rede escolar, o que constitui um dos primeiros sinais externos do desenvolvimento da educação. Tomando este exemplo em Portugal, assinalamos que, ao nível da educação pré-escolar, o aumento da rede de estabelecimentos tem vindo a traduzir uma alteração do papel da família, como “espaço educativo” e “instituição educativa mais antiga”, e uma valorização crescente dos processos de socialização fora deste contexto. Ao nível do ensino básico, este processo foi o resultado da democratização, bem como do alargamento da rede e do período de escolaridade obrigatória para nove anos, depois da publicação da LBSE. No ensino secundário, este processo beneficiou não só da construção de novos estabelecimentos de ensino, mas também do aumento da “esperança de vida escolar”, em resultado do aumento do ciclo de estudos 104 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos obrigatório, da melhoria das condições de vida da população portuguesa e das perspectivas de “mobilidade social”, decorrentes do aumento do período de escolarização. Já no ensino superior, o seu desenvolvimento, no decurso do último século, acompanhou a evolução sociopolítica da sociedade portuguesa, através do alargamento progressivo dos centros de ensino universitário, os quais, há menos de meio século, estavam circunscritos aos centros universitários tradicionais de Lisboa, Coimbra e Porto. Depois da criação do ensino superior politécnico, a rede estendeu-se a todas as capitais de distrito e a outros centros urbanos. A propósito desta procura, salientamos, desde o início do nosso século e durante praticamente toda a sua primeira metade, o facto da frequência dos estabelecimentos de ensino universitário constituir um privilégio das “élites” mais abastadas do país. Destaca-se a propósito que, em 1910/11, o total de alunos que frequentava o ensino superior universitário pouco ultrapassava os 1,2 milhares, número que, em 1940/41, ascendia a 8,7 milhares. No início da década de sessenta, em 1960/61, o total de alunos matriculados nestes estabelecimentos de ensino orçava já as duas dezenas de milhar (19,5 milhares). Depois de um aumento notável para a época, em que foram tomadas medidas relacionadas principalmente com o ensino primário, o ensino preparatório e o ensino secundário, registou-se um aumento significativo da população escolar universitária, que atingiu os 28,0 milhares de alunos, em 1965/66. O referido montante duplicou em menos de uma década, para atingir, em 1970/71, os 44,2 milhares de alunos e, em 1974/75, os 61,3 milhares. Com a revolução de 1974 e em consonância com as práticas de abertura do sistema educativo aos alunos oriundos de todas as classes sociais, este acréscimo foi ainda mais notável, justificando a enorme procura registada nos anos seguintes. Em menos de três décadas, de 1970 à actualidade, o total de alunos matriculados no ensino superior quintuplicou, passando de 69,2 milhares, em 1973/74, para mais de 312 milhares, em 1996/97, orçando, em 2003, os 388,7 milhares. Os dados ora referidos permitem apreciar a evolução da qualificação da população portuguesa no decurso do último período intercensitário, a qual, de acordo com o resultados obtidos em 2001 (INE, 2002, LXVII), permitem concluir: · “Em 2001, a maioria da população portuguesa tinha apenas completado o 1º ciclo do ensino básico (27,8%) ou não sabia ler nem escrever (26,4%). A população que completou o 2º e o 3º ciclos representava, em cada ciclo, 13,8% do total. Nos restantes níveis, destaca-se o ensino secundário, com 11,0%, e o ensino superior, com 7,1%. · No período intercensitário, verificou-se uma melhoria das qualificações académicas, tanto para os homens como para as mulheres. Nos ensinos secundário e superior, as proporções quase duplicaram, sendo mais elevadas para a população feminina, especialmente ao nível do bacharelato/licenciatura. · A sitaução das mulheres manteve-se mais desfavorável nos níveis mais baixos (sem qualquer qualificação e 1º ciclo do ensino básico)”. Contrariamente ao fenómeno de crescimento demográfico, responsável pelo aumento da frequência escolar, o envelhecimento da população, tal como se tem vindo a acentuar no contexto português e europeu, levanta sérios problemas de natureza económica e demográfica, parcialmente compensados pelo recrutamento da mão-de-obra estranha. Este fenómeno tem-se verificado em diversos países do Ocidente Europeu, tais como a França, Alemanha, Jorge Carvalho Arroteia 105 Suiça e Luxemburgo, países onde a quebra de nascimentos registados há mais de um século tem vindo a provocar um défice acentuado de trabalhadores, compensado pelas migrações internacionais. O mesmo fenómeno tem vindo a afectar Portugal, sendo responsável pelo aumento da população escolar de origem estrangeira no sistema de ensino português, bem como pelo desenvolvimento de diversas iniciativas, destinadas a acolher a população estrangeira e os alunos de diferentes nacionalidades que frequentam as nossas escolas. No contexto português, as alterações registadas nas últimas décadas em relação ao povoamento tradicional, traduzindo um fenómeno intenso de desertificação das áreas rurais, tem vindo a caucionar medidas de política educativa conducentes ao encerramento de certos estabelecimentos de ensino e à deslocação dos alunos para centros escolares dotados de outros equipamentos sociais e educativos, que garantam melhores condições escolar. Contudo, importa avaliar o conjunto destas medidas, não apenas num contexto local e municipal, mas também no seu todo e apreciar os seus reflexos nos processos de desenvolvimento endógeno e de alargamento das desigualdades sociais ao nível dos pequenos centros rurais e o seu impacto sobre os processos, até ao momento irreversíveis, de desertificação humana e de abandono desses lugares que têm servido para estruturar o povoamento a nível nacional. Por via da nossa participação na UE e, também, dos acordos celebrados entre os Estados-Membros, o desenvolvimento da educação passa, igualmente, pela melhoria das condições de aprendizagem e de trabalho, nomeadamente pela aprendizagem ao longo da vida, e pelo contributo das actividades de I&D e sua ligação à sociedade. A relevância destas iniciativas foi aprovada pelo Conselho Europeu, reunido em Lisboa em Março de 2000, que, nas suas conclusões, reforça a importância da formação ao longo da vida como uma estratégia fundamental para o desenvolvimento da educação e da formação na Europa, centrada nos seguintes eixos fundamentais: · aquisição e universalização de novas competências fundamentais, relacionadas com as tecnologias da informação, o domínio das línguas estrangeiras, a cultura tecnológica, o empreendedorismo e novas aptidões sociais; · investimento acrescido em recursos humanos; · inovação no ensino e aprendizagem; · valorização da formação, designadamente nos domínios da aprendizagem formal e informal; · orientação e informação; · aproximação da educação e da formação dos parceiros e empresas. Estes aspectos foram considerados fundamentais para a “uma transição bem sucedida para uma economia e uma sociedade assentes no conhecimento”. Capital humano A noção de capital humano é um dos conceitos usados em economia da educação desde o início dos anos sessenta (CERDEIRA, 1999, p. 36), desenvolvido por G. Becker, que “classificou as características qualitativas dos activos com o termo de capital humano, que definia como um investimento que incluía a escola, a aprendizagem, os gastos (…), a mobilidade geográfica e a pesquisa em informação sobre os preços e rendimentos”. Mais ainda (Loc. cit.): “ a educação aumenta a produtividade do trabalho do indivíduo e a sua acumulação provocará um fluxo de 106 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos rendimento. A educação acumulada pode, então, ser, como qualquer bem capital, associada a uma taxa de rendimento (…).” Por isso, a sua medição “pode ser perspectivada, dum ponto de vista microeconómico ou de um ponto de vista macroeconómico”, sendo que “o capital humano, à partida, é avaliado numa base individual, ainda que posteriormente se possa proceder a agregações” (Op. cit., p. 39). Esta análise permite associar diferentes indicadores em educação, nomeadamente na formação dos recursos humanos, e o contributo desta como um dos factores favoráveis ao crescimento económico e ao acréscimo do PIB por habitante. De acordo com Martins (1996, p. 150), “a educação, segundo esta teoria, contribui para o aumento da produtividade, apresentando-se como um dos factores de crescimento económico (…), e produz os conhecimentos técnicos exigidos pelas mudanças resultantes deste processo (…)”. Assim, como observou Cabanas (1984, p. 47), a relação entre educação e desenvolvimento deve ser entendida numa perspectiva dinâmica, “em que os sistemas educativos produzem resultados capazes de induzir a mudança generalizada de atitudes na população receptiva às ideias de progresso económico, proporcionando um leque de conhecimentos directamente aplicáveis ao processo produtivo, permitindo assim um aumento sensível da capacidade criadora e organizativa de um país”. De facto, como refere Carnoy (1999, p. 41), baseado em estudos da OCDE, “o factor humano é fundamental para a actividade económica, a competitividade e a prosperidade, quer se manifeste sob a forma de saber e de competências quer sob formas menos tangíveis de aceitação, abertura à inovação e de cultura de empresa”. Tal facto tem justificado a relação entre os investimentos em educação, a escolarização, o alargamento dos ciclos de estudos e as mudanças de programas e de métodos de ensino, como capazes de promoverem o progresso e o desenvolvimento técnico e tecnológico. Assim o refere Martins (1996, p. 150), com base em estudos de outros autores, que reconhece “existir uma forte relação, em países como os EUA, URSS e Japão, entre o nível de instrução, o desenvolvimento económico e o progresso tecnológico, verificando-se aumentos na produção como resultado do aumento da instrução da mão-de-obra utilizada”. Estudos recentes continuam a dar realce à relação entre o investimento em educação e o crescimento económico, contributo que, segundo Martins (Op. cit., 153), “não se encontra claramente esclarecido (…), não se assumindo contudo a educação como factor determinante na estrutura e rumo seguido pela economia, mas mostrando-se indispensável à sua acção, quer adequando a mão-de-obra ao sistema de emprego e tecnológico, quer socializando em comportamentos exigidos pelo sistema produtivo e pelo sistema das disfuncionalidades, como é o caso do desemprego”. Este contributo é extensivo às competências e aos conhecimentos dos alunos em áreas específicas, tais como a Matemática e as ciências, os quais são “componentes essenciais do capital humano incorporado na força de trabalho” (IREDU, 2005). De facto, o desempenho dos alunos quando inseridos no mercado de trabalho ou quando submetidos a testes internacionais, como o PISA (“Programme for International Student Assessment”), realçam níveis diferentes de qualidade da educação e da formação revelados pela população escolar, nem sempre coincidentes com os investimentos e as despesas realizadas com o sector de ensino. Jorge Carvalho Arroteia 107 As questões acima referidas não desmerecem a oportunidade dos gastos em educação, como factores relevantes do processo de desenvolvimento económico, social e cultural de um país, numa perspectiva não de investimento individual, mas sim numa perspectiva de investimentos indirectos e sociais, cujos benefícios se podem fazer sentir a médio e a longo prazo e não no seu imediato. De facto, como nota Cerdeira (1999, p. 15), “o investimento na educação pode criar num país, e numa região, uma vantagem competitiva, permitindo que se dirijam novos empreendimentos e investimentos empresariais para essa região, uma vez que existe mão-de-obra qualificada e especializada (…).” Adianta, ainda, a mesma autora ((Loc. cit.) que os investimentos em educação, e a consequente formação de recursos humanos qualificados, “poderão ajudar à localização de novas iniciativas empresariais, elas próprias geradoras de novas fontes de riqueza, desenvolvendo assim o nível de bem-estar da população dessa região”. Tendo presente a evolução dos estudos neste domínio, esta teoria tem vindo a ser criticada em alguns dos seus aspectos, dando origem a novas abordagens, complementares da anterior, mas convergentes, no sentido em que reconhecem que “a acumulação do conhecimento surge como um factor fundamental do desenvolvimento económico” (Op. cit., p. 81), da inovação e do bem-estar das populações. Oferta escolar Por oferta escolar entende-se a disponibilidade de infra-estruturas: edifícios, equipamentos, recursos, cursos e outras acções promovidas pelo poder público e por entidades não públicas, que permitem a escolarização dos alunos ou a frequência de cursos vocacionados para a formação e a capacitação profissional da população. Esta oferta está consubstanciada no traçado de uma rede escolar, constituída por diversos “nós” ou lugares centrais, hierarquizados entre si e com diferentes níveis de acessibilidade em relação à população que servem. De acordo com a Lei de Bases do Sistema Educativo (artº 2), são responsabilidades do Estado e do próprio sistema garantir o “direito à educação e à cultura” de todos os portugueses, bem como “promover a democratização do ensino, garantindo o direito a uma justa e efectiva igualdade de oportunidades no acesso e sucesso escolares”. O mesmo artigo estipula ainda “a liberdade de aprender e de ensinar”, devendo, para o efeito, organizar-se, de modo a: · responder “às necessidades resultantes da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos (…)”; · promover o “desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, respeitador dos outros e das suas ideias (…), formando cidadãos capazes de julgarem com espírito crítico e criativo o meio social em que se integram e de se empenharem na sua transformação progressiva”. Estes aspectos obrigam o Estado a uma definição mais cuidada da sua política educativa, no sentido de favorecer a adequação da rede escolar às necessidades dos seus habitantes e de lhes facilitar as melhores condições de ensino, de promover a fixação e a formação dos seus docentes, de modo a atenuar as condições menos atractivas e os desequilíbrios regionais e sectoriais que se registam em diferentes áreas do nosso território. Por isso, a disponibilidade dos equipamentos educativos, expressa na carta escolar de uma região, constitui um dos 108 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos factores a ter em conta em qualquer processo de democratização do ensino, pelo que este não terá sentido se não for alicerçado num correspondente alargamento da rede dos equipamentos educativos. É neste sentido que se entende a oferta, tendo presente a sua adequação às necessidades da população, o que constitui uma das prioridades do processo de planeamento e um dos objectivos primordiais a prosseguir no âmbito de qualquer reforma do sistema educativo. A oferta escolar compreende o ensino público e o privado, a educação pré-escolar, o ensino básico, o ensino secundário e o ensino superior, na sua diversidade de cursos e de modalidades consideradas na LBSE. Tendo presente o regime actual de administração e gestão dos estabelecimentos de ensino: educação pré-escolar e ensinos básico e secundário, o Dec.-Lei nº 115-A/98, de 4 de Maio, dá ênfase à “organização da administração educativa centrada na escola e nos respectivos territórios educativos”(Preâmbulo e artº 5), estabelecendo o “agrupamento de escolas” como sendo a “unidade organizacional, dotada de órgãos próprios de administração e gestão, constituída por estabelecimentos de educação pré-escolar e de um ou mais níveis e ciclos de ensino, a partir de um projecto pedagógico comum, com vista à realização das finalidades seguintes: a) favorecer um percursos sequencial e articulado dos alunos abrangidos pela escolaridade obrigatória numa dada área geográfica; b) superar situações de isolamento de estabelecimentos e prevenir a exclusão social; c) reforçar a capacidade pedagógica dos estabelecimentos que o integram e o aproveitamento racional dos recursos; d) garantir a aplicação de um regime de autonomia, administração e gestão (…)”. Legislação posterior, nomeadamente o Decreto Regulamentar nº 12/200, de 29 de Agosto (artº 3), fixa os requisitos necessários à constituição de “agrupamento de escolas”, tendo presente, não só a existência de projectos pedagógicos comuns, a construção de percursos educativos integrados e o desenvolvimento da educação pré-escolar, “como primeira etapa da educação básica”, e a articulação entre níveis e ciclos de ensino, mas também a proximidade geográfica, dando, assim, realce às questões de acessibilidade física do território e à oferta educativa. Redes O desenvolvimento da educação, nas suas diferentes modalidades, assenta na intervenção directa sobre os indivíduos, em especial sobre as comunidades humanas, a partir de centros, em regra, sedeados em locais fixos, ou “nós” de uma teia de “lugares centrais”, de onde irradiam ou têm lugar as actividades relacionadas com o ensino, a formação e a investigação. Neste sentido, podemos entender, como elementos estruturantes do sistema de ensino e de formação, a existência de diferentes “nós”, de onde irradiam as actividades de natureza formativa e educativa – as escolas, as associações, os clubes, as colectividades etc. –, que, entre si, formam uma rede de organizações e de instituições, marcadas por diferentes tipos de relação entre si e os seus elementos. São as chamadas “redes materiais”, constituídas pela constelação e hierarquia de estabelecimentos de ensino e de formação, ligadas entre si e, portanto, configurando “sistemas” que animam outro tipo de relações baseadas em contactos e na troca de informação, que animam as redes sociais e as redes de conhecimento. Jorge Carvalho Arroteia 109 Por isso, mais importante que as instalações físicas é o estabelecimento de comunidades de interesses e de aprendizagem, que permitam o funcionamento destes lugares, que os animem e que, através da participação e assiduidade do público, permitam o seu funcionamento e garantam a perenidade destas instituições. Assim, mais do que de “rede escolar” ou “rede de formação”, falamos em redes sociais ou redes de relação, estabelecidas entre os cidadãos, eles próprios, e com as instituições, através das quais se exercem distintas formas de colaboração, de apoio e de influência mútua. Se tivermos em consideração que as actividades sociais desenvolvidas por um grupo de indivíduos têm objectivos comuns, então devemos considerar a existência e partilha de recursos e a utilização de estratégias que permitam atingir determinados fins de interesse colectivo. São vários os exemplos de partilha e de envolvimento individual, familiar, comunitário, e outros, em actividades de voluntariado e não só, com fins educacionais, asistenciais e outros, que fortalecem as redes de coesão social e de intervenção sócio-educativa. Daí a importância destas conexões, necessárias para o lançamento de projectos de intervenção pedagógica e educativa de autoria da escola e de outras instituições, particularmente as que se ocupam de projectos de animação e de intervenção comunitária, especialmente no âmbito da educação social. Como referência, indicam-se as “redes socioeducativas” definidas por Azevedo (2006, p. 39) e identificadas no quadro do projecto “Trofa Comunidade de Aprendentes”: “1. Rede de Instituições TCA, que agrupa quer as instituições que aderem ao TCA e que com esta dinâmica estabelecem ‘cartas de compromisso’, onde se registam direitos e deveres, quer as instituições cooperantes, que se encontram em fase de adesão a esta rede. 2. Rede de Iniciativas TCA, que reúne projectos de aprendizagem, seja em iniciativas do próprio TCA, seja em iniciativas de várias instituições acreditadas pelo TCA. 3. Rede de Mediadores, que congrega todos os mediadores de aprendizagem TCA, articulados em sub-redes de funcionamento, como, por exemplo, os mediadores de instituição, os mediadores de escola, os mediadores voluntários. 4. Rede de formadores, que agrupa os formadores que vão colaborando na formação promovida pelo e com o TCA (…). 5. Rede de técnicos e colaboradores, que reúne a equipa pedagógica que trabalha nas várias dinâmicas do TCA, desde o atendimento pedagógico local até à dinamização de iniciativas. 6. Rede de Serviços e de Unidades Locais de Atendimento, que agrupa os vários serviços existentes e visa reflectir sobre a sua acção e promover a reflexão-formação permanente. 7. Rede de Voluntários TCA, que congrega aqueles cidadãos que se disponibilizam para cooperar com as dinâmicas de aprendizagem e que, nesse mesmo processo, se vão fornmando como voluntários TCA”. O exemplo anteriormente considerado e desenvolvido em colaboração com o ensino superior confirma o contributo deste subsistema no todo nacional e também no âmbito regional, configurando, assim, uma apreciação mais cuidada da importância da rede destes estabelecimentos na formação do “capital humano” e através de outros contributos, no processo de desenvolvimento regional. Economia e educação Sendo a educação considerada uma actividade relevante em qualquer tipo de sociedade, na medida em que contribui para a sua formação humana e pessoal e para melhorar a qualificação e o desempenho profissional dos cidadãos, com incidência no crescimento do sector económico, são múltiplas as relações que se podem estabelecer entre os sistemas económico e educativo. Uma dessas facetas diz respeito ao estudo das relações entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento da educação, nos seus aspectos quantitativo e qualitativo. A este respeito, assinala Girod (1981, p. 46) “que a relação estatística do crescimento do PNB e do aumento do nível (formal) de instrução pode ser interpretado em termos de aumento das competências sobre a produtividade, e assim da rendibilidade dos investimentos educativos”. Ou seja, do contributo dado pelo sistema educativo, no seu conjunto, para a formação de quadros e na investigação, factores que contribuem para o crescimento e expansão dos diversos sectores e actividades económicas de um país. A este respeito, Cerdeira (1999, p. 29-96) refere que “a introdução da educação no campo de análise do economista assenta na hipótese de que os fenómenos educativos jogam um papel activo na economia” (Op. cit., p. 29), sugerindo, por isso, a abordagem deste fenómeno de acordo com diferentes correntes do pensamento económico. Contudo, como realça esta autora ((Loc. cit.), a constatação das relações entre o desenvolvimento económico e educação começou por se tornar evidente a partir da década de sessenta de Novecentos, com a afirmação crescente da economia da educação e o interesse pelas análises “micro-económica do impacto da educação sobre os salários” e “macro-económica do papel da educação e do saber da produção”. Como observa Cabanas (1984, p. 46), o forte desenvolvimento de alguns sistemas económicos ocidentais, chamando a atenção para a presença de um “factor residual” no processo produtivo, não justificável pelo esforço físico, traduzido na “capacidade dessas pessoas para utilizarem produtivamente os recursos naturais e os bens de equipamento, levou-os a considerar o factor então designado de “capital humano”, cuja formação tem como principal obstáculo o analfabetismo da população. De acordo com Cerdeira (Op. cit., p. 35-36): · “a educação provoca um custo, correspondente à soma dos custos directos da escolaridade e os custos indirectos imputáveis à obtenção dos estudos e, ainda, a um custo de oportunidade, que corresponde aos rendimentos que se deixam de ganhar por se permanecer no sistema educativo; · a aquisição deste bem necessita de um certo tempo de ‘produção’, dado que um aluno na sua educação cria, gastando uma certa ‘unidade’ de tempo de um bem (os conhecimentos, o capital educativo), podendo-se supor que ela aumentou a sua produtividade”. 112 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Consumindo a educação verbas cada vez mais elevadas, uma outra vertente desta análise orienta-se, fundamentalmente, para a avaliação global dos gastos em educação, pela sua repartição per capita, bem como para a distribuição dos recursos no interior do sistema educativo. Neste caso, a estrutura dos respectivos orçamentos traduz as opções políticas relacionadas com as despesas correntes, os investimentos e os programas, conducentes à reforma do sistema e à valorização dos recursos humanos que frequentam o sistema de ensino. Esta formação contribui decisivamente para o enriquecimento do “capital humano”, ao mesmo tempo que acarreta consigo diversos tipos de encargos. O conjunto de fenómenos, de natureza económica, tradicionalmente ligados ao funcionamento dos sistemas educativos tem vindo a realçar a pertinência de uma área científica especializada, a economia da educação, inicialmente preocupada com “a apreensão da relação complexa entre as necessidades de pessoal qualificado e a oferta – necessariamente diversificada – das diferentes componentes dos sistemas de educação e de formação, e, por outro lado, para assegurar que as somas postas à disposição destes sistemas eram suficientes e utilizados da melhor forma” (DUVERGER, LADERRIÈRE, 1999, p. 19). Contudo, a sua aplicação na actualidade está relacionada sobretudo com a elaboração, desenvolvimento e avaliação das políticas educativas. Despesas em educação Este conceito contempla os gastos totais com o funcionamento do sistema educativo no seu conjunto e por níveis de ensino, as despesas com os funcionários, a construção, aquisição e manutenção de equipamentos e de edifícios, etc. Estes valores podem ser decompostos em diversas rubricas: despesas de capital, quando se referem a aquisição de terrenos, a construções e à aquisição de mobiliário e de equipamentos; despesas correntes, relativas aos gastos com os pagamentos aos professores e aos funcionários e a outras despesas, englobando os custos gerais relacionados com o funcionamento do sistema. As despesas em educação podem ser de natureza privada, tais como os custos das propinas e de frequência, os transportes, as materiais escolares e outros, suportados pelo aluno ou pela família, ou de natureza pública ou social, que contemplam os custos assumidos pela sociedade em relação ao sistema de ensino e de formação. De realçar que as despesas em educação são condicionadas por diversos factores, dependentes da população escolar e da sua repartição por idades e níveis de ensino, da acessibilidade dos alunos e da configuração da rede escolar, da natureza e do tipo de recursos disponíveis e dos encargos administrativos relacionados com o funcionamento global do sistema, da sua administração e gestão correntes, dos salários, etc. A noção de despesas não se deve confundir com os investimentos individuais (privados), resultantes da frequência das instituições escolares, em qualquer nível de ensino. Nestes custos podemos incluir não só os encargos de frequência, mas também os gastos relacionados com o prosseguimento dos estudos e que impedem uma remuneração efectiva noutra actividade. Como actividade social, as despesas com o financiamento do sistema educativo podem ser apreciadas em separado. Jorge Carvalho Arroteia 113 Financiamento da educação O financiamento da educação abarca as diferentes fontes que garantem a alocação dos recursos necessários ao funcionamento do sistema educativo. As verbas disponíveis podem ter origem quer no sector público nacional, quer no sector público autárquico. Nestes casos, as despesas estão inscritas no orçamento geral do Estado ou no orçamento das Autarquias. Além destas, devem ser igualmente consideradas outras fontes de financiamento, como os próprios alunos e as famílias, as empresas, as associações, alguns programas nacionais e internacionais e, ainda, apoios específicos, provenientes da ajuda internacional. A gestão destes fundos deve ter em conta a aplicação de diferentes critérios, nomeadamente o critério da eficácia (utilização dos melhores resultados académicos com o mínimo de meios); o critério da equidade (através da partilha das despesas, de forma proporcional, entre os diferentes actores e agentes); e o critério da coerência nacional, baseado na sua distribuição no território de forma proporcional e equilibrada. Para efeitos de comparações internacionais, o financiamento expressa-se através do seu valor em % do PIB e em termos globais, que constitui os gastos em educação. Gastos em educação A noção de gastos pressupõe duas concepções distintas: a de custos e a de despesas em educação. Em relação aos custos, esta é uma noção complexa, elaborada a partir quer dos gastos totais com o funcionamento do sistema educativo, no seu conjunto, – funcionários, edifícios, equipamentos, etc., (custos sociais) –, quer dos investimentos individuais (privados), resultantes da frequência das instituições escolares, em qualquer nível de ensino. Da mesma forma, poder-se-á incluir nesta definição o tempo gasto com o prosseguimento dos estudos, que impede uma remuneração efectiva noutra actividade. De acordo com F. Orivel (1993, p. 8), certos estudos evitam o termo custo e preferem o de despesas. De facto, “conhecem-se muito bem as despesas públicas em educação, porque elas figuram nos orçamentos votados no parlamento, orçamentos que são facilmente acessíveis, mas conhecem-se mal as despesas privadas, em particular as das famílias”. Neste caso, os gastos reais das famílias só podem ser conhecidos através de inquéritos directos, sendo que as despesas gerais, por subsistema de ensino, por unidade, por corpos profissionais ou por actividade são devidamente contabilizados nos orçamentos públicos e privados das instituições de ensino e de formação. Pela sua relevância, importa assinalar o caso do ensino superior e o seu contributo no processo de desenvolvimento de um país. Educação Para Durkheim (1968, p. 51), a educação, ou seja, “a acção exercida pelas gerações adultas sobre as que não estão ainda maduras para a vida social”, tem como objectivo principal “suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos, intelectuais e morais exigidos pela sociedade (…) e pelo meio a que pertence”. É um conceito que dá ênfase ao carácter social e global da educação. A forma mais usual desta é a educação formal, que inclui programas escolares, ministrados e avaliados por agentes especializados, e cuja leccionação abarca um conjunto de actividades obrigatórias e facultativas, desenvolvidas dentro ou fora da escola. Esta perspectiva confere à educação activa um papel relevante na formação do educando ou aluno através de uma “relação adaptativa optimizante que se consuma mediante a comunicação e a acção” (PUIG, 1987, p. 237). Neste caso, os agentes principais são a escola, a família, o meio e, nalguns casos, também, a profissão. Complementarmente a esta acção, nota o mesmo autor a importância da educação permanente, direccionada especialmente para indivíduos em idade adulta. Para o cumprimento das finalidades que a sociedade espera, a educação deve reunir, de acordo com Rayo (1998, p. 11), um conjunto de requisitos fundamentais que se prendem com o funcionamento do sistema educativo, no seu conjunto, e com a acção dos diferentes actores, em particular. Para tanto, sublinha o referido autor que esta “precisa de ter finalidades e objectivos que assinalem as metas fixadas; de conteúdos e estratégias que permitam conciliar o mundo dos saberes disciplinares com aqueles outros aspectos necessários para o desenvolvimento pessoal como os valores e o desenvolvimento das capacidades sociais e afectivas; de métodos apropriados e de técnicas que permitam a comunicação, participação e cooperação; a aproximação intelectual e afectiva aos problemas da sociedade; de modelos de avaliação que valorizem os progressos alcançados e as dificuldades inerentes a um projecto humano tão ambicioso”. A perspectiva que partilhamos é a de considerar não só os aspectos relativos à educação formal, mas outras iniciativas complementares, relacionadas com o ensino, a investigação e a formação, assumidas por entidades diversas, que não só as entidades públicas oficialmente responsáveis pelas mesmas através da concepção, desenvolvimento e avaliação de um conjunto de iniciativas pedagógicas e outras, que espelham a política educativa de um Governo. Estas podem atender à educação formal, à educação não formal ou, ainda, à educação ao longo da vida, relacionada com a formação pessoal e individual e o(s) processo(s) de desenvolvimento socioeconómico e cultural de um país. Referimos diversas formas de educação. 116 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Educação de base A educação de base pode ser entendida como sendo a instrução e formação que deve ser assegurada a cada indivíduo no sentido de lhe permitir desenvolver as suas capacidades individuais e a inserção na sociedade em que vive. Esta formação é assegurada pela organização escolar, decorrente da escolarização num período variável e da vivência de um conjunto de princípios que assegurem uma vida cívica e a fruição dos direitos humanos fundamentais. Pode confundir-se a educação de base com a educação regular e formal, dirigida à população jovem e adulta, de carácter obrigatório, gratuito e universal. No que respeita a realidade portuguesa, a educação de base corresponde ao ensino básico, “universal, obrigatório e gratuito” (artº 6 – LBSE), uma vez que a educação pré-escolar é considerada como “complementar ou supletiva da acção educativa da família, com a qual estabelece estreita cooperação” (artº 4), no “reconhecimento de que à família cabe um papel essencial no processo da educação pré-escolar” (artº 5). Para os alunos que prosseguem os estudos para além do ensino básico, estabelece ainda o artº 4 que a educação escolar compreende os ensinos básico, secundário e superior, e “integra modalidades especiais e inclui actividades de ocupação de tempos livres”. Educação de adultos Não se esgotando na escolarização obrigatória, as aprendizagens fora deste período, sobretudo em idade adulta, podem superar as necessidades e as carências de uma formação de base ou vindo a completá-la em alguns dos seus aspectos. É o caso do ensino recorrente de adultos, destinado aos indivíduos “que já não se encontram em idade normal de frequência dos ensinos básico e secundário” (artº 20º – LBSE) e que desejam prosseguir estudos, especialmente por razões de natureza profissional e cultural. Na sociedade actual, a educação permanente e ao longo da vida torna-se necessária dada a obsolescência dos saberes e a evolução técnica e tecnológica que experimentamos. Assim, assinalaram Rassekh e Vaideanu (1987, p. 141): a educação permanente “constitui uma resposta original e adequada aos desafios da era actual e o único meio de preparar o indivíduo a participar e a exprimir-se, a defender os seus direitos e valores fundamentais duma sociedade democrática, a auto instruir-se e a evoluir de forma eficaz numa sociedade marcada por mudanças previsíveis e imprevisíveis”. De notar que os diversos tipos de educação, formal, não formal e informal, têm um papel complementar na formação permanente do indivíduo, em particular dos que experimentaram saídas prematuras do sistema de ensino. De acordo com a LBSE, o ensino recorrente de adultos, embora “parte integrante da educação escolar”, constitui uma modalidade especial de educação escolar (artº 16). Abrange não só os alunos que “já não se encontram na idade normal de frequência dos ensinos básico e secundário”, mas também os “indivíduos que não tiveram oportunidade de se enquadrar no sistema de educação escolar na idade normal de formação, tendo em especial atenção a eliminação do analfabetismo” (artº 20 – LBSE). A organização curricular, metodologias de ensino e avaliação são específicas ao ensino recorrente, que confere diplomas e certificados equivalentes aos do ensino regular, ou seja, ao ensino ministrado de acordo com o estipulado na LBSE. Jorge Carvalho Arroteia 117 Educação não formal Esta designação genérica abarca o conjunto de conhecimentos adquiridos fora do sistema formal de ensino, sem finalidades pedagógicas, sendo veiculada por diversos meios e agentes de ensino e de socialização que, assim, concorrem com a instituição escolar. Para Cabanas (1984, p. 49), a educação não formal, também designada por educação “informal”, corresponde ao ensino extra-escolar, “englobando o conjunto de meios e de recursos não escolares disponíveis e utilizados com fins formativos e/ou instrutivos”. Nesta perspectiva se refere à “educação extra-escolar” a LBSE, que, no seu artº 4, estabelece: “a educação extra-escolar engloba actividades de alfabetização e de educação de base, de aperfeiçoamento e actualização cultural e científica e a iniciação, reconversão e aperfeiçoamento profissional e realiza-se num quadro aberto de iniciativas múltiplas, de natureza formal e não formal”. A educação não formal está, assim, associada a actividades de educação da população adulta, relacionadas com as aprendizagens, conducentes a uma socialização de grupos específicos de habitantes, quer registem ou não ameaças de exclusão social. De realçar que, para além destas acções, hoje em dia o papel dos meios de comunicação social (imprensa, rádio, cinema, televisão, Internet, etc) tem vindo a desempenhar um papel relevante na formação dos cidadãos. Uma das características essenciais da educação não formal é a sua orientação para os interesses do indivíduo, adquiridos através de actividades extra-escolares e, muitas vezes, sem qualquer ligação com os planos de ensino veiculados pela escola. Abarcando conhecimentos muito vastos e uma formação cultural bastante diversificada, em concordância ou não com os programas escolares, a educação não formal (também designada por educação paralela) tem vindo a beneficiar dos instrumentos de “comunicação de massas”, sendo cada vez maior a sua importância nas “sociedades industriais” e nas “sociedades de informação” dos nossos dias. Embora associada aos diversos agentes de socialização, a educação paralela contribui, pela sua articulação e integração com os diversos saberes, para fomentar a educação permanente e ao longo da vida. Educação comparada A actualidade de estudos, incidindo sobre realidades distintas dos sistemas educativos em contextos societais diversificados, tem vindo a ganhar um número crescente de adeptos entre algumas organizações internacionais, associações científicas, investigadores e classe política, que procuram conhecer os efeitos das reformas, da inovação e a mudança nos sistemas educativos e sobre os sistemas sociais. Estes estudos têm como referência o desenvolvimento e autonomização crescente da educação comparada, “consagrada, tradicionalmente, ao estudo internacional dos sistemas educativos” (NÓVOA, 1998, p. 52), e o trabalho de Marc-Antoine Jullien de Paris (1817) – “Esboço e noções preliminares de uma obra sobre Pedagogia Comparada”. Descreve o seu autor ser uma obra “empreendida primeiro para os vinte e dois cantões da Suíça e para algumas partes da Alemanha e da Itália (…) e séries de questões sobre a educação, destinadas a fornecer os materiais das ‘Tábuas comparativas de observações’, para uso dos homens que, querendo dar-se conta da situação actual da educação e da instrução pública nos diferentes países da Europa, estiverem dispostos a concorrer para o trabalho de conjunto de que se expõe aqui o plano e objectivo” (JULLIEN DE PARIS, 1967, p. 17). Este entendimento foi partilhado por G. Meuris (ARROTEIA, MEURIS, 1993, p. 39), que afirma “la pédagogie comparée, discipline qui relève des sciences de l’éducation, a pour domaine l’analyse et interpretation des pratiques et des politiques en matière d’éducation dans différents pays et différentes cultures”. Beneficiando do progresso das ciências e do aprofundamento de diferentes estudos, sugeridos por antigos percursores, tais como Xenófanes, Tácito, Plutarco ou já Marco Polo (ARROTEIA, MEURIS, 1993, p. 45-46), educação comparada é, hoje, uma ciência que resulta, no dizer de Meuris (Op. cit., p. 47), do fenómeno de internacionalização do mundo contemporâneo, que levou a que os decisores políticos orientem as suas opções “en tenant compte des solutions adoptées ailleurs afin de rechercher les formules les plus pertinentes et les plus efficaces por le développement de leur pays”. Tais preocupações permitem uma “grelha de leitura para os esforços desencadeados por diferentes gerações de comparativistas com vista à consolidação do seu campo de investigação e de acção” (NÓVOA, 1998, p. 62). Este autor (Op. cit., p. 62-63) considera quatro aspectos fundamentais a ter em conta neste domínio: a ideologia do progresso, um novo conceito de ciência, a ideia de Estado-nação e a definição do ‘método comparativo’. Note-se que a importância que os sistemas educativos assumem na actualidade, por se terem tornado em complexas organizações sociais e como garante das expectativas de socialização, alfabetização e de formação dos habitantes de qualquer país, justifica o interesse que hoje em 120 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos dia se atribui ao estudo quer das suas características globais – organização, funcionamento, valores e objectivos –, quer na atenção que é dedicada a alguns dos subsistemas que os compõem. Por outro lado, o conhecimento actual dos sistemas educativos e das reformas em curso torna-se cada vez mais imperioso no contexto da globalização económica e social e da apreciação dos factores de crescimento dos diferentes países do globo. Neste sentido, o conhecimento dos sistemas educativos é relevante não só para efeito de comparações internacionais, justificadas pela crescente interdependência das sociedades e dos grupos sociais, mas também pelas necessidades de análise da realidade social que está subjacente ao seu modo de funcionamento, de organização e aos resultados finais, traduzidos na qualidade e desempenho dos diplomados. No contexto da Europa Comunitária, estas comparações tornam-se necessárias, não tanto para efeitos de uma harmonização das políticas educativas dos países que fazem parte da UE, mas porque a mobilidade, que, hoje em dia, constitui um dos pilares da construção europeia, assim o exige. Por esta razão, justificam-se as múltiplas reflexões que se vão desenvolvendo, tendo em atenção os sistemas educativos, no seu conjunto, ou apenas algumas das suas facetas, relacionadas com os fenómenos educativos e com as suas múltiplas relações sociais. Dos trabalhos a destacar, podemos apresentar como exemplo o estudo comparativo realizado por Eurydice (1997), expressando mais o “ponto de chegada das reformas do que o ponto de partida” (Op. cit., p. 9), das inovações introduzidas nos sistemas educativos dos países da UE e da EFTA. Este estudo contém informações sobre as reformas levadas a cabo entre 1984 e 1994, sobre a situação específica nos 15 países da UE e em 3 outros pertencentes à EFTA/EEA e sobre o conjunto dos sistemas educativos, descriminando os aspectos seguintes: objectivos, estrutura da educação obrigatória, administração da educação, curriculum, professores e sua formação, medidas compensatórias das desigualdades, serviços de apoio educativo e avaliação e inspecção do sistema. De acordo com Garrido (1991, p. 54), quando se estudam os sistemas estrangeiros de educação não devemos esquecer que tudo o que ocorre fora das escolas tem a maior importância, como o que acontece dentro, e influencia, servindo, por sua vez, de interpretação, aos factores internos. Desta forma, o contexto histórico-cultural que rodeia as diversas instituições e componentes do sistema educativo constitui a primeira realidade a conhecer quando nos debruçamos sobre os sistemas educativos. Assim, como assinalam Rassekh e Vaideanu (1987), nas suas finalidades, estruturas, processos, conteúdos e métodos, estes são influenciados por duas ordens de factores: os factores exteriores – factores sócio-económicos e culturais – e os factores internos ou dinâmica própria do sistema. Nestas circunstâncias e de acordo com um dos autores que primeiramente atendeu à comparação entre os sistemas educativos, Nicholas Hans (1961), a chave capaz de explicar as diferenças entre eles é o carácter nacional alicerçado: na unidade da raça, da língua e religião, no território e na soberania política (GARRIDO, Op. cit., p. 61). Embora tratando-se de um dos primeiros contributos para explicar o carácter nacional, chave da explicação dos sistemas educativos, outros factores foram, mais tarde, incorporados pelos autores americanos Cramer – Browne (1967), que consideraram como factores fundamentais na construção do carácter nacional e dos sistemas educativos: o sentido de unidade nacional; Jorge Carvalho Arroteia 121 a situação económica geral; as crenças e tradições básicas, incluindo nelas o legado religioso e cultural; o status do pensamento educacional; os problemas linguísticos; o regime político: comunismo, fascismo, democracia; e a postura colectiva, referente à cooperação e compreensão internacionais (GARRIDO, Op. cit., p. 62). Reconhecendo o interesse dos princípios anteriormente enunciados como essenciais para a compreensão e explicação dos sistemas educativos, mesmo na actualidade, verificamos que outros factores podem ainda ser incorporados, desta vez relacionados com o crescimento económico e a evolução sociopolítica, factos que, no contexto das actuais sociedades, valorizam, ainda mais, os estudos em Educação Comparada. Na verdade, esta, como “ciência social em geral, ganha uma responsabilidade social acrescida, sobretudo na compreensão para a compreensão do outro, como ser diferente, mas semelhante, através da descoberta de novos horizontes de comunicação” (FIGUEIREDO, 2001, p. 75). Note-se que a esta ciência não deve ser reservada, apenas, a interpretação e explicação da situação presente (perspectiva demasiado estática), mas deve ajudar-nos, ainda, na identificação das alterações previsíveis e da evolução dos sistemas educativos, reafirmando-se, assim, uma outra perspectiva mais dinâmica, indispensável ao Planeamento e à Política Educativa. Foi este, aliás, o entendimento de um dos comparativistas contemporâneos, Rosselo, (1974) quando há algumas décadas afirmou: a Educação Comparada deve ajudar-nos não só a discernir o ritmo da evolução da educação, mas também das reformas e das mudanças que resultam desta evolução acelerada. Da mesma forma, deverá auxiliar a elaboração de prognósticos sobre o futuro. Estudos actuais, da responsabilidade de diferentes organismos internacionais, tais como a UNESCO, a OCDE, o Conselho da Europa e a União Europeia, apoiam e justificam o interesse e o desenvolvimento autónomo desta ciência. Por sua vez, o crescente interesse em torno da análise das diferentes situações e contextos da realidade sócio-organizacional e institucional que é a escola – como elemento fulcral do sistema educativo – tem justificado múltiplas reflexões, levadas a cabo em encontros da especialidade, da Sociologia à História e Filosofia da Educação, das Didácticas e Metodologias à Administração e Gestão Escolares, reforçando, cada vez mais, o interesse e o aprofundamento dos estudos no âmbito da Educação Comparada. Por nos parecer oportuno, não deixamos de anotar algumas das reflexões que Garrido (1991, p. 92-96) elaborou sobre esta ciência e sobre o seu objecto: 1. Não existe uma ciência comparativa da educação, mas apenas uma metodologia – a metodologia comparada – aplicada à educação; 2. Existe uma ciência comparativa da educação porque existe um método comparativo aplicável aos problemas educativos; 3. Existe uma ciência comparativa da educação porque esta dispõe de um objecto específico, embora sem metodologia própria; 4. A Educação Comparada é, fundamentalmente, uma “Geografia da Educação”; 5. A Educação Comparada é, também, a “História Comparada da Educação Contemporânea”; 6. A Educação Comparada é o estudo comparado dos sistemas educativos existentes no mundo de hoje. 122 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Quanto à sua finalidade, parece-nos evidente não só o seu cariz meramente teórico, mas também o carácter prático e o contributo dos estudos de natureza comparada que incidam quer sobre os sistemas educativos na sua configuração e estrutura organizacional (GASPAR, 1996), em relação às reformas educativas (FIGUEIREDO, 2001), ou sobre subsistemas de ensino em particular, como o ensino secundário (AZEVEDO, 2000) e profissional (PARDAL et al., 2004). Baseados na capacidade humana de observação, de descrição, de compreensão temporal e espacial, de estudos de caso, da experimentação de alguns dados observados, a Educação Comparada recorre a metodologias que são próprias das ciências analíticas e sintéticas. Dentro das primeiras, cabe o recurso à metodologia descritiva e experimental; dentro das segundas, beneficia da metodologia histórica e comparativa. Note-se que a investigação realizada no âmbito desta ciência não se deve afastar dos trâmites seguidos pelas outras ciências sociais, reconhecendo-se, no entanto, como primordial, o conhecimento do contexto social e das relações entre os diversos sistemas que com ele interactuam. Esta postura segue, aliás, as recomendações de Gurvitch (1979, p. 17-18), quando afirma ser essencial o conhecimento da realidade social, considerada em todas as suas escalas, em todos os seus aspectos (por exemplo: estruturais e a-estruturais), de todos os níveis, todas as escalas e aspectos da realidade social. Como este autor, defendemos que a análise dos factos sociais deve orientar-se para a realidade social presente e não apenas para a passada; deve considerar o conjunto dos “fenómenos sociais totais” e não somente uma parte dessa realidade, ultrapassando, assim, a mera observação da “crosta exterior da sociedade”, ou seja, as manifestações de carácter social que mais facilmente reconhecemos. Justifica-se, desta forma, que a nossa atenção incida não só na mera descrição dos fenómenos sociais, mas acima de tudo na sua explicação e na procura da metodologia adequada que permita a compreensão da realidade social, tendo embora presente as precauções decorrentes da análise comparativa, garantindo a objectividade e rigor científicos e evitando qualquer mutilação da realidade e dos fenómenos sujeitos a comparação (SANTAMARIA, 1990, p. 81). A necessidade de se prosseguirem, na actualidade, comparações internacionais entre os sistemas educativos de diferentes países levou à apresentação, pela UNESCO, de um sistema de classificação internacional normalizada da educação – International Standard Classification of Education (ISCED) –, a qual está dividida em sete níveis educativos, correspondentes aos seguintes sub-sistemas e modalidades: · ISCED 0 – Ensino pré-escolar; · ISCED 1 – Ensino básico (1º e 2º ciclo); · ISCED 2 – Ensino básico (3º ciclo); · ISCED 3 – Ensino secundário; · ISCED 4 – Ensino pós-secundário; · ISCED 5 – Ensino superior (bacharelato e licenciatura); · ISCED 6 – Ensino superior (mestrado, doutoramento e pós-doutoramento). Educação em centros urbanos O reconhecimento da importância da evolução social, “como um conjunto de estágios através dos quais todas as sociedades passam de simples a complexas e de homogéneas a heterogéneas” (HORON, HUNT, 1980, p. 63), constitui um fenómeno que nos ajuda a compreender a especificidade dos fenómenos educacionais, em áreas de forte concentração humana, de maior atracção e convergência de bens, e de actividades humanas, bem como de populações de origem (geográfica e social) diferenciadas, como sejam as cidades. Reconhecem os mesmos autores (Op. cit., p. 67) que, “usualmente, as grandes cidades têm sido a sementeira da civilização, ao passo que o desenvolvimento cultural tem sido mais restrito nas áreas rurais isoladas”. Esta constatação exige uma maior atenção à acção pedagógica e educativa levada a cabo em escolas dos centros urbanos, que não só os de maior dimensão, mas também nas cidades médias, dotadas de diferentes tipos de equipamentos, serviços e recursos educacionais. Tal facto justifica-se, ainda, pela natureza do capital cultural urbano e pela relação de sociabilidade entre os habitantes da mesma comunidade urbana ou entre estes e os das comunidades rurais mais próximas, cada vez mais atraídos pelos centros urbanos, dotados de outros tipos de equipamentos sociais e culturais e de melhores acessibilidades em relação à sua disponibilidade e utilização. Estas circunstâncias, que ajudam a compreender o movimento, complexo, de desertificação rural, iniciado com a industrialização e urbanização mais recente, trouxe um conjunto de alterações demográficas do tecido urbano, traduzidas, geralmente, pelo esvaziamento residencial do centro e pela construção, na periferia, de bolsas de habitantes marcados por determinados traços profissionais, étnicos e culturais. Nestas circunstâncias, a construção de novas identidades urbanas tem vindo a tornar-se cada vez mais complexa, decorrente de fenómenos associados à mobilidade geográfica e social e à “deslocalização” e “relocalização” de novos moradores, dando origem a acções complexas e a programas de intervenção social e educional, conduzidos especialmente pelo poder local. A realidade urbana actual, objecto de estudo de diferentes disciplinas (Geografia, Ecologia e Sociologia), tem vindo a dar origem a diferentes abordagens que realçam a importância das dinâmicas sociais e de identidade social que ocorrem nas diferentes áreas urbanas, decorrentes das novas formas de ‘habitat’ e da composição social dos moradores (MENDRAS, FORSÉ, 1983, p. 68). Este facto faz-nos evocar diversos tipos de análise, tais como os de Morris (1972), Castells (1973), Chevalier (1977), Faria (1981) ou outros mais recentes, que assinalam diferentes aspectos da “simbólica urbana” – expressiva “da acção das práticas culturais e resultantes das relações (tensões) sociais existentes numa dada conjuntura de uma formação social” (FARIA, 1981, p. 154) – e as suas relações com as práticas educacionais. 124 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Um estudo de Fernandes (2005, p. 247) recorda-nos ser necessário “atender às tendências que atravessam as sociedades actuais, aos processos de desestruturação e de reestruturação que as animam, para que se afirmem e se protejam os direitos do homem e se encontrem formas de inclusão de todos e não de indigna exclusão”. Tal situação é tanto mais actual quanto mais se fazem sentir os efeitos do “êxodo rural”, responsável pela desertificação acrescida das áreas outrora dominadas pela agricultura de subsistência ou por iniciativas empresariais de índole industrial, em decadência, e pelos efeitos da “globalização”, marcada pela intensificação dos fluxos migratórios. Recordam-nos alguns dos teóricos da geografia locativa os efeitos da acessibilidade, não só no preço dos solos urbanos, mas também na distribuição dos equipamentos sociais. Assim, as áreas mais distantes dos centros vitais de qualquer centro urbano tornam-se locais privilegiados para a fixação de indivíduos com menores recursos, o que pode igualmente acontecer num processo de desvitalização dos centros urbanos, quando são invadidos pelas actividades terciárias e estas, por razões do próprio mercado, se vêem obrigadas a mudar de local e de instalações. Contudo, mesmo dentro dum espaço urbano, as condições de acessibilidade alteram-se, como se modifica a composição das famílias e dos habitantes que aí residem. Por isso, será de esperar que o público escolar e as ofertas de formação acompanhem estes processos complexos de urbanização dos espaços urbanos, dadas as maiores oportunidades de frequência e acessibilidade aos centros educativos e de formação. Entendendo ser a escola um dos equipamentos básicos e fundamentais determinante de alguma “nodalidade”, no seio do tecido urbano, será de esperar que ela venha a desempenhar funções distintas dentro do mesmo espaço e funções semelhantes em espaços contíguos. Daí que as funções que esta deve desempenhar, nomeadamente as de socialização, personalização, capacitação e mudança social, devam ser entendidas como algumas das tarefas primordiais que a escola deve continuar a assegurar nos meios urbanos. E mesmo que a população residente na sua área directa de influência não seja homogénea, a socialização alcançada por diversos meios e dirigida a públicos diferenciados deve facilitar a integração de todos no meio social e diversificado onde vivem. Igual responsabilidade tem a escola no que concerne ao facilitar o desenvolvimento da personalidade de todos os seus alunos, de promover as diferentes aprendizagens e a divulgação de valores que garantem a construção de uma matriz cultural própria, designada por vezes de “cultura urbana”, embora diferenciada e expressa na personalidade de cada um dos residentes urbanos. A preparação para a vida activa, sendo embora uma tarefa difícil de prosseguir e dependente não só das heranças culturais, mas também das características do meio social e empresarial envolvente, é primeiramente garantida, de forma ampla, pelo modelo das aprendizagens e pelas propriedades individuais dos alunos. Contudo, a integração destes indivíduos no tecido produtivo constitui-se como decorrente dos processos locativos de implantação das actividades produtivas e dos serviços implantados, de forma diferenciada e distinta, no tecido urbano e peri-urbano. Finalmente, em qualquer sociedade, a mudança social, desenvolvida à sua escala e no seu microcosmos próprio pela escola, constitui outra das funções primordiais da educação e da escola que estamos a considerar. O enunciado destes pressupostos não esconde o rol de dificuldades que, hoje em dia, competem à escola, em particular, e à educação, em geral, no contexto das sociedades modernas Jorge Carvalho Arroteia 125 e pós-industriais em que vivemos. Identificar as sensibilidades e os interesses das diversas comunidades que residem nestes centros urbanos, bem como desenvolver projectos que contemplem o desenvolvimento humano da população que as habita, qualquer que seja a sua herança cultural e a orientação das suas expectativas pessoais e sociais, constitui um dos desafios a que todos temos e devemos saber responder. Por estas razões, projectos distintos têm vindo a ser aprofundados, considerando a especificidade das comunidades urbanas no seu todo e o seu contributo na elaboração de projectos educacionais que ponham em relevância a interacção dos seus moradores e o seu envolvimento em projectos de interesse colectivo. O exemplo a referir é o dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária – TEIP – criados em 1996 (Despacho nº 147-B/ME/96, de 8 de Julho). De acordo com Costa, Neto-Mendes e Sousa (2001, p. 17), os TEIP têm como objectivo geral a “promoção escolar da educação básica, muito em particular das crianças e dos jovens em situação de risco de exclusão social e escolar”, através de: “a) Melhoria do ambiente educativo e da qualidade das aprendizagens e do sucesso dos alunos; b) Uma visão integrada e articulada da escolaridade que favoreça a aproximação dos três ciclos do ensino básico, bem como da educação pré-escolar, favorecendo o desenvolvimento e integração das múltiplas dimensões educativas (a educação de adultos, a iniciação profissional, a educação especial, o apoio psicopedagógico e a orientação escolar e profissional, a acção social escolar e a saúde); c) A criação de condições que favoreçam a ligação da escola à comunidade e à vida activa, designadamente ajustando a oferta educativa aos projectos das comunidades e implicando e co-responsabilizando as comunidades nos processos educativos; d) A optimização dos recursos, através da sua gestão integrada, ao serviço da ‘progressiva coordenação das políticas educativas”. O leque e calendário de iniciativas acima referidas estão definidos no Projecto Educativo de Escola. A este respeito, evocamos Rodríguez (1992, p. 31), que defende caber à escola um papel relevante na defesa e oferta de valores relacionados com a participação, a liberdade, a responsabilidade, a justiça e a solidariedade. Mais ainda (Op. cit., p. 53), a sua acção pedagógica fica enriquecida se cultivar a autodisciplina, a capacidade de reflexão, a disponibilidade crítica, a alegria, a generosidade e o desejo de aventura. Estes aspectos, se aliados à existência de recursos diferenciados, têm vindo a permitir o desenvolvimento de iniciativas que se aglutinam em pressupostos teóricos e pedagógicos da cidade, como espaço de aprendizagem, de socialização, de vivência colectiva, de integração e de aprofundamento da cidadania, no âmbito de projectos relacionados com a “cidade educadora”. Como nota Azevedo (2006, p. 52), “a cidade, lugar onde se concentra a maior parte dos seres humanos sobre a terra, também pode ser pensada como pedagogia, como comunidade de aprendizagem. E a pedagogia está no coração da cidade (…) porque a cidade reconhece a centralidade do humano nos processos de desenvolvimento das pessoas e das comunidades que fazem a cidade”. Tal entendimento vai ao encontro do que Rodríguez (1992, p. 68) defendeu, considerando que a “função da escola centra-se em transformar, em levar os seus 126 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos alunos da informação à cultura; da dispersão à integração; da abundância de recursos à auto-organização; das possibilidades tecnológicas à liberdade”. Estas são algumas das razões que sugerem uma maior atenção à acção pedagógica e educativa nos centros urbanos e nas respectivas áreas metropolitanas, bem como às dinâmicas socioeducativas que aí se têm vindo a desenvolver, sobretudo no contexto actual, marcado pelo aumento da sua atracção sobre as populações rurais e pela miscigenização da sua população. Estes fenómenos sociais são acompanhados de processos específicos, relacionados com o ordenamento do território, marcado pela desertificação crescente das áreas identificadas com uma maior ruralidade, em detrimento das áreas urbanas dotadas de outras oportunidades laborais, culturais e de protecção na assistência e saúde. Se tomarmos em conta a realidade portuguesa e sua evolução próxima, verificamos que os padrões de distribuição dos habitantes se têm vindo a alterar, devido não só à desertificação de certas áreas rurais, mas também ao crescimento dos centros de maiores dimensões – as cidades, as vilas e outras povoações –, que passaram a oferecer certos tipos de equipamentos próprios das povoações de maior dimensão. Assim, de acordo com os dados do último censo da população (INE, 2002, XLVII), verifica-se o seguinte: · “Em 2001, cerca de 55% da população residia em lugares com 2000 ou mais habitantes (558 lugares). A evolução na última década foi no sentido da concentração da população, com a população residente em lugares com 2000 ou mais habitantes a crescer a um ritmo 4 vezes superior ao crescimento global da população, sendo que a população residente em lugares de menor dimensão ou residuais decresce 8%. · O Continente detém 96% da população residente nestes aglomerados, sendo que os restantes 4% se distribuem de forma aproximadamente igual pela Madeira e Açores. · A rede urbana de Portugal Continental é ainda em 2001 bastante desequilibrada, caracterizada por uma macrocefalia bicéfala (sustentada nas Áreas Metropolitanas e centrada em Lisboa e Porto) e por uma proliferação de aglomerações na faixa atlântica, que se estende da Península de Setúbal ao Minho-Lima, concentrando 85% da população e 76% dos lugares do continente (incluindo os principais vales sub-regionais). · Em termos de hierarquia de lugares, destacam-se Lisboa e Porto (ainda que o primeiro tenha mais do dobro dos residentes do segundo) e, se forem excluídos os aglomerados interiores, as Áreas Metropolitanas (que detêm, no seu conjunto, 60% da população do Continente a residir neste tipo de aglomerados); seguem-se Braga, Funchal, Coimbra, Guimarães, Leiria, Évora, Faro e Aveiro. Relativamente aos aglomerados dos Açores, é de notar que Ponta Delgada aparece apenas na 25ª posição, com cerca de 20.000 habitantes”. O interesse pela especificidade da educação nos centros urbanos, particularmente nos de maiores dimensões, constituídos por verdadeiros “mosaicos demográficos e culturais”, é um assunto que tem vindo a ganhar novos adeptos com a criação do movimento internacional das “Cidades educadoras”, fundado em 1990, em Barcelona, e regido pela adopção de uma Carta de Princípios, que é representado pelas autarquias, com o objectivo de melhorarem a qualidade de vida dos seus habitantes, “através da prioridade política ao investimento cultural e à aprendizagem ao longo da vida” (AZEVEDO, Op. cit., p. 58). Educação e desenvolvimento A análise da evolução das sociedades, nas suas diversas dimensões, económica, cultural e outras, tem vindo a merecer diversos tipos de explicação por parte de cientistas sociais. Assim, a importância concedida à educação, como factor de crescimento socioeconómico e de desenvolvimento humano, tem a ver com a constatação, no período seguinte ao da Segunda Guerra Mundial, coincidente com a fase de reconstrução económica e social da relação existente entre os níveis de crescimento económico e os investimentos em educação. De facto, a relação entre a educação e o desenvolvimento económico foi entendida pelos fundadores da Unesco, os quais, de acordo com Holmes (1983, p. 13), “lançaram a ideia de que a educação podia permitir uma melhoria do nível de vida e assegurar a paz e a democracia”. Outros organismos internacionais, entre os quais a OCDE, assim o entenderam e em conferência internacional, promovida por este organismos, realizada em Paris, no ano de 1966 – “Conférence sur les politiques de croissance économique et d’investissement dans l’enseignement”, tem vindo a ser aceite, muito embora os modelos desenvolvimentistas de então tenham vindo a evoluir, realçando a oportunidade e interesse da articulação entre as políticas educativas e as demais políticas sociais e de emprego, nomeadamente as que respeitam ao desenvolvimento local e regional. A partir de então, diversos trabalhos e pesquisas promovidas por este organismo internacional e por outras entidades têm chamado a atenção para este facto, não obstante as flutuações recentes, relacionadas com a emergência de diferentes ciclos de crescimento e de crise, chamarem a atenção para a existência de diferentes factores, promotores deste processo, relacionando-o, em muitos casos, com as etapas de desenvolvimento económico. Numa abordagem essencialmente económica, Rostow (1966) considera cinco etapas fundamentais na sua evolução: sociedade tradicional, pré-condições para o arranque, arranque, marcha para a maturidade e era do consumo de massas (Op. cit., p. 14). Tendo presente que o crescimento económico e o desenvolvimento do ensino andam associados e que este deve traduzir-se não só no desenvolvimento individual do aluno, mas também no bem-estar económico e político da sociedade, Beeby (1967, p. 45) chama a atenção para a existência de diferentes factores “que justificam o conservantismo num sistema escolar em quase todos os níveis de desenvolvimento”. Serve-se, para tanto, do exemplo da classe docente (Op. cit., p. 46-50), justificando essa situação na falta de metas nítidas: “as metas básicas da educação são menos claramente definidas do que as da maioria das outras profissões (…)”; compreensão e aceitação: “poucas reformas no conteúdo e no método de ensino têm qualquer valor até que sejam compreendidas e aceites de boa vontade pelos professores que devem aplicá-las (…); professores, o produto do sistema: “eles tendem a incorporar em si mesmos as 128 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos virtudes e os defeitos do sistema e, contudo, só através deles é que este pode ser reformado (…)”; isolamento do professor e limite da habilidade dos professores”. Passadas várias décadas sobre o enunciado destes problemas, devemos considerar a emergência de novas questões educacionais, relacionadas com este tema. Assim nos recorda Martins (1996, p. 151), ao afirmar que “não pode, contudo, ser atribuída uma importância exagerada à educação no desenvolvimento económico, já que este dependerá de um conjunto de factores políticos, económicos (nacionais e internacionais) e sociais”. Mesmo assim, importa realçar como os indicadores nacionais e internacionais ilustram, globalmente, as diferenças entre as regiões potenciadores de níveis de desenvolvimento mais elevado e as que registam melhores níveis de escolarização e de ensino-formação dos seus cidadãos. Esta constatação é evidente, sobretudo, no ciclo actual, marcado pela emergência da globalização e da sociedade de conhecimento, em que a modernização dos sistemas sociais e educativos e o domínio das novas tecnologias surgem como primeiros responsáveis pela mudança social e inovação tecnológica, potenciadores de elevados níveis de instrução e de bem-estar da população. Há, no entanto, que referir a necessidade de estudos parcelares, conduzidos à escala regional e local, que podem pôr em causa a aplicação de certos tipos de investimentos em educação e formação e o seu aparente não-retorno em termos de empregabilidade dos cidadãos. Contudo, como nos recorda Azevedo (1998), “a formação e a qualificação geral dos cidadãos constituem um pré-requisito cada vez mais imprescindível em ordem à sua participação social, numa sociedade crescentemente exigente em informação e, sobretudo, em termos de conhecimento”. Assim se compreendem os esforços que assentam no pressuposto de que a “educação é o motor do desenvolvimento”, gerando diferentes dinâmicas sociais, sobretudo a nível local e através do estabelecimento de diferentes parcerias, convenientemente conduzidas, e da interacção entre os cidadãos animados por diferentes tipos de solidariedades sociais e territoriais. Neste sentido, pronuncia-se, igualmente, Costa (COSTA, DIAS, VENTURA, 2005, p. 10), quando afirma que a valorização das políticas educativas locais “acaba por ser também uma resposta às dificuldades que os sistemas centralizados, como o da educação, têm revelado para gerir eficazmente a complexidade e a heterogeneidade resultantes da expansão da rede e da massificação escolares, acrescentando assim os argumentos da necessidade técnica e da eficácia às razões de natureza política e ideológica”. As considerações anteriores não nos devem fazer esquecer outras vertentes deste processo, dado que, como afirma Carneiro (1994, p. 9), “uma nação desenvolvida é, assim, aquela que conjuga um Estado consciente da sua subsidiariedade e uma sociedade munida dos mecanismos de auto-regulação suficientes para acarinhar o crescimento das liberdades fundamentais em cuja ordem se inscreve, inequivocamente, a de ensino”. Desenvolvimento humano O assegurar uma educação que favoreça o desenvolvimento “pleno e harmonioso da personalidade” de qualquer indivíduo, em particular da criança, colocando a acção educativa no centro do próprio desenvolvimento humano, constitui uma das preocupações do nosso sistema educativo. Para tanto, tem de recorrer aos pais e educadores, à sociedade em geral e às instituições educativas, baseando-se, fundamentalmente, nos programas oficiais Jorge Carvalho Arroteia 129 (sem esquecer, como é óbvio, os “curricula ocultos”), de forma a promover a “permanente acção formativa, orientada para favorecer o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade”, como estipula a Lei de Bases do Sistema Educativo Português (artº 1). Assente na socialização pela família, pela escola, ou por acção dos grupos de amigos, dos meios de comunicação social e da sociedade em geral, a escola desempenha um papel preponderante na construção da personalidade do indivíduo e na sua orientação profissional. Este facto tende a facultar o desenvolvimento da personalidade do aluno, colocando a acção educativa no centro do próprio desenvolvimento humano, o que deveria constituir uma das preocupações fundamentais do nosso sistema de ensino. Daí que se procure a colaboração dos pais e dos demais educadores (e actores sociais), que devem facilitar, juntamente com a escola, o cumprimento dos objectivos gerais do nosso sistema educativo. No seu conjunto, este deve contribuir para uma adequada formação da pessoa humana, desenvolver a capacidade de trabalho e proporcionar, com base numa sólida formação geral, uma formação específica para a ocupação de um justo lugar na vida activa, que permita ao indivíduo prestar o seu contributo ao progresso da sociedade, em consonância com os seus interesses, capacidade e vocação (artº 3 – LBSE). Sendo certo que o desenvolvimento humano não se circunscreve a um único domínio, recordamos que a LBSE defende a integração da criança em grupos sociais diversos, complementares da família (artº 5); a aquisição dos conhecimentos basilares que permitam o prosseguimento de estudos ou a inserção do aluno em esquemas de formação profissional (…) (artº 7) e o facultar de contactos e de experiências com o mundo do trabalho (artº 9). Este aspecto tem a ver com a formação profissional, entendida como um complemento da preparação para a vida activa, iniciada no ensino básico e completada pela aquisição de conhecimentos e de competências profissionais, para responder às necessidades nacionais de desenvolvimento e à evolução tecnológica (artº 19). Factor relevante dessa formação é desempenhado pelos conteúdos de ensino (artº 47 – LBSE), traduzidos na respectiva organização curricular. De facto, a necessidade de responder às necessidades da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos, incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários e valorizando a dimensão humana do trabalho (artº 2º – Lei 46/86), está consignada em diversos artigos que integram a LBSE, em particular nos que definem os objectivos da educação pré-escolar, do ensino básico e do ensino secundário. No que à educação pré-escolar diz respeito, notamos que esta deve facultar uma formação cuidada da criança, complementando a acção educativa da família, com a qual deverá estabelecer estreita cooperação (artº 4). Por sua vez, o ensino básico (artº 7), de carácter universal, obrigatório e gratuito, deve assegurar que, nesta formação, sejam “equilibradamente inter-relacionados o saber e o saber-fazer, a teoria e a prática, a cultura escolar e a cultura do quotidiano (…)”. Estas são algumas das preocupações que estão expressas na referida Lei de Bases e que devem complementar os ensinamentos ministrados no seio das instituições familiares, religiosas e educativas, de forma a completar a prossecução dos objectivos sócio-afectivos, referentes à transmissão de valores e de comportamentos relativos à convivência social e política, às 130 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos relações interpessoais, aos papéis sociais, à formação profissional, etc. e que completam o desenvolvimento humano e social facultado pela Escola. De acordo com Loureiro (1985, p. 11-27), cabe às instituições escolares estruturarem-se de modo a assegurarem uma orientação das aprendizagens, mais no sentido da orientação do desenvolvimento humano do que na transmissão de conteúdos didácticos, libertando-a, deste modo, da influência da organização social dominante que nela vê, essencialmente, o desenvolvimento da sua função económica e política. Nesta perspectiva, e de acordo ainda com aquele autor, à escola caberá romper com um certo determinismo genético, promovendo a descoberta das aptidões individuais, de forma a transformá-la, directa e primordialmente, num centro de activação e orientação do desenvolvimento humano. Mais ainda, acrescenta Costa (1981, p. 570) que “a educação contribuirá para o desenvolvimento na medida em que souber gerar nos cidadãos uma capacidade crítica que os habilite a resistir à demagogia e à manipulação e concorra para dignificar a função que cabe à crítica nas sociedades democráticas”. Esta perspectiva reforça o sentido que Rocha (1996, p. 34) atribui aos valores em educação e, particularmente, aos relacionados com a liberdade e a autonomia. A este respeito, assinala (Loc. cit.), “parafraseando Le Senne, diríamos que educar para a liberdade e a autonomia é educar para a humanização e personalização do homem”. Contudo, anteriormente à Escola, o meio familiar dever ter desempenhado uma função primordial no sentido de favorecer ao indivíduo os suportes indispensáveis à sua realização pessoal e social, garantindo-lhe as condições necessárias para “aprender a ter” e “aprender a ser”, no contexto da sociedade em mudança em que vivemos. Mudança esta que leva o ser humano a sentir-se “permanentemente insatisfeito e desejoso de se ultrapassar em todos os domínios” (ROCHA, 1988, p. 9). Contudo, prossegue o mesmo autor (Loc. cit.) que “tal atitude acha-se – paradoxalmente? – ligada a um generalizado sentimento de crise e frustação”, uma vez que “sonhos longamente acalentados tiveram de ceder à dura realidade dos factos: os recursos da humanidade nem sempre lhe permitem atingir as metas sonhadas”. Entre estas contam-se as questões relacionadas com os modelos de escola, a natureza das aprendizagens, o sucesso escolar e educativo, o acesso, as condições de vida da população escolar, etc. Recorde-se que um dos primeiros entraves ao processo de democratização do ensino reside na ausência da frequência escolar de parte da população, que se traduz no analfabetismo. Daí que um dos indicadores, utilizados pelo PNUD sobre o desenvolvimento humano (IDH), considere a esperança de vida e a alfabetização da população adulta (>15 anos) como os primeiros indicadores do desenvolvimento humano, entendido não como uma acumulação de riqueza, mas centrado nas pessoas. De acordo com este organismo (PNUD, 1990, p. 10-11), o desenvolvimento humano “é um processo que consiste no alargamento das possibilidades oferecidas a cada um”, relacionadas com a “formação das capacidades humanas, a saúde e o saber, e o modo como o indivíduo as aproveita no seu trabalho e tempos livres”. Desenvolvimento comunitário O interesse pelos estudos e iniciativas orientadas para a população residente num determinado território, unida por laços de solidariedade e interacção comuns, tem vindo a aumentar particularmente no âmbito de trabalhos relacionados com a educação de adultos, Jorge Carvalho Arroteia 131 a educação laboral e de iniciativas relacionadas com a formação ao longo da vida. Diversos autores e instituições, nomeadamente as Nações Unidas, têm vindo a valorizar o progresso social através do desenvolvimeno comunitário e educativo. De acordo com Grácio (1988, p. 19), este deve responder “a uma vontade de transformação e de progresso que há nas populações ou que desperte nelas por adequada intervenção”. Para Carmo (1998, p. 5), este pode ser definido como o “processo tendente a criar condições de progresso económico e social para toda a comunidade, com a participação activa da sua população e a partir da sua iniciativa”. Sublinha o mesmo autor (Loc. cit.), baseado em estudos de Ezequiel Ander-Egg (1980, p. 69), que o desenvolvimento comunitário caracteriza-se como “uma técnica social de promoção do homem e de mobilização de recursos humanos e institucionais, mediante a participação activa e democrática da população, o estudo, planeamento, e execução de programas ao nível de comunidades de base, destinados a melhorar o seu nível de vida”. De acordo com Mascareñas (1996, p. 23), o desenvolvimento comunitário “supõe a realização de actividades educativas relacionadas com o bem-estar da comunidade que as acolhe”. Este bem-estar pode ser expresso através de diferentes concepções de desenvolvimento, de que se destacam as de natureza sociocultural, relacionadas com a evolução da própria sociedade, e que permitem distinguir diversos tipos. Segundo o mesmo autor (Op. cit., p. 28-29), este reveste quatro aspectos distintos: a) aspecto económico, relacionado com o funcionamento da actividade económica; b) dimensão social, relacionada com o acesso à educação e à participação colectiva nos processos de produção; c) dimensão política, relacionada com a formação da população de acordo com as ideologias no poder; d) dimensão cultural, considerando o desenvolvimento global de cada homem e de todos os homens. Hoje em dia, os conceitos de desenvolvimento integram ainda outras preocupações, como as de desenvolvimento integrado, concebendo-o como resultado da interacção complexa de diferentes factores de ordem política, económica, social, cultural, biológica e tecnológica, que nos remetem para as questões fulcrais do ecodesenvolvimento. Assim, de acordo com Mascareñas (Op. cit., p. 30-31), o ecodesenvolvimento deve revestir as seguintes características: integral e integrado, endógeno, ecológico, local, equilibrado e harmónico, de base popular, cooperativo, social e cultural. De facto, como nota Azevedo (2006, p. 30), “a educação desempenha um eixo central no desenvolvimento comunitário se atentarmos no seu potencial de construção de individualidade, de responsabilidade, de sociabilidade e de sentido de comunidade, de ‘saber viver juntos’ (UNESCO)”. Daí que o lançamento de iniciativas orientadas para determinados grupos de cidadãos, reunidos em comunidades, exijam a participação dos mesmos, o levantamento das necessidades de intervenção e um pensamento crítico e construtivo sobre essas necessidades e a forma de as altrapassar. Quanto às estratégias a seguir, tomamos duas referências: para Grácio (1988, p. 19), estas devem “provocar ou aceitar a participação das comunidades, promover a sua autonomia” (…) e 132 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos passam pela articulação e integração de diferentes serviços e técnicos, facto que “não diminui o seu papel, antes acrescenta as suas responsabilidades, reclamando atitudes de disponibilidade em relação às populações”. Por sua vez, segundo Carmo (1998, p. 7), as estratégias de desenvolvimento comunitário assentam num conjunto de princípios que passamos a indicar: “· o princípio das necessidades sentidas, que defende que todo o projecto de desenvolvimento comunitário deve partir das necessidades sentidas, pela população e não apenas das necessidades consciencializadas pelos técnicos; · o princípio da participação, que afirma que a necessidade do envolvimento assenta na perspectiva do crescimento económico inerente a qualquer tipo de desenvolvimento. Quer dizer, tem em conta a economia comunitária, enquanto a sua capacidade para gerar rendimento e emprego ou para manter e incrementar a sua situação económica relativa”. Para tanto, o desenvolvimento comunitário deve assentar num conjunto de princípios que configuram as estratégias a seguir e o conhecimento profundo da população no processo do seu próprio desenvolvimento; · o princípio da cooperação, que refere como imperativo de eficácia a colaboração entre o sector público e privado nos projectos de desenvolvimento comunitário; · o princípio da auto-sustentação, que defende que os processos de mudança planeada sejam equilibrados e sem rupturas, susceptíveis de manutenção pela população-alvo e dotados de mecanismos que previnam efeitos preversos, ocasionados pelas alterações provocadas; · o princípio da universalidade, que afirma que um projecto só tem probabilidades de êxito se tiver como alvo de desenvolvimento uma dada população na sua globalidade (e não apenas subgrupos dessa população) e como objectivo a alteração profunda das condições que estão na base da situação de subdesenvolvimento”. Pelo seu interesse, transcrevemos, ainda, do mesmo autor três modelos distintos de desenvolvimento comunitário, baseados em critérios geográficos, conceptuais e no estilo de intervenção. O primeiro, assente numa tipologia geográfica, “parte da observação de regularidades observadas em diferentes zonas do mundo, tipificando o Desenvolvimento Comunitário de acordo com os modelos dominantes nas diversas regiões”, tais como: o tipo americano, afro-asiático, latino e europeu. Cada um deste tipos atende a situações específicas, tais como os bairros dormitórios, as escolas comunitárias, os centros de saúde; os recursos naturais e as condições estruturais e económicas; as assimetrias regionais e os processos de desenvolvimento regional (Op. cit., p. 9). Para cada uma destas situações, são definidos diferentes objectivos de intervenção, tais como a criação de comunidades humanas, assentes na cooperação; reconstrução da estrutura social e económica; e a superação dos contrastes regionais ou a utilização do desenvolvimento comunitário como meio dinamizados do próprio desenvolvimenro regional. Para além dos objectivos concretos, são definidas estratégias distintas de modo a alcançar os objectivos anteriormente assinalados. Ainda de acordo com o mesmo autor (Op. cit., p.10), a tipologia conceptual, proposta por Manuela Silva, distingue três tipos de intervenção: · “tipo integrado correspondente, na tipologia anterior, ao afro-asiático, caracterizado pela aplicação das técnicas de desenvolvimento comunitário à escala nacional; Jorge Carvalho Arroteia · · 133 tipo adaptado, análogo ao europeu, sempre que o projecto tenha escala regional; tipo projecto-piloto, semelhante ao latino e ao americano, quando a escala de intervenção é mais restrita.” Finalmente, transcrevemos do mesmo autor ((Loc. cit.) a tipologia dos modelos de intervenção de Jack Rothman (1987), consentâneos com algumas das preocupações sociais, na actualidade. São eles: “· modelo de desenvolvimento local, caracterizado por uma intervenção muito localizada (perspectiva microssocial), orientada para o processo de criação de grupos de auto-ajuda em que o interventor assume um papel facilitador com uma forte componente socioeducativa; · modelo de planeamento social, caracterizado por uma intervenção de componente meso e macro mais evidente, voltada para a resolução de problemas concretos (orientação para o resultado), em que o interventor assume um papel de gestor de programas sociais; · modelo de acção social, caracterizado por uma intervenção de perspectiva integrada (macro, meso, micro), orientada para a alteração dos sistemas de poder em presença, em que o interventor assume um papel de activista, advogado do sistema-cliente e negociador, aproximando-se da figura do militante dos direitos cívicos”. Havendo diferentes concepções sobre o desenvolvimento comunitário, não admira a diversidade de temas que têm preocupado os cientistas sociais. Carmo (Op. cit., p. 17) agrupa-as em cinco grandes grupos: · aspectos teóricos, metodológicos e políticos; · aspectos relacionados com a saúde comunitária; · questões relativas às minorias; · trabalho com crianças e jovens; · apoio à família. No seu conjunto, o tratamento destes temas exige uma formação teórica e metodológica adequada e aprofundada, tendo em conta os diferentes contextos societais e humanos que impelem a intervenções distintas no âmbito da educação e da formação. Desenvolvimento socioeconómico As relações entre a educação, a formação e o desenvolvimento constituem um dos temas de maior interesse, tendo em conta a evolução da sociedade actual e os desafios relacionados com a abertura que a caracteriza. Neste caso, a formação dos recursos humanos, se devidamente orientada para as necessidades do país, desempenha um papel relevante, como motor deste processo. De facto, como assinala Martins (1999, p. 99), “verifica-se existir uma relação forte e plurifacetada entre educação e economia (…), não se assumindo, contudo, a educação como factor determinante na estrutura e rumo seguido pela economia, mas mostrando-se indispensável a sua acção, quer adequando a mão-de-obra ao sistema de emprego e tecnológico, quer socializando em comportamentos exigidos pelo sistema produtivo e pelo sistema de disfuncionalidades, como é o caso do desemprego”. 134 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos De acordo com Lopes (1987, p. 18-19), o desenvolvimento “tem que ver com as pessoas” e impõe “condições de ordem qualitativa – desequilíbrio, de harmonia, de justiça social – cuja verificação vai depender grandemente da racionalidade que seja possível impor à organização espacial da sociedade”. Deve ser encarado em duas perspectivas, distintas e complementares, a temporal e a espacial e avaliado em termos quantitativos e qualitativos; a primeira tem a ver com a utilização de indicadores de bem-estar; a segunda, com a satisfação das pessoas. Observa, ainda, o mesmo autor (LOPES, 1989, p. 10) que “não há desenvolvimento se não houver desenvolvimento regional”, assente no traçado de regiões, estendidas como “entes, sujeitos, do processo de desenvolvimento” (Op. cit., p. 11), como “unidades de aglomeração especializada das gentes” (Loc. cit.), atraídas por processos mobilizadores e participados. Não havendo concordância em relação à importância dos diversos factores promotores deste processo, é, no entanto, reconhecida a importância da educação como potenciador do desenvolvimento da sociedade. De acordo com Costa (1981, p. 565), a educação pode contribuir para o desenvolvimento não só através da transformação dos “padrões culturais que entravam a inovação requerida pelo crescimento económico”, mas também pela formação de mão-de-obra que possa “munir-se de aptidões e qualificações necessárias à economia”. Estas acções são relevantes na promoção do desenvolvimento sustentável, conceito que abarca a satisfação das “necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades” (Relatório de Gro Harlem Brundtland, para a Comissão Mundial da ONU sobre “Meio Ambiente e Desenvolvimento” – 1987). Tal passa pela utilização de estratégias que traduzam um maior equilíbrio entre os seres vivos, em particular o Homem e a natureza, bem como em relação ao consumo. Em termos gerais, as preocupações em torno do “desenvolvimento sustentável” – em que o desenvolvimento humano se assume como um dos pilares do desenvolvimento, conjuntamente com “a melhoria das condições de existência das futuras gerações, assim como o respeito dos meios naturais de que depende a vida na Terra (DELORS, 1986, p. 71) – agrupam-se em seis grandes domínios: · satisfação das necessidades básicas dos cidadãos: educação, saúde, alimentação, lazer, etc.; · solidariedade com as gerações futuras, nomeadamente no que respeita à preservação ambiental; · participação colectiva na preservação ambiental; · preservação dos recursos naturais; · construção de um sistema social com base no emprego, na segurança social e no respeito pela diversidade cultural; · desenvolvimento de programas educativos relacionados com os temas anteriores. Tendo presente a realidade do nosso país, e à semelhança do que notaram Carron e Chau (1981, p. 11), em Portugal foi há muito notada uma relação muito directa entre “as disparidades regionais em educação e o processo de desenvolvimento económico, social e cultural”. Bastará, para o efeito, recorrer ao estudo, já antigo, de Caldas e Loureiro (1966, p. 144), que aponta a existência (numa perspectiva de dinâmica do desenvolvimento) de quatro grandes manchas que, longitudinalmente, decompõem o país em outras tantas zonas: as regiões I, II, III e IV”, que Jorge Carvalho Arroteia 135 realçam manchas territoriais marcadas por défices crescentes de bem-estar económico e social. Esta constatação foi corroborada por outros estudos (SEARL, 1980), onde se reconheceu o acentuar daquelas assimetrias e uma hierarquização dos distritos do litoral, onde “Lisboa ocupa uma distância (distanciada) da primeira posição, seguida do Porto por sua vez, também muito afastado dos restantes distritos” (Op. cit., p. 82). Análises mais recentes mostram o agravar destas tendências. Quanto à distribuição global da população escolar, esta apresenta semelhanças à dos habitantes, comprovando “as disparidades existentes entre o centro e a periferia e, sobretudo, entre as áreas rurais e urbanas, onde a maior concentração de equipamentos culturais reforça os efeitos, já acumulados, resultantes de um desigual crescimento económico” (ARROTEIA, 1984, p. 122). Contudo, se tivermos em conta os dados mais recentes, relacionados com o último censo da população, podemos encontrar situações controversas em relação ao emprego e à sua polarização. Assim revela o índice de polarização de emprego, calculado através da relação: população empregada na unidade territorial/população residente na unidade territorial e empregada (INE, 2002, XLIX), em 2001, em que se destaca: · “Em 2001, a geografia do índice de polarização de emprego revelava um número reduzido de regiões com potencial de atracção de mão-de-obra distribuídas quer pelo litoral, quer pelo interior. Das regiões do litoral destaca-se a Grande Lisboa, centro económico do país, o arco delineado pelas regiões que integram Porto – Ovar – Aveiro, o sistema produtivo do Pinhal Litoral centrado em Leiria e Marinha Grande e a região algarvia cujo dinamismo assenta no turismo. As regiões fronteiriças com potencial de atracção de mão-de-obra são regiões demograficamente em declínio, excepção feita ao Alentejo Central, cuja geografia encerra realidades muito diferenciadas. · Destacam-se, ainda, pelo défice de emprego que apresentam, a Península de Setúbal e o Cávado, regiões funcionalmente integradas nas Áreas Metropolitanas, e o Pinhal Interior Norte, polarizado pelo Baixo Mondego e Pinhal Litoral. · Note-se que a generalidade das regiões que apresentam, em 2001, índices de polarização de emprego inferiores a 1 traduzem um agravar dessa situação deficitária face a 1991, ou decaíram mesmo de situações de superavit para situações deficitárias (sendo a situação apresentada por algumas sub-regiões do Norte mais ilustrativa). Por outro lado, as sub-regiões polarizadoras de mão-de-obra, em 2001, apresentam, face a 1991, trajectórias distintas: consolidação da posição de pólos atractivos (Lisboa e Beira Interior Norte); emergência de novos pólos (Alentejo Central e Entre Douro e Vouga); e perda da capacidade de polarização, mantendo-se um quadro de superavit (restantes sub-regiões, sendo a trajectória do Baixo Alentejo a mais expressiva).” Esta realidade leva-nos a reflectir sobre os diferentes tipos de investimentos, sociais, educacionais, formativos e outros, aplicados no território onde estas unidades se inserem. Sugere-nos, ainda, uma avaliação cuidada da natureza dos projectos que os suportam e da sua relação directa com as necessidades e as expectativas da população. Uma vez que foi possível detectar o conjunto de fragilidades anteriormente referidas, convém recordar que a frequência e os resultados escolares dependem não só da acessibilidade física (proximidade dos equipamentos educativos), mas também de outros tipos de acessibilidade: a económica e a 136 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos cultural. A primeira depende, como o sabemos, fundamentalmente do nível de vida e dos custos das deslocações e, a segunda, da “auto-eliminação” e “inibição cultural” de certos grupos sociais, decorrentes da organização social e do trabalho (CARRON, CHAU. in: IIPE, 1982, p. 44). Como factor responsável pelo atenuar de algumas destas assimetrias, temos diversos tipos de experiências internacionais (INSTITUT DE LA MÉDITERRANÉE, 1997, p. 3) –, que consideraram “o investimento na educação e na formação como chave do crescimento e do progresso –, bem como o alargamento da rede de estabelecimentos de ensino superior que tem sido encarado como um factor indispensável do desenvolvimento da nossa sociedade e das mudanças sociais que a caracterizam. Entre nós, o processo de expansão da rede dos diferentes níveis de ensino, principalmente no ensino superior (universitário e politécnico), registou-se com maior intensidade no decurso das duas últimas décadas, com a criação de novas instituições de ensino e investigação nos principais centros urbanos, em especial nas capitais de distrito, bem como noutras cidades de menores dimensões. Tal facto melhorou o acesso da população estudantil, sobretudo dos alunos detentores de menor ‘capital’ social e cultural, à educação terciária. Por outro lado, tem vindo a melhorar a formação de recursos humanos, que, inseridos no sistema produtivo, têm vindo a contribuir para a consolidação do tecido empresarial e para a inovação tecnológica em diversos sectores de actividade. Tal realidade parece corresponder ao que Martins (1996, p. 39) entende como sendo um imperativo do processo de mudança de uma sociedade industrial para uma sociedade de informação, vindo o sistema de ensino a dar “respostas, quer quanto ao tipo de formação, quer quanto aos conteúdos curriculares (…)”. Na situação presente, o panorama do ensino superior tem sido, entre nós, não só o responsável pelo crescimento dos centros urbanos, onde se instalaram os novos estabelecimentos de ensino, e, consequentemente, pela animação dos circuitos económicos regionais, mas também pela cobertura alargada da rede escolar de instituições de ensino, universitário e politécnico – de natureza pública, particular, cooperativa e concordatária – e pela abertura deste sistema a uma população diversificada nos seus interesses e origens geográficas e sociais. Daí que reconheçamos as vantagens que o alargamento desta rede teve num país como o nosso, marcado por taxas ainda elevadas de analfabetismo, de incumprimento de estudos, a nível do ensino obrigatório, e de uma escolarização deficiente a nível do ensino secundário e os seus efeitos no processo de democratização do ensino e da sociedade portuguesa. Como em tempo reconheceu Costa (1981, p. 571), “o sistema de ensino será ou não um instrumento de equidade consoante ofereça possibilidades reais de acesso generalizado ou conduza a um processo educativo selectivo que consolide ou acentue as desigualdades sociais e regionais”. Até porque, acentua o mesmo autor (Loc. cit.), “os pobres do PNB e os pobres do sistema educativo são os mesmos”. Mais ainda, importa ter em conta os múltiplos agentes e factores de natureza regional, que, à semelhança do que referimos sobre o índice de polarização do emprego, podem pôr em causa alguns dos pressupostos teóricos anteriormente referidos. Defende a Constituição da República Portuguesa e a própria Lei de Bases do Sistema Educativo que compete ao Estado “promover a democratização do ensino, garantindo o direito a uma justa e efectiva igualdade de oportunidades no acesso e sucesso escolares “ (artº 2). Na prossecução destes objectivos, o sistema educativo deverá organizar-se de forma a: Jorge Carvalho Arroteia 137 · “(…) descentralizar, desconcentrar e diversificar as estruturas e acções educativas (…); · (…) contribuir para a correcção das assimetrias de desenvolvimento regional e local, devendo incrementar em todas as regiões do país a igualdade no acesso aos benefícios da educação, da cultura e da ciência; · (…) assegurar a igualdade de oportunidades para ambos os sexos (…); · (…) contribuir para desenvolver o espírito e a prática democrática (…) (artº 3). Por sua vez, o texto da Constituição Europeia aponta, no seu artº I-3, que “a União trabalha para o desenvolvimento sustentável na Europa, fundado no crescimento económico equilibrado e na estabilidade de preços, na economia social de mercado altamente competitiva, que favorece o primeiro emprego e o progresso social, e um nível elevado de protecção e de melhoria da qualidade do ambiente. Promove o progresso científico e técnico”. Complementarmente, compete à União promover “a coesão económica, social e territorial, e a solidariedade entre os Estados-membros”. As questões relativas ao desenvolvimento socioeconómico, cultural e científico da Europa constituem uma das preocupações da Cimeira de Lisboa, em que os países membros da UE manifestaram a sua ambição, entre 2005 e 2015, de “tornar a Europa na economia, baseada no conhecimento, mais dinâmica e competitiva do mundo, capaz de garantir um crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos e com maior coesão social”. Ensino superior e desenvolvimento regional De acordo com um estudo da OCDE (1987), sobre o contributo da educação no desenvolvimento socioeconómico, “alguns países da OCDE utilizam o ensino como factor de promoção de sectores industriais e emprego, bem como do desenvolvimento regional” (Op. cit., 15), sendo que “o desenvolvimento e difusão da tecnologia como instrumento da política regional parecem ser objecto de crescente atenção” (Loc. cit.). Entre nós, a expansão crescente da rede de ensino superior em Portugal, registada depois de Abril de 1974, é, igualmente, indissociável do processo de modernização e de democratização da sociedade portuguesa verificado desde então. Tal facto tem-se manifestado não só no aumento de estabelecimentos de ensino superior e no acréscimo de alunos, mas também numa maior cooperação destas novas instituições de ensino com o tecido produtivo, com os serviços e as empresas sedeadas na sua área de influência. Por outro lado, o alargamento desta rede de formação tem sido acompanhado de numerosos investimentos públicos e privados, cujos efeitos se têm feito sentir na animação dos centros urbanos e dos circuitos económicos locais, com reflexos evidentes no processo de desenvolvimento regional. Independentemente destes aspectos, a acção deste subsistema de ensino deve ser apreciado tendo em conta o seu contributo na formação dos recursos humanos (nas suas vertentes de formação inicial e contínua) e também na partilha da inovação tecnológica entre os novos estabelecimentos de ensino e as empresas. De facto, como assinala Costa (2003, p. 44), “haverá que estabelecer uma nova relação entre o ensino superior e o mundo do trabalho, em termos de se conseguir um esforço conjunto de resposta a este grande desafio, o que passa por se aceitar maior flexibilidade nos processos de formação e nos mecanismos de atribuição de qualificações”. 138 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos A apreciação conjunta destes aspectos permite delinear a área de influência das redes de formação já estabelecidas, permitindo o traçado de grandes “territórios” onde cada uma das instituições exerce a sua acção com maior intensidade. Em nosso entender, a afirmação destes territórios é um poderoso factor de desenvolvimento local, sendo, por isso, um dos meios de avaliação destas instituições e do próprio subsistema de ensino superior. Globalmente, podemos afirmar que, contrariamente ao que se verificou em muitos outros países, a expansão do ensino superior em Portugal é um fenómeno recente, registado na nossa sociedade depois dos anos sessenta. Acentuou-se desde então, em resultado do crescimento económico e das transformações sociais entretanto operadas, das quais se destaca o processo de democratização da sociedade portuguesa. Este foi o grande responsável pelo aumento crescente da procura social da educação em todos os níveis de ensino, pelo alargamento da rede escolar e pelo acréscimo das expectativas de mobilidade social da população. Independentemente de outros factores que terão favorecido este fenómeno, relembramos, depois da publicação da Lei nº 46/86, o alargamento do “ciclo de vida” escolar de seis para nove anos, facto que acabou por influenciar, através do “efeito de onda”, um acréscimo ainda maior de alunos nos ensinos secundário e superior. Acompanhando esta tendência, o subsistema de ensino superior respondeu com a expansão e a diversificação da rede escolar depois da criação das novas universidades e dos institutos superiores politécnicos. De realçar que o crescimento da população escolar neste nível de ensino traduz as expectativas da sociedade e de alguns dos seus segmentos mais dinâmicos, que têm depositado muitas esperanças nas novas formações de índole terciária. Basta recordar a LBSE e as responsabilidades atribuídas a este subsistema de ensino no seu conjunto. A existência de um grande número de assimetrias e desequilíbrios espaciais entre as regiões rurais e urbanas, do litoral e do interior, do norte e do sul do país, constitui um fenómeno bem conhecido, que nos dispensamos de aprofundar. Diversos textos oficiais têm vindo a abordar esta temática, realçando essas diferenças ou chamando a atenção para o problema da formação dos recursos humanos, considerados como factor indispensável ao desenvolvimento regional. Entre outros textos, recordamos os que dizem respeito à criação do ensino superior politécnico, que dão particular destaque à formação de “profissionais de perfil adequado” de que o país “carece para o seu desenvolvimento”. Estes documentos referem que estes novos estabelecimentos de ensino devem “colaborar directamente no desenvolvimento cultural das regiões onde estão inseridos”, bem como “prestar serviços à comunidade, como forma de contribuição para a resolução de problemas, sobretudo de carácter regional, nelas existentes” (Decreto-Lei nº 513-T/79). O enunciado destes princípios realça as expectativas criadas na ampliação da rede do ensino superior, universitário e politécnico (não só de natureza pública, mas também do ensino particular e cooperativo), que cobre largamente todas as regiões do nosso país. Uma análise mais detalhada, incidindo sobre os investimentos realizados, mostrar-nos-ia que, apesar dos gastos na edificação de novas escolas, muitos outros investimentos foram efectuados na construção de infra-estruturas de natureza científica, cultural e social, contribuindo, assim, para melhorar a qualidade do ensino e para fixar a população docente e discente. Estes acontecimentos acabaram por reforçar a importância regional de alguns desses centros de ensino superior, que, de forma global, beneficiaram do aumento da procura social da educação, do alargamento da rede e dos investimentos públicos e privados aí realizados. No seu Jorge Carvalho Arroteia 139 conjunto, a consolidação destes centros de ensino superior ficou, igualmente, assinalado pelo alargamento das áreas e dos domínios de formação, bem como pela abertura das escolas à comunidade através da prestação de serviços e da orientação dos cursos para as necessidades do tecido produtivo local. Eventualmente, regista-se, ainda, a participação das novas escolas no desenvolvimento de projectos de investigação, em articulação com as empresas e com os outros parceiros sociais localizados na sua área de influência. Estes considerandos são, genericamente, válidos, quer para as instituições universitárias, quer para outras de natureza politécnica, havendo bons exemplos desta cooperação técnica e científica que virá a contribuir para a implantação de novas redes de formação, bem como para a fixação de quadros e para a transferência de conhecimentos que muitas das empresas reclamam como indispensável para a viabilização e expansão das suas actividades. Note-se que a acção do ensino superior não se esgota nas funções anteriores, havendo, igualmente, que assinalar a sua contribuição na formação de recursos humanos em actividades de formação inicial e permanente. Compulsando alguns indicadores de frequência, podemos verificar que, mesmo assim, são diversas as assimetrias que acompanham a repartição dos alunos por estabelecimentos de ensino e cursos (ARROTEIA, 1996). O mesmo poderíamos assinalar quanto à abertura dessas escolas superiores à comunidade, traduzida no desenvolvimento de projectos de I&D e cujos efeitos se farão sentir nos resultados dessas empresas e no reforço da capacidade de atracção de alunos e na fixação de professores. Registe-se que a procura de muitos destes centros continua, mesmo assim, a revelar-se pouco acentuada, em detrimento dos centros universitários tradicionais, onde a diversidade de cursos e de estabelecimentos de ensino continua a atrair grande parte da população estudantil, agravando, por conseguinte, os desequilíbrios já conhecidos na sociedade portuguesa. Embora alguns dados actuais, relativos à frequência de alunos ou mesmo à natureza dos investimentos, venham a realçar estas assimetrias, sugerimos a apreciação, conjunta, de outros factores, que, a serem devidamente considerados, nos ajudarão a avaliar os efeitos do ensino superior no processo de desenvolvimento do território. Vejamos alguns aspectos desta tipologia de análise. Formação dos recursos humanos A apreciação da carta do ensino superior em Portugal realça a persistência de diversos desequilíbrios, sociais e sectoriais, que caracterizam a sociedade portuguesa na actualidade. Tal facto pode ser atestado não só pela localização dos estabelecimentos no território, mas também pela frequência dos alunos, fazendo-nos recordar a existência de fortes assimetrias de crescimento e de desenvolvimento económico e social. Sendo já clássica a divisão do país em duas grandes áreas, com características sociais e humanas, económicas e de relação distintas (representadas pela faixa litoral, de Braga a Setúbal e Algarve, e a restante, pelo interior do país), será fácil compreender os fenómenos sociais que lhes andam associados. Recordamos apenas os movimentos relacionados com as migrações internas em direcção aos grandes centros ou mesmo as saídas para o exterior, fenómeno que, durante mais de duas décadas, contribuiu fortemente para uma das mais poderosas “hemorragias sociais” que afectaram a sociedade portuguesa. 140 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Para além destas características, diversos indicadores relacionados com a escolarização –, tais como as taxas de frequência dos diferentes grupos etários, as taxas de repetência, as taxas de abandono (sobretudo no termo da escolaridade obrigatória), a taxa de prosseguimento de estudos, no ensino superior, e a taxa de escolarização, no grupo etário 18-24 anos – o analfabetismo, a qualificação da mão-de-obra, a repartição dos quadros técnicos, etc., poder-nos-iam ajudar a compreender melhor as restantes distorções que afectam o território nacional. Embora não cabendo ao ensino superior corrigir, em absoluto, essa situação, temos verificado a importância dos novos estabelecimentos de ensino superior como potenciadores do desenvolvimento local. E como se depreende da leitura da LBSE, e de muitos outros documentos oficiais, espera-se o seu contributo para o desenvolvimento sectorial de algumas actividades produtivas. Tal será alcançado através do ajustamento dos cursos ao perfil das estruturas dominantes na região e à cooperação entre os sistemas produtivo e o educativo. Assim acontece com muitos exemplos retirados da actual rede de formação, universitária e politécnica, cujo desempenho actual parece mostrar este tipo de relação. Natureza das aprendizagens A apreciação de diversos indicadores – que não só os indicadores económicos, sociais e culturais –, relativos à distribuição dos diplomados pelo ensino superior no território, são relevantes para compreender os contrastes “centro-periferia” que caracterizam, ainda hoje, a sociedade e o território nacional. Da mesma forma, esta análise permitir-nos-ia assinalar os contrastes que existem entre as duas principais áreas metropolitanas, de Lisboa e do Porto, e os restantes centros urbanos do continente. Sendo certo que, embora a maior parte dos centros de maiores dimensões se distribua pelo litoral, esta área do continente não é, contudo, uma “área com um desenvolvimento homogéneo nem o interior é uma região deprimida na sua totalidade”. Com efeito, tomando o exemplo dos diferentes distritos do continente, verificamos a existência de diversos núcleos com níveis e ritmos de crescimento muito diferenciados e, por isso, exigindo terapias de correcção diversificadas. No seu conjunto, e sem nos referirmos à problemática da regionalização, entendemos que um dos pressupostos teóricos do desenvolvimento regional poderá ser assegurado pela acção da complexa, e já densa, rede de estabelecimentos do ensino superior, universitário e politécnico, que cobre o país. Neste último caso, ao favorecer o recrutamento regional de estudantes, o ensino politécnico está a dar mais um passo para a fixação dos quadros indispensáveis à consolidação de muitas das suas actividades produtivas. E ao fazê-lo, o Estado mais não está do que a cumprir um dos princípios fundamentais da Constituição da República Portuguesa (artº 81), que defende caber ao Estado “promover o aumento do bem-estar social e económico e da qualidade de vida das pessoas, em especial das mais desfavorecidas, no quadro de uma estratégia de desenvolvimento sustentável”. Estes princípios deverão promover “a correcção das desigualdades”, favorecendo, em simultâneo, a democratização do ensino, como prevê a Constituição da República Portuguesa e a Lei de Bases do Sistema Educativo. Jorge Carvalho Arroteia 141 Partilha da inovação Desempenhando as instituições de ensino superior um papel relevante no processo de desenvolvimento da sociedade, parece-nos ser imprescindível relacionar a capacidade de inovação de qualquer sistema social, e das próprias instituições educativas, com o tipo de organização e a estrutura do sistema educativo. Assim, ao pensarmos nos factores que, hoje em dia, afectam a configuração dos sistemas educativos, dominados por um conjunto de interacções, “obedecendo a uma lógica particular”, não devemos esquecer a “procura social da educação” e a “explosão escolar” que, de forma mais ou menos constante, mas diversificada, consoante os níveis de ensino, têm vindo a modificar os padrões de funcionamento, a gestão e a eficácia daqueles sistemas. Neste caso, ultrapassado o período em que a educação formal era privilégio de alguns, a democratização do ensino e o consequente processo de “massificação da escola” trouxeram novos problemas – pedagógicos, institucionais e humanos –, aos quais nem sempre, de forma satisfatória, os novos modelos de organização e de gestão conseguiram responder. Trata-se de uma consequência inevitável, decorrente do aumento da população e da complexificação das organizações escolares, que, embora condicionadas pela evolução dos recursos disponíveis, não têm sido correspondido pelo aumento da qualidade dos serviços educativos. Contudo, como é geralmente reconhecido, o aumento da procura social da educação constitui um dos problemas actuais, surgindo a escola “como uma necessidade para responder às necessidades, cada vez mais variadas”, da nossa sociedade. Este fenómeno tem vindo a acentuar-se em diversos contextos e corresponde à maior necessidade de formação de quadros e ao papel da educação como factor de mobilidade e de promoção social. Daí decorre, como nota Haag (1981, p. 24), que a educação possa ser considerada como um “bem de investimento” (…) “um dos elementos residuais que contribui para o aumento da produtividade do factor de produção – trabalho –, condição necessária para o crescimento do PNB” . Por outro lado, a procura de instrução, decorrente do aumento do nível de vida, tem alimentado cada vez maiores fluxos escolares, podendo ser considerada como um poderoso “bem de consumo”, não obstante os meios, os métodos e os resultados alcançados porem, frequentemente, em causa a eficácia dos sistemas de ensino. Compreendem-se, portanto, as expectativas que se colocam nas instituições de ensino superior e nas suas relações com o meio. Daí que o conhecimento e o envolvimento da comunidade sejam imprescindíveis para que estas escolas, como sistemas abertos que são, possam cumprir as performances necessárias ao cumprimento total das suas funções de ensino, de formação e de investigação e à sua inserção na comunidade. Note-se que a limitação de recursos e a sua desigual distribuição no território constituem outro tipo de problemas que impedem esta acção. Com efeito, embora a “autonomia institucional e a participação da colectividade” sejam considerados como um dos mais importantes desafios que se colocam à gestão dos estabelecimentos de ensino superior, estes são também requisitos essenciais para a melhoria das condições do ensino, para inovação e para a melhoria da qualidade que se pretende imprimir no processo ensino-aprendizagem e à transferência de conhecimentos entre as instituições de ensino superior e as demais instituições, de índole social, cultural e empresarial. 142 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Realçamos, a este respeito, a importância da investigação científica nestes processos de mudança, bem como as barreiras impostas pela própria estrutura produtiva nacional, constituída por um tecido onde predominam as pequenas e as médias empresas, com uma fraca participação nas actividades de I&D e uma fraca participação de investigadores e de técnicos qualificados em muitos sectores produtivos nacionais. Re-socialização dos saberes Ao aceitarmos a importância crescente dos diversos actores sociais (pais e professores, empresários e investigadores, técnicos e operários) no processo de mudança e de inovação social e tecnológica, logo nos ocorrem as profundas alterações que os sistemas produtivos têm vindo a experimentar, incentivando a auto-formação dos seus quadros. Neste contexto, e para além de agente activo de socialização, a escola deverá promover a aprendizagem de novos “saberes” e papéis que facilitarão a integração dos formandos na vida profissional. Nestas circunstâncias, tendo presente a evolução da própria sociedade e a obsolescência constante dos saberes, a oferta da formação permanente surge como uma necessidade imposta não só por razões educativas, mas também porque ela induz novas actividades de investigação, relacionadas com o desempenho da profissão. A este respeito, estamos de acordo com Sanyal (1988), quando este defende a articulação entre a educação e o trabalho, como factor indispensável à melhoria dos laços entre os sistemas produtivo e educativo: “isto exige que o sistema educativo seja capaz de satisfazer as necessidades do sector produtivo mas também que este último manifeste disponibilidade para acolher os alunos saídos do sistema educativo cada vez mais complexo e diversificado”. Estes aspectos reforçam a importância da cooperação entre o ensino superior e a indústria, por via da realização de projectos comuns, de contratos de investigação, de bolsas de investigação, etc., sendo de notar o seu contributo no desenvolvimento de acções de formação permanente, vocacionadas para os quadros técnicos destas instituições. E esta será uma aposta decisiva a prosseguir no futuro, apesar dos muitos obstáculos que a esta cooperação se continuam a levantar. A título meramente informativo, recordamos os seguintes: · diferenças e, por vezes, conflitos entre os valores (e os objectivos) universitários e os valores (e objectivos) da indústria; · rigidez das estruturas universitárias, o que conduz, muitas vezes, a uma ausência de diálogo entre as diversas disciplinas; · quadro legislativo e administrativo pesado nas universidades, o que resulta em processos de decisão identificados por uma certa lentidão. Não obstante estas dificuldades, muitos dos projectos de parceria em curso mostram que as actuais exigências do desenvolvimento económico, social e cultural reclamam de cada indivíduo uma formação contínua, não somente “pelo prazer de melhorar os seus conhecimentos (…) mas também pelo prazer de aperfeiçoar as necessidades da sociedade e de lhes oferecer as potencialidades máximas de uma colectividade educada” (RASSEKH, VAIDEANU, 1987, p. 144). Referindo-se aos sistemas educativos, os mencionados autores (Op. cit., p. 141) entendem que educação permanente “constitui uma resposta original e adequada aos desafios da nossa Jorge Carvalho Arroteia 143 época”, sendo o único meio a preparar os cidadãos para “participar na defesa dos seus direitos e dos valores fundamentais de uma sociedade democrática”. Em nosso entender, esta é uma questão fulcral a prosseguir pelo ensino universitário e pelo ensino politécnico, só podendo falar-se em centros universitários (ou outros) com vocação regional e nacional se estes se afirmarem como centros de formação permanente e não só como locais de formação inicial de alunos, em áreas muitas vezes pouco ajustadas às exigências produtivas locais e culturais do país e da região. Territorialização da formação Como notámos, dada a diversidade de instituições que fazem parte da nova rede de instituições de ensino superior, universidades e politécnicos (de natureza pública e/ou particular e cooperativa), justifica-se que atendamos a algumas especificidades relativas quer à originalidade dos cursos, quer à sua acção no âmbito da formação pós-graduada e à sua participação em projectos de intervenção junto da comunidade. Tendo presente vários exemplos desta cooperação, outra forma de avaliar a importância destes estabelecimentos no processo de desenvolvimento regional será alcançada através da análise da sua inserção no espaço físico e social e da identificação dos respectivos “territórios de formação” preferenciais de cada uma das instituições de ensino superior. Esta análise passa pela delimitação da sua “área de influência”, em termos não só de recrutamento de alunos e de professores, mas, sobretudo, pela extensão das suas actividades relacionadas com a formação inicial e permanente, orientada para o mundo do trabalho. A mesma poderá ser reforçada pela análise da investigação aplicada e pela cooperação inter-institucional firmada com outras entidades, públicas e privadas, traduzidas na realização de projectos comuns. Este conhecimento mostra-se necessário para a construção de “grelhas” de avaliação parcelares, destinadas à análise das actividades desenvolvidas pelas novas instituições de ensino superior e pela sua adequação aos interesses societais, representados no mesmo território. A apreciação destas grelhas permite confirmar outros aspectos do funcionamento interno destas instituições e orientar o exercício e o cumprimento das funções de leccionação, de investigação e de prestação de serviços à comunidade estabelecidos por lei e da qualidade das suas prestações junto da sociedade. Atendendo à fase de consolidação do sistema de ensino superior português e aos cenários que se colocam à sociedade portuguesa, dadas as transformações operadas no seu tecido produtivo e empresarial e os desafios da internacionalização dos mercados, o desempenho das instituições de ensino superior tem de ser apreciado tendo em conta os novos contextos societais em que estão inseridas. Estes são, em nosso entender, os aspectos mais relevantes da questão levantada pelo papel do ensino superior como factor de desenvolvimento regional. Deixar de o referir seria esquecer a essência e a problemática do “desenvolvimento” que, para além de se tratar de um termo “multívoco”, identificado com “a acção de desenvolver e o que daí resulta” (PERROUX, 1981, p. 13), deve ser sempre “(…) concebido como a dinamização de uma sociedade no seu próprio ser” (UNESCO). Os aspectos referidos pressupõem que a maior escolarização da população acarrete mudanças significativas na sociedade. Educação e direitos As vantagens reconhecidas à educação pela frequência da escola e aprendizagens escolares têm sido sublinhadas ao longo das diferentes civilizações e história, sendo realçadas pelas correntes do pensamento filosófico e pedagógico, como nos conta a história da educação. Assim, Rocha (1996, p. 41) assinala que “a busca da origem histórica dos direitos do homem é tarefa que incumbe não só ao historiador e filósofo, mas também ao antropólogo social e cultural”. No entanto, prossegue o mesmo autor, “não deve esquecer-se que tal origem é bastante difusa e universal, radicando no mais fundo da consciência humana em dimensão simultaneamente religiosa, filosófica, política, social e cultural”. Modernamente, novas correntes do pensamento, assentes na universalidade da educação básica, têm vindo a consagrar o direito universal à educação como uma das condições básicas ao desenvolvimento humano e ao progresso da sociedade. É vasto o rol dos direitos individuais, tais como o direito à paz, o direito ao cumprimento dos tratados e o direito à defesa do ambiente, que são considerados como fundamentais, sendo, por isso, abordados em programas de ensino e actividades escolares. Referimos algumas facetas das correntes políticas e que centram na educação alguns dos desafios legitimados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, “como ideal comum a atingir por todos os povos e nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados-membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição”. Direito à educação O direito à educação constitui uma das condições indispensáveis ao processo de desenvolvimento pessoal da criança e do jovem e à participação cívica de qualquer indivíduo, bem como ao crescimento socioeconómico e social de um país. Com efeito, a construção de uma sociedade livre e democrática é uma das preocupações que anima os países dotados de níveis de desenvolvimento e de bem-estar social mais avançados e, ainda, de muitos outros que registam contextos sociais e culturais mais desfavorecidos. Para tanto, têm concorrido diversos actores e políticas inclusivas, que têm por base os valores e as práticas sociais defensoras da democratização e dos direitos humanos. A respeito dos direitos da criança, assinala Rocha (1996, p. 58) que “a primeira vez que se falou em direito da criança parece ter sido a 15 de Janeiro de 1850, quando, na Assembleia 146 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Legislativa Francesa”, Victor Hugo afirmou ((Loc. cit.): “toda a questão tem o seu ideal. Para mim, o ideal desta questão do ensino é este: a instrução gratuita e obrigatória. Obrigatória, apenas no primeiro grau; gratuita, em todos os outros. A instrução primária obrigatória é o direito da criança (‘le droit de l’enfant’), que é mais sagrado ainda que o direito do país e se confunde com o direito do Estado”. O aprofundamento dos diversos direitos da pessoa humana e da criança, considerados em diversas recomendações internacionais, nomeadamente na Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 20 de Novembro de 1959, estabelece um conjunto de direitos relacionados com a ‘provisão’ ou direitos à posse de bens e serviços; à ‘protecção’, contra actos e práticas dolorosas e ‘participação’ nas decisões que lhe dizem respeito. O princípio 7º desta Carta assinala: “a criança terá direito a receber educação, que será gratuita e obrigatória pelo menos no grau primário. Ser-lhe-á propiciada uma educação capaz de promover a sua cultura geral e capacitá-la a, em condições de iguais oportunidades, desenvolver as suas aptidões, sua capacidade de emitir juízo e seu sentido de responsabilidade moral e social, e a tornar-se um membro útil da sociedade (…)”. Sendo reconhecido o valor da dignidade da criança e da família humana, defendida no princípio universal sobre a liberdade e a igualdade em “dignidade e direitos” de todos os seres humanos (artº 1 – Declaração Universal dos Direitos do Homem – DUDH), é certo que, ainda hoje, nem todas as sociedades ou grupos sociais aceitam as práticas sociais que configuram este princípio. No âmbito da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (2005, II-74), o direito à educação está aí consignado, nos termos seguintes: “1. Toda a pessoa tem direito à educação, assim como ao acesso à formação profissional e contínua; 2. Este direito permite a faculdade de frequentar gratuitamente o ensino obrigatório; 3. A liberdade de criar estabelecimentos de ensino no respeito pelos princípios democráticos, assim como o direito dos pais em assegurarem a educação e o ensino dos filhos de acordo com as suas convicções religiosas, filosóficas e pedagógicas, são respeitadas em consonância com as leis nacionais que regem esse exercício”. Como foi notado, de acordo com o texto da CRP (artº 73), “todos têm direito à educação e à cultura”, cabendo ao Estado promover a democratização da educação e da cultura. Mais ainda, estabelece o artº 74 da CRP que “todos têm o direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar”, devendo este “ser modificado de modo a superar qualquer função conservadora de desigualdades económicas, sociais e culturais”. Discutir as razões que levam à discriminação, pela raça ou pela cor, pelo sexo ou religião, pela língua ou opinião política dos cidadãos, é penetrar em profundidade no seio desses grupos sociais e desvendar as razões intrínsecas de tais comportamentos; é desenhar um rol extenso de situações, anómalas e incongruentes, desses grupos ou sociedades; é ainda promover ou antecipar discussões, clarificar ideias e, acima de tudo, recolher os valores e os conceitos pouco condizentes com a maioria das práticas sociais identificadoras da nossa sociedade. Exemplos, vários, divulgados pelos meios de comunicação social fazem crer que o direito à participação cívica das populações, à liberdade de expressão e à inclusão social são princípios Jorge Carvalho Arroteia 147 universais que devem ser apropriados e defendidos colectivamente como uma das aspirações mais sublimes da humanidade. Contudo, as ameaças que pairam sobre o cidadão comum, em diversos aspectos do seu quotidiano, fazem pressupor que as condições de liberdade e de segurança que, intrinsecamente cada cidadão tem direito, pouco valem perante a falta de rigor e desempenho de muitos responsáveis políticos. E se é certo que, perante a lei, todos os cidadãos são iguais, escusado será recordar como em muitas circunstâncias a dignidade de uns suplanta a dignidade de outros, estes votados para o ostracismo e o esquecimento. Os dados anteriormente referidos permitem recuar o direito à educação, assente no enunciado da Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprofundado por outros textos legais, tais como a CRP, a LBSE e o Código Civil, em alguns dos seus artigos. Educação e direitos humanos De acordo com a “Declaração Universal dos Direitos do Homem” (DUDH), proclamada a 10 de Dezembro de 1948, pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Tal facto resulta, nomeadamente, da necessidade “que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo” (Preâmbulo). Este e outros considerandos que antecedem o texto da referida Declaração acentuam como a socialização para a prática e respeito dos direitos do homem, das liberdades fundamentais, são considerados fundamentais para o desenvolvimento humano e amistoso entre as nações, para a dignidade da pessoa humana, para o progresso social e para a coooperação entre as nações. Para tanto, não basta que a sociedade, o Estado, a comunidade ou a família desempenhem o papel fundamental. Estabelece o artº 26-3, pertence aos pais “a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos”, mas é igualmente imperioso que outras instituições sociais adiram à defesa destes princípios, cultivando no seu dia-a-dia o espírito, os sentimentos de justiça, de paz e de fraternidade. Tal facto resulta do entendimento de que “o indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade” (artº 29). Nestas circunstâncias, cabe, fundamentalmente, à organização escolar um papel relevante na socialização do indivíduo e na defesa destes princípios; cabe-lhe incorporar nos saberes que transmite os valores e as regras fundamentais que dignifiquem as práticas sociais valorativas destes direitos; cabe à comunidade escolar valorizar essas práticas e reformular a sua actuação, de modo a que esses direitos não sejam questionados, mas informem a cartilha diária dos procedimentos da nossa sociedade. Sabemos como as práticas sociais se desvalorizam e se transformam, como os hábitos se atenuam e como os valores se alteram. Contudo, os sentimentos de liberdade e de fraternidade, de paz e de respeito pelos cidadãos não podem deixar de ser um dos garantes da sobrevivência da “polis” actual, em todos os seus aspectos, e na vida dos seus elementos. Como “sistemas abertos”, as nossas sociedades acolhem com maior frequência cidadãos do mundo, de outras origens e nacionalidades; cidadãos com estatutos sociais diferenciados, com formações religiosas distintas e com necessidades económicas muito acentuadas; cidadãos que sentem, no seu acolhimento e vivências diárias, os mesmos atropelos que estiveram na origem do êxodo 148 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos que os impele à mobilidade constante ou à fixação noutras paragens. Contudo, é característica comum das nossas civilizações assentarem o seu crescimento económico na prosperidade das suas actividades, no desempenho dos seus cidadãos, no culto dos seus valores e na prática de solidariedades que estreitam a malha do seu tecido social, constituída, cada vez mais, por cidadãos com raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política e origem social, de fortuna ou nascimento, diferenciados (DHDH – artº 2). Vários factores contribuem para o reforço desta vitalidade e atributos sociais. A informação é, sem dúvida, um dos veículos mais relevantes. De facto a cidadania, tal como a concebemos nos nossos dias, por ser total e vivida em plenitude de direitos, não se constrói sobre pilares que advoguem a servidão ou a falta de reconhecimento da personalidade humana, mas sim com o livre acesso à participação cívica e política e aos direitos que a vivência na “civitas” deve proporcionar a todos os seus membros. No que à realidade portuguesa diz respeito, a Constituição da República Portuguesa estabelece dois princípios fundamentais: o da universalidade e o da igualdade. O primeiro (artº 12) estabelece que “todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres consignados na Constituição”; o segundo (artº 13) afirma que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”. Vejamos alguns aspectos a partir da escola. Como refere o preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “o reconhecimento da dignidade intrínseca a todos os membros da família humana e o da igualdade e inalienabilidade dos seus direitos são o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”. Acrescenta o mesmo documento: “Considerando que o desconhecimento e o menosprezo dos direitos do homem deram origem a actos de barbárie, que são uma afronta à consciência da humanidade; e que o advento de um mundo em que os seres humanos, libertos do temor e da miséria, gozam da liberdade de palavra e da liberdade de crenças…”, estabelece o artº 1º da referida Declaração: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Definido este princípio basilar, estabelece a Declaração dos Direitos do Homem um rol de outros 30 princípios relativos aos direitos e às liberdades fundamentais. Como é reconhecido no preâmbulo desta Declaração, a instituição escolar é chamada a desempenhar um papel essencial na transmissão destes direitos e liberdades fundamentais, desempenho este que deve passar pelo livre direito de todos à educação. Estabelece o artº 26º-1: “Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito”. Nestas condições, “a educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz” (artº 26-2). Devemos reconhecer como, em determinados contextos societais e políticos, alguns dos princípios enunciados em relação à escola são tarefas difíceis de conseguir, tendo em conta as opções relativas à alocação de recursos financeiros, à complexidade das funções da instituição Jorge Carvalho Arroteia 149 escolar, à diversidade dos alunos e à procura crescente da educação, registada em todos os níveis de escolarização. Tal facto tem sido ultrapassado através da democratização do ensino e do acesso da população em idade escolar aos benefícios fundamentais, conferidos pela escolarização alargada e pela maior permanência dos educandos na instituição escolar. Recordamos que a abordagem das funções da escola, nas suas relações com os Direitos do Homem, realça a existência de três princípios básicos e fundamentais, tal como nos é sugerido pelo Parlamento Europeu: · o princípio da universalidade: não se justificam excepções aos princípios consagrados na Declaração dos Direitos Humanos, porque se reconhece não haver incompatibilidade entre democracia e direitos humanos; · o princípio da indivisibilidade: não se podem separar os direitos civis e políticos dos direitos económicos, sociais e culturais; · o princípio da interdependência: existe uma ligação directa entre direitos humanos, democracia e desenvolvimento. Com efeito, as condições de exclusão social criam um meio propício para a violação dos direitos humanos e constituem uma ameaça, grave, para a consolidação dos regimes em vias de democratização. As considerações anteriores acentuam a importância vital da escola como principal agente de socialização. Contudo, não se exclui a articulação destas funções conjuntamente com a acção de outros agentes, tais como a família, o grupo de amigos e os meios de comunicação social. É evidente que cada um destes meios tem diferentes responsabilidades, sendo certo que este processo é bastante complexo e exigente, requerendo a apreensão de diversos conhecimentos e o desempenho de papéis específicos, que garantam uma melhor integração e participação social. Estas noções acentuam o papel que Durkheim (1968, p. 51) atribuiu à educação como: “a socialização metódica das gerações mais jovens”. Como facilmente compreendemos, sendo esta uma das principais funções da educação, identificamos diversos condicionalismos que nem sempre permitem à instituição escolar o melhor cumprimento desta função. A natureza e a dimensão das instalações, bem como a variedade dos equipamentos de que dispõe, são alguns dos factores que determinam o tipo e a intensidade das aprendizagens. Do ponto de vista humano, a densidade de ocupação dos edifícios, a dimensão das turmas, a formação dos docentes e a natureza das relações interpessoais e o nível de satisfação dos diversos corpos – funcionários, professores e alunos –, bem como as motivações para o trabalho, são factores condicionantes da aprendizagem e da socialização da população discente. Note-se que, a montante e a jusante da escola, outros factores condicionam estas tarefas. Naturalmente que, devendo a família partilhar a responsabilidade desta função, ou mesmo desempenhá-la em predominância – sobretudo nos primeiros anos de vida dos alunos –, é a “herança cultural” dos alunos que vai condicionar, em primeiro lugar, o nível e a intensidade do fenómeno de socialização. Complementarmente a este factor, são as acessibilidades económicas e culturais, de natureza individual e social, que afectam este desempenho. Reconhecemos que, exteriormente à escola, as disponibilidades financeiras determinam a maior ou menor parcela do orçamento que lhe é consignado e são, acima de tudo, as medidas de política educativa que corporizam esse apoio e condicionam a sua aplicação. Neste caso, 150 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos valeria a pena apreciar se estas medidas se orientam mais para os alunos ou para a escola, se respondem aos anseios da comunidade educativa ou às ‘élites’ afectas ao poder, se apostam na inovação ou na burocracia, se correspondem às expectativas da sociedade no seu todo ou se correspondem a uma mera gestão administrativa do sistema. E porque estamos a invocar a DUDH, importaria reter se a própria formação dos professores é adequada à cultura dos princípios estabelecidos na presente Declaração. É certo que a igualdade de direitos e de deveres consignada neste documento é frequentemente afectada por questões de raça e de natureza religiosa, social, política ou outras situações aberrantes, que põem frequentemente em causa o estabelecido no artº 2 da referida Declaração: “Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação”. Para além dos aspectos já referidos, relacionados com a educação, também a vida cultural merece uma referência particular, na medida em que reconhece o artº 27-1 que “toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam”. Considerando a escola como centro de aprendizagens, a esta cabe orientar o desenvolvimento dos alunos nos domínios intelectual, cognitivo, afectivo, psicomotor, espiritual e moral, favorecendo o equilíbrio da personalidade e a sua realização pessoal. Para isso, este pequeno microcosmos, que é a escola, tem de atender às características individuais, de natureza genética e aos traços da personalidade dos alunos, organizando-se de modo a que aquelas possam emergir sem condicionar, em absoluto, as aprendizagens desta população. Contudo, novas dificuldades emergem desta situação, sobretudo as que resultam das condições ambientais e culturais em que decorrem as aprendizagens escolares. Sendo certo que a escola deve ser capaz de formar indivíduos capazes de respeitarem os princípios fundamentais de democracia, da promoção e da defesa dos direitos humanos, da justiça, da equidade e da solidariedade, reconhecemos as dificuldades, sobretudo de exclusão social, em que se operam algumas aprendizagens que impedem o desempenho absoluto da função personalizadora da escola. É certo que a instituição escolar desempenha uma função primordial no progresso individual e colectivo da nossa sociedade, através da preparação dos jovens para a vida activa. Trata-se de preparação laboral, que pode ser entendida como uma necessidade decorrente da evolução que hoje experimentamos e que tem determinado constantes e profundas transformações na divisão e na natureza do trabalho social. Estes atributos levam-nos a pensar que a escola tem de continuar a desempenhar um papel específico na preparação para o desempenho da profissão dos seus alunos. A este respeito, aponta a referida Declaração (artº 26) para a necessidade de: “O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar ao alcance de todos em plena igualdade, em função das aptidões individuais”. De facto, estabelece o artº 23 – DUDH: “Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego”. Estas são algumas das questões que se estabelecem entre a escola e a sociedade nas suas relações com a democratização, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e o exercício Jorge Carvalho Arroteia 151 da cidadania. Mais do que a inventariação destas condições, importa realçar o espírito de abertura, de tolerância e dignidade, de liberdade, de igualdade e de solidariedade, valores que devem fazer parte do quotidiano do nosso universo escolar. Como afirma Fernandes (2005, p. 247), estas atitudes devem atender “às tendências que atravessam as sociedades actuais, aos processos de desestruturação e de reestruturação que as anima, para que se afirmem e se protejam os direitos do homem e se enscontrem formas de inclusão de todos e não de indigna exclusão”. Po isso, “há que construir uma sociedade inclusiva. Essa é a tarefa de todos” (Loc. cit.). Escola De acordo com Cabanas (1984, p. 57), a escola deve ser entendida como um grupo social, caracterizado “por uma interacção entre determinado número de pessoas, por valores semelhantes, objectivos comuns e, finalmente, por uma consciência de grupo”, em que as características essenciais deste grupo são a sua interacção social e coesão, tendo em vista atingir determinados objectivos, fixados para o mesmo. Nesta perspectiva, a escola pode ser encarada de forma distinta: · Como “instituição” (escolar), é entendida como “uma forma de organização social que desempenha uma função social e tende a durar independentemente da vontade dos seus membros” (BIROU, 1978, p. 209). A instituição escolar, como as restantes instituições políticas, religiosas e familiares, apresenta uma especificidade que resulta dos seus objectivos e regulamento, da sua organização interna, das características que apresenta e da diversidade do público que a frequenta. De facto, enquanto “instituição social” povoada por uma população solidária no cumprimento de determinados objectivos e na satisfação de diversas necessidades culturais, profissionais e materiais, a escola deve contribuir, de forma decisiva, para a formação do aluno e para a modernização do sistema social e educativo. · Como “organização social”, entendendo-a, à semelhança de Birou (Op. cit., p. 288), como uma “articulação das estruturas sociais, das instituições (…) e das relações sociais mais importantes, de modo a permitir o bom funcionamento da sociedade”. Para tanto, é de esperar que a escola, enquanto organização social, saiba adaptar-se ao seu meio, às condições do seu “ambiente” e à participação dos diversos actores sociais que nela convivem: alunos, professores, funcionários e outros membros da comunidade local, promovendo a mobilização de esforços e a partilha de responsabilidades na gestão do seu quotidiano. Nesta perspectiva e de acordo com Nóvoa (1992, p. 25), o estudo da “organização escolar é fruto de um compromisso entre a estrutura formal e as interacções que se produzem no seu seio, nomeadamente entre grupos com interesses distintos”, sendo os estudos direccionados para esta organização orientados em três grandes domínios (Loc. cit.): “· a estrutura física da escola: dimensão da escola, recursos materiais, número de turmas, edifício escolar, organização de espaços, etc.; · a estrutura administrativa da escola: gestão, direcção, controlo, inspecção, tomada de decisão, pessoal docente, pessoal auxiliar, participação das comunidades, relação com as autoridades centrais e locais, etc.; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 154 · · a estrutura social da escola: relação entre os alunos, professores e funcionários, responsabilização e participação dos pais, democracia interna, cultura organizacional da escola, clima social, etc.” Como “comunidade educativa“. Neste caso, “o Eu e os Outros podem fundir-se abrindo-se e interpenetrando-se num plano mais íntimo, e a sua participação no Nós pode comprometer as suas profundidades pessoais sem que todavia esta integração atinja o seu máximo de intensidade” (GURVITCH, 1979, p. 176). Seguindo outro autor (BIROU, 1978, p. 76), como “uma forma de sociabilidade baseada numa certa consciência do nós”, traduzida em objectivos e práticas comuns, em sentimentos de solidariedade e em cumplicidades que conduzem a uma participação acrescida nas actividades colectivas. O cumprimento destas tarefas é determinante não só para a construção da verdadeira “comunidade educativa”, que abarca os actores mais directamente envolvidos na transmissão e na construção do conhecimento pedagógico, ou seja, os alunos, mas também para os familiares e os elementos externos que fazem parte do universo social que envolve a própria escola. As diferentes concepções de comunidade, de Gurvitch e de Max Weber, sugerem que a escola possa ser considerada como uma “colectividade real”, que, revestindo-se de funções muito específicas, tem de prosseguir um conjunto de objectivos de natureza sociocultural e profissional. Este entendimento é expresso por Q. Cabanas (1989, p. 59), que defende ser a escola, “agente educativo chave dentro da sociedade, mas não o único que cumpre duas funções principais: a função residual e a de coordenação: a primeira, facultando ao aluno um conjunto de outros ensinamentos que não são adquiridos noutro local; a segunda, talvez a mais difícil de prosseguir e alcançar, facultando a integração das aprendizagens oferecidas pela escola, com os demais conhecimentos adquiridos pelo aluno no meio em que vive”. Para além de ser considerada como uma “comunidade”, a escola (entendida no seu sentido mais amplo) é também um “grupo social”, com características aproximadas das que lhe foram definidas por Gurvitch (1979, p. 348): “unidade colectiva real (…) directamente observável e fundada em atitudes colectivas, contínuas e activas, tendo uma obra comum a levar a cabo.” Neste caso, a coesão do grupo assenta numa “unidade de obras e de condutas” e nas “manifestações de sociabilidade” que aproximam os diversos elementos e membros deste “agrupamento”, favorecendo a sua coesão e interacção mútuas. Nesta perspectiva, a escola é um “grupo social” (“sistema social”, para BARROSO, 1996, p. 44), que segue um determinado modelo estrutural e organizacional, sendo a sua actuação orientada por um conjunto de regras e normas, internas e externas, que promovem o cumprimento de determinados objectivos, cujo fim último deverá ser a promoção do desenvolvimento humano, o sucesso escolar e educativo dos alunos e o desenvolvimento da própria sociedade. Estes aspectos podem ser considerados a propósito dos diferentes tipos de abordagem: institucional, sistémica e organizacional da escola. De facto, sendo a escola uma unidade vital do sistema de ensino, é de esperar que, à semelhança da célula viva, ela própria mantenha as mesmas características e exigências que permitem identificar aquele todo. Melhor dizendo: sendo a escola uma “unidade complexa”, que aglutina uma população diferenciada, “vinculada pela aceitação de certas normas e do desenvolvimento de projectos comuns centrados nas Jorge Carvalho Arroteia 155 actividades escolares” (ARROTEIA, 1993, p. 31), ela deve apresentar outras características que as distinguem das demais organizações sociais. Referimo-nos à “divisão do trabalho social”, à “supervisão hierárquica” e às tomadas de decisão que devem ser praticadas no seu interior, tendo em mente as características funcionais e orgânicas da população docente, o seu desempenho profissional e a natureza das aprendizagens dos alunos. Os traços acima referidos parecem dar razão à perspectiva crítica de escola, apresentada por Husen (1974, p. 31), que, a propósito da identificação das novas características da sociedade educativa, afirmou: “a escola actual é como uma indústria de produção maciça realizada em unidades de grande escala, isto é, amplos edifícios com muitos alunos e muitos professores dirigidos por uma equipa de burocratas. A produção baseia-se no pressuposto de que o ensino e aprendizagem estão correlacionados: a mais ensino corresponde mais aprendizagem”. Embora sem esgotar o enunciado das características de natureza organizacional e pedagógica que devem identificar a escola, entendemos que esta tem de garantir um grande número de funções que favoreçam a socialização e a promoção sociocultural e afectiva dos seus alunos. Estes atributos são indispensáveis para o desenvolvimento do seu espírito crítico e para a aquisição de conhecimentos empíricos, científicos e especializados, que garantem o seu desempenho e inserção socioprofissional, a socialização, inclusão social e as práticas de cidadania. Trata-se de alguns dos desafios que os sistemas educativos, como sistemas sociais que são, têm de responder: substituírem a transmissão dogmática dos saberes, os métodos de ensino autoritários, predominantemente didácticos (indutores de passividade), a pouca criatividade e a reprodução cultural por uma maior participação e desempenho de todos os seus agentes na construção e desenvolvimento do próprio sistema educativo, na inovação e na mudança social. De acordo com Pedró (1998, p. 111), “o problema principal consiste em discernir se os nossos sistemas educativos podem mudar o bastante, e duma forma suficientemente rápida, ou se, definitivamente, não há outro remédio senão refundá-los, com base em disposições diferentes das que lhes deram vida”. Mais ainda, afirma o mesmo autor ((Loc. cit.): “A descentralização e autonomia dos centros escolares podem representar uma verdadeira alternativa, ainda que não isenta de riscos. Talvez a mercantilização da educação seja aquilo que mais rapidamente possa contribuir para a necessária mudança, mas não podemos deixar de insistir no facto de o mercador ser um excelente servidor mas um mau amo”. Estabelecimento de ensino A designação de estabelecimento de ensino não se deve limitar apenas à unidade física e ao local onde se desenvolvem as actividades de ensino-aprendizagem, constituindo um “nó” de uma “rede” alargada de outras instituições orientadas para a mesma actividade, mas também como um caso de “organização social”, identificada por: · um espaço físico e social, onde têm lugar diversos processos sociais; · um regime (organização), dependente do poder central e que estabelece as normas de funcionamento dos processos sociais estruturados e dinamizados que se desenvolvem internamente; · um projecto, que define as actividades internas e direccionadas para a comunidade e uma interacção com a sociedade envolvente. Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 156 Trata-se, portanto, de uma organização complexa que desempenha funções muito diferenciadas, desde as de administração e de gestão às de ensino e formação, avaliação, informação e animação. De acordo com a LBSE (artº 40), os estabelecimentos de educação e de ensino podem ser de diferente natureza e tipologias, destinados a albergar a população escolar dos diferentes níveis, desde a educação pré-escolar ao ensino superior. Para além disso, os estabelecimentos de ensino que funcionam em edifícios escolares (artº 39), construídos para o efeito, devem ser edificados tendo em conta a sua flexibilidade, ou seja, terem “suficiente flexibilidade para permitir, sempre que possível, a sua utilização em diferentes actividades da comunidade”, ter em conta a realização de actividades escolares e o “desenvolvimento de actividades de ocupação de tempos livres e o envolvimento da escola em actividades extra-escolares”, terem dimensões apropriadas e “ajustados às características e necessidades regionais e à capacidade de acolhimento de um número equilibrado de alunos, de forma a garantir as condições de uma boa prática pedagógica e a realização de uma verdadeira comunidade escolar”, bem como “contribuir para o sucesso educativo dos alunos”. De acordo com dados do ME-GIASE, o total de estabelecimentos de educação e ensino, em 2005/06, no continente, era o seguinte: Quadro 8 Nível/tipo Educ. Pré-escolar Ensino Básico 1º Ciclo 2º Ciclo 3º Ciclo Ens. Secundário Ens. Profissional E. Pós-Sec. (não Sup.) Total 6 554 Público 4 509 Privado 2 045 7 930 1 066 1 355 7 441 835 1 129 489 231 226 626 575 39 478 351 12 148 224 27 Instituição escolar De forma ampla, as instituições sociais “são sistemas organizados de relações sociais que incorporam certos valores e procedimentos comuns e atendem a certas necessidades básicas da sociedade” (HORTON, HUNT, 1980, p. 161). No caso da instituição escolar, esta pode ser entendida como “uma forma de organização social (…) que desempenha uma função social e tende a durar independentemente da vontade dos seus membros” (BIROU, 1978, p. 209). A instituição escolar, como as restantes instituições políticas, religiosas e familiares, apresenta uma certa especificidade que resulta das suas características, da diversidade do público que a frequenta e da sua organização interna. Tal facto resulta, de acordo com Horton e Hunt (Op. cit., p. 156), do aumento da complexidade da vida moderna, “que não diminuiu a importância das funções de ensino da família, mas trouxe a necessidade de muitos tipos de instrução que exigem órgãos educacionais especializados”, tais como a escola. Jorge Carvalho Arroteia 157 Para além de decalcar os modelos de estratificação e de organização sociais dominantes, esta instituição cumpre, ainda, um certo número de funções específicas – umas manifestas, outras latentes –, relacionadas, por um lado, com a aprendizagem e a transmissão dos conhecimentos e, por outro, com a inovação, a mudança e a integração na comunidade, para as quais a instituição escolar deverá contribuir. Estas situações são dificilmente conciliáveis com a diversidade de interesses locais ou com a acção de diversos “actores” e contextos. Contudo, a acção destas instituições, se alicerçada em projectos educativos abrangentes, promotores do sucesso dos alunos e do desenvolvimento científico e sociocultural de âmbito comunitário, pode contribuir para o lançamento de programas concretos de desenvolvimento da educação, de reabilitação patrimonial, de formação de recursos humanos e outros, sobretudo se articulados com o papel das autarquias, que contribuam para a melhoria da qualidade do ensino e para a construção de uma imagem consentânea com as expectativas que a sociedade nele deposita. Como observa Lima (1991, p. 38), “a força da imagem institucional da escola releva, em grande parte, do seu carácter organizacional e dos processos que actualiza ao reunir professores e alunos no quadro de uma unidade social intencionalmente construída, com determinados objectivos a atingir e processos e tecnologias como formas de os alcançar, estruturando hierarquias e poderes, formas de comunicação, etc.”. Sistema escolar O sistema escolar é o conjunto das organizações de ensino, públicas e não públicas, que, articuladas entre si, respondem às necessidades de instrução e de formação da população nos seus diversos níveis e ao longo de diferentes etapas da sua vida pessoal. Tendo em conta as funções do sistema, esta formação deve incluir a formação básica, inicial e ao longo da vida, respondendo, assim, às solicitações dos indivíduos que o frequentam e da própria sociedade. A concretização das expectativas e das funções que atribuímos ao sistema escolar só é possível mediante a satisfação de um certo número de funções sociais e a observância de um conjunto de normas ditadas pela própria organização social onde aquele se insere. De facto, o estudo do sistema escolar como sistema social leva a que seja entendido como “uma organização que contribui para a transformação de objectivos educativos (mediante, primordialmente, uma acção instrutiva desenvolvida de forma sistemática e de acordo com princípios e técnicas que pretendem ter uma base científica) e resultados que outorguem uma resposta adequada a solicitações, expectativas e necessidades da sociedade e de grupos individuais que a integram” (DACAL, 1986, X). Estes pressupostos são fundamentais para o bom funcionamento do sistema escolar, que só poderá atingir plenamente os seus objectivos se os diversos elementos que o compõem se encontrarem devidamente articulados e solidários no cumprimento de um objectivo específico e comum a todos os seus membros. Escola eficaz A reflexão sobre a “escola eficaz” tem vindo a aumentar deste o final dos anos sessenta (NÓVOA, 1992, p. 22), e, em particular, depois do estudo realizado por R. Edmonds, em 1979, sobre “Search for effective schools: The identification and analysis of city schools that are instructionally effective for poor children” (East Lansing, Michigan State University, 1983). De acordo com este autor, uma escola eficaz é uma instituição onde não existe relação entre os antecedentes familiares dos alunos e o seu sucesso, ou seja, uma escola que apresente as seguintes características (GOOD, WEINSTEIN, 1992, p. 83-84): “a) a gestão centrada na qualidade de ensino; b) importância primordial das aprendizagens académicas; c) clima tranquilo e bem organizado, propício ao ensino e à aprendizagem; d) comportamentos dos professores transmitindo expectativas positivas quanto à possibilidade de todos os alunos obterem um nível mínimo de competências; e) utilização dos resultados dos alunos como base da avaliação dos programas e dos currículos”. De acordo com Lima (2005, p. 105), “investigações posteriores provocaram alargamentos desta definição de eficácia. A focalização passou dos resultados para o progresso manifestado pelos alunos”. Tal facto tem motivado a procura de diferentes respostas e a elaboração de modelos diferenciados, onde se incluem diversos tipos de indicadores responsáveis pela “eficácia” da escola. Assim o aponta Álvarez (1995, p. 41), quando afirma que “a maioria dos estudos sobre escolas eficazes, bem como as investigações sobre a qualidade educativa, apresentam, como indicadores constantes (CERI-OCDE, 1994), ‘o alargamento da responsabilidade por parte da escola, a participação da comunidade escolar no funcionamento da escola e a existência inequívoca de uma liderança pedagógica exercida em grupo’”. A propósito da “escola eficaz”, diz-nos Oliveira (XAVIER, SOBRINHO, MARRA, 1994, p. 19) que, como “condições necessárias para uma escola eficaz, aparecem a autonomia de gestão da escola, a liderança pelo director, a participação da comunidade e a existência de recursos sob controlo local”. Aponta, ainda, o mesmo autor que as condições suficientes para estas escolas incluem “a capacitação dos professores, o estabelecimento de planos de carreira para o magistério e a avaliação externa das mesmas”. Constituem pilares fundamentais deste modelo de “escola eficaz” a democratização e a participação, a motivação humana e o estilo de liderança, a racionalidade e a qualidade dos serviços educativos. A propósito das relações entre alguns destes pilares, evocamos, mais uma vez, Oliveira (Loc. cit.), quando afirma: 160 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos “a democratização deve ser buscada enquanto instrumento para promover a qualidade, dentro de uma cultura efectivamente democrática (…), mas sem perder de vista os seus fins próprios que é o de capacitar os alunos a tornarem-se cidadãos conscientes e adequadamente instrumentados para entender, analisar, conviver, criticar e transformar o seu meio e a sociedade”. Dentro desta linha de pensamento, relacionada com a defesa dos princípios de democratização, da participação e da melhoria da qualidade dos serviços educativos, cabe-nos mencionar algumas situações que, geralmente, podem ser invocadas para alterar a generalização destes pressupostos. Uma delas resulta, portanto, da abertura do sistema em função da universalidade e da gratuitidade do ensino, bem como do alargamento da rede, o que induz, comummente, uma maior procura da educação. Contudo, como se pode ler num documento da UNESCO (1985), nem sempre a expansão da educação conduz “à deterioração da qualidade do ensino a não ser que não seja acompanhada por um conjunto de medidas indispensáveis, a saber: formação de docentes qualificados e em número suficiente, construção de salas de aula adequadas e bem equipadas, elaboração de material didáctico (…)”. Apesar destas considerações, parece-nos que poderemos ir mais longe se evocarmos a natureza e a especificidade da escola, como organização social. Nestas circunstâncias, haverá que prepará-la na sua estrutura e funcionamento, de modo a permitir que os seus elementos, em especial o corpo docente, desempenhem a sua actividade satisfazendo o melhor possível as respectivas motivações e interesses. Trata-se, no fundo, de aplicar à instituição escolar, nesta nova era da “civilização pós-industrial,” como a identifica A. Toffler, os mesmos princípios que hoje em dia são aplicados à gestão estratégica das empresas. Entre eles, conta-se a inovação, a liderança, a gestão dos recursos humanos, a formação e a qualidade dos serviços (na óptica do consumidor). Relativamente à organização escolar, temos conhecimento das relações que este “microcosmos” social estabelece com os demais sistemas sociais, partindo do princípio, como assinalou Maslow, que o indivíduo é, sobretudo, motivado pela satisfação das suas necessidades. Certo é que, ultrapassando um qualquer grau destas, passará a ser motivado pelas necessidades correspondentes ao grau imediatamente superior. Por outras palavras, satisfeitas as necessidades primárias – fisiológicas e de segurança –, as necessidades secundárias – sociais, de estima e de auto-realização – surgem como determinantes para o estabelecimento de um clima organizacional que induza uma maior e ampla participação de todos os membros da mesma organização social. Daqui decorre a abertura e a maior participação que, hoje em dia, os “líderes” deverão imprimir às suas relações com os colaboradores mais directos e o tipo de liderança a adoptar na gestão desta instituição social e na construção da própria comunidade escolar e educativa. Família e educação A associação da família ao processo educativo deve-se não só à importância daquela no processo de socialização dos indivíduos, sobretudo nas sociedades de cariz mais tradicional, mas também ao contributo da instituição familiar no processo de desenvolvimento humano dos alunos, como facilitadora das suas relações com a sociedade. Assim, a aprendizagem das noções básicas relativas ao mundo que nos rodeia, das tradições, das normas, dos valores e das práticas sociais que permitem a vida em sociedade constitui um processo lento, cujo início tem lugar nos primeiros anos da nossa vida e no seio da constelação familiar. Como um processo dinâmico, a acção da família não se circunscreve apenas a este cenário. Vai-se ampliando com a multiplicidade de influências e contactos que se estabelecem entre o indivíduo e o meio social onde vive. Este fenómeno vai contribuir, desde os primeiros momentos da nossa existência, para a formação da personalidade, na qual interferem não só as influências da instituição familiar, mas também das instituições religiosas, educativas e culturais e dos diferentes grupos sociais. Note-se que o “processo de aprendizagem”, iniciado na família com o domínio das primeiras palavras e a interiorização das regras de comportamento e das práticas sociais, dos valores religiosos e humanos, dos diversos conhecimentos sobre o meio e a sociedade em que vivemos, desenvolve-se ao longo de estádios sucessivos do crescimento humano, sendo auxiliado por acção de múltiplos factores e agentes que garantem a aprendizagem de novos papéis e de atitudes comportamentais, facilitadoras do processo de socialização. Como nos recorda Cabanas (1984), esta não é mais do que um processo de aprendizagem social que permite à pessoa humana, durante toda a sua vida, assumir, interiorizar e integrar na estrutura da sua personalidade as formas e os conteúdos culturais do seu meio ambiente, bem como incorporar-se progressivamente na sociedade na qual há-de viver como membro activo da mesma. Embora com peso diferente, fazem igualmente parte deste processo os conhecimentos que se vão adquirindo ao longo de vários ciclos de estudos e que permitem uma adequada capacitação profissional, garante do exercício de uma actividade produtiva ou de serviços no seio das sociedades industrializadas em que vivemos. A especialização laboral, característica das sociedades desenvolvidas e com elevada divisão do trabalho social, tem lugar não só dentro das próprias instituições escolares, mas, fundamentalmente, fora delas, privilegiando a acção de outros agentes, que não só família e a escola, neste processo de socialização. Note-se, ainda, que a transmissão destes tipos de conhecimentos, assegurada essencialmente pelas classes adultas, bem como esta acção de acompanhamento e de controlo exercida pelas gerações mais antigas sobre as mais novas, que não estão ainda maduras para a vida social, foi 162 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos uma das primeiras funções atribuídas por Durkheim (1980, p. 51) à educação, considerando-a como uma socialização metódica das novas gerações. Outro objectivo deste processo é o de suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos, intelectuais e morais que lhe são exigidos pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio social no qual se encontra inserido. Referindo outras características, este tipo de acção e de aprendizagem das condutas e das regras de viver em sociedade, incrementado pela família, deverá estar em constante equilíbrio com o crescimento da personalidade, sendo, por sua vez, um processo: · contínuo, que se vai desenvolvendo ao longo de toda a vida do indivíduo. Embora mais intenso na infância e juventude, prossegue ainda na fase adulta, mas de forma secundária; · complexo, porque se realiza de acordo com os diversos estádios de crescimento humano e ao longo das fases de desenvolvimento social do indivíduo; · variado, porque nele interferem diversos factores e agentes, cada um dos quais com uma importância decisiva no desenvolvimento da personalidade. Entre estes factores, destacamos os de carácter interno, como os psíquicos e biológicos, e os de natureza externa, de cariz sociocultural e interpessoal. No cumprimento dos aspectos acima referidos, a família tem um papel fundamental. Contudo, pode constituir-se como o primeiro elo de uma cadeia de reprodução das desigualdades familiares e sociais, assegurada pela própria escola como resultado do diferente “capital cultural” herdado pelos alunos no seu ambiente familiar. Nestas circunstâncias, e não sendo possível generalizar a importância da escola no acréscimo da mobilidade social dos seus alunos, nem contrariar as teses mais deterministas da reprodução social, assinalamos a importância da formação profissional, hoje em dia fora do contexto familiar, como factor determinante de uma melhor integração laboral dos jovens, sobretudo dos que provêm de famílias dotadas de menor capital cultural. Como nota Musgrave (1984, p. 45), “do mesmo modo que os que se tornam membros de qualquer grupo necessitam de aprender os hábitos deste, também os novos membros da família têm de ser socializados nos papéis que respeitam ao estádio do ciclo vital por que estão a passar. No entanto, a família tem uma posição chave na estrutura social, uma vez que é sobretudo através dela que a sociedade, em geral, inicia os seus novos membros”. Com efeito, sendo esta que, desde o primeiro momento”, fornece cuidados físicos, mas também ensina às crianças a interpretação que os pais fazem da realidade social circundante, sendo dentro da família que a personalidade da criança se desenvolve nos primeiros anos e nos anos de formação” (Op. cit., p. 45), os traços futuros da personalidade do indivíduo são marcados pela vivência e pelas marcas da primeira socialização experimentada no seio do sistema familiar. Dependendo, muito embora, alguns destes aspectos da natureza e da extensão deste núcleo, bem como de algumas características individuais – marcadas fundamentalmente pela hereditariedade biológica –, todos reconhecemos a esta instituição um papel notório na transmissão da cultura e dos conhecimentos, das atitudes e dos valores, na formação da personalidade e do carácter de qualquer cidadão. E, uma vez que a família está no centro de todos estes problemas e das nossas preocupações, relegá-la para um papel subalterno e secundário, excluindo-a da posição que lhe compete na sociedade, causará grave dano Jorge Carvalho Arroteia 163 ao autêntico crescimento do corpo social, no seu conjunto. Por isso, devemos ter em conta as alterações demográficas da população – com a redução crescente do número de filhos por família, do envelhecimento progressivo dos habitantes, da alteração da composição e estrutura dos núcleos familiares – e a evolução da sociedade, garantindo que esta mudança não venha a distorcer quer a função da família, enquanto primeiro agente de socialização, quer as atribuições da escola. Espera-se da “instituição familiar” um conjunto de funções principais que Murdock sistematizou em quatro grandes grupos: a função sexual, a económica, a reprodutora e a educacional. E como o reconhece Musgrave (Op. cit., p. 62), uma das suas funções primordiais é a de “ajudar a criança a atravessar a adolescência com um mínimo de comportamento anti-social, sem, no entanto, lhe distorcer a personalidade, reprimindo-a mais que o devido”. Para além dos considerandos anteriores, importa ter em atenção alguns aspectos da situação das famílias em Portugal e da sua evolução no tempo. De acordo com o INE (2002, LXXXI), “Em 2001, foram recenseadas 3 650 757 famílias clássicas residentes em Portugal, o que traduz uma taxa de variação de 16,9% comparativamente com 1991 (…)”. Por sua vez, os dados relativos à sua dimensão referem o seguinte (INE, 2002, LXXXII): · “Em Portugal, do total de famílias clássicas residentes recenseadas em 2001, 17,3% referiam-se a famílias com uma pessoa, 28,4% a famílias com duas pessoas, 25,2% a famílias com três pessoas, 19,7% a famílias com quatro pessoas e 9,5% a famílias com cinco ou mais pessoas. · Comparativamente com 1991, as famílias de maior dimensão diminuíram o seu peso relativo, sobretudo as famílias compostas por cinco ou mais pessoas, que perderam 5,9 pontos percentuais. As famílias com uma, duas e três pessoas aumentaram, com destaque para as famílias unipessoais, com mais 3,5 pontos percentuais. · Em 2001, as famílias de duas pessoas eram as mais significativas em Portugal e na quase totalidade das NUTS II, com excepção para o Norte e para a Madeira (em que as famílias mais representativas eram compostas por 3 pessoas). Este facto reflecte-se na dimensão média da família, mais elevada sobretudo nas regiões do litoral Norte, Açores e Madeira.” Estas alterações foram, igualmente, acompanhadas de outras situações, de que destacamos, apenas, as seguintes (INE, 2002, LXXXIII): · “Em 2001, foram recenseadas 631 762 famílias clássicas unipessoais residentes em Portugal, traduzindo uma taxa de variação de 44,9%, face a 1991. · A percentagem de famílias unipessoais, no total de famílias clássicas, registou um aumento de 3,5 pontos percentuais comparativamente com 1991, mais de metade das famílias unipessoais eram famílias de idosos, destacando-se as famílias de uma idosa (39,5%) (…)”. Ainda sobre a composição dos núcleos familiares, importa assinalar (INE, 2002, LXXXIV e LXXXV): · “Em 2001, foram recenseados 353 971 núcleos familiares monoparentais em Portugal, traduzindo uma taxa de variação de 11,0% comparativamente a 1991. Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 164 · A proporção de núcleos familiares monoparentais, no total de núcelos familiares, aumentou 2,3 pontos percentuais relativamente a 1991. Dentro dos núcelos familiares monoparentais, a menor percentagem manteve-se no tipo de núcleo de mãe com filhos(…).” Ainda na mesma data: · “Em 2001, foram recenseados em Portugal 1 740 522 núcleos familiares de casais com filhos, representando uma diminuição de 3,1 pontos percentuais da sua proporção, no total de núcleos familiares de casais, face a 1991. · A proporção de casais com filhos manteve-se superior a 50% em todo o território nacional, observando-se os valores mais elevados no Norte, particularmente Cávado, Ave, Tâmega e Entre Douro e Vouga, assim como nas Regiões Autónomas. · Entre 1991 e 2001, registou-se um decréscimo generalizado da proporção de casais com filhos (…), com excepção da Beira Interior Sul e R.A. Açores, onde aumentou ligeiramente”. Ainda sobre este assunto, podemos assinalar que, “entre 1991 e 2001, destaca-se o forte aumento dos divorciados (104,2%) e dos casados sem registo (96,1%), traduzindo a crescente instabilidade e informalidade das relações conjugais” (INE, 2002, LXV). Estes dados confirmam as grandes alterações introduzidas, pela “mão da demografia”, no sistema educativo português e certas medidas de política educativa relacionadas com as novas configurações da rede e tipologia dos estabelecimentos escolares. Até porque, tendo em conta o nível de vida pouco elevado da grande parte das famílias portuguesas, importa dar oportunidade à escola para “a criação de programas educativos adequados a alunos de baixos rendimentos” (MARQUES, 1997, p. 38), como “instrumento fundamental de uma política educativa preocupada com a igualdade de oportunidades (…)” e como necessidade da “assunção pela escola das funções de suplência da família” (Loc. cit.). Formação inicial de professores A formação inicial (de professores) corresponde à frequência de um ciclo de estudos a que deve permitir a aprendizagem dos conteúdos científicos e das práticas pedagógicas fundamentais que garantem a formação docente e a sua preparação para o exercício da profissão. Como observa Pardal (1991, p. 32), “a concepção da formação para aplicação a um contexto determinado configura-se (…) indissociada de um conteúdo educacional, da morfologia da sociedade e da estrutura do Estado, como parte da continuidade e da mudança de uns e de outros, e como um dado de estabilidade da própria formação”. Tratando-se de uma formação profissional específica, a formação inicial da classe docente é marcada por factores diversos que marcam a sua originalidade e diversidade. De acordo com Bardi (2003, p. 31), esta é fortemente condicionada pelas características políticas do seu ambiente e, dependendo fortemente das perturbações de natureza económica, regista, de um país para outro, modelos específicos, diferenciados, à procura de um permanente equilíbrio”. É esta a imagem que nos fica quando compulsamos as propostas, os modelos e as decisões políticas relacionadas com a classe docente. O estudo dos diferentes modelos e sistemas de formação de professores no ensino secundário, em Portugal, estudado por este autor (PARDAL, 1991, p. 4), realça, ao longo da nossa história recente, a existência de diferentes sistemas de formação, assim traduzidos: “a) Da Reprodução: Curso da Secção de Ciêncas Pedagógicas, da Faculdade de Letras (1930-1974); b) Dualista: Curso de Habilitação para o Magistério Secundário (1901-1911); Curso das Escolas Normais Superiores (1911-1930); Cursos do Ramo de Formação Educacional, das Faculdades de Ciências (criado em 1971, e ainda em vigor); c) Da Integração: Licenciaturas em Ensino, de Universidades Novas (criadas em 1978, e ainda em vigor); d) Da Experiência: Profissionalização em Exercício (1980-1986)”. Podendo seguir diversos modelos que garantem uma formação sequencial tri-etápica e bi-etápica, incluindo nesta a formação académica de base, a formação de natureza pedagógica e a prática pedagógica, referimos, ainda, a formação integrada, que contempla a realização da prática pedagógica no percurso formativo do futuro docente. Loureiro (1981, p. 15-46) caracteriza cada um destes modelos de formação da forma seguinte: o modelo sequencial tri-etápico ficou conhecido pela existência de três momentos diferentes de formação: grau académico, diploma em ciências pedagógicas e estágio; o modelo sequencial bi-etápico passou a vigorar 166 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos com a reforma das Faculdades de Ciências, em 1971, com a criação do ramo educacional; e, finalmente, o modelo integrado, que passou a vigorar nas Universidades Novas, depois da sua criação em 1973 e, mais tarde, seguido pelas Escolas Superiores de Educação. Numa análise mais pormenorizada sobre as mudanças operadas no domínio da formação de professsores nas três últimas décadas (1970-1997), Formosinho (1997, p. 48-49), considerando a formação de professores do ensino pós-primário, assinala o seguinte: “O primeiro lustro deste período (1970-1975) viu formulada a política de expansão acelerada da educação escolar, através da Reforma Veiga Simão. Nesse mesmo período, ocorreram as primeira mudanças significativas na formação de professores – a primeira proposta de um modelo de formação inicial de professores nas Faculdades de Ciências (1971) e, a par disso, a facilitação do acesso e da formação profissional (pós-académica) dos professores (1969 e 1971). O segundo lustro (1975-1980) viu a criação e consolidação dos primeiros modelos de formação inicial integrada de professores nas Universidades Novas. O terceiro lustro (1980-1985) assistiu à criação de um novo modelo de formação para os professores não profissionalizados ao serviço – a profissionalização em exercício –; viu o início do funcionamento das Escolas Superiores de Educação e a criação dos Centros Integrados de Formação de Professores (CIFOPs) nas Universidades Novas. O quarto lustro (1985-90) viu a consagração legal do modelo integrado de formação inicial de professores e a institucionalização legal da formação contínua na Lei de Bases do Sistema Educativo (…). O quinto lustro (1990-95) viu a institucionalização de um modelo organizacional concreto de formação contínua de professores (…). Finalmente, o lustro de 1995-2000 (…) poderá vir a ser marcado pela institucionalização da formação especializada de professores e pela criação de um modelo de acreditação dos cursos de formação inicial e especializada de professores”. Sendo os professores os primeiros agentes de mudança da própria escola, é necessário que possuam uma adequada formação inicial, completada por um aperfeiçoamento contínuo e pelo seu empenhamento directo na gestão e avaliação das reformas do sistema. Estas funções estão explícitas na Lei de Bases, que define os grandes princípios gerais em que assenta a formação de educadores e professores. Para tanto, estipula a LBSE (artº 30): · “formação inicial de nível superior; · formação contínua que complemente a formação inicial numa perspectiva de educação permanente; · formação flexível que permita a reconversão e mobilidade dos educadores e professores dos diferentes níveis de educação e ensino (…); · formação integrada quer no plano da preparação científico pedagógica, quer na articulação teórico-prática; · formação assente em práticas metodológicas afins das que o educador e professor vierem a utilizar na prática pedagógica; · formação que, em referência à realidade social, estimule uma atitude simultaneamente crítica e actuante; · formação que favoreça e estimule a inovação e a investigação (…) Jorge Carvalho Arroteia · 167 formação participada que conduza a uma prática reflexiva e continuada de autoformação e auto-aprendizagem”. Estipula a LBSE (artº 31) que a “formação dos educadores de infância e dos professores dos 1º, 2º e 3º ciclos do ensino básico se realiza em escolas superiores de educação e em estabelecimentos de ensino universitário”, contrariamente aos professores do ensino secundário cuja formação é assegurada por estabelecimentos de ensino universitário. Por sua vez, a qualificação inicial dos professores do ensino superior coincide com os graus de doutor ou de mestre, “bem como os licenciados que tenham prestado provas de aptidão pedagógica e capacidade científica” (art. 35). De realçar, como nota Pardal (1991, p. 300), que “ a formação de professores configura (…) uma relação entre múltiplos agentes e uma situação de formação, uma teia de relações entre formadores, formandos, organização administrativa e um sistema de objectos sociais e pedagógicos”. Formação ao longo da vida A formação ao longo da vida engloba, no seu conjunto, diversas actividades relacionadas com a aprendizagem ao longo da vida, defendida no Conselho Europeu de Lisboa, em Março de 2000, assinalando, por esta via, “uma transição bem sucedida para uma economia e uma sociedade assentes no conhecimento” (Comissão das Comunidades Europeias). Esta preparação é fundamental não só do ponto de vista científico, dada a evolução contínua da ciência e a necessidade da sua actualização científica, mas também do ponto de vista pedagógico, já que se considera a inovação como indispensável ao processo de desenvolvimento social, económico e tecnológico em que vivemos. Daí o significado que alguns autores conferem à formação contínua de professores, os quais, segundo Pérez (1999, p. 268), desempenham uma função básica, semelhante à da circulação sanguínea num organismo vivo, “que realiza incessantemente o transporte e difusão a todo o organismo vivo da energia básica procedente da nutrição e da oxigenação do ser vivo”. No dizer deste mesmo autor (Loc. cit.), “a função básica de nutrição que alimenta todo o sistema orgânico” é a investigação operacional e a função básica respiratória, é cumprida pela “inovação educativa que incorpora no organismo o ar fresco imprescindíevl à oxigenação de todo o processo metabólico” (Loc. cit.). No que respeita a esta população, a LBSE estipula, no seu artº 38, que “todos os educadores, professores e outros profissionais da educação é reconhecido o direito à formação contínua”, formação esta diversificada e “assegurada predominantemente pelas respectivas instituições de formação inicial, em estreita cooperação com os estabelecimentos onde os educadores e professores trabalham”. Recordar a exigência actual da formação ao longo da vida exige encarar a participação nas acções de formação como etapas de um processo formativo a que deve estar sujeita a classe docente. Com efeito, o exercício desta como de outra actividade laboral exige destes uma relação permanente com a escola e com os meios formativos, acção que propicie uma actualização constante do saber e um melhor desempenho das tarefas profissionais. Em termos globais, justificam esta atitude a divisão do trabalho social e a segmentação de tarefas nas sociedades actuais, responsáveis pela crescente especialização do trabalho. Este facto preconizado pela abordagem “taylorista” da administração tem sido seguida pelas diversas correntes de pensamento “empresarial” desde o início deste século. Outras razões sublinham a necessidade desta formação. Salientamos a inovação e o desenvolvimento técnico e tecnológico, que obrigam ao prolongamento dos estudos, parcelares ou mais especializados, durante o exercício de uma profissão. No que diz respeito à classe docente, entendemos ser de considerar, ainda, a inovação das práticas pedagógicas e a procura 170 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos do maior sucesso educativo dos alunos como preocupações fundamentais que devem acompanhar o processo de democratização do ensino, o desenvolvimento dos programas relacionados com a educação para todos, a inclusão da população escolar e a qualidade da educação. O reconhecimento destes pressupostos, a necessidade e o interesse da formação contínua é indispensável ao “percurso formativo da profissão docente” e pressupõe a existência (cumprimento) de um estádio inicial de formação, marcado por dois atributos fundamentais: a “capacitação profissional” e a “socialização para a formação”. Independentemente destes aspectos, e uma vez inserida no mundo do trabalho, a prática docente pode ser melhorada através da “estimulação profissional”, decorrente do cumprimento do estatuto da carreira docente, da motivação e da satisfação do exercício das actividades profissionais consolidadas, principalmente, em acções de formação contínua. Se tivermos em conta a realidade portuguesa e as medidas mais recentes, relacionadas com a política educativa, – nomeadamente as que respeitam a formação e gestão dos recursos humanos –, devemos valorizar a oportunidade da reflexão sobre os modelos de formação inicial e a importância da formação contínua na melhoria da qualidade do ensino e no desempenho dos professores. Globalmente, pensamos que esta formação se reveste do maior interesse, constituindo-se como uma das chaves fundamentais do sucesso escolar e educativo dos alunos, do progresso social e da promoção cultural da comunidade. De facto, o desafio que, hoje, se coloca aos sistemas educativos e aos seus actores, no sentido de acompanharem as mudanças sociais, tecnológicas e a inovação, justifica o esforço de actualização de conhecimentos dos agentes sociais mais directamente ligados à educação da população discente, que tende a prolongar a sua esperança de vida escolar na procura de melhor mobilidade social e inserção profissional. Estas expectativas obrigam a que se dispense uma cada vez maior atenção ao desempenho dos sistemas educativos e ao desenvolvimento da formação inicial e contínua dos professores. Justificam-na não só os interesses dos alunos, mas também as exigências e as motivações da classe docente, que reclama uma actualização e formação permanente junto da escola e de outras instituições de formação, principalmente as do ensino superior. Em relação a Portugal, as iniciativas oficiais desenvolvidas desde o início dos anos noventa com a publicação do ordenamento jurídico da formação de professores, bem como o arranque dos programas especiais de apoio financeiro à formação contínua de professores, em especial o programa Foco, permitiram dar passos significativos com vista à melhoria do sistema de ensino e à mobilidade dos docentes na sua carreira profissional. No processo então iniciado, destaca-se a participação de diversas entidades, públicas e privadas, associações profissionais, científicas e outras, que têm vindo a colaborar na formação contínua de professores. Destas merecem particular destaque os centros de formação das associações de escolas. Importa realçar que a coexistência no mesmo território educativo de centros de formação e de instituições de diversos níveis de ensino tem permitido reforçar a relevância e o interesse cultural, pedagógico e científico dos centros de formação criados por associações de escolas. Com estas iniciativas, tem sido possível consolidar diversas comunidades educativas e assegurar a participação de parceiros sociais distintos, igualmente empenhados na consolidação dessas comunidades. De realçar que os interessados por estas iniciativas são não só as escolas, Jorge Carvalho Arroteia 171 mas também os municípios (particularmente os que têm aderido ao movimento das Cidades Educadoras), inserindo-se, neste caso, a sua intervenção como exemplo de actuação no âmbito das políticas sociais e de formação dinamizadas pelas autarquias e tendo como base territorial o município. A formação e a aprendizagem ao longo da vida, aos níveis individual e institucional, público e privado, constituem-se como um pilar da estratégia europeia de emprego e tem como objectivo a sua concretização de forma contínua e visando melhorar conhecimentos, aptidões e competências nos cidadãos europeus. Andragogia De acordo com Malcolm Knowles (1970), Andragogia é a “arte e ciência de orientar os adultos a aprenderem”, contrariamente à Pedagogia que se preocupa com o ensino às crianças. Não havendo oposição entre estas duas ciências, mas antes formando um continuum, indo da educação centrada no professor à educação centrada no aprendente, a Andragogia atende à evolução que sofremos ao longo da vida, passando do estado de pessoas dependentes a independentes, autodireccionados e à acumulação de diferentes experiências que nos vão servir de base para novas aprendizagens. A sua acção assenta em cinco princípios estruturantes: 1. Autonomia – “o adulto sente-se capaz de tomar as suas próprias decisões e gosta de ser percebido e tratado como tal pelos outros; 2. Experiência – a experiência acumulada pelos adultos oferece uma excelente base para a aprendizagem de novos conceitos e habilidades; 3. Prontidão para a aprendizagem – o adulto tem maior interesse em aprender aquilo que está relacionado com situações reais da sua vida; 4. Aplicação da aprendizagem – as visões do futuro e tempo do adulto levam-no a favorecer a aprendizagem daquilo que possa ter aplicação imediata, o que tem, como corolário, uma preferência pela aprendizagem centrada em problemas, em detrimento de uma aprendizagem centrada em áreas de conhecimento; 5. Motivação para aprender – os adultos são mais afectados pelas motivações internas que pelas motivações externas. Vale lembrar que as motivações externas estão ligadas seja ao desejo de obter prémios ou compensações, seja ao desejo de evitar punições: motivações internas estão ligadas aos valores e objectivos pessoais de cada um”. Salientamos, ainda, as seguintes características da Andragogia: · Relação professor/aluno: a aprendizagem adquire uma característica mais centrada no aluno, na independência e na autogestão da aprendizagem; · Razões da aprendizagem: as pessoas aprendem o que realmente precisam de saber (aprendizagem para a aplicação prática na vida diária); · Experiência do aluno: a experiência é rica e fonte de aprendizagem, através da discussão e da solução de problemas em grupo; · Orientação da aprendizagem: a aprendizagem baseada em problemas, exigindo ampla gama de conhecimentos para se chegar a uma solução. 172 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Estas são, com efeito, algumas das orientações que se prendem com o desenvolvimento desta área do saber. O desenvolvimento desta ciência está, hoje em dia, cada vez mais justificada, em virtude da alteração das estruturas demográficas da população residente nos países mais desenvolvidos, devido ao aumento da sua esperança de vida e ao desenvolvimento de programas de acção, relacionados com a formação ao longo da vida e com a ocupação dos tempos de lazer. Educação e formação de adultos O desenvolvimento da educação orientada para a população adulta tem vindo a merecer a maior atenção por parte de organismos internacionais, tais como a UNESCO, e por parte dos governos, preocupados com o aumento do analfabetismo e da “iletracia” entre os seus habitantes. Em Portugal, foi com a Revolução de Abril de 1974 que a questão relacionada com a educação de adultos passou a ser devidamente considerada com a criação, no Ministério da Educação, de uma Direcção-Geral de Educação Permanente, responsável pela elaboração do Plano de Educação de Adultos (PNAEBA), em 1979. De acordo com Melo (1981, p. 375-376), este plano visava: “a) o desenvolvimentro cultural e educativo da população (…); b) assegurar, de modo permanente, a satisfação das necessidades básicas da educação, formal e informal, de adultos (…); c) assegurar as condições para que todos os adultos que o desejem tenham acesso à alfabetização e, progressivamente, aos vários graus de escolaridade obrigatória; d) assegurar a melhoria da qualidade pedagógica das acções de alfabetização e de educação de base dos adultos”. Na actualidade, as preocupações com esta modalidade de educação integram o “ensino recorrente”, organizado em planos de estudos que conduzem à obtenção de um grau e atribuição de um diploma ou certificado equivalentes aos do ensino regular. A sua organização processa-se de forma autónoma deste, com programas distintos, relacionados com os três ciclos de escolaridade básica: 1º, 2º e 3º Ciclo do EB. Para além de outros objectivos, o ensino recorrente tem como objectivos fundamentais (ME-Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular): · “A compreensão e o respeito pela diversidade dos costumes e das culturas, tendo em vista a paz e a cooperação, tanto no plano nacional como no internacional; · A consciencialização das relações que ligam o homem ao seu meio físico e cultural, no sentido de melhorar esse meio, de respeitar e proteger a natureza, o património e os bens comuns; · A aquisição, só, em grupo e no contexto dos ensinos formal e não formal, de novos conhecimentos, qualificações, atitudes ou comportamentos que contribuam para o desenvolvimento integral da personalidade; · A articulação progressiva entre a educação dos adultos e as diferentes actividades sociais e profissionais; · O desenvolvimento da capacidade de criar, só ou em grupo, novos bens materiais, espirituais e estéticos; Jorge Carvalho Arroteia · 173 O desenvolvimento da capacidade de discernimento necessária para: · a utilização dos meios de comunicação social; · a interpretação das diversas mensagens dirigidas pela sociedade ao homem contemporâneo; · “Aprender a Aprender” e de “Aprender a Empreender”. A concluir, diremos com Girod (1981, p. 229) que a formação permanente “parece ser uma fórmula permanente de obter efeitos particularmente notáveis quanto ao aumento das possibilidades de promoção dos indivíduos de origem modesta”, ou seja, uma forma de ultrapassar as barreiras socioculturais existentes e de promover a democratização da educação. Formação profissional Como refere Martins (1996, p. 168), nas sociedades socialmente estratificadas, “o indivíduo precisa ser orientado e motivado para o desempenho de papéis sociais que se encontram estratificados quanto a rendas e estatuto, o que, por si só, o irá posicionar numa escala diferenciada”. Assim, o processo de socialização para o trabalho e de capacitação para o desempenho de uma actividade laboral, ou seja, a formação profissional numa sociedade marcada por uma cada vez maior divisão e segmentação do trabalho social, cabe às instituições escolares e de formação especialmente vocacionadas para este efeito. No entanto, esta pode realizar-se através da inserção no mercado de emprego, com carácter subsidiário da formação escolar, e visando os indivíduos que saíram do sistema de ensino sem qualificação própria e pretendem ingressar no mercado de trabalho. Complementarmente a esta, o “sistema de aprendizagem visa assegurar a integração de profissionais qualificados nas empresas”, em regime de alternância e contempla as valências seguintes: “reforço de competências académicas, pessoais, sociais e relacionais, aquisição de saberes no domínio cinetífico-tecnológico e uma sólida experiência na empresa” (CEDEFOP, 2006). De acordo com a LBSE (artº 19), a formação profissional, “para além de complementar a preparação para a vida activa iniciada no ensino básico, visa a integração dinâmica no mundo do trabalho pela aquisição de conhecimentos e de competências profissionais, por forma a responder às necessidades nacionais de desenvolvimento e à evolução tecnológica”. O referido documento estabelece, ainda, as normas de acesso à formação profissional, como a sua estrutura e organização, e defende, por outro lado, diversas formas institucionais que assegurem o funcionamento dos cursos e módulos de formação profissional destinadas a esta população escolar. Entre estas, contam-se não só as escolas de ensino básico e secundário, as empresas e autarquias e outras instituições especialmente criadas para este efeito. Em quaisquer dos casos tem acesso à formação profissional: · “os que tenham concluído a escolaridade obrigatória; · os que não concluíram a escolaridade obrigatória até ao limite desta; · os trabalhadores que pretendam o aperfeiçoamento ou a reconversão profissionais”. O GIASE/ME (2006, p. 18) considera a existência de três tipos de cursos: · curso profissional, o que “tem por objectivo imediato a preparação científica e técnica para o exercício de uma profissão ou ofício, privilegiando assim a qualificação inicial para entrada no mundo do trabalho e permitindo ainda o prosseguimento de estudos”; · curso de especialização tecnológica, que corresponde à “oferta formativa pós-secundária não superior que prepara jovens e adultos candidatos ao primeiro emprego para o Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 176 · desempenho de profissões qualificadas, por forma a favorecer a entrada na vida activa. A organização do curso tem componentes de formação em contexto escolar e em contexto de trabalho. Confere um Diploma de Especialização Tecnológica e qualificação profissional de nível 4”; curso de educação e formação, “oferta formativa destinada preferencialmente a jovens com idades iguais ou superiores a 15 anos, em risco de abandono escolar ou que já abandonaram o sistema educativo antes da conclusão da escolaridade de 12 anos, bem como àqueles que, após a conclusão do ensino secundário, não possuindo uma qualificação profissional, pretendam adquiri-la para ingresso no mercado de trabalho. Conferem qualificação profissional de nível 1, 2 ou 3 e certificação de conclusão dos 6º, 9º ou 12º anos de escolaridade, respectivamente”. Este tipo de formação está abrangido pelo sistema de aprendizagem criado em 1980 e regulado pela Lei de Aprendizagem, de 1984, na qual tem parte activa o Instituto de Emprego e Formação Profissional. No âmbito do ensino secundário, a formação profissional é assegurada pelos cursos tecnológicos e pelas escolas profissionais. Estas foram instituídas em 1989, podendo ser de natureza pública ou privada. Na sua essência, tais cursos têm presente a “inserção dos jovens na vida activa (MARTINS, 1999, p. 105), conduzindo, mesmo assim, “a uma proliferação dos diplomas com a sua desvalorização” (Loc. cit.), parecendo conduzir este ensino técnico e profissional a apresentar “características capazes de dar respostas a situações funcionais e disfuncionais muito diversas” (Loc. cit.). Na sequência daquelas iniciativas, foram criados, em 2006 (Dec.-Lei nº 88/2006, de 23MAI06), cursos de especialização tecnológica, como formações pós-secundárias, não superiores, que visam conferir qualificação profissional de nível 4. De acordo com o referido diploma de criação, esta formação caracteriza-se por: “a) Ser uma formação técnica de alto nível; A qualificação dela resultante inclui conhecimentos e capacidades que pertencem ao nível superior; c) Não exigir, em geral, o domínio dos fundamentos científicos das diferentes áreas dos cursos; d) As capacidades e conhecimentos adquiridos através dela permitirem assumir, de forma geralmente autónoma ou de forma independente, responsabilidades de concepção e ou de direcção e ou de gestão”. Estes cursos assentam num modelo de formação com componentes de formação e de aprendizagem, nas áreas técnica, científica e cultural, e nas exigências do mercado de trabalho. Para tanto, as instituições de formação: escolas secundárias, profissionais, centros de formação profissional, escolas tecnológicas e instituições de ensino superior devem estabelecer parcerias com as empresas e os operadores do mercado de trabalho”, visando direccionar a aprendizagem para uma efectiva inserção profissional e assegurar também o reconhecimento dessas aprendizagens para efeitos de prosseguimento de estudos no ensino superior” (Preâmbulo). Caso específico da formação profissional é a oferta de formação para adultos, com idade superior a 18 anos, que corresponde à escolaridade básica de 9, 6 e de 4 anos e aos níveis Jorge Carvalho Arroteia 177 de qualificação profissional 2 e 1 da Comunidade Europeia (classificação que engloba 5 níveis distintos, cada um deles correspondente à aquisição de conhecimentos e de competências profissionais, relacionados com a execução de determinadas tarefas, das mais simples ao exercício autónomo de um profissão). De salientar que a versão provisória da Constituição Europeia da Educação (artº III-282) atribui à acção da União Europeia: “a) facilitar a adaptação às mutações industriais, nomeadamente pela formação e reconversão profissional; b) melhorar a formação profissional inicial e a formação contínua, a fim de facilitar a inserção e a reinserção profissional no mercado de trabalho; c) facilitar o acesso à formação profissional e favorecer a mobilidade dos formadores e de indivíduos em formação, nomeadamente os jovens; d) estimular a cooperação em matéria de formação entre estabelecimentos de ensino ou de formação profissional e empresas; e) desenvolver a troca de informações e de experiências sobre questões comuns aos sistemas de formação dos Estados-membros. 2. A União e os Estados-membros favorecem a cooperação com países terceiros e organizações internacionais competentes em matéria de formação profissional”. Tendo em conta a experiência vivida em diferentes países, Gomes (1990, p. 113) reconheceu, a propósito deste tipo de ensino, profissionalizante, e da dualidade a respeito do ensino académico, o seguinte: “observamos que a gama de alternativas adotada é limitada pelo pano de fundo da estratificação social e da diversidade de recompensas concedidas a diferentes tipos e graus de escolaridade e ao exercício de diferentes papéis profissionais. Isso não significa que a escola atue nesta dinâmica como mero vagão, como também não exerce a função de locomotiva. Cabe-lhe, portanto, agir do melhor modo possível dentro dos limites da sua atuação”. Funções da educação Embora de forma explícita ou mesmo de forma implícita, o sistema educativo, enquanto subsistema social, transmite um conjunto de noções, valores e conceitos que asseguram ao indivíduo, nos diversos estádios do seu desenvolvimento, a sua integração social e profissional. Difíceis de enumerar, este conjunto de ensinamentos, veiculados pela escola e pelo sistema educativo em geral, realçam sempre a importância da educação na preparação do indivíduo para a vida adulta. Por definição, o sistema educativo português “tem por âmbito geográfico a totalidade do território português” e “desenvolve-se segundo um conjunto organizado de estruturas e de acções diversificadas” (artº 1º – LBSE). Estas agrupam-se em ciclos de aprendizagem distintos e através de iniciativas diversas de natureza formal e não formal. Lê-se, em diferentes alíneas do artº 3 da LBSE, que o nosso sistema educativo deverá organizar-se (artº 3.a) de forma a “contribuir para a defesa da identidade e para o reforço da fidelidade à matriz histórica de Portugal, através da consciencialização relativamente ao património cultural do povo português, no quadro da tradição universalista europeia e da crescente interdependência e necessária solidariedade entre todos os povos do Mundo”. Esta é, uma das primeiras obrigações que realçam a “função socializadora”, a exercer não só através da escola, mas também da família, dos grupos de amigos e da comunicação social. Sendo esta uma das principais funções da educação, reconhecemos a existência de diversos condicionalismos, físicos, materiais e humanos, que nem sempre permitem à instituição escolar um melhor cumprimento. Complementarmente, são as disponibilidades económicas, individuais e societais, da família e do país, que afectam esta acção. Contudo, a montante e a jusante da escola, outros factores condicionam estas tarefas. Naturalmente que, devendo a família partilhar a responsabilidade do processo de socialização, ou mesmo desempenhá-la em predominância, sobretudo nos primeiros anos de vida dos alunos, é a “herança cultural” destes indivíduos que vai condicionar, em primeiro lugar, o nível e a intensidade deste fenómeno. Deixemos a “função socializadora” da educação. Retomemos uma segunda tarefa a cumprir pela escola, neste caso a que permite “o desenvolvimento das capacidades de reflexão crítica, estimulando a capacidade de formulação de juízos pessoais e a intervenção dos alunos nos diversos sectores da vida social” (ARROTEIA, 1991, p. 32). Esta é a chamada “função personalizadora”, que, complementarmente à primeira, orienta o desenvolvimento dos alunos nos domínios, intelectual, cognitivo, afectivo, psicomotor, espiritual e moral, favorecendo o equilíbrio da personalidade e a sua realização pessoal. Tais obrigações estão, igualmente, consignadas no artº 3, da LBSE.b), c) e d), que estipula ser obrigação do nosso sistema educativo: 180 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos · “contribuir para a realização do educando, através do pleno desenvolvimento da personalidade, da formação do carácter e da cidadania…; · assegurar a formação cívica e moral dos jovens; · assegurar o direito à diferença, mercê do respeito pelas personalidades e pelos projectos individuais da existência, bem como da consideração e valorização dos diferentes saberes e culturas”. Já nos referimos ao papel que a escola desempenha na preparação dos jovens para a vida activa. Da mesma forma, já demos a entender que esta preparação laboral pode ser entendida como uma necessidade decorrente do processo civilizatório que hoje experimentamos e que tem determinado constantes e profundas transformações na divisão e na natureza do trabalho social. Tais atributos levam-nos a pensar que a escola deverá ter um papel a desempenhar na preparação específica para o desempenho da profissão dos alunos que a frequentam. É a chamada função de “capacitação profissional”, à qual deverá corresponder uma especialização laboral que se torna mais evidente em algumas das vias do ciclo terminal de estudos da escolaridade pós-obrigatória. A LBSE, no seu artº 3.e), defende, ainda, que o sistema educativo se deve organizar, de forma a: · “desenvolver a capacidade para o trabalho e proporcionar, com base numa sólida formação geral, uma formação específica para a ocupação de um justo lugar na vida activa (…) · contribuir para a realização pessoal e comunitária dos indivíduos, não só pela formação para o sistema de ocupações socialmente úteis, mas ainda para a prática e aprendizagem da utilização criativa dos tempos livres”. Esperamos ainda da escola o cumprimento de uma outra função relevante: o seu contributo para a “mudança social”, a qual se fará sentir não só por via dos conhecimentos transmitidos pela própria escola, mas também através das aprendizagens sucessivas que vão permitir vencer as barreiras sociais, culturais e tecnológicas e o avanço da sociedade. Como se compreende, este atributo será naturalmente condicionado pelo tipo de organização social (bastante estratificada), e pela configuração do próprio sistema educativo. Como anteriormente notámos (ARROTEIA, 1993), um “sistema educativo aberto”, que garanta, com sucesso, uma elevada esperança de vida escolar aos alunos e uma satisfação profissional aos seus docentes, estará certamente em melhores condições de permitir esta mudança do que um “sistema educativo selectivo”, onde as desigualdades sociais se perpetuam, arrastando consigo a capacidade de mobilização interna e a dinâmica deste conjunto. Convirá recordar que, em muitos dos seus aspectos, a capacitação profissional será avaliada pela produtividade do próprio sistema, dos seus “outputs” e do contributo que o sistema educativo vier a dar ao desenvolvimento dos restantes sistemas sociais. Daí que esta mudança social ande, em muitos dos seus aspectos, intimamente ligada a uma outra função, não menos relevante, a chamada “função económica”. Tomando por base a LBSE, artº 3. g), h) e i), o sistema educativo português deverá organizar-se, de forma a: Jorge Carvalho Arroteia · · · 181 “descentralizar, desconcentrar e diversificar as estruturas e acções educativas, de modo a proporcionar uma correcta adaptação às realidades, um elevado sentido de participação das populações, uma adequada inserção no meio comunitário e níveis de decisão eficientes; contribuir para a correcção das assimetrias de desenvolvimento regional e local, devendo incrementar em todas as regiões do país a igualdade no acesso aos benefícios da educação, da cultura e da ciência; assegurar uma escolaridade de segunda oportunidade aos que dela não usufruíram na idade própria, aos que procuram o sistema educativo por razões profissionais ou de promoção cultural, devidas, nomeadamente, a necessidades de reconversão ou aperfeiçoamento decorrentes da evolução dos conhecimentos científicos e tecnológicos”. Note-se que, cabendo à educação formal uma parte, apenas, da responsabilidade nas aprendizagens que preparam para a vida activa, a função económica da educação será igualmente posta em causa pela natureza das aprendizagens (e pelo contributo que estas venham a revelar), induzidas pelo próprio sistema educativo. Em teoria, a escola deve contrapor-se à “selecção social”, determinada pela estratificação social dominante. Contudo, sabemos que a escola continua a desempenhar essa função de selecção, embora lhe caiba (artº 3.j) “assegurar a igualdade de oportunidades para ambos os sexos, nomeadamente através das práticas de co-educação e da orientação escolar e profissional, e sensibilizar, para o efeito, o conjunto de intervenientes no processo educativo”. Para além da importância da escola na formação das “élites”, através da selecção que pratica, dos conteúdos que ensina, dos métodos de gestão que utiliza ou das actividades que promove, a escola não deixa igualmente de desempenhar uma importante “função política” e de formação para a “cidadania”. Assim, a LBSE, no seu artº 3.l), estipula: o sistema educativo deve organizar-se de modo a: · “Contribuir para desenvolver o espírito e a prática democráticos, através da adopção de estruturas e de processos participativos na definição da política educativa, na administração e gestão do sistema escolar e na experiência pedagógica quotidiana, em que se integram todos os intervenientes no processo educativo, em especial os alunos, os docentes e as famílias”. A leitura que fazemos circunscreve-se aos aspectos enunciados na LBSE. Às organizações escolares cabe a implementação de actividades que permitam a prossecução plena destes objectivos, tendo em conta a necessidade de um novo modelo de escola, centrada no desenvolvimento humano, na participação de todos os seus actores, na realização de múltiplas actividades extra-curriculares, na reflexão e debate dos problemas actuais e na ligação estreita à comunidade, ou seja, de uma escola “promotora e facilitadora de um processo educativo integrador e participativa” (PATRÍCIO, 1990, p. 78). Estes aspectos devem ter em conta a aprendizagem dos alunos e o desenvolvimento da sua personalidade, promover o sucesso educativo desta população, incentivar a utilização dos recursos educativos, estimular o diálogo entre os vários interlocutores do processo educativo, de 182 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos modo a promoverem o desenvolvimento social e humano dos alunos e a sua melhor adaptação ao seu meio social (DURKHEIM, 1980, p. 58). Consideremos, por fim, uma função primordial nas sociedades modernas: a “função cívica”. De acordo com Colom e Domínguez (1997, p. 34), a educação desempenha, nas sociedades modernas, quatro funções políticas importantes: · “a formação da cidadania e, por isso, a aprendizagem vital numa sociedade livre e plural. A educação integra o homem e o seu meio e permite desenvolver-se nele de acordo com um código ético-ideológico que se vai inculcando com a escolaridade; · a formação da entidade nacional, não só pela transmissão ideológica e axiológica, mas também devido à coesão nacional que resulta de uma cultura comum, de formas e de valores comuns e de uma forma de estar no mundo, igualmente comum e diferenciada dos demais (conceito de cultura nacional); · como consequência dos contributos anteriores, a educação ajuda à reprodução do poder da classe dominante, o que permite o perdurar do sistema e das regras de jogo estabelecidas (as democracias formais e os sistemas políticos de governo, de participação, de eleição, de justiça, etc.); · Alimentar e reforçar esta situação através do capital humano, do sistema económico dominante (liberalismo industrial)”. Da mesma forma, não escondem a necessidade do conjunto de preocupações relacionadas com as expectativas da sociedade: · Funções da educação; · Educação e desenvolvimento humano; · Educação e desenvolvimento económico e social. Tal tipo de análise exige uma exploração mais segura dos diferentes contextos sociais e dos fenómenos que lhe andam associados e que têm marcado algumas das grandes preocupações de política educativa. Gestão De acordo com Dacal (1986, p. 247), a gestão consiste numa “função empresarial básica, tendente à utilização mais eficaz possível, mediante a adequada execução de um complexo conjunto de procedimentos racionais e tecnológicos, dos recursos com que conta uma organização para a consecução dos seus objectivos”. O desenvolvimento desta actividade aplica-se aos sistemas sociais e de ensino, no seu conjunto, e às organizações com responsabilidades na educação e na formação da população escolar e adulta. Note-se a importância do exercício das tarefas de gestão e o contributo das “boas práticas”, não só ao nível dos estabelecimentos de ensino, mas também no âmbito das políticas públicas relacionadas com as finanças, os recursos físicos e humanos, o currículo e a formação. Se atendermos às tarefas relacionadas com o exercício destas funções ao nível das empresas, Barroso (1996, p. 125), transcrevendo referência de outro autor, Katz, assinala o seguinte: “os chefes executivos de um empresa desempenham três grandes categorias de tarefas: ‘técnicas’ (de acordo com a natureza específica das actividades da organização); ‘de concepção’ (relativas ao funcionamento global e controlo da organização); ‘relações humanas’ (abrange todos os aspectos da gestão de pesssoal)”. Por sua vez, “Morgan e a sua equipa acrescentaram uma quarta categoria de tarefas ‘gestão externa’ (relações com a comunidade e prestação de contas)”. A contextualização destas tarefas ao exercício das funções de “chefe de estabelecimento de ensino” permitiu a Barroso (Loc. cit.) referenciar um conjunto de 16 subcategorias que identificam as diferentes tarefas técnico/educativas contidas naqueles quatro grandes grupos. Havendo correntemente lugar para reparos, sobretudo devido aos disfuncionamentos do sistema, geradores de perturbações ao nível dos diferentes subsistemas sociais relacionados com o sistema de ensino, a gestão dos sistemas educativos e da escola tem vindo a tornar-se cada vez mais complexa devido à diversidade de contextos nacionais e locais, à disponibilidade de recursos financeiros, ao acréscimo da procura social da educação e à necessidade de uma boa racionalização dos meios e do “capital humano” disponível. Por estas razões, torna-se necessário desenvolver sistemas de informação credíveis e canais de informação fiáveis, os quais permitam a formulação de políticas educativas que promovam o desenvolvimento assertivo do sistema de ensino e a sua articulação com os demais sistemas sociais. Embora as considerações acima tecidas digam respeito à gestão em sentido amplo, é importante reflectir sobre a sua adequação ao sistema educativo, aos fenómenos, aos contextos e às práticas que aí têm lugar. 184 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Clima escolar Tal como acontece noutras organizações, também na escola o desenvolvimento de diferentes tipos de liderança tem como resultado a criação de diversos ambientes de trabalho. Estes podem ser apreciados em termos de motivação e da participação colectiva, de relações humanas ou de desempenho, aspectos que se traduzem não só na construção e no desenvolvimento do projecto da organização, nos resultados alcançados, mas também nas relações com o ambiente externo. Assim, utilizando uma grelha proposta por Gomes (2005, p. 217), baseado em estudos de outros autores, o clima da escola é uma das componentes de factores de efectividade da mesma, conjuntamente com a liderança educacional, o consenso e coesão da equipe escolar, o potencial de avaliação e o envolvimento dos pais. No caso específico do clima da escola, as suas componentes fundamentais são as seguintes: “atmosfera de ordem; importância atribuída a um clima de ordem; normas e regulamentos; sanções e recompensas; absenteísmo e evasão (baixos ou nulos); boa conduta dos alunos; satisfação com o clima de ordem” (Loc. cit.). Tendo presente o funcionamento das escolas, como organizações sociais, e procurando transferir para este meio as experiências recolhidas noutros contextos sociais, nomeadamente o meio industrial, o clima das instituições de ensino apresenta certas características evidenciadas nesses trabalhos. Como assinala Carvalho (1992, p. 27), os estudos primeiramente realizados sobre este assunto apresentavam duas características essenciais: “uma base conceptual nas teorias clássicas da organização e uma base operacional na utilização de um conjunto de instrumentos de medida e classificação do clima organizacional”. A este respeito, Brunet (1992, p. 125-126) escreve que a noção de “clima organizacional” tem variado ao longo dos anos, centrando-se na actualidade, “na medida perceptiva dos atributos organizacionais”, os quais: “a) diferenciam uma dada organização, podendo considerar-se que cada escola é susceptível de possuir uma personalidade própria, um clima específico; b) resultam dos comportamentos e das políticas dos membros da organização, especialmente da direcção, uma vez que o clima é causado pelas varáveis físicas (estrutura) e humanas (processo); c) são percepcionadas pelos membros da organização; d) servem de referência para interpretar uma situação (…), e) funcionam como um campo de força destinado a dirigir as actividades, na medida em que o clima determina comportamentos organizacionais”. Assim, os seus efeitos fazem-se sentir ao nível dos resultados individuais, do grupo e da própria organização. Por isso, Carvalho (1992, p. 31) recorda que “o clima social de uma escola incorpora duas dimensões interligadas: a) clima organizacional, respeitante aos valores, normas e padrões de interacção dos membros de uma escola relacionáveis com a intervenção administrativa (direcção e gestão escolar); b) clima académico, respeitante às atitudes e aos valores educativos, próprios dos professores e dos alunos de uma escola”. Tendo em conta as características acima referidas, o clima organizacional pode ir de um extremo, aberto, ao outro, fechado, referindo “um sistema muito autoritário (fechado) até um sistema muito participativo (aberto), como asssinala Brunet (1992, p. 130). De Ghilardi e Spallarossa (1989, p. 115-119) recordamos os seis tipos distintos de clima escolar, propostos por estes autores: Jorge Carvalho Arroteia · · · · · · 185 aberto: dominando a satisfação e a motivação dos diversos actores sociais; autónomo: caracterizado por alguma indiferença, impessoalidade e controlo escasso; controlado: com baixo grau de “sociabilidade” e fraca satisfação das necessidades pessoais; familiar: realçando a proximidade entre os membros, fraca avaliação do trabalho dos professores; paternalista: ocorrendo um maior controlo dos professores, omnipresença do líder e alguma ausência de satisfação; fechado: responsável por alguma desmotivação geral e ausência de sucesso e contradição interna das atitudes do líder. No seu conjunto, estes estilos podem co-existir dentro da mesma organização ou serem preponderantes ao longo dos seus diversos estádios de evolução. No que respeita à escola, o clima da mesma, o “ethos” e, sobretudo, o clima da sala de aula são factores decisivos no aproveitamento dos alunos, podendo revestir atitudes diferenciadas, que estimulem a participação, a responsabilidade e o envolvimento colectivo nas tarefas escolares. Estratégia A estratégia surge associada ao cumprimento de um conjunto de objectivos, de metas, de normas a executar e de passos a dar por uma organização que pretende atingir determinados fins, estipulados em programas e em projectos. De acordo com Diz (1999, p. 9), “uma estratégia fornece rumo certo a um conjunto de actividades diversas, mesmo que as condições da sua execução se alterem rapidamente. Descreve a forma como a organização prossegue os seus objectivos perante as ameaças e oportunidades do meio envolvente e os recursos e capacidades da organização”. Envolve, assim, os objectivos a cumprir e as regras que ditam o plano de acção da organização; a sua situação interna, que determina os meios postos à disposição e a consideração do meio externo. De realçar que, tal como o processo de planeamento em que está integrada, a estratégia pode variar em função de dificuldades e de oportunidades surgidas no decurso de uma acção. De acordo com um documento do ME (1987), “entre a política e o planeamento, situa-se a estratégia”, concretizada “em um ou vários planos, podendo a ordem de prioridade dos objectivos e a combinação dos meios mudar de plano para plano”. Não será, por isso, desajustado evocar Cabanas (1989, p. 306), quando aponta a “flexibilidade”, a “continuidade”, a “adaptação”, a “funcionalidade” e a “actualidade” como características necessárias à prossecução de uma adequada estratégia educacional. Estratégia esta que, em nosso entender, e para valorizar ainda mais a escola, terá de ser acompanhada pela implementação de processos de melhoria da qualidade, assentes quer na formação contínua dos professores, quer na melhoria da informação e da motivação dos diversos actores sociais envolvidos no sistema. Estas são, com efeito, algumas das metas a atingir pela política de educação, que não podem pôr em causa nenhum dos pressupostos anteriormente referidos, mas devem, isso sim, atender cada vez mais ao equilíbrio entre os sistemas sociais e educativos e aos desafios que ora se levantam, resultantes do ajustamento entre “as necessidades de crescimento e de desenvolvimento económico (…); a procura crescente da educação e a promoção das 186 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos igualdades de acesso; a explosão do conhecimento e a natureza dos recursos disponíveis; a harmonia entre a quantidade e a qualidade do ensino” (ARROTEIA, 1991, p. 166). Como todo o processo de planeamento, a estratégia apresenta um conjunto de condicionantes relacionadas com a configuração administrativa do sistema, em particular no que respeita às relações: centro/periferia, traduzidas na própria configuração do Governo; e no centralismo/ descentralização/desconcentração, bem como nos modelos de gestão, com particular realce para o desenvolvimento da gestão participada. Para além destes factores, a estratégia, como fase principal de qualquer processo de planeamento, é afectada pela natureza do projecto e dos programas de Governo, pelos meios e recursos, bem como pela natureza das decisões normativas, operativas, administrativas e estratégicas das tarefas que permitem alcançar um determinado fim social, cultural ou educacional, relacionado com aquele processo. É o caso da educação de qualidade ou da democratização das TIC, apontadas, a par de outros, como objectivos estratégicos da acção governativa. Hoje em dia, a estratégia tem vindo a assumir um papel relevante quanto à visão e ao traçado dos cenários relacionados com o processo de desenvolvimento, denotando-se como uma área específica de intervenção, a gestão estratégica. De acordo com Diz (1999, p. 9), “a gestão estratégica é o processo através do qual a gestão de topo determina a direcção e a performance de longo prazo da organização, assegurando que se procede a uma formulação segura, a uma implementação apropriada, a uma contínua avaliação e às correcções que desta resultem necessárias”. Prossegue o mesmo autor (Op. cit., p. 10), afirmando, assim, que “a gestão estratégica (…) ainda se encontra muito relacionada com a função de planeamento, função de gestão na qual os gestores de topo se envolvem nas suas diversas componentes. O processo de gestão estratégica utiliza a função de planeamento na determinação de objectivos e na selecção e descrição de acções específicas para os atingir. O processo requer, ainda, planeamento pelos indivíduos, a todos os níveis, e utiliza planos como forma de comunicação e coordenação.” Por isso, esta requer diferentes contributos no sentido de permitir uma determinada linha orientadora de acção, de participação e de implementação de objectivos relacionados com os fins a prosseguir por uma determinada organização. Assim, se atendermos ao desempenho de uma organização, este tipo de intervenção procura um equilíbrio entre a eficiência e a eficácia. Liderança De acordo com Diz (1999, p. 47), “a liderança estabelece o tom e instila os valores da organização, constituindo-se como ponto de referência para os outros membros no cumprimento do seu dever”. Assim, como defendem Ghilardi e Spallarossa (1989, p. 103), a “capacidade que influencia o comportamento de pessoas e grupos para atingir determinados objectivos”, ou seja, a “liderança”, depende de um conjunto de elementos respeitantes ao próprio grupo. São eles: · a coesão entre todos os membros do grupo e a coordenação das suas actividades, em função dos objectivos e das metas previamente fixadas; · a motivação e o aproveitamento de todos os recursos (pessoais e técnicos) dos membros do grupo, a fim de que eles sintam como seus os objectivos estabelecidos; · a existência de redes de informação entre todos os membros, de forma a assegurarem a representação dos objectivos comuns, tanto no seu interior como perante o ambiente exterior. Jorge Carvalho Arroteia 187 Em resultado desta acção, criam-se diversos estilos de liderança (Ob. cit., p. 105), de que salientamos: “autoritário”, “democrático” e “laissez-faire”, tendo presente que raramente existem estilos puros, mas sim a combinação das suas diferentes facetas. Mesmo assim, podemos dizer que o estilo “autoritário” se identifica pelas tomadas de decisão, em exclusivo pela direcção e com a indicação das tarefas e das actividades a cumprir entre os membros do mesmo grupo, que são afastados de qualquer participação nas deliberações de gestão. Já o estilo “democrático” caracteriza-se pelas tomadas de decisão de tipo participativo, pela discussão entre os membros desse grupo (assistida e estimulada pelo “líder”), pela divisão de tarefas e pelo facto de a escolha dos parceiros para as realizarem ser da responsabilidade dos elementos do grupo. Por sua vez, no estilo “laissez-faire”, as tomadas de decisão não são devidamente estruturadas, havendo liberdade de acção entre os membros da organização, em virtude da participação, mínima, do respectivo “líder”. Escusado será referir as virtualidades e os inconvenientes destas práticas de gestão. O primeiro estilo de liderança parece favorecer a hostilidade, a agressão, a competitividade, a tensão e, por vezes, a apatia e a fraca participação em relação à pressão exercida pelo “chefe”. Acompanham, ainda, estas características a fraca satisfação pessoal ou a insatisfação pelo trabalho realizado, resultantes, muitas vezes, de relações pessoais fracas e da ambiguidade e rigidez nas relações entre os membros do grupo e o seu líder. Mais favoráveis parecem ser as intervenções de tipo “democrático”. Neste caso, o desempenho do líder facilita a cooperação, a produtividade e a integração acrescidas dos elementos nas tarefas a executar e na sua repartição individual. Daí a maior participação colectiva, um maior aproveitamento das capacidades individuais e uma organização mais racional dos trabalhos a executar, traduzidas, igualmente, numa maior satisfação pessoal e do trabalho a desenvolver. Por fim, o estilo “laissez-faire” dá origem, frequentemente, a um maior desperdício de tempo, à formação de diversos “subgrupos” e à dificuldade de se atingirem os objectivos que deveriam animar a própria organização. Em consequência, a satisfação pessoal é geralmente insuficiente perante os fracos resultados alcançados pelo grupo. Transpondo estes resultados para a organização escolar, certo é que o comportamento dos “líderes” institucionais, e da própria direcção, nas suas relações com os professores, os funcionários e os próprios alunos, vai determinar a existência de diversos tipos do “clima” escolar e condicionar a “coesão” e a “qualidade” da escola, em função da natureza dos projectos, da estratégia dos líderes e do empenhamento colectivo em torno de um projecto, dinâmico e participado. Assim, a participação na decisão, nos seus diferentes níveis, exige um conjunto de requisitos, relativos quer à disponibilização de redes de informação e à prática da participação, quer ao exercício de liderança(s) capaz(es) de acompanhar as práticas de gestão e o desempenho das organizações sociais. Trata-se de um tema que tem sido objecto de diferentes tipos de abordagens (BILHIM, 1996), baseadas quer na “atribuição da liderança” a pessoas com determinados traços, tais como “inteligência, personalidade ousada, aptidão verbal forte, agressividade, compreensão e engenho” (Op. cit., 286), quer na “liderança carismática” (Op. cit., p. 287), assente na autoconfiança, na visão sobre o futuro, na capacidade e facilidade de comuicação, em convicções fortes, em comportamentos fora das normas, no reconhecimento como agente de mudança e na sensibilidade em relação ao meio envolvente. 188 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Estes considerandos permitem ao referido autor (Op. cit., p. 288) afi rmar que esta “é particularmente necessária quando existe no trabalho uma componente ideológica forte, nomeadamente no período inicial de certas organizações”, podendo, por isso, ser ensinada e aprendida. Indicadores O conhecimento da realidade social e escolar de um país ou de uma organização exige a utilização de dados quantitativos que permitam identificar a extensão de um atributo ou de uma característica comum aos diversos indivíduos que fazem parte do universo considerado. Tal facto é, sobretudo, relevante em estudos de economia da educação, onde a noção de custo unitário levanta um conjunto de questões relacionadas com a dificuldade de se afectar “um valor monetário à actividade educativa, uma vez que não existe uma medida objectiva que permita medir este bem” (ORIVEL, 1993, p. 5). Tal facto dificulta algumas das tomadas de decisão, nomeadamente as que se referem à “escolha de programas com as mesmas finalidades ou que se apresentam de maneira mais eficiente”. Prossegue o mesmo autor, afirmando que “se se pode obter um resultado idêntico com um custo menor e, se assim não se procede, desperdiçam-se recursos e obriga-se a sociedade a abdicar de outras utilizações pertinentes destes recursos” (Loc. cit.). Se quisermos referir o interesse do sistema de indicadores sociais, podemos transcrever de Urbano (1972, p. 24) um exemplo de referências que ajudam a compreender a sua utilidade. Assim, estes podem ajudar: “1. Prever evoluções futuras e a valorizar a longo prazo as tendências sociais actuais; 2. Medir o impacto, provável, das acções alternativas (…); 3. Estimar o efeito real das iniciativas sociais, ou seja, que objectivos alternativos se podem alcançar, tendo em consideração os recursos disponíveis e as expectativas de progresso; 4. Desenvolver e acompanhar os indicadores sociais que podem reflectir a qualidade presente e futura da sociedade (…) e a direcção e ritmo de mudança; 5. Resumir, integrar e correlacionar os resultados das actividades de investigação desenvolvidas por diferentes organismos”. Estes objectivos não escondem a necessidade de se repensar, periodicamente, a natureza dos referidos indicadores, bem como as suas fontes de recolha e meios de processamento de dados, tendo em conta que os indicadores, sobretudo os de natureza quantitativa, se devidamente associados e interpretados, são imprescindíveis para a tomada de decisões, na medida em que exprimem relações entre situações distintas e a sua actualização permanente permite conhecer e interpretar alterações de contexto e a mudanças sociais em evolução. Além disso, se devidamente registados e acessíveis ao público, facilitam diferentes tipos de análise, de natureza académica e outras. 190 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Pela sua natureza, podem, portanto, ser de natureza descritiva, ou analítica, podendo agrupar-se em temas distintos. De um estudo de Cabanas (1984, p. 83-83), transcrevemos os “indicadores básicos em educação”, por si sugeridos: taxas de escolaridade, estrutura educativa, rendimento, democratização, qualidade, educação e desenvolvimento, gastos e financiamento”. Esta proposta permite que os indicadores recolhidos em cada um dos grupos assinalados sejam utilizados em política educativa pelos investigadores e público em geral. Não havendo concordância em relação às tipologias seguidas, apresentamos outra proposta relacionada com a natureza dos indicadores educacionais. Referimos, em primeiro lugar, os indicadores de situação, tais como: · indicadores básicos, que podem incluir dados relevantes sobre a frequência de ensino, a estrutura da formação, o rendimento, o acesso, a qualidade, os custos e outros; · indicadores de causalidade; · indicadores de diagnóstico; · indicadores de disparidades; · indicadores de dispersão; · indicadores de eficácia; · indicadores de qualidade. Pese embora a dificuldade em se avaliarem os resultados concretos de certas medidas de política educativa, a quantificação dos fenómenos sociais e escolares surge como inevitável num processo de planeamento e de avaliação dessas políticas. E, embora difíceis de estabelecer, são indispensáveis ao diagnóstico correcto de uma determinada realidade social. No entanto, a generalização destes indicadores não deve subestimar a importância de uma análise cuidada que privilegie a educação como factor importante de desenvolvimento humano. Aquando da análise do sistema educativo no seu conjunto, a diversidade de indicadores que podemos utilizar pode incidir sobre aspectos tão variados como: acesso; equidade; eficiência interna; eficiência externa; eficácia; qualidade; custos e financiamento, etc. Se considerarmos a escala regional, a análise dos diferentes tipos de indicadores deve incidir sobre três grupos fundamentais: a) indicadores de cobertura do sistema, tais como: taxas de admissão, taxas de escolarização, taxas de transição, indicadores de acessibilidade física; b indicadores de rendimento do sistema, tais como: taxas de promoção, taxas de aproveitamento, de retenção, taxas de reprovação e taxas de abandono; c) indicadores de qualidade do sistema, que tenham em consideração os “rácios” (aluno/ turma; aluno/professor, características dos espaços e dimensão dos estabelecimentos). Mais do que apreciar cada um destes indicadores, será oportuno recordar alguns dos indicadores específicos da demografia escolar, que nos ajudam a compreender a realidade portuguesa actual e os êxitos (e necessidades) das reformas educacionais. Globalmente, não deixamos de agrupar diversos indicadores demográficos em três grandes grupos: os indicadores de escolarização, os de aproveitamento e os de abandono. Assim: a) – “indicadores de escolarização” dão-nos uma ideia de eficácia do sistema educativo e da sua democratização (entendida não só como facilidade de acesso aos Jorge Carvalho Arroteia 191 equipamentos educativos, mas também como equilíbrio de sexos na fruição destes bens culturais). Entre estes, destaca-se: – a taxa bruta de escolarização (relação entre o nº total de alunos matriculados num determinado ciclo de estudos (independentemente da idade) e a população residente em idade normal de frequência desse ciclo de estudos). De acordo com o GIASE/ME (2006, p. 16), referem-se os ciclos de estudo e a idade normal (anos). Quadro 9 Ciclo de estudos Educação Pré-escolar Ensino Básico – 1º ciclo Ensino Básico – 2º ciclo Ensino Básico – 3º ciclo Ensino Secundário Ensino Superior Idade normal (anos) 3-5 6-9 10-11 12-14 15-17 18-22 – a taxa real e as taxas específicas de escolarização (por idade, isolada ou grupo de idades). No primeiro caso, trata-se da relação entre o nº de alunos matriculados num determinado ciclo de estudos, em idade normal de frequência desse ciclo, e a população residente dos mesmos níveis etários. Já a taxa de escolarização, por idade, corresponde à relação percentual entre o nº de alunos matriculados e a população residente, em cada uma das idades. b) No que respeita aos indicadores de “aproveitamento”, recordamos: – taxa de aprovação; – taxa de retenção e desistência (relação percentual entre o nº de alunos que não podem transitar para o ano de escolaridade seguinte e o nº de alunos matriculados, nesse ano lectivo); – taxa de transição/conclusão (relação percentual entre o nº de alunos que, no final de um ano lectivo, obtêm aproveitamento, podendo transitar para o ano seguinte, e o nº de alunos matriculados, nesse ano lectivo). A conclusão de estudos aplica-se aos 9º e 12º anos de escolaridade; – percentagem de repetentes (relação percentual entre o nº de alunos matriculados, pela 2ª ou mais vezes, num determinado ano de escolaridade e o total de alunos matriculados nesse mesmo ano de escolaridade). No seu conjunto, estes indicadores dão-nos informações sobre a qualidade do ensino e os desperdícios causados pelo insucesso escolar dos alunos. c) Sobre os indicadores de “abandono”, referimos: – taxa bruta de abandono; – taxa de abandono de aprovados; – taxa de abandono de reprovados; – taxa de desistência. 192 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Estes dados são esclarecedores da atracção (e eficácia interna) do sistema, bem como das suas capacidades de reter uma população escolarizável, para além do ciclo de estudos obrigatório. Os indicadores escolares especializados podem ser agrupados de forma diversa. Transcrevemos de GEP/ME (1989, p. 18) uma referência sobre os chamados “indicadores de rendimento e de impacto”, imprescindíveis ao planeamento educativo ao nível do diagnóstico, da definição de objectivos e da avaliação. Assim: a) indicadores da população que dizem respeito aos serviços educativos: · taxas de escolarização por idade; · taxa de alfabetização; · distância média casa/escola percorrida pelos alunos (…); b) indicadores de eficiência interna: · rácio aluno/professor; · taxas de repetência e abandono; · frequência escolar média; · taxas de aprovação, reprovação; · custo da educação por aluno; · espaços médios por aluno (áreas de sala de aula), etc.; c) indicadores de eficácia externa: · percentagem de saídas escolares, encontrando emprego no espaço de um ano; · taxa de desemprego por nível de ensino; · salários médios dos indivíduos com diferentes níveis e tipos de ensino, etc.; d) indicadores de eficiência educativa: · número médio de dias escolares por ano; · número médio de escolas visitadas por inspectores/supervisores por ano, etc.; e) indicadores de igualdade de oportunidades: · taxas de escolarização por regiões (NUTII), por NUTIII e por concelhos; · despesas em educação per capita; · rácio aluno/professor, etc. (…).” De realçar que a apreciação global destes dados não deixa de carecer de uma referência às próprias condições de acessibilidades (física, económica e sociocultural), bem como de uma explicação sobre as condições de mobilidade social – passagem ascendente ou descendente de um estrato social a outro (BIROU, 1978, p. 259) –, ditadas pelo tipo de sociedade em que vivemos. Neste caso, importa acrescentar aos dados anteriormente referidos a taxa de feminilidade, entendida como sendo a “relação percentual entre a população escolar do sexo feminino e a população escolar total (GIASE/ME, 2006, p. 17). Transcrevemos de GEP/ME (1989, p. 39 e segs) o significado de alguns indicadores: · taxa de repetência: “relação entre o nº de repetentes num dado ano de estudos e num dado ano escolar e nº total de alunos (novos inscritos ou alunos que transitaram mais os repetentes) que, no decorrer do ano escolar precedente, estavam inscritos nesse mesmo ano de estudos”. Jorge Carvalho Arroteia · · · 193 taxa de transição: “relação entre o nº de alunos inscritos pela primeira vez, ou seja, que transitaram num determinado ano de estudos e num dado ano escolar e o nº total (incluindo os repetentes) dos alunos inscritos no ano anterior, no ano de estudos imediatamente inferior”. taxa de abandono: “relação entre o nº de alunos que deixaram o sistema, durante ou no fim de um dado ano escolar e de um dado ano de estudos e o efectivo total desse mesmo ano de estudos, durante esse mesmo ano escolar”. taxa de admissão: “relação entre o nº de crianças efectivamente admitidos (novos inscritos) no 1º ano de um ciclo e o nº total dos que deveriam ser admitidos”. Para além destes, tem vindo a revelar-se de grande interesse, sobretudo a nível do ensino superior, a utilização do “índice de ocupação”, traduzido na relação entre o nº de alunos inscritos no 1º ano, do curso x/nº de vagas atribuídas, ao curso x. Este indicador permite conhecer quer o nível de procura efectivo de um determinado curso, quer a evolução da mesma ao longo de um determinado período. Para completar os dados anteriores, transcrevemos uma outra grelha de análise dos sistemas educativos. Quadro 10. Aspectos da análise Indicadores I – Demografia interna Acesso Participação Eficácia interna II – Análise financeira III – Recursos humanos e equipamentos Rácios Análise dos Cohortes Origens do financiamento Natureza e discriminação das despesas Custos unitários Pessoal docente Pessoal não docente Memória descritiva dos equipamentos Rácios Disparidades Desperdícios T. Admissão (Bruta e idade específica) T. Transição (entre ciclos) T. Escolarização (Bruta e idade específica) T. Promoção T. Reprovação T. Abandono T. Desperdício T. Sobrevivência 194 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Os indicadores escolares podem associar-se a outros indicadores demográficos, socioeconómicos e culturais que nos ajudam a um melhor conhecimento de sociedade, em geral, servindo, por conseguinte, para uma melhor compreensão das relações estabelecidas entre os sistemas social e educativo. Reportando-nos à realidade portuguesa, são bem conhecidos os dados referentes a alguns indicadores demográficos – “taxas de natalidade”, de “mortalidade infantil”, etc., bem como dos seus efeitos sobre o sistema educativo português. Na verdade, se alguns deles condicionam, directamente, os fluxos de entrada no sistema de ensino – caso da “taxa de natalidade” e de “acréscimo natural” –, outros ajudam-nos a caracterizar a comunidade local e as suas condições de vida – caso da mortalidade infantil. Outros, porém, se aplicados à população escolar, expressam-nos as condições de democratização do ensino – caso da “relação de masculinidade” – ou dão-nos referências mais profundas acerca da política educativa de um determinado país, como sucede com a “esperança de vida escolar” da população discente. O recurso a outros dados pode ajudar-nos a melhor enquadramento geral dos sistemas educativos. Neste caso, as informações podem ser traduzidas em indicadores gerais, em quocientes, em índices ou em taxas que nos permitem aprofundar o conhecimento dos sistemas educativos, por país, facilitando, assim, certas comparações internacionais. Apresentamos alguns indicadores inicialmente utilizados para contextualizar os sistemas educativos. A. Indicadores de desenvolvimento económico: · Produto Nacional Bruto (por habitante); · Produto Nacional Bruto (taxa de crescimento anual); · Produto Interno Bruto (PIB); · variação da produção industrial; · consumo de energia por habitante; · rendimento per capita. B. Indicadores de dependência externa: · importações de mercadorias (CIF); · exportações de mercadorias (FOB); C. Indicadores de nível de vida e bem estar da população: · esperança de vida da população; · consumo diário de proteínas animais por habitante; · percentagem da população residente em centros urbanos; · estrutura etária da população/grupos funcionais: jovens< 20 anos; adultos; 20-59 anos e velhos> 60 anos; · telefones (televisores, veículos automóveis e jornais, por ex.) por 1000 habitantes. D. Indicadores de cobertura e eficiência do sistema educativo: · taxa de escolarização (geral e por níveis de ensino); · taxa de escolarização no ensino superior; · despesas públicas com a educação (% em relação ao total); · despesas públicas com a educação (em % do PNB); · despesas públicas com a educação (repartição pelos diferentes níveis de ensino); · repartição das despesas públicas (correntes e em capital) com a educação. Jorge Carvalho Arroteia 195 Entre as diferentes preocupações referentes à recolha e à utilização destes instrumentos de trabalho, a análise estatística dos indicadores qualitativos de “capital humano” relacionados com o rendimento escolar e com as competências individuais específicas nos domínios da leitura, das ciências, da matemática e outras, dão-nos informações concretas sobre o funcionamento dos sistemas educativos e dos seus resultados em determinadas áreas. Entre eles, refere-se o “Programme for International Student Assessment – PISA”, conduzido pela OCDE (2004). No domínio dos indicadores internacionais, cabe uma referência aos “indicadores de desenvolvimento humano”, publicados pelo UNDP (United Nations Development Programme). Em textos diferentes, o UNDP (1990 e, sobretudo, em 2003, p. 27) confirma que o desenvolvimento humano está centrado na promoção do bem-estar social, na dignidade humana, na liberdade, na solidariedade, na tolerância, na equidade e no respeito entre os indivíduos. Por outro lado, o desenvolvimento humano preocupa-se não só com a satisfação das necessidades essenciais dos indivíduos, mas também em estabelecer um processo dinâmico de participação e de mobilização colectivas, aplicando-se tanto aos países menos avançados como aos países industrializados. Os índices utilizados têm em consideração a esperança de vida, as condições de saúde, o acesso à educação e ao conhecimento e os recursos que permitem um nível de vida adequado. Para além destas condições, de índole pessoal, o desenvolvimento humano considera, ainda, a utilização de outras capacidades relacionadas com o lazer, a produção científica e cultural, bem como aspectos relacionados com a participação e vivências, social e política, nomeadamente as que se relacionam com os Direitos Humanos. O “Human Development Report”, publicado, anualmente, pela UNDP, permite, assim, conhecer os diversos indicadores relacionados com o “desenvolvimento humano”, por país, e a sua ordenação mundial. Para tanto, utiliza quatro grupos de indicadores fundamentais: · HDI: indicador de desenvolvimento humano, baseado em três domínios: longevidade, medida através da esperança de vida ao nascer; conhecimento, avaliado pela literacia e frequência da educação primária, secundária e terciária, e o nível de vida, calculado em GDP/per capita; · GDI: indicador de desenvolvimento humano, relacionado com as questões de género e as desigualdades entre homens e mulheres no que respeita aos índices anteriores; · GEM: indicador relacionado com as oportunidades de género, relacionadas com a participação e a actividade política e económica entre homens e mulheres; · HPI: indicador misto que atende aos aspectos relacionados com a pobreza (longevidade, educação e nível de vida), em países em desenvolvimento (HPI-1) e em países industrializados, (HPI-2) incluindo, ainda, a exclusão social (Op. cit., p. 353). Indicadores da OCDE O conhecimento actual dos sistemas educativos, da sua evolução e análise em diferentes contextos sociais requer a utilização de diferentes fontes de informação e elementos de análise que, de forma expedita, informem sobre os aspectos mais determinantes da frequência, dos custos, da organização e dos resultados alcançados em diferentes contextos educativos. A utilização desta informação, devidamente sistematizada e contextualizada, permite, ainda, a análise comparada dos sistemas educativos e uma perspectiva alargada sobre os cenários actuais e futuros da educação, em diferentes países. 196 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos No âmbito da sua acção internacional, a OCDE tem vindo a publicar um conjunto de indicadores internacionais sobre o estado da educação em diferentes países: “Regards sur l’Éducation” (2005), que se constituem como uma informação indispensável para os que se interessam não só pelos estudos de natureza comparada, mas também pelo estado da educação em diferentes contextos do globo. A série é composta por 30 indicadores, os quais permitem entender melhor as análises das políticas de educação levadas a cabo por este organismo internacional. Como já assinalámos, a apreciação das políticas de educação, das estruturas, do funcionamento e dos resultados dos sistemas educativos exige ter em atenção o contexto em que se inserem os sistemas e a recolha de informação diversificada sobre a população, os custos, a escolarização e os seus resultados. Estes aspectos condicionam a arrumação actual das três dezenas de indicadores seleccionados, em 6 grandes capítulos: A. Contexto da educação (contexto demográfico); B. Recursos financeiros e humanos investidos na educação; C. Acesso à educação, participação e progressão; D. Ambiente pedagógico e organização escolar; E. Inserção social e profissional no termo da formação; F. Resultados escolares dos alunos. Não se tornando necessário recordar os indicadores que integram cada um destes grandes grupos de informação, importa salientar que a sua selecção e tratamento permitem conhecer os aspectos que servem de base a este organismo internacional para a análise das políticas de educação e dos seus resultados. LBSE A Lei de Bases do Sistema Educativo Português (LBSE) – Lei nº 46/86, de 14 de Outubro, resulta do trabalho parlamentar desenvolvido pelos partidos com assento na Assembleia da República – PSD, PS, PCP, MDP/CDE e PRD –, que, após apreciação dos diferentes projectos apresentados pelos grupos parlamentares, votaram, em 24 de Julho de 1986 (com os votos contra do CDS e abstenção do MDP/CDE – in: PIRES, 1987, p. 7), o texto final desta Lei. O texto inicial, constituído por 64 artigos, agrupados em 9 capítulos, foi sujeito a alterações introduzidas pela Lei nº 115/97, de 19 de Setembro, e alterado pela Lei nº 49/2005, de 30 de Agosto, tratando-se de um documento estruturante da acção educativa, que estabelece o “quadro geral do sistema educativo”. Os nove capítulos são os seguintes: Cap. I: âmbito e princípios; Cap. II: organização do sistema educativo; Cap. III: apoios e complementos educativos; Cap. IV: recursos humanos; Cap. V: recursos materiais; Cap. VI: administração do sistema educativo; Cap. VII: desenvolvimento e avaliação do sistema educativo; Cap. VIII: ensino particular e cooperativo e Cap. IX: disposições finais e transitórias. Nos diversos artigos que integram este documento, definem-se os aspectos gerais que dizem respeito à orientação, à organização e ao funcionamento do sistema educativo português, o qual tem por âmbito geográfico a “totalidade do território português”, mas que “deve ter uma expressão suficientemente flexível e diversificada, de modo a abranger a generalidade dos países e dos locais em que vivam comunidades de portugueses ou em que se verifique acentuado interesse pelo desenvolvimento e divulgação da cultura portuguesa” (artº 1). Destaca-se, na sua organização, a oferta da educação pré-escolar, da educação escolar e da educação extra-escolar. No que à “educação escolar” diz respeito, esta abarca o ensino básico, o ensino secundário e o ensino superior, diferenciados nos seus objectivos, organização, acesso, graus e características da própria rede. Quanto à “educação extra-escolar”, notamos que esta “engloba actividades de alfabetização e de educação de base, de aperfeiçoamento e actualização cultural e científica e a iniciação, reconversão e aperfeiçoamento profissional” (artº 4º). Como observa Lima (1997, p. 70), a “LBSE é mais avançada no domínio dos princípios gerais do que em termos concretos de configuração organizacional e administrativa de um sistema educativo realmente descentralizado, capaz de inverter a tradicional tendência centralizadora”. Contudo, feita uma reflexão sobre a “arquitectura do sistema escolar português” (PIRES, 1997 – in: BESSA et. al. 1997, p. 43), ao fim de dez anos da publicação deste diploma, o então Secretário da Subcomissão da Lei de Bases do Sistema Educativo reconhece que o nosso sistema escolar, que “pretende ser também educativo, isto é, que promova bons resultados”, 198 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos deve continuar a prosseguir dois fins essenciais: “que o sistema escolar entregue à sociedade novas gerações de bons cidadãos nos sentidos económico, enquanto elemento produtivo, cultural, enquanto elemento de coesão social, e político, enquanto participante nas decisões que a todos e a cada um interessa; e que os processos desenvolvidos no interior da escola promovam a realização do indivíduo, não só enquanto adulto em devir, mas já mesmo na situação de aluno” (Op. cit., p. 45). Modalidades especiais de educação escolar De acordo com a LBSE (artº 16), constituem modalidades especiais de educação escolar: · a educação especial; · a formação profissional; · o ensino recorrente de adultos; · o ensino à distância; · o ensino do português no estrangeiro. Salientamos alguns aspectos destas modalidades: · A educação especial, destinada a alunos com dificuldades educativas especiais do ensino público, básico e secundário, contempla a adaptação das condições de ensino-aprendizagem a este tipo de discentes através de equipamentos e de condições materiais do ensino, às adaptações curriculares, de organização e de funcionamento interno das escolas e dos cursos que os acolhem. · A formação profissional, considerada noutra parte deste estudo, tem em vista permitir a inserção dos alunos no mundo do trabalho quer através da frequência da rede regular de ensino secundário, quer através das escolas profissionais. · O ensino recorrente de adultos, igualmente referido noutra parte deste trabalho, acolhe alunos que se encontram fora da idade legal de escolarização e acolhe públicos diferenciados, nomeadamente os que desejam obter formação profissional. · O ensino à distância, desenvolvido através do recurso “aos multimédia e às novas tecnologias de informação constitui não só uma forma complementar do ensino regular, mas pode constituir também uma modalidade alternativa da educação escolar” (artº 21 – LBSE). A Universidade Aberta é a principal instituição que assegura este tipo de ensino. · O ensino do português no estrangeiro é uma modalidade que se destina à divulgação e estudo da língua portuguesa, sobretudo em países onde residam comunidades de emigrantes portugueses e noutros países, mediante acções e meios diversificados que visem, nomeadamente, a inclusão da língua e da cultura portuguesas nos “planos curriculares” e a “criação e manutenção de leitorados de português, sob orientação de professores portugueses, em universidades estrangeiras” (artº 22 – LBSE). Os cursos regulares de ensino não superior integram a rede oficial, da responsabilidade das autoridades portuguesas, ou a rede particular, da responsabilidade de associações e outras entidades. Por sua vez, os cursos de índole superior, em universidades, são da responsabilidade do Instituto Camões. Métodos de investigação De acordo com Grawitz (1990, p. 384), o método é constituído “pelo conjunto de operações intelectuais pelas quais uma disciplina tende a atingir as verdades que procura, as demonstra e verifica”. Por isso, o método exige uma atitude concreta perante uma determinada realidade e a sua explicação através de técnicas adequadas. Esta diligência assenta no domínio e no conhecimento da teoria e do contexto em que se verifica a ocorrência do fenómeno (ou dos fenómenos) em questão. Nestas circunstâncias, a explicação dos fenómenos sociais requer a escolha do método adequado e o domínio de um conjunto de “regras práticas” que garantam o conhecimento da organização e da “dinâmica social” que identifica os diversos sistemas sociais. Diversificadas pela sua natureza, as técnicas de investigação constituem o suporte de qualquer pesquisa social. É o conjunto destes processos que determina a metodologia seguida e o aprofundamento de diversas técnicas de investigação. Se pensarmos no domínio da política educativa, esta ciência utiliza métodos de abordagem comuns às diferentes ciências sociais e uma metodologia própria, que, segundo Benítez (1991, p. 36), deve assentar, fundamentalmente, na observação, na descrição e, em menor grau, na experimentação e explicação”. Importa, contudo, assinalar que a metodologia de análise dos fenómenos educacionais exige, sempre, a contextualização dos fenómenos sociais e educativos. Vejamos alguns aspectos relacionados com os métodos de investigação. A apreensão dos fenómenos sociais, isoladamente, e as suas interacções com o meio ambiente, levanta-nos algumas questões metodológicas, relacionadas com a escolha do método mais apropriado para a compreensão e explicação dos fenómenos sociais e educativos (PARDAL, CORREIA, 1995). Por isso, não nos deve bastar a “observação” e a “descrição” dos fenómenos em causa, mas também a sua “explicação”, dada a importância desta no conhecimento das situações específicas e complexas que acompanham os fenómenos sociais, ou seja, o conhecimento mais aprofundado das relações de interdependência que se estabelecem entre o “indivíduo” e o seu “meio”. Na prática, a adopção deste modelo permite-nos que, após a constatação de um determinado fenómeno (ou manifestação social), se procure a explicação provisória do mesmo, consubstanciada no enunciado da “hipótese”, cuja verificação deverá ser confirmada no decurso da própria investigação. Estes são os pressupostos do chamado modelo “hipotético-dedutivo”, utilizado no conjunto das ciências sociais. As vantagens deste procedimento, que tem por fim conseguir os melhores resultados e unidade dos contributos das diferentes ciências, assentam no entendimento de que os fenómenos sociais podem ser apreciados, como refere Buckley (1976, p. 69), como um “complexo de 200 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos elementos ou componentes directa ou indirectamente relacionados numa rede causal”. No entanto, a apreciação dos fenómenos sociais e educativos ganha outro significado se aceitarmos a existência de um “contínuo equilíbrio e dinâmico” que permita à sociedade ser encarada como “um todo estável, composto de partes, cada uma das quais desempenha uma função própria em relação à totalidade” (FERNANDES, 1983, p. 30). Tendo presente o que acabamos de assinalar, o estudo dos fenómenos sociais e educacionais alcança melhores resultados se conseguir tratar um “grande número de variáveis e interpretar os diversos elementos como partes de um todo orgânico” (COOMBS, 1970, p. 15), todo esse, na opinião de Chiavenato (1987.II, p. 350), configurado como um “sistema”. Este entendimento da relação e articulação entre os fenómenos sociais ajuda-nos na escolha dos diferentes paradigmas e dos métodos de investigação. Note-se que a escolha dos métodos e dos dados utilizados na caracterização dos sistemas sociais e educativos depende não só do tipo de análise que se pretende efectuar, mas também dos objectivos a atingir. Assim, perante os dados recolhidos, a opção por uma abordagem “qualitativa” ou por outra de natureza “quantitativa” irá determinar o tipo de pesquisa, o modo de tratamento dos dados e os resultados da investigação em curso. Tomando como referência a recolha de dados sobre a escolarização e o aproveitamento escolar, a recolha de informação relativa aos efectivos globais dos alunos e à sua distribuição por ciclos de estudos, por sexo e idades, à sua origem geográfica e social ou à sua distribuição por escolas, será vantajosa se associar a estas informações, elementos sobre o agregado e o meio familiar do aluno. Eventualmente, poder-se-ão agregar novos dados relativos à escola, relacionados com o corpo docente, a sua mobilidade e motivações, o clima organizacional da escola e outros elementos relativos aos recursos educacionais. Para além destes detalhes, outras indicações relacionadas com as condições de funcionamento do sistema educativo, – encarado como uma “sociosfera, como sistema social global ou como subsistema no interior de um sistema global” (FERNANDES, Op. cit., p. 46) –, são úteis quando se pretende apreciar a qualidade do ensino, as relações com a comunidade e a sociedade no seu conjunto. É neste contexto que ganha maior relevância a abordagem quantitativa da educação e o recurso ao tratamento estatístico. Atente-se que a recolha de dados numéricos constitui um passo importante de todo o processo de investigação social, facto que permite uma maior precisão em termos de apresentação final dos resultados e um certo número de comparações entre realidades sociais aparentadas pela ocorrência do mesmo tipo de indicadores. Fazemos, no entanto, realçar que a recolha estatística ganha maior significado se associada a um fenómeno específico e alicerçada numa determinada observação para a qual construímos uma hipótese que vamos comprovar através da recolha de novos dados e da utilização de fontes diversificadas. A propósito deste assunto, Worsley (1977, p. 129) reafirma que a natureza dos resultados a atingir deve explicar “grande parte do que já se observou” e dirigir a nossa atenção “para novos campos de observação”. Esta recomendação obriga a ter certas precauções relacionadas com o tratamento destes elementos, considerados como uma expressão quantitativa da dimensão e do significado de qualquer fenómeno social. Assim sendo, os dados estatísticos devem referir-se a quadros sociais precisos, determinados e bem delimitados, uma vez que, em caso contrário, podemos correr o risco de constituírem, apenas, “manipulações matemáticas com os grandes números” Jorge Carvalho Arroteia 201 (GURVITCH, 1979, p. 24). Estas tarefas podem resumir-se através da utilização de um esquema circular de “dinâmica de investigação”, o qual, tendo presente uma determinada problemática e a comprovação de um conjunto de hipóteses, vai prosseguindo de forma contínua. De acordo com Q. Cabanas (1989, p. 62-63), o desenvolvimento desta investigação pressupõe a existência de quatro momentos diferentes, a saber: · determinação do “objectivo” da investigação; · elaboração do “marco teórico”; · escolha da “metodologia” (e das técnicas) a seguir na recolha de dados; · elaboração das respectivas conclusões. Referem-se algumas das modalidades de investigação que podem ser utilizadas no âmbito da análise social da educação, a seguir de acordo com a natureza do trabalho de pesquisa, os seus objectivos e as características do grupo sobre o qual incide o trabalho de pesquisa. Investigação-acção A investigação-acção pressupõe a recolha de informação, a análise detalhada de um fenómeno ou conjunto de fenómenos sociais e uma intervenção orientada pelos resultados dessa pesquisa. Como objecto da nossa atenção, podem situar-se os fenómenos relacionados com o sistema educativo, na sua globalidade, ou, pelo contrário, determinados tipos de fenómenos, incidindo sobre o aproveitamento dos alunos ou a sala de aula. Eventualmente, pode, igualmente, interessar-nos o conhecimento do comportamento contextualizado dos professores, dos alunos e da própria comunidade. De acordo com Serrano (1990, p. 31), o desenvolvimento da “investigação-acção” pode basear-se numa intervenção e pesquisa menos “positivista” e mais “interpretativa e compreensiva, normalmente caracterizada como investigação qualitativa”. Na sua essência, esta modalidade pressupõe o conhecimento de uma realidade social e uma intervenção, no sentido de a modificar. Para tanto, torna-se necessário o conhecimento exaustivo do “objecto/meio social de pesquisa”, conseguido através do recurso à “observação participante”. Segundo Esteves (1986, p. 271), a investigação-acção reveste três objectivos fundamentais: · “objectivos de investigação”, ou seja, a “produção de conhecimentos sobre a realidade”; · “objectivos de inovação”, que permitam a “introdução de transformações numa determinada situação, com o propósito de dar soluções a problemas como tais identificados”; · “objectivos de formação de competências”, que facilitem o “desenvolvimento de um processo de aprendizagem social envolvendo todos os participantes”. O enunciado destes pressupostos evidencia o interesse que esta modalidade de investigação confere à ligação entre a teoria e a prática, à observação de uma determinada realidade sócio-educativa e à alteração desse cenário, de forma a melhorar-se a eficiência do processo ensino-aprendizagem, a modificação das medidas de política educativa, o diálogo entre a escola e a comunidade, etc. Para tanto, torna-se indispensável percorrer as diferentes etapas, idênticas às de qualquer outro processo de pesquisa social, que apelam à importância de um diagnóstico adequado, de uma formulação teórica completa, de uma planificação consistente e de uma intervenção eficaz, que garanta a modificação das condições finais da investigação em curso. 202 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Ainda que a maior parte dos educadores a realize, sistemática e quotidianamente, enumeramos as diversas fases que deve percorrer uma tarefa desta natureza, tendo em vista que a mesma exige uma equipa alargada de trabalho e o domínio de diferentes metodologias de intervenção. Esteves (Ob. cit., p. 275) aponta as fases seguintes: · a construção de “uma estrutura colectiva de investigação”, dotada de “uma dinâmica de cooperação interna e de abertura ao seu exterior”; · a entrada em contacto “com a população a atingir, (…) em ordem à elaboração participante de um diagnóstico preliminar”; · a elaboração de um “diagnóstico preliminar onde se integrem as informações pertinentes da situação, os ‘problemas sociais’ definidos e sentidos pelos grupos sociais locais, as experiências passadas de solução e a sua avaliação na memória colectiva”; · a preparação de uma “metodologia de participação (…), com vista à sua aplicação nas restantes fases do projecto de acção: programação, execução, acompanhamento, avaliação e reformulação”. Pelas características que acabamos de assinalar, esta modalidade de investigação, se aplicada à actividade docente, poderá fomentar a melhoria das relações entre os elementos do mesmo grupo, já pelo seu envolvimento colectivo num projecto específico, já pela colaboração que uma actividade desta natureza exige, tendo em conta a reflexão colectiva e as experiências dos diversos investigadores. Da mesma forma, por se tornar necessário controlar sistematicamente os resultados alcançados, a “investigação-acção” obriga a um rigor metodológico e a um planeamento flexível que vá tendo em conta as modificações operadas no decurso da investigação, na modificação das características observadas e no somatório das atitudes individuais e colectivas dos indivíduos integrados na população observada. Embora de forma indirecta, o incremento de actividades desta natureza, ligadas à “investigação-acção” ou a outras formas mais complexas de “formação-acção-investigacão”, constitui um dos passos decisivos na implementação de qualquer processo de acção educativa e de reforma do sistema, podendo ser útil no desenvolvimento de actividades de índole pedagógica, nomeadamente as que se relacionam com a formação permanente dos professores. Sendo, ainda, considerada como elemento promotor de inovação (SERRANO, 1990, p. 219), a “investigação-acção” deverá revestir-se de outras características, designadamente as que lhe garantem tratar-se de “um processo aberto, flexível e participativo, acessível a qualquer profissional de educação comprometido com a resolução dos problemas que coloca a prática quotidiana”. Contudo, como asinala Milaret (1992, p. 13), “o conceito de investigação-acção parece-nos válido se conduzir a investigações que respondam a todas as exigências anteriormente indicadas para o método científico. Porém, tal não impede que qualquer um faça da investigação-acção uma poesia ou um romance; basta ter tomado consciência do que está a fazer. É, talvez, essa uma das condições, respeitada, que supõe uma longa e, por vezes, dolorosa formação”. Estudos de caso Outras modalidades de investigação são frequentemente utilizadas em estudos de índole pedagógica, independentemente ou de forma complementar ao processo já descrito. Realçamos os “estudos de caso”, que, no dizer de Ferreol (1995, p. 173), apoiando-se em “hipóteses e Jorge Carvalho Arroteia 203 sendo frequentemente orientadas por um esquema teórico”, assumem um carácter meramente “exploratório” ou já de natureza “descritiva”. Dentre estes, assumem particular relevância os “estudos monográficos”, centrados num fenómeno restrito. De acordo com Gurvitch (1979, p. 25), são estes que garantem o melhor conhecimento de “todos os tipos de estrutura parciais e globais”, onde incluímos a realidade social e escolar. Referimos algumas das suas características fundamentais. No dizer de Léssard-Hébert (1994, p. 170), a especificidade do “estudo de caso” resulta, essencialmente, da preocupação de análise de um fenómeno “contemporâneo e situado na vida real”, pela ausência de fronteiras “nitidamente demarcadas” entre esse fenómeno e o seu contexto e pela utilização de “fontes múltiplas de dados”. Para além destas características, um “estudo de caso” deve evidenciar-se pelas suas preocupações compreensivas, sendo, por isso, relevante em diversos tipos de investigação social e pedagógica. Estudos monográficos No que concerne aos “estudos monográficos”, Gurvitch (Ob. cit., p. 24) defende que estes devem “apoiar-se em todas as outras técnicas de investigação”, ajudando-nos, por isso, a compreender a realidade circundante da escola. Isto porque, como assinalam Cazeneuve e Victoroff (1982, p. 417), a monografia é um “estudo aprofundado ao máximo de uma pequena unidade social bem delimitada e apreendida como uma totalidade; por exemplo, o estudo de uma aglomeração, de uma família”. A realização destes estudos, tão do agrado dos etnólogos e de outros cientistas sociais, exige a qualquer investigador o recurso a diferentes meios que permitam reconhecer a profundidade e a complexidade dos fenómenos sociais que, na sua essência, emergem da “crosta exterior” da sociedade. Assim mesmo, interessará garantir o conhecimento correcto da sua “base morfológica” (geográfica, demográfica, ecológica), antes de passarmos ao estudo das suas relações recíprocas. Se aplicado à instituição escolar, o recurso à monografia ou mesmo a casos vividos na sala de aula constituem dois processos que permitem alicerçar a chamada “análise institucional” da escola, ou seja, a procura das relações entre o homem e a “instituição” escolar. Como recorda Touraine (1982), os sistemas sociais, considerados isoladamente ou constituídos por um “conjunto de sistemas”, funcionam como um todo, obrigando, por isso, à existência de uma coerência entre os seus elementos. Daí que sejam características destas “estruturas coerentes e significativas” (GOLDMANN), a interdependência, a equifinalidade, a dinâmica entre os seus elementos, bem como a relação recíproca que, no seu conjunto, estes estabelecem com o seu meio ambiente. Análise organizacional A “análise organizacional” procura conhecer como funcionam os “grupos humanos organizados”, ou seja, a “pertinência de certos objectivos com a coerência do conjunto de variáveis que podem caracterizar uma determinada instituição” (LANDSHEERE, 1979, p. 12). Este tipo de abordagem considera, especificamente, as seguintes características da organização escolar: a divisão de tarefas e de papéis, a divisão de autoridade e as cadeias hierárquicas, os sistemas de comunicação, os critérios de avaliação e o controlo dos resultados alcançados por essa organização. 204 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Deixando de parte outras características específicas de cada um destes tipos de análise, notamos, a propósito desta última, a sua preocupação relativamente às motivações e às condições de trabalho e de rendimento da organização escolar, dependentes das estruturas formal e informal, bem como a actuação “estratégica” dos seus actores. Convirá recordar que, contrariamente ao que sucede na organização formal (que especifica as competências e funções, os objectivos organizacionais, as estruturas de autoridade e de controlo através de leis e regulamentos), a organização informal admite diversos tipos de interacção social ou mesmo certos tipos de comportamentos diferentes dos prescritos na organização formal. Esta situação resulta, fundamentalmente, da persistência de grupos e de interesses individuais no seio das organizações sociais. Por isso, admite a possibilidade dos indivíduos agirem com alguma liberdade dentro da própria organização e de utilizarem estratégias distintas nas suas relações com os demais, ou seja, a possibilidade de actuarem não de forma passiva, mas com alguma margem de liberdade, garantida pelos condicionalismos presentes no momento da sua acção. A propósito destes considerandos, notamos que a escola não é uma mera reprodução do sistema educativo, mas sim um “microssistema”, que, na sua composição e funcionamento, revela os traços fundamentais da população que a povoa e as características do seu meio. Estes aspectos corroboram a importância do conhecimento dos factores contextuais que condicionam a vida e as actividades da própria escola e, também, a individualidade desta instituição. Daí as precauções a ter não só na escolha e na recolha dos dados estatísticos com ela relacionados, mas também no seu tratamento e interpretação. Mobilidade social A mobilidade social, entendida, de forma ampla, como sendo a passagem de um “status” social a outro, anda associada aos fenómenos de mudança social, às desigualdades e às formas de organização social dominantes, das quais resulta a existência de vários estratos sociais, aos quais pertencem muitos dos seus membros. Este processo, reconhecido por “estratificação social”, permite uma certa movimentação, quer horizontal, quer vertical (ascendente e descendente), traduzida na transferência do indivíduo do seu grupo inicial para outro. Para tanto, a educação poderá desempenhar um papel relevante, promovendo a “capilaridade” social a indivíduos desfavorecidos cultural e/ou economicamente, contrariando, assim, os efeitos perversos da selecção social e promovendo a inclusão dos indivíduos no seu grupo e sociedade. Note-se que o desejo de mobilidade social através da educação constitui um dos factores da actual “procura social” da educação. É comum a todos os grupos sociais, mas manifesta-se principalmente entre os menos favorecidos. Sendo assim, a “democratização da educação” surge como um factor importante no restabelecimento da igualdade de oportunidades, principalmente em sociedades estratificadas, onde a escola funciona, frequentemente, como agente de reprodução da estrutura das classes (GRAS, 1974, p. 39). Como refere Girard (1970, XXVI), o desejo de ascensão social através da instrução, conhecida por procura social do ensino, é uma consequência do progresso técnico, comum a todos os grupos sociais, mas manifesta-se, principalmente, entre os menos favorecidos. Trata-se de uma aspiração que, em regra, é contrariada por dificuldades que tem a ver não só com a organização do próprio sistema de ensino e de sociedades em geral, mas também com um conjunto de “aptidões individuais” e “privilégios culturais”, transmitidos pela família. Para a sua atenuação, sugerem alguns autores a utilização de estratégias de compensação (GRAS, Op. cit., p. 32), visando reduzir as “desigualdades culturais”, próprias dos alunos pertencentes às classes sociais mais desfavorecidas. Em alguns dos seus aspectos, porém, o sistema escolar funciona como suporte e produto de sociedades onde se insere. Esta é a teoria defendida por alguns sociólogos, que dão a maior importância às relações entre o sistema político, o económico e o Estado, cujos efeitos se fazem sentir directamente na escola através da sua organização, dos seus mecanismos políticos de controlo e dos conteúdos ideológicos (ALTHUSSER, 1974). Do mesmo modo se manifestam Bourdieu e Passeron (1987, p. 230), quando afirmam: “o sistema de ensino está associado, na tradição teórica, a uma representação instrumentalista das relações entre a escola e as classes dominantes”, conferindo-lhe, por conseguinte, a função de “legitimação da ordem estabelecida”, ou seja, a “função de conservação da estrutura das relações de 206 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos classe característica dessa sociedade” (Op. cit., p. 248). Nestas circunstâncias, a escola não é mais do que um agente de reprodução da estrutura de classes que permite, no caso de uma organização social estratificada como é a nossa sociedade, certas formas de mobilidade social ascendente ou descendente de um estrato social a outro. Apesar do esforço de democratização do ensino seguida pela maior parte dos países, a existência de desigualdades sociais, económicas e culturais entre a população impedem a igualdade efectiva de acesso e frequência escolar a todos os seus membros, uma vez que a igualdade de oportunidades é seriamente condicionada pelo rendimento, educação, estrutura familiar e social e reputação na comunidade (GRAS, 1974, p. 297), levando a que os “estatutos profissional e social se transmitam a par”. Igualmente aplicáveis ao caso português, a constatação destas realidades levam-nos a seguir com o máximo interesse as tomadas de decisão referentes ao princípio de “democratização da educação”, definido na Constituição da República Portuguesa (artº 73), uma vez que, segundo o texto oficial, “todos têm direito ao ensino com garantia de acesso e êxito escolar”. Daí que se reconheça a necessidade do ensino ser modificado de modo a superar qualquer função conservadora de desigualdades económicas sociais e culturais” (artº 74). Se tal não acontecer, teve lugar a selecção social. Meio social A referência ao meio social torna-se obrigatória quando pensamos nas desigualdades em relação ao acesso, à participação e ao sucesso educativos. De facto, as diferentes condições de acessibilidade repercutem-se na frequência dos alunos e na avaliação de qualquer processo educativo. Neste caso, deparamo-nos com diferentes variáveis (que não só a personalidade ou as aptidões intelectuais), que identificam a população escolar. Daí que se atenda à importância dos diversos quadros da vida social, ao seu contexto e valores, para justificar certas formas de aprendizagem e o comportamento global de cada indivíduo. Entre os diferentes factores explicativos, recordamos o nível económico da família e as diferentes “heranças”, nomeadamente a “herança cultural”, como elementos identificadores do meio social da população escolar. Por isso, as práticas pedagógicas nem sempre têm conseguido ultrapassar os traços individuais e sociais próprios dos alunos. Embora de forma indirecta, esta constatação não deixa de ser ainda manifesta na actualidade, dando seguimento às críticas contundentes de algumas correntes do pensamento sociológico que, durante os anos sessenta, realçaram este papel. Daí a oportunidade de salientarmos a inclusão social como factor relevante a considerar no processo de desenvolvimento humano e de participação cívica dos cidadãos, promovendo a mobilidade social e contrariando, desta forma, os efeitos determinantes do seu meio. Selecção social Muito embora contribuindo para vencer determinados traços da chamada “herança cultural”, as práticas pedagógicas nem sempre têm conseguido ultrapassar determinados traços individuais e sociais específicos de cada aluno. Daí a escola poder ser considerada como um grande factor de selecção social, perpetuando e reproduzindo os modelos sociais onde se insere. Jorge Carvalho Arroteia 207 Embora de forma indirecta, esta constatação não deixa de ser ainda manifesta na actualidade, dando seguimento às críticas contundentes de algumas correntes do pensamento sociológico que, durante os anos sessenta, realçaram o papel de selecção desempenhado pela organização escolar, no seu conjunto, e pelos sistemas de ensino e de formação que continuam a deixar de fora muitos “deserdados”, ou seja, muitos alunos oriundos de meios sociais desfavorecidos. Mudança social e educação Como referem Horton e Hunt (1980, p. 401), “todas as sociedades estão continuamente em mudança. Surgem novos traços através de ‘descoberta’ e ‘intervenção’ ou através de ‘difusão’ de outras sociedades”. Mais ainda, reconhecem que a estrutura e a cultura estão na origem desta mudança, sendo que é a “base cultural que proporciona o fundamento de conhecimentos e habilidades necessários ao desenvolvimento de novos elementos” (Loc. cit.). No mesmo sentido, pronuncia-se Martins (1999, Introdução), quando afirma: “as mudanças estão a ocorrer em todos os sistemas: económico, no qual se assiste a uma mundialização da economia e a alterações das regras de concorrência e dos paradigmas competitivos; político, pela perda de poder por parte dos Estados-Nação e pela criação de organizações supranacionais reguladoras das normas internacionais; cultural, pelo enfranquecimento da sua hegemonização por blocos e consequente surgimento de minorias culturais e tendências para a individualização dos sujeitos; tecnológico, no sentido da sua globalização e interacção crescente entre si e outros subsistemas, particularmente o humano. Ao nível do sistema de produção, assiste-se, igualmente, a profundas alterações na forma de produzir e de conceber os produtos, de organizar a empresa, a produção e o trabalho e no modo como as empresas se posicionam na concorrência e na ligação com os consumidores a que se destinam os seus produtos”. Estas referências ajudam-nos a entender como a análise dos aspectos actuais, referentes aos problemas que se colocam à educação nas sociedades de hoje, nos conduz a pensar nas transformações operadas durante os três últimos séculos após a eclosão dos fenómenos, de industrialização e urbanização, responsáveis pelos movimentos da população, em particular as migrações internas (êxodo rural) que alimentaram o crescimento das grandes urbes. Reconhecemos, antes de mais, que a urbanização actual tem as suas raízes mais próximas no processo de industrialização que se tem vindo a expandir, de acordo com os diferentes contextos naturais e societais, dos alvores do século XVII à actualidade. Não sendo de todo um processo homogéneo e contínuo, o desenvolvimento das actividades manufactureiras e fabris, consequentes à invenção da máquina a vapor, foi, no entanto, o primeiro responsável por um grande número de perturbações sociais, que eclodiram com a atracção maciça das populações rurais para os centros urbanos e com as inevitáveis transformações, registadas, sobretudo, ao nível destes grupos, devido à participação maciça de todos os membros da família, incluindo as mulheres, nos processos de produção. O crescimento das actividades industriais e a criação de novas oportunidades de emprego nas actividades conexas, nomeadamente no comércio e nos serviços, têm sido os grandes responsáveis pela chegada de novos contingentes, que, em vagas maciças, têm alimentado 210 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos não só o crescimento desses centros, mas também o êxodo intenso que se tem verificado noutras partes do mesmo território. A nível familiar, são igualmente reconhecidos os efeitos do emprego mais estável e duradouro sobre os agregados familiares, determinando, assim, uma maior estabilidade e rendimentos financeiros à família. Estas condições sugeriram, no entanto, uma maior participação de todos os membros do agregado familiar, em especial das mulheres até então responsáveis, nas sociedades rurais e tradicionais, por outros tipos de trabalhos que não os directamente relacionados com as tarefas realizadas em longas cadeias de produção. Escusado será de referir as alterações que, a nível familiar, trouxe este novo desempenho, não só em termos da evolução do próprio grupo, mas acima de tudo na repartição de tarefas e das responsabilidades que numa sociedade mais matriarcal e rural cabiam, em exclusivo, à própria mulher. Referimo-nos às tarefas de guarda e de educação dos mais novos e ao seu acompanhamento duradouro, que, depois do seu ingresso no mundo do trabalho, passou a ser desempenhado por outras entidades estranhas à família. Nestes contextos, a escola tem surgido como uma das instituições responsáveis por esse processo de socialização e de acompanhamento, de ensinamento e de preparação dos jovens para o seu desempenho pessoal antes de os preparar para o mundo profissional. O conjunto destas tarefas tem vindo a ser acompanhado por uma contínua desestruturação familiar, processo que, devido às alterações induzidas pelos intensos movimentos de mobilidade geográfica das populações e à sua fixação na periferia ou no meio dos centros urbanos de maiores dimensões, tem tido inúmeros reflexos na organização do espaço urbano e do espaço peri-urbano, polarizado por aquelas actividades económicas. Uma dessas consequências tem sido a inevitável concentração das populações urbanas em locais de maior acessibilidade física, junto dos centros industriais e em locais onde as condições de arrendamento ou de posse de alojamento se têm tornado mais convenientes. Hoje em dia, porém, novos fenómenos têm vindo a emergir, mostrando a complexidade dos processos de mudança e a sua extensão generalizada aos diversos países do globo ou mundialização. Este fenómeno de globalização, baseado na divulgação da informação e na inovação, assente na utilização das novas tecnologias, está a “desencadear uma revolução na organização do trabalho, na produção de bens e de serviços, nas relações internacionais e na cultura local” (CARNOY, 1999, p. 14), alterando, ainda, as relações humanas e a vida social. A este respeito, Azevedo (2006, p. 20-21) aponta as três dimensões essenciais da globalização: a dimensão económica, a dimensão política e a dimensão cultural. Aos diferentes desafios, colocados por este fenómeno, responde a escola que “acolhe agora todos os cidadãos, mas continua a não saber lidar com todos, gerando novos fenómenos de cristalização das desigualdades sociais” (Op. cit., p. 22), pelo que, “apesar da evolução positiva verificada, permanencem elevados caudais de alunos repetentes, de abandonos precoces e de saídas desqualificadas para os mercados de trabalho”. Por isso, conclui este autor ((Loc. cit.): “continua a ser muito difícil para países como Portugal, em plena ‘sociedade do conhecimento’, competir à escala global com uma mão-de-obra tão pouco qualificada”. O cenário desta realidade permite afirmar que, desde os finais do século XIX, mas sobretudo depois da segunda metade do século XX, principalmente no decurso dos anos sessenta, se intensificaram os movimentos migratórios internos e o crescimento dos grandes centros, em especial de Lisboa e do Porto, bem como das respectivas áreas metropolitanas. Algumas Jorge Carvalho Arroteia 211 causas podem ser referidas como responsáveis deste processo: a canalização de grandes investimentos para a construção de infra-estruturas e para a construção de unidades fabris na periferia destes centros arrastou consigo o desenvolvimento de outros serviços e uma urbanização intensa, geradora de novos movimentos demográficos e sociais. Como reflexo destes fenómenos, temos um crescimento mais intenso dos grandes centros litorais em toda a metade ocidental do território, sobretudo entre Viana do Castelo e Setúbal, onde as estimativas mais recentes apontam para uma concentração de mais de 2/3 da população residente e de cerca de 3/4 da população urbana portuguesa. Se juntarmos a este panorama os reflexos imediatos que tais movimentos tiveram na construção de novos equipamentos sociais ou no reforço dos já existentes, temos, assim, uma imagem do que é a sociedade portuguesa nos dias de hoje: uma sociedade dualista, onde ao redor da população urbana, dotada de maiores acessibilidades sociais, económicas e culturais, coexistem franjas de menor desenvolvimento; de uma estrutura urbana macrocéfala, marcada pela existência de duas grandes áreas metropolitanas: Lisboa e Porto; de uma estrutura social, económica e cultural desarticulada, por via das maiores acessibilidades que estes centros apresentam em relação ao território circundante. Estas imagens justificam o prosseguimento dos movimentos migratórios internos, do êxodo rural acentuado e da urbanização crescente e galopante que prossegue em torno dos centros urbanos de maiores dimensões. Como reflexos destes fenómenos, temos ainda as transformações sociais, que, gradualmente, têm afectado a sociedade portuguesa, relacionadas com os fenómenos de industrialização e urbanização, conduzindo, por sua vez, à desarticulação da sociedade rural aquando da sua transferência para os grandes centros, ou, ainda, pelos efeitos perversos que têm conduzido à destruição progressiva das comunidades rurais tradicionais, outrora marcadas por elevados índices de analfabetismo, sobretudo no sexo feminino. O conjunto destes factos intensificaram outras mudanças registadas na sociedade portuguesa, assinaladas por Martins (1999, Introdução) como devidas ao “intensificar das suas relações com o processo de mundialização (da vida, em geral, e da economia, em particular) pelo efeito da sua adesão à EU; pela sua posição histórica na divisão internacional do trabalho e que caracterizou Portugal como país semiperiférico; pela existência de estruturas produtivas e processos de trabalho tradicionais”. De facto, a consulta dos dados contidos no censo de 2001 são sugestivos das diferenças regionais existentes no território nacional, relacionadas com a diversificação social – representada pelo número de grupos socioeconómicos existentes num determinado território e da sua repartição no espaço. Recorrendo ao índice de diversificação social (INE, 2002, L), verifica-se: · “Em 2001, todas as regiões apresentavam uma importância superior a 13% do total da população activa, nos seguintes grupos: ‘empregados administrativos do comércio e dos serviços’ e ‘operários qualificados e semi-qualificados’. Note-se, ainda, que o grupo de ‘trabalhadores administrativos do comércio e dos serviços não qualificados’ é superior a 6% em todas as regiões. · A geografia do grau de diversificação socioeconómica da população residente transmite, em 2001, uma relativa uniformidade, à excepção da região Norte, onde se distinguem internamente graus de diversificação bastante diferenciados. Nesta região, os principais contrastes são entre a área nordeste, que regista o grau de diversificação mais elevado Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 212 · do território nacional, e o conjunto das sub-regiões Cávado, Ave, Tâmega e Entre Douro e Vouga, com grau de homogeneização socioeconómico que se destaca a nível nacional, sendo que o grupo dos operários qualificados e semi-qualificados representam entre 37 e 48% da população activa. Em 1991, e não havendo comparabilidade directa devido a alterações dos grupos socioeconómicos, a leitura deixa antever um grau de diversificação teritorialmente mais amplo.” Esta situação permite antever as perspectivas estruturais de mudança social no conjunto da sociedade portuguesa e território nacional. Analfabetismo O analfabetismo é um fenómeno que reveste facetas distintas consoante é o resultado da ausência de frequência do sistema educativo ou do abandono deste antes do cumprimento do período de escolaridade obrigatória. Em quaisquer dos casos, traduz-se quer na ausência do saber ler ou escrever ou então, no caso do domínio parcelar da leitura e da escrita, na impossibilidade de as utilizar de forma autónoma e funcional. A sua expressão nas sociedades actuais revela a existência de diferentes tipos de acessibilidades, relacionadas com o traçado da rede, a política de ensino e com as heranças individuais que afectam a escolarização da população e, por conseguinte, o processo de desenvolvimento socioeconómico de um país e a formação do seu capital humano. Sendo um fenómeno universal, tem vindo a ser reduzido em Portugal, com o desenvolvimento da democratização do ensino e o acréscimo da frequência escolar em cursos regulares e em cursos direccionados para a população adulta. Uma vez que estas condições têm vindo a alterar-se, o analfabetismo tem sido ainda afectado pelas perdas demográficas da população mais idosa, a que apresentava os maiores valores de ausência da frequência escolar e de incumprimento da escolaridade obrigatória. Assim, com base numa estimativa elaborada no âmbito do PNAEBA (1979, p. 7), a evolução da população analfabeta em Portugal era a seguinte: Quadro 11 Ano 1940 1950 1960 1970 Analfabetos/milhares 4 565.3 4 114.7 3 582.4 3 028.6 1979 1980 1990 2000 2 692.6 2 551.3 1 833.4 1 111.8 Note-se que a evolução dos conhecimentos e do sistema científico gerou novos grupos de cidadãos que, embora recordando ainda alguns aspectos da leitura e da escrita, registam um Jorge Carvalho Arroteia 213 desconhecimento de algumas das suas facetas e, sobretudo, das novas tecnologias, podendo ser considerados como os analfabetos funcionais, em contraste com os analfabetos literais, os que nunca frequentaram o sistema de ensino. Este facto está associado a diversas iniciativas do Estado, com vista ao combate ao analfabetismo que em meados do século XX, em 1950, orçava um milhão de habitantes com idade compreendida entre os 14 e os 35 anos. Daí decorreu o lançamento da Campanha Nacional de Educação de Adultos, em 1952, envolvendo diversos tipos de iniciativas coordenadas, a partir dos finais dessa década, pela Direcção Geral de Educação Permanente, então criada. Através da frequência dos Cursos de Ensino Primário Supletivo para Adultos, os alunos obtinham diplomas de instrução elementar, modalidade de ensino que, a apartir de 1975, passou a ser desenvolvida integrada no Plano Nacional de Alfabetização e, a partir de 1979, através de um conjunto de acções, articuladas pelas autarquias locais pelo Plano Nacional de Alfabetização e Educação de Base dos Adultos (PNAEBA). Depois da publicação da LBSE, o ensino recorrente de adultos é garantido aos cidadãos “que já não se encontram na idade normal de frequência dos ensinos básico e secundário” e aos “indivíduos que não tiveram oportunidade de se enquadrar no sistema de educação escolar na idade normal de formação, tendo em especial atenção a eliminação do analfabetismo” (artº 20). Visa, ainda, superar as condições de desfavorecimento desta população, garantindo os ensinamentos e as aprendizagens básicas para a vida em sociedade, tendo em conta “os grupos etários a que se destinam, a experiência de vida entretanto adquirida e o nível de conhecimentos demonstrados”. Durante a década de noventa, a luta contra o analfabetismo em Portugal ficou assinalada pelo lançamento de novas iniciativas, orientadas não só para a aprendizagem formal, mas também para a formação profissional. A criação da Agência Nacional de Educação e Formação de Adultos (ANEFA), criada em parceria entre o Ministério da Educação e o Ministério do Trabalho e da Solidariedade (Decreto Lei nº 387/99, de 3 de Setembro), representa uma nova concepção na luta contra o analfabetismo, lutando pela formação de recursos humanos e promovendo a educação ao longo da vida de grupos de cidadãos mais afectados pela exclusão social. A experiência adquirida esteve na origem do reconhecimento das competências profissionais da população sujeita a estes cursos, através da criação de Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, que assinalam a importância crescente assumida na UE no reconhecimento de competeência e na formação ao longo da vida. Recordamos, no entanto, que a frequência escolar, nos diversos subsistemas de ensino, tem os seus reflexos ao nível do sistema económico e social, sendo um bom indicador do processo de desenvolvimento económico de um país, uma vez que a sua expansão, sob diferentes formas de “iletracia”, compromete um dos direitos fundamentais do cidadão, que é o direito à educação, promotor do desenvolvimento humano e do processo de desenvolvimento socioeconómico. Pelo seu interesse, transcrevemos do INE (2002, LXVIII) os resultados finais obtidos no recenseamento da população em 2001: · “Em 2001, Portugal registou uma taxa de analfabetismo inferior à de 1991, redução que se observou em todas as NUTSIII. · A taxa de analfabetismo das mulheres era substancialmente superior à dos homens, em ambos os momentos censitários: em 1991, as taxas situaram-se em 7,7%, Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 214 · · para os homens, e em 14,1%, para as mulheres, baixando, em 2001, para 6,3% e 11,5%, respectivamente. Esta diferença deve-se, sobretudo, à maior proporção de mulheres idosas. Em 2001, verificou-se uma grande amplitude nas taxas de analfabetismo, cujos valores variaram entre os 5,3%, na Grande Lisboa e no Grande Porto, e os 19,8%, no Pinhal Interior Sul (mais do dobro do valor nacional). As taxas mais elevadas concentraram-se no Alentejo e interior da região Centro, onde, ainda assim, a melhoria foi mais evidente. Ao contrário, foi junto da faixa litoral, a norte da Península de Setúbal (com excepção do Minho-Lima), que se registaram as taxas de menor valor”. Inovação A inovação anda associada à mudança, à produção e ao aperfeiçoamento, termos que, segundo Glatter (1992, p. 144), são demasiado ambíguos, com conotações técnicas e políticas, dado que “a maior parte das tentativas de mudança e de inovação estão associadas a determinados valores”. Trata-se de um conceito, frequentemente utilizado em ciências sociais, nomeadamente em Geografia, Economia e pela Sociologia, em que a inovação surge associada a processos de difusão territorial, ou cultural, “aos membros de um sistema social” (MENDRAS, FORSÉ, 1983, p. 74), através de determinados canais e seguindo um calendário variável. A este respeito, podemos referir o exemplo de Frank (1976, p. 6-7), considerando a “aculturação do processo de desenvolvimento”, levado a cabo pelo “Ocidente (considerado aqui como a comunidade atlântica dos países desenvolvidos e suas ramificações ultramarinas), difunde conhecimento, especializações, organização, valores, tecnologia e capital para uma nação pobre (…)”. Como assinala Holmes (1983, p. 12), “os países europeus introduziram nos territórios coloniais certos aspectos dos seus próprios sistemas de ensino”, reproduzindo, nestes países, os modelos tradicionais vigentes na Europa. Convenhamos, no entanto, que “a explosão do saber e a aplicação de novos conhecimentos vieram a pôr em causa os conteúdos e o modelo tradicional” (Loc. cit.), dando lugar ao cumprimento de novas funções desempenhadas pela escola e a alterações pedagógicas e institucionais dos sistemas educativos agora associados a factores diversos, de natureza retrospectiva e prospectiva, mas sempre ligados a processos de mudança social. Geralmente, estes têm por base uma alteração, moderada ou mais radical, dos modelos e programas de formação, dos contextos e das aprendizagens escolares contempladas em programas de acção e de renovação social ou pedagógica. Nestas circunstâncias, a “acção” educativa, em sala de aula ou a nível da decisão, deve considerar a inovação como uma preocupação constante, em resultado quer da evolução da própria sociedade quer dos movimentos culturais que têm acompanhado as grandes transformações sociais e políticas, nomeadamente no domínio da educação. Esta evolução manifesta-se ao nível das concepções do homem, das finalidades e dos métodos da educação, da formação dos docentes, das aprendizagens dos alunos e da gestão dos sistemas de ensino. Este tema foi aprofundado por Correia (1989, p. 25), que, com base em estudos de outros autores, afirma que o “processo de inovação é um factor de produtividade e é por isso que é necessário favorecê-lo e encorajá-lo constantemente”. Mais ainda (Op. cit., p. 31), “a inovação é Jorge Carvalho Arroteia 215 uma mudança deliberada e conscientemente assumida (o que exclui do seu campo as mudanças produzidas pela evolução ‘natural’ do sistema), visando objectivos bem precisos: a melhoria do sistema e o aumento da sua eficácia no cumprimento dos seus objectivos (o que exclui do seu campo as práticas que transgridem a margem de tolerância do sistema). A inovação é, pois, um processo planificado, prosseguindo objectivos compatíveis com os do sistema”. Assim, se aceitarmos como objectivo essencial da escola (e do sistema de ensino português) a inovação, baseada na promoção do desenvolvimento humano, pensamos, à semelhança do que escreveu Loureiro (1985, p. 19),”que tal mudança é uma questão política e uma questão pedagógica e por isso as estratégias respectivas devem ser cumulativamente políticas e pedagógicas”. Estratégia política que passará, necessariamente, pela redefinição clara dos objectivos e das metas a atingir pelo sistema educativo português nas próximas décadas; estratégia pedagógica assente na melhoria objectiva das condições institucionais e na formação permanente dos agentes educativos de forma a concretizar-se a tão almejada democratização do ensino, o desenvolvimento humano dos alunos e a promoção do sucesso educativo. Resta-nos, finalmente, inserir uma última alternativa: a inclusão de uma estratégia administrativa e organizacional que favoreça uma acrescida descentralização administrativa e a autonomia institucional, promovendo, assim, um maior empenhamento individual e colectivo nas tarefas educacionais. As referências anteriores corroboram a importância que Sallan (1996, p. 316) atribui à melhoria das escolas, dependente esta quer de condições materiais relativas ao seu funcionamento, quer de variáveis organizacionais, de estratégias de mudança e também dos resultados. Tal perspectiva permite integrar os diferentes pressupostos da administração educativa através da manutenção das componentes estruturais básicas ao nível do sistema de decisão (por via das políticas), quer do sistema operativo consubstanciado nos resultados imediatos de uma reforma educativa. Como observa Pardal (1996, p. 20), “inovação educacional não identifica a reforma no sistema educativo nem a mudança no mesmo. Uma reforma pode ser, ou não, inovadora; do mesmo modo, uma mudança”. A este respeito, Sarmento (1997, p. 348), recorrendo ao contributo de diversos autores, afirma que, “em Portugal, a reforma educativa tem sido predominantemente analisada como produtora de formas decretadas de inovação, projectadas, de cima para baixo, sobre os professores e outros actores do campo educativo, com efeitos desqualificadores que são, em última análise, contraditórios com as proclamadas intenções de mudança”. Daí que afirme este autor (Op. cit., p. 347): “inovação e mudança, quando produzidas de cima para baixo (…), têm como efeitos, entre outros, a separação entre as instâncias de decisão e de execução das ‘reformas’, a desqualificação dos saberes implicados na prática dos professores, a intensificação do seu trabalho e, em última análise, o desapossamento dos meios de autocontrolo profissional”. Estas considerações reafirmam a acção de um conjunto de factores, nomeadamente os que se relacionam com a política educativa e com o seu contributo na construção das políticas de inovação. Assim, de acordo com Paul (1999, p. 143), “se se admite que a elevação do nível de educação é uma condição para o desenvolvimento das actividades de inovação, esta situação é insuficiente para garantir um crescimento económico baseado na inovação.” Tal facto resulta, de acordo com este autor (Loc. cit.), da necessidade de se ter em conta todo 216 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos o sistema de inovação, “do qual o sistema educativo não é senão um dos seus componentes, e, por outro lado, é preciso que as inovações técnicas possam ser acompanhadas de inovações organizacionais no trabalho”. Trata-se de um desafio muito forte que exige a participação, conjunta, de economistas, sociólogos e pedagogos (Loc. cit.), colaboração pouco usual na competição entre as “elites” que constituem a nossa sociedade. Mais ainda, de acordo com um estudo da OCDE (1987, p. 15), sobre o papel da educação no desenvolvimento socioeconómico, dá-se, como exemplo, a inovação do processo de cooperação entre as universidades e as empresas, uma vez que “não só a competência e funções tradicionais das universidades se modificam, como também a sua investigação e participação na produção de bens e serviços são afectadas”, dando origem a modelos inovadores neste tipo de relação. Para finalizar, diremos que o cumprimento destas tarefas e a sua aplicação no domínio da política educativa devem atender, cada vez mais, ao equilíbrio entre os sistemas sociais e educativos e aos desafios que ora se levantam, resultantes do ajustamento entre as necessidades de crescimento e de desenvolvimento económico; a procura crescente da educação e a promoção das igualdades de acesso; a explosão do conhecimento e a natureza dos recursos disponíveis; a harmonia entre a quantidade e a qualidade do ensino, que deverá beneficiar todos os estratos etários e sociais da população portuguesa. Cremos, desta forma, ser possível concretizar algumas das propostas de mudança necessárias à afirmação do nosso sistema educativo, sobretudo no contexto europeu onde nos inserimos. Pelo seu interesse, e tendo em conta a importância atribuída ao ensino superior nos processos de desenvolvimento e inovação da sociedade portuguesa, transcrevemos dos resultados finais do recenseamento de 2001 (INE, 2002, LXX e LXXI) as notas relativas à proporção da população com o ensino superior e à sua variação em relação ao decénio seguinte: · “Em 2001, a proporção da população portuguesa com 21 ou mais anos que tinha completado o ensino superior mais do que duplicou relativamente a 1991, situação que se estende a todas as regiões. · Grande Porto, Baixo Mondego e Grande Lisboa concentravam as maiores proporções de população que completou o ensino superior, com valores que oscilavam entre os 10,8% e os 15,1%. Foi igualmente nestas NUTIII, conjuntamente com a Península de Setúbal, que se verificaram os aumentos mais acentuados entre os dois momentos censitários. · Por outro lado, as proporções mais reduzidas observaram-se no Tâmega e Pinhal Interior (Norte e Sul), que registaram, paralelamente, as menores variações”. Os dados acima referidos podem ser completados com a distribuição pelas áreas de estudo do ensino superior, em 2001, a qual permite concluir, de acordo com a mesma fonte (INE, 2002, LXXI): · “Em 2001, a maior parte da população que completou o ensino superior optou pelas áreas “Comércio e administração” e “Saúde”. De referir, ainda, as elevadas proporções de indivíduos que completaram os cursos universitários nas áreas “Formação de professores e ciências da educação” e “Letras e ciências religiosas”. · A relação de masculinidade da população com o ensino superior foi de 72 homens por 100 mulheres, valor bastante inferior ao observado em 1991 (de 113), reflectindo a forte entrada de mulheres no ensino superior. Jorge Carvalho Arroteia · 217 Os homens completaram cursos superiores sobretudo nas áreas “Engenharia e técnicas afins” e “Comércio e administração”, enquanto as mulheres preferiram as áreas “Formação de professores e ciências da educação”, “Letras e ciências religiosas” e “Saúde”. Se devidamente interpretados e associados a outros indicadores, estes podem ajudar-nos a compreender alguns dos aspectos relacionados com as perspectivas de inovação e mudança na sociedade portuguesa. Organismos internacionais O desenvolvimento das políticas educativas nacionais tem vindo a seguir, sobretudo a partir da segunda metade de Novecentos, um conjunto de preocupações e orientações expressas por diferentes organismos internacionais. De facto, importa salientar como a acção das organizações oficiais, responsáveis pela política educativa nos diferentes países, interactuam não só com “os seus meios locais, mas também em arenas mais amplas de relações e forças situadas a níveis supra-organizacionais” (ESTEVÃO, 1997, p. 500). No contexto actual da União Europeia, estas acções são anteriores à constituição da Comunidade Económica Europeia e ao emergir das preocupações com a educação e a formação dos recursos humanos no seio da actual UE25. De facto, o processo de reconstrução da Europa, no termo do segundo conflito armado, iniciado com o Plano Marshall (1947) e pela assinatura do Tratado de Roma (1957), permitiu lançar as bases para uma cooperação económica e social entre os países fundadores, alargando-se mais tarde, e em datas distintas, aos demais países europeus. Recorde-se, que em 1949, foi criado o COMECON – Mercado Comum dos Países de Leste, sob dominação soviética; na mesma data, foi ainda criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Embora obedecendo a projectos próprios, algumas iniciativas relacionadas com o rumo das políticas educativas na Europa foram influenciadas por estudos e reflexões produzidas por outros organismos internacionais que se constituíram anteriormente ou no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Destacamos os seguintes: BIE – Bureau International d’Éducation O mais antigo dos institutos que hoje fazem parte da UNESCO. Foi criado em 1925, em Genève, antes ainda da criação da ONU. Em 1969, é integrado na UNESCO. A sua actividade tem vindo a orientar-se para os aspectos relacionados com o desenvolvimento curricular, o planeamento e as reformas da educação, a literacia, a formação profissional e a utilização das TIC em educação. Para além destes domínios, o BIE tem vindo a dar particular atenção à reconstrução dos sistemas educativos em regiões de conflito armado ou na promoção da prevenção da AHIV/AIDS. ONU – Organização das Nações Unidas Criada, oficialmente, em 24 de Outubro de 1945, em São Francisco (Califórnia) – data da ratificação da Carta pelos 51 Estados-Membros fundadores – e, actualmente, sedeada em Nova Iorque. Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 220 A ONU tem como objectivo principal “unir todas as nações do mundo em prol da paz e do desenvolvimento, com base nos princípios de justiça, dignidade humana e bem-estar de todos”. Além deste, prossegue ainda os seguintes objectivos: · manter a paz no mundo; · fomentar relações amigáveis entre as nações; · trabalhar em conjunto para ajudar as pessoas a viverem melhor, eliminar a pobreza, a doença e o analfabetismo no mundo, acabar com a destruição do ambiente e incentivar o respeito pelos direitos e liberdades dos outros; · ajudar as nações a alcançarem estes objectivos”. Referem-se os seis princípios basilares relativos ao seu funcionamento: “· Todos os Estados-Membros gozam de igualdade soberana. · Todos os Estados-Membros devem obedecer à carta. · Os países devem tentar resolver os seus diferendos através de meios pacíficos. · Os países devem evitar utilizar a força ou ameaçar utilizar a força. As Nações Unidas não podem interferir nas questões internas de um país. · Os países deverão tentar dar toda a assistência à Organização”. Em 1959, foi aprovada a “Declaração dos direitos da criança” pela Assembleia-Geral das Nações Unidas. UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Oganization Fundada em 16 de Novembro de 1945 como agência especializada da ONU, para os domínios da educação, ciências naturais e sociais, cultura e comunicação, a UNESCO prossegue um objectivo fundamental: a construção da paz no espírito dos homens. A UNESCO promove a cooperação internacional entre os quase duzentos Estados-Membros que dela fazem parte e tem vindo a desenvolver acções diversas, relacionadas com a luta contra o terrorismo, apoio ao desenvolvimento sustentável, observância dos direitos humanos, luta contra a pobreza e exclusão social, promovendo diversas iniciativas e actividades nestes domínios. A UNESCO dispõe de um instituto especializado na área do planeamento da educação, o “Institut International de Planificatiom d’ Éducation” (IIPE), sedeado em Paris, cuja acção tem sido orientada, igualmente, para o desenvolvimento de diversos projectos internacionais e para a formação de quadros de educação de países membros, em particular os países em vias de desenvolvimento. CE – Conseil de l’Europe O Conselho da Europa foi criado em 1949, sendo uma das mais antigas organizações de natureza política na Europa. Agrupa 46 Estados-Membros, dos quais 21 localizados na Europa Central. Está sedeado em Strasbourg. O CE tem como principais objectivos: · “defender os direitos do homem e a democracia parlamentar e assegurar a primazia do Direito, Jorge Carvalho Arroteia · · 221 estabelecer acordos entre os países europeus no sentido de harmonizar práticas sociais e jurídicas dos Estados-Membros, favorecer a tomada de consciência da identidade europeia baseada em valores partilhados e ultrapassando as diferenças culturais”. Em termos de realizações concretas, o C.E. aprovou cerca de duas centenas de Convenções e Tratados europeus, que têm força de Lei, muitos deles abertos a Estados não membros, sobre questões relacionadas com os Direitos do Homem, a luta contra o crime organizado, a prevenção e segurança, a luta contra a violência, a protecção de dados, a cooperação cultural, o ambiente, a educação e a cultura. Tem, ainda, aprovadas Recomendações aos Governos, definindo os princípios orientadores em matéria de Direito, Saúde, Médias, Educação, Cultura e Desporto. OCDE – Organisation de Coopération et de Développement Economiques Criada em 14 de Dezembro de 1960, e à qual Portugal aderiu em 1961, esta organização internacional conta com três dezenas de Estados-Membros. No seu âmbito, foi criado, em 1960, o CERI (Centro para a Investigação e Inovação no Ensino), promotor de diversos trabalhos relacionados com a avaliação e políticas de ensino. Para além da análise dos aspectos inerentes ao desenvolvimento económico, social e educacional dos países membros, a OCDE tem vindo a distinguir-se pelos estudos relacionados com as políticas de educação nos Estados-Membros e sua relação com as mudanças sociais e o crescimento económico. As grandes preocupações deste organismo internacional prendem-se com as reformas do ensino, conducentes à melhoria da qualidade em educação e à formação ao longo da vida. Daí a publicação periódica de análises às políticas de educação nos Estados-Membros e de outros volumes consagrados a diversos temas de ensino e formação, de investigação ou relacionados com os recursos humanos e da sua articulação com as grandes opções, estratégicas e de desenvolvimento, tomadas pelos Estados-Membros. UE – União Europeia A história da UE remonta à segunda metade de Novecentos, aquando da instituição, em 1951, da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), e particularmente a 1957, a quando da assinatura do Tratado de Roma e da constituição da Comunidade Económica Europeia, com objectivos comuns de criação de um “mercado comum” entre os seis países fundadores: Alemanha Ocidental, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos. Sujeita a diversos processos de alargamento, nos quais se conta a adesão de Portugal, em 1986, e à ampliação das áreas de cooperação entre os Estados-Membros, o interesse da EU pelas questões da educação e formação só ficou registada vinte anos depois da fundação da Comunidade, aquando da realização, em Outubro de 1972, da Cimeira de Paris, e do levantamento das áreas de cooperação em matéria de educação (CARRAJO, 1996, p. 33). Desde essa data, foram desenvolvidas diversas iniciativas comunitárias no âmbito da cooperação nas áreas da educação e da formação. Por sua vez, com a assinatura do “Tratado de Maastricht” (1992), firmado pelos 12 países que então formavam a C.E.E., e com a apresentação de um texto de Constituição da EU, que 222 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos deu atenção (artos III-280, III-282 e III-283) às questões da cultura, da educação e desporto e da formação profissional. As preocupações aí expressas dão seguimento ao lançamento de anteriores iniciativas europeias nos domínios da educação e da formação, consignando o texto preliminar da Constituição Europeia, no seu artigo III-282, o seguinte: “1. A União contribui para o desenvolvimento de uma educação de qualidade, encorajando a cooperação entre Estados-Membros e, se necessário, apoiando e completando a sua acção. Respeita plenamente a responsabilidade dos Estados-Membros quanto ao conteúdo do ensino e organização do sistema educativo, assim como a diversidade cultural e linguística. (…) A acção da União visa: a) desenvolver a dimensão europeia da educação, nomeadamente através da aprendizagem e difusão das línguas dos Estados-Membros; b) favorecer a mobilidade dos estudantes e dos professores, encorajando o reconhecimento académico dos diplomas e de ciclos de estudos; c) promover a cooperação entre estabelecimentos de ensino; d) desenvolver a troca de informações e de experiências sobre as questões comuns aos sistemas educativos dos Estados-Membros; e) favorecer a troca de experiências entre jovens e animadores sócio-educativos e encorajar a participação de jovens na vida democrática da Europa; f) encorajar o desenvolvimento da educação à distância; (…) 2. A União e os Estados-Membros favorecem a cooperação com países terceiros e organizações internacionais competentes em matéria de educação e do desporto, em particular com o Conselho da Europa”. (…). Estes são alguns dos assuntos relacionados com as acções dos organismos internacionais e com os seus reflexos na construção das políticas educativas, em Portugal e noutros países. Organização escolar A análise das organizações escolares pressupõe o conhecimento global das organizações sociais formais, entendidas, globalmente, como “grupos deliberadamente organizados, relativamente duradouros, que operam consoante um conjunto de regras em busca de certas metas” (HORTON, HUNT, 1980, p. 200). Trata-se, portanto, de organizações burocráticas, marcadas pela organização e estrutura da autoridade, pela centralização e controlo das tomadas de decisão e poder, pelo desempenho funcional dos seus membros e pela circulação hierárquica do comando e informação. De acordo com Estevão (1996, p. 212), as organizações “são definidas fundamentalmente como ‘sistemas políticos’ (…), como ‘contextos sociais atravessados por relações de poder(…), como ‘arenas políticas’ que albergam uma variedade complexa de indivíduos e de grupos; elas são ‘coligações de interesses’ que têm diferentes metas, valores, crenças e percepções da realidade, onde se intersectam, na luta pelo poder, racionalidades plurais que destroem, por seu turno, o mito da racionalidade do modelo ‘one best way’”. Como assinala Lima (1991, p. 36), “o desenvolvimento da escola como organização especializada, separada da Igreja e controlada pelo Estado, carrega uma longa história, rica de significados. (…). E, contudo, a escola constitui um empreendimento humano, uma organização histórica, política e culturalmente marcada”. De facto, a satisfação das necessidades sociais da população escolar só é possível mediante a adopção de um determinado modelo de organização social, que não deixa de se traduzir no desempenho das “funções colectivas e estratificadas” que são desempenhadas pela instituição escolar. Daí que a articulação necessária, entre os órgãos que a compõem, seja fundamental para o desenvolvimento da consciência de grupo, da solidariedade e da interdependência entre os diversos membros que favoreçam a prossecução de um certo número de objectivos comuns que concorrem para o bom funcionamento do sistema. Recorde-se que o funcionamento desta unidade obedece a certos condicionalismos que afectam os sistemas educativos, entidades complexas cujo funcionamento está dependente não só das grandes orientações e opções do sistema político, mas também de outros sistemas, como o económico, o demográfico e o administrativo. É este o entendimento de D’Hainaut (1980), que aponta a dependência destes não só do contexto sócio-cultural e do contexto histórico, determinantes para o estabelecimento das diversas orientações de política educativa, mas também do quadro filosófico, ético e religioso e do próprio quadro físico e geográfico. Daí que, como assinala Lima (1991, p. 52), “os discursos políticos não deixam (…), de se apropriar de certos sentidos da palavra organização em relação à escola, em detrimento de outros – seja considerando a palavra como unidade social ou simplesmente como actividade 224 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos ou acto de organizar; seja atribuindo-lhe significados de um certo potencial de autonomia ou, pelo contrário, acentuando uma conotação de controlo; seja, ainda, insistindo em diferentes significados de racionalidade, por referência ou por omissão”. Tendo presente o contexto europeu, onde se insere a situação de Portugal, importa assinalar que a “estrutura do modelo escolar” tem vindo a sofrer uma profunda evolução, que, de acordo com Mendes (2000, p. 326-330), passou, de uma primeira fase (séculos XII a XVIII), da afirmação escolar “debaixo da influência tutelar da igreja (…) através de acções concretas protagonizadas por congregações religiosas, merecendo um destaque particular os jesuítas” (Op.cit., p. 326), à afirmação progressiva do Estado, durante o séc. XVIII ou das “Luzes”, no âmbito de “um movimento social, económico e político que, associado à emergência dos Estados-Nação, vai transformar a escola num instrumento privilegiado e central do processo de construção da identidade nacional através da socialização e uniformização cultural (…)” (Op. cit., p. 328). Nos séculos seguintes (XIX e XX), com a afirmação do Estado, a construção da escola de massas “surge umbilicalmente associada ao modelo cultural do Estado-Nação”. Assim, prossegue o mesmo autor (Op. cit., p. 330), afirmando que a “escola de massas” acaba por consolidar formas e modelos de organização escolar, quer os mais estritamente pedagógicos, quer outros de alcance mais administrativo. Sobre as características organizacionais que “enformam a nossa representação colectiva do modelo de ensino escolar” (Op. cit., p. 330-331), assinala este autor: “alunos agrupados em classes graduadas (anos, turmas), com uma composição homogénea etária e/ou académica) e um mínimo de efectivos pouco variável; professores actuando numa base individual, assumindo-se como generalistas no caso do ensino primário ou como especialistas no do ensino secundário; espaços estruturados de acção escolar, induzindo uma pedagogia centrada, essencialmente, na sala de aula; horários escolares estabelecidos com rigor, o que instaura uma prática de controlo social do tempo escolar; saberes escolares organizados em disciplinas, que são as unidades estruturantes do ensino e do trabalho pedagógico”. É neste modelo que se inscrevem as mudanças relacionadas com a organização interna da escola, nos seus diferentes níveis e ao longo do tempo, e as estruturas diferenciadas de gestão administrativa e pedagógica, ao nível do estabelecimento escolar e nas suas relações com o poder central. Se tomarmos como exemplo a organização escolar, a sua análise pode, de acordo com Lima (1991, p. 149), orientar-se de forma distinta: · “uma análise organizacional da escola exclusivamente centrada nestas estruturas configurará um tipo específico de focalização que designaremos por focalização normativa, mais dependente do estudo do que deve ser (do ponto de vista da administração central), do que propriamente daquilo que os actores possam entender que deve ser e, ainda, daquilo que é (…). · o estudo sociológico das organizações, não desprezando embora a perspectiva atrás referida, concentra-se predominantemente no plano da acção organizacional e, no que ao plano das orientações diz respeito, focaliza sobretudo outro tipo de estruturas e de regras, menos visíveis”. Jorge Carvalho Arroteia 225 Organograma De acordo com Costa (1990b, p. 11), o organograma “foi considerado como o instrumento privilegiado para a representação gráfica e esquemática da estrutura formal das organizações”. Por isso, é uma forma de representação gráfica da estrutura de Governo, de um sistema social, como o sistema educativo, das organizações escolares e de outras organizações sociais. De acordo com M. Boisvert (1985, p. 37), “o organograma, para além de facilitar a compreensão da distribuição das responsabilidades, permite pô-las em questão ao mesmo tempo que se interroga sobre a orientação geral dada pela forma da estrutura à tomada de decisão. Mas para ter uma ideia completa da geografia organizacional, é preciso que os postos identificados no organograma sejam acompanhados da ‘descrição de funções’”. Segundo o estudo de Costa (Op. cit., p. 17-20), podem coexistir quatro tipos de organogramas nas escolas de ensino público: “1. Organograma oficial: que decorre da análise exclusiva do seu quadro legal (…). 2. Organograma apercebido: consiste na representação que os vários membros de uma escola fazem da sua própria estrutura organizacional (…). 3. Organograma real: aquele que tem por base um estudo sistemático e metódico de análise organizacional (nomeadamente através da metodologia do ‘estudo de casos’), centrado na investigação sobre o funcionamento real e quotidiano de determinado estabelecimento (…). 4. Organograma necessário: (…) o organograma que a escola necessita para, de forma eficiente e eficaz, atingir os (“novos”) objectivos que se propõe (…)”. Havendo diferentes formas de o traçar, é comum que o organograma contemple diferente tipo de informação, relacionada com o total de serviços ou de departamentos e o modo como estes se relacionam e articulam entre si no sentido de garantir o funcionamento da organização. Como exemplo desta malha, cita-se o caso do Ministério da Educação, cuja estrutura orgânica integra, a par dos órgãos e dos serviços da administração directa, centrais e regionais, a rede de estabelecimentos públicos de educação pré-escolar e de ensino não superior. Administrador Sala do Expediente Secretariado Arquivo Sala do Correio CEFASI Pavilhão I Figura 2. Organigrama da Administração – U.A. Residência – 5 Bicas 226 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Esquematicamente, o organograma é constituído por uma malha de figuras geométricas, que representam os órgãos de acordo com uma determinada hierarquia, e por um conjunto de segmentos que os unem. A estrutura gráfica daqui resultante, de tipo vertical, radial, horizontal ou outra, destaca a partilha de poder e a relação entre os referidos órgãos. Por outro lado, deve permitir uma leitura clara e actual da organização. Como exemplo, transcreve-se um organigrama dos serviços de Administração da Universidade de Aveiro. Pedagogia social De acordo com Cabanas (1984, p. 122), a Pedagogia Social deve ser entendida como “a ciência da educação social do indivíduo, ou seja, a Pedagogia especial que estuda o modo de o formar de modo a que consiga alcançar uma boa adaptação social”. Trata-se, portanto, de uma “ciência prática, como outra modalidade da Pedagogia, mas duplamente prática, como pedagogia e como pedagogia aplicada” (CABANAS, 2000, p. 27). Nestas circunstâncias, as suas preocupações podem abarcar diferentes assuntos, tais como: “1) Estudo da natureza social do indivíduo. 2) Conceito e processo de socialização. 3) Natureza e fins da educação social: educação convivencial, educação cívica e política, formação de atitudes sociais. 4) Os meios de educação social: métodos gerais e especiais, métodos pedagógicos com dimensão social. 5) Grupos de trabalho e dinâmicas de grupo. 6) Casos de inadaptação social e de marginalização social. 7) Delinquência juvenil e reinserção social. 8) Sistemas pedagógicos inspirados em concepções sociológicas.” (CABANAS, 1984, p. 122). Por sua vez, Fermoso (1994, p. 21) considera que a pedagogia social “é a ciência prática social e educativa não formal que fundamenta, justifica e compreende a normatividade mais adequada para a prevenção, ajuda e reinserção dos que já padeceram ou padecem, ao longo da sua vida, de deficiências de socialização ou em relação à satisfação de necessidades básicas referidas nos direitos humanos”. A realidade social presente justifica algumas considerações suplementares a este respeito, tendo presente a matriz conceptual da pedagogia, entendida como “ciência, arte e técnica de ensinar”. Com efeito, a análise dos diferentes fenómenos sociais e educativos que, hoje, fazem parte da nossa preocupação como professores, investigadores e agentes promotores da mudança não pode deixar de considerar as profundas transformações operadas na sociedade, na família e na escola, como responsáveis por essas situações. Para tanto, têm contribuído diversos acontecimentos e inovações, que, no seu conjunto, marcam etapas progressivas do desenvolvimento técnico e tecnológico, do desenvolvimento social, económico e cultural, cujos efeitos se fazem sentir ao nível das organizações sociais e do indivíduo, do funcionamento das instituições sociais e do comportamento individual do cidadão, isoladamente e nas suas relações com os restantes membros da mesma comunidade. Todos reconhecemos como a evolução dos nossos dias transforma em efémero, amanhã, o que hoje consideramos como actual e é objecto das nossas preocupações imediatas. Pensar de outra forma é renegar a importância da evolução e do conhecimento humano, das suas aplicações práticas e do seu contributo para a evolução da sociedade. Contudo, ao analisarmos os muitos aspectos relativos à evolução e ao desenvolvimento social e cultural, 228 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos técnico e tecnológico, deparamo-nos com situações não resolvidas, que contrastam com a marcha, o tipo e a natureza dos fenómenos mais significativas da evolução e do desenvolvimento da nossa humanidade. Entre essas questões, relevam os aspectos relacionados com a nossa vivência como cidadãos e o nosso relacionamento com o outro, nomeadamente os grupos marginalizados e as questões ambientais. Não importa assinalar a natureza e os factos que comprovam a capacidade de inovação revelada por certos grupos sociais e que, hoje, são acessíveis a toda a população. A velocidade a que se propaga a informação, e com ela a inovação e a mudança, deixou há muito de acompanhar a marcha do homem, dos antigos veleiros, dos comboios a vapor e do próprio avião, para estar disponível quase de imediato, desafiando a velocidade do som. Tal significa que, apesar de o homem poder beneficiar de muitas das inovações técnicas e tecnológicas que hoje marcam a revolução termonuclear que atravessamos, mantém, na sua composição genética, a mesma arquitectura da dos nossos antepassados mais próximos, embora tenha desenvolvido capacidades inauditas, relacionadas com a inteligência, a abstracção e a capacidade de negociação, que importa assinalar. Por outras palavras, queremos dizer que, não obstante as mudanças operadas no seu ambiente físico, social e cultural, o homem mantém-se fiel à sua composição e estrutura orgânicas, continuando, por isso, a merecer os mesmos cuidados e atenção, a sofrer os mesmos efeitos e a carecer de idêntica atenção da dos nossos antepassados mais próximos. Este tipo de observação não desmerece a necessidade de uma contextualização da própria evolução da humanidade e das circunstâncias que, ao ditarem essa evolução, reorientam as nossas preocupações e a acção pedagógica e educativa. Por outras palavras, clamam a nossa atenção para questões que ultrapassam os muros da organização escolar e que reclamam um tipo de atenção e de intervenção relacionada com os problemas do mundo social e contemporâneo. Analisar a nossa intervenção, como professores e agentes de mudança na actualidade, obriga-nos a repensar a nossa actuação, como educadores, e a nossa responsabilidade social, enquanto membros deste grupo alargado, embora com tradições e práticas distintas, que habita o nosso país e região. Como cidadãos do mesmo espaço territorial e político, vivemos ao longo do nosso percurso formativo experiências distintas, que marcam a nossa personalidade, que condicionam os nossos projectos e que orientam o futuro profissional com que aspiramos. Para tanto, contribuíram diferentes condições familiares, escolares, culturais, económicas e outras. Relevante foi a formação escolar que recebemos assim como as heranças económica e cultural. Importante é a formação que adquirimos, as práticas que exercemos e os projectos que desenvolvemos. Não importa aqui recordá-los à exaustão. Apenas salientar que as heranças acompanham-nos e fazem-nos despertar para as diferenças que encontramos no nosso meio. Algumas delas, por serem demasiado contrastantes, reclamam a nossa atenção imediata, chamando-nos a intervir, não de forma violenta, mas tendo em atenção a diversidade do outro. Procuramos com a nossa acção alterar as condições que o cercam e contribuir para outro tipo de desempenho, individual e social. Pode até acontecer que queiramos, com a nossa acção, melhorar as condições em que se encontra o semelhante mais próximo, afastando-o de perigos ou de condições que podem pôr em causa o seu desenvolvimento humano, ou as condições mais nefastas da sua própria existência. Jorge Carvalho Arroteia 229 A transformação social, sem ser da responsabilidade exclusiva da escola, reclama, no entanto, a acção de outras instituições e organizações sociais, a quem damos o nosso contributo, sob a forma de “partenariado”, ou com as quais desenvolvemos projectos específicos, relacionados com uma acção educacional organizada, promotora do desenvolvimento local, ou seja, do “bem-estar social, indissociável de alguns padrões quantitativos, indicadores de qualidade de vida, mas que é essencialmente qualitativa”. Afirma, ainda, Canário (1995, p. 155): “integrando as dimensões económica, social, cultural e educativa, o desenvolvimento passa também pela existência de redes, formais e informais, de solidariedade, activas, cujos efeitos são visíveis em acções, iniciativas e projectos”. É esta a especificidade de intervenção do educador social, cujo âmbito de actuação não se limita, apenas, às instituições de natureza social e cultural, mas que vê o seu campo de acção alargado, podendo intervir sobre questões que, não sendo exclusivamente de natureza social, sobre estas exercem uma poderosa e grande influência. Precisando melhor, a acção educativa que este pode exercer em instituições de índole diferenciada pode ter a ver com questões distintas, relacionadas com o desenvolvimento social e cultural dos cidadãos, sobre as suas condições de vida ou de risco, mas também com as suas condições futuras quer sejam de natureza social, cultural, cívica ou mesmo de natureza ambiental. O desenvolvimento de projectos nos diversos domínios acima referidos chama a nossa atenção para a necessidade de uma educação cívica e especializada, que esteja atenta aos diversos domínios do social, muito para além da vivência das experiências escolares. É neste aspecto que o educador social exerce uma acção pedagógica intensa, orientada por princípios deontológicos e práticas profissionais que o distinguem dos demais trabalhadores sociais. A perspectiva que defendemos no âmbito desta acção pedagógica, centrada no homem e orientada para o social, dá relevo às iniciativas que favoreçam os aspectos mais amplos relacionados com o indivíduo em si, em particular os aspectos relacionados com a sua personalidade; com a sociedade, sobretudo no que respeita à socialização e, eventualmente, aos aspectos que se prendem com o exercício de uma actividade produtiva, ou seja, com a capacitação individual. Outros domínios reclamam uma acção pedagógica que cabe no âmbito de uma intervenção social. Contudo, tendo presente o complemento de formação pelo qual pugnamos no desenho do perfil do educador social, o qual deve ter por base uma formação específica no domínio da educação (educação de infância ou educação básica), parece-nos que a sua acção deve completar funções a desempenhar pela escola, completando-as sempre que necessário. De facto, como nota Caride (2005, p. 261), as políticas sociais e culturais onde se pode inscrever esta acção contempla “os problemas de inadaptação e de marginalização social, a educação de adultos e o desenvolvimento comunitário, a promoção e a animação sociocultural, o ócio e o tempo livre, a formação e a inserção laboral, etc.”. O método de trabalho centra-se, neste caso, numa intervenção direccionada para o indivíduo e o seu grupo, fortalecendo as suas relações sociais e o desenvolvimento de projectos específicos que possam envolver diferentes interessados e actores. Centrado na acção, sobretudo na acção educativa, o trabalho assim desenvolvido será acompanhado de uma pesquisa continuada em que se procurará, em função de um esquema previamente delineado, melhorar e corrigir, pela acção, os aspectos recolhidos por uma investigação previamente estabelecida. Aproximamo-nos 230 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos assim de um método conhecido de “investigação-acção”, centrado em actividades colectivas, mas concentradas no indivíduo, ou grupo de indivíduos que carecem de maior atenção, que Caride (2005, p. 69) designa por “acção-intervenção social”. Trata-se de uma metodologia utilizada em pedagogia social, nos seus grandes domínios de intervenção, tais como a animação sociocultural, a educação especializada, a educação de adultos e educação (ou formação) laboral. Consequentemente a estas modalidades de investigação, podemos utilizar diferentes formas de intervenção e de mediação, de forma a alcançar dinâmicas sociais de socialização e aprendizagem entre os indivíduos que participam nestas iniciativas e definir domínios específicos de uma acção educativa, exercida fora da instituição escolar, mas com ela intimamente relacionada, dirigida para diversos grupos e estratos sociais. Podemos eleger distintos temas que requerem uma acção orientada para pais, grupos sociais distintos e comunidades alargadas. Contudo, não podemos deixar de acompanhar as preocupações e os problemas que nos cercam e que exigem uma atitude cívica e de acção concreta por parte de alguns de nós. Pelo seu interesse, recordamos a necessidade dos diferentes projectos de intervenção se estruturarem em torno de acções que valorizem a criação de “comunidades de aprendizagem” (AZEVEDO, 2006) e na utilização de técnicas inovadoras de mediação, neste caso “mediação da aprendizagem” (Op. cit., p. 56), as quais, de acordo com este autor (Loc. cit.), permitem “romper com os fechamentos pessoais e de grupos”, reunindo, por conseguinte, as vantagens seguintes: · “valoriza os sujeitos da acção e se torna próximo deles: os seus problemas, as suas histórias, as suas esperanças; · faz face à guetização instalada na administração dos serviços pessoais existentes na própria comunidade, públicos e privados; · gera cooperação entre pessoas, iniciativas e instituições, partindo do quanto já existe de solidariedade e de trabalho em rede; · apoia itinerários pessoais e de aprendizagem e dinâmicas de aprendizagem cooperativa de pequenos grupos”. De acordo com a experiência recolhida no Projecto “Trofa Comunidade de Aprendentes”, Azevedo (Op. cit., p. 57) aponta os aspectos favoráveis relacionados com a acção dos “mediadores de aprendizagem”, vistos como: · sujeitos vocacionados para as actividades de relação, de comunicação e de proximidade humana; · agentes de desenvolvimento pessoal e comunitário; · técnicos aptos a informar, aconselhar, encaminhar e acompanhar itinerários de aprendizagem, pessoais e colectivos; · técnicos preparados para fazer a ponte entre as pessoas, entre as instituições, entre as iniciativas de aprendizagem”. Recordar alguns dos assuntos que, hoje, preenchem a agenda dos professores, dos pedagogos, dos decisores e dos cidadãos não é tarefa simples. Basta evocar o nosso relacionamento com o meio físico e social onde habitamos; pensar nos contrastes que nos cercam e nos procedimentos distintos dos que nos rodeiam. Não podemos inventariar todos Jorge Carvalho Arroteia 231 os assuntos que exigem uma atenção redobrada da nossa parte, como cidadãos e, sobretudo, como responsáveis pela formação de grupos de cidadãos que nos são confiados. Já anteriormente atendemos às questões próximas da nossa experiência e vivência cívica e ambiental. Dois temas que emergem do nosso relacionamento com o outro e do respeito que temos da herança natural comum que nos rodeia e que pretendemos transmitir aos vindouros. Dois temas que exigem habilidades e intervenções diferenciadas, assentes no respeito pela individualidade de cada um, na sua diferença, mas evocando a necessidade do despertar de uma “consciência colectiva” em torno das grandes questões que hoje afligem a humanidade. Aspectos relacionados com o nosso comprometimento, em relação ao passado ou à nossa acção futura, fazem parte dos temas desta nossa reflexão, que, pela pertinência do tema, oportunidade do seu tratamento, contexto em que é referido e perspectivas em que pode ser analisado, merece o nosso reconhecimento e atenção. As preocupações acima referidas têm vindo a ser evocadas por uma nova ciência da educação, a “Pedagogia Social” – com origem na Alemanha, quando este país, sujeito a profundas transformações sociais, económicas e políticas, decorrentes do processo de revolução industrial em curso – defendida por Natorp (1898), ao realçar, no seu livro sobre “Pedagogia Social”, que “as condições sociais da educação e as condições da educação na vida social estão estreitamente unidas, formando o tema da pedagogia social” (AZEVEDO, 2006, p. 8). Trata-se de uma preocupação que, a partir de então, vai ter os seus defensores e distintas orientações. Assim, no contexto gaulês, esta ciência, “éducation sociale”, está muito orientada para a animação e intervenção comunitária, a educação de adultos e a formação laboral. Em Inglaterra, a pedagogia social está ligada ao trabalho e serviço social, e em Espanha, tendo adoptado a designação germânica, tem vindo a aprofundar a sua orientação na área da socialização dos indivíduos, jovens e adultos, com dificuldades neste domínio, e da sua integração social. Em Portugal, as preocupações sobre esta matéria têm vindo a seguir diferentes orientações, consoante a matriz das escolas, universitárias e politécnicas, de natureza pública e não pública, que oferecem formação nesta área. Assim, para Azevedo (Op. cit., p. 10), a Pedagogia social, inscrita na área científica das ciências sociais, “corresponde a uma ciência da educação que tem como objecto formal a fundamentação, justificação e compreensão da prática educativa desenvolvida em contexto social”. Por isso, em termos de objecto material, diz este autor (Loc. cit.): “obriga a considerar uma pluralidade de dimensões de actuação, de acordo com as exigências de educação e formação das pessoas e das comunidades”. Portanto, “entre estas dimensões, situa-se, obrigatoriamente, a educação social, mas também a animação sócio-cultural, a educação infantil e de adultos, a formação laboral e ocupacional, a educação para a saúde e para o consumo, a dimensão educativa dos meios de comunicação social, a educação parental e tantas outras” (Loc. cit.). Defende, ainda, o mesmo autor (Op. cit., p. 11) que a “pedagogia social surge-nos assim como o saber científico capaz de dar coerência conceptual a uma pluralidade e diversidade de práticas educativas”, assentes em diferentes saberes, que Azevedo (Op. cit., p. 13) enuncia: “a) saber matricial de todas as práticas pedagógicas desenvolvidas em contexto social, formais e informais (…). b) saber teórico-prático, alimentado pelo contributo de uma diversidade de disciplinas, segundo uma perspectiva integrada e integradora (…). Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 232 c) saber estratégico, orientado para a intervenção, para a procura intencional de mudanças positivas e, nessa medida, enformado pela esperança e pela crença na novidade do tempo (…) d) saber histórico, implicado enquanto tal na resposta aos imperativos de desenvolvimento, definidos num determinado espaço democrático e, obrigatoriamente, atento às situações de urgência social (…). e) Saber ético e estético, um saber axiologicamente comprometido com a beleza moral, de acordo com uma concepção de desenvolvimento humano, assente no reconhecimento da alteridade absoluta, testemunhada por cada ser humano enquanto sujeito de unicidade, isto é, enquanto ser com ‘direito ao rosto’ (…)”. Acção pedagógica Complementarmente à acção educativa, a acção pedagógica, centrada no desenvolvimento de actividades educacionais coordenadas ou em articulação com a escola, constitui uma tarefa que pode ganhar diferentes contornos e formas de expressão, consoante o público e a natureza das acções a desenvolver. De qualquer modo, estas correspondem a processos de aprendizagem, de produção de saberes assentes em actividades diversas, mas baseadas, fundamentalmente, na socialização, na mediação e em realizações que incluam uma acção coordenadora da escola, direccionada para a educação familiar, a educação comunitária e o desenvolvimento local, através de diferentes iniciativas educativas, de natureza formal e não formal. De acordo com Canário (1995, p. 154), a escola é uma das organizações que tem de coordenar esforços entre si, se quiser alcançar objectivos relacionados com o partenariado e o desenvolvimenrto comunitário. De facto, “o papel da escola é visto como central, pois é nela que as necessidades das crianças e famílias podem ser identificadas e encaminhadas”, uma vez que “as famílias não são encaradas como clientes da escola, mas como os seus principais parceiros”. Neste sentido, prossegue a autora ((Loc. cit.), afirmando que “o cerne do partenariado é o maior poder de decisão das famílias e das crianças, o que pressupõe um grau bastante elevado de autonomia dos organismos locais, escola incluída, para que possa negociar os objectivos locais e os meios de financiamento”. Tendo em conta a experiência recolhida no decurso da sua investigação, Ferreira (2005, p. 414) defende a criação de “dinâmicas de animação comunitária e de desenvolvimento local como processos educativos globalizados e emancipatórios”, assentes em diferentes contextos e modalidades educativas. Para tanto, prossegue o mesmo autor (Op. cit., p. 421) ser a animação a palavra-chave deste sucesso, ou seja, “através de uma intervenção educativa globalizada e participada, a animação desempenha um papel importante na elevação da auto-estima colectiva relativamente a um território e à sua história e património cultural e ambiental e na criação de uma vontade colectiva de mudança”. O exemplo de articulação entre a escola e outras entidades é-nos dado através da realização de diferentes tipos de iniciativas, entre as quais se destacam os “projectos sociais”, orientados para a população em idade escolar, tais como os menores abandonados, a delinquência juvenil, a integração dos jovens no mercado de trabalho, e muitos outros que tendem a reduzir os efeitos da exclusão social a que são votados alguns grupos funcionais, em idade ou já fora de idade de escolarização. Neste caso, a acção pedagógica pode ser direccionada para a vasta Jorge Carvalho Arroteia 233 população jovem, afectada por “comportamentos desviantes, relativamente ao corpo de normas estabelecidas e aos padrões culturais dominantes” (MARTINS, 1993, p. 27). Na sua relação com a Pedagogia Social, a intervenção, sistematizada e orientada sobre a realidade social onde se quer intervir através da operacionalização de um determinado projecto social, pressupõe uma recolha de todos os dados relacionados com os problemas que afectam uma determinada população, implicando, por isso, uma análise cuidada das necessidades de intervenção sócio-educativa. Pela sua relevância, transcrevemos de Pérez-Campanero (1991, p. 37-38) as três fases fundamentais que compõem o modelo para a “Análise das Necessidades de Intervenção Sócio-educativa” (ANISE), defendidas por esta autora: a fase de reconhecimento, que parte da identificação das situações que geram a intervenção sócio-educativa e que culmina com a recolha dos instrumentos e das fontes de informação; a fase de diagnóstico, que, partindo do conhecimento de uma determinada realidade actual, identifica as suas causas e o problema; a fase de tomada de decisão, que estabelece as prioridades e propõe as soluções, “avaliando o custo, impacto e viabilidade” (Op. cit., p. 38). Trata-se de um percurso que implica etapas distintas e o envolvimento de diferentes actores, recursos e contributos disciplinares, que permitem ao ser humano distintas aprendizagens, baseadas na participação, descoberta e emancipação individual e colectiva. Inclusão social A inclusão social consiste na aceitação de um indivíduo ou grupo de indivíduos pelos grupos sociais dominantes, pela sociedade em geral ou pela escola, permitindo-lhe, desta forma, uma participação cívica plena e o gozo dos direitos fundamentais, nomeadamente o acesso e o sucesso escolar. Neste processo, é reconhecida a importância da participação em actividades de natureza educativa, promovidas, ou não, pela escola, como meio de aproximação entre a escola e o indivíduo. Contrariamente ao conceito oposto, o da exclusão, a inclusão social acompanha o fenómeno mais amplo de democratização social, sendo vivido de forma voluntária e expressando, no caso de populações diferentes, um elevado grau de socialização. E a CRP (artº 13) preconiza, para todos os cidadãos, “a mesma dignidade social” e igualdade perante a lei. De realçar que o desenvolvimento da educação, na actualidade, tem vindo a conferir-lhe um papel relevante na promoção do desenvolvimento humano e da inclusão social, através de acções específicas de luta contra a pobreza, da promoção dos valores universais de tolerância e de paz ou mesmo através do lançamento de programas concretos, orientados para a divulgação das novas tecnologias de informação e de comunicação. No seu conjunto, espera-se que tais medidas permitam atingir os grandes objectivos estabelecidos no âmbito dos programas universais relacionados com a democratização do ensino, tais como a “Educação para todos”. Tempo de lazer e animação Nas sociedades actuais, o tempo consagrado a outras actividades que não o desempenho de actividades profissionais tem vindo a aumentar e a alargar-se a diferentes grupos sociais. Trata-se de um fenómeno que tem vindo a acentuar-se depois do processo de industrialização, aumentando nas sociedades urbanas e de serviços em que vivemos. É, igualmente, um dos 234 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos direitos considerados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, que considera, no seu artº 24, que “toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres e, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas”. A importância dos tempos de ócio tem vindo a beneficiar o desenvolvimento de certas acções de natureza educacional, permitindo que os tempos de ócio venham a ser utilizados como tempos educativos. É o caso do aproveitamento de diferentes actividades desenvolvidas em exposições, conferências, visitas de estudo e em muitas actividades de campo, relacionadas com o ambiente, o património e o contacto com o meio natural. O aproveitamento do tempo de lazer recorre, assim, a actividades baseadas na intervenção social e na animação de natureza sociocultural, que permitem dar resposta a dificuldades de natureza pessoal e de desenvolvimento humano referidas pelos formandos. Estipula o artº 48 da LBSE que “as actividades curriculares dos diferentes níveis de ensino devem ser complementadas por acções orientadas para a formação integral e a realização pessoal dos educandos no sentido da utilização criativa e formativa dos seus tempos livres”. Ao apontar a existência de diversos objectivos e actividades, dentre elas o caso do desporto escolar, a LBSE (art. 48.4) encara a ocupação dos tempos livres como um espaço de formação e de cidadania, reconhecendo-lhe a missão de “valorizar a participação e o envolvimento das crianças e dos jovens na sua organização, desenvolvimento e avaliação”. Em todos os casos, a escola, para além da sua função educativa, desempenha uma função cultural, se entendida como um centro educativo aberto, podendo congregar em seu redor os membros da sociedade onde se insere. Planeamento O desenvolvimento do processo de planeamento toma, frequentemente, como referência o exemplo das ex-Repúblicas Socialistas onde os processos de crescimento económico eram consignados em documentos com duração fixa, em regra de cinco anos, que estabeleciam as metas e o “produto” resultante das acções relacionadas com o crescimento económico e social. De acordo com Pimpão (1995, p. 62), “neste sentido, o planeamento surge como o processo normal de afectação de recursos e a administração pública passa a coincidir com a própria actividade de planeamento”. Importa recordar que o planeamento económico foi inspirado nos planos quinquenais da URSS, que tiveram o seu início na década de vinte do século passado, com a preparação do 1º Plano Quinquenal, em 1923. Os princípios deste processo foram alargados à educação através de “planos directores”, de cumprimento obrigatório, que determinavam o financiamento, os objectivos e os resultados a atingir em termos de diplomados nos diversos níveis de ensino e da sua relação com as necessidades de mão-de-obra, determinadas pelo crescimento económico. Nas sociedades de tipo ocidental, o planeamento tem sido utilizado em economia, bem como nos processos de ordenamento físico e social do território e na administração pública, relacionados com a implantação de determinadas actividades e com a urbanização. Estes exemplos consideravam o estado de ocupação do território e as alterações que o poder central, ou os municípios, pretendiam modificar. Estas instruções eram reunidas em instrumentos de trabalho e de orientação estratégica, consignadas nos respectivos “planos”. De igual modo, o crescimento e complexificação crescentes da administração pública têm levado a uma valorização acrescida do processo de planeamento, considerado por Pacheco (1995, p. 33) como “a principal componente na dimensão estratégica da actuação da Administração Pública” e, como tal, com “reflexos na tomada de decisão em matérias de despesa pública”. De acordo com o mesmo autor (Op. cit., p. 35-36), “o processo de planeamento central em Portugal tem basicamente duas vertentes: o planeamento do esforço de desenvolvimento, elaborado num contexto intertemporal de médio/longo prazo, e o planeamento de curto prazo, que é a concretização do primeiro (…). Daqui resultam diferentes tipos de instrumentos, dos quais destaca este autor (Loc. cit.) os seguintes: · as grandes opções do plano de médio prazo; · o plano de médio prazo; · as grandes opções anuais; · o plano anual; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 236 · · o programa de investimentos e despesas de desenvolvimento da administração pública (PIDAC); o plano de desenvolvimento regional (PDR). Entre os exemplos mais antigos do planeamento em Portugal, citamos os Planos de Fomento (iniciados em 1953), através de versões distintas (1º Plano de Fomento: 1953-58; 2º Plano de Fomento: 1959-64; Plano Intercalar de Fomento: 1965-67; 3º Plano de Fomento: 1968-73; e 4º Plano de Fomento: 1974-79). Devido à revolução de 1974, este último não foi executado. O significado atribuído ao planeamento difere, quanto ao processo e ao produto, no sistema público e fora dele. Sobretudo no domínio empresarial, tem vindo a afirmar-se o planeamento estratégico, que pode ser entendido como um processo onde os objectivos, as estratégias, a execução e o respectivo controlo e avaliação são previamente definidos, embora com a possibilidade de ajustamentos e de resolução de estrangulamentos surgidos durante a sua execução, que permitem alcançar os objectivos inicialmente previstos. A grande vantagem deste processo reside na flexibilidade do mesmo, contrária à rigidez do planeamento tradicional. No domínio da educação, a construção das diferentes iniciativas e das reformas que acompanham as medidas de política educativa exigem, também, a identificação de um conjunto de objectivos, dos meios e dos instrumentos e o cumprimento de um conjunto de etapas que marcam a concepção, desenvolvimento e avaliação desses passos e medidas. Assim, o planeamento, que não só o planeamento económico e o territorial, exige uma visão “integrada”, a qual, de acordo com V. Oliveira (1975, p. 1-2), deve reunir quatro atributos: assumir um carácter sistémico, apresentar diferentes alternativas, proceder à avaliação das alternativas e ser considerado como um processo evolutivo, sujeito a “ajustamentos contínuos”. Esta é a noção de planeamento que privilegia os objectivos, os instrumentos de actuação e a participação pública como factores indispensáveis ao êxito, à coordenação das diferentes iniciativas e ao aproveitamento das sinergias e dinâmicas facilitadoras da participação activa e do desenvolvimento de projectos e de propostas facilitadoras da construção de uma identidade que se pretende melhorar. No domínio do planeamento educativo, a mobilização e a participação alargadas beneficiam não só os beneficiários directos do sistema educativo, em especial alunos e professores, mas também a sociedade em geral. As considerações anteriores corroboram o entendimento de Coombs (1970, p. 14), que considera o planeamento como um “processo contínuo”, envolvendo diversas fases e processos, que devem permitir satisfazer “da maneira mais eficaz as necessidades e os objectivos dos estudantes e da sociedade”. Neste sentido, este recorre a um conjunto de princípios orientadores da sua acção, em diversos domínios e áreas de formação, tais como a Ciência Política, a Economia, a Sociologia ou mesmo a Cibernética. O conhecimento dos princípios orientadores da estrutura e do funcionamento do sistema educativo requer, igualmente, o domínio dos diversos aspectos relacionados com a condução e aproveitamento dos seus recursos. Dada a especificidade do sistema educativo, justifica-se a atenção que se pode dar aos aspectos pedagógicos e à condução dos seus recursos humanos. Por isso, de acordo com Dacal (1986, p. 342-3), o planeamento deve ser antecedido por uma acção mais ampla e geral, a “planificação”, entendida como a “acção conducente à elaboração do plano, cientificamente organizado e, frequentemente, de grande amplitude, para Jorge Carvalho Arroteia 237 atingir um objectivo determinado”, e o “planeamento” como sendo a “ordenação dos elementos que constituem o plano, com vista à prossecução de determinados objectivos”. Assim, se aplicado ao contexto escolar e à realidade portuguesa, o “regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário” (Dec.-Lei nº 115-A/98, de 4 de Maio – artº 3) considera o “plano anual de actividades” como um instrumento do processo de autonomia das escolas, referindo-o como “o documento de planeamento, elaborado e aprovado pelos órgãos de administração e gestão da escola, que define, em função do projecto educativo, os objectivos, as formas de organização e de programação das actividades e que procede à identificação dos recursos envolvidos”. Planeamento da educação De acordo com o IIPE (1970), “o planeamento da educação é a aplicação de uma análise sistémica e racional ao processo de desenvolvimento da educação; tem como fim dirigir a educação de maneira mais eficaz às necessidades e aos objectivos dos estudantes e da sociedade”. Numa perspectiva complementar, defende Martins (1996, p. 182) que o “planeamento deve ser entendido numa dupla dimensão: a primeira compreende o dispor racional dos elementos presentes no sistema de formação-emprego, a segunda obriga a que se faça uma reflexão global, que preveja a articulação e implicações do sistema de formação-emprego com os outros subsistemas sociais e o nível das prioridades de realizações de cada sistema, especialmente do de educação-formação”. O planeamento indica as metas a atingir num determinado período e permite ajustar as estruturas e a qualidade dos serviços educativos à procura, às necessidades e aos objectivos da educação num determinado período da vida social. Este processo poderá ser, ainda, entendido como um programa de acção que, a partir da fixação de determinados objectivos, orienta a mobilização dos meios e dos recursos necessários para a sua prossecução. No seu conjunto, permite um melhor funcionamento do sistema educativo, internamente e nas suas relações com a sociedade. Os fundamentos do planeamento parecem remontar à velha Grécia, ou mesmo antes, com Platão, para quem a elaboração de um “plano educacional” devia responder às necessidades de liderança e aos objectivos políticos de Atenas. Outros exemplos podem ser encontrados ao longo do processo histórico de construção dos diferentes sistemas educativos, em particular na Europa, continente onde, primeiramente, se fez sentir a necessidade de uma ligação mais estreita entre a sociedade e os sistemas de ensino. Antes da generalização e da sua aplicação em diferentes contextos, sobretudo antes da Segunda Guerra Mundial, Coombs (1970) assinala que o planeamento da educação ficou marcado por quatro características fundamentais: · a sua perspectiva de curto prazo; · o seu carácter fragmentário e, portanto, também não articulado, ou seja, não garantindo a relação entre todas as iniciativas no mesmo processo; · não dinâmico, isto é, pouco receptivo a mudanças. Estes traços foram alterados com as mudanças sofridas no continente europeu durante o terceiro quartel do século XX, com a reconstrução das economias europeias, a penúria de 238 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos mão-de-obra, a expansão económica e a inovação que identificam os primeiros anos da segunda metade de Novecentos. De acordo com um documento do ME (1989), “o planeamento é feito a diferentes níveis: do nível nacional até ao nível médio da unidade administrativa mais pequena, e mesmo do estabelecimento. Pode ser feito separadamente, para os diferentes subsistemas e áreas geográficas, antes dos diferentes planos serem integrados no plano nacional para a educação”. Por isso, o planeamento da educação “efectua-se dentro de um extenso quadro de objectivos e políticas nacionais para a educação” e deve ser iniciado por estudos de diagnóstico que permitam conhecer a realidade que se pretende alterar. O desenvolvimento deste processo assenta em cinco princípios fundamentais (COOMBS, 1970): · o planeamento da educação deve ter como limite o futuro e não uma perspectiva limitada no tempo; · deve ser global, ou seja, ter uma visão integrada do sistema educativo e da sua evolução, coordenada, no futuro; · deve ser integrado, isto é, articular-se com os demais planos de desenvolvimento; · deve fazer parte integrante da administração da educação e das tomadas de decisão neste domínio; · deve preocupar-se com os aspectos qualitativos do desenvolvimento da educação e não apenas com os seus aspectos quantitativos. Desenvolvendo-se à escala nacional ou local, meramente indicativo ou imperativo, o planeamento da educação deverá andar ligado às outras formas de planeamento social, elaboradas pelo Governo central (planeamento centralizado), ou a nível das regiões (planeamento descentralizado). Por isso, não deve ter apenas em atenção as questões relacionadas com este sector, mas ter em conta as grandes opções estratégicas de desenvolvimento do país, relacionadas com o aproveitamento dos recursos endógenos e humanos. Apontam-se os traços fundamentais do processo de planeamento: universalidade, viabilidade, coerência, eficiência e flexibilidade. O instrumento fundamental de acção neste processo é o “Plano”, documento estratégico que traça os objectivos a atingir, os meios e os recursos disponíveis que permitem atingir esses fins. Como foi notado, deve assentar no diagnóstico da situação actual, apontando, para além da estratégia, a metodologia, os programas e os projectos de intervenção, bem como os recursos necessários para se atingirem os fins consignados. Destas fases, o diagnóstico do sistema educativo e a recolha exaustiva de todos os elementos estatísticos e outros, relacionados com a demografia, a mão-de-obra, o emprego, a economia e as finanças, são fundamentais para o planeamento educativo. Tradicionalmente, o planeamento da educação teve como objectivos essenciais o desenvolvimento dos recursos humanos, valorizando o contributo da educação para aumento do PNB. Para tanto, foi-se desenvolvendo, tomando, como referência, três métodos fundamentais: · método da procura social, baseia-se na frequência espontânea e corrente dos equipamentos de ensino. Por isso, as projecções que o acompanhavam tinham como referência as projecções económicas dos gastos e dos custos da educação. Jorge Carvalho Arroteia · · 239 método da mão-de-obra, relacionando a educação com o processo de crescimento económico; taxas de rendimento, relacionando os benefícios sociais, ou seja, os “custos-benefícios” carreados pela educação. Centrava-se na análise: custos-benefícios dos investimentos educativos. Modernamente, encara-se como relevante o “factor residual” da educação (teoria residual), que privilegia a educação como factor adicional do crescimento económico. Os métodos acima referidos estão relacionados com o processo de desenvolvimento económico registado nos países mais desenvolvidos, sobretudo a partir da década de sessenta do século XX, em resultado quer do processo de democratização do ensino, quer da evolução técnica e tecnológica que passou a requerer indivíduos com melhores qualificações profissionais. Esta constatação estendeu-se aos países em vias de desenvolvimento, que viram na elevação do nível de instrução da população a possibilidade de iniciarem o processo de crescimento económico. Tendo em conta a evolução dos cenários que apontam para a evolução global da sociedade, marcada por novas características e desafios impostos pelo desenvolvimento tecnológico, pelo progresso acelerado, pela complexidade e incerteza dos fenómenos sociais, o processo de planeamento tem vindo a alterar alguns dos seus pressupostos iniciais, introduzindo novos conceitos e formas de intervenção, relacionados com a mudança e o desenvolvimento futuro, integrados no planeamento estratégico da educação. Neste caso, o planeamento assenta numa visão prospectiva, em objectivos a atingir e em cenários possíveis que condicionam a aplicação do plano. Esta perspectiva de visão dinâmica do planeamento da educação pressupõe um processo de avaliação continuado e dinâmico, que tenha em consideração os resultados alcançados e as alterações do meio e dos actores envolvidos no processo. De realçar que o êxito deste depende, ainda, da sua articulação com o planeamento social, no seu conjunto, e da relação estabelecida entre as diversas entidades e intervenientes no processo de desenvolvimento. Dada a relevância dos factores demográficos, o interesse pelo conhecimento da situação actual e, principalmente, das perspectivas de crescimento e da dinâmica da população, confere ao planeamento da educação um papel relevante, já que, como refere Chau (1969, p. 85), este não é possível “se não se tiver sempre presente o perfil demográfico actual e futuro da nação”. Assim, nota Coombs (1970, p. 14) que o “planeamento da educação não se interessa exclusivamente pela “expansão quantitativa da educação”, mas também com a realidade, qualitativa e quantitativa, sendo sua preocupação fundamental a de “definir a melhor maneira de manter a complexidade das relações, internas e externas, do sistema em estado de equilíbrio (dinâmico) e de as “orientar na direcção desejada” (Op. cit., p. 16). Nestas circunstâncias, reconhece o mesmo autor haver um maior interesse em conhecer as “distorções e os desequilíbrios graves quer no interior do ensino quer entre o sistema de ensino e a sociedade”. O desenvolvimento deste processo, fora do contexto dos países socialistas, surge no termo da Segunda Guerra Mundial com a necessidade de reconstrução dos países devastados pelo conflito e em articulação com o processo de planeamento social e das actividades económicas. Estas razões levaram à autonomização do planeamento da educação, processo que se considerou de grande relevância, uma vez que, aplicando-se a todo o sistema educativo, 240 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos revestia aspectos não só quantitativos (relacionados com o acréscimo de frequência), mas também qualitativos (relacionados com a formação, os métodos e os processos de ensino). Por outro lado, tendo em conta a sua elaboração a curto, médio, e a longo prazo, permitia uma relação mais estreita e integrada com o planeamento económico e social. A expansão do planeamento de educação ficou a dever-se, nos anos cinquenta, à expansão da economia mundial e à intervenção do Banco Mundial e da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1958. É a chamada “época clássica”, que se prolonga, ainda, pela década seguinte, em que o planeamento é encarado como solução para os problemas educativos, económicos e políticos da humanidade. Nos anos sessenta, por acção ainda do Banco Mundial e do financiamento de projectos educativos em diversos países, as realizações previstas no planeamento são assim centralizadas em diversos programas e globalizadas à escala mundial. É a época das soluções estatísticas e econométricas, em que o campo de intervenção se alarga a outros organismos internacionais, tais como a UNESCO, que, através do IIPE (Institut International de Planification de l’Éducation), iniciou uma formação especializada nesta área. Por sua vez, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) é responsável por outras iniciativas, designadamente a realização do “Projecto Regional do Mediterrâneo”, e por diversas análises das políticas de educação em Estados-Membros. Estes projectos acentuavam a estratégia de planeamento com base na formação dos recursos humanos. A partir de 1968, com a realização de uma conferência internacional sobre “Planeamento da Educação”, o IIPE tem vindo a prosseguir a sua actividade de formação, investigação, cooperação técnica e divulgação dos princípios relacionados com a expansão e a melhoria dos sistemas educativos, debruçando-se sobre facetas diversas, tais como: equidade; qualidade; estrutura e administração da educação; curriculum; custos e financiamento da educação; planeamento, técnicas e perspectivas; informação, monitorização e acompanhamento dos sistemas. O conjunto destas preocupações pressupõe que o processo de planeamento seja devidamente acompanhado por um conjunto de decisões, de natureza normativa e administrativa, de natureza estratégica e de natureza operativa, que permitam assegurar que esta actividade humana continue a ser considerada como a mais efectiva e eficaz num processo de desenvolvimento social e humano das populações. Sem pretendermos analisar as fases que identificam as grandes inquietações internacionais neste domínio, referimos que, depois dos anos oitenta, a consciência dos desequilíbrios sociais, económicos, culturais e ambientais esteve na origem de outro tipo de preocupações, relacionadas com o desenvolvimento de políticas de “convergência” e de políticas de fomento económico de “integração” da população. Daí decorrem diversas iniciativas relacionadas com a formação profissional, entendida como instrumento de política de emprego destinada a promover o desenvolvimento económico e social, como meio de assegurar a preparação dos jovens para a vida activa e como instrumento de promoção da igualdade de oportunidades no acesso ao mercado de trabalho. As preocupações com o planeamento da educação continuam actuais, tendo em conta que este processo permite a resposta adequada aos desafios da política de educação em domínios concretos, relacionados com a procura, a oferta e as necessidades da sociedade ou do mercado, mas também em relação à alocação dos recursos, que permitem o funcionamento Jorge Carvalho Arroteia 241 do sistema. Daí que as preocupações anteriores, referentes à procura social, à formação de mão-de-obra e ao custo-benefício, venham, progressivamente, a ganhar outra dimensão de análise e de acção relacionada com o retorno social do aumento de instrução e da formação, através da sua ligação com a economia e o mercado de trabalho (factor residual da educação), com a formação das “élites” (em particular, a classe política) e as perspectivas futuras, relacionadas com a prospectiva e os projectos de desenvolvimento da sociedade. Assim, os reflexos do planeamento da educação extravasaram os domínios do retorno social, da economia e da política, para se associarem aos aspectos de inovação e de mudança, numa atitude prospectiva e de mudificação de cenários. O conjunto destas preocupações estão plasmadas num documento recente do IIPE sobre “A educação para todos”. Estas referem-se, em particular, à formação de recursos humanos, o que constitui um dos grandes desafios que, hoje, se colocam aos países que pretendem a formação de quadros capazes de assumirem as funções de gestão do conhecimento e da inovação em que assenta o progresso económico e científico. Mais recentemente, o director do IIPE, J. Hallak (CARNOY, 1999, p. 5), dava conta das novas preocupações do planeamento da educação, realçando o seguinte: “o interesse consagrado à expansão e ao desenvolvimento dos sistemas educativos chegou ao fim, tendo sido substituído pelo desejo constante de melhorar a qualidade do processo educativo no seu conjunto e de avaliar os resultados obtidos”. Mais ainda, “os planificadores e administradores estão conscientes da importância das estratégias a desenvolver e do papel desempenhado pelos diversos mecanismos de regulação: escolha dos modelos de financiamento, exame e emissão de certificados e diplomas ou de outras estruturas de regulação e de avaliação”. Como outros processos sociais, a avaliação utilizada no planeamento pode incidir sobre aspectos diferentes: sobre o processo e sobre o produto. Se tiver em conta o processo, esta deve ser contínua e ter um carácter formativo, por oposição à avaliação final, de conjunto, se considerar os resultados. Mesmo assim, atendendo a que o processo de planeamento engloba diversas fases e/ou programas, estas devem ser apreciadas individualmente e no seu todo, tendo em consideração os aspectos seguintes: finalidades da acção, objectivos e metas a alcançar, conteúdos, metodologia geral do programa, técnicas pedagógicas utilizadas, normas da avaliação, recursos utilizados e calendarização geral do programa de acção. Perante as transformações sociais e a constante alteração dos contextos nacionais e internacionais, o planeamento, e em particular o planeamento educacional, tem vindo a apresentar novas perspectivas, tais como: · racionalização da tomada de decisões, em função da limitação dos recursos (estratégias para refrear e racionalizar os gastos); · formulação das prioridades (planeamento sectorial); · reforma do sistema educativo (funções de diagnóstico e prospectivas da educação); · democratização e planeamento (a incidência do planeamento na participação responsável dos cidadãos sobre a vida social); · mobilização do potencial das comunidades locais (descentralização das tomadas de decisão: acção regional e comunitária); · o planeamento como processo de concertação: Estado/sociedade; · ênfase sobre a qualidade da educação; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 242 · · atenção às novas situações de multiculturalismo e bilinguismo; reforço dos traços entre educação, trabalho e produção. Note-se que o exercício e a prática do planeamento da educação envolvem diversos contributos, tipos de análise e estratégias de desenvolvimento. A título exemplificativo, recordamos como os objectivos da Cimeira de Lisboa (em Março de 2000), promovida pela Comission de Communautés Européennes, inventariou, no que respeita aos objectivos concretos dos sistemas educativos nos países da UE, cinco preocupações comuns a todos os países: a qualidade dos sistemas educativos e de formação; o acesso à educação e à formação a todos os cidadãos; as competências fundamentais a incluir nos percursos escolares e de formação inicial dos jovens, nomeadamente no que respeita às tecnologias de informação e de comunicação; a abertura dos centros escolares e dos centros de formação (incluindo as universidades) aos cidadãos; e, por fim, uma maior eficácia no desempenho dos referidos sistemas. Os objectivos traçados nesta cimeira, no sentido de tornar a Europa, até ao ano de 2010, dotada de uma “economia do conhecimento mais competitiva e dinâmica” do globo, põem em realce a pertinência e oportunidade do planeamento da educação como instrumento fundamental ao serviço não só da melhoria do desempenho dos sistemas educativos e de formação, mas também do desempenho qualitativo e quantitativo do emprego e da coesão social, instrumemtos fundamentais para a afirmação e construção da União. Métodos de planeamento da educação Dois métodos fundamentais foram largamente utilizados nos processos de planeamento da educação até ao início dos anos noventa. O primeiro teve em consideração a análise custo-benefício, que consiste, basicamente, na apreciação das condições que resultam da frequência de um curso, na obtenção de um diploma ou de uma formação especializada, em função do investimento humano e material envolvido nesse processo. Pode, ainda, ter em atenção a perda de oportunidades materiais e sociais, decorrentes dessa participação. Em qualquer dos casos, este tipo de análise utiliza indicadores relacionados com a situação material, cultural e outra, assim como os resultados conseguidos após a obtenção de um determinado estatuto escolar e/ou académico. Um segundo método correpondeu à estimativa das necessidades de mão-de-obra. Este conceito anda associado ao processo de planeamento de formação de recursos humanos, a nível geral, por sectores de especialização, tipo de formação, habilitação académica e profissional. Trata-se de um dos métodos em que assenta o planeamento da educação, justificando os investimentos, a oferta de cursos e de formação, de acordo com as carências sentidas em determinados mercados e sectores económicos, a nível nacional ou regional. O método em questão anda ligado às necessidades da educação, registadas globalmente pela sociedade, e que têm vindo a variar ao longo dos séculos, em consequência da evolução técnica, tecnológica e de informação, que obriga à aprendizagem permanente e ao longo da vida como forma de reduzir a “iletracia”, em diversos domínios, e que se tem vindo a agravar no nosso tempo. A pertinência e actualidade destes e de outros métodos usados no planeamento da educação, no sentido de melhorar o processo de democratização e de qualidade do ensino Jorge Carvalho Arroteia 243 ou de responder às múltiplas expectativas da sociedade sobre os sistemas educativos, são tanto mais relevantes quanto mais se fazem sentir diversos tipos de situações há muito referidas em estudos internacionais (UNESCO, 1970, p. 19), e que não se encontram debeladas, tais como: “O aumento da procura social da educação (…). A pressão económica sobre os sistemas educativos, resultante de taxas moderadas do crescimento económico (…). Os sistemas educativos ficarão cada vez mais mal adaptados em relação ao seu ambiente (…). Os cidadãos mais instruídos verão agravado cada vez mais o desemprego em muitos dos países em vias de desenvolvimento (…). Os jovens manifestarão um desinteresse crescente em relação às estruturas, aos programas e aos métodos de ensino, os quais, frequentemente, na sua perspectiva, não correspondem ao ideal democrático oficialmente proclamado pela sociedade, à situação económica, social, cultural e emocional, caracaterística do nosso tempo, e aos princípios mais elementares de uma comunicação humana e simples entre os docentes e os discentes”. O panorama acima descrito recorda-nos como muitos dos fenómenos actuais, que afectam diferentes sistemas educativos, poderiam ser atenuados, em resultado do trabalho consistente, mas muitas vezes pouco apreciado, do planeamento educativo e da utilização de diferentes métodos e estratégias adequadas à mudança social que nos acompanha. Poder De acordo com Horton e Hunt (1980, p. 286), o poder “é a capacidade de controlar a acção dos outros. Inclui a ‘força’, que é o uso ou a ameaça de coerção física; a ‘autoridade’, que é um direito reconhecido de dar ordens aos outros; e a ‘influência’, que é a habilidade para afectar as acções dos outros, independentemente de autoridade. A influência apoia-se tanto nas qualidades pessoais como nos controles que uma pessoa exerce sobre as recompensas que os outros desejam”. O exercício do poder anda, portanto, associado às relações humanas e às práticas de um grupo dominante, que, numa perspectiva marxista, conduzem à luta entre classes sociais. A este respeito, recordamos de M. Weber (1958. in: GIACOBBI, ROUX, 1990, p. 249-250), “como todos os agrupamentos políticos que historicamente o precederam, o Estado consiste numa relação de ‘dominação’ do homem sobre o homem assente num meio de violência legítima (quer dizer, sobre a violência que é considerada como legítima). O Estado não pode existir senão na condição de que os homens dominados se submetam à autoridade exercida pelos dominadores”. De acordo com o mesmo autor (…), existem “três razões internas que justificam esta dominação e, por conseguinte, três fundamentos desta legitimidade: · primeiramente, a autoridade “eterna, do passado”, quer dizer, assente em costumes santificados pela sua validade imemorial e pelo hábito de os respeitar enraizado no homem. Tal é o “poder tradicional” exercido, outrora, pelo patriarca e pelo senhor da terra; · em segundo lugar, a autoridade baseada na “graça” pessoal e extraordinária de um indivíduo (carisma); esta caracteriza-se pela devoção pessoal dos indivíduos à causa defendida por um homem e pela sua confiança nessa pessoa, que é singularizada por qualidades prodigiosas, pelo heroísmo ou por outras particularidades exemplares que fazem o chefe. É este poder “carismático” exercido pelo profeta ou, no domínio político, pelo de chefe de guerra eleito, por um grande demagogo ou pelo chefe de um partido político; · há, ainda, a autoridade que se impõe, baseada na “legalidade”, na crença da existência de um estatuto legal, de uma “competência” assente em regras, definidas racionalmente ou noutras formas de autoridade baseadas na obediência, que se traduz em obrigações decorrentes de um determinado estatuto. É este o poder exercido sobre o “servidor do Estado” moderno, assim como pelos detentores de poder que se fundamentam nesta relação”. Tendo presente a existência de diferentes tipos de poder, o tradicional, o carismático e legal, importa realçar que este se fundamenta em três regras essenciais: o costume, a autoridade pessoal e o direito. Neste caso: Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 246 · · · a fonte de legitimidade provém da regra do direito e do exercício de uma autoridade racional; o aparelho do poder é exercido por um corpo de funcionários hierarquizados; as características são as que identificam uma burocracia centralizada. Esta burocracia é assim constituída por um corpo de agentes especializados que elabora, aplica e interpreta as leis e os regulamentos “que delimitam a esfera de acção do poder legal” (GIACOBI, ROUX, 1990, p. 137). Detentores de competência técnica adequada, constituem uma “élite de poder” que reivindica uma posição estratégica no sistema. As “elites”, ou seja, os grupos restritos de cidadãos que detêm a “capacidade para afectar o comportamento dos outros” (HORTON, HUNT, 1980, p. 271), são compostas, segundo os mesmos autores (Op. cit., p. 272), por indivíduos “cuja posição lhes permite transcender os ambientes comuns de homens e mulheres comuns (…)”, de acordo com a posição que ocupam na hierarquia e nas organizações sociais. O exercício do poder pelo Estado, através da administração pública, obriga a que este atenda a diferentes formas de organização que lhe permitam exercer a sua capacidade de organização e de gestão sobre o território e as populações, bem como promover o desenvolvimento sociocultural dos cidadãos, elaborando planos de desenvolvimento e gerindo-os a diferentes níveis: central, intermédio (ou regional) e local. Por isso, em qualquer sistema de poder, a tomada de decisão pode estar concentrada no centro – centralização – ou, então, pode transferir a participação para unidades periféricas (serviços, empresas), de forma descentralizada. De acordo com Formosinho (“A regionalização do sistema de ensino”, in: ALVES-PINTO, ALÇADA, SILVA, 1986/88, p. 291-309), “a administração do sistema escolar em qualquer país pode ser centralizada ou descentralizada. Numa administração centralizada, todas as decisões importantes são tomadas no topo do sistema, isto é, nas chefias dos serviços centrais do Ministério da Educação” (Op. cit., p. 292). Este modelo de administração pode ser concentrado e desconcentrado. No caso da administração centralizada concentrada, Formosinho (Op. cit., p. 293) afirma que “o superior hierárquico dos serviços centrais é o único competente para tomar decisões, limitando-se os agentes dos escalões inferiores a informar e a executar”. A realidade portuguesa contempla diferentes formas de poder: o poder central e o poder local; o primeiro constituído pelo Governo, como “órgão de condução da política geral do país e o órgão superior da administração pública” (artº 185 da CRP); o segundo composto pelas “autarquias locais”, ou seja, freguesias, municípios e regiões administrativas. No âmbito da Lei das Autarquias Locais (Dec.-Lei nº 100/84), a qual actualiza e reforça a atribuição das autarquias locais e a competência dos respectivos orgãos, estas – no continente, a região administrativa, o município e a freguesia; e nas Regiões Autónomas, o município e a freguesia –, “são pessoas colectivas territoriais, dotadas de órgãos representativos, que visam a prossecução de interesses próprios das populações respectivas”. É de sua competência (artº 2) zelar pelos interesses próprios e das populações no que respeita não só aos bens próprios ou sob sua jurisdição, mas também noutros assuntos como o desenvolvimento, a saúde, a educação e ensino, a cultura, os tempos livres e desporto, a defesa do meio ambiente, etc. De acordo, ainda, com a CRP (artº 239), as atribuições e a organização das autarquias Jorge Carvalho Arroteia 247 locais, “bem como a competência dos seus órgãos” são reguladas por lei, “de harmonia com o princípio da descentralização administrativa”. A configuração acima descrita não deixa de tornar necessárias outras acções, nomeadamente as que se centram na actividade escolar e na sua autonomia. De facto, como reconhece Lima (1999, p. 69), “a educação para a democracia, só realizável através de acções educativas e de práticas pedagógicas democráticas, conhece na autonomia (individual e colectiva, de alunos e de professores) um elemento decisivo à sua concretização”. Autonomia As questões relacionadas com a autonomia têm vindo a ganhar ênfase com a mudança de regime político, posterior ao 25 de Abril, e a discussão sobre a reforma da escola pública, na sequência da aplicação do modelo de “descentralização e desconcentração administrativas” (artº 267 da CRP) e a procura de uma maior articulação entre o Estado e a sociedade. De facto, tendo presente o conjunto de valores que não podem ser esquecidos no contexto de uma sociedade democrática, a descentralização do Estado, a abertura e a participação acrescida da sociedade civil são princípios fundamentais que reforçam a promoção da igualdade de oportunidades, o progresso científico, a coesão social, a participação política dos cidadãos, a justiça e a solidariedade social reclamada pela nossa sociedade. Nestas circunstâncias, a estrutura da Administração Pública deverá evitar a burocratização, aproximando os serviços das populações e assegurando a participação dos interessados na sua gestão efectiva. Deve, ainda, promover a desconcentração administrativa, sem prejuízo da necessária eficácia e unidade de acção e dos poderes de direcção e superitendência do Governo (artº 267 da CRP). Se relacionada com a política educativa, a desconcentração de serviços do Ministério da Educação, através da criação das Direcções Regionais de Educação, foi o primeiro passo para o desenvolvimento deste processo, que se intensificou com a transferência, para as autarquias locais, de competências concentradas no poder central, relacionadas com os transportes escolares, as construções escolares, a rede escolar, a participação pública nos órgãos da escola e outros aspectos relacionados com a educação, os tempos livres e o desporto. De acordo com Nóvoa (1992, p. 26), “a autonomia é um dos princípios centrais das políticas educativas dos anos 90. Trata-se de dotar as escolas com meios para responderem de forma útil e atempada aos desafios do quotidiano (…), contribuindo, assim, para a “responsabilização dos actores sociais e profissionais e, por outro, à preocupação de aproximar o centro de decisão da realidade escolar”. Assim se compreende o regime de autonomia, administração e gestão das escolas, aprovado na sequência da reforma educativa de oitenta, e a transferência para os planos regional e local de muitas das decisões outrora concentradas num modelo centralizado de administração do Estado. De facto, dada a complexidade dos problemas sociais e educacionais que se reflectem no funcionamento do sistema educativo, no seu conjunto, e das organizações escolares, em particular, nomeadamente as que respeitam os seus objectivos e diversidade de expectativas sociais, os modelos de gestão centralizada dos sistemas de ensino têm vindo a registar um número crescente de críticas e de propostas relacionadas com o seu funcionamento e organização. Salientamos as questões relacionadas com a universalização do ensino, a sua modernização 248 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos ou a sua ligação mais efectiva à comunidade, temas que sugerem a adopção das políticas educacionais adequadas aos interesses e às necessidades dos diferentes grupos sociais. Por outro lado, a disponibilidade de recursos ou a sua desigual distribuição no território (reclamando a mudança das estruturas administrativas e as alternativas relativas à centralização/ descentralização do sistema) constituem outro tipo de questões que afectam a gestão corrente destes sistemas. De qualquer modo, importa assinalar que este deve garantir: · a promoção dos valores e das práticas relacionadas com o processo de democratização; · a melhoria da eficiência e da qualidade do ensino e a afirmação do sistema científico e tecnológico nacional, de forma a contribuir para o desenvolvimento da sociedade portuguesa e para a afirmação das comunidades científica e académica nos seus contextos europeu e internacional; · a promoção da igualdade de oportunidades entre as instituições (públicas e não públicas); · a justa repartição de meios para a realização de projectos de âmbito nacional e internacional; · o desenvolvimento e consolidação de projectos educacionais e de investigação científica, particularmente no contexto europeu. A prática da autonomia contraria o centralismo burocrático e o poder de decisão concentrado nos serviços centrais do Estado. Relativamente às escolas, data de 1989 a publicação do “Regime jurídico da autonomia da escola” oficial, dos 2º, 3º ciclos do EB e do ES (Dec.-Lei nº 43/89). De acordo com este documento (artº 2), entende-se por autonomia da escola – que se desenvolve nos planos cultural pedagógico e administrativo – “a capacidade de elaboração e realização de um projecto educativo, em benefício dos alunos e com a participação de todos os intervenientes no processo educativo”. Para tanto, a escola deve ter em consideração as características e os recursos, as solicitações do meio e os apoios da comunidade onde se insere. Esta legislação foi alterada posteriormente, nomeadamente pelo Dec.-Lei nº 115-A/98, de 4 de Maio, que aprova o “Regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário”, que se aplica “aos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básicos e secundário, regular e especializado, bem como aos seus agrupamentos” (artº 1). De acordo com o referido documento, a autonomia, ou seja, “o poder reconhecido à escola pela administração educativa de tomar decisões nos domínios estratégico, pedagógico, administrativo, financeiro e organizacional (…)”, assenta em três instrumentos fundamentais: o projecto educativo, o regulamento interno e o plano anual de actividades. Em trabalho dedicado à autonomia das escolas públicas, Afonso (1999, p. 54) reconhece, contudo, que, “no nosso país, a administração da educação concretiza-se no quadro de um sistema centralizado e hiper-regulamentado”, uma vez que “a centralização corresponde a uma tradição que é comum a toda a administração pública portuguesa, com profundas raízes na própria construção histórica do Estado, tradição acentuada e reforçada durante o Estado Novo, por óbvias razões de natureza ideológica e política”. Daí que, de acordo com este autor (Op. cit., p. 45), a “autonomia das escolas públicas não se restrinja à gestão da dependência face à burocracia governamental, nem se concretize apenas através dos dispositivos formais Jorge Carvalho Arroteia 249 definidos na legislação sobre gestão escolar”, apesar “do controlo hierárquico e da produção de normativos” ser considerado como um dos entraves estruturais apontados quanto à devolução de poderes à escola. Descentralização Contrariamente ao centralismo burocrático, a “descentralização” administrativa identifica-se por haver uma repartição do poder político por diversos níveis e órgãos de decisão, autónomos, reservando-se o nível superior a coordenar a sua acção no território. Verifica-se, assim, a transferência do “poder normativo”, central, para níveis inferiores da administração, de base territorial regional ou local, que Formosinho (“A regionalização do sistema de ensino”, in: ALVES-PINTO, ALÇADA, SILVA, 1986/88, p. 291-309) define da forma seguinte: “uma administração diz-se descentralizada quando existem organizações e órgãos locais não dependentes hierarquicamente da administração central do Estado (não sujeitos, portanto, ao poder de direcção do Estado), autónomas administrativa e financeiramente, com competências próprias e representando os interesses locais” (Op. cit., p. 296). No âmbito da gestão escolar (COSTA, 1991, p. 43), a descentralização pode ser funcional e territorial. A descentralização funcional ((Loc. cit.) consiste “na distribuição de tarefas específicas a organismos especializados”, tal como acontece com o ensino superior; a descentralização territorial (Loc. cit.), “mais do que um processo técnico, constitui um princípio político de organização do estado democrático (decorrente da CRP), e um princípio dinâmico no processo de descentralização dos níveis de administração, nomeadamente a descentralização da administração regional (…)”. De recordar que os princípios de “desconcentração” e de “descentralização” administrativas estão expressos na CRP (artºs 237 e 267), defendendo, por sua vez, a LBSE a sua aplicação às estruturas e acções educativas. Além de imperativos constitucionais, a desconcentração e a descentralização surgem como garantes de uma maior proximidade entre o poder político e o meio social envolvente, além de facilitarem uma maior participação das populações e uma melhor coordenação e articulação dos órgãos periféricos, nas suas relações com o poder central. Por outro lado, “a inserção no meio comunitário” e a prossecução de níveis de “decisão eficientes” constituem duas das vantagens acrescidas desta adaptação às realidades actuais (artº 3. g, – LBSE). De acordo com Nóvoa (1992, p. 17), “a modernização do sistema educativo passa pela descentralização e por um investimento das escolas como lugares de formação (…). As escolas têm de adquirir uma grande mobilidade e flexibilidade, incompatível com a inércia burocrática e administrativa que as tem caracterizado. O poder de decisão deve estar mais próximo dos centros de intervenção, responsabilizando directamente os actores educativos”. Desconcentração A “desconcentração” administrativa verifica-se quando o poder central delega poderes em orgãos (ou serviços) de nível inferior, continuando, no entanto, a exercer a sua acção e tutela sobre estes. De acordo com Formosinho (“A regionalização do sistema de ensino”, in: ALVES-PINTO, ALÇADA, SILVA, 1986/88, p. 291-309), “na adminsitração desconcentrada há, em graus intermédios e inferiores, chefes com competência para decidir imediatamente, embora 250 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos sujeitos à direcção e inspecção dos superiores, que podem modificar as decisões tomadas” (Op. cit., p. 293). Assim, para Costa (1991, p. 43), a desconcentração territorial, “sendo embora uma forma limitada de distribuição de poderes (cujas vantagens se situam, fundamentalmente, ao nível técnico), pode assumir significativa importância como princípio dinâmico ao serviço do processo de descentralização”. Tendo presente a CRP (artº 267), a administração pública, assim estruturada, tem em vista o “aproximar os serviços das populações e o assegurar a participação dos interessados na sua gestão efectiva”. Mais ainda, ao estabelecer “adequadas formas de descentralização e desconcentração administrativas, sem prejuízo da necessária eficácia e unidade de acção e dos poderes de direcção e superintendência do Governo”, este pretende racionalizar os meios a utilizar pelos serviços “e a participação dos cidadãos na formação das decisões ou deliberações que lhes dizem respeito” (artº 267 – CRP). Por sua vez, a LBSE estabelece (artº 43), quanto à administração do sistema educativo, a adopção de “orgânicas e formas de descentralização e de desconcentração dos serviços, cabendo ao Estado, através do ministério responsável pela coordenação da política educativa, garantir a necessária eficácia e unidade de acção”. A delegação territorial das funções do Estado pressupõe a “participação directa e activa” dos cidadãos, condição e instrumento fundamental de “consolidação do sistema democrático” (artº 109 – CRP). De acordo com a Lei Orgânica do Ministério da Educação, as Direcções Regionais de Educação ”desempenham, no âmbito das circunscrições territoriais respectivas, funções de administração desconcentrada, relativas às atribuições do ME e às competências dos seus serviços centrais, assegurando o apoio e informação aos utentes do sistema educativo, a orientação e coordenação do funcionamento das escolas e o apoio às mesmas, bem como a articulação com as autarquias locais no exercício das competências atribuídas a estas na área do sistema educativo”. Regionalização A regionalização é um processo administrativo, com base territorial, as regiões administrativas, dotadas de autonomia e de orgãos próprios que visam a defesa dos interesses das populações. A Constituição da República Portuguesa de 1976 consagra a existência de Regiões Plano (artº 95), definidas “com base nas potencialidades e nas características geográficas, naturais, sociais e humanas do território nacional, com vista ao seu equilibrado desenvolvimento e tendo em conta as carências e os interesses das populações”. Hoje em dia, o processo de regionalização continua na ordem do dia, em resultado da constatação de assimetrias regionais, relacionadas com o processo de desenvolvimento do território e o exercício do poder. Nesta perspectiva, L. Sá (1997, p. 33) defende que a região como “pessoa colectiva pública de população e território cujos órgãos são legitimados pelo sufrágio universal, cujo âmbito territorial corresponde a um espaço de exercício do poder abaixo do Estado-Administração Central e imediatamente acima dos municípios e cujos poderes e meios financeiros não resultam, essencialmente, de um poder de auto-organização, antes derivam de normas e deliberações emanadas dos órgaõs de soberania”. O traçado de regiões foi inicialmente determinado por factores naturais, relacionados com semelhanças geográficas, por factores humanos, relacionados com a forma de aproveitamento Jorge Carvalho Arroteia 251 do território, e por limites de natureza administrativa, no âmbito da intervenção do poder público. Eventualmente, este processo assenta em factores relacionados com o desenvolvimento do território e com a natureza dos fluxos e da sua expressão no espaço. Contudo, observa Lopes (1995, p. 28) que a regionalização não é uma simples divisão do território em regiões. É um “processo de organização espacial da sociedade para a gestão eficiente do património, não apenas natural ou económico, mas também social e cultural, na perspectiva dinâmica do desenvolvimento que pressupõe a fixação de objectivos (socioeconómicos, culturais e outros), a escolha e adopção de estratégias, a selecção e adopção de políticas, a acção e o acompanhamento (controlo) da execução, sempre no quadro realista dos meios”. Mais ainda, precisa o mesmo autor que a regionalização “passa pela adjudicação de poderes aos entes regionais a constituir, na base naturalmente das competências que lhes sejam reconhecidas e das atribuições adequadas a fazer-lhes; na base, naturalmente, também, de meios a afectar-lhes e, em geral, de capacidades a dar-lhes”. Em relação ao nosso país, a divisão do território nacional em grandes unidades tem sido feita a partir da identificação de características semelhantes de natureza geográfica (regiões naturais), de desenvolvimento económico (regiões homogéneas), de relações funcionais (regiões polarizadas) ou a nível de intervenção do poder central (regiões plano e NUT, para fins estatísticos). Estabelece, ainda, a CRP (artº 80), que a organização económico-social do Estado assenta num conjunto de princípios, entre os quais se conta o “planeamento democrático do desenvolvimento económico e social”. A divisão do país em unidades territoriais, de acordo com as diferentes áreas de governação, pode ser ilustrada pelo Ministério da Educação, que integra cinco Direcções Regionais de Educação: Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve. Política educativa A análise dos múltiplos aspectos relacionados com as orientações programáticas, as escolhas estratégicas, a organização, o desenvolvimento e as práticas relacionadas com o desenvolvimento e funcionamento do sistema educativo, bem como a sua avaliação, isoladamente e na sua articulação com os demais sistemas sociais, constitui objecto privilegiado de análise em política de educação. Assim, de acordo com Figueiredo (2001, p. 24), estas são desenvolvidas em resposta a um problema/situação problemática, com objectivos e finalidades concretas e seguindo um processo que deve incluir as seguintes fases: “i) identificação do problema; ii) inclusão deste na agenda política; iii) formulação de vários cenários de soluções possíveis; iv) tomada de decisão, ou seja, opção por uma delas, que se traduz em política pública; v) implementação ou realização dessa política pública; vi) avaliação.” Em termos gerais, podemos definir esta área científica como sendo o relato da acção educativa promovida pelo poder político. O exercício deste poder e a definição da “política educativa” são entendidos de diversas formas. Para Birou (1978, p. 307), esta pode ser entendida como a “arte de governar um Estado” ((Loc. cit.), ou ainda: “o exercício de um poder organizado com vista a uma acção específica numa qualquer colectividade” (Op. cit., p. 308). De entre outras definições de política educativa, importa destacar: · “ramo particular da ciência política que estuda e analisa todos os aspectos políticos da educação” (PUELLES, in: CABANAS, 1989, p. 299); · o “estudo das diversas dimensões da política em geral” (BIROU, Op. cit., p. 308). Outras tentativas de definição abrem novas perspectivas de análise: · “Em si mesma, a política educativa não é mais do que um aspecto da política geral e faz parte dela como um apêndice que se articula com as demais perspectivas que constituem a política global de uma determinada sociedade”. Por isso, “a política educativa, assim contextualizada, apresenta-se como a actividade do poder público destinada a dar resposta aos problemas sociais da educação, pelo que no fundo se converte num conjunto de medidas de política geral cujo objectivo específico é, em todas as suas dimensões, o educativo” (COLOM, DOMINGUEZ, 1997, p. 20). 254 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Entende-se que a diversidade de assuntos que cabem no âmbito desta ciência levam a que uma abordagem da política educativa possa evidenciar tendências e perspectivas muito diferenciadas, consoante as orientações da escola ou os interesses científicos dos investigadores que se debruçam sobre estes fenómenos. Com efeito, estes podem destacar diferentes assuntos entre aqueles que constituem a plêiade de temas que merecem uma análise aprofundada das decisões e das práticas do foro educativo. Daí que possamos enriquecer a lista de contributos com novas propostas de definição. Para Dacal (1986, p. 356), a política educativa é o “conjunto de acções que, no domínio da educação, são realizadas com vista à prossecução do bem comum de uma sociedade” ou, ainda, o “conjunto de normas que regulam o exercício da educação de forma a cumprirem um direito comum (o direito à educação) e o desempenho, através de orgãos próprios de direcção e de gestão, por meio dos quais o poder político realiza a sua política educativa (administração educativa)” (Loc. cit.). Já Benítez (1991, p. 29) entende que a política educativa consiste na “análise dos sistemas educativos, tanto a educação formal como a educação não formal” ou, ainda, no “estudo dos aspectos políticos dos fenómenos educativos e da política educativa do Estado, bem como à política educativa dos outros grupos sociais (confessionais, sindicais, patronais, associações, etc.) (Op. cit., p. 33). A identificação do objecto da política educativa exige outro tipo de considerações, relacionadas com os pressupostos teóricos de acção: doutrina política, ou já formas de acção concreta, a “Policy”. Se atendermos à primeira, importa salientar que os assuntos de análise de política educativa podem ser igualmente objecto de análise por parte de outras ciências, nomeadamente por parte da Filosofia Política, entendida esta como a “reflexão sobre a natureza do Estado, do Poder, do bem colectivo que uma política concreta deve visar, sobre as leis da moral colectiva que devem guiar a constituição e o exercício do Poder (ética política) e sobre as melhores formas de governo” (BIROU, 1978, p. 308). O mesmo autor (Loc. cit.) refere que a doutrina política é o “conjunto estruturado de opções gerais sobre o projecto global de uma sociedade ou de um modelo de governo”. A “Policy” pode ser entendida de formas distintas (HOUGH, 1984, p. 13), como sinónimo de plano, de programa, distinguindo-se destas, no entanto, como uma medida de acção e como resposta a um problema, orientado por objectivos concretos no sentido da sua resolução e por uma apreciação final sobre os resultados alcançados. Outras propostas, como a da UNESCO (2006), consideram a política educativa como “um plano de acção para a educação e a tradução operacional da educação de um Governo”, contemplando a análise sectorial, a política e estratégias e o programa de acção. Pelo seu interesse, transcrevemos os principais domínios em que se pode basear um processo desta natureza, relacionado com a análise dos fenómenos sociais e educacionais, sobretudo os que ocorrem no seio do sistema educativo. Quanto à sua natureza, esta pode ser: · análise casuística, quando a apreciação incide sobre os fenómenos de procura e acesso, – ao processo educativo, aos recursos humanos, à gestão e à avaliação do sistema, no seu conjunto ou de algum dos seus subsistemas em particular, ou à organização escolar; · reformas educativas, entendidas como alterações profundas dos processos e das opções relativas ao funcionamento do sistema; Jorge Carvalho Arroteia · 255 estudos comparados, relacionados com a análise de temas diversos, incidindo sobre a organização, a estrutura ou sobre determinados aspectos do funcionamento dos sistemas educativos, no seu conjunto ou de algum dos seus subsistemas em particular. Estes exemplos não escondem a necessidade das análise parcelares relacionadas com a organização escolar, isoladamente e nas suas relações com outras organizações sociais, os seus públicos e a sociedade. Assim, o interesse de uma articulação entre as diferentes áreas do saber e a sua exploração através de uma disciplina científica e curricular, sobretudo em cursos de pós-graduação, implica, no dizer de Afonso (1999, Introdução), “um esforço prévio de reflexão em torno de dimensões analíticas diversas, que podem ir da simples procura de novas especificidades legitimadoras quer a nível académico, quer ao nível institucional até à procura de justificações de cariz mais epistemológico e teórico-conceptual”. Como construção social, a Política Educativa obedece a um conjunto de factores que condicionam a sua preparação e execução, bem como o desenvolvimento das acções que a identificam. Construção da política educativa As considerações anteriores relacionadas com a análise dos fenómenos sociais e com a política educativa podem ser completadas com um outro tipo de análise que incida sobre a sua construção e actualidade. Este tipo de análise implica ter em atenção um conjunto de aspectos que interferem no desenvolvimento das medidas condicionadoras do funcionamento e do desempenho do sistema. Como observa D’Hainaut (1980, p. 42), “o termo de política implica uma certa consciência da filosofia da acção educativa, e uma certa estratégia na sua realização”. Por isso, ela inscreve-se “no quadro mais largo de uma filosofia da educação e é o resultado de múltiplas influências em interacções, provenientes dos sistemas sociais que agem sobre o sistema educativo e que eles mesmos estão sob a influência do contexto filosófico, ético e religioso, do contexto histórico, do quadro geográfico e físico, assim como do contexto sociocultural onde se situa o sistema educativo considerado”. Tendo presente esta reflexão, salientamos a importância de diferentes contextos na construção das políticas de educação: · o contexto demográfico, que determina a maior ou menor procura natural da educação e a sua evolução; · o económico, que condiciona os recursos físicos, materiais e financeiros a alocar ao sistema; · o político, que determina as opções estratégicas da governação e o quadro genérico que acolhe essas medidas; · o administrativo, que enquadra a acção governativa dentro dos pressupostos teóricos da administração e do direito constitucional. Para além destes contextos, a construção das políticas de educação deve ter em consideração outros cenários, determinados pelos processos de mudança social e pela avaliação da acção governativa. Contamos, para isso, com as iniciativas relacionadas com o planeamento, a direcção e organização dos sistemas educativos, o modelo de gestão das escolas, o desempenho e 256 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos participação dos actores, a regulação e a avaliação do sistema, no seu conjunto, e dos diversos subsistemas que o compõem, das organizações, dos agentes e dos alunos. Importante é ter ainda em conta os resultados de iniciativas anteriormente postas em execução e apreciadas de forma correcta, de modo a que os seus resultados possam ser bem interpretados. A construção de uma política de educação não é possível de concretizar se não tiver em consideração um ideário, um projecto de desenvolvimento e uma visão prospectiva, relacionada com os objectivos a atingir, os resultados esperados e as suas consequências sobre a sociedade em geral. De facto, tendo em conta Duverger e Laderrière (1999, p. 19), a construção das políticas educativas, cada vez mais dependentes da economia da educação devem ter em conta um conjunto de princípios orientadores, dos quais salientamos: “· a evolução acelerada da sociedade do conhecimento, baseada no desenvolvimento dos recursos humanos e respondendo às necessidades sociotécnicas constantemente diversificadas e renovadas; · a emergência (…) da educação ao longo da vida, em que o período inicial, fundamental, não é senão a primeira etapa; · a competição cada vez mais intensa, face ao acréscimo de novas necessidades sociais, entre diferentes modalidades de financiamento, tanto públicos como privados; · a consideração do processo de descentralização no funcionamento dos sistemas educativos e de formação, considerado como favorável a uma melhor gestão, e mais próximos das necessidades expressas pelos diversos actores e parceiros e, em simultâneo, o desenvolvimento de processos de avaliação que permitam conduzir de forma mais apropriada e favorecer a auto-regulação”. A este respeito recorda-nos, ainda, F. Pedró (1988, p. 110) que as políticas educativas “nunca devem ser consideradas como políticas isoladas, mas como fazendo parte de um esforço mais global que afecta as políticas de infra-estruturas, de telecomunicações, de investigação e desenvolvimento, de ocupação e formação permanente dos recursos humanos”. Por isso, se tivermos em conta a construção da escola, na sociedade de informação, há que atender a três elementos críticos fundamentais: “· os investimentos em ‘soft’ e ‘hard’, que deviam passar a ser considerados gastos correntes e amortizados por outras utilizações educativas não estritamente escolares; · o risco de exclusão e de fractura social, segregando aqueles que já vivem na sociedade da informação dos que provavelmente nunca o conseguirão; · a resistência à mudança, típica de todos os sistemas educativos”. Estes são, alguns dos aspectos que consideramos relevantes aquando da análise das políticas de educação e que nos ajudam a compreender algumas das medidas relacionadas com a natureza, a participação, a motivação, a satisfação e as expectativas sociais da acção educativa. A apreciação da política educativa abarca diversas dimensões, que incluem critérios e indicadores distintos. Passamos a referir alguns destes aspectos. Jorge Carvalho Arroteia 257 Dimensões de análise As escolhas relativas ao enunciado e ao desenvolvimento dos temas de estudo seguem o modelo de análise de certos autores (GIROD, 1981, BENÍTEZ, 1991, HADDAD, 1995 e outros) e as nossas preocupações no domínio da análise social e organizacional da educação. Para o efeito, contemplamos seis dimensões que podem ser utilizadas na construção de uma grelha interpretativa das políticas educativas: · a primeira tem a ver com a dimensão pessoal das acções de política educacional e os seus reflexos no cidadão, enquanto aluno, docente ou funcionário. Aqui se incluem os aspectos relacionados com o cumprimento das funções da educação, nomeadamente as que contribuem para estruturar a personalidade do discente. Da mesma forma, cabem aqui os aspectos relativos à motivação e à participação dos docentes e funcionários e as questões de profissionalismo e desempenho; · a segunda está relacionada com a dimensão social dessas acções, ou seja, com os efeitos sobre os cidadãos, particularmente no domínio das relações entre a escola e a sociedade. Relevante neste tipo de análise é, ainda, a apreciação das diferentes funções da educação, que não só as que preparam o indivíduo para a vida em sociedade, mas também as demais que contribuem para a integração profissional, política e cívica do cidadão. Neste grupo, podemos ainda analisar as questões relacionadas com o acesso, a igualdade de oportunidades, a inclusão e a mudança social operada pela escolarização de um maior número de alunos e as consequências que daí resultam para a sociedade; · a terceira centra-se na dimensão organizacional da escola, sobre o sistema educativo, no seu conjunto, e o relacionamento deste com o meio ambiente. No primeiro caso, cabem as análises sobre a tipologia do sistema; no segundo, os aspectos que se prendem com a análise do funcionamento das organizações escolares, com a sua organização, estrutura, liderança, participação pública e abertura à sociedade; · a quarta preocupa-se com a dimensão territorial das iniciativas de acção educativa, particularmente no que respeita à sua extensão territorial e à sua interligação com as diferentes políticas públicas. Aqui, importa ter em atenção a extensão da rede de equipamentos de ensino e os seus efeitos na organização do território; as formas de articulação entre o poder central e o poder local, ao nível da transferência e da partilha de poderes, e a integração entre as diferentes políticas públicas; · a quinta atende à dimensão prospectiva e ao desenvolvimento futuro da educação. Pela sua natureza, este tipo de análise tem a ver com a antecipação dos cenários relacionados com o futuro e a prospectiva em educação, o projecto de sociedade e os pilares de desenvolvimento em que este deve assentar; · a sexta, e última, realça a dimensão comparada de análise das políticas de educação. Neste caso, incluem-se os múltiplos aspectos que permitem identificar as semelhanças e diferenças entre os sistemas educativos, quer em relação ao seu funcionamento global, utilizando indicadores, quer através da análise dos modelos de governação. Estes são diferentes aspectos que permitem a análise das políticas comparadas no âmbito da educação e da formação. 258 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos No seu conjunto, estes aspectos têm em linha de conta uma perspectiva sistémica de análise dos fenómenos sociais e educacionais. Defendemos que o sistema de ensino deve ser tratado como um todo, interagindo com o seu meio e enquadrado por contextos distintos, tais como o histórico, o sociocultural e outros. Os efeitos das medidas de política da educação fazem-se sentir não só a nível individual, mas também societal e organizacional. Mais ainda, exercem a sua influência sobre as dinâmicas que acompanham as opções estratégicas relacionadas com a organização e o desempenho do sistema de ensino e de formação; repercutem-se sobre as organizações e os territórios educativos dominados por “nós” de uma rede mais extensa, que se dá pelo nome de “rede escolar”, e pelas circunscrições territoriais de maior extensão. De facto, embora incidindo sobre uma população escolar diferenciada, as tomadas de decisão relativas ao sector da educação e da formação exercem a sua acção sobre o território, o seu ordenamento e sobre os fluxos de pessoas, de capitais, de informação, de conhecimento e outros. Permitem, além disso, construir espaços cimentados pela formação e conhecimento, tanto mais evidentes quanto maior for a dinâmica associada a estes processos. As considerações acima referidas não escondem a oportunidade de análise das políticas de ensino numa perspectiva sectorial e aprofundada, sobretudo no âmbito da ciência política, da economia, da demografia, da sociologia ou de outras ciências sociais. Neste caso, as abordagens incluem não só o estudo dos fenómenos educacionais, mas também o seu tratamento especializado, com base no corpus científico dessas matérias. Em qualquer dos casos, a política de educação deve manter como epicentro a escola, sendo condicionada por contextos bastante diferenciados, que passamos a referir. Contextos Como acção social deliberada, a preparação e execução das políticas sociais, educativas, culturais e outras são condicionadas pelo seu meio ou contexto. Destacamos os que nos parecem mais significativos: Contexto administrativo A construção da política educativa, o relato das iniciativas e medidas que incidem sobre o sistema educativo, sobre o seu funcionamento e desenvolvimento, bem como a avaliação dos resultados evidenciam diversos condicionalismos, nacionais e internacionais, que influenciam essas acções. Mais ainda, reflectem os diversos contextos, de natureza administrativa, política, demográfica, socioeconómica e pessoal em que as mesmas se inserem. Anteriormente, já nos referimos à importância que D’Hainaut (1980) lhe atribui. Recordamos, no entanto, como toda a análise da acção e da política educativa não pode ser desligada do meio social alargado que a acolhe, nem dos ambientes específicos que determinam as opções e as estratégias, os meios, os recursos e os resultados que as acompanham. O conjunto destes aspectos determina a diversidade de contextos de acção, de que começamos por salientar o contexto administrativo, assente em princípios estruturantes que orientam a gestão das entidades (organizações e sistemas) que têm a seu cargo a concepção, execução e avaliação das políticas de educação. Este contexto assenta num leque de princípios orientadores da actividade administrativa. Jorge Carvalho Arroteia 259 Contexto demográfico A oferta dos equipamentos educativos e as acessibilidades conferidas à frequência da escola, ditadas por princípios que têm a ver com a construção de um projecto político e social, dependem, em termos reais, da pressão demográfica exercida pelo montante, pela distribuição e pela estrutura da população residente. Daí a relevância do contexto demográfico, relacionado com a carga e os movimentos da população, na construção da política de educação. Embora direccionada a todos os cidadãos, os resultados da política educativa são fortemente condicionados pela extensão das diferenças territoriais, nomeadamente as assimetrias existentes, que entravam a sua aplicação e resultados. Contexto pessoal e social A natureza social da educação exige que se atenda às dimensões pessoal e social da educação, as quais podem justificar alguns tipos de medidas de política de educação, orientadas para certos grupos de alunos, de cidadãos e da população em geral. Embora tendo presente a acção educativa direccionada ao cidadão, a política educativa deve ter em consideração as necessidades dos diferentes estratos sociais que depositam nas iniciativas de carácter político fundadas expectativas de mudança, de desenvolvimento social e cultural e, sobretudo, de desenvolvimento humano. Contexto político Mais do que o contexto administrativo, o contexto político é o principal responsável pelo processo de acção educativa, a nível da concepção, desenvolvimento, regulação e avaliação da política de educação. Em regimes democráticos, estes atributos decorrem da responsabilidade que advém do sufrágio universal e do exercício dos mandatos de Governo, elaborados segundo as bases ideológicas e programáticas do partido no poder e sufragados nas urnas. A aprovação, em assembleia parlamentar, dos diplomas legais que regem a actuação do Governo deverá estar articulada com os princípios universais consagrados na DUDH e com outros princípios basilares assentes no direito e em convenções internacionais. No seu conjunto, os valores universalmente aceites constituem a armadura política que suporta o conjunto de iniciativas e de decisões no âmbito da política de educação. Tendo presente a situação portuguesa, a CRP (artº 16) estabelece que os “preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados e integrados em harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem”. Mais ainda, no seu artº 111, define que “o poder político pertence ao povo e é exercido nos termos da Constituição”, sendo que “a participação directa e activa dos cidadãos na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático” (artº 112 – CRP). Contexto socioeconómico A relevância do contexto socioeconómico ultrapassa a atenção que devemos dar aos aspectos relacionados com as disponibilidades e as oportunidades de natureza económica estabelecidas no país, mas deve atender às grandes questões relacionadas com o processo de desenvolvimento de uma sociedade e ao papel que à educação cabe nesse processo de crescimento. Procura social da educação O aumento crescente da população escolar, em todos os níveis de ensino, tem sido um fenómeno comum registado em diversos contextos e países do globo, principalmente nos países em vias de desenvolvimento, justificado por razões de natureza demográfica e de política de educação. A primeira prende-se com o crescimento da população e com o aumento do seu movimento natural; a segunda justifica-se pelos esforços de democratização e pela importância crescente atribuída à educação e à formação, como potenciadoras do desenvolvimento económico, social, e à inovação. Este movimento tem vindo a prosseguir na actualidade, não só por razões de natureza individual (decorrentes das expectativas do indivíduo), social (derivadas do processo de mobilidade social), e económica (valorização crescente dos diplomas), mas também de índole cultural (enriquecimento e satisfação das necessidades de aprendizagem) e tecnológica (decorrentes da maior segmentação e estratificação do trabalho social). Estas são algumas das causas que levam à procura crescente da educação, encarada, globalmente, como factor de desenvolvimento humano e de progresso social. Assim o encarou a UNESCO, que, em tempo, justificou este fenómeno: “Pour la majorité des états membres (de l’Unesco), il apparaît indispensable d’accroître l’éfficacité du dispositif éducatif dans une perspective de développement global, en cherchant à appréhender et à maîtriser les inter-relations entre l’ensemble des processus éducatifs et l’environnement économique, social et culturel”. Repare-se, no entanto, que, a par das dificuldades de natureza económica apresentadas pelos países onde a expansão dos sistemas de ensino se registou com maior intensidade, a progressão nos estudos da população jovem é contrariada pelo próprio sistema de ensino, em regra mal adaptado às necessidades dos alunos e às próprias necessidades de desenvolvimento sentidas na actualidade. Por outro lado, devemos, igualmente, contar com as dificuldades crescentes dentro do próprio sistema, já que, como nota Girard (1970, XXVII), “apesar da mobilidade crescente, a probabilidade de acederem aos estudos superiores e de ocuparem funções elevadas na vida profissional não é igual para as crianças dos diferentes meios”. Particularmente significativas são as diferenças encontradas, em países de imigração, entre a população escolar autóctone e a população imigrante. Nestes casos, as perspectivas de mobilidade social destes alunos parecem ser mais reduzidas, devido aos mecanismos de ascensão e de mobilidade social serem mais apertados para estes cidadãos. No que respeita à situação portuguesa, verifica-se que a evolução da população escolar no sistema educativo acompanha as tendências da regressão demográfica, causada pela quebra 262 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos de nascimentos. Mesmo assim, a procura da educação nos diversos níveis e ciclos de ensino, do pré-primário ao superior, constitui um fenómeno que deve ser analisado, não só na perspectiva demográfica, mas também social, devido às expectativas de mobilidade social conferidas pela obtenção de um diploma. Assim, dentre os diferentes tipos de análise relacionados com a procura do ensino, destaca-se a democratização do mesmo, registada na sociedade portuguesa no último quartel do século XX, que se afigura como aquela que se manifestou com maior evidência na sua evolução e resultados. A abertura do sistema educativo a um número crescente de alunos, o alargamento progressivo da rede de estabelecimentos de ensino, as expectativas geradas pela obtenção de uma formação especializada e a obtenção de um diploma explicam uma procura acentuada da educação, praticamente em todos os subsistemas de ensino. No domínio da educação pré-escolar, a procura acompanhou a emancipação progressiva da mulher, e a sua inserção no mercado de trabalho tornou-se inevitável à medida que as novas oportunidades de emprego e a alteração dos padrões de família tradicionais cederam aos impactos da industrialização-urbanização e à terciarização da nossa sociedade. E o alargamento da rede actual configura-se tanto como o resultado daquelas tendências como pelo entendimento da importância da educação de infância no desenvolvimento cognitivo, escolar e social da população mais jovem. Quanto ao ensino básico, a sua evolução a partir da década de setenta faz transparecer duas situações distintas: a conjugação dos factores demográficos com a natalidade em franca recessão e os reflexos da política educativa posteriores à publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº 46/86), que promoveram o aumento da “esperança de vida” escolar e o alargamento da escolaridade obrigatória para nove anos. Independentemente das vias em que se desenvolve o ensino secundário, a progressão de alunos neste “ciclo”, terminal para uns e intermédio para a maior parte da população escolar que entra no ensino superior, realça o “efeito de onda” causado pela maior permanência dos discentes no sistema e da sua transição para o ciclo seguinte. Tal facto sugere o aprofundamento de estudos relacionados com o conhecimento não só da evolução da população escolar no decurso das últimas décadas, mas também os resultados imediatos dos investimentos realizados neste sector. Como observa Azevedo (2002) num estudo sobre a educação em Portugal no início do século XXI, “a sociedade está a mudar muito e a nova “sociedade do conhecimento” parece defluir sobre a realidade social portuguesa simultaneamente como uma enorme oportunidade e como um pesadelo incomensurável”, até porque, com o acentuar das assimetrias sociais e espaciais, o alargamento da Europa aos países de Leste “e o incremento da competividade da economia de mercado constituem factores acrescidos de preocupação” (Op. cit., p. 7). Os exemplos acima referidos testemunham a existência de uma rede nacional de formação que abarca estabelecimentos de ensino público e de natureza particular e cooperativa. A sua criação foi determinante para que o processo de democratização do ensino e da própria sociedade se garantisse e consolidasse. Com esta, abriram-se novas oportunidades de aprendizagem, bem como novas perspectivas de formação e de mobilidade social, contrariando, assim, os figurinos dominantes que reconheciam a educação como um privilégio das “élites”, acessível, quase exclusivamente, aos dotados de maior capital económico e cultural. Quanto ao ensino superior, a abertura do subsistema universitário seguiu a lógica dos princípios que tiveram na base a Revolução de Abril e que defendiam a aproximação Jorge Carvalho Arroteia 263 progressiva das diferentes classes e grupos sociais. E a frequência escolar, mas principalmente o ensino superior, desde sempre responsável pela formação das “classes dirigentes”, foi então encarado como um factor determinante da democratização da própria sociedade. A análise da evolução recente deste subsistema de ensino sugere algumas reflexões. Em primeiro lugar, e considerando o subsistema de ensino superior no seu todo, a formação especializada de longa duração, indispensável ao progresso científico e tecnológico do país, tornou-se acessível às camadas letradas e populares, por via do alargamento progressivo da rede escolar e da institucionalização do “sistema binário” (universitário e politécnico). Note-se que a aproximação gradual de Portugal à Europa e a sua integração na União Europeia obrigam a uma qualificação crescente da população portuguesa. Esta qualificação tem vindo a ser implementada pelo poder político, favorecendo a criação de uma rede pública de estabelecimentos de ensino universitário e politécnico, de uma rede de estabelecimentos de natureza concordatária e de uma rede de estabelecimentos de ensino superior de natureza particular e cooperativa. Sem pretender recuar no tempo, lembramos que as “cohortes”, que, primeiramente, experimentaram os efeitos da abertura do sistema educativo, da expansão da rede, do alargamento da escolaridade obrigatória e da melhoria das acessibilidades física, cultural e económica da população portuguesa, constituíram um primeiro e largo caudal demográfico que as instituições universitárias e politécnicas, públicas, concordatárias, particulares e cooperativas acolheram sem grandes restrições. Contudo, porque o número de nascimentos se manteve tendencialmente decrescente e apesar das taxas de escolarização, sobretudo nos grupos etários mais jovens, terem aumentado, a oferta continuou a subir, gerando os primeiros sintomas de preocupação. Na situação actual, a frequência dos estabelecimentos de ensino superior, sendo inferior à capacidade de acolhimento do próprio sistema, tem vindo a gerar sinais evidentes de uma crise quantitativa de alunos, sugerindo novas estratégias de recrutamento e de acolhimento da população discente. Para além do défice de alunos face à capacidade de acolhimento actual, juntaram-se indicadores de ausência de qualidade (devido à expansão, não regulada, deste subsistema de ensino), que, afectando alguns “nós” desta rede, acaba por denegrir alguns dos estabelecimentos que integram a referida malha. De facto, como assinala Costa (2003, p. 99), “em especial na década de 90, o percurso evolutivo do ensino superior assumiu uma fase de crescimento alucinante, sem qualquer lógica de racionalidade organizativa, sempre sacrificada pela intenção de um aliciamento fácil da procura, perante a qual foram perdendo sentido critérios de exigência qualitativa, intenções de resposta, motivações de natureza vocacional ou preocupações de relevância socioeconómica ou cultural dos cursos que eram ministrados”. Sendo certo que a expansão recente da rede de ensino superior não obedeceu a critérios de correcção das assimetrias espaciais, nem tem respondido cabalmente às necessidades de formação dos recursos humanos necessários ao desenvolvimento regional, parece-nos, mesmo assim, que, no seu conjunto, as instituições de ensino, universitárias e politécnicas, de natureza pública, concordatária, particular e cooperativa, geraram sinergias potenciadoras do desenvolvimento endógeno e da formação do “capital humano” que o país tem vindo a aproveitar. Mais recentemente, esta procura pode ser encarada como resultado, também, da saturação do mercado de emprego, incapaz de absorver, em tempo útil, os excedentes de 264 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos mão-de-obra jovem e adulta no fim de alguns dos ciclos de formação académica e profissional. Mesmo assim, a procura da educação tem sido encarada como facilitadora da promoção social e profissional dos novos diplomados, juntando-se à função que lhe é reconhecida, por algumas correntes do pensamento, a sua capacidade de romper com a estratificação social dominante e auxiliar a mobilidade social dos alunos bem como permitir a inovação, a mudança e o desenvolvimento socioeconómico e cultural da sociedade portuguesa. Sempre que o sistema educativo não se encontra em condições de acolher todos os alunos que o procuram, gera-se o excesso da população escolar, que se traduz no fenómeno de massificação escolar e de crise. Alunos A apreciação do desenvolvimento dos sistemas de ensino pode ser expressa não só em termos de frequência de alunos, mas também através da análise da população docente e dos funcionários que garantem o seu funcionamento. Importa assinalar que por alunos entende-se o indivíduo matriculado no sistema educativo e, por isso, sujeito a um conjunto de normas, de deveres e de direitos relacionados com a postura cívica, a aprendizagem e a avaliação de conhecimentos atinentes às necessidades formativas e de desenvolvimento humano e cívico. O conjunto destes princípios são referidos em documentos próprios – “Estatuto do Aluno” –, de que referimos a Lei nº 30/2002 de 20 de Dezembro, relativa aos alunos do ensino não superior. De acordo com este documento (artº 11), “a matrícula em conformidade com a lei confere o estatuto de aluno”, o qual compreende direitos e deveres aí consagrados. No seu todo, promove “a assiduidade, a integração dos alunos na comunidade educativa e na escola, o cumprimento da escolaridade obrigatória, o sucesso escolar e educativo e a efectiva aquisição de saberes e competências” (artº 2). A admissão e registo permite conhecer o total de inscrições e os movimentos dos alunos dentro do sistema, no caso deste se organizar em ciclos de estudos, obrigatórios ou não. A esta evolução do número de inscritos designamos por frequência, expressa em valores globais, por ciclo de estudos, por curso e ano escolar. Estes dados traduzem-se, geralmente, em valores globais, ou brutos, representados por “taxas”, para os separar dos que expressam as suas relações com outros elementos através do cálculo de indicadores de natureza diferente, como os “quocientes”, os “rácios” e outros. A análise da população escolar, em particular dos alunos, tem vindo a ser realizada através de publicações e outras fontes de informação divulgadas pelas entidades oficiais, em especial pelo Ministério da Educação, por académicos e outros estudiosos com preocupações na área da educação e pelas diversas ciências que lhe consagram os seus estudos. Escolarização O aprofundamento do significado de alguns valores relacionados com a frequência e o aproveitamento escolar pode ser apreciado através da qualificação académica da população, registada aquando da realização dos censos da população. O mesmo pode ser completado, anualmente, através da consulta de estatísticas especializadas, tais como as “Estatísticas Demográficas” e as “Estatísticas da Educação”, que permitem calcular a “relação percentual entre o número de alunos matriculados e a população residente, em cada uma das idades” Jorge Carvalho Arroteia 265 (SILVA, 2006, p. 82). Se tivermos em conta os dados do último censo da população (INE, 2002, LXVII), em 2001 a situação era a seguinte: · “Em 2001, a maioria da população portuguesa tinha apenas completado o 1º ciclo do ensino básico (27,8%) ou não sabia ler nem escrever (26,4%). A população que completou o 2º e o 3º ciclos representava em cada ciclo 13,8% do total. Nos restantes níveis, destaca-se o ensino secundário com 11,0% e o ensino superior com 7,1%. · No período intercensitário, verificou-se uma melhoria das qualificações académicas tanto para homens como para mulheres. Nos ensinos secundário e superior, as proporções quase duplicaram, sendo mais elevadas para a população feminina, especialmente ao nível do bacharelato/licenciatura. · A situação das mulheres manteve-se mais desvaforável nos níveis mais baixos (sem qualquer qualificação e 1º ciclo do ensino básico).” Os dados acima referidos podem ser completados através de uma análise evolutiva, calculados por Silva (2006, p. 82), segundo os níveis de educação/ensino, público e privado, em diferentes anos lectivos. No seu conjunto, e à parte das diferenças que reflectem a nível regional, urbano e rural, são reveladores do processo de democratização do ensino em Portugal e das políticas sociais e educativas levadas a cabo nas últimas décadas. Quadro 12 Ano lectivo 1985/86 1990/91 1995/96 2000/01 2003/04 E.P. Esc. 26,7 47,1 55,7 74,8 77,1 1º CEB 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 2º CEB 60,7 71,7 88,1 87,0 86,9 3º CEB 41,0 58,3 80,8 86,8 82,0 E. Sec. 17,8 31,0 58,8 62,5 58,0 E. Sup. (%) 6,0 10,8 20,3 26,1 27,3 Este valores, de índole geral, devem ser completados através do cálculo de alguns indicadores, de frequência, aproveitamento, sucesso, inserção na vida activa e outros, que permitam a sua comparação entre diferentes regiões do país e o melhor conhecimento do funcionamento interno do sistema educativo. Passaremos a enunciar alguns deles, deixando a sua explicação e cálculo para ser apreciado noutros estudos da especialidade. Os indicadores de resolução mais simples referem-se à “escolarização” dos alunos, expressas nas respectivas taxas. Recorde-se que, de acordo com Pressat (1979, p. 243), as “taxas” poderão definir-se como uma relação entre os acontecimentos registados numa dada população e a sua população média durante um determinado período, sendo designadas “taxas brutas” as que medem a frequência com que os fenómenos demográficos se manifestam no conjunto da população e “taxas específicas” as que se restringem a determinadas parcelas dessa população. De acordo com esta definição, ganham particular relevância as seguintes: quanto à “escolarização”, as taxas bruta, geral e específica de escolarização. 266 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Um segundo grupo de indicadores diz respeito às taxas de “aproveitamento”. Destas, destacamos as taxas de aprovação e de reprovação, as taxas de repetência e de passagem, a taxa de retenção, etc. No que concerne aos “abandonos”, salientamos as taxas de abandono dos aprovados e dos reprovados e a taxa de desistência. Por fim, resta considerar outros indicadores ou índices relativos, por exemplo, ao aproveitamento escolar e às entradas e saídas do sistema. Não sendo tratados de forma exaustiva, os indicadores anteriores permitem-nos, se devidamente calculados, conhecer alguns dos aspectos da demografia interna do sistema educativo, sendo certo que tal informação será ampliada se, aos elementos em apreço, associarmos outros dados, tais como os rácios e os quocientes, que melhor nos permitam aprofundar o diagnóstico deste sistema. Da mesma forma, será vantajosa a utilização de outros indicadores que contemplem a cobertura e a estrutura do sistema, a qualidade e o rendimento do processo educativo, os seus gastos e financiamento e, eventualmente, os restantes indicadores de natureza macroeconómica, social e cultural que precisem o contexto em que se desenvolvem as actividades de ensino-aprendizagem. Massificação escolar O acréscimo, constante, da população escolar, sobretudo nos ciclos elementares da educação formal – escolaridade básica – ou mesmo nos ciclos mais avançados do secundário e superior, tem-se vindo a reflectir não só na saturação dos sistemas educativos, mas, acima de tudo, na deterioração quer da qualidade de ensino quer das condições do exercício da profissão docente. Daí que, procurando responder às solicitações desta população (em crescimento), a escola tenha relevado alguns dos atributos que a identificavam como elemento principal do processo de desenvolvimento humano e de socialização. Algumas das questões acima referidas estão, hoje em dia, a ser contrariadas devido à quebra da natalidade e à redução natural da procura do ensino, permitindo, assim, uma reflexão adequada sobre as medidas de política educativa que contrariem os efeitos do excesso da frequência escolar. Note-se, mesmo assim, que a procura social que, hoje, se verifica em certas áreas da formação e do ensino realçam a necessidade de se atender ao incremento dos limiares de frequência de certos cursos e instalações, promovendo a sua habilitação, de forma a responder à necessidades locais e nacionais de formação de recursos humanos. Por isso, se impõe a formulação adequada de políticas de formação e ensino que tenham em conta os princípios basilares do planeamento da educação, da gestão adequada de todos os seus recursos, físicos, humanos e financeiros, e a participação acrescida da comunidade e das autarquias locais. Crise de educação O debate em torno da situação dos sistemas educativos, confrontados, hoje em dia, com um aumento da procura dos recursos humanos, materiais e financeiros e com as expectativas crescentes, relacionadas com os resultados e o desempenho, tem vindo a alimentar um conjunto de reflexões, sugeridas por diferentes autores e organismos internacionais. Jorge Carvalho Arroteia 267 Entre estes, destaca-se a UNESCO, que, em 1968, promoveu, em Paris, a “Conférence Internationale sur la Planification de l’Éducation”, consagrada a este tema. É reconhecido entre os economistas da educação que a crise da sociedade actual exerce os seus efeitos sobre a educação, traduzindo-se os mesmos ao nível: político, devido ao fracasso dos sistemas político-sociais; económico, devido à escassez de recursos financeiros; social, resultante do excesso da procura; ético, acompanhando a crise de valores e técnico, decorrente do processo acelerado de mudança social. Os resultados destas mudanças são sentidas por uma população numerosa, sobretudo os jovens, para os quais o seu futuro não deve, necessariamente, inscrever-se “nos limites de uma sociedade inexoravelmente votada ao desemprego e à precariedade” (ÉLIARD, 2000, p. 126), em que se questiona a missão da escola, “não em termos de adaptação à sociedade actual, em vias de mudança, mas em termos de futuro, de progresso da humanidade” (Op. cit., p. 128). Note-se, contudo, que o acréscimo de frequência escolar, decorrente do processo de democratização do ensino, foi responsável pelo aumento da população escolar, não só nos níveis correspondentes à formação de base, mas também noutros ciclos de ensino, encaminhando para a escola um número crescente de alunos com diferentes origens geográficas e sociais. Este fenómeno foi acompanhado por uma utilização intensa dos equipamentos educacionais e por um aumento das despesas de funcionamento, com a construção de novos edifícios e aquisição de equipamentos, contratação e formação de recursos, apoios concedidos aos alunos, etc., levando a uma redução da eficácia e da qualidade dos serviços educativos. Em alguns contextos, ao fenómeno de explosão escolar associaram-se outros acontecimentos de natureza política, económica, social e cultural que afectaram o funcionamento dos sistemas de ensino, no seu conjunto, levando ao agravamento das condições de ensino e ao desfasamento entre as necessidades e as respostas, as expectativas e o produto, os projectos e a sua gestão e desenvolvimento. Tais situações alimentaram o conceito de crise, designação que identifica as consequências da grande afluência escolar registada durante os últimos anos, na maior parte dos países do globo; o aumento da procura social da educação, em áreas de formação e especialização profissional (no caso dos países desenvolvidos) ou a nível da educação básica (nos outros países); a quebra da qualidade do ensino e a ineficácia dos sistemas educativos, constantemente confrontados com as mutações sociais, económicas e tecnológicas, registadas na actualidade. A este respeito, parece-nos pertinente evocar um relato extraído de um estudo promovido pelo Ministère de l’Éducation du Québec (1982), sobre a quebra de confiança na Escola, facto que tem vindo a acentuar-se, devido a: · “O público em geral não acredita que o sistema escolar seja capaz de definir, e, ainda menos, atingir, os objectivos prioritários; · os pais julgam que os professores são incompetentes para promoverem as aprendizagens dos seus filhos; · os professores estão cada vez menos convencidos que os seus alunos (estudantes) são capazes de estudar; · os pais, e a sociedade em geral, implicam-se cada vez menos nos trabalhos escolares; · os governos estão cada vez menos disponíveis para conceder fundos adicionais destinados ao desenvolvimento escolar”. 268 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos O conjunto destas observações sugere o desenvolvimento de estratégias pedagógicas, administrativas e de gestão, que privilegiem a inovação e a mudança, uma utilização eficaz dos recursos disponíveis e a divulgação de métodos de ensino que permitam uma resposta adequada, e em tempo oportuno, aos desafios que hoje se colocam aos sistemas de ensino e de formação, nomeadamente as que respeitem: a modernização dos processos de gestão, dos conteúdos e dos métodos de ensino; a formação dos docentes; o alargamento da rede dos estabelecimentos públicos e não públicos; e a participação alargada da sociedade em iniciativas relacionadas com a acção e a política educativa. Em suma, podemos assinalar, tal como fez Cabanas (1984, p. 29), que a crise da e na educação “baseia-se no desfasamento existente entre as necessidades e as respostas do sistema educativo”. Profissão docente As preocupações que, nos últimos anos, têm surgido devido ao processo de democratização do sistema educativo português traduzem-se no aumento da população discente e docente. Este fenómeno está na origem da profissionalização do corpo docente, uma vez que a “sociedade exige, crescentemente, um professor qualificado, tanto nos planos científico e tecnológico, como nos planos cultural e pedagógico” (PARDAL, 1993, p. 28), bem como o desenvolvimento de estudos diversos, relacionados quer com as características organizacionais da escola, quer com o exercício da profissão docente, nomeadamente no contexto das organizações escolares e no confronto com as outras profissões. Sobre este assunto, Barroso (1999, p. 29) afirma que “a maior parte dos estudos organizacionais sobre a escola têm demonstrado de que modo as características do trabalho docente contribuíram para alterar as estruturas burocráticas que serviram de modelo à administração e organização da escola pública”, facto que tem a sua origem na “forte exigência de profissionalismo dos seus agentes” (Loc. cit.). Por sua vez, Mendes (1996) discute o tema do profissionalismo docente em Portugal, tendo afirmado que “o enquadramento da profissão docente no contexto geral das ocupações sociais é objecto de interpretações divergentes consoante o quadro teórico e conceptual subjacente ao exercício (…)” (Op. cit., p. 11). Noutro estudo dedicado ao mesmo assunto, o referido autor (MENDES, 2000, p. 4) diz-nos que “os professores são naturalmente aqueles sobre cujos ombros a sociedade deixou cair o mais pesado fardo, quase todo feito de exigências e de responsabilidades”. De facto, perante a diversidade de públicos que frequentam a escola e as expectativas pessoais que encerram, torna-se difícil, num contexto de profundas mudanças sociais e de desenvolvimento tecnológico, bem como de profundas alterações organizacionais na gestão pedagógica e administrativa destas instituições, desenvolver uma adequada construção e actualização de modelos de formação e de desempenho desta profissão. De facto, como assinala Barroso (1999, p. 29), o governo das escolas “exige um forte compromisso entre o Estado e os profissionais que permita preservar uma ética do serviço público, no quadro de uma relação profissional face a face, em que o prestador de serviço (o professor) desenvolve a sua acção como o agente dos interesses do segundo (aluno-cidadãos e suas famílias), devido à confiança que nele depositam e ao capital de conhecimentos e de informação que possui”. Ainda sobre este tema e relacionado com os reptos desta profissão, Mendes (Loc. cit.) interroga-se sobre “is teaching a science or a art?”. A resposta é a seguinte: “preferimos responder que o trabalho dos professores é evidentemente enformado por contributos “científicos” e “artísticos”, resultantes de um complexo processo de socialização profissional e 270 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos não só, o que confere às suas escolhas (…) um carácter inevitavelmente ‘político’, relegando o ‘técnico’ para o devido nível da instrumentalidade que lhe cabe”. Para além de diferentes contributos científicos acerca da matriz de formação dos docentes, sobre a qual Mendes (Op. cit., p. 97-156 ) destaca a do “professor como professor reflexivo” (Schon), a de “professor-investigador” (Stenhouse) e a de “professor como intelectual transformador” (Giroux), reconhecemos o como o exercício desta profissão exige uma sólida formação científica de base, complementada por sucessivas formações ao longo da vida. Mais ainda, torna-se necessário que se atenda à especificidade das organizações escolares e dos novos públicos, à natureza das matérias leccionadas e ao perfil de saída dos diplomados pelo ensino superior, de modo a entendermos os desafios e as oportunidades relacionadas com o exercício da profissão docente. Embora reconhecendo a dificuldade desta reflexão, apresentamos algumas questões que se prendem com o exercício da prática docente e com as necessidades específicas de formação, relacionadas com o desempenho da actividade docente. Vejamos alguns aspectos que determinam a abertura permanente à formação ao longo da vida, ao desenvolvimento da investigação e à participação docente, decorrente da alteração dos contextos sociais e da escola. Consideramos, em primeiro lugar, as alterações dos contextos, social, económico, cultural, tecnológico e científico, decorrentes das transformações sociais que se têm operado de forma acelerada, agindo como indutores de processos de globalização que se repercutem na escola, na família e na sociedade, influenciando os alunos, os pais e os professores. Tais transformações levam-nos a encarar a necessidade não só de novos modelos de formação inicial, mas também de novas formas de organização e de gestão pedagógica e institucional que facilitem a tarefa docente, a construção do conhecimento e a sua adequação aos novos cenários impostos pela mobilidade, internacionalização, ensino à distancia e aprendizagem ao longo da vida. Num contexto social marcado pelas alterações dos sistemas sociais e educativos decorrentes da abertura da escola a públicos diversificados nas suas origens geográficas, sociais e culturais a democratização surge como principal responsável pelo aumento da frequência escolar, pelo alargamento da rede, pelo aumento da população (discente, docente e funcionários), pela diversificação das tarefas e dos serviços educativos, pelo maior envolvimento dos diversos actores sociais, nomeadamente dos empregadores – que, cada vez mais, reclamam uma ampla participação nos processos de decisão e de gestão do sistema educativo –, os seus efeitos repercutem-se não só na escola, mas também no desempenho profissional dos docentes. De facto, com a democratização do ensino, a escola acolheu, igualmente, uma população docente heterogénea na sua formação e interesses, nas suas expectativas e projectos, no seu envolvimento e participação na vida da própria instituição escolar. E como foi notado, trouxe, igualmente, alunos herdeiros de diversas culturas e bens culturais, possuidores de capitais diferenciados e de heranças de saber distintas, de todo difíceis de integrar em modelos de formação e em projectos educativos estáticos, menos atentos à diversidade desta população discente. De facto, numa sociedade em mudança implica ter em atenção a emergência de um novo tipo de aluno e de indivíduo, capaz de expressar, através da sua formação, os efeitos da cultura (formação) adquirida através da sua frequência da instituição escolar. No plano individual, alguém capaz de se integrar socialmente, nomeadamente através do exercício de uma profissão. Jorge Carvalho Arroteia 271 Por outro lado, o exercício da actividade docente em instituições que são solicitadas a abrir-se à sociedade local, à comunidade de origem urbana, industrial ou de serviços, comunidades estas detentoras de saberes e de experiências diferenciados, de projectos e de culturas distintas, de tradições e de heranças socioculturais diferenciadas, exige das instituições de ensino superior e dos seus agentes posturas e modos de intervenção distintos. Tal facto decorre do exercício da actividade docente e da sua actividade num contexto em que as escolas, na sua origem, objectivos e funções, repartem a sua acção com outros meios de saber, formativos e culturais, e com outras entidades, formais e paralelas, que convergem, à sua maneira, para a construção do conhecimento. Embora não estando em causa a razão da instituição escolar nem a especificidade destas organizações sociais, quedamo-nos perante algumas das funções que lhe são mais adequadas. Referem-se diversos autores à sua função primordial, de capacitação profissional, e à função de mudança social que desempenha nas sociedades hodiernas. Capacitação profissional que deve habilitar para o desempenho de uma actividade específica, mesmo que a sociedade actual se veja tão confrontada com a mutação dos saberes, com a evolução dos conhecimentos, com o domínio das novas tecnologias, com a obsolescência dos saberes tradicionais, com a precariedade dos estatutos sociais e, com o questionamento constante dos modelos de formação. E se a formação ao longo da vida entrou já no nosso quotidiano, não será possível à escola e ao professor preparar-se para a mudança se ele próprio não interiorizou essa mudança e se não lhe forem dados meios para a sua constante e permanente actualização. O mesmo acontece se as escolas não forem capazes de acompanhar, a par e passo, a evolução da própria sociedade ou se esta não as considerar como parceiros adequados para este desafio. Se não se consolidar uma cultura adequada, ou “ethos” organizacional, capaz de enfrentar a mudança como uma necessidade e não como algo que trava a liberdade e desempenho dos professores, e se não forem, enfim, tomadas iniciativas facilitadoras do desempenho da profissão docente no âmbito da “pedagogia de ensino superior”, não é possível renovar a Escola. As exigências contidas na LBSE, relacionadas com as qualificações do professor do ensino superior (artº 32), exigem a habilitação académica de grau de doutor, de mestre ou de licenciados “que tenham prestado provas de aptidão pedagógica e capacidade científica”. Contudo, não são considerados parâmetros específicos os atributos individuais relacionados com a capacidade de exposição e de síntese, a comunicação interpessoal, a disponibilidade pessoal perante os alunos ou mesmo a valorização concreta destas características, a par da capacidade investigativa. O exercício da actividade docente, nos contextos que descrevemos e nos cenários que apresentámos, constitui um desafio a toda a prova: uma tarefa que exige saber, tenacidade, doação e empenhamento, formação constante e orientada para enfrentar as novas realidades e contextos societais, o exercício de novas funções e a perenidade da acção da velha instituição escolar. Ser professor não é, apenas, ser um actor social, interessado no devir da própria instituição escolar e atento aos sinais de mudança que afectam o seu funcionamento. Nos dias de hoje, é ter igualmente em conta o exercício de uma profissão distinta das demais, pelas funções pedagógicas e científicas que desempenha, pelos métodos de trabalho que utiliza e pelos resultados que obtém. 272 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Tal reflexão obriga-nos a considerar outros aspectos inerentes à profissão docente, nomeadamente os que se relacionam com as representações sociais do próprio docente, que podem assumir significados diferentes consoante o subsistema de ensino – universitário ou politécnico – e a tipologia da instituição em que se lecciona e as características da comunidade e da sociedade em que se vive. Daí que o exercício da função docente tenha no domínio das representações sociais e dos efeitos práticos dessas representações (traduzidas no valor dos respectivos salários ou no estatuto social da carreira docente) efeitos muito diversos, que se repercutem, inevitavelmente, no desempenho da profissão. Este facto exige estratégias diferenciadas, que condicionam a tarefa e o múnus profissional, referentes ao desempenho profissional e à mobilidade. Mobilidade que decorre da natureza da função docente, muitas vezes geradora de conflitos com a profissão, com a instituição, com os alunos e com a sociedade. Mobilidade imposta pela identificação e escolha de estratégias adequadas ao desempenho profissional. Estratégias estas que, iniciadas geralmente na titularidade de um Mestrado ou já de um Doutoramento, marcam formas distintas de desempenho e de progressão numa carreira definida por estatutos autónomos (universitário e politécnico). Importa, ainda, atender à produção/reprodução de ambientes escolares diferenciados, de produções/reproduções sociais diversificadas, relativas ao exercício profissional e, muitas vezes, geradores de conflitos geracionais que afectam, indistintamente, esta profissão. E é nestes contextos que emergem diversas orientações metodológicas e linhas de pensamento, diferentes actuações e práticas profissionais, distintos actores, muitas vezes com linhas de orientação metodológica contraditórias, onde as experiências de natureza individual ou mesmo grupal se sobrepõem, tantas vezes, às linhas de orientação metodológica dos programas e dos projectos educativos definidos pela própria instituição escolar. Contudo, o exercício da docência no ensino superior exige o ser solidário ao nível da instituição onde se lecciona e da área científica e profissional em que se integra, dando, assim, oportunidade à sobrevivência e à continuidade da instituição escolar. É manter a solidariedade funcional do grupo a que se pertence e manter essa afiliação, no domínio laboral, para além da escola e da comunidade onde se reside. O enunciado das questões anteriores, embora relativas a contextos das nossas instituições escolares, leva-nos a recordar a actividade docente – entendida como acção educativa, na perspectiva de Durkheim – como uma empresa contraditória, geradora de angústia e de entusiasmo (HANNOUN, 1995). De angústia, porquanto enfrentando, no seu dia-a-dia, uma escola em mutação e um público cada vez mais diferenciado e afectado por estas transformações, o professor sente as dificuldades de, sozinho, promover essa mudança. E não consegue, por si só ou mesmo associado aos seus companheiros, mudar isoladamente a escola e muito menos a sociedade onde vive. De entusiasmo, porque a riqueza e o contacto das experiências vividas, as metodologias utilizadas e as iniciativas desenvolvidas, de acordo com a diversidade e a especificidade desses alunos, bem como os afectos cultivados permitem vislumbrar, na sua actividade profissional, a riqueza de acompanhar o crescimento e o desenvolvimento humano dos seus alunos numa interacção mútua com a própria sociedade. Os aspectos assinalados mostram como é necessário ter em conta o contexto social da própria escola e recuperar o humanismo que identificou as sociedades ocidentais; ter em atenção o desenvolvimento humano dos alunos; ter em consideração o saber e o exemplo de Jorge Carvalho Arroteia 273 professor; prosseguir métodos pedagógicos adequados, baseados em objectivos claros e no envolvimento de todos os actores (alunos e professores); ter em conta a leitura dos sinais dos tempos, como forma determinante de análise e da acção sociocultural. Embora sem pretendermos apontar qualquer resposta simplificadora da realidade complexa do exercício da função docente ou da importância das “didácticas no ensino superior”, parece-nos oportuno recordar que a criação de ambientes escolares humanizados, fundados na construção de espaços de trabalho onde coexistam o trabalho escolar e o extra-curricular, necessários ao exercício desta profissão. Aqui devemos construir espaços onde os saberes curriculares consigam responder aos insucessos das aprendizagens dos alunos e contribuir para a construção de comunidades inclusivas, centradas na formação e no desenvolvimento humano da população discente e dos professores. Parafraseando Hannoun (1995), diríamos ainda que, na sua função de educador e de produtor de conhecimentos, o professor deve conseguir: “conciliar as determinações do mundo com a liberdade da pessoa humana”. Para tanto, tem de saber aliar: · as competências profissionais adequadas que lhe permitam dominar um “corpus” científico na sua área ou domínio profissional; · auxiliar os alunos na aquisição desses saberes, promovendo e incentivando a reflexão e pesquisa próprias; · promover a exploração adequada das metodologias e técnicas de ensino que facilitem a construção de saberes fundada nas tarefas de docência e de investigação; · basear a sua actividade, nas suas dimensões formativa e de investigação, numa acção pedagógica, de natureza relacional e humanista, que dê corpo a uma nova escola e pedagogia. É neste contexto e acção que se fundamenta o interesse pelas iniciativas e realizações que se prendem com o prosseguimento de políticas que atendam, convenientemente, à formação dos recursos humanos para os diversos subsistemas de ensino, nomeadamente do ensino superior. Neste caso, justifica-se o aprofundamento da Pedagogia Universitária (REIMÃO, 2001), entendida não como uma ciência obsoleta, de carácter “oculto” ou de menor interesse, mas sim como uma nova área científica, aberta a novas investigações e de reconhecido interesse no desenvolvimento de novos contextos e situações de aprendizagem, de comunicação e de construção do conhecimento científico, no âmbito do ensino superior. Reformas de ensino O processo de mudança dos sistemas educativos e a sua adaptação às exigências de novos contextos sociais e políticos, por iniciativa reformista do Governo ou por acção externa, tal como acontece em relação ao ensino superior com a sua configuração ao Processo de Bolonha, são acompanhados de alterações pedagógicas, organizacionais e administrativas, que, dada a sua profundidade, se podem enquadrar no âmbito das reformas do ensino. Não havendo concordância em relação à sua melhor definição, transcrevemos de Figueiredo (2001, p. 26), baseado num estudo de T. Husen (1986), que o desenvolvimento de uma reforma educativa, na sua perspectiva de estratégia de formulação, adopção, implementação e avaliação, deve obedecer a seis princípios estruturantes: o primeiro considera que as reformas educativas “são parte das reformas sociais”; o segundo, relativo à inciativa da reforma, a nível nacional e central, mas exige debate, negociação, consulta pública e motivação, a nível local e institucional; o terceiro considera que, “ao planear uma reforma de grande envergadura, deve ter-se em conta as tradições e as práticas fortemente enraizadas”, considerando que a mudança deve vir a ocorrer gradualmente; o quarto obriga à maior participação possível em todas as fases de construção da reforma; o quinto deve ter em consideração a resistência à mudança; e o sexto “preconiza a necessidade de construção desde o início de um sistema de avaliação e monitorização da reforma”. Por sua vez, Colom e Domínguez (1997, p. 26) afirmam: “As reformas educativas pretendem de forma flexível desenhar as estruturas dos sistemas educativos mediante contributos específicos a fim de alcançarem a igualdade educativa entre todos os cidadãos (…). As inovações pedagógicas vão mais orientadas para a escolarização dos mais incapacitados a fim de alcançarem as quotas de aprendizagem que pode assumir: neste sentido, as políticas de compensação educativa, a implantação de novas tecnologias ou a política de integração são algumas das medidas demonstrativas das funções que se pretendem concretizar mediante medidas inovadoras”. Também Mendes (2000, p. 307) adianta que “as reformas educativas, do ponto de vista conceptual e da decisão política, são objecto de uma problematização crescente (…)”, aumentando tal “criticismo” “à medida que se vão sucedendo as experiências reformistas no terreno e à medida que o desenvolvimento das ciências sociais e humanas permite níveis de conhecimento superiores sobre a acção dos actores e seus constrangimentos e consequências”. Relativamente ao contexto europeu e internacional, o estudo realizado pela Eurydice (1997, p. 7), relativo às reformas dos sistemas educativos entre 1984 e 1994, entende por “reforma educacional” como “toda a inovação educacional que abrange a elaboração, implementação ou abolição de políticas destinadas a mudar o ‘produto social’ do processo educativo e das suas Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 276 prioridades ideológicas, económicas e políticas”. Ainda no contexto internacional, o estudo de Carnoy (1999) acerca dos efeitos da mundialização sobre as reformas educativas aponta três tipos distintos (Op. cit., p. 41-51): · as que “respondem à evolução da procura de qualificações para o mercado de trabalho nacional e internacional e às novas idéias de organização da produção, baseadas no êxito escolar e nas competências profissionais” – reformas baseadas na competitividade; · as que ”respondem às restrições orçamentais do sector público e ao rendimento das sociedades privadas, reduzindo os meios de que dispõem o sector público e o sector privado para financiar a educação e a formação” – reformas baseadas em imperativos financeiros; · as que “tentam cumprir a função política importante da educação como agente de mobilidade social e de igualdade social” – as reformas baseadas na equidade. Tendo em conta a evolução próxima do sistema educativo português, diversos estudos permitem a compreensão e análise das principais medidas e reformas realizadas. De Fernandes (1992) transcrevemos alguns dados que nos permitem compreender a sua evolução próxima, nomeadamente nos períodos liberal e republicano. Assim, de acordo com este autor (Op. cit. p. 57), “com a criação dos liceus em 1836 por Passos Manuel (Decreto de 17 de Novembro) institucionaliza-se em Portugal um sistema de educação escolar em três níveis – primário, secundário e superior –, que perdurou até à actualidade”. Mesmo assim, “não obstante a ruptura política com o antigo regime, assumida pelo regime liberal, há uma continuidade de concepções educativas, de formas de organização da instrução e do processo político de implantação das reformas entre os dois” (Op. cit., p. 58). Por sua vez, Simões (1988) estudou o conjunto das reformas de política educativa durante o período do “Estado Novo” (1926-1968), permitindo-lhe destacar a natureza das medidas então tomadas, nomeadamente a orientação da “educação para a passividade”, em função das características do regime de Salazar e dos traços rurais dominantes da sociedade portuguesa. Relacionado com o período alargado da 1ª República à Revolução de Abril/74, transcrevemos de Carvalho (1986) algumas notas relacionadas com a evolução das reformas educativas em Portugal. 1. Aspectos gerais da 1ª República · Como nota dominante do período referente à 1ª República, constata-se a necessidade da reforma da mentalidade portuguesa, que muitos consideram só ser possível através da instrução e da educação. Por isso, a educação republicana surge como uma “educação interessada na criação e consolidação de uma maneira de ser português, capaz de expurgar a Nação de quantos males a tinham mantido (…) arredada do progresso europeu, sem força, sem coragem, sem meios para sacudir de si a sonolência em que mergulhara” (CARVALHO, 1986, p. 651 e segs.). Algumas circunstâncias pesam negativamente no desenvolvimento deste projecto. Vejamos algumas delas: · analfabetismo: “Portugal é um país de analfabetos”. De facto, em 1911, 75% da população portuguesa era analfabeta; em 1930, 67,8%; Jorge Carvalho Arroteia · · · 277 insuficiente nº de escolas primárias: em 1910/11 existiam em Portugal 5 552 escolas oficiais do ensino primário, em 1925/26, existiam 7 126; deficiente preparação pedagógica dos professores; mísera situação económica. Não obstante estas dificuldades, foram promovidas algumas medidas, de que se destaca a Reforma do Ensino Primário, em três escalões (Decreto de 29 Março 1911): · elementar (obrigatório, para todas as crianças, entre os 7 e 9 anos); · complementar (facultativo, para as crianças dos 10 aos 12 anos); · superior (facultativo, para crianças dos 12 aos 14 anos). Acompanhou esta iniciativa a criação das Escolas Normais Primárias (Lisboa, Porto e Coimbra). Reconhece R. Carvalho (Op. cit., p. 678) que “o país real não possuía as condições mínimas para suportar o arranque das providências decretadas, não só por dificuldades económicas, que em tudo tinham reflexo, como também por carência de uma mentalidade disposta a aceitar mudanças de comportamento social”. Mesmo assim, o ímpeto reformista da 1ª República prosseguiu com: · reforma do ensino primário (10 Maio 1919), que determinou os seguintes graus: geral (obrigatório, para todas as crianças, entre os 7 e os 12 anos) e superior (facultativo, dos 12 aos 15 anos); · reforma do ensino secundário (17 Abril 1917). Estas medidas foram completadas com as seguintes propostas legislativas: · manutenção dos Cursos Complementares de Letras e de Ciências; · manutenção dos Liceus Nacionais centrais (Lisboa, Porto e Coimbra) e dos Liceus Nacionais (1 por cada capital de distrito); · criação das Universidades de Lisboa e do Porto (22 Março 1911); · estatuto da Educação Pública (João Camoesas) – 1923. Com o fim da 1ª República (28 Maio 1926), e nos anos posteriores, foram tomadas medidas, relacionadas com o ensino primário e com os outros níveis de ensino. Resumimos as seguintes: · reforma do ensino primário (1927) – redução de 2 anos no total da escolaridade; · redução do ensino primário geral (“elementar”), entre os 7 e os 11 anos; · redução do ensino primário superior (“complementar”), entre os 11 e os 13 anos; · reforma do ensino primário (1930). Neste caso, dos 4 anos de ensino primário obrigatório, só os três anos passam a constituir o ensino elementar (exame final), sendo o 4º ano de complementaridade. Para além destas medidas, foi ainda determinado: · proibição da co-educação; · extinção do ensino primário complementar; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 278 · · · encerramento das Escolas Normais Primárias e sem substituição pelas escolas de Magistério Primário, destinadas à preparação dos professores primário elementar e aos do ensino infantil; criação dos “Postos de ensino” (1931) e dos “Regentes Escolares” e a desvalorização da profissão de professor do ensino primário; afirmação da cultura do “saber ler, escrever e contar” nas populações rurais. Estas medidas foram acompanhadas de diversas iniciativas relacionadas com os outros sistemas de ensino, tais como: · reforma do ensino liceal (1927) – redução da escolaridade liceal de sete para seis anos; · publicação do “Estatuto do Ensino Secundário” (18 Dez 1931), destinado a “codificar toda a dispersa legislação respeitante a este grau de ensino” (programas, normas de concursos de livros a adoptar, uso do caderno diário, funções dos Reitores; Liceus: nacionais centrais, nacionais e municipais); · criação dos cursos de Ciências Pedagógicas (1930); · publicação do “Estatuto da Instrução Universitária” (1926); · “Bases da Remodelação do Ministério da Instrução Pública” (1936) e a criação da Mocidade Portuguesa; · adopção do Livro único (1936); · realização do Plano dos Centenários, em 1940 (Centenários de 1140 e de 1640); · a reforma do ensino liceal (1947), com Curso Geral de 5 anos e Curso Complementar (Letras e Ciências) de 2 anos; · a reforma do ensino técnico profissional, industrial e comercial (1947) (ciclo preparatório de 2 anos e aperfeiçoamento profissional de 4 anos). No início da segunda metade de Novecentos, destacamos outras medidas, tais como: · lançamento do “Plano de Educação Popular” (1952) dos Cursos de Educação de Adultos e da Campanha Nacional de Educação de Adultos (Pires de Lima); · determinação relativa à escolaridade de 4 anos (4ª classe) para os alunos do sexo masculino (1956) – Leite Pinto; · alargamento do ensino dos adultos para a 4ª classe (Leite Pinto); · alargamento da escolaridade obrigatória para 4 anos (1960) (Leite Pinto); · criação da Faculdade de Letras do Porto (1962); · criação dos Estudos Gerais Universitários de Angola e de Moçambique (1962); · desenvolvimento do “Projecto Regional do Mediterrâneo” (1959-1964), pelo Ministro Leite Pinto, e a inserção da escola portuguesa no “moderno esquema de correlação entre o Ensino e a Economia” (1959); · alargamento do período de escolaridade obrigatória para 6 anos (ensino primário com dois ciclos: elementar – 4 classes e complementar – 2 classes (Galvão Teles); · criação do Ciclo Preparatório (2 anos) após aprovação no exame da 4ª classe (1968), · criação do IMAVE (Instituto dos Meios Audiovisuais de Ensino); · exoneração de Salazar e nomeação do Primeiro-Ministro, Marcelo Caetano (1968); Jorge Carvalho Arroteia · 279 lançamento do “Projecto do sistema escolar” e “Linhas gerais da reforma do ensino superior” (1971), pelo Ministro da Educação, Veiga Simão. Entre os exemplos recentes de reforma do sistema educativo português, recordam-se, apenas, duas das mais recentes: a Lei nº 5/73 e a Reforma promovida pela CRSE. · Lei nº 5/73 – Como princípio geral, o estabelecimento do regime de escolaridade obrigatória de 8 anos, bem como a exigência de frequência até 14 anos. No que respeita ao Ensino Básico, assegurado pelo Estado, a duração prevista era de 8 anos, repartidos em dois ciclos distintos: o Ensino Primário de 4 anos e o Ensino Preparatório, com igual duração. Para além destes aspectos, previa ainda a Lei nº 5/73 a generalização da educação pré-escolar, com carácter supletivo em relação à família, destinado às crianças dos 3 aos 6 anos de idade. Ao Ministério da Educação caberia a responsabilidade da formação do respectivo pessoal docente. Para tanto, contemplava a referida Lei o reforço do Ensino Médio e a criação de diversos cursos, de educadores de infância, Professores do Ensino Primário, Auxiliares Sociais, etc. Também em relação ao ensino secundário, previa-se a constituição de um 2ª ciclo secundário, com a duração de 4 anos, repartido em dois ciclos distintos: o 1º Ciclo ou Curso Geral e 2º Ciclo ou Curso Complementar. A preocupação com a “democratização” do ensino passava, igualmente, pela reforma do ensino superior, de que destacamos: a institucionalização de cursos de pós-licenciatura (de doutoramento e de especialização profissional), o desenvolvimento da investigação científica, o alargamento da rede de estabelecimentos do ensino superior (Politécnico e Universitário), e a possibilidade dos adultos poderem ingressar neste nível de ensino através da realização de exames Ad-hoc. Em complemento ao que anteriormente referimos, transcrevemos parte do texto da Base I da Lei nº 5/73: “e) Assegurar a todos os cidadãos o acesso aos vários graus de ensino e aos bens da cultura, sem outra distinção que não seja a resultante da capacidade e dos méritos, para que o Estado deverá organizar e manter as convenientes instituições oficiais de ensino, de investigação e de cultura e apoiar instituições particulares com a mesma finalidade. f) Proporcionar uma educação básica a todos os portugueses”. A queda do Governo de Marcelo Caetano, em 25 de Abril de 1974, interrompeu o processo de aplicação desta reforma, sucedendo-se, nos anos seguintes, um conjunto de medidas que vieram permitir o acesso de um número cada vez maior de alunos à educação. Depois da Revolução de Abril de 1974, e particularmente desde o início da década de oitenta, segue-se um período de longa discussão política, com a elaboração de diferentes projectos de Lei de Bases do Sistema Educativo Português, até à sua aprovação, em 1986. Depois desta, iniciam-se os trabalhos da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, que, em 1986, publica o “Projecto Global de Actividades” e, em 1988, o “Projecto de Reforma” (CRSE, Julho de 1988), onde se registam os seguintes princípios orientadores: “a) a concepção de uma escola pluridimensional, orientada para a prossecução do sucesso educativo de cada um; 280 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos b) a elaboração de uma organização curricular, marcada por preocupações de modernidade, sentido de utilidade e respeito pelos valores da cultura portuguesa; c) a racionalização da administração da educação , orientada por uma decidida descentralização regional e institucional e por um sentido participativo alargado; d) o desenvolvimento de um subsistema de formação técnica e profissional, orientado por uma matriz coerente e aberta de valorização e de creditação de acções de formação profissional, integradas ou articuláveis com a educação escolar; e) a adopção de novos modelos de formação e gestão dos agentes educativos, designadamente através de maior exigência qualitativa na formação inicial e contínua dos professores e da aprovação de um estatuto dignificador das carreiras docentes e técnicas de educação”. O aprofundamento do estudo relacionado com a evolução do sistema educativo português, no decurso das duas últimas décadas, realça um conjunto de profundas alterações que foram introduzidas nos domínios dos planos curriculares de ensino, da organização pedagógica e administrativa das escolas, na formação dos recursos humanos e nos estatutos profissionais dos docentes, medidas que configuram processos de reforma a destacar na história recente do nosso sistema educativo. No seu conjunto, estas medidas identificam a orientação das políticas educativas na actualidade, as quais têm sido condicionadas por um conjunto de factores, entre os quais sublinhamos: · a ideologia dominante e os “programa da acção” (enquadramento geral das grandes famílias políticas europeias); · a situação económica do país determina os meios e os recursos disponibilizados; · os programas de Governo e a estratégia e acção políticas, no sentido do papel a desenvolver pela escola e o papel que lhe cabe na transformação da própria sociedade; · os relatórios sobre avaliação e sobre políticas educativas, escolas de qualidade e outros, produzidos pela OCDE, bem como as recomendações elaboradas por outros organismos internacionais. Mesmo assim, os resultados alcançados não conseguiram superar as expectativas sociais e pedagógicas, pelo que, como observa Azevedo (2001, p. 121), importa prosseguir com novas medidas e investimentos que permitam uma “nova dinâmica de assunção de responsabilidades, uma maior liberdade de ensinar e de aprender, uma maior participação social, procurando e construindo a informação, avaliando, contrapondo, dando fim a um ciclo de mera diabolização da administração pública e de profunda inacção social”. No conjunto dos países do Ocidente Europeu, tem-se vindo a assistir, a partir dos finais dos anos sessenta do século XX, a um conjunto de reformas do ensino que traduzem as profundas mudanças sociais e laborais aqui registadas. Entre elas, salientamos as mudanças introduzidas, no decurso da década de oitenta, nos sistema de educação e de formação nos países de UE e da EFTA/EEA, particularamente ao nível da escolaridade obrigatória, no sentido de preparar as gerações mais novas, os “futuros actores da Europa do século XXI” (EURYDICE, 1997), o que põe em evidência a importância acordada entre os Governos de diferentes países, a fim de dar resposta à procura social, económica e cultural dos sistemas sociais nos países de regime Jorge Carvalho Arroteia 281 democrático e ao progresso em curso. Esta situação incentivou a mobilidade geográfica da população entre os países do centro e os da periferia e deu origem a diversos ajustamentos dos sistemas educativos a estas novas condições, impostas pelo desenvolvimento social, económico e tecnológico. Regulação do sistema educativo O normal funcionamento do sistema educativo requer a aplicação de um conjunto de princípios orientadores da sua actividade e de normas que garantam a universalidade de procedimentos, sobretudo de natureza administrativa e pedagógica, a funcionalidade das escolas e as aprendizagens dos alunos. Se aplicados à escola, a regulação consiste, de acordo com Sarmento, citando Derouet (1997, p. 441), no “efeito de coordenação onde se mobiliza o ‘conjunto de processos que fazem com que que todos os estabelecimentos, apesar de tudo, funcionem”, aspectos que nos remetem para as questões relacionadas com a administração e a gestão dos estabelecimentos de ensino. Conforme se notou, estes atributos requerem a coordenação das diferentes iniciativas e a acção das entidades responsáveis por essas tarefas, nomeadamente no que se refere ao cumprimento da legislação em vigor. Por isso, o acompanhamento e o controlo do sistema educativo, nomeadamente no que respeita ao cumprimento da legislação, ao desempenho das organizações escolares e do pessoal e à avaliação dos resultados dos alunos, exigem, de acordo com Silva (2006, p. 123), a definição do “projecto de sociedade”, sendo que “a tendência para esta regulação é clara e, aparentemente, até um pouco irracional visto que a taxa de esforço que existe não parece ser compensada por ganhos sociais ou de eficiência”. No seio do sistema educativo português, a regulação é da responsabilidade dos serviços de inspecção. De acordo com a LBSE (artº 49): “1. o sistema educativo deve ser objecto de avaliação continuada, que deve ter em conta os aspectos educativos e pedagógicos, psicológicos e sociológicos, organizacionais, económicos e financeiros e ainda os de natureza político-administrativa e cultural. 2. Esta avaliação incide, em especial, sobre o desenvolvimento, regulamentação e aplicação da presente lei”. Ainda no capítulo referente ao desenvolvimento e avaliação do sistema educativo, diz o artº 53: “a inspecção escolar goza de autonomia no exercício da sua actividade e tem como função avaliar e fiscalizar a realização da educação escolar, tendo em vista a prossecução dos fins e objectivos estabelecidos na presente lei e demais legislação complementar”. Esta apresentação deixa em aberto a orientação precisa das actividades de avaliação e de inspecção do sistema, separando as actividades relacionadas com o ensino superior dos demais subsistemas de ensino. No seu estudo sobre a avaliação e inspecção das escolas, Silva (Op. cit., p. 207) observa que “à Inspecção foram atribuídas funções de controlo do sistema educativo ao serviço de um poder ou de uma administração burocrática centralizada”. Assim, “a IGE tem pautado a sua 284 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos política e orientação operacional, fundamentalmente a partir da década de noventa do século XX, por alguma articulação com as tendências dos serviços europeus de inspecção congéneres, designadamente atribuindo um papel significativo às tarefas de avaliação das escolas”. Não havendo uniformidade quanto às orientações relacionadas com o significado da avaliação e da inspecção, aceitamos que a primeira se pode orientar mais para actividades atinentes ao desempenho do sistema, enquanto que a segunda para as actividades referentes ao seu acompanhamento, funcionamento e verificação da conformidade. Várias leituras podemos fazer desta orientação e da noção de controlo: · em sentido restrito, este resume-se à verificação da exactidão, da precisão, da conformidade (check) (LANDSHEERE, 1979, p. 57); · eventualmente, este pode ser menos rígido e ter em devida consideração as “performances do processo” (adaptive control); · pode, ainda, orientar-se para a qualidade (quality control), tendo, neste caso, em consideração a “conformidade do produto às normas de precisão, de composição, de forma, (…) previamente determinadas”. Como assinala o mesmo autor ((Loc. cit.), deve incidir sobre o sistema educativo ((monitoring of a educacional system), consistindo então “numa observação sistemática e regular da evolução de um sistema educativo, a fim de o manter na linha dos objectivos fixados e de impedir eventuais disfuncionamentos”. Recordamos Landsheere (Op. cit., p. 238), que nos esclarece sobre a tarefa do auditor (evaluation evaluation auditor auditor). Neste caso (Loc. cit.), a auditoria consiste em confiar a experts externos a responsabilidade de “verificar se a avaliação do ensino, realizada pelos inspectores, directores gerais ou avaliadores ligados a um estabelecimento (…) foi efectuada de forma correcta, suficientemente rigorosa e imparcial”. Trata-se de uma tarefa complementar da actividade inspectiva, mas com ela intimamente relacionada. Para I. Mayo (1990, p. 11), a missão da inspecção é “observar algo a partir de dentro”, ou seja, desempenhar a função inspectiva com base no exame e na observação (Inspectio-onis) de algo que se conhece bem o seu interior e funcionamento. Esta perspectiva não exclui, antes completa, a tendência para o cumprimento desta tarefa conjuntamente com a verificação dos procedimentos e da sua conformidade em relação às normas e aos critérios previamente determinados. Tal pode corresponder a um novo conceito de avaliação, caracterizado pelo acompanhamento dos resultados, pela sua discussão permanente, negociação e participação acrescida dos actores envolvidos no processo. Trata-se de uma avaliação interactiva, assente em novos conceitos e metodologias de gestão, nomeadamente a gestão estratégica. Crítico em relação às funções de inspecção, M. Santos (2003, p. 94) afirma: “a inspecção incide no processo e não no produto, isto é, preocupa-se prioritariamente com a conformidade dos procedimentos administrativos, no cumprimento estrito do texto da lei, sem preocupações explícitas pela qualidade da gestão e pela prossecução dos objectivos dos Serviços, incluindo a satisfação dos clientes”. Logo de seguida, acrescenta: “esta visão estrita e redutora do conceito de “base legal” necessita de uma alteração profunda”. Por isso, conclui o autor: “sem fugir à questão central da responsabilização dos agentes – autonomia e responsabilização são duas faces da mesma moeda –, o controlo externo deverá ter como orientação predominante o contributo construtivo para a melhoria da qualidade dos Serviços”. Jorge Carvalho Arroteia 285 Outros autores, nomeadamente M. Bernard (1987, p. 12), defendem a realização de “auditorias” ao sistema educativo, entendidas como “o controle dos controles”, ou seja, “um processo construído e negociado, baseado numa leitura plural e interactiva entre o controlo e a avaliação”. Este acompanhamento sistemático do sistema pode, assim, ser entendido como uma forma de regulação, justificável em instituições dotadas de alguma autonomia, que permita um maior envolvimento e participação dos actores sociais, mormente no que respeita à sua aprendizagem colectiva, relacionada com os objectivos e os meios postos à disposição das instituições de ensino superior. Por isso, os resultados decorrentes da avaliação dos sistemas educativos contribuem não só para melhorar a sua organização, funcionalidade e relações com a sociedade, mas também, para induzir um conjunto de procedimentos e de mudanças que afirmem o desempenho deste sistema, isoladamente e na sua articulação com os demais sistemas sociais. Com base em estudos de diversos autores, Silva (2006, p. 224) questiona estes resultados, afirmando que “persistem muitas dúvidas e incertezas acerca da capacidade das inspecções proporcionarem uma genuína melhoria do desempenho e dos resultados dos serviços que são objecto de inspecção”. De qualquer modo, a tendência para a criação de um “Estado regulador” (SILVA, Op. cit., 228) justifica a existência legal dos serviços de inspecção, não obstante a necessidade de uma avaliação ajustada do seu funcionamento e resultados. Embora tendo presente as manifestações relacionadas com a evolução e a expansão do conhecimento, a acção e a política educativas, não se podem desligar dos contextos institucionais e societais que afectam os diversos cenários, educacionais, culturais e outros, que condicionam a acção reformista e inovadora das instituições educativas. Neste sentido, as tarefas de inspecção e de avaliação podem desempenhar uma importante função reguladora, com benefícios para as instituições, os alunos e os cidadãos. Pelo seu interesse, referimos, em separado, alguns aspectos relativos à regulação do ensino superior. Regulação do ensino superior A análise da evolução recente do sistema de ensino superior em Portugal anda associada à publicação de legislação diversa, relacionada com os estatutos, autonomia, financiamento e avaliação deste sistema. Entre esta, conta-se a que diz respeito ao desenvolvimento e qualidade, com particular incidência na regulação externa através da avaliação e da inspecção. Note-se que as exigências actuais da nossa sociedade e do Estado vão no sentido de uma maior exigência e qualidade da administração pública e do desenvolvimento de actividades de regulação interna (controlo interno ou autocontrolo), apoiadas por mecanismos de controlo externo, desenvolvidos por entidades independentes. Embora de forma complementar, as práticas seguidas pela administração pública, relativas à verificação do desempenho e ao cumprimento legal dos procedimentos, devem ser consideradas como instrumentos de apoio à gestão da coisa pública e, por isso, consideradas como instrumentos relevantes de apoio à decisão política. Contudo, tendo em conta algumas práticas da administração pública, o controlo externo é tido, geralmente, como demasiado desincentivador da gestão. E, na situação presente, colide até, em diversos aspectos, com o espírito das instituições de ensino superior, que reclamam a sua função como promotoras da inovação e da modernização, e da própria sociedade. Embora prosseguindo métodos distintos, o conhecimento aprofundado da organização e do funcionamento dos serviços públicos é, hoje, objecto de diversas intervenções, que assentam no desenvolvimento de mecanismos internos de controlo interno (particularmente no domínio da avaliação interna) e, sobretudo, em acções de controlo externo. Neste caso, regista-se a importância das acções de auditoria – como indutoras do processo de melhoria de funcionamento interno das organizações –, bem como as intervenções de carácter inspectivo, baseadas na apreciação do cumprimento estrito da lei. Estes procedimentos enquadram-se, globalmente, em actividades de regulação pública, ou seja, desenvolvida directamente pelo Estado ou por outras entidades de natureza pública. Importa referir que a regulação do ensino superior corresponde ao conjunto de normas e de regras que estabelecem a organização, funcionamento e o cumprimento das actividades desenvolvidas pelas instituições que integram este sistema. Assim, a regulação compreende não só a preparação e aprovação das normas, mas também a sua implementação e a verificação do cumprimento das regras, determinadas pela administração pública. No nosso caso, o “Regime jurídico do desenvolvimento e qualidade do ensino superior” (Lei nº 1/2003) estabelecia no Capítulo V, referente à “Garantia de qualidade do ensino superior”, serem atribuições do Estado nesta matéria (artº 33º – 2): 288 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos “a) Assegurar que as instituições prestem informação sobre os indicadores de qualidade dos estabelecimentos de ensino e cursos e publicitá-la; b) Assegurar a existência de um sistema de avaliação e acompanhamento das instituições de ensino superior; c) Criar um sistema de fiscalização, assente na Inspecção-Geral da Ciência e do Ensino Superior, independentemente do sistema de avaliação”. De acordo com a citada Lei (artº 39), à Inspecção-Geral compete-lhe “fiscalizar o ensino superior e o cumprimento da legislação em vigor”. Como assinala Afonso (CNE, 2002, p. 97), a responsabilidade da verificação da conformidade legal é uma função primordial da inspecção na lógica da “burocracia weberiana”, constando, portanto, da verificação do “cumprimento dos normativos e o respeito pelas formalidades”. Entendemos, porém, não ser a única, uma vez que os serviços de inspecção não podem deixar de ter presente os conceitos da Nova Gestão Pública ((New New Public Management Management), ), bem como a sua adequada aplicação à modernização do Estado e às reformas da administração pública. Nesta perspectiva, importa melhorar a “morfologia” e o funcionamento dos serviços de interesse público, de modo a garantir a sua melhor prestação e de proteger e garantir os direitos de cidadania da população portuguesa. Por isso, a implementação de estratégias conducentes à reforma e à modernização do Estado exige a adopção de alternativas à actual prestação dos serviços públicos, sugerindo não só a melhoria do seu funcionamento, mas também o aproveitamento adequado dos recursos materiais, humanos e financeiros ora disponíveis. É neste contexto que se inserem as actividades relacionadas com a inovação e a mudança, onde a avaliação das políticas públicas desempenha um papel fundamental. Tendo presente a evolução da sociedade de informação em que vivemos e os desafios que esta encerra no âmbito dos modelos de intervenção pública e da sua ligação aos cidadãos, parece-nos relevante defender a complementaridade de acções em matéria de avaliação das políticas públicas. Por isso, achamos oportuno recordar a proposta de Ferrão (1996, p. 45), relativa à avaliação comunitária de programas regionais, avaliação esta que, sendo comum aos trabalhos no âmbito das ciências sociais, é exercida em três níveis distintos: · “ex-ante, que opera na fase de formulação dos objectivos de política e da configuração dos programas de actuação, um nível que se socorre essencialmente de critérios avaliativos, como a coerência, a pertinência e a adicionalidade; · on-going, que opera na fase de desenvolvimento/execução dos programas, muito centrada no sistema de acompanhamento e gestão, e que lança mão de critérios avaliativos do tipo eficiência e conformidade; · ex-post, que opera na fase de confronto com resultados/realização efectivos e, sobretudo, com a produção de efeitos, a qual valoriza critérios avaliativos, como a eficácia, a eficiência e a adesão”. A referência a estes níveis de avaliação (geralmente utilizados em trabalhos no domínio das ciências sociais) – entendida como um processo amplo, pressupondo “procedimentos de interacção mais ou menos longos e administrativamente institucionalizados” (Op. cit., p. 31) – Jorge Carvalho Arroteia 289 reforça o sentido “instrumental”, “estratégico” e “substantivo” da “avaliação total”, reguladora do sistema de ensino superior. É certo que, nestas acções de regulação, a avaliação e a inspecção, embora de forma distinta – como se deduz das modalidades de avaliação ex-ante, on-going e ex-post acima referidas – têm de articular entre si os procedimentos, de modo a reforçarem as suas funções de fiscalização e de acompanhamento do sistema. Mais ainda, como aponta Ferrão (Op. cit., p. 40), torna-se necessário ”transformar a avaliação em processos mobilizadores e de aprendizagem colectiva, superando as visões que a reduzem a um conjunto de procedimentos técnicos e burocráticos de fiscalização”. É este o desafio que se coloca aos serviços de inspecção no âmbito dos sistemas de ensino superior científico e tecnológico nacional. Um desafio que emerge da necessidade de dar resposta ao Governo e à opinião pública relativamente ao funcionamento do sistema das instituições de ensino superior; às actividades desenvolvidas pelos parceiros do sistema; aos investimentos realizados, bem como aos resultados alcançados. Uma actuação que aponte para o reforço da sua intervenção no domínio das auditorias de gestão, que promova a qualidade e o desempenho das instituições de ensino superior – ao nível da eficiência, da eficácia e dos resultados – e que facilite a participação e a aproximação aos cidadãos. Esta cooperação passa, ainda, pela colaboração estreita com outros serviços públicos, nomeadamente com os que têm a seu cargo o registo de indicadores de funcionamento do ensino superior, a acreditação e a avaliação. No âmbito do sistema de ensino superior, recordamos a legislação, em tempo publicada, que consagra a existência dos mecanismos de regulação: · Lei nº 38/94, de 21 de Novembro, estabelece as bases do sistema de avaliação e acompanhamento das instituições de ensino superior; · Decreto-Lei nº 205/98, de 11 de Julho, cria o Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior; · Decreto-Lei nº 205/2002, cria a Inspecção-Geral da Ciência e do Ensino Superior; · Lei nº 1/2003, de 6 de Janeiro, aprova o Regime Jurídico do Desenvolvimento e da Qualidade do Ensino Superior; · Decreto-Lei nº 149/2003, de 11 de Julho, aprova a orgânica da Inspecção-Geral da Ciência e do Ensino Superior. Ao estabelecer as normas de regulação dessas instituições, o Estado pretendeu assegurar o seu bom funcionamento e desempenho, incentivando a qualidade e defendendo os direitos elementares de cidadania da sua população. Definiu, ainda, as regras a cumprir, de modo a garantir a sobrevivência das instituições em benefício da comunidade científica e da própria sociedade portuguesa. Importa assinalar que a regulação, permitindo a reprodução de uma determinada entidade em condições de equilíbrio, principalmente sob a forma de contratos (FÉRREOL, 1995, p. 228), não está isenta de conflitos. Assim acontece em qualquer processo de “regulação social”, em que as normas estabelecidas (e os resultados do desempenho) nem sempre geram um “julgamento unânime” da parte dos indivíduos e das instituições, particularmente das instituições de ensino superior. A este respeito, recordamos que a missão do ensino superior ”não se 290 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos esgota no imediatismo dos resultados de curto prazo, sendo necessária prudência na análise dos indicadores de desempenho, por forma a não pôr em causa o ambiente adequado à reflexão, à aprendizagem e à criação” (SIMÃO, 2003, p. 32), pelo que a inovação e a mudança, a operarem-se, são merecedoras de algum tempo de reflexão. Pensamos oportuno referir, a este respeito, dois dos mecanismos de regulação deste subsistema, pela mão da avaliação e pela mão da inspecção. Regulação pela mão da avaliação A expansão registada pelo sistema do ensino superior, universitário e politécnico, no decurso das duas últimas décadas, expressa na evolução da sua população docente e discente, no alargamento da rede, na diversificação dos cursos e, naturalmente, no empolamento dos orçamentos relativos ao funcionamento das instituições públicas e privadas, justifica a atenção que, hoje em dia, o poder político e a própria sociedade conferem a este subsistema de ensino. Justifica-se, ainda, este facto pelas alterações registadas nos sistemas produtivos e de emprego, conduzindo a situações de emprego desqualificado e de desemprego nos jovens diplomados, o que faz agravar muitas das observações críticas e expectativas goradas que se colocam ao funcionamento e à organização deste subsistema de ensino. Referidos na LBSE os princípios orientadores do ensino superior universitário e politécnico, o funcionamento das escolas e a actuação do seu corpo docente são regulamentados por diversos documentos legais. Destes, destacamos os que acentuam as questões relacionadas com a democratização do ensino superior, das suas relações com a sociedade e da autonomia das instituições de natureza universitária e politécnica. A estas preocupações têm-se vindo a juntar outras mais recentes, relacionadas com a natureza e a qualidade do ensino, a natureza da investigação e a internacionalização do ensino e da investigação. Englobando aspectos distintos, ao ensino superior universitário são atribuídas, por lei, responsabilidades diferentes das do ensino superior politécnico, razão pela qual o processo de avaliação em curso, embora baseado em princípios comuns, tem vindo a contemplar algumas nuances assentes na diversidade, na organização deste subsistema e no seu funcionamento. Contudo, como nota Costa (2003, p. 110), o interesse pelo papel da “avaliação” “só pode ser interpretado como uma mensagem clara de que, a um tempo de crescimento anárquico do sistema de ensino superior (…), se vai seguir um outro em que a lógica será a de uma regulação consistente”. Mais ainda, “que o desequilíbrio do binómio ‘quantidade versus qualidade’, até agora em favor do primeiro, vai ser decididamente invertido”. Regulação pela mão da inspecção A criação da Inspecção-Geral da Ciência e do Ensino Superior, serviço integrado na administração directa do Estado, sob tutela do então Ministério da Ciência e do Ensino Superior (em 2002), coincide, temporalmente, com a evolução da sociedade portuguesa, dominada pela procura crescente da educação terciária, pelo incremento da formação ao longo da vida e pela consciencialização da necessidade de revisão das políticas educativas, relacionadas com os modelos de formação, o desempenho e a avaliação das instituições de ensino superior. Para além dos factores relacionados com os sectores do ensino e da investigação, juntam-se, neste contexto, novos cenários societais, determinados pela globalização e internacionalização Jorge Carvalho Arroteia 291 dos mercados; pelo progresso científico e inovação tecnológica; pelo acréscimo da mobilidade de mão-de-obra e de capitais, conjuntamente com as exigências de competitividade, de mobilização do capital humano e de adequação dos novos conhecimentos e competências da educação terciária e do seu ajustamento aos sistemas de emprego. Tais circunstâncias obrigam a acréscimos significativos do investimento na qualificação dos recursos humanos e à inovação nas práticas de gestão pedagógica e científica das instituições do sistema de ensino superior. Este é o cenário dominante no contexto europeu e internacional e que está na origem dos esforços oficiais encetados, com vista à melhoria dos sistemas de ensino e de formação superior,a fim de garantir o desenvolvimento sustentado das sociedades pós-industriais e o desempenho eficaz das actividades económicas que as animam. Tendo presente esta realidade, importa assinalar a importância do ensino superior, universitário e politécnico, na formação do capital humano, em diversas áreas científicas, e nos processos de investigação e inovação, indispensáveis ao desenvolvimento da nossa sociedade e à sua afirmação internacional. Se atendermos à evolução recente do sistema educativo português, em particular ao subsistema de ensino superior, verificamos que, decorrida a fase de expansão da rede de estabelecimentos universitários e politécnicos – de natureza pública, concordatária, particular e cooperativa – e da sua abertura a uma população cada vez mais diversificada nas suas origens geográficas e sociais, este tem vindo a consolidar-se, permitindo o aprofundamento do processo de democratização social e de participação cívica da nossa população. Tendo em conta as diferenças socioculturais e as assimetrias espaciais que afectam a igualdade dos cidadãos ao acesso aos benefícios da educação, da cultura e da ciência é importante recordar que a democratização do ensino, da cultura e da ciência, tem de ser acompanhada da melhoria dos indicadores de desempenho e de qualidade ao nível da docência, da formação e da investigação, asseguradas pelas instituições de ensino superior. Estes requisitos devem igualmente permitir uma melhor articulação entre os sistemas de educação-formação-investigação e a sociedade, o seu reconhecimento cultural e científico, a validação dos padrões de exigência, a valorização do mérito e a afirmação da função social das instituições de índole superior. Os aspectos acima referidos são indispensáveis à consolidação do sistema de educação terciária e à nossa participação na construção do espaço europeu de ensino superior consubstanciado no tratado de Bolonha. Contribuem, ainda, para o desenvolvimento da nossa sociedade e para a criação de condições que garantam a melhoria dos níveis de instrução, de qualificação profissional e de qualidade de vida dos portugueses. Sendo estas algumas das preocupações evidenciadas pela comunidade académica e científica, importa reafirmar: · a oportunidade das medidas de política educativa que garantam a aposta na qualidade do ensino e da investigação e o reforço das sinergias entre ambos; · que promovam a igualdade de oportunidades no acesso aos bens culturais e científicos; · que fomentem o desenvolvimento de projectos e de programas de natureza científica e tecnológica; · que garantam o aumento da produtividade e da utilidade pública dos sistemas de ensino superior e de investigação científica e tecnológica, sobretudo através da introdução de práticas de gestão eficientes, da internacionalização da sua actividade e da avaliação adequada dos seus resultados. 292 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Por isso, importa: · garantir, nesta missão, a liberdade entre o ensino superior, público e o não público (assente em critérios idênticos de exigência e rigor de funcionamento); · fomentar a cooperação entre si e a sua ligação ao mercado de trabalho. Os objectivos anteriormente enunciados reforçam a necessidade de uma constante inovação e o enfrentar de novos desafios com que se debatem os nossos sistemas de ensino e de investigação: · no seu desempenho nacional e internacional, no âmbito da formação do capital humano e da aplicação da investigação na promoção do desenvolvimento humano, no progresso social, cultural e económico da sociedade portuguesa, bem como na melhoria do bem-estar da sua população; · na promoção de uma utilização adequada dos recursos de investigação financiados pelo Estado, no sentido de melhorar a capacidade de resposta das instituições de ensino e de investigação às necessidades do desenvolvimento do país e aos desafios da internacionalização; · na prestação de um serviço público de âmbito nacional, capaz de congregar as sinergias necessárias para a estabilidade social e política, institucional e intergeracional, dos actores individuais e colectivos interessados na afirmação da educação terciária. Estes são alguns dos aspectos considerados pela Inspecção-Geral da Ciência, Inovação e do Ensino Superior, aquando da publicação do Decreto-Lei, nº 205/2002 (artº 10º), que referia: “A Inspecção-Geral da Ciência e do Ensino Superior é um serviço dotado de autonomia administrativa e técnica, com atribuições no âmbito da auditoria e do controlo do funcionamento do sistema de ensino superior e do sistema científico e tecnológico, bem como dos restantes serviços e organismos do MCES e de salvaguarda dos interesses dos utentes dos mesmos”. A leitura desta legislação levou-nos a considerar que as atribuições deste serviço apontam, fundamentalmente, para duas tarefas distintas: auditoria e controlo do funcionamento dos sistemas de ensino superior, científico e tecnológico nacionais, tarefas a desempenhar com outras instituições oficiais, nomeadamente com as entidades responsáveis pela avaliação deste subsistema de ensino. Neste caso, e como aponta M. Santos (2003, p. 96): “o sistema de avaliação deverá alimentar uma base de dados e indicadores, por forma a propiciar informação devidamente validada e, consequentemente, com credibilidade, a todos os parceiros interessados”. Note-se que as questões relacionadas com a regulação externa (inspecção e avaliação) são indissociáveis da autonomia e do projecto das instituições de ensino superior. Este deve assentar na identificação clara do “projecto” pedagógico, científico, cultural e de inserção na comunidade (BROCH, CROS, 1992) e constituir-se como um aspecto fundamental a ter em conta por esta nova inspecção. De facto, como nota Costa (2003, p. 105), “ao Estado incumbe (…) assegurar que esses ‘projectos educativos próprios’ dispõem de qualidade justificativa da sua integração na oferta disponível e, ainda, que são conformes à Constituição da República”. Nestas circunstâncias, justifica-se que a liberdade de livre escolha por parte dos candidatos ao ensino superior, entre estabelecimentos de ensino de natureza diferente, traduzida na “liberdade de ensinar e aprender”, deve assentar em requisitos fundamentais de qualidade e de Jorge Carvalho Arroteia 293 constitucionalidade, garantidos pelo Estado. Em complemento, referimos, mais uma vez, ser nosso entendimento que a autonomia destas instituições – traduzida no seu “projecto educativo” – deve ser tida em conta nas acções que incidam sobre estas instituições de ensino superior pelas entidades com responsabilidade de auditoria e de controlo do seu funcionamento. Relativamente ao ensino não público, a autonomia pedagógica, científica e cultural constitui um dos aspectos do seu funcionamento, estabelecido nos estatutos das referidas instituições, pelo que a realização de auditorias e de inspecções devem propiciar: · uma reflexão sobre o seu desempenho e sobre a melhoria da qualidade do sistema; · favorecer a troca de experiências em torno dos resultados da regulação no ensino superior; · contribuir para o desenvolvimento de programas de qualidade no ensino superior, particularmente no sistema não público. Estas atribuições estão de acordo com o referido por alguns autores. Citando P. Boumard ((in: ESTRELA, RODRIGUES, 1994, p. 53), “falar de auditoria é considerar os estabelecimentos como sujeitos sociais coerentes, e é o eventual desvio entre esta coerência vital e as modalidades efectivas de sua realização que constitui objecto de exame”. Importa, por isso, que os mecanismos de auditoria e de controlo, interno e externo, permitam identificar e acompanhar as situações normais e as que carecem de intervenção apropriada, permitindo informar o decisor político e o público interessado sobre a natureza das anomalias e das disfunções que afectam este ou aquela parte do sistema. Nestas circunstâncias, deve o processo de fiscalização ser complementar da auditoria e do controlo interno e externo e que, uma vez posto em prática, seja o garante da tomada das melhores decisões políticas, relacionadas com o funcionamento e o desenvolvimento das nossas instituições de ensino e de investigação. Controlo interno, auditoria e fiscalização devem, portanto, ser entendidas como complementares entre si e fundamentais na procura de soluções adequadas que visem o melhor funcionamento das instituições e o exercício das boas práticas de gestão correntes nos nossos estabelecimentos de ensino. Deve esta “triangulação” assegurar o cumprimento da lei em vigor, dos princípios de conformidade e a autonomia das instituições, de forma a: · promover o seu envolvimento no processo de melhoria da qualidade; · apreciar devidamente a pertinência dos projectos institucionais em que esteja envolvida e a sua coerência contextual; · exigir os melhores resultados do desempenho em termos de: eficácia (objectivos/ resultados) e de eficiência (recursos/resultados). Os procedimentos acima referidos poderiam dar oportunidade ao desenvolvimento de propostas inovadoras ao nível da administração pública, reiterando a confiança nos parceiros sociais e nas entidades que compartilham com o Estado a responsabilidade da formação dos recursos humanos, da inovação e da internacionalização destes sistemas sociais. Destas propostas, destacamos a elaboração de “contratos de confiança”, baseados na construção da “memória organizacional” (LOUCHE, 1994, p. 190) que deve animar as instituições de ensino superior. Este tipo de contratos, reconhecedores da cultura 294 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos organizacional de cada uma das entidades, facilitaria a implementação de mecanismos de avaliação interna das instituições e, por conseguinte, a função de uma Inspecção. Utilizando a proposta de M. Santos (2003, p. 95), a incidência dos “contratos de confiança” deveria passar “pelo acompanhamento e análise de procedimentos, com vista à sua adequação e à prossecução dos objectivos estabelecidos, pelo levantamento de indicadores de input e desempenho e pela reflexão sobre estes indicadores conducente a uma eventual (re)definição de estratégias, planos e procedimentos”. Este projecto não nos parece estar em desacordo com os princípios estabelecidos na Lei nº 1/2003 (6JAN03) – “Regime Jurídico do Desenvolvimento e Qualidade do Ensino Superior”, que atribuiu ao Estado (artº 33º-1) “uma função essencial na garantia da qualidade do ensino superior, mas subsidiária da sociedade e das instituições”. Por esta via, cabe a esta Inspecção-Geral a responsabilidade de fiscalização do sistema (artº 33-2.c). Rendimento escolar A permanência dos alunos no sistema educativo e as migrações internas que ocorrem através da sua frequência em diversos ciclos de ensino são apreciadas através de um conjunto de parâmetros de avaliação, que nos permitem identificar o rendimento escolar desta população. Contudo, importa assinalar a existência de diferentes critérios que nos permitem conhecer os aspectos relativos à vida escolar e às saídas dos alunos do sistema educativo. De salientar que, apesar dos encargos acrescidos com o funcionamento dos sistemas educativos e das políticas promotoras da democratização do ensino, apoiadas pelos organismos internacionais, tais como a UNESCO, o fraco rendimento escolar é, ainda hoje, responsável pela exclusão escolar e social de milhares de indivíduos que não conseguem cumprir a escolaridade de base ou que, tendo-a frequentado, permanecem económica e culturalmente marginalizados por via dos resultados escolares, das representações sociais que impendem sobre eles ou pela ausência de programas de remediação eficazes, que permitam ultrapassar as barreiras, nefastas, impostas pelas avaliações escolares. Perante diversas propostas de análise do rendimento escolar, incluímos aqui as que se referem a saídas antecipadas do sistema educativo Abandono escolar A saída prematura do sistema educativo, antes dos alunos completarem o ciclo de estudos que iniciaram, é conhecida por abandono escolar. Este conceito aplica-se aos alunos que frequentam o período de escolaridade obrigatória, ou seja, os que saem do sistema educativo antes de completarem o 9º ano de escolaridade, e calculado em relação ao total da população entre os 10 e os 15 anos de idade. No caso de outras saídas que se verificam ao longo do ano ou no termo do ano escolar, antes, durante, ou após a conclusão da escolaridade obrigatória, podem ser referidas: como saídas antecipadas, no caso do cálculo incidir sobre a população entre os 18 e os 24 anos, e saídas precoces, no caso dos alunos saírem da escola antes de completarem o ensino secundário (12º ano), e tomando por base o mesmo grupo de cidadãos, dos 18 aos 24 anos de idade (SILVA, 2006). Trata-se de indicadores escolares de grande significado, qualitativo e quantitativo, uma vez que expressam o fracasso escolar dos alunos, bem como a importância de factores internos e externos no sistema, geradores de situações de exclusão social. A extensão do abandono escolar revela aspectos relacionados com o desenvolvimento pessoal dos alunos, nomeadamente os que se referem à inteligência, personalidade e atitudes, 296 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos que afectam, de forma distinta, o seu rendimento académico, assim como causas sociais, relacionadas com a origem geográfica e social, o género, as acessibilidades, a tipologia da escola, etc.. Por outro lado, põe em causa a organização e funcionamento dos sistemas de ensino e de formação quando este abandono, geralmente precoce, é acompanhado por uma entrada desqualificada no mercado de trabalho. O incremento deste fenómeno em alguns contextos locais e regionais põe a descoberto as diferentes condições sociais, económicas e culturais dominantes, geralmente externas ao sistema educativo, mas também condições internas, relacionadas com a escola, que condicionam a sua organização, funcionamento e o sucesso dos alunos. A estas condições, responsáveis pela exclusão social da população escolar, devemos associar factores internos ao sistema, relacionados com os planos curriculares, a gestão pedagógica e administrativa da escola, o desempenho dos professores e outros condicionalismos responsáveis pela redução da “esperança de vida escolar” de muitas populações escolares. Estas circunstâncias determinam a oportunidade de diferentes medidas de natureza pedagógica, organizacional e de acção social, que permitam a redução deste fenómeno, o qual pode ter, como causas imediatas, elevados níveis de absentismo, indutores das saídas prematuras do sistema de ensino. Desperdício escolar O desperdício é um conceito que tem em conta quer o rendimento efectivo dos alunos, enquanto frequentam o sistema educativo, quer o não aproveitamento global das suas possibilidades, essencialmente por razões de natureza pessoal ou institucional. Poderemos, ainda, falar em desperdício, em sentido mais amplo, quando avaliamos os resultados finais alcançados pela população escolar (ou apenas por algumas “cohortes” – conjunto de indivíduos que vivem o mesmo fenómeno durante o mesmo período de tempo, em geral o ano civil – ou estratos profissionais), em função dos objectivos, dos recursos e dos meios que lhe são oferecidos, dificultando a aprendizagem ou o exercício da função docente. Durante a vida escolar dos alunos, o desperdício escolar é um importante indicador de eficácia interna do sistema e manifesta-se através das saídas precoces dos alunos do sistema (abandono escolar), pela sua permanência além do período de escolaridade obrigatória (repetência) ou, ainda, pelos resultados da aprendizagem (sucesso/insucesso escolar). A manifestação deste fenómeno tem diversas consequências, quer para os alunos quer para a sociedade. Em relação aos discentes, o desperdício reduz a eficiência educacional da escola, e os alunos atingidos pelo insucesso podem manifestar formas de desajustamento social, decorrentes da falta de confiança, dos sentimentos de inferioridade ou da falta de confiança em si. Na sociedade, estes fenómenos traduzem-se num acréscimo significativo de encargos, designadamente os que respeitam à realização de programas específicos, orientados para a socialização, a capacitação profissional e a ocupação dos tempos de lazer desta população. O conhecimento do desperdício escolar, referido pelas taxas de retenção (ou seja, de alunos que permanecem num dos ciclos do ensino básico, em relação ao total de discentes que iniciaram esse ciclo de estudos), de abandono e de promoção (ou passagem), é fundamental para estabelecer o diagnóstico e conhecer a eficácia interna de um ciclo de estudos ou do próprio sistema educativo. Jorge Carvalho Arroteia 297 Resultados O desenvolvimento dos sistemas educativos na actualidade e a abordagem que deles fazemos com base na análise sistémica impõem que tenhamos em consideração o rendimento e os resultados finais do processo educativo. Estes podem ser expressos de forma distinta, consoante consideramos as aprendizagens dos alunos, traduzidas no sucesso académico dos mesmos, no total de diplomados, na adaptação das aprendizagens ao mercado de trabalho, no contributo dos investimentos em educação no processo de desenvolvimento social, económico e cultural do país, etc. Não podendo existir uniformidade de critérios em relação à importância de cada um dos aspectos referidos, o produto resultante do processo educativo, traduzido em termos quantitativos, qualitativos e no desenvolvimento humano da população escolar, cabe no âmbito desta designação, cuja expressão estatística vem consubstanciada em diversos tipos de indicadores: de frequência, de aproveitamento, de saída e de inserção profissional, classificados, geralmente, por insucesso. Como nos recorda Martins (MARTINS, CABRITA, 1991, p. 10), “diz-se que qualquer entidade apresenta insucesso quando não consegue atingir os objectivos propostos ou isso não acontece no tempo previsto”. Em relação à população escolar, o referido autor (Loc. cit.) prossegue, afirmando que, em relação ao insucesso escolar, “este é usualmente atribuído ao facto de os alunos não atingirem as metas – fim de ciclos – dentro dos limites temporais estabelecidos, traduzindo-se na prática pelas taxas de reprovação, repetência e abandono escolar”. Contudo, muitas outras consequências das aprendizagens escolares não podem ser expressas quantitativamente, mas podem ser aproveitadas em processo de certificação de competências, individuais e profissionais, permitindo, assim, uma melhor integração social e laboral do indivíduo. Tomando por base um estudo internacional desenvolvido pela OCDE sobre “Schools and quality. A International report”, do qual utilizámos a tradução em língua espanhola (PAIDÓS/ MEC, 1991, p. 184), transcrevemos as dez características referidas pelas escolas que então foram consideradas como desempenhando um papel decisivo na determinação dos resultados escolares dos alunos: “1. Um compromisso com normas e metas clara e previamente definidas. 2. Planificação em colaboração, co-participação na tomada de decisões e trabalho colectivo em tarefas de experimentação e de avaliação. 3. Direcção favorável ao início e manutenção da melhoria. 4. Estabilidade de pessoal. 5. Estratégia para a continuidade do desenvolvimento do pessoal relacionado com as necessidades pedagógicas e de organização de cada escola. 6. Elaboração de um currículo cuidadosamente planeado e coordenado que assegure um papel relevante para cada aluno adquirir o conhecimento e as destrezas essenciais. 7. Um elevado nível de implicação e apoio dos pais. 8. Procura e reconhecimento dos valores próprios de cada escola. 9. Máximo emprego do tempo de aprendizagem. 10. Apoio activo e substancial da autoridade educativa responsável”. 298 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Outros aspectos podem ser considerados. Assim, num texto publicado por Nóvoa (1992, p. 77-98), de T. Good e R. Weistein, sobre “As escolas marcam a diferença: evidências, críticas e novas perspectivas”, estes autores chamam a atenção para as limitações quanto ao modo de encarar os resultados escolares dos alunos, considerando, para o efeito, a estabilidade dos resultados escolares, a validade e a multiplicidade de critérios e o facto dos resultados médios dos alunos poderem ser enganadores. Sucesso escolar O sucesso escolar expressa os resultados finais de funcionamento do sistema educativo no seu todo, por subsistemas, níveis e estabelecimentos de ensino. A nível pessoal, traduz o aproveitamento escolar dos alunos, individualmente, por turma e por curso. A este respeito, recordamos que a transmissão e avaliação de conhecimentos constituem uma das tarefas essenciais da escola, sendo certo que a esta não cabe o domínio absoluto na transmissão e na construção dos saberes, exigindo a participação de outros meios e agentes que favoreçam a aquisição de um conjunto de normas de actuação e de regras de convivência que favoreçam a integração social do indivíduo. Estas tarefas assentam num processo complexo de socialização, que pressupõe uma aprendizagem social, a qual, segundo Cabanas (1984, p. 145), abarca três aspectos distintos: psicológico, cultural e social: · o primeiro pressupõe “um desenvolvimento das estruturas psíquicas do indivíduo de tal forma que este não perca a sua identidade nem autonomia individual”; · o segundo, “os conteúdos e traços culturais específicos de uma sociedade e cultura determinadas”; · o terceiro, uma vasta aprendizagem social – “educação social” –, que abarca a formação de uma “consciência social”, a elaboração de uma “postura social” e, finalmente, uma participação activa – “acção social”. Como nos recorda Martins (MARTINS, CABRITA, 1991, p. 13-19), diversas causas podem estar associadas ao sucesso dos alunos, tais como as condições económicas e culturais da família de origem dos alunos; as condições socioculturais e escolares, associadas “à forma como está organizada a escola, sobretudo os currículos académicos” e causas escolares, relacionadas com o sistema de ensino, e que Martins (Op. cit., p. 15-16) considera responsáveis pelo “insucesso estrutural” que o afecta, relacionadas com o “tipo de articulação escola-alunos, caracterizada por um poder arbitrário da escola que na senda da unificação formal não contempla as desigualdades socioculturais das diferentes populações escolares que a frequentam”. A avaliação das aprendizagens dos alunos, dos conhecimentos adquiridos e da sua integração na sociedade permite identificar, no seu conjunto, o sucesso da população escolar, a qual não é indissociável do desempenho e do sucesso do sistema educativo que os acolhe, revelando, na prática, a necessidade de profundas alterações no modo de funcionamento da organização escolar e na edificação do sistema educativo. De facto, como assinala Martins (Op. cit., p. 24) no estudo sobre o insucesso escolar, “qualquer política de fundo sobre a escola terá de prever novos conteúdos curriculares, novas formas de orientação e funcionamento, novos métodos de avaliação e onde as desigualdades económicas e culturais dos alunos sejam claramente contempladas”. Sistema Tendo presente que a sociedade é “concebida como um sistema ou um todo integrado” (FERNANDES, 1983, p. 31) e que, assim, “qualquer mudança de um elemento tende a provocar um processo de redefinição dos restantes elementos de forma a conseguir-se de novo o equilíbrio do sistema”, fácil é entender como as decisões e as práticas no âmbito do sistema educativo são indissociáveis das tomadas de decisão relativas aos outros sistemas sociais. Esta referência tem subjacente a noção de “sistema”, entendido como o conjunto de elementos que se articulam entre si, de modo a constituírem um todo organizado, tal como nos foi definido por L. von Bertalanfy ((in: CHIAVENATO, 1987. II, p. 350), para quem o mesmo é o “conjunto de unidades reciprocamente relacionadas”, que referem diversas propriedades, entre as quais se destacam: · o objectivo, · o globalismo, ou totalidade, · a entropia, · a homeostasia. A primeira destas noções reforça o sentido comum ou propósitos da unidade na prossecução de fins colectivos; a segunda aponta para a interligação das partes, dos elementos, das unidades orgânicas deste conjunto; a terceira recorda “a tendência que os sistemas têm para o desgaste”; e a última sublinha o equilíbrio das partes nas suas relações internas, entre si, e externas, com o meio ambiente. A junção destas duas propriedades reforça o sentido que Birou (1978, p. 374) atribuiu à noção de “sistema”, entendido como uma “combinação de partes de um conjunto, articuladas de modo a constituírem um todo ou a contribuírem para um resultado comum”. E os resultados dessa acção podem ser apreciados pela natureza dos “produtos”, revelados pela natureza e adequação das formações e dos recursos humanos que o sistema escolar lança, cada ano, no mercado de emprego. Será lógico esperar que os outputs resultantes da “laboração” do sistema escolar estejam intimamente ligados às condições de funcionamento da(s) complexa(s) unidade(s) que integra(m) a(s) unidade(s) central(ais) de processamento e, acima de tudo, dos inputs que alimentam anualmente esta unidade, nas suas relações com a sociedade. Os sistemas sociais podem ser encarados como: · sistemas abertos (caso do sistema educativo); · sistemas fechados, em que o seu funcionamento não sofre influência do exterior. 300 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos A este respeito, recordam-nos Colom e Dominguez (1997, p. 7) que “todo o sistema de educação se desenvolve de acordo com as necessidades sociais próprias do momento histórico durante o qual surge para dar resposta adequada às preocupações, problemáticas e perspectivas que se sentem na sociedade”. Nesta perspectiva, as decisões de política educativa, ora entendida como “intervenção deliberada do Estado no domínio da Educação”, referem sempre uma “acentuada componente prospectiva e de mudança. No fundo, pretende com as acções de hoje instaurar novos modelos de convivência, amanhã” (Loc. cit.). Esta é uma das razões por que, quando se desenvolvem acções no âmbito do sistema educativo, se devem ter presentes alguns dos pressupostos teóricos que suportam a análise prospectiva, sobretudo no domínio da construção de projectos de sociedade ou de iniciativas concretas, diferentes das actuais. Sistema de ensino A designação de sistema de ensino antecede a de “sistema educativo”, tal como é definido na LBSE (artº 1). Anteriormente à publicação da Lei de Bases, entendia-se que este sistema integrava todas as estruturas dependentes do Ministério da Educação, desde a educação pré-escolar ao ensino básico, secundário e superior, o ensino artístico, a educação especial e a educação de adultos. Um “sistema formalmente alargado”, estendendo-se “desde a educação pré-escolar ao ensino pós-graduação, ainda que a sua expressão prática não corresponda inteiramente a essa dimensão” (COSTA, 1981, p. 73). Com a publicação da LBSE e a clarificação da organização do sistema educativo, nomeadamente da educação extra-escolar, considera-se que o desenvolvimento das diferentes acções e iniciativas de natureza educativa – respeitantes com a educação formal e com a educação não formal – podem caber a diferentes entidades oficias e não oficiais, relacionadas com formação pessoal e profissional. Aqui se incluem, também, diversas actividades relacionadas com a educação paralela (designação genérica que abarca o conjunto de conhecimentos adquiridos fora do sistema formal de ensino, (através da imprensa, da rádio, da banda desenhada, do cinema, da televisão, da internet, etc.), em espaços educativos e de formação. Citam-se as associações culturais e outras, os clubes, as academias e outras entidades capazes de disponibilizarem espaços de formação, orientados para a população jovem, para a população adulta ou já para a população sénior. No seu conjunto, estas podem oferecer cursos de diferente natureza, vocacionados para a aprendizagem de determinadas matérias e para o aprofundamento dos aspectos relacionados com a socialização em grupo, com o desenvolvimento pessoal ou mesmo com actividades de índole profissional, não reconhecidas oficialmente pelo seus diplomas, mas com inegável valor formativo. À semelhança de outros sistemas, consideramos estes espaços educativos como fazendo parte do sistema de ensino e desempenhando uma função alargada no domínio da formação, da ocupação dos tempos livres e do desporto escolar. A este respeito, importa assinalar que a LBSE (artº 48) consagra o desenvolvimento de actividades de “complemento curricular” que devem contribuir para o “enriquecimento cultural e cívico”, para a “educação artística e inserção dos educandos na comunidade”. Daí que possamos considerar o conjunto destas entidades e das actividades programadas com fins educacionais, tais como os programas de ocupação de tempos de lazer, de actividades Jorge Carvalho Arroteia 301 artísticas, recreativas e desportivas, como fazendo parte de um sistema alargado, reconhecido pela especificidade dos ensinamentos que ministra, das aprendizagens que faculta, das competências que desenvolve, em articulação ou de forma complementar ao sistema escolar e educativo. Sistema educativo português Por sistema educativo pode entender-se o conjunto de estruturas, de meios e de recursos que, de forma organizada e articulada, cumprem as funções da educação, em particular da educação formal. Neste contexto, importa atender à sua organização administrativa, às estruturas pedagógicas, aos conteúdos da educação, às orientações e métodos pedagógicos, à população escolar (docente e discente) e às medidas de acção governativa que o regem, como aspectos relevantes que permitem a sua identificação e diferenciação dos demais. Não sendo de todo necessário recordar, salientamos que o nosso sistema educativo “é o conjunto de meios pelo qual se concretiza o direito à educação, que se exprime pela garantia de uma permanente acção formativa orientada para favorecer o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade” (artº 1 – LBSE). Enquanto subsistema social, o sistema educativo rege-se por um conjunto de preceitos organizativos que assentam em princípios consignados na Constituição da República, tais como: “todos os portugueses têm o direito à educação e à cultura”. Por isso, o nosso sistema educativo é solicitado a desempenhar um conjunto de funções, a saber: · assegurar a transmissão de conhecimentos, de experiências e de informações que permitam a formação cultural e cívica dos alunos, bem como a sua formação cívica e artística; · assumir, conjuntamente com a família e os meios de comunicação social, a acção como agente de socialização, auxiliar dos demais e promotor do desenvolvimento social e humano dos alunos; · desempenhar uma acção institucional específica no âmbito da educação pré-escolar e dos ensinos básico, secundário, profissional, artístico, superior e outros, que responda às necessidades, aspirações e expectativas da sociedade. No seu conjunto, o resultado destas atribuições é condicionado pelas orientações políticas dos seus responsáveis, pelos meios afectos ao seu funcionamento, pela formação e participação dos seus “actores”, pelo desenvolvimento de parcerias e pelo contributo de outros agentes externos. De acordo com a LBSE (artº 54), “é reconhecido pelo Estado o valor do ensino particular e cooperativo”, podendo os estabelecimentos desta natureza “que se enquadrem nos seus princípios gerais, finalidades, estruturas e objectivos do sistema educativo serem considerados parte integrante da rede escolar” (artº 55 da LBSE). De acordo com Serrão (1981, p. 17), “ao olhar do aprendiz de historiador, dado sistema de ensino, estruturado no tempo e no espaço, mergulha sempre as suas raízes em realidades 304 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos mais fundas e englobantes que nem sempre são imediatamente acessíveis (…)”. Tal facto obriga a uma análise detalhada da evolução do sistema de ensino na sua relação com a estrutura social e as ideologias dominantes. Da mesma forma, obriga a uma apreciação da natureza e consistência das políticas educativas seguidas, da visão estratégica e do projecto dos seus responsáveis, do empenho dos seus actores e, acima de tudo, do desperdício que tem caracterizado o funcionamento deste subsistema social. Estes aspectos não escondem os desafios que se colocam à própria instituição escolar, exigindo um grande envolvimento e participação de todos os seus utentes e responsáveis na prossecução dos objectivos acima referidos. Recordamos que tal postura exige, sobremaneira, a aceitação desta realidade social, que são os sistemas educativos, como um conjunto de unidades formando um todo organizado, e de elementos interdependentes, de modo a promoverem um melhor resultado final (output) output) do que se estas partes funcionassem isoladamente. output Naturalmente que, sendo a escola um elemento vital deste universo, é de esperar que, à semelhança da célula viva, ela própria mantenha, no seu quotidiano, as mesmas características e exigências que permitem identificar aquele todo. Melhor dizendo: sendo a escola uma unidade complexa que alberga uma população diferenciada, “vinculada pela aceitação de certas normas e do desenvolvimento de projectos comuns centrados nas actividades escolares” (ARROTEIA, 1993, p. 31), deve referir as características que marcam o seu meio e apresentar traços idênticos aos que identificam as demais organizações sociais. Neste caso, como “organização social” que é, organizada, sobretudo, para a aprendizagem, mas sem perder o seu pendor burocrático e administrativo, a escola deve prosseguir um conjunto de objectivos, pedagógicos, administrativos/organizacionais e institucionais, e ser dotada de estrutura formal, imposta pela administração, e espontânea, construída pelos elementos que a integram. Estas propriedades devem garantir: · a “divisão do trabalho social”, consubstanciada na partilha das diversas tarefas e no assumir de diferentes papéis; · a divisão de autoridade e a existência de um sistema de comunicações entre os seus membros; · a existência de critérios objectivos de avaliação e de controle, traduzida numa “supervisão hierárquica” que abranja as tomadas de decisão dentro da organização. Recordam-se que os objectivos anteriores dizem respeito: · os de natureza pedagógica, à realização das actividades educativas e de aprendizagem, em situação escolar formal e não formal; · os de natureza administrativa/organizacional, às funções e tarefas que tornam possível a subsistência da organização escolar; · os de natureza institucional, à articulação das escolas com as entidades do meio em que ela se insere. Para completar esta apreciação, recordam-se alguns dos objectivos principais a prosseguir pelas organizações escolares (SERGIOVANI, 1978, p. 32): · “servir a sociedade e (…) buscar a sua aprovação”, Jorge Carvalho Arroteia 305 · “servir a si mesma, através da integração e da manutenção”. A estes requisitos poderíamos ainda acrescentar: · o sucesso escolar, garantido sobretudo pela qualidade das aprendizagens; · a eficiência, traduzida, fundamentalmente, na relação custos da educação/sucesso escolar dos alunos; · a satisfação profissional da sua população, manifestada na segurança que sentem em relação ao seu trabalho e estima, na autonomia e na capacidade da sua auto-realização. Note-se que parte destes atributos estão intimamente relacionados com as características e o estilo dos docentes, com o seu desempenho profissional, com a diversidade e a natureza dos alunos, com a progressão dos conhecimentos e aprendizagens desta população, da sua fase de crescimento e, sobretudo, da própria organização da escola. Recordamos, no entanto, que, à medida que as organizações sociais vão evoluindo e aumentando nas suas dimensões, tornam-se mais maduras e complexas, passando, frequentemente, por diversas crises e convulsões. De certa forma, as crises de “liderança”, de “autonomia”, de “controlo” e outras parecem acompanhar as diversas etapas de vida das organizações sociais onde as escolas se inserem. Vejamos outros aspectos, agora relativos à “territorialização” da política educativa, tal como nos é referida na LBSE. Em primeiro lugar, convirá notar que o sistema educativo português tem por “âmbito geográfico a totalidade do território português – continente e regiões autónomas”. Trata-se de uma configuração que realça a existência de um “estado unitário”, onde persistem, a par das estruturas administrativas de âmbito nacional, as de nível regional autónomo, regional e local. Por outro lado, a coordenação política “incumbe a um ministério especialmente vocacionado para o efeito” (artº 1), no caso vertente o Ministério da Educação, que, através das suas estruturas, ilustra diferentes níveis de organização educacional: · o primeiro nível, ou institucional, aparece-nos como responsável pela formulação das políticas educativas, pela definição do projecto educativo nacional e das suas finalidades, pela regulamentação genérica do sistema e pela representação global que cabe ao nível mais elevado da hierarquia do Ministério da Educação, representado pelo Ministro e pelos seus Secretários de Estado; · ao segundo nível, intermédio, cabem as acções de planeamento e coordenação de programas e estruturas administrativas e pedagógicas, relacionadas com a instrução, a socialização e a estimulação, propriedades que podem ser desempenhadas quer pelos diversos serviços centrais do ME, quer pelos serviços regionais; · o terceiro nível, operacional, caracteriza-se pelo desempenho das funções de planeamento, execução e de controle da actividade educativa. Estando sobretudo representado pela escola, a esta cabe desenvolver um esforço notável de interligação com a comunidade local e incentivar a participação dos alunos e professores, das famílias e das autarquias, das entidades representativas das actividades sociais, culturais, recreativas e das instituições de carácter científico. Não será difícil aceitar que o desempenho destas acções depende de um conjunto de factores, de natureza pessoal (relativos à população docente e discente), de natureza material (relacionados 306 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos com as características das infra-estruturas que servem a escola), e relacionais, dependentes do tipo de relações, horizontais e verticais, estabelecidas entre aquela população. Estas considerações lembram-nos os diferentes aspectos que caracterizam as estruturas organizativas de “tipo horizontal”, a saber. · pressupõem a distribuição de funções entre os diferentes componentes de uma organização, baseando-se no princípio da divisão do trabalho; · permitem um maior grau de especialização dos membros da organização, a título individual e colectivo; · implicam a dedicação de cada um dos membros da organização a um trabalho concreto, bem como a constituição de orgãos que assumam a realização colegial de funções. Pelo contrário, as estruturas organizativas de “tipo vertical” identificam-se: · pela fixação de níveis de responsabilidade devidamente hierarquizados; · pela definição clara de conceitos de responsabilidade, autoridade e delegação; · pela existência de níveis hierárquicos distintos; · pela definição clara das competências através de organogramas. Se aplicada à gestão dos estabelecimentos de ensino (DACAL, 1986), a organização “horizontal” adopta como solução prática a distribuição de funções entre diversos órgãos e pessoas; a “vertical” assenta no princípio da distribuição do poder por níveis diferenciados e por critérios de autoridade e responsabilidade. Tendo presente a realidade portuguesa, verificamos que a LBSE, no seu artº 44, discrimina os níveis de administração e as funções que cabem à administração central e à administração regional. À primeira compete, nomeadamente: · “concepção, planeamento e definição normativa do sistema educativo, com vista a assegurar o seu sentido de unidade e de adequação aos objectivos de âmbito nacional; · coordenação global e avaliação da execução das medidas da política educativa (…); · inspecção e tutela, (…) com vista, designadamente, a garantir a necessária qualidade do ensino; · definição dos critérios gerais de implantação da rede escolar, da tipolgia das escolas e seu apetrechamento, bem como das normas pedagógicas a que deve obedecer a construção dos edifícios escolares; · garantia da qualidade pedagógica e técnica dos vários meios didácticos, incluindo os manuais escolares”. Por sua vez, à administração regional cabe “integrar, coordenar e acompanhar” toda a actividade educativa. Para o efeito, as Direcções Regionais de Educação, enquanto organismos desconcentrados do Ministério da Educação, gozam de alguma autonomia relativamente a aspectos específicos da sua actuação. Já em relação aos princípios gerais que orientam a administração do sistema educativo, o artº 43 da referida Lei afirma que “a administração e gestão do sistema educativo devem assegurar o pleno respeito pelas regras de democraticidade e de participação que visem a consecução de objectivos pedagógicos e educativos, nomeadamente no domínio da formação social e cívica”. Jorge Carvalho Arroteia 307 O sistema educativo português compreende, a par do ensino público, funcionando “na directa dependência da administração central, das regiões autónomas ou das autarquias” (GIASE/ME, 2006, p. 18), o ensino privado, “sob iniciativa e responsabilidade de gestão de entidade privada com tutela pedagógica, científica e técnica” (Loc. cit.). Assim, a LBSE (artº 54) reconhece o valor do “ensino particular e cooperativo como uma expressão concreta da liberdade de aprender e ensinar e do direito da família a orientar a educação dos filhos”. No seu conjunto, “os estabelecimentos de ensino particular e cooperativo que se enquadrem nos princípios gerais, finalidades, estruturas e objectivos do sistema educativo são considerados parte integrante da rede escolar” (artº 55 da LBSE), ficando, por isso, sujeitos à acção de coordenação exercida pelo ministério da tutela. Subsistemas Embora considerado no seu todo, o sistema educativo português organiza-se em diversos subsistemas, cada um dos quais com objectivos, organização e actividades diferenciadas. De acordo com a LBSE, este integra, para além da educação pré-escolar, três outros subsistemas fundamentais: o ensino básico, o ensino secundário e o ensino superior. 1 2 3 4 5 6 PT 7 8 9 1º Ciclo 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 2º Ciclo 3º Ciclo Curs. Científico- Jardim de Infância Ensino Básico -Humanísticos Ensino Universitário Ensino Politécnico Cursos Tecnológicos Cursos Artísticos Especializados Cursos de Especialização Tecnológica Cursos Profissionais Educação pré-escolar – CITE 0 Secundário inferior geral – CITE 2 Ensino superior (sem ser da responsabilidade do Min. Educação) (incluindo o pré-profissional) Educação pré-escolar – CITE 0 Secundário inferior profissional – CITE 2 – CITE 5A (da responsabilidade do Min. Educação) Secundário superior geral – CITE 3 Primário – CITE 1 Estrutura única – CITE 1 + CITE 2 (não há distinção institucional entre CITE 1 e 2) Tempo parcial ou em alternância -/n/- Estágio obrigatório + duração Figura 3 Secundário superior profissional – CITE 3 Pós-secundário não superior – CITE 4 Escolaridade obrigatória a tempo inteiro a tempo parcial Estudos no estrangeiro Ano complementar Atribuições aos níveis CITE: Ensino superior – CITE 5B CITE 0 CITE 1 CITE 2 308 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Educação Pré-escolar De acordo com a Lei de Bases do Sistema Educativo, a educação pré-escolar, no “seu aspecto formativo”, é “complementar e ou supletiva da acção educativa da família, com a qual estabelece estreita cooperação” (artº 4-2). Destinada às crianças com idade compreendida entre os três anos e a idade de ingresso no ensino básico, a educação pré-escolar preenche, nos seus objectivos, os grandes desígnios da chamada função socializadora da educação, habilitando a criança a adaptar-se “ao meio social em que vai viver” (DURKHEIM, 1980, p. 58). É o que se pode ler através da consulta do artº 5 da LBSE, que aponta como primeiros objectivos da educação pré-escolar: “a) estimular as capacidades de cada criança e favorecer a sua formação e o desenvolvimento equilibrado de todas as suas potencialidades; b) contribuir para a estabilidade e segurança afectivas da criança; c) favorecer a observação e a compreensão do meio natural e humano para melhor integração e participação da criança; d) desenvolver a formação moral da criança e o sentido de responsabilidade, associado ao da liberdade; e fomentar a integração da criança em grupos sociais diversos, complementares da família, tendo em vista o desenvolvimento da sociabilidade; f) desenvolver capacidades de expressão e comunicação da criança, assim como a imaginação criativa, e estimular a actividade lúdica; g) incutir hábitos de higiene e de defesa da saúde pessoal e colectiva; h) proceder à despistagem de inadaptações, deficiências ou precocidades e promover a melhor orientação e encaminhamento da criança”. Não sendo nosso objectivo analisar as grandes metas desta iniciação, que apontam não só para a “socialização” da criança mas também para o desenvolvimento harmonioso da sua personalidade e orientação escolar futura, recordamos que ao Estado compete garantir uma rede de estabelecimentos adequada, bem como garantir a formação dos recursos humanos. Assim, a análise dos princípios orientadores, relativos à formação destes educadores e dos outros professores, pode ser aprofundada pela leitura dos artº s 30 a 33. Mesmo assim, transcrevemos os princípios gerais em que assenta esta formação (artº 30): “a) formação inicial de nível superior (…); b) formação contínua que complemente e actualize a formação inicial numa perspectiva de educação permanente; c) formação flexível que permita a reconversão e mobilidade dos educadores e professores dos diferentes níveis de educação e ensino; d) formação integrada quer no plano da preparação científico-pedagógica quer no da articulação teórico-prática; e) formação assente em práticas metodológicas afins das que o educador e o professor vierem a utilizar na prática pedagógica; f) formação que, em referência à realidade social, estimule uma atitude simultaneamente crítica e actuante; Jorge Carvalho Arroteia 309 g) formação que favoreça e estimule a inovação e a investigação, nomeadamente em relação com a actividade educativa; h) formação participada que conduza a uma prática reflexiva e continuada de auto-informação e auto-aprendizagem.”. Recorde-se que a integração da educação pré-escolar no sistema educativo português remonta a 1973, aquando da reforma do sistema educativo, e só em 1978 foram criados jardins-de-infância dependentes do Ministério da Educação. Contudo, apenas na década de noventa, em 1995, este Ministério preparou o plano de expansão da rede de educação pré-escolar, o qual, em articulação com outros ministérios, vieram a permitir, depois de 1997 e da publicação da Lei-Quadro da Educação Pré-Escolar (Lei nº 5/97, de 10 de Fevereiro), o desenvolvimento da educação pré-escolar, destinada às crianças com idade compreendida entre os 3 anos de idade e a idade de ingresso nos ensino básico. De acordo com esta Lei (artº 2), “a educação pré-escolar é a primeira etapa da educação básica no processo de educação ao longo da vida, sendo complementar da acção educativa da família, com a qual deve estabelecer estreita cooperação, favorecendo a formação e o desenvolvimento equilibrado da criança, tendo em vista a sua plena inserção na sociedade como ser autónomo, livre e solidário”. O referido documento consagra o ordenamento jurídico da educação pré-escolar. Ensino Básico De acordo com a LBSE (artº 4-3), e no que à “educação escolar” diz respeito, esta abarca o ensino básico, o ensino secundário e o ensino superior, diferenciados nos seus objectivos, organização, acesso, graus e características da própria rede. Recorda-se que a duração do ensino básico coincide com o período de escolaridade obrigatória (de nove anos, entre os seis e os quinze anos de idade), sendo este universal, obrigatório e gratuito (artº 6 – LBSE). De acordo com a referida Lei (artº 8): “1 o ensino básico compreende três ciclos sequenciais, sendo o 1º de 4 anos, o 2º de dois anos e o 3º de três anos, organizados nos seguintes termos: a) No 1º ciclo, o ensino é globalizante, da responsabilidade de um professor único, que pode ser coadjuvado em áreas especializadas; b) No 2º ciclo, o ensino organiza-se por áreas interdisciplinares de formação básica e desenvolve-se predominantemente em regime de professor por área; c) No 3º ciclo, o ensino organiza-se segundo um plano curricular unificado, integrando áreas vocacionais diversificadas, e desenvolve-se em regime de um professor por disciplina ou grupo de disciplinas”. Em relação aos grandes objectivos deste nível de ensino, recordamos não só a sua função de “socialização”, ou seja, de adaptação e de inserção dos alunos ao (no) meio e à (na) sociedade, através da transmissão de valores, da aquisição de conhecimentos e das aptidões, mas também a função “personalizadora,” relacionada com o seu desenvolvimento cognitivo, afectivo e psicomotor. 310 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Transcrevemos da LBSE (artº 7) os principais objectivos do ensino básico: “a) assegurar uma formação geral comum a todos os portugueses, que lhes garanta a descoberta e o desenvolvimento dos seus interesses e aptidões, (…) promovendo a realização individual em harmonia com os valores da solidariedade social; b) assegurar que nesta formação sejam equilibradamente inter-relacionados o saber e o saber-fazer, a teoria e a prática, a cultura escolar e a cultura do quotidiano; c) proporcionar o desenvolvimento físico e motor, valorizar as actividades manuais e promover a educação artística (…); d) proporcionar a aprendizagem de uma primeira língua estrangeira e a iniciação de uma segunda; (…) Não sendo necessário recapitular os objectivos deste nível de ensino, diremos, ainda, que ao ensino básico caberá prosseguir outros fins, relacionados com a inserção profissional, com a prática da cidadania e com a orientação escolar dos seus alunos, devendo, nomeadamente: “n) proporcionar, em liberdade de consciência, a aquisição de noções de educação cívica e moral; o) criar condições de promoção do sucesso escolar e educativo de todos os alunos”. Quanto à sua organização, estabelece a LBSE (artº 8) a existência de três ciclos sequenciais, cabendo a cada ciclo “a função de completar, aprofundar e alargar o ciclo anterior, numa perspectiva de unidade global do ensino básico”. A Reorganização Curricular do Ensino Básico foi estabelecida através dos Dec.-Lei nº 6/2001, de 18 de Janeiro, e 209/2002, de 17 de Outubro. O preâmbulo do primeiro documento refere-se ao “desenvolvimento do currículo nacional, entendido como o conjunto de aprendizagens e competências, integrando os conhecimentos, capacidades, as atitudes e os valores, a desenvolver pelos alunos ao longo do ensino básico, de acordo com os objectivos consagarados na Lei de Bases do Sistema Educativo para este nível de ensino”. Em capítulos distintos, o referido texto debruça-se sobre os princípios gerais, a organização e gestão do currículo nacional e sobre a avaliação do mesmo. Por sua vez, o último diploma (Preâmbulo) vem “rentabilizar os recursos existentes nas escolas, introduzir a avaliação sumativa externa, as tecnologias de informação e comunicação como área curricular disciplinar, bem como clarificar as orientações constantes nas matrizes curriculares de forma a conferir-lhes um melhor equilíbrio pedagógico”. Ensino Secundário O ensino secundário constitui um único ciclo de estudos (10º, 11º e 12º anos de escolaridade) e organizou-se, primeiramente, em cursos orientados para o prosseguimento dos estudos e em cursos predominantemente orientados para a vida activa, ou cursos tecnológicos. Têm a duração de três anos e contemplam três componentes de formação: geral, específica e técnica. O novo modelo de organização do ensino secundário foi iniciado em 1990/91 e generalizado em 1993/94. De acordo com a LBSE (artº 9), os objectivos fundamentais do ensino secundário são os seguintes: Jorge Carvalho Arroteia 311 “a) assegurar o desenvolvimento do raciocínio, da reflexão e da curiosidade científica e o aprofundamento dos elementos fundamentais de uma cultura humanística, artística, científica e técnica (…); b) facultar aos jovens conhecimentos necessários à compreensão das manifestações estéticas e culturais e possibilitar o aperfeiçoamento da sua expressão artística; c) fomentar a aquisição e aplicação de um saber cada vez mais aprofundado, assente no estudo, na reflexão crítica, na observação e na experimentação; d) formar, a partir da realidade concreta da vida regional e nacional, e no apreço pelos valores permanentes da sociedade, em geral, e da cultura portuguesa, em particular, jovens interessados na resolução dos problemas do país e sensibilizados para os problemas da comunidade internacional; e) facultar contactos e experiências com o mundo do trabalho (…); f) favorecer a orientação e formação profissional dos jovens (…); g) criar hábitos de trabalho, individual e em grupo, e favorecer o desenvolvimento de atitudes de reflexão metódica, de abertura de espírito, de sensibilidade e de disponibilidade de adaptação à mudança”. As opções fundamentais estabelecidas na LBSE estão consubstanciadas no Dec.-Lei, nº 286/89 de 29 de Agosto, que procede à definição dos planos curriculares dos ensinos básico e secundário. Legislação posterior veio estabelecer novas modificações neste subsistema de ensino, em relação quer à sua organização curricular e a novos cursos, como os cursos de especialização tecnológica (CET), quer em relação à organização, gestão do currículo, avaliação e certificação das aprendizagens relacionadas com os cursos de nível secundário, nomeadamente os cursos científico-humanísticos, os cursos tecnológicos e os cursos artísticos especializados, incluindo os do ensino recorrente e os “cursos profissionais ministrados em estabelecimentos de ensino público, particular e cooperativo que ofereçam o nível secundário de educação” (Preâmbulo do Dec.Lei nº 74/2004, de 26 de Março). De acordo com esta legislação, a oferta formativa do ensino secundário passou a estar agrupada em torno de quatro tipos de cursos: científico-humanísticos (especialmente orientados para o prosseguimento de estudos no ensino superior); tecnológicos (orientados, mormente, para a qualificação e inserção no mercado de trabalho e prosseguimento de estudos superiores); artísticos especializados (destinados à formação avançada nas áreas da música, das artes visuais e da dança) e cursos profissionais (especialmente orientados para o ingresso no mercado de trabalho). Sobre a história do ensino secundário em Portugal, recordamos que este se confundiu, durante décadas, com o ensino liceal, que evoluiu separadamente para o ensino técnico, remontando este à “aula do comércio”, criada pelo Marquês de Pombal, em 1759 (MARTINS, 1996, p. 245). Contudo, só em meados do século XIX é que o ensino técnico e profissional assumiu importância e significado com Fontes Pereira de Melo (1852) e, mais tarde, com Emídio Navarro (1886), a quem se deve a mais importante reforma no século passado (Ob. cit., p. 246), com a sua divisão em ensino elementar, preparatório e especial. Recorda-nos Serrão (1981, p. 28-30) que, aquando da implantação da República, o nosso sistema de ensino sofria de diversas vicissitudes, nomeadamente da falta de verbas para 312 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos o recrutamento de professores e para a construção de novos edifícios, sendo que, no que respeita ao ensino liceal, a República limitou-se a administrar a herança monárquica, mantendo, além do mais, o estatuto pedagógico estabelecido em 1895 (Jaime Moniz). Acrescenta este autor que o mesmo aconteceu no tocante às escolas comerciais e industriais, que, aliás, se foram generalizando. A estagnação deste subsistema de ensino parece prosseguir durante os primeiros anos do Estado Novo, facto comprovado através do aumento pouco significativo de equipamentos e da sua população escolar, que se repartia entre um ensino liceal, que dava acesso directo à Universidade, e um ensino técnico, pouco desenvolvido (SERRÃO, 1981, MARTINS, 1996). Note-se que o incremento do ensino liceal remonta ao tempo de Passos Manuel (1836), que, procurando valorizar o significado da “instrução secundária” (CARVALHO, 1986, p. 565), criou um Liceu em cada uma das capitais de distrito, com excepção de Lisboa, que ficou dotada de dois. Estas medidas comprovam a perspectiva da época em circunscrever a formação das elites nacionais e locais a um reduzido número de centros urbanos, situação que se manteve durante décadas e só é ultrapassada na segunda metade do nosso século. A situação social em Portugal durante os anos trinta, sofrendo dos efeitos da crise económica e da própria guerra, só se alterou na década seguinte, com a melhoria gradual das infra-estruturas, devido à electrificação do país e à construção de algumas vias de comunicação. Estes investimentos incentivaram o desenvolvimento de novas técnicas de produção, a construção de fábricas, a formação de mão-de-obra e a industrialização do país. Não admira, por isso, o esforço desenvolvido no arranque da indústria nacional, a braços com a falta de pessoal qualificado, e o deficiente nível de formação cultural da população, estrangulamentos fundamentais no processo de desenvolvimento económico e social do país. Estas razões terão justificado, a reforma do ensino técnico de 1947 (no mesmo ano da reforma do ensino secundário), que reforçou, na sua essência, a estrutura binária do nosso ensino secundário. Recorde-se que a configuração deste modelo havia sido determinada pela legislação de 1930 (Decreto nº 18420), que estabeleceu, como finalidades do ensino técnico profissional, a preparação de indivíduos de ambos os sexos que se destinam às carreiras da indústria ou do comércio e determinou ser este ensino de carácter secundário, sendo leccionado em escolas industriais e comerciais, diferente, por isso, do ensino liceal. Transcrevemos de Martins (1996, p. 251) as características do então ensino secundário, marcado por dois “traços” profundamente diferenciados no que respeita: a) à composição curricular: um, mais teórico e com predomínio de cadeiras de cariz humanístico-científico, e outro, mais prático e onde se pretendia desenvolver a destreza manual; b) ao tipo de selecção: o ensino liceal era a via escolhida pelas classes médias e altas e o técnico pelas classes médias baixas e baixas; c) as saídas diferenciadas quanto ao desempenho de papéis sociais e profissionais; d) ao estatuto diferente: uma via liceal nobre, uma via técnica associada a um conjunto de estigmas. Diversos factores marcaram a evolução da sociedade portuguesa na transição da primeira para a segunda metade deste século, bem como os primeiros anos das décadas seguintes. Jorge Carvalho Arroteia 313 A par das numerosas assimetrias existentes na sociedade portuguesa, bem caracterizadas por S. Nunes e outros autores, destacamos o reconhecimento da expansão da indústria portuguesa e a inserção geoeconómica de Portugal nos grandes espaços (em particular, a EFTA e a CEE). A integração de Portugal nestes espaços veio permitir explorar, em situação preferencial, certos segmentos do mercado internacional e de criar ocasiões de inserção em fluxos internacionais (de mercadorias, de pessoas e de informação), sugerindo, por isso, diversas tentativas de ordenamento social e económico do país, nomeadamente através da elaboração dos Planos de Fomento e o reconhecimento da necessidade de formação de recursos humanos. É o que aponta Grácio (1985, p. 72): as manifestações das correntes desenvolvimentistas (…) vão crescendo de frequência, num discurso marcado pela apologia do progresso, da expansão e diversificação industrial, da modernização da exploração agrícola, bem como da gestão empresarial, da “liberalização” política, das reformas sociais e educativas, da abertura à Europa. Assim se compreende a iniciativa do Ministro da Educação, Galvão Teles, aquando da apresentação do relatório “Projecto Regional do Mediterrâneo” (elaborado em ligação com a OCDE), ao determinar que o mesmo seja tomado em consideração (…) quer nos trabalhos de planeamento regional das instalações escolares (…) quer nos de planeamento qualitativo da acção educativa. Alguns indicadores referentes à sociedade portuguesa no início da década de sessenta ajudam-nos a compreender melhor o significado dessas medidas. Entre elas, recordamos os índices elevados de analfabetismo, o baixo nível de instrução da população portuguesa e a fraca qualificação da mão-de-obra, onde prevaleciam, sobretudo, os diplomados pelo ensino médio (PROJECTO REGIONAL DO MEDITERRÂNEO, 1964, p. 14). Este documento (Op. cit., p. 91) dá-nos conta do ensino secundário, o qual vinha a registar notáveis acréscimos de frequência, devido ao incremento anual das conclusões do ensino primário e ao desejo manifestado por massas cada vez maiores de população para prolongar voluntariamente a escolaridade. No entanto, a proporção dos alunos que prosseguem os estudos secundários relativamente aos que se encontravam inscritos na 4ª classe de instrução primária está longe de atingir valores aceitáveis, sobretudo quando se atenta na reduzida escolaridade obrigatória vigente. De todos os cursos secundários, porém, foram os técnicos os que mais se expandiram, tendo as frequências quase triplicado entre 1950 e 1960. Estas conclusões são comprovadas pelos valores relativos à frequência escolar e à sua evolução, recolhidos por Pardal (1991, p. 147), no seu estudo sobre o ensino secundário. Note-se, ainda, que a necessidade de introduzir melhorias no sistema foi reconhecido por diversos responsáveis da pasta da Educação, de que destacamos o Ministro Leite Pinto, para quem “o desenvolvimento económico e a instrução andam a par”, sendo “todo o dinheiro gasto na educação […] um investimento económico rentável” (GRÁCIO, 1985, p. 76). Assim se compreendem as primeiras medidas relativas ao ensino primário: obrigatoriedade de frequência até à 4ª classe e alteração dos programas, a que se sucederam as medidas de Galvão Teles, que alargou o período de escolaridade obrigatória para seis anos, através da criação do Ciclo Complementar do Ensino Primário, do Ciclo Preparatório do Ensino Secundário e do Ciclo Preparatório TV, como modalidade do Ciclo Preparatório do Ensino Básico. Tratando-se de medidas inovadoras para a época, a essência destas reformas não deixa, mesmo assim, de fazer supor a manutenção de uma certa ordem social, por via da 314 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos prevalência das condições de reprodução social estabelecidas com este alargamento: o Ciclo Preparatório, mantendo-se nos centros urbanos, prosseguia a formação das élites urbanas; o Ciclo Preparatório TV e as 5ª e 6ª classes, a funcionarem nas escolas primárias, rurais, com professores deste ramo de ensino, sofriam dos efeitos de um ensino não presencial e da menor preparação destes agentes. As medidas anteriores, implementadas gradualmente no território, foram objecto de reformulação, neste caso apresentadas por Veiga Simão, que, batendo-se pela democratização do ensino, viu aprovado, através da Lei nº 5/73, o alargamento do período de escolaridade obrigatória para oito anos, compreendendo os ensinos primário e preparatório. Relativamente ao ensino secundário, a proposta estipulava a sua composição em dois ciclos, de dois anos cada, com a designação de curso geral e de curso complementar. As alterações introduzidas no sistema educativo após Abril de 1974 modificaram profundamente a referida Lei, não deixando de valorizar os princípios de democratização sugeridos por aquele ministro. Tal não podia deixar de acontecer depois da promulgação da Constituição da República Portuguesa – CRP (artº 74), que estabeleceu o direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. Daqui decorre um conjunto de decisões facilitadoras do processo de democratização do ensino e que se repercutiram no funcionamento global do sistema educativo. Entre as medidas tomadas na sequência da Revolução de Abril de 1974, a extinção do ensino técnico, em Junho de 1975, e a unificação do secundário revestiram-se, de acordo com Grácio (1985, p. 87), de uma decisão política de transparente inspiração democrática, pondo, assim, termo à dualidade ensino liceal-ensino técnico que, então, vigorava. Com esta abolição, pretendia-se, sobretudo, anular a discriminação ao nível do ensino secundário, contribuindo para o processo de democratização da sociedade portuguesa, e acabar com o ensino de “élites”, que representava, para largos estratos da população, o antigo ensino liceal. Contudo, as mudanças operadas fizeram-se à custa de uma licealização dos conteúdos do ensino, não diferindo, demasiado, do praticado na via até aí privilegiada (Op. cit., p. 215). Ao tempo e de acordo com Emídio (1981, p. 194), o ensino liceal, sendo mais tradicionalista e selectivo e dotado de feição vincadamente “humanístico-científica”, orientava-se para a satisfação das exigências de dois mercados de trabalho: o do funcionalismo público administrativo e o das escolas de magistério primário (…) o das profissões liberais e dos quadros técnicos superiores, mediante a preparação em via linear para a frequência da Universidade. Pelo contrário, nota este autor que o ensino técnico procurava satisfazer a necessidade de operários e alimentar os fluxos necessários à formação de quadros médios a nível dos institutos, industriais e comerciais, e das escolas de regentes agrícolas, sendo, portanto, mais prático, aberto e carecido de fundamentação teórica e cultural. Estas medidas são questionadas por Azevedo (1994, p. 107), que assinala o mito unificador e igualitarista do ensino secundário, o qual, não tendo promovido a desejada igualdade de oportunidades, terá, pelo contrário, contribuído para a segregação e a exclusão social. Mesmo assim, estas afirmações realçam o alcance das alterações operadas neste subsistema de ensino. Nesse sentido, a unificação do curso geral e a criação dos cursos complementares de via única vieram atenuar, no dizer de Bowles e Gintis ((in: MUSGRAVE, 1984, p. 347), a reprodução da “hierarquia da divisão do trabalho dominante no local de trabalho”. De facto, Musgrave (Ob. cit., p. 217) faz notar que, em qualquer sociedade, o modo de desenvolvimento de sistemas de conhecimento está em relação estreita com a sua estratificação, sendo que, Jorge Carvalho Arroteia 315 numa sociedade de classes, o poder assenta na riqueza, e os que o têm querem preservar o privilégio da distribuição não só da riqueza como também do saber. Ainda no dizer de Grácio (1985, p. 87), aquelas medidas serviram uma estratégia de igualização individual de oportunidades educativas, dando seguimento ao estipulado pela Constituição da República Portuguesa (artº 74º), que determina ser dever do Estado modificar o ensino de modo a superar qualquer função conservadora de desigualdades económicas, sociais e culturais. Recorde-se que o relatório da UNESCO (1982, p. 78) apontava para a necessidade de uma reformulação curricular do ensino secundário, incluindo uma iniciação ao mundo do trabalho e a aquisição de noções pré-profissionais, correspondendo às aptidões e às aspirações dos interessados. Por sua vez, a proposta de reorganização dos planos curriculares dos ensinos básico e secundário, coordenada por Fraústo da Silva (CRSE, 1987, p. 237), vai mais longe e aponta, como objectivos do ensino secundário: o alargar, aprofundar e consolidar a formação geral adquirida no ensino básico, além de prosseguir outras metas: uma formação mais especializada e estruturada em diversos domínios do conhecimento e uma formação vocacional que permita a integração na vida ou o acesso a modalidades complementares de formação profissional específica. Tal deveria ser prosseguido tendo em atenção alguns princípios orientadores (Ob. cit., p. 189), considerados como traves-mestras do processo curricular. Citam-se: a promoção do sucesso escolar e educativo, o sentido integrador da aquisição educativa, a dimensão participativa nas actividades educativas e a formação para a educação permanente. Alguns destes princípios são retomados por Carneiro (1988, p. 16-17), que, perante o aumento da pressão dos efectivos escolares sobre o ensino secundário e o possível desequilíbrio entre a procura e a oferta, defende a transformação do ensino secundário num sistema muito diversificado, não só ao nível dos cursos, mas também ao nível institucional. Tal entendimento não esconde, mesmo assim, o grande desafio que se continua a colocar a este subsistema de ensino e cuja apreciação foi largamente aprofundada ao nível quer da CRSE quer, sobretudo, do Conselho Nacional de Educação (1990) quanto à sua identidade – no sentido de lhe garantir o acesso ao mundo do trabalho – e dependência. Aquela identidade deverá facultar a convergência dos objectivos do ensino secundário, no sentido de assumir as suas próprias metas, conteúdos, estratégias e regime de progressão (CNE, 1990, p. 529), garantindo-lhe um “novo profissionalismo”, capaz de resistir às mudanças do nosso tempo. Pelo contrário, entendemos a dependência como o assumir da função quase exclusiva de ponte para o ensino superior (Loc. cit.), com reflexos evidentes em todos os seus objectivos pedagógicos e estrutura curricular. São estas as grandes questões que, no nosso entender, condicionam este subsistema de ensino, igualmente afectado pelos efeitos da globalização da intensificação da concorrência e da rapidez da mudança que afecta a nossa sociedade. Neste contexto, os sistemas de ensino e de formação são, hoje em dia, confrontados com novos e constantes desafios, de modo a satisfazerem os interesses dos alunos e as expectativas da própria sociedade. Este entendimento é corroborado por Gaspar (1996, p. 244), que, a propósito da expansão quantitativa do ensino secundário em Portugal depois dos anos setenta, afirma que este surge como a resposta possível a alguns dos problemas nacionais, contribuindo para o “esbatimento de assimetrias económicas e culturais de âmbito regional; o alargamento de oportunidades de Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 316 acesso à educação e cultura, com a consequente elevação do nível académico da população e, nomeadamente, da sua qualificação profissional; e a consolidação da democracia com a possibilidade de uma participação mais esclarecida e, por isso, melhor assumida”. Quanto à organização deste subsistema de ensino, para Hallak (1998, p. 16) a questão fundamental reside em recolocar o ensino secundário entre um tronco comum de formação de base e as formações especializadas do ensino superior. Perante este dilema, defende o mesmo autor ((Loc. cit.): “le secondaire doit avoir pour priorité de préparer l’individu à prendre en charge sa propre formation permanente, ce qui permettra le développement des compétences requises par la societé et l’économie: i.e. apprendre à faire et apprendre à apprendre”. É igualmente nesta perspectiva de formação ao longo da vida que Delors (1996, p. 115) sugere o desenvolvimento do ensino secundário, seguindo três princípios estruturantes: a diversidade das formações, a alternância a desenvolver entre o estudo e uma actividade profissional ou social e a busca de melhorias qualitativas. Não sendo propostas meramente teóricas, convirá destacar que a auscultação da população docente do ensino secundário (FERNANDES, 1998, p. 37-41) confirmou algumas destas questões, nomeadamente as que se referem à identidade do E.S. e à tendência para a integração dos cursos profissionais no ensino regular. Pela sua pertinência, transcrevemos o conjunto de sugestões recolhidas por aquele autor, sobre a estrutura organizativa do ensino secundário: a) melhor articulação entre os ensinos básico e secundário; b) diversificação da formação secundária e constituição de um tronco comum às diferentes formações; c) ajustamentos curriculares nos cursos tecnológicos, que permitam responder às reais necessidades, interesses e capacidades dos alunos; d) reforço das estratégias de orientação vocacional, que ajudem as famílias e os alunos a optarem pelos percursos formativos mais ajustados às suas necessidades; e) defesa de um ensino secundário com identidade, não esquecendo a necessária articulação com o ensino superior; f) manutenção do ensino recorrente. O atendimento destas propostas reforçará, certamente, o “efeito de externalidade” positiva do ensino secundário, trazendo à sociedade um conjunto de benefícios sociais, de momento ainda não conseguidos. Até porque, como observa Azevedo (1994, p. 88), a escola secundária tem sido um locus cultural e social que fomenta ainda uma elevada expectativa de ascenção social pela via que abre à obtenção de um diploma de um curso superior (…)”. Ensino Superior De acordo com a LBSE (artº 11), o ensino superior compreende o ensino universitário e o politécnico. Globalmente, prosseguem os objectivos relacionados com: · a “criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo”; · a formação de diplomados “em diferentes áreas do conhecimento”; · o desenvolvimento do “trabalho de pesquisa e de investigação científica”, a divulgação de “conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem património da humanidade”; Jorge Carvalho Arroteia · · 317 o “suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional” e o “conhecimento dos problemas do mundo de hoje”; o “continuar a formação cultural e profissional dos cidadãos pela promoção de formas adequadas de extensão cultural”. A grande diferença entre ambos reside, fundamentalmente, no reforço da preparação “científica e cultural”, a qual deve identificar a formação universitária, em detrimento da formação “cultural e técnica”, que deve ser apanágio do ensino superior politécnico. Na tentativa de definir os ensinos Universitário e Politécnico, o CRUP (2004, p. 8) precisou outras noções, adiante assinaladas: “Universidade é uma comunidade de saberes que tem por missão criar e transmitir conhecimentos em áreas disciplinares alargadas, cuja difusão e aplicação sirva as solicitações e as preocupações da Sociedade. O Ensino Universitário visa conferir aos estudantes uma formação em ambiente de investigação e de construção teórica do conhecimento, que os habilite a contribuir para o avanço do saber e respectivas aplicações, estimule o espírito crítico, o empreendedorismo e a capacidade de pesquisa (…). Instituto Politécnico é uma comunidade de ensino, numa diversidade de áreas disciplinares, que tem por missão transmitir conhecimentos, fomentando o desenvolvimento e aplicação do saber, constituído através de actividades que atendam a solicitações e a preocupações socioeconómicas, particularmente da região em que se insere. O ensino politécnico visa conferir aos estudantes uma formação especialmente ligada à vida activa, em ambiente de pesquisa, orientada para a transferência dos avanços científicos em inovação, que promova o espírito de empreendedorismo e a capacidade de participação activa em acções de desenvolvimento”. Vejamos alguns aspectos relativos à evolução deste subsistema de ensino. O desenvolvimento do ensino superior em Portugal, durante o século XX, segue a marcha dos diferentes acontecimentos sociais e políticos que marcaram a evolução da sociedade portuguesa, em particular no decurso da segunda metade desse século. Assim, contando até ao início dos anos setenta, apenas com o ensino médio e o ensino universitário, Portugal acolhia, então, quatro universidades públicas: Coimbra, Lisboa, Porto e a Universidade Técnica de Lisboa. Além destas, existia ainda o ensino superior militar (incluindo o ensino náutico). Quanto ao ensino superior politécnico, criado em finais dos anos setenta, só no decurso da década seguinte assistimos à sua entrada em funcionamento e expansão (ARROTEIA, 1996 e 2002). Quanto à sua frequência, importa realçar que, desde o início desse século e durante praticamente toda a sua primeira metade, registou-se um acréscimo bastante lento da população estudantil. Com efeito, no início do século XX, em 1910/11, a população que frequentava o ensino superior universitário português orçava os 1,2 milhares. Ainda antes de meados desse século, esse montante ascendia, em 1940/41, a 8,7 milhares, valor que, no início da década de sessenta, em 1960/61, atingia os 19,5 milhares. Depois de um aumento rápido para a época, durante a qual foram tomadas diversas medidas relacionadas com o processo de democratização do ensino, tornou-se mais evidente o contributo da educação universitária na formação dos recursos humanos necessários ao desenvolvimento social e cultural do país. Esta situação esteve na origem do alargamento da rede escolar, em todos os níveis de ensino, e no investimento em formação dos recursos 318 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos humanos, em particular de professores. Por isso, assistimos a um aumento significativo da população escolar universitária, que, orçando os 24,1 milhares, em 1960/61, superou os 28,0 milhares de alunos, em 1965/66. Este valor duplicou em menos de uma década, para atingir, em 1970/71, os 44,2 milhares de alunos e, em 1974/75, os 61,3 milhares. Entre os textos legais que podem ser considerados relevantes para a compreensão deste fenómeno, cita-se a Lei nº 5/73 (conhecida pela reforma “Veiga Simão”), que, nos seus princípios fundamentais, defendia o direito à educação a todos os portugueses, a obrigatoriedade de uma educação básica generalizada e a liberdade de ensino em todas as suas modalidades. Estes princípios influenciaram decisivamente as medidas da política educativa depois da Revolução de Abril de 1974 e, em particular, após a promulgação da Constituição da República Portuguesa (em 1976), que consagra o direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar a toda a população. Depois destas datas, com as medidas relativas à abertura do sistema educativo a alunos das diferentes classes sociais, o acréscimo da população estudantil no ensino superior foi ainda mais significativo. Tal facto justifica-se não só por razões de natureza política, que permitiram o alargamento da rede de estabelecimentos de ensino, mas também por razões de natureza socioeconómica e cultural, que conduziram à enorme procura da educação em todos os níveis. E por “efeito de onda”, esta tendência levou ao aumento significativo de alunos no ensino superior. O acréscimo desta população escolar anda associada à criação de novos estabelecimentos de ensino e, em particular, à publicação do Decreto-Lei nº 513-T/79, que criou o ensino superior politécnico. Uma vez instituído, inicia-se o processo de expansão da rede, facto que foi particularmente sentido no decurso dos anos oitenta, nomeadamente com a publicação do Decreto do Governo nº 46/85. O interesse na ampliação da rede é justificado no preâmbulo deste documento: “as análises mais recentes sobre o sistema de ensino superior português e sobre a sua capacidade para responder às necessidades do mercado de trabalho, entre as quais se salienta a realizada pela OCDE no quadro da política educativa portuguesa, apontam para a urgência de uma expansão significativa de capacidade de resposta do ensino superior politécnico, nomeadamente nas suas vertentes de tecnologia e gestão”. A publicação deste e doutros documentos insere-se num conjunto de medidas de política educativa que visavam a formação de recursos humanos a nível superior, bem como a democratização e a diversificação do ensino superior. Entre elas, destacamos as que permitiram a expansão do ensino superior particular e cooperativo (universitário e politécnico) e que estiveram na origem do crescimento alargado do número de estudantes nestes subsistemas de ensino. Com efeito, em menos de três décadas, de 1970 à actualidade, o total de alunos matriculados no ensino superior quintuplicou, passando de 69,2 milhares, em 1973/74, para mais de 312 milhares, em 1995/96. No ano de 1999/2000, o total de alunos matriculados no ensino superior ultrapassava os 370,7 milhares, dos quais 252,2 milhares, no ensino público, e 118,5 milhares, no ensino superior não público. Depois de um máximo, em 2002/03, em que se inscreveram no ensino superior mais de 395,4 milhares de alunos, no ano seguinte esse valor reduziu-se para 388,7 milhares, acusando o “efeito de onda” demográfico, decorrente da redução da natalidade, iniciada há algumas décadas. Jorge Carvalho Arroteia 319 Os valores seguintes, relativos às inscrições em 31 de Dezembro, registam esta variação. Quadro 13 Tipo de Ens. Superior Público Universitário Público Politécnico Part. e Coop. Univ. Part. e Coop. Pol. Univ. Cat. Portug. Total 1990 1995 2000 2002 2003 102 916 30 547 21 327 22 983 7 113 186 773 138 286 58 482 43 623 61 444 9 574 313 435 167 435 100 481 43 560 59 501 10 560 384 322 171 667 110 761 38 789 60 915 10 412 395 478 169 481 109 641 36 071 59 797 10 641 388 724 Estes elementos permitem realçar que, na sua evolução, o sistema de ensino superior, em Portugal, atravessou diversas fases, a saber: · diversificação: com a criação do “sistema binário” (ensino politécnico e ensino universitário), registada no início dos anos setenta e consolidada com a publicação da LBSE; · expansão: alargamento da rede com a criação de diversos estabelecimentos de ensino em diversos pontos do país, facto que veio reforçar o processo de democratização do ensino e da sociedade portuguesa; · consolidação: com a entrada em funcionamento de novos cursos em instalações definitivas, a estabilização do número de alunos nos diversos subsistemas e a elaboração de planos de desenvolvimento estratégico. O cumprimento destas metas abona a favor da importância actual do ensino superior e da sua relevância nos processos de formação dos recursos humanos, de modernização da sociedade e na promoção das mudanças tecnológicas, sociais e culturais que o país carece para o seu desenvolvimento. Recorde-se que, hoje em dia, a par da redução da população estudantil, o ensino superior é confrontado com novos desafios impostos pela evolução da sociedade e do seu tecido empresarial, bem como pela internacionalização dos mercados e globalização. Estes factores exigem uma constante e contínua avaliação do seu desempenho institucional, assim como a sua articulação com os sistemas de emprego e investigação tecnológica. Estes aspectos são particularmente relevantes tendo em conta a configuração actual do subsistema de ensino superior, configurado na existência do ensino superior universitário e no ensino superior politécnico: o “sistema binário. A institucionalização do “sistema binário” do ensino superior em Portugal, consagrado na publicação das LBSE, assinala um processo de larga produção legislativa e de diversas medidas, que vieram possibilitar a emancipação do subsistema de ensino politécnico, face ao ensino universitário tradicional. Embora com objectivos distintos, importa realçar, como bem assinala Costa (2003, p. 102), que, tratando-se de modalidades distintas de ensino superior, estas “correspondem a duas culturas de relação com a sociedade: o ensino universitário encara essa relação com um distanciamento que favorece uma reflexão crítica centrada na 320 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos sua evolução com o correr do tempo, enquanto que o ensino politécnico a encara numa lógica de enraizamento instantâneo e constante”. Para além das expectativas sociais criadas, sobretudo a nível regional, com o alargamento da rede, a formação dos recursos humanos e o contributo destas instituições para o desenvolvimento regional, a sua criação veio favorecer o processo de democratização do ensino, iniciado ao longo dos sessenta. A sua criação ficou ainda assinalada com os investimentos públicos canalizados para a construção das novas infra-estruturas de ensino e investigação, bem como pelo crescimento dos diversos centros urbanos onde estas novas escolas ficaram sedeadas. A coexistência de dois subsistemas, o universitário e o politécnico, constitui um exemplo de diversificação do ensino superior, motivada pela procura dos alunos e pelas exigências do tecido produtivo nacional. A situação actual, marcada pela complexidade de oferta de escolas e de opções de cursos, realça a natureza dos “fenómenos sociais e totais” (GURVITCH, 1979), que marcam a evolução recente deste sistema de ensino e os seus reflexos imediatos na sociedade portuguesa. Sem irmos muito além, recordamos a importância das universidades na sociedade portuguesa, entendidas como “organismos dependentes do Ministério da Instrução Pública”, remontando a mesma ao início do Estado Novo, aquando da publicação do “Estatuto da Instrução Universitária”, em 27 de Julho de 1930. Com a publicação da Lei nº 5/73, é estabelecida a separação do ensino superior entre Universidades, Institutos Politécnicos e Escolas Normais Superiores, e outros estabelecimentos equiparados. A expansão e diversificação do ensino superior e a institucionalização do “sistema binário” vieram a ser formalizadas através da publicação do Decreto-Lei nº 402/73, onde se justifica a criação do ensino superior politécnico como uma necessidade de responder às exigências do “desenvolvimento social e económico” do país, bem como ao “desenvolvimento da sociedade portuguesa”. Neste sentido, foi criada uma rede de estabelecimentos de ensino superior de natureza politécnica. A distinção entre as diferentes instituições foi assim definida: · “As Universidades são instituições pluridisciplinares que procuram assegurar a convergência dos diversos ramos do saber e às quais compete especialmente ministrar o ensino superior de curta e de longa duração e de pós-graduação, promover a investigação fundamental e aplicada…e, no âmbito da sua missão de serviço à comunidade, considerar o estudo da cultura portuguesa” (artº 3). · “Os Institutos Politécnicos são centros de formação técnico-profissional, aos quais compete especialmente ministrar o ensino superior de curta duração (…) e promover a investigação aplicada e o desenvolvimento experimental, tendo em conta as necessidades no domínio tecnológico e no sector dos serviços, particularmente as de carácter regional” (artº 4). · “As Escolas Normais Superiores são centros de formação e aperfeiçoamento de professores para o ensino básico (…) que ministram cursos superiores de curta duração, (…) e que desenvolvem investigação educacional e apoiam pedagogicamente os organismos de ensino e de educação permanente, constituindo focos de irradiação cultural nas regiões onde se inserem” (artº 5). A rede escolar foi alargada com a criação de novas instituições do ensino superior: Jorge Carvalho Arroteia 321 · “São criadas as Universidade Nova de Lisboa, de Aveiro e do Minho e o Instituto Universitário de Évora” (artº 8); · “São criados os Institutos Politécnicos da Covilhã, Faro, Leiria, Setúbal, Tomar e Vila Real” (artº 10); · “São criados os Institutos Politécnicos de Coimbra, Lisboa, Porto e Santarém, por reconversão e fusão dos institutos industriais e comerciais e escolas de regentes agrícolas existentes nestas cidades” (artº 10); · “São criadas as Escolas Normais Superiores de Beja, Bragança, Castelo Branco, Funchal, Guarda, Lisboa, Ponta Delgada, Portalegre e Viseu” (artº 11). Note-se que, anteriormente a 1973, o “sistema binário” estava representado pelo ensino universitário e pelo ensino médio, ministrado nos Institutos Comerciais, nos Institutos Industriais, nas Escolas de Magistério Primário, nas Escolas de Enfermagem e nas Escolas de Regentes Agrícolas. Integravam, ainda, o ensino médio outras escolas ligadas especialmente aos sectores da defesa e das pescas. Nestes casos, a diversificação entre estes subsistemas de ensino, até à sua integração no ensino superior (durante a década de setenta), fazia-se ao nível da admissão dos alunos ou das habilitações de base, distintas das do ensino universitário, e através da natureza dos cursos, da sua duração e dos respectivos diplomas, de natureza idêntica à do bacharelato (Lei nº 61/78). Apesar da criação do ensino superior politécnico, a afirmação do modelo binário demorou algum tempo a consolidar-se, passando até por diversas etapas intermédias. Começamos por destacar a autorização concedida pela Assembleia da República ao Governo, em Setembro de 1977 (Lei nº 71/77) – após a extinção, em 1974, do ensino médio e da sua transformação em ensino superior –, para “legislar sobre a criação e estrutura do ensino superior de curta duração e a sua inserção no esquema geral do ensino superior”. Na sequência desta Lei, o Governo publicou, em 14 de Outubro do mesmo ano, o Decreto-Lei n. 472/77, o qual, face à integração do ensino médio no ensino superior, contemplou o ensino superior de curta duração, “tendente à formação de técnicos especialistas e de profissionais de educação a nível superior intermédio” (artº 1). Como justificação desta iniciativa, resultante do aumento da “produção de diplomados portadores de uma formação teórica semelhante às escolas universitárias (…) sem por outro lado ter havido a preocupação de se estudar a correspondência entre a quantidade de diplomados a formar (…) e as reais necessidades do País”, aponta-se: · a ausência da “formação de técnicos de nível médio”, por via da transformação do ensino médio em ensino superior, “sem cuidarem de preencher a lacuna que desse modo se criou, não só no sistema de ensino, como na própria formação de técnicos de que as actividades económicas carecem”, · a necessidade de se formarem “técnicos qualificados de nível superior intermédio, com um estatuto próprio e uma designação profissional correspondente”. De acordo ainda com o referido documento (artº 2), “o ensino superior de curta duração será ministrado em estabelecimento de ensino predominantemente de âmbito regional com a denominação de escolas superiores técnicas e escolas superiores de educação”. 322 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos A consolidação do “sistema binário” passou, ainda, pela publicação de legislação referente ao “ensino superior de curta duração” e à sua designação por “ensino superior politécnico” (Decreto-Lei nº 513-T/79, de 26 de Dezembro), que aponta, como causa principal destas medidas: “dotar o País com profissionais de perfil adequado de que este carece para o seu desenvolvimento”. Recordam-se, a propósito, as razões que estiveram na origem desta deliberação: · por um lado, a necessidade de “coexistência do ensino superior politécnico, impregnado de uma tónica vincadamente profissionalizante, com o ensino superior universitário, de características mais conceptuais e teóricas”; · por outro, a sua ligação mais estreita às actividades produtivas e sociais, garantindo a formação de “educadores de infância, professores dos ensinos primário e preparatório e técnicos qualificados nos domínios da tecnologia industrial, da produção agrícola, pecuária e florestal, da saúde e dos serviços”. A diversificação deste subsistema de ensino, através do alargamento da rede e da criação de diversas escolas, abarcou diferentes domínios científicos. Lembramos as escolas superiores de educação e as escolas superiores técnicas (agrupadas ou não em Institutos Politécnicos), cuja implantação cobriu, praticamente, todos os distritos do país. A criação das primeiras foi justificada pela necessidade de assegurar a formação inicial de educadores de infância, bem como de professores do ensino primário e para todo o ensino básico (do 1º ao 6º ano de escolaridade). Foi, igualmente, considerada “como medida que tem como objectivo o alargamento efectivo da escolaridade obrigatória”. Estas preocupações levaram à criação de uma ESE por capital de distrito, a qual foi, posteriormente, integrada no respectivo Instituto Politécnico. Nos casos dos distritos de Aveiro, Braga e Évora, optou-se pela instalação de uma estrutura de cariz semelhante, os Centros Integrados de Formação de Professores, integrados nas respectivas Universidades. Por sua vez, as escolas superiores técnicas tinham como responsabilidade a formação de “técnicos qualificados nos sectores da produção agrícola, pecuária e florestal, da tecnologia dos produtos alimentares e industriais, da gestão e da contabilidade, da saúde e do jornalismo”. Recordam-se as finalidades então estabelecidas para o ensino superior politécnico (artº 1 – Decreto-Lei nº 513-T/79): “a) Formar, a nível superior, educadores de infância, professores dos ensinos primário e preparatório e técnicos qualificados em vários domínios de actividade; b) Promover, dentro do seu âmbito, a investigação e o desenvolvimento experimental, estabelecendo a ligação de ensino com as actividades produtivas e sociais; c) Apoiar pedagogicamente os organismos de ensino e de educação permanente; d) Colaborar directamente no desenvolvimento cultural das regiões em que estão inseridos; e) Prestar serviços à comunidade, como forma de contribuição para a resolução de problemas, sobretudo de carácter regional, nela existentes”. Note-se que a ampliação da rede do ensino superior politécnico prosseguiu em diversos momentos, recordando-se os anos oitenta (Decreto do Governo nº 46/85, de 22 de Novembro) como um período relevante na criação de diversas escolas. No preâmbulo do documento Jorge Carvalho Arroteia 323 anterior, lê-se o seguinte: “as análises mais recentes sobre o sistema de ensino superior português e sobre a sua capacidade para responder às necessidades do mercado de trabalho, entre as quais se salienta a realizada pela OCDE no quadro da política educativa portuguesa, apontam para a urgência de uma expansão significativa de capacidade de resposta do ensino superior politécnico, nomeadamente nas suas vertentes de tecnologia e gestão”. A referência à legislação anterior realça um conjunto de medidas que, desde o início dos anos setenta, permitiram a consolidação do “sistema binário”. Tal prossegue com a publicação da “Lei de Bases do Sistema Educativo Português” (em 14 de Outubro de 1986), que, no seu artº 11, estabelece: “o ensino superior compreende o ensino universitário e o ensino politécnico”. Ao ensino universitário cabe: “assegurar uma sólida preparação científica e cultural e proporcionar uma formação técnica que habilite para o exercício de actividades profissionais e culturais e fomente o desenvolvimento das capacidades de concepção, de inovação e de análise crítica”. Por sua vez, é da responsabilidade do ensino politécnico: “proporcionar uma sólida formação cultural e técnica de nível superior, desenvolver a capacidade de inovação e de análise crítica e ministrar conhecimentos científicos de índole teórica e prática e as suas aplicações com vista ao exercício de actividades profissionais”. Reconhece a LBSE a mobilidade dos estudantes entre os estabelecimentos de ensino superior nacionais (artº 13), “pelo reconhecimento mútuo do valor da formação e competências adquiridas em cada unidade e ainda através de um sistema de créditos baseado na análise dos planos de estudo”. Anteriormente à publicação desta Lei, já a ligação entre estes dois elementos havia sido contemplada na legislação relativa ao ensino superior politécnico, através do Decreto-Lei nº 513-T/79. E a possibilidade de cooperação entre os dois subsistemas foi confirmada pela Lei nº 108/88, de 24 de Setembro, relativa à “Autonomia das Universidades”. Define o referido documento estas instituições como: “centros de criação, transmissão e difusão da cultura, da ciência e da tecnologia, que, através da articulação do estudo, da docência e da investigação, se integram na vida da sociedade”. Quanto às competências, as universidades devem “colaborar na formulação, pelo Estado, das políticas nacionais de educação, ciência e cultura, pronunciando-se, designadamente através do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, sobre os projectos legislativos que lhes digam respeito”. Relativamente ao Ensino Superior Politécnico, o documento correspondente ao “Estatuto e autonomia dos estabelecimentos de ensino superior politécnico” (Lei nº 54/90, de 5 de Setembro de 1990) define os institutos politécnicos como “instituições do ensino superior que integram duas ou mais escolas superiores globalmente orientadas para a prossecução dos objectivos do ensino superior politécnico numa mesma região, as quais são associadas para efeitos de concertação das respectivas políticas educativas e de optimização de recursos”. Esta Lei estabelece, no seu artº 4, o seguinte: “No âmbito das suas atribuições e visando uma mais adequada prossecução dos seus objectivos, os institutos politécnicos, ou as suas escolas superiores, podem estabelecer acordos, convénios e protocolos de cooperação com instituições congéneres e, bem assim, com estabelecimentos de ensino superior universitário, ou com outros organismos públicos ou privados, nacionais, estrangeiros ou internacionais”. Para além dos aspectos acima referidos, importa assinalar que o ensino superior nos países da União Europeia está a ser desenvolvido de acordo com o estabelecido na “Declaração de 324 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Bolonha”, preparada pela Confederação Europeia das Conferências de Reitores e pela Associação Europeia de Universidades e assinada, em 19 de Junho de 1999, por 29 países europeus, com vista à reforma das estruturas dos sistemas educativos do ensino superior, de uma forma convergente, no sentido da construção de um espaço europeu de educação superior. O texto então assinado, de cooperação entre os diversos estados, visa promover a construção de uma “Europa de Conhecimento”, com base na educação, formação, investigação e inovação, assente no cumprimento dos seguintes objectivos: · adopção de um sistema de graus facilmente legíveis e comparáveis; · adopção de um sistema essencialmente baseado em dois ciclos principais, estudos pré-graduados e graduados; · estabelecimento de um sistema de créditos – à semelhança do sistema de ECTS – como um meio apropriado para promover uma mobilidade de estudante mais abrangente; · promoção de mobilidade, superando obstáculos para o exercício efectivo de movimento livre de estudantes e de professores; · promoção da cooperação europeia na avaliação da qualidade de ensino, com vista a desenvolver critérios e metodologias comparáveis; · promoção das necessárias dimensões europeias de ensino superior, particularmente no que diz respeito ao desenvolvimento curricular, cooperação internacional, esquemas de mobilidade e programas de estudo, treino e pesquisa. Esta Declaração, que é um compromisso conjunto e um programa de acção, tem como antecedentes os documentos referentes à “Magna Carta Universitatum”, assinada em 18 de Setembro de 1888, por ocasião do nono centenário desta Universidade, e a Declaração Conjunta da Sorbonne, assinada pelos quatro ministros responsáveis da França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Na sequência da assinatura desta Declaração, o CRUP (2004, p. 6) apontou um conjunto de princípios”pelos quais se deve reger a futura estrutura de ciclos e graus do Ensino Superior”, que passamos a transcrever (Loc. cit.): · “Transparência na designação dos cursos de todos os subsistemas do Ensino Superior público e privado. · Mobilidade de estudantes entre as instituições do Ensino Superior, no âmbito Nacional e Europeu (…). · Compatibilidade com as estruturas de graus vigente na Europa. · Legibilidade das formações e diplomas. · Equidade e igual exigência nas condições de acesso aos ciclos de formação, incluindo a garantia de financiamento dos dois ciclos previstos”. Na sequência da assinatura desta Declaração, a Conferência de Berlim (assinada em 2005) definiu como prioridades (SOARES, 2005, p. 16): · “implementar o uso efectivo de um sistema baseado em dois ciclos; · promover a instalação de um sistema efectivo de garantia da qualidade; · desenvolver um sistema de reconhecimento de graus e de períodos de estudos”. Jorge Carvalho Arroteia 325 Pela sua importância e reflexos sobre os sistemas de ensino superior dos diferentes países europeus e na sociedade, a análise da Declaração de Bolonha e das diferentes linhas de acção que foram sendo introduzidas neste processo, nomeadamente em conferêncis internacionais de Lisboa, Praga, Berlim e Bergen, merecem um estudo aprofundado, a realizar após a sua entrada em funcionamento. Sistema de informação educacional A disponibilidade de informação constitui um dos requisitos fundamentais do processo de desenvolvimento, de planeamento e das tomadas de decisão, relacionadas com a política de educação e de outras políticas sectoriais. De facto, como assinala Zorrinho (1991, p. 17), “a informação é hoje um dos factores estruturantes do funcionamento e da evolução social. Vivemos numa sociedade que, sendo pós-industrial, cada vez mais é designada por ‘sociedade de informação’, ou mesmo, numa evolução conceptual mais recente, por ‘sociedade do conhecimento’”. Assim, a recolha de informação relacionada com a evolução, o acompanhamento e a avaliação dos sistemas de ensino exige um conjunto de dados diferenciados, de natureza qualitativa e quantitativa, sobretudo de natureza estatística, direccionados para os aspectos demográficos, económicos, sociais, culturais e outros. Na actualidade, às fontes de informação mais tradicionais, relacionadas com a procura dos alunos, devem juntar-se outros elementos indispensáveis para a tomada de decisão, incidindo sobre os recursos físicos e materiais e, sobretudo, sobre a população docente, as suas habilitações, necessidades de formação, expectativas de carreira, mobilidade e outras, bem como informações relativas ao mercado de trabalho, aos contextos e às exigências impostas pela sua evolução e crescimento. No dizer de Zorrinho (1991, p. 21), devemos encarar esta recolha, “na perspectiva de gestão estratégica (…), gerir (pel)a informação é condicionar a base genética de evolução da organização através da acção sobre os padrões de leitura do ambiente interno e externo”, permitindo, desta forma, tomadas de decisão assertivas e um melhor controlo das organizações sociais. Numa perspectiva quantitativa, o conhecimento dos fenómenos relacionados com a população escolar, que não só da sua evolução ou das suas características, é facilitado através da consulta dos dados contidos nos recenseamentos gerais da população, realizados decenalmente, bem como através das estatísticas especializadas, em particular as estatísticas da educação, editadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Para Santos (1993, p. 22), estas podem ser utilizadas de forma variada: “· para descrever o volume e o fluxo de alunos, pessoal docente e administrativo, equipamento e material didáctico; · para comparar tipos de ensino e resultados entre instituições e grupos populacionais diferentes; · para controlar e compatibilizar as operações do dia-a-dia; · para planear, o que obriga a dispor de informação, não só da situação corrente, mas também de resultados prováveis de escolhas alternativas; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 328 · · para avaliar o bom êxito do sistema educativo, à luz de objectivos determinados, ou o impacto de um programa específico de acção; para orientar a pesquisa em educação, a fim de investigar as relações causais entre factores externos e internos ao sistema educativo”. O interesse no conhecimento destes dados resulta, fundamentalmente, da necessidade de se proceder a um levantamento da procura e oferta dos equipamentos educativos, bem como da identificação dos desequilíbrios existentes no acesso e no sucesso educativos, com vista à elaboração não só das projecções relativas às necessidades de escolarização, mas também de propostas que assegurem uma igualização das condições de ensino e o respeito por certas normas de utilização dos espaços e dos professores. O conhecimento da frequência do sistema educativo, bem como a apreciação de alguns indicadores relativos à população escolar (número actual, sua distribuição por ciclos de estudo, evolução no tempo, duração da “esperança de vida escolar” e outros) e ao nível de instrução dos restantes habitantes, constitui um auxiliar precioso, que nos permite conhecer o estádio de evolução cultural e social de um determinado território. Recorde-se que os valores indicativos de um crescimento negativo da população escolar e os baixos níveis de instrução dos habitantes fazem-se geralmente acompanhar de índices reveladores de bem-estar social precário e de repulsão demográfica, indiciadores de um fraco nível de desenvolvimento social, económico e cultural dessas regiões. Assim o revelam muitos dos índices utilizados na caracterização dos sistemas de ensino, nomeadamente os que respeitam ao desenvolvimento socioeconómico e cultural das populações. A construção de um sistema de informação baseia-se, portanto, na recolha, tratamento e difusão de uma série de elementos estatísticos e outros, que devem reunir um conjunto de propriedades sobre a informação que se recolhe. Entre estas, salientamos: · a relevância da informação recolhida, dado que nem todos os dados disponíveis interessam; · a sua temporalidade, ou seja, toda a recolha de informação deve ser datada e contextualizada temporalmente; · a sua fiabilidade, quer dizer que a informação deve ser recolhida, tratada e divulgada seguindo critérios científicos e rigorosos; · a sua controlabilidade, ou seja, relacionando a informação recolhida com a sua veracidade e fiabilidade. Como fonte privilegiada da informação educacional, contam-se as estatísticas, as quais, de acordo com um documento do GEP/ME (1989, p. 9), podem ser utilizadas: · “para descrever o volume e o fluxo de alunos, pessoal docente e administrativo, equipamento e material didáctico; · para comparar tipos de ensino e resultados entre instituições e grupos populacionais diferentes; · para controlar e compatibilizar as operações do dia-a-dia desta actividade altamente descentralizada; · para planear quando é necessária a informação, não só da situação corrente, mas também de resultados prováveis de escolhas alternativas; Jorge Carvalho Arroteia · · 329 para avaliar o bom êxito do sistema educativo, à luz de objectivos determinados, ou do impacto de um programa específico de acção; para orientar a pesquisa em educação a fim de investigar as relações causais entre factores externos e internos ao sistema educativo”. Como exemplo mais antigo de sistema de informação, referem-se os recenseamentos da população. Estes constam de um “conjunto de operações que permitem conhecer, numa data precisa, os efectivos da população de um território, com detalhe sobre a repartição desta população por unidade administrativa e segundo uma gama mais ou menos extensa das suas características” (PRESSAT, 1979, p. 188). Porque realizados periodicamente e cobrindo todo o território, os recenseamentos da população permitem a obtenção de dados do maior interesse, referentes a diferentes grupos e gerações. Relativamente ao caso português, temos exemplos de: · Censos da população em 1864,1878, 1890, 1900, 191, 1920, 1930; · Recenseamentos gerais da população: 1940, 1950 e 1960; · Recenseamento geral da população e recenseamento geral da habitação em 1970, 1981, 1991 e 2001. Note-se que os recenseamentos da população (censos da população, nalguns anos) publicam, desde 1890, informação sobre o grau de instrução da população residente, a qual poderá ser completada, em anos posteriores, com elementos contidos em publicações especiais sobre a educação. Destas fazem parte as “Estatísticas da Educação”, publicadas regularmente desde 1940. Complementarmente, o “Anuário Estatístico”, publicado igualmente pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), pode conter algumas informações de interesse. Enriquecem esta informação outros dados estatísticos que, ao longo dos anos, têm sido publicados pelo Ministério da Educação e por outras entidades oficiais. Entre elas, salientamos a Direcção Geral do Ensino Superior, o Observatório da Ciência e do Ensino Superior (MCITES) e o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (ex-Ministério do Emprego e Segurança Social, no que respeita à educação pré-escolar). Quanto às Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, os dados são disponibilizados pelas Secretarias Regionais de Educação. Para além destas fontes de natureza “documental”, podemos considerar igualmente, como relevantes, as fontes de natureza “não documental”, obtidas através de instrumentos directos de recolha científica. Pode, no entanto, acontecer que a recolha da informação que necessitamos recorra a outros documentos já elaborados, disponíveis em arquivos, em estudos e documentos de índole diversa, em publicações periódicas e outras, cuja consulta se torna obrigatória para se compreender a sociedade (ou apenas certas facetas), entendida esta “não tanto como um sistema de elementos interdependentes, mas como sistema em estado de transformação permanente” (BOUDON, 1980, p. 38), isto é, sujeita à análise crítica das suas fontes e conteúdos. De uma forma geral, as fontes ora enunciadas permitem-nos obter elementos já trabalhados por outrem e, por isso, as designamos por fontes de natureza “secundária”, diferentes das que utilizamos em resultado do trabalho de levantamento directo da nossa investigação, ou seja, da utilização de fontes de natureza “primária”. 330 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Quanto às “fontes não documentais”, elas são constituídas, essencialmente, pelos dados recolhidos por “observação directa” (participante e não-participante), por meio de “entrevistas”, de “questionários” e de “estudos no terreno”. No seu conjunto, estas permitem o levantamento de diferentes elementos, quantificáveis ou não, de condutas e de interacções, fundamentais para a verificação da(s) hipótese(s) inicialmente formulada(s). Em quaisquer dos casos, a observação e a consulta documental não devem inviabilizar o recurso a outras fontes de informação não documentais, as quais acabam sempre por evidenciar duas dimensões distintas: a “quantidade das pessoas envolvidas na recolha de informação” e a “actividade pessoal do investigador na recolha de informação” (WORSLEY, 1977, p. 109), determinando, por isso, a natureza dos instrumentos de recolha. Para além destas, os documentos não escritos (rádio, televisão, cinema, documentos iconográfi cos e outros) constituem, cada vez mais, recursos de inegável valor para o conhecimento dos indivíduos, dos grupos, das instituições e das próprias sociedades. Tal facto resulta não só da grande divulgação que têm ganhado estes meios, mas também da importância crescente que se dá à compreensão de certos factos sociais através do estudo das suas múltiplas manifestações culturais. Promovida por alguns dos organismos internacionais considerados neste trabalho, pelos Governos e por centros de recursos especializados, é possível, hoje em dia, aceder a diversas fontes de informação especializada sobre a população, em geral, e sobre as características dominantes das sociedades actuais. Recordamos, ainda, que a recolha dos dados que nos permitem desenvolver qualquer trabalho de pesquisa constitui uma das tarefas mais complexas do investigador quando se inicia na explicação e na procura das relações entre os diferentes fenómenos sociais. Com efeito, a compreensão dos “fenómenos sociais totais” (Mauss) exige, no entender de Gurvitch (1979, p. 17), uma análise exaustiva das diferentes camadas que se interpenetram em profundidade e que constituem não só a “crosta exterior da sociedade,” mas também as “superestruturas organizadas”, as “práticas quotidianas”, os “valores e ideias colectivas” e a “mentalidade social, colectiva e individual”. Daí que, para além das precauções já indicadas sobre a utilização e contextualização dos diferentes indicadores, o investigador social se debata, ainda, com as dificuldades inerentes à fidedignidade e à natureza das fontes. Sob a responsabilidade da OCDE, da UNESCO ou de outros organismos, tais como o CIEP (Centre International d’Études Pédagogiques), estão acessíveis, em suporte escrito e para consulta em páginas Web, informações diversas relacionadas com as políticas educativas, a avaliação dos sistemas educativos, os conceitos usados em educação (“Glossários”) e outros dados que tornam mais acessíveis e universais, para consulta, os sistemas nacionais de informação estatística. No seio da UE, a rede europeia EURYDICE funciona como a “rede institucional que colige, actualiza e difunde informação fiável e comparável sobre as políticas e os sistemas educativos em toda a Europa”. Neste sentido, esta rede de informação, com sede em Bruxelas e por unidades nacionais sob a responsabilidade dos respectivos Ministérios de Educação, tem por missão (cf: http://www.eurydice.org.): · recolha de dados de base e informação sobre a sua evolução; · comparação entre os sistemas, as acções e as políticas; Jorge Carvalho Arroteia · · · · elaboração de indicadores e acompanhar a sua evolução; preparar a análise prospectiva e estratégica; reunir e preparar os resultados de pesquisas e de estudos; identificar os recursos documentais disponíveis. Os dados desta rede europeia estão disponíveis na base de dados EURYBASE. 331 Socialização A aprendizagem das normas, dos valores, de certos traços do comportamento e de um sem número de conhecimentos que promovam a fácil integração do indivíduo na sociedade que o rodeia constitui uma das chamadas “funções manifestas” da escola. Contudo, nem só a esta cabe tal responsabilidade, sendo coadjuvada por outros agentes, entre os quais se destaca a família, as igrejas, os grupos (de amigos e outros) e os meios de comunicação social. De acordo Cabanas (1989, p. 94), sendo a socialização um processo que dura toda a vida, abarca três aspectos fundamentais: · um vertical, que diz respeito aos agentes – família e educadores de todos os tipos – que agem sobre o indivíduo de forma a modelá-lo; · um horizontal, constituído pela interacção com os pares e com os grupos correspondentes ao mesmo status; · um outro, projectivo, com vista à preparação do indivíduo para o desempenho futuro de determinadas funções. Ainda segundo o mesmo autor (Loc. cit.), a socialização poderá ser: · espontânea, fruto da experiência vivida; · institucionalizada, a que tem lugar através de instituições que a promovem de forma sistemática e intencional, como a família, a escola, os meios de comunicação social, a profissão, as associações e a comunidade. Esta questão remete-nos, de imediato, para a análise dos principais agentes de socialização, os quais, no dizer de Musgrave (1984, p. 33), promovem a criação de uma versão da realidade social no espírito da geração seguinte, que pode estar em consonância com a dos adultos ou, nalgumas dimensões, apresentar desvios relativamente aos seus critérios. Note-se que o processo de socialização pode ser entendido de formas distintas, mas complementares entre si. Musgrave (Op. cit., p. 20 ), numa perspectiva estrutural, realça a importância dos papéis que os indivíduos desempenham ao longo da sua vida e nas várias posições que assumem. Numa vertente interpessoal, realiza-se através da interacção contínua com os outros indivíduos. Assim (Loc. cit.), qualquer grupo pode ser considerado como um conjunto de posições sociais estruturadas de certa maneira, porque os seus membros esperam um certo comportamento uns dos outros. Entende-se nesta citação que cada um de nós desempenha papéis diferenciados ao longo da vida, conforme a posição que assume na estrutura social e o grupo em que está integrado – família, escola, empresa, partido político, autarquia, comunidade. 334 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Nestas circunstâncias, haverá que atender à modelação recíproca entre duas ou mais pessoas à medida que actuam umas sobre as outras (Op. cit., p. 26). Promovendo a aceitação de determinados modelos de comportamento ou, pelo contrário, gerando conflitos, as aprendizagens assentam na aplicação de sanções geradoras de alguns comportamentos desviantes como resultado, tantas vezes, de uma falha do processo de socialização. Outras abordagens podem ser realizadas. Se tivermos em conta que a socialização tem um papel preponderante na construção da personalidade do indivíduo, a qual se vai construindo através de um contacto progressivo e de um desenvolvimento, social e afectivo entre o mesmo e a família, a escola, os grupos de amigos e a sociedade em geral. Note-se que este contacto progressivo manifesta-se através de linhas de conduta que poderão estar, mais ou menos, adaptadas aos padrões sociais comuns, permitindo, desta forma, a avaliação do processo de socialização, em sentido positivo, quando essas condutas se apresentam adaptadas ao meio social, ou então desadaptadas, realçando, neste caso, o fracasso daquele processo. Pensando na realidade portuguesa, logo nos apercebemos da importância da escola no processo de socialização dos alunos, responsabilidade esta que, de uma forma global, é atribuída ao sistema educativo, que, entre outras funções, deverá assegurar (artº 3 – Lei 46/86): “(…) a defesa da identidade nacional” e o “reforço da fidelidade à matriz histórica de Portugal, através da consciencialização relativamente ao património cultural do povo português”. Outros aspectos são considerados, nomeadamente os que respeitam o “pleno desenvolvimento da personalidade, da formação do carácter e da cidadania”, a “formação cívica e moral dos jovens “, etc. O conjunto destes princípios organizativos são desenvolvidos nos diferentes objectivos relativos à educação pré-escolar, ao ensino básico e ao ensino secundário, tendo presente que uma das funções do sistema educativo é o de “responder às necessidades da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos, incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários e valorizando a dimensão humana do trabalho” (artº 2 – Lei 46/86). Estas preocupações mantêm-se expressas nos grandes objectivos da educação pré-escolar, do ensino básico (1º, 2º e 3º ciclos) e do ensino secundário. Recorde-se que o processo de socialização pode ser ainda entendido de formas distintas, mas complementares entre si, como assinala Musgrave (1984): numa perspectiva estrutural, realçando a importância dos papéis que os indivíduos desempenham ao longo da sua vida e nas várias posições que assumem, ou, de uma outra forma, numa perspectiva interpessoal, através da interacção com os outros. De acordo com aquele autor (Op. cit., p. 20), “qualquer grupo pode ser considerado como um conjunto de posições sociais estruturadas de certa maneira porque os seus membros esperam um certo comportamento uns dos outros”. Assim se compreende que do desempenho sucessivo destes papéis, ao longo de toda a vida do indivíduo e em interacção constante com os demais membros do grupo a que pertence, resulte a unidade e a coesão da estrutura social dominante. A segunda perspectiva, de natureza interpessoal, privilegia uma “modelação recíproca” entre duas ou mais pessoas que se “modelam uma à outra à medida que actuam uma sobre a outra” (Op. cit., p. 26). Promovendo a aceitação de determinados modelos de comportamento ou pelo contrário gerando conflitos, as aprendizagens assentam tantas vezes na aplicação de Jorge Carvalho Arroteia 335 sanções, geradoras de alguns comportamentos desviantes como resultado, tantas vezes, de uma falha do processo de socialização. Entre eles destacamos o papel da família, e a sua função educativa por excelência. Como Durkheim, diremos que a função educacional constitui uma forma de socialização especial, de socialização metódica da juventude através da acção dos mais velhos. Por outro lado, e como nota o supracitado autor (Op. cit., p. 45), do mesmo modo que os que se tornam membros de qualquer grupo necessitam de aprender os hábitos deste, também os novos membros da família têm de ser socializados nos papéis que respeitam ao estádio do ciclo vital por que estão a passar. No entanto, a família tem uma posição chave na estrutura social, uma vez que é sobretudo através dela que a sociedade em geral inicia os seus novos membros. Com efeito, sendo esta que, desde o primeiro momento, fornece cuidados físicos e ensina às crianças a interpretação que os pais fazem da realidade social circundante, sendo dentro da família que a personalidade da criança se desenvolve nos primeiros anos e nos anos de formação (Loc. cit.), os traços futuros da personalidade do indivíduo são marcados pela vivência e pelas marcas da primeira socialização experimentada no seio do sistema familiar. Dependendo muito embora alguns destes aspectos da natureza e da extensão deste núcleo familiar, bem como de algumas características individuais dos seus membros, marcados fundamentalmente pela hereditariedade biológica, todos reconhecemos a esta instituição um papel notório na transmissão da cultura e dos conhecimentos, das atitudes e dos valores que interferem na modelação da personalidade e do carácter de qualquer cidadão. Assim, reconhece Musgrave (Op. cit., p. 62) que uma das funções primordiais da família é a de ajudar a criança a atravessar a adolescência com um mínimo de comportamento anti-social, sem, no entanto, lhe distorcer a personalidade reprimindo-a mais que o devido. Nesta linha de pensamento, muito haveria certamente a dizer acerca da escola – da sua organização interna, dos programas, dos agentes e das suas relações com a comunidade – e da importância que esta desempenha como meio de socialização dos alunos. Mesmo assim, e como exemplo de uma organização formal, a escola deverá apresentar-se como um sistema organizado, cimentado pela interdependência e solidariedade entre os seus membros, prosseguindo igualmente determinados objectivos específicos e em ligação estreita com a sociedade onde se insere. Destes pressupostos resultará uma certa capacidade de actuação e de intervenção que atenua os contrastes sociais, a herança cultural, as diferenças de personalidade e os traços da hereditariedade individual dos alunos e que não deixam de se traduzir no processo de socialização e de transmissão de conhecimentos que se operam no seio da comunidade escolar. A este respeito, parece-nos, uma vez mais, oportuno citar Loureiro (1985, p. 18), quando aponta que o fenómeno de escolarização da sociedade não se traduziu em resultados concretos do ponto de vista pedagógico, indicando como razões justificativas as que respeitam ao figurino social da escola standartizada, em que predomina a lei do mais capaz, para não dizer do mais forte, e em que o desenvolvimento humano se mede por critérios de ajustamento em relação à “norma”, excluindo, por definição, os que dela se desviam. Tendo presente a realidade portuguesa, diremos apenas que um dos princípios organizativos referidos na Lei de Bases aponta a importância do sistema educativo na realização pessoal e comunitária dos indivíduos, nada acrescentando, no entanto, sobre a estratégia pedagógica 336 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos a seguir, no sentido de promover a redefinição dos valores culturais e a procura das novas identidades culturais reclamadas pela sociedade actual. Tal facto deve-se quer à configuração genérica do sistema organizacional e administrativo escolar português, o qual não deixa de apontar as fraquezas e as incidências de uma explosão escolar acentuada, quer à saturação evidente dos espaços e ao deficiente acompanhamento pedagógico dos alunos por parte de uma população docente cada vez mais habilitada academicamente, mas pouco sensível, por vezes, ao cumprimento de outras tarefas que ultrapassam largamente a mera transmissão de conhecimentos obrigada pelo programa. Algumas razões poderão estar na origem deste tipo de comportamento. O grau de ocupação de alguns espaços escolares, a natureza de certas medidas de política educativa, a falta de perspectivas de afirmação social, decorrentes da desvalorização económica e social da função docente, a desmotivação e o mal-estar que reina em alguns estratos da população escolar, da educação pré-primária ao ensino superior, não deixam de se repercutir na classe docente, nas suas condições de trabalho e motivações, recriando um mau clima interno e uma fraca interpenetração entre a escola e a comunidade. Nestas condições, dificulta-se o processo de socialização dos alunos e o diálogo com os restantes agentes deste mesmo processo. Para além da família e da escola, também os meios de comunicação social, em particular a televisão e o cinema, desempenham um papel cada vez maior na socialização das crianças. Tal facto repousa na difusão maciça destes meios e na quebra da importância da família como meio de socialização, decorrente, sobretudo, das transformações sugeridas pelas novas condições tecnológicas e económicas em que vivemos. Recorde-se, a propósito, como a divisão do trabalho social, a emancipação feminina – traduzida, neste caso, por uma maior participação no mercado de trabalho –, o crescimento desmesurado das grandes urbes, sem a correspondente melhoria das infra-estruturas de transporte e sociais, etc., se repercutiram nessa perda de influência da família no processo de socialização das crianças. Resta-nos, finalmente, considerar a importância da comunidade neste complexo e vasto processo de socialização. Nestas circunstâncias, pensamos, fundamentalmente, na acção exercida pelos membros de um determinado agrupamento social e humano, com uma certa proximidade de residência e podendo estabelecer, eventualmente, relações sociais entre os membros (BIROU, 1978, p. 76). Assim, e como foi anteriormente notado, os símbolos, as ideias, os valores e as normas de comportamento transmitidas, porque repousam tantas vezes numa idêntica herança cultural, numa consciência colectiva comum, mais não fazem do que transmitir os modelos sociais existentes fundamentados, a maior parte das vezes, nas tradições, nos costumes e nas rotinas. No entanto, apesar dos modelos sociais constituírem um nível ou camada de profundidade especial da realidade social (GURVITCH, 1979, p. 95), não deixam de actuar ao nível das condutas colectivas, funcionando, então, como um apreciável elemento neste processo de socialização. Retenhamos o caso dos membros desta comunidade serem os grupos de amigos e colegas, os quais, cultivando determinadas culturas juvenis, têm um papel relevante na transmissão de saberes, na aprendizagem de novos papéis e na modelação das formas de comportamento individuais e colectivas, reforçando, por isso, o peso dos factores sociais e ambientais neste processo de socialização. Como acentua Musgrave (1984, p. 109), Jorge Carvalho Arroteia 337 os grupos servem-se de fontes culturais do seu meio para criarem novos estilos e para exprimirem significados geracionais. Este fenómeno surge, então, como resultado de uma emancipação progressiva dos jovens, que, escapando ao controle da escola e da família, desenvolvem um cada vez maior número de actividades fora dessas instituições, quando muitas delas poderiam ser acompanhadas, de outra forma, se não fora a ocorrência da “massificação” escolar. Estas circunstâncias acabam por reforçar o desenvolvimento de várias subculturas, como o demonstrou Coleman (in: MUSGRAVE, 1984, p. 121), que, em resultado de pesquisas efectuadas em escolas secundárias americanas, encontrou quatro tipos de subculturas dominantes: divertimento, escolar, vocacional e deliquente. Exemplificando com os resultados deste autor, a maior parte dos alunos eram membros da primeira cultura, que se baseava na sua participação, através dos grupos de colegas, na vasta gama de recursos extracurriculares de que dispõem as escolas secundárias americanas e nas muitas actividades de preenchimento dos tempos livres fora das horas de escolaridade, mas preparadas na escola. Nestas circunstâncias, os alunos frequentavam a escola, não com o intuito de participarem nas actividades escolares, mas sim com a finalidade de se encontrarem com os colegas e amigos, sendo a escola não tanto um local de aprendizagem, mas sim de encontro e diversão. Como acentuámos, dada a multiplicidade de subculturas juvenis, o aparecimento de comportamentos desviantes surge como reflexo da heterogeneidade da população escolar, da multiplicidade de projectos que os animam, da herança cultural que transportam e das características (dimensão, alternativas de tempos livres, apoio pedagógico) da própria escola. Daí que o aparecimento de grupos com valores opostos à própria escola seja uma constante, dependendo os seus efeitos não só da base familiar desses alunos, mas também do êxito alcançado pela população juvenil nas respectivas actividades curriculares. Comprova-o, aliás, mais uma transcrição de Musgrave (Op. cit., p. 123), quando escreve: (…) “o tipo de grupo de colegas a que o adolescente adere e a medida em que é por ele influenciado a favor ou contra a escola radicará, largamente, nas suas próprias circunstâncias familiares”. Muito haveria certamente a dizer, também, acerca da escola – da sua organização interna, dos programas, dos agentes e das suas relações com a comunidade – e da importância que esta desempenha como meio de socialização dos alunos. De facto, como exemplo de uma “organização formal”, a escola é um sistema organizado, cimentado por uma certa interdependência e solidariedade entre os seus membros, prosseguindo, igualmente, determinados objectivos específicos e em ligação estreita com a sociedade onde se insere. Difícil se torna enunciar, ainda, o papel dos meios de comunicação social, em particular da televisão e do cinema, no processo de socialização das crianças, tendo em conta a sua difusão maciça e a quebra da importância da família como meio de socialização, decorrente, sobretudo, das transformações sugeridas pelas novas condições tecnológicas e económicas em que vivemos. De facto, as exigências de formação sentidas pelas diversas classes e grupos profissionais são cada vez mais uma constante da sociedade actual, que confere igualmente um papel preponderante à chamada educação informal, que se vai operando, de forma contínua, através de múltiplos processos educativos, indiferenciados e inespecíficos. Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 338 Como acentua Cabanas (1989, p. 96), este tipo de educação “não intencional, inconsciente, por vezes deformadora, geralmente não sistemática, contínua na sua acção e auxiliada por diversos factores sociais”, tem vindo, cada vez mais, a ganhar terreno sobre a chamada educação formal (que é assegurada pelo sistema educativo), tornando-se, por vezes, de valor pedagógico duvidoso e tantas vezes contraproducente. Por outro lado, dado o seu carácter difuso, espontâneo e ambiental, tem vindo a fortalecer o peso da chamada “escola paralela”, cuja eficácia persuasiva resulta, como acentua Cabanas (Loc. cit.), de “não actuar a nível crítico, mas quase sempre a nível emocional, exercendo sobre o indivíduo uma sugestão quando não uma verdadeira manipulação”. Educação INFORMAL Espaço família/escola infância/adolescência Educação PERMANENTE Tempo in: CABANAS; 1989; 96 Figura 4 Se associarmos estas características ao processo de socialização, logo nos apercebemos como os canais da “educação informal” são bastante variados, confundindo-se, muitas vezes, com os próprios agentes de socialização. Entre aqueles destacamos, para além dos meios de comunicação que temos vindo a considerar, os grupos de amigos e as respectivas subculturas, os livros e a imprensa, os espectáculos, os clubes, etc. Pensemos, também, noutro grupo de agentes de socialização, as associações, em particular as associações profissionais, sindicais e outras, geralmente atentas não só à qualificação profissional dos seus quadros, mas também à formação profissional e ideológica dos seus filiados. Embora de forma distinta, consideramos dois casos deste processo. O primeiro, relacionado com a qualificação profissional dos seus membros e o interesse das associações profissionais em promoverem a formação contínua dos seus associados. Este tipo de intervenção tem em vista acompanhar os efeitos da evolução tecnológica e a minimizar os problemas, cada vez mais complexos, que se põem ao cidadão incapaz de acompanhar, isoladamente, esses avanços. Referimo-nos, em particular, aos diversos programas que constituem a chamada “educação permanente”, e nos seus reflexos imediatos sobre os processos e métodos de leccionação e abordagem de fenómenos tão complexos, quanto os actuais. Jorge Carvalho Arroteia 339 Podemos afirmar que as necessidades de uma formação contínua e permanente resultam não de um mero capricho ou prazer de aperfeiçoamento da formação inicial, mas de uma exigência dos cidadãos, no sentido de aproveitarem ao máximo as suas capacidades e os efeitos da inovação tecnológica que nos rodeia. Tratando-se, embora, de uma forma distinta de socialização, o papel das associações não deixa de ser notória, quer neste domínio, quer, sobretudo, no âmbito da formação político-ideológica dos seus membros. Podemos, neste caso, falar de uma forma de socialização política, orientada, fundamentalmente, para a formação de “élites” e de quadros de chefia para os diversos níveis de decisão e de intervenção política. Território O desenvolvimento dos fenómenos sociais e educacionais tem como cenários diferentes espaços nacionais e regionais, marcados por características físicas, humanas, socioeconómicas e culturais distintas, consoante os traços da população dominante. Do ponto de vista geográfico, o território corresponde, assim, quer a um espaço político dominado por um determinado tipo de autoridade política e administrativa, quer a um “espaço socializado, qualquer que seja a sua dimensão, apropriado pelos seus habitantes” (BAUD, BOURGEAT, BRAS, 1997, p. 130). Neste caso, a noção de território assenta não só numa unidade física, mas também na “obra humana”, ora entendida como uma memória histórica e cultural, que determina certo tipo de representações sociais, não configuradas a um espaço restrito de natureza física ou política. As fronteiras mentais que identificam um determinado espaço social – próprio de uma determinada sociedade – são invisíveis, podendo estar na origem de traços de identidade e de pertença de determinadas comunidades humanas, rurais, urbanas e de outra natureza, que podem alimentar sentimentos regionalistas mais ou menos intensos. De acordo com os autores acima referidos (Op. cit., p. 365), “uma sociedade é uma colectividade que ocupa um determinado território, dirigido por instituições próprias e no seio das quais se expressam formas de solidariedade, laços de cooperação e de troca e laços culturais”. As relações estabelecidas entre os habitantes de um espaço determinado configuram unidades “socioespaciais”, marcados pela expressão e coerência de certos traços de identidade, de actividades, de vivência colectiva dos fenómenos sociais e culturais ou do mesmo tipo de relações estabelecidas entre a sociedade ou as comunidades humanas, com um determinado espaço terrestre ou território . O conceito de território, não só como espaço apropriado física e culturalmente pela população, tem vindo a ser utilizado na explicação de alguns fenómenos educacionais, sobretudo os que se relacionam com o exercício do poder no âmbito das políticas educativas e da administração da educação. De acordo com Barroso (1996, p. 103), o “conceito de territorialização é utilizado para significar uma grande diversidade de princípios, dispositivos e processos inovadores, no domínio da planificação, formulação e administração das políticas educativas que, de um modo geral, vão no sentido de valorizar a afirmação dos poderes periféricos, a mobilização local dos actores e a contextualização da acção política”. Assim podem designar “as várias modalidades de descentralização, recentralização e redescentralização que têm caracterizado as medidas tomadas em diversos países neste domínio” (Loc. cit.). Da nossa parte, entendemos que o espaço geográfico ou território, expressando o resultado da acção humana e de diferentes formas de intervenção política, constitui um domínio privilegiado 342 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos de análise interdisciplinar que reforça a sua natureza e essência, ora considerado também como “espaço educativo”, cenário de diferentes formas de progresso, nomeadamente no âmbito do desenvolvimento local e comunitário. Para efeitos estatísticos, o território nacional encontra-se dividido em 3 grandes unidades territoriais – NUT I –, ou seja, o Continente, a Região Autónoma dos Açores e a Região Autónoma da Madeira, “sendo que a primeira unidade se desagrega em 5 regiões (NUTS II) e 28 sub-regiões (NUTS III). O territário nacional está, ainda, subdividido em unidades administrativas: 308 concelhos e 4241 freguesias” (INE, 2002, XLV). Assimetrias regionais A constatação da existência de contrastes regionais, relacionados com a distribuição da população no território, acompanha o desigual processo de crescimento económico e de desenvolvimento cultural entre diferentes regiões ou países. O mesmo se regista em relação ao acesso, à frequência e ao aproveitamento escolar, acentuando, por esta via, as desigualdades sociais que acompanham a sociedade portuguesa. Este é um fenómeno que se tem vindo a acentuar, expressando o resultado da repartição e do aproveitamento diferenciado de recursos, sobretudo dos recursos humanos, evidenciados por diversos indicadores, nomeadamente os que se relacionam com o nível de vida e de bem-estar da população, a filosofia, as estratégias e as políticas regionais e do desenvolvimento socioeconómico do país. Recorda-se que estas assimetrias (ou disparidades) regionais são devidas a diferentes factores: · factores físicos, relacionados com a topografia, os recursos naturais, a natureza do solo, a disponibilidade de água e o clima; · factores demográficos, relacionados com a densidade demográfica, o tipo de povoamento, o movimento natural da população e a sua concentração no território; · factores económicos, relacionados com a industrialização, a diversidade, as actividades da população e a produtividade do país; · factores socioculturais, relacionados com a estrutura da propriedade, a formação e qualificação profissional, a disponibilidade de equipamentos culturais, etc. A importância destes factores anda associada ao traçado das diferentes “acessibilidades”, o que permite individualizar áreas territoriais com características semelhantes (homogéneas) ou mais díspares, que evidenciam assimetrias e disparidades regionais, relacionadas com a cobertura da rede ou com a ocorrência de certos fenómenos educacionais. Neste caso, as disparidades regionais decalcam a ocorrência dos contrastes de natureza física e humana, económica, social e cultural que caracterizam um determinado território. Estas considerações são, igualmente, válidas para as “regiões naturais”, que se distinguem pela existência da homogeneidade de traços naturais idênticos, em contraste com as regiões vizinhas. No que respeita à educação, o seu desenvolvimento fica, igualmente, condicionado pela existência destes diversos factores e traduz-se no território em contrastes muito distintos, relacionados com a frequência da população escolar, os seus recursos, a distribuição e a natureza dos equipamentos, bem como com os resultados. Estes contrastes andam associados à qualidade do ensino e à formação dos diplomados. Tais diferenças são, igualmente, determinantes Jorge Carvalho Arroteia 343 da procura do ensino (por sexo, rendimento familiar, origem geográfica e social), do rendimento escolar e da mobilidade da população no seio do sistema educativo. Em Portugal, para além dos condicionalismos físicos conhecidos em todo o território português, estão igualmente diagnosticadas um certo número de assimetrias espaciais que o texto da Constituição da República Portuguesa propõe alterar, nomeadamente através da promoção da “coesão económica e social de todo o território nacional, orientando o desenvolvimento no sentido de um crescimento equilibrado de todos os sectores e regiões e eliminando progressivamente as diferenças económicas e sociais entre a cidade e o campo e entre o litoral e o interior” (artº 81.c). As acções a desenvolver, no âmbito económico e social, pelo Estado assentam na fruição colectiva do “direito à educação e à cultura” (artº 73 – CRP) e na “democratização da educação” que garanta que “todos têm o direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar” (artº 74). Daí que “o Estado crie uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população” (artº 75), de modo a assegurar a todos os cidadãos “a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais” existentes (artº 73). A expressão destes contrastes está plasmada na rede de estabelecimentos de ensino, nas acessibilidades dos alunos e, sobretudo, nos resultados escolares, levando o poder central e o poder local a definirem novos padrões da “carta escolar” e da rede de estabelecimentos de ensino, nos seus diversos níveis. Também a distribuição dos recursos humanos no território, em termos gerais e de acordo com diferentes áreas de especialização, decalca muitos dos contrastes ditados pela geografia do território e agravados pelas opções de desenvolvimento regional ao longo de décadas. Este panorama continua a comprovar as assimetrias espaciais e sociais que identificavam a sociedade portuguesa e que levaram Nunes (1964, p. 407) a identificá-la como uma “sociedade dualista onde ao redor de restritas áreas de economia e sociedade moderna se mantém toda uma vasta zona de economia e sociedade tradicional, definida não só pelo seu grau de urbanização, mas pela densidade do escol cultural, uma vez que é neste que se contêm os principais agentes propagadores, pela via intelectual e pela criação económica, das novas formas de civilização” (Op. cit., p. 415). Esta situação mantém-se na actualidade, dado o reforço da litoralização, ou seja, do acréscimo contínuo da população em direcção aos grandes centros urbanos do litoral, agravando a desertificação humana das terras do interior do país. Se tivermos em consideração os resultados expressos no último censo da população, em 2001 (INE, 2002, XLVI), regista-se uma densidade média de 110 habitantes/Km2, facto que não deixa de fazer transparecer o seguinte: · “A ocupação humana do território continental mantém os traços históricos de diferenciação norte-sul e litoral-interior: densidades mais elevadas a Norte do Rio Tejo, com uma estrutura de povoamento difuso, que assume o expoente máximo na região Norte; baixas densidades a sul daquele rio, com uma estrutura, de povoamento concentrado. A componente litoralizante agudiza esta estrutura, pondo em evidência um território a Norte do Tejo, contrastado com um litoral de ocupação mais difusa, mas muito mais densificada que o interior e opondo um Algarve litoral a um Algarve serranio. Neste panorama, evidenciam-se algumas das cidades médias do interior, a Norte do Tejo – Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 344 · · Chaves, Bragança e Vila Real, Viseu, Guarda, Covilhã, Fundão e Castelo Branco – e a Sul – Portalegre, Elvas, Évora e Beja. No território insular, a ocupação sustenta-se nos principais centros populacionais de cada ilha (Angra do Heroímo, Ponta Delgada e Funchal), privilegiando o litoral e, de uma forma genérica, os espaços de exposição a sul. As áreas de maior densidade, com uma extensão significativa, são, por um lado, os dois centros das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto e, por outro, os alinhamentos do Vale do Ave, Tâmega e Cávado, que tendem a aglutinar-se com o Grande Porto. A variação da população consubstancia e acentua estas ideias: perda de população generalizada no interior (com excepção da Cova da Beira e Alentejo Central) e ganhos populacionais nas áreas litorais”. A desigual repartição da população no território exigia outros considerandos, relacionados com a existência de factores de diferente natureza, que condicionam o agravamento das assimetrias espaciais, sociais e culturais dominantes, bem como as tomadas de decisão relativas às políticas sociais e educativas, geradoras da sua atenuação. Comunidade A noção de comunidade, entendida como um agregado humano caracterizado pela existência de um espírito de solidariedade colectivo, por uma interacção constante (decorrente da proximidade de residência), pela defesa comum de certas normas e princípios e pela aceitação de certas regras de convivência social, é uma realidade bastante antiga, que pode ser entendida de formas distintas. De acordo com Durkheim (1968), a comunidade realça uma relação estável e duradoura – coesão social –, ou seja, uma ”consciência colectiva”, entendida como o “conjunto de crenças e de sentimentos comuns à média dos membros de uma sociedade”. Por outro lado, Horton e Hunt (1980, p. 359) entendem a comunidade como “um agrupamento local dentro do qual as pessoas realizam uma série completa de actividades da vida”. Recorrendo a estudos de outros autores, Horton e Hunt (Loc. cit.) reconhecem que esta inclui: “(1) um agrupamento de pessoas, (2) dentro de uma área geográfica, (3), com uma divisão do trabalho em funções especializadas e interdependentes, (4) com uma cultura comum e um sistema social que organiza as suas actividades, (5) cujos membros estão cônscios de sua unidade e de pertencerem à comunidade e (6) podem agir colectivamente de modo organizado”. Por sua vez, Gonçalves (1991, 99) apresenta uma outra proposta, de raiz antropológica, pouco diferente das anteriores: “a comunidade caracteriza-se pela consciência dos seus limites espaciais, com os quais se identifica a si própria e perante as outras comunidades”, ou seja, “uma espécie de sociedade global autártica que, possuindo uma base territorial, tem a possibilidade de viver globalmente nesta unidade, por intermédio de instituições sociais adequadas, identificando-se por interesses e valores materiais e espirituais comuns” ((Loc. cit.). A forma mais antiga de tipificar estes grupos é a sua classificação em comunidades rurais e comunidades urbanas. Contudo, porque a sua identificação não é consensual, sobretudo no seio da “sociedade de massa” que nos rodeia, – entendida como um “agregado de indivíduos separados, desvinculados e anónimos, com organização social baseada em contrato e não em parentesco, onde os vínculos entre pessoas são utilitários e não pessoais ou sentimentais (…)”, a utilização deste conceito tem sido adoptada em diversos contextos. Assim, a existência Jorge Carvalho Arroteia 345 de uma “comunidade” (local, escolar e educativa) implica a existência de importantes redes de comunicação entre os seus membros: a escola, a família, a autarquia e as associações (de pais e outras), que, entre si e muitas vezes através dos mesmos elementos, estreitam essa ligação, utilizando, como actores, os alunos/filhos, pais e professores. O estudo da comunidade exige o conhecimento desta em diversos aspectos e domínios, que se pode resumir no quadro anexo: Quadro 14. Estudos de comunidade – indicadores de situação Natureza dos indicadores Geográfica Demográfica Relevo Clima Povoamento Densidade demográfica Funções centrais Hierarquia dos "lugares centrais" População residente Evolução da população Movimento da população Estrutura da população Económica Social Saúde Alojamento Socioculturais População activa/sectores de actividade Estrutura do emprego Tecido produtivo Mov. naturais Mov. migratórios Sexo Idade População rural e urbana Indústria transformadora Explorações agrícolas Comércio e serviços Caracterização da rede e acessibilidade viária Equipamentos e serviços de solidariedade social Recursos e infra-estruturas existentes Cobertura médico-sanitária Hierarquia dos serv. de saúde e acessibilidade médica Tipo e ocupação dos alojamentos Idade e estado de conservação Rede sanitária e esgotos Taxa de analfabetismo Imprensa local (tiragem e nº de publicações) Nº de Bibliotecas e Museus Tradições e manifestações culturais Se atendermos aos sistemas educativos e à sua unidade fundamental representada pela escola, este conceito pode aplicar-se ao conjunto da população docente e discente e aos funcionários e familiares dos alunos directamente envolvidos no processo educativo – 346 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos “comunidade escolar”. Por isso, autores há, como Simões (1989, p. 39-42), que distinguem a “comunidade escolar”, “restrita e fechada em si mesma”, da “comunidade educativa”, aberta a todos os interessados no processo educativo e, como tal, delimitada por uma “fronteira social, mais ampla e fluida, que abrange todos os interessados, de modo directo ou indirecto, na educação escolar”. A referência à comunidade educativa aparece em diversos textos legais relativos à organização e administração das escolas e ao desenvolvimento dos respectivos projectos educativos. Assim, a lei nº 30/2002, de 20 de Dezembro (artº 4), relativa ao “estatuto do aluno do ensino não superior”, considera que “a autonomia de administração e gestão das escolas e de criação e desenvolvimento dos respectivos projectos educativos pressupõe a responsabilidade de todos os membros da comunidade educativa pela salvaguarda efectiva do direito à educação e à igualdade de oportunidades no acesso e no sucesso escolares, pela prossecução integral dos objectivos dos referidos projectos educativos, incluindo os de integração sociocultural, e pelo desenvolvimento de uma cultura de cidadania capaz de fomentar os valores da pessoa humana, da democracia e do exercício responsável da liberdade individual”. O desenvolvimento actual de projectos sócio-educativos, relacionados com a acção pedagógica no âmbito da pedagogia social, de que tomamos como referência o Projecto “Trofa Comunidade de Aprendentes” (AZEVEDO, 2006), tem subjacente um novo conceito, o de “comunidade de aprendizagem”, assente em princípios éticos e antropológicos, assentes no respeito e reconhecimento individual de cada pessoa, em projectos de mediação e numa dinâmica sócio-educativa comunitária, que “valoriza os sujeitos da acção e se torna próximo deles (…); gera cooperação entre pessoas, iniciativas e instituições, partindo do quanto já existe de solidariedade e de trabalho em rede; apoia itinerários pessoais de aprendizagem e dinâmicas de aprendizagem cooperativa de pequenos grupos” (Op. cit., p. 56). Os aspectos que acabamos de enunciar confirmam a necessidade da relação entre a escola e a comunidade, encarada esta no sentido global, ou seja, em relação à própria sociedade. Nesta perspectiva, o contacto entre ambas deve basear-se numa comunicação aprofundada, baseada na cooperação com a família, as associações, as autarquias, os meios de comunicação e outros agentes que possam incrementar e irradiar a influência da escola para além do seu território. Por isso, as relações que devem ser estabelecidas entre ambas apontam para uma estreita colaboração entre elas, assentes no diálogo e na colaboração mútua, que deverão permitir o desenvolvimento de acções que favoreçam a instituição escolar: “compreender para participar e participar para transformar” (CABANAS, 1984, p. 60). Tipologia dos sistemas educativos A abordagem do sistema educativo português é uma realidade social complexa e estruturada, de acordo com o modelo sistémico que a análise comparativa pressupõe. Algumas achegas, decorrentes da consulta de outros autores, permitir-nos-ão, certamente, a construção da tão almejada tipologia. A elaboração de uma tipologia resulta de uma operação de classificação de tipos que se constroem quando se observa certo número de realidades da mesma natureza que apresentam diferenças entre si, de forma a obter uma representação conceptual ou um modelo racional que permita dar conta, intelectualmente, das características específicas de cada tipo assim elaborado (BIROU, 1978, p. 405). De acordo com a afirmação precedente, uma das primeiras dificuldades que se levanta é justamente a de saber quais os critérios a utilizar na construção destas tipologias, tendo presente que a sua elaboração, por se tratar de uma construção científica, não deve estar em oposição à natureza e essência dos próprios fenómenos nem aos factos que fazem parte e são objecto da nossa classificação. Recorrendo, com efeito, às principais etapas do método comparativo, interessa-nos, portanto, definir o que é que se classifica, como se classifica e quais os princípios utilizados nesta operação. No caso vertente, o objecto da nossa atenção são realidades complexas – os sistemas educativos –, compostas de partes solidárias e interdependentes, que têm como fulcro a escola, os alunos e os demais intervenientes da comunidade educativa. Tais elementos estão inseridos num cosmos dominado por um regime político, por determinadas regras e leis do mercado e por um quadro institucional definido, em vigor para o conjunto de habitantes de um determinado território. Seguindo o exemplo de D’Hainaut (1980, p. 43), para além do próprio sistema educativo, também os restantes sistemas – político, económico e administrativo – estão inseridos em contextos históricos e sócio-culturais mais vastos, bem como em quadros físicos, geográficos, filosóficos, éticos e religiosos, que completam a caracterização desse sistema social. Como notámos noutro local (ARROTEIA, 1991, p. 158), dada a especificidade da realidade social e a sua irredutibilidade a qualquer outra realidade, (…) a articulação entre os diferentes sistemas sociais e o seu enquadramento físico, ético, moral e contextual nem sempre é perfeito, dando origem a algumas disfunções que reflectem na sua eficácia global e no descontentamento de certos estratos directamente atingidos pelas medidas de política educativa. Contudo, esta situação não invalida a necessidade do conhecimento, aprofundado, dos diferentes contextos – económico, político, cultural, jurídico e laboral –, que nos obrigam a pensar a educação como uma realidade social complexa, em conexão com os demais sistemas sociais. 348 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Como notámos, a elaboração de uma tipologia exige a identificação dos princípios da classificação em que se deve basear a elaboração das classes, que expressam as diferentes representações de uma determinada realidade social, e a elaboração desses mesmos tipos. Nestas circunstâncias, a definição das classes que os tipos exprimem pressupõe a existência de algumas características em comum, algumas delas revelando-se com maior intensidade, para além de exigir a existência de grupos de certa forma homogéneos dentro de um determinado universo social. A este propósito, Birou (1978, p. 69) afirma o seguinte: a classe existe como tal somente quando se situa em relação à sociedade global e quando os seus membros têm um mínimo de consciência colectiva. Contudo, o que nos interessa é a identificação dos fenómenos sociais que apresentam algumas características agrupadas e que, desta forma, nos permitem um melhor entendimento de um qualquer fenómeno social total. Relembremos, a propósito, que defendemos, tal como Gurvitch (1979, p. 13), a (…) apreensão dos “fenómenos sociais totais em marcha” e das estruturas nas quais eles se exprimem pelo menos parcialmente. Daí, portanto, que a nossa atenção incida, outra vez, sobre esta realidade complexa, como são os sistemas educativos, os quais, desde a Segunda Guerra Mundial, têm vindo a experimentar uma grande expansão e desenvolvimento, apoiando-se no crescimento económico e na evolução tecnológica registada em grande quantidade dos países do globo. A classificação a que procedemos não se trata propriamente de uma classificação metódica, a qual permite fazer comparações exaustivas de fenómenos, organizando-os por grupos, empiricamente constituídos, segundo o critério de um número de semelhanças elevado, de modo a que o levantamento das suas diferenças significativas se encontre operacionalmente facilitado, mas mais de uma classificação de natureza sistemática, que se baseia na escolha de um conjunto finito e relativamente limitado de características, estudando, sistematicamente, as suas constantes variações no maior número possível de casos que se oferecerem à observação. Este entendimento assenta numa série de observações realizadas anteriormente, fazendo-se daí realçar os seus elementos distintivos e mais significativos. A partir daqui, será possível definir o que são os “tipos”, sendo que estes constituem um padrão, resumindo as características essenciais dos fenómenos de uma mesma classe, e em volta do qual oscilam as variações individuais. Não se trata, portando, de definir “tipos ideais”, segundo a concepção Weber, entendidos como estruturas que revelem, cada uma em si, a unidade coerente de uma adequação de sentido tanto quanto possível completa, mas que, precisamente por isso, ocorrem de facto, nesta forma pura, absolutamente ideal (…) (CRUZ, 1989, p. 601), mas de procurar estabelecer relações entre os fenómenos sociais insertos numa determinada realidade e contexto social. Eis o quadro resumo da nossa proposta: Jorge Carvalho Arroteia 349 Quadro 15. Tipologia dos sistemas educativos Bases de classficação Morfologia social Diferenciação social Coesão interna Eficácia Tipo Sociedades em desenvolvimento Sociedades industriais Sociedades pós-industriais Sistema educativo aberto Sistema educativo selectivo Sistemas mecânicos Sistemas orgânicos Sistemas educativo em equilíbrio Sistemas educativo em desperdício Analisemos os fundamentos desta construção tipológica. A base morfológica Tendo presente estas considerações, a natureza e a essência dos fenómenos sociais, entendidos como totalidades reais em marcha, em movimento permanente (GURVITCH, 1979, p. 27), e ainda a morfologia social em que os fenómenos se inserem, uma das nossas preocupações será, portanto, a de analisar não só a base física e material da sociedade, mas também as suas estruturas sociais e aparelhos organizados, expressos no modelo do próprio Estado. A primeira questão será respondida pelo recurso a um conjunto de indicadores que nos permitirão não só enquadrar os sistemas educativos num contexto socioeconómico e cultural mais vasto, como também descrever o território, os habitantes e as actividades dominantes nesse território, dominado por uma determinada estrutura sócio-organizacional e cultural que identifica um dado modelo de sociedade. Pretendemos, assim, não só conhecer os aspectos mais relevantes da crosta exterior da sociedade (por meio dos dados de natureza geográfica e demográfica) como também, e seguindo o método sociológico, tomar em consideração todos os níveis, todas as escalas e aspectos da realidade social (Op. cit., p. 17) que permitem a identificação das sociedades globais onde vivemos. Tendo presente esta realidade, propomos (ARROTEIA, 1991, p. 69-77) o recurso a dois grandes grupos de indicadores: os de enquadramento dos sistemas educativos e os que incidiam particularmente nos estudos de comunidade. Dentro dos primeiros, seleccionamos, agora, os que dizem respeito ao desenvolvimento económico, à dependência externa; ao nível de vida e bem-estar da população, bem como aos indicadores de cobertura e eficiência do sistema educativo. No que respeita aos indicadores seleccionados para estudos de comunidade, seguimos a escolha genérica aos itens relacionados com o conhecimento geográfico, demográfico e as actividades da população, mantendo uma referência global aos dados relativos aos equipamentos de natureza social e sociocultural do país ou região. Embora com as reservas que uma tal classificação impõe, em virtude da ausência de parâmetros rígidos em se possa firmar a separação entre elas, entendemos que a perspectiva evolucionista que nos foi proposta por Darcy Ribeiro (1983) ajudar-nos-á a separar 350 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos as Sociedades em Desenvolvimento – identificadas pelo peso excessivo das actividades extractivas ou agrícolas e pelo fraco peso do sector industrial e dos serviços e por um sistema económico baseado na economia de subsistência –, das Sociedades Industriais – conhecidas pela expansão crescente das indústrias e serviços e pelo crescimento das respectivas taxas de urbanização –, e das Sociedades Pós-Industriais – caracterizadas pelo peso elevado das actividades terciárias, pelos índices acrescidos de urbanização e pelos níveis de bem-estar e de desafogo económico dos seus habitantes. A passagem das sociedades tradicionais às sociedades modernas, fruto de uma determinada evolução social, poderá ser identificada por um conjunto de mudanças sociais que, de acordo com Birou (1978, p. 267), se repercutem: ao nível da superfície morfológica; das instituições e das estruturas; da organização social e dos estatutos sociais; dos esquemas e dos modelos de conduta; dos comportamentos, dos costumes e das condutas práticas, da cultura e dos modelos culturais. No que concerne às suas implicações sobre a educação, Cabanas (1989, p. 113) anota que os sistemas educativos arcaicos se caracterizam, entre outros aspectos, pela transmissão dogmática de saberes, de normas e de valores pré-estabelecidos, pela utilização de métodos de ensino autoritários, predominantemente didácticos, esperando-se do educando uma passividade que facilite a sua perfeita socialização. Pelo contrário, os sistemas educativos modernos, porque coexistem com sociedades pluralistas e dinâmicas, procuram fomentar o espírito crítico do aluno, a liberdade e capacidade de mudança. Daí que os conteúdos sejam mais científicos, transmitindo-se grande quantidade de conhecimentos empíricos e especializados. Outras diferenças residem no predomínio da educação informal, no primeiro caso, e do desenvolvimento da escola como instituição educativa especializada, de saberes e de formação, decorrente do processo da própria revolução industrial, ou ainda da fraca participação escolar, em contraste com a grande procura social que ocorre nas sociedades de consumo que já experimentaram a revolução cibernética actual. De uma forma mais precisa (RIBEIRO, 1983, p. 347), a distinção entre os dois últimos tipos de sociedade poderá ainda resultar da divisão do trabalho social; da mobilidade social dos seus habitantes; da concentração de mão-de-obra; da acumulação de capital e da orientação e sentido do crescimento económico, o que implica, nos agentes sociais, comportamentos particulares: capacidade de inovar, utilização do cálculo económico, aplicação da ciência ao desenvolvimento das técnicas e “atitudes racionais”. A ocorrência, apenas, da revolução industrial ou o desenrolar da revolução termonuclear ajuda-nos, também, a separar estes dois tipos de sociedades. Note-se que, de acordo com Ribeiro (Op. cit., p. 149), a primeira surge no corpo das formações capitalistas mercantis pela acumulação de inventos mecânicos que permitiram multiplicar fantasticamente a produtividade do trabalho humano. Por sua vez, a revolução termonuclear terá beneficiado da acumulação de desenvolvimentos no campo das ciências básicas e suas aplicações tecnológicas, conduzindo a alterações profundas dos complexos socioculturais. A organização social De acordo com as Teorias da Evolução Sociocultural, entendemos também que a uma classificação de etapas evolutivas de base tecnológica devam corresponder classificações Jorge Carvalho Arroteia 351 complementares, fundadas nos padrões de organização social e nos moldes de configuração ideológica (Op. cit., p. 34). Daí que seja de esperar que aos diferentes tipos de sociedades correspondam diferentes tipos de sistemas educativos. Nestas circunstâncias, e à semelhança do que sucede com o microcosmo escolar, o ambiente social constitui um ponto de referência e uma oportunidade para o estabelecimento de trocas entre as instituições escolares e o meio, sem que, muitas vezes, de tal facto não resultem conflitos de interesse ou institucionais, que se traduzem no clima das instituições e na qualidade dos serviços educativos. Tendo presente o que anteriormente referimos sobre as conexões entre os diversos sistemas que integram o sistema social, será de esperar que as características assumidas pelos sistemas educativos estejam sobretudo relacionadas com o sistema político e a natureza da classe dominante. Tal facto, já justificado pelas relações entre os diversos sistemas sociais, está ainda de acordo com as afirmações de Pareto (ARON, 1987, p. 426), quando reconhece que as sociedades são caracterizadas pela natureza das suas elites, mormente das elites de governantes. Será, então, de esperar que os objectivos a atingir pelos sistemas educativos expressem, significativamente, os interesses da(s) classe(s) dominante(s). Tal facto é igualmente assinalado por Worsley (1977, p. 218), quando afirma: “o desenvolvimento do ensino está ligado não só à racionalidade económica mas também à forma como o poder se encontra distribuído na sociedade”. Podemos, desta forma, associar o tipo do regime político dominante às próprias características dos sistemas educativos. Será, assim, de esperar que as características assumidas pelos sistemas educativos sejam diferentes num regime democrático, aberto à participação política de todos os habitantes, e um regime autocrático, onde o poder está concentrado num grupo restrito de servidores ligados ou titular do poder. No primeiro caso, é de esperar que a frequência escolar relativa aos diversos subsistemas seja alargada a todos os grupos e classes sociais (entendidas estas como agrupamentos de indivíduos relativamente homogéneos), não só em termos de acessibilidade, mas também de sucesso educativo. Esta noção é a que tem sido veiculada pela UNESCO acerca da democratização do ensino. Nestas circunstâncias, será de esperar que, a num sistema educativo aberto, a frequência escolar, para além de elevada em todos os níveis de ensino, seja determinada por medidas de política educativa que assegurem uma elevada esperança de vida escolar e um sucesso educativo que não ponha em questão a origem social, étnica ou religiosa nem o sexo dos alunos. Trata-se, afi nal, de considerar como prioritárias medidas que facilitem a democratização do ensino, remediando, desta forma, as desigualdades sociais existentes e/ou as deficientes interacções entre o sistema educativo e o indivíduo que dificultem o acesso e o sucesso educativos. Será, ainda, de aguardar que as medidas de política educativa estimulem uma participação dos diversos grupos sociais – pais, alunos, professores, funcionários e membros da comunidade educativa, em geral –, por forma a garantir-se uma grande acessibilidade e participação na gestão do próprio sistema. De acordo com um documento da UNESCO (1985, p. 5), esta democratização exige medidas específicas, visando assegurar a coerência do sistema educativo, eliminando impasses, bem 352 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos como barreiras artificiais entre os diferentes níveis, tipos e ramos de ensino, exigindo, por isso, a criação de condições para uma maior mobilidade, por sua vez horizontal e vertical no interior do sistema educativo e de favorecer que esta mobilidade assegure a cada etapa da educação uma dupla função: por um lado a preparação para a entrada na vida activa e por outro a de permitir a continuidade dos estudos e a passagem de um tipo de ensino para outro. No mesmo sentido se expressa a Declaração Universal dos Direitos do Homem (artº 26), ao defender que toda a pessoa tem direito à educação. Por sua vez, esta deve ser gratuita, pelo menos no que respeita ao ensino elementar e fundamental. Mais ainda: o ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve ser aberto a todos, em função do seu mérito. No campo oposto, situamos um sistema educativo selectivo, designação que atende não só à sua organização ou funcionamento interno, dificultando o acesso e a progressão dos alunos dentro do sistema, mas ainda à sua origem social. Neste caso, o que afasta ou dificulta o acesso e o sucesso educativos é não só a acessibilidade física, resultante de uma rede que vagamente responde às solicitações dos alunos mais carenciados, mas também a acessibilidade cultural, resultado de uma fraca herança cultural dos familiares dos alunos e das poucas expectativas que estes põem na frequência da instituição escolar. Note-se que este modelo anda, geralmente, associado a um tipo de sociedade estratificada, onde, embora coexistam diferentes classes sociais, as diferenças entre elas são bem marcadas. Por outro lado, faz-se sempre acompanhar de deficientes condições de capilaridade e de mobilidade social que identificam este tipo de sociedade. Nestas circunstâncias, a fluidez e a circulação conseguidas pelas medidas de política educativa, com vista à democratização do ensino, tendem a tornar estes sistemas educativos cada vez menos cerrados, dando garantias não só de uma cada vez maior circulação social, mas facultando, ainda, a cada aluno a possibilidade de usufruir de oportunidades iguais, embora sendo tratado de maneira diferente (T. Husen). Como se depreende, este exemplo acompanha-se de outras situações, nomeadamente de uma escolaridade reduzida e da predominância de uma população escolar oriunda de “elites” ou de grupos sociais (na maior parte dos casos minoritários), ligados ao poder. Em jeito de conclusão, não deixaremos, contudo, de assinalar a importância assumida pelo ensino como meio de mobilidade social, mas igualmente a sua importância como factor de estratificação social e reprodutor das desigualdades sociais que identificam um determinado tipo de sociedade. Coerência interna Não se confina, no entanto, a estes dois critérios a classificação que pretendemos realizar. É que, para além do contexto social em que os sistemas educativos se inserem e da abertura que revelam ao exterior, estes merecem, ainda, ser conhecidos pelas suas características internas, que atendam à composição, à estrutura, aos movimentos internos da sua população e ao modelo organizacional em que assentam. Esta perspectiva leva-nos a pensar nas analogias entre os sistemas educativos e os sistemas produtivos, cabendo ao primeiro a produção de diplomados, a capacitação da população activa e a prestação de outros serviços à comunidade. Nestas circunstâncias, é de esperar que os sistemas educativos possam ser avaliados pelo seu rendimento (tal como acontece com os outros sistemas produtivos), dependendo a sua Jorge Carvalho Arroteia 353 produtividade e rendimento dos conteúdos do ensino e da sua adaptação às necessidades dos alunos; dos custos do ensino; da eficácia do ensino e da utilização de métodos eficientes; da duração dos estudos e do seu prolongamento, para além do que é requerido pelas necessidades reais; da reforma fiscal e dos recursos que lhe são atribuídos, da administração do sistema que deve procurar gastar um orçamento mais racional e, por isso, mais produtivo (CABANAS, 1989, p. 362). Estas observações justificam que, cada vez mais, se discuta a rendibilidade dos sistemas educativos, encarando-se não só a função social, mas também a função produtiva da educação, tendo em conta os rendimentos económicos que esta acarreta, quer para o indivíduo quer para a sociedade. Por entendermos que os benefícios carreados pela educação ao nível dos sistemas social e produtivo merecem um tratamento adequado ao nível da Economia da Educação, atenderemos mais à produtividade interna do sistema, tendo presente que este não deixa de se confrontar com uma série entradas ((inputs) de alunos, de professores e de meios financeiros e de saídas (outputs), traduzidos na natureza dos produtos que saem do sistema educativo e na sua adaptação às necessidades do mercado nacional. Note-se que o sistema educativo faz parte de uma sociosfera mais ampla e, portanto, deve ser entendido como um subsistema no interior de um sistema global (FERNANDES, 1983, p. 46). Nestas circunstâncias, a escolha das variáveis a que primeiramente nos referimos permitiu-nos não só conhecer o contexto social, económico e cultural exterior ao sistema educativo, mas também as suas necessidades e carências imediatas. Sendo assim, e à semelhança do que já notámos (ARROTEIA, 1991, p. 111), o conhecimento do sistema de ensino ficará enriquecido se analisarmos as diversas facetas que o caracterizam não só externamente, mas também ao nível da sua funcionalidade interna, nos domínios intra e extra-educativo. Tal facto permitir-nos-á ajuizar se os resultados alcançados, expressos nos diversos índices e indicadores em uso, estão ou não de acordo com os investimentos realizados e as expectativas da população que o frequenta. De acordo com o que anteriormente referimos, interessa-nos analisar a sua eficiência e eficácia internas, baseadas em diversos indicadores que atendam, principalmente, aos fluxos e ao aproveitamento dos alunos, bem como aos custos financeiros decorrentes dessa frequência. Eventualmente, haverá outros factores que interessa ter em conta, como a igualdade de oportunidades, as disparidades existentes e o grau de participação dos alunos, dos professores e da comunidade local, na gestão do próprio sistema. Dentre as variáveis seleccionadas, defendemos o recurso aos indicadores relativos à abertura do sistema – de que constitui um bom exemplo a taxa de escolarização –; aos movimentos internos – calculados através das taxas de admissão; ao fluxo dos alunos no sistema – por meio das taxas de passagem, de repetência, de abandono e de transição; e ao estudo dos rácios e dos cohortes. Naturalmente que esta caracterização poder-se-á enriquecer através do cálculo das disparidades e dos desperdícios, entre a sua população docente. O recurso a outros indicadores, nomeadamente os que se prendem com os investimentos realizados, o grau de satisfação e a gestão dominante, permite-nos avaliar a conexão entre os diversos factos sociais. Pretendemos, com esta construção, ter uma visão de conjunto, fazendo sobressair a multiplicidade de tempos em que se movem os fenómenos sociais totais presentes, passados e futuros (GURVITCH, 1979, p. 31) através da aplicação do método tipológico. 354 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos Tendo presente o que anteriormente referimos, e utilizando um dos conceitos em uso nas sociedades industriais, o de racionalidade – pressupondo esta (…) o uso calculado de recursos para a obtenção de determinado fim ou fins de maneira mais económica possível – (WORSLEY, 1977, p. 281), separamos os sistemas educativos em equilíbrio e em desperdício. Os sistemas educativos em equilíbrio são os que apresentam, no seu conjunto, uma articulação coerente entre os meios e os resultados alcançados, o que significa que os seus objectivos, além de prosseguidos, são alcançados sem grandes perdas. No caso dos sistemas educativos em desperdício, os resultados finais (outputs) não correspondem à qualidade nem ao número dos inputs que os alimentam, sendo de esperar, para além de um grande insucesso dos alunos, fraca participação e desmotivação da classe docente, bem como uma fraca adaptação dos diplomas às necessidades da própria sociedade. Organização interna Já nos referimos, anteriormente, à necessidade de classificação dos sistemas educativos, atendendo, desta vez, ao modelo organizacional e à sua estrutura interna. Recorremos, para este efeito, a alguns conceitos fundamentais da teoria geral das organizações, que nos permitem definir, primeiramente, o que é um sistema e, depois, uma organização. Para o primeiro, aceitamos tratar-se de um conjunto de elementos interagentes; um grupo de unidades combinadas que formam um todo organizado e cujo resultado (output), output), é maior do que aquele output que as unidades poderiam ter se funcionassem independentemente, tal como as definiu Chiavenato (1987.II, p. 350). De acordo, ainda, com o conceito de Von Bertalanffy (1974), o objectivo a prosseguir pelos diferentes elementos ou unidades reciprocamente relacionadas que identificam um sistema rege-se também por outras características comuns, a saber: o globalismo, a entropia e a homeostasia (Op. cit., p. 351). A primeira daquelas características garante-nos a transmissão de qualquer alteração introduzida numa das suas componentes aos restantes componentes do sistema. A segunda chama-nos a atenção para a tendência para o desgaste, para a desintegração, para o afrouxamento dos padrões e para um aumento da aleatoriedade. A homeostasia garante, por fim, o equilíbrio entre as partes do sistema. Associada a este conceito, podemos considerar uma organização, de acordo com Birou (1978, p. 288), como sendo um tipo de articulação das partes, dos elementos (dos órgãos), de maneira a permitir o bom funcionamento do conjunto. Nestas circunstâncias, entre as diversas organizações sociais, a escola surge como uma unidade complexa, aglutinando uma determinada população, vinculada pela aceitação de certas normas, e do desenvolvimento de projectos em comum em torno das actividades escolares. Sobressai desta afirmação não só a integração e a interdependência das organizações escolares face ao sistema social, mas também a existência de uma consciência colectiva e solidariedade entre os seus elementos, atributos que resultam, ainda, de uma socialização dos seus membros nas práticas que lhes são próprias (WORSLEY, 1977, p. 210) Este tipo de atributos recorda-nos outros conceitos, como os que nos foram deixados por Durkheim sobre a divisão do trabalho social, a consciência colectiva e as características da solidariedade social, que provêm do facto de um certo número de estados de consciência serem comuns a todos os membros da mesma sociedade (DURKHEIM, 1977-I, p. 130). Este conceito Jorge Carvalho Arroteia 355 permitiu-lhe precisar, com mais clareza, a noção de solidariedade mecânica, a qual resulta de uma grande homogeneidade da população, de uma forte analogia e coesão que une, entre si, as diversas moléculas sociais, bem como de uma certa uniformidade de crenças e atitudes, daí resultando uma forte consciência colectiva. De acordo com este autor (DURKHEIM, 1977-II, p. 88), a solidariedade mecânica está ligada à existência do tipo segmentar, que permite à sociedade circunscrever mais estreitamente o indivíduo, mantendo-o mais fortemente ligado ao seu meio doméstico e, por consequência, às tradições. Pelo contrário, a solidariedade orgânica, devida à divisão do trabalho social, identifica-se por cada órgão ter aí efectivamente a sua fisionomia especial, a sua autonomia e, deste modo, a unidade do organismo é tanto maior quanto mais acentuada for essa individuação das partes (DURKHEIM, 1977-I, p. 153). Em oposição, portanto, à primeira, esta forma de solidariedade baseia-se na interdependência e na diversidade dos seus membros. Este tipo de considerações facilita a analogia que fazemos dos sistemas educativos, quanto ao seu modelo organizacional, em sistemas mecânicos e em sistemas orgânicos (CHIAVENATO.II, 1987, p. 206). De acordo com este autor, os primeiros identificam-se por um relacionamento do tipo autoridade-obediência; por uma divisão do trabalho e supervisão hierárquica rígidas, por tomadas de decisão centralizadas e por uma forte repressão. Pelo contrário, os sistemas orgânicos, baseados na confiança e crenças recíprocas, na interdependência e responsabilidade compartilhada, na solução de conflitos através da negociação, permitem, nomeadamente, uma consciencialização social dos participantes, tornando as organizações colectivamente sabedoras dos seus destinos, permitindo o desenvolvimento de ”uma nova consciencialização social dos participantes das organizações” (Loc. cit.). União Europeia A União Europeia (UE) tem como origem a criação, em 1951, da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), composta por seis Estados-Membros: Alemanha Ocidental, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos. Em 1957, estes países assinaram o Tratado de Roma, que criou a Comunidade Europeia da Energia Atómica (EURATOM) e a Comunidade Económica Europeia (CEE). Através deste acordo, os países membros decidiram suprimir as barreiras comerciais que os separavam e constituir um “mercado comum”, alargado aos seis países membros. Com a assinatura do Tratado de Maastricht (1992), a cooperação entre os Estados-Membros foi redefinida, criando-se então a UE, baseada na criação de um mercado único, através da supressão de obstáculos comerciais e da livre circulação de pessoas, de bens e de capitais. Por isso, foi, então, decidido avançar com a União Económica e Monetária (UEM), através da criação de uma moeda única europeia, o Euro, que começou a circular nos países membros em 1 de Janeiro de 2002. Por sua vez, o texto da Constituição da UE consagra os princípios de uma acção comum nos domínios da educação e da formação. Assim: Fundamentos da política educativa Por via da integração de Portugal na União Europeia e do alcance das políticas de carácter social, cultural e de emprego na UE, com reflexos nas áreas da educação e da formação, estas são condicionadas pelas decisões comunitárias nestas matérias. Assim tem acontecido através de um conjunto de Recomendações comunitárias e da articulação de um conjunto de medidas relacionadas com a educação e a formação de recursos humanos no seio da UE25. No seu conjunto, as políticas educativas dos Estados da União têm vindo a seguir o processo político da construção europeia, bem como os contextos económico, social e cultural dominantes em cada um dos seus países membros. Importa recordar que o fenómeno de escolarização que, hoje em dia, se constitui como indicador do processo de desenvolvimento na Europa sofreu um grande impulso aquando do alargamento do processo de industrialização e urbanização incrementado pela revolução industrial, quando se deu início à chamada “escola de massas”, ou seja, quando se abriu a escola a um leque alargado de públicos diferenciados nas suas origens geográficas e sociais. Com o termo da Segunda Guerra Mundial e o processo de crescimento económico que se seguiu, acentuaram-se as necessidades de formação geral e, sobretudo, da formação especializada, alimentando o processo de democratização do ensino que se fez sentir não só em países europeus, sobretudo da Europa meridional, mas que se estendeu também 358 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos a outros contextos, nomeadamente aos países que, gradualmente, se emanciparam da colonização europeia. As necessidades impostas pela procura crescente da educação foram acompanhadas de iniciativas diferenciadas no domínio do planeamento da educação, que se repercutiram no funcionamento, organização e resultados dos sistemas educativos. Para tanto, contribuíram diversos organismos internacionais, cuja acção vamos destacar mais adiante. A crise energética e laboral, desencadeada nos primeiros anos da década de setenta, veio a colocar novos desafios a todos os sistemas educativos, pondo em causa, devido ao desenvolvimento do fenómeno do desemprego, a missão da escola, os seus programas e conteúdos de ensino, enfim, a organização e funcionamento dos sistemas de ensino. Assim, as preocupações com a qualidade do ensino, a avaliação do sistema e as relações deste com o mercado de trabalho são aspectos recentes que assinalam as preocupações políticas dos Governos de diferentes países e que começam a emergir como temas de debate, promovidos por instituições internacionais. A queda do Muro de Berlim, em 1989, com o simbolismo que lhe está associado de abertura da Europa Ocidental aos países do Leste europeu, abriu as portas a um longo processo de globalização, de competetividade dos mercados, de acréscimo da mobilidade humana e de emergência de novos fenómenos sociais, baseados na diversidade, na inclusão e exclusão sociais, aspectos a que os sistemas educativos procuraram responder através de medidas concretas de política de educação. O termo do século XX ficou, ainda, assinalado por novos avanços científicos e tecnológicos, que permitiram a utilização da Web, a intensificação da globalização e dos sistemas de informação, o desenvolvimento da sociedade cognitiva e os desafios que esta enfrenta, decorrentes da emergência de novos paradigmas civilizacionais, ditados pelo avanço tecnológico, pelo desenvolvimento da investigação científica, pela mobilidade humana, pela incerteza e por outros fenómenos sociais que vivemos no dia-a-dia. Estas marcas foram acompanhadas por um conjunto de iniciativas que se basearam no desenvolvimento, a partir de 1980, de uma rede de informação sobre a educação na Europa comunitária, a EURYDICE, destinada a recolher, analisar e difundir informação sobre as políticas e os sistemas educativos dos países membros, com vista a facilitar a cooperação entre esses Estados. É constituída por uma unidade central e por diversas unidades nacionais. Esta rede desenvolveu, desde a sua criação, estudos monográficos de apresentação dos sistemas educativos dos Estados-Membros, estudos comparados sobre temas específicos e a recolha de indicadores de diferente natureza. Esta rede de informação põe à disposição do público uma outra rede, a EURYBASE, que funciona como uma base de dados sobre os sistemas de ensino dos diferentes países europeus. Para efeitos de recolha e de tratamento estatístico, a UE dispõe de um serviço central de estatística, o EUROSTAT, e de um centro europeu destinado ao desenvolvimento da formação profissional, o CEDEFOP, que faz o acompanhamento dos sistemas de ensino e de formação profissional no seio dos países da União Europeia. Note-se que a acção da UE em matéria de educação e de formação tem vindo a ser articulada com outros organismos internacionais, nomeadamente o CE, a OCDE, a UNESCO e outros organismos, tais como o EFT – “European Training Foundation”. Jorge Carvalho Arroteia 359 As preocupações em torno do ensino e da formação têm vindo a ser consubstanciadas por acção de diversos programas e pela criação de diferentes tipos de redes, conducentes à preparação de uma política educativa europeia. Destas iniciativas, salientamos, portanto: · a criação da rede Eurydice; · o lançamento do programa: “Dimensão europeia na educação”; · o desenvolvimento do programa “Língua” e o ensino das línguas estrangeiras nos países membros; · a defesa do princípio de igualdade de oportunidades educativas; · a política de formação de professores. Na área da formação e do ensino profissional e superior, destacamos o desenvolvimento de alguns programas que têm promovido a mobilidade e a formação de recursos humanos em diferentes domínios de ensino: · Programas Erasmus e Sócrates; · Programa Comett; · Programa Leonardo. Portugal tem vindo a participar nestas iniciativas desde a sua integração na UE, em 1986. Orientações relativas à educação e à formação Embora de forma resumida, assinalamos alguns dos acontecimentos relacionados com a construção da política europeia de educação, desenvolvidos desde a criação da Comunidade Económica Europeia. Período de 1963-1976 · · · · 1971 – Reunião dos Ministros da Educação da CEE; 1973 – Apresentação do projecto de acção, elaborado por Henri Jane (Belga), com referência à elaboração de uma política comunitária da educação e à necessidade de uma política de formação profissional; Reunião dos nove Ministros da Educação da CEE (Resolução de Junho de 1974 e criação do Comité de Educação); 1976 – Acções em matéria educativa – Comité de Educação: (discutidas pelo Parlamento Europeu) · Transição dos jovens para a vida activa; · Ensino aos migrantes e familiares; · Ensino de línguas estrangeiras; · Criação da rede EURIDICE; · Divulgação das novas tecnologias no ensino; · Luta contra o analfabetismo; · Igualdade de oportunidades para ambos os sexos; · Ensino a deficientes; · Formação de professores e fomento da dimensão europeia nas escolas; Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos 360 · · · A formação profissional, como factor decisivo na mobilidade de mão-de-obra, no seio dos países membros (CEE); Desenvolvimento de actividades relacionadas com a orientação profissional (jovens e adultos); Divulgação dos serviços de orientação, sua coordenação e reforço da cooperação comunitária. Período de 1976-1980 · · Alto desemprego juvenil; Criação da “formação em alternância”. Recomendações sobre a formação profissional: · Transição entre a escola e o mundo de trabalho; · Desenvolvimento da formação contínua; · Promoção da orientação profissional; · Fomentação da formação profissional (à população em geral, a trabalhadores migrantes e a deficientes). Período de 1980 em diante Desenvolvimento de políticas de formação profissional relacionadas com: · a formação profissional como instrumento de política de emprego destinada a promover o desenvolvimento económico e social; · a formação profissional como meio de assegurar a preparação dos jovens para a vida activa; · a formação profissional como instrumento de promoção da igualdade de oportunidades no acesso ao mercado de trabalho. Para além destas acções, relatamos outras iniciativas, sobretudo Recomendações, relacionadas com: · Preparação dos jovens para a vida activa; · Desenvolvimento da educação e da formação contínuas; · Reconhecimento de títulos e correspondência das qualificações profissionais (1991); · Acções diversas: CEDEFOP, FSE, IFAPLAN, Programa Leonardo da Vinci. Pelo seu interesse, transcrevemos algumas preocupações da Comission Européene (1995), traduzidas no estudo: ”Enseigner et appprendre: vers la societé cognitive”, que preconizava a construção da sociedade cognitiva, através: · aquisição de novos conhecimentos; · aproximar a escola das empresas; · lutar contra a exclusão; · domínio de três línguas comunitárias; · igual relevância dos investimentos físicos e em formação. Jorge Carvalho Arroteia 361 No que a Portugal diz respeito, o Conselho Nacional de Educação (1997) elencou um conjunto de desafios, de que destacamos os seguintes aspectos: · Construção da Europa e identidade nacional; · A refundação do Contrato Social Europeu (o contrato social de Rosseau) e a realidade contemporânea, face ao: · Pleno emprego; · Estado providência; · Crescimento material; · Igualdade de oportunidades; · Governabilidade. · Cumprir a Europa pela Educação: · Cidadania (educação intercultural); · Coesão social (cidade democrática/formação de capital humano); · Competitividade; · Criação de emprego; · Sociedade de informação. · A União Europeia do conhecimento (pilares): · Mobilidade; · Qualidade; · Dimensão europeia; · Educação ao longo da vida; · Sociedade de informação. · A criação de redes de conhecimento. O conjunto destas iniciativas estão de acordo com o estado de situação e propostas contidas no Relatório da Comissão – “Les objectifs concrets futurs des systèmes d’éducation”, p. 37), referido por Lawn e Nóvoa (2004, p. 203), onde se lê o seguinte: “Nous devons certes presérver les différences de structures et de systémes que reflètent les identités des pays et régions d’Éurope, mais nous devons également admettre que nos principaux objectifs, et les résultats que nous visions, sont remarquablement semblables. Nous devrions nous inspirer de ces similitudes pour apprendre à mieux nous connaître, partager nos succès et nos échecs et utiliser ensemble l’éducation pour faire progresser les citoyens européens et la societé européenne dans le nouveau millénaire”. Questões em aberto A transcrição anterior sugere a referência a uma outra reflexão, transcrita pelos mesmos autores (Op. cit., p. 204), em que se chama a atenção para as conclusões da Cimeira de Lisboa (2000) e para as responsabilidades dos diferentes Estados-Membros em matéria de educação. A sua leitura permite enquadrar algumas das orientações mais recentes, conduzidas pela UE em matéria de educação: “Les conclusions de Lisbonne on accordé à l’Union, implicitement, un mandat pour développer une approche commune dans le domaine de l’éducation. Ce mandat est bien clair dans la demande formulée auprés des ministres pour débattre les objectifs communs de leurs 362 Educação e desenvolvimento: fundamentos e conceitos systèmes éducatifs. Voilá ce qui conduira à un reforcement de la dimension européenne des politiques éducatives nationales”. Pelo seu interesse, transcrevemos de Durand-Prinborgne (2000, p. 4-5) as cinco preocupações, enunciadas na Cimeira de Lisboa (Março de 2000), em que o Conselho Europeu expressou, como preocupações fundamentais ao nível dos sistemas de ensino, os aspectos relacionados com a qualidade dos sistemas de educação e de formação; o acesso à educação e à formação em todos os estádios de vida; os conteúdos, que permitem desenvolver as competências da base dos alunos, nomeadamente nos domínios das tecnologias de informação e de comunicação; a abertura dos estabelecimentos de ensino à sociedade; e, finalmente, a eficácia dos sistemas de ensino. Estas preocupações estiveram na origem da redacção de cinco orientações comunitárias, a incrementar com o auxílio da Comissão Europeia (Op. cit., p. 18): · “Melhorar o nível de educação e de formação na Europa, reforçando a qualidade da formação dos professores e dos formadores, dedicando um esforço especial em relação às aptidões relacionadas com a leitura, a escrita e o cálculo; · Facilitar a generalização do acesso da educação e da formação em todos os estádios da vida, através do esforço de melhorar o acesso e de reforçar a educação e a formação ao longo da vida e também a mobilidade entre modalidades distintas; · Melhorar as competências de base para a sociedade do conhecimento, nomeadamente através da integração da TIC e conferindo maior importância às aptidões individuais e procurando remediar a penúria de certas competências; · Abrir a educação e a formação ao ambiente local, à Europa e ao resto do mundo através do ensino de línguas estrangeiras, da mobilidade, do reforço de laços com as empresas e o desenvolvimento do ensino de acordo com as necessidades destas; · Utilizar os recursos de forma adequada, garantindo a qualidade nos estabelecimentos escolares e instituições de formação, melhorando a adequação entre os recursos e as necessidades e permitindo aos estabelecimentos escolares concretizarem novos partenariados com o fim de os ajudar nas sua novas funções, mais diversificadas que as anteriores”. A apresentação destes reflexões tem vindo a permitir, ao longo dos últimos anos, enfrentar o desafio da Cidadania Europeia, tema que se coloca na actualidade, em relação à unidade, competitividade e capacidade concorrencial da Europa, face à marginalização, à neomiséria, à exclusão e à perda de cidadania de muitos cidadãos residentes no velho continente. Daí que a refundação do Contrato Social Europeu, tendo em conta a realidade contemporânea e as preocupações subsequentes registadas no seio dos países da UE, exija soluções diversas, que atendam, nomeadamente: ao pleno emprego, ao fim do Estado Providência, ao crescimento material, à igualdade de oportunidade e à procura da educação ao longo da vida. Neste sentido, são vários os desafios que ora se levantam, sobretudo os que se relacionam com a perspectiva de cumprir a Europa pela educação e o aprofundamento das questões de cidadania, assentes numa perspectiva identitária – baseada na herança comunm – e, sobretudo, numa perspectiva pragmática, em que as políticas educativas dos Estados-Membros sejam definidas por “objectivos comuns e estratégias que permitam avaliar e comparar os resultados” (LAWN, NÓVOA, 2004, p. 201). Daqui decorrem um conjunto de questões que se levantam à UE Jorge Carvalho Arroteia 363 na actualidade, relacionadas com o exercício da cidadania (e o desenvolvimento da educação intercultural, no contexto de um “mosaico cultural” diversificado), pelo reforço da coesão social, pela formação de capital humano, pela criação de emprego e aumento da competitividade e pelo alargamento da sociedade de informação. O cumprimento destes desafios assenta num conjunto de pilares de actuação, dentre os quais o estudo de Lawn e Nóvoa (2004) aponta os seguintes: qualidade, acesso e abertura dos sistemas de educação e formação e abertura ao mundo exterior. Como é evidente, cada um destes pilares inscreve um conjunto de iniciativas próprias que permitem à velha dama – a Europa –, outrora dominadora, senhora do mundo e dos padrões de civilização ocidentais, continuar a afirmar-se no contexto mundial, na modernidade social emergente e acompanhar as questões contemporâneas que exigem maior agilidade, atenção, postura crítica e ousadia, no sentido de manter o seu lugar no contexto das civilizações emergentes que tendem a retomar o seu espaço noutros cenários a oriente da “ecúmena” europeia. Note-se que o cumprimento das políticas de educação na UE releva não só da análise e da reflexão interna ao nível dos diferentes países, mas também de orientações patrocinadas quer pela UE quer por outros organismos internacionais, tais como a OCDE, a UNESCO, e outras entidades, designadamente fundações e outras, de iniciativas privada. Não sendo, de todo, possível elencar os diferentes domínios em que a UE tem vindo a actuar no âmbito da educação e da formação, resumimos alguns dos aspectos que, no nosso entender, podem orientar o aprofundamento dos assuntos comuns relacionados com estes fenómenos, de cuja evolução pode depender o futuro próximo e o desenvolvimento da sociedade europeia. Por outro lado, podem ajudar a leitura próxima das medidas concretas e dos resultados das políticas educativas dos Estados Membros da UE. Nota final A elaboração deste trabalho corresponde a um processo longo e moroso, relacionado com a pesquisa e a recolha de informação sobre os processos de desenvolvimento e de planeamento da educação, das suas relações com os demais fenómenos sociais e das suas incidências nas políticas educativas. Valeram-nos, num primeiro momento, os estudos promovidos pela UNESCO – e, mais tarde, pela OCDE e pela UE –, bem como a formação que procurámos vir a aprofundar no domínio das Ciências da Educação. Este percurso obrigou-nos à consulta de uma vasta bibliografia, muito dela fazendo parte da “literatura cinzenta”, divulgada em seminários e cursos de especialização promovidos pelo IIPE-Paris. Estas fontes alicerçaram muitas das nossas preocupações académicas e profissionais, pelo que o trabalho presente pode ser entendido como uma síntese do estudo que realizámos ao longo de alguns anos, durante o qual tivemos necessidade de recorrer a conceitos, agora organizados segundo uma perspectiva pessoal, trabalhados modernamente elaborados por outros autores e com significado distinto daquele que apresentamos. Mesmo assim, ousámos realizar este esforço, tendo presente alguns ensinamentos, nomeadamente os de alguns Mestres e amigos de diferentes Universidades, que nos souberam transmitir o interesse e o gosto pela investigação científica, entendida como “todo o esforço que faça progredir a Ciência, em qualquer dos seus domínios”, e esta como um instrumento de progresso, “um instrumento de educação, uma força do Humanismo dos nossos dias, um apelo constante à objectividade, à compreensão tolerante e ao juízo equânime (…)” (RIBEIRO, 1970, p. 33 e 48). Este foi um dos sentimentos que nos animou na redacção deste texto; um outro foi alimentado pela “insaciável ambição, nascida de uma sempre crescente confiança do Homem nas suas capacidades e recursos” (ROCHA, 1988, p. 9). A estes se juntou a expectativa que o mesmo possa contribuir para mais uma leitura dos nossos sistemas, social e educativo, que, apesar da retórica anunciada, persistem, muitas vezes, a esquecer os professores, “as pessoas que moram nos alunos” (AZEVEDO, 1994), os “deserdados” e os “oprimidos e privados dos supremos bens do homem: a liberdade e a esperança” (RIBEIRO, Op. cit., p. 108). Bibliografia AAVV, Na sociedade de informação – o que aprender na escola?. Porto, ASA, 1998. ADAMS, Raymond S., Planification de l’éducation: vers une perspective qualitative. Paris, Institut International de Planification de l’Education, 1978. AFONSO, Almerindo Janela, Políticas educativas e avaliação educacional. Braga, IEP-CEEP/Universidade do Minho, 1999. 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