CONCEPÇÕES EDUCATIVAS, DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM, EDUCAÇÃO ECONÔMICA, COOPERAÇÃO NA TEORIA PSICOGENÉTICA PIAGETIANA Luciana Maria Caetano (Faculdade Mario Schenberg – Cotia/SP) Maria A. Belintane Fermiano (Faculdades NetWok/Nova Odessa/SP) Betânia Alves Veiga Dell’ Agli (UNIFAE – São João da Boa Vista/SP) Heloisa Helena Genovese de Oliveira Garcia (Universidade Paulista - São Paulo/SP) Introdução Este artigo tem como principal objetivo apresentar diferentes investigações fundamentadas no referencial teórico da Epistemologia Genética de Jean Piaget. O autor é conhecido pela maioria dos psicólogos e educadores como o criador dos estágios do desenvolvimento cognitivo da criança. A proposta desse artigo é ampliar então essa visão demonstrando que tal teoria oferece uma oportunidade ímpar de se eleger perguntas e realizar investigações nas mais variadas áreas. Estudo 1- Escala de Concepções Educativas Morais: Pais e Adolescentes Bolsa Fapesp Esse estudo se insere na temática da adolescência e sua polêmica relação com os seus pais. Sabe-se que o contexto das relações dos adolescentes com os pais tem sido foco de interesse crescente dentre os diversos sub-temas dos estudos do desenvolvimento do adolescente (Steinberg e Morris, 2001) e, portanto, abordado por diversas teorias, sendo que, desse modo, o consenso não é a tônica nesse tema. Ainda em se tratando das diferentes formas de compreensão da relação pais e filhos, segundo Grotevant e Cooper (1986), algumas pesquisas buscaram a tendência oposta: a inexistência de conflitos entre pais e filhos. Porém tais pesquisas não tiveram relevância devido às insuficiências metodológicas das mesmas. Outros esforços, mais significativos, são ilustrados pelas pesquisas que investigam o papel da família como um contexto social que influencia o desenvolvimento do adolescente. (Grotevant e Cooper (1986), Petersen (1988), Silverberg e Steinberg (1987), Steinberg e Morris (2001). 2 Os estudos da socialização do adolescente no contexto familiar, especialmente nas décadas de 80 e 90, pesquisas essas originadas na abordagem comportamental. O maior objetivo dessas pesquisas é compreender quais são as formas mais adequadas de educar para garantir: a saúde mental dos adolescentes e dos pais, e o progresso no desenvolvimento dos primeiros. (Bandura,1967). As pesquisas de estilos e práticas parentais tiveram em Baumrind (1966) a pesquisadora mais reconhecida da temática. Os modelos propostos por ela tratam de comportamentos singulares de comportamentos emitidos pelos pais no processo de educação e socialização dos filhos, Tais modelos impulsionaram o surgimento de um número considerável de pesquisas interessadas no estudo e classificação das condutas paternas, e suas conseqüências para o desenvolvimento do adolescente. Todavia, entende-se que, as abordagens psicanalítica e comportamental, definem o desenvolvimento moral através das interações com o meio social: pela introjeção de modelos, ou através do apriorismo das escolhas dos estilos e das práticas parentais. Mas, o elemento essencial da teoria de Piaget é desconsiderado pelas abordagens referidas: a ação do sujeito. O trabalho teve como base teórica a Teoria do Desenvolvimento Moral de Jean Piaget (1932). Conforme a teoria do Desenvolvimento Moral de Jean Piaget a construção da autonomia é um possível caminho de evolução para o pensamento adolescente e autonomia é definida no contexto relacional. A evolução da moralidade depende, segundo o autor, das relações que se estabelecem com o outro: quando os adultos mantêm com as crianças relações de coação, as crianças são vencidas interiormente pelo poder exacerbado do adulto e não podem dessa forma construir seus próprios pontos de vista, distinguir o que é certo ou errado na própria atitude e na de seus genitores, o que lhes impossibilitará a superação da moral heterônoma. Por outro lado, quando o sujeito constrói o respeito mútuo e os princípios de justiça como dever, e as regras são fundamentadas em tais princípios e cumpridas por opção racional de tais sujeitos, um outro nível de desenvolvimento moral é atingido, a autonomia. Analisar os conceitos e intervenções dos pais em relação as suas atitudes educativas, para os quatro construtos: respeito, obediência, justiça e autonomia; tem como objetivo apontar quais são as facilidades, dificuldades, tendências, encontros e desencontros dos pais nas relações com seus filhos adolescentes. O mapeamento das 3 atitudes educativas busca encontrar os aspectos nos quais os genitores acertam ou erram na proposta de educar para a autonomia moral. A proposta dessa pesquisa, por fundamentar-se na teoria piagetiana (1932), fez a opção pela construção de um novo instrumento, que pudesse investigar essa dimensão da cooperação na relação pais e filhos, assim, como instrumento, essa investigação se utiliza de uma escala com assertivas para cada construto: respeito, obediência, justiça e autonomia. A pergunta que norteou a pesquisa foi: como investigar o que pensam os pais sobre o seu papel na educação moral dos filhos adolescentes? O objetivo desse estudo foi construir e validar um instrumento de avaliação psicológica na área do desenvolvimento moral, especificadamente na subárea das relações educativas entre pais e adolescentes. Os objetivos específicos desse estudo psicométrico foram os seguintes: elaborar os itens ou variáveis que constituíram cada constructo: obediência, respeito, justiça e autonomia; demonstrar a validade de conteúdo por meio da análise teórica dos itens (análise semântica e análise de juízes); demonstrar a validade de construto, ou seja, a legitimidade da representação comportamental dos construtos, através da Análise Fatorial Confirmatória; apresentar o modelo final do instrumento devidamente validado e comentado. O processo de construção e validação do instrumento foi conduzido através dos seguintes passos: construção da escala com assertivas para cada construto, Estudo Piloto realizado para proceder a Validação Semântica, Validação Teórica; Validação de Construto (Análise Fatorial Confirmatória). A amostra se constituiu de 860 genitores, pais (20,6%) e mães (79,4%) de adolescentes. Havia participantes de cada uma das cinco regiões do país (42,8% do sudeste, 20,2% do nordeste, 16,5% do centro-oeste, 11% do norte, e 9,3% do sul) e a pesquisa com os pais foi realizada no ambiente escolar (54,8% na escola pública e 45% na privada). O modelo da escala com tinha 36 assertivas, representando os quatro construtos: obediência, respeito, justiça e autonomia. Os participantes atribuíram nota de 1 a 7 (respectivamente as opções com as quais eles discordaram totalmente e aquelas com as quais eles concordaram totalmente). A Análise Fatorial Confirmatória (LISREL) indicou a propriedade dos quatro fatores: respeito obediência, justiça e autonomia (GFI = 0,933, x²/gl =5,2, RMSEA= 4 0,0702). A Escala de Concepções Educativas (depois da validação estatística, AFC), finalizou com 25 itens, sendo 4 itens para obediência, 5 itens para respeito, 8 itens para justiça e 8 itens para autonomia. Por conseguinte os resultados da validação de construto forneceram um maior número de itens para autonomia em detrimento da obediência e forneceram um número maior de itens para justiça, que é para Piaget, a mais racional da todas as noções morais, a qual parece ser o resultado direto da cooperação. Segundo a teoria do desenvolvimento moral de Jean Piaget, para que o adolescente possa construir a autonomia moral é necessário que as relações sociais de coação ou obediência, sejam substituídas por relações de cooperação, nas quais o sentimento moral da justiça seja o equilíbrio das relações, de modo que, as pessoas escolham livremente agir em prol do bem comum. Portanto, podemos afirmar que o instrumento cumpriu a sua função no sentido de confiabilidade e validade, pois “de fato mediu o que supostamente devia medir”. (Pasquali, 2003, p. 162). A pesquisa comprovou assim a tendência de que, na fase da adolescência, os pais e mães tendem a estabelecer com seus filhos relações mais fundamentadas em princípios de justiça e respeito mútuo, que conduzem à autonomia, em detrimento das relações de coação, portanto, heterônomas. Piaget (1926/1947) – ao tratar da questão de métodos de pesquisa, abordando especificadamente o Método Clínico Crítico (conforme nomeou o método utilizado e criado por ele para as suas pesquisas a respeito do pensamento da criança) – afirma que o bom experimentador precisa ter boas hipóteses, fundamentando e dirigindo as suas perguntas, bem como, essas perguntas precisam ser formuladas de modo a desencadear reflexões nos participantes, para que se possa, realmente, conhecer o pensamento desses sujeitos em relação ao que se pergunta a eles. Dessa maneira, pensa-se que o instrumento elaborado e validado por essa pesquisa atingiu aos seus objetivos. Embora não tenha as características do Método Clínico Piagetiano, e tenha se proposto a utilizar um modelo fechado de instrumento, como a Escala de Lickert (para investigar as concepções educativas dos pais em relação a sua participação na construção moral da autonomia dos seus filhos adolescentes), o instrumento provocou as reflexões a que se propunha, desencadeando nos participantes “crenças espontâneas”, as mais importantes para Piaget (1926/1947) no contexto de uma avaliação: quando a resposta é fruto de uma reflexão anterior e original do sujeito. 5 A constatação de que o instrumento contou com perguntas bem formuladas, fundamentadas em boas hipóteses se evidencia na coerência das respostas, que mensuraram ao mesmo tempo o juízo, ou seja, as representações que os pais fazem a respeito do seu papel na formação e educação de seus filhos adolescentes quanto aos construtos obediência, respeito, justiça e autonomia; e mensuraram também a ação dos pais, isto é, como estabelecem na prática essas intervenções junto aos filhos, na perspectiva de educá-los para a autonomia moral. Estudo 2 - Educação Econômica: desafios para pais e filhos 1 Novos tempos, novos comportamentos O comportamento das pessoas, em especial de pré-adolescentes, tem se modificado devido às transformações econômicas, tecnológicas, sociais, políticas provocadas pela globalização. Observa-se que rápidas mudanças ocorrem nos hábitos e comportamentos culturais, familiares e de consumo, precarizando as relações sociais, tornando-as líquidas. Os pré-adolescentes, “tweens”, possuem de 8 a 14 anos e estão entre (“between”) a infância e adolescência. Por causa de sua crescente participação no mundo social e econômico, as informações sobre seus hábitos e comportamentos em relação ao consumo, compra, organização econômica e influências do meio (mídia e relações interpessoais), tornam-se importantes e necessárias e podem contribuir para o conhecimento de como pensam e agem em situações cotidianas e em relação ao mundo que está a sua volta. 2 A pesquisa Três pressupostos de investigação direcionaram a pesquisa: a) a possível homogeneização de comportamentos dos “tweens”; b) a necessidade de construção de novas alfabetizações, estratégias e conhecimentos; c) a educação econômica, com fundamentação na Psicologia Genética e Psicologia Econômica. A partir do instrumento utilizado, um “survey”, com 93 perguntas, caracterizou-se os pré-adolescentes a partir de três eixos: Identidade e relações interpessoais; Cotidiano econômico; hábitos de Mídia. 6 Esta pesquisa é de natureza descritivo-correlacional e foi realizado um levantamento socioeconômico, cultural e de consumo, para conhecer o comportamento da amostra estudada. A variável independente desta pesquisa é representada pelo “nível socioeconômico”. A delimitação das variáveis dependentes foi realizada a partir da frequência dos conteúdos das respostas. O teste Qui-Quadrado auxiliou na análise. A amostra é composta de 423 “tweens”, de 8 a 14 anos, estudantes de escolas pública e particular, de três cidades da Região Metropolitana de Campinas/São Paulo. 3 O ser social Os subsídios teóricos para essa pesquisa foram buscados na Psicologia Econômica e teoria piagetina. A Psicologia Econômica estuda a racionalidade humana e suas manifestações na economia. Assim, é inerente a essa disciplina a pesquisa do comportamento econômico em diferentes contextos etários, culturais e sociais; as variáveis que incidem na tomada de decisões econômicas, tanto individuais quanto coletivas; as formas como as pessoas compreendem o mundo econômico e suas variáveis; os processos de aprendizagem e socialização econômica e do consumidor Quanto à teoria piagetiana, Jean Piaget, epistemólogo explica as ciências numa relação circular e não hierárquica. Elaborou sua própria teoria à luz dos conhecimentos das ciências do homem e das ciências da natureza, numa relação dialética, demonstrando que o desenvolvimento cognitivo é indissociável do social. Este é o aspecto sobre o qual a presente pesquisa se estrutura, ou seja, destacar a importância do meio na formação do indivíduo e as ressignificações que podem ser construídas por intervenção pedagógica. Na fundamentação teórica cita-se Berti & Bombi (1988); Delval & Denegri (2002); Denegri (1999; 2005); Piaget (1996); Piaget &Garcia (1987; 1997). 4 Os Pré-adolescentes Para este artigo, será apresentada, apenas uma questão para apresentar um aspecto da caracterização do Cotidiano econômico. A questão “Você recebe dinheiro para seus gastos?” demonstra o poder aquisitivo dos pré-adolescentes. Tabela 1 – Frequências e porcentagens da questão: “Você recebe dinheiro para os seus gastos” Todos os Só quando Classe Nunca Semanalmente Mensalmente dias peço Social N % n % n % n % n % A1 0 0,0 1 12,5 2 25,0 2 25,0 3 37,5 7 A2 B1 B2 C1 C2 D E 5 5 8 4 3 1 1 6,8 4,3 5,8 6,7 20,0 8,3 100,0 7 13 11 8 0 2 0 9,5 35 47,3 16 11,2 55 47,4 15 8,0 74 54,0 13 13,3 36 60,0 4 0,0 7 46,7 2 16,7 4 33,3 1 0,0 0 0,0 0 Fonte: FERMIANO, M.A.B (2010) 21,6 12,9 9,5 6,7 13,3 8,3 0,0 11 28 31 8 3 4 0 14,9 24,1 22,6 13,3 20,0 33,3 0,0 Não foi encontrada associação significativa entre classe social e se os participantes “recebem dinheiro para os seus gastos” (2(16)=22,84, p=0,118). A maioria dos participantes de todas as classes afirmou recebê-lo “só quando pedem”, 39,2%. A porcentagem de respostas para “nunca recebe dinheiro para os gastos” foi ligeiramente maior para os participantes das classes C2/D/E. O que pode significar que, se houvesse maior renda da família, as crianças receberiam mais dinheiro. É significante o percentual de “tweens” que recebem dinheiro e, ao mesmo tempo, a frequência de recebimento não é constante, informação essa que vem ao encontro das pesquisas que apontam a falta de sistematização de orientação econômica que as famílias dão a seus filhos. (Denegri 2000, 2005; Cantelli, 2009). 5 – Reflexões As experiências vividas pelo “tween” constituem condição para que ele elabore uma rede de sistemas de significações que vão compondo e organizando seu universo paulatinamente. Isso favorece que surja um novo segmento no mercado, ou seja, o de consumidores, clientes. Os resultados sugerem que, para todos eles, há um comportamento homogêneo que permeia seu modo de ser, independente de seu nível socioeconômico. Tal comportamento é semelhante ao dos “tweens” de outros países. Parecem não apresentar compreensão do mundo econômico, das relações de produção e não atribuem a si responsabilidades em relação ao meio ambiente e ao futuro, não se vendo como agentes de transformação. Não possuem, ainda, instrumentos intelectuais que possibilitem a elaboração de estratégias para reagir às solicitações do mercado. Chama atenção a resposta que os participantes de 8, 9 e 10 anos deram à questão “O que sentem quando os adultos os tratam como criança”. Eles demonstram uma predisposição psicológica, emocional e afetiva fortemente favorável a não se sentirem crianças. Encontra-se aí, provavelmente, uma das contribuições mais importantes desta tese: as crianças estabelecem implicações entre os significados que transitam pela sociedade e desempenham papéis ao nível da ação, de conceitos, que 8 não conseguem, ainda, compreender em seus múltiplos significados. Os significados estabelecidos são provenientes das informações que o meio oferece e que podem alterar o perfil do que seja uma criança. Estudo 3- Dificuldade de Aprendizagem: uma análise sobre a vontade A afetividade na perspectiva piagetiana é considerada como a energética da ação, cuja função seria de impulsioná-la. Para Piaget problema da vontade é análogo ao das operações da inteligência, mas como é uma operação afetiva, lida com valores, ações ou decisões. No início da construção das operações concretas, a criança faz seu julgamento com base na configuração espacial, que é uma tendência forte. A tendência fraca seria o raciocínio lógico, ou seja, conservar a igualdade. A operação nesse caso seria a capacidade da criança em subordinar momentaneamente a tendência perceptiva a um sistema de transformações. A tendência fraca, mas superior, remove a forte a partir do momento em que há descentração e reversibilidade. O mesmo ocorre com a vontade. Piaget (1962) exemplifica com o desejo de não trabalhar. Ele é forte porque o sujeito esquece-se de pensar no passado e no futuro, vivendo apenas o momento presente que é a configuração perceptiva atual e leva-o, de fato, a realizar seu desejo. A partir do momento em que o sujeito põe-se a trabalhar, a tendência fraca tornou-se forte, ou melhor, ocorreu a descentração e isso requer a conservação de valores. Isso é possível por um duplo ato de reversibilidade que pode ser relembrar o passado ou antecipar o futuro. A operação consiste em subordinar o valor atual, o desejo momentâneo a uma escala de valores maior, que no exemplo dado seria o valor do trabalho. Assim, o conflito estaria resolvido. Ainda resta a explicação de Piaget para o problema da força adicional. Piaget (1962) conclui que a vontade implica em possuir uma escala de valores permanentes e a solução dos conflitos consiste justamente em uma subordinação da situação atual a esses valores. Inversamente, não ter vontade implica em possuir valores instáveis e momentâneos que não se sustentam em uma escala permanente. No âmbito escolar a análise da vontade como regulador afetivo é pertinente, visto que existe uma queixa, de que os alunos encontram-se desinteressados, desmotivados e pouco se envolvem com as tarefas escolares. A questão que se coloca é a seguinte: as crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem (DA) conseguem 9 realizar a operação da vontade em que os aspectos cognitivos e afetivos (escala de valores) estão inter-relacionados? Assim, o objetivo desse estudo foi analisar a vontade como regulador afetivo em crianças com dificuldade de aprendizagem na perspectiva piagetiana. Método A presente pesquisa se enquadra no método qualitativo. Após todos os procedimentos éticos terem sido realizados foi agendada uma entrevista com a professora, na qual foram indicados espontaneamente 12 participantes do 4º ano (n=30) do Ensino Fundamental I de uma escola municipal do interior do estado de São Paulo. Os participantes foram divididos em dois grupos: Grupo 1 (n=6) com queixa de DA e o Grupo 2 (n=6) sem queixa de DA. A idade dos participantes variou de 9 anos e 1 mês a 10 anos e 10 meses. Os aspectos afetivos da conduta foram analisados por meio de 6 seis observações em sala de aula em tarefas propostas pela professora (Português e Matemática) e em atividades lúdicas com jogos de regras (Kalah, Descubra o Animal, Pirâmide, Sobe e Desce, Matix, Pingo no I, Imagem e Ação e Cilada). As observações foram gravadas em vídeo e todas as condutas dos participantes foram descritas na íntegra, as verbais e não-verbais. Os aspectos cognitivos foram avaliados por meio da provas operatórias de conservação (fichas, líquido e massa), quantificação da inclusão (flores e frutas) e seriação (bastonetes). As observações feitas em sala de aula permitiram compor categorias de análise inspiradas em Ribeiro (2001) com o objetivo de analisar os aspectos afetivos da conduta. As categorias podem ser evidenciadas no Quadro 1 a seguir. Quadro 1 – Aspectos afetivos da conduta observados nas atividades escolares e lúdicas. CONDUTAS ATIVIDADES Escolares Lúdicas Envolvimento Concentração Flexibilidade Tolerância à frustração Cooperação Tranquilidade Envolvimento parcial Concentração parcial Flexibilidade parcial Pouca tolerância à frustração Cooperação parcial Pouca tranquilidade Não envolvimento Dispersão (não concentração) Rigidez (inflexibilidade) Não tolerância à frustração Individualismo (não cooperação) Agitação (intranquilidade) 10 As condutas afetivas dos participantes foram categorizadas por dois juízes e no caso de discordância solicitou-se o julgamento de um terceiro juiz e posteriormente pontuados a fim de compor um perfil das crianças. A pontuação atribuída foi positiva (+), intermediária (+/-) e negativa (-), quando denotavam aspectos positivos, aspectos positivos parcial e ausência de afetos positivos, respectivamente. O Perfil A foi composto pela predominância de pontuação positiva; Perfil B foi obtido pela predominância de pontuação intermediária (ora presença de afeto positivo, ora ausência) e Perfil C predominância de pontuação negativa. Os resultados das provas operatórias foram dados em índices de operatoriedade, obtidos pelos valores atribuídos a cada uma das provas, sendo pontuação 1 para respostas pré-operatórias, 2 para respostas intermediárias ou transição e 3 para respostas operatórias. Como foram aplicadas 6 provas no total, o índice de operatoriedade de 6 pontos caracteriza o nível pré-operatório; entre 7 a 17 pontos caracteriza o nível de transição entre os períodos pré-operatório e operatório concreto e 18 pontos caracteriza o nível operatório concreto. Resultados As condutas afetivas de cada participante foram pontuadas e durante as seis observações efetuadas. Pela pontuação dos aspectos afetivos da conduta foi possível classificar as crianças de ambos os grupos em perfis A, B ou C, conforme o Quadro 2 a seguir. Quadro 2 – Perfil dos participantes com e sem queixa de dificuldade de aprendizagem nas atividades escolares. Pontuação Participantes com DA P PP A Bru (10;10) 1 0 5 Cla (10;3) 0 4 Eli (10;2) 0 Gui (10;8) Pontuação Participantes sem DA P PP A Perfil C Ala (9;11) 6 0 0 Perfil A 2 Perfil B Ali (9;1) 6 0 0 Perfil A 1 5 Perfil C Bla (9;6) 6 0 0 Perfil A 1 2 3 Perfil C Cai (10;1) 6 0 0 Perfil A Jul (9;4) 1 1 4 Perfil C Gab (9;6) 6 0 0 Perfil A Raf (9;3) 0 0 6 Perfil C Mat (9;7) 6 0 0 Perfil A Perfil Perfil Legenda: P – presença da conduta afetiva positiva; PP – presença parcial da conduta afetiva positiva; A – ausência da conduta afetiva positiva. 11 Ao analisarmos os perfis das crianças dos dois grupos, verificamos que no grupo com queixa predominou o Perfil C que se caracteriza pela ausência de condutas positivas. Diferentemente, no grupo de crianças sem queixa de dificuldade de aprendizagem, todas apresentaram Perfil A, que indica o predomínio de aspectos afetivos positivos. A seguir procederemos à análise dos aspectos afetivos da conduta nas atividades lúdicas para que possamos fazer uma comparação das condutas nessas situações e nas situações de tarefas escolares. Quadro 3 – Perfil dos participantes com e sem queixa de dificuldade de aprendizagem nas atividades lúdicas. Pontuação Participantes com DA P PP A Bru (10;10) 4 2 0 Cla (10;3) 6 0 Eli (10;2) 2 Gui (10;8) Pontuação Participantes sem DA P PP A Perfil A Ala (9;11) 6 0 0 Perfil A 0 Perfil A Ali (9;1) 6 0 0 Perfil A 4 0 Perfil B Bla (9;6) 6 0 0 Perfil A 6 0 0 Perfil A Cai (10;1) 6 0 0 Perfil A Jul (9;4) 5 1 0 Perfil A Gab (9;6) 6 0 0 Perfil A Raf (9;3) 4 0 2 Perfil A Mat (9;7) 4 0 2 Perfil A Perfil Perfil Legenda: P – presença da conduta afetiva positiva; PP – presença parcial da conduta afetiva positiva; A – ausência da conduta afetiva positiva. Analisando comparativamente os dois grupos nos dois tipos de atividades, verificamos diferenças nos aspectos afetivos da conduta nas tarefas escolares e nas situações lúdicas. As diferenças entre os participantes com queixa foram mais significativas. Nas tarefas escolares, os participantes desse grupo apresentaram, com maior frequência, aspectos que denotavam ausência de condutas afetivas positivas, sendo que essas características não foram observadas nas atividades que envolviam jogo. Nas atividades escolares pôde ser delineado predominantemente o Perfil C, ao passo que nas atividades lúdicas predominou o Perfil A. No grupo sem queixa de dificuldade houve predominância do Perfil A em ambas as situações (escolares e lúdicas). Passemos agora a apresentar os resultados dos aspectos cognitivos: analisando comparativamente os dois grupos, verificamos que as crianças com queixa de 12 dificuldade de aprendizagem apresentaram índice de operatoriedade inferior ao das crianças sem queixa de dificuldade de aprendizagem. As crianças do primeiro grupo encontram-se em nível de transição em algumas noções avaliadas, podendo dizer que elas estão em transição entre o período pré-operatório e o operatório concreto, enquanto que as crianças do segundo grupo no período operatório concreto. Os Quadro 4 e 5 apresentam as relações entre os perfis e os índices de operatoriedade. Quadro 4 – Aspectos afetivos da conduta em atividades escolares e índice de operatoriedade. Participantes com queixa Perfil Índice de Operatoriedade Participantes sem queixa Perfil Índice de Operatoriedade Bru (10;10) Perfil C 8 Ala (9;11) Perfil A 18 Cla (10;3) Perfil B 14 Ali (9;1) Perfil A 18 Eli (10;2) Perfil C 10 Bla (9;6) Perfil A 18 Gui (10;8) Perfil C 12 Cai (10;1) Perfil A 18 Jul (10;7) Perfil C 13 Gab (9;6) Perfil A 18 Raf (9;3) Perfil C 15 Mat (9;7) Perfil A 18 Quadro 5 – Aspectos afetivos da conduta em atividades lúdicas em sala de aula e índice de operatoriedade. Participantes Com queixa Perfil Índice de Operatoriedade Participantes sem queixa Perfil Índice de Operatoriedade Bru (10;10) Perfil A 8 Ala (9;11) Perfil A 18 Cla (10;3) Perfil A 14 Ali (9;1) Perfil A 18 Eli (10;2) Perfil B 10 Bla (9;6) Perfil A 18 Gui (10;8) Perfil A 12 Cai (10;1) Perfil A 18 Jul (10;7) Perfil A 13 Gab (9;6) Perfil A 18 Raf (9;3) Perfil A 15 Mat (9;7) Perfil A 18 Analisando essas informações verificamos que as relações apresentadas no grupo sem queixa de dificuldade foram: Perfil A com índice de operatoriedade maior. No grupo com queixa as relações foram: Perfil A com menor índice de operatoriedade. Esse resultado se diferencia dos observados nas atividades escolares em que o perfil predominante desse grupo foi o Perfil C que se relacionou com menor índice de operatoriedade. Esse dado nos permite afirmar que as atividades lúdicas mobilizam 13 estados afetivos positivos e uma análise parcial nos permitiria afirmar o contrário, ou seja, ausência de relações entre aspectos afetivos e cognitivos. No entanto, vale destacar as especificidades das atividades lúdicas. Nelas, as crianças jogam de acordo com a estrutura cognitiva que apresenta, sem a preocupação de dar resposta certa ou errada, deixando-as livres para expressar-se afetivamente. Além disso, as crianças podiam trocar de jogos, quando estes não lhes interessavam. Nas atividades escolares isso não é possível: exige resposta certa e não era permitida a livre escolha. Nossos resultados evidenciaram que os participantes sem queixa encontravam-se no nível operatório concreto e sendo assim, são capazes de fazer triunfar o esforço, o dever, a obrigação sobre os desejos imediatos e momentâneos, subordinado-os a uma escala de valor maior que em nosso estudo seria o valor da tarefa escolar. Nossos participantes com queixa, ao contrário, não atingiram a operatoriedade e, nesse caso, a vontade se caracteriza por valores ainda instáveis que não se sustentam em uma escala de valores. Outra análise é também pertinente e não se restringe aos nossos participantes porque em situações de sala de aula, existem escolares que se encontram no nível operatório concreto, mas que não fazem a operação afetiva (vontade). Para que a vontade funcione como regulador de energia é imprescindível que o sujeito construa uma escala de valores atuando em um jogo de forças. Nesse sentido, podemos pensar se a aprendizagem escolar é carregada de valores positivos para muitos alunos. Se o conhecimento não é valor, há ausência de investimento afetivo. Estudo 4- Cooperação entre adolescentes em oficina de jogos Bolsa FAPESP O presente trabalho aborda a cooperação, tendo como foco um momento evolutivo específico - a adolescência. Para isso, recorreu-se como fundamentação teórica e metodológica à Epistemologia Genética (Piaget, 1975/1976) e ao Método Clínico de Jean Piaget (Piaget, 1947/2005; Delval, 2002). Ele se baseia em parte dos resultados da pesquisa de doutorado realizada pela autora (Garcia, 2010), sob orientação do Prof. Lino de Macedo no Instituto de Psicologia da USP, com bolsa da FAPESP. 14 A teoria de Piaget é uma teoria interacionista, isto é, fala de um sujeito que se constitui mediado por constantes trocas com a realidade, e ao interagir com ela, torna-se capaz de conhecer a si mesmo e ao mundo cada vez mais e melhor. Isso nos leva às duas características que o autor atribui à cooperação: um método e um princípio. Ou seja, como observam Montangero e Maurice-Naville (1998, p.123) “pode-se distinguir a cooperação como fato empírico da cooperação ideal que constitui um fato normativo”. Enquanto um método de trabalho (ou um fato empírico), ela favorece concretamente o desenvolvimento da autonomia e do respeito recíproco entre as pessoas, fortalecendo o compromisso com o bem comum. Nessa mesma direção, destaca igualmente o valor do trabalho em grupo para o desenvolvimento não apenas cognitivo, como afetivo e moral, lembrando que, na adolescência, o grupo de pares assume uma importância ainda maior tendo em vista o processo de formação da personalidade. Neste sentido, entendemos que o exercício da cooperação é fundamental para que seja assimilada e valorizada pelas crianças e adolescentes, para que se fortaleçam nos ganhos que ela proporciona, o que configurou o objetivo geral da tese que serviu de inspiração para esta apresentação. Em síntese, as bases para um pensar e agir autônomo, fundamentado no respeito mútuo, em relações de reciprocidade e cooperação, são sedimentadas nessa etapa do desenvolvimento: a adolescência. No âmbito metodológico, a pesquisa fundamentou-se no Método Clínico de Piaget (Piaget, 1947/2005; Delval, 2002). Alguns pontos que desejamos destacar são: o lugar de destaque atribuído ao pesquisador. Sua interação com o sujeito se dá por meio de um. Com base numa observação atenta, flexível e sensível das reações do sujeito, o pesquisador mantém uma reflexão contínua em duas direções: Qual o significado da ação do sujeito? Como ele compreende a realidade? Método A pesquisa que originou este texto teve como objetivo geral promover a cooperação em um grupo de 12 adolescentes de ambos os sexos, de 13 a 15 anos, estudantes de 8° e 9° anos de uma escola pública paulistana. Durante um ano, eles 15 participaram de oficina de jogos do Laboratório de Psicopedagogia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (Torres, 2001; Garcia e Macedo, 2009). Todos os encontros são mediados pelo uso de jogos de regras, que nesta pesquisa foram, por exemplo: Quarto, Imagem & Ação, Can Can e Pingo no ‘i’. Os procedimentos de coleta consistiram de diários escritos e filmagens dos encontros, cujas transcrições foram agrupadas compondo um registro narrativo de todo o processo. Este material foi examinado sob duas perspectivas interdependentes: interações entre os adolescentes e intervenções da pesquisadora. Quanto a essa última que será enfocada nesta apresentação, objetivou a análise dos procedimentos da pesquisadora que visaram à promoção de atitudes favoráveis à cooperação nos adolescentes. Resultados e Discussão O trabalho de análise dos dados na perspectiva destacada baseou-se na classificação de sete atitudes consideradas favoráveis ao desenvolvimento de relações de cooperação: descentração frente às propostas, descentração frente ao outro, respeito às regras dos jogos, respeito ao outro, responsabilidade pela organização do grupo, responsabilidade pelas decisões e espírito lúdico. Cada uma foi ilustrada com vários exemplos extraídos das oficinas, que mostravam reações dos sujeitos e os procedimentos de intervenção feitos pela pesquisadora. Examinando-se esse material, foram identificados dezoito procedimentos (relativos a dezoito verbos) e que foram classificados em três grupos ou níveis, considerando o objetivo em questão. O quadro abaixo expressa essa classificação. Procedimentos de intervenção Acolher Destacar Retomar Apontar Identificar Insistir Objetivos Chamar a atenção do sujeito para que note e perceba sua conduta na situação Romper a indiferenciação 16 Questionar Confrontar Diferenciar Inibir Reprovar Ignorar Valorizar Implicar Incentivar Socializar Brincar Incluir Gerar certa tensão, para que o sujeito reconheça nuances da sua conduta na situação Estimular a diferenciação Mobilizar o sujeito, para que se envolva de modo diferente com a situação ou com os outros Promover integrações Quadro – Síntese dos procedimentos de intervenção. Fonte: Garcia (2010) Examinemos na sequência, alguns exemplos de cada um destes procedimentos: Grupo 1 - acolher, destacar, retomar, apontar, identificar, insistir Observando as ações incluídas neste grupo, verificamos que elas pretendem envolver o sujeito na situação em andamento, quando ele se apresenta numa postura desinteressada ou desmobilizada. A pesquisadora (P) é interrompida várias vezes por Fernando e ela fala para ele esperar um pouco e aproveita para mostrar a situação do grupo: como é difícil eles ouvirem. Pessoal, às vezes para eu falar uma frase, demora 2, 3 minutos, até todos ouvirem… É muito barulho, muita agitação, não? O grupo ouviu em silêncio a explicação e Robson comenta: Pessoal, vamos ficar quieto e ouvir a Heloisa! E o grupo fica um pouco mais calmo. (Trecho Oficina 3) No próximo exemplo, verificamos outros procedimentos deste grupo envolvidos numa situação em que o tema era a reflexão do grupo sobre o compromisso de freqüentar as oficinas e contribuir para um clima de respeito e cooperação. (P) começa a oficina retomando a conversa do final da oficina anterior, que conversaram sobre o excesso de falas, palavrões, tumulto, ninguém não podendo se ouvir: O que vocês pensaram sobre a oficina passada? E hoje, como a gente vai ficar? Júlio lembra que fez muita bagunça na semana anterior. Lia concorda com (P): Tava muita bagunça, mesmo! Daquele jeito, ninguém consegue se ouvir, não? Carlos tira sarro da voz dela. P. aponta isso para ele: Viu, Carlos, como fica difícil falar com você? Você já vai para a gozação… Carlos: Tá bom, Tá bom, eu vou parar. Robson, impaciente com o colega: Vamo ouvir, meu! Fica quieto! (P): Então, vocês acham que dá para ter uma oficina melhor hoje?Júlio: Vamos nessa! Vítor: Vamos, claro! Lia concorda com a cabeça e diz: Daquele jeito, ninguém consegue entender nada no meio da 17 gritaria. A conversa termina e o grupo pede para jogar o Can-Can, como estava na lousa. (Trecho Oficina 9) Grupo 2 - questionar, confrontar, diferenciar, inibir, reprovar, ignorar Os procedimentos que integram esse grupo já partem de uma situação em que há o envolvimento do sujeito, porém falta a ele mais recursos para discriminar, questionar, atribuir valores diversificados à situação. (P) muda de assunto e diz que quer definir o dia do retorno em agosto, Carlos auxilia espontaneamente (P): Mano, vamos fica quieto, vamos calar a boca para ouvir! (P) agradece a ajuda, mas sugere que peça de um jeito, mais educado. Carlos ri, demonstrando que reconheceu o que ela disse. Rafael aponta para a lousa e diz: Está escrito lá a data! (P) continua: Isso, vamos voltar no dia 06 de agosto, no mesmo horário. (Trecho Oficina 10) Grupo 3 - valorizar, implicar, incentivar, socializar, brincar, incluir Os procedimentos deste último grupo entrelaçam-se através do intuito de, mais do que realizar diferenciações, promover integrações entre os diversos aspectos de uma realidade. (P) diz: Bom, pessoal, agora vamos sentar e conversar um pouco. (Estavam agitados, mas de uma forma positiva, pois continuavam envolvidos, comentando o jogo Imagem & Ação). (P): Então, o que vocês acharam: hoje deu para jogar melhor o jogo do que na oficina passada? Carlos e Vítor concordam: Acho que sim. (P): Eu também acho que vocês ficaram mais concentrados e se envolveram mais com o jogo. Vocês ficaram mais ‘dentro do jogo’. Mas, no começo, ainda tinha bastante tumulto, né? E hoje tem menos pessoas, então tem aí um desafio a mais para a próxima oficina, com o grupo maior, não acham? Vítor: É! Amanda: Vai ficar mais confuso, com mais gente falando… Robson: A gente precisa ficar mais ligado! (Trecho Oficina 6) O último trecho mostra uma brincadeira de um dos adolescentes, Vítor, durante a explicação da pesquisadora. Embora inicialmente ele estivesse perturbando, ela brinca com o fato e, com isso, consegue retomar a atividade. (P) chama a atenção para a pauta na lousa, que haverá um terceiro momento de avaliação. Vítor fica tossindo, de propósito, cada vez que ela começa uma frase. (P) pergunta, em tom de brincadeira: Que tosse curiosa, hein? Só aparece quando eu falo! Os colegas riem e Vítor continua, brincando: Han, Han, é mesmo, né? E, depois de tossir mais um pouco, ele pára. (Trecho Oficina 17) 18 Por fim, com base neste material, retomamos a questão: é possível ensinar a cooperação? Entendemos que sim, é possível, porém, não como uma instrução ou transmissão de um conteúdo que será definitivamente aprendido e incorporado pelo indivíduo. É possível e, mais ainda, necessário, uma vez que a cooperação não se constitui como algo inato, pré-determinado nos indivíduos, mas envolve uma construção. Desta forma, neste trabalho, buscamos iluminar a questão sob uma perspectiva complementar, qual seja: como ensinar a cooperação? Esperamos mobilizar, envolver, outros pesquisadores a prosseguir nesta direção, até porque a ciência em si só se expande com base não em um desejo meramente pessoal, embora fundamental, mas em uma relação de cooperação entre os indivíduos. Referências Bibliográficas AMAR, J. ; Abello, R. Denegri, M.C. & Llanos, M. (2008). Estrategias de socialización econômica en padres de familia. Revista del Economia del Caribe. n.1, p.156-181. 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