O Ì\ascinaentode Uma Vida Acabada Experiências dos EnferrueirosEspecialistas de SaúdeMaterna e Obstetrica KhatidjaAmirali Licenciada em Enfermagem Enfermeira do Hospital Femando Fonseca Ana Catarina Dias Pulavras ch.ave: Cuídar em enfermagem, experiências, íeto morto, interacção enfermeiro-mulher, morte, nascimento, saúde materna e obstetrica Keywords: Nurserl care, experíences, líJëless fetus, interactíon nurse-wotnan, deafh, hirth, obstetric and matemal health Licenciadaem Enlermagem Enfermeira da Casa de Saúdeda Idanha Resamo: Com o intuito de compreendere reflectir acerca das experiênciasde quempresra cuidados de enferrnageme vivencia o parto de um.feto morta, realízámos um trabalho de investigação,de paradigma qualitativo, métodofenomenológico, do Íipo descritivo, exploratório. Assim,:delineámos como objectívo; Conhecer as experiêncÌas viyenciadaspelos Enfermeiros Especìalistasde SaúdeMaterna e Obstetrìcaface à realízaçãodo parío de umfeto morto com idade gestacional igual ou superior a 37 semanas.Consideramosque os eníermeìrosque trabalham nesta área devem estar cientes dos seuspróprios sentimentos,face à morte de um feto de termo, e despertospara a forma como a sítuação e vivenciada pela mulher/família, de fotma a poderem ir de encontro às necessídadesdos mesntos,humanizandoo mais possível os cuídadosde enfermagema este nível. Abstract: With the purpose to understandattd reflccr about the experìencesof who lends nursery cares and experìencesthe parturition of a lifeless fetus, we've realized an exploratory and descriptive research, according to a qualitative paradigtn, phenomenologicalprocedure, of an explorable ctnddescribable fitpe.In this manner,we delineated as general aìm of the study: Tb acknowledge the experienceslived by the SpecíalistNurses in Obstetric and Maternal Health ín view of the realizatíon of theparturìtion of a lifelessfetus wíth a gestati.onalage equal or superior to 37 weeks. Weconsider,according to this, that nurseswho work in this area should be aware of their own feeling,s, in vieu, of a fetus' death. and take into account the way the situatiott is experienced by the woman/family, so that thelt 661nmeet their necessities,humanizating as much as possìble the nursìng cares at this lettel. trntrodução VisãoPessoaldo Fenómeno A mofie é, em toda a sua complexidade, uma área temáticaque tem suscitadoo interessee tem sido esfudada por vários grupos profissionais.No âmbito dos cuidadosde saúdede obstetríciaela pode ser estudada sob várias perspectivas,uma vez qve cuidar de uma mãe, e consequentementeda família, que acaba de perder um filho tão sonhado, é um pÍocesso muito complexo que exige o esforço conjugado dos vários intervenientes da equipa multidisciplinar. Assim sendo, é necessárioque o enfermeiro se mantenhajunto de toda a fa;^nilia,uma vez que uma presençaefectiva e empâtìcaque escuta a voz do silêncio, se reflecte mais positivamentejunto destes. A morte de um feto traz consigo um conflito sério. O nascimento é visto como uma ocasião de alegria e optimismo e, de repente,surge aperda e o sofrimento. Os enfermeiros que escolheram a vertente de obstetrícia não estãoacosfumadosa lidar com a mofte e "sentem-sepouco à vontadeao prestarcuidados"(Ziegel & Cranley,1985,p. 451). Os pais devem, então, ser ajudados a enfrentar a realidade da morte do fìlho, e a apoiarem-seum ao outro duranteo luto. Eles necessitamde chorar,de expressar a sua raiva e frustração,assim como falar da criança e do acontecimento. O lamento pela mofte do filho em nada difere do lamento pela perda de outra pessoa amada. Pensamos,portanto, ser importante saber como os Enfermeiros Especialistasde Saúde Materna e ObsDeste modo, consideramosque, confrontado com a tetrica, que trabalham no Bloco de Partos de um mofie fetal e a desilusãodos pais, o enfermeiroirá pasHospital, vivenciam toda esta situação,pretendendo que os seusresultadostragam uma mais valia para que sar por urn "turbilhão" de emoçõese sofrer uma série possamosmelhorar os cuidados de enfermagemem de experiênciasque podem ter implicaçõesna forma como cuida. situaçõesdestetipo. Deste modo, paftimos cia seguintequestão<ieinvestigação: Quais as experiências dos Enfermeiros Especialistasde Saúde Materna e Otrstétrica face à realização de um parto de feto morto com idade gestacionaligual ou superior a 37 semanas? ÈÀ àü çJ,\ s \a ìtÈ rg *a s Y Èa cì a -a I A Visão da Morte na Actualidade -l Ìi Num mundo que se crê cadavez maís tecnológico, a YY morte, como fenómeno ainda não devidamenteexpli- rh)a cado, apresenta-se hoje como o derradeirodesafio do ÊÀl t tl ï *ã Homem, "há solução para tudo, só a morte não tem solução" dizem ainda os mais cépticos. A forma como se encaraa morte varia de pessoapara pessoa, dependendoda sua personalidade,dos seus valores e interesses,porém, verdade será que, o medo da morte faz e sempre fez parle do comportamento humano;a forma como se lida com essemedo é que foi variando atravésdo iempo. Assim, a morte é vista como uma entidademisteriosa, que provoca no Homem diversos sentimentos e emoções.Todos tememosde uma certa forma a morte; ela é, tal como o nascimento, um facto irreversível e simultaneamenteum enigma, rtma vez que, apesar de todos os avançoscientíficos "constítui ainda um acontecimento medonho, pavoroso, um medo universal" (Kübler-Ross,2002,p. 9). da sua vida: a maternidade.Ser uma fisura de aooio. significa que a pamlriente tem necessiãade de sèntir por parle destesenfermeirosum acolhimento que vai para além do formalismo e que deve passar por rl icnnnihili.lqrlc rlq crÌâ hâÍ+ê nnro nortilho ê.ômnrêên- são de tudo o que signifïca viver estaexperiência(aiegria, ansiedade,medos,preocupações,entre outros). Assim, há que ter consciênciaque o parto é um acontecimento "poderoso" na vida, carregadode um profundo significado que não conhecemostotalmente e qualquertentativapara o definir num conceitoúnico é parcial e limitativa. A Obstetríciaé uma ciência tão intimamente ligada à vida que a sua principal caructerísticanão pode ser senão a de uma extrema flexibilidade, exactamente para abrangere acolher toda a riqueza que as pessoas manifestamno momento do nascimentode uma nova vida. Nesta sequência, encaÍaf a morte como fracasso tornou-semlgar, sendo poucos no meio hospitalar os que a encaramcomo um processonarural e apenas adiável por um tempo semprelimitado. Mecanismos de Defesa dos Enfermeiros Desta forma, ser obrigado a encaÍar a morte como fazendoparte do seu dia-a-diapode fazer emergir nos profissionais de saúde sentimentos de insegurança, revolta, impotência, entre outros. Situações de fuga são. ainda" uma constante.Mas a mofie é uma realidade. há que assumi-la. se bem que cada cultura e mesmo cada indivíduo vêm e sentem a morte de uma forma particulare única. O desejode parlilhar um dos momentos mais ricos e mais cheiosde emoçõespata a mulher, a relação com a vida e oor vezescom a morte. tomam o Enfermeiro Especiahìtade SaúdeMaterna e Obstétricanum ponto de- referência constante, razão pela qual e nãtural que estesadoptemmecanismosde defesae de neutralização dessasemoções para conseguir lidar com as situações. Um factor de grande influência na forma como os familiares e amieos irão viver o luto é o tioo de morte. De facto. cluandãa morte é esperada.o'processode luto é, geralmente, mais fácil, uma vez que os familiares se vão preparandolentamentepara enfrentar a morte do utente. Porém, quando é um acontecimento súbito e inesoerado.normalmentedesencadeiaum luto intenso,muiio doloroso e prolongado. Todosos quejá viveram perdasde pessoasde família. parentesmais ou menos chegados,sabem poÍ experiência como sofreram e como sentiram que algo de si mesmomorria com os entesqueridos.Recordamcomo se sucederamos sentimentosde surllresa.certa raiva. tristeza. angústia, talvez culpabilidadee esperança. Também experimentaramo apoio e simpatia de pessoas que estiveram próximas deles durante os dias e semanasimediatasà mofte do seu parente. Estesmecanismosemergem,assim,para protecçãodo enfermeiro, üma yez que funcionam como alternativa perantesituaçõesincómodas,como perdas,sofrimento e outras geradoras de ansiedade,sendo "estratégias psicológicase comportamentaisque protegem a pessoa da ansiedade.Ao longo da vida, desenvolvemos mecanismosde defesae seralmenteutilizamos aqueles que foram efrcazesna iesoluçãode problemase nc regulaçãodas emoçõesno passado"(Bolander, 1998, p. 334). Neste sentido, consideramosque é necessáriocontinuar a insistir nas práticasde enfermagemem tomo do processoda morte; os cuidadosde enfermagemdevem ampliar-seno sentido da compreensãoe assistênciaà família em luto, na medida em que ao falar de Morte falamosda nossamor1e,da morte do outro, da perda de alguém que se ama, da vida que se viveu, das recordações,dos espaçose dos tempos que se ftzeram, do que deixa de ser,do vazio que fica, da dor que é perder qualquer coisa que foi nossa e deu significado à existência. Experiências dos Enfermeiros que Cuídam em Obstetrícia O Enfermeiro Esnecialista de Saúde Materna e Obstétricafoi sempierepresentado,atravésda história, como figura de apoio à mulher no momento particular Na realidade muito se tem escrito sobre o papel do enfermeiro, no entanto a dificuldade está em encontrar alguém que tenha escrito o que sente afinal esse enfermeiro. E quando o desfecho de toda a gravidez e parto culmina com a morte do recém-nascido?Vive-se a dor, a angústia,sente-seuma tristeza,uma revolta e impotência. Mas exige-seao enfermeiroque_seja forte, que não chore, que não se envolva emocionalmentecom os acontecimentosdo seu dia-a-dia. Dai que ser enfermeiro é muito mais oue vestir uma farda branca e prestarcuidadosmais oì menosindividualizados,mais técnicos ou humanos... somos realmente gente que cuida de gente. r: , Pensamosque será a nossa experiência diária como enfermeirase como mulheres, que nos aludaú a ultrapassarmuitas das nossasemoçõese sentimentos,de formaasentirmosmaiorSegurançaquandocuidamos numa situacãode mor1e. N'Ietodologia Este estudo centra-seno indivíduo como fornecedor de todos os dados através das descrições das suas ,; * q-} vivências, pelo que o paradigma a utilizar vai ser o qualitativo e abordagem fenomenológica, na medida em que consideramosque a suautllização nos vai permitir conhecer as experiências vivenciadas pelos Enfermeiros Especialistas de Saúde Materna e Obstétríca façe à realizaçã.odo parto de um feto mofto com idade gestacionaligual ou-superiora 37 semanas. A aplicaçãodestemétodo às descriçõesdas experiências dos enfermeiros e, o facto de cada um compreender o significado da sua própria experiência e de a transmitir, poderá ter implicações positivas na compreensão das atitudes dos enfermeiros, contribuindo para o desenvolvimento da Enfermageme. consequentemente,para uma melhoria dos cuidadosprestados. E de referir que num esfudo de paradigma qualitativo e abordagem fenomenológica não se pretende a generalização dos resultados,mas sim obter a compreensão e conhecimento em profundidade do fenómeno em esfudo.Isto deve-seao facto de o obiectivo do estudo não ser estimar a extensãocom que'os resultadosse pïopagam à população, mas sim compreender a experiência, tal como ela foi vivida por cada participante. Assim sendo.a amostïafoi não probabilisticaintencional, vma yez que a mesma foi seleccionadacom base no conhecimento das experiênciasvividas por cada enfermeiro mediante a sua disponibilidade e rrõrrtade em transmitir as suas vivênciaÀ face ao fenómeno em estudo. Nesta sequência, a amostra foi constituída por quatro participantes,sendo os critérios de inclusão dos mesmos os seguintes: - Ser Enfermeiro Especialistade Saúde Matema e Obstétrica; - Ter nacionalidade Portuguesa; - Ter realizado o parto de um feto mofto com idade gestacionaligual ou superior a 37 semanasdurante a sua caffelra proilsslonal; - Desejar participar no estudo e autorizar a entrevista aberta audio gravada. Neste sentido. foi utilizada a entrevista aberla audio gravada,de modo a recolher dados descritivosna linguagem do próprio participante. coln recurso de um guião constituído por cinco perguntasque suscitama realízaçáode um depoimento rico, o que nos permitiu desenvolver intuitivamente uma ideia sobre o modo como os participantesinterpretaramos aspectosrelativos ao fenómeno. Como tal, as questõesabertas tiveram a vantagem de estimular o pensamentolivre e de favorecer iexploração em profundidade da respostado participante. Assim, elaborámosum guião, com peïguntasabedas, suficientemente abrangentesde forma a dar resposta aos objectivos anteriormentepropostos: 1 - Descreva-nosuma experiência em que tenha realizado o parto de um feto morto com idade gesta cional igual ou superiora37 semanas. 2 - Como reagiu perantea situação? 3 - Reflectindo sobre essa experiênçiacomo consique teve? deraa actuaÇão 26 fú 4 - No decorer desta experiência acha que a sua prestaçãode cuidadosfoi modificada pelo nascimento de uma vida acabada?De que forma? 5 Quais as razões que o/a levaram a escolher este episódio? Análisede Dados Para se procederà análisedos dados,seleccionámoso método de Colaizzi, através do qual encontrámos dezanove temas, distribuídos pelas onze categorias seguintes. Implicações da relação enfermeira-mulher na imagem do momento O cuidar daspessoasem processode luto Íequeï que se sejacapazde compreenderos vários sentimentose percepçõesde cada membro da família, pelo que deve ser dada mais imporlância às competênciasrelacionais do que às competênciastécnicas païa aprâtica humanizada dos cuidados de enfermagem. De acordo comLazure (1gg4\. o papel do profissional de saúde e o de ajudar o utente a satisfazer as suas necessidadesfundamentais, acreditando que o utente possui os recursosque lhe são necessáriospara lidar com determinada situação, aspecto que foi realçado por uma das nossasparticipantes, ao afirmar que: "...lem de se criar logo ali naquele momento,em que olhamospara a pessoo, alguma relação." Importância em aprender a Iidar com sentímentos negatívos Uma vez que estes são experienciadospela mulher e pela enfermeira, é fundamental que as emoções não sejamescondidas. Assistir à morte de um bebé "é uma situação particularmente insuportável, pela irracionalidade dessa morte prematttra" (Tinoco, 1999, p. 16). Trata-se,portanto, de um processo complexo, ffiarcante e muito doloroso, o que se apreendeatravés do testemunho de um dos enfermeiros entrevistados: "...o choque (...) a tristeza,de ser umfeto morto; e a emoção (...) muitos sentimentos...todos muito marcantes..." O agradecimento e o feedback ínterpretados como reconhecímento Estesaspectossão fulcrais para demonstrarreconhecimento pela acttação correcta da enfermeira. Na enfermagem,a comunicação é peculiar já que o fulcral da profissão é saber lidar com pessoas.Na verdade, "ninguem faz enfermagem, nem como alte, nem como ciência, sem ser capaz de comunicar eficientemente" (Daniel, 1983,p. 66). A sabedoriado relacionamentoestá em saber direccionar toda a comunicaçãopara o utente e, essencialmente, saber se esta foi totalmente entendida por ele. Este facto é apontadopor um dos enfermeiros entrevistados, quando drz que: ,i * l F "...o feedback que recebemos(...) ajuda a perceberse a nossaactuaçãofoì a melhor olr não." feto morto (...)paraficãr com a aparência de um bebe que está a dormir para o pai ou a mãe o verem..." As exoeriências de vida da enfermeira influenciam ã sua atítude A vivência de partos futuros é influencíada pela realização de um parto de Jeto morto Uma vez que a enfermeira valoriza cada vez mais a humanizaçàodos cuidados em detrimento da parte técnica e, o facto de a enfermeira ter vivido, ela própria, uma situação semelhante faz com que consiga cuidar da mulher de uma forma totalmente empática. A experiência dolorosa que é o parto de um feto morto pode levar a sentimentos de medo e receio ao rcalizat partos futuros, o que emerge na frase significativa: Este aspectoé defendidopor Marques (1991), ao afirmar que a forma como cada profissional encara estas sifuaçõesde crise, depende -face da sua estabilidadeemocional, da sua atitude à morte e de todas as suas experiências pessoaisprévias, o que nos é demonskado pela seguintedeclaraçãosignificativa: "...não dá para esquecer(...) atravésda minha experiência pessoal, que Jbi tcío terrível, eu (...) consigo compreender melhor as mães que me aparecem com umfeto morto." "...não deixam, durante muito tempo, que se consiga realizar um parto sem medo... e ter medo até de seguir um trabalho de parto (...) E sempre o grande receio de que o próxìmo seja igual e não conseguimostirar isso da cabecinha." Neste contexto, Tinoco (1999), afirma que embora se reconheçaque morrer é uma etapada vida, tão natural como o nascer,a morte continua a ser um acontecimento de vida indutor de stress. de medo e de erande angústia. Dificuldade em encontrar mecanismos de defesa Percepção de que pode fazer sempre mais ,se para aludar a mulher Apesarde a enfermeirareconbecerque é complicado encontÍar mecanismos de defesa, a tentativa de fuga e de não realizaçáodo parto estão semprepresentes. Verifica-se que, grande parte das vezes, as enfermeiras duvidam se, perante aquela situação tão dolorosa para a mulher, ftzeram tudo o que era possível para a ajudar. Bolander (1998) refere, a estepropósito, que: Lazure (1994) refere, a estepropósito, que: Certas ocasiões fazem com que as enfermeiras tenham sentimentosjustificados de impotência. A prática da relação de ajuda contribui, contudo, para precisaÍ essa impotência, o que lhes permitirá identificar no cliente e na família, as dimensões em que podem, de forma realista, oferecer uma ajuda profissional de qualidade. Visto que a relação de ajuda é indissociável das intervenções de enfermagem de quaiidade. @ .1 e 7 ) Esta sensaçãofoi verbalizadapor uma participante do nossoestudo: " -..não podìa fazer mais do que aquìlo que estava afazer mas aclto que, nofundo, nunca temos a actuaçtio correcta, pelo menos é essa a sensação que meda..." Valorização do respeito pelos fetos mortos Todos os procedimentos que se executam quando ocoffe a morte de um adulto devem ser também executados e respeitados aquando da mofte de um feto morto. Bobak et al. (1999),defendeque: As enfermeiras necessitamde ser sensíveisà necessidade que as famílias possamter de passartempo com o seu bebé. Fornecer tempo para ver e segrÌÍar o seu bebé em privado . . . oferece à família a oporfunidade paÍa aacôitaçãofutura da realidadeda perda e da despedida.(p. 861) Este aspectoé reforçado pela seguinte declaraçãode uma enfermeira entrevistada: "...quandofaço a parto de um.fetomorto (...) "u lavo o Os mecanismosde defesanão são usadosdeliberadamente; operam, quase sempre, a um nível inconsciente.Estesmecanismostendem a ser ilusórios; isto é, funcionam mascarando ou disfarçando os nossos verdadeiros motivos, de nós próprios, ou negando a existência de impulsos, acções ou lembranças que podem ser ansiogénicas.(p. 334) Uma das entrevistadasreforça este aspecto ao afirmar que: "...podemosexteriormenteapãrenlar uma máscara de indiferença, mas (...) por dentro não sepode alterar o que se sente (...) ninguém é máquina (...) eu não sou máquina (...) não consigo distanciar a minha trìsteza..." As marcas que.ficam na mulher e na enfermeíra sao tmpossryets de prever Devido atoda a dor envolta nestassituações,torna-se dificil quantificar as marcas que a mesma causa na enfermeira e na mulher. Northrup (2003), refere que nmitas mulheres perdem a confiança no seu corpo depois de vivenciarem esta situação. Outra questão importante é a culpa: muitas mulheres têm a impressão errada de que alguma coisa que fïzeram provocou a morte do feto. Uma das enfermeiras entrevistadasafirma mesmo que: 'o...nãodesejoa ninguém (...) porque nós marca mas a a elas..." A enfermeira executa o procedímento centrando o seu pensamento na mulher Esta atitude demonstra que, mais do que a mera execução de técnicas,a enfermeiravalonza todos os elementos da relação de ajuda. ç-i Para o enfermeiro,trata-sede "uma experiênciaemocionalmentetransfotmadora. . Detrnanecerno meio daquelaenergiamisteriosaentré o nascimentoe a mofie presente naquele quarto" (Northrup, 2003, p. 375). No entanto. o enfermeiro. Derantetoda a situaçao, tem de actuaí no sentido de ajudar a mulher, como é referido na frase significativa: "...respireifundo e tive que pôr mãos à obra (...) era preciso tomar uma atitude, apoiar, actuar, perante aquela mulher que estava ali." A aceitação é influenciada pela existêncía de uma patologia no íeto Quandohá uma patologiano feto. toma-semais fácil a aceitaçãoda situação pol parte da enfermeira. durantetoda aquelasituação,para ajudar a mulher e a família que sofrem a perda, o enfermeiro pennanece com a percepçãode que se pode fazer sempre mais para ajudar a mulher. Sendoassim,cuidar de uma mulher/família que experiencia a mofte de um feto, é una problemëtticaactual, que envolve múltiplos aspectosemocionais,espirituais, culturais, éticos e morais, particularmente relevantes, pelo que a actuaçãodos enfermeiros se deve pautarpelo respeitopelos valoreshumanose pela vontade do utente, tendo como base uma relação entre iguais. Apesar de estarmoscientes de que os dados obtidos não representam a generalidade das experiências de todos os enfermeiros que vivenciam o parto de um feto morto e que cuidam da mulher e da família em perda, Wolfelt (citado em Phipps, 2003), refere que, como esperamos que, de alguma forma, os resultados sereshumanos,nÌInca superamoso luto: reconciliamo- alcançadospossam vir a contribuir para melhorar os nos com ele. cuidados de enfermagem prestadosà mulher e família Este aspecto é demonstrado na seguinte declaração nestassituações. significativa: Na verdade,e tal como afirma Cabral de Frias (2003), "...ha situações que tem o enfermeiro que reconhece e utiliza a sua sensibilique nos o bebe em sabemos uma patologia e (...) isso serve de escapepara nós dade e os seus sentimentos,promove o auto-desen(...) a naíurezahumana e a maquina maisperfeira que volvimento e a auto-realtzaçãoe é capaz de encorajar existe... se algo não esta bem, o nossopróprio orga- o mesmo crescimentona pessoade quem cuida. nismo tem tendênciaa rejeìtar..." 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