Formação e Desenvolvimento de Competências Organizacionais: Desvendando Uma Trajetória na Competitividade Empresarial Autoria: Grace Vieira Becker, Roberto Lima Ruas Resumo Sob uma perspectiva longitudinal, pretende-se reconstruir a trajetória de uma empresa fabricante de linhas de montagem através da ótica das competências organizacionais, observando e analisando em qual contexto a competência surge, se desdobra e se expande no ambiente organizacional, desde a fundação da empresa até os dias atuais. O trabalho enfatiza a construção de um conjunto de parâmetros que consiga dimensionar a evolução das competências e verificar seus diferentes níveis de agregação de valor e como influenciam na competitividade empresarial. Dentre as contribuições teóricas destaca-se a articulação das principais referências que fundamentam a lógica da trajetória de formação e desenvolvimento de competências organizacionais, quais sejam: Path Dependence, Cadeia de Valor, Entrega e Complexidade. Dentre as contribuições práticas destacam-se (a) a metodologia para a identificação e mensuração das competências organizacionais, através dos níveis de agregação de valor das competências ao longo do tempo, (b) a metodologia para relacionar a contribuição dos macro-processos nas competências organizacionais e (c) um instrumento para realizar projeções futuras e idealizar níveis de entrega que orientarão ações gerenciais e operacionais. 1 - Introdução Revisitando o referencial teórico para aprofundar a compreensão sobre a incessante busca das organizações pelo aperfeiçoamento, percebe-se atualmente o esforço de estudiosos na tentativa de desvendar como estas empresas alcançam e mantém posições competitivas no mercado. Uma abordagem que vem conquistando espaço, justamente por apontar caminhos que elucidam algumas destas inquietações é a das competências organizacionais. Por ser uma abordagem relativamente recente, voltada à caracterização do ambiente do negócio, percebese ainda uma concentração dos estudos no entendimento do conceito de competência, suas características e importância, e na tentativa de identificá-la e avaliá-la no contexto empresarial (TAMPOE, 1994, JAVIDAN, 1998, KING et al, 2002, MILLS et al, 2002). Tais estudos colaboram com a difusão e a utilização do termo na gestão de empresas, todavia não elucidam o desdobramento e a efetiva operacionalização do conceito. Nesse sentido, a influência da corrente de cunho mais explicativo da Visão Baseada em Recursos, voltada à análise dos recursos internos da firma, apresenta a noção de competências do negócio como o resultado de uma trajetória trilhada pela empresa ao longo do tempo (path dependence), advinda de suas escolhas estratégicas, que se desdobram em um conjunto de rotinas realizadas em função de investimentos prévios em tecnologia, aprendizado e processos organizacionais (TEECE, et al, 1997, NELSON; WINTER, 1982). O conceito sugere o despontar de dois elementos: a preocupação com a natureza e com a evolução do fenômeno no contexto empresarial. Assim, o “como” algumas organizações desenvolvem e renovam suas capacidades específicas passa a ser alvo de pesquisas recentes na área de administração estratégica (TEECE, 1997, MONTEALEGRE, 2002). Sob uma perspectiva longitudinal, enfocando principalmente o processo evolutivo das capacidades de uma empresa, desde sua fundação até os dias atuais, pretende-se observar e analisar em qual contexto a competência surge, se desdobra e se expande no ambiente organizacional. A intenção deste trabalho não é verificar como e quais recursos serão mobilizados, pois acredita-se ser este um aspecto peculiar de cada organização. O que interessa aqui é construir um conjunto de parâmetros que consiga dimensionar a evolução das competências e verificar seus diferentes níveis de agregação de valor e como influenciam na competitividade empresarial. Nesse sentido, o trabalho pretende construir um quadro de referências acerca da trajetória de formação e desenvolvimento de competências organizacionais que permita identificar e analisar os níveis de complexidade destas competências no ambiente de negócios. A abordagem metodológica que conduzirá a pesquisa é de cunho qualitativo, por permitir ao pesquisador uma postura aberta, cuja realidade vai construindo (criando e recriando) durante a execução do próprio estudo, a partir de sua interação com o fenômeno. 2 - Trajetória de Formação e Desenvolvimento de Competências Organizacionais Entender a trajetória de formação e desenvolvimento de competências, sejam elas individuais ou organizacionais, significa desvendar os segredos de um processo de transformação. No mundo dos negócios, ter em mente as características e propriedades da competência organizacional, como se apresenta e se insere na organização, não localiza a empresa em relação ao seu desempenho. Desta forma, torna-se necessário o estabelecimento de parâmetros que indiquem determinadas grandezas para evidenciar esta evolução. Acredita-se, assim, que a construção de “réguas” ou medidas de complexidade consigam dimensionar o quanto as competências agregam de valor à organização ao longo do tempo. Sob esta perspectiva, três referências devem ser examinadas para o estudo da evolução da trajetória de uma competência: (a) path dependence; (b) cadeias de valor, que expressam a articulação dos macro-processos; e (c) níveis de complexidade para a entrega, que exprimem a régua para estabelecer os diferentes níveis de entrega da competência. 2.1 - Path Dependence Uma das grandes contribuições da obra “An Evolutionary Theory of Economic Change”, de Nelson e Winter, no início da década de 80, consiste em utilizar as idéias da biologia, para explicar o comportamento das firmas. Genericamente, o termo “evolutionary” refere-se à preocupação dos autores com os processos de longo prazo e com as mudanças progressivas das organizações. As regularidades observadas na realidade presente são interpretadas não como soluções para um problema estático, mas como resultado do conhecimento acumulado e condições estabelecidas no passado das empresas (NELSON; WINTER, 1982). Delineia-se assim o conceito de path-dependence, ou seja, a noção de que a história ou trajetória de uma empresa ao longo do tempo é que sustenta sua competitividade no momento presente (TEECE et al, 1997). Path dependence, ou dependência de caminho, refere-se aos padrões idiossincráticos de aprendizagem e de investimentos históricos no desenvolvimento da base de recursos e capacidades da empresa. As escolhas e os compromissos fixados e realizados ao longo da trajetória da organização (trade offs) condicionam as decisões presentes, definindo seu comportamento atual (PORTER, 1996). Segundo Lei et al, a dependência do caminho “[...] tende a erguer barreiras de imitação no decorrer do tempo por causa da dificuldade que outras empresas possam ter para recriar a evolução histórica da competência usada para produzir vantagem competitiva” (LEI et al, 2001, p. 178). Neste sentido, Cockburn et al, em estudos realizados na indústria farmacêutica, ressaltam que as histórias das firmas diferem enormemente devido às decisões de investimentos em pesquisa básica nos anos de 40 e 50. Algumas empresas começaram a desenvolver pesquisa enquanto outras se negaram a realiza-las por longos anos. Hoje se sabe que a adoção de pesquisas dirigidas consiste na base da vantagem competitiva de algumas empresas do setor, percebida por sua habilidade de gerarem novos produtos. Estas práticas atualmente estão sendo difundidas por organizações de toda a indústria; entretanto, os autores afirmam que incorporar 2 as melhores práticas, baseadas na experiência dos rivais, somente faz as empresas jogarem a partir das mesmas regras. A corrida pela imitação, pela adoção de pesquisas básicas, não permite às empresas reviverem as circunstâncias históricas dos concorrentes, não diminuindo o seu atraso tecnológico (COCKBURN et al, 2000). 2.2 - Cadeia de Valor: Macro-Processos Segundo Leonard-Barton (1998), o saber acumula-se lentamente ao longo da trajetória da empresa, sendo configurado e canalizado para determinadas rotinas pela ação de centenas de decisões gerenciais cotidianas. Assim, o entendimento das capacidades e a acumulação de recursos passam pela compreensão dos processos organizacionais (AMIT; SCHOEMAKER, 1993, TEECE et al, 1997, GRANT, 1991). Thompson (1967) divide as empresas em três tipos, com base na interdependência das atividades: seqüencial, compartilhada e recíproca. Na seqüencial há interdependência seriada das atividades, lembrando uma linha de montagem. Na compartilhada existe a centralização e destinação das atividades conforme a demanda. Já na recíproca todas as tarefas são interdependentes e realizam-se simultaneamente. Pelo caráter coletivo das competências organizacionais, pressupõe-se a reciprocidade das atividades. Para ilustrar esta reciprocidade entre os processos organizacionais na abordagem das competências, sugere-se a utilização do modelo da cadeia de valor (HITT et al, 1999, BARNEY, 1996, LADO, 1992). O conceito de cadeia de valor foi desenvolvido por McKinsey and Co. e posteriormente adotado como ferramenta para a análise estratégica por Porter, na década de 80 (LADO, 1992). No modelo apresentado por Porter (1989), a cadeia de valor está dividida em duas grandes categorias: as atividades primárias e as atividades de apoio. As atividades primárias referem-se à Logística Interna, Operações, Logística Externa, Marketing/Vendas e Serviço; e as secundárias às atividades de Compras, Desenvolvimento de Tecnologia, Gerência de Recursos Humanos, Infra-Estrutura Organizacional (contabilidade, financeiro, questões jurídicas, etc). Embora as atividades de valor sejam os blocos de construção da vantagem competitiva, a cadeia de valor não é uma coleção de atividades independentes, e sim um sistema de atividades interdependentes, unidas por elos (PORTER, 1989). Tais elos apresentam a função de otimizar e coordenar estas atividades. Assim, o entendimento, tanto das próprias atividades quanto como são ligadas umas às outras, é importante pois resulta em potenciais fontes de vantagem competitiva nas organizações (BARNEY, 1996). Uma análise efetiva da cadeia de valor resulta na identificação de novos caminhos para as atividades agregarem valor para as organizações (HITT et al, 1999). O entendimento da cadeia de valor ressalta a dimensão funcional de competência, por sua vez associada ao exercício das principais funções coletivas das organizações (RUAS, 2005). Segundo o autor, é na dimensão funcional, ou no conjunto de processos organizacionais localizados nas áreas funcionais da empresa, que ocorre o desdobramento das competências do nível corporativo. O caso das empresas japonesas é um exemplo: começaram a ocupar espaços competitivos nos negócios internacionais através de competências distintivas em manufatura e agora tentam ser reconhecidas pelo desenvolvimento de competências em design do produto (BARNEY, 1996). Resgatando algumas noções desenvolvidas sob o arcabouço teórico de competências individuais, constata-se que os eixos de carreira idealizados e explorados por Dutra (2001/2004), para localizar a entrega de um indivíduo no contexto empresarial, assemelhamse à lógica de macro-processos e competências funcionais, destacados por Ruas (2005). 2.3 - Complexidade e Entrega A noção de complexidade adotada neste estudo está vinculada à idéia de diferenciação e de agregação de valor. O conceito de entrega, por sua vez, está associado à efetiva ação do indivíduo no exercício de suas atividades no trabalho. A entrega traduz a real contribuição do profissional no cumprimento de uma determinada competência. Parte-se do pressuposto que, 3 tanto com o olhar sobre o indivíduo quanto sobre a organização, quanto maior for o grau de complexidade de sua entrega, maior será sua capacidade de diferenciar-se e de adicionar valor ao negócio. Com uma visão mais direcionada ao indivíduo, destacam-se os estudos de Elliot Jaques na década de 80. Para o autor, as pessoas desempenham atividades em uma organização dentro de determinados níveis de complexidade. Esta complexidade é função das variáveis envolvidas na execução destas atividades, como por exemplo: “[...] seu número, sua clareza ou ambigüidade, o grau em que mudam e, acima de tudo, a extensão pela qual elas estão nítidas ou confusas.” (JAQUES, 1990, p.13). Para Jaques, as variáveis que definem os níveis de complexidade são representadas por graus de abstração exigidos ao profissional no exercício de suas atividades, os quais podem ser medidos a partir do intervalo de tempo entre a tomada de decisão e a possibilidade de avaliação dos resultados obtidos a partir dela. Os trabalhos de Dutra, entretanto, afirmam que o intervalo de tempo não é suficiente para a compreensão da complexidade; desta forma, propõem a ampliação da dimensão temporal proposta por Jaques, à medida que indicam outros parâmetros, tais como abrangência das decisões, nível de autonomia e de estruturação das atividades, dentre outros, para mensurar os níveis de complexidade da entrega dos profissionais no exercício de seu trabalho. A Figura 1 apresenta as variáveis diferenciadoras de complexidade propostas por Dutra. Estas variáveis diferenciadoras formam um conjunto de referências que devem ser consideradas na definição das entregas que comporão determinada competência. Figura 1 - Variáveis Diferenciadoras que expressam o nível de complexidade das competências individuais Eixo d e D es en volvim ento N ível d e A tuação A brangên cia d e A tuação Escop o d e responsabilidad e N ível d e estrutu raçã o das aitividad es Tratam ento da in form açã o A uton om ia e g rau de sup ervisã o D ecide/ responde A lto nível de autonom ia VI E stratégica V D ecide / Inter nacional responde O rganizaçã o P articipa da decisão N acional V árias unidades de negócio B aixo nível de padronizaçã o, estruturaçã o e rotina P articipa das decisões IV T ática A nalisa e recom e nd a A nalisa e recom e nda U nidade de negócio R egional III Sistem atiza / orga niza Sistem atiza/ orga niza Á rea II C ole ta O peracional L ocal A tividades A lto nível de padronizaçã o, estruturaçã o e rotina C ole ta B aixo nível de autonom ia I Fonte: Dutra (2004), desenhada por Hipólito (2001) Apresenta-se, na Figura 2, um exemplo que ilustra a necessidade de articulação destes três conceitos (complexidade, entrega e competência). Suponha-se que uma competência necessária aos profissionais de venda de uma organização seja orientação para o cliente. O que diferenciaria um vendedor júnior de um vendedor sênior? Ao considerar somente a competência como aspecto diferenciador, ou ainda ao utilizar a competência alinhada somente 4 ao conceito de entrega do indivíduo, a contribuição do profissional ao longo dos níveis apresentaria uma visão distorcida da realidade. A freqüência e/ou a intensidade com que a atividade é realizada não é/são parâmetros para exprimir e mensurar a contribuição do profissional frente àquela competência. Se assim fosse, poder-se-ia afirmar que o vendedor júnior dificilmente seria orientado ao cliente. Figura 2 - Exemplo de competência sem alinhamento e exemplo de competência alinhada à noção de complexidade Frequência/Intensidade da Entrega C O M P E TÊ N C IA : O R IE N T A Ç Ã O P A R A O C LIE NT E V IV N ível 5: É m uito b em orientad o para o cliente. N ível 4: N a m aioria das vezes orienta-s e para o cliente. III N ível 3: H ora orienta-s e, h ora nã o orienta-se para o cliente. II N ível 2: A lgum as vezes orienta-se pa ra o cliente. I N ível 1: N ã o é orientad o para o cliente. C om p etên cia sem alinham ento com o con ceito d e com plexidad e C O M P E TÊ N C IA : T R AB A L H O E M E Q UIPE Níveis de Agregação de Valor V N ível 5: M obiliza esforç os, cla rifica idéias e busca a coesã o d e equip es, considerand o as diferenças culturais e individuais e a interação com os trabalh os d e outras áreas. E xplicita os resultad os pretendid os e suas exp ectativas em relação a atuaçã o d e cada p essoa sob a sua coord enaçã o. IV N ível 4: A rticula-se com p rofissionais resp onsáveis p or outras equip es d e trabalh o visand o obter sin ergia entre suas ações e alcançar os resultad os desejad os pela organizaçã o. III N ível 3: Estab elece contatos intern os visand o a obtençã o das condiçõ es e recu rsos n ecessários ao alcan ce dos resultad os esp erad os sob a sua resp onsabilidade. II I C om p etên cia com alinham ento com o con ceito d e com plexidad e N ível 2: Busca o aprim oram ento das relaçõ es entre as pessoas e equip e d e sua área. N ível 1: Troca in form açõ es em sua área d e atuaçã o. Fonte: Elaborada pela autora com base em Hipólito (2001) Entretanto, a realidade nos mostra que tanto o profissional júnior quanto o sênior estão orientados ao cliente e o que de fato os diferencia são os níveis de complexidade embutidos nas suas entregas. Enquanto o profissional júnior atende a pequenos estabelecimentos comerciais, sua venda é simples, estruturada, com pouco grau de autonomia. Já o vendedor sênior, que vende para grandes estabelecimentos comerciais, lida com variáveis muito mais complexas em relação a volumes, prazos, preços e posição do produto na gôndola, por exemplo. Resgatando a perspectiva organizacional, têm-se os estudos de Figueiredo (2001). O autor, inspirado nas pesquisas de Bell (1995) sobre capacidades tecnológicas, utiliza a noção de complexidade como análise de desenvolvimento de competências organizacionais, ao realizar um profundo estudo sobre a influência de processos de aprendizagem na trajetória de acumulação de capacidades tecnológicas em empresas na fase de industrialização. Para tanto, o autor apresenta uma estrutura onde relaciona cada um dos Níveis de Capacidades Tecnológicas (Básico, Renovado, Extra-Básico, Pré-Intermediário, Intermediário, Intermediário Superior e Avançado) com suas respectivas Funções Tecnológicas (Tomada de Decisão e Controle, Preparação e Implementação de Projetos, Processo e Organização da Produção, Produtos e Equipamentos). A descrição de cada nível de Capacidade Tecnológica 5 apresentada por Figueiredo indica um aumento de complexidade da competência organizacional nas empresas investigadas. Com base nas considerações acima, pode-se afirmar que a competência, uma vez explicitada na entrega, traduz uma determinada certificação. É alinhada ao conceito de complexidade que consegue explicar a trajetória de desenvolvimento da empresa e sua real contribuição ao negócio. As organizações competem no mercado por complexidade, ou seja, pelo nível de agregação de valor de suas competências organizacionais. Desta forma, entende-se que sua noção ajude a esclarecer, por exemplo, como empresas com a mesma competência apresentam diferentes níveis de desempenho e atuação frente ao mercado. A intenção com este estudo é identificar os elementos ou parâmetros que irão compor esta escala de complexidade ao longo do tempo. 3 - Metodologia de Estudo Para examinar o “como” ocorreu a trajetória de formação e desenvolvimento de competências organizacionais na empresa, utilizou-se o método de estudo de caso. O estágio inicial das investigações e pesquisas sobre o tema, orienta o estudo para o método do tipo exploratório. A estratégia de pesquisa repousa sobre a abordagem qualitativa, enfatizando-se a descrição e explanação de uma seqüência temporal de eventos. Desta forma, o estudo sugere uma investigação de cunho longitudinal, a qual explica a mudança organizacional ao longo do tempo (VAN DE VEN; HUBER, 1990). A investigação longitudinal refere-se a uma perspectiva temporal que requer uma análise através da especificação de eventos e definição de padrões entre eles. Segundo Van de Ven e Poole (1995), a maneira mais comumente encontrada na literatura é a seqüência linear, na forma de fases ou períodos. Sob esta perspectiva, a análise do desenvolvimento de competências é estruturada a partir de três momentos históricos da organização: Primeiro Momento (1986-1992), Segundo (1993-2000) e Terceiro (2001-2003). Para reconstituir esta trajetória, foi necessária a coleta de evidências a respeito dos macroprocessos sob a qual a empresa estrutura seus processos e atividades, bem como das competências organizacionais que definem a competitividade da organização. Validando-se das sugestões de Eisenhardt (1989), essas evidências foram obtidas através de múltiplas fontes: entrevistas com diretores, gerentes e supervisores (mais de 100 horas de entrevistas), reuniões, análise de documentação e observação direta. O estudo desenvolve-se em quatro fases. Na fase Introdutória, o pesquisador se debruça sobre o entendimento das peculiaridades de uma empresa que produz sob encomenda. Na fase Intermediária são identificados os macro-processos e competências organizacionais da empresa. Na fase Intermediária-Avançada, definem-se as variáveis diferenciadoras para a complexidade dos macro-processos e das competências organizacionais. Por fim, na fase Avançada são inseridas estas variáveis nas características da empresa, levantando-se a trajetória de formação e desenvolvimento de competências, tendo em vista as “réguas” ou parâmetros de complexidade definidos na fase anterior. Ressalta-se que, devido principalmente a limitações de formatação e configuração do presente trabalho, optou-se por apresentar o desdobramento de apenas uma competência, ao invés das cinco identificadas. 4 – Trajetória de Formação e Desenvolvimento de Competências na Empresa de Linhas de Montagem A empresa analisada, tem como foco de atividade a criação, projeto e desenvolvimento de linhas de montagem customizadas às necessidades dos clientes para a produção e testes de componentes para a indústria de autopeças do setor automotivo mundial. É uma empresa de capital nacional e está localizada no estado do Rio Grande do Sul. Concentra seus esforços numa estratégia competitiva que abrange três vetores: focalização no mercado 6 automobilístico, produzindo linhas de montagem e teste; velocidade no atendimento ao cliente, desde o prazo de entrega até a assistência técnica pós-venda; confiabilidade em termos da qualidade de produtos e prazos de entrega, atingindo um grau de credibilidade junto ao cliente que justifique seu desejo de realizar novos negócios com a empresa. 4.1 Fase Introdutória do Estudo Esta fase caracterizou-se por uma investigação das peculiaridades de uma empresa de manufatura que produz sob encomenda. Inicia-se assim um amplo estudo sobre a perspectiva da manufatura e a tipologia de empresas no contexto da manufatura estratégica. Também concentra esforços no entendimento das características competitivas do negócio e levanta informações sobre o setor automobilístico e suas principais estratégias. Esta investigação proporciona ao pesquisador um conjunto de reflexões mais aprofundadas sobre competências organizacionais dentro do cenário de empresas de manufatura que trabalham sob encomenda de máquinas especiais, pertencentes à cadeia da indústria automobilística. A partir do estudo do contexto competitivo percebe-se que, embora ainda haja uma diferença de relacionamento comparando-se as montadoras e os fornecedores de primeiro nível, com os fornecedores de primeiro nível e de segundo nível, é cada vez mais intensa a reprodução da forma de conduzir os negócios por todo este segmento da indústria. Constata-se que as tendências ditadas pelas montadoras são apropriadas por todos os níveis da cadeia de fornecimento da indústria, formando uma cultura própria do setor automobilístico. Os critérios de definição dos fornecedores eleitos estão cada vez mais voltados às competências tecnológicas e de qualidade de produtos e serviços, onde a capacidade financeira para suportar estas exigências afeta a competitividade das empresas de países em desenvolvimento (Ferraz, 1997). 4.2 - Fase Intermediária do Estudo 4.2.1 - Identificação dos Macro-Processos A identificação dos macro-processos deu-se a partir da triangulação das informações dos (a) dados primários (observação, entrevistas informais e em profundidade com os funcionários); (b) dados secundários (análise de relatórios e trabalhos acadêmicos, análise do fluxo de pedidos e elementos da revisão da literatura sobre empresas de manufatura); (c) dados primários externos (entrevista com consultor da empresa). Os macro-processos identificados foram os seguintes: Macro-Processo Vendas O macro-processo de Vendas é composto de dois processos: Vendas e Engenharia de Aplicações. Vendas: Explorar e prospectar o mercado, visitar e captar o cliente, trazer o pedido para empresa, levantar as informações técnicas do produto, estimar as condições do negócio (prazo, custo, capacidade de investimento do cliente), negociar prazos e condições de pagamento. Engenharia de Aplicações: Estudar soluções para os clientes, apoiar Vendas no desenvolvimento das ofertas, transformar a especificação técnica do cliente em uma solução, realizar a concepção, o conceito da linha de montagem, elaborar a proposta técnica comercial. Nesta proposta são detalhados e descritos aspectos tais como: n. de postos que comporão a linha de montagem, materiais, equipamentos de cada posto, suas atividades e funções, etc. Realizado o memorial descritivo da máquina, é especificado o orçamento, onde é atribuído um valor de venda à solução. Macro-Processo Engenharia/Projetos O macro-processo de Engenharia/Projetos é composto das diferentes especializações das Engenharias: Engenharia Elétrica, Pneumática, Hidráulica, Lay-out, Mecânica, Software CLP e Software Avançado. As atividades referentes a este macro-processo são: transformar a proposta técnica (uma idéia, um conceito de máquina, um conjunto de procedimentos) em 7 projetos de engenharia e softwares que atendam àqueles conjuntos de procedimentos exigidos pelos clientes; pesquisar novos materiais e novas soluções; prospectar fornecedores; definir fornecedores habilitados (desenvolvimento técnico dos fornecedores); fornecer suporte técnico à Engenharia de Aplicações no momento de elaboração da proposta técnica que será entregue ao cliente. Macro-Processo Compras O macro-processo de Compras é composto de dois processos: Compras Nacionais e Comércio Exterior. As atividades referentes a este macro-processo são: realizar cotações; avaliar as ofertas dos fornecedores (custo, prazo, condições de pagamento e logística dos materiais); definir e designar fornecedores dentre aqueles definidos pelas Engenharias (desenvolvimento comercial dos fornecedores); emitir pedido de compras. Macro-Processo Operações O macro-processo de Operações é composto de três processos: Logística, Montagem, Entrega. Logística: Follow up dos materiais; receber e conferir insumos; medir todas as peças usinadas pelos fornecedores (Metrologia); estabelecer Plano de Geometria; distribuir, organizar, armazenar e controlar materiais. Montagem e Entrega: montar, desmontar e embalar a linha; acompanhar o transporte do equipamento; remontar e testar a linha no cliente. 4.2.2 - Identificação das Competências Organizacionais De posse dos dados primários internos (observação, entrevistas informais e entrevistas em profundidade com funcionários e diretores), dados primários externos (entrevistas de quatro grandes clientes e consultor externo) e dos dados secundários (revisão bibliográfica, análise de documentos e análise de trabalhos acadêmicos), identificam-se as cinco competências organizacionais da empresa, conforme apresentado a seguir. O processo de identificação de competências obedeceu a várias etapas e a critérios pré-estabelecidos de pesquisa e análise. Entretanto, por não ser o foco deste estudo, optou-se pelo não detalhamento do mesmo. Confiabilidade do Produto É a capacidade da empresa fornecer um produto em conformidade com o projeto original, ou seja, dentro dos padrões pré-estabelecidos entre a empresa e o cliente. Confiabilidade da Marca ou Confiabilidade da Empresa É a capacidade da empresa de estabelecer junto ao cliente uma imagem de credibilidade intrínseca, fazendo com que o cliente prefira comprar dela um produto que é similar ao da concorrência. Esta competência é muito peculiar às empresas que produzem sob encomenda pois, em princípio, vendem uma idéia, uma expectativa de realização. Velocidade e Flexibilidade de Entrega É a capacidade da empresa de terminar o equipamento e entregá-lo no prazo estabelecido, ainda que este prazo seja alterado antes da entrega do equipamento. Assim, a empresa deverá ser flexível para entregar a linha de montagem conforme a nova necessidade do cliente. Flexibilidade do Produto É a capacidade da empresa realizar alterações no produto durante sua fase de concepção e/ou montagem. Inovação É capacidade de aprender, incorporar e aplicar novos conhecimentos, idéias ou métodos no produto, que gerem potencial contribuição à competitividade do cliente seja em custo, qualidade, produtividade, etc. Embora as competências e os macro-processos possam ser estudados independentemente uns dos outros, percebe-se que estão intimamente relacionados. O entendimento da evolução da empresa sob a ótica das competências organizacionais passa necessariamente pela compreensão dos processos da empresa (identificados nas áreas funcionais), uma vez que as capacidades são formadas por um conjunto de rotinas ou processos organizacionais (GRANT, 1991; NELSON; WINTER, 1982; JAVIDAN, 1998; STALK, et al, 1992). Assim, pode-se 8 afirmar que uma empresa não se estrutura por competências e sim por processos. Entretanto, o processo por si só não dá nenhuma resposta, ou entrega ao mercado, quem dá esta resposta é a competência; ou seja, a empresa se estrutura por processos, mas age (exercita suas capacidades) e é avaliada pela competência. 4.3 Fase Intermediária- Avançada do Estudo Na fase Intermediária-Avançada, definem-se as variáveis diferenciadoras para a complexidade dos macro-processos e as variáveis diferenciadoras para a complexidade das competências. 4.3.1 - Parâmetros de Complexidade dos Macro-Processos Tendo em mente os quatro macro-processos da empresa, Vendas, Engenharia/Projeto, Compras e Operações, a próxima etapa consiste em construir “réguas” para verificar a complexidade de cada um deles. Nas entrevistas com representantes de cada macro-processo, verifica-se que os parâmetros que influenciam a complexidade de Vendas, por exemplo, são os mesmos que afetam a complexidade nos demais macro-processos. A análise das entrevistas em profundidade permitiu o arranjo das informações em torno de cinco perspectivas. Cada perspectiva foi desmembrada nos parâmetros de complexidade dos macro-processos: Quadro 1 – Perspectivas e Parâmetros de Complexidade dos Macro-Processos porte da empresa (pequeno, médio, grande), n. de clientes, localização do cliente (regional, nacional e internacional), poder de barganha (poder de negociação com o cliente, tais como condições de pagamento, preço, prazo de entrega) e impacto da utilização do produto (grau de contribuição da máquina ou linha de montagem, produzido pela empresa, no sistema de produção do cliente); n. de fornecedores para cada linha de montagem, n. de itens (n. de componentes para cada linha Perspectiva Fornecedores de montagem), localização dos fornecedores (regional, nacional e internacional), poder de barganha (poder de negociação dos fornecedores quanto a condições de pagamento e preço), qualidade dos serviços (atendimento às especificações solicitadas) e qualidade dos insumos fornecidos precisão (nível de precisão exigido pelo cliente em cada um dos postos de trabalho que Perspectiva compõem a linha de montagem), número de itens de medição (número de operações de medição Tecnologia em cada um dos postos de trabalho que compõem a linha de montagem), grau de automação do Produto (grau de automação da linha de montagem, ou seja, quantidade e robustez de hardware e software que comandam as operações da linha de montagem), número de modelos (número de modelos diferentes de produtos produzidos numa mesma linha de montagem), tempo de ciclo (tempo de produção de cada modelo de produto fabricado pela linha de montagem) e número de postos (número de postos de trabalho que compõem cada linha de montagem). tamanho das instalações da empresa (pequeno, médio, grande), localização (regional, nacional e Perspectiva internacional) Instalações estrutura tecnológica (número de servidores, qualidade dos softwares, robustez dos Perspectiva equipamentos, soluções tecnológicas para a transmissão de dados e comunicação entre as Recursos unidades da empresa), conhecimento (conhecimento acumulado pelos profissionais da empresa ao longo de sua trajetória na empresa), número de funcionários (número de profissionais da empresa). Perspectiva Clientes A constatação de que os parâmetros para analisar a complexidade são os mesmos, diferenciando-se apenas a forma com que influenciam os diferentes macro-processos, permite a seguinte conclusão: eles indicam um comportamento padrão, ou simplesmente a maneira como a empresa se organiza ao longo do tempo. Logo, a “régua” estabelecida para os macroprocessos passa a dar origem às chamadas Variáveis Diferenciadoras para a Complexidade dos Macro-Processos. Estas variáveis formam um conjunto de referências relacionadas à evolução histórica da empresa ao longo de sua existência, as quais devem ser consideradas na definição das entregas que comporão determinada competência. Elas não podem ser confundidas com a complexidade da própria competência, porque oferecem apenas uma 9 noção de aspectos de contexto, não especificamente de agregação de valor das competências organizacionais. O trabalho de Post (1997), por exemplo, um dos poucos estudos dedicados ao entendimento do processo de construção de competências organizacionais identificados na literatura, peca ao confundir a evolução histórica de como a empresa se organizou ao longo do tempo com a evolução de suas capacidades. Aqui, argumenta-se que estes dois aspectos caminham juntos, são interdependentes, mas apresentam origens e análises diferenciadas. A explicitação de duas réguas, uma referente ao histórico por si só e a outra às competências, consiste numa forma de ressaltar que as capacidades são contextualizáveis, ou seja, sua verdadeira compreensão somente é possível se associada às mudanças históricas da organização. 4.3.2 - Parâmetro de Complexidade das Competências Organizacionais Tendo como referência as cinco competências organizacionais, o próximo passo refere-se à identificação de seus parâmetros de complexidade. Os parâmetros são identificados, basicamente, a partir de duas fontes de dados: (a) as entrevistas em profundidade realizadas com funcionários e diretores e (b) as referências bibliográficas. As análises das entrevistas dão origem a um primeiro apanhado dos parâmetros. A análise da bibliografia, baseada em Slack (2002) e Paiva et al (2004), sobre empresas de manufatura, e Leonard-Barton (1998), Figueiredo (2001) e Garvin, (1998), deram origem ao segundo apanhado dos parâmetros. Por fim, consolidando-se os dois apanhados, obtém-se a configuração final dos parâmetros referentes à complexidade das competências organizacionais da empresa. A definição destes parâmetros serviu de principal referência na condução das entrevistas em profundidade realizadas com o objetivo de resgatar a trajetória de formação e desenvolvimento de competências organizacionais da empresa. Cabe ressaltar que as perguntas relacionadas a cada parâmetro seguiram uma perspectiva temporal, respeitando os três períodos históricos da empresa. Referindo-se a uma perspectiva temporal, os entrevistados foram constantemente desafiados a acionarem suas memórias, relembrando experiências e incidentes críticos que ilustraram sua caminhada em conjunto com a da empresa. Confiabilidade de Produto: desempenho do produto, qualidade na estética e acabamento do produto, número de ítens de segurança, preocupação com ergonomia, qualidade dos serviços pós venda, detalhamento da documentação técnica. Confiabilidade da Empresa: condições do ambiente físico, canais de comunicação e relacionamento com clientes, canais de relacionamento com a comunidade, canais de comunicação com a mídia, confiabilidade de entrega, confiabilidade no fluxo de informações. Velocidade/Flexibilidade de Entrega: grau de padronização e modularização, grau de integração e conectividade, detalhamento da documentação técnica, fluxo de informações, número de fases de verificação, grau de similaridade das funções, quantidade de retrabalho. Flexibilidade do Produto: flexibilidade dos fornecedores, flexibilidade dos funcionários, grau de autonomia de decisão, cultura plano B, grau de adequação da capacidade. Inovação: aquisição do conhecimento, socialização do conhecimento e codificação do conhecimento. 4.4 Fase Avançada do estudo Identificadas as variáveis diferenciadoras dos macro-processos e das competências inicia-se uma nova fase do trabalho: a reconstrução da trajetória de formação e desenvolvimento de competências da empresa. Novamente destaca-se que, devido a extensão do trabalho que deu origem ao presente estudo, optou-se por (a) desdobrar apenas a análise referente a uma competência; (b) apresentar uma análise resumida de cada uma das fases que compõe o estudo da trajetória de formação e desenvolvimento de competências organizacionais da empresa. Acredita-se que estas decisões não prejudicarão o entendimento da metodologia de construção desta trajetória, que consiste no principal objetivo do trabalho. 10 Quadro 2 - Resumo das Fases da Empresa em relação às Variáveis Diferenciadoras para a Complexidade dos Macro-Processos Variáveis Diferenc. para a Complexidade Perspectiva Clientes Primeiro Momento Histórico da Empresa (1986-1992) Clientes locais de pequeno e médio porte; Poucos clientes; Baixo poder de barganha; Baixos valores negociados; Baixo impacto das máquinas produzidas pela empresa nos sistemas de produção do cliente; Alta diversificação dos setores de atuação; Decisão de compra pelos clientes baseado na influência e rede de contato dos diretores. Poucos fornecedores; Baixo número de itens; Fornecedores locais de insumos Perspectiva industrializados; Baixo poder de barganha. Fornecedores Perspectiva Tecnologia Baixo grau de tecnologia agregada às máquinas; Baixo grau de automação com a utilização de relés; Processo de mecânica e metalurgia do equipamento, onde o trabalho é do Produto rotineiro e não exige profissionais qualificados. Perspectiva Instalações Instalações precárias (de um começo em 1986 com 30m² para 600m² em 1993); Uma unidade de pequeno porte em Porto Alegre. Perspectiva Recursos Metalúrgica de bairro; 12 funcionários; Mão-de-obra desqualificada e de baixo nível cultural e econômico. Variáveis Diferenc. para a Complexidade Perspectiva Clientes Segundo Momento Histórico da Empresa (1993-2000) Clientes locais e nacionais (entrada no mercado paulista); Clientes de médio e grande porte (começa a penetrar no mercado de grandes corporações multinacionais pertencentes ao segundo nível da cadeia do setor automobilístico); Aumento no número de clientes (cerca de 30); Em meados dos anos 90, ainda apresenta baixo poder de barganha nas negociações, principalmente pelo predomínio de conhecimento técnico pelo cliente. No final da década, com maior qualificação dos profissionais e com maior tecnologia agregada ao produto, aumenta o poder de barganha; Foco no setor automobilístico; Maior influência dos equipamentos produzidos pela empresa na competitividade do cliente. Aumento no volume de compras; Fornecedores locais e internacionais (comércio Perspectiva exterior); Maior conhecimento sobre o perfil do fornecedor; Aumento no poder de Fornecedores barganha em relação a preços e prazos; Preocupação com a qualidade dos fornecedores de peças usinadas e com a elaboração de projetos mecânicos. Perspectiva Tecnologia Aumento do grau de tecnologia agregada às maquinas (exemplos: utilização de software avançado, micro-computadores e supervisório); Aumento no número de máquinas com do Produto alto grau de automação, precisão e com grande número de itens de medição; Exigência de máquinas com baixo tempo de ciclo; Introdução do primeiro robô nas máquinas produzidas. Perspectiva Instalações Aumento das instalações (de 600m² em 1993 para 2500m² em 2000); Unidade em Porto Alegre se modernizando. Perspectiva Recursos Exigência de profissional qualificado, com visão de engenharia; Transformação do perfil da mão-de-obra; Definição dos papéis e responsabilidades; Início da especialização dos profissionais; Predomínio das soluções eletrônicas em detrimento das meramente mecânicas; Estrutura tecnológica: investimentos crescentes em hardware e softwares (PERT-CPM, Ms Project, Programa Auto-cad, Internet, SCAD); De 17 funcionários no final de 1999 passaram a 60 no final de 2000. 11 Variáveis Diferenc. para a Complexidade Macro-Processo Perspectiva Clientes Terceiro Momento Histórico da Empresa (2001-2003) Clientes locais, nacionais e internacionais (entrada no mercado americano); Foco em clientes de médio e grande porte; Aumento no número de clientes (cerca de 50). Alto poder de barganha; Grande influência dos produtos da empresa na competitividade do cliente. Grande aumento no volume de compras; Fornecedores locais e internacionais; Aumento Perspectiva no volume de compras; Maior interação com fornecedores; Maior número de Fornecedores fornecedores homologados; Grande poder de barganha em relação a preços e prazos; Maior exigência com qualidade e prazos de entrega dos fornecedores; Diminuição do grau de dependência com fornecedores (principalmente quanto à elaboração de projetos mecânicos). Perspectiva Tecnologia Alto grau de tecnologia agregada às maquinas (alto grau de automação, precisão, número de modelos); Novas soluções e diferentes conceitos de máquinas (acesso remoto). do Produto Perspectiva Instalações Aumento das instalações (de 2.500m² em 2000 para 4.000m²); Duas Unidades em Porto Alegre e abertura da Musa nos EUA Perspectiva Recursos Investimento em Tecnologia da Informação, Internet de alta velocidade e Telefonia IP, VPN custo zero na comunicação entre as três Unidades; Mais de cem computadores; Oito servidores; Investimentos em softwares operacionais e de gestão (Auto Desk Inventor (3D), Integrador, ERP Logix, E-Plan); Transformação do perfil da mão-de-obra: exigência de profissional altamente qualificado (graduação e pós-graduação), aumento da especialização dos profissionais, valorização da mecatrônica; A diversidade de exigências e porte de clientes (nacionais e internacionais) aumenta os desafios tecnológicos e estimula o crescimento da base de conhecimento dos profissionais; O número de funcionários passou de sessenta no ano de 2000 para cento e trinta e cinco no final de 2003. Quadro 3 - Resumo das Fases da Empresa em relação às Variáveis Diferenciadoras para a Complexidade das Competências Organizacionais para a Confiabilidade do Produto Variáveis Diferenc. para a Complexidade Competência Confiabilidade do Produto Variáveis Diferenc. para a Complexidade Confiabilidade do Produto Primeiro Momento Histórico da Empresa (1986-1992) ESTRATÉGIA: Sem estratégia e foco de atuação definidos. Decisão de projetar e produzir máquinas especiais sob encomenda. Baixa confiabilidade; Pequeno impacto das máquinas produzidas pela empresa no sistema de produção do cliente. Segundo Momento Histórico da Empresa (1993-2000) ESTRATÉGIA: Focalização no mercado automobilístico produzindo linhas de montagem e teste, velocidade no atendimento ao cliente e confiabilidade em termos de qualidade de produtos e prazos de entrega. Maior confiabilidade do produto (especialização da mão-de-obra, investimento em software e hardware, etc); Salto de qualidade nos produtos (materiais, maior tecnologia agregada, soluções eletrônicas, qualificação dos funcionários, etc); entretanto, o aumento de complexidade das máquinas vem afetando o retrabalho, a manutenção e a própria qualidade das máquinas; Acabamento e Estética: Estrutura das Máquinas em Metalon proporcionam um melhor acabamento nas máquinas. Maior preocupação com a parte funcional das máquinas; Itens de Segurança e Ergonomia dependentes das especificações do cliente; Prontidão nos serviços pós-venda, manutenção corretiva; Maior precisão dos orçamentos (devido à focalização no setor automobilístico e início da especialização dos funcionários). 12 Variáveis Diferenciadoras Específicas para a Complexidade Confiabilidade do Produto Terceiro Momento Histórico da Empresa (2001-2003) ESTRATÉGIA: Focalização no mercado automobilístico, produzindo linhas de montagem e teste, velocidade no atendimento ao cliente e confiabilidade em termos de qualidade de produtos e prazos de entrega. Diretrizes: Padronização/Modularização e Globalização/Internacionalização. Maior confiabilidade do produto (especialização da mão-de-obra, investimento em software e hardware, etc.); Salto de qualidade nos produtos (aporte tecnológico). Metrologia, Rasquete; Separação dos setores de Vendas e Engenharia de Aplicações; Definição de critérios de aprovação dos clientes; Maior clareza sobre os critérios de instalação dos equipamentos de segurança; Designa-se uma equipe responsável pela parte de ergonomia, permitindo uma conduta pró-ativa da empresa; Aplicação dos critérios de segurança na fase de elaboração do projeto; Desejo de tornar a estética um diferencial nas máquinas; Máquinas mais “clean”, com acabamento especial de tonalidade mais clara; Rapidez nos serviços pós-venda; Necessidade de criar uma equipe fixa para assistência técnica, localizada mais próxima dos clientes; Começam a pensar em manutenção preventiva; Detalhamento da documentação técnica para o cliente; Maior precisão das propostas técnicas (especialização da Engenharia de Aplicações); Fases de Verificação (“posta em marcha”, check list, ponto-a-ponto). 5 - Conclusões Existem várias maneiras de se retratar o desenvolvimento de uma organização ao longo do tempo. A lente utilizada para observar a realidade da Empresa fabricante de Linhas de Montagem consistiu na abordagem das competências organizacionais. Dentre as contribuições teóricas do trabalho pode-se afirmar que a competência, uma vez explicitada na entrega, traduz uma determinada certificação. É somente alinhada à idéia de complexidade que permite a identificação dos vários níveis de agregação de valor e sua real contribuição à competitividade da empresa ao longo do tempo, evidenciando assim a evolução do negócio, conforme apresentado na Figura 3. Se olharmos somente sobre recursos e capacidades no momento presente, pode-se correr o risco de realizar análises e inferências incorretas sobre por que algumas firmas apresentam maiores vantagens competitivas que outras. Dentre as contribuições metodológicas, ressalta-se a estratégia de pesquisa adotada para estudar como o fenômeno das competências organizacionais se forma e se desenvolve ao longo do tempo. Para tanto, utilizou-se uma perspectiva longitudinal, onde a comparação se deu no nível das diferentes fases da empresa. Além disso, o pesquisador estabelece um conjunto de critérios científicos que, alinhados à questão de pesquisa, possibilitaram a ampliação das lentes sobre a realidade empresarial, principalmente pela adoção de princípios para aumentar a confiabilidade no processo de coleta e análise de dados. Estudar a “caixa preta” exige instrumentos metodológicos bastante refinados. O desenvolvimento de ferramentas para a análise ambiental sob uma perspectiva temporal é muito mais sofisticado do que avaliar simplesmente o momento presente de uma organização. O resgate de uma trajetória requer instrumentos de análise e coleta de dados mais apurados, pois exige que elementos muitas vezes esquecidos e que fazem parte de uma memória distante dos entrevistados venha à tona. Tal situação implica o pesquisador ter que contar com uma disponibilidade adicional dos entrevistados, pois cada pergunta abre-se no mínimo em outras tantas quantas forem os períodos definidos para o levantamento histórico. 13 Figura 3 – Relação entre os Macro-Processos e as Competências Organizacionais 14 Contribuições práticas referem-se àquelas soluções elaboradas no presente trabalho, que podem ser apropriadas por organizações, servindo como instrumento de gestão. Destacam-se nesse sentido: (a) metodologia para a identificação e mensuração das competências organizacionais, através dos níveis de agregação de valor das competências ao longo do tempo; (b) metodologia para relacionar a contribuição dos macro-processos nas competências organizacionais; (c) instrumento para realizar projeções futuras e idealizar níveis de entrega que orientarão ações gerenciais e operacionais. Por apresentar o “como” uma empresa aprendeu, construiu e modificou sua história, serve como parâmetro para outras organizações visualizarem conseqüências de ações tomadas e seus impactos no desempenho global do negócio. O presente trabalho, através do caso em questão, testa a aplicabilidade e efetividade do conceito de competências para explicar o desenvolvimento organizacional. Os resultados apontam que a abordagem se mostra adequada, permitindo o entendimento dos níveis de agregação de valor da competência ao longo do tempo e como afetam a competitividade da empresa. As organizações criam sua própria maneira de desenvolver competências. Esta peculiaridade é que vai dificultar a transferência, venda ou imitação de competências de uma empresa para outra. 6 – Bibliografia AMIT, R. SCHOEMAKER, P. J. H. (1993) Strategic Assets and Organizational Rent. Strategic Management Journal, 14: 33-46. BARNEY, J. B. (1996) Gaining and Sustaining Competitive Advantage. 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