As Crianças Indígenas Kaimbé e suas Culturas Lúdicas em Massacará Carine Monteiro de Queiroz (Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia - Pós Afro/UFBA. Bolsista CAPES) Como as crianças indígenas Kaimbé lidam com seu contexto de desenvolvimento compartilhando criativamente cultura ao brincar? Partindo deste questionamento este texto discute os percursos trilhados em uma pesquisa de mestrado recém concluída através do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (PPGPSI/UFBA), socializando resultados e apresentando possíveis direcionamentos para sua continuidade em um projeto de doutorado iniciado em 2013 no Programa Multidisciplinar de Pós Graduação em Estudos Étnicos e Africanos (PÓSAFRO/UFBA). Realizada em Massacará, aldeia central deste Território Indígena localizado na região semiárida da Bahia, nordeste do Brasil, esta investigação orientou-se pelo reconhecimento da participação ativa das crianças nos processos de transmissão, conservação e mudança cultural, ou seja, como agentes nos grupos de pares que integram e, também, nas sociedades em que vivem. Conduzida pela vereda metodológica qualitativa, no campo da Psicologia do Desenvolvimento em diálogo com a Sociologia da Infância e a produção antropológica, esteve atenta às expressões lúdicas neste contexto especifico, produzindo registros cursivos e em imagens através de observações naturalísticas e atividades desenvolvidas em rede colaborativa pelos Projetos CISAIS - Culturas e Interculturalidade (IHAC/UFBA) e o Observatório da Educação Escolar Indígena Yby Yara - Núcleo Local do Território Etnoeducacional Nordeste I (PÓSAFRO/UFBA/CAPES/INEP/SECADI). Assim, para a escrita dissertativa, seguiu-se ao encontro das meninas e meninos Kaimbé nas áreas abertas do seu Território, em seus momentos de interações livres, quando transitam com autonomia e criatividade entre as diversas culturas, infantis e adultas, locais, regionais, nacionais e até mesmo internacionais, mas não apenas reproduzindo-as senão reinvestindo-as de significados novos, acessando de forma inovadora o mundo que as cerca, um ambiente que é físico e simbólico, cultural e político. Palavras-chave: Crianças Indígenas; Culturas Lúdicas; Território Kaimbé. Introdução Neste texto são apresentados e discutidos alguns registros das culturas infantis em Massacará, aldeia central do Território Indígena Kaimbé demarcado e homologado em 1991 (Decreto N° 395), situado a 32 km de Euclides da Cunha, semiárido da Bahia, nordeste do Brasil. Trata-se de um recorte da pesquisa de mestrado recém-concluída no âmbito do Programa de PósGraduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia – PPGPSI/UFBA, de autoria de Carine Monteiro de Queiroz, sob orientação da Profa. Dra. Ilka Dias Bichara e coorientação da Profa. Dra. Clelia Neri Côrtes. A dissertação ‘Brincadeiras no TI Kaimbé’ que abordou a ludicidade como uma sensível forma de criatividade, motriz da diversidade cultural dos povos (QUEIROZ, 2012). Sua escrita resultou dos diálogos colaborativos em estudos e ações etnossocioambientais compartilhados nas equipes interdisciplinares e interculturais, quando diversos foram os encontros e as vozes que ecoaram tornando inspiradores os caminhos. Percursos dialógicos, multirreferenciais (ARDOINO, diagnostica/prognostica sobre TARQUI/UCSAL/EMBRAPA, a 1998), água e 2004-2008), inicialmente seus em múltiplos seguindo uma aspectos investigação (CÔRTES & através de uma pesquisa ação formativa em mapeamento e sustentabilidade ecossociocultural (CÔRTES/UCSAL/FAPESB, 2008-2010). Continuando na atualidade em rede com os projetos Observatório da Educação Escolar Indígena Yby Yara - Núcleo Local do Território Etnoeducacional Nordeste I (CÉSAR/PÓSAFRO/UFBA/CAPES/INEP/SECADI, 2011), Culturas e Interculturalidade: saberes/praticas, iniciativas locais e políticas culturais - CISAIS (CÔRTES/IHAC/UFBA, 2010), e Brincadeiras de Faz-de-Conta: um estudo sobre estrutura, regra e processo de reprodução interpretativa em diferentes contextos no estado da Bahia (BICHARA/PPGPSI/UFBA, 2010). Nesta trajetória foram muitas as idas e vindas ao Território, desenvolvendo ações nos diversos espaços da comunidade, inclusive na escola Kaimbé. Em todos os momentos haviam crianças por perto, participando nas atividades, observavam, perguntavam, informavam, ou estavam simplesmente ali, intensamente presentes, a brincar com seus pares. Passavam correndo, rindo, empurrando seus “carrinhos de mão” construídos por elas mesmas. Estavam a conversar, compartilhando saberes e fazeres, riscando com pedaços de pedras o chão das ruas da aldeia. Assim, traçavam estradas que levavam a diferentes lugares, enquanto produziam desenhos com seus corpos em movimento, interagindo com o mundo e com os diversos outros em um processo criativo que marcava na terra, e na vida, os sentidos que interpretavam da realidade experienciada. Estas eram cenas de um brincar espontâneo, expressão de uma cultura infantil Kaimbé que emergia como um ritual diário nos vários espaços desta área indígena. Este brincar constituiu o tema nuclear da dissertação e estas crianças seus principais a(u)tores. À pesquisadora coube também traçar alguns riscos, intercessões reflexivas entre a Psicologia do Desenvolvimento, a Sociologia da Infância e a produção antropológica, ciente das questões éticas que um exercício científico responsável suscita, diante das incompletudes e complementaridades dos saberes (Souza Santos, 2009) e considerando a pertinência de estudos comprometidos com a realidade brasileira (Gosso, 2004). Deste modo desenharam-se os caminhos desta investigação, consoante com o compromisso ético e político de reconhecimento deste grupo indígena a partir das expressões lúdicas de suas crianças, entendendo-as como agentes nos grupos que integram, como legítimos interpretes de suas próprias histórias e, por que não (?), das sociedades em que vivem. Caminhos Desenhados, Percurso Trilhados A perspectiva metodológica adotada nessa investigação, delineada pela vereda qualitativa, permitiu reconhecer que para tais in-fans (em latim, “o que não fala”), é preciso devolver a voz (DELGADO & MULLER, 2005), e suas múltiplas linguagens. É necessário incluir as crianças não apenas como objeto/sujeito das pesquisas científicas, mas perceber e envolvê-las também nas produções que as abordam. Para coleta dos dados, optou-se pela observação em ambiente natural orientada pela abordagem etológica, um recorte que permitiu produzir um conjunto de dados registrados cursivamente e complementado por fotos e vídeos curtos (até 15 minutos). A ideia inicial da pesquisa previa a filmagem integral das sessões de observação e a realização de uma coleta por mês durante um ano, entretanto, por circunstâncias imprevistas, precisou ser redesenhada, ajustando-se às (im)possibilidades próprias ao contexto e às pesquisas dessa natureza. A participação como pesquisadora associada aos Projetos citados tornou possível a colaboração em atividades relativas ao Núcleo Kaimbé em Massacará. Entre estas, algumas envolvendo diretamente as crianças e/ou o tema brincadeira, como a realização de minioficinas de desenhos, percursos guiados, e entrevistas com jovem, artesã e contadora de história Kaimbé. Tais dados foram incluídos na condição de informações complementares e forneceram informações sobre as brincadeiras e brinquedos de antigamente, sobre como estas crianças lidam com seu contexto, seus lugares, seus saberes e praticas. A análise dos dados buscou reconhecer que na interação com o grupo de pares, os infantes não apenas internalizam a cultura, mas contribuem ativamente na sua recriação, ou seja, que sua ação no mundo não é passiva e, desse modo, não se trata de mera imitação, mas sim da assimilação criativa inclusive das informações do mundo adulto. Então, para a escrita dissertativa, os rumos foram guiados por um lado no sentido de afastar-se das perspectivas dualistas e lineares, das compreensões que equivocadamente “tendem a interpretar as crianças como indivíduos que se desenvolvem independentemente da construção social das suas condições de existência e das representações e imagens historicamente construídas sobre e para elas” (SARMENTO, 2005, P. 363). Por outro, buscou aproximar-se de um entendimento do processo desenvolvimental como interações mutuamente transformadoras entre organismos e ambientes, relações estas que se caracterizam por uma interdependência sensível e dinâmica de tal modo que não podem ser entendidos separadamente, sem referência um ao outro (MATURANA & VARELA, 2001). Para apreender esta multidimensionalidade e sua dinâmica adota-se uma perspectiva sistêmica, o todo já não se pode reduzir às partes, e estas não podem mais permanecer isoladas. Nas fronteiras disciplinares adormecem os elos indissolúveis que necessitam ser religados. Em holograma, como propõe Morin, ao nos lembrar que através da dialógica é possível “assumir racionalmente a inseparabilidade de noções contraditórias para conceber um mesmo fenômeno complexo” (MORIN, 2003, p. 96). Com a partir da perspectiva interacionista configurou-se uma noção integrada e dinâmica dos múltiplos fatores que compõem a experiência desenvolvimental, o que se traduz em contexto de desenvolvimento. Ambientes de vida “apreendidos em sua dimensão interativa, constituindo espaço e tempo de relações” (BICHARA, 2005, p. 12). Cenário em que o sistema indivíduo-ambiente em desenvolvimento se insere, no qual participa, transformando- o/transformando-se, o que abrange todo o ciclo vital. Como propõe Bronfenbrenner (1996) ao enfatizar um desenvolvimento-no-contexto, salientando a reciprocidade em suas dimensões físicas, temporais, sociais e simbólicas. Neste ambiente de relações são exercidas a capacidade e necessidade comum de aprender, de criar significações acerca da experiência, da natureza, da realidade social. Assim reformula-se coletivamente cultura (THOMAZ, 1995), assim promove-se sua diversidade, imbricada com a construção identitária. Identidade definida pela percepção de uma continuidade, de um fluxo, uma memória. Uma reelaboração dinâmica que é também expressa concretamente através de práticas sociais, de manifestações artísticas, da criação de objetos, etc. (SILVA, 1995). Expressa pelas brincadeiras e brinquedos, sendo o brincar concebido como prática e produto cultural (CARVALHO, MAGALHÃES, PONTES & BICHARA, 2003; CARVALHO & PONTES, 2003) e as crianças, abordadas como agentes, como portadoras/produtoras de culturas (CORSARO, 2009, 2005; DELGADO & MULLER, 2005). Portanto, como seres sociais plenos, os infantes não estão alheios ao mundo que os cerca. Ao contrário, participam ativamente dos contextos em que vivem, compartilhando com os diversos outros o ambiente físico e simbólico que acessam, reelaborando-o, modificando e/ou conservando os saberes e fazeres socializados. Assim produzem as “culturas da infância” que “transportam as marcas dos tempos, exprimem as sociedades nas suas contradições, nos seus extratos e na sua complexidade”. Tais culturas infantis operam enquanto fatores comunicacionais, tanto entre pares, como com adultos, convergindo assim através de um ir e vir relacional (SARMENTO, 2003, p. 4). Os grupos de parceiros de brincadeira favorecem as trocas diretas entre crianças, configurando-se como espaços primordiais de transmissão e reinterpretação de elementos dos universos adulto e infantil, locais e externos ao seu contexto de vida, ou seja, desde os saberes e fazeres vivenciados em seu cotidiano àqueles acessados indiretamente por interlocução de outros sujeitos e/ou meios de comunicação. Portanto, ao trocar informações oriundas de outros espaços, macrocultura, os pares criam culturas singulares, a microcultura do grupo de brinquedo (CARVALHO & PEDROSA, 2002), tornando esta uma ocasião privilegiada para a fluência de regras e convenções culturais, um espaço/tempo de recriação dos conhecimentos e práticas através dos diálogos estabelecidos em múltiplas linguagens. Em especial aqueles propiciados pelas trocas intergeracionais e entre gêneros distintos, estabelecidos nos encontros que as ruas e áreas públicas e abertas tradicionalmente tem oportunizado. Onde e quando os grupos se formam espontaneamente configurando variadas modalidades de interação, em que são empreendidas negociações e gerenciados conflitos, constituindo arranjos funcionais aos interesses dos pares, manejando categorias concretas e simbólicas do contexto. Tais interações são possibilitadoras de ações e reflexões sobre o ambiente em que vivem, sobre as relações humanas e as regras sociais que as orientam, nos grupos de brinquedo e nos grupos mais amplos onde convivem, introduzindo-se uns aos outros e exercitando juntos, um mundo normatizado (GOSSO, OTTA, MORAIS, RIBEIRO & BUSSAB, 2005). Neste sentido, o brincar é reconhecido como um fator fundamental no processo de formulação de uma visão de mundo e atribuição de significado às coisas pelas crianças, o que nos remete à construção imaginária dos contextos de desenvolvimento, o que, por sua vez, torna “a vida uma aventura continuamente reinvestida de possibilidades” (SARMENTO, 2003, p.13; 2004). Ou seja, as brincadeiras, e as expressões lúdicas entendidas como formas de ação e compreensão, refletem e recriam a organização social dos grupos, sua história e seu presente. Sob este prisma, através de uma abordagem interpretativa (CORSARO, 2003, 2005, 2009), investigou-se, na referida pesquisa de mestrado, como as crianças indígenas Kaimbé compartilham criativamente cultura ao brincar. Como participam ativamente nos grupos em que se inserem, em especial, nos processos de transmissão, conservação e mudança sociocultural em seu contexto específico de desenvolvimento, o território indígena, onde habita seu povo, onde foram adormecidas e onde estão sendo reavivadas suas referencias étnicas. Nas Terras de Massacará O Território Kaimbé localiza-se a 32 km da sede do município de Euclides da Cunha, a 311 km da capital do estado da Bahia, nordeste do Brasil. Demarcado e homologado em 1991 através do Decreto N° 395, somente foi totalmente desintrusado em 2002, após um longo período de luta para saída dos não indígenas que ocuparam indevidamente esta área originalmente habitada por seus antepassados e cedida ao aldeamento jesuítico da Missão da Santíssima Trindade do Massacará, através de um Alvará Régio em 1700. Uma Área Indígena de 8.020 ha situada na região semiárida do país, onde a população convive historicamente com aspectos físico-climáticos da seca, agravados por um contexto agrário e sociopolítico de dominação e concentração fundiária (CÔRTES et al, 2006). Do Brasil colônia aos dias atuais distintas políticas de territorialização incidiram na vida destes grupos. Os mecanismos de dominação e integração sociocultural resultantes dos modelos de colonização, como processos globalizantes (hegemônicos), foram altamente homogeneizadores, e impactaram intensamente as condições de vida destas populações, de modo que os Kaimbé “representam um caso típico do processo de emergência étnica no nordeste brasileiro” (SOUZA, 1996, p. 149). Integram o "conjunto étnico e histórico" denominado "índios do nordeste", uma unidade constituída pelos "diversos povos adaptativamente relacionados à caatinga e historicamente associados às frentes pastoris e ao padrão missionário dos séculos XVII e XVIII" (DANTAS, SAMPAIO & CARVALHO, 1992, p. 79). De acordo dados recentes (IBGE, 2011) vivem atualmente no nordeste brasileiro aproximadamente 208 mil índios auto declarados, 25,5% da população indígena total no país, que é de cerca de 817 mil indivíduos auto declarados (0,4%). Destes, 36,2% possuem idade entre 0 e 14 anos, são crianças e adolescentes que hoje encontram uma realidade bem diferente daquela experienciada por seus pais e avós e pelo grupo étnico com quem compartilham, no presente, uma história. Um passado e um projeto de futuro (ARRUTI, 1997). A população Kaimbé atual é de 1.080 (um mil e oitenta) indígenas (dado SIASE/SESAI – 2012), sendo aproximadamente 412 crianças (dado da escola Kaimbé – 2012), residindo em oito aldeias do seu Território, e possivelmente alguns outros em trânsito ou habitando fora da área. As crianças Kaimbé vivem hoje em seu território de identidade étnica especifica, nascem e crescem sabendo-se indígena, mais precisamente Kaimbé. São filhos da retomada, realizam sua experiência desenvolvimental em um período singular na história deste povo. Sua terra já havia sido decretada Kaimbé (em 1991), haviam os últimos não índios morando na área (1998), ou encontraram um território totalmente desocupado pelos não índios (2002). Uma época de intensa revitalização sociocultural, compreendida em um contexto particular de emergência étnica. Considerando a infância como parte de uma construção social, e reconhecendo as crianças “como seres sociais plenos, dotados de capacidade de ação e culturalmente criativos” (SARMENTO, 2005, p.14) interessou registrar suas expressões lúdicas espontâneas, livres. Objetivou-se nesta investigação caracterizar suas brincadeiras, brinquedos e lugares de brincar, suas interações, entre si e com estes, informando sobre como as crianças Kaimbé lidam com seu contexto de desenvolvimento específico neste momento particular do seu grupo étnico de referencia, constituindo subsídios para interlocução entre a Psicologia e os Povos indígenas, a partir de suas crianças. Registros das Culturas Infantis Kaimbé Os caminhos percorridos na investigação de mestrado conduziram a questionamentos acerca dos espaços tempos das crianças em suas comunidades, seus lugares, suas formas de viver e conceber o mundo, as relações entre estas e aquelas compartilhadas pelos adultos do seu grupo de referência. Ponderações que remetem a outras ainda mais abrangentes, às dimensões psicossociais, antropológicas e políticas que permeiam as relações étnico-raciais na Bahia/Brasil hoje. E que também levaram a refletir sobre o olhar que a Psicologia tem dedicado aos povos, e mais precisamente, às crianças indígenas. À guisa de conclusões, os caminhos trilhados levaram a exercitar um olhar que busca desacostumar-se (STOCK, 2010), um olhar redirecionado, emancipado das visões de mundo rígidas, inclusive aquelas provenientes dos campos acadêmicos (MUNDURUKU, 2008). Nota-se que na Sociologia e na Antropologia a infância foi, por vezes, considerada como simples variável ou invisível (QUINTEIRO, 2002). Subordinadas nas sociedades e nas concepções teóricas, as crianças foram por muito tempo não apenas ignoradas, mas marginalizadas (QVORTRUP, 1993, 2010). Mesmo na Psicologia tornou-se imprescindível reposicioná-las, rompendo com pressupostos tradicionalistas para, então, reelaborando a noção de imaturidade, reconhecê-las em sua plenitude (LORDELO & BICHARA, 2009). Nesta pesquisa, o que vimos foi que, ao brincar, as crianças acessam com autonomia e criatividade o mundo que as cerca, um ambiente que é físico e também simbólico, cultural, político. Nascidas criadas, hoje reconhecemos, elas criam, produzem a realidade ao reelaborar conteúdos, ao transitar e transcender suas nuances concretas e abstratas, suas in/certezas e im/previsibilidades. Nesse interjogo, engajam-se nas relações sociais, aprendem e ensinam, exercem com curiosidade (e coragem) diálogos interpretativos, reinventando naquilo que já existe, e entre tantas possibilidades outras, o que é, o que pode e o que pode não ser no grupo de brincadeira. As crianças Kaimbé escolhem, elas decidem brincar e mesmo quando não podem brincar porque “já tomei banho”, ao menos é possível dar uma olhada na partida de futebol e conversar com quem está a jogar. Se por um lado os espaços oferecem às crianças possibilidades diversas de experimentações, ou restrições também variadas, são elas que criativamente assim o fazem. As ruas de Massacará com a terra fofa, sementes e gravetos das arvores são exploradas pelos brincantes que nestes fazeres transpõem saberes. A diversidade de brincadeiras registradas nos episódios analisados ilustra um alto nível de engajamento das crianças Kaimbé em atividades lúdicas, principalmente nos grupos mistos e multietários. Esta pesquisa apresentou uma amostra deste rico universo cultural, portanto, não a sua totalidade. Ainda assim, algumas considerações puderam ser feitas acerca do brincar no contexto Kaimbé, constituindo uma documentação sensível dos saberes e fazeres infantis. Os dados registrados contemplam todos os tipos de brincadeiras identificados na classificação adotada (SMITH, 2010; GOSSO, 2004; MORAIS & OTTA, 2003, e PARKER, 1984), sendo os mais praticados os Jogos de Regra sem Bola (18), Faz de conta (10) e Construção (9), seguido por Jogos de Regra com Bola (5) e Contingência Social (5). Quanto ao tipo de brincadeira, verificou-se que nos episódios de Faz de Conta (7), nos Jogos de Regra Sem Bola (5), e com Bola (3) os Grupos Masculinos apresentam-se mais segregados, característica marcante nos grupos de brincadeira em diferentes contextos investigados (OLIVEIRA & MENANDRO, 2011; GOSSO, 2004; BICHARA, 2003). As observações forneceram indícios da sazonalidade de algumas brincadeiras, uma vez que elástico somente foi observado em maio, gude em outubro, e o pião em novembro, quando um garoto comentou: “tá acabando o tempo do pião... tá chegando o tempo da pipa”. E em junho, há apenas uma observação de pipa (construção e empinar), possivelmente porque também o seu tempo já devia estar passando. Como também sabiam o “tempo” das “arraias” e “periquitos” de papel os meninos que viviam em Novos Alagados na periferia de Salvador na década de 70, onde o tempo da infância de Santos (2003) passou, uma aventura com riscos e descobertas, e quando voltou para sua pesquisa de mestrado, reencontrou as crianças a fazer e soltar suas pipas tal como fazia com seus pares. As diferenças e semelhanças nas atividades lúdicas espontâneas registradas nos variados grupos estudados abrangem desde os materiais utilizados, como no caso da pipa de plástico ou de papel, às nomenclaturas, e às formas de brincar. Isto foi encontrado no Território Kaimbé na brincadeira conhecida em diversas partes do mundo como ‘dança das cadeiras’ que ressurge neste contexto com o nome de ‘caminho da roça’. Esta variabilidade se dá pelas múltiplas interdimensões que conectam ambiente, cultura e brincadeira, e por isso o estudo sobre o brincar reflete também a organização social dos grupos, sua história e seu presente. Em todos os episódios observados em Massacará houve referencias a conteúdos oriundos da realidade cotidiana, externas da comunidade e do mundo infantil, sendo estes transpassados uns pelos outros e reeditados no grupo de brinquedo. Em um episódio registrado, um menino desenterra uma pedra e do buraco que fica criam um castelo diferente, do jeito que eles assim quiseram. Em um desenhado bem próximo ao modelo dos contos de fadas, mas que não “tem nem rio” há uma torre alta como nos contos de fadas originalmente surgiram e que constituem a possível fonte deste conteúdo. Há um buraco e, ao seu redor, constroem juntos um muro, fazem estradas, criam um “castelo” “bonito” que para ficar pronto só falta a “porteira”. Um castelo-casa diferente, do jeito que eles assim fizeram, onde não há uma torre alta como nos contos de fadas de onde possivelmente provém este conteúdo. Nem sua entrada é uma ponte levadiça. Aqui, são eles os construtores, e então neste lugar do sertão baiano há uma porteira tal como há no contexto onde convivem, o qual acessoam criativamente assim, ao brincar nas áreas abertas da aldeia Massacará, em um fim de tarde de novembro de 2011. Ao brincar as crianças transitam livremente entre elementos globais, regionais e locais, transpassando tais elementos nas produções imaginativas. As crianças Kaimbé situam-se neste interjogo entre as culturas dos adultos e aquelas produzidas para elas (Corsaro, 1997). Produzidas para as muitas infâncias do planeta, sendo assim configurada também aos moldes da terra de Massacará. Assim constituem-se as culturas da infância “desse vai-vém das suas próprias representações do mundo – geradas nas interações entre pares, nos jogos e brincadeiras e no uso das suas próprias capacidades expressivas (verbais, gestuais, iconográficas, plásticas)”, como nos lembra Sarmento (2005, p. 27). Algumas considerações, Outros Encaminhamentos O presente estudo constituiu uma pesquisa exploratória e descritiva, orientada pela abordagem interpretativa (CORSARO, 2009, 2003). Os registros produzidos nos levam a refletir sobre o olhar que temos dedicado às crianças indígenas, se é que temos olhado. Assim, considerou a pertinência de estudos em Psicologia do Desenvolvimento atentos à diversidade cultural dos povos, e que, para além de um viés patologizante, assuma a responsabilidade das Ciências Humanas e, em especial, da Psicologia, de atuar comprometida com a promoção do respeito às diferentes maneiras de viver e conceber o mundo, aproximando-se assim de um “mundo real”, um mundo que é múltiplo (LORDELO, 2010). Ao perguntarmos como as crianças Kaimbé compartilham criativamente cultura ao brincar, abordamos a ludicidade como uma sensível forma de criatividade e focalizamos as interdimensões que entrelaçam os aspectos culturais, ambientais e contextuais de desenvolvimento. Ingressamos no campo das investigações que consideram a complexidade, tanto dos níveis de análise reflexiva da ciência contemporânea, como dos próprios grupos humanos, dada a dinamicidade dos processos globalizantes na atualidade, sem perder de vista as contínuas ressignificações culturais. Em seus grupos, as crianças Kaimbé comunicam saberes e exercitam fazeres, juntas. São, portanto, parte ativa da comunidade, da sociedade humana, autores personagens dos enredos que criam, inscrevendo-se em sua própria história. Neste brincar, interagem umas com as outras e com o meio, exercitando e compartilhando formas de compreensão e ação no mundo. As crianças não estão alheias ao universo ao seu redor, elas acessam o mundo adulto e infantil, manipulando seus elementos materiais e simbólicos, tornando-se interlocutoras da vida. Assim, participam ativamente através do seu brincar no processo de produção e reprodução cultural, assim tornam “a vida uma aventura continuamente reinvestida de possibilidades” (SARMENTO, 2003, p.13; 2004). Então, inspirando-se nelas, busca-se também reencantar a aventura do conhecimento aproximando-se de uma compreensão pautada na complementaridade dos saberes, propondo como projeto de doutorado (QUEIROZ/PÓSAFRO/UFBA, 2013) investigar com as crianças indígenas suas expressões lúdicas em seus territórios. Neste, adotando uma perspectiva dialógica voltada para o reconhecimento das diversas vozes, expressões livres das culturas da infância, serão utilizados recursos diversos com vista a registrar através de múltiplas linguagens as concepções infantis acerca do mundo, suas expressões lúdicas, seus saberes e fazeres e sua percepção do contexto em que vive. Para isto, serão realizadas observações, entrevistas, grupos focais, além do uso de desenhos, fotografias, filmagens e redações pelas próprias crianças. No planejamento serão realizadas oficinas participantes com todas as crianças de 03 a 13 anos interessadas, alem de todos os integrantes deste povo que assim desejem. Acontecerão leituras coletivas, revisões, complementações e validações sistemáticas e grupais, também em alguns momentos com a presença de lideranças e integrantes da comunidade, no sentido de que sejam dados complementares aqueles oriundos do universo do grupo mais amplo, as famílias e comunidade Kaimbé. Professores e estudantes desta etnia poderão também se engajar nesta pesquisa como pesquisadores locais. O material produzido irá compor um etnomapeamento dos espaços tempos destas crianças, consoante com suas decisões articuladas às proposições da pesquisadora, tendo em vista subsidiar a discussão dos aspectos teórico-metodológicos implicados em uma pesquisa desta natureza, o planejamento, desenvolvimento e organização coautoral da investigação, a produção de registros desde uma abordagem interpretativa (CORSARO, 2005, 2009; ALDERSON, 2005; DELGADO & MULLER, 2005; PIRES, 2008). Bibliografia ALDERSON, P. 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