O quadradinho de 8 explica por que as mulheres recebem salários menores? Lincoln Frias Instituto de Ciências Sociais Aplicadas - ICSA As desigualdades (globais) • • • • Saúde: 96% Educação: 93% Econômico: 60% Político: 19% IBGE, PME – Mulheres no mercado de trabalho, 2010 IBGE, PME – Mulheres no mercado de trabalho, 2010 IBGE, PME – Mulheres no mercado de trabalho, 2010 A mulher no Mercado de Trabalho Urbano: Rendimentos e Emprego Doméstico Terceiro Workshop SPED/MTE 09 de novembro de 2012 Índice do rendimento feminino Regiões Metropolitanas e Distrito Federal - 2001 Base 100 = rendimento masculino Fonte: Convênio DIEESE, SEADE, MTE/FAT e instituições regionais. PED - Pesquisa de Emprego e Desemprego. Explicações Princípios Trabalho de homem Separador Trabalho de mulher Divisão sexual do trabalho Valorador Trabalho de homem Trabalho de mulher SERÁ? Sabemos que mulheres e homens se inserem em segmentos ocupacionais diferentes (principio da separação): Mulheres => cuidados e reprodução da força de trabalho (serviços domésticos, saúde, educação, etc.) Homens => produção, construção, serviços especializados de apoio à produção Mas a comprovação da DIVISÂO SEXUAL DO TRABALHO com consequências de INEQUIDADE requer uma investigação mais detalhada. Nesta etapa, fizemos: a) Comparação de rendimentos de homens e mulheres inseridos em ocupações similares; b) Comparação de rendimentos de mulheres de dois tipos de ocupações – as tipicamente femininas e as tipicamente masculinas; Outro estudo – Emprego Doméstico METODOLOGIA População analisada: idade entre 16 e 60 anos em 07 regiões investigadas pelo Sistema PED. Criação de grupos ocupacionais homogêneos (unidade de referência para análise) Aglutinação de inserções profissionais semelhantes , com critérios: i) natureza da ocupação; ii) nível de escolaridade; iii) rendimentos médios iv) setor e ramo de atividade; e v) número amostral mínimo. Informações para cada grupo ocupacional : i) proporção de homens e mulheres, ii) anos médios de estudo iii) e rendimentos médios para ambos os sexos. Como a PED é uma pesquisa amostral, p/ gerar indicadores de rendimentos em nível ocupacional o procedimento exigiu, além da acumulação da amostra de três anos de pesquisa (2009, 2010 e 2011). Grupos Ocupacionais Tipicamente Masculinos Distribuição (%) Regiões Anos médios de estudo (anos) Rendimento médio real (1) (R$) H M Total H M Total H M M/H 93,6 6,4 8 7,8 10,2 1.162 1.180 916 0,78 91,1 8,9 8,6 8,5 8,9 1.833 1.890 1.256 Fortaleza 91,5 8,5 7,2 7,1 8 783 Porto Alegre 91,2 8,8 8,7 8,6 9,9 1.298 Recife 95,4 4,6 8 7,9 10 896 899 820 0,91 Salvador 91,9 8,1 8,6 8,4 10 1.081 1.099 894 0,81 São Paulo 94,3 5,7 8 7,9 10 1.224 1.232 1.097 Belo Horizonte Distrito Federal 803 561 1.316 1.116 0,66 0,70 0,85 0,89 Grupos Ocupacionais Tipicamente Femininos Distribuição (%) Regiões Anos médios de estudo (anos) Rendimento médio real (1) (R$) H M Total H M Total H M M/H 10,3 89,7 8,8 10,1 8,7 861 1.283 819 0,64 12,1 87,9 9,5 12,2 9,2 Fortaleza 13,1 86,9 6,7 6,2 6,8 451 485 445 0,92 Porto Alegre 13,4 86,6 8,5 9,0 8,5 824 1.060 790 0,75 Recife 9,8 90,2 8,8 10,0 8,6 606 895 578 0,65 Salvador 10,4 89,6 8,8 9,8 8,7 629 920 599 0,65 São Paulo 13,3 86,7 8,7 9,6 8,5 917 1.316 861 0,65 Belo Horizonte Distrito Federal 1.487 2.828 1.325 0,47 Rendimentos Femininos em Grupos Ocupacionais Tipicamente e Tipicamente Masculinos Regiões Anos médios de estudo (anos) Rendimento médio real (1) (R$) TM TF TM TF M TF/ MT M Belo Horizonte 10,2 8,7 916 819 89,41 Distrito Federal 8,9 9,2 1.256 1.325 105,49 8 6,8 561 445 79,32 Porto Alegre 9,9 8,5 1.116 790 70,79 Recife 10 8,6 820 578 70,49 Salvador 10 8,7 894 599 67,00 São Paulo 10 8,5 1.097 861 78,49 Fortaleza Ela ganham menos, mesmo em trabalhos considerados femininos einclusive quando têm maior escolaridade e melhor saúde. Elas ocupam muito menos cargos políticos. • Uma parte da desigualdade é explicada por desigualdades de produtividade (horas trabalhadas saúde, educação, experiência, horas trabalhadas etc.) e outras diferenças (p. ex., escolhas de carreira). Cerca de 60% (BLAU; KAHN, 2007). • E a parte inexplicada tem aumentado. Por que as mulheres ganham menos mesmo quando elas têm mais saúde e escolaridade? Porque elas são piores no trabalho. Por que elas são vistas como piores no trabalho? E como mudar isso? Porque elas são VISTAS COMO piores no trabalho. Por que elas são vistas como piores? • Hipótese 1: porque elas têm menor capacidade produtiva. • Previsâo: isso nunca vai mudar. • Hipótese 2 (do tempo): porque elas possuíam menor capacidade produtiva até há pouco tempo e as percepções e instituições sociais ainda não se corrigiram. • Previsão: com o tempo, isso vai mudar sozinho. • Hipótese 3 (do estereótipo): porque há uma tendência biológica a vê-las como menos produtivas (a qual a cultura pode estimular ou desestimular). • Previsão: isso piora se a cultura estimular e melhora se a cultura desestimular. Fato 2 • Nossa cultura trata as mulheres como sendo principalmente objetos sexuais. • Objeto: - seu valor é medido por atributos físicos. Elas são valorizadas segundo interesses sexuais masculinos. - ela não tem vontade própria, a não ser satisfazer a vontade do homem. • Objetificar: criar, reforçar ou estimular a imagem de algo como objeto. • Publicidade, TV, cinema, pornografia etc.: submissão, fraqueza , gosta de ser humilhada etc. Eles vestidos, elas quase nuas Outros exemplos • Publicidade: mulher vende, mulher como brinde. • Bechdel test • Smurfette test • Igreja Católica Pressões sociais até para modificação do corpo My Pussy É o Poder Gaiola Das Popozudas Na cama faço de tudo Sou eu que te dou prazer Sou profissional do sexo E vou te mostrar porque My pussy é o poder Mulher burra fica pobre Mas eu vou te dizer Se for inteligente pode até enriquecer My pussy é o poder Por ela o homem chora Por ela o homem gasta Por ela o homem mata Por ela o homem enlouquece Dá carro, apartamento, joias, roupas e mansão Coloca silicone E faz lipoaspiração Implante no cabelo com rostinho de atriz Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz Rasta no chão, rasta no chão, rasta que rasta que rasta que rasta no chão Tipo Infantil Científico Neutra Vulgar Masculino Feminino Pipiu, bililiu etc. Perereca, xoxota etc. Pênis Vagina Pinto Pau, cacete, caralho etc. Buceta, xana, perseguida etc. “A mulher é a pior parte da buceta” Carnaval Marcelo Rubens Paiva (junho, 2013): É uma pena que hoje as capas da Playboy não sejam mais as mulheres bem-sucedidas, apenas as subcelebridades. Depois de almoçar, quem lava os pratos? (o mesmo sexo que fez a comida, lavou a roupa, arrumou a casa) Fato 3 Elas sofrem muita violência doméstica e sexual. Estupros em SP • 01 a 12 de 2011: 4.022 ocorrências • 01 a 10 de 2012: 5.055 casos de estupro • 16 estupros por dia • • • • 70% dentro de casa Amigos ou conhecidos- 1.333 registros Pai- 447 Padrasto- 444 • Estupro: 1 em cada 5 mulheres (por homens) • Violência: 1 em cada 3 mulheres (por homens) Stabeunville case Assédio sexual não é elogio Casos mais complicados Qual é o ponto? • O problema não é incentivar o sexo, a sensualidade, a promiscuidade etc. Os problemas são: As meninas não verem que há outras coisas que elas podem ser O problema é tratar como objeto sexual quem não quer ser tratada assim Hipótese • A variável 2 (objetificação) causa mudança nas variáveis 1 e 3 (violência e discriminação econômica e política). • Logo, desestimular a objetificação diminui a discriminação e a violência contra a mulher. Teste empírico • Focar no corpo diminui percepção de agência (auto-controle e ação) e aumenta percepção de experiência (emoção e sensação) (Gray et al. 2011). Testes • Nos países onde há menos violência e mais igualdade econômica e política, há menos objetificação? • E o inverso também? • E a história confirma essa relação? • Problema: quais são bons marcadores de objetificação? Quanto é possível mudar? Soluções • Proteções à maternidade (serviços pré-natais, licença maternidades etc.) • Direito de propriedade • Acesso ao crédito • Proteção contra violência e violência sexual • Desestimular objetificação - não contratar músicas degradantes com verbas públicas - proibir publicidade sugerindo submissão e violência. - proibir submissive porn, XXX porn, face fucking etc. - estimular modelos femininos intelectuais Fazer quadradinho de 8 é fácil, quero ver entrar em uma federal aos 18 e sem filhos Referências BLAU, F.; LAWRENCE, M. The Gender Pay Gap: Have Women Gone as Far as They Can? Academy of Management Perspectives, vol. 21. n.1, p. 7-23, 2007. GALLAGHER, J. Mind the male-female gap, but don’t exagerate it. Forbes, 21 mai. 2012. Disponível em: <http://www.forbes.com/sites/realspin/2012/05/21/mind-themalefemale-income-gap-but-dont-exaggerate-it/2/> Acesso em: 10 jun. 2013. WORLD ECONOMIC FORUM. Global gender gap report 2012. Genebra: World Economic Forum, 2013. Disponível em: |<www.weforum.org/issues/global-gendergap> Acesso em: 10 jun. 2013.