1 Título: POLÍTICAS PÚBLICAS E INDICADORES EDUCACIONAIS : O ESTADO DA ARTE Área Temática: Política Educacional e Gestão da Educação Autores: LUIZ GONZAGA CALEFFE (1), JAIR MENDES MARQUES e HELENA ISABEL MUELLER Instituição: Universidade Tuiuti do Paraná Antecipemos um pouco as coisas: as estatísticas não refletem a realidade, refletem o olhar da sociedade sobre si mesma (Besson, 1995a, p. 18). Sob o título País de Segunda Classe (1999), importante semanário de circulação nacional publicou entrevista com um ex-Ministro da Educação, exReitor da Universidade de São Paulo, ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e ex-Secretário da Educação sobre os problemas educacionais do país, principalmente após o primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Perguntado sobre o papel do governo federal na municipalização do ensino, o entrevistado afirmou: “O Fernando Henrique deveria ter usado os consideráveis poderes de persuasão que tem para colocar esta questão como prioridade do governo, para tentar ajudar. O Ministério da Educação tem alguns, como os recursos para a merenda e construções escolares. ... Então você pode pressionar o governador ou o prefeito. O que precisa é liderança dos governadores e não sei porque não fazem isso ... deve ser uma medida do quão ruim eles são. ..... (p. 8).” Mais adiante, o entrevistado é indagado sobre o ensino médio e universitário e responde: “O governo tem muito pouco a ver com o ensino 2 médio porque sua maior parte é privada. As universidades é que são o pepino...” (p. 8). Depreende-se da primeira resposta que a participação da rede municipal de ensino seja pequena, quando comparada às das redes estadual e privada; da segunda, que a maior parte das vagas ofertadas no ensino médio estejam em escolas particulares. Para chegar a conclusões dessa natureza, o entrevistado certamente deveria ter consultado os indicadores educacionais disponíveis até o ano de 1998. Se tivesse feito isso, ficaria surpreso ao verificar que nenhuma de suas afirmações seria respaldada por esses indicadores. E o que é que esses indicadores revelariam? O quadro 1, abaixo, dá algumas pistas. Quadro 1: Distribuição da matrícula do ensino fundamental no Brasil, por dependência administrativa- 1996-1997 ANO TOTAL FEDERAL ESTADUAL MUNICIPAL PARTICULAR 1996 33.131.270(100) 33.564(0,1) 18.468.772(55,7) 10.921.037(33,0) 3.707.897(11,2) 1997 34.229.388(100) 30.569(0,1) 18.098.544(52,9) 12.436.528(36,3) 3.663.747(10,7) 3,31 -8,92 -2,00 13,88 -1,19 % Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (1997; 1998) Primeiramente, os dados do quadro 1 indicam que a participação municipal na oferta do ensino fundamental representava, em 1996, cerca de 33% da matrícula; em 1997, essa participação passou para 36,3%. Examinando-se a última linha do quadro, que contém as taxas de crescimento da matrícula de 1996 para 1997, verifica-se que a matrícula total cresceu 3,31%. Verifica-se, também, que a rede municipal foi a única a apresentar crescimento de matrícula no período considerado; em todas as outras redes houve redução da matrícula. Portanto, o crescimento da oferta de vagas no ensino fundamental deveu-se à expansão da rede municipal. No estado do Paraná, em 1998, cerca de 79% da matrícula nas séries iniciais do ensino fundamental já era de responsabilidade da rede municipal. Com relação ao ensino médio, o equívoco do entrevistado é ainda maior. Vejamos o quadro 2, abaixo. 3 Quadro 2: Distribuição da matrícula do ensino médio no Brasil, por dependência administrativa - 1996-1997 ANO TOTAL FEDERAL ESTADUAL MUNICIPAL PARTICULAR 1996 5.739.077(100) 113.091(2,0) 4.137.324(72,1) 312.143(5,4) 1.176.519(20,5) 1997 6.405.057(100) 131.278(2,0) 4.644.671(72,5) 362.043(5,7) 1.267.065(19,8) 11,6 16,6 12,3 16,0 9,3 % Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (1997; 1998) Os dados do quadro 2 indicam que a participação da rede pública na oferta de vagas para o ensino médio representa mais de 80% da oferta total de vagas. Assim, a premissa em que se baseou a opinião do entrevistado não tem fundamento na realidade. Em algumas regiões do país a participação da rede privada é ainda menor, atingido, no estado do Paraná, a taxa de 12,3%, em 1997. Acrescente-se que a oferta de vagas na rede pública cresceu no período em estudo mais rapidamente do que a da rede privada Não deve surpreender, portanto, a conclusão a que chega Garcia (1998) em sua análise das políticas educacionais recentes: a gestão [do entrevistado] no Ministério da Educação "pouco contribuiu para algum avanço importante [nas mudanças educacionais] (p. 8)". Parece não haver dúvida, no entanto, de que - se como Azevedo (1998) pensamos políticas públicas como "construções informadas pelos valores, símbolos, normas, enfim, pelas representações sociais que integram o universo cultural e simbólico de uma determinada sociedade (p. 108)" - os promotores de políticas públicas, os planejadores e os gestores da educação necessitam de um sistema de informações educacionais completo, atualizado e confiável para embasamento de suas decisões. Estatísticas e indicadores educacionais Talvez as obras mais influentes sobre a utilização de estatísticas e indicadores educacionais nos anos 1970 e 1980, quando foi enfatizado o binômio educação-desenvolvimento, tenham sido as de Correa (1969) e de Chesswas (1973). Correa (1969) propõe modelos matemáticos para a análise 4 quantitativa de serviços educacionais e para estimar e projetar desenvolvimentos futuros. Já Chesswas (1973) salienta que na década de 1960 o planejamento educacional passou a ser auto-justificável. Acrescenta que, se o poder público considerar o desenvolvimento dos serviços educacionais de um ponto de vista dinâmico e a contribuição que a educação é capaz de trazer ao desenvolvimento social, econômico, cultural e político, “os recursos destinados à educação podem ser empregados com maior rendimento” (p. 1). Por outro lado, em um estudo recente para uma coletânea de textos em que são elaboradas reflexões para o futuro, Ribeiro (1993) ressalta que “há sessenta anos o Brasil apóia sua política em estatísticas equivocadas” (p. 213). Enfatiza ainda que essas estatísticas têm sido difundidas pelo governo e aceitas mesmo por especialistas em educação no meio acadêmico, talvez excessivamente confiantes na “implacável denúncia das cifras”, como afirma Breis (1974, p. 61). Um exemplo recente desse excesso de confiança é a análise dos dados do censo domiciliar de 1996 realizada por Kappel e Carvalho (1998). Ao analisar dados de escolarização, os autores procuram justificar os indicadores e para tal apresentam explicações pouco substanciadas para as informações que eles proporcionam. Por outro lado, a análise dos dados realizada em 1944 por Lourenço Filho (1998) e publicada originalmente nesse ano nos é um exemplo de capacidade de extrair informações importantes sobre a educação no país a partir de poucos indicadores, ao mesmo tempo em que alerta para o perigo de generalizações a partir de valores médios. Ao discutir a educação como problema nacional, Lourenço Filho enfoca, entre outros, aspectos de quantidade, tendo como referência dados estatísticos do período de 1932 a 1942, exatamente o intervalo de tempo a que se refere Ribeiro (1993). A atualidade das conclusões de Lourenço Filho, ao analisar os dados daquele período - aplicáveis à década de 1990 - torna-se evidente quando salienta que 5 "O crescimento do ensino brasileiro, no último decênio, foi especialmente caracterizado por uma rápida expansão do ensino médio, ou seja das formas de ensino destinado à juventude (p. 61)". Não são poucas as críticas à aplicação de certos modelos analíticos aos dados dos censos educacionais. Klein e Ribeiro (1992) já haviam criticado a aplicação de modelos de fluxo aos dados dos censos educacionais por produzirem resultados inconsistentes. Ribeiro (1993) afirma, também, que as estatísticas educacionais foram utilizadas para justificar prioridades dissociadas das necessidades do sistema escolar, “ajudando a transformar o problema da educação em moeda de barganha”(p. 213). Além disso, enfatiza que essas estatísticas “escondem sintomas importantes de nosso autoritarismo social e endossam um processo que faz da criança e de sua família verdadeiras vítimas do aparato escolar”(p. 214). O uso de estatísticas e dos indicadores educacionais está no âmago das teorias de planejamento empregadas em todos os países. Coombs (1981), em sua discussão das questões educacionais mundiais críticas, analisa o planejamento educacional, a burocracia e a política e salienta que os conceitos de planejamento e as metodologias quantitativas tão em voga nos anos 1960 e 1970 “são em geral direcionados a uma estratégia educacional de expansão linear e a um planejamento nacional agregado de cima para baixo” (p. 19). Coombs alertava para a inadequação desses conceitos para atingir três metas urgentes: (a) direcionamento e implementação de mudanças e inovações fundamentais necessárias nos sistemas educacionais; (b) descentralização do planejamento e da gestão desses sistemas para adaptá-los a condições locais e para promover maior envolvimento e apoio local; e (c) criação e ampliação de uma ampla variedade de atividades educacionais não-formais, muitas das quais deveriam ser elementos integrantes de vários tipos de programas de desenvolvimento que se estendem da agricultura ao planejamento familiar. Salientava ainda que uma das tarefas urgentes para os anos 1980 seria desenvolver enfoques novos do planejamento educacional para atender essas necessidades essenciais mais eficazmente. A qualidade dos dados estatísticos que têm possibilitado a elaboração de indicadores educacionais tem sido objeto de crítica e de preocupação. Em 6 artigo recente, Pereira et alli (1998) discutem aspectos metodológicos da pesquisa para os procedimentos de controle de qualidade adotados pelo Inep para garantir fidedignidade aos dados estatísticos do Censo Escolar. Essa pesquisa foi realizada com base (1) no estabelecimento de um Índice Ponderado de Seleção de Municípios, que possibilita a identificação dos municípios em que foram cometidos erros; (2) em Programas do MEC e Movimentação de Alunos, com o intuito de estimar o erro total de matrículas; e (3) na Auditagem de Dados, mediante a verificação por amostragem dos dados fornecidos por municípios com grande probabilidade de superestimação de matrículas. Pereira et all (1998) assim resumiram as principais conclusões da pesquisa realizada em 1997: (1) muitas escolas não dispõem de informações gerenciais para a adequada gestão de recursos; (2) são necessários mecanismos de dinamização do fluxo de informação entre as esferas de governo; (3) o sistema de auditoria deve ser permanente, tendo em vista a falta de organização na maioria das escolas e a atratividade dos recursos financeiros oriundos da implantação do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério). Tipo de indicadores Em estudo sobre os indicadores educacionais e as disparidades regionais e sócio-econômicas no Brasil, KLEIN (1997) tipifica os indicadores educacionais como: (a) de atendimento; (b) de eficiência; e (c) da qualidade do ensino. Os indicadores de atendimento referem-se, por exemplo, à parcela da população que tem acesso à escola, acesso a uma determinada série e à parcela que está na escola em um determinado ano. Os indicadores de eficiência referem-se à movimentação do fluxo escolar e a estatísticas derivadas, como taxas de conclusão e tempo médio de permanência na escola. Os indicadores sobre a qualidade do ensino são, por exemplo, os resultados do SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), que introduziram escalas de proficiência comuns às séries avaliadas (uma escala para cada disciplina avaliada). Essas escalas foram interpretadas, a posteriori, em alguns pontos em termos do que os alunos sabem e são capazes de fazer. Podem-se 7 comparar as distribuições de proficiência para diversas subpopulações da mesma série e de séries diferentes. Com um planejamento adequado, resultados de Saebs posteriores poderão ser colocados na mesma escala e serem, portanto, comparáveis. Klein (1997) ressalta também a necessidade de as políticas educacionais procurarem, simultaneamente, baixar as taxas de repetência e melhorar a qualidade de ensino e reitera que " [A] única maneira de se avaliar essas políticas é com o contínuo monitoramento do sistema escolar através de indicadores comparáveis ao longo dos anos (p. 60)." Ao expor as considerações finais em sua análise do SAEB, Pestana (1998) salienta uma diretriz do Sistema sobre a utilização dos resultados, ressaltando seu uso para a "formulação e reformulação de políticas, programas e projetos educacionais... (p.73)." Os indicadores gerados pelo SAEB representam uma novidade, pois não são tratados nos levantamentos estatísticos censitários. Esses indicadores possibilitam uma análise qualitativa do sistema de ensino, com informações sobre variáveis relacionadas ao rendimento escolar e às características das escolas, corpo docente, corpo técnico-administrativo. Schmelkes (1997), ao discutir um sistema nacional de avaliação integral da educação básica no México, propõe os seguintes indicadores para integrar o sistema: (a) de contexto; (b) de insumos; (c) de processo; (d) de resultado; e (e) de impacto. Os indicadores de contexto são do tipo pirâmide etária, nível sócioeconômico da população; presença de problemáticas especiais; expectativas da população em relação à educação. Os indicadores de insumos referem-se a dados sobre a infra-estrutura física e de equipamento das escolas, sobre o pessoal de sistema educativo, sobre os alunos e suas características escolares, sobre os gastos com educação, etc. Os indicadores de processo são os de elaboração mais difícil em função de sua natureza fundamentalmente qualitativa e devem incluir algumas medidas como evidência de cumprimento das exigências mínima (presença de professores e de alunos, horas efetivas de ensino, etc.). Os indicadores de resultado referem-se tanto aos resultados relativos à eficiência do sistema (aprovação, permanência, eficiência terminal, taxas de conclusão, etc.) como os relacionados com os resultados da aprendizagem. 8 Os indicadores de impacto referem-se tanto à escolaridade média da população como da população empregada/desempregada por nível de escolaridade, os ingressos por nível de escolaridade, a participação em atividades cívicas por nível de escolaridade, os níveis de analfabetismo funcional da população adulta etc. Cuidados no uso de indicadores Ao analisar a associação entre indicadores de ensino e políticas educacionais, Bottani (1998) indaga se se trata de ilusão ou ingenuidade. No final da apresentação do conjunto de indicadores de ensino, produzido pela OCSE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico e Social), pergunta se os indicadores são úteis para conduzir políticas educacionais ou servem somente para dar uma ilusão de que essas políticas podem ser elaboradas de modo menos aleatório e ideológico que no passado. O autor conclui que os indicadores podem auxiliar na definição de objetivos políticos e na formulação de propostas de melhoria da educação ou do nível de educação da população. Alerta, no entanto, que seria uma ilusão esperar encontrar nos indicadores elementos para fundamentar decisões inequívocas. “Os indicadores não substituem as decisões; podem, somente, num certo sentido, prepará-las e facilitá-las. Se são selecionados de modo atento e se são aceitáveis, os indicadores podem contribuir para elevar o debate político sobre a educação, porque representam, nesse caso, uma informação pertinente, clara, atualizada sobre os serviços prestados pelas escolas. Eles ajudam, portanto, a tornar mais transparente o confronto político sobre os objetivos e rendimentos da escola, e mais fácil um acordo democrático sobre as prioridades da educação. (p. 62). Apesar de ressaltar as vantagens do uso de indicadores, Bottani (1998) lembra que os indicadores não estão “acima da desordem: são variáveis totalmente relativas, com as quais é necessário lidar com cautela, apesar de sua aparente pureza”(p.30). 9 Esse cuidado é também enfatizado por Comte (1995), quando afirma que as decisões tomadas em função de informações inadequadas se derivariam insidiosamente, até que o sistema de informações explodisse. Todo o sistema de decisão seria, então, atingido pelo caos. Por seu lado, Desrosières (1995) lembra que nos países democráticos a produção estatística é tributária das estruturas sociais. Na verdade, são estas estruturas sociais que fornecem as próprias formas que tornam possíveis os registros. Desta forma, cada sociedade elabora e determina, muitas vezes após difícil debate, os próprios objetivos educacionais. Assim, a posição de cada país, estado, ou município nas listas de mérito, relativas aos vários indicadores – e que freqüentemente têm sido objeto de divulgação e de análises equivocadas pela imprensa – , depende antes de tudo da ordem de prioridade estabelecida na área educacional. A posição relativa de um país, estado ou município pode ser alta ou mesmo baixa, segundo os indicadores, porque o peso e a importância que as políticas educacionais atribuem às dimensões medidas por um dado indicador não são evidentemente idênticas para todos. A classificação segundo um indicador especifico não ratifica, portanto, nem a superioridade nem as insuficiências de uma determinada política educacional em relação a uma outra. Concordamos com Bottani (1998) que os indicadores não podem ser utilizados para se elaborar classificações que atribuam o troféu de melhor a um ou a outro (2). Os indicadores não representam nem os primeiros nem os últimos numa imaginária competição para premiar o sistema educacional mais eficaz, pois seria necessário supor a existência de um metassistema educacional comum a todos. Os indicadores seriam então apenas notas expressas para julgar a pertinência e a capacidade de políticas educacionais, para dirigir e gerenciar a evolução das instituições educacionais em relação a uma meta ideal. Bottani (1998) lembra ainda que os indicadores não permitem fornecer explicações causais de fenômenos medidos e menos ainda propor modelos causais do funcionamento da escola e exemplifica com os resultados de uma pesquisa realizada em vários países sobre o conhecimento em matemática e ciências que mostram que os países cujos alunos conseguem pontuações 10 elevadas são também aqueles que gastam menos por aluno de escola média. A análise simultânea desses dois indicadores pode levar à destruição de um dos mitos que motivaram a ação de centenas de militantes pela causa da educação, ou seja, que quem gasta mais com a escola gasta melhor (Bottani, 1998). Besson (1995b), ao atribuir a um dos capítulos de seu livro o título "Nem tanto excesso de honra, nem tanta indignidade", assim sintetiza os enfoques que o uso de indicadores educacionais tem gerado: (a) a observação estatística realiza uma modelização da realidade - a dimensão qualitativa do quantitativo e as operações de codificação produzem o esquema por meio do qual a "realidade" será percebida e quantificada; e (b) o conhecimento estatístico pertence a ordem da ação. A representação é modelada pela ação e compartilha com ela suas características: racionalidade limitada, condicionamento por alguns postulados. Pergunta, também, se a substituição da crença em que as estatísticas medem a realidade por aquela de que elas só a observam justificaria a condenação das estatísticas. E conclui que as estatísticas não merecem nem o excesso de honra, nem a indignidade que lhes é imputada. Besson (1995b) chama a atenção para o fato de as estatísticas, uma vez produzidas, passarem para o domínio público, escapando da guarda dos estatísticos. Elas circulam na mídia, são discutidas nos meios acadêmicos, invadem discursos, são apropriadas por todos. Essa proliferação estaria inserida na proliferação de signos da comunicação de massa e coloca o estatístico na posição do aprendiz de feiticeiro: perde o controle sobre as estatísticas e é criticado pelo que é feito delas. É preciso enfatizar que a articulação dos números com as prioridades não é tarefa simples. Vieira (1998) lembra que os números refletem apenas parte da riqueza da realidade e que a precariedade dos dados disponíveis é um fator limitativo. Sugere a busca de conexões, ressaltando "o caráter fragmentário do esforço de captar uma totalidade complexa através de indicações que apenas parcialmente traduzem sua inteireza (p.2) ". Besson (1995c) sugere que se faça das estatísticas uma leitura sintomática - em que elas são tomadas como objeto de conhecimento - em preferência a uma 11 abordagem crítica, em que as estatísticas são tomadas como meio de conhecimento e em que são discutidas sua exatidão, pertinência, etc. Não se trata, portando de atribuir às estatísticas excesso de honra ou de indignidade, mas de reconhecer sua verdadeira dimensão. Faz-se necessária, sim, a apreensão e utilização dos indicadores de forma crítica e não absolutizante. Não é possível dispensá-los ou ignorá-los (como parece ter feito o entrevistado). Há que elaborá-los e utilizá-los em sua devida dimensão, qual seja, não de retratos estáticos da sociedade - e por isso neutros, como em geral são olhados os números - mas como expressão do olhar da sociedade sobre si mesma. Notas (1) Professores do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná (2) Os jornais e semanários de grande circulação parecem ter predileção por esse tipo de divulgação de indicadores. Referências bibliográficas AZEVEDO, Janete Maria Lins de. As relações sociais no Brasil, a Política Educacional e dos desafios para uma educação de qualidade. RBPAE v, 13, n.1, jan./jun. 1997, p. 107-16. BESSON, Jean-Louis. Editorial, In: BESSON, Jean-Louis (org.) A ilusão das estatísticas. Tradução de Emir Sader São Paulo: Unesp, 1995a. BESSON, Jean-Louis. Nem tanto excesso de honra, nem tanta indignidade. In: BESSON, Jean-Louis (org.). A ilusão das estatísticas. Tradução de Emir Sader. São Paulo: Unesp, 1995b. BESSON, Jean-Loius. As estatísticas: verdadeiras ou falsas? In: BESSON, Jean-Louis (org.) A ilusão das estatísticas. Tradução de Emir Sader. São Paulo: Unesp, 1995c. BOTTANI, Norberto. Ilusão ou ingenuidade? Indicadores de ensino e políticas educacionais. 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