RESUMO Capacitação de alfabetizadores FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA NA ALFABETIZAÇÃO SOLIDÁRIA: UMA VIVÊNCIA EMANCIPATÓRIA Lorita Maria de Oliveira – Universidade de Passo Fundo – RS – [email protected] Maria Helena Weschenfelder – Universidade de Passo Fundo – RS – [email protected] Maria Terezinha Fortes Braz – Universidade de Passo Fundo – RS – [email protected] José Jackson Reis dos Santos – Universidade de Passo Fundo – RS – [email protected] Introdução Neste texto, analisa-se o processo teórico-metodológico vivido no contexto da formação continuada de educadores/as dos municípios de Euclides da Cunha, Ribeira do Pombal e Tucano, norte do estado da Bahia, com os quais a Universidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul, desde o ano de 1998, mantém colaboração no trabalho político-pedagógico da Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas, a partir do Programa Alfabetização Solidária. Metodologia A análise realizada inscreve-se no campo da formação de educadores e pretende compreender o processo teórico-metodológico vivido no cotidiano da experiência pedagógica dos municípios baianos, buscando respaldo em autores que discutem a metodologia dialética como uma das possibilidades na elaboração do conhecimento. A experiência profissional nos municípios, aliada aos elementos metodológicos utilizados nesta pesquisa (fragmentos de histórias de vida e memórias) também contribui para a análise pretendida. O enfoque de análise dos documentos e da própria experiência desenvolvida apóia-se na perspectiva dialéticohermenêutica. Resultados Os resultados da experiência pedagógica investigada revelam a possibilidade de ressignificar, de qualificar continuamente práticas pedagógicas à medida que é garantido um processo teórico-metodológico rigoroso, sério, vivenciado enquanto práxis pedagógica. Conclusões Verifica-se, ainda, que transformar, ressignificar práticas pedagógicas pressupõe, sobretudo, assegurar condições materiais de trabalho para os sujeitos envolvidos, o que exige a implementação de políticas de formação continuada no interior das escolas como condição fundamental para a melhoria da qualidade no processo educacional, bem como para a construção de consciências críticas, emancipatórias, desalienantes. FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA NA ALFABETIZAÇÃO SOLIDÁRIA: UMA VIVÊNCIA EMANCIPATÓRIA Lorita Maria de Oliveira – Universidade de Passo Fundo Maria Helena Weschenfelder – Universidade de Passo Fundo Maria Terezinha Fortes Braz – Universidade de Passo Fundo José Jackson Reis dos Santos – Universidade de Passo Fundo 1 Localizando o percurso Desde o ano de 1998, a Universidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul, mantém trabalhos de colaboração na área de Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas (Epjai) com os municípios de Euclides da Cunha, Ribeira do Pombal e Tucano, localizados no norte do estado da Bahia, a partir do Programa Alfabetização Solidária. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística1, em 1996, Euclides da Cunha, Ribeira do Pombal e Tucano possuíam uma média de 50% de pessoas analfabetas, considerando-se a população na faixa etária de 15 a 19 anos. A necessidade de contribuir na diminuição dos índices de analfabetismo levou a universidade a envolver-se nos contextos educacionais da rede municipal das três cidades. Consciente do seu papel socioeducacional, a participação da universidade nos municípios possibilitou a reorganização do processo político-pedagógico, através da construção e implementação do Projeto Político-Pedagógico “Nos Coletivos, o Reencontro com a Pedagogia da Esperança”2, abarcando tanto a educação infantil quanto a educação fundamental (anos iniciais e finais). Como não acreditávamos que uma campanha3 de alfabetização asseguraria processos de escolarização para pessoas jovens, adultas e idosas, iniciamos, em 1999, um trabalho político1 Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-2000), a população total dos três municípios é de 53.885 (Euclides da Cunha), 46.270 (Ribeira do Pombal) e 50.948 (Tucano) habitantes. Dados do IBGE (2000) revelam, ainda, altos índices de analfabetismo nos três municípios: 33,6%, 30,3% e 35,8%, respectivamente, considerando-se a população acima de 10 anos de idade. 2 O Projeto Político-Pedagógico: “Nos Coletivos o Reencontro com a Pedagogia da Esperança” está vinculado ao Centro Regional de Educação (CRE) da Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF). Este projeto desenvolve-se em municípios da região de abrangência e de atuação da UPF. Os princípios que dão sustentação ao projeto são: o processo, a participação, o partir da prática, o exercício do poder-serviço, a opção ética e a natureza da instituição sobre a qual se faz a proposta. Três objetivos estão presentes neste projeto, a saber: a) promover pela ação-reflexão-ação do processo pedagógico em desenvolvimento, no contexto dos municípios e da universidade, a formação continuada do professor de modo a que todos e cada um possam participar do projeto educacional; b) desencadear um processo de construção-apropriação da metodologia participativa, no qual todos são sujeitos, rompendo com a divisão do trabalho entre quem pensa e quem executa; c) produzir textos reflexivos sobre a prática pedagógica em processo nos vários coletivos, socializada e analisada nas sessões de estudos, buscando sistematizar cientificamente os momentos históricos do conhecimento em construção. Importa salientar, ainda, que o CRE é o espaço articulador dos trabalhos de extensão da UPF. 3 Ribeiro (1999, p.35), analisando a concepção de alfabetização, registra: “Durante muito tempo considerou-se que uma pessoa estava alfabetizada quando sabia ler e escrever, ainda que num nível muito rudimentar. Foi essa a concepção que orientou a pedagógico articulado a toda rede municipal de educação4, primando, fundamentalmente, pela implementação de políticas públicas para a educação de pessoas jovens, adultas e idosas, pela construção coletiva, pela participação, pelo registro escrito da prática pedagógica em forma de memória5, pela teorização e planejamento da ação político-pedagógica. Nos diferentes espaços e tempos das escolas, a formação continuada e seu processo metodológico, fundamentado na práxis pedagógica, permeou todo o trabalho. O processo desencadeado em forma de rede social movimentou diferentes sujeitos das comunidades, das escolas, das secretarias municipais de Educação. A experiência político-pedagógica nos municípios assegurou dois elementos metodológicos: a produção de fragmentos de histórias de vida e a escrita de memórias referentes à prática dos sujeitos envolvidos. Estes elementos, atrelados a um permanente processo de reflexão, de teorização da prática, contribuíram para que pudéssemos nos compreender como sujeitos históricos, políticos, ideológicos, culturais, sociais, estéticos, enfim, sujeitos em sua dimensão de inteireza, de totalidade e, ao mesmo tempo, possibilitaram analisar concepções de mundo, de conhecimento, de sociedade, de sujeitos. É especificamente acerca deste processo metodológico vivido no cotidiano da formação continuada que trataremos no presente texto. Pretendemos mostrar que a ressignificação de práticas pedagógicas exige um trabalho de grupo, caminhos metodológicos compreendidos pelos sujeitos do processo, condições materiais de trabalho, reflexão e teorização da prática e, sobretudo, a imersão de nós profissionais num processo de análise da própria prática, articulando esta análise à luta pela justiça social, como salienta Zeichner (2002), se não quisermos continuar submetidos às análises e teorizações produzidas apenas por outros sujeitos acerca do que fazemos, pensamos, construímos no cotidiano educacional. maioria das campanhas de alfabetização de jovens e adultos em todo o mundo. Acreditava-se que, num par de meses, se pudesse ensinar os princípios básicos da codificação dos sons em letras e, a partir de então, os jovens e adultos já estariam aptos a empregar esse conhecimento em proveito próprio. Essa concepção levou a maioria das campanhas de alfabetização de adultos ao fracasso. Encerrada a campanha, os jovens e adultos simplesmente retornavam a suas vidas cotidianas, num ambiente em que a linguagem escrita estava praticamente ausente. Resultado: bastava um par de meses mais para que a maioria esquecesse o que tinha aprendido; ocorria o fenômeno conhecido como regressão ao analfabetismo”. 4 No texto “A difícil travessia: d e um programa de alfabetização de jovens e adultos para a construção e implementação do projeto político-pedagógico no município de Tucano-Bahia”. Passo Fundo, Espaço Pedagógico, v. 8, n. 2, p. 43-52, dez. 2001, analisamos a possibilidade de transformação da campanha de alfabetização para pessoas jovens, adultas e idosas em política pública de caráter permanente. 5 Ao referirmo-nos à memória, relacionamo-la à produção escrita realizada pelos profissionais envolvidos no processo educacional. Esta produção como resultado de sínteses possíveis acerca da nossa própria prática constitui-se num processo de permanente sistematização, reflexão, teorização do quefazer pedagógico. Na compreensão de Benincá (2002a, p. 176), “a memória é entendida [...] como ‘um momento reflexivo do sujeito que busca explicitar e reinventar a sua própria prática’ [...]. É mais exigente que o registro e sua estrutura é diferente: o registro pontualiza observações, ao passo que a memória é um texto já ordenado”. 2 A formação continuada e o movimento metodológico: algumas contribuições teóricas Nas experiências das quais temos participado, o desafio de alfabetizar pessoas jovens, adultas e idosas exige tanto de nós coordenadores pedagógicos quanto de educadores/as a imersão num processo sistemático de estudo, de compreensão, de teorização da prática pedagógica. Esta é uma formação que não cessa no simples ato de organizar, sistematizar conhecimentos a serem construídos em conjunto com educandos, ou seja, não pode significar meramente a organização didático-pedagógica de saberes. precisamos constituir processos de formação Ultrapassando essa perspectiva, continuada investigando, analisando, compreendendo o que, como, por que, para quê, a favor de quem, contra quem estamos fazendo, pensando, construindo o quefazer pedagógico. Esta prática requer, assim, a tessitura de novos fios e redes teórico-metodológicos, de novos olhares crítico-reflexivos acerca do que produzimos no contexto concreto de vivência da práxis pedagógica. Apoiados em Benincá (2002b), acreditamos que a formação continuada centrada na práxis pedagógica caracteriza-se pela autoformação e pela formação coletiva. Conforme o autor, a práxis pedagógica como processo de investigação define uma epistemologia na produção do conhecimento. Neste processo, não são desconsiderados conhecimentos do senso comum e da informalidade, nem tampouco informações e conhecimentos produzidos em cursos, seminários, palestras, oficinas, simpósios, entre outros. Para além disso, buscamos, num processo dialético, construir conhecimentos referendados nas práticas pedagógicas concretas dos profissionais, garantindo, dessa maneira, um método (que não significa dogmatismo) de trabalho coletivo na tentativa de desvelar, compreender, interpretar, ressignificar saberes produzidos no cotidiano do trabalho profissional. De acordo com Benincá (2002b, p.104), esse enfoque de formação continuada garante a constante atualização dos sujeitos, “pois a fonte de aprendizagem está na investigação de sua prática. Por ser a prática pedagógica um processo, é dinâmica, por isso, sempre nova”. E mais: “Mantém o investigador sempre em ação, já que trabalha com uma realidade sempre nova. A prática do professor, por isso, é uma fonte permanente de geração de conhecimentos”. Desde a década de 1950, Freire ratificava a necessidade de que o processo teóricometodológico na construção do conhecimento passa, fundamentalmente, por uma radical e profunda mudança de atitude, de concepção, no sentido de que todos sejamos considerados sujeitos no processo de elaboração do saber, construindo, coletivamente, um compromisso éticopolítico de transformação social. Assim, quando iniciamos qualquer processo educacional, se queremos garantir o aspecto democrático no desenvolvimento da experiência, precisamos partir do princípio de que todos somos sujeitos no ato de produzir saberes, de compreender, de transformar a realidade. Em Pedagogia do oprimido, Freire (1987) evidencia a dicotomia entre a educação bancária e a educação libertadora. A última, sempre a serviço da humanização, jamais desconsidera os sujeitos concretos na produção crítica do saber. A primeira, bancária, sempre a serviço da desumanização, absolutiza a ignorância no outro, objeto a ser pesquisado, manipulado, alienado. Freire (1987, p. 88), assumindo e vivenciando uma metodologia humanizante, sustentada e construída com base no materialismo histórico de Marx, afirma que “o que se pretende investigar, realmente, não são os homens, como se fossem peças anatômicas, mas o seu pensamentolinguagem referido à realidade, os níveis de sua percepção desta realidade, a sua visão do mundo em que se encontram”. Em diversas experiências, Freire ratificou a necessidade de que tenhamos um rigor metodológico na construção do saber, o qual parte da problematização do contexto como ato de investigação permanente das práticas desenvolvidas. Há, nessa rigorosidade metódica, segundo ele, dois elementos fundamentais: a observação e a análise da própria prática dos profissionais envolvidos. Analisando as teorias da ação cultural que se desenvolvem a partir da matriz antidialógica e da dialógica, Freire afirmava que homens e mulheres são seres da práxis, diferentemente dos animais. Segundo o autor (1987, p.121), “os animais imergem no mundo; os homens como seres do quefazer ‘emergem’ dele e, objetivando-o, podem conhecê-lo e transformá-lo com seu trabalho”. O processo de externalização de práticas tanto para nós coordenadores da universidade envolvidos no acompanhamento sistemático desta experiência quanto para os sujeitos dos municípios baianos encontra-se não somente na oralidade, mas, acima de tudo, nas memórias escritas e nos fragmentos de história de vida de educandos, educadores, coordenação pedagógica. A memória, como um dos principais elementos metodológicos utilizados, desnuda práticas cotidianas desenvolvidas em sala de aula e/ou em outros espaços. Colocam-se em evidência condicionamentos que incidem no contexto educacional, objetivando avançar na construção crítica da consciência e no processo de permanente emancipação. Se tivéssemos de situar a memória no contexto de sua produção, diríamos que se encontra entre a familiaridade, proximidade do contexto no qual atuamos, e a distância que dele fazemos para problematizar, entender, ressignificar concepções, caminhos teórico-metodológicos. Reafirmamos, desse modo, a idéia de que não há transformação com puros verbalismos (discursos vazios, ocos) ou com puros ativismos (ações sem reflexões, sem teorizações), uma vez que a transformação requer esforços coletivos de construção também coletiva do pensar-agirpensar, do agir-refletir-agir, da prática-teoria-prática, da práxis, enfim. Segundo Freire (1987, p. 125), “o que pode ocorrer, ao exercer-se uma análise críticoreflexiva sobre a realidade, sobre suas contradições, é que se perceba a impossibilidade imediata de uma forma determinada de ação ou a sua inadequacidade ao momento”. Mesmo assim, para ele, é preciso que façamos, permanentemente, a problematização e a análise de realidades, das situações concretas de vida, uma vez que a consciência social incide diretamente na construção da consciência singular do ser humano. É preciso, portanto, que tomemos consciência da situação de opressão em que vivemos, do contrário, não há possibilidade de buscar a transformação. No trabalho de investigação defendido por Freire, o diálogo com os sujeitos envolvidos no processo não é concessão, nem dádiva. É o “encontro dos homens e das mulheres para a pronúncia do mundo, é uma condição fundamental para a sua real humanização” (1987, p.134). Nesse campo, cabe, certamente, uma pedagogia problematizante, humanizante, dialógica, emancipatória e não uma pedagogia dos que doam, depositam, enchem as cabeças dos chamados “incapazes”, como fazem os opressores. No contexto da experiência de formação continuada nos municípios baianos, a pedagogia humanizante, como processo de formação, garante, na sua vivência, alguns elementos e movimentos metodológicos: fragmentos histórias de vida, memórias, levantamento de indicativos, teorização da prática, retorno à prática. Esses elementos e movimentos dialeticamente constituem a essência da formação continuada como prática permanente de formação ao longo da vida. Essa perspectiva, como teoria da ação dialógica, nas palavras freireanas, exige desvelamento, pronúncia, problematização do mundo. Desvelando-se e desvelando o mundo, situando-se num contexto histórico, homens e mulheres “descobrem que [...] já não podem continuar sendo ‘quasecoisas’ possuídas e, da consciência de si como homens oprimidos, vão à consciência de classe oprimida” (FREIRE, 1987, p.174). Hurtado, reafirmando concepções freireanas de educação, explicita que o papel dos sujeitos no grupo, na sociedade não é o de repassar ou transmitir conhecimentos, mas o de construir na ação-reflexão-ação a consciência de classe, histórica e politicamente entendida. Para ele, o processo metodológico na construção do conhecimento precisa ser assumido e incorporado criticamente pelos sujeitos para alcançar os objetivos propostos. Nesse sentido, métodos e técnicas articulam-se diretamente ao marco teórico que (re)constrói, ressignifica as ações dos sujeitos envolvidos no processo de construção de uma outra sociedade. Referendado na concepção de educação popular como conceito que se define na práxis, Hurtado (1992) propõe a metodologia dialética, objetivando construir e vivenciar práticas que superem concepções de ciências positivistas, presas simplesmente ao como fazer. As etapas dessa metodologia, para Hurtado, podem ser sintetizadas em cinco movimentos: a) o ponto de partida, que possibilita obter um diagnóstico, compreendido como reconhecimento objetivo e sistemático da realidade, produzindo um distanciamento dessa mesma realidade observada; b) “análise das ações que o grupo realiza para transformar seu meio e o sistema em geral” (p.49); c) o agir do grupo passa à interpretação da realidade social e a uma intenção frente a ela; d) o distanciamento do sujeito da realidade social em que está imerso, no sentido de passar ao exercício de teorização junto a todos os sujeitos do grupo, objetivando avançar no nível de consciência que se tem da realidade social; e) retorno, dialeticamente compreendido, dos sujeitos para a prática, vista não como a volta ao mesmo tempo e espaço anteriores, uma vez que isso anularia a idéia de processo e da própria dialética, mas como a possibilidade de retorno transformador, questionador, crítico, criativo e, essencialmente, propositivo sobre a própria realidade social. Em contraposição à lógica impositiva em educação, na qual os sujeitos constantemente são anulados do processo, buscamos, no trabalho de formação de educadores/as, nos tornar investigadores atentos, curiosos, produtores de saber. Encharcados nas palavras de Freire (1987, p.98), entendemos que a metodologia de investigação que defendemos “exige [...] que, no fluxo da investigação, se façam ambos sujeitos da mesma – investigadores e homens do povo que, aparentemente, seriam seu objeto”. A compreensão do processo em desenvolvimento reafirma a concepção de teorização apontada por Hurtado (1992, p.52): Teorizar é um processo de aprofundamento ascendente, isto é, um processo de acumulação e avanço quantitativo e qualitativo no conhecimento da realidade e a partir da mesma realidade, mediante ações sistemáticas de reconhecimento, abstração, análise e síntese, que levam, mediante a construção e a apropriação de conceitos, ao conhecimento e apropriação de um modelo científico de interpretação da realidade e de suas leis históricas. Em pesquisas desenvolvidas, Benincá et al., desde o início da década de 1990, vêm fornecendo subsídios teórico-metodológicos vivenciais, que qualificam a discussão sobre a metodologia dialética. Em pesquisas realizadas, anunciam que “é da ação que se parte e é para a ação que se volta; a ação é o ponto de partida e ponto de chegada, mas o caminho percorrido constitui um processo educativo extremamente rico para o professor que investiga a sua prática” (BENINCÁ et al., 1998, p.134). Para Benincá et al., há movimentos, não isolados, constituidores dessa metodologia: a) a observação da prática pedagógica; b) a produção de registros e de memórias, seguida da leitura, do levantamento de indicativos e da análise destes; c) a teorização da prática e o retorno a ela de maneira intencional e transformadora. A observação da prática pedagógica, segundo o grupo, é entendida como os olhares intencionais lançados sobre, para e a partir da ação que cotidianamente se estabelece entre educador-educando-contexto. A observação, assim, “tentará perceber como acontece a relação e por que ocorre de tal forma” (BENINCÁ et al., 1998, p.136). As leituras de memórias construídas pelos pesquisadores constituem o segundo movimento da metodologia. Todos os pesquisadores, em tempos e espaços definidos, após produção de registros e de memórias, entram num esforço coletivo e sistemático de levantamento de indicativos e de categorização dos dados gerados através da prática pedagógica de cada um nas suas diversas relações estabelecidas. O processo de teorização, nesse caso, “decorre de um primeiro distanciamento crítico sobre a realidade que se expressa através da memória” (BENINCÁ et al., 1998, p.135). O retorno à prática concreta, em processo de permanente teorização, constitui-se no terceiro movimento metodológico. Mediatizado pela ação-reflexão-ação, esse retorno configura-se como ações organizadas, intencionais construídas num processo coletivo de discussão e análise da prática pedagógica. No contexto da experiência pedagógica nos três municípios baianos, o processo teóricometodológico tem sido desenvolvido na perspectiva até aqui anunciada. Independentemente da instância (escola, sala de aula, secretaria municipal de Educação, coletivos de estudo, comunidade, universidade) na qual atuamos, esse processo reafirma-se e desenvolve-se pelo fato de que as práticas em construção evidenciam significativa ampliação da nossa consciência, na perspectiva de transformação individual e coletiva, tornando-se, como afirma Freire (1987, p.99), [...] um esforço comum de consciência da realidade e de autoconsciência, que a inscreve como ponto de partida do processo educativo, ou da ação cultural de caráter libertador.” 3 Reflexões (in)conclusivas A experiência teórico-metodológica do processo de formação de educadores/as revela que é preciso levar em consideração na elaboração do conhecimento alguns conceitos, entre os quais: a) totalidade, ou seja, não compreender os fatos isoladamente, mas compreendê-los no conjunto de suas implicações e conseqüências; b) processualidade – identificar no contexto concreto os condicionamentos, buscando a razão de ser no passado, nas relações com outros elementos e, fundamentalmente, processar idéias para avançar na perspectiva de ressignificar, de lançar olhares para o futuro; c) dialeticidade – aprender a trabalhar as contradições, os conflitos, recuando quando necessário, avançando se as condições concretas possibilitam, resistindo se preciso; d) cotidianidade – compreender as práticas pedagógicas na dinâmica e na complexidade em que se situam os sujeitos e o processo educacional. Transformar práticas pedagógicas ingênuas, acríticas em práticas pedagógicas reflexivas, intencionais, críticas, emancipatórias não é um ato voluntário, espontâneo, sem intencionalidade. Tal transformação exige trabalho conjunto, disciplina intelectual, procedimentos metodológicos, fontes teórico-práticas enraizadas no contexto das ações concretas, princípios de trabalho incorporados criticamente inscrevendo-se nas consciências dos sujeitos, formação continuada, condições materiais de trabalho, coordenação, acompanhamento pedagógico sistemático. Os elementos e movimentos constituidores do processo teórico-metodológico (fragmentos de histórias de vida, memórias, levantamento de indicativos, teorização e retorno à prática intencional e organizadamente) configuram-se como alternativas de romper com práticas fragmentadas, descontextualizadas, acríticas. A formação continuada e o seu processo metodológico revelam, assim, a necessidade de garantir políticas públicas de formação nos contextos espaciotemporais das escolas, políticas construídas com a participação e envolvimento dos segmentos da comunidade escolar, transformando a escola, dessa forma, em comunidade reflexiva. O trabalho de grupo, a constituição de coletivos articulados no interior das escolas, das comunidades, assim como a coordenação em cada coletivo de formação continuada são de suma importância no processo de ressignificação das práticas pedagógicas. Indispensável na coordenação do processo, o assessor, condutor e/ou coordenador do grupo é alguém que mobiliza, questiona, reorganiza, em conjunto com os demais sujeitos do coletivo, as práticas em movimento. Um dos papéis do assessor, coordenador, condutor é o de contribuir com a análise das contradições da prática pedagógica. Referências BENINCÁ, Elli. O senso comum pedagógico: práxis e resistência. 2002. 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