1º Semestre de 2009 Revista FACOM Nº21 Cultura e Contracultura1 Relações entre conformismo e utopia Martin Cezar Feijó Resumo Abstract A relação da contracultura dos anos 1960 com a cultura como a mesma relação que se estabelece entre os conceitos de cultura em alemão: Bildung versus Kultur, entre a utopia e o conformismo. The sixties counterculture relationship with culture is the same between the germany concept Bildung and Kultur, between the utopy and conformism. . Palavras-Chave: Contracultura, utopia, política cultural. Keywords: Counterculture, utopy, cultural policy. Para minha filha Beatriz, aquariana. “Se vestem como Tarzan, têm o cabelo de Jane, mas cheiram como a Chita” - Ronald Reagan, então governador da Califórnia, referindo-se aos hippies (1967). “I hope I die before I get old” - Pete Towshed, The Who, My Generation (1967) O conceito polêmico de geração é um conceito marxista. Mas não leninista, e sim lennonista. Adeus, Lênin, bem-vindo Lennon! O marxismo-leninismo morreu, viva o marxismo-lennonismo!2 E falar em geração é falar em geração baby-boom. Aquela geração que nasceu no imediato pós-II Guerra (meados dos anos 1940, início dos 1950) e que hoje já passou pela experiência do poder em várias partes do mundo. E como professor baby-boomer, nascido em 1951, sempre digo orgulhoso aos meus alunos, até com certa empáfia, que pertenço a uma geração totalmente mais: mais alta, mais bonita, mais ousada, mais inteligente, mais revolucionária, mais criativa. E mais mentirosa também!...3 A geração baby-boomer está ultrapassando a maturidade. Cantada nos versos de Pete Towshed, do The Who, - em My generation (1967): “I hope I die before I get old” (espero morrer antes de ficar velho), a geração dos que nasceram e se formaram no contexto da Guerra Fria, da aventura espacial, da revolução científica e tecnológica, da emergência do rock, da revolução 1 Revista FACOM 1º Semestre de 2009 Divulgação Nº21 2 sexual, da luta pelos direitos civis, e que puderam testemunhar, ou até participar ativamente, de transformações importantíssimas, que até hoje assustam conservadores de vários tons e ideologias. E parte desta geração, não toda, nem a maioria, mas a mais barulhenta, espalhafatosamente vestida, ou escandalosamente despida, fez parte de um movimento cultural que merece uma abordagem histórica sem preconceitos ou comentários superficiais e tendenciosos. Um grupo pequeno que propunha – mesmo que tenha reunido quase meio milhão de pessoas em um único evento, o Festival de Woodstock no verão de 1969, Estado de Nova York, EUA - uma mudança radical de valores e sentimentos e que acreditava num futuro melhor. Revolucionário, enfim. Até já se disse que a diferença entre o conservador e o revolucionário é que o conservador é pessimista com relação ao futuro e otimista com relação ao passado. O revolucionário, também independentemente do que advoga, e da forma como - se violenta ou pacífica, se no terreno das idéias ou da ação -, se caracteriza exatamente por uma profunda confiança (quase sempre de forma exagerada) na capacidade humana em construir a própria história. É o que está na base de todas as utopias, para o bem e para o mal. Para o conservador, o melhor da história já ocorreu. E num passado, preferencialmente remoto, anterior à Revolução Francesa. Normalmente, o conservador é um “crítico das utopias” em nome de uma aparentemente sagrada lucidez. Cena do musical “Hair” No fundo, e nem sempre assumido, é um nostálgico da Idade Média, quando as mulheres e servos “sabiam” seu papel social. Para o revolucionário, por seu lado, a História está por se fazer, o que não tem problema algum, nem se pode dizer ser uma afirmação inconsistente. O problema está em sua crença, a de que a história depende “profundamente” dele, quando não “exclusivamente”. Neste sentido, um tanto ampliado, é tão revolucionário um Stalin, que tentou fazer história a machadadas (como a que desabou sobre a cabeça de Trotsky, outro revolucionário, por exemplo) quanto um Henry Ford, para quem a História não importava, só o presente. Portanto, os conceitos aqui não são empregados com sentido político-ideológico, seja afirmativo ou negativo, mas no sentido em que seus agentes o entenderam, mesmo que equivocados. E o papel da geração baby-boom que assumiu um papel social transformador teve uma especificidade histórico-cultural. O objetivo deste texto, como parte de uma pesquisa mais ampla, é abordar uma utopia que esteve presente numa busca a uma alternativa à Guerra Fria, a que dividia o mundo em dois sistemas políticoideológicos: o capitalista e o comunista. E esta alternativa recebeu vários nomes, mas pode ser sintetizada e historicamente analisada por um conceito: contracultura. Mas a utopia da contracultura não pode 1º Semestre de 2009 Revista ser compreendida sem a cultura, da qual faz parte, mesmo que a negando. E utopia aqui entendido em seu sentido original, de u-topos, de não-lugar, o lugar não existente, a ser construído pela vontade histórica. Mesmo que possa adquirir o sentido em que o senso comum o atribui: como o sonho impossível de se realizar, como uma perda de tempo de sonhadores, ou fanáticos, sem noção de realidade, como mito a ser desmistificado. O mesmo que dizem os céticos com relação a qualquer crença, a qualquer religião, a qualquer, em suma, utopia. Utopia vista como sonho, no sentido de John Lennon deu quando respondeu a quem o chamava de sonhador no sentido pejorativo em “Imagine: “but I’m not only one” (“mas eu não sou o único”). Ou como o “I have a dream” (“eu tenho um sonho”) de Martin Luther King. Há um otimismo na utopia assim como há pessimismo na distopia. Ambos como parte de uma cultura, seja em que sentido for. Conceito de cultura O conceito de cultura é um conceito polissêmico, flexível e complexo. Cultura pode ser vista tanto do ponto de vista da antropologia – cultura como regra -, como do Aufklärung alemão: Bildung cultura como exceção. Do ponto de vista da antropologia – Kultur em alemão – tem mais um sentido de Civilização, como algo pronto, definido. Tem relação com identidade – de um povo, de uma etnia, de uma tribo, de uma classe – e seu peso sobre os corações e mentes é decisivo como alertou Marx sobre “os mortos governando os vivos”. Kultur, também em alemão, tem relação com o Zeitgeist, o espírito do tempo. Foi este sentido que Freud deu ao seu O malestar da civilização - em alemão, Das Unbehagen in der Kultur, (publicado em 1930), e muitas vezes traduzido para o português como O Malestar na cultura, o que é não somente compreensível, como correto, embora impreciso quanto à existência de outro conceito em alemão mais consistente e mais moderno. Freud dá um sentido ao conceito mais antropológico, da cultura como norma, costume e regras dominantes, e como se manifestam no mundo moderno, mesmo que ele distinga com muita precisão os termos Kultur e Zivilization.4 FACOM Nº21 Bildung: formação intelectual, moral e estética Já o conceito de Bildung, surgido no Aufklärung alemão, no Iluminismo da época de Kant, Goethe e Hegel, implica em uma relação com a cultura no plano mais individual, mais privada, mais subjetiva, tendo a ver com educação, mais propriamente formação5: formação intelectual, moral e estética. Um princípio iluminista que procura especificar bem três aspectos decisivos quanto à contribuição individual a um quadro cultural. - Formação intelectual quanto a uma cultura obtida formalmente, cultivada, ligada ao papel da escola na transmissão do conhecimento. Mas racional e lógica, em suma. - Formação moral, que se aproxima do conceito de Kultur, tendo relação com identidade, com valores que não são necessariamente transmitidos, e nem teria como, pela escola, e sim pela família, incluindo nisto o papel da religião. - E, por fim, formação estética, não apenas quanto aos critérios artísticos, mas principalmente quanto ao gosto, que não se aprende apenas na escola ou na esfera privada, mas principalmente na experiência de vida fora desses ambientes. Estética aqui não vista como uma categoria intelectual de juízo artístico, mas com relação a sua origem etimológica do grego aestesia: sentir na pele, mobilizar todos os sentidos na relação com o prazer do que se vê, se ouve, se come, se cheira ou se toca. Na formação intelectual, a ciência; na formação moral, os valores; na formação estética, a percepção. Cultura como regra de um lado, como possibilidade de subversão do outro. Era este o verdadeiro sentido, mesmo que assustador, que lhe dava o dramaturgo nazista Hans Jhost, ao afirmar que quando ouvia a palavra cultura, logo carregava seu revólver, assim como foi este que o banqueiro norte-americano Nelson Rockefeller, parodiando o nazista após a II Guerra, quando afirmou que ao ouvir a palavra cultura logo pegava seu talão de cheques!... 3 Nº21 Revista FACOM 1º Semestre de 2009 Embora profundamente diversos; o nazista e o capitalista, e seus peculiares e específicos modos ideológicos, haviam compreendido bem o significado da palavra cultura. O primeiro em sua truculência contrária a liberdade que a cultura representa; o segundo ao estabelecer com uma sutil graça que tudo passa a ser determinado pelas leis do mercado, o que acabou mesmo ocorrendo no momento que a cultura como Bildung se transformou em cultura como Kultur, a regra vencendo a exceção. Contracultura Contracultura foi o nome que recebeu a rebelião de jovens na segunda metade da década de 60 do século XX, principalmente jovens universitários norte-americanos de classe média que se recusavam a cumprir serviço militar em função da Guerra do Vietnã. Buscando uma vida alternativa, também criavam uma nova música e negavam uma sociedade de alta tecnologia e sociedade de consumo correspondente. O que permitiu a emergência desta categoria social – os jovens – foram as transformações decorrentes do pós-guerra. Eric Hobsbawm chama o período de “era dourada”, pois foi marcada por um desenvolvimento econômico sem precedentes, permitindo não apenas consolidar os Estados Unidos como potência mundial, mas a reconstrução da Europa e o enfrentamento do subdesenvolvimento na América Latina. No Brasil, o governo de Juscelino Kubitschek (19561961) implantou um Plano de Metas que permitiu a instalação da indústria automobilística e a construção de Brasília, apesar do alto endividamento externo. A explosão demográfica, conhecida como babyboom, foi fruto de uma euforia decorrente do otimismo, refletido em números, do período que sucedeu a grande catástrofe. Foi neste período que se consolidou a televisão como utensílio 4 doméstico, incluindo vários outros, entre eles a máquina de lavar roupas, tida recentemente pela Igreja Católica como a verdadeira responsável pela “emancipação” da mulher no século XX, e não a pílula anticoncepcional.6 O crescimento econômico permitiu o surgimento de uma nova, e ampliada, classe média nas áreas metropolitanas, e não apenas nos países desenvolvidos. São os filhos dessa nova classe média, tão bem estudada por C. Wright Mills (intelectual tão importante para a sociologia norteamericana quanto Florestan Fernandes para a brasileira), que vão formar o “exército”, em que pese a ironia, dos batalhões do flower power. Formados pela televisão, tiveram acesso a uma informação mais variada e escolaridade ampliada, inclusive com o fim da separação entre sexos nas escolas tanto no ensino médio quanto no universitário. Com mais tempo, mais informação e mais dinheiro, passaram não só a consumir quanto questionar a sociedade de consumo. Surge assim a categoria social do jovem; consumidor de um lado, sim, mas também pronto para exigir seus direitos de cidadania. Não se trata, portanto, nem de mito, nem de bobagem sociológica, mas de uma nova configuração histórica com todas suas conseqüências. Uma delas, o protesto contra a cultura de seus pais, do american way of life aos limites de um etnocentrismo WASP (branco, anglo-saxão, protestante). A contracultura é, neste sentido básico, uma criação norte-americana, considerase parte de um sonho americano, e influenciou jovens no mundo todo, inclusive no mundo comunista, apesar das restrições de informações. 1º Semestre de 2009 Revista Nº21 através da enorme inventividade e talento de várias bandas, cantores e guitarristas que se revelavam através do rock.10 O historiador Eric J. Hobsbawm, em seu já clássico Era dos Extremos, assim definiu o contexto em que intitulou de “Revolução Cultural “: “A cultura jovem tornou-se a matriz da revolução cultural no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes, nos meios de gozar o lazer e nas artes comerciais, que formavam cada vez mais a atmosfera respirada por homens e mulheres urbanos. Duas de suas características são, portanto, relevantes. Foi ao mesmo tempo informal e antinômica, sobretudo em questões de conduta pessoal. Todo mundo tinha que “estar na sua”, com o mínimo de restrição externa, embora na prática a pressão dos pares e da moda impusesse tanta uniformidade quanto antes, pelo menos dentro dos grupos de pares e subculturas.” 11 Um produto importante da contracultura foi o musical Hair, que está sendo remontado na Broadway neste ano de 2009, o que comprova a atualidade ou mesmo a nostalgia daquele movimento. A peça Hair trazia uma novidade aos palcos tradicionais: era uma ópera-rock. Hair foi um projeto dos atores Gerome Ragni e Divulgação Um ato de rebeldia contra as normas vigentes em todos os níveis: intelectuais, morais e estéticos. Uma revolução cultural mais do que política, apesar das grandes conseqüências políticas. No Brasil, um intelectual teve importância decisiva na divulgação desta tendência: Luís Carlos Maciel, inicialmente através de uma coluna no semanário O Pasquim, intitulada Underground, posteriormente na tentativa de criar publicações próprias.7 Nos três níveis de uma Bildung, os militantes da contracultura refletiam, atuavam e cantavam: no plano intelectual, podiam tanto se dizer inspirados em pensadores como Herbert Marcuse ou Nietszche. Escritores da Beat generation, como o On the road de Jack Kerouac (que está virando filme dirigido pelo brasileiro Walter Salles), ou o Uivo de Allen Ginsberg, assim como o inglês Aldous Huxley (principalmente o de The doors of perception), também tiveram um importante destaque. Podiam ainda se fundamentar nas pesquisas de uma antropóloga como Margareth Mead junto às comunidades de Samoa, no Pacífico sul, nos anos 1920,8 que demonstrava a possibilidade antropológica de uma vida sexual livre, o que fundamentava um novo plano moral para o movimento hippie.9 O que demonstra que contracultura não significava um movimento antiintelectual, a favor da ignorância, mas contra a cultura dominante, a favor de uma nova cultura, em todos os níveis, uma cultura alternativa. No plano estético, o importante papel desempenhado pela música, FACOM Cena do musical “Hair” 5 Nº21 Revista FACOM 1º Semestre de 2009 James Rado, com música de Galt MacDermot, que teve sua estréia off-Broadway em outubro de 1967 no Teatro Público de Joseph Papp, em Nova York. Seu sucesso imediato permitiu ir para a Broadway em abril de 1968, ficando quatro anos em cartaz, com sucesso absoluto, com quase duas mil apresentações em Nova York e com números semelhantes por onde foi montada, como em Londres, por exemplo. No Brasil, Hair foi dirigida por Ademar Guerra (1933-1993) já em 1969, ficando dois anos em cartaz, também com sucesso.12 Um mito marcava a peça, o mito que o movimento hippie incorporou como utopia, a do início de uma nova Era, a Era de Aquário (ver letra de “Aquarius” no Box), que segundo alguns hippies e astrólogos, amadores ou profissionais, teve seu início no dia 14 de fevereiro de 2009, ao encerramento da Era de Peixes, dos dois mil anos de mensagem cristã. A crença na Era de Aquário vem sendo ridicularizada por vários intelectuais céticos, o que não deve surpreender. Desde Aristóteles, passando por Rousseau, sabemos que a diferença entre ficção e história, arte e ciência, está entre a mentira verossímil e o verossímil comprovado. Enquanto a verdade da ciência deve ser confirmada pela pesquisa empírica, a verdade da poesia está na verdade que pode haver na mentira. A Era de Aquário pode ter sido uma invenção que um picareta do tipo Aleister Crowley (guru que Paulo Coelho esconde e John Lennon colocou na capa do Sgt. Peppers) promoveu e se autopromoveu, mas sua incorporação na performance coletiva conhecida como movimento Hippie foi uma atitude estética com toda carga de utopia (no sentido exposto acima) que merece respeito como qualquer crença, por mais ingênua que seja, e que se torna problemática quando vira ideologia, o que no caso da contracultura, seria um contrassenso. O fim de um sonho? 6 Em 1970, John Lennon concedeu uma entrevista ao editor da revista Rolling Stone, Jann Wenner, que lhe perguntou, comentando a letra polêmica da música God, onde afirmava o famoso “The dream is over” (“o sonho acabou” 13): - Quando soube que estava caminhando para o verso “I don’t believe in Beatles” (eu não acredito nos Beatles)? Aquarius When the moon is in the Seventh House And Júpiter aligns with Mars Then peace will guide the planets And love will steer the stars This is the dawning of the age of Aquarius The age of Aquarius Aquarius! Aquarius! Harmony and understanding Sympathy and trust abounding No more falsehoods or derisions Golding living dreams of visions Mysthic crystal revelation Aquarius! Aquarius! John Lennon respondeu que não sabia quando havia chegado ao fim de todas aquelas coisas em que antes acreditava, e que os Beatles também haviam se transformado em um mito que ele não acreditava mais.14 Mas, curiosamente, foi um ano depois daquela entrevista que John Lennon gravou Imagine (1971), onde se declara “sonhador”, e que deu início a uma trajetória mais politizada e só encerrada com os tiros que recebeu de um suposto fã na porta de seu prédio, o Dakota, em Nova York.15 Vários outros fatos poderiam ser levantados como indicações de um fracasso da utopia hippie16: - O massacre comandado pelo guru tido como hippie, Charles Manzon, na casa do cineasta Roman Polanski, onde várias pessoas foram assassinadas, incluindo sua mulher, a atriz Sharon Tate, grávida; - O festival de Altamont, na Califórnia, numa apresentação da banda Rolling Stones, quando um espectador negro, e armado, foi apunhalado por um Hell Angel’s, que fazia a segurança do festival por sugestão da própria banda, em dezembro de 1969; - A radicalização armada de alguns grupos hippies e o aprofundamento da repressão no governo Nixon; 1º Semestre de 2009 Revista God (John Lennon, 1970) God is a concept by which we measure our pain God is a concept by which we measure our pain Yeah, pain yeah, pain I don’t believe in magic I don’t believe in I Ching I don’t believe in Bible I don’t believe in Tarot I don’t believe in Hitler I don’t believe in Jesus I don’t believe in Kennedy I don’t believe in Buddha I don’t believe in Mantra I don’t believe in Gita I don’t believe in Yoga I don’t believe in Kings I don’t believe in Elvis I don’t believe in Zimmerman I don’t believe in Beatles I don’t believe in Beatles I just believe in me Yoko and me And that’s reality The dream is over, what can I say The dream is over yesterday I was the dream weaver but I’m reborn I was the walrus but now I’m John And so dear friends you’ll just have to carry on The dream is over - A transformação da distribuição de drogas numa indústria global de narcotráfico; - A absorção de um estilo de vida a uma indústria da moda e da sociedade de consumo tão criticada pelos hippies, entre outros.17 Mas a questão central do legado da contracultura vai além da piada do jornalista de que o legado de Woodstock foi o renascimento do piolho.18 Hoje, com a vitória de Barak Hussein Obama para presidente dos EUA, só para citar um exemplo representativo, pode-se dizer que as lutas políticas da contracultura pelos direitos civis finalmente vêm obtendo resultados concretos e realistas, e que mesmo se a contracultura tenha sido absorvida pelo mercado (o que não é?), algumas questões ainda são importantes na agenda política, como diz o próprio Obama: FACOM Nº21 “A fúria da contracultura pode ter se dissipado mais em consumismo, opções de vida e preferências musicais do que em comprometimento político, mas os debates relativos a questões raciais, guerra, pobreza e as relações entre os sexos não avançaram”. 19 Portanto, a relação entre a utopia e o conformismo na contracultura implica na diferença entre uma posição aberta às transformações sócio-culturais estabelecidas na agenda político-cultural dos movimentos juvenis dos anos 1960, menos até do que uma plataforma política e ideológica de aspiração ao poder. Imagine (John Lennon, 1971) Imagine there’s no heaven It’s easy if you try No hell below us Above us only sky Imagine all the people Living for today Aha Imagine there’s no country It isn’t hard to do Nothing to kill or die for And no religion too Imagine all the people Living life in peace Yoo-hoo You may say that I’m a dreamer But I’m not the only one I hope some day you’ll join us And the world will be as one Imagine no possessions I wonder if you can No need for greed or hunger A brotherhood of man Imagine all the people Sharing all the world Yoo-hoo You may say that I’m a dreamer But I’m not the only one I hope some day you’ll join us And the world will live as one 7 Nº21 Revista FACOM 1º Semestre de 2009 E principalmente, no que tange a uma vida mais livre, mais natural e menos preconceituosa. Romântica e utópica. Romântica, mas no sentido que lhe dava o filósofo e naturalista Henry David Thoreau (1817-1862), ao criar o importante conceito de “Desobediência Civil”20; tão bem apropriado, com resultados práticos em benefício da humanidade, por líderes como Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela. Utópica, nos dois sentidos, mas alternativa, pelo menos existencial e esteticamente, a um conformismo dominante. Uma questão político-cultural, portanto. E que os versos do jovem Pete Towshend sobre a própria geração que não queria morrer de velhice, que está fisicamente envelhecendo, mesmo tendo se livrado dos piolhos (até porque muitos cabelos caíram), possa significar não a morte do ainda jovem, mas a maturidade alerta e atualizada no século XXI, em que ainda, mais do que nunca, “é preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte/ Tudo é divino, maravilhoso”, como diz a letra de uma música histórica, e contracultural, de Caetano Veloso e Gilberto Gil na bela voz da bela Gal Costa, minha paixão juvenil. 8 1 Palestra realizada como parte do curso FAAP Humanité, em parceria com IDP (Instituto de Direito Público Brasiliense), Brasília, 01 de abril de 2009. 2 Marxismo-lennonismo, mas também poderia ser groucho-marxismo. Na verdade, uma forma metafórica e bem-humorada de quebrar um pouco a sisudez dos bancos acadêmicos. Sobre o groucho-marxismo, ver Bob Black. Groucho-marxismo. Tradução de Michele de Aguiar Vartulli. São Paulo: Conrad do Brasil, 2006. 3 Em ciências humanas, não existe uma distinção clara entre fatores subjetivos e objetivos nas análises de processos sociais. O positivismo acreditou na possibilidade de uma ciência pura, mas as contribuições intelectuais mais significativas na modernidade nunca esconderam suas principais motivações ideológicas. Ideológicos são sempre os outros, uma maneira desonesta de camuflar os próprios interesses. É do importante cientista social norte americano C. Wright Mills, que desenvolveu o conceito de “imaginação sociológica”, a pertinente observação de que condições sociais e intelectuais não excluem uma visão pessoal, sendo este um sentido “sobre a fusão de vida pessoal e intelectual” (Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, pág. 28). 4 Sobre este livro de Freud, ver: Jacques Le Rider; Michel Plon e Gérard Raulet. Em torno de O mal-estar na cultura de Freud. Tradução de Carmen Lúcia Montechi Valladares de Oliveira e Caterina Koltai. São Paulo: Escuta, 2002. E Jean-Michel Quinodoz. Ler Freud. Guia de leitura da obra de S. Freud. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2007, pp. 257-263. 5 Uma boa introdução ao conceito tal como está trabalhado aqui é dada pelo francês Victor Hell: A idéia de cultura (São Paulo, Martins Fontes, 1994) e um desenvolvimento mais detalhado em Dieter Schwanitzer: Cultura geral (São Paulo, Martins Fontes, 2006), Bildung no original. É bastante interessante a vida deste professor de história da cultura na Alemanha que teve de se aposentar para publicar sua obra principal porque quando na ativa ocupava seu tempo em preencher relatórios exatamente sobre sua produtividade (!). Morreu quando o livro foi publicado na Alemanha e não pode ver o sucesso que se tornou com mais de 2 milhões de livros vendidos. Ironias da academia!!!... Se num país desenvolvido isto ocorre, imagine num atrasado!... 6 “Emancipação feminina em três velocidades”. Revista da Semana. 19 de março de 2009, pp.10-11. 7 No O Pasquim de 08 de janeiro de 1970, Maciel publicou um Manifesto Hippie, em que comenta a diferença de visões de mundo, estabelecendo um contraste entre o que chama de “velha razão” e “nova sensibilidade”. Uma análise desta comparação pode ser vista em Cláudio Novaes Pinto Coelho. “A contracultura: o outro lado da modernização autoritária”. In: Anos 70: trajetórias. São Paulo: Iluminuras/ Itaú Cultural, 2005.pp.41-44. 8 Orientanda de Franz Boas na Universidade de Colúmbia, Nova York – mesma universidade e mesmo orientador de Gilberto Freyre -, Margareth Mead (1901-1978) escandalizou meios acadêmicos e sociais quando sua tese sobre a vida sexual de jovens de Samoa foi publicada em 1928, com o título Coming of age in Samoa. Neste trabalho, que ganhou imediata repercussão, favorável ou desfavorável, a autora defendia que os jovens de Samoa viviam felizes, longe de tabus e repressões sexuais. Nos anos 1960 foi lido como possibilidade de uma vida sexual livre, e nos anos 1980 foi violentamente questionado por outro antropólogo, Derek Freeman, em plena Era Reagan, que considerou aquele trabalho um mito a ser destruído. Sobre esta polêmica, 1º Semestre de 2009 Revista ver: Hal Hellman. Grandes debates da ciência. Tradução de José Oscar de Almeida Marques, 1999, pp. 227-246. 9 Um detalhado relato sobre o comportamento sexual no período pode ser encontrado no trabalho do jornalista Gay Talese. A mulher do próximo. Uma crônica da permissividade americana antes da era da Aids. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 10 Uma história desta explosão estética pode ser visto em: Paul Friedlander. Rock and Roll. Uma história social. Tradução de A. Costa. Rio de Janeiro: Record, 2002. 11 Eric J. Hobsbawm. “Revolução cultural”. In: Era dos extremos. O breve século XX. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pág. 323. 12 A montagem em São Paulo, apresentada inicialmente no Teatro Bela Vista, foi depois para o Teatro São Pedro. Com o sucesso, inaugurou o Teatro Aquarius, no antigo Cine Rex, (que depois virou Teatro Záccaro, onde era gravado o programa de televisão Perdidos na Noite nos anos 1980., programa de Fausto Silva, um programa (talvez não intencionalmente) um tanto contracultura que depois virou mainstream na Rede Globo de Televisão). A montagem paulista de Hair foi por mim assistida, com o entusiasmo dos 20 anos, cabelos longos, rebeldia sem causa e calças rasgadas, umas dez vezes, acredito. Pode ter sido menos, mas lembro até das mudanças do elenco, que tinha Altair Lima, Aracy Balabaniam, Antonio Fagundes, Sônia Braga, Ney Latorroca, Helena Ignês, entre outros. O elenco mudava quase sempre, mas em todas as vezes que assisti, Armando Bógus estava presente. Lembro-me também de ter lido no Pasquim, minha leitura preferida na época, um comentário ácido de Paulo Francis sobre a idade dos “hippies” da montagem brasileira, considerados um pouco velhos para o papel de jovens hippies: “É que eles são hippies da 2ª Guerra...” 13 É do brasileiro Gilberto Gil, na mesma época, os versos musicados: “O sonho acabou/Quem não dormiu num sleep-bag/ nem sequer sonhou...” 14 Rolling Stone – as melhores entrevistas da revista Rolling Stone. Editadas por Jann S. Wenner e Joe Levy. Tradução de Emanuel Mendes Rodrigues. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008, pág. 44. 15 Sobre esta trajetória de John Lennon nos anos 1970, e a perseguição política realizada pelo Estado norte-americano do período, ver o filme The U.S. vs. John Lennon, David Leaf & John Schenfield, 2006. E uma biografia completa de Lennon em Philip Norman. John Lennon – A vida. Tradução de Roberto Muggiati. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 16 Em 06 de outubro de 1967, nas esquinas das ruas Haight-Ashbury, em São Francisco, Califórnia, ponto FACOM Nº21 de encontro mais famoso dos hippies, foi celebrado “A Morte do Hippie”, uma grande manifestação que ironizava o fim do movimento. Cf. David Farber. “The Intoxicated State/Illegal Nation: Drugs in the Sixies Couterculture. In: Peter Braunstein & Michael William Doyle (orgs). Imagine Nation. The american counterculture of the 1960s & 1970s. New York Routledge, 2002, pg. 36. 17 Sobre isto, ver: Joseph Heath & Andrew Potter. Nation of rebels. Why Counterculture Became Consumer Culture. New York: Harper Collins, 2004. 18 V. Ruy Castro. “O legado de Woodstock”. Opinião. Folha de São Paulo. 06/04/2009, A2. 19 Barak Obama. A audácia da esperança. Reflexões sobre a reconquista do sonho americano. Tradução de Candombá. São Paulo: Larousse do Brasil, 2007, pág. 41. O presidente Obama também resgatou em início de seu mandato uma “utopia de um mundo sem armas nucleares” (Revista Veja. Edição 2108. 15 de abril de 2008, pp. 66-67.), uma agenda típica da contracultura. 20 Sobre uma boa introdução ao conceito de Henry D. Thoureau, ver: Andrew Kirk. Desobediência civil de Thoureau. Tradução de Débora Landsberg. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. ADORNO, Theodor W. As estrelas descem à terra. A coluna de astrologia de Los Angeles Times. Um estudo de superstição secundária. Tradução de Pedro Rocha de Oliveira. São Paulo: Unesp, 2008. BLACK, Bob. Groucho-marxismo. Tradução de Michele de Aguiar Vartuli. São Paulo: Conrad do Brasil, 2006. BRAUNSTEIN, Peter; DOYLE, Michel William (edtd.). Imagine Nation. The american counterculture of the 1960s & 1970s. New York: Routledge, 2002. FEIJÓ, Martin Cezar. “A Força da Imaginação ou o Blefe do Jogador. Espiritualidade e entretenimento na era da globalização”. Revista Facom. 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Tradução de Beatriz Silke Rose, Eurides Avance de Souza e Inês Antonia Lohbauer. São Paulo: Martins, Fontes, 2007. TALESE, Gay. A mulher do próximo. Uma crônica da permissividade americana antes da era da Aids. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. WENNER, Jann S. & LEVY, Joe (editores). Rolling Stone. As melhores entrevistas da revista Rolling Stone. Tradução de Emanuel Mendes Rodrigues. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. Amazing journey – The Story of The Who (Paul Crowder, EUA, 2007). B’Way – Broadway - American musical. 100 anos de entretenimento.Vol. 5 – “Tradição” (1957-1979). Gimme Shelter (David Mayles/Albert Mayles/ Charlotte Zwerin, EUA, 1970). Hair (Hair, Milos Forman, EUA, 1979). Jack Kerouac – O Rei dos Beats (Jack Kerouac: King of the Beats, John Antonelli, EUA, 2001). Grass (Ron Mann, Canadá, 2000). Revolução dos hippies (The hippie revolt, Edgar Beatty, EUA, 1967). The U.S. vs. John Lennon (David Leaf & John Scheinfeld, EUA, 2006). Woodstock (Michael Wadleigh, EUA, 1969).