Revista
Ano 5 • Nº 16 • março de 2014 • www.feuc.br/revista
em foco
MULHERES NA FACULDADE
Mais do que a conquista de
uma profissão de nível superior,
a ampliação de horizontes
NOVA GRADUAÇÃO: MEC aprova e as FIC abrem curso de Administração no 2º semestre 1
Institucional
O PAC da FEUC
A FEUC construiu, ao longo do tempo, uma bela
história com reconhecida trajetória de servir, promovendo a Educação, o desenvolvimento pessoal e
profissional em nossa região. O foco sempre foi informar/formar/informar continuamente, despertando o senso e a vivência real de cidadania. Isto
porque, embora professores, jamais perdemos de
vista a sensibilidade de sermos alunos, aprendizes
eternos do Magistério.
Nas últimas décadas, apesar das dificuldades por
que temos passado, avançamos exitosamente na
formação e retenção de pessoas, fortemente determinadas e apaixonadas por nossa missão. E que,
graças à experiência e ao conhecimento adquiridos
com um ensino de qualidade, em todos os segmentos, atingiram uma formação superior.
Muitos desses profissionais retornaram à FEUC e,
sistematicamente estimulados, vieram a coroar suas
formações com a Pós-Graduação, em Lato e Stricto
Sensu, sempre sintonizados com a carreira do Magistério, seja na sala de aula, na gestão educacional ou
na liderança institucional, focados na continuidade,
no desenvolvimento e na consolidação da FEUC.
Parece-nos, com base no que assistimos pelos
noticiários de jornais, revistas e TVs, e também pelo
que observamos no dia a dia de setores estratégicos
em diversos níveis de governos em nosso país, que
há um grande e perverso “apagão”.
Não nos referimos à questão da luz elétrica, mas
à falta de luz (aptidão, identificação, conhecimento
e sintonia verdadeiras com a função e o papel que
exercem) em muitos profissionais, líderes e gestores nas várias esferas do poder e, por extensão (ou
origem), na sociedade em geral, quando a função
e o papel que exercem nem sempre tem nexo com
formação, mérito e vocação.
O PAC da FEUC (Programa de Aceleração de Carreira), baseado na experiência positiva de outras instituições, foi adaptado à nossa realidade, cuidadosamente pensado e gestado nas duas últimas décadas.
Visava a oferecer, no âmbito da FEUC, oportunidades de crescimento e desenvolvimento, dentro e
fora do quadro de empregados, para aqueles que
demonstrassem identificação, determinação e alinhamento com o espírito servidor da Fundação.
O surgimento da FEUC foi fruto da mentalidade
pública de um valoroso político da região (Miécimo
da Silva) que, entusiasmado pela ideia da implantação de uma faculdade na chamada Zona Rural,
comoveu, comandou e arregimentou pessoas especiais que entre si tinham poucas relações, mas que
aderiram prontamente, com muita seriedade, à visionária empreitada em Campo Grande.
O tempo, implacável e incorruptível, tem-nos
tirado do convívio essas pessoas, tão preciosas, que
ajudaram a criar e velar pelo bom funcionamento
de nossa Instituição.
Mais do que nunca necessário se tornou que o
PAC da FEUC desse frutos, frutos consistentes, capazes de impedir e repelir um apagão do ideário dessa
história, forjada no passado, e que consagrou as FIC,
o CAEL, o Colégio Magali e a Unatic pelo importante
trabalho que desenvolvem para a melhoria educacional, social e profissional de nossa região.
Hoje, estamos cada vez mais estimulando e investindo no preparo e treinamento intensivo de
talentos potenciais em nossos quadros de alunos,
estagiários e empregados, administrativos ou professores, de forma a acelerar a carreira de talentos
que já estão a servir na FEUC.
Ao se iniciar o período letivo de 2014 abrimos nossos braços para receber a todos com alegria e entusiasmo e, ao mesmo tempo, desejamos muito trabalho,
dedicação e sucesso a cada um em particular. E com
incontido orgulho nos congratulamos — sem citar nomes, pois a lista é grande e está sempre aberta a novos
integrantes — com todos que, conscientemente, muitas vezes silenciosamente, mas corajosamente, e pelos
próprios méritos, têm mostrado visão de servir e, com
determinação, integram o grande PAC da FEUC. ■
Durval Neves da Silva
Presidente da FEUC
2
Índice
Editorial
Foto: Gian Cornachini
Foto: Gian Cornachini
18 Capa
14 Administração
06
CAEL
16
24
Infraestrutura
Histórias de mulheres que estão
vencendo com a educação
Sub-17 do colégio fatura a
Taça Zona Oeste de futsal
O trabalho fundamental da
‘turma do macacão azul’
Nova graduação será oferecida
pelas FIC no segundo semestre
28
Tema em Questão
Para onde leva o discurso da
‘justiça com as próprias mãos’?
Memória FEUC
Homenagem à forte e sensível
Florence de Oliveira Lima e Silva
CAPA: Crisvânia dos Santos trocou a máquina de costura pelos livros, formou-se em Português-Espanhol na FEUC
e em breve concluirá seu mestrado em Estudos da Linguagem na PUC. Foto: Gian Cornachini
FEUC em Foco é uma publicação impressa e online da Fundação Educacional Unificada Campograndense.
Presidente: Durval Neves da Silva; Diretor Administrativo: Hélio Rosa de Araujo; Diretora de Ensino: Arlene
da Fonseca Figueira; Diretora Superintendente: Mônica Cristina de Araújo Torres; Marketing: Bruno Rivéro;
Concepção editorial e edição: Tania Neves; Estagiário (texto, foto e diagramação): Gian Cornachini;
Periodicidade: trimestral; Tiragem: 5.000 exemplares; Site: www.feuc.br/revista;
Considerações e opiniões emitidas nos artigos assinados são de inteira responsabilidade
de seus autores, não refletindo, necessariamente, a posição da FEUC.
Ao mesmo tempo em que a frase
“estudar para ser alguém na vida”
pode ser de uma crueldade absurda
quando mira apenas o status conferido por um diploma, carimbando com a marca da inferioridade
aqueles que por uma razão ou por
outra trilham caminhos afastados
dos bancos escolares, quando compreendido por um ângulo mais humanista este pensamento reflete
uma verdade cristalina: a educação
de fato torna as pessoas melhores.
E é com o respaldo de uma instituição que há mais de meio século se dedica à Educação, com letra
maiúscula, que recheamos a matéria de capa desta edição com histórias de mulheres que estão transformando suas vidas ao cursarem uma
faculdade. Muito além da conquista
de uma profissão mais especializada, elas revelam em seus discursos
o quanto o contato com novos saberes, com professores dedicados e
com colegas solidários tem feito a
diferença em suas trajetórias.
Tivemos a oportunidade de falar de Crisvânia, Diva, Luci, Maria
de Fátima, Marina, Mônica, Ramayana, Verônica... – mas elas são
incontáveis por aqui, e queremos
continuar relatando outras histórias no nosso site na internet. Conhece outros casos? Conte-nos.
A abordagem feminina foi em
função do mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, mas logo voltaremos ao tema
também para falar dos homens –
todas as histórias de superação nos
interessam, pois mostram como a
Educação tem o poder de contribuir para a cidadania e para a construção de um mundo melhor.
Boa leitura!
Tania Neves
Editora
3
MUNDO
Natal no Magali incentiva o amor e a solidariedade
O Colégio Magali preparou no começo do mês de dezembro uma festa
para 22 crianças do Abrigo Lar Crianças Amadas, uma ONG de acolhimento no bairro de Santa Cruz, na Zona
Oeste do Rio de Janeiro. Intitulada de
“Natal Solidário”, a tarde de confraternização teve o intuito de incentivar
o amor, a solidariedade e a prática de
ajudar. Os estudantes do Magali receberam a turma do abrigo na quadra do Colégio com com um almoço,
apresentações culturais, lanche da
tarde e muitos sacos de presentes.
A festa contou com o apoio de familiares dos alunos. Marcia Gama,
mãe dos estudantes João Vitor (9º
ano) e Gustavo (4º ano), ajudou na
doação de presentes, alimentos para a
refeição e a servir as comidas às crianças do abrigo e aos alunos durante o
Foto: Gian Cornachini
Mãe de estudantes do Magali
colabora com organização da festa
evento. Ela participara de uma visita
do Magali ao abrigo e, desde então,
passou a estimular mais os filhos a
ajudarem o próximo: “Eu quero que
Estudante de BSI da FEUC palestra na Campus Party
Carlos Augusto da Silva de Carvalho,
estudante do 3º período do Bacharelado
em Sistemas de Informação, teve projeto aprovado para ser apresentado em
palestra na Campus Party. O evento, que
aconteceu no fim de janeiro na capital
paulista, é um dos maiores do mundo
no ramo da tecnologia, e teve como
principal tema o empreendedorismo.
O estudante apresentou o projeto
“ANIMA Pascal — Animações em 2d e
jogos em linguagem de programação
Pascal”, que tem como finalidade servir como um modelo para o ensino de
uma linguagem de programação para
aqueles que têm pouco ou nenhum
conhecimento sobre o tema. Carlos
aplica a linguagem Pascal na criação
4
de jogos e animações para despertar
o interesse de crianças, jovens e adultos no aprendizado de uma linguagem
de programação. Sua página “ANIMA
PASCAL” no Facebook tem hoje mais
de 7 mil curtidas. De acordo com Carlos, a apresentação em público do projeto durante a FEUCTEC em 2013 e o
sucesso comprovado na internet renderam um sinal verde dos organizadores para o estudante ir à Campus Party
como palestrante.
Carlos avalia positivamente o conteúdo que repassou no evento: “Propus uma alternativa nacional e fácil de
ensino de linguagem de programação,
com um método inovador de inclusão
digital, levando em conta a nossa re-
meus filhos e outras pessoas dêem
amor a quem precisa, pois está faltando isso. Precisamos de mais atitudes
como essa festa”, ressalta Marcia. ■
Foto: Arquivo Pessoal
Carlos apresenta seu projeto de
animações e jogos no evento
alidade social”, afirma ele, que ainda
estimula estudantes a também desenvolverem e divulgarem seus projetos: “Estudem muito. Procurem seguir
um padrão de qualidade. O mercado
exige excelência”. ■
Encontro de geógrafos e
curso de extensão
Ainda estreando na função de coordenadora do curso de Geografia, a
professora Rosilaine Silva anuncia duas
importantes atividades programadas
para este começo de semestre: o encontro com a Associação de Geógrafos
Brasileiros (AGB), nos dias 25 e 31 de
março, e um curso de extensão previsto para ocorrer ao longo de 4 sábados,
a partir de 29 de março. Confira:
GEOGRAFIA em movimento:
encontro com a AGB – No dia 25
(manhã) e 31 (noite), representantes
da entidade que reúne geógrafos, professores e estudantes de geografia falarão aos graduandos das FIC: “Neste
primeiro encontro, trataremos da importância da AGB para a construção
do pensamento geográfico brasileiro,
os grupos de trabalho em funcionamento hoje e como nossos alunos
poderão se integrar às atividades de
pesquisa”, explica Rosilaine Silva.
EPISTEMOLOGIA da Geografia e as principais abordagens
dos conceitos geográficos hoje –
Valendo como preparatórios para o
Enade e os concursos públicos, principalmente para alunos de 5º e 6° períodos, os encontros dos dias 29/3, 5/4,
12/4 e 29/4 (de 8h às 12h) abordarão a
história do pensamento geográfico, a
formação da cidade, o processo de expansão capitalista, o processo de globalização e a geopolítica atual, e serão
conduzidos pela professora convidada
Gisele Santos, mestranda pela PUC.
A inscrição custa R$ 20 e validará 20
horas de atividades complementares.
“Em maio teremos o segundo módulo, enfocando a Geofísica e o Meio
Ambiente”, adianta Rosilaine. ■
‘Golpe de 1964 – 50 anos de uma dura verdade’
Este é o tema da programação que
ocupará vários espaços da FEUC no
próximo dia 1º de abril, abordando
o período de ditadura militar e as
consequências do regime de exceção
vivido pelo país. Três telões serão dispostos nos pátios e exibirão, continuamente, fotografias, reproduções de
reportagens de jornais e revistas da
época e pequenos vídeos. Para o auditório e algumas salas de aula estão
previstas mesas-redondas e palestras
com visitantes, professores e alunos
que pesquisam o assunto.
Já na semana anterior a TV Inte-
rativa da FEUC começará a veicular
pequenos depoimentos de personalidades brasileiras sobre os anos de
chumbo. E o Cinema na FEUC, no
sábado, 29 de março, também entrará no tema: o filme programado
é “O dia que durou 21 anos”, documentário de Camilo Tavares, filho
do jornalista Flávio Tavares, um dos
presos políticos trocados em 1969
pelo embaixador americano Charles
Elbrick, sequestrado por militantes
de esquerda. Após a sessão, que começa às 13h, haverá debate mediado
pelo professor Mauro Lopes. ■
VAI ACONTECER
■ Uma mesa-redonda do IV Ciclo
de Palestras em Letras das FIC está
marcada para o dia 6 de maio, das
19h às 21h50min, no Auditório
FEUC. “Repensando a formação do
professor de língua materna e línguas
estrangeiras” é o tema deste debate,
que tem o objetivo de discutir aspectos
relacionados à formação do professor de
Língua Portuguesa e Língua Estrangeira.
São 180 vagas e a entrada é gratuita.
A participação no evento rende 5
horas de atividades complementares.
A frequência será feita por meio de
assinaturas da lista de presença.
■ O I Fórum de Segurança da
Informação, evento do ciclo
ConectaFEUC, vai acontecer no dia
10 de maio. Organizado pelos cursos
de computação das FIC, o fórum
propõe debate e disseminação de
conhecimentos sobre segurança
de dados, informações e sistemas
por meio de palestras, workshops
e mesas-redondas. A entrada será
gratuita e a inscrição deve ser
feita no setor de Cursos Livres. A
participação rende 10 horas de
atividades complementares.
■ Matemática e Pedagogia estão com
duas programações já iniciadas, mas
seguem com atividades. Os minicursos
de extensão de Matemática acontecem
aos sábados (29 de março, 5 e 12 de
abril), das 8h às 12h, com o intuito
de revisar conteúdos para as provas
do Enade; e a oficina “Sexualidade:
Desafios, orientações e estratégias
em sala de aula”, de Pedagogia, vai de
24 de março a 26 de maio, em dias
variados. Para mais informações sobre
os cursos, acesse o site www.feuc.br.
5
CAEL
É... campeão!
Após dois anos na luta pelo título, equipe sub-17 do CAEL
Por Gian Cornachini
O
CAEL terminou o ano de 2013 com uma
notícia muito boa: a categoria sub-17 do
time de futsal do Colégio foi campeã da
Taça Zona Oeste, importante campeonato estudantil da região. Foi a primeira vez que o sub-17
do CAEL venceu o disputado torneio, que em outra edição teve o sub-13 da escola como campeão.
O Colégio tem como prática oferecer aos alunos, em seus horários ociosos, atividades como
futsal, handebol, vôlei e oficina de teatro. No caso
do futsal, treinam estudantes com idades entre 9
e 17 anos. Os alunos são divididos em categorias
por faixa etária: sub-9 engloba estudantes de até 9
anos, sub-11 de até 11 anos. A mesma lógica segue
para as categorias sub-13, sub-15 e sub-17. De acordo com Miguel Louro, professor de Educação Física
e treinador das equipes do Ensino Médio, o treinamento na escola não tem como objetivo vencer
campeonatos, mas contribuir para o desenvolvimento do estudante: “A gente não pensa como
clube esportivo, mas como escola. O objetivo é a
socialização, coordenação motora, a melhora de
aprendizado em sala de aula. A gente não está formando atletas, mas cidadãos”, explica Miguel.
A equipe campeã esteve treinando com Miguel desde o 1º
ano do Ensino Médio, quando
participava do sub-15. Segundo
o professor, os estudantes da
época eram tidos como “uma das
melhores equipes”. Em 2011, o time
alcançou o terceiro lugar na Taça Zona
Oeste. No ano seguinte, foi o mesmo
resultado. Mas em 2013, em disputa final
com o Colégio Guilherme da Silveira, de
Bangu, e com o placar fechado em 4x2,
o CAEL levou o troféu do primeiro lugar
no campeonato estudantil.
“Esse título pode se resumir em muita dedicação de todos, e foi uma forma de retribuir ao Miguel tudo o que ele fez por nós nesses três anos. É
uma sensação de dever cumprido!”, afirma Bruno Araujo, de 18 anos, recém-formado em Petróleo e Gás no CAEL e um dos jogadores da equipe.
O time também contou com o apoio de um jovem destaque: Gustavo Ribeiro, de 16 anos, do 2º
ano do técnico em Química, eleito o melhor goleiro da Taça Campo Grande de 2013. Desde outubro
passado ele vem treinando no Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército do Rio de Janeiro,
após convite de um juiz da competição: “venho
me dedicando para melhorar cada vez mais, e sei
que isso me ajudou muito para mostrar meu potencial na equipe do CAEL”, ressalta Gustavo.
Ao fim da Taça Zona Oeste, saiu vitorioso também o professor Miguel, que recebeu uma faixa com
os dizeres “Miguel, você é mais que um treinador,
é um pai. Obrigado por tudo! Nós te amamos!!!”.
Ingrid Monteiro, de 18 anos, recém-formada no
técnico em Publicidade e uma das organizadoras da
homenagem, explica o porquê de ter feito a surpresa ao professor: “Miguel sempre foi um pai para os
jogadores. Dava esporro, chorava junto, era amigo e
professor. Fizemos a faixa para demonstrar o quanto ele é especial”, aponta ela.
Emocionado com a surpresa
vinda dos estudantes, o professor Miguel guarda com carinho
o momento na história do Colégio e a amizade feita com os
estudantes: “A maior vitória não é
a medalha de campeão, é a amizade
que construímos durante esses anos,
é vê-los crescendo e se desenvolvendo.
Meu sonho é que eles voltem daqui a 4
ou 5 anos com um diploma de graduação na mão, mostrando que deram um
passo a mais na vida”, revela Miguel. ■
1
6
Fotos: Acervo/Marketing FEUC. Ilustração: Gian Cornachini
vence o campeonato estudantil Taça Zona Oeste de futsal
Na foto acima, equipe do sub-17 de 2013
reunida com amigos e familiares após vitória
na Taça Zona Oeste; professor Miguel Louro
segura o troféu; Na foto ao lado, professor é
homenageado com uma faixa e chamado de “pai”
7
Teatro na FEUC
A arte de
EMOCIONAR
Grupo de teatro revela talentos na FEUC
Fotos: Gian Cornachini
Pai escravo (Adriano) segura o
filho (Roberto) sob gritos e choro
Por Gian Cornachini
O
grupo de teatro CAEL em Movimento tem dado um show
de encenação. Com direção de
Adriano Marcelo Leandro, funcionário
da secretaria do Colégio e professor de
teatro da FEUC, a peça “O Navio Negreiro” foi reapresentada em fevereiro devido ao sucesso garantido na primeira
exibição, em outubro de 2013. Inspirada
na poesia social também intitulada de “O
Navio Negreiro”, de Castro Alves, a peça
teatral retrata o traslado de escravos negros da África em navios para o Brasil,
sob domínio dos senhores no período
anterior à Abolição da Escravatura. A
apresentação revelou atores talentosos
presentes no universo da FEUC, entre
eles estudantes e funcionários.
A auxiliar de serviços gerais Maria
Aparecida Ramos, de 60 anos, foi convidada por Adriano a fazer o papel da matriarca escrava. Apesar de não ter sequer
uma fala durante a encenação, Maria
representou com muita expressão a vida
sofrida e cansada da personagem tirada
a força de sua terra natal, e se orgulha
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Giulianna: “Eu mergulho na
sensação para as lágrimas virem”
de ter participado da peça: “Nunca participei de nenhum teatro, foi uma coisa
nova para mim. Estou adorando, porque
distrai a cabeça da gente, e é maravilhoso ser aplaudida por todo mundo!”, revela Maria, sorridente.
Já a estudante do 3º ano do técnico
em Turismo Giulianna Menezes teve um
grande destaque na peça. A jovem fez o
papel da neta do senhor do navio, uma
moça que sofria por ver os escravos sendo
tratados de maneira desumana. Em um
determinado momento, a personagem
entra sozinha no palco, não fala nada e
apenas chora. As lágrimas eram verdadeiras. “A música e o clima da cena são
emocionantes. Eu mergulho na sensação
para as lágrimas virem”, conta Giulianna.
“Sou atriz há três anos, e a gente tem que
ter técnica para emocionar o público, senão o trabalho estraga”, revela a estudante, que pretende tirar seu registro de atriz
em breve e trabalhar na área por hobby.
Roberto Silva, aluno do 2º ano do técnico em Administração, também deu
um show de canto e expressão no papel do filho do escravo líder. A mãe de
Roberto, Mary Suzana, esteve presente
para aplaudir o estudante: “A peça foi linda, muito tocante. Acho muito bom incentivar o teatro na escola, porque desde
que meu filho entrou no grupo, eu vi que
ele ficou mais amadurecido. O teatro é
ótimo para a educação”, avalia Mary. ■
Mercado de Trabalho
Estágio à vista!
Foto: Gian Cornachini
Coordenação de Estágios e
Mercado de Trabalho realiza feira de
oportunidades em abril na FEUC
A
IV Feira de Estágios e Oportunidades já tem data
marcada para acontecer. Nos dias 2 e 3 de abril, das
9h às 21h, o pátio da FEUC estará repleto de estandes
em exposição, com a presença de diversas empresas, agentes de capacitação de oportunidades e instituições escolares
conveniadas da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
A feira acontece anualmente e é organizada pela Coordenação de Estágios e Mercado de Trabalho (CEMT) da FEUC.
O tema condutor desta edição é “Relações Humanas: o comportamento como diferencial para o mundo do trabalho”. Por
meio de palestras e workshops, o evento pretende discutir a
inserção e a realidade dos jovens no mercado de trabalho.
Elisabete Boti, responsável pela CEMT, aponta a impor-
Pátio da FEUC terá 20 estandes
de empresas e parceiros montados
tância de os estudantes visitarem a feira de estágios: “Quando as empresas aceitam o convite de estarem conosco, elas
trazem oportunidades de estágio e emprego. Na maioria das
vezes, os alunos conseguem essas vagas. São 20 estandes
para colocar 20 empresas. Então, tem muita oportunidade,
pois o evento é feito justamente para isso”, afirma Elisabete.
A feira é destinada aos estudantes dos cursos técnicos e
de graduação da FEUC. Ela também é aberta à comunidade
e a entrada é gratuita. Mais informações: (21) 3408-8478. ■
9
UNATIC
A prévia dos
20 anos
Festa de encerramento das atividades de 2013 encantou
pelas belas apresentações e a animação do grupo
A
caminho de completar 20 anos em agosto,
a Universidade Aberta à Terceira Idade em
Campo Grande (Unatic) fez em dezembro
passado uma de suas mais animadas festas de
fim de ano dos últimos tempos, com a realização do tradicional amigo oculto e apresentações
de dança, teatro, canto coral e ginástica, além de
uma celebração religiosa pelo Natal.
“Foi uma tarde muito boa, muito agradável”,
disse a professora Leda Noronha, diretora da
Unatic, elogiando os integrantes do grupo pela
dedicação e participação nas atividades.
A cobertura completa do evento você pode
ver no site da revista FEUC em Foco na internet
(http://migre.me/ioL42), incluindo alguns comentários postados por leitores: “Procuraremos
Duas décadas de belas histórias
Para já ir esquentando o clima de festejo pelos 20 anos da Unatic,
a FEUC em Foco decidiu contar um punhado das muitas histórias
que envolvem seus integrantes: histórias de vida ou momentos
marcantes protagonizados por alguns deles. No site da revista, na
internet, a cada 15 dias publicaremos um novo relato. A estreia
da série será na segunda semana de abril com uma conversa bem
descontraída que tivemos com a aluna Wanda Braga Campos, de 81
anos, a mais antiga aluna da Unatic, que há quase 20 anos marca
presença toda semana por aqui, embora tenha ficado um pequeno
período afastada do grupo, devido a dificuldades em família. Ela
nos contou um pouco sobre sua vida e revelou como a Unatic a
ajuda a se manter ativa e sempre de alto astral.
10
fazer muito mais em 2014”, escreveu a aluna Auderita Araújo. “No próximo ano vamos caprichar
mais para sermos merecedores de sua atenção”,
completou Waldea Bernardo Ferreira. “Quero enfatizar também a enorme participação das alunas
da Unatic nas atividades”, atestou o professor de
ginástica Luiz Alberto Camillo.
Em agosto deste ano a Unatic completa 20
anos de funcionamento, consolidando-se como
um dos mais importantes projetos sociais da
Zona Oeste voltados para o público de terceira
idade, com aulas de informática, línguas, artesanato e diversas outras atividades desenvolvidas
com o objetivo de promover a integração de seus
participantes. Uma família que hoje já passa de
uma centena de membros. ■
Fotos: Gian Cornachini
Wanda no grupo de movimento da
professora Sheila, na festa de fim de ano
11
Prêmio FEUC
Poesia que bate recorde
Número de inscritos na 20ª edição do concurso foi o maior já registrado
Por Tania Neves
M
esclando tradição e renovação, o Prêmio FEUC de Literatura sagrou campeões em 2013 na categoria Alunos da
FEUC dois velhos conhecidos de quem acompanha o certame – Gui Soarrê e Paulo D’Athayde, já
premiados anteriormente – e um novato: André
de Oliveira Nascimento. Gui e André são alunos
do curso de Letras, no qual Paulo acaba de se formar. No Âmbito Nacional, os vencedores foram
Giovanna de Oliveira, do Distrito Federal; Paulo
Franco, de São Paulo; e Ingrid Utzig, do Amapá.
A 20ª edição do concurso de poesias bateu um
duplo recorde: teve a mais intensa participação
de todos os tempos, com 30 inscritos na categoria Aluno da FEUC e 534 na Âmbito Nacional, e a
qualidade dos poemas apresentados foi altíssima,
segundo os coordenadores, Américo Mano e Rita
Gemino: “A grande quantidade e a qualidade dos
poemas exigiram dos jurados uma atenção espe-
cial, para não haver injustiça com ninguém”, afirmou Mano.
GUI SOARRÊ repetiu este ano a mesma primeiríssima colocação do ano passado, recorrendo
mais uma vez à sua “estratégia” de sucesso: deixar
por conta da filha a escolha do poema a ser inscrito. “Se tenho poesias guardadas e protegidas,
é graças a ela, porque não me preocupo muito
com isso, não costumo sequer reler o que escrevi,
faço mesmo é para exorcizar os meus demônios,
que não são poucos”, afirma a também atriz e
maquiadora, que este mês começará a filmar um
curta-metragem. Pelas lembranças de Gui, “Insolências” foi escrito em 2002.
ANDRÉ NASCIMENTO, o terceiro colocado,
fez sua estreia em concurso de poesia já faturando
um lugar no pódio, mas diz que entrou na disputa
de forma bem despretensiosa: “Foi mais para fazer companhia a um amigo, que se inscreveu na
categoria Âmbito Nacional e eu tinha certeza de
que ele ganharia. Fui surpreendido por me clasFoto: Gian Cornachini
André e Gui conversam no pátio: estreante
e veterana são alunos do curso de Letras
12
es a cada ano
1º
INSOLÊNCIAS (Gui Soarrê)
Contrária às profecias
Foi fêmea que nasci,
Para fiar fio a fio as coisas deste mundo.
Fiquei mãe na vida, maturada,
E vez por outra faço de conta que sou santa.
Em cada tempo sou uma,
Só quando sangro sou todas.
Quando posso cumpro as leis impostas,
Quando não, viro faca e corto.
Entre suave e rude remendo as feridas que abro.
É amando que me esgoto inteira!!!
Mas se desamo fico indigesta, desbotada,
Feito roupa no varal.
Aí, então, me desvencilho, corto caminho,
Pego de novo a estrada...
E é tudo meu domínio.
o, com poemas de altíssima qualidade
Foto: Gian Cornachini
2º
LUTO OFICIAL (Paulo D’Athayde)
Se há fantasmas
Eles resolveram sair de suas alcovas
Para atormentar minha memória
O sagrado silêncio tomou conta de mim
Uma punhalada cortante na alma
O matiz da melancolia
Uma oração de fim de estrada
Nem mesmo GPS me daria um rumo certo
Deliberadamente
Paulo na biblioteca, com seu livro de poemas
publicado em 2003: sensações o inspiram
sificar e ele não”, conta André, que estreou este
mês também como ator, na peça “O Mágico de
Oz”. O poema “Nuvens da fuga”, segundo ele, reflete um momento de crise e perplexidade após o
rompimento de uma amizade de longa data.
PAULO D’ATHAYDE, que já esteve em todas
as posições do pódio do PRÊMIO FEUC, retoma o
segundo lugar nesta edição. Recém-formado em
Letras, mas atuando profissionalmente como iluminador cênico e professor de iluminação, Paulo
já tem um livro de poemas publicado: “Sinestesia”, lançado em 2003. O título é uma referência
direta àquilo que mais o impulsiona durante o
processo de criação: as sensações que dançam ao
seu redor, os cheiros, as imagens, elementos que
ele belamente traduz em metáforas. “Luto oficial”
foi escrito especialmente para o concurso: “Todos
os poemas que coloco no prêmio FEUC são inéditos, não coloco poemas já publicados”, diz. ■
Lança em riste
O dia ficou triste
3º
NUVENS DA FUGA (André de Oliveira Nascimento)
Hoje é inverno.
Um dia nublado com nuvens cobrindo as montanhas,
os coqueiros e as flores.
Não se vê o azul do céu.
Hoje é inverno.
Triste e vazio está meu coração.
As nuvens já encobrem meu sorriso, meus olhos
e meus abraços.
Hoje é inverno.
E já não sei se quero fugir,
talvez gritar, correr, me esconder.
Hoje é inverno,
mas a sequidão da vida se umedece
com a gota da chuva.
13
Ensino Superior
Administração:
Novo curso das FIC
MEC dá sinal verde para instituição começar a ofertar o
bacharelado a partir do segundo semestre deste ano
Professores Rafael Neves (à esquerda) e
Valdemar Ferreira (à direita) apresentam a
instituição para Vladimir Gonçalves, o novo
coordenador de Administração (no centro)
14
Por Gian Cornachini
Foto: Gian Cornachini
A
s Faculdades Integradas Campo-Grandenses (FIC) receberam autorização do Ministério da Educação (MEC) para oferecer um
novo curso na instituição: bacharelado em Administração. A partir do segundo semestre deste
ano, a FEUC iniciará a formação de futuros administradores, e passará a contar com nove graduações, sendo sete licenciaturas e dois bacharelados.
O curso de Administração já era uma demanda
antiga da comunidade da região, fato confirmado
pela telefonista da FEUC Jenifer Kezia Palma: “Administração é um dos cursos mais procurados por
quem liga pra cá. Eu dizia que não tinha e eles perguntavam se eu conhecia uma outra faculdade por
perto que oferecesse a graduação”, conta ela. A busca pelo curso na região é um reflexo da oferta de
trabalho, como explica Valdemar Ferreira da Silva,
coordenador Acadêmico das FIC: “Temos muitas
empresas instaladas nas redondezas da FEUC e em
cidades vizinhas, como o caso de Itaguaí, que tem
atraído indústrias para a região por conta da abertura do porto na cidade. E são poucas instituições
por aqui que têm o curso de Administração. Há uma
demanda reprimida na área”, observa Valdemar.
O pedido de abertura do curso, formalmente
apresentado ao MEC, foi aprovado após visita de
duas avaliadoras do órgão na primeira quinzena
de março. Elas consideraram adequadas a estrutura da FEUC e o projeto da graduação, que já
começará a ser ofertada no período noturno do
próximo semestre. Serão 120 vagas anuais, sendo
metade destinada ao vestibular do início do ano
e o restante para o segundo semestre. Vladimir
Leite Gonçalves é o novo coordenador do curso.
Contratado especialmente para o cargo, o professor é bacharel em Administração, especialista
em Comércio Eletrônico e mestre em Economia
Empresarial. Além da carreira docente, Vladimir
acumula vasta experiência profissional na área: já
trabalhou em empresas como Ambev, IBM e Bradesco, e no Exército Brasileiro.
“Estamos muito confiantes no curso de Administração da FEUC, pois o corpo docente envolvido no
projeto é excelente”, afirma o coordenador. “Constatamos uma carência na região de cursos com
qualidade e compromissados com o atendimento
de nossa população local. Estou esperando que essa
abertura possa significar um novo marco na educação superior presente na região e que isso possa
servir de impulsionador aos nossos futuros alunos e
para o mercado de trabalho”, ressalta Vladimir.
Dados do Censo de Educação Superior de 2012
divulgados no ano passado pelo MEC apontam
que Administração é o curso mais procurado no
Brasil. Ao todo, são mais de 800 mil estudantes
matriculados. No entanto, os números não representam grande concorrência para os interessados
na área, como explica o professor Vladimir: “Ainda é pouca a formação dessa mão de obra. Temos
um cenário que nos mostra um déficit entre a
demanda das empresas e a nossa capacidade de
formar administradores. Com isso, podemos esperar que o mercado de trabalho absorva a mão
de obra qualificada para atender às suas necessidades”, garante o professor.
As oportunidades de emprego para os futuros
administradores são muitas, pois podem atuar em
qualquer tipo de empresa, desde o ramo de siderurgia até educação, por exemplo. “Isso ocorre pelo
fato de que qualquer empresa necessita de um
profissional habilitado ao exercício de um plano de
carreira, à execução de um orçamento ou controle de fluxo de caixa. Mas há carência nas áreas de
projetos, logística e finanças. Por este motivo, bons
profissionais nessas áreas são contratados a ‘peso
de ouro’. Uma preparação de excelência, aliada ao
curso de idiomas, trará bons frutos para os novos
administradores”, aponta o professor Vladimir.
O presidente da FEUC, professor Durval Neves,
acredita que Administração está vindo na hora
certa. Segundo ele, a gestão da educação cada vez
mais adquire um grau de complexidade que pede
soluções criativas e bem dosadas. Como a FEUC
tem a tradição de incorporar egressos da graduação em seus quadros profissionais, pode vir futuramente a se beneficiar disso: “Apesar de, no
nascedouro, a faculdade ter sido de formação de
professores, com o tempo ela caminha para outras direções. Por exemplo, no momento em que
a FEUC sentiu necessidade de se informatizar, a
maneira mais inteligente que encontrou foi também abrindo o curso de bacharelado em Sistemas
de Informação. Isso trouxe um crescimento espetacular não somente no aspecto acadêmico, mas
também nos serviços prestados à comunidade e
na gestão administrativa, pois o saber especializado dos profissionais da área contribuiu muito
para nossa expansão”, lembra Durval. “Com Administração esperamos que aconteça a mesma
coisa, e signifique uma nova etapa de crescimento
e desenvolvimento da instituição. E outros cursos
ainda virão. Estamos estudando algumas possibilidades na área de tecnologia e até mesmo engenharias”, revela, com otimismo, o presidente. ■
15
Tema em Questão
‘Justiça com as próp
Professores da FEUC debatem os sentidos das manifestações violentas
Por Tania Neves
Desde que a artista plástica e ativista Yvonne
Bezerra de Mello postou nas redes sociais a foto
de um menor espancado e despido, preso a um
poste no Flamengo, e denunciou o caso como
obra de autoproclamados justiceiros que agem
na região atacando quem eles identificam como
bandidos, a polêmica se instalou nos meios de
comunicação e nas rodas de conversa: “é válido
fazer justiça com as próprias mãos?”, “torturar
um suposto ladrão, em vez de chamar a polícia, é
fazer justiça?”, “ações assim vão resolver o problema da insegurança e da criminalidade?”.
Pinçando comentários sobre o tema na mídia, temos desde as violentas palavras ditas
no ar pela jornalista do SBT Rachel Sheherazade, que se alinha aos que defendem o
‘olho por olho’ (“Num país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes,
que arquiva mais de 80 por cento de inquéritos
de homicídio e sofre de violência endêmica, a
atitude dos vingadores é até compreensível”),
até a quase poética tomada de posição do escritor Luís Fernando Veríssimo, em crônica publicada dia 16 de fevereiro em O Globo (“Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização
cristã, existir gente que ama seus filhos e
seus cachorros e se emociona com a novela e, mesmo assim, defende o vigilantismo
brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a
barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade
fosse embrutecê-la até a autodestruição”).
Para estimular a discussão no ambiente da escola
e da comunidade, convidamos três professores das
FIC e um do CAEL a “pensarem em voz alta” com a
gente sobre esses fatos. Cada um buscou interpretar de acordo com suas convicções e também
a partir do olhar das disciplinas que ministram: Sociologia, Filosofia e Direito.
Umberto Eller, professor de Ci16
prias mãos’ é justiça?
s na sociedade e dos discursos de incentivo à barbárie presentes na mídia
Arte: Gian Cornachini sobre foto de Yvonne Bezerra de Mello
ências Sociais, acredita que uma das razões desse
cenário é o imediatismo que está tomando conta
das pessoas: cada vez mais, todos querem respostas
muito rápidas e automáticas para os problemas, em
vez de soluções mais pensadas. “A gente tem trabalhado mais, dado mais atenção às coisas da vida, e
se dedicado pouco à essência mesmo. Não se fala de
uma educação mais humanizada, de acesso à cultura para todos, daí esse embrutecimento. É a barbárie civilizada de que falava Foucault”, diz o professor.
Especialista em Direito e Legislação e coordenador do turno da noite do CAEL, o professor e
advogado Paulo Accioly entende que o papel de
punir é exclusivo do Estado, e que quem julga deve
fazê-lo sempre à luz da Constituição, respeitando
os direitos humanos acima de qualquer situação.
Ele considera que uma das
razões dessas atitudes extremas de “justiçamento” tem a
ver com nossa legislação, que
seria defasada e não garantiria a aplicação adequada da
Justiça: “Só está funcionando
para quem tem recursos, a
polícia prende e o advogado
vai lá e liberta. A lei, do jeito
que está, só atende aos interesses dos magnatas. Os políticos estão vendo isso,
mas parece que não lhes interessa enxergar. A insegurança do povo está aí”, defende.
A professora de Sociologia Carmen Castro concorda que a lei acaba atendendo mais aos estratos
sociais poderosos, mas duvida que a dita desatualização do Código Penal seja a questão principal. “O
problema não é falta de lei, mas sim o modo como
alguns sujeitos se servem da lei, passando por cima
dela, um uso mais ao nível do privado do que do coletivo. O Estado no Brasil é altamente punitivo, basta ver que temos um dos sistemas carcerários mais
lotados do planeta. Mas quem está lá? Os pobres, os
negros. O ‘bandidinho’ pode ser amarrado no pos-
te, mas o banqueiro corrupto não?”, diz Carmen,
chamando a atenção para o fato de que os episódios
de linchamento não são um fenômeno novo: “Muitos sociólogos no passado já abordaram essas características de autoritarismo e barbárie. A sociedade
brasileira não é pacífica. E é excludente, desigual.
Não é possível falar de justiça num sistema assim”.
Flávio Pimentel, professor de Filosofia, também
rejeita a justificativa dada por alguns de que o povo
estaria fazendo “justiça com as próprias mãos” porque faltaria a presença da polícia para coibir a violência: “Quando está presente, o que a polícia faz é
aplicar violência e não coibir. Tanto que, quando se
arvoram a ‘fazer justiça’, essas pessoas reproduzem
a violência da polícia”, diz Flávio. O professor não vê
aí uma manifestação massiva do povo, mas sim de
alguns grupos: “A maior parte
da população está é na posição
de vir a ser vítima desse tipo de
violência, tanto por parte dos
‘justiceiros’ quanto da polícia.
E se há algo que aparece aí
como falta, é a falta de uma
política de segurança cidadã”.
Para finalizar, os três professores das FIC chamam a
atenção para uma mesma
questão: o tanto que esse clima de violência e linchamento tem sido estimulado pela abordagem
rasa do problema nos meios de comunicação: “O
debate é desequilibrado, já que as TVs, principal
meio de acesso à informação por parte da população, não propõem uma reflexão mais abrangente,
focando apenas nos pontos de interesse dos poderosos”, diz Umberto. “Quando uma jornalista diz no
ar que a atitude de vingadores é compreensível, está
estimulando a violência e não a reflexão”, ressalta
Carmen. “Ao dizer que isso é o povo fazendo justiça,
os meios de comunicação estimulam o oprimido a
incorporar o olhar do opressor e ver o outro oprimido como seu inimigo”, conclui Flávio. ■
“Se há algo que
aparece aí como
falta, é a falta de
uma política de
segurança cidadã”
17
Capa
Foto e arte: Gian Cornachini
Educa
caminh
18
Verônica ‘chutou o balde’
da opressão, deixou para trás
um relacionamento em que não
era valorizada e ingressou na
faculdade para cursar Pedagogia e
transformar sua vida
ação que abre novos
hos e também os olhos
Conheça histórias de mulheres que transformaram suas vidas
ao concretizar o desejo de ingressar na faculdade
Por Tania Neves
“E
squece! Você acha que tem capacidade
para ler seis livros em um semestre?”;
“Estudar para quê, se já sabe o suficiente
para pilotar um fogão?”. Frases desse tipo, ditas
por companheiros ou outros familiares, fizeram
mulheres como Verônica e Diva engolirem o choro e até duvidarem se tinham ou não o direito de
sonhar com uma faculdade. Mas incentivos como
“Pode se matricular, eu trabalho mais para você
poder estudar” e “Vá em frente, você consegue!”
impulsionaram guerreiras como Crisvânia e Maria de Fátima. E a elas se juntam Marina, Mônica, Ramayana, Luci e muitas outras alunas que
passaram pelas salas de aula da FEUC ou estão
neste momento cursando suas graduações e pósgraduações, a despeito de todas as dificuldades
que a vida impõe. Mulheres para quem a entrada
na faculdade representou ou está representando muito mais do que obter um diploma e uma
(nova) profissão: uma oportunidade ver o mundo
com outros olhos. Neste Mês da Mulher, a FEUC
em Foco traz algumas dessas histórias marcantes.
Verônica Faustina Nogueira tem 41 anos e está
no 5º período de Pedagogia. Lá atrás, quando
começou seu 2º Grau, queria ter trilhado o caminho do Magistério, mas não pôde. Logo precisou encarar o trabalho (atuou como secretária
e auxiliar administrativa), teve filhos, focou em
seu sustento, e o sonho da Pedagogia foi ficando
para trás. Tempos depois a mãe insistiu para que
ela voltasse a estudar, ofereceu ajuda, mas seu
companheiro na época – que tinha curso superior – só desestimulava. “Ele valorizava as pessoas
com faculdade, mas dizia que isso não era para
mim, só me jogava para baixo. Quando minha
mãe morreu, me deu uma coisa e eu decidi correr
atrás dos meus sonhos”, conta Verônica, que saiu
de casa e entrou na briga: fez vestibular, usou as
economias para começar a faculdade e em pouco
tempo já estava trabalhando como professora em
escola particular. Agora ela planeja a pós-graduação: “Tenho vaga reservada em Psicopedagogia!”.
“Chutar o balde” da situação de opressão que vivia, segundo Verônica, foi fundamental. Ela diz que
o primeiro passo foi aprender a transformar um
famoso ditado popular. “Ruim com ele, pior sem
ele? Nada disso! Melhor sem ele”, afirma, completando com uma autocrítica: “Eu que deixei. Ninguém faz isso com a gente se a gente não deixa”.
Formada em Ciências Sociais pelas FIC em 2006,
Marina Ribeiro também se deixou oprimir por
muito tempo, antes de virar a mesa. Casou cedo,
teve filhos, trabalhava como costureira e reproduzia modelos familiares de que, como mulher, tinha
obrigação de cuidar dos filhos enquanto o companheiro podia se divertir com os amigos e fazer
o que quisesse. “Deixar a fábrica onde eu costurava foi uma decisão difícil, pois era o sustento dos
meus filhos, mas a opressão era grande, com horas
extras obrigatórias e proibição de estudar”, conta
Marina. Ela fez a faculdade graças a uma bolsa de
estudos integral, e logo que iniciou o curso começou a trabalhar com jovens e mulheres, estagiando
no Núcleo de Estudos Urbanos (NEURB).
19
Capa
Com a formação na FEUC, Marina se candidatou a um estágio no Ibase e se destacou na disputa com uma centena de candidatos. Hoje é pesquisadora do instituto, cursa mestrado na UniRio
e acaba de se mudar da casa da mãe: “Minha primeira casa, aos 40 anos!”, comemora.
Mônica Teixeira Pinheiro de Oliveira, de 47 anos,
interrompeu os estudos por volta dos 16, logo depois de se transferir para o turno da noite com o
objetivo de trabalhar no comércio. O casamento,
os filhos e a ascensão na empresa puseram a escola
em segundo plano. Anos depois, com os meninos
criados – hoje eles têm 26, 18 e 16 anos – ela retomou os estudos disposta a contribuir com o desenvolvimento do mais novo, que tinha problemas de
aprendizagem. Escolheu Pedagogia, e se formou no
fim do ano passado. O interessante é que a opção
pela retomada dos estudos se deu no momento em
que o marido, militar, propôs que ela parasse de
trabalhar para ter mais tempo para si. “Eu pensei...
ficar em casa? Quero tempo é para fazer algo realmente importante. Decidi estudar e ele me apoiou”.
Elogiadíssima por professores e admirada por
colegas – “nunca faltei, chegava cedo e era tida
como ‘caxias’” – Mônica fez Iniciação Científica
nas FIC, contribuiu em pesquisas e já emendou
numa pós-graduação em Psicopedagogia. “Depois dessa pós vou fazer outra, em Supervisão,
e me candidatar para trabalhar com Orientação
Educacional quando abrir concurso. A faculdade
mudou minha vida, o modo de ver o mundo, o
assunto das conversas. Eu já nem vejo quase TV,
prefiro ocupar o tempo com boas leituras”.
Ler, ler e ler mais um pouco se tornou a rotina
de Crisvânia dos Santos, de 39 anos, que no fim de
2011 se formou em Português-Espanhol nas FIC e
nas próximas semanas estará defendendo a dissertação “Aquele abraço – Estudo dos demonstrativos
em contextos de uso”, no mestrado em Estudos
da Linguagem na PUC. Um caminho pavimentado
com muito sacrifício, determinação e dedicação.
Nascida numa família de nordestinos em que as
mulheres se tornavam costureiras ou manicures, e
os homens trabalhavam de pedreiro ou mecânico,
ela cedo teve que abandonar a escola para ajudar
a mãe nas costuras. Mas quando viu que a vida
estava passando sem ter realizações, ousou tentar
mudanças. “Meu marido disse: ‘volta a estudar que
eu trabalho mais para segurar as pontas’. Fiz isso,
consegui o Prouni, estudei muito, me formei, passei em concurso para dar aula no município e para
o mestrado na PUC”, conta Crisvânia, entusiasmada porque seus ganhos agora permitem retribuir o
apoio de Anderson: o marido reduzirá o trabalho
na mecânica para cursar Matemática ou Engenharia a partir do segundo semestre.
Em oposição total a apoio, o que Diva da Silva Carvalho teve por muito tempo foi o terror
da frase sobre saber o suficiente para pilotar um
fogão ecoando em sua mente. Mesmo depois de
separada do marido e com os filhos criados –
com seu salário de empregada doméstica – ela
continuava sufocando o desejo de estudar e tinha
pânico de escola, por ter introjetado que aquilo
não era para ela. Tentava se realizar por meio dos
filhos, dando-lhes as condições que não teve. Sua
filha mais velha, Patrícia, que cursou o Normal e
depois fez faculdade de Nutrição, foi quem um
dia decidiu que ia “empurrá-la” para a frente. “Ela
fez que nem mãe: me levou pela mão e me matri-
Foto: Gian Cornachini
Foto: Gian Cornachini
Marina: com salário de pesquisadora do
Ibase, alugou sua primeira casa, aos 40 anos
20
Mônica Teixeira na biblioteca: leitura
tomou o lugar da televisão na vida da aluna
Foto: Gian Cornachini
culou no supletivo. Cada etapa que eu terminava,
ficava quietinha para ver se ela esquecia de mim,
mas lá vinha ela: ‘agora é o segundo grau’; depois:
‘agora é a faculdade’”, conta Diva, que aos 53 anos
cursa o 5º período de Geografia nas FIC e já se
imagina lecionando daqui a algum tempo.
Diva trabalha há 20 anos como doméstica para
uma família em Copacabana. Mora em Santa Margarida, acorda às 3h da madrugada para ir trabalhar, lê os textos acadêmicos no trem (quando consegue se sentar e não cair no sono), chega quase
em cima da hora para as aulas noturnas na FEUC
e não falta nunca. Admite que os 30 anos afastada
da escola lhe trazem dificuldade nessa retomada,
mas tem nos professores e em muitos colegas um
apoio precioso. “Adoro meus professores, principalmente a Rose, a Alice, mas gosto de todos, eles
me ajudam muito”, diz a aluna, cuja luta inspira os
colegas: “Mais de uma vez já me disseram: ‘quando
penso em desistir, lembro que a senhora acorda às
3h para trabalhar e nunca falta’. Vê lá se eu imaginava que um dia ia ser exemplo para alguém!”.
Já Maria de Fátima Alves Faustino Fróes, de 57
anos, que está no 3º período de Ciências Sociais,
veio para a faculdade justamente com a intenção
de se tornar um exemplo para sua família: duas
filhas, quatro netos e uma bisneta, por enquanto. “Parei de estudar há 35 anos, matando aquele
sonho de me formar, porque a vida não oferecia
mesmo condições. Agora voltei porque estou vendo que é importante dar aos filhos e aos netos essa
demonstração de que é preciso querer crescer e
conquistar objetivos”, afirma Fátima, que sempre
trabalhou como cabeleireira. Casada há 5 anos
com Delci Gonçalves Fróes, de 73 anos, ela tem
Diva chega na FEUC para a aula, após
longa jornada de trabalho e viagem de trem
Foto: Gian Cornachini
Maria de Fátima, entre Delci e Renata:
tornando-se exemplo para os filhos e os netos
Foto: Gian Cornachini
Crisvânia trocou a máquina de costura
pelos livros e hoje é professora, quase mestre
21
Capa
no marido o maior incentivador: “É uma tremenda esposa, mãe e avó maravilhosa. Eu digo a ela:
‘Mete a cara que você consegue’. E ela vai fundo,
às vezes dá 3 horas da manhã e está lá estudando”,
conta Delci, que passou a frequentar a Universidade Aberta à Terceira Idade (Unatic) para dividir o
mesmo ambiente educacional com a mulher.
Roberta, a neta de 14 anos, é outra que apoia a
nova vida de Fátima. Aluna do 9º ano do Fundamental e fazendo preparatório para o ensino técnico, ela outro dia perguntou se a avó conhecia
“um tal de Marx”, sobre quem precisava ler. “Deu
uma alegria enorme poder compartilhar com ela
tudo o que já estudei sobre o filósofo, acho que
meu entusiasmo a contagiou. É disso que falo
quando digo que quero ser um exemplo”.
Luci Sá Freire terminou sua primeira graduação na FEUC (Português-Inglês) em 1997, fez pós
em 2000, voltou em 2006 para cursar Espanhol e
hoje, aos 48 anos, é mestre em Gestão e Educação
e dá aula nas redes municipais de Itaguaí e Seropédica. Uma trajetória que só foi possível pelo
empenho que demonstrou – e a ajuda que recebeu – nos primeiros anos na faculdade. Desempregada na época, vivendo de trabalhos manuais,
22
Luci inovou para garantir que conseguiria pagar a
mensalidade. “A cada dia ela trazia um pouquinho
do dinheiro que ganhava e nos entregava”, contra Mônica de Araújo Torres, superintendente da
FEUC: “A gente tinha uma caixa onde ia juntando,
e no fim do mês contava e dava algum desconto
nas vezes em que ela não alcançava o valor”.
Segundo Mônica, o empenho e a fibra de Luci
se tornaram um exemplo na época, e até hoje ela
é lembrada. A superintendente diz que a instituição se esforça para atender casos assim e ajudar
como pode os alunos e alunas que verdadeiramente têm dificuldades de se manter no curso.
“Todo final de ano a FEUC oferece algumas bolsas
para os que têm renda realmente baixa. O setor
de assistência social analisa os casos e damos a
ajuda possível. Fora isso, facilitamos o acesso a
quem se inscreve no FIES, permitindo que se matriculem sem pagar, até sair a resposta, além de
parcelar mensalidades em atraso”, diz.
Outro tipo de ajuda é o oferecimento da infraestrutura da Brinquedoteca para as alunas e
alunos que têm filhos pequenos e não poderiam
estudar à noite por não ter com quem deixá-los.
Ramayana Del Secchi Linhares, de 37 anos, que
cursa Português-Literatura, é uma que aproveita
esse conforto, levando às vezes dois ou três dos
quatro filhos para passar algumas horas com a
recreadora Isabella Rodrigues. “Meu marido se
formou aqui, e eu lamentava não poder estudar
também porque não tinha com quem deixar as
crianças. Cada vez que ele chegava falando das
aulas da Arlene eu pensava: ‘tenho que ir para
essa faculdade!’. Com a Brinquedoteca, pude realizar isso. Sou extremamente grata à instituição
e às meninas daqui, a Isabella e a que trabalhava
antes. A FEUC se tornou nossa segunda casa”.
Para a professora Célia Neves, coordenadora
de Ciências Sociais, há algo em comum nessas
trajetórias femininas: a busca por alguma coisa
que ficou faltando lá no começo da juventude,
quando tiveram que se dedicar ao trabalho. “Apesar de todas as dificuldades, a convicção do que
desejam faz com que elas avancem. E até se tornam lideranças nas turmas, criando um ambiente
Foto: Gian Cornachini
“A convicção do que
desejam faz com
que elas avancem”
muito fraterno”. Rosilaine Silva, coordenadora de
Geografia, vê na construção de novas sociabilidades algo importantíssimo: “Percebo que, para as
mulheres trabalhadoras, estar no espaço acadêmico é muito mais difícil, porque elas continuam
tendo as duplas e triplas jornadas lá fora. E ainda
assim encaram com o maior encantamento”.
Se a possibilidade de exercer uma profissão mais
qualificada é a consequência imediata da conquista
de um diploma de nível superior, outros ganhos que
vêm com a entrada na faculdade são igualmente
importantes. “Minha visão de mundo mudou completamente. E isso transformou outras coisas a meu
redor. Antes eu mandava meus filhos estudarem
porque se diz que é preciso estudar e pronto; hoje eu
sei explicar a eles por que é importante estudar”, revela Crisvânia, que atribui parte dessa transformação ao bom ambiente que encontrou na FEUC. ■
Ramayana com os filhos André (à esquerda),
Amanda e Rafael, acompanhados da
recreadora Isabella (à direita): deixar as
crianças na Brinquedoteca durante a noite lhe
permite realizar o sonho de cursar Letras e
ter aula com a professora Arlene!
23
‘Quebrou, chamou,
consertou’
De um reparo à criação de móveis e estruturas grandiosas:
conheça o setor responsável pela manutenção da FEUC
Por Gian Cornachini
L
onge das áreas movimentadas da FEUC, um
grupo de trabalhadores atua quase que escondido. É a ‘turma do macacão azul’, como carinhosamente se referia o professor Wilson Choeri
aos funcionários do Departamento de Infraestrutura, que são responsáveis pela manutenção física da
instituição. A lista de profissionais do setor é grande:
eletricistas, serralheiros, marceneiro, bombeiro hidráulico, pintor, jardineiros, pedreiros e auxiliares de
limpeza se dedicam a fazer das instalações da FEUC
espaços mais adequados
à rotina estudantil e administrativa.
O Departamento de
Infraestrutura foi criado
em 1986, após a FEUC
dar início à expansão
dos prédios e receber
mais estudantes. Paulo
Roberto Ferreira Theodoro, responsável pelo
setor desde seu início, conta que dos anos 80 em
diante houve a necessidade de evitar a terceirização de serviços de manutenção: “Até fazer o levantamento de preços e contratar um determinado
serviço de infraestrutura, demora. Sem contar que
acaba saindo muito mais caro nas situações de
emergência”, explica Paulo.
Com a formação da equipe, que veio aumentando durante todos esses anos em virtude do crescimento da FEUC, os serviços terceirizados quase não
existem. A maioria dos objetos danificados na instituição é consertada no local. Paulo chama o serviço
de “pronto atendimento: quebrou, chamou, consertou”. Para se ter uma ideia, todo dia aparece ao
menos uma cadeira escolar com braço danificado
devido ao mau uso. Ao mês, são reformadas mais
de 50 unidades quebradas. Por isso, as cadeiras
e outros móveis passaram a ser produzidos pelos
próprios funcionários da FEUC, como explica Paulo:
“A gente não pode esperar muito para repor os objetos danificados. Às vezes, precisamos de uma medida tal, e no mercado não encontramos essa medida, como no caso de
mesas, quadros, portas
e janelas. Compramos
os materiais necessários e fazemos as peças.
Quando, por exemplo,
um móvel como um
armário estraga, nós tiramos suas medidas e
o substituímos fazendo
um igual”, conta Paulo.
O serralheiro Francisco Dias de Almeida, de 53
anos, que há 17 trabalha na FEUC, procura sempre
atender à demanda de trabalho: “Quando nossos
superiores perguntam se somos capazes de fazer
um serviço, a gente nunca diz que não sabe fazer.
Nós damos um jeito”. garante o serralheiro.
O trabalho mais difícil que Francisco e seus colegas do setor fizeram foi a cobertura do corredor
entre o prédio das FIC e o CAEL. Tanto os estudantes como funcionários pediam que o espaço fosse
Serviços terceirizados
são evitados na FEUC,
e profissionais são
contratados para um
pronto atendimento
24
Foto: Gian Cornachini
Infraestrutura
O serralheiro Francisco, que há 17 anos
trabalha na FEUC, solda partes de cadeiras
escolares; ao mês, mais de 50 unidades desse
móvel são danificadas, a maioria por mau uso
coberto, para poderem se deslocar seguramente e
a qualquer hora a locais como o prédio da Educação Infantil, a quadra, a copiadora e a tesouraria.
Com cinco meses de trabalho, estudos e acompanhamento técnico, a cobertura do corredor ficou
pronta, e o resultado orgulha Francisco: “O trabalho foi desafiador. Primeiro por causa da altura, e
depois porque eu pensava que nunca faria um ‘troço’ desse. A gente montava as peças aqui na oficina
e soldava elas lá em cima. Agora, depois de pronto,
a gente olha e... poxa, eu mesmo fiz isso”, exclama
o serralheiro, sorridente.
Investir em profissionais próprios que atendam
às demandas da instituição torna os serviços de
manutenção mais ágeis, além de muito mais econômicos. Segundo Paulo, a diferença de preço entre
um serviço contratado e um serviço feito pela competente equipe do Departamento de Infraestrutura
chega a ser de 40%: “Isso tudo vai para uma planilha de custos que recai automaticamente sobre
as mensalidades das faculdades e colégios da FEUC.
Se a gente não tivesse os funcionários do Departamento de Infraestrutura, certamente o preço final
das mensalidades seria mais alto”, aponta Paulo.
Apesar dos custos reduzidos com a manutenção
na instituição, o responsável pelo setor pede que
os alunos tenham mais cuidado com o manuseio
dos móveis e objetos da FEUC, principalmente os
estudantes do CAEL, que são mais jovens: “O que
mais quebra nas cadeiras são os braços. É comum
o aluno sentar justamente nessa parte da cadeira.
Também há muito problema com as torneiras dos
banheiros. Elas são de apertar, mas tem gente que
dá soco nelas. Vamos utilizar corretamente o que
há em nosso espaço, pois são danos que vêm do
mau uso e que podem ser evitados”, frisa Paulo. ■
25
Zona Oeste
Uma vida dedicada
à música e ao teatro
Dineyar Valente Plaza manteve por quase meio século em
Campo Grande uma importante academia de formação artística
Por Tania Neves
O
nome Dineyar Valente Plaza
soa familiar para quem viveu o
circuito cultural da Zona Oeste
de meados dos anos 50 até 2004, quando esta musicista (hoje com 85 anos)
manteve em plena atividade sua Academia de Música Dineyar Valente Plaza – inicialmente no coração de Campo
Grande, encravada na esquina do Beco
Seridó com a Rua Augusto de Vasconcelos, depois transferida para a Rua
Manaí. Era uma época em que peças
de teatro, espetáculos musicais e eventos institucionais em escolas e espaços
públicos quase que invariavelmente
tinham a participação de algum profissional ou grupos de artistas oriundos
daquela academia.
“Tocávamos e nos apresentávamos
em tudo quanto é lugar. Teatros, auditórios, praças”, conta Dineyar, que
chegou a ter em sua escola 23 professores diferentes, cada um em sua área
de atuação. De instrumentos de sopro
a cordas e percussão; de canto coral
a impostação de voz; de dança de sa-
26
lão a balé clássico e teatro. O segredo
da vida longa da academia, segundo
ela, era ter a melhor propaganda do
mundo: “Nossos professores e alunos
sempre estavam à disposição para participar dos eventos culturais de Campo
Grande e dos bairros vizinhos, por isso
Foto: Gian Cornachini
Dineyar em sua casa, com os
morros de Campo Grande ao fundo
o trabalho da academia era muito conhecido e reconhecido pelo público.
Desse modo, os alunos nos chegavam
naturalmente, pois sabiam que ali se
estudava arte com dedicação”, avalia.
Das salas de aula da academia de
Dineyar saíram grandes talentos do
clássico e do popular, como a pianista
Maria Lúcia Barros, que atualmente leciona em Paris, e o cantor Weber Werneck, famoso no circuito de shows. As
turmas eram compostas não somente
por quem queria se tornar músico ou
ator, ou ainda se preparar para as escolas superiores de música, mas também
por pessoas que viam na atividade artística uma possibilidade de melhorar
o desempenho profissional em outras
áreas. Era o caso de professores de diversos cursos da FEUC, que volta e meia
faziam aulas de impostação de voz:
“Um diretor da faculdade os incentivava a treinar a voz lá na academia, pois
isso lhes ampliava o rendimento vocal
durante as aulas”, lembra Dineyar, que
cursou Pedagogia nas FIC com o objetivo de melhor coordenar as atividades
pedagógicas de sua escola.
Foto: Gian Cornachini
O POENTE E A AURORA
A musicista recorda que uma das
mais destacadas alunas de impostação
de voz de sua academia, Vilma Camarate – falecida em novembro passado,
aos 71 anos – tornou-se professora de
teatro na casa e consagrou-se como
um ícone da cultura na região, tendo
formado diversas gerações de atores e
atrizes, além de fundar o grupo MOA:
“Ela sempre trabalhou comigo, completamente envolvida com a cultura na
Zona Oeste. Fará muita falta”.
Se já não tem mais sua academia –
fechou-a porque os alunos foram escasseando: “Hoje ninguém tem muita
paciência para estudar, querem logo
tocar e fazer sucesso” – nem frequenta
muito os eventos artísticos da região,
Dineyar continua amando a arte. Lê
muito e adora escrever, sobretudo poesias. Em 2007 lançou o livro “Ousadia
no outono”, no qual se destaca o poema “O poente e a aurora”, feito ao se
deparar com a paisagem da janela do
apartamento para o qual se mudou em
2005: “Quando vi esse perfil das montanhas de Campo Grande no pôr do
sol, veio logo a inspiração”. ■
Sinto-me hoje,
no outono, quase inverno
de minha vida,
como se o sol de um verão intenso
e céu azul,
me fizessem viver dias
de quentes certezas,
e decisões verdadeiramente minhas,
só minhas,
cheias de juventude e força.
Sinto-me hoje,
no outono, quase inverno,
mulher abrindo portas e janelas.
Mulher com asas,
voando alto para os morros
que se descortinam
a frente de meus olhos
curiosos e desvanecidos.
Sinto-me hoje,
dentro de mim,
neste meu tempo,
outono quase inverno,
com a sensação de que, afinal,
posso ainda buscar e encontrar
a mim própria e meu caminho...
Incrível. De repente,
o poente faz-se aurora!
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MEMÓRIA
Professora, mãe, avó
Quem conheceu Florence de Oliveira Lima e Silva descreve uma mulhe
Por Tania Neves
“Se eu tivesse que nascer novamente, escolheria ser
professora”. A frase, dita muitas e muitas vezes por Florence de Oliveira Lima e Silva, foi a que o neto Gabriel
Paixão Teixeira, de 16 anos, puxou na memória quando
perguntei como ele definiria a avó, uma das fundadoras da FEUC e recentemente falecida, aos 76 anos. “Ela
passava para as pessoas o lado encantador de ser professora”, analisa o jovem estudante do 3º ano de Publicidade do CAEL. “E defendia que as pessoas deveriam
fazer aquilo que gostam, pois só assim seriam felizes
e fariam os outros felizes”, completa o filho mais novo
de Florence, Artur Miécimo da Silva, pai de Gabriel.
A paixão que os dois deixaram transbordar enquanto contavam histórias da mãe e da avó era nada menos
do que a reciprocidade do sentimento maior que parece sempre ter movido Florence: amor incondicional
pelos filhos, netos, alunos, amigos. Essa é a imagem
que ficou para quem conviveu com ela: “Quando a conheci, fiquei impressionadíssimo com sua beleza física
e sua voz pausada e sempre serena”, diz o presidente
da FEUC, professor Durval Neves da Silva. “O instinto
familiar muito grande, que a provia de asas bem amplas, sempre protegendo filhos, noras e netos, também
era sua marca registrada, fora o fato de ter sido uma
colega de trabalho exemplar”, comenta.
O diretor e a secretária das FIC, professor Hélio Rosa
de Araújo e professora Roseli Monteiro da Silva, conviveram com Florence durante o período em que ela
dirigiu a faculdade. Hélio, que chegou a ser seu aluno,
ressalta a postura altamente democrática: “Dava aos
interlocutores inteira liberdade de ação, tanto como
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professora regente de turma quanto como diretora.
E deixou também uma imagem de mãe muito ligada
aos dois filhos, que sempre colocava à frente de seus
próprios interesses”. Já Roseli pontua o bom humor e
a espirituosidade da colega, a quem costumava dar carona no fim do expediente. “Eram momentos divertidíssimos, porque ela era alegre, risonha, de bem com a
vida. Sempre tinha uma história engraçada, como a do
dia em que ganhou um saco de tamarindos e comeu
todos, compulsivamente. Daí chegou para mim e disFoto: Acervo da Família
Florence com os netos Mariana, Gabriel,
Artur, Ana Flávia e Ana Júlia – filhos de Artur
ó, amiga...
Foto: Acervo da Família
er ao mesmo tempo sensível e forte
se: ‘Eu não sabia que isso é laxante, me leva para casa
agora!’”, lembra.
A história de Florence com a FEUC começou ainda
antes do surgimento da instituição, com sua união ao
homem que viria a sonhar este sonho e reunir em torno de si as personalidades que dariam vida à pioneira
Sociedade Universitária Campograndense (SUC). Aluna do Instituto de Educação, na Tijuca, a jovem conheceu o então vereador do Distrito Federal Miécimo da
Silva quando foi com um grupo de colegas à Câmara
com a tarefa escolar de entrevistar um político. Lá chegando, descobriram que o vereador que as atenderia
faltara. Inteirado do problema,
Miécimo ofereceu-se para recebê-las. E não resistiu aos encantos
da normalista: “Dali saiu paquera,
namoro, noivado e casamento”,
conta o filho Artur, revelando que
Florence também se apaixonou e
rompeu o noivado com um cadete para mudar radicalmente seu
destino. “E assim estou eu aqui,
meu irmão, a FEUC e mais uma
porção de coisas que eles fizeram juntos”.
Florence e Miécimo se casaram em 1959 e tiveram
dois filhos: Miécimo da Silva Filho, hoje com 52 anos,
professor de história; e Artur Silva, de 48, professor de
matemática, que adotou o nome político de Artur Miécimo da Silva. Cada um deu 5 netos a Florence. Sempre
ao lado do marido, apoiando os projetos ousados que
ele tinha para a então Zona Rural, a professora participou da fundação da FEUC e da Escola Normal Sarah
Kubitschek. Foi uma das primeiras alunas (de Pedago-
Em 1962, ao lado do marido (com Miécimo
Filho no colo) e o deputado Chagas Freitas
gia) da Faculdade de Filosofia de Campo Grande (hoje
FIC), onde depois lecionou e esteve na direção por
mais de uma década. Atuou como professora também
no Sarah e no Município do Rio.
No baú de recordações de Artur – formado por
centenas de histórias narradas pela própria mãe, que
adorava reunir a família para contar casos – ele puxa
um exemplo da força que ela tirava sabe-se lá de onde
quando precisava defender os
seus: “Na ditadura, meu pai foi
cassado e ficou preso no Regimento Floriano. Ela foi visitá-lo
levando meu irmão pequeno
pela mão e eu, ainda de colo. Não
queriam deixá-la entrar, pois alegavam que poderia estar escondendo algo nas nossas roupas. Ela
então despiu a mim e ao meu irmão e enfrentou os militares: ‘Se
é para meus filhos verem o pai, eu tiro a roupa deles’.
E entramos”, conta.
Outras vezes, o que se destacava era seu modo descomplicado e bem humorado de levar a vida, como
relata Gabriel: “Tentei pegá-la no 1º de abril e disse
que havia engravidado a namorada. Em vez de bronca, veio um sonoro ‘melhor isso do que ser estéril, a
gente assume a criança e vai ficar tudo bem’. Até convencê-la de que era brincadeira, ela foi me dando a
maior força”, lembra Gabriel. ■
Defendia que as
pessoas deveriam
fazer aquilo que
gostam, pois só
assim seriam felizes
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Artigo
Carlos Vinícius N. Barbosa
Técnico em Eletrônica, Professor e Supervisor Técnico do CAEL
Orgulho de ser técnico
e de formar novos técnicos
Em décadas passadas, mas precisamente nos
anos 90, a economia brasileira não apresentava
números tão satisfatórios como nos dias atuais.
Naquela época - 1992 - eu iniciava minha formação
profissional na área de eletrônica, na Escola Técnica Estadual Visconde de Mauá. Era então a única alternativa que tinha para mudar de vida, pois
naquele tempo restava aos estudantes das famílias
de baixa renda a Escola Técnica. Os empregos que
remuneravam um pouco melhor estavam nas indústrias, mas os postos de trabalho eram escassos
e de alta competitividade. Realidade esta que vem
sendo modificada ao longo dos anos, por meio de
políticas econômicas que recuperam o poder de
compra do salário mínimo e aquecem a indústria
de bens e serviços no Estado do Rio de Janeiro.
Em 1994 me formei técnico em Eletrônica. Motivado pela possibilidade de emprego - já que este
era o discurso de meus professores da Escola Técnica - candidatei-me a inúmeras vagas de estágio.
O que foi frustrante, pois o perfil das tais vagas
nunca era o meu. Insisti muito, até que, seis meses depois de formado, fui convidado para estagiar em uma empresa de manutenção de equipamentos de microinformática, ramo então em alta
devido à abertura das importações. Foi meu primeiro contato com o mercado de trabalho - um
mundo completamente diferente, desafiador, e
no qual eu, agora profissional, tinha que tomar
decisões e opinar tecnicamente sobre os equipa-
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mentos e as rotinas da empresa.
Foi difícil, mas consegui superar com êxito. Em
quatro meses de trabalho, o estágio se tornou emprego. Meu primeiro emprego, meu primeiro salário...
Com a empolgação da idade e do momento mágico que estava vivendo, retornei à Escola Técnica
para agradecer meus professores pela formação
que me deram, pois foi com ela que conquistei trabalho. Para minha surpresa, um dos coordenadores me convidou a dar palestra aos alunos e mostrar-lhes como a formação técnica que recebiam
poderia resultar em uma trajetória profissional
bem interessante. Aceitei o desafio, e gostei tanto
daquele contato, de trocar experiências e passar
adiante o que aprendi, que acabei abandonando os
estudos de engenharia e ingressei na faculdade de
formação de professores para a área de Eletrônica.
Há 17 anos vivo esta realidade de ensinar e transformar vidas. Por meio do trabalho em sala de aula
- em especial no curso de Eletrônica do CAEL, no
qual lecionei por mais de uma década - pude observar o sucesso de nossos alunos, que hoje estão
espalhados por este imenso Brasil, atuando em
empresas públicas e privadas. Cabe ressaltar que
o país vive hoje um momento bastante promissor
para todas as carreiras técnicas. Basta ver o destaque que o Governo Federal tem dado à formação
profissional, em diversos programas de incentivo à
qualificação e requalificação profissional.
E você, está esperando o quê?
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