COORDENADAS PARA OS CENTROS DO TRIÂNGULO Augusto C. Morgado Rio de Janeiro, RJ Introdução Escolhido um sistema de coordenadas e dados os pontos não alinhados, A = ( x1 , y 1 ) , B = ( x 2 , y 2 ) , C = ( x 3 , y 3 ) , é bastante conhecido que o baricentro G (ponto de encontro das medianas) do triângulo ABC pode ser determinado por G= A+ B +C , 3 notação que significa: G = ( x, y ) com x = x1 + x 2 + x 3 3 y= e y1 + y 2 + y 3 . 3 Na RPM 03, pág. 33, já se mostrou que o incentro I (ponto de encontro das bissetrizes internas) do triângulo ABC pode ser aA + bB + cC , sendo a, b e c as medidas dos determinado por I = a+b+c lados opostos aos vértices A, B e C, respectivamente. A notação utilizada tem o mesmo significado estabelecido anteriormente, isto é, I = ( x, y ) com x= ax1 + bx 2 + cx 3 a+b+c e y= ay1 + by 2 + cy 3 . a+b+c O leitor, provavelmente, já notou que há algo comum a essas fórmulas: em ambas, o centro é uma média ponderada dos vértices − com pesos iguais a 1, no caso do baricentro, e iguais aos lados, no caso do incentro. 26 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA Vamos determinar expressões análogas para o ortocentro (ponto de encontro das alturas) e para o circuncentro (ponto de encontro das mediatrizes dos lados) do triângulo ABC. Ortocentro Vamos considerar um triângulo não retângulo, pois não há nenhuma dificuldade na determinação do ortocentro de um triângulo retângulo − é o vértice do ângulo reto. C γ No triângulo ABC representamos os pés das alturas relativas aos vértices A, B e C por A1, B1 e C1 respectivamente. B1 H A A1 β α C1 B AB1 tg γ = . Logo, o B1C tg α divide o lado AC em segmentos proporcionais a tan γ e Como BB1 = AB1 tg α = B1C tg γ , temos ponto B1 tan α . tg γ AC , ou, em coordenadas: tg α + tg γ tg γ B1 = ( x, y ) com ( x − x1 , y − y1 ) = ( x 3 − x1 , y 3 − y 1 ) . tg α + tg γ A tg α + C tg γ Daí, B1 = , com a notação definida anteriormente. tg α + tg γ Portanto, o vetor AB1 = De modo análogo, C1 = Atg α + Btg β . tg α + tg β REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 43, 2000 27 Como o vetor BH é um múltiplo do vetor BB1 e o vetor CH é um múltiplo do vetor CC1 , temos: BH = λ BB1 Como CH − BH = CB , temos µ(C1 − C ) − λ ( B1 − B ) = B − C . e CH = µ CC1 . µCC1 − λ BB1 = CB , isto é, Vamos determinar o valor de λ . Essas fórmulas acima valem qualquer que seja a origem do sistema, O, adotada. Podemos simplificar os cálculos adotando a origem no ponto C, isto é, C = ( x 3 , y 3 ) = (0, 0) . Substituindo os valores anteriormente encontrados para B1 e C1, obtemos: A tg α + B tg β A tg α µ −λ + λB = B tg α + tg β tg α + tg γ µ tg α λ tg α µ tg β A + − + λ − 1 B = 0 . tg α + tg β tg α + tg γ tg α + tg β ter Como A − C = A = CA B − C = B = CB não são paralelos, devemos µ tg α µ tg β λ tg α = 0 e − + λ − 1 = 0 . tg α + tg β tg α + tg γ tg α + tg β Resolvendo o sistema, encontramos λ = Como BH = λ BB1 , valor de B1, obtemos H= temos tg α + tg γ . tg α + tg β + tg γ H = B + λ ( B1 − B ) . Substituindo o A tg α + B tg β + C tg γ . tg α + tg β + tg γ Logo, o ortocentro de um triângulo não retângulo é a média ponderada dos vértices tendo como pesos as tangentes dos ângulos do triângulo. O leitor pode verificar que a expressão anterior é válida também quando um dos ângulos do triângulo for obtuso; nesse caso, a respectiva tangente entra com seu sinal negativo. 28 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA Circuncentro e reta de Euler Considerando ainda um triângulo não retângulo ABC, se tomarmos os pontos P, Q e R, médios dos lados BC, AC e AB, respectivamente, verifica-se que: B+C A+C A+ B , Q= , R= , com a notação já definida; 2 2 2 os ângulos do triângulo PQR são iguais aos ângulos do triângulo ABC e também PR // AC , QR // BC e QP // AB . P= Logo, as mediatrizes dos lados do triângulo ABC contêm as alturas do triângulo PQR. Q A C γ γ α β γ α C R Q P P N β B A β α R B Portanto, o circuncentro N do triângulo ABC é o ortocentro do triângulo PQR. Logo, B+C A+C A+ B tg α + tg β + tg γ P tg α + Q tg β + R tg γ 2 2 2 N= = tg α + tg β + tg γ tg α + tg β + tg γ = A(tg β + tg γ ) + B(tg α + tg γ ) + C (tg α + tg β) = 2(tg α + tg β + tg γ ) A + B + C A tg α + B tg β + C tg γ 3 1 − = G− H , 2 2(tg α + tg β + tg γ ) 2 2 sendo G o baricentro e H o ortocentro do triângulo ABC. REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 43, 2000 29 C Esse resultado pode ser escrito como 2 N = 3G − H ou, ainda, 2( N − G ) = G − H . P Portanto, 2GN = HG . N G N G H A R B É fácil ver que, se o triângulo for retângulo, o resultado 2GN = HG continua válido (basta observar que N é o ponto médio da hipotenusa e que H é o vértice do ângulo reto; portanto, HN é a mediana relativa à hipotenusa). Acabamos de provar um teorema atribuído a Euler. Em todo triângulo, o ortocentro, o baricentro e o circuncentro são colineares. Além disso, o baricentro é sempre interno ao segmento que une o ortocentro ao circuncentro, sendo, dos pontos que o dividem em três partes iguais, o situado mais próximo do circuncentro. A reta que contém esses três centros do triângulo (é claro que, se o triângulo for equilátero, esses centros coincidem e a reta não fica determinada) é conhecida como reta de Euler. Finalmente, propomos ao leitor que use a fórmula 2GN = HG para mostrar que, se o triângulo não é retângulo, então N= A sen 2α + B sen 2β + C sen 2 γ . sen 2α + sen 2β + sen 2 γ VOCÊ SABIA? Que 2000 é o Ano Internacional da Matemática? Segundo um dos membros do IMU – International Mathematical Union, um dos objetivos dessa campanha seria divulgar mundialmente que a Matemática é a pedra fundamental para o desenvolvimento econômico e cultural de uma nação. 30 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA