INTRODUÇÃO
A linguagem é um fenômeno extremamente
complexo, que pode ser estudada de múltiplos
pontos de vista, pois pertence a diferentes
domínios. É ao mesmo tempo, individual e social,
física, fisiológica e psiquica.
Numa certa época, foi tomada como “ciênciapiloto” das demais ciências humanas. LeviStrauss, Dumézil, Lacan, Barthes e outros
teóricos tomaram os conceitos da linguística e
transladaram para outros ramos do saber.
Passou a considerar a aquisição da linguística
estrutural, que representou um avanço dos
estudos linguísticos, como um conjunto de
práticas puramente “ideológicas”
A linguagem é mediadora, o veículo das
ideologias entre homem e natureza, e homens e
outros homens, ela carrega não só os
significados, mas também os signos, ou seja, a
cultura e os costumes de cada uma. Ela é
flexível ao uso determinado de pessoas ou
segmentos sociais.
MARX E ENGELS
Marx e Engels, em A ideologia Alemã, dizem que
não se pode fazer da linguagem uma realidade
autônoma, como os filósofos idealistas fizeram com
o pensamento.
Eles afirmam que nem o pensamento nem a
linguagem constituem um domínio autônomo, pois
ambos são expressões da vida real. Tudo o que
pensamos é baseado nos signos pré- existentes. A
atribuição de um pensamento pré-verbal,
pensamos independente do signo porém só
concretizamos esses pensamentos com a
linguagem.
AS PRINCIPAIS DISTINÇÕES
É preciso fazer distinção entre o sistema virtual (a lingua) e sua
realização concreta.
Sistema virtual, abstrato, que todos os falantes de uma dada
língua conhecem, realiza-se concretamente nos atos de fala. Na
realização concreta do sistema é necessário distinguir o discurso
da fala.
Fala: É a exteriozação psico-físico-fisiológica do discurso. Ela é
rigorosamente individual, pois é sempre um eu quem toma a
palavra e realiza o ato de exteriozar o discurso.
Discurso: São as combinações de elementos linguísticos (frases ou
conjuntos constituídos de muitas frases) usadas pelos falantes com
o propósito de exprimir seus pensamentos de falar do mundo
exterior ou de seu mundo interior, de agir sobre o mundo.
DISCURSO
No discurso temos que distinguir um texto de um não texto.
Porque o discurso é estruturado, temos que diferenciar no seu
interior uma sintaxe, e uma semântica.
Sintaxe discursiva compreende os processos de estruturação do
discurso. Introduz ou não a primeira pessoa no discurso.
Ex: Eu acho que Pedro foi ao cinema.
Pedro foi ao cinema!
O uso da primeira pessoa cria um efeito de sentido de
“subjetividade”, enquanto sua não utilização produz um efeito de
sentido de “objetividade”
Ex: Eu afirmo que a terra é redonda.
Semântica Discursiva: Abarca os conteúdos que são
investidos nos moldes sintáticos abstratos.
Ex: A personagem a quem se delega voz, o que ela diz.
No discurso existe o campo de manipulação consciente e o
da manipulação inconscientes.
A síntese discursiva -> É o campo da manipulação
consciente. O falante cria efeitos de sentido de verdade ou
de realidade com vistas a convencer seu interlocutor.
A semântica discursiva -> É o campo das determinações do
inconsciente, consiste no conjunto de elementos semânticos
habitualmente usados nos discursos de uma dada época
constitui a maneira de ver o mundo numa dada formação
social.
DUAS MANEIRAS DE DIZER A MESMA COISA
Observemos os textos a seguir:
Texto A – Um cavalo, quase morto de fome e de sede,
caminhava em busca de água e de comida. De repente,
deparou com um campo de feno, ao lado do qual corria um
regato de águas cristalinas. O cavalo, não sabendo se
primeiro bebia da água ou comia do feno, morreu de fome e
de sede.
Texto B – Há pessoas tão indecisas que são incapazes de
realizar qualquer escolha e acabam perdendo muitas
oportunidades na vida.
Os dois textos querem dizer praticamente a mesma coisa.
Tema e Figura
Definamos, de maneira precisa, o que é tema e o que é figura.
Tema é o elemento semântico que designa um elemento não
presente no mundo natural, mas que exerce o papel de categoria
ordenadora dos fatos observáveis. Figura é o elemento semântico
que remete a um elemento do mundo natural.
O discurso figurativo é a concretização de um discurso temático.
Para entender um discurso figurativo é preciso, pois, antes de mais
nada, apreender o discurso temático que subjaz a ele.
Quando falamos em textos figurativos ou não figurativos, estamos
falando em predominância e não em exclusividade. Não existem
textos exclusivamente figurativos ou temáticos. Um texto
figurativo é aquele construído predominantemente com figuras,
enquanto um texto temático é organizado basicamente com temas.
QUE É IDEOLOGIA?
Numa formação social, temos dois níveis de realidade:
um de essência e um de aparência;
A ideologia é constituída pela realidade e constituinte
da realidade. Não é um conjunto de ideias que surge do
nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores.
Há ainda uma coisa muito importante que não
devemos esquecer. Embora haja, numa formação
social, tantas visões de mundo quantas forem as
classes sociais, a ideologia dominante é a ideologia da
classe dominante. No modo de produção capitalista, a
ideologia dominante é a ideologia burguesa.
FORMAÇÕES IDEOLÓGICAS E FORMAÇÕES
DISCURSIVAS
Uma formação ideológica deve ser entendida como a visão de mundo
de uma determinada classe social, isto é, um conjunto de
representações, de ideias que revelam a compreensão que uma dada
classe tem do mundo.
Formação discursiva é um conjunto de temas e de figuras que
materializa uma dada visão de mundo. Por isso, o discurso é mais o
lugar da reprodução que o da criação
Não há, porém, identidade entre linguagem e pensamento. O que há
é uma indissociabilidade de ambos, que não se apresentam jamais de
uma forma pura. Por isso, as funções da linguagem e do pensamento
não podem ser dissociadas e, muito menos, opostas.
Por causa dessa indissociabilidade, pode-se afirmar que o discurso
materializa as representações ideológicas.
A CONSCIÊNCIA É UM FATO SOCIAL
O que é a consciência?
Marx e Engels afirmam, em A ideologia Alemã, que a
“linguagem é a consciência real”. Bakhtin diz que a
“consciência constitui um fato socioideológico”, pois a
realidade da consciência é a linguagem. Segundo esse
último autor, sem linguagem não se pode falar em
psiquismo humano, mas somente em processos
fisiológicos ou processos do sistema nervoso, pois o que
define o conteúdo da consciência são fatores sociais, que
determinam a vida concreta dos indivíduos nas
condições do meio social.
O discurso não é, pois, a expressão da
consciência, mas a consciência é formada
pelo conjunto dos discursos interiorizados
pelo indivíduo ao longo de sua vida,.
O pensamento dominante em nossa
sociedade reluta em aceitar a tese de que a
consciência seja social, pois repousa sobre o
conceito de individualidade e concebe, assim,
a consciência como o lugar da liberdade do
ser humano.
A INDIVIDUALIDADE NA LINGUAGEM
O signo linguístico é formado por dois componentes: Um
conceito e um suporte do conceito, que serve para expressá-lo.
Ao conceito chama-se significado e ao suporte chama-se
significante.
O significado é a parte inteligível do signo, enquanto a
expressão é a parte sensível.
O signo é a união de um significante a um significado.
O discurso pertence ao plano do conteúdo. Ele é manifestado
por um plano de expressão. A manifestação é, portanto, o
encontro de um plano de conteúdo com um plano de expressão,
que pode ter como material qualquer língua natural ou um
meio não verbal de expressão.
Neste nível surge o texto. Enquanto o discurso pertence
exclusivamente ao plano do conteúdo, o texto faz parte do nível
da manifestação.
HÁ NECESSIDADE DE
ESTABELECER UMA
DISTINÇÃO ENTRE
CONTEÚDO E EXPRESSÃO,
ENTRE IMANÊNCIA E
MANIFESTAÇÃO, ENTRE
DISCURSO E TEXTO?
Sim, pois o mesmo discurso pode ser manifestado por
diferentes textos e estes podem ser construídos com
materiais de expressão diversos. O beijo da mulheraranha foi manifestado verbalmente, num livro, e
cinematograficamente.
Se o mesmo conteúdo pode manifestar-se por
diferentes planos de expressão, a distinção entre
imanência e manifestação, entre discurso e texto deve
ser feita.
Em síntese, o mesmo discurso pode ser manifestado
por diferentes meios de expressão.
A TRAPAÇA DISCURSIVA
O texto é individual, enquanto o discurso é social. Há
um nível grande de liberdade no âmbito da
textualização, enquanto no nível discursivo, o homem
está preso aos temas às figuras das formações
discursivas existentes na formação social que está
inserido.
Todos os discursos têm, para usar uma expressão de
Edward Lopes, uma “função citativa” em relação a
outros discursos. Na medida em que é determinado
pelas formações ideológicas, o discurso cita outros
discursos.
Já o texto é individual.
Como o mesmo discurso pode manifestar-se
em diferentes textos, a liberdade de
textualizar é muito grande, estando
condicionada apenas pelos processos
modelizantes de aprendizagem.
O discurso é, pois, o lugar das coerções
sociais, enquanto o texto é o espaço da
“liberdade individual”. Como diz Edward
Lopes.
FALAR OU SER FALADO?
O falante, suporte das formações discursivas, ao
construir seu discurso, investe nas estruturas
sintáticas abstratas temas e figuras, que
materializam valores, carências, desejos, explicações,
justificativas e racionalizações existentes em sua
formação social. Esse enunciador não pode, pois, ser
considerado uma individualidade livre das coerções
sociais, não pode ser visto como agente do discurso.
Por ser produto de relações sociais, assimila uma ou
várias formações discursivas, que existem em sua
formação social, e as reproduz em seu discurso. É
nesse sentido que se diz que ele é suporte de
discursos.
ARENA DE CONFLITOS E PALCO DE ACORDO
Se um discurso cita outro discurso, ele não é um sistema
fechado em si mesmo, mas é um lugar de pessoas
anunciativas, em que a história pode inscrever-se uma vez
que é um espaço conflitual e heterogêneo ou um espaço de
reprodução. Um discurso pode aceitar, implícita ou
explicitamente, outro discurso, pode rejeitá-lo, pode repetilo num tom irônico ou reverente.
Um discurso sempre cita outro discurso. Um texto pode
citar outro texto. As relações entre os textos podem também
ser contratuais ou polêmicas.
ANÁLISE NÃO É INVESTIGAÇÃO POLICIAL
A análise vai mostrar que a formação discursiva pertence
determinado discurso. O sujeito inscrito no discurso é um “efeito de
sentido” produzido pelo próprio discurso, isto é, seus temas e suas
figuras é que configuram a “visão de mundo” do sujeito. Se, do ponto
de vista genético, as formações ideológicas materializadas nas
formações discursivas é que determinam o discurso, do ponto de
vista de análise, é o discurso que vai revelar quem é o sujeito, qual é
sua visão do mundo. O que importa para o analista é que todo
discurso desvela uma ou várias das visões de mundo existentes
numa formação social. O homem não escapa de suas coerções nem
mesmo quando imagina outros mundos. Na ficção científica, por
exemplo, em que o homem cria outros universos, revela os anseios,
os temores, os desejos, as carências e os valores da sociedade em que
vive.
O DISCURSO É REFLEXO DA REALIDADE?
É preciso considerar, quando se diz que a linguagem reflete a
realidade (seja seu nível aparente, seja seu nível de essência), que o
espírito humano não é passivo e que sua função não consiste
apenas em refletir a realidade. Isso significa que o discurso não
reflete uma representação sensível no mundo, mas uma
categorização do mundo, ou seja, uma abstração efetuada pela
prática social. A percepção pura não existe. Pelo contrário, certos
dados da psicologia autorizam a dizer que a percepção é guiada pela
linguagem. Porque o homem age e transforma a realidade, não
apreende passivamente. A forma de apreensão depende do sujeito
cognoscente, isto é, do gênero de prática, acumulada na filogênese e
na ontogênese, de que dispõe. É por isso que uma mesma realidade
pode ser apreendida diversamente por homens distintos. Pode-se
concluir que o discurso é, ao mesmo tempo, prática social
cristalizada e modelador de uma visão de mundo.
A LINGUAGEM FAZ PARTE DA
SUPERESTRUTURA?
Fiorin demonstra que diverge
de Marr e Stálin, pois Marr
coloca a língua como oriunda
das classes e Stálin defende a
língua como identidade de
uma nação e que por isso deve
ser estática.
O LUGAR DA LINGUAGEM
A língua em si não é um fenômeno que tenha um caráter de
classe, uma vez que ela existia nas sociedades sem classe, existe
nas formações sociais com classe e continuará existindo quando
as classes forem abolidas. No entanto, as classes usam a
linguagem para transmitir suas representações ideológicas. Ela
também não é propriamente um fenômeno de superestrutura,
mas é o veículo das
representações ideológicas. Se entendermos que a linguagem, ao
mesmo tempo que permeia toda superestrutura, constitui
formações discursivas que pertencem á ordem surperestrutural,
não incidiremos no equívoco de dar uma resposta
exclusivamente afirmativa, como Marr, ou unicamente negativa,
como Stálin, á questão das relações entre linguagem e formações
sociais. A primeira função da linguagem não é ser representação
do pensamento ou instrumento de comunicação, mas expressão
da vida real.
COMUNICAR É AGIR
Quando um enunciador comunica alguma coisa, tem
em vista agir no mundo. Ao exercer seu fazer
informativo, produz um sentido com a finalidade de
influir sobre os outros, deseja que o enunciatário
creia no que ele lhe diz, faça alguma coisa, mude de
comportamento ou de opinião, comunicar é também
agir num
sentido mais amplo. Quando um enunciador
reproduz em seu discurso elementos da formação
discursiva dominante, de certa forma, contribui para
reforçar as estruturas de dominação. Sem pretender
que o discurso possa transformar o mundo, pode-se
dizer que a linguagem pode ser instrumento de
libertação ou de opressão, de mudança ou de
conservação.
A reflexão sobre a linguagem desafia os homens há
milênios, porque dela se pode dizer o que dizia
Riobaldo, no Grande sertão: veredas:
Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça
da gente é uma só, e as coisas que há e que estão
para haver são demais de muitas, e que estão para
haver são demais de muitas, muito maiores
diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar
a cabeça para o total.
Conclui-se portanto que a linguagem é, ao mesmo
tempo autônoma em relação ás formações sociais e
determinada por fatores ideológicos, onde a
determinação ideológica revela-se, em toda sua
plenitude, no
componente semântico do discurso.
Download

linguagem e ideologia.