Comunicação não-violenta: sexualidade da criança e o papel da enfermagem
Maria Clara Galindo de Oliveira1
Rafaela Domingos da Cunha2
Este artigo tem como objetivo apresentar problematizações teóricas sobre o conceito de
“comunicação não-violenta” de Marshall B. Rosenberg (2006) e a assistência de
enfermagem para contribuição do conhecimento das necessidades da criança em fases
do desenvolvimento da sexualidade infantil, que surge no período da lactância na busca
pela reprodução do prazer, carinho e nutrição que conheceu durante a amamentação,
tornando visíveis os processos sexuais na infância ao desconstruir a ideia da puberdade
como o momento do despertar da pulsão sexual. Logo, a comunicação não-violenta no
cenário da sexualidade infantil preza pela identificação das necessidades da criança
através da compreensão respeitosa das fases de seu desenvolvimento, sem préjulgamentos e punições para as experimentações da sexualidade, onde os pais atuem
como facilitadores e orientadores, a fim de evitar distúrbios das funções sexuais e nãosexuais do corpo da criança.
Palavras-chave: Educação sexual; Infância; Comunicação
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Graduanda de Bacharel em Enfermagem pela Universidade Federal da Paraíba.
Graduanda de Bacharel em Enfermagem pela Universidade Federal da Paraíba.
Preâmbulo
O sentimento moderno de infância está sujeito a concepções várias que por vezes
se complementam, mas também podem divergir entre si. Numa, a infância é vista como
um mundo paradisíaco pautado em conceitos de pureza, inocência e assexualidade que,
associados a uma noção religiosa de pecado, coloca as crianças numa posição de
exemplo e correção para os adultos (GUERRA, 2005). Em contraponto a essa ideia,
surge a da criança exposta como ser incompleto e imperfeito, dependente da
moralização e da educação ministradas pelo adulto, negando-lhe autonomia e
caracterizando-a como imatura (SCHINDHELM, 2011). E, ainda, coexistindo com essa
noção de indivíduo a ser moralizado e educado pelos adultos, temos a criança como ser
dotado de uma perigosa predisposição precoce à sexualidade, onde então seria
imperativo que lhe fossem governadas e contidas as imprudências para que essa
sexualidade somente se manifestasse num futuro distante.
Por mais variadas que sejam, em todas essas concepções prevalece a ideia da
infância como naturalmente pura, e, partindo de uma visão de sexo associada ao
proibido, ao pecado e ao sujo, todo e qualquer aspecto seu deve ser mantido oculto
nesse período idealizado. A manutenção desse imaginário de pureza implica num
silenciamento e numa negação dos saberes e da curiosidade que a criança naturalmente
manifesta sobre a sexualidade.
Nesse cenário, já começam a despontar as primeiras noções ambivalentes que é
feita entre os conceitos de sexo e sexualidade, dois termos que normalmente são usados
como sinônimos e que, no entanto, referem-se cada um a dimensões distintas, ainda que
dialógicas, do humano. O sexo, entendido a partir do aspecto biológico, engloba a ideia
de gênero – masculino e feminino – e volta-se para a função reprodutiva e as
capacidades instintivas. A sexualidade, no entanto, vai para além das partes do corpo,
abrangendo um sem-número de manifestações que buscam o prazer e a felicidade, e não
necessariamente trarão sempre consigo vistas ao ato sexual que objetiva a propagação
da espécie.
Neste sentido, os autores Costa e Oliveira (2011) argumentam:
A sexualidade forma parte integral da personalidade de cada um. É
uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser
separado dos outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de
coito e não se limita à presença ou não do orgasmo. Sexualidade é
muito mais do que isso, é a energia que motiva a encontrar o amor, o
contato e a intimidade e se expressa na forma de sentir, na forma de as
pessoas tocarem e serem tocadas. A sexualidade influencia
pensamentos, sentimentos, ações e interações e tanto a saúde física
como a mental. Se a saúde é um direito humano fundamental, a saúde
sexual também deveria ser considerada como um direito humano
básico (OMS, 1975; COSTA & OLIVEIRA, 2011).
Feita essa distinção, abre-se espaço para a discussão em torno da sexualidade
infantil, enquanto primeiras impressões de prazer e de corpo em uma relação íntima
com o exercício da curiosidade que é tão próprio do ser criança. Dessa forma, ao
perceber a criança como um ser sexualizado, é possível aceitar que a sua sexualidade é
uma força dinâmica e determinante no desenvolvimento de sua felicidade.
No que tange os estudos de Sigmund Freud (2006) o psicanalista afirma que faz
parte da opinião popular que a sexualidade estaria ausente na infância e tão somente
começaria a se manifestar no período da puberdade. Essa ideia é definida por ele, não
apenas como um erro qualquer, mas como um equívoco de graves consequências, pois
acreditava que a primeira infância contém o material central para a formação da
sexualidade do adulto.
Ao entrar nessa temática, Freud, a princípio, estava engajado na busca do
tratamento para os casos de distúrbios de histeria, ou seja, tentava solucionar problemas
emocionais apresentados por seus pacientes já adultos. Foi assim que, pesar de a criança
não ter sido seu ponto de partida, Freud foi capaz de desenvolver a teoria da sexualidade
infantil e estabelecer a importantíssima ligação entre a forma como a sexualidade é
vivida e desenvolvida na infância e suas manifestações na posterior idade adulta,
expondo que, desde seu nascimento, o indivíduo é dotado de afeto, desejo e conflitos
(COSTA & OLIVEIRA, 2011).
Primeiros passos: sexualidade infantil e a importância da enfermagem
A mais tenra sexualidade da criança surge ainda no período da lactância na forma
do carinho e da nutrição vividos durante a amamentação. Não só pela satisfação da
alimentação, mas pelo prazer do amor que recebe da mãe, a criança desenvolve a
capacidade de reconhecer os meios que lhe conferem deleite e felicidade e de como
reproduzir essas sensações, e a sua sexualidade começa como uma busca por um prazer
já vivenciado que então tenta ser relembrado (FREUD, 2006). Logo percebe-se que a
grande dificuldade no trabalho de Freud em definir o que era sexual na infância não
consistia somente na condição situacional da época em que viveu, mas também na ideia
de que isso implicaria em caracterizar o que um bebê ou criança vive em sua mente
como sendo de natureza sexual.
A criança já nasce predestinada a ser do sexo masculino ou feminino. A sua
sexualidade, no entanto, será um processo de construção a partir dos seus costumes,
vínculos e relações afetivas, onde valores culturais sobre gênero, corpo, identidade e
orientação sexual lhe serão passados. Vale ressaltar que esses valores são, muitas vezes,
repressivos e normativos, em especial na escola, onde o controle dos corpos é
constantemente praticado e onde é exercida uma postura de determinismo do sexo com
foco nos aspectos biológicos da espécie, na formação para a vida em coletividade e no
projeto civilizatório (SCHINDHELM, 2011).
É na primeira infância que as crianças começam a formar suas ideias sobre sexo,
gênero e sexualidade com base na observação e vivência com família, educadores e
mesmo com outras crianças, de tal forma que a educação para a sexualidade vai incluir
também a questão de gênero, onde as meninas serão remetidas a atributos entendidos
como femininos, e os meninos, a qualidades esperadas da população masculina
(SCHINDHELM, 2011). O que fica fortemente pontuado na observação das
brincadeiras infantis, porém, é que a criança não traz em si a prática sexista, e que, na
verdade, a oposição e a hierarquia dos sexos vão sendo aprendidas por elas no espaço
familiar e na escola (FINCO, 2003).
A brincadeira é uma das práticas mais propícias para se observar os
conhecimentos naturais da criança acerca das relações de gênero, pois é nesse momento
que ela se mostra como produtora de cultura. O momento da brincadeira costuma
aparecer como um momento de “transgressão”, onde a criança se permitirá não ser o
que o adulto espera dela e essa vivência de novas possibilidades de ser menino e de ser
menina não carregam uma conotação negativa e preocupante para a criança.
Um estudo realizado em uma escola particular de Educação Infantil no município
de Porto Alegre com crianças na faixa etária dos cinco anos J. Guerra (2005) constatou
que as crianças falavam muito sobre sexualidade, por vezes, de maneira explícita, mas
muitas vezes utilizando-se de sutilezas e estratégias para expressarem “aquilo que os
adultos não deveriam saber”. Esse comportamento deixa claro como a sexualidade e a
curiosidade são características presentes desde a mais tenra infância, e, mais que isso,
como as condutas frente a essa temática já são condicionadas ao que as crianças
percebem nos adultos: atitudes desveladas de silêncios e segredos. Na observação das
brincadeiras das crianças, notou-se ainda uma outra atitude que remonta ao imaginário
adulto: uma associação de sexualidade com aspectos de sujeira.
Neste grupo de crianças também foi observada a importância do comportamento
de olhar e ser olhado, apontando para o fato de que aprender sobre sexualidade, para a
criança, vai além dos discursos, e que tanto o silêncio quanto a fala lhe ensinam. Trouxe
também como questionamento o paradoxo da atitude do silêncio, ou mais precisamente
do silenciamento, tão prezado pelos pais e educadores. Na mentalidade adulta, esse
cuidado está associado à ideia de que a criança deve se manter inocente e pura em
relação aos desejos adultos, mas essa atitude de quem “caminha sobre ovos” termina por
conotar à sexualidade uma espécie de exaltação ao segredo, o que na visão da criança
pode ser simplesmente um incentivo a mais à sua vontade de saber e questionar. A
tentativa de sufocar a natural curiosidade infantil termina não sendo bem-sucedida,
alcançando apenas uma limitação da sua manifestação livre e expressão franca, de tal
forma que já desde a infância aprende-se que todo e qualquer aspecto relacionado ao
prazer pertence à esfera do segredo e do privado.
O que se extrai dessa conduta envolta em cautela é um receio de que os
conhecimentos a respeito da sexualidade possam prejudicar as crianças, ou seja, que os
conhecimentos levariam à prática precoce. Isso em vista, vem à tona uma dúvida: as
brincadeiras das crianças podem mostrar-se como um movimento de romper com as
barreiras que impedem a expressão da sexualidade, mas, ao mesmo tempo, também
podem estar associadas a uma ampla divulgação da erotização dos corpos em nossa
sociedade e a uma necessidade constante de se falar sobre a sexualidade (GUERRA,
2005).
Em Guerra (2005), é pontuada a argumentação de Giroux e Mac Laren (1995) de
que “existe uma pedagogia em qualquer lugar em que o conhecimento é produzido, em
qualquer lugar em que exista a possibilidade de traduzir a experiência e construir
verdades” (GIROUX & MAC LAREN, 1995; GUERRA, 2005), de tal forma que no
diálogo entre pais e filhos bem como no diálogo entre o enfermeiro e a família essa
pedagogia existe.
Assim, ressalta-se que, numa prática pedagógica aberta e criativa, deve haver o
compromisso de se considerar a criança como um ser que pensa, constrói, interpreta,
relaciona e age sobre o conhecimento, observando de que forma elas o utilizam e como
ele pode ser trazido para também ser transformado em novas experiências. Nessa
prática, serão requeridos do educador conhecimentos de gênero e sexualidade infantil a
serem aplicados em posturas responsáveis que evitem dúvidas, conflitos e orientações
ambivalentes para as crianças (SCHINDHELM, 2011). É essencial que a educação dada
à criança preze pela manutenção da relação não-hierárquica e de respeito entre os
gêneros que permeia as relações entre meninos e meninas de forma a evitar que os
preconceitos e discriminações construídos culturalmente nas relações dos adultos
contaminem a cultura da criança (FINCO, 2003).
O que é visto, porém, é uma pedagogia que emprega métodos de vigilância e
controle na intenção de assegurar sujeição e impor docilidade. No diálogo com a
sexualidade, os discursos acerca do sexo pedem por uma autoridade instituída e
legitimada pelo social que dele falaria, de tal forma que, refletindo junto às teses
foucaultianas, percebe-se que a chamada repressão do sexo e da sexualidade não
implica de fato no silêncio total em relação ao sexo, mas numa multiplicidade de
estratégias onde proliferam discursos convidativos a enunciar a sexualidade sob o olhar
vigilante dessas autoridades morais (SCHINDHELM, 2011). Entende-se então que,
muito mais do que reprimir, é necessário ocultar e vigiar a sexualidade para controlar os
indivíduos e o comportamento da população, metodologia a ser imposta desde a
infância, onde o sexo seria vigiado e controlado observando as regras de decência e de
moral em seu processo civilizador (GUERRA, 2005). Nessas estratégias de controle dos
corpos os saberes sobre a sexualidade são negados, e o que resta são divisões de sexo e
de idade, contenção da expressão da sexualidade e a impugnação da sexualidade de
sentimentos de vergonha e embaraço.
Contribuindo para esse quadro, existe também uma censura da linguagem
utilizada sobre sexo e sexualidade que define quem e em quais espaços se pode falar de
sexo, de que maneira, em que situações e em que relações sociais, empregando a esse
diálogo uma conotação de tensão que dificulta até mesmo a referência aos nomes dos
órgãos sexuais, ouvidos quase como um palavrão num tom de voz acabrunhado
(GUERRA, 2005). Tudo isso reforça uma vez mais a ideia de sexo como pecado e
proibido, e a prática de referir-se aos órgãos sexuais através de apelidos quando se
conversa sobre sexualidade com crianças parece tentar desfazer uma associação direta
entre os órgãos sexuais com o que seria embaraçoso para os adultos: as relações sexuais
e a sexualidade. Essas regras de discurso chegam a tal ponto que recomendar aos
educadores que utilizem os termos científicos ao nomear e tratar a sexualidade dentro
do espaço da escola legitima essa aprendizagem, tornando todas as outras, quando
relacionadas a outros espaços sociais, inclusive o espaço familiar, não autorizadas,
levando a família a relegar a educação sexual de seus filhos à escola.
O problema dessa transferência de papeis é que os primeiros educadores da
sexualidade da criança são os pais, mesmo porque a primeira experiência de prazer que
a criança vive é com a mãe e a amamentação, e o padrão de relacionamento que existe
entre pais e filhos é o modelo que a criança reproduzirá em seus relacionamentos
futuros. A criança possui uma qualidade observadora que termina por demonstrar como
essa educação oferecida pelos pais é inconsciente, pois as atitudes destes tem maiores
consequências do que suas falas, o que não é muito difícil de conceber quando se traz à
tona a dificuldade que os pais têm em falar sobre sexualidade com seus filhos, em
especial na primeira infância, o que, na maioria esmagadora das relações intrafamiliares,
culmina num silêncio em torno dessa temática. O constrangimento diante do assunto
pode ser uma barreira ao diálogo, assim como a carência de informações sobre
sexualidade. É a partir daí que surgem atitudes rígidas e moralistas por parte dos pais,
buscando um domínio sobre a sexualidade de seus filhos sem prever que, a partir desse
comportamento, acarretam como consequência um desenvolvimento da sexualidade
sujeito a complexos e culpabilidade.
No que concerne o papel dos pais, orienta-se para a atenção aos questionamentos
da criança e ao cuidado de responder-lhes de maneira verdadeira, sem omitir, mentir ou
entrar em detalhes desnecessários, restringindo-se às perguntas feitas. Tratar as
perguntas das crianças com negligência pode incitar nelas a sensação de não poder
confiar naquele que está próximo para ajudá-la a resolver suas angústias (COSTA &
OLIVEIRA, 2011).
A qualidade da comunicação intrafamiliar está intimamente ligada à saúde
familiar, pois uma interação positiva permite aos membros da família e à própria família
crescer e desenvolver-se no livre desempenho de seus papeis. Por outro lado, se existe
perturbação e negatividade nessa interação, a dificuldade ou impossibilidade do
desenvolvimento de um ou mais membros da família culmina num desequilíbrio da
dinâmica da saúde familiar como um todo.
Essa interação difícil normalmente é vista quando os familiares não sabem como
lidar com o processo de desenvolvimento da sexualidade, tanto na infância de seus
filhos quanto na adolescência, muitas vezes usando de práticas de repressão para
manifestações que em verdade são normais para essas fases. É necessária uma avaliação
do tipo de comunicação que será usada pelos pais ao falar de sexualidade com seus
filhos, e que ela deve adequar-se ao grau de amadurecimento e à etapa de vida que eles
estão vivendo. E no que diz respeito ao profissional enfermeiro, que tem como
pressuposto, o compromisso de cuidar do ser humano, é atribuída a responsabilidade de
lidar com todas as necessidades humanas, entende-se que ele deve estar preparado
também para lidar com a sexualidade em todas as fases do ciclo de vida humano, e,
portanto, na fase da infância e da adolescência, acolher as dúvidas familiares e
aconselhar os pais quanto as manifestações da sexualidade nesse período (FIALHO &
MARANHÃO, 2011).
Quando a Estratégia Saúde da Família (ESF) surge em 1994 como proposta à
forma de se pensar saúde no país de forma que fossem incorporados ao modelo
assistencial os princípios do SUS, a enfermagem brasileira parece começar a se voltar
mais para a redefinição do seu objeto de trabalho com foco na família. Nesse foco, é
necessário compreender a individualidade de cada membro bem como a forma que se
dão as relações intrafamiliares e a comunicação na qual essas relações se baseiam
(MARCON & WAIDMAN, 2003). Isso inclui também o difícil papel de identificar e
lidar com possíveis formas de violência intrafamiliar.
Segundo Zottis, Algeri e Portella (2006), a violência familiar é um fenômeno de
difícil detecção por se dar dentro do ambiente privado do lar. A noção de privacidade é
também um obstáculo à ação dos profissionais de saúde pois sua intervenção pode ser
vista como uma tentativa de invasão dessa privacidade. No entanto, é sabido que as
vítimas da violência dentro da família são seus membros mais vulneráveis, ou seja,
mulheres e crianças. E, no que toca à criança, a violência doméstica é expressão de um
modelo de educação que objetiva torna-la dócil e obediente.
Sem desmerecer a importância da intervenção na violência física contra a criança
dentro do espaço familiar, esse estudo foca, porém, na violência psicológica, ou
violência verbal, que muitas vezes é menosprezada pela compreensão errônea de que a
violência somente se dá se implica em bater ou espancar. O que não se percebe é que,
na verdade, a violência na comunicação é a que fornece combustível à violência física.
Foi a partir desse tipo de reflexão que o psicólogo americano Marshall B.
Rosenberg (2006) desenvolveu a abordagem que chamou de “Comunicação NãoViolenta” (CNV), usando o termo “não-violência” com o mesmo sentido usado por
Gandhi, o de que o ser humano retorna a um estado compassivo que lhe é natural
quando afasta a violência de si. Em seu livro, Rosenberg explica que a CNV ajuda a
reformular a maneira como nos expressamos e ouvimos os outros. Em vez de meras
reações automáticas e repetitivas, com a CNV as interações são baseadas na consciência
do que se percebe, sente e deseja e numa atenção respeitosa e empática ao que o outro
manifesta sem fazer julgamentos ou diagnósticos (ROSENBERG, 2006).
Para que essa comunicação aconteça, são necessários quatro componentes:
observação, sentimento, necessidades e pedido. Primeiro, deve-se observar a fala ou a
atitude do outro, sem emitir julgamento ou avaliação, mas simplesmente percebendo o
que lhe agrada ou não na ação do outro. Em seguida, identifica-se o sentimento que a
observação daquela ação lhe inspira. Em terceiro lugar, reconhece-se quais necessidades
suas estão ligadas ao sentimento que foi identificado. Por fim, o pedido é um desejo,
algo específico com o objetivo de lhe fazer bem e que o outro possa lhe dar, e nunca
uma exigência. Esse é um dos lados da CNV. O outro lado consiste em receber essas
quatro informações do outro. Nesse processo, a atenção se volta para as necessidades
tanto de si quanto do outro, e se desvia do hábito de analisar, classificar e determinar
níveis de erro no comportamento do outro.
Para a enfermagem, as expressões da sexualidade infantil devem ser
compreendidas e aceitas como um processo semelhante aos outros aspectos do
desenvolvimento
humano,
sejam
eles
linguagem,
desenvolvimento
motor,
desenvolvimento cognitivo, entre outros. Isso implica reconhecer que a criança não é
um adulto em miniatura, e que, se por um lado a sexualidade já está presente desde a
infância, por outro, expor a criança a estímulos sexuais do tipo que permeiam o mundo
adulto pode ser problemático para o seu desenvolvimento saudável (FIALHO &
MARANHÃO, 2011).
Subjugar a criança à comunicação violenta também pode comprometer seu
desenvolvimento saudável, e esse comprometimento pode ser decididamente no âmbito
da vida sexual adulta se a comunicação for empregada para reprimir manifestações
sexuais durante a infância. Cabe ao enfermeiro, então, no acompanhamento do
indivíduo desde o nascimento, orientar os pais quanto ao que é esperado em cada fase
da infância no que tange ao desenvolvimento da sexualidade bem como ao uso de uma
comunicação que preze pela não-violência considerando-se as consequências danosas
ao desenvolvimento e bem-estar da criança que podem advir dessa atitude.
Para que essa postura seja assumida por enfermeiras e enfermeiros, porém, é
necessário atentar para o fato de que os mesmos constrangimentos e silêncios
observados em pais e educadores também permeiam o tema da sexualidade na formação
em enfermagem. Embora esteja presente em todos os momentos vividos pelo
enfermeiro, ainda é mantida encoberta e invisibilizada, e um sinal disso é a carência de
estudos e discussões realizadas tanto em nível acadêmico quanto na prática profissional,
além de que, quando essas discussões acontecem, limitam-se à abordagem biologicista
do ato sexual enquanto fator de risco, destacando-se o planejamento familiar e a
prevenção de DSTs (BRÊTAS, OHARA & QUERINO, 2008).
É consensual, portanto, que o obstáculo maior para pais, educadores e enfermeiros
no manejo da sexualidade na infância não é essa fase do ciclo da vida em si, mas uma
dificuldade em geral de se tratar desse assunto. Enquanto a sexualidade for permeada de
medos e segredos, lidar com ela em qualquer momento parecerá delicado e demandará
estratégias que evitem traumas e distúrbios de funções sexuais e não-sexuais.
Para finalizar, a comunicação não-violenta preza pela observação sem julgamento
e pela compreensão respeitosa do que os outros estão vivendo, de forma que os pais, na
posição de facilitadores e orientadores do desenvolvimento de seus filhos, possam
esquivar-se à tendência de determinar níveis de erro nas ações das crianças e punições
para elas e concentrarem no que de fato estão sentindo e precisando. Assim, tanto a
compreensão mais lúcida da sexualidade infantil quanto a não-violência podem ser
expostas aos pais pela enfermeira, cuja assistência apropriada à criança e à família
devem estar embasadas no conhecimento das necessidades da criança de acordo com as
fases de seu desenvolvimento, com o intuito de contribuir para uma educação sexual
peltada no dialogo compreensivo e não meramente vigiado e punitivo.
REFERÊNCIAS
BRÊTAS, J. R. S.; OHARA, C. V. S.; QUERINO, I. D. Orientação sobre sexualidade
para estudantes de enfermagem. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, n. 21, v. 4, p.
568-574, 2008.
COSTA, E. R.; OLIVEIRA, K. E. A sexualidade segundo a teoria psicanalítica
freudiana e o papel dos pais neste processo. Itinerarius Reflectionis, Jataí, v. 2, n. 11,
2008.
GUERRA, J. Dos “segredos sagrados”: gênero e sexualidade no cotidiano de uma
escola infantil. Porto Alegre: UFRGS, 2005.
FIALHO, K. S. S.; MARANHÃO, D. G. Desenvolvimento infantil e sexualidade:
implicações para a enfermagem. Revista de Enfermagem UNISA, Santo Amaro, v. 12,
n. 2, p. 133-135, 2011.
FINCO, D. Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e meninas na educação
infantil. Pro-Posições, Campinas, v. 14, n. 13, set/dez 2013.
MARCON, S. S.; WAIDMAN, M. A. P. A enfermagem frente a problemas de
relacionamento na família. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 56, n. 3, p.
248-253, maio/jun 2003.
ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta: técnicas
relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
para
aprimorar
SCHINDHELM, V. G. A construção da sexualidade infantil: considerações sobre o
papel do educador. In: Congresso Nacional de Psicologia Escolar e Educacional, 10.,
2011, Maringá. Caderno dos Trabalhos Completos do X CONPE. Maringá: UEM, 2011.
p. 173-187.
ZOTTIS, G. A. H.; ALGERI, S.; PORTELLA, V. C. C. Violência intrafamiliar contra a
criança e as atribuições do profissional de enfermagem. Família, Saúde e
Desenvolvimento, Curitiba, v. 8, n. 2, p. 146-153, maio/ago 2006.
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