ESTÉTICA DA RECEPÇÃO E SOCIOLOGIA DA LEITURA – UMA
OBRA, VÁRIOS OLHARES.
Simone Gonzales SAGRILO
ISBN: 978-85-99680-05-6
REFERÊNCIA:
SAGRILO, Simone Gonzales. Estética da recepção e
sociologia da leitura – uma obra, vários olhares. In:
CELLI
–
COLÓQUIO
DE
ESTUDOS
LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007,
Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 1004-1013.
1. INTRODUÇÃO
A respeito da Literatura, sob seus vários aspectos, muitos estudos já foram
realizados e muitas linhas publicadas. Estudos sobre teorias literárias e análise de textos
já renderam críticas, dissertações, teses, enfim, seria difícil até mesmo de enumerar
todas as possibilidades de abordagem que essa vertente oferece.
O objetivo do presente artigo é mostrar, de forma sistematizada, os resultados de
um estudo realizado – a recepção da obra Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo
por leitores da Bíblia – para o qual serviram de base teórica a Sociologia da Leitura e a
Estética da Recepção, ilustrar como a faixa etária, sexo, grau de escolaridade e, em
especial, a religião são fatores que podem apontar para uma determinada recepção de
um texto literário.
2. ESTUDOS LITERÁRIOS.
Quando o foco é a Literatura e a formação do leitor, duas teorias apresentam
afinidades, a Sociologia da Leitura e Estética da Recepção.
A Sociologia da leitura investiga os possíveis fatores que conduzem o leitor a ler
determinada obra, tais como, o nível socioeconômico, a família, a escola, os amigos, a
presença/ausência de uma fonte de pesquisas, a igreja, entre outros. Os estudos baseados
nessa teoria consideram a presença dos mediadores no processo da leitura como fator
fundamental. Segundo a Sociologia da Leitura, muitas são as formas pelas quais um
texto pode chegar até às mãos de uma comunidade ou de um leitor,
Um bom leitor é alguém que evita um certo número de livros, um bom
bibliotecário é um jardineiro que poda sua biblioteca, um bom
1004
arquivista seleciona aquilo que se deve refugar ao invés de armazenar.
Eis aí temas inéditos de nossa época. (CHARTIER, 2001, p. 127).
Roger Chartier aponta como tema inédito o estudo sobre os mediadores. A
história literária já contemplou o autor e a obra como centros do processo da leitura, o
leitor e os mediadores são os temas da atualidade. No entanto, vale ressaltar que um
elemento desse conjunto não existe sem o outro, a leitura é um organismo que funciona
inter-relacionado e que necessita dos quatro elementos para que seja efetuado o
processo da recepção.
A recepção de um texto literário depende de vários fatores que colaboram para
esse fim. O leitor, na Estética da Recepção, é considerado a partir de sua existência
histórica. Durante a leitura, ele “concretiza” a obra literária, atribui-lhe significados que
partem da experiência individual e das influências cultural, social e histórica do
momento em que é recebida. Por essa razão, uma mesma obra não pode estabelecer o
mesmo diálogo com o leitor do contexto de sua publicação e um leitor atual. Nos
pressupostos teóricos de Jauss, o principal elemento é o leitor, sobrepondo-se ao autor e
à produção, que já tiveram seu auge em teorias literárias anteriores. Ao considerar o
leitor, o teórico baseia-se em duas categorias, o “horizonte de expectativas e a
emancipação”. O primeiro refere-se a toda experiência social adquirida pelo leitor
dentro de um determinado código vigente. A emancipação é a “finalidade e efeito
alcançado pela arte, que libera seu destinatário das percepções usuais e confere-lhe nova
visão da realidade” (ZILBERMAN, 1989, p. 50). O leitor, na concepção de Jauss, é
elemento atuante no texto de acordo com sua existência histórica.
Diante dos pressupostos teóricos discutidos, percebe-se que ambas as teorias
focalizam a figura do leitor como centro dos estudos. A sociologia da leitura investiga
os fatores que levam o leitor a determinada leitura e a Estética da Recepção analisa
como esses fatores influenciaram na recepção. Nesse ponto, as teorias colaboram para o
entendimento de um aspecto do processo da leitura, as respostas que o leitor produz
diante de um novo texto.
3. OS TEXTOS E OS LEITORES
A leitura de um texto literário pode gerar diferentes tipos de reação. Há leitores
que respondem positivamente diante de um texto, identificam-se com personagens,
situações; outros reagem de forma negativa e a resposta mais freqüente nessas situações
é: “não gostei”. Isso pode ser explicado por um princípio, o de que o “horizonte de
expectativas” varia de leitor para leitor. Uns têm mais experiências literárias que outros
e esse fator distingüe os leitores entre si pela maturidade.
É pertinente, ainda, acrescentar que, para Jauss, não é possível que haja prazer
sem conhecimento. Ou seja, sem vivenciar esteticamente o objeto literário não se pode
apreender o significado de uma criação artística. Dessa forma, a fruição precisa ser
antecedida por um componente intelectual.
O leitor pode encontrar “entradas” no texto, cujos horizontes apresentam
normas, idéias e valores que confrontam com o horizonte de expectativa do leitor, no
ato da leitura. Nesse confronto, acontece a recepção do texto literário. O horizonte está
constituído por convenções de diferentes espécies que dependerá da posição que o leitor
ocupa dentro da sociedade em que vive, de seu ciclo de educação formal, dos valores
circundantes no meio onde se encontra, do padrão lingüístico que usa para se expressar
1005
e de suas experiências literárias, provenientes das várias leituras que tenha realizado
(ZILBERMAN, 1982).
As leituras realizadas por um leitor compõem seu mundo de referências para
essa prática, leitores da Bíblia possivelmente apresentam uma experiência de recepção
distinta em relação aos outros. Baseado nossa premissa, um estudo de recepção foi
realizado com base na Sociologia da Leitura e na Estética da Recepção – a recepção da
obra Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo por leitores da Bíblia.
Os registros foram obtidos por meio de questionários de naturezas diferentes.
Um tinha por objetivo investigar as condições socioeconômicas dos leitores; outro as
impressões de leitura diante da obra referida. Os leitores que compuseram o corpus do
estudo pertenciam a três denominações religiosas diferentes, em seguida denominadas
de comunidades A, B, C, todas cristãs, de municípios pequenos do Noroeste do Paraná.
4. PERFIL DAS COMUNIDADES
De acordo com os questionários respondidos, as comunidades apresentaram as
seguintes características.
4.a. COMUNIDADE A
Os participantes da pesquisa estão classificados numa faixa etária entre os 18 e
64 anos. Cinco são naturais do Paraná, dois nasceram em Dr. Camargo, um em
Maringá, um em Rolândia e um em Pinhalão. Três são de São Paulo, um de Presidente
Bernardes, um de Piquerabi e um de Yerê. E um outro do Rio de Janeiro.1 Quanto à
escolaridade, este grupo é composto por pessoas que apresentam um nível de instrução
que varia desde o primeiro ano do Ensino Fundamental até pós-graduação em
Orientação Educacional. Com respeito aos pais, há desconhecimento quanto ao nível de
escolaridade da maioria deles pelos registros obtidos; nenhum excede ao nível
fundamental. Profissionalmente, estão agrupados em três lavradores, dois agricultores e
um vigilante, três não mencionaram a profissão do pai. Com relação às mães, as
informações são mais completas: cinco realizam serviços domésticos (quatro em sua
própria casa e uma empregada doméstica), duas costureiras, uma professora (não
especificou o nível) e uma mencionou estar aposentada, mas não especificou a
profissão.
4.b. COMUNIDADE B
Os registros obtidos pela análise dos questionários respondidos pela comunidade
B oferecem as seguintes informações. Os respondentes apresentam-se numa faixa etária
entre 24 e 63 anos, até o momento em que foram recolhidos os registros; cinco são
mulheres e três são homens. São provenientes de três estados do Brasil: seis do Paraná
(entre eles, quatro nascidos em Ivatuba), um de São Sebastião da Amoreira e um de
Castro; um de Minas Gerais, da cidade de Campos Gerais, e um de Santa Catarina, da
cidade de Peroba. Quanto ao nível de escolaridade, dois possuem curso superior: Letras
e Pedagogia; três concluíram o ensino médio; um estudou até o primeiro ano do ensino
médio; um cursou até o segundo ano do mesmo nível, e um alega ter curso superior,
mas não o especificou.
1
Os nomes das localidades fornecidos pelos cooperadores da pesquisa são estes, não foi consultada
nenhuma referência.
1006
As famílias de origem dos entrevistados eram compostas, em sua maioria, de
lavradores e donas de casa: quatro casais; um casal composto de um lavrador e uma
professora; um carroceiro, um pedreiro e um dono de engenho, todos casados com
donas de casa. Entre todas as mulheres que compõem ou compuseram esses casais
(algumas já são falecidas) somente uma desempenhou alguma atividade além das
dependências domésticas. A formação escolar dos pais desses entrevistados varia do
analfabetismo ao ensino fundamental, com exceção da mãe professora que cursou o
ensino médio. Podemos presumir, portanto, que os entrevistados não foram submetidos
a nenhuma forma de mediação para a realização de leituras, por parte de seus pais, com
exceção, provavelmente, do entrevistado cuja mãe era professora.
4.c. COMUNIDADE C
Essa comunidade religiosa, devido a alguns problemas, somente pode colaborar
com três participantes. Todos, até o momento da pesquisa, eram estudantes de curso
superior. Um cursava Administração, outro, Comunicação e, o terceiro, Medicina.
Os entrevistados provêm de dois estados brasileiros. São Paulo, da cidade de São
Paulo e Paraná, um da cidade de Curitiba, outro da cidade de Guaraqueçaba. Somente
um casal, entre os pais dos componentes desse grupo, possui curso superior:
Administrador e Secretária Executiva.
Após essa caracterização geral das comunidades, os participantes foram
agrupados de acordo com os aspectos propostos para análise, a faixa etária, o grau de
escolaridade, sexo e a religião, obtiveram-se, como resultado, os seguintes números.
Num total de vinte participantes, um tem um curso de pós-graduação, oito possuem o
ensino superior completo, seis, o ensino médio e cinco terminaram o ensino
fundamental.
Quanto à idade dos indivíduos pesquisados, inicialmente, foram divididos em
três grupos que compreendem um intervalo de tempo de aproximadamente vinte anos.
Dentre as vinte pessoas, oito encontrava-se entre a faixa dos dezoito aos vinte sete anos;
cinco, entre os trinta e dois a quarenta e seis anos; e, sete, entre os cinqüenta e três a
sessenta e quatro anos. Ainda, nesse grupo, onze são mulheres e nove são homens.
Embora a pesquisa contasse com vinte participantes no início, após a indicação
da leitura de Olhai os lírios do campo, somente restaram nove, três de cada
comunidade. Dessa forma, a partir desse ponto, o estudo relacionar-se-á somente a esses
nove participantes. A leitura da obra tornou-se um empecilho para o andamento da
pesquisa.
Como todos são leitores regulares da Bíblia, os participantes não foram
agrupados segundo o aspecto da religiosidade, a não ser a própria comunidade a que
pertencem.
5. A FAIXA ETÁRIA
Há estudos, dentro da sociologia da Leitura, que comprovam que a faixa etária é
um dos fatores que colaboram para determinada forma de ler uma obra.
Segundo Charles Sarland (2003), tratando-se de jovens, a escolha das leituras
está diretamente ligada ao fato de estarem num processo contínuo de negociação do
poder e da autonomia. No seu desejo de predizer e controlar o futuro, adotam um papel
ativo, tanto dentro da escola como fora dela. Politicamente, dentro da família, dentro da
escola e dentro do grupo de companheiros, devem manobrar para obter o poder e lutar
1007
pela autonomia. Segundo esse autor ainda, o fato de o leitor não participar da seleção do
título da leitura, pode tornar-se um ponto que contribui para a não aceitação da leitura.
Fator que talvez justifique a diminuição no número de participantes da pesquisa.
A nova configuração do grupo resultou numa nova divisão dos leitores, um
grupo dos dezoito aos vinte e oito anos e outro dos trinta e nove aos sessenta e quatro
anos.
Segundo esse critério, pode-se comprovar que, em sua maioria, os leitores mais
jovens identificaram-se mais com a obra. Principalmente os mais novos (18, 21, 21, 22)
encontraram, no texto literário, personagens e situações nas quais, de alguma forma, se
aproximam deles.
Um leitor identificou a situação vivida pelo personagem Eugenio com um fato
de sua vida: Sim, troquei alguém de que gostava por outra pessoa (SAGRILO, 2005,
p.147)2. Outro considera que a história vivida pelos personagens pode ajudá-lo a
compreender situações e acontecimentos de sua vida: Simula situações e reagimos
pensando como nos postaríamos se estivéssemos nela (p.185). Ainda, uma leitora desse
grupo mais jovem afirmou: Acredito que todos nós, em um momento da vida, passa pelo
complexo de inferioridade, (...) Na minha adolescência eu passei (p. 191).
De acordo com a Estética da Recepção,
A obra de arte de arte pode também transmitir um conhecimento que
não se encaixa no esquema platônico; ela o faz quando antecipa
caminhos da experiência futura; imagina modelos de pensamento e
comportamento ainda não experimentados ou contém uma resposta a
novas perguntas (JAUSS, 1994, p. 39).
O depoimento do segundo leitor transparece, com clareza, as palavras do teórico citado,
quando diz que a história lida simula situações, e que ele, o leitor, reage e pensa como
se estivesse realmente diante dela. Percebe-se que houve uma identificação entre o
mundo narrado e o mundo real, o primeiro despertou, no leitor, uma alternativa de
reação diante de um possível acontecimento da vida real. É o que Jauss chama de
antecipação de experiências.
O fato de a última leitora citada identificar-se com a obra ligada a fatos de sua
adolescência reforça o que Sarland mencionou a respeito de o jovem lutar pela sua
autonomia, pois a aceitação social e autoconfiança são fatores fundamentais para esse
processo. Ainda de acordo com AGUIAR & BORDINI, 1993, a fase dos quatorze aos
dezessete anos corresponde ao amadurecimento do leitor, fase em que descobre seu
mundo interior e o mundo de valores que o cerca, compreende a hierarquização de
conceitos e a organização de seu universo. Dessa forma, “Aventuras de conteúdo
intelectual, viagens, romances históricos e biográficas, histórias de amor, literatura
engajada e temas relacionados com os interesses vocacionais vão ajudá-lo a orientar-se
e estruturar-se como adulto” (p.20).
Os leitores mais maduros desse grupo mais jovem (24, 28) não manifestaram a
mesma aproximação com a obra como os mais jovens. Declararam não se identificar
com os personagens e situações narrados na história. No entanto, isso aconteceu com
relação a outras pessoas, o leitor de vinte e oito anos identificou características comuns
2
Todas as falas de leitores são retiradas da mesma fonte, dessa forma, doravante, apenas será citado a
página da referência.
1008
entre o personagem Olívia e o namorado de sua sobrinha, pelo otimismo que ambos
apresentam diante de situações difíceis.
O outro grupo da categoria faixa etária, os mais velhos (39, 55, 64), se
aproximaram mais dos leitores mais jovens que dos mais maduros, quanto à
identificação com personagens e situações, e, ainda, de acordo com os registros,
apresentaram mais pontos de identificação com a obra que os mais jovens. Essa
categoria de leitores posicionou-se de forma bastante emotiva diante da obra, a leitora
de trinta e nove anos declarou: Quando o Eugenio era criança, foi para escola, sua
calça descosturou, ele foi motivo de sarro. Quando eu era criança, as crianças me
chamavam de taturana, eu não gostava, aquilo me deixava irritada (p. 155).
Segundo Jauss (1994), essa identificação se dá porque a obra literária, além de
antecipar experiências, como no caso dos leitores mais jovens, também faz com que o
leitor rememore fatos já ocorridos em sua vida. Esses fatos da vida real que emergem a
partir da leitura da literatura, proporcionam a reorganização do mundo do leitor.
A leitora de sessenta e quatro anos encontrou, no personagem Alzira (mãe do
protagonista) características de sua identidade, quanto aos cuidados dispensados a seus
filhos.
De acordo com o critério faixa etária, quanto ao grau de identificação com a
obra, tem-se a seguinte graduação:
1º Leitores mais velhos → 2º Leitores mais novos → 3º Leitores mais maduros do
grupo dos mais novos.
Essa aproximação maior ou menor em relação à obra depende do horizonte de
expectativas, do momento no qual se encontra o leitor, segundo Jauss,
A relação entre literatura e leitor pode atualizar-se tanto na esfera
sensorial, como pressão para percepção estética, quanto também na
esfera ética, como desafio à reflexão moral. A nova ora literária é
recebida e julgada tanto em seu contraste com o pano de fundo
oferecido por outras formas artísticas, quanto contra o pano de fundo
da experiência cotidiana de vida (1994, p.53).
Os leitores mais velhos e os mais novos, no momento da recepção da obra,
encontraram maior identificação que os outros. Algo, na obra, remeteu-lhes às suas
vidas e ajudou-os na reorganização de seu mundo interior.
6. SEXO
Após a reorganização do grupo de leitores, como já mencionado, permaneceu
apenas nove; desse grupo, seis são do sexo feminino e, três, masculino.
O grupo de leitoras apresentou uma maior aproximação da obra quanto à
identificação com personagens e situações em relação ao grupo de leitores. Com
exceção de uma, todas as outras demonstraram ter identificado personagens consigo,
com pessoas de sua convivência. Da mesma forma, muitas situações apresentadas pela
obra levaram-nas a reconhecerem-se, nela, de alguma forma, já tive uma vida de
pobreza quase igual (p.163). A mesma leitora, quando questionada se já havia vivido
situações parecidas com as da história, respondeu: já e como vivi. A minha vida lá na
vida deles de criança morava no sítio e também era muito pobre (p.162). A expressão:
a minha vida lá na vida deles aponta para o nível de aproximação que houve entre
pessoa/leitor e personagem.
1009
Apenas uma das leitoras relatou não ter se identificado com a obra em nenhum
dos aspectos questionados. Opinou favoravelmente: O desenvolvimento da história é
muito completo e fascinante. Mostra as faces do ser humano (p.138). No entanto, não se
identificou com nenhuma das faces apresentadas, segundo ela.
O grupo dos leitores declarou-se menos identificado com a obra que o das
leitoras, em sua maioria. No entanto, um leitor, apesar de dizer que a obra não se
relacionava em nada consigo, declarou ter feito, em sua vida, uma troca de namoradas,
como o personagem Eugenio. Ou seja, o leitor não identificou-se com nenhum dos
personagens, diretamente, mas com uma situação vivida por um deles, embora tenha
afirmado que a história vivida pelos personagens não pudesse ajudá-lo a compreender
situações e acontecimentos de sua própria vida.
Umberto Eco (2002) expõe sobre os acordos que devem ser feitos entre leitor e
autor durante a leitura da literatura: “O leitor tem de saber que o que está sendo narrado
é uma história imaginária, mas nem por isso deve pensar que o escritor está contando
mentiras” (p.81). A certeza de que o mundo da ficção acontece na esfera do imaginário,
muitas vezes, pode levar o leitor (como nos dois últimos casos mencionados) a crer que
os acontecimentos narrados estão distantes de sua vida real. No entanto, como visto, a
literatura suscita, mesmo sem a percepção do próprio leitor, fatos de sua vida e ajuda-o
a refletir sobre eles, vivendo-os novamente.
Um dos leitores mencionou alguns acontecimentos que o deixou muito próximo
da história narrada: Não, não na mesma intensidade que Eugenio, mas já me senti
inferior, ‘burro’, impróprio, inoportuno em relação a outras pessoas (p.184). Esse
leitor, além de aceitar o contrato de leitura, segundo Eco, ainda não se constrangeu em
revelar-se na recepção da obra. Segundo Jauss, “(...) a recepção representa um
envolvimento intelectual, sensorial e emotivo com uma obra, o leitor tende a se
identificar com essas normas, transformadas assim, em modelos de ação” (1989, p. 50).
O envolvimento maior do leitor, nesse caso, foi emotivo. Os temas tratados na narrativa
fizeram com que ele refletisse sobre sua situação e também fatos da atualidade: A
discriminação racial é atual, o aborto é algo da prática relativamente comum (...) (p.
186). Durante o processo da leitura, houve, por parte do leitor, uma identificação com as
normas, fator que facilitou o entendimento da história narrada e propiciou a reflexão.
Nos dois grupos, tanto no feminino, como no masculino, houve leitores que se
aproximaram ou não da obra e, muitos podem ser os fatores.
Arnold Hauser, no quarto capítulo de sua obra Sociologia del arte (HAUSER,
1977, P.549-599) trata das relações entre o público, o autor e os mediadores do processo
literário. A arte, como meio de comunicação, conta com a ação recíproca do criador e
do leitor que, como tal, não desempenha uma ação meramente receptiva. Da mesma
forma que o autor que, no momento da produção, evoca suas vivências e seus
conhecimentos sobre a arte para produzi-la, o leitor, ao recebê-la, completa seu
significado seguindo os mesmos passos. Como comunicação, a obra pressupõe um
expectador efetivo ou hipotético que interage com o criador. Ao escrever, o autor está
exposto às influências do leitor, mas, é o leitor, no contato com o produto, que sai
modificado. O ato da produção e da recepção literária é um diálogo.
7. ESCOLARIDADE
No segundo momento da pesquisa, permaneceram dois leitores instruídos até o
ensino médio, seis até o ensino superior e, um até a pós-graduação. A leitura do livro foi
1010
o momento mais difícil do trabalho em virtude da disponibilidade dos entrevistados para
a leitura. Essa etapa, que compreendeu a leitura e o preenchimento do segundo
questionário, foi o que mais demorou a ser realizada, e com já explicado, de vinte
pessoas, restaram apenas nove.
Fator importante para reflexão é ter somente permanecido os indivíduos de
maior grau de instrução. A partir do ensino médio, os leitores passam a ter contato com
narrativas maiores, o que fez com que, provavelmente, os leitores dessa pesquisa não se
intimidassem diante de Olhai os lírios do campo. Os textos longos e a dificuldade com
o código podem levar o indivíduo a intimidar-se diante do ato da leitura. Vincent Jouve
2002 alega que “Pelos temas que aborda e pela linguagem que usa, cada texto desenha
no vazio um leitor específico” (p.36). A linguagem, justamente, pode tornar-se um
empecilho à realização da leitura. Quando o leitor real não se identifica com o tipo de
leitor desenhado no vazio do texto, pode acontecer que a leitura seja abandonada e que
não haja interação entre leitor e texto.
Nos pressupostos da Estética da Recepção, o leitor histórico suscita, no ato da
leitura, todas as suas vivências literárias, estéticas e pessoais. Provavelmente, a extensão
da obra, bem como sua linguagem são critérios que não faziam parte das vivências
literárias ou pessoais dos indivíduos que desistiram da leitura.
De forma geral, o texto literário foi recepcionado levando em consideração mais
os aspectos pessoais. Os leitores trouxeram a história além dos limites da narrativa, para
sua própria vida e para a realidade atual. Para esses leitores, a linguagem não apresentou
obstáculo, dessa forma, não acrescentou novidades ao seu horizonte com relação a esse
aspecto, mas também não conseguiram ultrapassar o nível da fábula. Como argumenta
Jauss (1994), a narrativa fez com que fossem retomados fatos passados da vida dos
leitores e suscitou uma reflexão sobre eles, como também puderam ser acrescentadas
experiências futuras, de acordo com as vivências e experiências que o texto
proporciona.
8. RELIGIÃO
No aspecto religiosidade cada comunidade apresentou características próprias.
Na comunidade A, o título Olhai os lírios do campo remeteu os leitores
diretamente à narrativa bíblica, mais especificamente, ao sermão da montanha. Os três
leitores não encontraram nenhuma identificação entre os personagens da obra lida e os
da Bíblia. Em nenhuma das três respostas, também, os leitores apontaram situações
vividas pelos personagens que revelassem algum conhecimento, por parte deles, da
narrativa bíblica. Segundo o leitor mais jovem: alguns personagens parecem não se
interessar por religião (p. 150), os outros dois limitaram-se a mencionar o personagem
Olívia.
O leitor mais jovem foi um pouco mais específico em suas respostas, porém, nos
registros fornecidos por essa comunidade, não é possível encontrar marcas da realização
de uma leitura mais profunda da narrativa, provavelmente pela dificuldade de
compreensão. Esses leitores tiveram uma visão da obra como parte da realidade,
considerando sua experiência vital como peso maior no processo da significação.
Presume-se que esses leitores tivessem poucos parâmetros para comparação. Dessa
forma, tendem a somente compreender a narrativa e a compor seu significado como
parte de suas vivências e experiências, aspecto mais marcado no leitor de dezoito anos.
1011
Para Hauser (1977), a essência de uma obra está em sua compreensão, que
depende tanto da sensibilidade artística do leitor quanto do seu conhecimento, e também
oscila de acordo com a individualidade desse leitor. Sem outras leituras, o leitor não
adquire sensibilidade artística e conhecimento sobre o assunto. Passa a contar, portanto,
somente com a sua individualidade que se manifesta por meio de suas vivências e
experiências. Acrescente-se o fato de que, segundo o autor, se forem obras distantes no
tempo, o conhecimento histórico é indispensável.
Na comunidade B, o título da obra, bem como a leitura de Olhai os lírios do
campo, de acordo com esses leitores, remeteram-nas diretamente à leitura das escrituras
bíblicas, mais especificamente, ao sermão da montanha. Somente o personagem Olívia
foi apontado como conhecedor da Bíblia, pela mensagem de suas cartas e pelo fato de
mencionar esse livro, em sua estante.
Uma dos leitores apontou a mãe do personagem Eugênio como parecida com um
personagem bíblico, mas não apontou qual, nem fez algum comentário. Os outros dois
não estabeleceram essa relação.
Na comunidade C, os leitores apontaram alguns personagens parecidos com os
da Bíblia. Olívia foi aproximada de Jesus, de acordo com a leitora mais jovem, (...) por
sua maneira de ensinar os outros e ajudar (p. 180). A outra leitora mencionou Jonas e
Zaqueu da Bíblia, mas não apontou com qual, ou quais personagens, de Olhai os lírios
do campo, eles se pareciam. O leitor, embora encontrasse semelhanças entre a obra e o
texto bíblico, não estabeleceu nenhuma aproximação entre seus personagens, mas não
descartou a hipótese: Não me ocorreu nenhum paralelo, apesar de crer ser muito
provável traçar algum (p. 187).
Em face da análise dos registros fornecidos por essa comunidade, percebeu-se
uma forte presença da leitura religiosa, na recepção da literatura. O texto literário,
embora levasse os leitores a uma reflexão, teve seu eixo temático direcionado para
exemplos e conselhos para a vida. Os leitores jovens realizaram uma leitura pragmática
da obra aliando os preceitos religiosos a possíveis conselhos para sua vida prática.
Conseguiram identificar o caráter de antecipação que a literatura possui, mas os temas
possíveis de reflexão, que a obra apresenta, ficaram restritos, para esses leitores, aos
relacionados à religiosidade. Os parâmetros que esses leitores usaram, para comparação
com a obra literária, são as leituras religiosas que realizaram, o que justifica o
direcionamento dado à compreensão da obra.
De forma geral, embora a leitura das comunidades apresentassem marcas de
religiosidade, o que a caracterizou foi a entrega ao jogo proposto pela narrativa e a
relação deste com sua própria vida. Mostraram intensidade emocional na recepção da
obra e prazer em dialogar sobre ela no questionário. Apenas a comunidade C, revelou
um caráter diplomático no contato com a literatura. Diferentemente das outras
comunidades, a leitura da obra revelou claramente a marca da religiosidade na
compreensão de Olhai os lírios do campo. Para esses leitores jovens, interessam as
lições sobre conflitos humanos internos e em sociedade, que, segundo eles, a obra
apresenta.
9. CONCLUSÃO
Diante dos aspectos abordados nesse estudo, conclui-se que, em todas as
comunidades, houve uma interação significativa entre leitor e texto, no que se refere aos
personagens e situações vividas na narrativa. Os leitores identificaram-se e
1012
identificaram outras pessoas com personagens, como também houve a mesma
assimilação com as situações vividas pelos personagens no texto, ao aproximarem-se
mais do perfil de um leitor ingênuo que de um mais experiente.
Segundo HAUSER 1977, um leitor ingênuo tem uma visão da obra, muitas
vezes não está apto a compará-la com outra e, geralmente, a vê como parte da realidade,
considerando sua experiência vital como peso maior no processo da significação. Já um
leitor mais experiente reconhece-a como ficção que é, ilusão consciente, e sua fruição
está ligada ao valor estético da obra.
10. REFERÊNCIAS
AGUIAR, Vera Teixeira. BORDINI, Maria da Glória. Literatura: a formação do leitor:
alternativas metodológicas. 2ª ed. Porto Alegre: Clube do Editores, 1993.
CHARTIER, Roger (org.). Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
HAUSER, A. A sociología del publico. In: Sociología del arte. Barcelona: Editora Labor, p549599, 1977.
JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo:
Ática, 1994,
PETIT, Mechéle. Nuevos acercamientos a los jóvenes y la lectura. Tradução para o espanhol:
Rafael Sergovia e Diana Luz Sánchez. México: México: Fondo de Cultura Económica, 1999.
PETIT, Mechéle. Lecturas: del espacio íntimo al espacio público. Tradução para o Espanhol:
Diana Luz Sánchez México: Fondo de Cultura Económica, 2001.
SAGRILO, Simone. A recepção de Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo por leitores da
Bíblia. Maringá, PR: [s.n.], 2005. v. 2 Anexos.
SARLAND, Charles. Young People Reading: Culture and Response. Publicado pela Open
University Press, Buckinghan, 1991.O exemplar lido: La lectura en los jóvenes: cultura y
respuesta. Tradução para o espanhol: Diana Luz Sánchez. México: Fondo de Cultura
Económica, 2003.
ZILBERMAN, Regina (Org.) A produção cultural para a criança. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1982.
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 1989.
1013
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